Francisco, Amoris Laetitia e o Vaticano II.

Amoris lætitia representa, na história da Igreja dos últimos, o que Hiroshima ou Nagasaki foram para a história moderna do Japão: humanamente falando, o dano é irreparável […] Amoris laetitia constitui um dos resultados que, cedo ou tarde, dar-se-ia das premissas estabelecidas pelo Concílio [Vaticano II]. O Cardeal Walter Kasper já havia enfatizando que a uma nova eclesiologia — a do Concílio — corresponde uma nova concepção de família cristã.

De fato, o Concílio é principalmente eclesiológico, isto é, propõe em seus documentos uma nova concepção da Igreja. De maneira simples, a Igreja fundada por Nosso Senhor já não equivaleria à Igreja Católica, mas se trataria de algo mais amplo, que incluiria as demais confissões cristãs. Como resultado, as comunidades ortodoxas ou protestantes teriam a “eclesialidade” em virtude do batismo. Em outras palavras, a grande novidade eclesiológica do Concílio é a possibilidade de pertencer à Igreja fundada por Nosso Senhor em diferentes formas e graus. Daí a noção moderna de comunhão total ou parcial, “com geometria variável”, poderíamos dizer. A Igreja se tornou estruturalmente aberta e flexível. A nova modalidade de pertença à Igreja, extremamente elástica e variável, segundo à qual todos os cristãos estão unidos na mesma Igreja de Cristo, constitui a origem do caos ecumênico.

[…]

Concretamente, do mesmo modo que a Igreja de Cristo “pan-cristã” teria elementos bons e positivos fora da unidade católica, haveria igualmente elementos bons e positivos para os fiéis fora do matrimônio sacramental, por exemplo, em um matrimônio civil, e também em qualquer outro tipo de união. Assim como já não há mais distinção entre uma Igreja “verdadeira” e igrejas “falsas”, dado que as igrejas não católicas são boas, embora imperfeitas, igualmente todas as uniões se tornam boas, porque sempre há algo bom nelas, mesmo que somente o amor. […] Deste modo, o ensinamento objetivamente desconcertante do Papa Francisco não supõe uma consequência estranha, mas uma consequência lógica dos princípios estabelecidos pelo Concílio. O Papa extrai dela algumas conclusões últimas… por ora.

Da entrevista do Superior Geral da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, Padre Davide Pagliarani, publicada hoje

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20 Comentários to “Francisco, Amoris Laetitia e o Vaticano II.”

  1. Bem, não concordo absolutamente com isso.. então, segundo a igreja do V2, não sou católico! Não farei parte dessa sopa religiosa relativista, procurem outro!

  2. Apenas para refletir: então o Sedevacantismo está tem lógica, pois não é possível que a Igreja Católica autêntica ensine ou defenda algo nocivo à fé de no seu próprio magistério ordinário, ainda que somente pastoralmente, pois “lex orandi lex credenci”.

    • Prezado Heitor, salve Maria. A Igreja Católica é a coluna e o sustentáculo da verdade e o Papa é a regra viva da fé. Nenhuma lei vinda da Igreja, nenhuma encíclica, nenhuma missa, catecismo ou Código de Direito Canônico, nenhum Concílio Ecumênico, nada, nada e nada vindo dela, em seu magistério, em sua disciplina ou em seus costumes pode desviar os fiéis para o abismo. E quem nega isso nega o catolicismo que diz defender. Infelizmente, os tradicionalistas demonizaram tanto o sedevacantismo nas últimas décadas que para não ficarem sedes rejeitam a doutrina a respeito do Papado. Isso já foi provado um milhão de vezes, mas eles não querem ouvir, não querem ser católicos, querem apenas estarem certos, querem corrigir o mundo todos mas não aceitam serem corrigidos. Abra seus olhos e não se iluda pelos argumentos toscos da turminha do R&R…

  3. O problema não é o Concílio e sim o “espírito do concílio”, por exemplo na Polônia e África a evangelização floresceu depois do concílio e os padres são conservadores, São João Paulo II e Bento XVI participaram do concílio e são extremamente fiéis a doutrina tradicional, já na Europa Ocidental e Américas o chamado”espírito do concílio” levou ao caos que vemos hoje!

