O que mais preocupa o papa não são os múltiplos fenômenos de autodestruição que sacodem a Igreja.

Carta de Bernard Antony ao Papa Francisco.

Fonte: Le Salon Beige *

Papa Francisco,

Sem sombra de dúvida, com o vosso Motu proprio Traditionis Custodes, tudo indica que, ao lê-lo atentamente, acabastes de perpetrar até agora o ato mais decisivo de vosso pontificado.

Com efeito, para vós, papa reinante, não deve significar nada decidir anular a medida essencial, promulgada em 2007 por vosso predecessor: o Motu próprio Summorum Pontificum.

Sobretudo, enquanto esse último, o papa emérito Bento XVI, tão admirado, na Igreja e fora dela, por sua luminosa inteligência e fé, ainda esteja vivo, levando não longe de vós, no próprio Vaticano, uma vida reclusa na oração e meditação pelo futuro da Igreja. Sobretudo, também, porque a elaboração desse Motu proprio se inscrevera, manifestadamente, na continuidade da vontade pacificadora e de renovação da diversidade litúrgica desejada por São João Paulo II.

Papa Francisco, no dia seguinte a vossa eleição à Sé de Pedro, emitistes maliciosamente para a imprensa que vos reconheceis como sendo um “poco furbo”, ou seja, “astuto” em língua francesa[1]. Isso reforçava a legitimidade, que pertence a todo fiel, de não acolher com uma incondicional submissão todos os fatos e gestos do papa. Quanto mais porque exprimistes também a importância que dais à Praxis, essa palavra específica do vocabulário marxista-leninista que designa a preponderância da ação sobre o pensamento.

E, além do mais, todos os observadores, de direita ou de esquerda, de vossa carreira na Igreja até vossa eleição concordam em dizer que a preocupação pela liturgia não era uma de vossas preocupações maiores.

Papa Francisco, hoje, não há uma única pessoa que creia seriamente que é realmente por conta da preocupação com a unidade litúrgica que fizestes degringolar sobre a igreja vosso Motu proprio Traditionis Custodes. As pessoas, ao contrário, se recordam de vossos fatos e gestos em favor de toda a diversidade de diferentes cultos das religiões pagãs, consagradas à Pachamama, na Amazônia ou ao Grande Manitu, na América do Norte.

Não, seguramente, não é uma paixão pelo unitarismo litúrgico que pôde motivar vossa decisão de pronunciar desta forma uma proibição maior contra a liberdade da liturgia tradicional da Igreja católica, ou seja, contra a Missa secular, dita de São Pio V, à qual estão ligados um número crescente de fiéis da Igreja latina através do mundo, visto que ela é para eles a mais luminosa expressão da renovação do Sacrifício de Cristo sobre o altar.

Realmente não cremos, Papa Francisco, que não é somente por uma razão de unificação litúrgica que fulminastes essa verdadeira proibição violenta da liberdade de culto tradicional restabelecido por vosso predecessor.

Não, vossa proibição, vosso ukaz, é fato de uma decisão principalmente política, maduramente refletida, é fato, também, de vossa aversão, tão frequentemente inscrita em vosso rosto, em relação àqueles que não seguem vossa política. Ora, com efeito, com frequência, estes são ligados também à conservação dos dogmas e do patrimônio civilizatório da Igreja católica.

Papa Francisco, desde vossa militância na Organización Única del Trasvasamiento Generacional (OUTG), movimento da juventude peronista, manifestastes claramente vossas predileções políticas.

As pessoas também se recordam de vossa tão ostensiva compaixão pelo ditador comunista Fidel Castro, esse carrasco cruel não somente de seus inimigos, mas de tantos de seus companheiros de combate, como o poeta Armando Valladares

Porém, vossa política mais aflitiva fora a do “abandono-traição” da Igreja fiel da China, tão denunciada com estas palavras pelo heroico Cardeal Zen, arcebispo emérito de Hong Kong: Igreja entregue por um acordo à completa submissão à férula do partido comunista de Xi-Jinping.

E sonhas, papa Francisco, em ser convidado por esse gigantesco ditador. Todavia, para esse último, após ter-lhe concedido tudo, até mesmo não reagido diante da falsificação das escrituras exigida pelo partido, substituídas por textos maoistas, agora não serves para mais nada!

