A perda do vigor, mas não da fé.

A renúncia de Bento XVI afetou-me de tal forma, em todos os aspectos, com sérias conseqüências, em todos os campos, também na vida pessoal.

Por Hermes Rodrigues Nery – FratresInUnum.com, 14 de fevereiro de 2019

Quando Joseph Ratzinger foi eleito, em 19 de abril de 2005, meus filhos estavam com seis, sete anos, ambos fazendo catequese. Com Bento XVI, coincidiu o meu ingresso no movimento pró-vida, assumindo a coordenação diocesana em defesa da vida e a fundação do Movimento Legislação e Vida, naquele mesmo ano. O melhor do meu trabalho, no movimento, coincidiu com o pontificado de Bento XVI, especialmente na coordenação do I Congresso Internacional em Defesa da Vida, na Basílica de Nossa Senhora Aparecida, em fevereiro de 2008, tendo sido eleito vereador e Presidente da Câmara, e promulgado a primeira lei orgânica pró-vida do País, em 16 de abril de 2010.

Prof. Hermes Rodrigues Nery recebe a comunhão do papa Bento XVI, em 13 de maio de 2007, na Basílica de Nossa Senhora da Conceição Aparecida. (1)

Professor Hermes recebe a Comunhão do Papa Bento XVI, em 13 de maio de 2007, na Basílica de Nossa Senhora da Conceição Aparecida.

Quando pensei que dentro da Igreja eu estaria acolhido, e que eu pudesse fazer verdadeiros amigos capazes dos valores que o Evangelho  tanto anuncia (como viveram os primeiros apóstolos), e que a caridade fosse vivida, de fato, na convivência como irmãos de fé, unidos em Cristo, foi justamente aonde enfrentei maiores dissabores, hostilizações, desprezo, humilhações, inveja, avareza e todos os demais pecados capitais, ao ponto de chegar à constatação de impotência, do não saber o que fazer, sem meio algum para influir e fazer vicejar o melhor do Evangelho, no meio árido, inóspito, refratário, um deserto mesmo de muitos padecimentos, mas com alguns poucos cireneus, a quem sou sempre muito grato a Deus.

O que estaria acontecendo?

Indaguei-me muitas vezes, quando sacerdotes não estavam disponíveis, e quando precisava de ânimo, de um reerguimento que evitasse soçobrar, tantas vezes sucumbi ao cansaço e ao não saber o que fazer. É certo que tive alguns oásis nesse deserto, como o Pe. Berardo Graz e Pe. Pedro Stepien, que muitas vezes deram o bom testemunho, mas que também lidavam com as limitações do dia-a-dia, em que muitas vezes nos víamos sem saber o que fazer. O anúncio do Evangelho não podia ser apenas com discurso, mas havia uma necessidade por atitudes que espelhassem o modo de agir de Nosso Senhor Jesus Cristo. Mas estas atitudes eram cada vez mais escassas. Existiam como óasis, e eram mesmo cada vez mais raras.

Parecia que o organismo da Igreja (o corpo da Igreja) havia sido tomado por algo estranho, por algo que havia dominado suas entranhas e que não era da sua essência e identidade, daí o estranhamento, principalmente após a renúncia do papa Bento XVI, dos fatos que sucederam. Tornou-se às vezes até perigoso evangelizar, aonde parecia não haver mais comunidade (pois não se é cristão sozinho), e a atomização da sociedade, que trouxe perigos e vulnerabilidades. Parecia não haver mais elan e nem elo, quando um pouco mais de entusiasmo era tido por falta de realismo. E havia também quem tirasse proveitos da fragilidade de muitos, que com boa vontade, queriam dar o melhor de si.

O relativismo e as dissimulações ajudaram muito a esvaziar o sentido do Evangelho, a desviar inclusive do que realmente ele propõe, a buscar uma ressignificação que parecia indicar uma “outra Igreja” mais palatável aos apelos da sociedade midiática [aonde a aparência vale muito], cada vez mais plural e atomizada. A catolicidade parecia estar reduzida a alguns guetos, mas a vocação do catolicismo é a universalidade, e não é da identidade católica manter-se em guetos. Mas o que estaria havendo nas paróquias e dioceses, com seus conselhos que mais pareciam células de uma organização política, conselhos ideologizados, impregnados de teologia da libertação e tantos outras influências estranhas à catolicidade?

É evidente que havia sacerdotes e leigos, religiosas também, que buscavam dar o bom testemunho em fidelidade ao Evangelho, mas eram histórias marcadas por heroísmo, e uma espécie de martírio cotidiano, para fazer valer a coerência de vida. Em muitos casos, alguma coisa acontecia indicando que a Igreja do Catecismo não era aquela que víamos, no dia-a-dia, em meio a situações chocantes. “Menos dogma e mais pastoral”, diziam muitos.