  4. Facilitou e muito ao sedizente reformista papa Francisco a DECLARAÇÃO NOSTRA AETATE SOBRE A IGREJA E AS RELIGIÕES NÃO-CRISTÃS, um ex., é a convergencia dela com o Islã, ” A Igreja olha também com estima para os muçulmanos. Adoram eles o Deus Único, vivo e subsistente, misericordioso e omnipotente, criador do céu e da terra, que falou aos homens e a cujos decretos, mesmo ocultos, procuram submeter-se de todo o coração, como a Deus se submeteu Abraão, que a fé islâmica de bom grado evoca. Embora sem o reconhecerem como Deus, veneram Jesus como profeta, e honram Maria, sua mãe virginal, à qual por vezes invocam devotamente. Esperam pelo dia do juízo, no qual Deus remunerará todos os homens, uma vez ressuscitados. Têm, por isso, em apreço a vida moral e prestam culto a Deus, sobretudo com a oração, a esmola e o jejum.
    E se é verdade que, no decurso dos séculos, surgiram entre cristãos e muçulmanos não poucas discórdias e ódios, este sagrado Concílio exorta todos a que, esquecendo o passado, sinceramente se exercitem na compreensão mútua e juntos defendam e promovam a justiça social, os bens morais e a paz e liberdade para todos os homens”, – nesse caso, nivelando a SS Trindade à pagã deusa lua do Islã.
    Varios procedimentos do papa Francisco desde seus tempos de sacerdote, bispo e cardeal são irrecomendaveis; então, após papa, regozijaram-se todas as esquerdas, tributarias da maçonaria e ela mesma, inimigos radicais da Igreja católica e L Boff disse claramente, em videos: “ele é um dos nossos” e o relativista D C Hummes satisfeito e aparecendo logo após sua eleição junto a ele – péssimo sinal
    Padres Jesuítas recentemente dizendo terem verificado nas redes e um deles responderem que papa Francisco não é um “marxista estrito”, é “apenas alguém que acredita profundamente na teologia da libertação-TL é lamentável, como sabemos e temos certeza de ser o material-ateísmo sob formas escamoteadas sutis de religião católica.
    … *”A Igreja se tornou estruturalmente aberta e flexível. A nova modalidade de pertença à Igreja, extremamente elástica e variável, segundo à qual todos os cristãos estão unidos na mesma Igreja de Cristo, constitui a origem do caos ecumênico”, resumível no panteísmo, sincretismo, a um falsario “Lutero testemunho do Evangelho”, a um não existe um Deus católico, a um “Ninguém pode ser condenado para sempre, porque esta não é a lógica do Evangelho” etc. etc!
    Assim, colocar-se-ia o papa Francisco como legislador, elaborando uma nova religião às paralelas da Igreja católica, não mais o Vigario de Cristo Jesus!
    Aos comuno-marxistas e TLs eventualmente assumidos de corpo e alma: “Seus pés correm para o mal: têm pressa de derramar o sangue inocente. Meditam projetos malignos, só se encontram sobre sua passagem estrago e ruínas; o caminho da paz lhes é desconhecido, seguem atalhos tortuosos, onde aqueles que passam ignoram a felicidade”. Is 59 7-8.
    *Pena que os clérigos opositores, bem poucos, aparecerem após muitos anos e às supostas (de)reformas!

