“A liturgia não é um brinquedo dos Papas; é a herança da Igreja”. Fortíssima declaração de Dom Rob Mutsaerts (bispo auxiliar de Den Bosch, Holanda).

Um mau decreto do Papa Francisco

Por Dom Rob Mutsaerts, bispo auxiliar de ‘s-Hertogenbosch, Holanda, 22 de julho de 2021

Tradução de FratresInUnum.com por meio de versão inglesa de Rorate-Caeli

O Papa Francisco promove a sinodalidade: todos devem ser capazes de falar, todos devem ser ouvidos. Esse dificilmente foi o caso com seu motu proprio Traditionis Custodes recentemente publicado, um ukase [edito imperial] que deve encerrar imediatamente a missa tradicional em latim. Ao fazê-lo, Francisco coloca uma grande tarja em Summorum Pontificum, o motu proprio do Papa Bento XVI que deu amplo alcance à missa antiga.

O fato de Francisco usar aqui a palavra de poder sem nenhuma consulta indica que ele está perdendo autoridade. Isso já ficou evidente antes, quando a Conferência dos Bispos Alemães não tomou conhecimento do conselho do Papa sobre o processo de sinodalidade. O mesmo ocorreu nos Estados Unidos, quando o Papa Francisco pediu à Conferência Episcopal que não preparasse um documento sobre a dignidade da Comunhão. O Papa deve ter pensado, agora que estamos falando sobre a missa tradicional, que seria melhor [neste caso] não dar mais conselhos, mas sim uma ordem de execução!

A linguagem usada se parece muito com uma declaração de guerra. Todos os papas desde Paulo VI sempre deixaram aberturas para a missa antiga. Se alguma mudança foi feita [naquela abertura], foram pequenas revisões – veja, por exemplo, os indultos de 1984 e 1989. João Paulo II acreditava firmemente que os bispos deveriam ser generosos em permitir a Missa Tridentina. Bento XVI abriu as portas com Summorum Pontificum: “O que no passado era sagrado continua sagrado agora”. Francisco bate a porta com força através dos Traditionis Custodes. Parece uma traição e é um tapa na cara de seus antecessores.

A propósito, a Igreja nunca aboliu as liturgias. Nem mesmo Trento [o fez]. Francisco rompe totalmente com essa tradição. O motu proprio contém, de forma breve e firme, algumas proposições e ordens. As coisas são explicadas com mais detalhes por meio de uma carta mais longa que o acompanha. Esta declaração contém alguns erros factuais. Uma delas é a afirmação de que o que Paulo VI fez depois do Vaticano II é o mesmo que Pio V fez depois de Trento. Isso está completamente longe da verdade. Lembre-se de que antes daquela época [de Trento] havia vários manuscritos  em circulação e liturgias locais surgiram aqui e ali. A situação era uma bagunça.

Trento queria restaurar as liturgias, remover imprecisões e garantir a ortodoxia. Trento não estava preocupado em reescrever a liturgia, nem com novos acréscimos, novas orações eucarísticas, um novo lecionário ou um novo calendário. O objetivo era garantir a continuidade orgânica ininterrupta. O missal de 1570 remonta ao missal de 1474 e assim sucessivamente ao século IV. Houve continuidade a partir do século IV. Após o século XV, existem mais quatro séculos de continuidade. Vez ou outra ocorriam no máximo algumas pequenas alterações – um acréscimo de uma festa, comemoração ou rubrica.

No documento conciliar Sacrosanctum Concilium, o Vaticano II pediu por reforma litúrgica. Considerando todos os pontos, foi um documento conservador. O latim foi mantido, o canto gregoriano manteve seu legítimo lugar na liturgia. No entanto, os desenvolvimentos que se seguiram após o Vaticano II estão muito distantes dos documentos do concílio. O infame “espírito do concílio” não pode ser encontrado nos próprios textos conciliares. Apenas 17% das orações do antigo missal de Trento podem ser encontradas [intactas] no novo missal de Paulo VI. Mal se pode falar de continuidade, de um desenvolvimento orgânico. Bento XVI reconheceu isso e por isso deu amplo espaço à Missa antiga. Chegou a dizer que ninguém precisava de sua permissão (“o que era sagrado então ainda é sagrado agora”).

O Papa Francisco pretende agora que seu motu proprio faça parte do desenvolvimento orgânico da Igreja, o que contradiz totalmente a realidade. Ao tornar a missa em latim praticamente impossível, ele finalmente rompe com a antiga tradição litúrgica da Igreja Católica Romana. A liturgia não é um brinquedo dos papas; é a herança da Igreja. A Missa antiga não é sobre nostalgia ou gosto. O Papa deve ser o guardião da Tradição; o Papa é um jardineiro, não um fabricante. O direito canônico não é apenas uma questão de direito positivo; existe também a lei natural e a lei divina e, além disso, existe algo chamado Tradição que não pode ser simplesmente deixado de lado.

