Coluna do Padre Élcio: Preparação para dar contas a Deus.

Evangelho do 8º Domingo depois de Pentecostes. S. Lucas XVI, 1-9.

Por Padre Élcio Murucci, 15 de julho de 2018 – FratresInUnum.com

Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

A Santa Igreja neste domingo coloca para nossa meditação a parábola do “Mau Administrador”. O HOMEM RICO é figura de Deus, senhor de todas as riquezas que possuem os anjos no céu, e os homens na terra. O ADMINISTRADOR é todo homem que está neste mundo. Se aqui na terra o homem é considerado proprietário diante dos outros homens (por isso Deus proíbe o roubo), não o é diante de Deus, mas apenas um administrador, um simples ecônomo. Tudo o que possuímos, na ordem da natureza e da graça, de fato, não nos pertence, pois tudo nos foi confiado por Deus, a quem um dia havemos de prestar contas. À hora da nossa morte, encontraremos um livro onde se acha notado, com rigorosa precisão, todos os nossos créditos e todos os nossos débitos. Como o ecônomo infiel, seremos também acusados, diante de Deus, pelo demônio e por nossos próprios pecados. Nosso saldo será positivo ou negativo?!

blog-slide250Caríssimos, a vida inteira nos é concedida para regular as nossas contas, e podemos fazê-lo pelo exame de consciência e pela confissão sacramental. A cada instante posso ser chamado à presença de meu Juiz; acho-me em estado de responder às acusações que poderá fazer-me?

“PRESTA CONTA DE TUA ADMINISTRAÇÃO”. Esta intimação será feita, um dia, a cada um de nós, à hora da morte. Então todas as fontes da salvação estarão esgotadas para mim, porque me será tirado o tempo. Esta intimação logo após a morte, para uns será terrível, como o prelúdio do castigo; para outros será cheia de consolação, como o anúncio da recompensa. Depois da morte já não podemos exercer a nossa administração, é já passado o tempo de expiar os nossos pecados. É agora, enquanto temos vida, tempo e saúde, que devemos refletir: QUE HEI DE FAZER? Agora não nos faltam os meios, e se refletirmos seriamente, logo encontraremos a resposta: “JÁ SEI O QUE DEVO FAZER”.

No dia do Juízo o pecador dirá também, “que hei de fazer?” mas será um grito de desespero, a sua perda é irremediável. TRABALHAR CAVANDO A TERRA, exposto ao sol e à chuva, é o penoso trabalho da penitência e da mortificação. MENDIGAR é orar, é suplicar o necessário para alimento da nossa alma. Se, porém não temos força ou coragem para as duras penitências da vida cristã, se não temos tempo e vagar para longas orações, podemos sempre praticar outras boas obras, fazer esmolas ainda mesmo do pouco que possuímos. Qual o pobre que não pode dar a outro pobre o óbolo da viúva ou ainda um copo d’água? A ESMOLA é, pois, um grande meio de salvação, sem excluir, todavia, a penitência e a oração que, segundo as circunstâncias, nos for permitido fazer.

Caríssimos, lendo com atenção esta parábola do divino Mestre, vemos bem a astúcia daquele mau ecônomo. Perdoando a uns mais do que a outros, toma precauções para que não seja descoberta a sua fraude. Além disso, ele conhecia talvez as disposições de cada um, e procede com toda a prudência. O Senhor louvou não a injustiça do seu mordomo, mas a sua prudência, habilidade e espírito de previdência. Enquanto o ecônomo não tinha o direito de dispor dos bens de seu amo, nós, caríssimos, recebemos de Deus, não somente uma permissão, mas ainda uma ordem formal de distribuir com largueza e liberalidade, os bens corporais e espirituais que ele nos confiou. Quis o Divino Mestre fazer-nos compreender, diz Santo Agostinho, que se aquele mau servo é elogiado por saber acautelar os seus interesses, com mais razão seremos nós agradáveis a Deus se, conformando-nos com a lei divina, praticarmos as obras de misericórdia. Em uma instrução, na qual se tratava também de nos preparar para sermos julgados, o Salvador exigira duas coisas para esta preparação: paixões mortificadas e obras santas: “Estejam cingidos os vossos rins, e acesas as vossas lâmpadas” (S. Lucas XII, 35). A fuga do mal e a prática do bem. Aqui Jesus só fala da esmola, considerando-a tão capaz de comover o Coração de Deus, que nos obterá todas as disposições necessárias para nos reconciliar com Ele, e nos restituir os nossos direitos à celeste herança. Com efeito, na Sagrada Escritura tudo é prometido à esmola. Ela livra-nos de todo o pecado e da morte, e não deixará cair a alma na trevas eternas: “A esmola livra de todo pecado e da morte e não deixará cair a alma nas trevas” (Tobias IV, 11). “A água apaga o fogo ardente, e a esmola resiste aos pecados”. A esmola alcança-nos os dois maiores bens que pode desejar um homem prudente: a misericórdia neste mundo, e uma vida de felicidades no outro: “A esmola livra da morte, é a que apaga os pecados e faz encontrar a  misericórdia e a vida eterna” (Tobias XII, 9). Quanto aos pecados veniais, apaga-os diretamente; quanto aos mortais, faz o pecador encontrar misericórdia enquanto Deus concede ao que a pratica, ou a graça do arrependimento (perfeito ou imperfeito) e a recepção da absolvição sacramental; ou, na hora da morte, o arrependimento perfeito com o desejo da confissão, ou a graça do arrependimento imperfeito com a recepção da absolvição e, em alguns casos, “per accidens” também pelo sacramento da Extrema Unção.