  5. Quem afirma que o problema não está no concílio Vat II e sim no “espírito do concílio”, desconhece a guerra que foi travada no concílio, desconhece a guerra que São Pio X fez com sua encíclica Pascendi e o decreto Lamentabili, desconhece a historia do catolicismo liberal, desconhece a “Nouvelle théologie” de Blondel, De Lubac & cia.
    É uma visão incompleta do drama que vivemos. Falta formação.
    Recomendo:
    O reno se lança no Timbe – Ralph Wiltgen;
    La Iglesia ocupada – Jacques Ploncard d’Assac;
    “Os Que Pensam Que Venceram”, publicados em 1993 pelo Sì Sì No No, jornal italiano de defesa da Tradição Católica;
    Iota Unum – Romano Amerio;
    Histoire du Catholicisme Libéral – Emmanuel Barbier;
    Prometeo o la religión del hombre – Padre Álvaro Calderón SSPX.

  6. Lembro-me como se fosse hoje que, durante o pontificado de João Paulo II, os progressistas espalhavam por toda a parte que todas as “Igrejas” eram boas, porque falavam de Deus e, se falavam de Deus, estavam ensinando o bem, coisas boas etc. E isto porque aprendiam tais heresias do clero progressista em igrejas com fachada católica.
    O mesmo João Paulo II mandou os católicos do mundo inteiro a se distanciarem do “movimento” liderado pelo Arcebispo Lefebvre, por meio do Motu Proprio Ecclesia Dei. Enquanto o Concílio Vaticano II mandava os católicos do mundo inteiro respeitarem e estimarem as inúmeras riquezas espirituais dos “irmãos separados”, com colaboração mútua, inclusive no âmbito eclesial, por meio da Lumen Gentium e do Unitatis Redintegratio.
    Tudo por causa da praga de um texto que reconheceu em âmbito eclesial [no interior da Igreja], as seitas, cismas e heresias como cristãs.
    Indo mais além: a Igreja abraça e venera os hereges [aqueles que ela condena e excomunga]. Destruindo a Fé de muitos e conduzindo-os ao indiferentismo religioso.
    Existe um conceito herético de Igreja Cristã na Lumen Gentium, que é o pan-cristianismo. Uma nova teologia para fundamentar o projeto ecumênico.
    Os católicos não podem aceitar que num documento oficial da Igreja Católica, de caráter teológico – portanto para basear a catequese -, sejam as seitas reconhecidas como cristãs. É inadmissível uma coisa dessas.
    O máximo que a gente faz é, fora do âmbito eclesial, portanto em meio secular e em questões meramente sociais, englobar na designação “cristãos” aqueles que assim se denominam, apenas por motivo de educação, e questões sociais para se promover a paz.
    Obviamente, uma Constituição Dogmática não pode se pautar por etiquetas e razões político-sociais.

  7. A respeito de meu comentário acima, o post do padre José Antônio está especificamente neste publicação
    https://fratresinunum.com/2019/06/04/novo-livro-expoe-o-esquema-diabolico-usado-pelos-inimigos-da-igreja-catolica-para-ganhar-acesso-ao-papado/

  8. Quem acha que o Concílio em si não foi o problema, procurem em posts anteriores aqui mesmo no Fratres, os comentários do padre José Antônio. Não faz muito tempo ele, que foi ordenado em 1965, conta com detalhes como ele e seus colegas foram sendo afastados e aos poucos aposentados pela nova hierarquia que se instalava na Igreja naquela época, simplesmente porque não estavam se “adaptando à nova primavera da Igreja”.

  9. Sempre a mesma estória do “espírito do concílio”. A tragédia não é (apenas) a má interpretação, mas o veneno mesmo instilado em alguns documentos do conciliábulo dito “Vaticano 2”.

    Um erro preliminar consiste em pensar que tudo foi regular, canonicamente regular; pensando assim, o conciliábulo teria as prerrogativas do exercício do Magistério. O problema é que a regularidade canônica foi quebrada. Romano Amerio o prova convincentemente no seu documentadissimo livro “Iota Unum”.

    Quem acompanhou o “sínodo da família”, viu como o Nefasto e sua trupe grotesca e saunesca impuseram o seu lixão contra o voto da maioria dos bispos. E assim foi o V2.