O que o Papa Francisco está fazendo aqui não tem nada a ver com evangelização e muito menos a ver com misericórdia. Tem a ver mais com ideologia.

Vá a qualquer paróquia onde a Missa antiga seja celebrada. O que você encontra aí? Pessoas que querem apenas ser católicas. Geralmente, essas pessoas não se envolvem em disputas teológicas, nem são contra o Vaticano II (embora sejam contra a maneira como ele foi implementado). Eles amam a missa em latim por sua sacralidade, sua transcendência, a salvação das almas que é central, a dignidade da liturgia. Você encontra famílias numerosas; as pessoas se sentem bem-vindas. Ela só é celebrada em poucos lugares. Por que o Papa quer negar isso às pessoas? Volto ao que disse antes: é ideologia. Ou é o Vaticano II – incluindo sua implementação, com todas as suas aberrações – ou nada! O número relativamente pequeno de fiéis (um número crescente, aliás, à medida em que o Novus Ordo está entrando em colapso) que se sentem em casa com a missa tradicional deve e será erradicado. Isso é ideologia e maldade.

Se realmente se quer evangelizar, ser verdadeiramente misericordioso, apoiar as famílias católicas, então é necessário garantir honra à Missa Tridentina. A partir da data do motu proprio, a Missa antiga não pode ser celebrada nas igrejas paroquiais (onde então?); é necessária permissão explícita de seu bispo, que a pode permitir apenas em certos dias; para aqueles que serão ordenados no futuro e desejam celebrar a Missa antiga, o bispo deve pedir orientação de Roma. Quão ditatorial, quão impastoral, quão impiedoso se deseja ser!

Francisco, no artigo 1 de seu motu proprio, chama o Novus Ordo (a presente missa) de “a expressão única da Lex Orandi do Rito Romano”. Ele, portanto, não mais distingue entre a forma ordinária (Paulo VI) e a forma extraordinária (Missa tridentina). Sempre foi dito que ambas são expressões da Lex Orandi, não apenas do Novus Ordo. Novamente, a Missa antiga nunca foi abolida! Nunca ouvi de Bergoglio sobre os muitos abusos litúrgicos que existem aqui e ali em inúmeras paróquias. Nas paróquias, tudo é possível – exceto a Missa Tridentina. Todas as armas são lançadas na guerra para erradicar a Missa Antiga.

Por quê? Pelo amor de Deus, por quê? Qual é a obsessão de Francisco de querer erradicar* aquele pequeno grupo de tradicionalistas? O Papa deve ser o guardião da Tradição, não o carcereiro da Tradição. Enquanto Amoris Laetitia se destacou na imprecisão, Traditionis Custodes é uma declaração de guerra perfeitamente clara.

Suspeito que Francisco está atirando no próprio pé com este motu proprio. Para a Fraternidade São Pio X, será uma boa notícia. Eles nunca serão capazes de supor o quanto devem ao Papa Francisco…

[* O bispo aqui usa a palavra alemã carregada ausradieren, que foi usada por Hitler quando ele falava em apagar cidades do mapa: “Wir werden ihre Städte ausradieren.”]

10 Responses to ““A liturgia não é um brinquedo dos Papas; é a herança da Igreja”. Fortíssima declaração de Dom Rob Mutsaerts (bispo auxiliar de Den Bosch, Holanda).”

  1. Cabra macho.

    Não está brincando de igrejinha qual menina boazinha que tem medo da lobinha e das outras amiguinhas.

  2. “Suspeito que Francisco está atirando no próprio pé com este motu proprio. Para a Fraternidade São Pio X, será uma boa notícia. Eles nunca serão capazes de supor o quanto devem ao Papa Francisco…”

    A FSSPX não existe para ser concorrente da Igreja, mas como um sinal que se abateu sobre a Igreja. Se ela existe e mantêm a Tradição, é porque os papas e o clero conduziram a Igreja ao caos 1)Doutrinário, 2)Litúrgico e agora 3) Moral.
    Para a FSSPX e para a Resistência Católica, a perseguição da Missa em si jamais foi ou será uma boa notícia. Apesar de que não se põe vinho novo em odres velhos, afim de não se pôr a perder o vinho, mas toda a perseguição súbita, geral e impiedosa contra a Missa, só mostra que de fato, tudo o que as autoridades conciliares pretenderam até aqui era conquistar os “refratários” para converter todos ao Concílio.
    Neste sentido, os que não morderam a isca não devem se alegrar, mas respirar aliviados. Se houvessem sido atraídos por Bento XVI, estariam perdidos agora, sob a autoridade do sanguinário cardeal João Brás de Avis, o destruidor de conventos.