Não havia mais o ambiente cristão. Um bom sacerdote, que tinha bom zelo doutrinal, bom gosto, atendendo com solicitude e caridade a todos os que o procuravam, com muita bondade de coração, etc., deu-me de presente uma imagem muito bonita de São Miguel Arcanjo, defensor da vida, ao qual mantenho até hoje em meu escritório. Com tristeza eu soube do bispo emérito, que me ligou outro dia, dizendo, entre outros assuntos, que ele havia deixado o sacerdócio. E muitos haviam tombado, extenuados, eu mesmo, muitas vezes, sem saber o que estava acontecendo com a Igreja dos grandes santos, que o próprio Jesus prometera a São Pedro, de que as portas do inferno não prevalecerão sobre ela.  Ficava cada vez mais difícil a defesa da fé e a defesa da vida, dentro das estruturas da Igreja. Como fazer para manter a coerência de vida? Como fazer para perseverar? Nesse sentido, a oração diária e a leitura da vida dos santos, os sacramentos da penitência e da Eucaristia, muito me ajudaram, mesmo tendo ficado tão debilitado, tantas vezes.

Em 2006 passei a estudar mais profundamente a problemática do aborto e a crise da Igreja, respaldado também pelas catequeses do papa Bento XVI e seus pronunciamentos firmes em relação aos “valores inegociáveis”, que me ajudaram e me fortaleceram muito, porque vinha do papa a palavra que precisávamos para nortear as nossas ações.

No ano seguinte, tive a graça de receber novamente a comunhão das mãos do Sumo Pontífice, no domingo, dia das mães, em 13 de maio de 2007, na missa celebrada na Basílica de Nossa Senhora da Conceição Aparecida.

Pouco antes da sua vinda ao Brasil, o G1 publicou uma reportagem com o título: “Bento XVI, o Papa que diz ‘não’ às mudanças na Igreja”, destacando que ele “se mostra um papa conservador, que diz não ao casamento dos sacerdotes, à comunhão dos divorciados, à Teologia da Libertação, à eutanásia, aos casais que não se casam, à música moderna na missa e à tolerância”.

Ao comentar a exortação apostólica “Sacramentum Caritatis”, Giuseppe Alberigo diz que o texto “reflete a dificuldade que a Igreja tem de acompanhar o ritmo da cultura contemporânea”. Esse era o tom que prevalecia dentro das estruturas da Igreja, seja em conselhos pastorais, universidades, etc. Ainda naquele período, para buscar aprofundar conhecimentos na Doutrina Social da Igreja, fui convidado a participar de um curso de “Fé e Política” e fiquei chocado de ver que não apenas a teologia da libertação, mas outras influências, com outras narrativas, eram difundidas, muitas vezes dissimuladas em eufemismos e interrogações que induziam os participantes do curso a saírem de lá com mais dúvidas em vez de fortalecidos na fé. Em uma das aulas, um padre chegou a questionar dogmas marianos, provocando perplexidade entre os alunos. Retirei-me da sala e não retornei mais ao curso. Depois, quando me ligaram para saber se eu continuaria a frequentar as aulas, eu dissera que não iria mais, pois eu havia me equivocado: pensei que o curso era de doutrina católica.

O relativismo grassava por toda a parte. Mas quando lia e ouvia as catequeses de Bento XVI, havia uma identificação, pois era o que corroborava tudo o que buscávamos para o entendimento do mistério da fé. E mesmo com tão grande relativismo, muitos (especialmente jovens) liam, ouviam e apreciavam as catequeses de Bento XVI, geralmente em suas audiências gerais.

Ao falar de Santo Agostinho, em uma de suas catequeses, proferiu Bento XVI:

“Quando leio os escritos de Santo Agostinho não tenho a impressão que é um homem morto mais ou menos há mil e seiscentos anos, mas sinto-o como um homem de hoje: um amigo, um contemporâneo que me fala, que fala a nós com a sua fé vigorosa e atual. Em Santo Agostinho que nos fala, fala a mim nos seus escritos, vemos a atualidade permanente da sua fé; da fé que vem de Cristo, Verbo Eterno Encarnado, Filho de Deus e Filho do homem. E podemos ver que esta fé não é de ontem, mesmo tendo sido pregada ontem; é sempre de hoje, porque Cristo é realmente ontem, hoje e para sempre. Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida. Assim nos encoraja Santo Agostinho a confiar-nos a este Cristo sempre vivo e a encontrar assim o caminho da vida”.

Palavras assim me reconfortavam, pois sempre acreditei e creio firmemente na fé dos apóstolos, “pregada ontem, é sempre de hoje, porque Cristo é realmente ontem, hoje e para sempre”.

