“A pena de morte é inadmissível”. A introdução de um novo paradigma e a ruptura doutrinal de Francisco.

Por FratresInUnum.com, 3 de agosto de 2018 – Até agora, os desvios doutrinais promovidos por Papa Francisco eram sempre indiretos, frutos de sua proposital ambiguidade. Agora, pela primeira vez, acontece uma efetiva e inquestionável ruptura doutrinal.

fragmentadorSim, ruptura. Embora o Cardeal Ladaria, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e confrade jesuíta de Papa Bergoglio, tenha escrito aos bispos que a nova formulação “expressa um autêntico desenvolvimento da doutrina, que não está em contradição com os ensinamentos anteriores do Magistério”, o fato é inegável: estamos diante de uma ruptura doutrinal.

O próprio texto do novo n. 2267 do Catecismo da Igreja Católica, publicado hoje, mas aprovado em maio deste ano (Por que tanta demora? Por que publicar isso justo em agosto, durante as férias da Cúria Romana?), é bastante explícito.

“Durante muito tempo, considerou-se o recurso à pena de morte por parte da autoridade legítima, depois de um processo regular, como uma resposta adequada à gravidade de alguns delitos e um meio aceitável, ainda que extremo, para a tutela do bem comum”. Até aqui, a doutrina de sempre!

Porém, um pouco abaixo, vem a ruptura:

“Igreja ensina, à luz do Evangelho, que ‘a pena de morte é inadmissível, porque atenta contra a inviolabilidade e dignidade da pessoa’, e empenha-se com determinação a favor da sua abolição em todo o mundo”.

De um recurso lícito, mas extremo, a pena de morte tornou-se, de repente, inadmissível, ilícita. A ruptura é nítida.

Contudo, mais perigosos são os argumentos para a fundamentam:

Hoje vai-se tornando cada vez mais viva a consciência de que a dignidade da pessoa não se perde, mesmo depois de ter cometido crimes gravíssimos. Além disso, difundiu-se uma nova compreensão do sentido das sanções penais por parte do Estado. Por fim, foram desenvolvidos sistemas de detenção mais eficazes, que garantem a indispensável defesa dos cidadãos sem, ao mesmo tempo, tirar definitivamente ao réu a possibilidade de se redimir”.

Em outras palavras, até hoje a Igreja ter-se-ia enganado ao julgar a licitude da pena de morte em casos extremos — não havia ainda tomado consciência de que a “dignidade da pessoa não se perde”. Mas hoje, graças à nova sensibilidade, graças à compreensão renovada da dignidade humana, corrigimos o erro e declaramos que a dita pena é inaceitável.

O leitor não perceberá de cara o absurdo que tem diante dos olhos. E, isso, porque as restrições de ordem prática quanto à pena de morte na doutrina católica sempre foram tão claras à consciência dos fieis que essa modificação pode parecer meramente de ênfase, de nuance. Mas não o é!

Está se introduzindo um novo paradigma para a corrupção completa da doutrina católica. Estes argumentos o comprovam e basta aplicarmo-los a outros temas. Decerto, como há tempos se cogita, a próxima vítima será a Encíclica Humanæ vitæ. Talvez alguns exemplos hipotéticos ilustrem melhor o procedimento ao caro leitor.

Sobre a contracepção. “Hoje a Igreja compreende com maior clareza que a natureza do matrimônio é sobretudo o amor conjugal. Além disso, a sensibilidade dos casais e as dificuldades da vida moderna nem sempre permitem a geração de uma numerosa prole, o que torna difícil a compreensão de que sempre o ato conjugal deva estar necessariamente aberto à geração de uma nova vida. Deste modo, o juízo da Igreja hoje enxerga que certas exigências morais não correspondem mais àquilo que é verdadeiramente factível para que um cristão viva coerentemente a sua fé com todos os desafios contemporâneos. Portanto, a Igreja entende que a contracepção, hoje, não deva ser considerada como intrínseca e gravemente ilícita”.

Sobre o divórcio. “Hoje a Igreja entende que nem sempre os nubentes são verdadeiramente cônscios de sua compatibilidade e das exigências tão graves que lhes impõe a vida matrimonial. A experiência do fracasso, também, faz parte da cruz e da redenção. Sendo assim, o entendimento da Igreja não considera mais o divórcio como um mal em si mesmo. É necessário tolerar a todos, respeitando a sua própria história e não violando a sua consciência”.

