Íntegra da carta aberta dos bispos católicos aos bispos da Alemanha

FratresInUnum.com, 12 de abril de 2022 – Com informações da ACI DIGITAL – Abaixo, compartilhamos a tradução que a ACI fez da carta aberta dos bispos católicos à Conferência Episcopal alemã. Para outros bispos que queiram também assinar a carta, está disponível o email episcopimundi2022@gmail.com.

Uma carta aberta fraterna a nossos irmãos bispos na Alemanha

11 de abril de 2022

Em uma era de comunicação global rápida, eventos em uma nação inevitavelmente têm impacto eu outros lugares. Assim, o processo do “Caminho Sinodal”, tal como atualmente conduzido pelos católicos na Alemanha, tem implicações para a Igreja no mundo todo. Isso inclui as igrejas locais que pastoreamos e os muitos fiéis católicos pelos quais somos responsáveis.

À luz disso, os eventos na Alemanha nos compelem a expressar nossa preocupação crescente acerca da natureza inteira do processo do “Caminho Sinodal” e do conteúdo de seus vários documentos. Nossos comentários aqui são deliberadamente breves. Eles demandam, e nós encorajamos fortemente, maior elaboração individual (como, por exemplo, na Carta Aberta aos Bispos Católicos do Mundo, em inglêsespanhol e alemão) de bispos. Mesmo assim, a urgência de nossas observações conjuntas está enraizada em Romanos 12, e, em especial, na advertência de Paulo: ‘Não vos conformeis com este mundo”. A seriedade delas brota da confusão que o Caminho Sinodal já causou e continua a causar, e o potencial de cisma na vida da Igreja que vai inevitavelmente resultar.

A necessidade de reforma e renovação é tão antiga quanto a própria Igreja. Em sua raiz, esse impulso é admirável e não deve nunca ser temido. Muitos dos envolvidos no processo do Caminho Sinodal são, sem dúvida, gente de caráter notável. Mesmo assim, a história cristã está repleta de esforços bem-intencionados que perderam seu fundamento na Palavra de Deus, num encontro fiel com Jesus Cristo, numa verdadeira escuta do Espírito Santo e na submissão de nossas vontades à vontade do Pai. Esses esforços falhos ignoraram a unidade, a experiência, e a sabedoria acumulada do Evangelho e da Igreja. Porque falharam em seguir as palavras de jesus, “Sem mim não podeis fazer nada” (João 15, 50), eles foram infrutíferos e prejudicaram tanto a unidade quanto a vitalidade evangélica da Igreja.

O Caminho Sinodal corre o risco de levar exatamente ao mesmo beco sem saída. Como vossos irmãos, nossas preocupações incluem, mas não se limitam, ao seguinte:

1. Ao não escutar o Espírito Santo e o Evangelho, as ações do Caminho Sinodal solapam a credibilidade da autoridade da Igreja, incluindo a do papa Francisco, a antropologia e a moral sexual cristãs, e a confiabilidade da Escritura.

2. Embora mostrem um verniz de ideias e vocabulário religioso, os documentos do Caminho Sinodal Alemão parecem inspirados não na Escritura e na Tradição -que, para o Concílio Vaticano II, são ‘um só depósito sagrado da palavra de Deus’ _ mas por análises sociológicas e ideologias políticas contemporâneas, inclusive de gênero. Eles olham para a Igreja e sua missão através da lente do mundo mais do que através da lente das verdades reveladas na Escritura e na autoridade da Tradição da Igreja.

3. O conteúdo do Caminho Sinodal também parece reinterpretar, e assim diminuir, o significado de liberdade cristã. Para o cristão, liberdade é o conhecimento a vontade e a capacidade desimpedida de fazer o que é certo. Liberdade não é “autonomia”. A liberdade autêntica, como ensina a Igreja, está ligada à verdade e ordenada ao bem e, como fim último, a beatitude. A consciência não cria a verdade, nem a consciência é uma questão de preferência ou autoafirmação. Uma consciência cristã propriamente formada se mantém sujeita à verdade sobre a natureza humana e às normas do reto viver reveladas por Deus e ensinadas pela Igreja de Cristo. Jesus é a verdade que nos liberta (João 8).

