Traditionis custodes: os últimos cartuchos concilares?

Por Padre Claude Barthe | Tradução: Hélio Dias Vianna – FratresInUnum.com, 20 de setembro de 2021 – A não aceitação do Concílio Vaticano II centrou-se de forma concreta na recusa da reforma litúrgica, embora alguns frequentadores da antiga Missa afirmem sua adesão a intuições conciliares “bem interpretadas”. Em todo caso, a existência da liturgia tradicional é um fenômeno persistente e até mesmo crescente de não aceitação. Marginal? O papa Bergoglio, que deseja ser o papa da plena realização do Vaticano II, chegou a se convencer de que o fenômeno é tão importante que é necessário agir para erradicá-lo. Com isso, o que talvez seja marginal certamente se tornou central: a Missa Tridentina foi apontada como o mal a ser derrubado e os seminários treinando padres para celebrá-la, como cânceres a serem eliminados. E isso com precedência a tudo.

Um retorno à violência original da reforma litúrgica

A liturgia tradicional é, porém, novamente proscrita, como sob Paulo VI. A Carta que acompanha Traditionis Custodes explica sem ambiguidades o objetivo último do texto pontifício: garantir “que voltemos a uma forma de celebração unitária”, a nova liturgia. A decisão é brutal e peremptória: o Papa decide tanto o fim da Missa tradicional quanto do mundo tradicional, ao qual acusa — e somente a ele! de minar a unidade da Igreja.

O Vaticano II, cujo grande projeto uma abertura ao mundo moderno em sua modernidade para que a Igreja seja mais escutada pelos homens desta época — é uma espécie de ponto intermediário entre a ortodoxia tradicional e a heterodoxia (neste caso, um relativismo neomodernista). A adoção de algumas proposições ambíguas permite, por exemplo, afirmar que um cristão separado pode, enquanto tal, como separado, estar em certa comunhão com a Igreja: segundo a Unitatis redintegratio, Lutero, que pensava ter rompido com a Igreja do Papa, na realidade teria permanecido um católico “imperfeito” (UR 3).

O Papa Francisco, desde a sua eleição, avançou tanto quanto possível sobre esta linha vermelha: ele transmuta a colegialidade em sinodalidade, vai além de Nostra ætate e do Dia de Assis com a declaração de Abu Dhabi, mas tem o cuidado de não ultrapassar o limiar além do qual cairíamos ou cairíamos mais rapidamente nesse niilismo para onde já se inclinam as mais ousadas teologias progressistas. Como Paulo VI, ele permanece fiel ao celibato eclesiástico e ao sacerdócio masculino, mas contornando a disciplina tradicional por meio dos ministérios leigos que o Papa Montini havia aberto (instituição de ministros que exercem funções clericais sem serem clérigos, para chegar provavelmente ao ministério de diaconisas ou mesmo de presidente informal de uma Eucaristia), e confiando aos leigos, homens e mulheres, responsabilidades quase jurisdicionais (posições cada vez mais elevadas nos dicastérios romanos).

Em outras palavras, Francisco conserva o suficiente da instituição, mas continua a esvaziá-la de sua substância doutrinária. De acordo com sua expressão, ele derruba os muros:

  • A Humanæ vitæ e um conjunto de textos posteriores a esta encíclica preservaram a moral matrimonial da liberalização à qual o Concílio havia submetido a eclesiologia. A Amoris lætitia derrubou esse dique: quem vive em adultério público pode permanecer nele sem cometer pecado grave (AL 301).
  • [O motu proprio] Summorum Pontificum havia reconhecido um direito a este museu da Igreja de antes que é a antiga liturgia, com a catequese e os ofícios clericais relacionados com ela. A Traditionis custodes afastou essa tentativa de “retorno”: os novos livros litúrgicos são a única expressão da lex orandi do rito romano (TC, art. 1).

O fato é que o Papa e seus conselheiros correram grandes riscos ao adotarem essas disposições tão violentas quanto apressadas. Comentaristas perplexos falam da ignorância do papa latino-americano sobre o terreno eclesial ocidental; sublinham o descarte contundente da grande obra de Bento XVI; apontam o dedo para as contradições de um governo caótico, que esmaga o tradicionalismo “de dentro” ao mesmo tempo em que concede faculdades equivalentes a um semi-reconhecimento ao tradicionalismo “de fora”, ou seja, aos lefebvristas; finalmente, ficam surpresos ao ver que enquanto o fogo do cisma crepita na Alemanha e a heresia silenciosa se difunde em todos os lugares, uma prática litúrgica totalmente inocente seja tachada de cisma ou heresia.

