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6 setembro, 2019

Dom Athanasius Schneider: o Vaticano está traindo ‘Jesus Cristo como o único Salvador da humanidade’.

Por LifeSiteNews, Roma, 26 de agosto de 2019 | Tradução: Hélio Dias Vian – FratresInUnum.com – A decisão do Vaticano de implementar um documento afirmando que a “diversidade de religiões” é “desejada por Deus”, sem corrigir esta declaração, equivale a “promover a negligência do primeiro mandamento” e a uma “traição ao Evangelho”, disse Dom Athanasius Schneider.

Bishop Athanasius Schneider

Em entrevista exclusiva ao LifeSiteNews sobre uma iniciativa apoiada pelo Vaticano para promover o “Documento sobre Fraternidade Humana pela Paz Mundial e Viver Juntos”, o  Bispo-auxiliar de Astana, no Cazaquistão, disse que “por mais nobres que possam ser os objetivos de ‘fraternidade humana’ e ‘paz mundial’, elas não podem ser promovidas à custa de relativizar a verdade da unicidade de Jesus Cristo e Sua Igreja”.

A divulgação desse documento nesta forma incorreta “paralisará a missão ad gentes da Igreja” e “sufocará seu zelo ardente de evangelizar todos os homens”, disse Dom Schneider. E acrescentou: “As tentativas de paz estão fadadas ao fracasso se não forem propostas em nome de Jesus Cristo”.

Um “Comitê Superior”

Na semana passada, o Vaticano anunciou que havia sido estabelecido nos Emirados Árabes Unidos um “Comitê Superior” de várias religiões para implementar o “Documento sobre Fraternidade Humana pela Paz Mundial e Viver Juntos”, assinado pelo Papa Francisco em 4 de fevereiro de 2019, em Abu Dhabi, juntamente com Ahmad el-Tayeb, grão-imã al-Azhar, durante uma visita apostólica de três dias à Península Arábica.

Os membros da comissão de sete membros (católicos e muçulmanos) incluem o secretário pessoal do Papa Francisco, Pe. Yoannis Lahzi Gaid, e o presidente do Conselho Pontifício para o Diálogo Interreligioso, arcebispo Miguel Angel Ayuso Giuxot.

Em comunicado divulgado na segunda-feira, 26 de agosto, o porta-voz do Vaticano, Matteo Bruni, disse que o Papa Francisco “encoraja os esforços do Comitê para difundir o conhecimento do Documento; agradece aos Emirados Árabes Unidos pelo compromisso concreto demonstrado em nome da fraternidade humana e expressa a esperança de que iniciativas semelhantes possam surgir em todo o mundo”.

Documento controvertido

O documento de Abu Dhabi gerou polêmica ao afirmar que “o pluralismo e a diversidade” de religiões são “desejados por Deus”.

A passagem que suscita controvérsia diz:

“A liberdade é um direito de toda pessoa: todo indivíduo desfruta da liberdade de crença, pensamento, expressão e ação. O pluralismo e a diversidade de religiões, cor, sexo, raça e linguagem são desejados por Deus em Sua sabedoria, através da qual Ele criou seres humanos. Essa sabedoria divina é a fonte da qual deriva o direito à liberdade de crença e a liberdade de ser diferente. Portanto, o fato de as pessoas serem forçadas a aderir a uma determinada religião ou cultura deve ser rejeitado, assim como a imposição de um modo de vida cultural que outras pessoas não aceitam.”

Em 1º de março de 2019, durante uma visita ad limina dos bispos da Ásia Central a Roma, Dom Schneider, cuja diocese está localizada em uma nação predominantemente muçulmana, expressou preocupação com essa formulação ao Papa Francisco. O Papa disse que a frase em questão sobre a “diversidade de religiões” significava “a vontade permissiva de Deus”, e deu permissão explícita a Dom Schneider e aos outros bispos presentes para citar suas palavras.

Dom Schneider, por sua vez, pediu ao Papa que esclarecesse a declaração de maneira oficial.

O Papa Francisco apareceu para oferecer um esclarecimento informal em sua audiência geral de quarta-feira, 3 de abril de 2019, mas nenhum esclarecimento ou correção oficial ao texto foi dado até o momento.

Nesta entrevista exclusiva, Dom Schneider revela novos detalhes sobre sua interlocução direta com o Santo Padre na reunião de 1º de março. Ele também discute suas opiniões sobre o esclarecimento informal do Papa na audiência geral de 3 de abril e a gravidade do estabelecimento de um “Comitê Superior” para implementar o documento de Abu Dhabi na ausência de uma correção oficial da passagem controversa.

Segundo Dom Schneider, ao impulsionar o documento de Abu Dhabi sem corrigir sua afirmação errônea sobre a diversidade das religiões, “os homens da Igreja não apenas traem Jesus Cristo como o único Salvador da humanidade e a necessidade de Sua Igreja para a salvação eterna, mas também cometem uma grande injustiça e pecam contra o amor ao próximo”.

Aqui está nossa entrevista completa com o bispo Athanasius Schneider.

Excelência, o esclarecimento do Papa Francisco sobre o documento de Abu Dhabi na audiência geral de na quarta-feira, 3 de abril de 2019, foi suficiente na sua opinião? E quais são seus pensamentos sobre os comentários dele?

– Na audiência geral de quarta-feira, 3 de abril de 2019, o Papa Francisco falou estas palavras: “Por que Deus permite muitas religiões? Deus queria permitir isso: os teólogos escolásticos costumavam se referir às voluntas permissiva [vontade permissiva] de Deus. Ele queria permitir esta realidade: existem muitas religiões.”

Infelizmente, o Papa não fez nenhuma referência à frase objetivamente errônea do documento de Abu Dhabi, que diz: “O pluralismo e a diversidade de religiões, cor, sexo, raça e linguagem são desejados por Deus em sua sabedoria.” Essa frase é errônea e contradiz a Revelação Divina, já que Deus nos revelou que Ele não deseja diversas religiões, mas apenas a religião ordenada por Ele no Primeiro Mandamento do Decálogo: “Eu sou o Senhor, teu Deus, que te trouxe para fora da terra do Egito, da casa da escravidão. Não terás outros deuses diante de mim. Não deves fazer para ti uma imagem esculpida, ou qualquer semelhança de qualquer coisa que esteja acima no céu, ou que esteja abaixo na terra, ou que esteja na água debaixo da terra. Não deves curvar-te a eles ou servi-los” (Êx 20: 2-5). Nosso Senhor Jesus Cristo confirmou a validade perene desse mandamento, dizendo: “Está escrito: ‘Adorarás o Senhor teu Deus, e servirás somente a Ele’ (Mt 4:10). As palavras “Senhor” e “Deus”, expressas no primeiro mandamento, significam a Santíssima Trindade, que é o único Senhor e o único Deus. Portanto, o que Deus deseja positivamente é que todos os homens devam cultuar e adorar somente a Deus, o Pai, o Filho e o Espírito Santo, o único Senhor e Deus. O Catecismo da Igreja Católica ensina: “Como eles expressam os deveres fundamentais do homem em relação a Deus e ao próximo, os Dez Mandamentos revelam, em seu conteúdo primordial, graves obrigações. Eles são fundamentalmente imutáveis ​​e obrigam sempre e em qualquer lugar. Ninguém pode dispensar deles” (n.  2072).

As declarações do Papa Francisco na audiência geral de quarta-feira, 3 de abril de 2019, são um pequeno passo na direção de um esclarecimento da frase errônea encontrada no documento de Abu Dhabi. No entanto, permanecem insuficientes, porquanto não se referem diretamente ao documento e porque o católico comum e quase todos os não católicos nem conhecem ou compreendem o significado da expressão teologicamente técnica “vontade permissiva de Deus”.

Do ponto de vista pastoral, é altamente irresponsável deixar os fiéis de toda a Igreja em incerteza numa questão tão vital como a validade do primeiro Mandamento do Decálogo e a obrigação divina de todos os homens de acreditar e adorar, com seu livre arbítrio, em Jesus Cristo como o único Salvador da humanidade. Quando Deus ordenou a todos os homens “Este é o meu Filho amado, com quem me comprazo; ouça-o!” (Mt 17: 5) e quando, consequentemente, em Seu julgamento, Ele “infligirá vingança àqueles que não obedecem ao evangelho de Nosso Senhor Jesus” (2 Ts 1: 8), como pode Ele ao mesmo tempo considerar positivamente a diversidade das religiões? As palavras inequívocas reveladas por Deus são inconciliáveis com a frase contida no documento de Abu Dhabi. Afirmar o contrário significaria formar um círculo ou adotar a mentalidade do gnosticismo ou do hegelianismo.

Não se pode justificar a teoria de que a diversidade de religiões seja positivamente desejada por Deus acrescentando a verdade do depósito da fé em relação ao livre arbítrio como um presente de Deus, o Criador. Deus concedeu o livre arbítrio ao homem precisamente para que ele possa adorar somente a Deus, que é o Deus Trino. Deus não deu ao homem o livre arbítrio para adorar ídolos, ou negar ou blasfemar Seu Filho Encarnado Jesus Cristo, que disse: “Quem não crê já está condenado, porque não crê no nome do único Filho de Deus” (Jo 3:18).

Após a sua interlocução com o Papa Francisco em 1º de março, durante a visita ad limina a Roma, Vossa Excelência teve mais alguma comunicação com ele sobre suas preocupações? Em caso afirmativo, foi antes ou depois da audiência geral de na quarta-feira, 3 de abril de 2019?

– Durante a audiência de 1º de março de 2019, por ocasião da visita ad limina, dirigi-me ao Papa Francisco, na presença dos bispos de nosso grupo, com estas palavras:

 “Santíssimo Padre, na presença de Deus, imploro a Vossa Santidade em nome de Jesus Cristo que nos julgará, a retratar-se dessa declaração do documento inter-religioso de Abu Dhabi, que relativiza a singularidade da fé em Jesus Cristo. Caso contrário, a Igreja em nossos dias não será objetiva sobre a verdade do Evangelho, como o apóstolo Paulo disse a Pedro em Antioquia (ver Gálatas 2:14). ”

O Santo Padre respondeu imediatamente, dizendo que é preciso explicar a frase no documento de Abu Dhabi referente à diversidade das religiões no sentido da “vontade permissiva de Deus”. Ao que respondi: “Visto que essa frase enumera indiscriminadamente os objetos da vontade sábia de Deus, colocando-os logicamente no mesmo nível, a diversidade dos sexos masculino e feminino deve também ser desejada pela vontade permissiva de Deus, o que significa que Ele tolera essa diversidade, assim como pode tolerar a diversidade de religiões.”

O Papa Francisco admitiu então que a frase poderia ser mal interpretada e disse: “Mas você pode dizer às pessoas que a diversidade de religiões corresponde à vontade permissiva de Deus.” Ao que respondi: “Santo Padre, por favor, diga isso a toda a Igreja.” Deixei meu pedido verbal com o Papa também na forma escrita.

O Papa Francisco respondeu-me gentilmente com uma carta datada de 5 de março de 2019, na qual repetiu suas palavras da audiência de 1º de março de 2019. Ele disse que é preciso entender a frase aplicando o princípio da vontade permissiva de Deus. Também observou que o documento de Abu Dhabi não pretende igualar a vontade de Deus em criar diferenças de cor e sexo com as diferenças de religião.

Com uma carta datada de 25 de março de 2019, respondi à carta do Papa Francisco de 5 de março de 2019, agradecendo-lhe por sua gentileza e pedindo-lhe com franqueza fraterna que publicasse, pessoalmente ou através de um Dicastério da Santa Sé, uma nota de esclarecimento repetindo a substância do que ele disse na audiência de 1º de março de 2019 e em sua carta de 5 de março de 2019. Adicionei estas palavras: “Publicando tais palavras, Vossa Santidade terá a ocasião auspiciosa e abençoada, em um momento histórico difícil da humanidade e da Igreja, de confessar Cristo, o Filho de Deus.”

Devo também dizer que o Papa Francisco enviou-me um cartão, datado de 7 de abril de 2019. Ele anexou uma cópia de seu discurso na audiência geral de quarta-feira, 3 de abril de 2019, e sublinhou a seção referente à vontade permissiva de Deus. É claro que sou grato ao Santo Padre por esta amável atenção.

O Documento sobre “Fraternidade Humana pela Paz Mundial e Viver Juntos” não foi oficialmente emendado ou corrigido, e ainda assim foi estabelecido um “Comitê Superior” para implementá-lo. Na segunda-feira, 26 de agosto de 2019, a Sala de Imprensa da Santa Sé divulgou uma declaração informando que o Papa Francisco ficou satisfeito ao saber da formação de um “Comitê Superior” para alcançar as metas contidas no documento. De acordo com a declaração, o Papa Francisco disse a seu respeito: “Embora, infelizmente, o mal, o ódio e a divisão façam notícia, há um mar oculto de bondade que está crescendo e nos leva à esperança no diálogo, no conhecimento recíproco e na possibilidade de construir, junto com os seguidores de outras religiões e todos os homens e mulheres de boa vontade, um mundo de fraternidade e paz.” Excelência, qual é a gravidade deste problema?

O problema é da maior gravidade, porque, sob a frase retoricamente bela e intelectualmente sedutora de “fraternidade humana”, os homens da Igreja estão de fato promovendo hoje a negligência do primeiro Mandamento do Decálogo e a traição do âmago do Evangelho. Por mais nobres que sejam os objetivos de “fraternidade humana” e “paz mundial”, eles não podem ser promovidos à custa de relativizar a verdade da singularidade de Jesus Cristo e de Sua Igreja e de minar o primeiro Mandamento do Decálogo.

O documento de Abu Dhabi sobre “Fraternidade Humana pela Paz Mundial e Viver Juntos” e o “Comitê Superior” encarregado de implementá-lo são como um bolo lindamente decorado que contém uma substância nociva. Cedo ou tarde, quase sem perceber, enfraquecerá o sistema imunológico do corpo.

O estabelecimento do “Comitê Superior” acima mencionado, encarregado de implementar em todos os níveis, entre outros bons objetivos o princípio supostamente divinamente desejado da “diversidade de religiões”, na verdade paralisa a missão ad gentes da Igreja, sufoca o zelo ardente de evangelizar todos os homens – é claro que com amor e respeito –, e dá a impressão de que a Igreja hoje está dizendo: “Tenho vergonha do Evangelho”; “Tenho vergonha de evangelizar”; “Tenho vergonha de trazer a luz do Evangelho a todos que ainda não creem em Cristo”. É o contrário do que disse São Paulo, Apóstolo dos gentios. Ele, pelo contrário, declarou: “Não tenho vergonha do Evangelho” (Rom 1:16) e “Ai de mim se não pregar o Evangelho!” (1 Cor 9:16).

