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12 janeiro, 2015

Roberto de Mattei no Instituto do Bom Pastor e em Congresso da FSSPX.

Na última sexta-feira, 9 de janeiro, o Prof. Roberto De Mattei ministrou uma conferência no seminário do IBP em Courtalain, França, sobre Sínodo das Famílias, a Cúria Romana e o Concílio Vaticano II, conforme noticiado pela página oficial do instituto no facebook.

IBP

O Prof. De Mattei está na França e falou também no congresso da revista Courrier de Rome, que é organizado pela FSSPX e que ocorreu em Paris de sexta até ontem, sob o seguinte tema: “1914 – 2014, a reforma da Igreja segundo São Pio X e segundo o Vaticano II”. Especificamente, o Prof. De Mattei tratará da “liberdade religiosa e da separação da Igreja e do Estado”.

8 maio, 2014

Roncalli em debate (II). Roberto de Mattei mantém sua posição – Um Papa “imprudente” que “traiu seu Concílio”.

Entrevista do Prof. Roberto de Mattei a Mauricio Crippa, publicada em “Il Foglio” de 26 de abril de 2014

Em uma recente entrevista ao mensário “Catholic Family News”, o senhor sustentou que em matéria de canonizações a Igreja não é infalível, e que, portanto, a de Roncalli é legitimamente criticável, porque o pontificado de João XXIII representou um “objetivo dano à Igreja”. Isto resume em poucas palavras a questão da infalibilidade?

João XXIII na "sedia gestatória"

João XXIII na “sedia gestatória”

A canonização de um Papa implica a sua santidade não só na vida privada, mas também na vida pública, ou o exercício heróico da virtude no múnus que lhe é próprio, o de Sumo Pontífice. Como autor de uma história do Concílio Vaticano II, estudei o breve pontificado de João XXIII, de 28 de outubro de 1958 até sua morte em 3 de junho de 1963, e estou convicto de que ele não exerceu de modo heróico a virtude cristã, a começar pela virtude da prudência. Isto põe naturalmente um problema. Alguns tradicionalistas pretendem resolver a questão de maneira simplista: uma vez que João XXIII não foi um bom Papa e é canonizado, isto quer dizer que quem o canoniza hoje não é verdadeiro Papa. Estou muito distante desta posição. A infalibilidade das canonizações é uma tese majoritária entre os teólogos, mas não é um dogma de fé, e a opinião contrária pode ser legitimamente admitida. Ao contrário, é dogma de fé que não pode haver contradição entre a fé e a razão. Uma análise objetivamente racional dos fatos demonstra a falta de heroicidade de virtude do Papa Roncalli. Se, por fideísmo, eu devesse negar aquilo que a razão impõe, abalarei as bases racionais de minha fé. Mantenho, portanto, em boa consciência, as minhas dúvidas e as minhas perplexidades sobre a canonização de João XXIII.

O Padre Lombardi, na sua conferência de imprensa de 22 de abril, declarou que negar a infalibilidade das canonizações significa acreditar que os Papas canonizados estejam no inferno.

Creio que isso foi uma brincadeira do Pe. Lombardi. É óbvio que não ser elevado à glória dos altares não significa que se vá para o inferno. Caso contrário, deveríamos crer que pouquíssimos Papas, e menos ainda fiéis, se salvam! Só Deus conhece a sorte das almas após a morte. O que ponho em dúvida não é a salvação eterna de João XXIII, mas a heroicidade de suas virtudes no governo da Igreja. Acrescento que negar a infalibilidade das canonizações não significa afirmar que elas são geralmente falsas ou erradas. Acredito, ao contrário, que a Igreja não erra quando proclama os santos e os beatos, mas que pode haver casos concretos excepcionais, que não contradizem a regra. E hoje vivemos um momento excepcional da história da Igreja. 

O objetivo “dano à Igreja” causado pelo Papa Angelo Roncalli, do qual o senhor falou na mencionada entrevista ao “Catholic Family News”, resume-se na sua opinião somente no fato da convocação do Concílio Vaticano II, com o que resultou daí para a Igreja universal, ou há outros? Alguns dias atrás, no “Corriere della Sera”, o filósofo americano Michael Novak, não propriamente um católico progressista, desenhou um perfil lisonjeiro da santidade pessoal de Roncalli, sublinhando que “a força espiritual do Papa João era uma constante em sua vida e foi sentida pelos Padres Conciliares também durante a Segunda sessão do Concílio, após o seu desaparecimento.” E seu trabalho anterior, como diplomata do Vaticano, é geralmente apreciado pelos historiadores. Ou mesmo a Pacem in Terris – a encíclica de 1963 que trata de temas por assim dizer não doutrinários, mas de natureza histórico-política –, em um momento crucial da conjuntura geopolítica, com a volta da Guerra Fria, deve ser contada entre os “danos objetivos” do pontificado?

Deixemos de lado a “santidade pessoal” de Roncalli, sobre a qual eu me permito ter sérias dúvidas, e comecemos a partir do Concílio Vaticano II. A convocação de uma assembleia de tão vasto porte era uma decisão de longo alcance que não podia ser tomada açodadamente, mas pressupunha profunda reflexão e ampla consulta. Isso aconteceu quando Pio IX decidiu convocar o Concílio Vaticano I e quando Pio XI e Pio XII haviam examinado a possibilidade de retomar o trabalho, mas depois ambos resolveram abandonar o projeto. O mesmo, porém, não aconteceu com João XXIII, que anunciou inesperadamente a convocação do Concílio, apenas três meses após sua eleição, sem falar com ninguém. Ele estava portanto convencido de que o Concílio resolveria, em poucos meses, alguns problemas puramente pastorais. “No Natal poderemos concluir”, disse ele ao Cardeal Felici às vésperas da abertura. Isso mostra, no mínimo, uma falta de tino na previsão .

