Os guardiães da Tradição.

Por Dr. Augusto Mendes 

FratresInUnum.com, 15 de outubro de 2021 – O Brasil presencia um sólido movimento editorial católico, algo que impressiona qualquer observador um pouco mais vivido. Em 2005, ou mesmo em 2010, dificilmente poderíamos imaginar que alguns anos depois veríamos o surgimento de novas casas editoriais, uma avalanche de novas publicações, o resgate de obras consagradas e até mesmo o surgimento de importantes autores nacionais.

In illo tempore, apesar das grandes editoras nominalmente católicas do país, encontrar livros verdadeiramente católicos nem sempre era fácil. Em muitos casos, era um desafio insuperável. É verdade que certos clássicos das letras católicas nunca deixaram as prateleiras, como é o caso da Imitação de Cristo, da Filotéia, do Tratado da Verdadeira Devoção e da História de uma Alma, mas é igualmente verdade que as ausências eram muito mais amplas e notáveis.

Pensemos, por exemplo, no doutor comum do Igreja, Santo Tomás de Aquino, um mestre para todas as gerações e, portanto, um autor que deveria ser publicado e republicado initerruptamente em todo e qualquer país católico. Se é verdade que sua Suma Teológica estava disponível em uma tradução de qualidade já no início do século XXI, todos seus outros livros – e são tantos! – só eram encontrados em sebos, e mesmo assim com bastante dificuldade e por um alto preço. Os tomistas amargavam um esquecimento ainda pior. Garrigou-Lagrange, Cornelio Fabro, Sertillanges, Grabmann e outros mestres ou nunca haviam sido apresentados ao leitor brasileiro ou o foram há uma ou duas gerações. Mesmo um Nicolas Derise, que podemos considerar como nosso contemporâneo, ou um brasileiro como o Padre Maurílio Teixeira-Leite Penido, eram sumamente desconhecidos ou marginalizados.

Não podemos pensar que o problema era a falta de leitores interessados, pois mesmo autores que haviam granjeado fama no passado recente padeciam no limbo editorial esperando rever a luz. Há pouco mais de uma década, Chesterton estava apenas dando seus primeiros passos entre nossas estantes, Bernanos, que havia escolhido nosso país como sua pátria, era solenemente ignorado pelas últimas duas gerações de brasileiros; mesmo os naturais da terra, católicos genuinamente brasileiros, nascidos em uma pátria genuinamente católica, como o Padre Leonel Franca ou João Camilo de Oliveira Torres, foram tratados, até outro dia, como se fossem alienígenas, como se nunca tivessem pisado nessa terra. Eram representantes de um passado que muitos buscavam ativamente enterrar. Na faculdade tive uma professora que havia sido aluna do citado João Camilo. Quando falava dele era somente para criticar seus livros e explicar que tudo o que ele escreveu tinha pouco valor, era enviesado, porque ele era – na sua expressão inesquecível – “muito catolicão”.

Se pensarmos não mais nas pessoas, mas nos temas, veremos que a carestia de então era enorme. Sobre temas tão relevantes como Psicologia, Direito, História, Literatura, Economia, Filosofia e Teologia, nos seus diversos ramos e desdobramentos, não havia – e ainda hoje não há na medida adequada – obras escritas de uma perspectiva católica em circulação no mercado brasileiro.

Outra marcante ausência editorial era de obras ligadas ao movimento tradicionalista. Lembro-me de que a primeira vez que tive em mãos “Do Liberalismo à Apostasia” de Dom Marcel Lefebvre foi em uma cópia xerográfica feita por um amigo que havia viajado até o Rio de Janeiro e lá, graças ao contato direto com um tradicionalista “das antigas”, tinha conseguido copiar a velha edição, praticamente amadora, da Permanência, que mais se parecia com um caderno datilografado. Obras que só eram encontradas em língua estrangeira e adquiridas após bastante pesquisa e a um alto preço – Iota Unum ou a biografia de Dom Lefebvre – são hoje compradas com um clique do mouse e por um preço bastante razoável.

