Por que os católicos carismáticos deveriam apreciar a Missa Latina Tradicional.

Agradecemos a gentileza do Dr. Peter Kwasniewski por nos fornecer já traduzido seu artigo publicado originalmente em Rorate Caeli.

Por Peter Kwasniewski

Universidade Franciscana de Steubenville, 23 de setembro de 2020

Em que pese minhas considerações de hoje se concentrarem na Missa Latina Tradicional, também irei além disso. Falarei, dentre tantos aspectos, sobre a ocultação do Espírito Santo, o antigo rito do batismo e o papel do Espírito em nossa vida pessoal devocional. O presente caso que apresento a vocês na forma de um esboço rápido revela que o melhor veículo de apoio a uma vida vivida no poder e na graça do Espírito Santo é a liturgia católica tradicional e tudo o que vem nela embutido.

De início, eu gostaria de citar um fato intrigante da história da Igreja: ao longo dos 2.000 anos de cristianismo, o Espírito Santo nunca foi tão tematizado na teologia, na espiritualidade e na liturgia da mesma maneira que o Pai e o Filho foram. Por que isso aconteceu?

O padre John Hunwicke (do Ordinariato Anglicano de Nossa Senhora em Walsingham) explica que a tradição cristã inicialmente era “binitária” em seu caráter, isso antes de se tornar explicitamente trinitária – ou seja, focava na relação do Pai e do Filho, considerando o Espírito Santo “implícito” ou “subentendido” e desempenhando um papel de vínculo comum como uma atmosfera, por assim dizer, dentro da qual os cristãos respiram a vida de Cristo. Ele cita o eminente liturgista Dom Gregory Dix, que nos ensina:

“A doutrina da Divindade Plena do Espírito Santo (…) foi definida no ano de 381 (…) Não há nada no Novo Testamento que indique claramente que a doutrina ortodoxa esteja certa (…) Santo Atanásio e São Basílio (…) apelaram, naturalmente, à Escritura e à tradição e é notório o quão substancialmente defeituoso é este apelo quando examinado de perto. É também notável que, nas obras por eles escritas com a finalidade de defender tal doutrina, ambos evitem cuidadosamente aplicar a palavra decisiva ‘Deus’ ao Espírito Santo [o mesmo, é claro, é verdade para o ‘Credo Niceno’] (…) São Gregório de Nazianzo, ‘o teólogo’ por excelência para o Oriente (sob cuja presidência o Concílio Ecumênico de 381 realmente definiu tal doutrina), é explícito ao afirmar que houve apenas ‘poucos’ que a aceitaram em sua época, e que Atanásio foi o primeiro e quase o único Doutor da Igreja a quem Deus concedeu luz sobre esse assunto. Em outro lugar, ele é ainda mais devastadoramente honesto ao admitir que, embora o N.T. revele claramente a Divindade do Filho, não mais do que ‘insinua’ (hupodeixen) a do Espírito Santo…”[i]

Como resultado, não temos textos litúrgicos que se dirijam ao Espírito Santo ou mesmo O valorizem de modo especial antes do ano 381. Além disso, os hereges que se opunham à divindade do Espírito floresceram na parte oriental do Império Romano, não no ocidente. Portanto, foi o Oriente que sentiu a necessidade de enfatizar esse dogma na sua liturgia através da introdução, no final do século IV, da chamada “epiclese” ou invocação do Espírito Santo para efetuar a transubstanciação.[ii] O Cânon Romano, por outro lado, precede a esta controvérsia e, consequentemente, silencia sobre o Espírito Santo até a doxologia final: “Per ipsum, et cum ipso, et in ipso, est tibi Deo Patri omnipotenti, in unitate Spiritus Sancti, omnis honor et gloria, per omnia saecula saeculorum”. A teologia da transubstanciação no rito romano é baseada em um apelo à aceitação benevolente do Pai Todo-Poderoso que se agrada de Seu Filho amado. Quando o sacerdote pede ao Pai, em Nome e por ordem de Jesus, que transforme o pão e o vinho, o Pai obedientemente o cumpre. A falta de uma epiclese no Cânon Romano dá testemunho de sua linhagem apostólica: é reflexo de uma teologia patricêntrica e cristocêntrica da Igreja antiga, em oração serena muito antes de eclodirem disputas sobre a divindade da Terceira Pessoa. (O Gloria in excelsis Deo, tão frequentemente recitada ou cantada na missa, também é “velha o suficiente para ser anterior ao dogmatismo de 381; portanto, ela se refere ao Espírito Santo apenas em sua conclusão”). O eminente erudito litúrgico padre Joseph Jungmann, em seu volumoso comentário sobre o Rito Romano da Missa, nos diz o seguinte:

“Alguns comentaristas (…) relevam o fato de que o Espírito Santo é mencionado apenas no final e, mesmo assim, meramente de passagem (…) Não – Deus e Cristo são os pilares da ordem cristã do universo: Deus, o princípio e o fim de todas as coisas, a finalidade última de todas as buscas e para o qual todas as orações, por fim, se voltam. Mas, na ordem cristã, também Cristo, o caminho, a estrada pela qual trilhamos toda nossa busca de Deus, deve ser evocado. De tal modo, nas cartas de São Paulo encontramos essa dualidade de Deus e Cristo não apenas na saudação introdutória, mas repetidamente ao longo do texto. E, se às vezes São Paulo arremata a Dualidade completando-a com a Trindade, isso não é tanto para reconhecer as próprias três Pessoas divinas, mas para marcar mais distintamente a estrutura da ordem cristã da salvação, na qual nossa ascensão a Deus é concedida por meio de Cristo no Espírito Santo”.[iii]

Após citar Dom Gregório o padre Jungmann, Pe. Hunwicke conclui com suas próprias reflexões eminentemente sensatas, as quais nos ajudam a avaliar que o silêncio sobre um assunto não precisa significar exclusão, difamação ou omissão. (Uma palavra de explicação antes de continuar: a palavra para “Espírito” – mesmo na frase “Espírito Santo” – é masculina em latim, neutra em grego e feminina em hebraico: Spiritus, pneuma, ruach.)

“Os católicos romanos e, eu acho, os bizantinos, não costumam ter santuários, [ou] peregrinações, em homenagem ao Espírito Santo … Ele (latim) Esse (grego) Ela (semita) nunca atraiu um grande contingente de devotos. Às vezes, os católicos se sentem culpados por isso; às vezes, eles até se perguntam se deveriam remediar essa falha. Talvez recorram a uma ou duas páginas de algum livro pentecostal. Eu não concordo. Acho que a vida litúrgica e devocional [tradicional] cotidiana dos latinos e bizantinos é perfeitamente sólida e equilibrada, íntegra e saudável. Suspeito que o papel do Espírito Santo na vida da Igreja seja completo e totalmente central, assim como a respiração e a circulação do sangue são centrais e naturais para o corpo humano. Mas é natural que falemos sobre as coisas que podemos fazer ou fizemos por causa de nossa respiração ou sangue circulante em vez de nos preocuparmos com esses fenômenos em si. Às vezes, algo é tão central que não é natural referir-se a tal processo sempre de maneira consciente. Também podemos fazer uma analogia com os estados de ser padre e ser casado. É por isso que eu entendo que, em nosso Cânon Romano e no Gloria in excelsis, o Espírito Santo é simples e naturalmente dado como certo, sendo apenas mencionado de passagem nas doxologias finais”.[iv]

Agora, se tudo isso fosse verdade, teria sido sempre injusto alegar que os cristãos de qualquer época estavam “negligenciando” o Espírito Santo, assim como seria injusto dizer que os cônjuges negligenciam um ao outro se não conversarem constantemente sobre seu casamento ou não se comportarem como pombinhos amorosos um com o outro. Ainda assim, em vários momentos da minha vida, lembro-me distintamente de ouvir professores e pregadores dizerem algo como: “A Igreja Católica meio que se esqueceu do Espírito Santo por muito tempo e, com o Vaticano II, nós nos lembramos Dele. Esta é agora a Era do Espírito. Estamos vivendo na época de um Novo Pentecostes”.