O Documento de Abu Dhabi e os objetivos do “Comitê Superior” também enfraquecem consideravelmente uma das características e tarefas essenciais da Igreja, ou seja, ser missionário e cuidar principalmente da salvação eterna dos homens. Ele reduz as principais aspirações da humanidade aos valores temporais e imanentes da fraternidade, da paz e da convivência. De fato, as tentativas de paz estão destinadas ao fracasso se não forem propostas em nome de Jesus Cristo. Esta verdade profeticamente recorda-nos o Papa Pio XI, que disse que as principais causas das dificuldades sob as quais a humanidade está trabalhando “eram devidas ao fato de a maioria dos homens expulsar Jesus Cristo e sua santa Lei de suas vidas. Pio XI prosseguiu dizendo que,  “enquanto indivíduos e Estados se recusassem a se submeter ao governo de nosso Salvador, não haveria nenhuma perspectiva esperançosa de uma paz duradoura entre nações” (Encíclica Quas Primas, 1). O mesmo Papa ensinou que os católicos “se tornam grandes fatores para a paz mundial porque trabalham para a restauração e a expansão do Reino de Cristo” (Encíclica Ubi arcano, 58).

Uma paz que é uma realidade do mundo interior e puramente humana falhará. Pois, de acordo com Pio XI, “a paz de Cristo não se nutre nas coisas da Terra, mas nas do Céu. Tampouco poderia ser de outro modo, já que é Jesus Cristo quem revelou ao mundo a existência de valores espirituais e obteve para eles a devida apreciação. Ele disse: ‘Pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se ele vier a perder sua alma?’  (Mt 16:26) Ele também nos ensinou uma lição divina de coragem e constância quando disse: ‘Não temas os que matam o corpo e não são capazes de matar a alma; antes, tema o que pode destruir a alma e o corpo no inferno’ (Mt 10:28; Lucas 12:14) ”(Encíclica Ubi arcano 36).

Deus criou os homens para o Céu. Deus criou todos os homens para conhecerem Jesus Cristo, terem vida sobrenatural n’Ele e alcançarem a vida eterna. Levar todos os homens a Jesus Cristo e à vida eterna é, portanto, a missão mais importante da Igreja. O Concílio Vaticano II nos forneceu uma bela e adequada explicação para esta missão: “A atividade missionária deriva sua razão da vontade de Deus, ‘que deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade. Pois existe um Deus e um mediador entre Deus e os homens, ele próprio um homem, Jesus Cristo, que se deu como resgate por todos’ ‘(1 Tim 2:45), ‘nem há salvação em nenhum outro’ (Atos 4 : 12). Portanto, todos devem ser convertidos a Ele, tornados conhecidos pela pregação da Igreja, e todos devem ser incorporados a Ele pelo batismo e à Igreja que é Seu corpo. Porque o próprio Cristo, ‘enfatizando em linguagem expressa a necessidade de fé e batismo (cf. Mc 16, 16; Jo 3, 5), confirmou ao mesmo tempo a necessidade da Igreja, na qual os homens entram pelo batismo, como por um porta. Portanto, embora Deus, por caminhos conhecidos por Ele, possa conduzir esses homens ignorantes não culposos do Evangelho a encontrar aquela fé sem a qual é impossível agradá-Lo não podem ser salvos, que, embora cientes de que Deus, por meio de Jesus Cristo, fundou a Igreja como algo necessário, ainda não deseja entrar nela, nem perseverar nela. ” (Cf. Decreto “Treinamento sacerdotal”, 4, 8, 9.) Portanto, embora Deus, de maneiras conhecidas de Si mesmo, possa levar os inculpáveis ​​ignorantes do Evangelho a encontrar aquela fé sem a qual é impossível agradá-Lo (Heb 11: 6), há ainda para a Igreja uma necessidade (1 Cor 9:16), e ao mesmo tempo um dever sagrado, de pregar o Evangelho. E, portanto, a atividade missionária hoje, como sempre, conserva seu poder e necessidade ”(Ad Gentes, 7).

Quero enfatizar estas últimas palavras: “A atividade missionária da Igreja hoje conserva a sua necessidade!”

Vossa Excelência gostaria de acrescentar algo?

Em sua audiência geral de quarta-feira de 3 de abril de 2019, o Papa Francisco também disse o seguinte sobre a diversidade das religiões: “Existem muitas religiões. Alguns nascem da cultura, mas sempre olham para o céu; elas olham para Deus.”

Estas palavras contradizem de alguma forma a seguinte declaração luminosa e clara do Papa Paulo VI: “Nossa religião cristã efetivamente estabelece com Deus um relacionamento autêntico e vivo que as outras religiões não conseguem fazer, mesmo tendo, por assim dizer, seus braços estendidos para o céu” (Encíclica Evangelii Nuntiandi, 52). Quão oportunas são também as palavras do Papa Leão XIII: “A visão de que todas as religiões são iguais é calculada para causar a ruína de todas as formas de religião, e especialmente da religião católica, que, por ser a única verdadeira, não pode, sem grande injustiça, ser considerada meramente igual a outras religiões” (Encíclica Humanum genus, 16).

Também são adequadas as seguintes palavras do Papa Paulo VI:

“É com alegria e consolo que, no final da grande Assembleia de 1974, ouvimos estas palavras esclarecedoras: ‘Desejamos confirmar mais uma vez que a tarefa de evangelizar todas as pessoas constitui a missão essencial da Igreja’. É uma tarefa e missão que as vastas e profundas mudanças da sociedade atual tornam ainda mais urgente. Evangelizar é de fato a graça e a vocação própria da Igreja, sua identidade mais profunda. Ela existe para evangelizar, ou seja, para pregar e ensinar, ser o canal do dom da graça, reconciliar pecadores com Deus e perpetuar o sacrifício de Cristo na Missa, que é o memorial de Sua morte e ressurreição gloriosa” (Encíclica Evangelii Nuntiandi, 14).

Portanto, como ensina o Catecismo da Igreja Católica, “o objetivo último da missão não é outro senão o de fazer os homens compartilharem a comunhão entre o Pai e o Filho em seu Espírito de amor” (n. 850).

Ao reconhecer direta ou indiretamente a igualdade de todas as religiões – através da divulgação e implementação do documento de Abu Dhabi (de 4 de fevereiro de 2019), sem corrigir sua afirmação errônea sobre a diversidade de religiões –, os homens na Igreja hoje não apenas traem Jesus Cristo como o único Salvador da humanidade e a necessidade de Sua Igreja para a salvação eterna, mas também cometem uma grande injustiça e pecam contra o amor ao próximo. Em 1542, São Francisco Xavier escreveu das Índias a seu pai espiritual Santo Inácio de Loyola: “Muitas pessoas nesses lugares não são cristãs simplesmente porque não há ninguém para torná-las tais. Muitas vezes sinto o desejo de viajar para as universidades da Europa, especialmente Paris, e gritar por toda parte, como um louco, para impulsionar aqueles que têm mais conhecimento do que caridade com estas palavras: ‘Ai, quantas almas, por causa de sua preguiça, são privadas do Céu e terminam no inferno!’”.

Possam essas palavras inflamadas do patrono celestial das missões e primeiro grande missionário jesuíta tocar a mente e o coração de todos os católicos, e especialmente o do primeiro Papa jesuíta, para que, com coragem evangélica e apostólica, ele possa retratar-se da declaração errônea sobre a diversidade de religiões contidas no documento de Abu Dhabi. Por tal ato, ele pode muito bem perder a amizade e a estima dos poderosos deste mundo, mas certamente não a amizade e a estima de Jesus Cristo, de acordo com Suas palavras: “Todo aquele que me confessar diante dos homens, Eu também o confessarei diante de meu Pai, que está nos céus ”(Mt 10:32).

26 de agosto de 2019

 + Athanasius Schneider

22 julho, 2019

Dom Athanasius Schneider responde ao Bispo Kräutler e ao Instrumentum Laboris sobre o Sínodo da Amazônia.

Por Corrispondenza Romana, 19 de julho de 2019 | Tradução: Gercione Lima – FratresInUnum.com – Apresentamos nossa tradução de uma declaração publicada no dia 17 de julho no site de notícias austríaco Kath.net e distribuída em vários idiomas. Nesta declaração, Dom Athanasius Schneider, Bispo Auxiliar da arquidiocese de Santa Maria em Astana, Cazaquistão, responde ao Bispo Erwin Kräutler e critica fortemente o Instrumentum laboris sobre o Sínodo da Amazônia.

Em sua entrevista do dia 14 de julho à ORF [uma emissora nacional austríaca de serviço público], o Bispo Erwin Kräutler afirmou ser “quase um escândalo” o fato de que em muitas paróquias na Amazônia a Sagrada Eucaristia raramente seja celebrada. Este modo de falar é em si obscuro e decididamente tendencioso. Ninguém tem um direito à Sagrada Eucaristia. O sacramento da Eucaristia é o mais elevado dom de Deus: pode-se falar, ao invés, de escândalo quando nas paróquias católicas a fé é negada e não praticada, quando Deus é insultado pelo desprezo de seus mandamentos, pelos pecados graves contra a caridade, pela idolatria, xamanismo e assim por diante. Pode-se falar de escândalo em uma paróquia católica quando as pessoas não rezam o bastante. Isso sim seria um verdadeiro escândalo.

Deveríamos, antes, falar de escândalo quando consideramos que durante as últimas décadas não foram promovidas na Amazônia iniciativas pastorais intensivas para promover vocações. Iniciativas que estariam de acordo com a experiência de dois mil anos da Igreja: orações constantes, sacrifícios espirituais e um estilo de vida exemplar e santo adotado pelos próprios missionários. De fato, para se promover efetivamente sólidas vocações sacerdotais é indispensável que até na Amazônia existam missionários que levem uma vida de verdadeiros homens de oração, de verdadeiros apóstolos, isto é, uma vida de amor e sacrifício totalmente dedicada a Cristo e à salvação das almas imortais.

O que Dom Kräutler e muitos de seus companheiros de viagem do clero estão querendo promover são caricaturas de sacerdotes, que têm como modelo agentes humanitários, funcionários de ONGs, sindicalistas socialistas e ecologistas. Mas esta não é a missão de Jesus Cristo, do Deus encarnado, que deu a Sua vida na Cruz para redimir a humanidade do maior mal que é o pecado, para que todos os homens possam ter em abundância a vida divina e sobrenatural (veja João 10.10).

Não é necessário recorrer ao truque de dramatizar a “fome eucarística” ou a falta de celebrações eucarísticas, porque para salvar a si mesmo não é necessário a recepção da Sagrada Eucaristia, mas sim a Fé, a oração e uma vida conforme os mandamentos de Deus.

Se por um longo período de tempo e por causa da falta de sacerdotes os católicos não puderam receber a Sagrada Comunhão, então deveriam ser ensinados a praticar a comunhão espiritual, que tem grande força e um grande efeito espiritual. Os Padres do Deserto, por exemplo, viveram durante anos sem a Eucaristia e alcançaram uma grande união com Cristo. Durante anos, eu mesmo e meus pais não conseguimos receber a Sagrada Comunhão na União Soviética. Mas sempre fazíamos a comunhão espiritual, que nos deu muita força e consolo. Então, quando aparecia um padre e podíamos confessar, participar do Santo Sacrifício da Missa e receber a Sagrada Comunhão sacramentalmente, era uma verdadeira festa e experimentávamos de maneira muito profunda e jubilosa o quão precioso é o dom do sacerdócio e o dom da Eucaristia.

Na Amazônia deveria haver uma maneira de garantir que os padres missionários itinerantes possam se dirigir a lugares afastados – ainda que poucas vezes ao ano – para organizar uma festa verdadeiramente espiritual, com boas confissões e com as Santas Missas celebradas com dignidade. Poderiam até deixar Jesus nos tabernáculos para que os católicos pudessem adorá-Lo e os fiéis pudessem ser ensinados sobre como fazer a adoração eucarística e como rezar o terço para pedir bons sacerdotes indígenas solteiros e boas famílias cristãs. Então, sem dúvida, Deus concederia essa graça. Sim, dever-se-ia fazer um apelo a nível mundial convidando padres para irem para a Amazônia, a fim de socorrer pastoralmente a população local. Finalmente, poderiam ordenar os diáconos casados ou, em casos excepcionais, delegar a função a acólitos ou a mulheres católicas para que pudessem expor o Santíssimo Sacramento e conduzir orações.

Há um exemplo na história da Igreja: o dos católicos japoneses que, mesmo sem sacerdotes, mantiveram a fé católica por mais de duzentos anos. Hoje, o Japão tem um número suficiente de padres nativos que, naturalmente, são celibatários. Ainda que naquela época a cultura pagã do Japão rejeitava o sacerdócio celibatário, os católicos japoneses tinham-no em tão alta estima, que se tornou seu sinal de identificação. Portanto, quando no século XIX chegaram os primeiros missionários protestantes, que eram casados, eles os rejeitaram exatamente por esse motivo. Mas, quando os sacerdotes católicos voltaram, uma vez que se certificaram de que eram solteiros, os fiéis japoneses os receberam como sacerdotes da verdadeira Igreja de Jesus Cristo. Portanto, a Igreja no século XIX poderia ter apresentado os mesmos argumentos que estão sendo usados ​​hoje no Sínodo Amazônico em favor da ordenação de sacerdotes indígenas casados, já que naquela época muitas paróquias em algumas regiões missionárias contavam com a visita de um sacerdote raríssimas vezes durante o ano.

O casamento de padres foi legalizado na Igreja Oriental no século VII, mas não por causa da falta de sacerdotes, dado que, na época, havia uma superabundância de sacerdotes, especialmente em Constantinopla. Foi feito, antes, pela indulgência para com a fraqueza humana, porque aqueles que no ofício episcopal e sacerdotal imitavam Jesus Cristo – o Sacerdote  Eterno da Nova Aliança – agindo na pessoa de Cristo, o Cabeça, haviam se afastado da regra apostólica de uma vida celibatária. Naquela época, na Igreja Grega, tratou-se de uma solução regional para uma Igreja local, mas que os Romanos Pontífices não reconheciam e nem aceitavam. Foi um desvio e deslealdade à exigente imitação de Cristo; imitação que os apóstolos viveram na completa continência sexual, até a morte, como Pedro claramente testifica quando diz: “Deixamos tudo para te seguir” (Mt 19,27), até esposas e filhos.