Todas essas lacunas editoriais são graves, mas não tanto quanto a que agora será sanada. Os doutores da Igreja, os grandes escolásticos, os apologetas, os catequistas, missionários, sermonistas, todos aqueles que exercem alguma atividade na Igreja, bebem, necessariamente, da mesma fonte: o magistério papal. O magistério pontifício, farol da verdade divina no ápice da Igreja, aquele que ilumina todos os católicos, em todas as épocas, que desfaz os erros, vence as heresias e guia a todos nos caminhos da verdade e vida. Era exatamente esse magistério que andava ausente das editoras católicas. É verdade que algumas encíclicas, especialmente dos Papas do século XIX e XX ainda são publicadas, é certo que temos compilações bem vastas de documentos pontifícios, como é o caso do Denzinger, mas também é verdade que não há nada tão amplo quanto o que está sendo preparado agora. A coleção Guardiões da Tradição englobará 250 documentos pontifícios (Bulas, Encíclicas e Alocuções) criteriosamente selecionadas para representar o ensinamento dos Papas ao longo dos dois milênios da história cristã nos seus pontos mais relevantes.

Os documentos serão publicados na sua integralidade – e não em seus trechos selecionados, como no Denzinger – e, sempre que necessário, acompanhados de notas explicativas. Haverá para cada documento uma breve introdução explicitando seu conteúdo e as razões de sua publicação. Os 250 documentos serão organizados cronologicamente, indo do Papa Cornélio (251-253) até Pio XI (1922-1939), e cada Pontífice receberá uma substanciosa apresentação, de forma que o livro poderá ser visto, também, como uma Enciclopédia dos principais Papas. Detalhados índices onomásticos e temáticos farão da coleção uma obra de consulta incontornável para todo católico que pretenda conhecer melhor a doutrina da Igreja nas suas fontes mais seguras.

Os temas abordados são os bem variados, indo das mais altas questões teológicas aos mais simples problemas sociais. Aquilo que os papas ensinaram sobre a Santíssima Trindade, as naturezas de Cristo e sua ação salvífica, as qualidades especialíssimas da Virgem Maria, a natureza da Igreja, a economia da salvação, a graça santificante, o papel da oração e as mais diversas questões litúrgicas terão destaque. O surgimento das ordens religiosas, a criação das faculdades na Idade Média, a canonização de determinados santos, as condenações das diversas heresias, a convocação para as cruzadas e a instituição da Inquisição serão apresentadas nos seus documentos originais. Questões políticas e sociais também terão lugar nesse vasto repertório: a liberdade da Igreja e de seus fiéis frente o Estado, os deveres dos governantes para com a Igreja, a verdadeira educação católica, os direitos dos trabalhadores, a moral católica aplicada à vida matrimonial e familiar, bem como a materialização da fé nas diversas formas de encontrarão o devido tratamento pela mão de mestre dos Papas. As mais controversas questões científicas, filosóficas, históricas e exegéticas também serão contempladas por essa ampla compilação de documentos pontifícios, apresentando aos leitores a solução para muitos problemas de ordem especulativa, ou, pelo menos, estabelecendo os pontos fundamentais que permitirão investigações seguras e intelectualmente frutuosas.

Dada a profusão de documentos pontifícios, estima-se que a coleção terá cinco volumes com cerca de 600 páginas cada um. Parte considerável desses documentos não se encontra publicada no Brasil e nem mesmo acessível em língua portuguesa na internet. A maior parte será vertida do original latino e, quando não for possível, as traduções mais confiáveis serão usadas para se chegar ao texto em português.

Além do óbvio interesse teológico dessa publicação, os cultores da Filosofia e da História também irão se beneficiar do estudo desses documentos, pois muitos deles inserem-se nos pontos fulcrais não só da histórica eclesiástica como também da história política e do pensamento.

No momento em que a doutrina católica tradicional se torna cada vez menos conhecida e seus tesouros são cada vez mais depauperados por aqueles mesmos que deveriam ser seus fiéis defensores, cabe a nós nos voltarmos àqueles antigos e fiéis Guardiões da Tradições que agora serão apresentados ao leitor brasileiro.

* * *

Para adquirir a coleção Guardiões da Tradição, basta ir ao site https://editora.centrodombosco.org/

9 Comentários to “Os guardiães da Tradição.”

  1. Muito importante tais edições, visando recuperar autênticos tesouros enterrados da Tradição Católica. Todavia, não podemos esquecer outro fato, este mais atual: livros / escritos mais recentes do Papa Emérito Bento XVI e Cardeal Sarah. Parece haver uma grande má vontade das grandes editoras católicas brasileiras sobre o assunto. Quem sabe a equipe do Centro Dom Bosco não cuida do tema, eh? Leitores não faltarão.

