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11 fevereiro, 2020

Viri improbati? Começou o delírio dos papólatras contra a o povo fiel.

Por FratresInUnum.com, 11 de fevereiro de 2020 — Gostaríamos de aguardar a publicação oficial, esperada para amanhã, mas, já há alguns dias, começaram as fugas de notícias sobre a iminente publicação de “Querida Amazônia”, a Exortação apostólica que daria encaminhamento às discussões daquele que ficou conhecido como Sínodo da Pachamama.

Segundo fontes indiscretas, o documento não conteria nenhuma menção explícita à ordenação dos chamados viri probati (homens casados de boa fama), nem tampouco à ordenação de mulheres e outros temas heterodoxos abordados durante o evento sinodal. O próprio Papa Francisco teria dito ontem a bispos americanos que “não haverá nenhuma mudança em relação aos padres casados”.

Mal saída a notícia, os cleaners já começaram com sua histeria coletiva, transferindo a Francisco todo o mérito desta medida supostamente não aberturista. Para os papólatras, não importa o que aconteça, a pessoa de Bergoglio (não o papado em si, note-se) sempre tem de sair fortalecida, quando erra e quando acerta, a despeito de toda confusão causada, da desorientação generalizada, do clima péssimo produzido, alimentado, insuflado pessoalmente por ele.

Não podemos cair no erro de retirar do sensus fidelium o protagonismo do momento. Ao contrário do que esses bajuladores carreiristas fizeram, passando diariamente o pano em cada absurdo dito por Francisco, o povo fiel se manifestou, mandou abaixo-assinados, protestou em praças e, sobretudo, rezou, rezou muito para que essa desgraça não sobreviesse à Igreja, com o auxílio de Deus e de Nossa Senhora.

Se Francisco não for adiante nessa matéria, não é porque não quis (como, aliás, sempre deu mostras de querer), mas porque não pôde. O livro de Bento-Sarah acerca do vínculo entre celibato e sacerdócio não foi senão um dos últimos sinais da vigorosa resistência católica acerca do tema, que conduziu a questão para termos irrespondíveis por parte de Francisco. Sua fúria decorrente do imbroglio da publicação do livro não permite outra interpretação.

Contudo, ao contrário do que a constelação dos papólatras alucinados poderá celebrar nas próximas horas, a confirmar-se a notícia, o tema do celibato foi reduzido a uma mera questão disciplinar sem importância pelo próprio Francisco. Reparem nestas palavras do discurso final do Sínodo:

“O perigo pode ser que talvez se entretenham — é um perigo, não estou a dizer que o fazem, mas a sociedade pede-o — por vezes, para ver o que decidiram nesta matéria disciplinar; o que decidiram noutra; que partido ganhou, qual perdeu? Em pequenas coisas disciplinares que têm a sua importância, mas que não fariam o bem que este Sínodo deve fazer. Que a sociedade se encarregue do diagnóstico que fizemos nas quatro dimensões. Eu pediria à imprensa para o fazer. Há sempre um grupo de cristãos de elite que gosta de se envolver, como se fosse universal, neste tipo de diagnóstico. Nas mais insignificantes, ou neste tipo de resoluções disciplinares mais intra-eclesiásticas, eu não digo intereclesial, intra-eclesiástica, e dizer que ganhou este setor ou aquele. Não, todos vencemos com os diagnósticos que fizemos e até onde fomos em questões pastorais e intra-eclesiásticas. Mas não nos fechemos nisto. Pensando hoje nessas “elites” católicas, e às vezes cristãs, mas especialmente católicas, que querem dedicar-se “ao pequeno” e esquecer o “grande”, lembrei-me de uma frase de Péguy, fui procurá-la. Tento traduzi-la bem, acho que nos pode ajudar, quando temos que descrever esses grupos que querem o “pequeno” e esquecem o “grande”. «Porque não têm coragem de estar com o mundo, pensam que estão com Deus. Porque não têm a coragem de se comprometer com as escolhas de vida do homem, eles acreditam que estão a lutar por Deus. Porque não amam ninguém, acreditam que amam a Deus». Fiquei muito feliz por não termos caído prisioneiros desses grupos seletivos que do Sínodo só quererem ver o que foi decidido sobre este ponto intra-eclesial ou sobre esse outro, e negarão o corpo do Sínodo que são os diagnósticos que fizemos nas quatro dimensões”.

A anestesia dos cleaners serve apenas para insensibilizar os leigos para o surgimento da nova igreja amazônica, para os pactos que se farão nas próximas semanas (o pacto econômico e educativo), para a reforma da Cúria Romana (que o próprio Francisco mencionou no discurso final do Sínodo), reforma que dará maior liberdade às conferências episcopais, para a instalação da Igreja Sinodal — tenha-se presente, sobretudo, o cismático sínodo da Alemanha que se está realizando.

