Sobre o mea culpa do Papa Francisco no Canadá.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 27 de julho de 2022 | Tradução: Hélio Dias Viana – A Igreja Católica, fiel ao mandato do seu divino Mestre de “ir por todo o mundo e pregar o Evangelho a toda criatura” (Mar.16,15), realiza desde a sua fundação uma vasta obra missionária com a qual não só trouxe a Fé ao mundo, mas também a civilização, santificando lugares, povos, instituições e costumes. Graças a este trabalho, a Igreja civilizou também os povos das Américas, que estavam imersos no paganismo e na barbárie.

A primeira missão jesuíta do Canadá entre os índios iroqueses, dirigida pelo padre Charles Lalemant (1587-1674), desembarcou em Québec em 1625. Em 1632 chegou uma nova missão, conduzida pelo padre Paul le Jeune (1591-1664). O padre Jean de Brébeuf (1593-1649) voltou em 1633 com dois outros sacerdotes. De choça em choça, começaram a instruir crianças e adultos no Catecismo. Mas alguns feiticeiros convenceram os índios de que a presença dos padres atraía secas, epidemias e outras calamidades. Assim, os jesuítas decidiram proteger os catecúmenos isolando-os em cidades cristãs. A primeira foi construída a quatro milhas de Québec. Constava de um forte, uma capela, casas,  um hospital e uma residência para os padres.

Ao mesmo tempo, alguns voluntários se ofereceram para converter os índios: Santa Maria da Encarnação Guyart Martin (1599-1672), uma irmã ursulina originária de Tours que com outras duas freiras havia fundado um internato em Québec para ensinar crianças indígenas; Dona Marie Madeleine de la Peltrie (1603-1671), viúva francesa que fundou com algumas Irmãs Hospitaleiras de Dieppe um hospital, também em Québec; membros da Sociedade de Nossa Senhora que com a ajuda do padre sulpiciano Jean Jacques Olier (1608-1657) e da Companhia do Santíssimo Sacramento fundaram em 1642 a Ville Marie de Montréal, a partir da qual nasceria a atual Montréal.

Mas os iroqueses se mostraram irredutivelmente hostis. Haviam mutilado atrozmente e coberto de brasas o padre Isaac Jogues (1607-1646) e seu coadjutor, padre René Goupil (1608-1642). Em março de 1649, os iroqueses martirizaram os padres Jean de Brébeuf e Gabriel Lalemant (1610-1649). Empalaram o padre Brébeuf com barras de ferro quente e lhe arrancaram pedaços de carne, que devoraram diante de seus olhos. Vendo que o mártir não parava de louvar a Deus, arrancaram-lhe os lábios e a língua e enfiaram tições acesos em sua garganta. O padre Lalemant foi torturado pouco depois com crueldade ainda maior. Mais tarde, um selvagem esmagou sua cabeça com um machado e arrancou-lhe o coração, bebendo seu sangue para assimilar sua força e coragem. Em dezembro, uma nova onda de ódio feroz produziu dois novos mártires, dos padres Charles Garnier (1605-1649) e Noël Chabanel (1613-1649). Os oito missionários jesuítas, conhecidos como Mártires do Canadá, foram beatificados por Bento XV em 1625 e canonizados por Pio XI em 1930.

Esses episódios fazem parte da memória histórica do Canadá e não podem ser esquecidos. Como jesuíta o Papa Francisco deveria estar familiarizado com esta epopeia, narrada entre outros por seu colega de Ordem padre Celestino Testore, em seu livro Os santos mártires do Canadá, publicado em 1941.

Mas, sobretudo, o Santo Padre deveria ter tratado com maior prudência o caso da suposta descoberta de valas comuns nas residências estudantis para índios do Canadá — rede de escolas fundada pelas autoridades e confiada principalmente à Igreja Católica, embora também em parte (30%) à anglicana canadense, com vista à integração do corpo discente na cultura nacional, de acordo com a Lei de Civilização Gradual aprovada pelo Parlamento em 1857. Nas últimas décadas, a Igreja Católica tem sido acusada de participar de um plano de extermínio cultural dos povos indígenas, cujos filhos teriam sido arrancados de suas famílias para serem doutrinados e, às vezes, submetidos a tratamentos abusivos para assimilá-los à cultura dominante. Em junho de 2008, com base em posturas indigenistas, as autoridades canadenses pediram perdão oficialmente aos indígenas e criaram uma Comissão de Verdade e Reconciliação para os internatos de índios.

Apesar dos 71 milhões de dólares recebidos, os investigadores da comissão trabalham há sete anos sem encontrar tempo para consultar os arquivos dos Oblatos de Maria Imaculada, a Ordem religiosa que no final do século XIX começou a administrar os internatos. Enquanto isso, graças às informações coletadas nesses arquivos, o historiador Henri Goulet, em sua Histoire des pensionnats indiens catholiques au Québec. Le rôle déterminant des pères oblats (Presses de l’Université de Montréal, 2016) [História dos pensionatos indígenas católicos em Québec. O papel determinante dos padre oblatos], mostrou que os Oblatos eram os únicos defensores da língua e do modo de vida tradicional dos índios do Canadá, ao contrário do governo e da igreja anglicana. Essa linha de pesquisa historiográfica é confirmada pelos trabalhos de um dos maiores estudiosos internacionais da história da religião no Canadá, o professor Luca Codignola Bo, da Universidade de Gênova.

Da acusação de genocídio cultural se passou para a de genocídio físico. Em maio de 2021, a antropóloga Sarah Beaulieu, depois de inspecionar com georadar o terreno adjacente ao internato de Kamloops, levantou a hipótese da existência de uma vala comum, sem ter realizado nenhuma escavação. As alegações da antropóloga, divulgadas pela grande mídia e endossadas pelo primeiro-ministro Trudeau, deram origem a teorias muito variadas, algumas das quais afirmam que centenas de crianças teriam sido mortas e enterradas clandestinamente em valas comuns ou túmulos irregulares em terrenos de escolas católicas no Canadá.

A notícia é totalmente infundada, pois nenhum corpo foi desenterrado, como documentou Vik van Brantegem no blog Korayzm.org em 22 de fevereiro. Em 1º de abril, o blog UCCR publicou uma entrevista detalhada com o historiador Jacques Rouillard, professor emérito de História da Universidade de Montréal, na qual ele nega categoricamente o genocídio cultural e físico dos indígenas canadenses e a existência de valas comuns nos internatos Ele está convencido de que por trás de todo o caso se oculta uma tentativa de obter indenizações milionárias. Em 11 de janeiro, o próprio professor Rouillard publicou um extenso artigo no site canadense Dorchester Review, no qual afirma que nas supostas valas comuns do internato de Kamloops não foram encontrados nenhum corpo de menor, enterros clandestinos ou qualquer outro enterro irregular. Atrás das escolas não há senão cemitérios, nos quais foram enterrados não apenas os alunos, mas também a população local e os próprios missionários. Com base na documentação apresentada por Rouillard, entre 1915 e 1964 morreram 51 crianças. Foi encontrada a documentação sobre a causa mortis de 35 delas, a maioria por doença e alguns por acidentes.

Um novo artigo publicado pelo professor Tom Flanagan e pelo juiz Brian Gesbrecht em 1º de março na Dorchester Review confirma não haver a menor indicação de que um único menor tenha sido assassinado nos 113 anos de história dos internatos católicos. De acordo com os dados fornecidos pela Comissão para a Verdade e Reconciliação, a taxa anual de mortalidade entre os alunos em internatos era uma média de quatro por mil, principalmente por tuberculose ou gripe.

Parece que as escavações foram finalmente autorizadas em Kamloops, mas, como diz o professor Rouillard, teria sido melhor tê-las feito no outono passado, para que se conhecesse a verdade, evitando assim que o Papa Francisco pedisse perdão por hipóteses não comprovadas. Um intelectual canadense o expressa com estas palavras: “Parece inacreditável que um estudo preliminar sobre uma suposta vala comum em um pomar tenha desencadeado uma avalanche de reivindicações com o aval das autoridades canadenses, as quais tenham sido reproduzidas pela mídia de todo o mundo. Não se trata de um conflito entre a história oficial e a história indígena transmitida oralmente, mas entre esta última e o senso comum. Até o momento não foram feitas exumações nem se encontraram restos. Uma acusação criminal requer provas verificáveis, especialmente se o autor do delito tiver morrido há muito tempo. Portanto, é importante que as escavações sejam feitas o quanto antes, para que a verdade prevaleça sobre a fantasia e as emoções. Se o que se quer é a reconciliação, não é preferível investigar e contar toda a verdade antes de inventar mitos sensacionalistas?»

5 comentários sobre “Sobre o mea culpa do Papa Francisco no Canadá.

  1. A título de melhorar o texto, sugiro que se revise a frase: “foram beatificados por Bento XV em 1625 e canonizados por Pio XI em 1930”, claramente incorreta quanto à sua primeira parte.

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  2. Comissão para a Verdade e Reconciliação? É mais Comissão para a Mentira e Indemnização.

    Obrigado por exporem às claras o que todos os outros querem encobrir.

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  3. Há um erro de nome do papa e data, “beatificados por Bento XV em 1625”, Bento XV morreu em janeiro de 1922. O papa da beatificação é Pio XI, mas esse “deslize” não macula a grandeza do texto.

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  4. Desculpe, mas se você queimar uma árvore é capaz de Francisco ir pedir perdão pra “mãe terra”. Tudo tem limites e Francisco já extrapolou todos eles.

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  5. Vexatório o pedido de perdão porque se baseia em uma mentira pura e simples. Ainda hoje circula uma montanha de mentiras sobre a história da Igreja. Eles vivem da mentira!
    Neste caso é ainda mais inquietante porque se trata de uma mentira gratuita, sem bases e comprovação e de fácil refutação. Pior, ao que parece foi usada de modo conveniente pelo governo Trudeau para alterar uma legislação sobre demarcação de terras indígenas. Precisavam causar comoção e conseguiram. Logo queimaram igrejas (sem divulgação), protestaram. É difícil de pensar que o pontífice não tivesse meios de saber que era um embuste.

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