Em 11 de outubro de 2012, Bento XVI  proclamou o “Ano da Fé”, introduzindo um “novo ciclo de catequese”, pois, “ainda hoje temos necessidade que o Credo seja melhor conhecido, compreendido e pregado. Sobretudo, é importante que o Credo seja, por assim dizer, ‘reconhecido’. Com efeito, conhecer poderia ser algo simplesmente intelectual, enquanto ‘reconhecer’ quer significar a necessidade de descobrir o vínculo profundo entre as verdades que professamos no Credo e a nossa existência quotidiana”.  E então, animei-me em escrever o meu livro “A Igreja é Viva e Jovem”, prefaciado pelo bispo-auxiliar do Rio de Janeiro, Dom Antônio Augusto Dias Duarte e o bispo emérito da Diocese de Taubaté, Dom Carmo João Rhoden, com o lançamento na Jornada Mundial da Juventude, em julho de 2013, no Rio de Janeiro. Eu tinha acabado de escrever o livro, quando recebi a notícia da renúncia do papa Bento XVI, em 11 de fevereiro de 2013. Mesmo assim, mantive todo o conteúdo do livro, que foi lançado na JMJ.

*

Sim. Havia a fé, não como um sentimento apenas, expresso em devoção sincera, alimentada interiormente com orações e jaculatórias, diante de imagens sagradas, etc. Mas não havia certos suportes necessários, que tornava cada vez mais frágil a vivência da fé. E muitas vezes quando se buscava o ambiente adequado, não havia.

Não havia disponibilidade de sacerdotes em momentos que requereriam o aconselhamento, os sacramentos da confissão antes da missa, para receber a comunhão em estado de graça, etc, pois muitos sacerdotes se tornaram profissionais de empresas interessados apenas na manutenção material das paróquias. A pastoral da manutenção falava mais alto, muitas vezes. E a caridade, tantas vezes, era apenas retórica de discurso. Na prática, faltava solicitude. Tive sim, alguns poucos bons testemunhos, e pude perceber que quando havia caridade, havia então o imediato reconhecimento familiar, de paternidade. Em uma ocasião, no mosteiro das beneditinas, consegui me confessar, mas somente depois da celebração eucarística, e então não comunguei, pois aguardei primeiro receber a absolvição do sacerdote. Depois da confissão, o padre me disse que daria a comunhão, mesmo tendo já encerrado a celebração. E então, ele levou-me até o altar, auxiliado por uma das religiosas, retirou a hóstia do sacrário, elevou-a dizendo: “Corpo de Cristo!” E ao dizer Amém, senti-me como se estivesse no céu. Foi um momento único, de profunda gratidão.

Pude então compreender que quando um sacerdote leva a sério a sua missão, reflete a luz de Cristo, que os primeiros apóstolos puderam receber pessoalmente. Daí a dimensão apostólica da fé católica. O mistério da fé fez a Igreja atravessar vinte séculos e chegar ao século 21, mesmo em meio tão grandes provações, fulgurar o esplendor da verdade anunciada por Cristo, e que em mim produziu tão grande alegria, quando quis defende-la como embaixador de Cristo.

Bento XVI falou na “perda do vigor”, em sua declaração de renúncia. E eu me vi cada vez mais, em meio aos tempos convulsivos que vieram depois, também com o vigor diminuído, e muitas vezes sem compreender o que estava acontecendo. Mas de modo algum a fé se extinguiu, pelo contrário, pois eu passei a entender melhor do pó que somos feitos, do quanto não temos forças, e do quanto a força da fé não vem de nós mesmos, como diz Santa Teresinha. É Deus quem nos eleva. E como Bento XVI disse em suas palavras de despedida, em Castel Gandolfo, posso dizer o mesmo que sinto como católico apostólico romano:  “…quero ainda, com o meu coração, o meu amor, com a minha oração, a minha reflexão, com todas as minhas forças interiores, trabalhar para o bem comum, o bem da Igreja e da humanidade”.

10 Comentários to “A perda do vigor, mas não da fé.”

  1. Não se preocupem. O fim deste estado de coisas dentro da Igreja, está próximo. Mais próximo do que muitos imaginam…

    • Porque diz isso ? Ainda ontem eu fiz as contas. Supondo que ele renuncie quando Bento XVI renunciou, ainda faltam 4 anos. E mesmo se ele renunciar, a cúria está tão podre…. Não acho que nós iremos presenciar uma recuperação nesse século. Creio que a igreja vai decair de um modo que nunca imaginamos nos próximos anos.