Enfim, para aqueles que preferem a ilusão papólatra, a desinformação de que Francisco é uma espécie de novo confessor da fé parecerá verossímil, a despeito de tudo aquilo que ele mesmo fez. Para os católicos que não se iludem mais com esses enganos e cinismos, esta é apenas um conquista advinda da misericórdia de Deus e da própria resistência dos fiéis, conquista que nos confirma na certeza de que estamos no caminho certo e de que há que se resistir a Francisco com todas as forças, e até o fim.

13 março, 2017

‘Viri probati’. O Celibato na mira.

Por FratresInUnum.com – 13 de março de 2017: Em Roma, fortalece-se o rumor de que a Santa Sé deveria permitir, até o fim deste ano, a ordenação de homens casados — os chamados viri probati — para a região da Amazônia. Vale buscar os arquivos de FratresInUnum.com, que tratou pela primeira vez da questão em abril de 2014, antes de qualquer outro meio de comunicação, quando o pontificado de Francisco apenas acabara de completar um ano.

Mais tarde, em abril de 2016, escrevíamos: “Estamos em condições de afirmar que o assunto [celibato] foi pauta de reunião privativa dos bispos na Assembléia da CNBB de 2015, sendo capitaneado por Dom Cláudio Hummes. Então, o arcebispo emérito pediu que os bispos do Brasil fizessem uma ‘proposta concreta’ a Francisco sobre o tema. A recém-eleita presidência da CNBB não demonstrou nenhum empenho especial pela causa, por conta divisão do episcopado brasileiro a respeito”.

Em entrevista concedida ao jornal alemão Die Zeit, publicada na semana passada, o pontífice não disse que estudaria a proposta de extinguir o celibato, mas que estudaria a possibilidade de que alguns homens casados pudessem exercer algumas funções sacerdotais, os chamados viri probati.

Afirmou o Papa:

“A vocação dos padres representa um problema enorme e a Igreja deverá resolvê-lo. No entanto, o celibato opcional, ou seja, facultativo, não é a solução, nem mesmo abrir as portas dos seminários a pessoas que não apresentam uma autêntica vocação. Já a questão dos viri probati é uma possibilidade, todavia, se deve precisar quais as tarefas que essas pessoas poderiam assumir nas comunidades “isoladas”. O Senhor disse: rezem. É isso que falta, a oração. E falta o trabalho com os jovens que procuram orientação”.

Frenesi generalizado em sites católicos pró-establishment [exemplos aqui e aqui], que se desdobram apressadamente: não é o celibato que está em jogo, mas, apenas uma exceção para casos extremos! Como se na Igreja pós-conciliar todas as excepcionalíssimas exceções — vide comunhão na mão, mulheres acólitas, etc — não se tornassem, em pouco tempo, regra absoluta inquebrantável.

Que o Senhor tenha misericórdia de nós e intervenha.

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12 abril, 2014

Ainda o encontro de Francisco com Dom Erwin Kräutler. O caso dos ‘viri probati’.

A matéria abaixo dá mais detalhes sobre o diálogo divulgado, em primeira mão, pelo Fratres no último domingo.

Papa Francisco: homens casados podem ser ordenados sacerdotes se os bispos estiverem de acordo

Por Secretum Meum Mihi | Tradução: Fratres in Unum.com – Um novo tema ressurgiu a partir da audiência de Dom Erwin Kräutler com o Papa Francisco (além de sua referida colaboração na encíclica sobre a ecologia). Trata-se dos viri probati, tema esse que acreditávamos que já estivesse arquivado.

Tradução feita a partir da tradução do Secretum Meum Mihi da parte principal de um artigo publicado no The Tablet, de 10 de abril de 2014.

Papa Francisco: homens casados podem ser ordenados sacerdotes se os bispos estiverem de acordo

10 de abril de 2014 por Christa Pongratz-Lippitt – Um bispo que se reuniu com o Papa Francisco em uma rara audiência privada, no dia 4 de abril, disse em uma entrevista que os dois discutiram o tema da ordenação de homens casados “provados” — viri probati — de uma maneira séria e positiva.

Dom Erwin Kräutler, bispo de Xingu, na selva tropical do Brasil, conversou com o Papa a respeito da próxima encíclica de Francisco sobre o meio ambiente e o tratamento dos povos indígenas, porém, a desesperadora escassez de sacerdotes na grande diocese do bispo veio à tona na conversa. De acordo com uma entrevista que o bispo, nascido na Áustria, deu ao diário Salzburger Nachrichten, no dia 5 de abril, o Papa estava com a mente aberta a respeito de encontrar soluções para o problema, dizendo que as conferências episcopais poderiam ter um papel decisivo.