4. A alegria do Evangelho -essencial para a vida cristã, como o papa Francisco sempre sublinha_ parece totalmente ausente das discussões e dos textos do Caminho Sinodal, uma falha gritante para um esforço que busca a renovação pessoal e eclesial.

5. O processo do Caminho Sinodal, praticamente a cada passo, é obra de especialistas e comitês: pesadamente burocrático, obsessivamente crítico e voltado para si mesmo. Ele, assim, reflete uma forma bastante difundida de esclerose da Igreja e, ironicamente, assume um tom antievangélico. Em seus efeitos, o Caminho Sinodal mostra mais submissão e obediência ao mundo e às ideologias do que a Jesus Cristo como Senhor e Salvador.

6. O foco do Caminho Sinodal em “poder” na Igreja sugere um espírito fundamentalmente em oposição à real natureza da vida cristã. Em última instância, a Igreja não é meramente uma “instituição”, mas uma comunidade orgânica; não igualitária, mas familial, complementar e hierárquica _um povo assinalado em conjunto pelo amor de Jesus cristo e amor ao próximo no nome d’Ele. A reforma de estruturas não é absolutamente a mesma coisa que a conversão dos corações. O encontro com Jesus Cristo, como visto no Evangelho e nas vidas dos santos ao longo da história, muda os corações e as mentes, traz cura, afasta de uma vida de pecado e infelicidade, e demonstra o poder do Evangelho.

7. O último e mais inquietante problema do Caminho Sinodal Alemão é terrivelmente irônico. Por seu exemplo destrutivo, pode levar alguns bispos, e vai levar muitos leigos fiéis, a desconfiar da própria ideia de “sinodalidade”, impedindo ainda mais a necessária conversa da Igreja sobre cumprir sua missão de converter e santificar o mundo.

Em um tempo de confusão, a última coisa de que uma comunidade de fé precisa é mais do mesmo. Ao discernir a vontade do Senhor para a Igreja na Alemanha, estejam certos de nossas orações por vós.

Francis cardeal Arinze (Onitsha, Nigéria)

Raymond cardeal Burke (Saint Louis, EUA)

Wilfred cardeal Napier (Durban, África do Sul)

George cardeal Pell (Sydney, Austrália)

Arcebispo Samuel Aquila (Denver, EUA)

Arcebispo emérito Charles Chaput (Philadelphia, EUA)

Arcebispo Paul Coakley (Oklahoma City, EUA)

Arcebispo Salvatore Cordileone (São Francisco, EUA)

Arcebispo Damian Dallu (Songea, Tanzânia)

Arcebispo emérito Joseph Kurtz (Louisville, EUA)

Arcebispo J. Michael Miller (Vancouver, Colúmbia Britânica, Canadá)

Arcebispo Joseph Naumann (Kansas City, EUA)

Arcebispo Andrew Nkea (Bamenda, Camarões)

Arcebispo Renatus Nkwande (Mwanza, Tanzânia)

Arcebispo Gervas Nyaisonga (Mbeya, Tanzânia)

Arcebispo Gabriel Palmer-Buckle (Cape Coast, Gana)

Arcebispo Emeritus Terrence Prendergast (Ottawa-Cornwall, Ontário, Canadá)

Arcebispo Jude Thaddaeus Ruwaichi (Dar-es-Salaam, Tanzânia)

Arcebispo Alexander Sample (Portland, EUA)

Bispo Joseph Afrifah-Agyekum (Koforidua, Gana)

Bispo Michael Barber (Oakland, EUA)

Bispo emérito Herbert Bevard (Saint Thomas, Ilhas Virgens Americanas)

Bispo Earl Boyea (Lansing, EUA)