Mas podemos supor que o Papa e sua comitiva tenham apenas um encolher de ombros diante dessas críticas. Para eles, a justificativa para o ataque repressivo é crucial: a Missa Tridentina cristaliza a existência de uma Igreja dentro da Igreja, já que representa uma lex orandi “anteconciliar” e, portanto, “anticonciliar”. Segundo eles, pode-se transigir com os excessos da Igreja alemã que, na pior das hipóteses, são demasiadamente conciliares, mas não se pode tolerar a velha liturgia que é anticonciliar.

O Vaticano II e tudo o que dele provém não pode ser discutido! De maneira muito característica, a Carta que acompanha Traditionis custodes infalibiliza o Concílio: se a reforma litúrgica provém do Vaticano II e este foi um “exercício solene de poder colegial”, duvidar que o Concílio se insere no dinamismo da Tradição é “duvidar do próprio Espírito Santo que guia a Igreja”.

Uma repressão que chega tarde demais

Só que estamos em 2021,  não em 1969, durante a promulgação arejada e alegre do novo missal, nem em 1985, época do livro Relatório Ratzinger e da Assembleia Sinodal, que fez um balanço já preocupado dos frutos do Vaticano II, nem mesmo em 2005, onde o surgimento da expressão “hermenêutica da reforma em continuidade” se assemelhava fortemente a uma laboriosa tentativa de recomposição de uma realidade que cada vez mais escapava. Hoje é tarde demais.

A instituição eclesial está como que letárgica, a missão extinta e, pelo menos no Ocidente, a visibilidade em número de sacerdotes e fiéis evanescida. Andrea Riccardi, fundador da Comunidade de Santo Egídio, todo o contrário de um conservador, em seu último livro La Chiesa brucia. Crisis e futuro del cristianesimo (A Igreja em chamas. Crise e o futuro do cristianismo) [1], considera o incêndio de Notre-Dame de Paris como uma parábola da situação do catolicismo e analisa seu colapso na Europa, país por país. Seu discurso é o característico dos bergoglianos desapontados, que se tornam torcedores desapontados do Concílio.

Não surpreende que autores muito mais desligados do que ele do aparato eclesiástico deem gritos de alarme e não hesitem em dizer de onde vem o mal. Como Jean-Marie Rouart, membro da Academia Francesa, em Este país de homens sem Deus [2], para quem a batalha da sociedade ocidental perante o Islã está perdida de antemão, quando apenas um “sobressalto cristão” poderia nos salvar, ou seja, um retrocesso radical: a Igreja escreve ele “deve proceder ao equivalente a uma Contra-Reforma, retornar a esta reforma cristã que lhe permitiu no século XVII enfrentar vitoriosamente um protestantismo que a questionou” [3]. Ou Patrick Buisson em O fim de um mundo[4], que dedica duas partes de seu grande livro à situação do catolicismo: “O crash da fé” e “O sagrado massacrado”. “De uma forma desconcertante e brutal”, escreve ele, “o rito tridentino, que foi o rito oficial da Igreja latina durante quatro séculos, foi, da noite para o dia, considerado indesejável, sua celebração proscrita e seus fiéis expulsos. [5]”. Saímos do catolicismo para ir “para a religião conciliar”.

Além disso, em 2021 o equilíbrio de forças é muito diferente daquele dos anos 1970 entre aqueles que “fizeram o Concílio” e aqueles que sofreram suas consequências. Andrea Riccardi, como todos os demais, faz esta observação realista: “O tradicionalismo é uma realidade de certa importância na Igreja, tanto na organização como nos recursos”. O mundo tradicional pode ser minoritário (na França, de 8 a 10% dos praticantes), mas está crescendo em todos os lugares, especialmente nos Estados Unidos. É jovem, fecundo de vocações — pelo menos em comparação à fecundidade das paróquias —, capaz de assegurar a transmissão catequética e é atraente para o jovem clero e para os seminaristas diocesanos.

Aliás, foi isso que o Papa Bergoglio, vindo da Argentina, demorou a compreender, até que os bispos italianos e os prelados da Cúria puseram diante de seus olhos o aumento, para eles insuportável, do mundo tradicional, tanto mais visível quanto ocorre no meio de um colapso geral. Era necessário, portanto, aplicar os “remédios” apropriados, os mesmos que foram administrados no florescente seminário de San Rafael, na Argentina, na Congregação dos Franciscanos da Imaculada, da diocese de Albenga, na Itália, na diocese de San Luís na Argentina etc..