Atualmente, já em 2020, estamos mais sóbrios e realistas. O que realmente aconteceu é que a Era do Espírito se fundiu com o espírito da era (Zeitgeist) a ponto de nos restar apenas “o Espírito do Concílio”. Na prática, o “Espírito do Concílio” conduziu progressivamente à contestação e subsequente expulsão dos carismas concedidos pelo Espírito Santo à Igreja ao longo dos tempos. Assim vemos quando, por exemplo, freiras abandonam seus hábitos e padres, seus colarinhos. Em uma paródia do batismo, tal qual um exorcismo reverso, os clérigos parecem empenhados em livrar o catolicismo de seu bom espírito e se comprometer com o mundo, com a carne e com o diabo em vez de morrer e ressuscitar com Cristo.

Essa história do esquecimento da Terceira Pessoa é apenas mais uma das “lendas negras” do período pós-Vaticano II. Apesar das observações de Pe. Hunwicke, encontra-se facilmente, durante toda a história da Igreja, evidências de uma atenção doutrinária e devocional ao Espírito Santo na pregação e orações – e manifestamente no rito romano tradicional, segundo o qual o padre todos os dias pronuncia aquelas palavras formidáveis: “Veni, Sanctificator omnipotens aeterne Deus, et bene+dic hoc sacrificium tuo sancto nomini praeparatum”. “Vinde, Santificador, Deus onipotente e Eterno, e abençoai este sacrifício preparado para o vosso santo nome”.  Sempre que o Credo é dito ou cantado na Missa – e isso acontece com muito mais frequência sob as antigas rubricas – o Espírito Santo é homenageado duas vezes: primeiramente pela genuflexão coletiva no Et incarnatus est de Spiritu Sancto ex Maria Virgine: et homo factus est; e em segundo lugar por uma inclinação deliberada da cabeça às palavras Qui cum Patre et Filio simul adoratur et conglorificatur. Não é à toa que os padres ordenados no rito tradicional devem oferecer uma missa votiva do Espírito Santo como uma de suas três primeiras missas.

Até hoje, o rito romano tradicional – o qual Bento XVI chamou de “Forma Extraordinária” – celebra a vinda do Espírito Santo a cada ano com uma gloriosa liturgia no dia de Pentecostes. A Missa Solene é precedida pelo canto do Veni, Creator Spiritus, com todos ajoelhados em humilde súplica durante o primeiro verso:

Óh, vinde Espírito criador

As nossas almas visitai

E enchei os nossos corações

Com vossos dons celestiais

O canto do Vidi aquam prossegue enquanto o sacerdote borrifa água benta nas pessoas e cantamos da água da graça que flui do lado ferido de Cristo da mesma maneira que o Espírito procede de Sua boca. O primeiro de muitos aleluias ressoa na igreja. A própria Missa começa com a introdução do Spiritus Domini: “O Espírito do Senhor encheu toda a Terra, aleluia, e porque encerra todas as coisas, possui a ciência da palavra, aleluia, aleluia, aleluia”, seguido pelo nônuplo Kyrie em sua amplitude trinitária. Depois da Epístola, o duplo Aleluia inclui as petições Emitte Spiritum tuum (enviai, Senhor, o vosso Espírito) e Veni, Sancte Spiritus (Vinde, Espírito Santo) durante a qual todos se ajoelham novamente – levamos esse negócio de invocação a sério! Segue-se então a magnífica sequência do Pentecostes que começa mais uma vez com o Veni, Sancte Spiritus:

Vinde, ó santo Paráclito,

E mandai-nos, lá do céu

Um raio da vossa luz!

Vinde até nós, Pai dos pobres

Caudal de todos os dons

E fulgor dos corações.

Tudo isso ainda antes de o Evangelho ser cantado!

E ainda há mais – muito mais. A Igreja, desde o final do século VI até o século XX, celebrou o Pentecostes por uma semana inteira (uma oitava), assim como faz na Páscoa e no Natal, reconhecendo-o como uma festa de importância central na história da salvação. Todos os dias, os trompetes proclamam aleluias. Todos os dias, as leituras exaltam os sacramentos de iniciação que ganham sua eficácia pela força do Espírito.[v] Em todos os dias da oitava, nós nos ajoelhamos no Veni, Sancte Spiritus antes da Sequência de Ouro. O Prefácio do Pentecostes correlaciona a Ascensão e o sentar-se à direita de Deus Pai ao derramamento do Espírito sobre os filhos de Deus. O Cânon Romano – a única oração eucarística usada pelos cristãos de rito latino desde o século IV até 1967 – apresenta duas frases especiais durante a oitava. Os Communicantes, a primeira ladainha de santos do Cânon, começa assim:

“Unidos na mesma comunhão e celebrando o dia sacratíssimo em que o Espírito Santo apareceu aos Apóstolos em inumeráveis línguas de fogo, veneramos a memória, em primeiro lugar, da gloriosa sempre Virgem Maria, Mãe de Deus e Senhor nosso Jesus Cristo … (e assim por diante)”

O Hanc igitur, quando o sacerdote impõe as mãos sobre as oferendas, num gesto igual ao do sacerdote judeu que coloca as mãos sobre a cabeça de uma vítima em sacrifício, nos diz:

“Esta oblação que nós, vossos servos, e toda a vossa família, Vos oferecemos também por aqueles que Vos dignastes a regenerar pela água e pelo Espirito Santo, concedendo-lhes a remissão de todos os pecados, acetai-a, Senhor, benignamente; firmai na paz os dias da nossa vida, livrai-nos da eterna condenação e ordenai sejamos contados na sociedade dos vossos eleitos.”.

Quarta, sexta e sábado da oitava de Pentecostes são dias ardentes, com leituras e orações especiais: dias de jejum, não por causa da penitência, mas para elevar a mente a um plano superior de solene alegria. Durante oito dias, o ofício do meio da manhã (a “Terça”, ou em latim tertia, em referência à terceira hora da manhã) começa com o hino Veni, Creator Spiritus – a primeira estrofe pronunciada novamente de joelhos. Em todos os sentidos, essa semana é uma digna homenagem e súplica à Pessoa divina. (Devo mencionar, diga-se de passagem, que o ofício da “Terça” fora da semana de Pentecostes é sempre introduzido pelo hino Nunc, Sancte, nobis Spiritus, novamente em homenagem ao Paráclito).

Por fim, o domingo após a oitava de Pentecostes é denominado “domingo depois de Pentecostes”, envolvendo em vestes verdes a longa temporada de plantio e colheita que nos conduzirá até o “Último Domingo após Pentecostes” ao qual se segue o ciclo do Advento.[vi] Não há “Tempo Comum” na Forma Extraordinária.