Todos os Padres da Igreja viviam o sacerdócio na continência sexual. Embora alguns tenham sido casados ​​(por exemplo, Santo Hilário), foi demonstrado que, a partir da ordenação, começaram a praticar a continência e não tiveram mais filhos, porque conheciam e respeitavam a regra apostólica da continência sexual sacerdotal e episcopal.

A Igreja Romana transmitiu fielmente essa norma apostólica e sempre a defendeu até hoje, com a única exceção concedida às Igrejas Orientais, feita no contexto das negociações de unificação durante os Concílios de Lyon e Florença. Neste caso, foi dispensado o celibato dos sacerdotes Orientais visando o benefício da unidade.

A introdução do clero “uxorado” na Amazônia não produziria verdadeiros apóstolos, mas sim uma nova categoria de sacerdotes, uma espécie de dinastia. Ao mesmo tempo, deve-se ter em mente que a cultura indígena dos povos amazônicos ainda não alcançou a maturidade confiável e comprovada de gerações cristãs inteiras, completamente permeada pelo espírito do Evangelho.

Após a evangelização inicial e sistemática de São Bonifácio, por exemplo, as tribos germânicas levaram vários séculos até conseguirem produzir numerosos e confiáveis ​​padres nativos celibatários.

No século II, Santo Irineu já era uma testemunha da unidade da fé e da disciplina na Igreja, que era tão grande entre todos os povos, embora naquela época os católicos convertidos eram provenientes de culturas muito diferentes e em parte até contraditórias:

 “A Igreja, embora dispersa pelo mundo afora, todavia – como se habitasse em uma só casa – preserva cuidadosamente a Fé dos Apóstolos. Ela também crê que essas verdades têm uma só alma e o mesmo coração e as proclama, ensina e as oferece em perfeita união, como se tivesse uma só boca. Embora as línguas do mundo sejam diferentes, a mensagem da Tradição é uma só e a mesma. Portanto, as Igrejas na Alemanha não crêem e transmitem nada diferente, nem as da Espanha, nem as da Gália, nem as do Oriente, nem as do Egito, nem as da Líbia, nem as das regiões centrais da mundo”(Adversus haereses 1,10, 2).

Mesmo muitas das paróquias católicas recém-convertidas entre as tribos germânicas durante a Era da Migração (do século IV-VI) tiveram talvez apenas algumas vezes a oportunidade de assistir a Santa Missa e receber a Sagrada Comunhão. Depois de algumas gerações, todavia, gerações de padres celibatários e geralmente exemplares nasceram dessas paróquias alemãs.

A verdade é que aqueles que defendem um clero amazônico casado, usando como estratagema o lema elegante “homens provados” (“viri probati”), consideram os povos amazônicos inferiores, porque pressupõem desde o início que eles não têm a capacidade de dar à Igreja sacerdotes celibatários gerados em seu próprio meio. Ao longo de 2000 anos, todos os povos e até mesmo os bárbaros foram capazes de criar seus próprios filhos, com a ajuda da graça de Cristo, com um sacerdócio celibatário segundo o exemplo de Jesus Cristo. Os pedidos de padres casados ​​para os povos da Amazônia – vindos  exatamente de eclesiásticos de ascendência européia – contêm um racismo oculto. Para resumir, poderíamos simplificar desse modo: “Nós europeus, nós que somos brancos, somos realmente capazes de gerar padres celibatários. Mas para vocês da Amazônia, isso seria pedir demais!”

Os defensores de um clero amazônico casado são quase todos europeus e não de origem indígena, e no final não estão interessados ​​no verdadeiro bem espiritual dos fiéis da Amazônia, mas na implementação de sua própria agenda ideológica, que visa posteriormente um clero casado também na Europa e depois em toda a Igreja Latina. Porque todos sabem que após a introdução de um clero casado regionalmente limitado à Amazônia, iria surgir, com a ajuda do efeito dominó e depois de um breve período de tempo, um clero regular casado no próprio rito romano em outras partes do mundo. Deste modo, o legado apostólico de um sacerdócio celibatário, segundo o modelo de Jesus Cristo e seus apóstolos, seria efetivamente destruído em toda a Igreja.

Alguns católicos – aqueles que certamente não representam a maioria dos verdadeiros fiéis, mas que são funcionários de uma rica burocracia eclesiástica e que alcançaram posições clericais de poder na Igreja – querem atrair as pessoas mundanas com a idéia de um sacerdócio casado, sem sacrifícios, sem doação completa de si e sem um amor ardente e sobrenatural por Deus.

O próprio Senhor nos ensinou o que a Igreja deveria fazer para que os fiéis possam ter sacerdotes: “Peça ao Senhor da messe que envie trabalhadores para a sua vinha” (Mateus 9:38). Não há remédio melhor ou mais eficaz do que esse. E se houvesse outro, Nosso Senhor nos teria dito.

Para se obter candidatos casados para ordenação sacerdotal, não há necessidade de iniciativas especiais de oração. Sempre haverá poucos operários na vinha do Senhor até o fim dos tempos. Numa época em que haviam muitos sacerdotes, o papa São Gregório Magno pronunciou essas palavras memoráveis: “Veja, o mundo está cheio de sacerdotes, mas poucos são os operários na vinha do Senhor” (Em Ev. Hom., 34). Deus sempre realiza Sua obra de graça e salvação de almas para a vida eterna com a ajuda de sacrifícios e, freqüentemente, apenas de algumas pessoas, e não com a ajuda de grandes multidões. Nesse sentido, São Gregório Nazianzeno disse que Deus não se compraz com números (ver Or. 42.7).

O bispo Erwin Kräutler pergunta então na entrevista: “O que então podemos fazer como Igreja para que essas pessoas possam celebrar a Eucaristia?” A vida paroquial, acrescenta ele, é bela, “mas está faltando o centro”. A resposta a esta pergunta é a seguinte: o centro é Cristo, a verdade ensinada por Ele, o exemplo dado por Ele. O tabernáculo é o verdadeiro centro da Igreja aqui na terra e o centro de toda paróquia local. Se uma comunidade católica local na Amazônia tem o tabernáculo – e muitas delas o têm – então eles têm o centro, e no final nada está faltando, porque eles têm Deus no meio deles, Deus em Carne e Sangue está presente no meio deles!

É necessário reunir os católicos da Amazônia em torno do tabernáculo para que eles tenham seus próprios sacerdotes e, se possível, numerosos sacerdotes. Ali, mães e crianças católicas deveriam dirigir suas orações íntimas a Deus, o dispensador de todos os dons, com a intenção de obter bons e únicos sacerdotes indígenas e com um espírito apostólico. Uma rede de adorações eucarísticas deve ser iniciada em toda a Amazônia. Esta corrente eucarística de adorações por parte dos simples fiéis, juntamente com os seus bispos e os seus sacerdotes – mesmo que sejam apenas uns poucos – poderão, sem sombra de dúvida – no momento escolhido por Deus -, trazer para o povo da Amazônia aqueles sacerdotes que são de acordo com o coração de Jesus. Não é preciso abusar dos povos amazônicos com o interesse de promover suas próprias ideologias decadentes e heresias teológicas que foram fabricadas na Europa.

Amplas partes do documento de trabalho (Instrumentum laboris) do Sínodo sobre a Amazônia e os pedidos desses sacerdotes enfeitam a imagem de Cristo Rei com pérolas e jargões como “varões provados”, “fome eucarística”, “empatia feminina”. Deste modo, eles desejam implementar o fim do celibato sacerdotal e a ordenação feminina de maneira mais sutil. Os verdadeiros católicos da Amazônia e de outras partes do mundo, entretanto, reconhecerão nela a imagem do engano e não acreditarão que é a imagem de Jesus Cristo, o Rei. Grandes partes do Instrumentum laboris e das exigências revolucionárias do Bispo Erwin Kräutler e seus companheiros de viagem clericais, realmente retratam uma atitude intelectual muito semelhante à Gnose e ao Naturalismo que queriam introduzir na Igreja desde o início, a partir do segundo século, como Santo Irineu de Lyon afirma:

“Tal então é o método deles, que nem os profetas anunciaram, nem o Senhor ensinou, nem os apóstolos transmitiram, mas do qual eles se orgulham de ter um conhecimento perfeito, muito além de todos os outros. Eles recolhem suas opiniões de outras fontes que não são as Escrituras; e, para usar um provérbio comum, eles se esforçam para tecer cordas de areia, lutando para adaptar as parábolas do Senhor, as palavras dos profetas e as palavras dos Apóstolos às suas afirmações particulares, dando-lhes uma aparência de veracidade, de modo que seu esquema não pareça totalmente privado de apoio. Ao fazê-lo, porém, eles ignoram a ordem e conexão das Escrituras e, na medida em que as vão encontrando, desmembram-nas e destroem a verdade, transferindo passagens, vestindo-as novamente e trocando uma coisa por outra. Assim, conseguem enganar muitos, graças à sua destreza perversa que conforma os oráculos do Senhor às suas próprias opiniões. Seu modo de agir é como se alguém – depois que uma bela imagem de um rei fosse fielmente esculpida por um artista habilidoso, com jóias preciosas – então resolvesse reduzir o retrato daquele homem aos pedaços, para depois reorganizar as gemas e recompor tudo novamente dando-lhes a forma de um cachorro ou uma raposa, e tudo isto mal executado. E mais, depois de tudo, ainda tivesse a coragem de declarar que esta sim é a verdadeira imagem do rei que o artista original esculpiu, apontando para as gemas que foram retiradas da obra anterior como prova de que aquela é a imagem do rei, apesar do resultado medíocre, mesmo depois de ter usado o mesmo material para fazer a imagem de um cachorro ou de uma raposa. E sempre apontando para as gemas para enganar os ignorantes que não têm a menor idéia de como era antes a imagem do rei. Persuadindo-os de que aquele decadente retrato de raposa seja, de fato, a verdadeira imagem do rei. Da mesma forma, essas pessoas remendam velhas lendas de comadres e depois se apropriam – afastando-se violentamente de seu contexto, de palavras, expressões e parábolas encontradas – para adaptar os oráculos de Deus às suas ficções infundadas ”( Adversus haereses 1, 8, 1).

É óbvio que o conteúdo de amplas partes do Instrumentum laboris e as exigências do Bispo Erwin Kräutler e seus companheiros de viagem clericais buscam realmente uma nova confissão cristã, que talvez venha a ser chamada de “Igreja Católica Amazônica”, mas que eventualmente se tornará uma seita em comparação com a verdadeira Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica. Esta última navegou e continua a navegar, com segurança e em todos os tempos, sempre com a mesma lealdade incondicional à pureza da fé e ao legado imutável dos apóstolos na liturgia e na disciplina da Igreja. Os católicos do nosso tempo reagirão com vigor a uma seita “católica amazônica” que pratica a adoração da natureza e que terá um sacerdócio feminino – com as palavras de Santo Agostinho aos membros da seita dos donatistas: “A Igreja em todo o mundo é segura em seus juízos da verdade!” (Securus iudicat orbis terrarum: Contra epistolam Parmeniani 3, 3).

O sucessor de Pedro, o Papa, tem o dever preciso, conferido por Deus, como titular da Cátedra da Verdade (cathedra veritatis), de preservar em sua pureza e integridade, a verdade da Fé Católica, a Constituição Divina da Igreja, a ordem sacramental estabelecida por Cristo e a herança apostólica do celibato sacerdotal, para transmiti-las ao seu sucessor e às gerações futuras. Ele não pode apoiar nem um pouco – com seu silêncio ou com uma conduta ambígua – o conteúdo claramente gnóstico e naturalista de partes do Instrumentum laboris, como também a abolição do dever apostólico do celibato sacerdotal (que seria primeiro regional, e então naturalmente se tornaria, passo a passo, universal). Se o papa fizesse isso no próximo Sínodo amazônico, violaria seriamente seu dever de Sucessor de Pedro e Representante de Cristo, causando assim um eclipse espiritual intermitente na Igreja. Mas Cristo, o invencível Sol da Verdade, varrerá este breve eclipse enviando novamente para a Sua santa Igreja papas corajosos e fiéis, para que as portas do inferno não sejam capazes de derrotar a rocha de Pedro (cf. Mateus 16, 18). A oração de Cristo por Pedro e seus sucessores é infalível. Isto significa que após a conversão, eles confirmarão novamente seus irmãos na fé (cf. Lc 22,32).

A verdade, como foi formulada por Santo Irineu, permanecerá em pé mesmo em um momento de intermitente eclipse espiritual na Igreja – como é o caso da atemporal, por insondável permissão de Deus: “Para que, na Igreja Romana, a Tradição Apostólica seja sempre preservada pelos fiéis que estão em toda parte”(Adversus haereses 3, 3, 2).

+ Athanasius Schneider, Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Santa Maria em Astana

14 março, 2019

Dom Athanasius Schneider obtém do Papa Francisco esclarecimento sobre “diversidade de religiões” e diz que o Encontro sobre Abusos Sexuais foi um completo “fracasso”.

Por Diana Montagna, LifeSiteNews, 7 de março de 2019 | Tradução: Gercione Lima – FratresInUnum.comEm sua recente visita ad limina a Roma, os bispos do Cazaquistão e da Ásia Central levantaram uma série de preocupações que têm sido amplamente compartilhadas na Igreja ao longo dos últimos anos, e que dizem respeito às percebidas ambigüidades no magistério do Papa Francisco.

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Na reunião de 1º de março, o bispo Athanasius Schneider, auxiliar de Astana, Cazaquistão, também obteve do papa Francisco um esclarecimento sobre seu pronunciamento segundo o qual Deus não apenas permitiria, mas positivamente desejaria, uma “diversidade de religiões”.

Em entrevista exclusiva à LifeSite, Dom Schneider disse que as preocupações levantadas durante o encontro de duas horas com o Santo Padre incluíram “Comunhão para católicos divorciados e civilmente recasados”, a questão da comunhão para os cônjuges protestantes em casamentos mistos e a questão da propagação prática da homossexualidade na Igreja”.