    Muitas outras coisas que precedem a sandice de João XXXIII e de seu fiel escudeiro, Montini, Paulo VI, o mundano.

    Pelos frutos, a árvore. O vaidoso, obstinado e teatral João XXXIII não ouviu ninguém. Os cardeais foram pegos de surpresa com o anúncio de que ele chamaria um concílio; os cardeais ficaram sabendo da noticia junto com a imprensa – que desdém! – naquele infausto e funebre 25 de janeiro que dá inicio à fase final da paixao da Igreja católica. Resta-nos a certeza da sua ressureição.

  10. VIVENDO ATRAVÉS DO COLAPSO: UMA BIOGRAFIA IMAGINÁRIA
    Peter Kwasniewski
    Você nasceu em 1938. Você cresceu em uma paróquia onde várias missas dominicais estavam cheias de católicos. Algumas de suas lembranças mais antigas são os chapéus e véus que as mulheres usavam como o toque final em seu melhor visual de domingo, os terninhos elegantes e os sapatos polidos.
    Você aprendeu seu catecismo na forma de perguntas e respostas – e até o presente você pode se lembrar de seções inteiras dele. Você jejuou o melhor que pôde por toda a Quaresma e sempre comia peixe às sextas-feiras. Não havia dúvida de ir se confessar antes da comunhão.
    Seu tempo como um coroinha no final dos anos quarenta ensinou disciplina, observação e reverência. Você sentiu um senso de humildade misturado com orgulho em poder entrar no santuário incrível ao lado do padre e observá-lo fechar enquanto ele sussurrava as estranhas palavras da missa.
    Você tem lembranças marcantes da igreja quieta no início da manhã com o sol passando pela janela do leste; você vê a costura dourada na casula, você sente a superfície dura e lisa da biretta que o padre lhe entregou.
    Em 1955, sua semana da Páscoa mudou drasticamente. Algumas pessoas participavam das cerimônias da tarde ou da noite pela primeira vez, mas outras que haviam frequentado a escola no início da manhã antes do trabalho, ou que faziam um retiro anual nos mosteiros próximos, pararam de ir. Havia alguns novos aspectos estranhos, como o padre diante do povo para a bênção das palmas das mãos, e todos recitando o Pai-Nosso juntos na Sexta-Feira Santa. Você imaginou, porém, que a Igreja deve saber o que está fazendo.
    Em 1964 tudo mudou ainda mais dramaticamente. O padre virou-se e disse missa para o povo, como se eles fossem um público, e não coparticipantes, na oferta de um sacrifício divino. A música foi de repente muito diferente: folclórica, vernácula, um pouco boba. O canto gregoriano desapareceu completamente, como se fosse algo para se envergonhar. Vestimentas, decorações, arquitetura, tudo se tornou simplificado, angular e sem atrativos.
    Você se casou nessa época, e você e sua noiva imploraram a um padre para uma missa nupcial digna no estilo antigo, que não era nada fácil de arranjar. O padre havia dito: “O Concilio Vaticano II quer” – essa era uma abertura já banal para todas as outras sentenças e parecia um cobertor gigante que cobria uma multidão de pecados – “todos envolvidos na missa, com corações e vozes felizes”. Você não deveria estar sentado lá sonhando acordado enquanto eu faço tudo. “Você foi educado e agradeceu a ele por sua disposição de seguir com seus modos não reformados”. (Isso foi em uma época em que o clero geralmente respeitava os fiéis, mesmo quando os fiéis geralmente respeitavam o clero. Não demorou muito para que tudo aquilo fosse embora.)
    No Advento de 1969, tudo mudou novamente. Houve um novo rito de missa. As orações familiares desapareceram. O latim não foi mais ouvido. Foi como uma denominação diferente. De fato, alguns amigos seus disseram: “A Igreja Católica não sabe o que quer ser? Essa mudança radical a cada cinco anos parece uma falta de confiança ou uma crise de identidade ou algo assim. “E nós não pedimos as” mudanças; elas foram impostas de cima como “a vontade do Concílio” e “a vontade do Papa” e “o sinal de que a Igreja está viva!” Mas era estranho, no entanto, que menos pessoas estavam indo à igreja – você não podia ajudar a perceber isso. Quando você pensou que a Igreja estava viva, você pensou na sua infância. Isso é quando havia vitalidade, convicção, algo confiável para voltar semana após semana e descansar sua vida.