Quase tudo o que acabei de descrever foi abolido na reforma litúrgica do final dos anos 60. Alguns itens permaneceram como opções pouco utilizadas. Portanto, podemos abordar a questão e perguntar: quem, exatamente, pode ter sido o culpado de “esquecer a Terceira Pessoa da Trindade” no culto público oficial da Igreja? Na verdade, pode ser facilmente demonstrado que a liturgia latina tradicional reserva um lugar muito mais proeminente ao Espírito Santo do que o seu substituto, o Novus Ordo de Paulo VI.[vii]

Uma Igreja tradicional, atenta ao Paráclito, também é identificável em uma maravilhosa encíclica de Leão XIII, Divinum Illud Munus, de 1897 – o mesmo ano, aliás, da morte de Santa Teresinha de Lisieux, ocasião em que ela iniciaria, desde o céu, a regar os fiéis com rosas em uma inocente imitação do dom do Espírito em línguas de fogo. Em sua lúcida exposição do “lugar” do Espírito Santo na Trindade e de Sua presença e ação em Cristo na Igreja, na alma humana e no mundo, o Divinum Illud Munus de Leão XIII é uma verdadeira obra-prima de prosa teológica e espiritual. Vemos em suas páginas uma demonstração de como a doutrina aparentemente obscura de São Tomás de Aquino pode “ganhar vida” nas mãos de quem realmente a entende. O Papa Leão XIII escreve com grande ternura:

“Agora que vemos os dias finais de nossa vida se aproximando [o Papa Leão tinha 87 anos na época], nossa alma está profundamente comovida para dedicar-se ao Espírito Santo, que é o Amor que dá vida – e que Ele leve à maturidade e fecundidade todo o trabalho que realizamos durante nosso pontificado (…) Desejamos sinceramente que, como resultado, a fé possa ser despertada em vossas mentes quanto ao mistério da adorável Trindade e, especialmente, que a piedade possa aumentar e ser inflamada em direção ao Espírito Santo, a quem todos devemos a graça de seguir os caminhos da verdade e da virtude”. (§2)

O papa esmiúça todos os aspectos da doutrina do Espírito Santo. Aqui, por exemplo, ele fala do mistério do Pentecostes conforme aplicado aos apóstolos:

“A Igreja que, já concebida, surgiu ao lado do segundo Adão em Seu sono na Cruz, mostrou-se aos olhos dos homens pela primeira vez no grande dia de Pentecostes. Naquele dia, o Espírito Santo começou a manifestar Seus dons no Corpo Místico de Cristo por meio daquele derramamento miraculoso já previsto pelo profeta Joel (ii., 28-29), e eis que o Paráclito ‘pairou sobre os apóstolos como se novas coroas espirituais fossem colocadas por sobre suas cabeças em línguas de fogo’ (São Cirilo de Jerusalém, Catec, 17). Então os apóstolos “desceram da montanha”, como São João Crisóstomo escreve, “não carregando em suas mãos tábuas de pedra como Moisés, mas carregando o Espírito em suas mentes e derramando o tesouro e a fonte de doutrinas e graças” (Em Hom. Mateus 1, 2 Cor. Iii., 3). Assim foi plenamente cumprida a última promessa de Cristo a Seus apóstolos, de enviar o Espírito Santo que iria completar e, por assim dizer, lacrar o repositório da doutrina confiada a eles sob Sua inspiração”. (§5)

E novamente, a respeito da Igreja:

“O fato de a Igreja ser uma instituição divina é mais claramente provado pelo esplendor e glória dos dons e graças que a adornam e cujo autor e doador é o Espírito Santo. Basta dizer que, assim como Cristo é a Cabeça da Igreja, o Espírito Santo é a sua alma. (§6)”

O trabalho de santificação é sempre uma operação própria do Espírito Santo. Leão XIII escreve:

“O início dessa regeneração e renovação do homem se dá pelo Batismo. Nesse sacramento, quando o espírito impuro é expulso da alma, o Espírito Santo entra e a faz semelhante a Ele. ‘Aquilo que é nascido do Espírito é espírito’ (João III, 6). O mesmo Espírito se doa mais abundantemente na Crisma, fortalecendo e confirmando a vida cristã, da qual procede a vitória dos mártires e o triunfo das virgens sobre as tentações e corrupções. (§9)”

Aqui, como um aparte, eu observaria que o rito tradicional do batismo, na verdade, traz em si uma substancial cerimônia preliminar de exorcismo, que foi removida do novo rito do batismo. O padre diz, entre outras orações:

“Afaste-se dele, espírito imundo, e dê lugar ao Espírito Santo, o Paráclito. Recebe o sinal da Cruz na testa e no coração, assume a fé nos mandamentos celestiais e faz com que a tua conduta seja tal que sempre sejas templo de Deus.”

O padre, então, exorciza e abençoa o sal que será misturado à água (apenas cito parte dessas orações para dar uma ideia de como soam os ritos ancestrais da Igreja): “Eu te invoco, criatura do sal, em nome de Deus Pai Todo-Poderoso, na caridade de Jesus Cristo nosso Senhor, no poder do Espírito Santo” etc. e depois coloca um pouco do sal na boca do batizado, dizendo: “recebe o sal da sabedoria – que seja para vós um sinal de reconciliação para a vida eterna. ” (O padre passa a fazer uma oração que deixa claro que a língua está sendo abençoada de maneira especial para no futuro receber a Sagrada Comunhão.) Pela terceira vez, ele exorciza aquele que está sendo batizado, dizendo:

“Eu te exorcizo, espírito imundo, qualquer que sejas, em nome do Pai omnipotente e em nome de seu Filho Jesus Cristo, Nosso Senhor e Juiz, e pelo poder do Espirito Santo. Afasta-te desta criatura de Deus N. que Nosso Senhor se dignou chamar ao seu santo templo, para que ela mesma se torne um templo de Deus vivo, e nele habite o Espírito Santo. Eu te ordeno por Cristo Nosso Senhor, que há-de vir julgar os vivos e os mortos e o mundo pelo fogo. Amém.”

Volto agora para a encíclica do Papa Leão XIII, para uma passagem que nos deve fazer tremer de admiração e deleite:

“Deus, pela graça e da maneira mais íntima e especial, reside na alma justa como em um templo. Disto procede aquela união de afeto pela qual a alma adere mais intimamente a Deus, mais do que o amigo está unido ao seu amigo mais amoroso e amado, e goza de Deus em toda a plenitude e doçura. Agora, essa união maravilhosa, que é apropriadamente chamada de ‘inabitação’, difere apenas em grau ou estado daquela com a qual Deus beatifica os santos no céu, embora seja certamente produzida pela presença de toda a Santíssima Trindade – ‘Nós chegaremos a Ele e faremos nossa morada com Ele’ (João 14:23). Essa é, no entanto, atribuída de uma maneira peculiar ao Espírito Santo pois, embora traços de poder e sabedoria divinos apareçam até mesmo no homem ímpio, a caridade, que, por assim dizer, é a marca especial do Espírito Santo, é compartilhada apenas pelos justos”.

