Papa, Papado, Papismo.

Por Padre Antonio Mariano – FratresInUnum.com, 25 de outubro de 2021: Diante de uma crise cada vez maior na Santa Igreja, e uma crise que parece abalar um dos seus pilares que é o Papado, creio que talvez possa ajudar com alguma reflexão.

Eu sei que pode parecer frase de para-choque de caminhão, mas tempos difíceis não favorecem respostas fáceis. Diante da crise na Igreja, particularmente orbitada em torno da figura de Francisco, há, em minha opinião, duas respostas fáceis: o papismo e o sedevacantismo. Realmente os extremos se tocam.

O Papismo, que vemos seguido cegamente por todos aqueles que conseguiram algum status canônico na Igreja, justamente para o conservar, leva a considerar cada espirro de Francisco como um sopro do Espírito Santo para a Igreja. Francisco se torna a regra da fé.

Dentro da posição que chamo de Papista, podemos ainda encontrar grupos completamente opostos, que ou farão algum malabarismo silogístico para forçar todas as declarações de Francisco como verdadeiramente católicas, e acabarão se parecendo como aquela personagem de um programa humorístico que, por ser surda, dizia algo completamente diferente do que realmente foi dito. E também estão os papistas que nasceram no dia da eleição de Francisco, e que sempre se opondo aos Papas anteriores quando reafirmavam as coisas mais óbvias da fé, tornaram-se o mais fiel eco do novo Pontífice.

Isso não é por acaso.

Por exemplo: Francisco diz que os divorciados recasados devem ser acompanhados sacramentalmente. E isso é absolutamente verdadeiro. Mas também completamente dúbio.

É verdadeiro, porque o fato de que uma pessoa tenha se divorciado e se casado novamente não significa que ela não possa ter a decisão correta de, ao tomar consciência de seu estado de adultério, privar-se das intimidades conjugais, permanecendo, porém, sob o mesmo teto por alguma causa grave. Essa pessoa deve ser acompanhada sacramentalmente.

Mas os novos papistas dirão: “comunhão para todo mundo!”

Na primeira interpretação, veremos os ditos “conservadores” e, na segunda, os “progressistas”.

Seria louvável o esforço dos conservadores em espremer as declarações de Francisco na esperança de encontrar uma gota de ortodoxia se não caíssem, muitas vezes, em uma verdadeira desonestidade intelectual.

Parece termos diante de nós duas aves: um avestruz e um papagaio. Um mergulha a cabeça no buraco para não ver e o outro não se cansa de repetir os mantras do atual pontificado.

Diante do caos, surge então a outra resposta fácil: Francisco não é Papa.

A resposta é razoavelmente fácil, porque sendo assim, estamos diante de um antipapa que usurpou o trono de S. Pedro e que só merece o desprezo dos fiéis. Nessa questão, é necessário também considerar quando a Sé ficou vacante. Desde Pio XII? Desde João XXIII? Com o encontro de Assis feito por João Paulo II? Quando Bento XVI entrou numa mesquita? Ou na eleição de Francisco?

Essa resposta é razoavelmente fácil, mas traz conseqüências desastrosas porque, no final das contas, quem seria o verdadeiro clero? Qual missa seria lícita? Porque, se não há Papa e se nomeia um Papa no Cânon, isso seria um pecado… E, como se restabeleceria a ordem na Igreja se todos os Bispos e Padres não foram ordenados licitamente, ou mesmo validamente, nem receberam alguma real jurisdição? Isso sem falar no Colégio Cardinalício…

O sedevacantismo, em certo sentido, apazigua a consciência, mas cria muitos mais problemas que soluções.

Na atual circunstância, penso que manteremos nossa posição católica recorrendo à instituição do Papado, que é divina, e considerando em segundo lugar aquele que é o Papa.

O amor intelectual ao Papado deve ser maior que o amor sentimental ao Papa. Nesse sentido, consideraremos com a devida serenidade a situação de S. Vicente Ferrer e S. Catarina de Sena que chegaram a apoiar dois Papas diferentes (portanto um seria o antipapa, no caso, o de S. Vicente Ferrer) ou a exortação de S. João Bosco de que seus jovens não dissessem “Viva Pio IX!”, mas “Viva o Papa!”.

