Os novos santos compensam a Missa nova?

Por  Peter Kwasniewski, OnePeterFive.com | Tradução: João Pedro de Oliveira -FratresInUnum.com — Como se pode esperar em qualquer época, não importando o quão podres sejam as circunstâncias, o Senhor continua a suscitar homens e mulher com traços de santidade. Dois exemplos bem conhecidos são a Beata Chiara Badano (1971–1990) e o Beato Carlo Acutis (1991–2006). O fato de eles terem vivido exclusivamente dentro da esfera do Novus Ordo poderia contar como uma rejeição dos tradicionalistas, os quais sustentam que a liturgia reformada — ou melhor, deformada — prejudica a vida espiritual?

Não, não poderia, assim como a salvação dos que não são membros visíveis da Igreja Católica tampouco derruba o dogma de que extra Ecclesiam nulla salus, isto é, “fora da Igreja não há salvação”. No meu livro Reclaiming Our Roman Catholic Birthright [n.d.t.: ainda sem trad. portuguesa], eu faço a seguinte observação:

O fato de que houve alguns santos após e sob o Novus Ordo não prova que ele seja igual, em seu poder santificador, à Missa latina tradicional, assim como o fato de que alguns demônios podem ser expulsos pelo novo rito de exorcismo não contradiz o consenso geral entre os exorcistas de que o rito latino tradicional de exorcismo é muito mais efetivo. No máximo, o que tais coisas provam é que Deus não pode ser frustrado pelos homens de igreja ou por suas reformas. Como ensinam os teólogos, Deus não está limitado por suas próprias ordens: Ele pode santificar as almas fora do uso dos sacramentos, ainda que nós estejamos moralmente obrigados a usar os sacramentos que Ele nos deu. De modo análogo, Ele pode santificar uma alma que o ama mesmo através de uma liturgia deficiente em tradição, em reverência, em beleza e em outras qualidades que, pela lei natural e pela lei divina, deveriam estar presentes nela, ainda que no curso normal das coisas as almas devessem servir-se desses poderosos auxílios à santidade (p. 12). 

Dois outros pensamentos vêm à mente.

Primeiro, é certamente possível que um leigo se torne bastante santo em um campo de concentração na Sibéria, sem acesso algum aos sacramentos. É possível que um padre prisioneiro nesse campo se torne bastante santo, celebrando Missa com uma migalha de pão e um dedal de vinagre. Essa não é, no entanto, a norma que Deus pensou para nós, e é provável que o tratamento num campo de concentração não desenvolva a santidade da maior parte das pessoas. Alguns seriam levados ao desespero, outros à loucura, outros à apostasia e outros ainda a comportamentos bestiais. Não nos esqueçamos que, para cada mártir cristão que era feito pelos antigos romanos, havia muitos outros que apostatavam, entregavam os livros sagrados aos inimigos e queimavam um pitada de incenso ao “divino” imperador.

Segundo, precisamos ampliar o horizonte de nosso olhar e perguntar que frutos de santidade foram produzidos ao longo dos mais de 50 anos passados desde a reforma litúrgica. Certamente, houve alguns bons frutos, pois em qualquer época durante a qual as pessoas procurarem viver pelas virtudes teologais da fé, da esperança e da caridade, sobreditos frutos não faltarão jamais. Mas será que o último meio século tem condições de se comparar a qualquer outro período de 50 anos da história da Igreja Católica, se usarmos como termos de comparação as vidas dos santos e as obras-primas da bela arte cristã (os dois critérios que Joseph Ratzinger identificava como provas indiscutíveis da verdade do Evangelho)? A resposta é óbvia a quem quiser ver. A era da reforma litúrgica está marcada por uma apostasia sem precedentes da fé, uma sangria massiva de fiéis e uma dissipação e dissolução da identidade católica que superam até mesmo o estrago feito pela Revolta Protestante. A tendência no Ocidente, onde o Reno lançou-se no Tibre, é de franca decadência — exceto dentro do movimento tradicionalista [1].

Permita-me fazer uma comparação diferente: a democracia, em seu sentido moderno, vige há cerca de 250 anos. Desde então, quase ninguém com reputação de santidade emergiu de suas classes governantes. Contraste isso com as monarquias europeias de antigamente: dúzias e mais dúzias de santos. Conceda-se, é quase como comparar laranjas com maçãs, mas o ponto é que a Missa antiga é o ambiente sadio da cristandade, e a nova Missa é o ambiente malsão da “Bugninilândia” [Bugniniville] (que não pode competir jamais com a vila das margaridas [Margaritaville]). De uma grandes e abundantes frutos advieram; da outra, não muito grandes, nem muitos. A expectativa é que vejamos contrastes similares aos que existem entre as sociedades pré-democráticas, hierárquicas e tradicionais e as democráticas, igualitárias e seculares.