Considere cuidadosamente o que o Papa Leão nos ensina aqui: a união de uma alma no estado de graça com Deus difere apenas em grau ou modo do estado da visão beatífica. Quando Deus habita em nossa alma pela graça santificante e sua principal virtude, a caridade, desfrutamos nesta vida da mesma união que os santos e anjos desfrutam na pátria celestial. As diferenças são acidentais: que Deus é visível ou invisível; que O possuímos mutável ou imutavelmente. Por mais importantes que sejam essas diferenças, a própria união as supera em muito. Ele está dentro de nós; nós somos habitados por Ele. Essa é a essência da santidade. Essa compreensão da inabitação de Deus é, em última análise, o antídoto mais eficaz contra o pecado mortal. Não queremos perdê-Lo, nem agora nem nunca.

O Papa Leão XIII expõe os ensinamentos de Santo Tomás de Aquino sobre os sete dons do Espírito Santo: sabedoria, entendimento, conselho, fortaleza, ciência, piedade e temor a Deus. Aqui também lembramos que um Doutor da Igreja do século XIII tinha não apenas uma compreensão teológica, mas um profundo conhecimento experiencial da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade. Ao falar dos dons, São Tomás sublinha a necessidade absoluta de assistência especial do Espírito Santo – todos os dias e o dia todo – se quisermos atingir o fim glorioso que Deus reserva para nós, uma vez que tal esforço ultrapassa de longe nossas capacidades naturais. Supera, de certa forma, até aquilo que gosto de chamar de “superpotências” das virtudes teológicas. É por isso que oramos como o salmista: “O teu bom espírito me conduzirá à terra justa” (Salmo 143: 10), a terra prometida, a cidade do Deus vivo, a Jerusalém celestial. Somente o Espírito de Deus pode nos conduzir a esse fim; nosso espírito, não importa o quão perfeito [aperfeiçoado], é inadequado.

Indo um passo adiante, Santo Tomás argumenta que precisamos dos sete dons do Espírito Santo não apenas para alcançar o fim último, mas também para cumprir quaisquer fins específicos que almejemos como cristãos – uma vez que desejemos cumpri-los como filhos de Deus, agindo de acordo com Seus preceitos. Podemos fazer o que é certo no que diz respeito às virtudes naturais, mas isso ainda não é fazê-lo “divinamente bem”; como uma refeição comestível mas não deliciosa. Para tal, temos que nos colocar em oração à disposição do Espírito Santo para sermos guiados em nossa atividade, para sermos Seus instrumentos ao mesmo tempo que exercermos nossas próprias faculdades de julgamento e escolha. Nesse sentido, não pode haver apostolado católico sem a concomitante oração interior, como os Atos dos Apóstolos nos mostram emblematicamente.

Os católicos carismáticos levam a sério o poder da oração e esta é uma de suas maiores virtudes, algo que os separa instantaneamente do ativismo pastoral superficial de grande parte do cristianismo moderno. Este último perdeu sua orientação sobrenatural para o reino de Deus e a necessidade de sua graça, e ainda reduziu o Evangelho a algo generoso, gentil ou meramente ‘bom’.

Não sou fã de canções de louvor e adoração, mas estou bem ciente de que as letras geralmente giram em torno das quatro atitudes básicas de oração: adoração, contrição, ação de graças e súplica ou petição (eu aprendi por meio do acrônimo onipresente ACTS [ATOS] – Adoration, Contrition, Thanksgiving, Supplication – em um retiro carismático de um colégio em Nova Jersey no final dos anos 80). Você conhece o tipo de letra que quero dizer: “Senhor, Tu és meu Rei; Senhor, para ti eu canto; eu me prostro diante de ti; te amo e te adoro; te honro com todo o meu fôlego; me apego a ti até a minha morte; me arrependo dos meus pecados e procuro a tua face. Senhor, não me negueis tua graça … ” (Eu inventei tudo isso, mas provavelmente não está muito longe da letra usual.) Agora: é simplesmente uma questão demonstrável que a velha missa em latim é permeada, de cima a baixo, com expressões de adoração, contrição, ação de graças e súplica.

Em comparação com a missa moderna, mais orações são ditas, mais gestos são feitos – sinais tanto sutis quanto evidentes de fé. Devoção e adoração como, por exemplo, o padre beijar o altar oito vezes durante a liturgia (em vez de apenas duas), abaixar a cabeça para honrar a Deus ou os santos em frases significativas e fazer muitas genuflexões diante do Santíssimo Sacramento. A liturgia tradicional pratica, e assim grava no espírito dos fiéis, a máxima reverência à Santíssima Eucaristia. Na missa solene, o incenso é utilizado por quatro vezes em um padrão crescente: 1) no altar durante o Kyrie, por ser o local onde o sacrifício acontecerá; 2) no Evangelho, por ser a própria Palavra que nos é pregada; 3) no Ofertório, uma vez que o pão e o vinho que o sacerdote separa para uso sacrificial se tornarão a Vítima; 4) nas elevações da Hóstia e do Cálice, ocasião em que adoramos o Verbo feito carne. No momento do sacrifício sacramental, foco inconfundível, visualmente acentuado e velado no silêncio, o Cânon Romano desenvolvido na Missa Tradicional Latina dá ao “mistério da fé” seu devido destaque. Essa é, verdadeiramente, a fonte e o ápice da vida cristã, para a qual todos nos volvemos numa única direção que simboliza a nossa orientação interior para Cristo Rei, para o Seu Pai e para a vinda do Reino. As mãos ungidas do sacerdote são as únicas que tocam as espécies sagradas e as distribuem aos fiéis, que as recebem na língua, ajoelhados, em postura de humilde submissão. Essa prática milenar de ajoelhar-se diante do Santíssimo de Israel, verdadeiramente presente no Sacramento do Altar, e de recebê-Lo na língua pelas mãos de um ministro ordenado, literalmente personifica nossa dependência de Deus, nossa humildade e indignidade, nossa necessidade de nos prostrar em adoração diante do Senhor, e nosso desejo de cura e elevação. Como proclama o Magnificat de Nossa Senhora, a criatura deve primeiro ser inferior – e se ver baixa – para depois ser elevada às alturas por Deus. Nessa prática está contida a humildade de querer ser alimentado como uma criança pequena demais para se alimentar sozinha. Um dos Salmos diz, na pessoa de Deus: “Abra bem a boca e eu a encherei.” Eu vou preenchê-la. No domínio sobrenatural, somos todos filhos que precisam ser alimentados pelo Pai, com o pão que é Seu Filho.

O movimento carismático também enfatiza fortemente a realeza de Cristo, Seu senhorio sobre nossas vidas em todas as dimensões. Mas essa crença, que é absolutamente verdadeira, dificilmente se estabelece no mundo moderno, que é tão igualitário e relativista. A missa antiga nos ajuda muito nessa questão. Em termos de sua atmosfera, essa pode ser descrita como “real” ou “nobre”. Inclui características que lembram o cerimonial da corte, uma vez que Nosso Senhor Jesus Cristo é, de fato, o Rei dos reis e Senhor dos senhores, o Rei Altíssimo de toda a Terra. As Escrituras falam do “tribunal de Deus” no céu e de como todos os bem-aventurados curvam-se diante Dele em adoração. O céu não é uma convenção democrática. Jesus recusou um reino terreno não porque Ele seja destituído de poder, mas porque o Seu poder é absoluto, universal, transnacional e eterno. Ele não queria ficar confinado ao antigo Israel ou a qualquer época. De acordo com os salmos, Ele governa todas as nações e todos os homens com uma barra de ferro (Sl 2: 9), ou seja, com Sua inflexível lei divina, fundamento firme e forte para nossa felicidade. A missa em latim endereça tudo para Ele, para a sua cruz e para o seu glorioso reino. “Sê exaltado, ó Deus, acima dos céus, e a tua glória acima de toda a terra” (Sl 56: 6 [57: 5]). O uso de uma única língua transnacional e transtemporal comum, o latim, e uma forma de música sacra única em todas as suas características, o canto gregoriano, também se encaixam bem nessa ênfase no reino eterno de Cristo.

