Novus aut vetus. Como “Traditionis Custodes” afeta a Missa Nova.

Por FratresInUnum.com, 3 de agosto de 2021 – No artigo de ontem, mostramos como um novo conceito de “Tradição” está subjacente ao Motu Proprio de Bergoglio e como, em sua mente, este conceito é incompatível com a ideia tradicional de Tradição (valha a redundância), em que a objetividade da doutrina sobressai à subjetividade do sujeito-Igreja.

Ora, Francisco leva esta contradição ao seu ápice, reconduzindo-a ao terreno onde ela se mostrou mais sensível ao longo das últimas décadas, ou seja, à liturgia.

Os tradicionalistas, desde Ottaviani e Bacci, sempre pretenderam mostraram como uma nova doutrina estava subentendida no rito de Bugnini e como tal ruptura não estava explicitamente justificada pelo Concílio, apesar das bombas-relógio plantadas (os padres conciliares, aliás, foram todos formados na mentalidade tridentina), nem pela grande tradição da Igreja, devidamente fixada no dogma católico. Tal proposição era constantemente rechaçada por Paulo VI, “autor” do novo rito, e por seus sucessores. Agora, é o próprio Francisco que lhe dá suporte, em favor dos modernistas.

A aposta dos conservadores foi sempre a de “celebrar o Novus Ordo com a mentalidade do antigo”, ou seja, pressupondo a doutrina antiga e importando elementos gestuais e até orações silenciosas do Vetus Ordo. O Motu Proprio Traditionis Custodes, portanto, atinge de cheio a esta pretensão e a invalida de plano: a equívoca Missa Nova é a única lex orandi para o rito romano e, portanto, precisa não apenas resetar toda e qualquer “intromissão” tridentina, mas precisa fazer exatamente o contrário, precisa intrometer-se na então “forma extraordinária”, alterando-a internamente.

Bento XVI pretendia uma “reforma da reforma” em que os dois ritos se enriquecessem mutuamente. Francisco arrestou completamente essa ideia e a inverteu em um único sentido obrigatório: é o rito novo que precisa mudar o rito antigo, libertando-o de sua fixidez, em nome da fluidez da nova ideia da “tradição”, da qual ele e os bispos modernos proclamam-se custódios.

Traditionis Custodes”, portanto, afeta a Missa Nova, também, e coloca o rito moderno numa instabilidade ainda mais intensa do que aquela em que jazia. Isto significa que a penúltima frase da carta que o acompanha precisa ser lida nos dois sentidos que ela tem em si mesma: “ao mesmo tempo, peço-vos que vigiem para que toda liturgia seja celebrada com decoro e fidelidade aos livros litúrgicos promulgados depois do Concílio Vaticano II, sem excentricidades que se degeneram facilmente em abusos”.

Em outras palavras, essas “excentricidades incialmente podiam ser interpretadas no sentido dos abusos litúrgicos à la esquerda, arquiconhecidos por qualquer católico, como as Missas gaúchas com churrasco e chimarrão ou as Missas afro com invocações de entidades do candomblé ou as Missas com coisas extravagantes, como danças e coreografias. Bem… Neste sentido, o passado do papa argentino o condena. Foi ele que celebrou a Missa em que houve um casal que dançou tango, uma dança sensualíssima, ou aquela Missa com crianças (vídeo abaixo), com todas as coreografias e esquisitices possíveis. Seria meio difícil entender que ele queira esconjurar as atrocidades que ele mesmo já subscreveu, inclusive com sua prática.

Contudo, parece muito mais que, por excentricidades, entende-se os usos da Missa tradicional que estejam em desconformidade com o “espírito” (ghost) da reforma: paramentos tradicionais em geral, casulas romanas, rendas, barretes, manípulos, véus, luvas, tunicellas, enfim, qualquer coisa que se ancore na tradição litúrgica anterior. O bispo de Mayagüez, Porto Rico, D. Ángel Rios Matos fez exatamente isso, e através de um decreto, medida possivelmente exagerada na perspectiva de Bergoglio (talvez ele não quisesse ir tão rápido, assim), mas que está em completa sintonia com o seu Motu Proprio, em nosso entender.

O argumento conservador de se celebrar a missa nova com o espírito da antiga fica completamente liquidado por essa medida disciplinar. Para os papólatras conservadores, portanto, um duro golpe, o qual sequer eles conseguiram assimilar, dada a sua pressa servilista de bajular a autoridade e justificá-la de antemão.

Entretanto, é evidente que todo este golpe de Bergoglio, além de ser absurdo até na verbalidade do texto, quanto mais em sua inaceitável intenção, é inviável do ponto de vista mais concreto possível. Diga-se o que se quiser dizer contra Ratzinger, mas é inevitável reconhecer que ele iniciou um novo movimento litúrgico e o fez não apenas por decreto, mas dando princípios teológicos muito profundos, mesmo que possam ser questionáveis desde a perspectiva tradicionalista. Ele não estava brincando de liturgia, ele realmente tem uma paixão litúrgica e deu start num revisionismo que se tornou, em termos de princípios, totalmente popular e, por isso, irreversível, mesmo que os professores do Ateneu Santo Anselmo esperneiem e vociferem.