“Disse-lhe que, como bispo da maior diocese do Brasil, com 800 comunidades eclesiais e 700.000 fiéis, só tinha 27 sacerdotes, o que significa que nossas comunidades só podem celebrar a Eucaristia, no máximo, duas ou três vezes ao ano”, disse o bispo Kräutler. “O Papa explicou que não podia tomar tudo nas mãos pessoalmente estando em Roma. Nós, os bispos locais, que estamos mais familiarizados com as necessidades de nossos fiéis, devemos ser corajudos, ou seja, ‘valentes’ em espanhol, e dar sugestões concretas”, explicou. Um bispo não deveria atuar sozinho, disse o Papa a Kräutler. Ele deu a entender que “as conferências episcopais regionais e nacionais deveriam dar um jeito de encontrar um consenso sobre a reforma e logo deveríamos levar a Roma nossas sugestões para reforma”, disse Kräutler.

Ao ser indagado se ele havia perguntado na audiência sobre a ordenação de homens casados, o bispo Kräutler respondeu: “O assunto da ordenação de viri probati, ou seja, dos homens casados provados que poderiam ser ordenados ao sacerdócio, surgiu quando estávamos falando da difícil situação de nossas comunidades. O mesmo Papa me falou de uma diocese no México, em que cada comunidade tinha um diácono, porém, muitas não tinham nenhum sacerdote. Havia 300 diáconos ali que, naturalmente, não podiam celebrar a Eucaristia. A questão era como as coisas poderiam continuar nessa tal situação”.

“Cabia aos bispos apresentar sugestões, disse novamente o Papa”.

Então, perguntaram a Dom Kräutler se agora dependia das conferências episcopais no que tange às reformas da Igreja prosseguirem ou não. Ele respondeu que “Sim”, “Depois da minha conversa pessoal com o Papa, estou absolutamente convencido disso”.

[…]

A referência a “uma diocese no México” é precisamente a diocese mexicana de San Cristobal das Casas, onde falta tudo, menos diáconos [Nota do Fratres: Bento XVI mesmo chegou a proibir oficialmente a ordenação de mais diáconos naquela diocese, pois via-se claramente que o propósito era promover o diaconato permanente em detrimento das vocações sacerdotais]

O artigo também faz referência a uma entrevista no Salzburger Nachrichten de 5 de abril de 2014. Porém, na realidade, ele é de 8 de abril de 2014, página 9 (ver imagem acima, clique para ampliar; cópia do artigo aqui).

* * *

[Atualização – 12/04/14 às 12:37] Nota do Fratres: Dom Erwin poderia pedir umas dicas à FSSPX sobre como manter uma taxa de crescimento de sacerdotes nos últimos anos. Achamos que seu método seja um tanto ineficiente, não é Dom Erwin? Talvez seja realmente uma daquelas mazelas trazidas do Velho Mundo por Brancos Viciados

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11 setembro, 2021

O desabafo de um padre diocesano.

FratresInUnum.com, 11 de setembro de 2021 – É muito ruim sentir “pena” de alguém, é o que costumam dizer… Afirmam estes que pena é um sentimento indigno de se sentir por alguém, que coloca esse alguém numa posição humilhante, quase que indigna de um ser humano…

Porém, não encontro um sentimento mais adequado para os sacerdotes seculares, particularmente os diocesanos.

Mesmo sem fiéis, os padres não só podem como devem rezar a Missa

Muita gente olha para o padre com compaixão: muitas vezes vive realmente na pobreza, não possui esposa, nem filhos etc. Mas tudo isso foi amplamente considerado por ele desde que percebeu os vislumbres da vocação. De tal modo, que as privações da vida sacerdotal não o assustam, como não deve assustar a um cirurgião ver sangue.

Mas, particularmente nos últimos anos, a situação dos padres diocesanos tem piorado e causado grandes dores a esses homens que nem em seus piores pesadelos podiam imaginar que passariam pelo que têm passado. Dentre várias situações, vou descrever algumas:

a) Papalatria: os padres diocesanos estão sendo postos numa posição em que precisam escolher entre a Igreja ou o Papa. Entre toda a doutrina e moral que o Senhor confiou à sua Igreja ou à febre demolidora de Francisco. A tal ponto que Francisco, conscientemente assumiu a postura de um outro Cristo capaz de dizer: “Ouvistes o que foi dito, eu porém vos digo”. Somente Deus poderia dizer tal coisa, ou um blasfemo que se sente deus. O padre diocesano que desposou a Igreja não reconhece mais o rosto da sua esposa e, por isso, é levado a crer que ela foi sequestrada e outra mulher, horrível, foi posta em seu lugar.