Além disso, se Cristo é nosso rei, então somos Seus súditos. Nesta vida, somos Seus soldados lutando contra o mundo, o diabo e a nossa própria natureza decaída, com sua concupiscência desordenada. Portanto, é imensamente valioso que a velha liturgia seja ainda mais ascética. A missa tradicional costuma manter os fiéis ajoelhados por longos períodos: das orações aos pés do altar até o Evangelho, do Sanctus até o último Evangelho. Essa exigente disciplina nos mantém cientes de que estamos em um lugar sagrado especial, participando de um sacrifício ao qual devemos nos unir. Em uma missa solene, haverá uma combinação de ficar em pé, ajoelhar e levantar, permanecer ajoelhado e sentar o que, juntamente com os sinais da cruz, a batida no peito, o abaixar da cabeça e os cantos responsoriais, equivalem àquilo que os educadores chamam de ambiente de Resposta Física Total: você é jogado no culto de corpo e alma e, em quase todos os momentos, algo está acontecendo que coloca sua mente de volta ao que você está fazendo. Tragicamente, o Novus Ordo abandonou muitos desses elementos “musculares” em favor de uma compreensão e resposta verbais que, por si sós, constituem formas bastante empobrecidas de participação. “O objetivo principal da liturgia não é o diálogo, mas o culto coletivo”[viii] As orações da Missa tradicional estão cheias de referências à guerra, disciplina, jejum, abnegação e temor ao Senhor. A malícia dos demônios e o perigo do inferno são francamente reconhecidos. Muitas dessas orações foram atenuadas ou removidas na reforma litúrgica por serem consideradas sombrias, assustadoras e desconcertantes – muito “medievais”. No entanto, essas coisas foram pregadas e vividas pela Igreja Católica em todas as épocas simplesmente porque são verdadeiras. Em um mundo moderno que se entorpece na sonolência e na morte precisamos ser estimulados, advertidos e auxiliados mais do que nunca por esse realismo rude e engajamento viril.

Quanto ao pecado: somos todos pecadores e todos precisamos de arrependimento e perdão. A velha missa está repleta de expressões de contrição e apelos à misericórdia de Deus. A versão medieval e mais completa do Confiteor, que apela nominalmente à Bem-Aventurada Virgem Maria, a São Miguel Arcanjo, a São João Batista, aos Santos Pedro e Paulo, e a toda a corte do céu, é rezada não apenas uma, mas três vezes: no início da Missa pelo padre e os assistentes que são, por sua vez, um exemplo comovente de humildade clerical e de nossa necessidade de orações mútuas; em seguida, uma segunda vez pelos assistentes um pouco antes da Sagrada Comunhão, como parte de uma preparação diligente para receber o mais sagrado dos itens sagrados: o Corpo de Cristo. Quando, a qualquer momento da missa, os pecados são confessados, aquele que os confessa curva-se humildemente e só se levanta quando é dada a absolvição menor. As próprias orações fixas da Missa gemem com a indignidade dos cristãos de se aproximarem do Deus Santo. Aos pés do altar, dizemos: “Mostrai-nos, Senhor, a vossa misericórdia. E concedei-nos a vossa salvação.” Enquanto o sacerdote sobe os degraus, ele sussurra: “Afastai de nós, Senhor, Vos pedimos, as nossas iniquidades, a fim de merecermos entrar de alma pura no Santo dos Santos (…) Nós Vos suplicamos, Senhor, pelos merecimentos dos vossos Santos, cujas relíquias aqui se encontram, e de todos os santos, Vos digneis perdoar-nos todos os nossos pecados. Amém.” Antes do Evangelho, o sacerdote reza: “Purificai-me, Deus omnipotente, o coração e os lábios, Vós que purificastes os lábios do profeta Isaías, com um carvão em brasa…”, e logo após essa leitura, diz: “Por estas palavras do Evangelho, perdoados sejam os nossos pecados”. No início do ofertório, ele levanta a patena com a hóstia e roga: “Recebei, Pai santo, Deus omnipotente e eterno, esta hóstia imaculada que eu, vosso indigno servo, Vos ofereço a Vós, meu Deus vivo e verdadeiro, pelos meus inumeráveis pecados, ofensas e negligências…” Após oferecer o cálice, ele se abaixa e diz: “Com o espírito humilhado e coração contrito, sejamos por Vós acolhidos, Senhor…” Ao lavar as mãos, ele diz: “Não deixeis, ó Deus, que minha alma se perca com os pecadores, nem a minha vida com os homens sanguinários; Eles que têm as mãos manchadas de iniquidade…livrai-me, Senhor e compadecei-Vos de mim.”. Durante o Cânon da Missa, ele se pronuncia apenas uma vez, reconhecendo sua indignidade: Nobis quoque peccatoribus … “A nós também, pecadores, vossos servos, confiados nas vossas infinitas misericórdias, dignai-Vos conceder entremos a fazer parte da sociedade dos vossos Santos Apóstolos e Mártires…” Depois da oração do Pai Nosso, ele implora: “Livrai-nos, Senhor, de todos os males, passados, presentes e futuros…” O sacerdote diz três vezes: “Senhor, não sou digno de que entres em minha morada, mas dize uma só palavra e a minhá alma será salva” e então, para a comunhão dos fiéis, essa humilde oração do centurião é repetida mais três vezes. Enquanto limpa cuidadosamente o cálice e seus dedos, o sacerdote ora: “O Vosso Corpo, Senhor, que eu comi e o vosso Sangue que eu bebi, se unam às minhas entranhas; refeito que fui com estes puros e santos sacramentos, fazei que em mim não fique mancha alguma de pecado”. Você entende o que quero dizer – orações tão poderosas, acompanhadas por ações tão memoráveis e impressionantes! Que vergonha, que tragédia, que a maioria dessas orações e ações tenham sido retiradas do Novus Ordo, como se o homem moderno não precisasse mais delas!

Qualquer que seja o aspecto da oração que você olhe, a Missa Latina Tradicional o exibe com o grau máximo de intensidade. Qualquer tipo de oração que você olhe – vocal, meditativa, contemplativa – a missa em latim exemplifica-a ou cultiva-a. A velha missa é uma fonte de oração e leva-a muito a sério, nunca se esquivando do olhar do Senhor e conduzindo-nos a focar intensamente n’Ele. É teocêntrica e vertical, habituando-nos a “buscar primeiro o reino de Deus e sua justiça”. Nunca é antropocêntrica ou horizontal; nunca desvia seu foco para um círculo fechado de afirmação meramente humana.