Sobre a fornicação. “Hoje os casais sentem a necessidade de fazerem uma experiência mais intensa de amor. Os usos e costumes se alteraram muito na sociedade moderna e aquilo que se considerava ilícito no passado, hoje se considera normal e até esperado. Considera-se, atualmente, impraticável que um casal se case sem antes conhecer-se mais intimamente. Neste sentido, não podemos mais considerar a fornicação como um pecado grave”.

Oferecemos ao leitor apenas três hipóteses, mas estes poderiam ser multiplicados quase que indefinidamente. Não se trata de um desenvolvimento orgânico da fé, como afirma muito espertamente o Cardeal Ladária, mas da introdução discreta de um novo paradigma.

Até hoje, o paradigma normativo da doutrina católica sempre foi a fidelidade ao Evangelho e à Tradição. Hoje, o novo paradigma é a adequação aos tempos modernos, às novas sensibilidades, enfim, àquelas falácias que nos chegam prontas pelos ideólogos de plantão.

Como não ouvir aquelas palavras ditas por Nosso Senhor a São Pedro: “Arreda-te de mim, satanás, por não pensas como Deus, e sim como os homens” (Math. XVI,23).

Segurem-se na cadeira, porque as violações continuarão. Papa Francisco está lá para garanti-lo e fará de tudo para definir antecipadamente a sua sucessão, de modo que o processo de demolição da fé continuará, a não ser que a Providência Divina venha a freá-lo.

De certo modo, estamos assistindo as consequências mais aterradoras da usurpação da estrutura hierárquica da Igreja por hereges confessos ou discretos. Diante disso, precisamos nos manter firmes, agarrar-nos ferreamente à Tradição, preservar-nos de toda e qualquer perversão doutrinal ou moral, inclusive do convívio com os falsos pastores, e manter nossa cabeça erguida, pois diz Nosso Senhor: “A vossa salvação está próxima” (Luc. XXI,28).

Não abandonemos a barca nem traiamos a fé. Perseveremos fieis, confiantes na garantia que nos dá Nossa Senhora de Fátima: “Por fim, o meu Imaculado Coração triunfará!”.

25 Comentários to ““A pena de morte é inadmissível”. A introdução de um novo paradigma e a ruptura doutrinal de Francisco.”

  1. De acordo com a lei natural e as escrituras, os governantes de um Estado atuando como representantes da justiça Divina e como guardiões do bem comum, podem exercer uma autoridade sobre a vida e a morte que eles não possuem como pessoas privadas. Deus é sempre Deus que tem o direito da vida e da morte e se o Estado compartilha de Sua autoridade, tem pelo mesmo princípio, a autoridade sobre a vida de um criminoso.

    Estado compartilha em autoridade divina é o constante ensinamento dogmático da Igreja, encontrado mais explicitamente (e repetidamente) nas cartas encíclicas do Papa Leão XIII.

    Pergunto:

    O Estado hoje (neste mundo globalizado, governado pelos satanistas da ONU) é o mesmo Estado a que se referia o São Leão XIII ?

    A providência Divina não pode usar do Pontificado confuso de Francisco, para nos indicar que este modelo de Estado não é mais representante da vontade Divina, portanto não deve ter o direito em condenar ninguém a pena capital. ?

    Caríssimos, isso são perguntas sinceras, não colocações irônicas. Obrigado !

    • Xará:

      1) A questão não é se a pena de morte é boa ou ruim nos EUA ou na China ou em qualquer outro país. A questão é que se a pena de morte viola a dignidade humana, então todos os pontífices e teólogos do passado erraram feio. E se erraram feio nessa questão, talvez tenham errado em outras também.

      2) Toda a autoridade legitima emana de Deus, ficando a cargo da consciência bem formada discernir as autoridades legítimas das ilegítimas.