    A sociedade estava em convulsão e a sua Igreja também. Você nunca pensou na Igreja como mutável; ela parecia uma pedra sólida no meio das ondas quebrando. Mas agora ela também era tão instável e imprevisível quanto às ondas, e estava pronta para mudar de forma ou cor, dependendo do clima. Massas de pessoas saíram ou se afastaram. Você ficou na igreja por teimosa sensação de lealdade. Já estava claro para você agora que não, a Igreja não sabe o que ela estava fazendo. Ela havia perdido a cabeça. Ou, mais precisamente, seus líderes
    haviam perdido a cabeça e estavam fazendo uma espécie de versão tímida do mundo secular – vagando, à deriva, tropeçando, fazendo suposições loucas. Você tentou dar-lhes o benefício da dúvida, se pudesse, mas quando lhe ocorreu um dia que os padres da Idade Média sabiam mais latim que os sacerdotes de hoje, você finalmente perdeu o restante da ilusão.
    Décadas passaram. Padres iam e vinham. Sua paróquia foi renovada duas vezes: a primeira vez que foi caiada, virou de cabeça para baixo e brutalizou a crença passada. Imagens familiares, candelabros e bancos foram removidos, e grandes objetos grossos – em particular, uma pia batismal que parecia uma combinação de fonte de água e recipiente de lixo em um Parque Nacional – foram instalados. Estandartes de feltro estavam pendurados ao redor, lembrando-o de o verso da escritura: “haja trevas sobre a terra do Egito, tão densas que se possam sentir” (Êx 10:21). Você e alguns paroquianos tentaram dissuadir o padre de muitas dessas mudanças, mas ele era inflexível, com um brilho nos olhos como o de um profeta recém-ungido.
    Cerca de duas décadas depois, surgiu outro padre que arrecadou ainda mais dinheiro para outra reforma. Esse sujeito bondoso colocou a igreja (mais ou menos) de volta ao que tinha sido exceto que não era tão linda quanto no início. Um amigo seu no conselho paroquial perguntou ao padre, com um toque de exasperação: “Por que nós nos preocupamos tanto, e gastamos tanto dinheiro, eviscerando a igreja, quando agora estamos tentando fazer com que ela pareça o caminho? O que ele fez? ”Sua resposta foi que nós tivemos tempo para amadurecer em nossa“ recepção do Concílio “e estamos corrigindo alguns dos desequilíbrios que vieram em primeiro lugar”. Sua reação, apesar de você não ter dito em voz alta: “Vocês, novos profetas, devem seguir na mesma página”. É desconcertante ter o Espírito se contradizendo a intervalos regulares”.
    Sua paróquia hoje é considerada saudável. As missas aos domingos não são exatamente lotadas, mas todos os bancos têm pessoas nelas. A música é geralmente bem chata, mas você acha que pode ser pior. As homilias são magras, mas pelo menos não são escandalosamente ruins. Você perdoa o pregador por sua falta de educação e cultura, porque você sabe como são os seminários. A “experiência de adoração”, como você já ouviu as pessoas chamarem, deixa muito a desejar. Se você tivesse que resumir, a palavra “medíocre” me viria à mente. É meio que… morno. Católicos meio-crentes, meio envolvidos em uma celebração meio-séria da religião de meio período. Se você pensar muito sobre isso, ficará deprimido. Se você prestar muita atenção na igreja – à maneira como as pessoas se vestem ou como elas recebem a comunhão ou o que as músicas estão dizendo – você obtém realmente deprimido.
    Quando as coisas ficam difíceis, você tira um pequeno livro de orações do bolso, por volta de 1949, que tem preces amadas e gravações em preto-e-branco dos mistérios do Rosário. Você coloca sua mente em mil versos, e a dor da Missa acaba passando.