O diagnóstico de Ottaviani e Bacci sobre a Missa nova  “Distancia-se, de modo impressionante, no todo, como no detalhe, da teologia católica da Santa Missa” — foi escancarado até o ponto de se tornar inegáveis reflexões teológicas, não por parte apenas de tradicionalistas, mas inclusive por parte daqueles que aderiram à reforma litúrgica, como o próprio Ratzinger. Diante do peso dessas reflexões, as provocações de Bergoglio não passam de meros ruídos, que não conseguem minimamente arranhar aquilo que já está dito, explicado e justificado pelo pontífice alemão.

Francisco pode ter o poder canônico, mas não consegue formar mentes, não tem teologia para isso, não consegue formar o imaginário, não tem liturgia para isso; Bento XVI fascinou os jovens que Francisco persegue, inspirou os padres que ele não tolera, formou o clero que ele não suporta. Com todos os seus limites, Ratzinger formou e Francisco apenas tentou deformar, mas os seus próprios seguidores, em matéria litúrgica, preferem o seu predecessor. Isto são fatos e, contra fatos, não há argumentos.

“Traditionis custodes” propõe uma disjuntiva: novus aut vetus, o novo ou o velho, e esta já se mostrou desgastada pela própria história e não justificada de nenhum modo. O que passa disso é apenas utopia esquerdista, alucinação de autoritarismo, delírio revolucionário e, em última análise, choradeira, o velho e ultrapassado jus sperniandis.

3 Comentários to “Novus aut vetus. Como “Traditionis Custodes” afeta a Missa Nova.”

  1. O magnífico S João Bosco e S Agnes Sasagawa do Japão, aquele previu que, após um certo concilio, sem se referir ao Vaticano II, que iniciaria a confusão na Igreja – dito e feito – após esse, estamos nessa celeuma religiosa onde talvez dezenas de milhões de católicos desinformados, deformados pelas redes sociais, muitas delas satanistas, os simples e de pouca fé abandonaram-na, tornaram-se apostasiados ou caindo na lábia dos pastores ou obreiros das seitas heréticas e alienantes protestantes para aumentarem a clientela de contribuintes dizimi$ta$, via lavagens cerebrais pessoais ou grupais e várias são mestras nisso e ambos modelos funcionam – e eles entendem a fundo de como usar a religião como meio financeiro de vida, como comércio rendo$o – e o “bispo” Edir Macedo mora num apartamentinho mixuruco logo em Manhattan, EUA. que custou tão somente, à vista, a bagatela de 9.500,000,00 – (nove milhões e quinhentos mil reais) – um apartamentinho de 5ª categoria, do estilo do “MINHA CASA, MINHA DÍVIDA”, dos tempos dos comunistas ratos-de-esgoto do PT, não é mesmo?
    Já aquela santa, previu as contendas incessantes entre os cardeais x cardeais, bispos x bispos, sacerdotes x sacerdotes, isso sucedendo dentro da Igreja católica; agora, nós cá fora, imaginemos o que acontece entre o povo: quanta gente exterminando o outro por qualquer motivo, até por 10,00 reais, uma discussãozinha no trânsito e coisas fúteis são motivos de alucinadas querelas que redundam em até assassinatos, isso sem nomearem os casos de filhos que assassinam o pai ou mãe, ou a ambos, para fornecerem dinheiro para compra de drogas ou se apoderarem de um polpudo seguro de vida após o falecimento deles, visto quase diariamente; não é fato perceptível a cada instante da decadência e degradação de uma nação após os socialistas-PSDB e os trotsky-stalinistas comunistas-PT no poder instigando as infernais LUTAS DE CLASSES, discussões sociais de pessoas x pessoas, grupos x grupos, apenas reivindicando direitos – nunca, jamais, sob hipótese alguma os deveres?
    Certo é que o papa Bento XVI ansiava por uma Reforma da Reforma em que os dois ritos se ajustassem sem perdas comprometedoras doutrinárias; no entanto, o radical papa Francisco partiu para o tudo ou nada, numa mão-única: derrogar o rito antigo pelo dele, bem ao estilo relativista, tendo como base uma “tradição” de 60 anos pós V II, e a direção da esquerdista CNBB-TL-PT-PCs, etc., conferências episcopais similares apoiadoras das esquerdas mundo afora também apóiam, caso franco-maçônica França e luteranista Alemanha. em especial!

  2. o diagnóstico parece meio utópico. Os padres formados na nova teologia litúrgica de Ratzinger são, em geral, juspositivistas eclesiásticos em geral. Vão fazer e se alinhar com o que manda o bispo, o papa, com raras exceções.

    • Concordo com o Igor. Aliás, os últimos textos do Fratres sobre o alcance e aceitação da Missa Tridentina têm sido mais românticos do que realista. Falo “do alto” de uma Diocese em que vivo que é tomada pela Teologia da Libertação e que não teve Sumorum Potificum que fosse capaz para se conseguir a celebração da Missa de Sempre.