Os sete degraus do Altar: a concepção tradicional do Sacramento da Ordem.

Por Cônego Heitor Matheus, ICRSS

Neste ano, na festa da Visitação da Bem-Aventurada Virgem Maria (2 de julho), nosso Instituto teve a grande alegria de dar mais nove sacerdotes à Igreja – mais nove homens que foram ordenados para continuar a obra da Redenção de Nosso Senhor Jesus Cristo. Por esse motivo, hoje gostaria de falar sobre esta bela aventura que chamamos de vocação e como um homem se torna sacerdote.

Como em um grande quebra-cabeça, Deus tem um lugar reservado para cada um de nós, e temos o dever de tentar descobrir onde é o nosso lugar. E eu lhes afirmo que só seremos felizes, felizes de verdade, na vocação que Deus tem para nós. Nossa vocação é a decisão mais importante que temos que tomar nesta vida: ela decidirá o curso de nossa vida aqui no tempo, mas também na eternidade.

Mas, como descobrimos nossa vocação? Em primeiro lugar, devemos saber que a palavra “vocação” significa “chamado”. A vocação é um chamado de Deus. Não ouvimos esse chamado com os ouvidos do nosso corpo, mas podemos percebê-lo pelos afetos do nosso coração. Por exemplo, quando um jovem gosta de ir à igreja, servir o Altar, estudar a Fé, dedicar tempo à oração … quando ele é como que atraído por uma força secreta para as coisas de Deus. Esses são sinais de vocação.

Quando um jovem pensa ser chamado por Deus, ele deve se aconselhar com um sacerdote, a fim de discernir a vontade de Deus em sua vida. E se ele realmente pensa que está sendo chamado por Deus e pretende responder a este chamado, ele irá então para o Seminário, onde iniciará essa bela caminhada que o levará ao Altar de Deus.

Agora, uma coisa tem que ser dita: o seminário não é reservado só para quem é muito inteligente, não. É verdade que o seminarista terá que estudar, e estudar muito, mas mesmo que não seja tão brilhante, ele pode ser padre, e um bom padre. Um sacerdote não precisa ser um cientista, mas um homem de Deus, um homem que serve a Deus na pobreza, castidade e obediência.

Assim, após o primeiro ano de formação, o jovem seminarista receberá a batina, que é a farda do exército de Cristo. E ele estará vestido de preto, porque ele deve estar morto para o mundo, e as coisas do mundo não devem significar nada para ele.

Depois da batina, o seminarista receberá o que chamamos de “tonsura”. A tonsura é uma cerimônia muito antiga, em que o bispo corta o cabelo do jovem em forma de cruz, e o jovem repete depois do bispo as palavras do Salmo XV: Dominus pars hereditatis meae et calicis mei, tu es qui restitues hereditatem meam mihi. “O Senhor é a parte da minha herança e meu cálice, tu és aquele que restaurará a minha herança para mim.” O seminarista declara que o Senhor é a sua porção e seu quinhão neste mundo, como os levitas do Antigo Testamento. E este é o significado da palavra “clérigo”: ter o Senhor como nossa porção e ser nós mesmos a porção do Senhor.

Tonsura

Tradicionalmente, a tonsura é considerada a entrada no estado clerical e conduz o jovem seminarista aos sete degraus do altar, que são os sete graus do sacramento da Ordem. Portanto, embora o sacramento da Ordem seja um, ele é dividido em graus, e o seminarista subirá um degrau de cada vez.

O primeiro degrau é a Ordem de Ostiário, e por esta ordem o seminarista recebe a incumbência de abrir e fechar a igreja, e cuidar dos vasos sagrados.

Ostiario: entrega da chave

O segundo degrau é a Ordem de Leitor, e por esta ordem o seminarista recebe a tarefa de ler as Sagradas Escrituras durante o Ofício Divino e catequizar o povo.

Leitor: entrega do livro

O terceiro degrau é a Ordem de Exorcista, e por esta ordem o seminarista recebe o poder de expulsar o demônio dos corpos daqueles que estão possuídos (embora o uso desse poder esteja sujeito a formação e permissão adicionais).

Exorcista: entrega do livro

O quarto degrau é a Ordem de Acólito, e por esta ordem o seminarista recebe o ofício de servir a Santa Missa.

Acólito: entrega da vela

Acólito: entrega das galhetas

Estas são as quatro ordens que chamamos de menores. E em seguida vêm as três ordens ditas maiores.