    Você sabe que uma minoria de dioceses e paróquias de todo o país oferece a antiga missa em latim, aquela com a qual você cresceu e sente muita falta ( se você se deixa pensar sobre isso, o que você tenta não fazer com muita frequência). Você pensou mais de uma vez em fazer uma longa viagem em seu carro para chegar a uma, ou talvez até se mudar para uma cidade diferente, mas você está vivendo onde está por tanto tempo, você não tem energia para uma grande mudança como essa, e o caminho para o local mais próximo é realmente muito longe para você, com a condição dos seus olhos. “Deve ser bom ter uma bela igreja com uma bela missa”, você medita – imaginando, como você faz de vez em quando, o que aconteceu com a igreja confiante, organizada, unificada, florescente e até arrogante de sua juventude, mas igreja de hoje rejeita isso e Hollywood agora lhe diz o que fazer e onde ir.
    Você ainda confia no Senhor para levá-lo a si mesmo algum dia, porque, por Sua graça, você tem sido fiel ao longo de todos esses anos, mesmo quando a coisa era pura e difícil. Aquelas velhas palavras que você lembra do seu tempo como um coroinha nos anos 40, vêm a você de tempos em tempos: Quare tristes es anima mea, et quare conturbas me? Spera em Deo, quoniam adhuc confitebor illi: salutare vultus mei, e Deus meus. Por que és triste, ó minha alma, e por que me inquietas? Espero em Deus, porque ainda o louvarei: a salvação do meu semblante e do meu Deus.
    Esperança em Deus … No seu trono, você quer perguntar a Ele, humildemente, mas com determinação, por que Ele deixou tudo isso acontecer. Que bem serviu, ó Senhor? Onde está a renovação que eles continuaram latindo incessantemente? Renovação, renovação, renovação – mesmo quando os seminários e conventos se esvaziavam; mesmo quando os escândalos de abuso sexual atingem a mídia; mesmo agora, quando a paróquia depois da paróquia está sendo fechada por falta de crentes – isso foi renovação? Um pensamento irônico que lhe ocorreu: “Eu odeio ver como seria o colapso institucional”.
    Você leu em algum lugar que Ratzinger disse certa vez sobre os liturgistas e suas liturgias de animais de estimação: “São os mortos enterrando os mortos e chamando-os de renovação”. Sim, isso parece atingir o alvo. Você sabe, pela primeira vez, que a hierarquia da Igreja ainda está enfrentando de maneira séria a magnitude dos danos institucionais, danos psicológicos e malestar espiritual causado aos fiéis pelas mudanças litúrgicas dos anos 1960 e 1970 – o sofrimento infligido a tantas pessoas, a confusão e desânimo, desgosto, raiva, desespero. Ou, para a minoria que a rodeou, a vaidade, as viagens de poder e a falta de compaixão, os sacrilégios, a destruição da inocência infantil, a politização. João Paulo II se desculpou por muitas coisas, às vezes coisas que ele não deveria ter se desculpado, mas ele mal começou na lista de coisas para se desculpar das décadas de 1960 e 1970. Essa lista continua para sempre.
    Em 1980, apenas um pouco mais de uma década depois que os últimos remanescentes da antiga liturgia reconfortante foram colocados no buraco da memória e um novo e elegante foi imposto em seu lugar, João Paulo II deu um primeiro passo para se desculpar, em um documento chamado Dominicae Cenae. Você se lembra disso porque, aos 42 anos, estava tendo uma crise de meia-idade em sua fé, e de alguma forma você acabou com um panfleto deste documento e decidiu lê-lo. Você encontrou linhas que ressoaram com você:
    Eu gostaria de pedir perdão – em meu nome e em nome de todos vocês, veneráveis e queridos irmãos no episcopado – por tudo o que, por qualquer motivo, por qualquer fraqueza humana, impaciência ou negligência, e também através do Por vezes parcial, unilateral e errônea aplicação das directivas do Concílio Vaticano II, pode ter causado escândalo e perturbação relativa à interpretação da doutrina e da veneração devido a este grande sacramento. E rogo ao Senhor Jesus que, no futuro, possamos evitar em nossa maneira de lidar com esse mistério sagrado qualquer coisa que possa enfraquecer ou desorientar de qualquer maneira o senso de reverência e amor que existe em nosso povo fiel.