Bispo Neal Buckon (Auxiliar, Forças Armadas dos EUA)

Bispo William Callahan (La Crosse, EUA)

Bispo emérito Massimo Camisasca (Reggio Emilia-Guastalla, Itália)

Bispo Liam Cary (Baker, EUA)

Bispo Peter Christensen (Boise, EUA)

Bispo Joseph Coffey (Auxiliar, Forças Armadas dos EUA)

Bispo James Conley (Lincoln, EUA)

Bispo Thomas Daly (Spokane, EUA)

Bispo John Doerfler (Marquette, EUA)

Bispo Timothy Freyer (Auxiliar, Orange, EUA)

Bispo Donald Hying (Madison, EUA)

Bispo Emeritus Daniel Jenky (Peoria, EUA)

Bispo Stephen Jensen (Prince George, Colúmbia Britânica, Canadá)

Bispo William Joensen (Des Moines, EUA)

Bispo James Johnston (Kansas City-St. Joseph, EUA)

Bispo David Kagan (Bismarck, EUA)

Bispo Flavian Kassala (Geita, Tanzânia)

Bispo Carl Kemme (Wichita, EUA)

Bispo Rogatus Kimaryo (Same, Tanzânia)

Bispo Anthony Lagwen (Mbulu, Tanzânia)

Bispo David Malloy (Rockford, EUA)

Bispo Gregory Mansour (Eparquia de São Maron do Brooklyn, EUA)

Bispo Simon Masondole (Bunda, Tanzânia)

Bispo Robert McManus (Worcester, EUA)

Bispo Bernadin MfumbEUA (Kondoa, Tanzânia)

Bispo Filbert Mhasi (Tunduru-Masasi, Tanzânia)

Bispo Lazarus Msimbe (Morogoro, Tanzânia)

Bispo Daniel Mueggenborg (Reno, EUA)

Bispo William Muhm (Auxiliar, Forças Armadas dos EUA)

Bispo Thanh Thai Nguyen (Auxiliar, Orange, EUA)

Bispo Walker Nickless (Sioux City, EUA)

Bispo Eusebius Nzigilwa (Mpanda, Tanzânia)

Bispo Thomas Olmsted (Phoenix, EUA)

Bispo Thomas Paprocki (Springfield, Illinois, EUA)

Bispo Kevin Rhoades (Fort Wayne-South Bend, EUA)

Bispo David Ricken (Green Bay, EUA)

Bispo Almachius Rweyongeza (Kayanga, Tanzânia)

Bispo James Scheuerman (Auxiliar, Milwaukee, EUA)

Bispo Augustine Shao (Zanzibar, Tanzânia)

Bispo Joseph Siegel (Evansville, EUA)

Bispo Frank Spencer (Auxiliar, Forças Armadas dos EUA)

Bispo Joseph Strickland (Tyler, EUA)

Bispo Paul Terrio (Saint Paul in Alberta, Canada)

Bispo Thomas Tobin (Providence, EUA)

Bispo Kevin Vann (Orange, EUA)

Bispo Robert Vasa (Santa Rosa, EUA)

Bispo David Walkowiak (Grand Rapids, EUA)

Bispo James Wall (Gallup, EUA)

Bispo William Waltersheid (Auxiliary, Pittsburgh, EUA)

Bispo Michael Warfel (Great Falls-Billings, EUA)

Bispo Chad Zielinski (Fairbanks, EUA)

4 comentários sobre “Íntegra da carta aberta dos bispos católicos aos bispos da Alemanha

  1. Que carta dura e direta, ” e o potencial de cisma na vida da Igreja que vai inevitavelmente resultar.”
    Porque num momento desses não vemos nenhum bispo brasileiro signatário dessas cartas.

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  2. “Bela” carta que não ataca, e muito pelo contrário, a CAUSA (CVII) do problema entre os bispos alemães…

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    1. E os bispos brasileiros? Nenhum quis assinar essa carta? No Brasil não há mais bispo católico?????

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