O Concílio Vaticano II se revelou depois, além das intenções do Pontífice, uma catástrofe objetiva em muitos campos. Cinjo-me a citar um: a falta de condenação do comunismo. Um Concílio que pretendia ser pastoral silenciou sobre a questão mais dramática de sua época: o imperialismo soviético, que ameaçava o mundo. Enquanto Moscou instalava seus mísseis em Cuba e o Muro de Berlim era erguido no coração da Europa, o Papa João XXIII, no verão de 1962, através do cardeal Tisserant, concluiu um acordo com o Patriarcado de Moscou, comprometendo-se a não falar do comunismo no Concílio. A última encíclica do Papa João XXIII, Pacem in Terris, de 9 de abril de 1963, abriu as portas para uma colaboração entre católicos e comunistas. Ela foi publicada no dia seguinte à audiência pessoal concedida pelo Papa a Alexej Adjubei, diretor do “Izvestia”, mas sobretudo genro de Kruchev e seu embaixador privado. Esta reunião não levou a qualquer conclusão substancial, mas teve um impacto extraordinário na mídia. Na Itália, as eleições de 28 de abril de 1963 viram um forte avanço do Partido Comunista e um declínio igualmente significativo dos democrata-cristãos. Para os comunistas, o Papa João era o “Papa bom” e o Vaticano II era identificado como o “Concílio da Paz”. Tampouco neste caso me parece que João XXIII tenha praticado heroicamente a virtude da prudência. E, no caso das canonizações, as virtudes heróicas devem ser todas, não podendo ser escolhidas de forma seletiva.

Existem outros elementos que possam, na sua opinião, afetar a santidade do Papa João XXIII?

Em seu pontificado, o Papa João XXIII não demonstrou grande espírito sobrenatural. Lembro dois episódios.

O primeiro é a sua recusa de fazer conhecer ao mundo o Terceiro Segredo de Fátima, apesar dos pedidos de Nossa Senhora à Irmã Lúcia. João XXIII tomou conhecimento dele no verão de 1959, mas preferiu não divulgá-lo. O Papa Roncalli decidiu adiar a difusão do texto, porque havia um forte contraste entre a Mensagem apocalíptica de Fátima e o otimismo com que ele estava prestes a inaugurar o Concílio Vaticano II.

O segundo episódio é a incompreensão pela figura espiritual do Padre Pio de Pietrelcina, mais tarde beatificado e canonizado por João Paulo II. O Padre Pio sofreu no decurso de sua vida inúmeras incompreensões e calúnias, pelas quais teve que passar por investigações canônicas humilhantes. Entre elas esteve a que foi promovida pelo Papa João XXIII, quem enviou, de 13 de julho a 2 de outubro de 1960, como visitador apostólico a San Giovanni Rotondo, Mons. Carlo Maccari, então secretário do Vicariato de Roma. Esse período será lembrado como aquele da mais dura perseguição contra o santo de Pietrelcina. João XXIII nunca entendeu a santidade do Padre Pio.

O Cardeal Siri lembra de uma piada que João XXIII fez quando ele foi eleito: “Eu de questões doutrinárias não me ocuparei, porque Pio XII já fez tudo.” Segundo o senhor, ele não cumpriu esse compromisso? Neste caso, o que “mudou” de essencial na doutrina católica?

Essa piada me lembra a do Papa Francisco, segundo a qual ele jamais entendeu o termo “valores não negociáveis​​”. São frases perigosas, porque parecem acreditar num primado da praxis sobre a doutrina. João XXIII não modificou a doutrina católica, mas a prática pastoral. Porém, a modificação da praxis comporta inevitavelmente uma alteração da doutrina.

Uma prova disso é o relatório do cardeal Kasper no último Consistório extraordinário. A tese de Kasper é a de que, uma vez que no tema dos divorciados recasados existe um abismo entre a doutrina da Igreja e a prática da moral dos católicos, é necessário adaptar a doutrina ao comportamento hoje difundido.

Este princípio de adaptação da prática está resumido no discurso Gaudet Mater Ecclesiae, com o qual em 11 outubro de 1962 o Papa João XXIII abriu o Concílio Vaticano II.

Um aspecto sempre silenciado de Roncalli é, por exemplo, que apesar de progressista, ele acreditava firmemente na centralidade do latim na liturgia forjada sobre o canto gregoriano. Sua Constituição Apostólica “Veterum Sapientia” de 1962, sobre estes temas, devem agradá-lo. Então, o que aconteceu? E se, ao contrário do que repetem os “bolonheses” (grosso modo: o Concílio de Roncalli “traído”, num sentido antiprogressista, por Montini), tivesse sido o oposto? O Concílio “pacelliano” traído em seguida pelos progressistas?

Sem ser um conservador, João XXIII tinha indubitavelmente uma sensibilidade conservadora e não gostava da reforma litúrgica que Mons. Aníbal Bugnini já havia começado a promover no pontificado de Pio XII. A Constituição apostólica Veterum sapientia, de 22 de fevereiro de 1962, constitui uma firme e inesperada resposta aos promotores da introdução do vulgar na liturgia. Nesse documento João XXIII sublinhava a importância do uso do latim, “língua viva da Igreja”, recomendava que as disciplinas eclesiásticas mais importantes deveriam ser ensinadas em latim (no. 5) e que a todos os ministros da Igreja Católica, do clero tanto secular quanto regular, fosse imposto “o estudo e o uso da língua latina”. Com essas medidas João XXIII se mostrava claramente descontente com o caminho tomado pela Comissão litúrgica. Mas depois nada fez para vigiar a aplicação de tal documento, o qual se pode dizer que evaporou no ar.

Em resumo, o senhor retorna ao seu julgamento de no mínimo “imprudência” de Roncalli na abertura e na gestão do processo conciliar. No entanto, do ponto de vista histórico, deve-se notar um aspecto crucial de continuidade com um percurso já iniciado na Igreja e também conduzido pelo Papa Pio XII. É um fato que a Mystici Corporis de Pacelli é considerada a base sobre a qual ele construirá a constituição dogmática Lumen Gentium. E é um outro fato que foi a Divino Afflante Spiritu, do ano 1943, que deu impulso aos estudos histórico-críticos das Escrituras, os quais tiveram tanto papel no Vaticano II e também em certos riscos de ‘protestantização’ do catolicismo. Mesmo a reforma litúrgica que virá com a constituição conciliar Sacrosanctum Concilium foi estimulada por Pio XII, extremamente sensível, como o senhor sabe, à matéria. Então, a ‘”imprudência” de Roncalli não nasceu do nada. Então, o que aconteceu na sua opinião?