Ainda tem mais. O grande teólogo Romano Guardini, forte influência sobre Bento XVI, exprime lindamente a “modéstia” da liturgia tradicional e sua capacidade de extrair de nós uma resposta profundamente pessoal sem, no entanto, violar nossa privacidade emocional, sem expor ao olhar público aquilo que eventualmente nos deixaria particularmente felizes ou, por outro lado, envergonhados:

“[A] liturgia é maravilhosamente reservada. Quase não expressa certos aspectos da entrega e submissão espiritual ou então oculta-os em imagens tão ricas que a alma ainda sente que está escondida e segura. A oração da Igreja não investiga ou desnuda os segredos do coração. É tão contida no pensamento quanto na imaginação. É verdade que desperta emoções e impulsos muito profundos e ternos, mas deixa-os ocultos. Há certos sentimentos de entrega, certos aspectos de franqueza interior que não podem ser proclamados publicamente, pelo menos em sua totalidade, sem perigo para a modéstia espiritual. A liturgia aperfeiçoou um instrumento magistral que tornou possível expressarmos a nossa vida interior em toda a sua plenitude e profundidade, sem divulgar os nossos segredos – “secretum meum mihi” [o meu segredo é só meu]. Podemos derramar nossos corações e ainda sentir que nada do que deveria permanecer oculto foi indevidamente trazido à luz”.[ix]

Essa observação de um grande teólogo me inspira a dar um passo adiante e falar sobre os possíveis perigos da espiritualidade carismática.

Para ser justo, devemos dizer que toda abordagem espiritual ou escola de espiritualidade tem seus pontos fortes e fracos, virtudes brilhantes e tentações sutis. Por exemplo, os seguidores de São Francisco, o Pobre Homem de Assis, rapidamente divergiram em facções conflitantes no tocante à questão de como interpretar a pobreza radical e, pasmem, os ditos “espirituais” foram condenados. Os dominicanos deram tanta ênfase ao estudo que sua tentação vem na forma de um intelectualismo individualista. Os jesuítas cultivaram um ideal de missão sob a obediência que poderia azedar em ativismo e mundanismo. A Escola Francesa do século XVII, que apresentou luminares como o Cardeal Bérulle, Jean-Baptiste de la Salle, Jean-Jacques Olier, Jean Eudes e São Luís de Montfort, em mentes menores tornou-se a heresia do quietismo. E eu diria que os tradicionalistas católicos (por falta de um termo melhor) às vezes podem se fixar em certos aspectos externos e podem ficar presos na oração vocal, prestando atenção insuficiente à oração pessoal espontânea e sem palavras.

A espiritualidade carismática também tem seus perigos. Não terei tempo para examinar essa questão completamente, mas falarei por experiência própria na medida em que estive envolvido no movimento há muitos anos. Enquanto jovem de escola secundária, católico de domingo, mal catequizado, um grupo local carismático de oração despertou em mim o desejo de orar (afinal, como eu disse antes, a oração está no centro disso) mas o estilo de oração ali favorecido me parecia, analisando em retrospectiva, refém das emoções de momento e dependente da dinâmica do grupo. Por essa razão, “o foco da vida espiritual [foi] retirado da vontade e perfeição da caridade e colocado sobre coisas que não são essenciais”[x] – mais especificamente, em “dons carismáticos” ou “carismas”. Cito agora um padre com experiência em teologia espiritual:

“O ensinamento da Igreja sobre os dons carismáticos, em conformidade com os ensinamentos de Santo Tomás de Aquino e os escritos dos grandes santos, teólogos e místicos, é que esses dons pertencem ao que é classificado como ‘graças extraordinárias’, isto é, graças dadas gratuitamente por Deus a uma pessoa para o propósito específico de santificação de outra alma, e não a santificação da própria pessoa que possua tal dom. Esses dons são distintos da graça santificadora. Como sabemos, a graça santificadora (ou caridade) torna nossas almas agradáveis a Deus: é um reflexo da própria vida de Deus na alma e permanece lá enquanto não houver pecado mortal que a expulse. Em outras palavras, a graça santificadora é comum e estendida a todas as almas com o propósito de sua própria santificação e salvação pessoal. Precisamos disso para ir para o céu e tal graça pode aumentar em nós com a prática de penitência e boas obras”.

Como vimos anteriormente através do Papa Leão XIII, a graça santificante e a virtude da caridade sempre acompanham a presença de Deus na alma. Essa inabitação é atribuída de maneira especial ao Espírito Santo, que se diz habitar na alma como em um templo. Essa inabitação é uma realidade objetiva: destina-se a ser o estado normal e estável do cristão. Não é uma graça extraordinária, experiência emocional ou consolo embora às vezes possa, segundo a vontade de Deus, ser acompanhada por tais coisas. Mas, à medida que amadurecemos na vida espiritual, Deus “nos afasta das consolações. Esse é o ensinamento de todos os grandes mestres da vida espiritual, especialmente os Carmelitas: Santa Teresa d’Ávila, São João da Cruz, Santa Teresa de Lisieux”. Assim, por exemplo, S. João da Cruz simplesmente escreve: “O que mais necessitamos para progredir é calarmo-nos perante este grande Deus com o nosso apetite e com a nossa língua, porque a língua que melhor ouve é o amor silencioso. ” O padre que eu estava citando continua:

“Infelizmente, muitas almas (…) ficam alarmadas quando seu fervor inicial se perde e os consolos desaparecem. Em vez de continuar no caminho reto e estreito para uma maturidade superior e ainda temendo que Deus os tenha abandonado, elas podem se voltar para coisas que simplesmente alimentam as emoções a fim de recuperar um pouco daquele sabor dos consolos que um dia tiveram. Na verdade, uma certa expectativa (e pode ser muito sutil) começa a se estabelecer e dá a entender que esse seria o propósito e a função do culto divino. Quantas vezes hoje em dia a missa é celebrada com o mero intuito de nos deixar um sentimento simplesmente de bem-estar pessoal e autoafirmação?

O primeiro pensamento de nossa vida espiritual deve sempre ser a glória de Deus e não nosso próprio consolo e progresso; assim fazendo, servimos melhor aos nossos próprios interesses porque Deus não deixará que nos desviemos do reto caminho. Por boas razões, então, a Igreja sempre ordenou grande cautela quando se trata da presença e operação dos dons carismáticos porque, em geral, eles são frequentemente procurados pelos motivos errados e porque suas manifestações podem ser realmente falsas, seja como produto de um frenesi emocional ou psicológico ou mesmo decorrente do demônio.

Quando se trata de dons carismáticos, a melhor atitude é a indiferença. Uma vez que eles não são direcionados à nossa santificação, que é nossa principal obrigação, devemos ouvir o conselho do Apóstolo e sempre buscar os dons mais elevados – acima de tudo a caridade, da qual consiste nossa perfeição espiritual. Ninguém pode se desviar do caminho se buscar e implorar por um aumento de fé, esperança ou caridade, ou um aumento nos dons e frutos do Espírito Santo que são derramados sobre todos os batizados. Esses são os dons de que temos necessidade prioritária ao longo da vida, e aos quais temos até certo “direito”, visto que Deus nos adotou como Seus filhos no Filho”.

