Uma questão de maioria.

Por FratresInUnum.com, 6 de agosto de 2021 – Logo após a publicação de Traditionis Custodes, o cardeal Walter Kasper, uma das maiores eminências pardas deste pontificado, afirmou num comunicado:

“Fala-se um número crescente de fiéis que desejam o ‘rito antigo’, mas, em minha experiência, a esmagadora maioria dos fiéis é firmemente contra ele. Sei que muitas pessoas ficam escandalizadas quando vão à Basílica de São Pedro em Roma de manhã cedo e veem que em muitos altares os padres celebram a ‘missa antiga’ sem acólitos e sem a participação dos fiéis. Eles se voltam para a basílica vazia e dizem: ‘Dominus vobiscum’, ‘Orate fratres’ etc. Alguns jovens padres vêm e querem celebrar a ‘missa em latim’, mas não sabem latim, enquanto a grande maioria de seus paroquianos prefere ter a missa em sua língua vernácula, então isso traz divisão e brigas na paróquia e as pessoas vão embora”.

A peregrinação anual do “Populus Summorum Pontificum”, que reúne fieis do mundo todo ligados à Missa Tradicional, foi confirmada o próximo mês de outubro.

Bem… A natureza germânica deste pontificado argentino é uma das absurdidades mais desorientadoras jamais vista, inclusive porque Francisco sucede justamente um pontífice alemão, que era muito mais livre e muito menos subserviente à agenda progressista teutônica do que ele. Desde a “comunhão dos recasados”, passando pela ordenação dos viri probati, até a bênção de duplas homossexuais e a abolição da chamada forma extraordinária do rito romano, tudo isso obedece esquematicamente aos interesses daquela decadente igreja. É impressionante.

Contudo, na afirmação do Cardeal Kasper há algo de simultaneamente verdadeiro e mentiroso que pode desbaratar o leitor. De um lado, ele tem razão quando diz que a maioria dos católicos não é adepto da Missa tradicional. Trata-se efetivamente de grupos minoritários, os quais têm crescido, especialmente em países como os Estados Unidos, a França e a Alemanha, mas cuja representatividade e força ameaça vivamente o legado progressista dos teólogos do Concílio. Ademais, estes grupos não são formados por católicos de estatísticas, mas propriamente por católicos militantes, fervorosos, convictos e combativos, cuja capacidade de persuasão ultrapassa de longe qualitativamente o ganho quantitativo do grupo que Kasper apresenta como antagonista.

Em termos superficiais, chega a ser incompreensível o porquê de Bergoglio ter-se indisposto de tal modo com uma fração tão aguerrida da Igreja. Apenas quando se percebe o nível de desmoralização a que são expostos os impostores do Concílio é que se entende a importância que tem para eles a completa extinção destes católicos autênticos.

Todavia, Kasper erra rotundamente quando diz que a maior parte dos católicos é contra a Missa tradicional. Na verdade, isso simplesmente não lhes importa, ainda mais num país como a Alemanha, cujos índices de frequência à Missa não param de despencar desde o Concílio, queda vertiginosa que se agrava, e não apenas lá, especialmente após a presente pandemia.

Neste sentido, é muito mais realista a observação do cardeal Zen, arcebispo emérito de Hong Kong:

“O problema não é ‘que rito as pessoas preferem?’, mas sim ‘por que não vão mais à missa?’ Algumas pesquisas mostram que metade da população cristã na Europa já não acredita na presença real de Jesus na Eucaristia, já não acredita na vida eterna! Certamente não culpamos a reforma litúrgica, mas só queremos dizer que o problema é muito mais profundo. Não podemos evitar a pergunta: ‘Não será que faltou, talvez, formação na fé? Porventura, não será que o grande trabalho do Concílio foi desperdiçado? Parte do Motu Proprio parece esperar claramente a morte dos grupos dedicados à forma extraordinária da missa. Mas, mesmo com isso, será que os homens anti-Ratzinger do Vaticano não podiam esperar pacientemente que a missa tridentina morresse junto com a morte de Bento XVI, em vez de humilhar o venerável papa emérito desta maneira?”.

São palavras de fogo! Palavras que vão ao cerne da questão!