É evidente que existe uma continuidade, ou coerência, entre certas idéias já estabelecidas pelo Papa Pio XII e o ponto de partida de Roncalli. E que há continuidade no trabalho de elaboração dos “Esquemas preparatórios” do Concílio. O problema é que tudo isso se interrompe, não “depois” ou na metade do Concílio, mas imediatamente. Quando se fala de “traição” do Concílio, está dito que o que foi traído foi o Concílio preparado pela comissão romana, cujos esquemas de constituição, aprovados pelo Papa Roncalli, foram atirados ao lixo com um verdadeiro golpe de mão, em outubro de 1962, logo após a inauguração da assembléia. João XXIII foi o primeiro a trair o seu Concílio. (Maurizio Crippa em “Il Foglio” de 26-4-2014).

Fonte: Concilio Vaticano Secondo.it | Agradecemos a um gentil leitor de Fratres in Unum.com pela tradução fornecida.

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22 abril, 2014

Entrevista do Prof. Roberto de Mattei ao mensário “Catholic Family News” dos EUA.

Por Catholic Family News | Tradução: Fratres in Unum.com

Professor de Mattei, as iminentes canonizações de João XXIII e de João Paulo II suscitam, por vários motivos, dúvidas e perplexidades. Como católico e como historiador, qual é o seu juízo?

Posso exprimir uma opinião pessoal, sem pretender resolver um problema que se apresenta complexo. Estou em primeiro lugar perplexo, em linha geral, pela facilidade com a qual nos últimos anos se iniciaram e concluíram os processos de canonização. O Concílio Vaticano I definiu o primado de jurisdição do Papa e a infalibilidade de seu Magistério segundo determinadas condições, mas de nenhum modo a impecabilidade pessoal dos Soberanos Pontífices. Na história da Igreja houve bons e maus Papas e é reduzido o número daqueles elevados solenemente aos altares. Hoje tem-se a impressão de que se quer substituir o princípio da infalibilidade dos Papas por aquele de sua impecabilidade. Todos os Papas, ou melhor, todos os últimos Papas, começando com o Concílio Vaticano II, são apresentados como santos. Não é por acaso que a canonização do Papa João XXIII e de João Paulo II tenha deixado para trás a canonização de Pio IX e a beatificação de Pio XII, enquanto avança o processo de Paulo VI. Como se um halo de santidade devesse envolver a era do Concílio e do pós-Concílio, para “infalibilizar” uma época histórica que introduziu na Igreja a primazia da prática pastoral sobre a doutrina.

O senhor pensa, pelo contrário, que os recentes Papas não foram santos? 

Permita-me exprimir sobre um Papa que, como historiador, conheço melhor: João XXIII. Tendo estudado o Concílio Vaticano II, aprofundei-me em sua biografia e consultei os atos de seu processo de beatificação. Quando a Igreja canoniza um fiel, não quer apenas assegurar que o falecido está na glória do Céu, mas também o propõe como modelo de virtude heróica. Dependendo do caso, tratar-se-á de um perfeito religioso, pároco, pai de família, etc. No caso de um Papa, para ser considerado santo ele deve ter praticado virtude heróica no cumprimento de sua missão de Papa, como fizeram, por exemplo, São Pio V ou São Pio X. Bem, quanto a João XXIII, nutro a meditada convicção de que seu pontificado representou um dano objetivo para a Igreja e que, portanto, é impossível falar de santidade quanto a ele. Declarou-o antes de mim, em um célebre artigo na “Rivista di Ascetica e Mistica”, alguém que entendia de santidade, o padre dominicano Inocêncio Colosio, considerado um dos maiores historiadores da espiritualidade nos tempos modernos.

Se, como o senhor pensa, João XXIII não foi um papa santo, e se, como parece, as canonizações são um ato infalível dos pontífices, estamos diante de uma contradição. Não se corre o risco de cair no sedevacantismo?

Os sedevacantistas atribuem um caráter hipertrofiado à infalibilidade pontifícia. O raciocínio deles é simplista: se o Papa é infalível e faz algo de ruim, isso significa que a sede está vacante. A realidade é muito mais complexa e é errada a premissa de que cada ato, ou quase, do Papa é infalível. Na realidade, se as próximas canonizações apresentam problemas, o sedevacantismo coloca problemas de consciência infinitamente maiores.

No entanto, a maioria dos teólogos, e especialmente os mais seguros, os da chamada “escola romana”, sustentam a infalibilidade das canonizações…

A infalibilidade das canonizações não é um dogma de fé: é a opinião da maioria dos teólogos, especialmente depois de Bento XIV, que a expressou, além disso, como doutor privado e não como Sumo Pontífice. Quanto à “Escola Romana”, o maior expoente vivo desta escola de teologia é hoje Mons. Brunero Gherardini. E Mons. Gherardini exprimiu na revista Divinitas, dirigida por ele, todas as suas dúvidas sobre a infalibilidade das canonizações. Conheço em Roma ilustres teólogos e canonistas, discípulos de outro ilustre representante da escola romana, Mons. Antonio Piolanti, que nutrem as mesmas dúvidas de Mons. Gherardini. Eles sustentam que as canonizações não preenchem as condições exigidas pelo Concílio Vaticano I para garantir a infalibilidade de um ato pontifício. A sentença da canonização não é em si infalível, porque lhe faltam as condições da infalibilidade, a começar pelo fato de que a canonização não tem como objeto direto ou explícito uma verdade de fé ou de moral, contida na Revelação, mas apenas um fato indiretamente ligado ao dogma, sem ser propriamente um “fato dogmático”. O campo da fé e da moral é amplo, pois inclui toda a doutrina cristã, especulativa e prática, o crer e o agir humano; mas um esclarecimento é necessário: uma definição dogmática não pode jamais implicar a definição de uma nova doutrina no campo da fé e da moral. O Papa só pode explicitar aquilo que está implícito em matéria de fé e de moral e que é transmitido pela Tradição da Igreja. O que os Papas definem deve estar contido na Escritura e na Tradição e é isso que assegura a infalibilidade ao ato. Tal não é certamente o caso das canonizações. Não é por acaso  que nem o Código de Direito Canônico de 1917 e 1983, nem os Catecismos, antigos e novos, da Igreja Católica, falam da doutrina da Igreja sobre as canonizações. Quanto a este tema, além do estudo de Mons. Gherardini acima mencionado, remeto para o excelente artigo de José Antonio Ureta no número de março de 2014 da revista Catolicismo. 