    É claro que isso não fazia diferença na forma como seu padre tratava de seus negócios seculares no santuário e em seus negócios sagrados no campo de golfe, mas era algo, uma espécie de mensagem em uma garrafa que chegava à sua ilha deserta, e lhe assegurava que em um lugar distante pelo menos, os padrões ainda existiam, assim como a simpatia em um coração humano.
    Embora você se mantivesse ocupado com sua família, seu trabalho e seus hobbies, e suportasse as travessuras da paróquia local enquanto tentava manter uma distância respeitosa, de vez em quando tentava acompanhar as notícias eclesiásticas. A internet tornou isso mais fácil, uma vez que você encontrou algumas fontes nas quais podia confiar, como “O que a oração realmente diz?” Do padre. Z (o que você teria feito sem seus artigos ao longo dos anos?). Foi o padre. Z, que o tornou ciente do Summorum Pontificum e da carta que o acompanha, Bento XVI, escreveu aos bispos do mundo. O sujeito ousado, aquele Ratzinger, escrevendo com lógica e compaixão para um episcopado que não praticava nem acreditava em sua existência.
    Você teve outro momento de ilha deserta quando se deparou com estas palavras de Bento XVI:
    Muitas pessoas que claramente aceitaram o caráter vinculante do Concílio Vaticano II, e eram fiéis ao Papa e aos Bispos, no entanto, também desejavam recuperar a forma da sagrada liturgia que lhes era cara. Isto ocorreu acima de tudo porque em muitos lugares as celebrações não eram fiéis às prescrições do novo Missal, mas o último realmente era entendido como autorizando ou mesmo exigindo criatividade, o que frequentemente levava a deformações da liturgia que eram difíceis de suportar. Falo da experiência, pois também vivi esse período com todas as suas
    esperanças e sua confusão. E vi como deformações arbitrárias da liturgia causaram profunda dor a indivíduos totalmente enraizados na fé da Igreja.
    Uma sugestão de realismo compassivo, falado em voz alta no meio do Paraíso dos Trabalhadores Católicos! Você se sentiu compreendido, resgatado, vindicado. Com a juventude renovada como a da águia, você encontrou um grupo de católicos que concordaram em assinar uma carta pedindo a missa antiga, assumindo que o que Bento XVI pediu para ser seguido seria seguido: “nas paróquias, onde um grupo de fiéis se a tradição litúrgica anterior estiver estavelmente presente, o pastor deve aceitar de bom grado seus pedidos para celebrar a Missa de acordo com o rito do Missal Romano publicado em 1962. ”
    Você deveria saber melhor. O padre lhe deu um olhar impaciente e hostil quando você levantou o assunto com ele no almoço um dia. Pensando que ajudaria o seu caso, você deu a ele a carta com as assinaturas. Ele ficou ligeiramente roxo e pareceu perder o interesse por sua sobremesa. Esforços subsequentes de você e de outros levaram a exatamente nada. Um padre simpático de uma paróquia diferente lhe disse que o bispo não era amigo desse velho material pré-conciliar e que seria melhor não incomodá-lo com isso. Foi quando você percebeu que Summorum Pontificum Era um bom documento com boa linguagem, mas sem dentes, e que o pessoal bemintencionado da Ecclesia Dei também não possuíam poder de fogo. Seus cuspidores epistolares podiam levantar uma sobrancelha em um leitor possuidor de consciência, mas contra uma mitra de poliéster realmente durável, eles não poderiam causar nenhum dano.
    Então você suspira e pega as contas do Rosário – pelo menos elas não foram proibidas ou tiradas. Pode não haver muita esperança para você no seu bosque, mas você imagina que os outros estão se saindo melhor em outro lugar, e, além disso, você está ficando velho e não deve esperar muito ou reclamar. Afinal de contas, o Senhor abençoou você de muitas outras maneiras: sua esposa, seus filhos, seus netos, sua saúde decente (todas as coisas consideradas), seu interesse em outras coisas que fazem sentido e funcionam corretamente. Na sua idade, você pode aguentar algo um pouco mais. Então é adeus ao mundo e sua bagunça. Alguns problemas só Deus pode consertar.