b) Episcopocracia: outro manancial de feridas e dores para os padres diocesanos é o autoritarismo dos bispos. Numa igreja sem fé e sem moral, quem governa são os homens e não Deus, portanto, não há mais mandamento nem dogma, há apenas a necessidade de agradar que se manifesta em cansativas expressões como “estar em comunhão”. Um padre hoje está (de um ponto de vista apenas imediato e material) completamente nas mãos do Bispo. Quando se tem um Bispo que pelo menos deixe que se seja católico, as coisas vão com certa tranquilidade; mas quando não, a vida do padre será tal que para continuar católico, aparentemente, terá que ser cismático.

c) Covardia fraterna: É claro que seus colegas (irmãos seria uma palavra forçosa demais e, na maior parte dos casos, uma mentira) não estão alheios a essa crise, e a combatem virilmente sussurrando nos corredores do retiro do clero… Mas são covardes, e num afundar de um navio os primeiros que fogem são os ratos. Esses padres não têm a vergonha de oscilar entre fé e heresia, entre a moral de situação e a moral católica, entre a batina e camisa polo. A meta de sua existência é agradar ao bispo, e esquecem que sendo o bispo um homem convém temer não a ele, mas Àqu’Ele que tem poder de tirar essa vida e de jogar a alma no inferno. Querem cargos, poder, prestígio, não para depô-los aos pés de Cristo Rei, mas para tomarem o lugar daqu’Ele a quem deveriam servir.

d) Democracia sinodal: Até alguns anos atrás não chocava aos ouvidos de ninguém ouvir que a Igreja não é democrática, mas hierárquica. Porém, quando muitos dos sucessores dos Apóstolos escolheram suceder unicamente a Judas, seguindo um modelo comunista, os Bispos criaram “conexões diretas” com certos membros do laicato que, num evidente clericalismo, muitas vezes tendo em vistas coordenações, prestígio e poder, poderiam movimentar boa parte do povo de uma paróquia no caminho que o Bispo desejasse, ficando o padre diocesano entre o mar e as pedras… Essas conexões diretas dos Bispos não são nada mais que informantes, que futriqueiras, levam-e-traz que são os responsáveis por dizer: “O Bispo não gosta do nosso pároco”; “O nosso pároco não segue as normas do plano pastoral”; “Sabiam que nessa semana nosso padre foi chamado na mitra?”.

É claro que nem todo o povo de uma paróquia está de acordo com o que é determinado pela hierarquia. Esses fiéis, verdadeiramente católicos não se opõem por causa de um gosto pessoal, mas quando as determinações ferem diretamente a doutrina, moral ou liturgia da Santa Igreja. Mas esses, mesmo imensa maioria, não contam. São negacio-nazi-fasci-terraplani- tradi-hiper-ultra-conserva-intole-homeschol-lefebri-tridenti-monforti-cedebistas.

e) Fantasma dos abusos: nunca serão suficientemente lamentados os abusos sexuais feitos por aqueles que deveriam inculcar o amor à castidade e à pureza. Mas hoje a palavra abuso, e isso é proposital, pode referir-se tanto a um estupro como a uma chamada de atenção (mesmo que serena e caridosa) que o padre deu à mulher que colocou os paninhos verdes, quando a cor litúrgica seria vermelha. E isso é feito para que simplesmente se possa qualificar aquele padre como “abusador” que, num inconsciente coletivo, será completado pela palavra “sexual”. Hoje se fala em tantas formas de abuso, que não se pode mais corrigir uma pessoa, chamar a atenção ou até mesmo fazer as perguntas necessárias para a validade de uma confissão.

E, retornando aos terríveis abusos sexuais, falta, mesmo na Lei Civil, determinar melhor não apenas as variações que podem ocorrer nesse crime, como o modo de conduzir o processo de forma que haja uma necessidade de provas materiais distintas dos depoimentos das supostas vítimas, o que, convenhamos, pode ser fonte de vários processos injustos e viciosos.

Dentro ainda dessa linha, é minimamente curioso que muitas vezes sejam exatamente sobre padres considerados tradicionais ou conservadores que se levantem esse tipo de acusação, sem (e não por falta de buscas) nenhuma outra prova que um ou outro relato contraditório.

Na lei do papa da misericórdia e da ternura, o simples fato que alguém diga que “acha que soube que viu num dia que não se lembra direito que” um padre cometeu um abuso já é motivo para suspender o padre e, se o bispo não o fizer, o bispo.

Ok. O que acontece com esse padre?

Ele não tem a estrutura de uma congregação religiosa ou convento para o abrigar. Voltará para casa da mãe, para viver de esmolas e tentar não se matar.

f) A impossibilidade de ignorar a hierarquia: durante décadas muitos padres optaram por fazer de conta que não viam os erros e viver uma vida ensinando o catecismo verdadeiro para as pessoas, celebrando piedosamente, vivendo “em comunhão”, mas sem “exageros”. Hoje isso é impossível. A quantidade de reuniões, assembleias, votações, declarações papais, motu proprios seguidos por orientações diocesanas, parecem ser um cabo de vassoura enfiado na toca de um animal que só queria permanecer quietinho e morrer em paz. É impossível a um padre hoje ficar isento. Ou rompe e permanece católico de verdade, ou permanece católico de mentira porque na verdade apostatou da fé. Achou complicada a frase anterior? É isso mesmo. Tão complicada como a situação atual.

g) Desconfiança tradicionalista: Alguém de fora poderia pensar que esses padres diocesanos encontrariam apoio nos fiéis ditos “tradicionalistas”, mas não é bem assim. Também ali, muitas vezes, esses padres encontram a frieza e a desconfiança. Muitos desses fiéis, levados por outros padres também “tradicionalistas”, questionam a validade dos sacramentos desse padre (até mesmo sua ordenação, em alguns casos); ficam atentos a um ou outro erro que possa cometer ao celebrar num rito que ama sem nunca ter visto; temem seus conselhos, uma vez que foi formado “no modernismo”; e, se dele se aproximam, é por não terem outra opção, mas sempre com desconfiança.

Enfim, essas são breves reflexões que escrevi num só fôlego, na esperança de que suscitem realmente pena, mas uma pena que leve à oração e, se possível, a alguma forma de apoio.

Pe. Mariano – 10.IX.2021

7 agosto, 2021

Ditadura soviética na Igreja? A espionagem de Bergoglio.

Por FratresInUnum.com, 7 de agosto de 2021 – Não existe ditadura sem um potente serviço de espionagem; e não poderia ser diferente no bergolioperonismo. Agora, depois de derrogar autoritariamente as disposições tomadas por Bento XVI acerca da Missa de Sempre – pior: enquanto ele ainda vive –, chegam vozes de que está armando uma central de espionagem eclesiástica.

As informações chegam do LifeSiteNews. “Em conversas com diferentes fontes – todos especialistas vaticanos ou membros do Vaticano que quiseram permanecer anônimos – LifeSite foi informado de que o Papa Francisco pretende levar à prática o seu Motu Proprio Traditiones Custodes, destinado essencialmente a suprimir a Missa latina tradicional, servindo-se de um sistema de espionagem e sobretudo do chefe da Congregação dos religiosos, o cardeal João Braz de Aviz. Braz de Aviz traz consigo uma história de dura perseguição para com comunidades religiosas orientadas à tradição, em particular os Franciscanos da Imaculada”.

Duas fontes disseram que o papa usará um “sistema de espionagem” ou uma “rede de espionagem”: “Usarão o sistema de espionagem. Por todos os lados existem os demasiadamente zelosos que referirão a Roma que se celebra o rito antigo neste ou naquele lugar ou que acusarão aqueles bispos que não intervêm”. “As informações recolhidas por estes ‘espiões’, prosseguiu a fonte, serão utilizadas contra aqueles bispos que já são considerados antipáticos”.

Uma das fontes afirmou: “Penso que o papa punirá da maneira possível qualquer bispo que o desafiar diretamente. Ele usou as suas redes de espionagem com bons resultados durante toda a sua carreira, sem jamais parar”. “Esta mesma fonte pensa que o papa poderia também usar as acusações de acobertamento de abusos sexuais como instrumento para fazer calar os bispos resistentes”.

“Um observador vaticano disse que, por hora, durante o verão (europeu) ‘não acontecerá nada’ e que será difícil dizer que coisa acontecerá. Mas é claro que ‘o Vaticano é um regime e é obvio que Bergoglio queira eliminar a Missa traducional’. Este papa, prosseguiu a fonte, ‘tem um ódio ideológico profundamente radicado’ contra essa Missa, e é ‘um homem de poder agressivamente autocrático, que não aceita oposição”.

Todas essas informações mostram o caráter verdadeiramente despótico de Francisco. O qual, de resto, já é abundantemente conhecido por todos. Contudo, a informação nos parece bastante exagerada e propositalmente plantada para inibir a resistência, a fim de que a própria militância católica desista de lutar, caindo na paranoia persecutória.

É verdade que Francisco é um déspota. É verdade que ele detesta qualquer coisa que seja católica e tradicional. É verdade que ele escreveu este Motu Proprio com a intenção de exterminar completamente a Missa de Sempre. Mas não é verdade que ele tenha tanto poder assim. Ele age mais pela imposição do medo do que pela realidade da sua própria força.