Observe que a condição espiritual exaltada por São João da Cruz – “estar em silêncio diante do grande Deus em amor silencioso” – é palpavelmente cumprida na Missa Latina Tradicional que, por sua vez, é obviamente direcionada à nossa santificação, à busca pelos dons superiores, ao exercício de nossa fé, à esperança e caridade e à ativação suave, constante e repetida dos dons do Espírito Santo latentes em nossas almas.[xi] Além disso podemos ver porque, segundo a Providência divina, os carismas gratuitos foram diminuindo ao longo da história. Na Igreja antiga, os carismas eram amplamente difundidos com vistas a espalhar a Fé, uma vez que essa andava desamparada. Com o passar do tempo, a graça da profecia consolidou-se na hierarquia da Igreja e a graça do culto verdadeiro concentrou-se cada vez mais na oração social solene e pública da Igreja: a missa, os sacramentos e o ofício divino.[xii] Como o grande restaurador da vida beneditina na França do século XIX, Dom Prosper Guéranger, resumiu: “O Espírito Santo fez da liturgia o centro de seu trabalho nas almas dos homens”. Para os Padres da Igreja, é na celebração dos sagrados mistérios, oferecidos por Cristo Sumo Sacerdote pelas mãos e pela voz de Seus servos na terra, que o Espírito Santo age sobre nossas almas para transformá-las em Cristo e para nos fazer imagens Dele, a imagem perfeita do Pai. Fechamos o círculo, então, ao ver que a obra mais importante e mais íntima do Espírito Santo é precisamente tornar Jesus Cristo presente. Torná-lo presente na palavra, no ritual, no sacramento, na Sagrada Eucaristia e, finalmente, em cada um de nós.[xiii] Uma grande figura espiritual da França do século 17, Madre Mectilde do Santíssimo Sacramento, exclama com fervor:

“Pode Jesus Cristo nos dar mais do que Ele mesmo? E uma vez que na Sagrada Comunhão Ele se dá completamente a nós – tudo o que Ele é e tudo o que n’Ele é grande e santo, Suas virtudes, Seus méritos e a sobra de Suas perfeições adoráveis – o que mais você quer? Se Jesus Cristo lhe desse algum favor, algumas luzes, êxtases ou arrebatamentos em oração, seriam essas verdadeiras graças? Mas o que é tudo isso comparado a Jesus Cristo? Além disso, há sempre motivos para desconfiança, já que tais coisas estão sujeitas à ilusão e podemos ser enganados. Mas no que diz respeito à Sagrada Comunhão não há nada a temer, pois é Nosso Senhor em Sua própria pessoa que dá a realidade de Si mesmo”.[xiv]

Quando, pela primeira vez, participei da velha missa na época de faculdade, descobri um oceano de oração que, de tão vasto, eu nem poderia imaginar. Ali se podia nadar para sempre e nunca se cansar. Não houve transtorno místico repentino, pelo menos não para mim. Em vez disso, encontrei um espaço profundo, ressonante e silencioso para encontrar o Senhor e apreender Sua linguagem – lenta, gentil e pacífica. Não sem desafios, é claro, mas sempre rendendo numerosos frutos. Encontrei uma liturgia inspirando e expirando segundo o ritmo dos santos na história de dois milênios da Igreja Católica Romana. Os sinais e símbolos – os muitos beijos no altar, genuflexões, reverências, sinais da cruz, a oração ad orientem, paramentos e recipientes nobres, o canto, o incenso, etc. – tudo isso penetrou na minha alma e “levou cativo todo o pensamento à obediência a Cristo” (cf. 2 Cor 10: 5). O Espírito Santo é o Espírito da verdade e da memória. Ele nos une à verdade que é Cristo, que disse dele: “Mas o Conselheiro, o Espírito Santo, que o Pai enviará em meu nome, lhes ensinará todas as coisas e lhes fará lembrar tudo o que eu lhes disse” (Jo 14,26) – o que significa não apenas o que Nosso Senhor disse na Terra Santa, mas tudo o que ele falou através da Sua Santa Igreja e através da liturgia que Ele fez crescer dentro dela. O Espírito Santo é o Espírito da tradição, pois Ele dá forma ao corpo de Cristo no seio da história. Ele sopra por sobre as águas da piedade para produzir a base sólida dos rituais e Ele garante que a tradição universalmente recebida e venerada sempre permanecerá fecunda e nunca será prejudicial. O Espírito Santo é o Espírito de autocontrole, humildade, obediência e temor reverencial.

Em suma: a maior concentração de carismas espirituais que já existiu ou poderia existir é a tradicional liturgia sagrada. É uma verdadeira usina de purgação, iluminação e unificação. Autodisciplina, sabedoria e amor ardente a Deus. É isso que os carismáticos desejam e, portanto, devem encontrar em sua forma mais pura e intensa.

TRADUÇÃO: Emerson Lima

REVISÃO: Mônica Cadorin

eslima80@hotmail.com

NOTAS

[i] Citado por Pe. Hunwicke https://liturgicalnotes.blogspot.com/2020/08/the-binitarian-genius-of-roman-rite-2.html.

[ii] Presumivelmente, a este período pós-381 também pertence a oração bizantina: “Rei do Céu, Consolador, Espírito da Verdade, tu estás presente em todos os lugares e preenche todas as coisas. Tesouro de bênçãos e doador de vida, venha habitar em nós, purifique-nos de todas as manchas e salve nossas almas, ó excelente!”

[iii] https://liturgicalnotes.blogspot.com/2020/08/the-binitarian-genius-of-roman-rite-3.html

[iv] https://liturgicalnotes.blogspot.com/2020/09/the-binitarian-genius-of-roman.html

[v] Veja o meu artigo “Correlations between the Sacraments and the Readings for the Octave of Pentecost,” New Liturgical Movement, June 1, 2020.

[vi] Missal diário de S. André (1948): “[A] liturgia celebra o reino do Espírito Santo que se estende por toda a Igreja universal e está em evidência desde o Pentecostes até o fim do mundo do qual a Igreja nos fala no vigésimo quarto ou último domingo após o Pentecostes ”(737); “O reinado do Espírito Santo e da Igreja, que começa no Pentecostes é apenas a extensão do reino de nosso Senhor, ao qual este último fornece uma universalidade de tempo e lugar que nunca poderia ter ocorrido somente na Palestina” (738). Vale a pena ler todo o comentário do Pe. Gaspar Lefebvre sobre o tempo após o Pentecostes.

[vii] As bizantificações do Novus Ordo introduzem, como que por violência, algumas novas menções do Espírito Santo, mas apenas ao custo de prejudicar a integridade da própria teologia antiga do rito romano.

[viii] Michael Fiedrowicz, The Traditional Mass: The History, Form, and Theology of the Classical Roman Rite (Brooklyn: Angelico Press, 2020), 148.

[ix] Romano Guardini – “O Espírito da Liturgia” publicado na edição comemorativa de “O Espírito da Liturgia” de Joseph Ratzinger (San Francisco: Ignatius Press, 2018), 287. Guardini acrescenta então em uma nota: “A liturgia aqui realiza no plano espiritual o que foi feito no temporal pelas formas dignas de relacionamento social, o resultado da tradição criada e transmitida por pessoas sensíveis. Isso torna a vida comunitária possível para o indivíduo e, ainda assim, o protege contra interferências não autorizadas em seu eu interior; ele pode ser cordial sem sacrificar sua independência espiritual, ele está em comunicação com o próximo sem, por isso, ser engolido e ficar perdido na multidão. Da mesma forma, a liturgia preserva a liberdade de movimento espiritual da alma por meio de uma maravilhosa união espontânea e a mais fina erudição. Exalta a urbanitas como o melhor antídoto para a barbárie, que triunfa quando a espontaneidade e a cultura não existem mais”. CITA NEWMAN SOBRE O PERIGO DE ADORAÇÃO EMOCIONAL

[x] “Confusion about Graces: A Catholic Critique of the Charismatic Movement,” https://onepeterfive.com/confusion-about-graces-a-catholic-critique-of-the-charismatic-movement/.

