Projeto de reforma da Cúria é ”profundamente falho”, diz cardeal Müller.

IHU – O esboço para a reforma da Cúria Romana, recentemente distribuído às Conferências Episcopais, carece de um conceito coerente de Igreja, disse o ex-prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, em uma entrevista ao jornal alemão Passauer Neue Presse, no dia 6 de maio.

A reportagem é de Christa Pongratz-Lippitt, publicada em The Tablet, 08-05-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

“No atual esboço de ‘A Cúria Romana e seu serviço ao mundo de hoje’, não se pode reconhecer um conceito coerente da origem, da natureza e da missão da Igreja”, defendeu o cardeal Gerhard Müller.

Müller disse que a seção sobre a Congregação para a Doutrina da Fé, em particular, mostra uma “flagrante falta de competência teológica”. A linha seguida pelo rascunho oscila entre uma “espiritualização” do ethos que todos os membros da Cúria têm que abraçar e um “conceito mundano de Igreja, que deve ser administrada como uma corporação internacional”. Como resultado, a Cúria estava em uma espécie de limbo, em um estado flutuante, de incerteza, disse.

O esboço é um conglomerado de ideias individuais subjetivas, de desejos piedosos e de apelos morais com citações isoladas de textos do Concílio e dos escritos ou discursos do papa. Acima de tudo, não consegue distinguir claramente entre a instituição mundana do Vaticano como Estado soberano, a Santa Sé como sujeito de direito internacional e os fundamentos puramente eclesiásticos do primado do papa.

“Como bispo de Roma e sucessor do apóstolo Pedro, o papa é o princípio e a base visíveis da unidade de todas as Igrejas locais na fé revelada”, assinalou Müller. As tarefas mundanas da Igreja são secundárias e não vinculadas essencialmente ao papado. Dar prioridade às tarefas mundanas sobre a missão espiritual da Igreja, como acontece hoje, é um erro que deve ser evitado a todo custo, enfatizou.

A seção sobre a Congregação para a Doutrina da Fé mostra uma surpreendente “falta de noção teológica” por parte dos autores. “Conceitos básicos de teologia católica como Revelação, Evangelho, Sagrada Escritura, Tradição Apostólica ou Magistério são usados de forma imprecisa ou errada”, afirmou Müller, e só se pode esperar que toda a seção sobre a Congregação para a Doutrina da Fé seja “reescrita do zero” por um teólogo qualificado e canonista.

Müller detestou o fato de não haver mais uma congregação “suprema”. “O esboço é um plano desorganizado que reúne 16 dicastérios. O serviço de caridade do papa (Esmolaria), por exemplo, precede a Liturgia e os Sacramentos. A evangelização ocupa o primeiro lugar, embora, na verdade, seja uma tarefa para toda a Igreja e não especificamente para o papa”, disse Müller. Infelizmente, nesse esboço, a promulgação da Doutrina da Fé é uma “tarefa arbitrária do papa entre muitas outras tarefas e vem depois de suas outras tarefas”, disse Müller.

4 Comentários to “Projeto de reforma da Cúria é ”profundamente falho”, diz cardeal Müller.”

  1. A tática dos hereges infiltrados é desconsiderar a hierarquia de todos os assuntos – sem esquecer de antes dessacraliza-los -, misturar no liquidificador e pronto, fica essa confusão absurda. Tarefa árdua e quase impossível é consertar isso no ponto em que chegamos.

  2. Estamos lascados…Meu Deus misericórdia

  3. Há alguns anos, o simples “status” preeminente da Doutrina da Fé entre os demais dicastérios da Cúria já passava uma mensagem relativa ao que se considerava mais importante. Hoje em dia, como bem sublinha o Cardeal Müller, as prioridades parecem ser outras. A dita “caridade” sem o embasamento da fé, em que se torna? A “política externa” do Vaticano em que se converte? Creio que respostas a tais questionamentos se podem ver diuturnamente desenhadas no que nos chega de Roma e em suas consequências, na confusão generalizada, nos desconcertantes silêncios, nas propositais ambiguidades de discurso, num exercício arbitrário da autoridade, ora omissa, ora implacável… Os exemplos multiplicam-se.

  4. “…não consegue distinguir claramente entre a instituição mundana do Vaticano como Estado soberano, a Santa Sé como sujeito de direito internacional e os fundamentos puramente eclesiásticos do primado do papa.”
    Desmontar este tripé é desmontar para sempre a Igreja. Não gostaria de ser o papa no dia em que isto acontecer.