  2. “Hoje a Igreja entende que Maria não poderia ser virgem ao dar a luz a Jesus e que, assim fazendo, não poderia continuar virgem. Também entende que a Santíssima Trindade, à luz do mundo atual, já se alterou e existem três deuses e não somente um.”
    “Hoje a Igreja entende também que a ressurreição da carne não tem mais cabimento, num mundo de 7 bilhões de habitantes, o que viria a trazer um problema social sério no planeta sem recursos alimentícios para todos. Neste caso, Deus não deve ser mais o Todo-Poderoso, operador de tal milagre e remete todos à reencarnação kardecista.”
    “Hoje a Igreja entende que ela não deve mais existir e deve ser substituída pelo islamismo, o mais rápido possível.”
    Estaremos bem…

  3. “Hoje vai-se tornando cada vez mais viva a consciência de que a dignidade da pessoa não se perde, mesmo depois de ter cometido crimes gravíssimos. Além disso, difundiu-se uma nova compreensão do sentido das sanções penais por parte do Estado. Por fim, foram desenvolvidos sistemas de detenção mais eficazes, que garantem a indispensável defesa dos cidadãos sem, ao mesmo tempo, tirar definitivamente ao réu a possibilidade de se redimir”.
    KKKKKKKKKKKKKKKK. Ele não conhece um presídio brasileiro.

    • E muito menos conhece as “capacidades diabólicas” de um criminoso que, com muito dinheiro e cúmplices fará para se evadir de uma prisão, mesmo de “alta segurança”.

  4. Enquanto esse senhor faz essa revolução maquiavélica no cerne da Igreja, católicos brasileiros dedicam tempo e dinheiro produzindo obras cinematográficas contra a finada ‘Teologia da Libertação’. Será que não enxergam de onde estão vindo todos os males atuais?

    • Não vejo muito como finada, a não ser que seja um Zumbi, que ainda come “cérebros” Brasil a fora. A TL ainda existe e, se está morta precisa (como diz o humorista) “ser cremada e enterrada, pra não dar chance”. Francisco também é fruto/filho dessa TL. A origem de todos os males é o Príncipe das Trevas, que inspirou toda sorte de heresias e desobediências, desde Eva, passando por Ário, Nestório, cismas, Lutero, Revoluções, Maçonaria, Marx, modernismo e “tutti quanti”.

    • Finada? Alguém por favor avise Francisco então.

    • Então você acha que temas como a Teologia da libertação não deve ser abordados???

  5. imagina que eu vou fazer um bolo de chocolate…
    coloquei 6 ovos
    6 colheres de chocolate em pó
    1 xícara de chá de água
    1 xícara de chá de açúcar
    1 e 1/2 xícara de chá de farinha
    1 colher de sobremesa de fermento em pó
    fiz meu bolo com esses ingredientes
    aí depois eu incremento o bolo
    começo a colocar cerejinhas no meu bolo 😌
    faço um caldo de qualquer coisa aí
    boto chantilly
    resolvo fazer um gratinado de chocolate picado
    Logo, eu “desenvolvi” o meu bolo
    a ESSÊNCIA do meu bolo é a mesma
    eu só incrementei meu bolo
    mas a ESSÊNCIA dele é a mesma
    agora vem a Igreja e fala “em certas circunstâncias a pena de morte é LÍCITA”
    depois de 2000 anos alguém resolve dizer:
    “em NENHUMA circunstância a pena de morte é LÍCITA… ela é SEMPRE ILÍCITA”
    cadê o desenvolvimento?
    eu entrei com um bolo de chocolate e saí com uma torta de maracujá

  6. “Hoje vai-se tornando cada vez mais viva a consciência de que a dignidade da pessoa não se perde,
    mesmo depois de ter cometido crimes gravíssimos.” (Nova redação do n. 2267).

    ———-

    “No fundo da própria consciência, o homem descobre uma lei que não se impôs a si mesmo, mas à qual deve obedecer; essa voz, que sempre o está a chamar ao amor do bem e fuga do mal, soa no momento oportuno, na intimidade do seu coração: faze isto, evita aquilo. O homem tem no coração uma lei escrita pelo próprio Deus; a sua dignidade está em obedecer-lhe, e por ela é que será julgado.” (Concílio Vaticano II, Constituição Pastoral Gaudium et Spes, n. 16).

    A Dignidade Humana está em obedecer a Lei Natural, pela qual será julgado, isto é, obedecer a Deus.

    “no relacionamento humano, a determinado direito natural de uma pessoa corresponde o dever de reconhecimento e respeito desse direito por parte dos demais. É que todo direito fundamental do homem encontra sua força e autoridade na lei natural, a qual, ao mesmo tempo que o confere, impõe também algum dever correspondente. Por conseguinte, os que reivindicam os próprios direitos, mas se esquecem por completo de seus deveres ou lhes dão menor atenção, assemelham-se a quem constrói um edifício com uma das mãos e, com a outra, o destrói.” (João XXIII, Encíclica Pacem in terris, n. 30).