O quinto degrau do Altar é o Subdiaconato . É durante essa ordenação que o jovem levita faz sua promessa, seu voto de castidade perpétua. Ele então recebe o poder de ajudar o diácono e o sacerdote no Altar. Vemos bem que primeiro ele promete castidade, e só então recebe o poder de servir no Altar. Por isso, podemos ver claramente que a castidade e o serviço do Altar devem andar sempre juntos.

Subdiácono: promessa de castidade

Subdiácono: entrega do cálice

 

Subdiácono: entrega do livro das Epístolas

O sexto degrau do Altar é o Diaconato . Por esta ordem, o seminarista recebe o poder de ajudar o sacerdote no altar, de anunciar o Evangelho, pregar e batizar.

Diácono: imposição da mão

Diácono: entrega do livro dos Evangelhos

Finalmente, o sétimo degrau do Altar é a Ordem dos Sacerdotes , que inclui tanto simples padres (presbiterado) quanto bispos (episcopado).

Sacerdote: imposição das mãos

Sacerdote: unção das mãos

Sacerdote: entrega do cálice e hóstia

Sacerdote: promessa de obediência

Na sua ordenação, o sacerdote recebe um poder que não foi concedido aos próprios anjos de Deus: o poder de consagrar o Corpo e o Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo e o poder de perdoar os pecados. O grande plano de salvação está nas pequenas mãos do sacerdote. O padre é tão pequeno, mas ao mesmo tempo tão grande. Que missão, que vocação! A vocação mais sublime da terra: ser sacerdote, ser outro Cristo, continuar a obra da redenção de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Nós, sacerdotes, recordamos com grande emoção todos os passos que nos conduziram ao altar de Deus: a nossa tonsura, as ordens menores, o subdiaconato, o diaconato e, por fim, o sacerdócio. É uma grande alegria ser sacerdote, de tal forma que nunca voltaríamos atrás. Se tivéssemos mil vidas, mil vezes nos entregaríamos a Deus, para a salvação de almas.

Que alegria batizar e dar vida espiritual a uma alma! Que alegria reconciliar o pecador com Deus no sacramento da confissão! Que alegria abençoar um casamento, pedindo as graças de Deus para a nova família! Que alegria acompanhar os moribundos nos seus últimos momentos, com o sacramento da extrema unção, abrindo-lhes as portas do reino dos céus com o poder das chaves colocadas nas mãos do sacerdote! Que alegria indizível oferecer o Santo Sacrifício da Missa e elevar a Hóstia Sagrada e o Santo Cálice para a glória de Deus e a salvação das almas! Que alegria ser padre!

Mas, para ser justo, devo dizer que ser padre é também uma cruz. Eu nao estou reclamando, mas isso é fato. Quando passamos a compartilhar mais da vida de Nosso Senhor, passamos a compartilhar mais de Seus sofrimentos. E porque o sacerdócio é a assimilação mais forte a Cristo, é normal que traga sofrimento. No dia da sua ordenação, a mãe de São João Bosco lhe disse: “Meu filho, hoje você começa a sofrer”.

Essas aão, de fato, palavras fortes, que não nos devem atemorizar, mas devem recordar que todo sacerdote, como outro Cristo, é chamado a ser sacerdote e vítima. Todo sacerdote é chamado a oferecer Cristo ao Pai, mas também a se oferecer com Cristo, para a glória de Deus e para a salvação das almas. O Sacerdócio é o mistério da Quinta-feira Santa: reúne em si a alegria da Última Ceia e a agonia do Getsêmani.

Por isso, meus queridos irmãos, gostaria de pedir-lhes que rezassem todos os dias pelos seus sacerdotes, para que possamos ser fiéis à nossa vocação. E, por favor, reze também para que muitos jovens possam ouvir a voz de Deus e ter a coragem de deixar tudo para trás e seguir o Mestre. Amém.

Publicado originalmente em Rorate-Caeli.

 

2 Comentários to “Os sete degraus do Altar: a concepção tradicional do Sacramento da Ordem.”

  1. Texto belíssimo, belíssima explicação!

  2. Uma pena que no novo Rito da Ordem não exista mais a Ordem do Exorcismo! Certamente com essa Ordem, já desde o tempo de seminário, o sacerdote já era investido de um poder especial de exorcizar os espíritos maus; poder mais do que necessário nos tempos de hoje, em que as forças das trevas estão mais atuantes.