  2. Esse artigo traduz o sentimento que reina na alma de quase todos aqueles que realmente são católicos…

  3. Eu considero o Papa Bento XVI, um homem santo que não teve apego pessoal ao cargo e se sacrificou pela Igreja; um dia o seu ato magnânimo será plenamente esclarecido. Uma profecia não pode ser detida…, a cúpula da Igreja e a maioria dos “fiéis” em geral estavam contra o tradicionalismo pregado pelo Papa, a pressão vinha de todos os lados, então ele disse aos Cardeais “O que queres fazer, faze-o depressa” , assim com Jesus disse a Judas: “O que queres fazer, faze-o depressa” (São João, 13:27).

    Suspeito que a renúncia do Papa e a eleição de Bergóglio é um fato relacionado aos acontecimentos últimos tempos, uma provação que a Igreja teria que passar. Assim como o Diabo entrou em Judas depois da Ultima Ceia aquele raio que caiu na cúpula do Vaticano após a renúncia de Bento XVI certamente não foi uma coincidência…

    “Jesus disse-lhes: “Vi Satanás cair do céu como um raio.” (São Lucas 10, 18)

  4. O nível de humanidade ou de insensibilidade de nosso atual mundo ultra relativizado pelas maléficas ideologias se mede pelo grau deficiente da atual insensibilidade diante da dor humana, sendo a compaixão a melhor expressão dessa compaixão pelos sofridos, injustamente pisoteados, por não nos deixar afetar como católicos tradicionais pelo que acontece pelas inúmeras malfeitorias promovidas injustamente contra eles.
    O caso do professor Néry é facilmente compreensível relativo à sua saída, renuncia(?) do papa Bento XVI, vê-lo nessa situação de rejeitado, seu tempo de pontificado como impecilho de progresso e vigor aos adversarios da Igreja e ainda o combatendo ferreamente, portanto plenamente expulsável e que era o maior impecilho de conspirarem contra a Igreja!
    Sabia-se que era rejeitado, tanto dentro do Vaticano como fora dele, especialmente pelos inimigos da Igreja de diversas categorias, embora por detrás sua arquiinimiga judaico-maçonaria, mãe e patrona das adversarias esquerdas que o assediavam desde dentro e fora do Vaticano – para esses, era um como que condenado à morte!
    Assim, agora emérito, imagine os sofrimentos lhe adicionados por ver sua sede pontificia ocupada pelo papa Francisco agindo, como é acusado, de não lhe seguir os passos e ser tão louvado pelos opositores de seu pastoreio dos cristãos católicos avessos ao relativismo, o qual tanto combateu e hoje em dia incensado por imensas multidões!

  5. Professor Hermes, espero ansioso a publicação do livro do sr., nos dê notícias sobre quando ele sairá.

  6. Me sinto assim, as vezes. Ainda mais com esse pontificado. Mas Jesus nos disse que os tempos seriam difíceis. É seguir adiante e manter a esperança, apesar de toda adversidade, lembrando sempre das promessas de Cristo

  7. Quem espera receber consolações humanas na Religião cujo lábaro é um instrumento de suplício – a Cruz – deve urgentemente reavaliar seus pressupostos e objetivos. Somos todos, uns mais outros menos, “servos inúteis que apenas cumprimos o nosso dever”.

    A catástrofe conciliar platonizou os ambientes católicos. Não lida com dados e pessoas reais. Propõe o bom selvagem de Rousseau, sem mácula e sem maldade; propõe horizontes e ambientes idílicos jamais vistos NEM MESMO nos tempos apostólicos; propõe tudo, menos a Cruz. Nos ambientes falidos e desinteressantes da igreja conciliar, até mesmo quem fala de mortificação – v.g., o OVNIs Day – vive como um rotundo burguês da Era Vitoriana.

    Jesus Cristo nunca prometeu um mar de rosas; prometeu, sim, os espinhos da rosa, ou seja, um mar de contrariedades e perseguições. A igreja utópica composta apenas de pessoas cordiais e amenas já confirmadas na graça só existiu e existe na mente delirante dos protestantes que andam à cata do que lhes parece ser a “igreja primitiva”. A verdadeira Igreja com suas rugas (Ef 5,27), esta poucos a querem. A pseudo-reforma protestante pretendeu ser uma cirurgia plástica avant la lettre, mas se transformou, muito mal comparando, pois já nasceu morta, como se transformou a última duquesa de Alba no fim da vida.

    Então, só nos resta agradecer o fato termos a santa oportunidade nos configurarmos a Jesus Cristo sofredor, muito apesar de nossa absoluta inutilidade pessoal.

  8. Ao Papa emérito, SS. Bento XVI, o meu penhor de eterna admiração: “Divinitus philosophantur, ejusmodi demittentes escam, quae captos usque teneat qui semel eorum degustavere sapientiam”!