    Agora está claro que ninguém quer se converter a Igreja Católica Apostólica Romana, mas ao contrário: querem deixar para trás toda a Tradição, e consolidar a religião antropocêntrica, ecumênica, democrática, maçônica.

  3. Um texto publicado no periódico Wiener Deutsche Zeitung, de 15 de março de 1901, no qual se reproduz o conteúdo de um folheto que no dia anterior havia sido objeto de um debate na Câmara dos Deputados da Áustria: “Precisamos procurar por todos os meios enfraquecer a influência da Igreja Católica, que sempre foi nossa maior inimiga, e com essa finalidade precisamos semear, nos corações de seus fiéis, idéias liberais e dúvidas e provocar discórdias e rixas religiosas”.

  4. “A liturgia não é um brinquedo dos Papas; é a herança da Igreja”, além do mais o santo Pontífice S Pio V anatematizou e também amaldiçoou qualquer um que se indispusesse ou se empenhasse em modificar a Bula “QUO PRIMUM TEMPORE”, isto é, querendo afirmar e ao mesmo tempo admoestar que a doutrina que havia compendiado e sintetizado nesse documento unificado da doutrina católica, a qual provinha desde os tempos apostólicos, abrangia tanto para todos os modelos de clérigos e leigos!
    Dessa forma, deveria continuar inalterável e intocável por todo o sempre, justamente porque foi um apanhado geral, resumido e sintetizado no paradigma acima, configurando a um autêntico cânon, portanto a ser seguido sob risco sob severas penalidades das sanções acima mencionadas a quem, ousadamente, tentasse-os modificar ou adulterar!
    As vozes estão se levantando contra o papa Francisco de todos os lados – veremos se suportará a pressão que se avoluma contra ele, ascendentemente – e será demasiado oportuno que novos bispos se pronunciem abertamente contra esse suposto abuso de autoridade de ingerência nesse documento que foi fielmente seguido e, pelo que indica, poderia incorrer nas penalidade enunciadas, que jamais até ao Vaticano II foram objeto de adulteração por parte da Cúpula da Igreja, desde qualquer um dos Sumos Pontífices, acontecendo esse fato inusitado senão após o conflituoso V II, logo pelo papa Francisco que seria apreciador de ditadores de esquerdas-NOM – todos nós conhecemos esses fatos – como os sanguinários Maduro, Ortega, Evo Morales, Lula-Dilma, Fidel Castro, Xi Li Ping etc., esclarecidos déspotas e inimigos da fé católica e jamais, de forma alguma censurados!
    Por esse fato, pelo que indicaria a atual situação, estaria sujeito à nulidade e não aceitação do decreto Traditionis Custodes, pois nenhum dos papas anteriores, como S João Paulo II e Bento XVI desarmonizaram-se contra S Pio V – apenas seria o primeiro, o papa Francisco, suprimindo a liturgia da S Missa Tridentina nela contida pela Bula acima – para ser celebrada para sempre!
    *14 – Assim, portanto, que a ninguém absolutamente seja permitido infringir ou, por temerária audácia, se opor à presente disposição de nossa permissão, estatuto, ordenação, mandato, preceito, concessão, indulto, declaração, vontade, decreto e proibição.
    * Apenas o nº 14 da “Bula Quo Primum Tempore”
    MONTFORT Associação Cultural
    http://www.montfort.org.br/bra/documentos/decretos/quoprimum/
    Online, 27/07/2021 às 09:39:11h

  5. Palavras fortes e que não duvido que não terão as suas consequências… tenho certeza que a “CNBB da Holanda” deve ser tão “amável” quanto a daqui… Mas Dom Rob não tem nada a perder: ele continua como bispo auxiliar dessa diocese só no papel, pois recentemente ele abriu mão (ou foi forçado a abrir?) dos seus encargos diocesanos. Que Deus o proteja, estávamos precisando de uma voz corajosa assim, que não tenha medo de caras feias de burocratas curiais.

  6. Espero que Bergoglio não obrigue Dom Rob Mutsaerts a buscar outra palavra em alemão usada diversas vezes por Hitler – endgültigelösung – “a solução final”.
    Bergoglio busca a solução final para o problema da Igreja: a própria Igreja.

  7. Um bispo HOLANDÊS falando isso. Foi muito mais do que a pedra falando.

  8. Uau!! O nati-morto catolicismo holandês ainda “respira por aparelhos”. Quem diria, um Bispo holandês fazendo uma colocação como essa! Louvado Seja o Senhor!!! Ainda existem Bispos e católicos de verdade na Holanda…

  9. Que o Senhor proteja seu Excelentíssimo e Reverendíssimo bispo, tantas palavras não vão escorrer sem o amargo preço de clamar nos desertos deste mundo maligno.

Trackbacks

%d blogueiros gostam disto: