Sínodo do Sínodo e o novo significado de pós-Concílio.

FratresInUnum.com, 24 de maio de 2021 – Acabam de sair as novas disposições sobre o próximo sínodo, cujo tema é o sínodo mesmo — o enclausuramento eclesiológico é praticamente crônico nas reflexões das últimas décadas e, por mais ridícula que pareça, a redundância é apenas o signo léxico de uma eclesiologia em si mesma redundante. Novas disposições, por quê? Enfim, também nós não entendemos, já que o Sínodo da Família usou a mesma metodologia: consultas à “base” para, depois, resultar em sínteses diocesanas, nacionais, continentais e, com isso, realizar o circo midiático sinodal. 

Papa sínodo

Imagem: a Pachamama glorificada no Sínodo da Amazônia.

Talvez a novidade não esteja propriamente na metodologia, mas, sim, na finalidade a que ela se propõe de maneira estrutural: criar um sistema plebiscitário para dar a impressão de que todos podem participar do governo da Igreja. No entanto, longe de uma “Igreja em saída”, temos cada vez mais uma cúpula clericalista ensimesmada, cada dia mais afundada em suas burocracias, conferências, regionais, congressos e comissões eclesiásticas.

Dizemos “para dar a impressão” porque definitivamente a última coisa que interessa aos progressistas é escutar o povo fiel. Exatamente como ocorreu no sínodo para a família, quando o resultado das consultas não chegava como os chefes do sínodo queriam, eles engambelavam e davam um jeitinho de fazer suas ideias prosperarem. Se os bispos fossem eleitos pelo povo, a maioria das inócuas excelências eleitas para portarem uma mitra sobre a cabeça jamais sairiam do anonimato, inclusive porque alguns, mesmo depois de bispos, perseveram heroicamente na posição de nulidades absolutas.

O povo é e sempre foi católico raiz e nunca entendeu direito as manhas do clero progressista. O descolamento do corpo dos fieis é mais do que flagrante. Afinal de contas, não é por acaso que justamente os países que querem determinar os rumos do catolicismo no século XXI sejam aqueles cuja erosão do número de católicos seja tão vultuosa quanto a sua presunção.

Fato é que, ao fim e ao cabo, todas essas consultas servem para muito pouco, pois acabam sendo o adubo de que as vacas ideológicas irão formar o seu esterco. De resto, o próprio Papa Francisco já disse que o sínodo não consiste em colocar temas sob votação, mas em escutar o Espírito Santo – a pena é que coloquem na conta do Espírito Santo tantas obsolescências pensadas pelos teólogos!

Há, contudo, uma utilidade que não aparece numa visão superficial e é esta novidade que é visada como objetivo principal do sínodo sobre o sínodo. Trata-se, agora, não mais de realizar um sínodo sobre um tema específico, mas de realizar uma mudança na estrutura divina da Igreja, introduzindo-a numa dinâmica abertamente revolucionária. 

Dizendo em outras palavras, o que se quer é revolucionar permanentemente a Igreja em discussões contínuas, numa bagunça perpétua, em que ninguém mais terá paz, pois a cada quinquênio (quando muito!) tudo corre o risco de mudar.

Dom Hélder Câmara, na época do Concílio, fez a singela sugestão de que o papa convocasse a cada dez anos um novo Concílio Ecumênico para aggiornare – atualizar! – a Igreja no contexto do progresso daquela década, a fim de que não perdesse o bonde da história. O que ele não imaginava é que a sua sugestão, naquele tempo tão vanguardista, seria relegada como antiquada justamente pelos seus devotos!

Com a Igreja Sinodal, provavelmente a história dos Concílios ficará encerrada, pois estas reuniões de todo o episcopado serão consideradas desnecessárias e até indesejáveis. A sinodalidade bergogliana jogou o progressismo no verdadeiro pós-Concílio, quer dizer, não apenas na fase sucessiva do Vaticano II, mas numa fase que superará definitivamente a estrutura mesma de todo e qualquer Concílio, pois assumirá a perturbadora inovação como método de sua autorrealização.

A frase do protestante reformado holandês, Gisbertus Goetius, “Ecclesia Reformata, semper reformanda” (“A Igreja reformada sempre está em reforma”) agora será assumida como essência da pastoralidade da Igreja Católica. Tudo estará sempre em constante mutação. Tudo!