[xi] É por isso que o canto gregoriano é tão importante: “A grande maioria dos cantos latinos foi composta por monges anônimos, cantores e cônegos. Nunca saberemos seus nomes nesta vida. Que corretivo saudável para o egoísmo que frequentemente acompanha a criatividade artística e a performance! O canto extingue a personalidade distinta – tanto porque geralmente não conhecemos seu autor, quanto porque não podemos “brilhar” ou nos destacar como uma estrela do rock ao cantar o canto em uma escola ou congregação. Funciona contra o desejo de exibição, incentiva a submersão da individualidade em Cristo e nos faz agir e nos sentir como membros do Corpo Místico. Como outras práticas litúrgicas tradicionais, o uso do canto nos tira do velho e nos reveste de Cristo. Esse processo de conversão precisa ser suave e contínuo para ter sucesso. Não pode ser o resultado de ataques de entusiasmo, emoções altas ou violência psicológica.” De https://rorate-caeli.blogspot.com/2020/02/gregorian-chant-perfect-music-for.html.

[xii] Citando Guéranger, Cecile Bruyere; Journet on prophecy.

[xiii] “Assim como o Pai fez uso do povo judeu na preparação para a salvação do mundo e a Palavra tomou nossa natureza humana e fez dela o instrumento de nossa redenção, também é o Espírito Santo quem torna essa redenção operativa na Igreja. O sacerdócio, a missa e os sacramentos são os canais oficiais pelos quais Ele nos fornece o ensinamento de nosso Senhor e aplica seus méritos às nossas almas … O reino do Espírito Santo se manifesta visivelmente na Igreja Romana, no centro da qual o Santíssimo Sacramento irradia sua luz divina por todos os lados. O Espírito é a alma que anima a Igreja – e nosso Senhor, escondido na Hóstia, é o seu coração, do qual o sangue da graça circula nas veias, é o canal dos sacramentos, em todos os membros. As ações do Espírito Santo e de nosso Senhor no Santíssimo Sacramento convergem pontualmente nas Sagradas Escrituras quando estas declaram indistintamente que somos santificados no Espírito Santo [1 Cor 6:11] ou em Cristo [1 Cor 1: 1] e que, assim como o Espírito Santo é o “Espírito da Vida”, nosso Senhor é o “Pão da Vida” (Missal Diário de S. André, 1945 ed., pp. 737-38).

[xiv] Madre Mectilde, The Mystery of Incomprehensible Love (Brooklyn: Angelico Press, 2020), 116–17.

4 Comentários to “Por que os católicos carismáticos deveriam apreciar a Missa Latina Tradicional.”

  1. Salve Maria!!!!!
    Belíssimo artigo do Dr. Peter e, principalmente, a respeitosa representação da veneração de São João da Cruz e de Santa Teresa de Jesus a Nossa Senhora do Carmo, padroeira da minha diocese.
    O bispo daqui veio de Amparo, região de Campinas e onde os jesuítas carismáticos possuem a TV SÉCULO XXI. Desde que ele chegou, as coisas pioraram ainda mais pois minha diocese era governada por um bispo dehoniano. Já vi um sacerdote ter o escapulário puxado do pescoço por uma beata, o que lhe deixou uma marca no pomo de Adão e queria também rasgar as vestes dele mas a seguraram. Agora se fala, em minha paróquia, sobre uma manifestação para deter a infiltração de pessoas ateias que aparecem no Cerco de Jericó anual para lucrar dividendos políticos. De acordo com o Padre Lucas, antigo pároco da paróquia Divino Espírito Santo no bairro da Consolação, capital de São Paulo, que na graduação secular é psicólogo: “queria mudar o Padroeiro desta paróquia para Chico Xavier. O que aparece de gente incorporada ou possuída pelo Demônio me faz pensar a razão de não ter aberto um consultório ou prestado outro concurso público. Não é bolinho não”.

  2. Voltei para a Igreja por meio da RCC. Lá no início, um seminarista que hoje já é padre, disse numa conversa que a renovação carismática de certa forma era um movimento tradicional, pois, usava velas, rezava o terço e fazia muitas orações até mesmo as mais antigas, venerava os santos, fazia procissões, etc. Ao contrário dos oponentes fortes da época que eram os da “teologia” da libertação e desprezavam tudo isso. E isso é verdade se olharmos com honestidade para a RCC.
    Sempre percebi também o interesse dos carismáticos pelas tradições orientais – principalmente a bizantina – e pela beleza na liturgia, mesmo não tendo base e conhecimento para isso em tempos passados (hoje cresceram muito neste aspecto).
    Este artigo será de grande serventia tanto para os carismáticos quanto para os tradicionais. Afinal, todos buscamos o mesmo fim. Que o Divino Espírito nos ilumine.

    • >>>a renovação carismática de certa forma era um movimento tradicional, pois, usava…
      Sim, claro que é, poxa vida, e de “certa forma” um traveco é uma mulher porque usa saia e peruca.
      Oxalá que o padre tenha deixado de dizer tantas besteiras.

  3. Esclarecedor artigo. Que os carismáticos compreendam o valor do corpo da tradição da Igreja.
    Se os carismáticos quiserem ser fieis à Igreja, precisam observar que, seguindo o Tempo Comum do Novus Ordo, auxiliam a fixação do calendário maçônico (que ocupa com outras comemorações mundanas o tempo que não é enfatizado no calendário católico) na sensibilidade da sociedade. Os maçons querem terminar o trabalho, eliminando Jesus Cristo das comemorações de Natal e Páscoa, antes de eliminar a existência dessas celebrações católicas.
    A retirada da cerimônia de exorcismo do rito batismal poderia ajudar a explicar a recorrente queda dos batizados das gerações pós CV-II no ateísmo?
    A Igreja precisa acrescentar o conhecimento psicológico sobre os depressivos e bipolares ao pregar a prática do arrependimento dos pecados e a consciência da indignidade do fiel diante de Deus: conheço viciado em drogas que, após tratamento, diz que, quando reza, desliza para a depressão (difícil encontrar um sacerdote tradicional para orientá-lo, e os demais apenas o encaminharão ao ativismo social).
    O risco para os jesuítas parece vir da condição nobre de seu fundador, que incorpora o exercício do poder como segunda natureza, o que se opõe à humildade pregada por Cristo; mesmo obedientes ao papa, seus métodos (inclusive os maquiavélicos, utilizados pelo papa Bergoglio) advêm da admissão tácita da busca e manutenção do poder característicos da nobreza.
    É grande o risco de os seguidores da vertente carismática confundirem o sentido religioso de carisma com o sentido mundano: este se confunde com o princípio satânico de encanto, de que costumam ser vítimas os cantores católicos leigos ou religiosos.

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