  2. Eis aí uma esplêndida oportunidade de aquisição de um tesouro, o GUARDIÕES DA TRADIÇÃO, como que estava escondido sob a terra e foi descoberto, não como o diamante da melhor luminescência ou o ouro do melhor quilate etc., minerais de alto valor monetário, no entanto, bastante valorizados exclusivamente para esse mundo passageiro!
    Todavia, nada representam para a eterna salvação – aqueles poderiam servir até mesmo é à condenação pelos altos rendimentos remunerados com a comercialização dos acima e apegar-se demasiado aos recursos financeiros, deixando a fé em segundo plano!
    Por outro lado, essa coleção de cunho espiritual é portanto de uma preciosidade inigualável e imperdível de a possuirmos em nossa residência, um manancial de bênçãos que poderá influenciar a muitos vivendo numa fé ideologizada atualmente praticada, irrelevante quando repleta do imanente e niilista Marxismo Cultural, como atualmente tanto se pratica, deixando em segundo plano o apego fundamental à transcendência cristã católica!

  3. Epic..!

  4. Parabenizo o Dr. Augusto Mendes pelo excelente artigo. Também já havia notado como as obras do Padre Leonel Franca desapareceram até mesmo dos meios católicos brasileiros, e são simplesmente fenomenais. Tirando a edição de suas obras completas publicadas pela editora Agir nos anos 1950, me parece que nunca foram relançadas.
    Infelizmente, aqui no Brasil determinados pensadores, não necessariamente cristãos, foram praticamente chutados dos meios acadêmicos pelo simples fato de não terem sido marxistas, a corrente hegemônica da academia. Dentre esses eu citaria Mario Ferreira dos Santos, padre Stanislavs Ladusãns e José Guilherme Merquior.

  5. Bendito seja Deus!
    Enquanto jesuítas mantém aquela revista politiqueira e mundana o CDB edita a história da companhia de Jesus. Uns dispersam outros juntam. Mas para muitos dentro da Igreja o problema são os terríveis tradicionalistas.

  6. É espantoso sucesso do centro Dom Bosco. Parabéns pelas iniciativas. O primeiro livro que eu comprei foi o legítima interpretação da Bíblia no final de 2008. Lembro de ter pago r$ 180 mais o frete pela estante virtual. Eu pagava preços absurdos para achar essas clássicos publicados antigamente pela vozes Paulinas mensageiros da fé etc… Formei uma biblioteca diríamos digna para uma boa formação… Doei ou melhor emprestei quase todos esses livros para uma editora católica que vem publicando em facsimile pela dificuldade financeira que eles ainda possuem em publicar originais… Fiz essa doação só porque novos livros estavam saindo e resolvi renovar minha biblioteca com esses livros novos além de adquirir os que eu já tinha em edição antiga… Este pequeno mecenas também deu sua pequenina contribuição para o mercado editorial… Graças a ele foi publicado um livro fundamental para entender a tradição da igreja… Foi traduzindo livro Tradition and the church de George Agius, além da publicação do livro a igreja sua doutrina sua ação e sua santidade, de vários autores notáveis incluindo entre eles o tomista garrigou-lagrange…
    Não devemos esquecer também que as várias iniciativas de digitalização tiveram importante renovação no mercado editorial… Agradecemos a todos.

  7. Se há algum ser tradicionalíssimo dentro da Igreja Católica o qual não é possível ser esquecido ou eliminado ou tampouco modernizado, este ser chama-se Nosso Senhor Jesus Cristo.
    O mais antigo de todos, o mais velho e o mais vivo.
    Portanto, se os teólogos da libertinagem, os modernos, os socialistas, os reformistas ou lá o que mais sejam, pensam que irão mudar alguma coisa estão redondamente enganados.
    Pura perda de tempo para que intenta ou para quem se preocupa.

  8. É louvável e certamente utilíssima a publicação dos documentos pontifícios como anunciado pela matéria. Por outro lado, para maior eficácia da iniciativa, parece oportuno, e mesmo necessário, que sejam explicadas as causas ideológicas que conduziram e conduzem à negação desses mesmos documentos por parte de muitos.

    Dizem, os que negam a autoridade e caráter vinculante desses documentos, que as antigas definições do magistério correspondem à mentalidade e às necessidades de certa época, à compreensão que então havia da doutrina etc etc etc..”Mudam-se os tempos, Mudam-se as vontades”: os documentos do magistério teriam caducado.