    Não adianta defender a Dignidade Humana do litigante e fazer vista grossa com a do inocente: “constrói um edifício com uma das mãos e, com a outra, o destrói”.

    A Dignidade Humana não elimina a liberdade de ninguém, logo deixa a pessoa efetivamente (e não moralmente) livre para escolher entre o bem e o mal; não elimina os direitos nem os deveres da pessoa; não elimina a responsabilidade pelos seus atos; e não elimina sua passividade de condenação/punição pelos seus atos.

    A pena pode ter vários objetivos. Sem dúvida, o primeiro de todos é punir, conforme o critério da igualdade proporcional (Justiça Distributiva).

    A pena de morte, além de punir com justiça o litigante, é também um dos instrumentos de autodefesa/proteção da vida humana e social e, em muitos casos, o único instrumento restante.

    Além de violar a vida de outras pessoas, o assassino voluntário, ou o transgressor da integridade física das pessoas, corrompe a sociedade também com o seu mau exemplo. A Igreja Católica, qualquer Estado justo, sociedade ou pessoa reta, que busca viver sua liberdade segundo a verdade e a justiça, não podem apoiar nem favorecer o assassinato voluntário. Ainda conta-se o risco social, pois nada garante que o litigante realmente se arrependera de seus atos.

  7. Bastante sintomático o fato de que os pobres nascituros não tenham de igual forma recebido a mesma veemente defesa apaixonada demonstrada aos réus da pena capital.

    GLORIOSOS SANTOS INOCENTES, ROGAI POR NÓS !

  8. Pena de morte para assassinos cruéis e sanguinários é inadmissível e deve ser banida em todo mundo, é isso mesmo santidade? Então deve ser assim para o aborto tbem; é um assassinato mais cruel e inadmissível ainda e que, de pouco em pouco, vai invadindo as nações. FALE SOBRE O ABORTO santidade. ORGANIZE marchas pró-vida. Faça pronunciamentos mais claros sobre a doutrina católica nesta questão. PROMOVA os ensinamentos da Humanae Vitae sobre as formas naturais de espaçar os nascimentos. FALE da Familiaris Consortio e do casamento josefino para quem teve seu primeiro casamento validado. SEJA CATÓLICO e conduza, aos céus, as ovelhas que o Senhor te confiou. SEJA O BOM PASTOR.

  9. O § 2.266 DO CATECISMO DA IGREJA CATÓLICA

    Ensina o § 2.266 do CIC que “o ensinamento tradicional da Igreja reconheceu como fundamentado o direito e o dever da legítima autoridade pública de infligir penas proporcionais à gravidade dos delitos, sem excluir, em casos de extrema gravidade, a pena de morte”.

    Esta é a lição que sempre tivemos e que agora o papa pretende mudar. Colho alhures e sem muito pesquisar que Sua Santidade teria pontificado:

    “A Igreja ensina, à luz do Evangelho, que a pena de morte é inadmissível, porque atenta contra a inviolabilidade e a dignidade da pessoa, e se compromete com determinação por sua abolição em todo o mundo”, afirmou o pontífice em uma audiência concedida ao prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.(www.em.com.br)

    Como assim, “a Igreja ensina”? Para começar a Igreja ensina o que está escrito no Catecismo. E no Catecismo não está escrito nada disso!

    Em segundo lugar, “à luz do Evangelho”. Aí, pode parar. Aí, vamos mudar o rumo da prosa.

    Não pode o papa ter esquecido dos Livros do Êxodo e do Deuteronômio sobre as prescrições da pena de morte. Não pode ter tido um surto amnésico e ignorado a passagem famosíssima dizendo que “da falsa acusação te afastarás; não matarás o inocente e o justo, e não justificarás o culpado!” (Ex. 23:7).

    Ora, ao dizer o Livro das Leis que um inocente não pode ser morto, diz sem rebuços que o mesmo não deve acontecer ao culpado, que inclusive não pode ser perdoado.

    Ora, mas sempre haverá vozes até honestas que exclamarão: mas Jesus fez novas todas as coisas. Tudo o que era antigo se foi com o ensinamento dele.