Para uma saída “à frente” da crise

Porém, a Igreja conciliar não sai revitalizada e sua obra missionária continua a definhar. Uma bateria de documentos tratou da missão: Ad Gentes, o decreto conciliar de 1965; a exortação Evangelii nuntiandi, de 1975; a encíclica Redemptoris missio, de 1990; o documento Diálogo e Anúncio, de 1991; as exortações apostólicas que repetem incansavelmente o tema da nova evangelização, Ecclesia in Africa, de 1995, Ecclesia in America, de 1999, Ecclesia in Asia, de 1999, Ecclesia in Oceania, de 2001, Ecclesia in Europa, de 2003. Criou-se um Conselho Pontifício para a Promoção da Nova Evangelização. Os colóquios se multiplicaram, falando da missão que deve articular-se no diálogo; da evangelização que não deve ser proselitismo etc. Nunca se falou tanto em missão, nunca houve tão poucas conversões.

François Mitterrand disse, sobre a redução do desemprego, “tentamos de tudo”. Da mesma forma, para salvar a Igreja depois do Vaticano II, a tentativa representada pela eleição do Papa Bergoglio a de maximizar o Concílio , fracassou; como finalmente fracassada deve-se admitir a tentativa representada pela eleição do Papa Ratzinger, a de uma moderação do Concílio. Então, um passo para trás? Sim, mas como uma saída “para frente”.

São numerosos, incluindo os apoiadores de ontem do Papa Bergoglio, os que consideram a repressão brutal do mundo tradicional indefensável, já que motivada, em última análise, pela única razão de que é muito vivo. Podemos imaginar que a Traditionis custodes seja colocada entre parênteses em um pontificado vindouro? Certamente, e cremos que mais ainda: pode-se imaginar que seja dada liberdade ao que se convencionou chamar de “forças vivas” na Igreja. Quanto a essa força essencial dos fiéis atraídos pela liturgia de sempre visto que ela representa a tradição secular , pode-se razoavelmente imaginar a negociação de um compromisso que seria mais favorável à Igreja do que foi o Summorum Pontificum. Devemos almejar a suspensão de toda supervisão, em outras palavras, uma liberdade franca para a velha liturgia e para tudo o que vem com ela. E isso, em nome do bom senso. Da mesma forma que certo número de bispos no mundo permitiu que todas essas “forças vivas” se desenvolvessem em suas dioceses, com comunidades, fundações e obras que dão frutos missionários, também em nível da Igreja universal deverá chegar o tempo de se conceder liberdade para tudo aquilo “que funciona”.

O Summorum Pontificum pode ser analisado como uma tentativa de coexistência entre os católicos que não aceitam a liturgia do Vaticano II e aqueles que promovem uma aplicação moderada do Concílio. Uma nova tentativa poderia ser estabelecida com uma corrente conciliar aparentemente mais “liberal” do que a de Bento XVI, mas que agora se dá conta do fracasso irreparável da utopia abraçada há cinquenta anos.

 [1] Tempi nuovi, 2021.

[2] Livros, 2021.

[3] Op. Cit, p. 64

[4] Albin Michel, 2021.

[5] Op. Cit., “La trivialiation du sacré”, p. 124

4 Comentários to “Traditionis custodes: os últimos cartuchos concilares?”

  1. O tom, a meu ver, é otimista demais , principalmente o fim. Não consigo enxergar uma retificação do Moto Próprio TC num horizonte visível, haja vista que este já é uma mudança de 180° em relação ao Summorum Pontificum. Afinal é necessário manter um mínimo de aparências, pois uma Igreja que.muda seus posicionamentos o tempo todo perde a sua credibilidade, que, ressalte-se, já não é das maiores hodiernamente.
    Some -se a isso o fato de que Francisco, ao contrário de seus antecessores mais imediatos, cria cardeais apenas prelados que comungam de sua visão de Igreja, de maneira que o seu sucessor será alguém muito semelhante a ele no que diz respeito a isso. A tendência é que o espaço para os tradicionais seja cada vez mais reduzido e, finalmente, eliminado por completo, Francisco deixará tudo atado e bem atado e somente uma intervenção direta do Espírito Santo impedirá que seu intento seja conseguido. O fato de ter entregue os tradicionais aos “cuidados” do cardeal Braz de Aviz mostra que não está brincando. Rezamos pela Igreja.