Se alguém retrucasse dizendo: “Tudo bem: é bom que vocês, tradicionalistas, estejam produzindo alguns santos bem admiráveis, então!”, eu responderia: “Sim, nós estamos trabalhando nisso — mas não nos esqueçamos que, embora nossos números positivos estejam crescendo de modo desproporcional (número de casamentos, batismos, vocações religiosas e sacerdotais etc.), nós representamos algo em torno de 1 a 5% da população católica. Assim, ao menos sejamos justos nos ajustes estatísticos.”

A partir de uma leitura superficial da vida do novo beato Carlo Acutis [2], é possível dizer que ele respondeu com tremenda generosidade ao chamado divino. Ele era profundamente devotado à adoração eucarística, a qual tem o poder de transformar vidas. Não há razão particular para ficar perturbado com sua beatificação ou veneração; ela não está sobrecarregada com os muitos problemas que têm, por exemplo, a beatificação e a canonização de Paulo VI. Como o prisioneiro na Sibéria, Carlo tirou o máximo da Presença Real do Senhor, em meio aos retalhos de tradição e fragmentos de sentido que a Igreja italiana moderna lhe poderia oferecer. Em espírito, ele foi elevado sobre as limitações de sua época e de sua terra. Se Dom Athanasius Schneider se sente confortável invocando a intercessão dele, eu sinto o mesmo.

Devemos ter cautela, todavia, com a tendência do Vaticano de hoje de utilizar os dons de Deus para seus próprios fins perversos. As beatificações e canonizações têm se tornado ferramentas para a promoção da agenda modernista. Devemos distinguir entre o que a vida de um santo realmente exemplifica e o que o Vaticano tem sobreposto a isso. Por exemplo, apareceu um artigo em francês da agência Zenit associando os carismas particulares de Carlo às encíclicas Laudato si e Fratelli tutti, do Papa Francisco, porque, afinal, o Beato Carlo amava os animais e a natureza, e queria ajudar os sem-teto. É a oportunidade perfeita de transformar o menino em garoto-propaganda da era Francisco.

Em geral, eu sou bastante simpático à ideia de normalmente esperar cinquenta anos (ou, em todo caso, um bom período de tempo) para iniciar uma causa de beatificação ou canonização, sem falar de sua conclusão. É sábio “deixar a poeira baixar” e ver, entre outras coisas, se há evidência constante de um forte cultus popular à figura em questão. A falta de veneração popular — ou a necessidade de a estimular artificialmente, como numa espécie de campanha por candidatos políticos — é um dos aspectos mais perturbadores das beatificações e canonizações recentes. É como se a hierarquia da Igreja não mais acreditasse que os fiéis católicos, por um instinto de fé, podem reconhecer a santidade e reagir a ela quando a encontram. Se pararmos para pensar, o Vaticano tem boas razões para temer, pois, se deixasse falar o sensus fidelium, Dom Marcel Lefebvre acabaria na mesa da Congregação para as Causas dos Santos. Ele tem recebido dez mil vezes mais veneração popular do que Paulo VI, que o condenou, jamais recebeu ou receberá.

Vale fazer, ainda, uma outra e mais abrangente nota de advertência. No que tange aos santos que viveram sob a nova barbárie cultural de nossos tempos, devemos tomar o cuidado de não “canonizar”, junto com a santidade deles, algo incidental a respeito de suas vidas modernas. Isso vai acontecer com bastante frequência de agora em diante. “Ah, o Beato Betinho gostava tanto de música pop! Não é maravilhoso? A música pop agora faz parte da santidade! Não importa o que você escuta ou dança!”, ou: “A Santa Carol amava sair por aí de moletom e com camiseta rosa fluorescente! Acredito que não importa mais como você se veste quando o assunto é ser santo”. É possível imaginar todos os tipos de cenários e falsas inferências como essas.