    Errado! Primeiro, porque Jesus não derrubou nenhuma estrutura humana. Seu exemplo de vida já nos mostra isso, razão pela qual não é necessário muito falar. São Pedro na 1Pd exorta os cristãos a se sujeitarem a toda instituição humana por amor ao senhor: ao rei, porque é soberano; aos governadores, porque são seus delegados, cuja missão é punir malfeitores e favorecer os bons (2, 13-14).

    Em segundo lugar, Jesus não modificou nada na Lei. Conhecida é a passagem do Sermão da Montanha: “Não penseis que vim revogar a Lei ou os Profetas. Não vim revogar, mas levá-los à perfeição. Porque eu vos declaro esta verdade: enquanto durar o céu e a terra, nem a menor letra nem o menor traço será tirado da Lei” (Mt. 5, 17-18).

    Quem for dar uma espiadela ainda que superficial no dito sermão, verá que as lições de Jesus são no sentido horizontal, isto é, no relacionamento humano (tu tens que perdoar teu irmão, tu tens que honrar teus pais, tu tens que ser caridoso, tu tens que ser manso e humilde de coração).

    Jesus nunca pregou nada no sentido vertical, no sentido do homem em relação ao Estado. Você pode perdoar, dar a face setenta vezes sete; não só pode como deve.

    Não o Estado. O Estado deve simplesmente aplicar a lei ao caso concreto. Não só pode como deve.

    Leis que vararam o mundo, vararam épocas. No Brasil, até o advento do Código Criminal do Império vigoravam as Ordenações Filipinas, cominando pena de morte a um sem número de delitos. Portugal e Espanha são países notoriamente católicos. E então, pelo vezo do Papa, as legislações desses países estão em dissonância com a inviolabilidade e a dignidade da pessoa e contrárias ao ensinamento milenar da Igreja?

    Eis aí uma fórmula que parece ter entrado pelas entranhas dos nossos dirigentes modernos: inviolabilidade e dignidade da pessoa. Com isso pretendem os áulicos da modernidade terem descoberto a pedra filosofal, a quadratura do círculo, e até quem sabe, um meio eficaz para que o mundo viva na mais perfeita harmonia, paz, prosperidade e amor fraterno!

    E também não é absolutamente verdadeiro que a mensagem, a lição, o ensinamento de um Papa não possam ser contestados. Claro que as pessoas ouvirão muito mais o Papa que este escriba aqui ou outros da mesma cepa, quase analfabetos. Mas haveremos de ter um norte para tudo, até para proclamações papais.

    Os ensinamentos e máximas dos papas têm valor vinculante proclamados ‘ex cathedra”, ou literalmente “a partir da Cadeira de São Pedro”, quando assumem a condição de dogmas. Aí um católico assente com a Igreja não haverá de discutir desobedecendo (o que mesmo assim não o impede de ponderar mesmo que filosoficamente).

    No mais, é um magistério como outro qualquer, respeitável pela fonte de que promana, mas deve ter seu valor de face aferido com a Bíblia, a doutrina e a patrística.

    Estava eu pensando nisso quando ouvi na fila do pão dois senhores conversando a respeito.

    – Tudo propaganda, disse um deles.

    – Como assim, propaganda?

    – Por acaso a Igreja católica comina pena de morte a alguém? Vc já viu isso, Tião?

    – Não, Felisberto

    – Então. É como molhar a horta na chuva. Não tem valor algum, mas todo mundo vê o que você está fazendo..
    .
    – Mas, qual a vantagem?

    – Sei lá, só sei que tem gente que gosta de estar sempre em evidência. Mais nada.

    Poxa, que bela lição tirada de uma simples conversa ouvida por acaso, uma propaganda pop do papa pop. E quando a gente lê que a Igreja ”se compromete” a erradicar a pena de morte do mundo, a gente vê que aquele senhor da fila do pão estava coberto de razão; e a doutrina milenar da Igreja assente nos Evangelhos está impoluta.

    Menos mal. Ponto para o seu Felisberto e para o § 2.266 do CIC.

  10. Quanto à condenação definitiva que Francisco pretende fazer da pena de morte:

    “Por isso a Igreja ensina, à luz do Evangelho, que ‘a pena de morte é inadmissível, porque atenta contra a inviolabilidade e dignidade da pessoa’, e empenha-se com determinação a favor da sua abolição em todo o mundo.” (Nova redação do n. 2267).