Todas as agendas que ele tem perseguido desde o primeiro dia do seu pontificado fracassaram exemplarmente. Ele não teve coragem nem de dizer claramente que queria mudar a disciplina acerca da Sagrada Comunhão para os recasados; teve que colocá-lo criptograficamente numa nota de rodapé, disposto a sair correndo quando qualquer um lhe perguntasse algo mais explícito (os dubia não foram respondidos até hoje, ato que mostra muito da sua covardia). O mesmo aconteceu com os viri probati do Sínodo da Amazônia, com as diaconisas da comissão que ele montou, com a intercomunhão para os luteranos etc. etc.

Francisco foi feito de trouxa no Chile, saiu defendendo um pedófilo e depois descobriu que foi enganado. E nem precisamos falar sobre o affaire de Becciu ou sobre a esquisitíssima visita apostólica que ele ordenou na Congregação para o Clero, dando uma saída desonrosa para um de seus maiores apoiadores, o cardeal Stella. O seu pontificado termina com uma imensa marca de fracasso, ainda mais aprofundado pela pandemia, que terminou de relegar ao vazio todo o seu inócuo magistério.

É verdade que, entre um e outro copo de Whisky, o cardeal Aviz suprima alguma congregação, mas isso pode acontecer com qualquer instituto religioso – ao menos com os pobres, pois há certas instituições ricas por aí que nem visita apostólica consegue abalar. Tudo é questão de coragem e de postura! – E, é claro, de alguns presentinhos de grife e de alguns envelopes recheados de generosidade.

Se naqueles anos de chumbo de Paulo VI teve padre que enfrentou a oposição e continuou celebrando a Missa de Sempre até hoje, por que, agora, com a autoridade erodida de Francisco, a coisa seria diferente?… Essas fofocas vaticanas parecem mais hipérboles destinadas a provocar retração do que qualquer coisa de séria. Não porque Francisco não o queira, mas simplesmente porque não o pode: ele está com o intestino costurado por uma cirurgia, está velho e nem a sua ruindade pode reverter nada disso. O que ele fez foi assinar um papel, que nem foi ele sequer que escreveu, cheio de coisas contraditórias e inobserváveis, e o máximo que terá são futricas de efeminados mexeriqueiros que abundam pelas conferências episcopais a cuidar da vida das outras e liturgistas lunáticos a cuspir regras pelas sacristias. C’est tout!

A União Soviética tinha exército, tinha dinheiro, tinha um serviço secreto de verdade. Bergoglio tem um Vaticano falido e desmoralizado, com oficiais que estão querendo pegar parceiros homossexuais através de aplicativo de paquera gay, e um monte de velho progressista disperso. Talvez haja alguma punição exemplar aqui ou ali, mas não há fôlego para tanta intervenção. Os dias de glória deste pontificado ficaram no passado, muito no passado!

Os padres que continuem em santa paz celebrando a sua Missa, os bispos que permaneçam estáticos em sua desimportância, e tudo seguirá “como dantes no quartel de Abranches”.

6 agosto, 2021

Uma questão de maioria.

Por FratresInUnum.com, 6 de agosto de 2021 – Logo após a publicação de Traditionis Custodes, o cardeal Walter Kasper, uma das maiores eminências pardas deste pontificado, afirmou num comunicado:

“Fala-se um número crescente de fiéis que desejam o ‘rito antigo’, mas, em minha experiência, a esmagadora maioria dos fiéis é firmemente contra ele. Sei que muitas pessoas ficam escandalizadas quando vão à Basílica de São Pedro em Roma de manhã cedo e veem que em muitos altares os padres celebram a ‘missa antiga’ sem acólitos e sem a participação dos fiéis. Eles se voltam para a basílica vazia e dizem: ‘Dominus vobiscum’, ‘Orate fratres’ etc. Alguns jovens padres vêm e querem celebrar a ‘missa em latim’, mas não sabem latim, enquanto a grande maioria de seus paroquianos prefere ter a missa em sua língua vernácula, então isso traz divisão e brigas na paróquia e as pessoas vão embora”.

A peregrinação anual do “Populus Summorum Pontificum”, que reúne fieis do mundo todo ligados à Missa Tradicional, foi confirmada o próximo mês de outubro.

Bem… A natureza germânica deste pontificado argentino é uma das absurdidades mais desorientadoras jamais vista, inclusive porque Francisco sucede justamente um pontífice alemão, que era muito mais livre e muito menos subserviente à agenda progressista teutônica do que ele. Desde a “comunhão dos recasados”, passando pela ordenação dos viri probati, até a bênção de duplas homossexuais e a abolição da chamada forma extraordinária do rito romano, tudo isso obedece esquematicamente aos interesses daquela decadente igreja. É impressionante.