Os sedevacantistas geralmente assim se tornam porque, tal como os papistas, absolutizam o dogma da infalibilidade, que está estabelecido em circunstâncias bem peculiares. Não se trata de uma mágica ou de uma “possessão de algum espírito”, como já chegaram a afirmar os sedevacantistas, mas, sim, as ocasiões em que um Papa gozaria da infalibilidade seriam realmente bem raras.

É por isso que o amor ao Papado e a caridade para com o Pontífice levariam a resistir-lhe quando suas ações ou palavras não correspondessem à Fé da Igreja.

Penso no sermão que Dom Lefebvre proferiu nas sagrações episcopais, em Ecône, em 1988, no qual ele diz que “apesar de desejar, não poderia se submeter às autoridades romanas”. Creio que essa frase manifesta o ponto de equilíbrio e de justiça na atual situação.

Querer se submeter às autoridades romanas. A posição de Dom Lefebvre não parte de uma negação de que não exista mais autoridade, ao contrário, ele reconhece as autoridades e quer estar submetido a elas.

Porém, o que essas autoridades lhe pedem vai contra o que os antecessores dessas mesmas autoridades estabeleceram. Diante disso, a atitude que se toma é resistir a essas autoridades, crendo que um dia o Bom Deus trará essas autoridades à verdadeira fé.

Isso é muito difícil.

Pense num filho cujo pai é alcoólatra.

Ele ama seu pai, no entanto (e justamente por isso) deve reprovar suas atitudes e não compactuar jamais com seu vício, e ao mesmo tempo “desobedecer” as ordens iníquas que seu pai eventualmente lhe der.

Esse filho, ama e conhece a paternidade, sabe que é um dom de Deus e que ele, como filho, deveria se submeter. Porém, isso não é possível, porque aquele que ocupa esse lugar faz mal uso. Portanto, cabe ao filho, por amor a Deus, por amor à paternidade e por amor ao pai, resistir.

Que angústia não sente esse filho.

Que angústia sentimos nós.

Aquele que se alegra por não se submeter ao Papa não é católico.

Mas hoje, o Senhor nos convida, no passo da Paixão em que está a Santa Igreja, a bebermos do cálice da angústia e comer do pão das lágrimas.

Bebamos até a última gota, recolhamos cada migalha desse pão. Crendo que, não por acaso, o salmo com o qual começamos a Santa Missa seja um apelo de uma alma angustiada, injustiçada, perseguida, cuja única esperança é esperar no Senhor.

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26 Comentários to “Papa, Papado, Papismo.”

  1. A frase que ficou: “pense num filho cujo pai é alcoólatra”.

    • O primeiro Mandamento diz que devemos Amar a Deus sobre todas a coisas, e Jesus ratifica em Lc 14, 26. Em Gálatas 1, 6-10, as coisas são muito claras. Ou obedecemos a palavra de Deus ou estamos contra Deus .

  2. Excelente artigo. Descortina claramente o que muitos de nós, católicos, estamos passando e sentindo ultimamente.

  3. É isso aí!

  4. É por isso que eu digo: Francisco é o Papa que os nossos pecados fizeram por merecer.

  5. Eu já comentei aqui no Fratres outras vez tratando deste assunto mas nunca passaram da fase da autorização para ser publicado.

    Nenhuma folha cai de uma árvore se não for a Vontade de Deus, muito menos alguém ocuparia a cátedra de Pedro (e que se não for da Vontade, pelo menos ocorre com a Permissão). Alguns papas são enviados como benção para os católicos, outros são enviados como punição, o que eu penso ser o caso de Francisco.

    Além disto os sedevacantes usurpam uma autoridade que não lhe é devida porque não são um colégio de cardeais e nem um sucessor apostólico do papa Francisco ou de qualquer outro papa após Pio XII. Só quem tem autoridade é que pode dizer se alguém é papa ou não e isto nos distingue do protestantismo onde cada um escolhe a autoridade que quer seguir ou até mesmo se ele será a própria autoridade.

    O mesmo problema ocorre quando alguém diz que o papa Francisco é herege. O leigo não tem autoridade para chamar alguém de herege, apenas a Igreja possui a autoridade para chamar alguém de herege após um processo em que a pessoa será informada da heresia e ela precisa permanecer reiterada no erro. Porém isto não nos impede de dizer que alguém diz uma heresia, o que acontece a todo momento nas falas do papa Francisco, com base nos 2000 anos de tradição da Igreja Católica.

    A única solução que existe é confissão, frequência na missa, eucaristia, jejum, penitência e oração pela apelando à causa primeira pela conversão do papa.

    • Agora que eu vi que o meu comentário está repleto de erros mas acho que deu para entender. Estava me dividindo em outra tarefa e tendo que escutar o meu pai falando enquanto digitava.

    • Senhor Maxwell,

      Seu dolente e lacrimoso comentário é, infelizmente e sem maior culpa de sua parte, injurioso à memória e à excelência de ilustres teólogos d´outrora que se manifestaram acerca da espinhosa questão da vacância da Sé Apostólica por crime de heresia por parte do okupa.

      Seria fácil enumerá-los, cousa que não farei, por inútil que se me afigura, uma vez que me permito supor que o senhor não tem acesso ao idioma original em que escrevem – o latim – cujo conhecimento é indipensável requisito para adentrar em seara tão acidentada: perdoe-me dizer-lhe, mas, neste caso, a mera boa vontade, tão manifesta em sua piedade mal informada, não irá suprir a ignorância.

      No fundo, sua aparente prudência tem bem outro nome.

      Resta-lhe rogar ao Espírito Santo as luzes (que a ciência humana e o bom senso não lhe concedem por ora). Aliás, roguemos todos a Ele para que nos livre dos hereges, do falso profeta charlatão e das heresias…

  6. Que texto profundamente esclarecedor. Mas merece uma reflexão, para ver se o exemplo se enquadra na situação atual, afinal as regras que J.Paulo II estabeleceu para seus sucessores , não foi observada na eleição de Francisco…

  7. Creio que a Igreja esteja passando por uma eclipse descomunal, embora passageira – podemos conferi-lo no CIC 675 – no entanto, nada acontece por acaso, justamente após aquele pedido de Satanás a Jesus, visto e ouvido pelo papa Leão XIII: uma voz suave, N Senhor, e outra, carregada de ódio de um derrotado, Satanás, pedindo-Lhe tempo e autoridade para *”acabar com a Igreja” e foi-lhe concedido! Quanto orgulho, ousadia e temeridade, sabendo ele de antemão estar com os dias contados na inútil tentativa de destruir a Igreja – extensão do Corpo de N Senhor Jesus Cristo – e prosseguir arrebanhando almas para o inferno, porque seu tempo no mundo está findando!
    Nesse ínterim, o papa Leão XIII compôs as orações leoninas, rogando a S Miguel Arcanjo para os fiéis rezá-las para proteger a Igreja, necessitando essas orações serem rezadas diariamente por todos!
    Deveremos possuir imenso amor ao santo papado, à Santa Sé, porém, essa poderia, no entanto, estar ocupada por algum que não sabe a representar ou entrado ilegalmente; afinal, diferem-se infinitamente a Igreja católica de seus membros, **todos nascidos no pecado, portanto, dualistas, compostos de bem e mal e muito mais propensos à prática desse, embora um verdadeiro papa jamais pregou heresia devido à assistência do Espírito Santo e da promessa de Cristo!
    * Simão, Simão, eis que Satanás vos reclamou para vos peneirar como o trigo; mas eu roguei por ti, para que a tua confiança não desfaleça; e tu, por tua vez, confirma os teus irmãos. Lc 22 31-32.
    ** “Eis que nasci na culpa, minha mãe concebeu-me no pecado. Sal 50,7
    * ** claret.org.br/biblia

  8. Vou me limitar a duas perguntas.
    1- No ano de 1929, a irmã Lúcia mandou um aviso ao Papa Pio XI de que havia chegado o momento da Consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria, em união com os bispos do mundo inteiro. Como isso de fato nunca ocorreu, teria a Igreja entrada em um estado de desobediência a Santa Vontade de Deus? (Com consequências de 70 a 85 milhões entre mortos e feridos na Segunda Guerra Mundial , que seria evitada com essa consagração e a perseguição religiosa aliada ao marxismo que dizimou outros tantos milhões). Este sinal não pode ser ignorado.
    2 – Na eleição do Papa João Paulo I, o cardeal Karol Wojtyla teve apenas um máximo de 4 votos em uma de suas parciais. Quase dois meses depois venceu a eleição. No caso da eleição do Papa Bento XVI, o segundo mais votado foi o Cardeal Bergoglio, que foi eleito alguns anos depois , com a renúncia do Papa. Coincidência?

  9. Existe uma hipótese não abordada no artigo, que é a de que Bento XVI continue sendo papa.
    Ele está recolhido, mas quando diz algo, imediatamente as ovelhas reconhecem nele a voz do Pastor, conforme previsto no Evangelho.
    Bento não renunciou ao título de papa, não voltou a ser ‘Cardeal Ratzinger’, e essa situação é totalmente inusitada.
    Nesse caso, acredito não haver sedevacantismo, mas tão somente uma divisão entre dois ‘papas’, sendo um deles antipapa – como na época de São Vicente Ferrer.

  10. Obrigada pela reflexão!

  11. Muito bom artigo: claro equilibrado e objetivo!

  12. O articulista desconsiderou o fato de que Bento XVI permanece papa.Embora de maneira atípica, ele não abriu mão do papado. Assim, existe uma terceira corrente, a qual comungo, de que existe ainda um papa legítimo, e ele é Bento XVI.

    • O primeiro problema é uma questão de autoridade. Nós não temos autoridade para declarar alguém como sendo papa ou não. Se até mesmo o próprio Bento XVI diz que o Francisco é papa, o que nós podemos fazer?
      O segundo problema é que Cristo disse para Pedro “Pois também eu te digo que tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha igreja, e as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mateus 16:18). Se aceitarmos que Francisco não é papa então teremos que admitir que Cristo mentiu e que as portas do Inferno prevaleceram sobre a Igreja.

  13. Interessante nisso tudo é, que passamos pelos mesmos problemas e dificuldades que muitos católicos ao longo da vasta história da Igreja passaram, tivemos papas horríveis em vários momentos da Igreja, assim tivemos santos homens na cátedra de Pedro. Não é diferente ao longo de 2 mil anos de cristandade, muitos sofreram, muitos caíram, muitos apostaram e muitos se mantiveram fiéis, sem deixar de lado a boa observância da Sã Doutrina e do amor à Deus. Sigamos firmes em Nosso Senhor nesses dias sombrios em que a Igreja parece sem rumo.

    • De início, é preciso considerar que o batizado (melhor dizendo: o homem batizado) que recebe o sacramento da Ordem não recebe necessariamente, em virtude do sacramento, a ciência infusa. Para saber qualquer coisa, é preciso ralar. Para se “fazer teologia”, além da piedade devida a tão excelsa matéria e da docilidade ao magistério, é preciso uma boa dose de método e de acuidade intelectual para não descambar em parvidades e miudezas mal digeridas. Dito isso, passo a fazer algumas breves observações:

      CLÉRIGO ARTICULISTA: “A resposta [sedevacantista] é razoavelmente fácil, porque sendo assim, estamos diante de um antipapa que usurpou o trono de S. Pedro e que só merece o desprezo dos fiéis. Nessa questão, é necessário também considerar quando a Sé ficou vacante. Desde Pio XII? Desde João XXIII? Com o encontro de Assis feito por João Paulo II? Quando Bento XVI entrou numa mesquita? Ou na eleição de Francisco?”

      OBSERVAÇÃO: Não é preciso voltar até Adão para saber de coisas mais recentes. Vamos supor que o colégio cardinalício que votou em Jorge Bergoglio tivesse capacidade jurídica de fazê-lo (e as condições para tanto são perfeitamente enumeráveis). Assumamos que a eleição foi canônica. A questão é: o clérigo Jorge Bergoglio cometeu HERESIA FORMAL ao ratificar, na Acta Apostolicae Sedis, a interpretação que seus lacaios clérigos (bispos) argentinos deram acerca do imundo papelucho “Amoris laetitia”? Sim ou não?

      CLÉRIGO ARTICULISTA: “Essa resposta é razoavelmente fácil, mas traz conseqüências desastrosas porque, no final das contas, quem seria o verdadeiro clero? Qual missa seria lícita? Porque, se não há Papa e se nomeia um Papa no Cânon, isso seria um pecado… E, como se restabeleceria a ordem na Igreja se todos os Bispos e Padres não foram ordenados licitamente, ou mesmo validamente, nem receberam alguma real jurisdição? Isso sem falar no Colégio Cardinalício…”

      OBSERVAÇÃO: o clérigo articulista não mantém o foco da questão e parece atrelar cada minúcia da vida eclesiástica à vacância ou não da Santa Sé. Em boa lógica: O que tem a ver a validade e mesmo a liceidade de uma ordenação presbiteral ou sagração episcopal com a suposta vacância da Sé Apostólica? Os bispos pedem autorização a Roma para ordenar os seus súditos? O capelão dos peronistas, Jorge Bergoglio, talvez sonhe escondido no flat Santa Marta com algo parecido, mas ele, coitado…

      CLÉRIGO ARTICULISTA: O amor intelectual ao Papado deve ser maior que o amor sentimental ao Papa. Nesse sentido, consideraremos com a devida serenidade a situação de S. Vicente Ferrer e S. Catarina de Sena que chegaram a apoiar dois Papas diferentes (portanto um seria o antipapa, no caso, o de S. Vicente Ferrer) ou a exortação de S. João Bosco de que seus jovens não dissessem “Viva Pio IX!”, mas “Viva o Papa!”.

      OBSERVAÇÃO: essa estória de “amor sentimental”, a menção a Santa Catarina e a São Vicente Ferrer aliada à clássica exortação de S João Bosco me fazem pensar que o senhor seja assíduo leitor dos artiguinhos do miserável Gnomo Cambucínico – aquele mesmo que teve morte súbita carcomido pelo ódio, pelo vício da calúnia, má fé, restrição mental, burrice e inveja … Faça-me o favor, prezado clérigo articulista: fuja de fontes infectas e literatura de ínfima qualidade intelectual.

      CLÉRIGO ARTICULISTA: “Os sedevacantistas geralmente assim se tornam porque, tal como os papistas, absolutizam o dogma da infalibilidade, que está estabelecido em circunstâncias bem peculiares. Não se trata de uma mágica ou de uma “possessão de algum espírito”, como já chegaram a afirmar os sedevacantistas, mas, sim, as ocasiões em que um Papa gozaria da infalibilidade seriam realmente bem raras.”

      OBSERVAÇÃO: quem gosta de absolutizar as coisas é o prezado clérigo articulista ao misturar as bolas (como acabei de indicar um pouco mais acima na questão das ordenações etc). De todo modo, se o sedevacantista é um jegue, ele certamente irá achar que qualquer tosse ou cusparada de um papa possui as quatro notas da infalibidade pontifícia como enunciadas na constituição dogmática Pastor Aeternus, do Santo Padre, o Papa, Pio IX, de santa memória. Seja como for, todo esse parágrafo do clérigo articulista beira o grotesco por força do viés asnático que pretende, frustramente, dar à opinião sedevacantista. Além disso, é desagradável e ofensivo, aos ouvidos católicos, o termo “papista”, palavra miserável cunhada pelos hereges protestantes – em inglês se diz “popish” – para aviltar aos fieis de Jesus Cristo que se mantinham unidos, como deviam estar, aos Sucessores de Pedro, os Papas, quando da imunda enxurrada de heresias que foi a pseudo-reforma de Matinho Lutero e outros endemonhiados seus sequazes ou não.

      Viva o Papa! Viva Bento XVI!

  14. O autor parece se esquecer que, se os atos positivamente infalíveis de um papa são relativamente poucos, todavia existe também uma infalibilidade negativa implicada mesmo em seu governo ordinário: o papa não pode impor nenhum erro contra a fé ou a moral à Igreja. Tudo o que advém dum verdadeiro papa à Igreja é seguro e salutar para ser seguido, ainda que não seja irreformável. Por exemplo, houve censuras e condenações papais contra o heliocentrismo no século XVII, mas Bento XIV as anulou em meados do século XVIII; como essas censuras não tinham sido feitas em forma de dogma, a infalibilidade positiva não as protegia, e por isso um papa posterior as pôde revogar; mas, enquanto existiam, os fiéis não erravam em acatá-las, porque, ainda que equivocadas do ponto de vista científico, elas não continham nada contra a fé ou a moral – e nem podiam conter, porque quanto a isso a infalibilidade negativa as garantia. É doutrina comum e tradicional da Igreja que um papa não pode jamais impor aos fiéis algo que seja imoral, sobretudo em se tratando de pecado contra a fé, mesmo fora de qualquer proclamação dogmática. Qualquer interpretação da atual crise na Igreja precisa levar esse aspecto em consideração…

  15. De pleno acordo com esse claríssimo e esclarecedor Artigo, Rezemos pelo Papa, pelo Bispo local e pelo Pároco local.

  16. Boa noite a todos. Apesar de ter gostado do texto, fiquei sem entender algumas questões: Primeiro ponto. Entendi a analogia com a paternidade e o papado, mas ela tem suas limitações, pois paternidade não se perde, e a fé sim, pela apostasia ou heresia, logo devemos ter cuidado redobrado com esse argumento. Segundo ponto. O autor diz em certa altura que a atitude de Lefreve foi adequada pois o mesmo resistia às autoridades na esperança de “(…)que um dia o Bom Deus trará essas autoridades à verdadeira fé.” Daí eu pensei, se elas não tem a Fé, será que são autoridades legítimas, pois daqui a pouco dirão que mesmo um padre sendo “católico” satanista, tal sacerdote ministra sacramentos válidos e reza missa válida, etc. Ou seja, qual é o limite disso tudo, ou este não existe, para meu espanto… Terceiro ponto: Nosso Senhor diz que pelos frutos se conhece a árvore, não ligo para rótulos, se serei chamado disso ou daquilo, Deus sabe da sinceridade de meus dilemas, mas aquele que não parece minimamente ter a Fé, pode ser verdadeiro católico? Alguém pode ser papa, ser ter a Fé? Alguém que faz um culto satânico, sendo papa, continua e continuará sendo papa até a morte ou renuncia, independente do que faça, diga ou acredite, ou ele poderá deixar de ser papa, ainda que não tenhamos autoridade para dizê-lo, afinal, via de regra, o que importa é a realidade objetiva, e não sua formalização numa proclamação? Se Francisco é papa, todo o orbe católico pode pensar o contrário, que em Deus isso não importa, todavia, se Ele não for, não adianta porque motivos queiramos que ele seja, pois em Deus ele não é… Essas perguntas me angustiam sobremaneira, e como o autor do texto, não tenho respostas fáceis para tais perguntas. Outra questão: Até que ponto a resistência não se transformará em indiferença, mornidão ou conivência a longo prazo? São Paulo resistiu a Pedro quando este não agira corretamente, não somos apóstolos, e eu não sou capaz de censurar ninguém, mas não quero ficar na dúvida eterna sobre essa problemática, preciso da clareza da Fé de Cristo. Paz de Cristo a todos e oremos irmãos, pois os dias são maus e complicados…

  17. Li o artigo do Reverendíssimo Padre, mas acho que posso também fazer o seguinte comentário, sem qualquer ofensa.

    Essa tese é racionalista. E, acaba por reduzir a Igreja a uma sociedade humana qualquer, como qualquer outra sociedade humana.

    Por isso, os Padres de Campos (tradicionalistas), inclusive mais idosos, concluíram que não se poderia permanecer nesta postura pura e simplesmente (“em cima do muro”). Vários estudos e aprofundamentos foram feitos, e algumas teses apresentadas. Por exemplo, houve padres que propuseram que a Igreja poderia ficar cerca de 40 anos num estado de limbo, a exemplo da crise ariana. Mas nem todos os padres concordaram.

    Os Padres de Campos passaram a ensinar categoricamente que, em toda a história da Igreja, nenhum Papa ensinou heresia, absolutamente nenhum. E, todos os casos polêmicos, que são raros, como Honório e Libério, são satisfatoriamente explicados. A conclusão que se chegou foi que, um determinado Papa teria ensinado heresia, mas retirou seu documento (revogou). Isso não é pertinácia, nem uma conduta subversiva, que objetiva destruir a Igreja.

    Todos os trabalhos dos referidos Padres culminaram com a aceitação dos padres da Orientação Pastoral sobre o Magistério Vivo da Igreja de Dom Fernando Rifan, que apresenta uma correta interpretação da infalibilidade pontifícia inscrita na Constituição Dogmática Pastor Aeternus. Essa interpretação é tão assertiva que ninguém, até hoje, conseguiu derrubá-la.

    A crise modernista é uma situação diferente na história da Igreja. Os inimigos já não estão fora, mas dentro das próprias estruturas católicas, e não pretendem sair, conforme afirma São Pio X, o que os torna ainda mais nefastos, demandando uma reação de repulsa ainda maior.

    Quem só vê na Pastor Aeternus uma infalibilidade positiva, declarativa, mas se recusa enxergar a mais importante, que é a infalibilidade conservativa, interpreta erroneamente o dogma. Um ensinamento, para ser Infalível, não precisa ser solene (“ex cathedra”), pois pode se dar pelo Magistério Ordinário e Universal da Igreja, não necessariamente sincrônico, mas também gradualmente. E, é também infalível o elemento de doutrina que, ainda que não esteja explícito ou declarado, está contido em alguma práxis da Igreja, fundada na Revelação, considerada necessária à salvação eterna e testemunhada por uma tradição ininterrupta.

    Por outro lado, não é correto a pecha de que os conservadores interpretam qualquer espirro do Papa como um pronunciamento infalível. Essa não é uma crítica justa. Pois, heresia é um erro grave, mas nem todo erro é heresia! Além do mais, todos sabem que eles não defendem isto.

    “Que por ele rezou, o Senhor o declara quando diz, no momento da paixão: ‘Eu rezei por ti, Pedro, para que não desfaleça a tua fé. E tu, quando fores convertido, confirma os teus irmãos’ [Lc 22, 32], com isto claramente indicando que os seus sucessores jamais desviariam da fé católica, mas antes chamariam os outros e também confirmariam os duvidosos, destarte concedendo a ele o poder de confirmar os outros de modo a impor aos outros a necessidade de obedecer.” (Inocêncio III, Carta Apostolicae Sedis primatus, ao patriarca de Constantinopla, 12 nov. 1199, Denzinger-Hünermann 775).

    “Assim, os Padres do IV Concílio de Constantinopla, seguindo os passos dos antepassados, publicaram esta solene profissão da fé: “A salvação consiste antes de tudo em guardar a regra da fé verdadeira […]. E como a palavra de nosso Senhor Jesus Cristo, que disse: ‘Tu és Pedro e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja’ [Mt 16,18], não pode ser preterida, o que foi dito é comprovado pelo efeito, pois na Sé Apostólica sempre se conservou imaculada a religião católica e foi celebrada santa a doutrina. Assim, não desejando absolutamente separar- nos desta fé e desta doutrina […], esperamos merecer encontrar-nos na única comunhão pregada pela Sé Apostólica, na qual está sólida e íntegra a verdadeira religião cristã”.” (Conc. Vat. I. Const. Pastor Aeternus).

    “Pois o Espírito Santo não foi prometido aos sucessores de Pedro para que, por revelação sua, manifestassem uma nova doutrina, mas para que, com sua assistência, conservassem santamente e expusessem fielmente a revelação transmitida pelos Apóstolos, ou seja, o depósito da fé. E, decerto, esta doutrina apostólica, todos os veneráveis Padres abraçaram-na e os santos ortodoxos Doutores a veneraram e seguiram, plenissimamente conscientes de que esta Sé de são Pedro sempre permaneceu intacta de todo erro, segundo a divina promessa de nosso Senhor e Salvador feita ao chefe dos seus discípulos: “Eu roguei por ti, para que tua fé não desfaleça; e tu, uma vez convertido, confirma teus irmãos” [Lc 22,32].” (Conc. Vat. I. Const. Pastor Aeternus).