Em um intercâmbio direto entre o papa Francisco e o bispo Schneider, a alegação de que a “diversidade das religiões” é “desejada por Deus” também foi discutida. A expressão, contida em uma declaração conjunta que o Papa Francisco assinou no mês passado com um Grande Imam em Abu Dhabi, incitou uma controvérsia considerável.

O Papa declarou explicitamente que o bispo Schneider poderia compartilhar o conteúdo de seu intercâmbio sobre este ponto. “Você pode dizer que a frase em questão sobre a diversidade das religiões significa a vontade permissiva de Deus”, disse ele aos bispos reunidos, que vêm de regiões predominantemente muçulmanas.

O Bispo auxiliar de Astana, por sua vez, pediu ao papa que esclarecesse oficialmente a declaração no documento de Abu Dhabi.

LifeSite sentou-se com o Bispo Schneider em Roma após a visita ad limina. Em uma ampla entrevista, discutimos seu encontro com o Papa Francisco, seus pontos de vista sobre a recente cúpula do abuso sexual no Vaticano, e antecipamos ataques ao celibato clerical no próximo Sínodo Amazônico.

Schneider classificou a cúpula sobre abuso sexual como um “show clerical” e um “fracasso” por não abordar as “raízes profundas” da crise, além de não emitir “normas muito precisas, convincentes e incisivas”. Ele expõe o que ele acredita serem as quatro causas da crise do abuso e propõe duas normas concretas que segundo ele, deveriam ter saído do Encontro.

Questionado sobre a negação do cardeal Blase Cupich sobre uma relação causal entre a homossexualidade e o abuso sexual clerical, Schneider perguntou desesperadamente: “Como posso falar com um homem que nega a realidade?”

Na entrevista, o bispo Schneider também elogia a carta aberta emitida pelo cardeal Raymond Burke e pelo cardeal Walter Brandmüller antes do encontro no Vaticano sobre a proteção de menores e sugere novas medidas que cardeais e bispos poderiam tomar para enfrentar a atual crise na Igreja.

Aqui abaixo está a nossa entrevista exclusiva com o Bispo Athanasius Schneider.

LifeSite: Excelência, o que você pode nos dizer sobre sua recente visita ad limina e encontro com o Papa Francisco?

Bispo Schneider: Foi para mim uma experiência muito espiritual – uma peregrinação aos túmulos de São Pedro e São Paulo, onde celebramos a Santa Missa. No túmulo de São Pedro cantamos para o Papa Francisco a antífona “Oremus pro pontifice nostro” seguida pelo Credo. Também oramos pelas intenções do papa para obter a indulgência plenária. Fizemos o mesmo na Basílica de São Paulo Fora dos Muros e na Basílica Mariana de Santa Maria Maior.

Em relação ao nosso encontro com o Papa, ele é o Vigário de Cristo na terra neste tempo, e ele foi muito fraterno e gentil conosco. Foi uma atmosfera muito gentil.

Nosso encontro com ele durou duas horas. Considero isto um ato de grande generosidade por parte do Papa, passar tanto tempo com o nosso grupo de 10 bispos e ordinários do Cazaquistão e da Ásia Central.

Durante a reunião, o Papa nos convidou a expressar livremente nossas preocupações e até nossas críticas. Ele enfatizou que gosta de uma conversa muito livre.

Alguns bispos puderam levantar preocupações sobre a vida da Igreja em nossos dias. Por exemplo, a questão da comunhão para católicos divorciados e civilmente “recasados”; a questão da comunhão para os cônjuges protestantes em casamentos mistos; e a questão da disseminação prática da homossexualidade na Igreja. Esses pontos foram discutidos.

Então pedi também ao Santo Padre que esclarecesse a declaração do documento de Abu Dhabi sobre a diversidade de religiões como sendo “desejadas” por Deus.

O Papa foi muito benevolente em sua resposta às nossas perguntas e procurou nos responder a partir de sua própria perspectiva sobre esses problemas. Ele respondeu de maneira mais generalizada sobre os princípios da fé católica, mas nas circunstâncias dadas não pudemos entrar em detalhes sobre as questões específicas. Mesmo assim, sou muito grato ao Santo Padre por ter nos dado a possibilidade, de em um ambiente muito sereno, levantar várias preocupações e falar com ele.

Você pode nos dizer mais sobre como o Papa Francisco respondeu à sua preocupação com a declaração de Abu Dhabi sobre a diversidade das religiões? Na passagem controversa se lê: “O pluralismo e a diversidade de religiões, cor, sexo, raça e linguagem são desejadas por Deus em Sua sabedoria, mediante a qual Ele criou os seres humanos”.

Sobre o assunto de minha preocupação com a frase usada no documento de Abu Dhabi – que Deus “deseja” a diversidade de religiões – a resposta do Papa foi bem clara: ele disse que a diversidade de religiões é apenas a vontade permissiva de Deus. Ele enfatizou isso e nos disse: você pode dizer isso também, que a diversidade das religiões é a vontade permissiva de Deus.

Eu tentei ir mais fundo na questão, pelo menos citando a frase como se lê no documento. A sentença diz que, assim como Deus deseja a diversidade de sexos, cor, raça e linguagem, assim Deus quer a diversidade das religiões. Existe uma comparação evidente entre a diversidade das religiões e a diversidade dos sexos.

Mencionei este ponto ao Santo Padre, e ele reconheceu que, com essa comparação direta, a sentença pode ser entendida erroneamente. Eu enfatizei em minha resposta a ele que a diversidade de sexos não é a vontade permissiva de Deus, mas é positivamente desejada por Deus. E o Santo Padre reconheceu isso e concordou comigo que a diversidade dos sexos não é uma questão da vontade permissiva de Deus.

Mas quando mencionamos essas duas frases na mesma frase, a diversidade de religiões é interpretada como positivamente desejada por Deus, assim como a diversidade dos sexos. A sentença, portanto, leva a dúvidas e interpretações errôneas, e portanto foi meu desejo e meu pedido para que o Santo Padre retificasse isso. Mas ele disse para nós bispos: você pode dizer que a frase em questão sobre a diversidade de religiões significa a vontade permissiva de Deus.

Para os leitores que podem não estar familiarizados com a distinção entre a vontade permissiva e positiva de Deus, você pode dar alguns exemplos de outras coisas que Deus permite através de sua vontade permissiva?

Sim, a vontade permissiva significa que Deus permite certas coisas. Deus permitiu o pecado de Adão e todas as suas conseqüências; e mesmo quando pecamos pessoalmente, em certo sentido, Deus permite isso ou tolera isso. Mas Deus não permite positivamente o nosso pecado. Ele permite isso em vista do sacrifício infinitamente meritório de Nosso Senhor Jesus Cristo na Cruz, e porque ele não quer destruir a nossa liberdade. Esse é o significado da vontade permissiva de Deus.

ENCONTRO “A PROTEÇÃO DOS MENORES NA IGREJA”

Muitas pessoas, incluindo vítimas de abuso sexual que vieram a Roma para o Encontro do Vaticano de 25 a 27 de fevereiro sobre a proteção de menores na Igreja, ficaram desapontadas com o encontro pelo que consideraram sua falta de ação concreta. Excelência, o que você acha que seria a maneira mais eficaz de resolver o problema do abuso e acobertamento sexual na Igreja?

Quando há um problema enorme – que é o abuso de crianças, menores e subordinados adultos pelo clero certamente – sempre temos que ir na raiz mais profunda, como todo bom médico faz.

Não podemos resolver uma doença apenas fazendo um diagnóstico superficial. Um diagnóstico profundo e integral é necessário. E na minha opinião, isso não foi feito nesse Encontro, porque uma das raízes evidentes, observáveis ​​e mais profundas do abuso sexual de menores é a homossexualidade entre o clero. É claro que não direi que todos os homossexuais estão necessariamente abusando de crianças. Isso seria injusto e falso. Mas estamos falando sobre abuso clerical na Igreja, e por isso temos que nos concentrar nessa doença. Está provado que mais de 80% das vítimas eram do sexo masculino pós-púberes. Portanto, é evidente que a natureza da maioria deste abuso envolveu atos homossexuais. Temos que salientar que esta é uma das principais raízes.

A outra raiz principal da crise dos abusos é o relativismo no ensino moral, que começou após o Concílio Vaticano II. Desde então, temos vivido em uma profunda crise de relativismo doutrinal, não apenas na esfera dogmática, mas também moral – a lei moral de Deus. A moral não foi ensinada claramente nos seminários nos últimos 50 anos; muitas vezes não foi claramente ensinado nos seminários e faculdades teológicas que um pecado contra o sexto mandamento é um pecado grave. Subjetivamente, pode haver circunstâncias atenuantes, mas objetivamente é um pecado grave. Todo ato sexual fora de um matrimônio válido é contra a vontade de Deus. Ofende a Deus e é um pecado grave, um pecado mortal. Esse ensinamento foi muito relativizado. E esta é uma das outras raízes profundas. Temos que enfatizar isso. E, na minha opinião, isso não foi enfatizado no Encontro: o relativismo do ensino moral, especificamente sobre o sexto mandamento.

Outra causa profunda é a falta de uma formação verdadeira, séria e autêntica de seminaristas. Houve falta de ascetismo na vida e formação dos seminaristas. Foi provado por dois mil anos, e pela natureza humana, que sem ascetismo físico como jejum, oração e até mesmo outras formas de mortificações corporais, é impossível viver uma vida constante em virtude sem cair no pecado mortal. Devido à profunda ferida do pecado original e à concupiscência ainda em ação em todo ser humano, precisamos da mortificação corporal.

São Paulo diz: “Não faça provisão para a carne, para satisfazer seus desejos.” (Rm 13:14) Podemos parafrasear estas palavras, dizendo: não nutram sua carne em demasia ou a concupiscência dominará você. E isso é exatamente o que muitas vezes aconteceu nos seminários. Seminaristas e sacerdotes alimentavam a carne através de uma vida confortável, sem ascetismo, sem jejum e outras mortificações corporais e espirituais.

Mas para mim, a causa mais profunda da crise do abuso sexual clerical é a falta de um relacionamento profundo e pessoal com Jesus Cristo. Quando um seminarista ou um padre não tem um profundo relacionamento pessoal com Jesus Cristo, em constante fidelidade a uma vida de oração e realmente desfrutando de um amor pessoal por Jesus, ele é presa fácil para as tentações da carne e outros vícios.

Além disso, quando você tem um amor profundo e pessoal a Cristo, você não pode deliberadamente cometer um pecado horrendo. Ocasionalmente, por causa da fraqueza da natureza humana, um padre ou seminarista poderia cometer um pecado mortal contra a pureza. Mas no mesmo momento, ele fica profundamente arrependido e decide evitar o próximo pecado a qualquer custo. Esta é uma manifestação de um verdadeiro amor de Cristo. Mas para mim está completamente excluído que uma pessoa que ama profundamente a Cristo possa abusar sexualmente de menores. Isso para mim é impossível. Na minha opinião, um profundo amor de Cristo exclui isso.

Estas são as raízes principais: a homossexualidade entre o clero, o relativismo na doutrina, a falta de ascese e sobretudo a ausência de um amor profundo e verdadeiro por Cristo. E isso não foi enfatizado no Encontro. Portanto, considero o evento como um fracasso.

Você mencionou a estatística de que 80% das vítimas eram homens pós-púberes. Como você responde ao Cardeal Blase Cupich e outros que apontam para o relatório de John Jay e outros estudos como prova de que não há relação causal entre homossexualidade e abuso sexual clerical?

É uma negação da realidade. Como posso falar com um homem que nega a realidade? Isso só é explicável como uma posição ideológica.

Que medidas concretas você acredita que a cúpula deveria ter feito para oferecer soluções reais para o problema do abuso sexual clerical?

A cúpula deveria ter emitido normas canônicas concretas e não o fez. Portanto, acho que a cúpula foi um fracasso. Foi um belo show clerical, foi um show de clericalismo – todos os clérigos com seus títulos vieram de todas as partes do mundo. E muitas palavras bonitas – palavras muito emocionais – foram ditas. Mas essas raízes profundas não foram abordadas e normas concretas e incisivas não foram dadas.

A meu ver, normas muito precisas, convincentes e incisivas devem ser dadas.

A primeira norma canônica que proponho seria a seguinte: que as pessoas com inclinações homossexuais, categoricamente não devem ser aceitas nos seminários. E, se forem descobertos, é claro, com respeito e amor, devem ser dispensados ​​do seminário e ajudados a serem curados para viver como um bom leigo cristão.

Atualmente, as normas dizem apenas que aqueles com “tendências homossexuais profundamente arraigadas” não devem ser admitidos no seminário, mas para mim isso não é suficiente. O que significa “profundamente arraigadas”? Se um homem adulto chega ao seminário e sente atração homossexual, mesmo que ainda não seja uma atração profundamente arraigada, ainda assim é uma atração homossexual. E em si mesma já é uma condição que, em algumas circunstâncias – como na atmosfera exclusivamente masculina de um seminário – poderia evoluir para uma tendência mais profunda ou mais agressiva.

E quando ele se tornar padre, ele estará com seminaristas, com jovens coroinhas e assim por diante. E assim, embora talvez no seminário essas tendências não sejam profundas, elas podem se tornar mais profundas em certas circunstâncias.

Pra mim isso é no mínimo arriscado. Digamos que um jovem não é um homossexual agressivo. Ele não sente prazer algum em ter tendências homossexuais, e elas não são tão profundamente enraizadas. Mas quando ele reconhece que ele tem essas tendências, ou quando é provado por atos exteriores ou sinais de que ele tem tendências homossexuais, mesmo que elas não sejam profundamente arraigadas, ele deve ser caridosamente mandado embora do seminário. E isso deveria ser uma norma canônica: alguém que reconhece que tem tendências homossexuais, mesmo não profundamente arraigadas, não pode ser recebido em outro seminário e não pode ser ordenado.

As tendências homossexuais são uma espécie de traço de desordem de personalidade e uma percepção distorcida da realidade, já que isso significa desejar um objeto de prazer contra a ordem natural dos sexos. Documentos magisteriais chamam isso de desordem “objetiva”. Como você pode ordenar um homem com uma desordem em sua personalidade ou em sua composição psico-somática? Claro, existem outros distúrbios psicológicos também. Nós não ordenamos homens com certos distúrbios psicológicos, mesmo quando eles não são tão profundos. Isso prejudicaria o sacerdócio.

Você mencionou sinais exteriores. Na norma canônica que você propõe, que tipo de sinais exteriores você tem em mente?