A preocupação de Traditionis Custodes de frear a “forma extraordinária” do rito romano é consideravelmente mais escandalosa quando considerada a apostasia generalizada em que se está mergulhando a maior parte da civilização ocidental, que já não se importa mais com missa alguma, muito menos depois da secularização da liturgia após o Vaticano II. Será uma mera coincidência que multidões e multidões de fieis tenham abandonado a Eucaristia justamente depois da reforma litúrgica?

Como conta Antoine Burckhardt em seu forte testemunho, muitos fieis descobriram na chamada Missa de São Pio V “um oásis de sacralidade neste deserto de desencanto que é o Ocidente” e, como ele, que aos 23 anos “ia desertar do culto dominical, docemente, na ponta dos pés”, encontraram ali justamente o maravilhamento de que necessitava a sua fé.

A maioria de que fala Kasper não é contra a Missa Tridentina, apenas não crê mais, abandonou o cristianismo, perdeu completamente qualquer inclinação sobrenatural, não vai à Igreja, deixou para sempre de frequentar o culto divino. É tudo só isso. E justamente quando o catolicismo passa por tão aguda crise, Francisco se dá o direito de hostilizar parte dos seus fieis, talvez a parte menor e, por isso, mais indefesa.

Como dizia Burckhardt, sobre Traditionis Custodes,

“O desejo de controlar, punir, humilhar realmente parece inspirar todas as suas linhas. Por que esse catálogo de decisões cruéis que transformam os ‘tradis’ em párias? Como o Soberano Pontífice afirma que este texto é motivado por um desejo de reconciliação, quando tudo indica que muitos padres fiéis e humilhados não terão outra escolha a não ser responder a este texto indo engrossar as fileiras dos lefebvristas? Agindo desta forma, este papa mesquinho, sectário e voluntariamente manipulador, infelizmente, apenas confirma o que muitos católicos já pensam dele… Francisco é para a Roma dos Papas, o que Nero foi para a Roma dos Césares: um tirano e uma vergonha”.

Talvez boa parte da hierarquia, formada com a mentalidade juspositivista de obedecer cegamente tudo o que manda a autoridade, precisará de muito tempo para se dar conta do erro cometido com este impiedoso documento. Até lá, a crise de fé apenas se acentuará e a maioria já não estará mais aqui para ouvir o sino tocar novamente e a voz do sacerdote dizer: “Introibo ad altare Dei, ad Deum qui laetificat juventutem meam”.

9 Comentários to “Uma questão de maioria.”

  1. Excelente texto para um momento tão desolador. Em tempo: o que significa “eminência parda”? (Parágrafo 1)? Obrigada.

    • Segundo o Dicionário Houaiss, eminência parda significa “indivíduo com muita influência na vida política ou em outra atividade qualquer, mas que permanece anônimo, que não se mostra nem age claramente”, em outras palavras, alguém que manda nos bastidores.

    • Significa alguém com muito poder ou influência junto à um governante ou líder de qualquer tipo, mas que aparentemente não deveria ter tal poder ou influência,
      ou age como o verdadeiro governante nas sombras, como na alegoria da pessoa que segura as cordinhas de um boneco. No caso do Cardeal citado, ele já passou dos 80 anos e, portanto, não pode participar de um conclave para eleger um Papa. Acho que ele também não tem um cargo importante na cúria, no entanto, tem influência com o Papa Francisco, que pode implementar na forma de políticas as ações aconselhadas pelo Cardeal.

  2. Há inúmeros relatos de pessoas, que não são católicas e nem cristãs, que ao entrar em uma igreja gótica ficam embevecidos e cheios de uma paz e serenidade inexplicáveis… então, tem tudo a ver com a reforma litúrgica somado com tudo mais que foi feito contra o sagrado e o tradicional. Quem entra na Catedral de Maringá, ex, é capaz de perder a fé e não se sentir avivado, em paz e serenidade. Tem estratégica e método.

    • É verdade! Existe estes sentimentos quando visitamos Igrejas construídas com espírito católico. Há um vídeo instrutivo em que um padre reza a missa tridentina para apenas um fiel em Roma que foi gravado para servir como guia para os sacerdotes que queriam aprender a rezar neste rito. Foi gravado logo depois do motu proprio do papa Bento XVI. Quando assisti o vídeo me senti como se estivesse em lugar que já conhecia. Como se estivesse na casa do Pai. Antes disso, visitei uma Igreja na capital de São Paulo e quando entrei senti a mesma coisa. Acho que isso se chama catolicidade. A gente percebe que estamos em casa.