  2. “Chame os outros do que v é e acuse os outros do que v faz” e essa é a famosa frase do carniceiro Lênin que Francisco em parte dela se apropriaria para uma falsaria e fraudulenta acusação de divisão na Igreja proporcionada quando do manutenção da Antiga Liturgia que representa in totum a autenticidade doutrinária original da Igreja católica de 2 000 de existência, desde a era apostolar e, pelos exemplos dos santos mártires e especialmente dos grandes sacerdotes daquela época testemunhos coesos, sintonizados numa fé indivisa e inadulterada, a qual permanceu nesse estado até ante Concilio Vaticano II, tão fragilizado e depauperado que nem se encorajou de condenar o maldito comunismo!
    O que mais tem causado mal-estar e afastamento de fiéis da Igreja perdendo a pouca fé ou caindo nas garras das alienantes e relativistas seitas protestantes, trata-se de que, por desinformação catequética familiar dos pais ou talvez das catequeses ministradas na Igreja ou ignorância invencível, como daqueles que moravam em rincões; entretanto, de boa fé, confiavam demasiado nos procedimentos irretocáveis dos sacerdotes que deveriam ser o sal da terra e levarem a autêntica doutrina cristã católica, particularmente também por meio de seus bons exemplos comportamentais.
    Porém, o Concílio Vaticano II teria trilhado por caminhos alguns tortuosos e, ao fim da vida, o próprio papa Paulo VI reconheceu o fracasso e disse que “por alguma fresta a fumaça de Satanás entrou na Igreja”; de fato, desde o papa João XXIII com a Igreja que não mais condenaria a ninguém no seu discurso inicial e seus sucessor seguindo seus passos, facilitou a que todo tipo de maus elementos infiltrassem a Igreja e, enfim, via Maçonaria Eclesiástica, tentarem implodi-la, de dentro para fora, montando escândalos ou dando cobertura a maus sacerdotes!
    Temos aqui como péssimo exemplo do caos atual a direção CNBB-TL-PT-PCs, além de quase todos os bispos silentes e coesos em amplo apoios aos comuno-globalistas-maçonaria-NOM-anticristo, ao qual abrevia sua chegada via suas hordas das esquerdas que lhes são tributárias, desembocando todo esse tumulto com os pastores os mais culpados que as ovelhas, por essas possuirem muitos afazeres extra eclesiais, e nem sempre disporem de tempo maior para se dedicarem a mais aprofundamento à fé!

  3. Carissimi Fratres

    Gostaria de convidá-los, não de forma “pichadora”, “trolagem” ou coisa do gênero, mas de forma mui respeitosa, a acessarem https://conocimientocompartido.org, site do CELAM para o “Tiempo de Escucha hacia la Asamblea Eclesial.” onde estavam recolhendo manifestações leigas para a Assembleia Episcopal de novembro próximo.
    Será que filhos, ao pedirem aos pastores o Pão (do céu, o multissecular Rito do Santo Sacrifício da Missa, o retorno à Fé Católica) ganharão pedras, ou pedindo peixes ganharão escorpiões?
    Mesmo com quaisquer ressalvas a certos prelados, penso que nosso papel é pedir. Caso não sejamos atendidos, sabemos em qual juízo eles responderão.
    Que Deus nos abençoe e proteja.

  4. Cristo jamais precisou de um Vaticano II para iniciar o seu grande projeto ou para que a sua Igreja fosse mais escutada pelos homens naquela época.
    E olha que as dificuldades eram bem maiores em Sua época que em 1962, eram gigantescas e bastaram apenas 12 pessoas para dar partida ao processo.
    Nenhum conclave com dezenas de cardeais, nada de “extra ommines” ou representantes de países ou outras religiões.
    Bastou uma frase: “Eu sou a Verdade e a Vida…”, e a Sua Igreja expandiu-se por todo o globo terrestres ao longo de dois mil anos.

    Não existe mundo moderno e Ele sabia e sabe disto.
    O mundo de Cristo sãos os Homens, é a Humanidade e nela nada há de moderno.
    O Homem é o homem, pecador, dual e salvar a sua alma é o objetivo da Igreja, mais nada.
    Confunde-se pois tecnologia com homem moderno.
    Há agora luz elétrica? Pois substituam as velas.
    Há automóveis? Então não andem mais em carroças.
    Há internet? Então não enviem mais mensageiros a cavalo.
    Todavia, o ser humano continua o mesmo com todo o avanço tecnológico. Nasce pecador e morre pecador.
    Em 1962 a Igreja estava montada, funcionando a pleno vapor e com as dificuldades naturais de estar sob a administração de homens e não de deuses, contudo como sempre esteve.
    Advertências celestes foram dadas verbalmente e por escrito. Todo o mundo cristão reconheceu inclusive os papas e nenhuma providência sequer foi tomada.
    Fizeram ouvidos moucos para a Mãe de Cristo.
    Puseram em dúvida as suas palavras e alertas quanto ao anticristo.
    Levaram-no para Hollywood, confundiram-no com um ser humano e agora ele, o anticristianismo, passeia entre nós e muitos cristãos lambem as suas botas, clérigos inclusive.
    Haverá consequências, por óbvio e, ao contrário do que muitos pensam, elas não virão dos Céus.
    Sairão daqui mesmo, de nossas mãos como sempre ocorreu ao longo da história.
    Não existe mundo moderno.

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