Se ele tivesse uma amizade exclusiva e ostensiva com um homem, já seria um sinal exterior. Ou se ele olha pornografia masculina na internet, isso seria outro sinal. Estes são sinais exteriores e verificáveis. Uma vez que estes sinais sejam descobertos, tal seminarista deve ser excluído para sempre da ordenação. Sim, ele pode ser curado, mas o seminário não é um sanatório para curar pessoas com distúrbios psicológicos ou tendências homossexuais. Isso é ingênuo e prejudicará o sacerdócio e a pessoa. Seria melhor para essa pessoa ser um bom cristão no mundo e salvar sua alma, e não ser um sacerdote. Naturalmente que podemos e devemos ajudá-lo. Mas temos que estar dispostos a dizer-lhe: você não será ordenado, é para a salvação da sua alma. Seja um bom cristão no mundo.

É melhor ter menos padres, mas homens saudáveis ​​e psicologicamente saudáveis. E profundos amantes de Cristo, homens profundamente espirituais. Seria melhor para toda a Igreja. É melhor deixar algumas paróquias sem padre e algumas dioceses sem um bispo por vários anos do que ordenar um homem que tenha um transtorno, seja homossexual ou outros transtornos de personalidade.

Que outras normas concretas você acredita que o Encontro sobre abuso sexual no Vaticano deveria ter emitido?

Em um caso quando um padre ou um bispo comete abuso sexual, mesmo um único caso, ele deve ser dispensado do estado clerical. Deveria haver “tolerância zero” neste caso, e deveria ser estabelecido no Direito Canônico. Não deve haver exceção. É claro que o ato do abuso sexual deve ser provado e verificado por um verdadeiro processo canônico, mas quando é comprovado, ele deve ser demitido do estado clerical.

Essas duas normas (a não admissão categórica ao seminário, a não ordenação de homens com tendências homossexuais e a demissão do estado clerical), a meu ver, deveriam ter sido explicitamente mencionadas no Encontro, se é que era para se ter um impacto concreto. De outro modo, foi só um belo encontro, mais ou menos um espetáculo clerical com palavras e declarações sentimentais.

Um padre que abusou de menores deveria receber algum dinheiro da Igreja?

Acho que sim. Nós temos que ser misericordiosos e não devemos ser cruéis. Devemos sempre ser humanos e cristãos, e acho que a Igreja deveria, pelo menos temporariamente, dar a esses clérigos que são demitidos ajuda financeira – talvez nos primeiros dois anos.

Carta Aberta dos Cardeais Burke e Brandmüller

Antes da cúpula, o cardeal Raymond Burke e o cardeal Walter Brandmüller publicaram uma carta aberta convidando os bispos presentes ao Encontro a por um fim em seu silêncio sobre a corrupção moral na Igreja e a defender a lei divina e natural. Quanto você acha que a carta aberta foi ouvida e ouvida na reunião?

Eu acho que a carta dos dois cardeais foi meritória e muito oportuna, e a história a considerará como uma contribuição verdadeiramente positiva nesta crise muito delicada de abuso a nível universal na Igreja. Foi um belo testemunho e acredito que esta carta honrou o Colégio dos Cardeais. Mas acho que foi mais ouvida pelas pessoas simples do que pelos clérigos: novamente, clericalismo.

Alguns sugeriram que o Encontro do abuso sexual no Vaticano foi o maior exemplo de clericalismo.

Eles falharam em ouvir as vozes dos leigos. A voz dos leigos não foi ouvida suficientemente pelos clérigos. Isso não é clericalismo?

O que você acha que explica a recusa óbvia e repetida em abordar a questão da homossexualidade no Encontro? Alguns argumentaram que poderia ser devido a um desejo de proteger as redes homossexuais dentro da hierarquia. Outros sugeriram que os bispos têm medo de dizer algo negativo sobre a homossexualidade por medo de repercussões do Estado.

Eu acho que o primeiro argumento não tem peso considerável no contexto do Encontro. Existem grupos homossexuais, mas neste Encontro não foi decisivo, na minha opinião.

O segundo argumento que você mencionou tem algum peso, mas não foi decisivo. O medo da parte dos bispos de confrontar o mundo é um fator; o medo do mundo. Mesmo que eles possam ser pessoalmente contra a homossexualidade, eles temem um confronto com o mundo. Covardia clerical: novamente, clericalismo.

Mas a razão mais profunda, na minha opinião, é que há poderosos grupos entre bispos e cardeais que querem promover e mudar na Igreja a lei moral divina sobre o mal intrínseco dos atos homossexuais e do estilo de vida homossexual. Eles querem tornar a homossexualidade aceitável como uma variante legítima da vida sexual. Na minha opinião, esta é a razão mais profunda e talvez decisiva porque eles ficaram em silêncio e falharam em endereçar o problema. 

 

Sínodo Amazônico

Em outubro, um Sínodo sobre a Amazônia será realizado no Vaticano. Sua Excelência morou no Brasil por um tempo e está familiarizado com a região. Tem sido dito que há falta de padres na Amazônia, o que segundo alguns dizem, justificaria a introdução do viri probati. É verdade que existe uma crise sacramental e falta de padres?

Bem, há uma falta de padres na Amazônia, mas também há escassez em outros lugares. Há uma crescente escassez de padres na Europa. Mas a falta de padres é apenas um pretexto óbvio para abolir praticamente (não teoricamente) o celibato na Igreja latina. Este tem sido o objetivo desde Lutero. Entre os inimigos da Igreja e seitas, o primeiro passo é sempre abolir o celibato. O celibato sacerdotal é a última fortaleza a ser abolida na Igreja. A vida sacramental é apenas o pretexto para assim proceder. 

Em minha própria experiência na União Soviética, passamos vários anos sem a Santa Missa e sobrevivemos fortes na fé. A fé foi vivida na Igreja doméstica que é a família. A fé foi transmitida através do Catecismo. Nós orávamos. Fazíamos comunhões espirituais através das quais recebemos muitas graças. Quando de repente um padre veio depois de um ou dois anos, foi realmente uma festa, e nós ficamos tão felizes, conseguimos nos confessar sacramentalmente e Deus nos guiou. Então eu tive uma experiência pessoal disso em minha vida, na União Soviética.

Em relação ao Brasil: também morei e trabalhei no Brasil por 7 anos. E eu conheço os brasileiros. Eles são pessoas muito piedosas, pessoas simples. Eles nunca pensariam em clérigos casados. Não, esta é uma idéia posta em suas cabeças, não por povos indígenas, mas por pessoas brancas, por padres que não estão vivendo uma profunda vida apostólica e sacrificial. Sem a verdadeira vida sacrificial de um apóstolo, você não pode edificar a Igreja. Jesus Cristo nos deu o exemplo da oferta sacrificial de si mesmo, como fizeram os Apóstolos, os Padres da Igreja, os Santos, os Missionários. Isso construiu a Igreja com frutos espirituais duradouros para gerações inteiras.

A escassez de sacerdotes na Amazônia é para mim um exemplo do contrário: talvez os sacerdotes não tenham uma vida profundamente comprometida e sacrificial no espírito de Jesus e dos apóstolos e dos santos. Eles, portanto, procuram substitutos humanos. O clero indígena casado não levará a um aprofundamento e crescimento na Igreja Amazônica. Outros problemas certamente surgirão com o advento do clero casado na cultura indígena da Amazônia e em outras partes do mundo de Rito Latino.

O mais necessário é aprofundar as raízes da fé e fortalecer a igreja doméstica na Amazônia. Precisamos começar uma cruzada na Amazônia entre essas famílias indígenas, entre os cristãos católicos, pelas vocações – implorando a Deus pelas vocações para o sacerdócio celibatário, e elas virão.

Nosso Senhor disse para “orar”, então essa falta é um sinal de que não estamos orando o suficiente. E as pessoas estão sendo tentadas a rezar ainda menos por causa dos homens que estão enchendo suas cabeças com a promessa de que em outubro eles contemplarão a possibilidade de ter padres casados. Por isso, eles não mais rezarão para que seus filhos sejam sacerdotes como Jesus, que era celibatário. E Jesus é o modelo para todas as culturas.

Até um bom sacerdote celibatário indígena, um homem espiritual, poderia transformar tribos, como os santos o fizeram. São João Maria Vianney transformou quase toda a França. Padre Pio é outro exemplo. Eu não estou dizendo que devemos esperar este padrão de santidade, mas estou apresentando-os como exemplos da fecundidade sobrenatural que pode vir através de um sacerdote santo. Mesmo um homem espiritual simples e profundo que é dedicado a Jesus e às almas com seu celibato, um sacerdote indígena da Amazônia, certamente muito edificará a Igreja ali e despertará novas vocações pelo seu exemplo.

Este tem sido o método da Igreja desde o tempo dos apóstolos. E esse método foi testado e comprovado em 2000 anos de experiência missionária da Igreja. E isso será verdade até que Cristo venha. Não há outro caminho. Adaptar-se a abordagens puramente humanistas e naturalistas não enriquecerá a Igreja da Amazônia. Temos 2000 anos de história para provar isso.

Eu repito: o povo brasileiro está profundamente consciente da sacralidade do sacerdócio.Eis o que o Sínodo Amazônico deveria fazer: aprofundar a consciência da santidade do sacerdócio celibatário. A Igreja tem belos exemplos de missionários. Deve aprofundar e fortalecer a Igreja doméstica, ou seja, a vida familiar. E o sínodo deve iniciar com campanhas de adoração eucarística e de oração pelos sacerdotes e pelas novas vocações sacerdotais. Sem o sacrifício do amor, sem oração, não edificaremos uma Igreja local. Com o clero casado, não.

Não estou falando contra o clero casado nas Igrejas Ortodoxas ou nas Igrejas Católicas Orientais. Estou falando da tradição latina na América e na Europa. Nós temos que manter este tesouro sem enfraquecê-lo através da introdução de um clero casado, porque isso já foi provado por tantos frutos quando olhamos para ele de um ponto de vista abrangente.

Cardeais e a crise atual

Você acredita que é importante que os Cardeais falem sobre a crise na Igreja e, em caso afirmativo, de que forma você acredita que isso deve ser feito?

Sim, é muito oportuno e muito necessário porque a confusão só aumenta.

Penso que os cardeais deveriam abordar a questão do documento de Abu Dhabi e a frase sobre a diversidade das religiões, porque essa declaração leva, em última análise, a uma negação da verdade do caráter único e obrigatório da Fé em Cristo, que é ordenada pela Divina Revelação. Na minha opinião, a declaração de Abu Dhabi é a mais perigosa do ponto de vista doutrinário. Os cardeais devem pedir respeitosamente ao Santo Padre que corrija esta frase oficialmente.

Creio que seria também muito oportuno e necessário que os cardeais ou bispos emitissem uma espécie de profissão de fé, de verdades, ao mesmo tempo em que rejeitam os erros mais generalizados do nosso tempo. Na minha opinião, eles deveriam fazer uma profissão de verdades muito específica e enumerada, dizendo, por exemplo: “Eu mantenho firmemente isso…” seguido da refutação de um erro. Creio que tal profissão deve incluir todos os principais erros perigosos que estão se espalhando pela vida da Igreja em nossos dias.

Uma profissão reafirmando a fé, mas também refutando o erro?

Sim, na mesma sentença. Tal texto deve ser publicado e amplamente divulgado aos sacerdotes e bispos, talvez pedindo-lhes para fazer uma profissão pública com este texto nas paróquias e catedrais. Não haveria novidades. Afirmaria apenas o que a Igreja sempre professou.

28 agosto, 2018

Exclusivo – Reflexões de Dom Athanasius Schneider sobre o caso Viganò.

Agradecemos a Sua Excelência Reverendíssima Dom Athanasius Schneider por disponibilizar suas reflexões para publicação em português exclusiva de FratresInUnum.com

Reflexões sobre o “Testemunho” de Dom Carlo Maria Viganò, de 22 de Agosto de 2018 

Dom Athanasius Schneider, bispo auxiliar de Karaganda, Cazaquistão.

Dom Athanasius Schneider 

É um fato raro e extremamente grave, na história da Igreja, que um bispo acuse pública e especificamente o Papa reinante. Em um documento recentemente publicado (de 22 de Agosto de 2018), o Arcebispo Carlo Maria Viganò testemunha que, desde há cinco anos, o Papa Francisco possui conhecimento de dois fatos: que o Cardeal Theodor McCarrick cometeu violações sexuais contra seminaristas e contra seus subordinados, e que havia sanções, que o Papa Bento XVI lhe tinha imposto. Ademais, Dom Viganò confirmou sua declaração por meio de um juramento sacro invocando o nome de Deus. Não há, portanto, motivo razoável e plausível para duvidar da veracidade do conteúdo do documento do Arcebispo Carlo Maria Viganò.

Católicos por todo o mundo, simples fiéis, os “pequenos”, estão profundamente chocados e escandalizados com os graves casos recentemente divulgados, nos quais autoridades da Igreja acobertaram e protegeram clérigos que cometeram abusos sexuais contra menores e contra seus próprios subordinados. Tal situação histórica, que a Igreja vive em nossos dias, requer absoluta transparência em todos os níveis da hierarquia da Igreja, e, em primeiro lugar, evidentemente, do próprio Papa.

É completamente insuficiente e nada convincente que as autoridades da Igreja continuem a formular apelos genéricos de tolerância zero em casos de abusos sexuais por parte de clérigos e pelo término de acobertamento desses casos. Igualmente insuficientes são os apelos estereotipados de perdão em nome das autoridades da Igreja. Esses apelos por tolerância zero e pedidos de perdão se tornarão críveis somente se as autoridades da Cúria Romana lançarem as cartas à mesa, dando nome e sobrenome de todos aqueles na Cúria Romana – independentemente de seu posto e título – que acobertaram os casos de abusos sexuais de menores e de subordinados.