Considera que as canonizações perderam seu caráter infalível após a mudança no procedimento do processo das canonizações,  desejado por João Paulo II em 1983?

Esta tese é defendida no Courrier de Rome por um grande teólogo, o padre Jean-Michel Gleize. De resto, um dos argumentos nos quais o padre Low, no verbete Canonizações da Enciclopedia cattolica, baseia sua tese da infalibilidade, é a existência de um enorme conjunto de investigações e conclusões, seguido de dois milagres, antes da canonização. Não há dúvida de que, após a reforma do processo desejada por João Paulo II em 1983, este sistema de apuração da verdade tornou-se muito mais frágil e tem havido uma mudança no próprio conceito de santidade. O argumento, no entanto, não me parece decisivo, porque o procedimento das canonizações mudou profundamente ao longo História. A proclamação da santidade de Ulrich de Augsburg pelo Papa João XV em 993, considerada como a primeira canonização papal da História, foi realizada sem qualquer investigação por parte da Santa Sé. O processo minucioso de investigação remonta principalmente a Bento XIV, a quem se deve, por exemplo, a distinção entre canonização formal – de acordo com todas as regras canônicas – e canonização equipolente (ou equivalente), quando um Servo de Deus é declarado santo em virtude de uma veneração secular. A Igreja não exige um ato formal e solene de beatificação para qualificar um santo. Santa Hildegarda de Bingen recebeu após sua morte o título de santa, e o Papa Gregório IX iniciou, no final de 1233, uma investigação com vistas à sua canonização. No entanto, nunca houve uma canonização formal. Nem mesmo Santa Catarina da Suécia, filha de Santa Brígida, nunca foi canonizada. Seu processo desenvolveu-se entre 1446 e 1489, mas nunca foi concluído. Ela era venerada como uma santa sem ter sido canonizada.

O que o senhor acha da tese de São Tomás, retomada ainda no verbete Canonizações do Dictionnaire de Théologie catholique, segunda a qual  se o Papa não fosse infalível numa declaração solene como a canonização, ele enganaria a si mesmo e à Igreja? 

Cumpre primeiro dissipar um equívoco semântico: um ato não infalível não é um ato errado, que necessariamente induz ao erro, mas apenas um ato sujeito à possibilidade de erro. Na verdade, esse erro pode ser raríssimo, ou nunca acontecer. São Tomás, como sempre equilibrado em seu julgamento, não é um infalibilista excessivo. Ele está justamente preocupado em salvaguardar a infalibilidade da Igreja e o faz com um argumento teológico negativo, a contrario. Seu argumento pode ser aceito num sentido amplo, mas admitindo a possibilidade de exceções. Concordo com ele no fato de que a Igreja no seu conjunto não pode errar quando canoniza. Isso não quer dizer que cada ato da Igreja, como um ato de canonização, seja em si necessariamente infalível. O assentimento que se dá aos atos de canonização é de fé eclesiástica, e não divina. Isso significa que o fiel acredita porque aceita o princípio segundo o qual a Igreja normalmente não erra. A exceção não exclui a regra. Um autorizado teólogo alemão, Bernhard Bartmann, em seu Manual de Teologia Dogmática (1962), compara o culto prestado a um falso santo à homenagem prestada ao falso embaixador de um rei. O erro não prejudica o princípio segundo o qual o rei tem verdadeiros embaixadores e a Igreja canoniza verdadeiros santos.

Em que sentido, então, podemos falar de infalibilidade da Igreja nas canonizações?

Estou convencido de que seria um grave erro reduzir a infalibilidade da Igreja ao Magistério extraordinário do Romano Pontífice. A Igreja não é infalível apenas quando ensina de uma forma extraordinária, mas também em seu Magistério ordinário. Mas assim como existem condições de infalibilidade para o Magistério extraordinário, existem condições de infalibilidade para o Magistério ordinário. E a primeira delas é a sua universalidade, que ocorre quando uma verdade de fé ou moral é ensinada de forma consistente ao longo do tempo. O Magistério pode ensinar infalivelmente uma doutrina por um ato definitório do Papa, ou por um ato não-definitório do Magistério ordinário, desde que esta doutrina seja constantemente mantida e transmitida pela Tradição e pelo Magistério ordinário e universal. A instrução Ad Tuendam Fidem, da Congregação para a Doutrina da Fé, em 18 de Maio de 1998 (n.º 2), confirmao. Por analogia, pode-se argumentar que a Igreja não pode errar quando confirma com constância ao longo do tempo verdades relacionadas com a fé, fatos dogmáticos, usos litúrgicos. Mesmo as canonizações podem pertencer a esse grupo de verdades afins. Pode-se ter certeza que Santa Hildegarda de Bingen está na glória dos santos e pode ser proposta como modelo, não por ter sido solenemente canonizada por um Papa, porque no seu caso nunca houve uma canonização formal, mas porque a Igreja reconheceu seu culto, sem interrupção, desde a sua morte. Com maior razão os santos para os quais tenha havido canonização formal, como São Francisco ou São Domingos, a certeza infalível da sua glória deriva do culto universal, em sentido diacrônico, que a Igreja lhes concedeu, e não pelo julgamento da canonização em si. A Igreja não erra em seu magistério universal, mas pode-se admitir um erro da autoridade eclesiástica circunscrito no tempo e no espaço.

Gostaria de resumir a sua opinião?