Papa Francisco, os argumentos que utilizas contra os fiéis da liturgia tradicional para justificar sua proibição são precisamente indignos! Eles revelam tristes procedimentos de manipulação e amalgamas.

Lembrai-vos: declarastes aos jornalistas, em um avião que vos conduzia a Roma: “Mas quem sou eu para julgar?”

Logo, quem sois vós, então, para julgar, hoje, como fizestes, conforme esse relatório de bispos inquisitoriais-tchekistas, os fiéis das missas tradicionais? São desprezíveis por que entre eles se encontram mais famílias numerosas? Por que é entre eles que surgem cada vez mais vocações? Por que é entre eles, em suas famílias, na maioria das vezes, muito pouco afortunadas, que as pessoas se sacrificam para que os filhos sejam criados em escolas de convicção católica? Por que é em suas paróquias que se acolhe tão frequentemente africanos em busca de uma boa educação cristã para seus filhos? Por que é nessas paróquias que as pessoas não rejeitam, mas amam, os heróicos convertidos do islã?

É certo que, papa Francisco, é pelos imigrantes muçulmanos que manifestastes ostensivamente vossa caridade preferencial.

A propósito do islã, fostes, além do mais, professar em Abu-Dhabi o surpreendente propósito, segundo o qual a diversidade de religiões é fato da vontade divina.

E eis, portanto, que, hoje, manifestastes que, para vós, não pode haver diversidade no seio da Igreja católica, se se trata de manter essa secular liturgia!

O que mais vos preocupas dentre os múltiplos fenômenos de autodestruição que sacodem a Igreja não seria, porém, o cisma de fato da Igreja alemã, tal como moldado ao longo dos anos por vosso querido amigo, o cardeal Marx. Não seria a forte afluência das redes LGBTQ até no Vaticano. Não seria a persistência, e até o renascimento da missa codificada outrora por vosso predecessor, São Pio V. Seria o fato de que, todos os anos, sai um grande número de jovens padres das comunidades onde ela é celebrada.

Papa Francisco, do vosso chocante Motu proprio tiramos a triste confirmação de que sois um ideólogo e um dialético, um grande Divisor. E, a verdade seja dita, um homem mau. Certamente, sois o papa, e os fiéis não têm a escolha senão de esperar que a Divina Providência tenha por bem fazer com que vosso sucessor seja melhor.

 

[1] Rusé: astuto, esperto.

* Nosso agradecimento a um caro leitor pela gentileza e caridade da tradução.

7 Comentários to “O que mais preocupa o papa não são os múltiplos fenômenos de autodestruição que sacodem a Igreja.”

  1. Embora concorde plenamente com o exposto por Bernard Antony, não creio todavia que Bergoglio tenha alguma preocupação séria com a Igreja Católica Apostólica Romana…

  2. Com a palavra os cleaners.

  3. Rezo pelo fim desse pontificado o mais breve possível porém, apesar de tudo, tenho medo do próximo Papa. Tendo em vista que a maioria dos Cardeais eleitores foram escolhidos por ele, boa coisa não há de sair….

  4. Texto muito bem elaborado. Com dor no coração, concordo plenamente.

  5. Francisco hoje nomeou um inimigo declarado da missa tradicional e odiado por todos o novo bispo de Ilhéus, Giovanni Crippa. Ele destruiu a diocese de Estância e perseguiu os fiéis católicos e isso valeu a pena.

  6. isso é extremamente óbvio, uma estratégia de politicagem barata. e Francisco ignora seus potenciais adversários. Talvez os leitores aqui do Fratres não o conheçam o Arcebispo de Cracóvia, Dom Marek Jedrazeswki. Seu predecessor, o amigo e secretário de S. João Paulo II, Cardeal Stanisław Dziwisz, já tem 82 anos, não é mais eleitor. Dom Marek tem muito mais piedade litúrgica e é um moralista muito mais ferrenho do que Wojtyla tenha sido um dia. É extremamente ‘carismático’ e goza de aceitação entre o povo e seus pares poloneses. tenho por mim que esse pobre arcebispo jamais verá a púrpura cardinalícia.

  7. A missa das 18:00 no mosteiro de São Bento (SP) ainda está ocorrendo?