“A esmola, diz Santo Agostinho, é a consolação da nossa fé, o amparo da nossa esperança, o remédio contra o pecado; ganha-nos a afeição do nosso Juiz, torna-nos credores de Deus. Oh! poder da esmola! Aqueles a quem tivermos socorrido, introduzir-nos-ão nos tabernáculos eternos: ‘Quando chegar a vossa hora, eles vos recebam nos tabernáculos eternos'”. Caríssimos, que suave luz difunde na nossa alma esta consoladora palavra! Agora sei o que hei de fazer, para encontrar o meu Juiz propício, quando comparecer no Seu tribunal: granjearei perante a Nosso Senhor Jesus Cristo intercessores e amigos, que
falarão em meu favor. Cobrirei a multidão dos meus pecados, multiplicando as minhas obras de misericórdia, dando esmolas; se tiver muito, dando muito; se tiver pouco, dando pouco. O ensinamento moral da parábola se resume nestas palavras: “OS FILHOS DO SÉCULO (os mundanos) SÃO MAIS PRUDENTES EM SEUS NEGÓCIOS DO QUE OS FILHOS DA LUZ” (o homem esclarecido pelas luzes da fé). Enquanto aqueles trabalham e se esforçam, e suam, e não medem dificuldades para satisfazer as suas paixões, estes adormecem imprudentemente sem nada fazer para Deus e para o céu. Uma outra consideração sobe à nossa mente: Como chegou este homem a tornar-se um ladrão? Foi aos poucos, lentamente e de degrau em degrau. Por isso, Nosso Senhor, depois de nos ter recomendado a prudência, recomenda também a fidelidade nas pequeninas coisas. A delicadeza de consciência é a honra do cristão, que não quer ser justo somente diante dos homens, mas ainda diante de Deus, que é a Justiça por essência.

Por que Jesus fala de “RIQUEZAS INJUSTAS?” Porque enganadoras, mentirosas e também porque ou são, às vezes mal adquiridas, ou porque mal empregadas, e, neste sentido, são a fonte de muitas injustiças. Em si mesma, a fortuna é um dom de Deus, é uma graça que convém aproveitar para a nossa salvação, proporcionado-nos a amizade dos pobres, conquistando-nos o coração de Jesus que neles se encarna e representa. Se um homem administrar mal as riquezas deste mundo, nega-lhe Deus os bens da graça; se não respeitar os bens alheios, que pertencem a Deus, perderá também o que lhe pertence, as graças a que tinha direito pelo sacramento do Batismo.

Ó misericordioso Jesus, dai-nos um coração sempre mais sensível às diversas necessidades do próximo. Descobri-nos todo o mistério do necessitado e do pobre, na ordem espiritual e temporal, para que no dia terrível do juízo sejais para nós o onipotente libertador: “Bem-aventurado o que cuida do necessitado e do pobre; o Senhor o livrará no dia mau” (Salmo 40, 2). Amém!

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2 Comentários to “Coluna do Padre Élcio: Preparação para dar contas a Deus.”

  1. No texto acima, o padre escreve: Como chegou este homem a tornar-se um ladrão? Foi aos poucos, lentamente e de degrau em degrau. Como professora, me lembro das crianças que, ainda pequenas, furtam lápis e borrachas de seus coleguinhas. É assim que, anos depois, são grandes ladrões. Começaram a “carreira de ladrão” na infância. E os pais muitas vezes dizem: “ele (ela) é uma criança, não entende nada!”. Como se enganam, meu Deus!

  2. Prezados: seria possível que identificassem a obra da gravura que ilustra a excelente coluna?! Grata.