A canonização do Papa João XXIII é um ato solene do Soberano Pontífice, que emana da autoridade suprema da Igreja e deve ser acolhido com o devido respeito, mas não é uma declaração em si infalível. Para usar linguagem teológica, é uma doutrina não de tenenda fidei, mas de pietate fidei. Não sendo a canonização um dogma de fé, não existe para os católicos uma obrigação positiva de dar-lhe assentimento. O exercício da razão, apoiado por um exame cuidadoso dos fatos, mostra claramente que o pontificado de João XXIII não foi vantajoso para a Igreja. Se eu devesse admitir que o Papa João XXIII praticou de modo heroico a virtude desempenhando seu papel de Pontífice, minaria pela base os pressupostos racionais de minha fé. Na dúvida, atenho-me ao dogma de fé estabelecido pelo Concílio Vaticano I, segundo o qual não pode haver contradição entre fé e razão. A fé transcende a razão e a eleva, mas não a contradiz, porque Deus, a Verdade por essência, não é contraditório. Em consciência, creio que posso manter todas as minhas reservas sobre este ato de canonização.

5 março, 2014

A polêmica intervenção de Kasper no Consistório. Roberto de Mattei responde. Aumenta a divisão no Colégio Cardinalício.

Kasper muda o paradigma. Bergoglio aplaude

IHU – O texto da conferência-bomba que abriu o Consistório sobre a família já não é um segredo. Indica dois caminhos para readmitir à comunhão os divorciados recasados, seguindo o exemplo da Igreja antiga.

Fonte: http://bit.ly/1eIQkCu

A reportagem é de Sandro Magister e publicada no sítioChiesa, 01-03-2014. A tradução é de André Langer.

A conferência introdutória do cardeal Walter Kasper no Consistório da semana passada já não está fechada a sete chaves. Tornou-a pública, com um furo jornalístico magistral, o jornal italiano Il Foglio, dirigido por Giuliano Ferrara, que se antecipou em muito à saída da mesma conferência em forma de livro, pela editora Queriniana.

Mas, que esta conferência tivesse que ser mantida em segredo é um contrassenso, depois das palavras com que oPapa Francisco a elogiou, no dia 21 de fevereiro, ao final dos dois dias do Consistório dedicados à questão da família.

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17 fevereiro, 2014

Padre Livio demite Roberto de Mattei da Rádio Maria. “Não peca aquele que, com a devida reverência, destaca as deficiências da hierarquia eclesiástica. Por outro lado, pecam os omissos, por covardia ou conformismo”.

Depois de Mario Palmaro e Alessandro Gnochi, o cajado da cultura do diálogo e do encontro da Rádio Maria golpeia o Prof. Roberto de Mattei.

Por Corrispondenza Romana | Tradução: Fratres in Unum.com – Em 13 de fevereiro, Padre Livio Fanzaga, diretor da Rádio Maria, encerrou o programa “Raízes Cristãs”, que o prof. Roberto de Mattei conduzia desde 17 de fevereiro de 2010, toda terceira quarta-feira do mês, na Rádio Maria. O motivo para a medida foi o artigo do próprio de Mattei 2013-2014: Motus in fine velocior, publicado no sitio Corrispondenza Romana, em 12 de fevereiro. Segue abaixo a correspondência entre o padre Livio e Roberto de Mattei [negritos do Fratres].

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13 de fevereiro de 2014 – Padre Livio Fanzaga ao Prof. Roberto de Mattei

Caro Professor Roberto De Mattei,

Padre Livio Fanzaga

Padre Livio Fanzaga

Li seu artigo recente “Motus in fine velocior” e percebi como o senhor tem enfatizado cada vez mais a sua posição crítica em relação ao pontificado do Papa Francisco. Estou muito triste e desejaria que o senhor colocasse a sua grande formação cultural a serviço do Sucessor de Pedro.

Meu caro Professor, o senhor compreende que esta posição é incompatível com a sua presença na Rádio Maria, que prevê, em seus princípios norteadores, adesão não só ao Magistério da Igreja, mas também de apoio ao trabalho pastoral do Sumo Pontífice.

Com pesar e por dever de consciência, tenho que suspender seu programa mensal, ao mesmo tempo em que o cumprimento, em nome dos ouvintes, por seus esforços, em caráter voluntário, na pesquisa das raízes cristãs da Europa.

Caro Professor, se o senhor modificar a sua atitude para com o pontificado e esta se tornar mais positiva, não haverá dificuldades para o senhor retomar o seu programa.

Cordialmente

Padre Livio Fanzaga (diretor)

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13 de fevereiro de 2014 – Roberto de Mattei ao Pe. Livio Fanzaga

Caro Padre Livio,

Conforme o seu e-mail de 13 de Fevereiro, o senhor me comunica a sua decisão de suspender a transmissão do programa “Raízes Cristãs” na Rádio Maria, porque eu estaria “enfatizando cada vez mais a minha posição crítica em relação ao pontificado do Papa Francisco”. “Sua posição – o senhor escreve – é incompatível com a presença na Rádio Maria, que prevê, em seus princípios norteadores, adesão não só ao Magistério da Igreja, mas também de apoio ao trabalho pastoral do Sumo Pontífice.”

Primeiramente, obrigado pelo convite que o senhor me fez, há quatro anos, para conduzir o programa “Raízes Cristãs” na Rádio Maria. Desde então até o último dia 15 de janeiro, toda terceira quarta-feira do mês, tentei fazer o melhor que pude, desenvolvendo temas em defesa histórica, apologética, moral e espiritual da Igreja e da Civilização Cristã. Agradeço também ao senhor por ter me defendido publicamente, quando, devido a alguns programas, fui violentamente atacado pela imprensa secular. Todas as minhas atividades e meu ministério têm sido e continua sendo a serviço da Igreja e do Romano Pontífice, a quem dediquei meu último volume Vigário de Cristo. O Papado entre normalidade e exceção. A devoção ao Papado é uma parte essencial da minha vida espiritual.