Contudo, na afirmação do Cardeal Kasper há algo de simultaneamente verdadeiro e mentiroso que pode desbaratar o leitor. De um lado, ele tem razão quando diz que a maioria dos católicos não é adepto da Missa tradicional. Trata-se efetivamente de grupos minoritários, os quais têm crescido, especialmente em países como os Estados Unidos, a França e a Alemanha, mas cuja representatividade e força ameaça vivamente o legado progressista dos teólogos do Concílio. Ademais, estes grupos não são formados por católicos de estatísticas, mas propriamente por católicos militantes, fervorosos, convictos e combativos, cuja capacidade de persuasão ultrapassa de longe qualitativamente o ganho quantitativo do grupo que Kasper apresenta como antagonista.

Em termos superficiais, chega a ser incompreensível o porquê de Bergoglio ter-se indisposto de tal modo com uma fração tão aguerrida da Igreja. Apenas quando se percebe o nível de desmoralização a que são expostos os impostores do Concílio é que se entende a importância que tem para eles a completa extinção destes católicos autênticos.

Todavia, Kasper erra rotundamente quando diz que a maior parte dos católicos é contra a Missa tradicional. Na verdade, isso simplesmente não lhes importa, ainda mais num país como a Alemanha, cujos índices de frequência à Missa não param de despencar desde o Concílio, queda vertiginosa que se agrava, e não apenas lá, especialmente após a presente pandemia.

Neste sentido, é muito mais realista a observação do cardeal Zen, arcebispo emérito de Hong Kong:

“O problema não é ‘que rito as pessoas preferem?’, mas sim ‘por que não vão mais à missa?’ Algumas pesquisas mostram que metade da população cristã na Europa já não acredita na presença real de Jesus na Eucaristia, já não acredita na vida eterna! Certamente não culpamos a reforma litúrgica, mas só queremos dizer que o problema é muito mais profundo. Não podemos evitar a pergunta: ‘Não será que faltou, talvez, formação na fé? Porventura, não será que o grande trabalho do Concílio foi desperdiçado? Parte do Motu Proprio parece esperar claramente a morte dos grupos dedicados à forma extraordinária da missa. Mas, mesmo com isso, será que os homens anti-Ratzinger do Vaticano não podiam esperar pacientemente que a missa tridentina morresse junto com a morte de Bento XVI, em vez de humilhar o venerável papa emérito desta maneira?”.

São palavras de fogo! Palavras que vão ao cerne da questão!

A preocupação de Traditionis Custodes de frear a “forma extraordinária” do rito romano é consideravelmente mais escandalosa quando considerada a apostasia generalizada em que se está mergulhando a maior parte da civilização ocidental, que já não se importa mais com missa alguma, muito menos depois da secularização da liturgia após o Vaticano II. Será uma mera coincidência que multidões e multidões de fieis tenham abandonado a Eucaristia justamente depois da reforma litúrgica?

Como conta Antoine Burckhardt em seu forte testemunho, muitos fieis descobriram na chamada Missa de São Pio V “um oásis de sacralidade neste deserto de desencanto que é o Ocidente” e, como ele, que aos 23 anos “ia desertar do culto dominical, docemente, na ponta dos pés”, encontraram ali justamente o maravilhamento de que necessitava a sua fé.

A maioria de que fala Kasper não é contra a Missa Tridentina, apenas não crê mais, abandonou o cristianismo, perdeu completamente qualquer inclinação sobrenatural, não vai à Igreja, deixou para sempre de frequentar o culto divino. É tudo só isso. E justamente quando o catolicismo passa por tão aguda crise, Francisco se dá o direito de hostilizar parte dos seus fieis, talvez a parte menor e, por isso, mais indefesa.

Como dizia Burckhardt, sobre Traditionis Custodes,

“O desejo de controlar, punir, humilhar realmente parece inspirar todas as suas linhas. Por que esse catálogo de decisões cruéis que transformam os ‘tradis’ em párias? Como o Soberano Pontífice afirma que este texto é motivado por um desejo de reconciliação, quando tudo indica que muitos padres fiéis e humilhados não terão outra escolha a não ser responder a este texto indo engrossar as fileiras dos lefebvristas? Agindo desta forma, este papa mesquinho, sectário e voluntariamente manipulador, infelizmente, apenas confirma o que muitos católicos já pensam dele… Francisco é para a Roma dos Papas, o que Nero foi para a Roma dos Césares: um tirano e uma vergonha”.

Talvez boa parte da hierarquia, formada com a mentalidade juspositivista de obedecer cegamente tudo o que manda a autoridade, precisará de muito tempo para se dar conta do erro cometido com este impiedoso documento. Até lá, a crise de fé apenas se acentuará e a maioria já não estará mais aqui para ouvir o sino tocar novamente e a voz do sacerdote dizer: “Introibo ad altare Dei, ad Deum qui laetificat juventutem meam”.