    • Peter Kwasniewski está correto pois a facilitação de mais facilmente espalhar-se o comunismo teria advindo do papa Paulo VI e adjuntos, de não apertar o cerco ao comunismo e a condená-lo formalmente, assim, facilitando eclosão de grupelhos de progressistas, como modelos denominados “Pacto das Catacumbas”, de uns D Hélder & Cia infiltrarem pacificamente umas como a TL-KGB e agentes vermelhos pró PCs na Igreja Católica!
      Dessa forma, geradores de eleições de partidos comunistas como aqui o bestial PT, devastando no mundanismo as consciencias ainda católicas mais tradicionais!
      Nunca culpemos o Vaticano II em si, conciliábulo e mais pejorativos, porém, maus elementos nele que se introduziram por lhes facilitarem acesso, caso de protestantes e cismáticos, em geral, esses últimos compondo-se de introduzidos – eram agentes soviéticos-maçonaria!

  11. O livro infiltracao do Teologo Taylor R. Marshall e muito bom, para quem le ingles vale a pena.

  12. Sandro de Pontes,

    Grato pelo seu comentário. Mas eu não trouxe o argumento R&R, trouxe uma reflexão sedevacante. Eu não sou sedevacante, na minha consciência pessoal não assumi essa tese, mas trouxe justamente porque há décadas , um grupo enorme de fiéis, que se reconhece o Papa e o magistério mas se resiste a ele. Dia e noite fica de punhos cerrados, filtrando o que vem de Roma. Isso está certo? Qual a sua posição?

    • Prezado Heitor, salve Maria. A minha posição é a católica: o Papa é a regra viva da fé, é o doce Cristo na Terra. Ponto final. Fora dele existe somente o cisma e as contendas. A sede está vacante desde a década de 1960 pelo menos e se você precisar eu te envio um documento com ensinamentos católicos referentes ao papado feitos por santos doutores, teólogos aprovados e papas nos últimos dois mil anos. Abraços.

  13. A melhor prova de que o Vaticano II é problemático (para não dizer que não vale um traque) é que os cardeais e bispos ditos conservadores, em suas controvérsias contra os erros gritantes propagados por Francisco Bergoglio, não conseguem fundamentar uma refutação dos mesmos utilizando-se dos documentos do conciliábulo Vaticano II, mas, contraditoriamente (porque aceitam o concílio, digo contraditoriamente), têm eles de citar o verdadeiro magistério dos papas anterior ao referido conciliábulo.

  14. A Igreja Ortodoxa é Católica, não só pelo batismo, mas por confessar o credo, ter Missa e sacramentos válidos. Os protestantes não tem nada.

    • A Igreja “Ortodoxa” não é católica. É herege (nega o Filioque) e é cismática (não se submetem ao papa enquanto ele age com tal). Rezemos pela conversão deles que estão fora da Igreja