    Trata-se de tentativa do Papa Francisco em declarar como inadmissível/imoral a pena de morte, para abolir em todo o mundo – o que significa uma pretensão de estabelecer preceito religioso/moral definitivo, principalmente na Igreja Católica.

    “porque atenta contra a inviolabilidade e dignidade da pessoa”

    1) porque atenta contra a inviolabilidade da pessoa

    FALSO. O Estado tem e sempre teve poder de coação física sobre todas as pessoas que se encontram sob sua autoridade. Coercibilidade do Direito Positivo. A Doutrina Católica não questiona isto.

    2) porque atenta contra a dignidade da pessoa

    FALSO. A dignidade humana não isenta a pessoa de pagar, ser castigada ou punida pelos seus delitos, bem como o fato de a pessoa sofrer punição não elimina sua dignidade de pessoa humana. Quando a punição é justa, a própria pessoa é que violou sua dignidade humana (agindo contrariamente a tal dignidade), e não a autoridade punitiva. A Doutrina Católica nunca isentou ninguém de punição pelo fato de ser pessoa humana.

    Do ponto de vista prático, a proposta de “dogmatização” se mostra sem efeito, pois tenta, em vão, usurpar função exclusiva do Estado.

    Do ponto de vista religioso, moral, dogmático e infalível, a pretensão não tem eficácia, pois contraria costume tradicional estável e já consolidado da Religião Católica.

    *Para que o ensinamento fosse recepcionado de forma infalível, teria de atender a todos ou a alguns dos seguintes motivos, desde que de forma satisfatória: 1) fundamentação na Sagrada Escritura e na Tradição (fontes da Revelação); 2) ser tido como necessário à salvação eterna; 3) ser testemunhado por prática (tradição) ininterrupta.

    Ao contrário, a matéria proposta se evidencia preceito estranho na Doutrina e praxe da Igreja, e não atende a nenhum dos motivos acima.

    Suposto dogma: “A pena de morte é inadmissível, porque atenta contra a inviolabilidade e dignidade da pessoa”.

    1) fundamentação na Sagrada Escritura e na Tradição:

    As fontes da Revelação mostram o contrário, desfavorecendo a formulação.

    2) ser tido como necessário à salvação eterna:

    Nem no passado se entendeu nem no presente se entende isto como necessário à salvação eterna.

    3) ser testemunhado por prática ininterrupta:

    Não é entendimento tradicional; ao contrário, é novidade.

    “Em sua doutrina, vida e culto, a Igreja perpetua e transmite a todas as gerações tudo o que ela é, tudo o que crê.” (cfr. Conc. Vat. II, Constituição Dei Verbum, n. 8).

    “Pois o Espírito Santo não foi prometido aos sucessores de Pedro para que, por revelação sua, manifestassem uma nova doutrina, mas para que, com sua assistência, conservassem santamente e expusessem fielmente a revelação transmitida pelos Apóstolos, ou seja, o depósito da fé. E, decerto, esta doutrina apostólica, todos os veneráveis Padres abraçaram-na e os santos ortodoxos Doutores a veneraram e seguiram, plenissimamente conscientes de que esta Sé de são Pedro sempre permaneceu intacta de todo erro, segundo a divina promessa de nosso Senhor e Salvador feita ao chefe dos seus discípulos: ‘Eu roguei por ti, para que tua fé não desfaleça; e tu, uma vez convertido, confirma teus irmãos’ [Lc 22,32].” (Conc. Vat. I, Constituição Pastor Aeternus).

    * Congregação para a Doutrina da Fé, Nota doutrinal explicativa da fórmula conclusiva da Professio Fidei, 29 jun. 1998, destaque para a nota 27 do n. 9.
    http://www.vatican.va/roman_curia/congregations/cfaith/documents/rc_con_cfaith_doc_1998_professio-fidei_po.html