    Tomemos um exemplo:

    O papa Leão XIII declarou que as ordenações realizadas conforme o “rito anglicano” são “inteiramente nulas”.

    Itaque omnibus Pontificum Decessorum in hac ipsa causa decretis usquequaque assentientes, eaque plenissime confirmantes ac veluti renovantes auctoritate Nostra, motu proprio certa scientia, pronunciamus et declaramus, *ordinationes ritu anglicano actas, irritas prorsus fuisse et esse, omninoque nullas*.

    https://www.vatican.va/content/leo-xiii/la/apost_letters/documents/litterae-apostolicae-apostolicae-curae-13-septembris-1896.html

    Note-se que Leão XIII afirma que está se pronunciando com “ciência certa”, isto é, que ele conhece precisamente a questão, que não pode se dizer que ele ignorava algum ponto particular da mesma, que ele se decidiu determinar a solução desta.

    Paulo 6, por sua vez, contrariando (ostensivamente), desautorizando (por assim dizer) e mesmo ridicularizando (abertamente) a declaração de Leão XIII, convidou o (leigo) arcebispo anglicano da Cantuária para participar de um evento ecumênico tido, em Roma, na arquibasílica patriarcal de São Paulo Fora dos Rumos.

    Nessa mesma ocasião, em gesto desrespeitoso para com o magistério e a memória do papa Leão XIII, Paulo 6 presenteou o (leigo) Ramsey com o anel episcopal que ele, Montini, usara quando arcebispo de Milão. O anel em si é muito interessante. Trata-se de uma cruz inserta sobre um quadrado que passa a dividir-se em quatro quadrados menores. O quadrado pode ser visto como a vista frontal de um cubo. Então teríamos cinco cubos: o maior e mais quatro… Seria uma alusão à pedra lavrada, à pedra cúbida dos maçons? Deus sabe. Seja como for, no video (1min34sec), Paulo 6 chega a incitar o leigo arcebispo Ramsey a abençoar, com ele, a “assembleia” embevecida.

    Embora, em geral, pouco importe a um católico o que acontece ou deixa de acontecer em uma denominação protestante, exceto algum movimento de conversão, foi no “mandato” do leigo Ramsey que a denominação anglicana passou a admitir a “ordenação” de mulheres. Ademais, Ramsey não se privou de atacar a Humanae vitae, e, por fim, dispôs que seu corpo fosse cremado…

    Ora, é preciso escolher:

    a) ou se adere à sentença de Leão XIII (que diz, inclusive, resolver a matéria em conformidade com os papas que o antecederam)

    b) ou se aceitam as extravagâncias de Paulo 6 que certamente se inspirava na depravação herética do papelusco “unitatis redintegratio”- COMO SE A IGREJA NÃO FOSSE UNA, mas estive dividida qual frankenstein meio capenga em busca sequiosa de uma edição italiana de “Dorian Gray” e de coisas do mesmo naipe, ainda piores.

    Muitos dirão que Leão XIII se movia dentro do quadro da “eclesiologia de Trento”, legalista, que ele falou a partir da compreensão que se tinha à época acerca da natureza e identidade da Igreja, que é preciso conhecer a história da teologia, que o fixismo dos poríferos favorece a origem de colônias de muitos indivíduos como são os corais e as cracas; dirão qualquer coisa com que queiram manter de pé o seu miserável barraco teológico com chão de terra batido, esgoto a céu aberto e ratazanas roendo pacotes de biscoito mofados.

    Já vai longe esse comentário, mas quero acrescentar que o “ghost writer” da “Apostolicae curae”, o documento acima citado de Leão XIII acerca das “ordenações anglicanas”, esteve no Brasil em 1922.

    Trata-se do erudito historiador e teólogo, o cardeal inglês Aidano Gasquet, beneditino, que veio a São Paulo, como legado pontifício do papa Pio XI, para a dedicação da basílica abacial de Nossa Senhora da Assunção, do Mosteiro de São Bento.

    O Cardeal Gasquet era então (e talvez ainda seja) o maior especialista do período da pseudo-reforma protestante na Inglaterra. Algumas de suas obras podem ser encontradas no link abaixo. Tire o paciente leitor as suas conclusões…

    https://archive.org/search.php?query=Gasquet+cardinal&page=2

  9. Fico feliz com esta publicação… e com certeza muita gente ao ler e refletir os documentos do passado passarão a entender os documentos do Concílio Vaticano II.

%d blogueiros gostam disto: