Considerações sobre o Rorate Caeli.

Por Padre Antônio Mariano – FratresInUnum.com, 25 de novembro de 2021: Aproxima-se o Advento, e no interior de nossas almas já é possível escutar as notas suaves do Rorate.

Rorate Caeli desúper et nubes plúant justum.

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Embora comece com esse imperativo aos céus e às nuvens, o primeiro movimento que o Rorate produz em nós é essa elevação dos olhos para o céu. Nunca foi tão necessário para o católico olhar para os céus. Numa pequena crise, poderíamos até esperar uma resolução da parte dos homens. Mas, diante de tudo o que vemos acontecer na Santa Igreja, não temos mais esperança humana; necessitamos e aguardamos uma intervenção direta do Céu e olhamos para ele, esperando algum movimento que possa confortar-nos em nossas angústias.

Ne irascáris Dómine, ne ultra memíneris iniquitátis
Ecce cívitas Sancti facta est desérta
Sion desérta facta est, Jerúsalem desoláta est.
Domus sanctificatiónis tuae et gloriae tuae
Ubi laudavérunt Te patres nostri.


A primeira estrofe começa com a causa de todos os males: as nossas iniquidades, os nossos pecados. Os pecados que durante séculos lançamos na face de Deus, agora fazem cair sobre nós a ira do Senhor. Só nos resta pedir que o Senhor os esqueça, que não se irrite conosco.

Mas, merecemos nós esse esquecimento de Deus? Foram tão pouca coisa nossos crimes a ponto de que Deus os esqueça?

Não. 

Por isso, pedimos que Deus olhe para a sua cidade, para a cidade de seu Santuário, cidade desertificada, cidade desolada. A Igreja está deserta. Ainda que aqui ou ali ainda se encontre número de pessoas dentro do templo, quem lá conhece verdadeiramente o catecismo, quem realmente proclama a fé da Igreja de sempre?

Quem ali renega o liberalismo? Quem, realmente, está disposto a morrer pelo sagrado vínculo do matrimônio? Quantos sacerdotes realmente crêem na Presença de Nosso Senhor na Hóstia Consagrada?

Sião ficou deserta, Jerusalém está desolada.

A desolação de Jerusalém é porque tudo que nela resplandecia de santidade foi roubado – não há outra palavra. Roubaram de Jerusalém, isto é, da Igreja, a doutrina, a liturgia, a oração e a moral. Jerusalém é uma cidade decorada pelos corpos dos combatentes, às vezes já em agonia. Arrancaram de Jerusalém o seu estandarte que contém uma só palavra: Credo.

E ainda mais, está desolada, porque foi lhe posta no Santo dos Santos a abominação da desolação que impregna com seu fedor herético, liberal e sacrílego o que antes só emanava os suavíssimos odores do incenso da disposição a qualquer sacrifício para agradar somente a Deus.

Ah…. a casa da tua santificação e da tua glória, onde te louvavam nossos pais… Não queremos nada de novo! O vinho velho é o melhor! Não queremos uma Igreja nova, em saída (que se tornou um “de saída”…), sinodal e sucursal da ONU. Queremos a Igreja em que te louvaram nossos pais, talvez não nossos pais da terra, que muitas vezes não nos entendem por amarmos o que lhes foi ensinado a desprezar, mas aqueles, em sentido lato, pais e mães que a Igreja dá às nossas almas: S. Francisco, S. Domingos, S. Bruno, S. João da Cruz, S. Teresa, S. Catarina, S. Inácio, S. João Bosco… É na Igreja que eles te louvaram, Senhor, que nós queremos louvar também.

Se um dia o povo brasileiro pediu o seu Brasil de volta, com tanto maior força, nós católicos precisamos por todos os meios, pedir, exigir a nossa Igreja de volta.

Peccávimus et facti sumus tamquam immúndus nos,
Et cecídimus quasi fólium univérsi
Et iniquitátes nostrae quasi ventus abstulérunt nos
Abscondísti fáciem tuam a nobis
Et allisísti nos in mánu iniquitátis nostrae.

Todo pecado é uma mácula, uma mancha, uma sujeira. Mas há um pecado que é imundície, a impureza, os pecados contra o sexto e o nono mandamentos. Quantas vezes não soubemos guardar a nossa vista, nossos pensamentos, nossos corpos. Quanta licenciosidade nas conversas entre católicos, como se a masculinidade fosse sinônimo de animalidade?

Quantas imodéstias e desejos sedutores nas vestes em que tantas mulheres vão à Missa?
Quantos pais que defenderiam seus filhos de um assassino, mas expõe diante de seus olhos toda iniquidade oriunda da TV, as músicas imorais com as danças que sequer cabem no corpo de uma criança!

E isso tudo, não entre os pagãos, mas entre aqueles que dizem venerar a Sempre Virgem Maria! Esquecem-se que nada é mais oposto à Nossa Senhora do que a impureza!

E o clero? Já não advertiu em várias aparições reconhecidas pela Igreja, como Rue du Bac e La Sallete, a impureza das almas consagradas? Impureza em ações, em leituras, em apegos desordenados, em visitas desnecessárias…

Sim, esses pecados arrastaram a Igreja para o chão como folhas secas que o vento leva.