    —————————-

    Resumindo: o problema é mais complexo, pois a Sé Apostólica deve permanecer imune de todo erro, entende-se imune de toda a heresia ou apostasia.

    Além disso o direito canônico declara explicitamente o princípio teológico de que o excomungado está proibido de exercer qualquer ofício na Igreja.

    Creio que não é necessário lembrar que as penalidades canônicas não são apenas declarativas (ferendae sententiae), mas também automáticas (latae sententiae).

    Respeitosamente,

  18. Não podia faltar a terceira via:
    Defender que o papa na verdade é BXVI.
    Ninguém merece um tal estado de beligerância!
    Nessa grita toda, eu fico com a árvore que está dando bons frutos.

  19. Alguns fatos ocorridos em 2013 são muito significativos para esclarecer toda a polêmica em torno da legitimidade do pontificado de Francisco.

    Em dezembro de 2012 o papa recebeu um relatório sobre o vatileaks e segundo consta decidiu pela renúncia naquele momento. As pressões contra ele, por ser conservador, por preservar a verdadeira fé católica, já eram imensas, e então ele cedeu ao establishment.

    Por esse prisma de visão resta claro que a renúncia de Bento não foi espontânea, mas eivada de vício pela coação, vício esse que invalida a renúncia e por via de consequência invalida a eleição de Bergoglio. Não bastasse tudo isso, Bento MANTEVE-SE papa. Por que? O que levaria um gigante na fé a renunciar pela metade? O que levaria um gigante na moral e na coragem a mentir, já que em 2013 alegou que o fazia por questão de saúde, de falta de forças, e agora em 2021 o Homem está lá, graças a Deus, firme como uma rocha. Será que é porque lhe faltaram forças para enfrentar o establishment anticristão, mas como homem de fé sabia que apesar de tudo o elo sagrado do papado que liga Deus à humanidade teria que ser preservado de alguma forma?

    “”“O papa é apenas um” Ratzinger vem repetindo há oito anos, sem nunca explicar qual dos dois, como recentemente confirmado por Monsenhor Gaenswein (involuntariamente). A tese da advogada Acosta, publicada em março no volume “Bento XVI: Papa emérito?”, não foi negada: o cânon 332.2 exige a renúncia do munus (título divino) para a abdicação do papa, enquanto Ratzinger, em sua Declaratio de 11 de fevereiro de 2013, declarou renunciar apenas ao ministerium, o exercício ativo.”””

    https://www.marcotosatti.com/2021/08/29/a-renuncia-de-bento-e-a-questao-da-se-impedida/

  20. “””Aquele que se alegra por não se submeter ao Papa não é católico.”””
    Não há nenhuma alegria por parte do verdadeiro católico, em não se submeter a um papa. Muito pelo contrário, há imensurável tristeza, aflição até, mas a fé e a sã doutrina, assim como a Casa de Deus Pai, têm de ser preservadas.

  21. Parte de texto no blog Old Man in Desert talvez ajude a entender as atitudes do papa Francisco, sua defesa da colegialidade para fugir da responsabilidade pessoal, por que Santo Inácio de Loiola não queria um jesuíta no trono papal e por que a maçonaria considerou que os jesuítas seriam úteis na implantação da sua agenda.
    “O Conde Paul von Hoensbroech observa como o sistema de treinamento jesuítico nas faculdades destrói a individualidade daqueles que estão sujeitos a ele, mas é precisamente isso que o treinamento pretende fazer. A rotina mecânica, nunca variando no dia a dia, o silêncio perpétuo, a repressão severa e frequente e a introspecção contínua logo mata a vitalidade pessoal e o ‘cadáver’ toma o lugar do ser vivo e consciente, Foram treinados para pensar que o esforço intelectual independente é um pecado. Quando a necessidade de decisão pessoal chega a tais homens, ou eles se inclinam fracamente na fraca palheta do conselho de um diretor, cuja mente é tão estreita quanto a sua, ou eles rompem com toda contenção e correm de cabeça no primeiro curso de ação que parece ser bom, ou para aliviá-los do fardo da responsabilidade pessoal que eles não foram treinados para suportar.”

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