O modo de contornar esse problema — que, para ser justo, tem paralelos em toda época da Igreja; por exemplo, os santos da Idade Média tinham notavelmente uma má higiene, mas ninguém, ao meu conhecimento, sugere que os devamos imitar nesse aspecto — é lembrar a relação, e a distinção, entre fé e razão, natureza e graça. Um homem notável por sua santidade pode não o ser nos argumentos que apresenta de teologia; uma mulher de santidade indiscutível pode não ter bom gosto em matéria de arte. Como discípulos do Doutor Comum da Igreja, Santo Tomás de Aquino, precisamos ser capazes de fazer distinções e imitar o que merece ser imitado, desculpando, ao mesmo tempo, o que pode ser desculpado, ou ignorando o que é melhor que seja ignorado.

Considere o seguinte: se fosse necessário escolher, melhor seria dedicar-se à oração e ouvir música medíocre, ou vestir-se de modo medíocre, do que ser um egoísta mentiroso com gosto impecável em abotoaduras e gravatas-borboleta; mas o melhor é ser, ao mesmo tempo, santo e bem educado, piedoso e inteligente, porque isso representa uma perfeição mais completa da humanidade tal como Deus a pensou. Graças sejam dadas a Ele por podermos alcançar a bem-aventurança apesar de certos defeitos nossos, mas nem por isso eles se tornam admiráveis ou dignos de imitação.

O sobredito traz à baila, ainda, uma outra questão: a de como devemos retratar santos de décadas recentes em estátuas, vitrais ou pinturas. Minha posição enfática é de que seria um erro tremendo apresentá-los de jeans e tênis, e ostentando um violão. É como “baixa Cristologia” [n.d.t.: isto é, uma Cristologia que tende a humanizar demais Jesus, em detrimento de sua divindade]: Jesus com um taco na mão, pronto para ajudar o Tiaguinho no jogo de beisebol. Não. Quando retratamos os santos, estamos retratando aqueles que nos precedem na glória. Eles fazem parte, agora, da nuvem de testemunhas celestes; não estão mais em casa fazendo as mesmas coisas de sempre. Essa é a diferença entre uma fotografia de um álbum do passado e um ícone que se abre para o reino escatológico. Uma certa estilização é necessária para qualquer santo, mas especialmente para aqueles dos quais temos fotos. Tenho visto exemplos bem sucedidos de santos modernos como Santa Teresinha, São Maximiliano Kolbe e São John Henry Newman, mas também já vi alguns absolutamente deploráveis. David Clayton tem escrito ótimos insights a esse respeito, assim como outros mestres em iconografia

Esses assuntos precisam ser discutidos com caridade e paciência, abertamente. Desde João Paulo II, tem havido um esforço orquestrado para se beatificar e canonizar figuras contemporâneas com a maior rapidez possível. Ainda que não necessariamente haja intenções maliciosas por trás dessa tendência, ela inevitavelmente levará cada vez mais à percepção, sem dúvida desejada pelos propagandistas, de que a situação eclesiástica atual está “ótima”, já que a Igreja ainda produz santos! Na realidade, é Deus sozinho que produz os seus santos no ventre da Santa Mãe Igreja. Às vezes os santos nascem de parto normal — catequese, liturgia, devoções e teologia tradicionais — e às vezes eles nascem de uma cesariana de emergência, isto é, através de uma intervenção de Deus numa situação que seria, de outro modo, desesperadora. O fato de isso acontecer não o torna normativo ou ideal. 

É digno e justo, sempre será digno e justo, que os católicos rezemos e trabalhemos pela restauração de nossa tradição, ao mesmo tempo que nos esforçamos para ser os santos que Deus nos está chamando a ser.

Notas

  1. É verdade que a Igreja tem crescido há décadas na África e na Ásia, mas ninguém em sã consciência ousaria atribuir esse crescimento ao Vaticano II ou à reforma litúrgica.
  2. É possível ler sobre ele em muitos lugares na internet; por exemplo, aqui, aqui e aqui.

8 Responses to “Os novos santos compensam a Missa nova?”

  1. Para os cristãos, os santos são os mais perfeitos modelos exemplos de um vida exclusivamente a Cristo Jesus e a sua SS Mãe Maria, a Eles dedicada com muito fervor e à hora da oração são sempre os caminhos garantidos para que as suas constantes preces cheguem a Deus!
    São ilustrados com imagens, folhetinhos, promessas, rezas específicas e romarias; dessa forma, os santos são uma das facetas mais populares existentes!
    “A santidade é o rosto mais bonito da Igreja, o aspecto mais belo: é redescobrir-se em comunhão com Deus, na plenitude da sua vida e do seu amor”, afirmou o papa Francisco em audiência geral ocorrida no ano de 2014, embora excluiria-se o modelo universalista defendido por ele – como exemplo clarividente de pecadores arraigados no erro e indispostos a mudarem de vida – porque, sob condições de pertença a ela, fora da Igreja católica inexiste realmente a salvação!
    Então, compreende-se que a santidade não é uma prerrogativa só de alguns sendo, no entanto, um dom especial oferecido a todos, sem excluir a ninguém, àqueles que estejam dispostos à conversão, contando, evidentemente com as imprescindíveis e recorrentes preces, das graças de Deus e da indispensável intercessão de N Senhora; por isso, constitui o cunho distintivo de cada cristão, mesmo nesse tempo pós Bugniniano de notável esfriamento e de superficialismo da fé!

  2. A partir do Juízo Final todos (sem exceções) serão julgados e é para isto que ele existe.
    Ninguém entregará a Deus um alvará de santo emitido por algum papa como se fosse um passaporte para o céu.
    As burocracias vaticanas e seus estereótipos para nada servirão nesta ocasião.

  3. Porque ninguém comenta nada? Os artigos do professor Peter Kwasniewski são muito bons, acompanho ele a tempos!

  4. O que forma um Santo, o que faz uma pessoa ser santa não é participar de uma missa ou assistir uma missa como vocês dizem. A missa ajuda, mas não é o fator determinante.

    O que faz uma pessoa ser santa é sua humildade de reconhecer seus erros e se transformar, abrir-se a Deus, mudar, converter-se CRESCER NAS VIRTUDES DE DEUS, evidentemente, com a graça de Deus..
    Crescer no amor, na bondade, no perdão, na paciência, na partilha, na solidariedade, na mansidão, na acolhida, na doação.

    O que aconteceu com Zaqueu? Se converteu. Hoje entrou a salvação nesta casa disse Jesus.

    Quando uma pessoa cresce nas virtudes de Deus ela se torna santa, luz, fermento, sal no meio do povo.

    Não é só participar de uma missa, ou rezar o terço ou ter fé. Os grande mafiosos da Itália iam na missa e rezavam o terço. Na época da escravidão os Padres antigos iam almoçar na casa do Senhores e lá na senzala o feitor estava batendo nos escravos. Aliás muitos padres e bispos tinham escravos.

    Vocês confundem santidade com piedade, com devoção, com praticar alguns rituais. Não tem nada que ver com isso. Nem todo aquele que me diz Senhor, Senhor, ou que pratica alguns ritos ou que participa de algumas cerimônias está com Deus. As vezes o coração está longe de Deus.

    Lembram do sacerdote e o levita da Parábola do bom samaritano? Estavam longe de Deus Deus. Apesar de rezarem muito.

    Primeiro a pregação, tomar consciência do pecado, da fraqueza, converter-se mudar de vida e buscar a Deus, amar a Deus através da oração profunda, da leitura orante, da contemplação, meditação e do amor, do serviço aos irmãos, sobretudo os mais pobres.

    Vejamos Madre Tereza de Calcutá? O que fez dela uma santa? A missa ou o amor aos pobres? A missa ajudou, deu forças, deu luz, mas sem o amor e o serviço aos pobre ela seria apenas uma freirinha piedosa.

    O amor, a bondade, a partilha, o perdão, a acolhida é o que um santo e não a prática de um ritual.

  5. A conclusão do artigo define e resume tudo: “É digno e justo, sempre será digno e justo, que os católicos rezemos e trabalhemos pela restauração de nossa tradição, ao mesmo tempo que nos esforçamos para ser os santos que Deus nos está chamando a ser.”

    É o mesmo sentido da pergunta que fizeram a Cristo: “Senhor, são muitos os que se salvam?” e Ele respondeu com sabedoria: “Não importa o número, e sim se VOCÊ será salvo ou não!”. Ora, o debate teológico e canônico sobre a canonizações modernas são úteis, são necessárias. Mas fazê-lo sem buscar sua própria salvação e santificação pessoal, é dar um tiro no pé. É burrice

  6. Acho que ninguém comenta pois o articulista parece não distinguir a graça principal advinda do sacramento ex opere operato das demais graças anexas ex opere operantis, as quais dependem das disposições pessoais do ministro e, por extensão, a todo conjunto de meios que favorecem (ou degradam) tais disposições como é o caso do próprio rito; o rito (?) Montiesco, em que pesem as circunstâncias infectas e iscariotinianas em que foi inventado, permite consagraçoes válidas.

  7. O tema merece mais atenção, mas descordo quanto à retratação dos santos modernos, se viveram a santidade de jeans e camiseta é assim que devem ser retratados… qualquer maquiagem é falsidade!

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