E não há nada de novo nisso, também. Quem não compreendeu que a provisorialidade é um elemento essencial de todas as formas da Nova Teologia, inclusive da Teologia da Libertação, simplesmente não entendeu nada. Para essas correntes de pensamento, toda e qualquer teologia é fruto do seu próprio período histórico e de sua realidade econômico-sócio-política. Não há uma teologia absoluta, feita de verdades imutáveis, de dogmas, de preceitos emanados univocamente da Divina Revelação. Tudo está em discussão e interpretação sempre!

Para os progressistas, na verdade, tudo é questão de velocidade: uns querem ir mais rápido, outros mais devagar, mas, no fundo, é preciso avançar, mesmo que lentamente. Como dizia Francisco, em Evangelii Gaudium, “o tempo é superior ao espaço” (n. 222) e, por isso, “este princípio permite trabalhar a longo prazo, sem a obsessão pelos resultados imediatos” (n. 223).

Ao contrário, a Igreja nunca precisou apelar para uma dinâmica de plebiscito porque está fundada sobre verdades eternas, as verdades da Fé, permanentes para todos os períodos da história. Os papas, os bispos, os sacerdotes ou qualquer outra autoridade nunca pensaram em mudar nada disso, por mais corruptos que fossem. A estrutura da Igreja foi criada para conservar e transmitir a Fé, e não para deixa-la à mercê das instabilidades das modas do momento. É justamente essa permanência que manteve a Igreja firme e estável por mais de dois milênios!

Não adianta nos comportarmos com aquela cegueira voluntária de quem se recusa a admitir os fatos. O Papa Francisco e toda a sua equipe, especialmente o gabinete das sombras, que atua de modo oculto e inteligente, estão atirando a Igreja Católica na diluição completa. Estamos às portas de mais uma imensa confusão que gerará nada mais nada menos que uma Igreja líquida. Resistamos e brademos sempre: Non praevalebunt!

14 Comentários to “Sínodo do Sínodo e o novo significado de pós-Concílio.”

  1. “A frase do protestante reformado holandês, Gisbertus Goetius, “Ecclesia Reformata, semper reformanda” (“A Igreja reformada sempre está em reforma”) agora será assumida como essência da pastoralidade da Igreja Católica. Tudo estará sempre em constante mutação. Tudo!”

    Genial este trecho, pela verdade e pelo paradoxo: “Igreja reformada, sempre está em reforma”. Esta igreja sempre reformanda É (ou subsist in) a Igreja Reformada… e, obviamente, não é a Igreja Católica.

    Simples assim.

  2. Espírito Santo que muda, que ouve e resolve mudar a religião, não é Espírito Santo, mas espírito demoníaco infiltrado na Igreja pelo fumo de Satanás.
    Quem muda na religião, aliás em qualquer uma, são os homens.
    Toda vez que tentarem reformar a Igreja Católica de 2 mil anos o resultado será sempre o mesmo obtido no século XV: uma nova religião, uma nova seita.
    Isto será tudo que Bergoglio obterá.
    A Igreja Católica e seus fiéis permanecerão nem que sejam em catacumbas novamente.

  3. Puts…
    Tudo o q eles fazem são apenas vontades humanas..
    O Espírito Santo passa longe desses concilios, querem apenas colocar suas ideias em prática
    Como bem disse no artigo, a estrutura da Igreja foi criada para guardar a fé, e não para seguir modinha!
    Vamos orar para q as portas do inferno não prevaleçam contra a Igreja de Cristo

  4. Leiam o “Iota unum”, de Romano Amerio: “estudo sobre as variações da Igreja católica no século XX”. Foi publicada a tradução em Português, mas acha-se o pdf em espanhol. (
    Comprem bons livros e ajudem editoras católicas (não a do Frei Marxiano Cabeleira que veste Armani e vai flanar de Honda Civic pra levar teco de bandido).

    Embora leigo, o autor foi perito do “Concílio”. O livro foi histericamente atacado pelo clero italiano (que jurou vendetta, mordeu a mão à calabresa e imprecou as mais horrendas maldições), mas por fim Romano Amerio recebeu uma carta muito respeitosa e elogiosa vinda da parte de João Paulo 2.

    Não percam. A documentação é quase que exclusivamente oriunda de L’Osservatore Romano e dos escritos oficiais da Santa Sé (occupée).