Do documento de Dom Viganò pode-se chegar às seguintes conclusões:

(1) Que a Santa Sé e o próprio Papa começarão a expurgar da Cúria Romana e do episcopado, sem compromissos,  as cliques e redes homossexuais. (2) Que o Papa proclamará de maneira inequívoca a doutrina Divina sobre o caráter gravemente pecaminoso dos atos homossexuais. (3) Que serão publicadas normas peremptórias e detalhadas, que impedirão a ordenação de homens com tendência homossexual. (4) Que o Papa restaurará a pureza e a inequivocidade de toda a doutrina Católica no ensinamento e na pregação. (5) Que será restaurada na Igreja, pelo ensinamento pontifício e episcopal e por normas práticas, a sempre válida ascese Cristã: os exercícios do jejum, da penitência corporal, da abnegação. (6) Que serão restaurados na Igreja o espírito e a praxe de reparação e expiação pelos pecados cometidos. (7) Que haverá na Igreja um processo seletivo, garantido seguramente, de candidatos ao episcopado, que sejam comprovadamente homens de Deus; e que seria melhor deixar as dioceses vários anos sem um bispo do que nomear um candidato que não fosse um verdadeiro homem de Deus na oração, na doutrina e na vida moral. (8) Que se iniciará na Igreja um movimento, especialmente entre cardeais, bispos e padres, de renúncia a qualquer compromisso e flerte com o mundo.

Não surpreenderia se, a oligarquia da mídia mainstream internacional, que promove a homossexualidade e a depravação moral, começasse a denegrir a pessoa do Arcebispo Viganò e deixasse o núcleo do assunto de seu documento cair no esquecimento.

Em meio à difusão da heresia de Lutero e à profunda crise moral de considerável parte do clero e, especialmente, da Cúria Romana, o papa Adriano VI escreveu as seguintes surpreendentes e francas palavras, dirigidas à Dieta Imperial de Nuremberg, em 1522: “Sabemos que, por algum tempo, muitas abominações, abusos em assuntos eclesiais, e violações de direitos ocorreram na Santa Sé; e que tudo foi corrompido para pior. A corrupção passou da cabeça para os membros, do Papa para os prelados: todos nós nos desviamos; não houve um que agisse bem, não, nem um”.

Firmeza e transparência em constatar e confessar os males na vida da Igreja ajudarão a iniciar um eficiente processo de purificação e renovação espiritual e moral. Antes de condenar os outros, todo detentor de cargo eclesiástico na Igreja, independentemente do cargo e título, deve se questionar, na presença de Deus, se ele mesmo acobertou, de alguma forma, abusos sexuais. Descobrindo-se culpado, deveria confessá-lo publicamente, pois a Palavra de Deus o admoesta: “Não te envergonhes de reconhecer tua culpa” (Ecl. 4:26). Pois, como São Pedro, o primeiro Papa, escreveu: “chegou o tempo do juízo, a começar pela Casa (Igreja) de Deus”. (1 Pedro 4:17)

+ Athanasius Schneider, Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Maria Santíssima em Astana

6 janeiro, 2018

IMPORTANTE: Entrevista do Bispo Athanasius Schneider ao Rorate Caeli sobre “Profissão das Verdades Imutáveis”, comunhão para “divorciados e recasados”

Dom Athanasius Schneider – auImage result for athanasius schneider bishopxiliar de Astana, no Cazaquistão, e um dos três redatores originais da Profissão das Verdades Imutáveis dessa semana em resposta a Amoris Laetitia e da aprovação oficial do papa Francisco concedendo a Sagrada Comunhão a alguns católicos “divorciados e recasados”,  participou de uma entrevista ao Rorate Caeli após o lançamento do documento.

RORATE CAELI (RC): Sua Excelência esteve pessoalmente à frente da restauração da liturgia tradicional por muitos anos. Agora, Sua Excelência, o Arcebispo Peta e o Arcebispo Lenga se viram obrigados a vir a público em defesa do sacramento do matrimônio após a divulgação de Amoris Laetitia. Por que três de vocês decidiram que agora era o momento de responder?

BISPO ATHANASIUS SCHNEIDER (BAS): Após a publicação de Amoris Laetitia, vários bispos e conferências episcopais começaram a emitir normas “pastorais” sobre os chamados “divorciados e casados novamente”. É preciso que se diga que, para um Católico não existe divórcio porque o vínculo sacramental válido de um casamento ratificado e consumado é absolutamente indissolúvel e até mesmo o vínculo de um casamento natural é por si mesmo indissolúvel. Além do mais, para um católico, há apenas um casamento válido enquanto o cônjuge legítimo ainda está vivo. Portanto não se pode falar em “recasamento” nesse caso.

A expressão “divorciado e casado novamente” é consequentemente enganosa e enganadora. Uma vez que esta expressão é a mais comumente conhecida, preferimos usá-la apenas entre aspas com a anterior observação “assim chamada”. As mencionadas normas pastorais em relação aos assim chamados “divorciados e recasados”,  normas essas mascaradas de uma retórica que beira o sofisma – preveem, em última instância, a admissão do “divorciado e recasado” à Sagrada Comunhão sem o requisito da condição indispensável e divinamente estabelecida para que eles não possam violar seu vínculo sagrado através do vínculo sexual habitual com uma pessoa que não é o legítimo cônjuge. Um certo climax foi atingido nesse processo de reconhecimento implícito do divórcio dentro da vida da Igreja quando o Papa Francisco ordenou publicar na Acta Apostolicae Sedis, sua carta de aprovação de normas similares que foram emitidas pelos bispos da Região Pastoral de Buenos Aires .

Este ato foi seguido pela declaração de que essa aprovação pertenceria ao autêntico Magistério da Igreja. Em vista de tais normas pastorais que contradizem a Divina Revelação na sua absoluta condenação do divórcio e contradiz também o ensino e a prática sacramental do infalível Magistério Ordinário e Universal da Igreja, fomos forçados pela nossa consciência, como sucessores dos Apóstolos, a elevar nossa voz e reiterar a doutrina e a prática imutáveis da Igreja quanto à indissolubilidade do casamento sacramental.

 

RC: A conferência to Cazaquistão lançou oficialmente uma interpretação de Amoris Laetitia? Eles planejam fazê-lo, ou isso significa que a conferência acredita que Amoris Laetitia não pode ser entendida de forma ortodoxa ou que é de alguma forma compatível com o Catecismo, com a Escritura e a Tradição?

BAS: O texto da “Profissão das verdades” não é um documento da Conferência Episcopal do Cazaquistão, mas apenas dos Bispos que a assinaram. Nossa Conferência Episcopal considerou não ser necessário emitir normas pastorais como uma interpretação da AL. Embora em nossa sociedade, a praga do divórcio está amplamente disseminada como consequência de 70 anos de materialismo comunista e nós também temos em nossas paróquias casos dos assim chamados “divorciados e recasados”,  esses mesmos “divorciados e casados novamente” não ousariam pedir para serem admitidos à Sagrada Comunhão, uma vez que o conhecimento e a consciência do pecado estão, graças a Deus, muito profundamente arraigadas em suas almas, mesmo vivendo numa sociedade civil.

Em nosso país, as pessoas cometem pecados como em qualquer outro lugar, mas nosso povo ainda acredita que o pecado é pecado e, portanto, para esses pecadores há esperança de conversão e de misericórdia divina. Seria então para o nosso povo – e até mesmo para os assim chamados “divorciados recasados” entre eles – uma espécie de blasfêmia exigir o acesso à Sagrada Comunhão enquanto continuam a coabitar com uma pessoa que não é o seu cônjuge legítimo. Portanto, nossa Conferência Episcopal não viu a necessidade de emitir normas relevantes.

 

RC: Nós tivemos a famosa dubia enviada ao Papa e uma correção filial – feita principalmente por leigos – enviada também. Nenhuma das duas obtiveram uma resposta. No entanto, muitos sentem que Francisco já respondeu em certo sentido, quando endossou oficialmente a instrução aparentemente herética dos bispos de Buenos Aires aos divorciados recasados que ainda permanecem coabitando. Será que deveríamos esperar mais alguma coisa de Francisco sobre esse assunto?

BAS: as instruções dos bispos de Buenos Aires não expressam diretamente uma heresia. No entanto, eles permitem, em casos individuais, receber a Santa Comunhão, apesar desses casais não terem intenção de parar com as relações sexuais com seus parceiros não conjugais. Nesse caso, as instruções pastorais negam na prática e, portanto, indiretamente, a verdade divinamente revelada da indissolubilidade do casamento. A triste circunstância é que o Papa aprovou tais instruções. Desta forma, o Papa deu, na minha opinião, uma resposta direta ao primeiro ponto e indiretamente aos quatro outros pontos da dubia. Só podemos esperar através de nossos apelos, orações e sacrifícios, que o Papa Francisco possa responder de modo inequívoco aos cinco pontos da dúbia de acordo com ensino relevante do Magistério infalível ordinário e universal.

 

RC: A ameaça para os fiéis foi clara, não só desde que Amoris Laetitia foi promulgada, mas pelas discussões em si emanadas dos sínodos. É inquestionável a confusão que foi causada. Todavia, assim como a utilidade da Humanae Vitae foi minada devido ao longo tempo que levou para ser publicada, será que não é tarde demais para sanar o dano, especialmente quando o próprio Papa acaba de dar oficialmente a permissão para alguns divorciados recasados receberem a Sagrada Comunhão?

BAS: Nós precisamos ter em mente que a Igreja não está nas nossas mãos, mas nas poderosas mãos de Cristo e assim não podemos dizer que é tarde demais para corrigir os danos. Também podemos aplicar a seguinte afirmação de São Paulo à nossa situação dentro da Igreja: “Onde o pecado abundou, a graça abundou ainda mais” (Romanos 5:20). Deus de alguma forma permitiu a atual confusão doutrinal e moral na Igreja com o objetivo de que após essa crise, a verdade triunfará de forma ainda mais brilhante e a Igreja se tornará espiritualmente mais bonita, especialmente através dos casais, das famílias e Papas.

 

RC: Ouvimos até agora, por mais de um ano , que uma correção formal proveniente dos cardeais era iminente, mas nada aconteceu. O que o senhor acredita que a está impedindo ?

BAS: diante do atual, temporal e parcial eclipse da função do Magistério Pontifício no que diz respeito concretamente à defesa e a aplicação prática da indissolubilidade do casamento, os membros dos colégios episcopais e cardinalício devem assistir o Papa neste ofício magisterial, através da pública profissão das verdades imutáveis contidas no magistério público e universal – o que significa o que todos os Papas e o inteiro episcopado durante todos os tempos – ensinaram no tocante à  doutrina e a prática sacramental do casamento.

 

RC: Se uma correção formal é feita por vários cardeais e Francisco continua a aprovar oficialmente as conferências dos bispos dando a Sagrada Comunhão a alguns divorciados e recasados, então como ficamos?

BAS: Existe o seguinte princípio da doutrina católica tradicional desde os primeiros séculos: “prima sedes a nemine iudicatur”, ou seja, a primeira cátedra episcopal na Igreja (a cátedra do Papa) não pode ser julgada por ninguém. Quando os Bispos recordam respeitosamente ao Papa as imutáveis verdades e disciplina da igreja, eles não julgam a primeira cadeira da Igreja, em vez disso se comportam como irmãos e irmãos do Papa. A atitude dos bispos em relação ao Papa deve ser colegial, fraterna, não servil e sempre sobrenaturalmente respeitosa, como enfatizou o Concílio Vaticano II (especialmente nos documentos Lumen gentium e Christus Dominus). Uma pessoa pode continuar a professar a imutável fé e rezar ainda mais pelo Papa e então, apenas Deus pode intervir e Ele o fará inquestionavelmente .

 

RC: Para o católico típico, que vai para a Igreja mas que não segue as políticas da Igreja, como fazem os leitores de Rorate, os católicos casuais que ouvem o Sumo Pontífice dizendo inúmeras coisas confusas durante os últimos anos, coisas que parecem contrárias (esperamos) a tudo o que lhes foi ensinado a vida inteira, o que a sua excelência diria a eles? E como os Católicos sérios podem rebater sempre que são perguntados pelos modernistas se eles se acham “mais católicos do que o Papa”?

BAS: Primeiramente, esses fiéis devem continuar a ler e estudar o Catecismo imutável, e especialmente os grandes documentos doutrinários da Igreja. Tais documentos são tema aqui, por exemplo, os Decretos do Concílio de Trento sobre os sacramentos; as encíclicas Pascendi de Pio X.; Casti connubii de Pio XI; Humani generis de Pio XII; Humanae vitae de Paul VI; o Credo do povo de Deus de Paulo VI; a encíclica Veritatis esplendor de João Paulo II; e sua Exortação Apostólica Familiaris consortio. Esses documentos não refletem um significado pessoal e de curta duração de um Papa ou de um sínodo pastoral. Em vez disso, esses documentos refletem e reproduzem o infalível Magistério Ordinário e Universal da Igreja.

Em segundo lugar eles devem ter em mente que o Papa não é o criador da verdade, da fé e da disciplina sacramental da Igreja. O Papa e todo o Magistério “não está acima da Palavra de Deus, mas apenas a seu serviço, ensinando apenas o que lhe foi transmitido ” (Concílio Vaticano II, Dei Verbum, 10). O Primeiro Concílio do Vaticano ensinou que o carisma do ministério dos sucessores de Pedro “não significa que eles devam tornar conhecida uma nova doutrina, mas que com a assistência do Espírito Santo devem religiosamente guardar e fielmente transmitir a revelação ou o depósito da Fé transmitida pelos Apóstolos. “(Pastor aeternus, cap. 4).

Em terceiro lugar, o Papa não pode ser o ponto focal da fé na vida diária do fiel Católico. O ponto focal deve ser Cristo. Caso contrário, nos tornamos vítimas de um insano papa-centrismo ou uma espécie de papolatria, uma tradição que é alheia à Tradição dos Apóstolos, aos Padres e à grande tradição da Igreja. O chamado “ultramontanismo” dos séculos XIX e XX atingiu seu pico em nossos dias criando um papa-centrismo e popolatria insanos. Para mencionar apenas um exemplo: houve em Roma lá pelo final do século 19 um famoso monsenhor que levava diferentes grupos de peregrinos para audiências papais. Antes de deixá-los entrar para ver e ouvir o Papa ele lhes dizia: “Ouçam atentamente as palavras infalíveis que sairão da boca do Vigário de Cristo”.  Certamente esta é uma caricatura do ministério Petrino contrária à doutrina da Igreja. No entanto, mesmo em nossos dias, não poucos católicos, sacerdotes e bispos mostram substancialmente a mesma atitude caricatural em relação ao sagrado ministério do sucessor de Pedro.

A verdadeira atitude em relação ao Papa de acordo com a tradição católica deve ser sempre com moderação sã, com inteligência, com lógica, com senso comum, com o espírito de fé e, claro, com devoção sincera. No entanto, tem que haver uma síntese equilibrada de todas essas características. Esperamos que, após a crise atual, a Igreja atinja uma atitude mais equilibrada e sã em relação à pessoa do Papa e ao seu sagrado e indispensável ministério na Igreja.

2 janeiro, 2018

Importante: Dom Athanasius Schneider e bispos do Cazaquistão lançam ‘Profissão sobre verdades imutáveis a respeito do sacramento do Matrimônio”.

[Atualização – 02/01/2018 às 19:19] Corrispondenza Romana acaba de anunciar que dois bispos italianos, Dom Luigi Negri e Dom Carlo Maria Viganò aderiram à iniciativa dos bispos do Cazaquistão.

Três bispos declaram leitura de Amoris Laetitia feita pelo Papa como “estranha” à Fé Católica.

LifeSiteNews, Roma, 2 de janeiro de 2018 | Tradução: FratresInUnum.com — Três bispos se pronunciaram contra a interpretação feita pelo Papa Francisco de Amoris Laetitia que permite o acesso de alguns divorciados recasados à Sagrada Comunhão, afirmando que tal leitura está causando “confusão desenfreada”, é “estranha” à Fé Católica, e disseminará uma “epidemia do divórcio” na Igreja.

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Dom Tomash Peta, Dom Jan Pawel Lenga e Dom Athanasius Schneider.

Dom Athanasius Schneider, bispo-auxiliar de Astana, Cazaquistão, Dom Tomash Peta, arcebispo metropolita de Astana, e Dom Jan Pawel Lenga de Karaganda, Cazaquistão, divulgaram uma Profissão de verdades imutáveis sobre o sacramento matrinonial em 31 de dezembro, como “um serviço de caridade na verdade” à Igreja de hoje e ao Papa.

Os bispos tomaram a decisão de realizar uma “pública e inequívoca profissão da verdade” a respeito do ensinamento da Igreja sobre a indissolubilidade do matrimônio, pois afirmam “não poderem permanecer em silêncio”.

Como bispos Católicos incumbidos de defender e promover a Fé Católica e a disciplina comum, afirmam ter uma “grave responsabilidade” e “dever perante os fiéis” que esperam deles “uma pública e inequívoca profissão da verdade e da imutável disciplina da Igreja acerca da indissolubilidade do matrimônio”.

Eles observam que após a publicação do documento do Papa Francisco sobre a família, Amoris Laetitia, diversos bispos e conferências episcopais divulgaram normas permitindo a alguns divorciados recasados civilmente, que não vivem em continência sexual, receber os sacramentos da Penitência e da Sagrada Comunhão. Eles enfatizam que essas várias autoridades hierárquicas (Alemanha, Malta e Buenos Aires, embora eles não as nominem) também receberam aprovação “até mesmo da suprema autoridade da Igreja”.

No mês passado, o Papa Francisco decidiu formalmente declarar a interpretação de Amoris Laetitia feita pelos bispos de Buenos Aires como “magistério autêntico”.

A disseminação dessas normas pastorais aprovadas eclesialmente “causaram uma considerável e sempre crescente confusão entre os fiéis e o clero” e são “meios de difusão da ‘epidemia do divórcio’ na Igreja”, escreveram os bispos do Cazaquistão.

“Nosso Senhor e Redentor Jesus Cristo solenemente reafirmou a vontade de Deus sobre a absoluta proibição do divórcio”, recordaram, e a Igreja sempre preservou e fielmente transmitiu tanto em sua doutrina como em sua disciplina sacramental “o ensinamento cristalino de Cristo” acerca da indissolubilidade do matrimônio”.

“Por conta da vital importância que a doutrina e a disciplina do matrimônio e da Eucaristia, a Igreja é obrigada a falar com a mesma voz. As normas pastorais a respeito da indissolubilidade do matrimônio não podem, portanto, ser contraditórias entre uma diocese e outra, entre um país e outro”.

“Desde os tempos dos Apóstolos”, explicam os bispos, “a Igreja observou este princípio, como testemunha Santo Irineu de Lion”:

“A Igreja, embora espalhada pelo mundo até os confins da terra, tendo recebido a Fé dos Apostólos e seus discípulos, preserva esta pregação e esta Fé com cuidado e, como Ela habita uma única casa, crê da mesma e idêntica maneira, como tendo uma só alma e um só coração, e prega a verdade da Fé, ensina-a e transmite-a em uma voz uníssona, como se tivesse uma só boca” (Adversus haereses, I, 10, 2).

Após, eles recordam a advertência do Papa João Paulo II de que a confusão semeada nas consciências dos fiéis por diferentes “opiniões e ensinamentos” enfraqueceria o “verdadeiro sentido de pecado, quase a ponto de eliminá-lo”.

O Papa João Paulo II erigiu a diocese de Santa Maria em Astana, Cazaquistão, em 1999, e a elevou à arquidiocese em 17 de maio de 2003, nomeando o bispo polonês Tomash Peta como seu arcebispo. No Sínodo Ordinário sobre a Família em 2015, Dom Peta, que participou como delegado do Cazaquistão, iniciou sua breve intervenção com as palavras do Beato Paulo VI pronunciadas em 1972: “Por alguma fresta, a fumaça de Satanás penetrou no templo de Deus”.

Ele, então, afirmou aos Padres Sinodais que estavam reunidos: “Estou convencido de que estas foram palavras proféticas de um santo Papa, o autor de Humanae Vitae, Durante o Sínodo do ano passado [2014], a ‘fumaça de Satanás’ estava tentando adentrar na aula Paulo VI [local em que ocorriam as sessões do Sínodo]”. O arcebispo acrescentou: “Infelizmente, pode-se ainda sentir o cheiro desta ‘fumaça infernal’ em alguns pontos do Instrumentum Laboris e também em algumas intervenções de certos padres sinodais neste ano”. [Leia a intervenção aqui.]

Na Profissão, Dom Athanasius Schneider, juntamente com os arcebispos Peta e Lenga, reiteram aos fiéis sete verdades imutáveis sobre o sacramento do matrinônio, e, “no espírito de São João Batista, São João Fisher, São Tomás Morus, da Beata Laura Vicuña e de numerosos confessores e mártires, conhecidos ou não, da indissolubilidade do matrimônio”, afirmam:

Não é licito (non licet) justificar, aprovar, legitimar, direta ou indiretamente, o divórcio e a relação sexual estável não conjugal, através da disciplina sacramental da admissão dos assim chamados ‘divorciados e recasados’ à Sagrada Comunhão, neste caso, uma disciplina estranha à toda a Tradição da Fé Católica e Apostólica.

Leia a íntegra da Profissão de verdades imutáveis sobre o matrimônio sacramental aqui.

23 setembro, 2017

Entrevista a D. Athanasius Schneider: “Não temos nada a perder quando dizemos a verdade”.

Publicamos em seguida a tradução de Senza Pagare da entrevista concedida por D. Athanasius Schneider, bispo-auxiliar de Astana (Cazaquistão), a Maike Hickson, do blog OnePeterFive

Maike Hickson (MH): Assinou, juntamente com o Professor Josef Seifert (entre muitos outros), a Declaração de Fidelidade confirmando o ensinamento tradicional da Igreja relativamente ao casamento. O Professor Seifert foi agora removido pelo seu arcebispo espanhol da sua Cátedra Dietrich von Hildebrand na Academia Internacional de Filosofia em Granada, Espanha – com a explícita referência adversa à sua crítica acerca de certas afirmações contidas na Amoris Laetitia. Podemos pedir a sua resposta a esta medida tão punitiva, que foi justificada com o argumento de que o Professor Seifert estava a enfraquecer a unidade da Igreja Católica e a confundir os fiéis?

Dom Athanasius em entrevista a Fratres in Unum.

Fevereiro de 2015 – Dom Schneider concede entrevista a Fratres in Unum em São Paulo.

Bispo Athanasius Schneider (BAS): O Professor Josef Seifert fez um acto urgente e muito meritoso ao formular publicamente e respeitosamente questões críticas acerca de certas afirmações evidentemente ambíguas no documento papal Amoris Laetitia, visto que estas afirmações estão a causar uma anarquia moral e disciplinar na vida da Igreja, uma anarquia que está à vista de todos e que ninguém que use a razão e tenha verdadeira fé e honestidade pode negar.

A medida punitiva contra o Professor Seifert da parte de um detentor de um posto eclesiástico é não somente injusta, mas representa ultimamente um desvio da verdade, uma recusa a um debate objectivo e a um diálogo, enquanto ao mesmo tempo a cultura do diálogo é proclamada como de maior prioridade na vida da Igreja dos nossos dias. Tal comportamento clerical contra um verdadeiro intelectual católico, como é o Professor Seifert, faz-me lembrar as palavras com que São Basílio Magno descreveu uma situação análoga no séc. IV, quando clérigos arianos invadiram e ocuparam a maioria das posições episcopais: “Apenas uma ofensa é agora vigorosamente punida – uma observância correcta das tradições dos nossos pais. Por esta causa os devotos são levados dos seus países e transportados para desertos. As pessoas religiosas mantêm silêncio, mas todas as línguas blasfemas são deixadas à solta” (Ep. 243)

MH: Quando falamos acerca da unidade da Igreja: qual é a base da unidade? Temos de sacrificar todo o debate racional e prudente acerca de matéria de Fé e Doutrina – se se estiverem a elevar ensinamentos diferentes e incomensuráveis – com o intuito de não causar possíveis fendas dentro da Igreja?

BAS: A base da autêntica unidade da Igreja é a verdade. A Igreja é na sua natureza “a coluna e o firmamento da verdade” (1Tim 3, 15). Este princípio é válido desde os tempos dos Apóstolos e é um critério objectivo para esta unidade: significa a “verdade do Evangelho” (cf. Gal. 2: 5.14). O Papa João Paulo II disse: “Mais do que unidade no amor, a unidade na verdade é sempre urgente para nós” (dirigido à Terceira Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, Puebla, 28 de janeiro de 1979). Santo Ireneu ensinou: “A Igreja acredita nas verdades da Fé tal como se tivesse apenas uma só alma, e um só coração, e ela proclama-as, ensina-as, e entrega-as, em perfeita harmonia, como se possuísse uma só boca” (Adv. haer., I, 10, 2).

No começo da Igreja, Deus mostrou-nos a obrigação de defender a verdade, quando se encontra em perigo de ser deformada por parte de quaisquer membros da Igreja, mesmo que seja proclamado da parte do Supremo Pastor da Igreja, como foi o caso com São Pedro em Antioquia (cf. Gal 2, 14). Este princípio de correcção fraterna no interior da Igreja foi válido em todos os tempos, mesmo direccionado ao Papa, e por isso deve ser válido no nosso tempo também. Infelizmente, quem quer que se atreva a dizer a verdade nos nossos dias – mesmo quando o faz com respeito para com os Pastores da Igreja – é classificado como um inimigo da unidade, tal como também sucedeu com São Paulo; pois, ele afirmou: “Tornei-me logo vosso inimigo porque vos disse a verdade” (Gal 4, 16).

MH: Muitos prelados permaneceram agora, no passado recente, em silêncio devido ao medo de causar um cisma na Igreja por fazer publicamente questões ou levantar objecções ao Papa Francisco em relação aos seus ensinamentos acerca do casamento. O que lhes diria acerca da sua escolha pelo silêncio? 

BAS: Primeiro que tudo, devemos ter em mente, que o Papa é o primeiro servo da Igreja (servus servorum). Ele é o primeiro a ter de obedecer de modo exemplar a todas as verdades do Magistério inalterável e constante, porque ele é apenas um administrador, e não um possuidor, das verdades católicas, que recebeu de todos os seus predecessores. O Papa nunca se deve ele próprio comportar em relação às verdades e disciplina constantemente transmitidas referindo-as como fosse um monarca absoluto, dizendo “Eu sou a Igreja” (analogamente ao Rei francês Luís XIV: “L’état c’est moi”). O Papa Bento XVI formulou este ponto aptamente: “O Papa não é um soberano absoluto, cujo pensar e querer são leis. Ao contrário: o ministério do Papa é garantia da obediência a Cristo e à Sua Palavra. Ele não deve proclamar as próprias ideias, mas vincular-se constantemente a si e à Igreja à obediência à Palavra de Deus, tanto perante todas as tentativas de adaptação e de adulteração, como diante de qualquer oportunismo.” (Homilia de 7 de Maio de 2005).

Os bispos não são trabalhadores do Papa, mas divinamente constituídos colegas do Papa, apesar de juridicamente subordinados a ele, mas mesmo assim colegas e irmãos. Quando o Papa tolera ele próprio uma ampla disseminação de erros óbvios de fé e de graves abusos dos sacramentos (como a admissão de adúlteros não arrependidos aos sacramentos), os bispos não se devem comportar como empregados servis embrulhando-se no silêncio. Tal atitude demonstraria indiferença em relação à grave responsabilidade do ministério Petrino e contradiria a própria natureza colegial do episcopado e o amor autenticado pelo Sucessor de Pedro. Devemo-nos lembrar das palavras de Santo Hilário de Poitiers, proferidas no tempo da confusão doutrinal geral do século IV: “Hoje, sob o pretexto de uma piedade que é falsa, sob a aparência enganadora de um ensinamento do Evangelho, algumas pessoas estão a tentar negar o Senhor Jesus. Eu digo a verdade, para que a causa da confusão que estamos a sofrer possa ser conhecida por todos. Não posso permanecer silencioso” (Contra Auxentium, 1, 4).

MH: Voltemos à crítica bem-educada do Professor Seifert à Amoris Laetitia. No seu novo artigo de Agosto de 2017, ele levanta a questão de se afirmar que por vezes casais divorciados e “recasados” devem ter de manter relações sexuais para o bem dos filhos desse novo laço não levar na realidade à conclusão de que já não existem absolutos morais; ou seja, que um pecado mortal pode, em certas situações, já não ser pecaminoso aos olhos de Deus. O Professor Seifert vê esta lógica como uma potencial “bomba atómica moral” que levará ao relativismo moral. Concordaria com ele neste aspeto? 

BAS: Estou completamente de acordo com o Professor Seifert neste ponto, e recomendo vivamente que outros também leiam o seu artigo magistral, intitulado “Does Pure Logic Threaten to Destroy the Entire Moral Doctrine of the Catholic Church?” (Será que a Lógica Pura Ameaça Destruir a Doutrina Moral Inteira da Igreja Católica?). No seu livro “Athanasius and the Church of Our Days” (Atanásio e a Igreja dos Nossos Dias), o Bispo Rudolf Graber de Regensburg escreveu em 1973: “O que aconteceu há 1600 anos atrás está a repetir-se hoje, mas com duas ou três diferenças: Alexandria é hoje a Igreja Universal, cuja estabilidade está a ser abalada, e o que estava em questão nessa altura por meios de força física e crueldade está agora a passar para um nível diferente. Exílio é substituído por expulsão para o silêncio de ser ignorado, matando por assassinato de carácter.” Esta descrição também se aplica ao actual caso do Professor Seifert.

MH: Tendo crescido num país de regime totalitário, quais são as suas próprias considerações acerca da liberdade académica em Espanha, quando um professor internacionalmente reconhecido pode ser removido das suas posições académicas meramente por ter levantado questões, questões educadas, sobre um documento papal e por ter apontado os possíveis perigos de algumas das suas afirmações? 

BAS: Durante décadas tornou-se politicamente correcto e “de bom tom” proclamar e promover praticamente a liberdade de discurso, debate e pesquisa, teológico, na Igreja, tanto que a liberdade de pensamento e de expressão se tornaram um slogan. Em simultâneo, pode agora observar-se o paradoxo desta mesma liberdade ser negada àqueles pertencentes à Igreja que nos nossos dias levantam a voz com respeito e educação na defesa da verdade. Esta situação bizarra lembra-me uma célebre canção que eu tinha de cantar na escola comunista na minha infância, e que dizia: “A União Soviética é a minha pátria amada, e não conheço outro país no mundo onde o homem pode respirar tão livremente.”

MH: Pode dizer-nos algumas palavras que o Cardeal Carlo Caffarra lhe tenha dirigido pessoalmente em relação à actual crise da Igreja, palavras dele que possam constituir, em parte, uma espécie de legado?

BAS: Falei apenas duas vezes com o Cardeal Caffarra. Até mesmo esses encontros e conversas curtas com o Cardeal Caffarra deixaram em mim algumas impressões profundas. Vi nele um verdadeiro homem de Deus, um homem de fé, de visão sobrenatural. Notei nele um amor profundo pela verdade. Quando falei com ele acerca da necessidade dos bispos erguerem a sua voz em relação ao ataque contra a indissolubilidade do matrimónio e a santidade dos laços sacramentais do matrimónio, ele disse: “Quando nós bispos fazemos isto, não devemos temer ninguém nem nada, pois não temos nada a perder.” Uma vez disse a uma senhora católica dos Estados Unidos, com uma fé profunda e grande inteligência, a frase utilizada pelo Cardeal Caffarra, nomeadamente que nós bispos não temos nada a perder quando dizemos a verdade. Em resposta ela disse estas palavras inesquecíveis: “Perderão tudo quando não fizerem isso.”

 

MH: Considera justificável que outros cardeais – tais como o Cardeal Christoph Schönborn ou o Cardeal Óscar Rodríguez Maradiaga – tenham censurado os quatro cardeais por terem publicado os dubia?

BAS: A formulação e publicação dos dubia por parte dos quatro cardeais foi altamente meritória e, de certa forma, também um acto histórico, honrando verdadeiramente o Colégio Sagrado dos Cardeais. Na presente situação, a indissolubilidade e a santidade do matrimónio sacramental estão a ser enfraquecidas e, na prática, negadas através da admissão normativa de adúlteros impenitentes aos sacramentos, banalizando e profanando assim também os sacramentos do Matrimónio, Confissão, e da Eucaristia. Em última instância está em causa a validade dos Divinos Mandamentos e toda a lei moral, tal como o Professor Seifert correctamente afirmou no seu artigo acima mencionado, e pelo qual foi severamente punido.

Podemos comparar esta situação a um navio num mar turbulento, no qual o capitão ignora os perigos óbvios, enquanto a maioria dos seus oficiais se envolvem em silêncio, dizendo: “Tudo está bem no navio a afundar.” Quando perante tal situação, uma pequena parte dos oficiais do navio levantam a voz pela segurança de todos os passageiros, são grotesca assim como injustamente criticados pelos seus colegas, como amotinadores ou como desmancha-prazeres. Mesmo que o capitão julgue as vozes dos poucos oficiais perturbadoras no momento, ele irá reconhecer agradecidamente a sua ajuda posteriormente, quando tiver de confrontar o perigo, olhando-o nos olhos, e quando estiver diante do Divino Juiz. Também ficarão agradecidos, tanto os passageiros como a História, quando o perigo tiver passado. O acto corajoso e os nomes daqueles poucos oficiais serão lembrados como verdadeiramente altruístas e heroicos; mas certamente não aqueles oficiais, que por ignorância, ou por oportunismo, ou por servilismo, se envolveram em silêncio ou até absurdamente criticaram aqueles que tomaram medidas de salvação naquele navio a afundar. De certa forma, isto corresponde à actual situação ao redor dos dubia dos quatro cardeais.

Temos de nos relembrar do que Santo Basílio observou durante a crise Ariana: “Os homens com autoridade têm medo de falar, pois os que alcançaram o poder através de interesses humanos são os escravos daqueles a quem devem a sua subida. E agora a própria defesa da ortodoxia é olhada em alguns lugares como uma oportunidade para o ataque mútuo; e homens escondem a sua própria vontade doente e fingem que a sua hostilidade é toda para o bem da verdade. Entretanto os não-crentes riem; homens de pouca fé vacilam; a fé é incerta; almas são submersas na ignorância, porque os adulteradores da palavra imitam a verdade. Os melhores dos leigos evitam as igrejas como escolas de impiedade e levantam as mãos nos desertos com suspiros e lágrimas ao Senhor no céu. A fé dos Padres da Igreja que recebemos; essa fé que sabemos ter o selo com as marcas dos Apóstolos; para aquela fé à qual assentimos, bem como para tudo o que no passado foi canonicamente e legalmente promulgado”. (Ep. 92,2)

MH: Agora que restam apenas dois cardeais dos dubia – depois da morte do Cardeal Carlo Caffarra e do Cardeal Joachim Meisner – quais são as suas próprias esperanças em relação a outros cardeais que possam agora surgir para colmatar este vazio? 

BAS: Espero e desejo que mais cardeais, à semelhança dos oficiais daquele navio num mar turbulento juntem agora as suas vozes às vozes dos quatro cardeais, independentemente de louvor ou culpa.

MH: Em geral, o que é que os católicos – leigos ou clérigos – fazem agora se estiverem a ser pressionados para aceitar alguns aspectos controversos da Amoris Leatitia, por exemplo em relação aos divorciados “recasados” e à possível permissão do acesso aos Sacramentos? E em relação àqueles padres que se recusam a distribuir a Sagrada Comunhão a esses casais “recasados”? E em relação aos professores católicos leigos que estão a ser ameaçados com o afastamento das suas posições de ensino devido ao seu criticismo, patente ou latente, face à Amoris Leatitia? O que é que podemos todos fazer quando confrontados, na nossa consciência, com as alternativas de trair os ensinamentos de Nosso Senhor, ou seguir em firme desobediência aos nossos superiores? 

BAS: Quando padres ou leigos se mantém fiéis ao imutável e constante ensinamento e prática de toda a Igreja estão em comunhão com todos os papas, bispos ortodoxos e Santos de dois mil anos, estando em especial comunhão com São João Baptista, São Thomas More, São John Fisher e com os inumeráveis esposos abandonados que se mantiveram fiéis aos seus votos, aceitando a vida de continência de maneira a não ofender Deus. A voz constante no mesmo sentido e significado (eodem sensu eademque sentencia) e a respectiva prática de dois mil anos é mais poderosa e segura do que a voz discordante e a prática de admitir adúlteros impenitentes à Sagrada Comunhão, mesmo que esta prática seja promovida por um único Papa ou bispos diocesanos. Neste caso temos de seguir o ensinamento constante e prática da Igreja, pois aqui entra a verdadeira tradição, a “democracia dos mortos”, o que significa a voz maioritária daqueles que nos precederam.

Santo Agostinho respondeu à errada e não tradicional prática Donatista de re-baptizar e de re-ordenar, afirmando que a constante e imutável prática da Igreja desde o tempo dos Apóstolos corresponde ao juízo seguro do mundo inteiro: “O mundo inteiro julga acertadamente”, i.e., “Securus judicat orbis terrarum” (Contra Parmenianum III, 24). O que significa que toda a tradição Católica julga seguramente e com certeza contra a prática fabricada e de curta-duração que, num ponto importante, contradiz todo o Magistério de todos os tempos. Esses padres, que seriam agora forçados pelos seus superiores a distribuir a Sagrada Comunhão a públicos e impenitentes adúlteros, ou a outros conhecidos e públicos pecadores, devem responder com uma santa convicção: “O nosso comportamento é o comportamento de todo o mundo Católico ao longo de dois mil anos”: “O mundo inteiro julga acertadamente”, “Securus judicat orbis terrarum”!

O Beato John Henry Newman disse na Apologia pro sua vita: “O juízo intencional, em que toda a Igreja repousa e concorda, é uma prescrição infalível e uma sentença final contra uma novidade temporal.” Neste nosso contexto histórico esses padres e fiéis devem dizer aos seus superiores eclesiásticos, e bispos, tal como devem dizer com caridade e respeitosamente ao Papa o que São Paulo uma vez disse: “Porque, nada podemos contra a verdade, senão pela verdade. Porque nos alegramos de ser fracos, enquanto vós sois fortes. E ainda rogamos pela vossa perfeição.” (2Cor 13, 8-9)

13 junho, 2017

Em memória de Padre Ingo Dollinger, por Dom Athanasius Schneider.

Padre Ingo Dollinger: um digníssimo formador de seminaristas e sacerdotes brasileiros em tempos obscuros e difíceis. Colaboração exclusiva de Dom Athanasius Schneider a FratresInUnum.com.

Na solenidade da Santíssima Trindade, em 11 de junho de 2017, o Reverendíssimo Padre Ingo Dollinger deixou esta terra após uma longa vida, da qual sessenta e três anos como sacerdote. Foi uma vida plena de abundantes frutos espirituais e de grandes méritos para a verdadeira renovação da vida da Igreja, dada a profunda e extraordinária crise pela qual ela está passando já há mais de cinquenta anos.

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À direita na imagem, padre Dollinger em cerimônia de ordenação sacerdotal conferida por Dom Manoel Pestana Filho.

O reverendíssimo Padre Dollinger foi, sobretudo, um mestre e pai sacerdotal para numerosos seminaristas e jovens sacerdotes na Europa e, principalmente, no Brasil. A esse nobre sacerdote pertence o duradouro mérito de ter contribuído no modo decisivo junto com Dom Manoel Pestana, o então santo bispo de Anápolis, e a Ordem dos Cônegos Regulares da Santa Cruz, para que no Brasil fosse criado um centro de formação sacerdotal de segura doutrina filosófica e teológica e de uma espiritualidade sacerdotal autenticamente católica. Isso se realizou em Anápolis graças à existência do Seminário Diocesano do Imaculado Coração de Maria, fundado por Dom Manoel Pestana e dirigido muitos anos pelo Padre Dollinger, e também graças ao Institutum Sapientiae, pertencente à Ordem dos Cônegos Regulares da Santa Cruz, no qual Padre Dollinger desempenhou por longo tempo a função de professor e de Reitor. Eu tive o privilégio de ter tido por muitos anos Padre Dollinger como meu professor em Anápolis. Suas aulas teológicas e seus conselhos espirituais me marcaram profundamente, o que guardarei sempre com gratidão.

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Ordenação sacerdotal no seminário de Anápolis, Goiás.

Na sua altamente meritória obra sacerdotal, o nosso saudoso Padre Dollinger se consumiu em favor da Igreja num dos tempos mais difíceis dos anos 80 do século passado, quando a vida da Igreja no Brasil era dominada pelo quase monopólio da assim chamada “teologia da libertação”.

Queira Deus que as sementes espirituais lançadas ao solo da Terra da Santa Cruz pelo grande labor apostólico do Padre Dollinger, tragam muitos frutos duradouros na vida e no apostolado daqueles seminaristas e sacerdotes que tiveram nele seu mestre e pai espiritual. Isso contribuiria para maior alegria à alma plenamente sacerdotal do nosso querido e saudoso Padre Ingo Dollinger, pelo qual nós rezamos com gratidão e ao qual pedimos que implore para os nossos dias muitos santos seminaristas, muitos santos sacerdotes e, sobretudo, muitos santos formadores sacerdotais com zelo ardente pela glória de Deus e de Sua casa, que é a Igreja.

13 de junho de 2017,

+ Dom Athanasius Schneider, Bispo Auxiliar da arquidiocese de Maria Santíssima em Astana, Cazaquistão

16 dezembro, 2016

Dom Athanasius Schneider: “Infalibilizar tudo o que diz o Papa não é católico”.

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13 dezembro, 2016

Dom Athanasius Schneider – palavra final sobre ‘Amoris Laetitia’.

A seguinte palestra foi proferida por Sua Excelência Reverendíssima Dom Athanasius Schneider, Bispo Auxiliar de Astana, Cazaquistão, na Fundação Lepanto, em 5 de dezembro, e traduzida por Matthew Cullinan Hoffman de LifeSiteNews – tradução para o português de Rafael Ribeiro de Faria especialmente para FratresInUnum.com.

Dom Athanasius Schneider, bispo auxiliar de Karaganda, Cazaquistão.

Dom Athanasius Schneider,..

ROMA, Itália, 9 de dezembro de 2016 — Quando Nosso Senhor Jesus Cristo pregou a verdade eterna dois mil anos atrás, a cultura, isto é, o espírito reinante daquele tempo, estava radicalmente oposto a Ele. Especificamente, havia o sincretismo religioso, o gnosticismo das elites intelectuais e a permissividade moral das massas, especialmente no que diz respeito à instituição do matrimônio. “Estava no mundo e o mundo foi feito por Ele, e o mundo não o reconheceu.” (João 1:10.)

A maioria do povo de Israel, em particular os sumos sacerdotes, os escribas e os Fariseus, rejeitaram o Magistério da divina revelação de Cristo e também a proclamação da indissolubilidade absoluta do matrimônio. “Veio para o que era seu, mas os seus não o receberam”. (João 1:11). Toda a missão do Filho de Deus na Terra consistiu na revelação da Verdade: “É para dar testemunho da verdade que nasci e vim ao mundo”. (João 18:37).

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