Se são os puros de coração que verão a Deus, não causa espanto que o Senhor esconda de nós a sua face. E como o pecado contra a pureza tem um poder particularmente insaciável e dominador, é por essas mesmas iniquidades que a mão justíssima do Senhor, o Santo Amor, como dizia S. Francisco de Assis, nos esmaga.

Víde, Dómine, afflictiónem pópuli tui
Et mitte quem missúrus es
Emítte Agnum dominatórem terrae
De pétra desérti ad montem fíliae Sion
Ut áuferat ipse jugum captivitátis nostrae.

Não há esperança. Nesse estado das coisas, os prudentes estarão aflitos e os insensatos se porão simplesmente a negar tudo e tentar semear um otimismo que não consiste no fato de que nosso auxílio esteja (somente) no nome do Senhor. Então, varridos pelas baixezas de nossas vilanias, pedimos ao Senhor que olhe.

Não podemos pedir-Lhe mais nada!

Que mérito temos para pedir que venha em socorro dos males que nós mesmos criamos? Pedimos, com certa astúcia, que Ele olhe. Porque a Ele será impossível olhar e não agir. Por mais que não mereçamos, será por seu Nome que Ele agirá, será pelas lágrimas da Santa Igreja que Ele agirá.

E a sua ação será o cumprimento dos anelos proféticos: “Ah, se rompêsseis os céus e descêsseis…” Sim, Ele enviará o que deve vir, aquele que é ao mesmo tempo Cordeiro de um Sacrifício e Dominador de todo o mundo. Ele não apenas tirará o jugo que nos pesa, mas o tomará sobre si. Em troca, nos oferecerá um outro, novo, suave e leve, nos proporcionará uma vassalagem que na verdade é um Reinar com Ele. E Ele virá para isso, para redimir e, redimindo, reinar.

Consolámini, consolámini, pópule meus
Cito véniet salus tua
Quare moeróre consúmeris, quia innovávit te dolor?
Salvábo te, noli timére
Ego énim sum Dóminus Deus túus Sánctus Israël, Redémptor túus.

E essa é a consolação que abranda as angústias do povo do Senhor: Ele não demora. Para nós o relógio corre, para Ele mil anos e um dia são a mesma coisa. Não estamos barganhando com um soberano de outro país para que venha em nosso auxílio. Não! “Eu sou o Senhor, teu Deus, Santo de Israel, teu Redentor”. Ó, quanta fortaleza, quanta confiança nos inspiram essas palavras. São como se Ele dissesse: “Eu te salvarei, tu és meu. A tristeza e as dores fazem parte da tua vida, não são a tua vida, Mas Eu, Eu sim, sou o teu Deus, a tua vida.” O Senhor diz à Igreja: “Nunca mais te chamarão abandonada, nem se dirá de tua terra rejeitada”. “Eu sou teu Senhor. E em breve virá a tua salvação.”

3 Comentários to “Considerações sobre o Rorate Caeli.”

  1. Obrigado por nos mostrar a força e eficácia da Esperança, Fratres et Unum. Feliz Natal pra vocês. Quanto a mim, estou reencontrando o feliz Sentido do Natal.

  2. Esta é, de fato, uma das mais belas composições que a alma humana já produziu. Eu a medito quase todos os dias do ano e a primeira estrofe sempre me remete à imagem que vivenciamos no ano de 2020, em que o atual pontífice atravessava a Praça de São Pedro vazia, no dia da missa com a bênção Urbi et Orbi.

  3. Todo o Ano Litúrgico principia-se com o Tempo do Advento, uma singular ocasião de preparação para a Festa do Santo Natal do Menino-Deus Jesus, sendo que esse foi o maior fato ímpar sucedido em toda a história da humanidade, porque o Verbo de Deus se fez carne e habitou entre nós!
    Resignou-Se a assumir a nossa simples humanidade, sem deixar de ser o Senhor Deus e o Santo Natal de Jesus necessita ser festivamente, com muito júbilo ser preparado e celebrado a cada ano, sendo quatro semanas de preparação e, durante esse período, somos convidados a esperar Jesus que vem no Natal e virá no final dos tempos, dessa vez como Justo Juiz dos vivos e dos mortos, os quais serão ressuscitados, quer para o Céu ou para a eterna danação.
    Eis pois aí o tempo de preparação do coração por uma ótima confissão para convenientemente recebê-Lo pela alegre espera do Senhor, considerada sob diversos parâmetros. recordando por primeiro lugar a expectativa do Antigo Testamento pelo vindouro Messias que nos visitaria e traria a salvação, a começar para os judeus, do qual lhes relatavam os profetas, com Isaías, agradecendo a Deus o dom inefável da salvação que se realizou na vinda do venturo divino Redentor.
    Agora, a vinda do Salvador deve compulsoriamente para os católicos assumidos atualizarem-se no coração de todos os homens tal expectativa de sua futura gloriosa aparição, também enquanto a história se encaminha para a Parusia, ou seja, para a vinda gloriosa do Senhor. É nessa perspectiva, que devem ser escutadas e apreendidas as leituras correlacionadas com o Advento. “Vinde, o Deus Menino está próximo, caminhemos à luz do Senhor!”.

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