No entanto, a doutrina católica nos ensina que o Papa é infalível apenas sob algumas condições, e ele pode cometer erros, como, por exemplo, no domínio da política eclesiástica, escolhas estratégicas e até mesmo a ação pastoral do Magistério ordinário. Nesse caso, não é pecado, mas dever de consciência para um católico fazer essas observações, desde que o faça com todo o respeito e amor que é devido ao Sumo Pontífice. Assim fizeram os santos, que devem ser o nosso modelo de vida.

A Igreja permite essa liberdade de crítica aos seus filhos e que não peca aquele que, com a devida reverência, destaca as deficiências da hierarquia eclesiástica. Por outro lado, pecam os omissos, por covardia ou conformismo. O drama da Igreja de hoje encontra-se no medo de padres e bispos, que formam a pars electa da Igreja, de denunciar a terrível crise em ato, de chegar às causas e de propor soluções.

Reli o artigo, que é a razão da minha saída, e não creio que haja nada desrespeitoso para com o Pontífice reinante, mas apenas algumas considerações históricas, e não teológicas, motivadas pelo puro amor à Verdade. Também não expliquei as minhas preocupações sobre a situação atual da Igreja no meu programa mensal da Rádio Maria, mas sim em uma agência de notícias sob a minha direção.

Caro Padre Livio, o senhor tem total liberdade para me retirar de sua emissora, mas teria sido melhor se o senhor o tivesse feito sem motivos, ao invés de indicar um motivo tão fraco, e – se o senhor me permite – improcedente. Ela não se sairá bem desse incidente e lamento-o sinceramente. O movimento dos eventos está ficando mais rápido e mais cedo ou mais tarde o senhor também vai se envolver no vórtice, assim como a Rádio Maria, forçando-a a assumir, de uma forma ou de outra, as posições que o senhor pode estar se esquivando de tomar por ilusão. No entanto, virão momentos em que o senhor terá que tomar partido. Quanto a mim, vou continuar exercendo a minha liberdade de cristão, a fim de defender a fé que recebi no meu batismo, e que é o meu bem mais precioso. Que o Espírito Santo me ajude a nunca ceder a qualquer pressão ou bajulação, nunca deixar de dizer a verdade e dizê-la tanto mais forte quanto maior for o silêncio daqueles que devem dizê-la.

Com devota deferência

Roberto de Mattei

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14 de fevereiro de 2014 – Padre Livio Fanzaga a Roberto de Mattei

Caro Professor,

Agradeço sua resposta serena. Seu artigo foi apontado com preocupação por alguns ouvintes. Algumas decisões são tomadas com sofrimento. Tenho a firme convicção de que a Igreja pode sair dos labores hoje seguindo Nossa Senhora e o Papa.  Como Bento XVI nos ensina, mais do que nunca é hora de rezarmos.

Com estima, Padre Livio

14 dezembro, 2013

Roberto de Mattei no Brasil e o fim do tabu sobre o Vaticano II.

Apresentamos a seguir algumas anotações das conferências proferidas pelo Professor Roberto de Mattei em sua jornada por algumas capitais brasileiras.

ALGUNS TÓPICOS DAS CONFERÊNCIAS

“Os documentos não são tudo!”

“E hoje ainda não saímos da Revolução Francesa. Diria ainda mais: me parece que a essência do Vaticano II está precisamente na tentativa de conciliar a Igreja com o mundo moderno nascido na Revolução Francesa, o mundo que a Igreja sempre havia combatido e que hoje deixou de combater. A herança mais pesada que o Concílio nos deixou é, na minha opinião, a perda do espírito militante na Igreja.”

“A Tradição não é apenas a regra fidei da Igreja; é também o fundamento da sociedade. É o critério de juízo sobre a História dessa mesma sociedade.”

“Não se pode sujeitar a verdade divina e imutável aos fatos ou aos eventos, por mais avassaladores e epocais que estes sejam. É a verdade que deve julgar os fatos e a História. A História, por seu lado, serve para nos recordar que o que aconteceu ontem pode se repetir hoje. Que ontem, como hoje e amanhã, nos tempos de crises e dificuldades há sempre uma, e só uma, regra da fé. O critério para discernir o que é católico e o que não é: a fidelidade à Tradição, que é a fidelidade às verdades entregues por Cristo à sua Igreja com essas palavras: ‘O Céu e a Terra passarão, as minhas palavras não passarão’”.

PERGUNTAS E RESPOSTAS

Reforma Litúrgica de 1969

“Eu não vejo bem como se pode aplicar o conceito de hermenêutica da continuidade tendo em vista que a reforma litúrgica foi uma descontinuidade com a tradição litúrgica da Igreja.”

“A essência histórica do Concílio Vaticano II é uma essência revolucionária.”

Sobre a Hermenêutica da Continuidade

“Queria chamar a atenção para o último discurso que o papa Bento XVI fez no dia 14 de fevereiro, alguns dias depois da sua renúncia ao clero romano. Esse discurso é a confissão do fracasso da hermenêutica da continuidade. Nesse discurso Bento XVI admite a crise na Igreja, mas afirma que a causa é a substituição de um Concílio real pelo Concílio virtual (da mídia). O concílio virtual teria ganhado. O problema é que o Concílio virtual é uma realidade tão real quanto o Concílio propriamente com união dos bispos. E isso Sua Santidade parece não reconhecer. Penso que uma das causas da sua renúncia é esse fracasso da hermenêutica da continuidade, portanto, uma consequência desse fracasso.”

“Não me interesso pela questão hermenêutica [de continuidade ou ruptura]; interesso-me pela ‘hermenêutica dos fatos’. Não sigo a hermenêutica da continuidade e não creio que o Papa Francisco a siga”.

Sobre o Papa Francisco

“O Papa Francisco está envolto por uma aura de mistério e o primeiro mistério é a renúncia do papa Bento XVI; o segundo mistério é o que aconteceu dentro do Conclave. Tem-se um pouco a impressão que aconteceu algo de misterioso no Conclave.”

“O problema não é ele não ser romano [de nascimento], mas não ter o espírito romano. O Papa Bento XVI não seguia a escola romana [de teologia], era de outra escola. Questiono, sem ironia, a que escola o Papa Francisco pertence, se é que ele pertence a alguma.”.

Sobre a reforma da cúria

“A reforma de Francisco é diferente da de Paulo VI. Paulo VI substituía conservadores por progressistas. Francisco não quer nem conservadores nem progressistas”.

Sobre os frutos positivos do Vaticano II

“Não me parece interessante saber se há elementos positivos ou negativos no Concílio, porque como o juízo sobre o Concilio é globalmente negativo, se houver elementos positivos, isso o torna mais perigoso. Ressalvo que este se trata de um juízo histórico e global sobre o Concílio.”

Sobre o documento Sacrossantum Concilium

“Esse documento já abre uma brecha, porque confere às Conferencias Episcopais e, em alguns casos, a possibilidade de mudar a língua latina pelo vernáculo. O que aconteceu depois foi certamente muito além do que está no documento, mas penso que as ideias têm uma lógica férrea e já a Sacrossantum Concilium contém alguns efeitos que veríamos depois. Do ponto de vista teológico, o momento de descontinuidade é a promulgação do documento Missale Romano, em 1969, introduzindo completamente a Missa Nova, mas do ponto de vista histórico e psicológico, o momento de ruptura ocorre anos 1965 e 1966, quando, em alguns países, como a Itália, se introduz a missa ordinária em vernáculo.”

A caixa de comentários está aberta aos leitores que desejem acrescentar outras notas sobre aspectos marcantes das conferências.

* * *

CONFERÊNCIA NO RIO DE JANEIRO:

PERGUNTAS E RESPOSTAS NO RIO DE JANEIRO:

Os organizadores estimam que a última conferência, na cidade de São Paulo, contou coma presença de 500 pessoas, contando inclusive com a participação de diversos clérigos devidamente identificados. Roberto de Mattei destacou a sua surpresa e contentamento pela juventude católica bem formada e pujante que encontrou no Brasil. 

10 dezembro, 2013

Professor Roberto de Mattei no Rio de Janeiro: uma perspectiva histórica sobre o Concílio Vaticano II.

“Sem o Vaticano II não conseguimos compreender o Papa Francisco; não conseguimos compreender a crise atual na Igreja. Essa crise existe, está diante dos nossos olhos e não tem precedentes na História; ela é uma crise que a todos nos diz respeito como homens e como cristãos.”

Por Fratres in Unum.com –  Realizou-se na tarde do último domingo, dia 8, no Rio de Janeiro, a tão aguardada conferência do Professor Roberto de Mattei. O salão de conferências do Hotel Flórida ficou repleto e os organizadores estimam que cerca de duzentas pessoas estiveram presentes para prestigiar o renomado historiador e professor titular de História da Igreja e do Cristianismo na Universidade Europeia de Roma.

Professor Roberto de Mattei no Rio de Janeiro: evento contou com cerca de 200 assistentes.

Professor Roberto de Mattei no Rio de Janeiro: evento contou com cerca de 200 assistentes.

Após a apresentação dos componentes da mesa pelo Sr. Mario Dias de Oliveira, Presidente do Instituto Vera Fides, teve inicio pontualmente às 16:30h a palestra do Prof. Roberto de Mattei, que foi proferida em língua portuguesa, para admiração dos presentes. Durante mais de uma hora, Roberto de Mattei falou interruptamente com suma clareza e objetividade sobre o evento mais marcante para a Igreja Católica no último século.

Inicialmente, de Mattei abordou a finalidade dos Concílios em geral — confirmar uma doutrina ou corrigir um erro, ainda que eles não fossem privados da dimensão pastoral. Ao contrário dos anteriores, o Concílio Vaticano II [1] preferiu expressar-se da maneira “pastoral”, adaptando sua linguagem ao homem moderno, priorizando, assim, esta dimensão em relação àquela doutrinal. Consequentemente, o Concílio deixou de condenar problemas gravíssimos, como, por exemplo, o comunismo. João XXIII já preconizava essa postura na abertura da Assembléia: “Agora, porém, a esposa de Cristo prefere usar mais o remédio da misericórdia do que o da severidade. Julga satisfazer melhor às necessidades de hoje mostrando a validez da sua doutrina do que renovando condenações”.

Sucesso de público: cadeiras tiveram que ser adicionadas e o espaço ficou pequeno.

Sucesso de público: cadeiras tiveram que ser adicionadas e o espaço ficou pequeno.

De Mattei, então, discorreu sobre o esforço de padres conciliares conservadores a fim de pedir ao Santo Padre que o Concílio condenasse explicitamente o Comunismo. Essa iniciativa contou com o trabalho de um pequeno grupo constituído especialmente por Dom Antonio de Castro Mayer, bispo de Campos, Dom Geraldo de Proença Sigaud, bispo de Diamantina e pelo Prof. Plínio Correa de Oliveira, que consultaram centenas de Padres Conciliares sobre a oportunidade do Concílio se pronunciar contra a ideologia que dizimou milhões de homens no século passado. A essa iniciativa somou-se outra correlata, que pedia a consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria. Ambas não lograram êxito. De Mattei discorreu também sobre as evidências de um acordo (o Pacto de Metz) [2] entre Roma e a Igreja Ortodoxa, segundo o qual o Concílio se absteria de condenar o comunismo em troca da participação de observadores do Patriarcado de Moscou.

Em seguida, foram abordadas questões como, por exemplo, a infiltração do comunismo nas estruturas a Igreja e o apoio de prelados vermelhos, como Dom Helder Câmara.

O professor explanou sobre o jogo de forças entre os dois grupos principais: progressistas – sobretudo de língua alemã — e conservadores, e o que ele chamou de Terceiro Partido, um grupo de Padres Conciliares sem muitas pretensões ideológicas e que se deixavam guiar pelo lobby dos dois anteriores.

Como ponto de destaque, o professor de Mattei salientou que o Concílio Vaticano II não pode ser visto apenas como aquilo que está escrito em seus documentos, mas sim como um evento global, que abrange diversos aspectos, incluindo suas consequências. Para exemplificar, ele falou da Revolução Francesa, comentando que “não é preciso que se leia ou se tenha conhecimento dos estatutos e documentos que a ensejaram; todos sabem o que a Revolução Francesa realmente significou, a julgar por seus frutos.” Pois bem, assim é o Concílio. Não se pode restringi-lo apenas aos seus documentos.