  11. Caros amigos;
    A “dignidade humana” é a desculpa para amortizar as consciências.
    Depois se ler este artigo, lembrei-me de uma outra “mudança”, a da Santa Missa. Eu era jovem Sacerdote, vigário auxiliar, e pensava que seria muito interessante e estimularia ainda mais a piedade dos fiéis. Fui alertado pelo Pároco, que alertou sobre a mudança de rito e que a “nova liturgia era de matriz protestante”. Ele se recusou a celebrar no “novo rito” e pediu para deixar a paróquia, pois contava com quase 80 anos de idade. Com o passar dos anos e as demais modificações, tive a certeza daquilo que o Mosenhor havia falado e, poucos anos depois, logo após a mudança de Bispo da Diocese, tive que deixar minha paróquia, porque “minha pastoral não estava adequada às mudanças conciliares”, já que eu não deixei de usar a batina, nem de rezar o Breviário Romano, tampouco as devoções ao Sagrado Coração de Jesus, à Dolorosa Paixão e, à Santíssima Virgem e aos Anjos e Santos.
    Comemorei meus 30 anos de Sacerdote como “aposentado”, na casa de minha família, longe da minha antiga paróquia, que havia trabalhado desde minha Ordenação Sacerdotal!
    Conto tudo isso para relembrar aos leitores desse Fratres que a partir de “pequenas mudanças” – em nome da “adequação” ou do “aggiornamento”, outras seguirão!
    Portanto, fiquemos atentos porque como alertou a Santíssima Virgem em La Salette, “a apostasia virá desde arriba!”
    Rezemos!

  12. “Nossa Senhora, medianeira de todas as graças” já tem elementos suficientes para ser declarado dogma de fé, mas não está na pauta dos processos de dogmatização.

    A proibição da pena de morte, para minha surpresa (e são tantas as surpresas nestes últimos cinco anos), entrou na pauta.

    De certa forma é até bom, pois quem defende fornicação e adultério vir falar de Nossa Senhora é desagradável!

    Os tempos não são mesmos aqueles áureos…

  13. A mudança no Catecismo da Igreja atende a uma agenda política mundana. Essa medida não tem influência em países comunistas, muçulmanos e de religiões orientais cujo Cristianismo é insipiente, a decisão do papa é inócua para eles, o alvo é outro. No Ocidente cristão, o único grande país que aplica a pena de morte é os EUA, confrontar a política interna dos EUA é o alvo de Bergóglio…

  14. “Hoje vai-se tornando cada vez mais viva a consciência de que a dignidade da pessoa não se perde, mesmo depois de ter cometido crimes gravíssimos.” Aonde é que isso acontece? Nos países muçulmanos? “Por fim, foram desenvolvidos sistemas de detenção mais eficazes, que garantem a indispensável defesa dos cidadãos” Será verdade então para os países do terceiro mundo aonde as condições das prisões e os baixos salários dos guardas prisionais são ingredientes para fáceis fugas de perigosos homicidas, Isso não conta? Será que o papa se esqueceu destas periferias?
    Um raciocino que usa de falsos argumentos só pode dar em conclusões erradas, sem falar na ausência de argumentos teológicos baseados quer na escritura quer na tradição. Razão e fé estão ausentes nesta mudança do catecismo, existem apenas vaidades veladas de um espírito rebelde a Deus.
    Já agora um catecismo não é dogma por si próprio, não é o nome “catecismo” que lhe dá título de dogmático são sim as declarações que são feitas no seu interior. Se as declarações não forem cópias exatas dos documentos doutrinários ou as conclusões assentes na fé e moralidade Católica são considerados erros como é o caso.

  15. Achei muito estranho. E o catecismo de Trento que continua válido? Como devemos nos posicionar?

  16. Bom dia a todos!

    No meu comentário acima, elenquei alguns critérios que uma intervenção papal – seja “ex cathedra”, seja não solene por meio do magistério ordinário e universal – deveria atender para ter validade: 1) fundamentação na Sagrada Escritura e na Tradição (fontes da Revelação); 2) ser tido como necessário à salvação eterna; 3) ser testemunhado por prática (tradição) ininterrupta.

    Obviamente, com isto não estou pretendendo negar o dogma da infalibilidade pontifícia que diz que as declarações “ex cathedra” do Romano Pontífice são por si mesmas irreformáveis, e não apenas em virtude do consenso da Igreja.

    O que eu penso é que o Concílio Vaticano I não quis dizer que o Papa pode definir como dogma qualquer coisa, o que bem quiser, segundo seu arbítrio – o que seria abuso de autoridade. E os fiéis simplesmente obrigados a aceitarem! A matéria declarada como definitiva tem que ser verdadeira (evidente ou comprovada).