  5. Reedição do fracassado e abjurado Sínodooco da Amazonia Pachamamma versão II, sem Deus e sem estarem sob as inspirações do Espírito Santo e a presença de N Senhora?
    O modelo de apresentação aparentemente plebiscitário mais se pareceria uma jogada das esquerdas, mestras imbatíveis de se mostrarem exteriormente o que não são por dentro e não agem, senão portadores de objetivos que atendem as escravagistas e diabólicas ideologias marxistas-maçonaria, nada mais, apresentando-se sempre “defendendo” o “povo”, no entanto, esse tal “povo” não passa senão dos componentes do partido ou então dos mortadelas avulsos ignorantes da realidade, em geral incultos do campo, que arregimentam para darem falsa impressão comprovante de apoio à causa é que são alimentados, levados aos locais dos desfiles e bem pagos!
    Por outro lado, se lhes perguntarem o por que de se manifestarem, apenas se referem que foram convidados: ofereceram-lhe propinas e alimentação, mas o objetivo mesmo das manifestações nada explicam – não passando de massas-de-manobras do partido – e o papa Francisco como apoiador das esquerdas, entende perfeitamente bem disso, não sendo sem motivos ideológicos convincentes que L Boff à eleição dele para o papado, bradou muito solene e exultantemente em diversos vídeos: “o papa Francisco é um dos nossos”!
    Não será para a reedição de uma nova missa mais protestantizada, modificações do “Pai Nosso” e mais um arrocho nos conservadores, alianças e mais sintonias doutrinárias com religiões pagãs, com outros PCs, outras deturpações da doutrina de 2000 anos etc?
    Desculpem-me o termo: porém, fede a isso e a muito mais de ruim – piorando o que já está péssimo, como a outorga a pagãos do PC chinês “ordenarem” bispos à revelia do Vaticano!

  6. De tudo isso, só me lembro das Palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo:’Os pecados contra o Espírito Santo não serão perdoados

  7. Pelo que li desse processo sinodal, o cerne da questão será o poder de tomada de decisão na Igreja nas mãos dos bispos e leigos, diante disso é possível que Francisco altere a forma de eleger seu sucessor transformado o conclave num “processo sinodal”, ou seja, abrindo espaço para o poder de voto dos bispos e leigos nele?
    Seja lá o que for decidido, me parece que esse processo sinodal é uma estratégia para diminuir o poder do Papa como bispo universal.

  8. Se me permitem um pequeno comentário, acho que Deus, por ocasião do Conclave, ao invés de Espírito Santo, mandou foi um raio sobre o Vaticano.

  9. Seguem-na todos esses negligentes que se encostaram na Igreja e que nunca tiveram mérito algum para chegar às suas posições, não fossem favorecidos por apadrinhamentos espúrios ou pela politicagem tosca que predomina nas sacristias e nunciaturas. ”
    Isso é muito triste pois existem sacerdotes q buscam a Santidade, e estão unidos a sã doutrina ensinando a verdade e acabam ficando no anonimato.
    Mas nosso Senhor os conhece, e aí final serão chamados ” Vinde benditos do meu pai’
    E aos demais ! Bem só resta a palavra …”afastai-vos de mim ide para o fogo eterno” Mateus 26,41

  10. Só a Maçonaria teria interesse e persistência em atirar a Igreja Católica na diluição completa.
    Reportagem: a revista Time deu ao jornalista US$ 20.000 por mês para sediar festas progressistas durante o Vaticano II (Life Site News) Buscar na internet:
    Report: Time magazine gave journalist $20,000 per month to host progressivist parties during vatican ii

  11. O nome disso é falta do que fazer…

  12. Não é prudente supor que qualquer atitude da esquerda seja falta do que fazer. Eles não desperdiçam as lições de mais de cento e cinquenta anos de experiência revolucionária. Tudo é feito coletivamente, organizado como um corpo funcional. Os pensadores esquerdistas, treinados na dialética, não têm preguiça de estudar os últimos conhecimentos sobre psicologia social para aplicá-los nas suas estratégias políticas maquiavélicas. Os conservadores atentos se espantam com a capacidade de dano no longo prazo dos desdobramentos psicopáticos de ações esquerdistas, que iniciam aparentemente inócuas.

  13. Uma das propostas do caminho sinodal alemão era a eleição direta de bispos e párocos pelos membros da igreja; e criação de comissões de leigos com o poder de anular decisões de bispos, não duvido que isso seja levado para discussão na ultima etapa do sínodo de Roma em 2023.