  3. A missa tridentina não passa de uma desculpa para cardeais do naipe de Kasper iniciarem um motivo para acabar com todas as missas.
    A reforma da Igreja (a meta, a “solução final”) pretendida pelos anticristos, sob os auspícios principalmente da ONU, passará por:
    – eliminação definitiva de qualquer missa, tridentina ou não, pouco importa. Finis Missae.
    – culto aos domingos (ou sábados) obrigatório com leituras, algumas orações ecumênicas e divulgações políticas e ideológicas de cunho marxista e teologia da libertinagem.
    – o fim definitivo de todos os santos. Os santos atuais serão “aposentados”.
    – As igrejas terão seus nomes alterados sem nomes de santos ou de N. Senhora.
    – Jesus não será mais Deus.
    – N. Senhora, mãe de Deus, passará a ser Maria apenas. Não haverá mais nenhum culto à Maria. A Ave Maria não será mais rezada e estará proibida sob pena de pecado mortal.
    – a Bíblia, claro, a Bíblia não escapará. O Antigo Testamento, considerado de cunho judaico, será definitivamente jogado para escanteio.
    – com a eliminação do AT, os Dez Mandamentos não mais prevalecerão e sofrerão modificações principalmente os relativos à castidade e à mulher do próximo. Não matar permanecerá mas descrito de tal forma que permita o aborto. Não roubar desde que não envolva a propriedade “social”, o que passa então pela aceitação definitiva da invasão de terras e imóveis.
    – no bojo da eliminação do AT estuda-se um modo de eliminar definitivamente a origem judaica de Jesus.
    – o Novo Testamento permanece com os evangelhos de João, Mateus, Lucas e Marcos mas os apócrifos serão incluídos.
    – Todas as heresias declaradas do passado, qualquer uma, passarão por uma “revisão” e, grosso modo, serão aceitas desde que não estejam indo de encontro com a TL.
    – Fim do latim na Igreja.
    Estes são os pontos principais da “reforma” não se limitando a estes, todavia.
    Para que o Mal triunfe basta que os bons nada façam.
    Está dado o recado.

  4. O que suponho nisso que foi dito por D Cardeal W Kasper é que as mentes, jamais como outrora, não mais estão centralizadas na religião católica, porque há 1001 programas das redes móveis e televisivas que distraem as mentes de muitas pessoas e acabam por perderem o pouco de fé católica que ainda possuiam anteriormente, ou seja, cada “novidade” desse mundo caduco subverte um pouco e as pessoas, tornariam-se desnorteadas, sem discernirem com exatidão qual rumo seguir!
    Daí, pode acontecer que com a mente ocupada com tanto materialismo, tempo de alta competição que obriga a pessoas aperfeiçoarem-se para subir na vida e ganhar mais recursos, esquece aos pouco da fé, desapegam dela sem notarem devido a tantas ocupações, além dos passeios e distrações oferecidos pela própria maçonaria, proprietária desses affairs, dissimuladamente, visando tornarem sem fé, viverem a vida material ou não saberem a qual delas se apegar por que as mentes são facilmente relativizadas com tantos atrativos novidadeiros!
    Assim, apegar à fé católica, exigente como é, exige um cuidado redobrado para manterem-na viva e atuante; afinal, é algo sensível no cotidiano – percebe-se a mão de Deus e N Senhora a nosso lado – todavia – eis o problema – não tangível, se acaso transformarem-se apenas em seres carnais, sem fé e racionalistas para acreditar na existência ou não e, nesse caso, distarão em muito da autêntica fé católica, não de uma apenas exteriorista: fui à missa no domingo e tchau – apenas isso não é catolicismo prático, todavia, apenas verniz dele!

  5. Sorte deles que ainda existem as fileiras “lefebvristas”. Foram elas mesmas que salvaram o tesouro onde todos depois puderam beber, inclusive os maledicentes.

  6. O que Kasper diz é irrelevante. O tom programático e formartado da sua declaração permitem ver que ela foi feita a pedido, para que o coice pareça menos coice diante
    da minúscula opinião pública laica que ainda se interessa, um tanto exoticamente, pela desmoralizada e desorientada casta do clero ocioso, lúbrico e masoquista.

    Os tempos mudaram. Ninguem quer ser palhaço e cachorrinha de ninguém. Quase ninguém…