O professor deixou claro que sua análise do Concílio era sob o ponto de vista histórico, e que a ele não competia analisar o valor intrínseco de seus documentos, que deveriam ser analisados por teólogos e pela própria Igreja, em caráter dogmático.

Como uma das consequências mais prejudiciais do Vaticano II, o professor citou a substituição do conceito de “Igreja Militante” pelo de “Igreja Peregrina”. No início da palestra, citando o Padre O’Malley, ele comentou sobre o estilo dos documentos conciliares, que seria uma revolução na linguagem dos documentos da Igreja. A omissão ou limitação de referências ao Inferno, mesmo sem ser uma heresia, pode levar a caminhos graves, ou seja, a ideia de que ele não existe porque não se fala dele.

Uma longa fila formou-se para o autógrafo.

Uma longa fila formou-se para o autógrafo.

Após um pequeno intervalo, houve uma sessão de perguntas e respostas. O professor de Mattei respondeu a todas com muita clareza e simplicidade, ainda que fossem polêmicas ou delicadas. Uma das perguntas versava sobre a declaração do então Papa Bento XVI ao clero de Roma, a qual reclamava a existência de um Concílio Real e um Concílio da Mídia. O professor de Mattei respondeu que até se pode falar de um Concílio da Mídia [inventado pelos meios de comunicação], mas que este está também incluído dentro do único Concílio – o Concílio Real -, que deve ser analisado como um evento global.

A pedido do próprio Prof. de Mattei, as respostas foram dadas em italiano para melhor clareza e gentilmente traduzidas para o português pelo Dr. Mario Navarro da Costa, diretor de campanhas do IPCO, que atuou como intérprete para as perguntas e respostas.

O evento marcou ainda o lançamento do livro “Apologia da Tradição, um post-scriptum do livro Concílio Vaticano II – Uma História Nunca Escrita”, da Editora Ambientes & Costumes. Ao final dessa sessão, seis participantes foram sorteados com livros do autor, que foram entregues por cada um dos organizadores que compuseram a mesa.

Ao final, uma longa fila se formou para que todos pudessem ter seus livros autografados e cumprimentar pessoalmente o ilustre palestrante. Enquanto isso, os demais participantes puderam desfrutar de um café oferecido pelos organizadores e, assim, trocar ideias sobre a excelente conferência.

Da esquerda para a direita: Sra. Teresa Maria Freixinho (Fratres in Unum), Sr. Rodolpho Loreto (Instituto Vera Fides), S.A.I.R. Dom Antônio de Orleans e Bragança, Sr. Márcio Coutinho (Ação Jovem pela Terra de Santa Cruz) e o Sr. Mario Dias de Oliveira (Presidente do Instituto Vera Fides e Mestre de Cerimônias do Evento).

Da esquerda para a direita: Sra. Teresa Maria Freixinho (Fratres in Unum), Sr. Rodolpho Loreto (Instituto Vera Fides), S.A.I.R. Dom Antônio de Orleans e Bragança, Sr. Márcio Coutinho (Ação Jovem pela Terra de Santa Cruz) e o Sr. Mario Dias de Oliveira (Presidente do Instituto Vera Fides e Mestre de Cerimônias do Evento).

Agradecemos a todos os leitores do Fratres in Unum que participaram do evento no Rio de Janeiro e deixamos a caixa de comentários aberta a estes e também àqueles que estiveram ontem na palestra no Recife, para nos relatem suas impressões. Lembrando ainda que, conforme noticiamos anteriormente, hoje a palestra será em Brasília e na quinta-feira em São Paulo.

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[1] O Concílio Vaticano II se realizou em Roma, de 11 de outubro de 1962 a 8 de dezembro de 1965 e contou a participação de 2.500 Padres Conciliares sob a orientação dos papas João XXIII e Paulo VI. Ele foi o vigésimo primeiro Concílio da Igreja.

[2] Este acordo se deu na cidade francesa de Metz, em agosto de 1962, e seus negociadores foram o Cardeal Tisserant, representando o Vaticano, e o arcebispo ortodoxo Nicodemo, que, conforme comprovado por documentação dos arquivos de Moscou, era um agente do KGB.

4 dezembro, 2013

Roberto de Mattei no Brasil – últimos dias para inscrição.

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Temos a grata satisfação de convidá-lo(a), bem como a seus familiares e amigos, a participar da conferência do renomado historiador italiano, Prof. Roberto de Mattei, na segunda semana de dezembro de 2013, entre os dias 8 e 15, sobre os bastidores do Concílio Vaticano II.

O evento realizar-se-á nas seguintes cidades:

8 de dezembro – Rio de Janeiro – no Windsor F lórida Hotel, na Rua Ferreira Viana, 81 – bairro Flamengo. Faça já sua inscrição

9 de dezembro – Recife – Pernambuco, no auditório do Círculo Católico de Recife – Rua Riachuelo, 105 – 10 º andar. Faça já sua inscrição

10 de dezembro – Brasília – Lançamento do livro, na Livraria Cultura. Clique aqui e faça sua reserva

12 de dezembro – São Paulo – Conferência no Club Homs, Av. Paulista, 735 . Clique aqui e faça sua inscrição.

Escolha sua cidade e Faça já sua inscrição. No dia da conferência haverá, para os participantes, sorteio dos livros: O Concílio Vaticano II – uma história nunca escrita e Apologia da Tradição.  (Para maiores informações clique aqui).

* * *

A Editora Ambientes e Costumes, atendendo a pedidos dos leitores de Fratres in Unum que não poderão comparecer às conferências, muito gentilmente, obterá a dedicatória do Prof. de Mattei nos livros adquiridos nesta semana através de sua loja virtual.

27 novembro, 2013

Roberto de Mattei em Brasília – 10 de dezembro. Faça sua inscrição!

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Clique na imagem para se inscrever.

12 novembro, 2013

Roberto de Mattei em Recife – 9 de dezembro. Faça sua inscrição!

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Inscrições aqui.