    Então, se o Papa diz que pera é banana, abóbora é uva, macaco é cachorro – ainda que “ex cathedra” – nós somos obrigados a simplesmente aceitar?

    Acho que não é bem assim, mesmo que a matéria seja de fé ou moral. A Doutrina Social da Igreja, por exemplo, possui uma série de princípios e diretrizes embasados na Revelação, em dogmas, mas nem por isso seus princípios são todos necessariamente definitivos ou infalíveis, pois a Doutrina Social é um corpus que não pretende ser infalível e, em sua maior parte e essência, de fato não o é.

    Os motivos/critérios/requisitos que elenquei de forma bastante simples não são invenção da minha cabeça! Citei a fonte:

    Congregação para a Doutrina da Fé, Nota doutrinal explicativa da fórmula conclusiva da Professio Fidei, 29 jun. 1998, destaque para a nota 27 do n. 9. Esta nota 27 diz o seguinte:

    “Tenha-se presente que o ensinamento infalível do Magistério ordinário e universal não é proposto apenas através de uma declaração explícita de uma doutrina para se crer ou admitir definitivamente, mas também através de uma doutrina contida implicitamente numa praxe de fé da Igreja, proveniente da revelação ou, em todo o caso, necessária à salvação eterna, e testemunhada por uma Tradição ininterrupta: tal ensinamento infalível é para se considerar como objectivamente proposto pelo inteiro corpo episcopal, entendido em sentido dicrónico, e não necessariamente apenas sincrónico. Além disso, a intenção do Magistério ordinário e universal de propor uma doutrina como definitiva geralmente não é ligada a formulações técnicas de particular solenidade; basta que resulte claramente do teor das palavras utilizadas e seus contextos.”

    “proveniente da revelação ou, em todo o caso, necessária à salvação eterna, e testemunhada por uma Tradição ininterrupta”

    – proveniente da revelação;
    – necessária à salvação eterna;
    – testemunhada por uma Tradição ininterrupta.

    Esta nota 27 fez uma particularização de uma das formas de juízo definitivo/infalível do Magistério ordinário e universal.
    Utilizando os mesmos critérios apresentados nesta nota 27, fiz uma generalização (indução), no intuito de permitir que não se fique refém das arbitrariedades da autoridade, ainda quando intentasse se pronunciar “ex cathedra”, mesmo em matéria de fé e moral.

    Por fim, entendo que seria bom, e até necessário, que teólogos se manifestassem acerca da presente pretensão de Francisco, bem como se existem na literatura teológica “critérios” para orientarem as pessoas na aceitação de intervenções unilaterais do Pontífice, mesmo “ex cathedra”.

    Peço desculpas se estou sendo chato ou “débil”…

    Desde já agradeço a paciência!

    Att,

  17. “Hoje vai-se tornando cada vez mais viva a consciência de que a dignidade da pessoa exige pleno respeito por sua autonomia. Além disso, difundiu-se uma nova compreensão do sentido da sexualidade. Por fim, foram desenvolvidos arranjos familiares que garantem a indispensável harmonia do convívio familiar. Sem rejeitar seu ensino tradicional, a Igreja entende hoje que não se deve aplicá-lo literalmente em todos os casos, e por isso permite as relações homoafetivas quando, comprovadamente, o indivíduo possui aquela tendência inata”.
    “Atualmente, sob o impulso de uma nova sensibilidade para com a dignidade da pessoa, aumentou-se o reconhecimento de sua inviolabilidade e privacidade. Além disso, difundiu-se uma nova compreensão da liberdade da mulher. Por fim, foram desenvolvidos sistemas efetivos de verificar se aquela mulher possui ou não condições psicológicas de dar à luz uma nova criança. Sem rejeitar de maneira alguma seu ensinamento, a Igreja entende hoje que o aborto pode ser válido, mas somente em alguns casos específicos”.
    “Nos dias atuais surgiu uma nova sensibilidade diante da liberdade fundamental da pessoa humana. Além disso, difundiu-se uma nova compreensão do papel das religiões no mundo. Por fim, foram desenvolvidas reuniões de diálogo inter-religioso mais eficazes. Sem mudar sua doutrina, a Igreja entende hoje que a opção pelo budismo, hinduísmo ou espiritismo, é também válida diante de Deus e não pode ser questionada”.