16 junho, 2021

Não, o Papa Francisco não cancelou um encontro com o presidente Biden.

Por Joshua J. McElwee, National Catholic Register, 15 de junho de 2021 | Tradução: FratresInUnum.comO Papa Francisco não se encontrou com o presidente dos EUA, Joe Biden, hoje, 15 de junho. Apesar de relatos da mídia conservadora em sentido contrário, sequer parece que o papa planejou fazê-lo.

Biden está na Europa desde 9 de junho para sua primeira viagem ao exterior como presidente, participando de uma cúpula de líderes do G7 na Grã-Bretanha no fim de semana, antes de participar de reuniões com oficiais da Otan e da União Europeia em Bruxelas, Bélgica, de 14 a 15 de junho.

O então vice-presidente dos EUA, Joe Biden, encontra o Papa Francisco depois que os dois líderes falaram em uma conferência sobre pesquisa com células-tronco adultas no Vaticano, em 29 de abril de 2016, foto de arquivo. (CNS / Paul Haring)

Durante a tarde de 15 de junho, o presidente deveria viajar a Genebra, na Suíça, para um encontro bastante aguardado, no dia seguinte, com o presidente russo Vladimir Putin.

Segundo a Catholic News Agency – CNA [no Brasil, ACI Digital], de propriedade da EWTN, Biden faria uma parada rápida em Roma para se encontrar com Francisco no caminho de Bruxelas para Genebra. Alguns problemas imediatos com essa história: Roma não está no caminho para Genebra (fica a cerca de 885 quilômetros mais ao sul). E não há sequer uma única evidência que demonstre que tal encontro alguma vez esteve na ordem do dia.

CNA originalmente relatou sobre a possibilidade de um encontro Biden-Francisco  em 3 de junho , citando fontes não identificadas do Vaticano. O veículo dobrou a história em 14 de junho, relatando  em um artigo sem um autor nomeado  que o encontro aconteceria em 15 de junho, mas Francisco teria rejeitado os planos de celebrar a missa com Biden, um católico.

Mais problemas: no meio da manhã em Roma, nenhum encontro havia acontecido. O tráfego de pedestres na Via della Conciliazione, a rua que leva ao Vaticano, não foi bloqueado por segurança, como quase sempre acontece quando visitantes importantes visitam o papa (quando o presidente Donald Trump conheceu Francisco, em 2017, barricadas foram erguidas para bloquear os quarteirões do Vaticano.) 

Ao meio-dia, Emily Zeeberg, oficial de relações públicas da embaixada dos Estados Unidos na Santa Sé, disse ao NCR: “O presidente Biden não tem planos de visitar Roma ou a Cidade do Vaticano esta semana”. O arcebispo Paul Gallagher, ministro das Relações Exteriores do Vaticano, também disse ao NCR que “não tinha conhecimento” dos planos para tal encontro entre Biden e Francisco.

A programação oficial do presidente para 15 de junho certamente não deixava muito espaço para improvisações. Ele deveria ter encontros privados com o rei e o primeiro-ministro da Bélgica e com os presidentes do Conselho e da Comissão Europeia, antes de ir a Genebra para encontros com o presidente da Confederação Suíça. 

O sentimento entre outras fontes do Vaticano e de autoridades americanas em Roma sobre os relatos de uma visita de Biden era algo como o emoji de “encolher os ombros”. Por que Biden viria agora, especialmente quando ele já deve viajar a Roma em outubro para participar de uma cúpula dos líderes do G20?

As reuniões papais demoram a ser preparadas e Biden ainda nem nomeou um embaixador dos Estados Unidos junto à Santa Sé.

Claro, os relatos sem fontes da reunião presidencial não ocorrida com Francisco surgiram enquanto o catolicismo de Biden estava sob os holofotes nacionais. Os bispos dos Estados Unidos estão se preparando para realizar uma reunião virtual, de 16 a 18 de junho, na qual  discutirão  um documento sobre se políticos católicos pró-escolha [ndt: isto é, favoráveis ao aborto] como Biden devem receber a comunhão.

Pode-se notar que a matéria de 14 de junho da CNA alegando que Francisco cancelou os planos de celebrar a missa com Biden foi elogiada em um e-mail para jornalistas enviado pelo Instituto Bento XVI, uma organização com sede em São Francisco, que nas últimas semanas tem divulgado comunicados de imprensa do Arcebispo Salvatore Cordileone.

Cordileone, arcebispo de São Francisco desde 2012, está entre os membros da Conferência Episcopal dos Estados Unidos que lideram os trabalhos sobre o novo documento sobre políticos católicos pró-escolha, mesmo depois que o chefe da congregação doutrinária do Vaticano pediu aos prelados que  procedessem com cautela  no plano .

Em um comunicado de 26 de maio divulgado pelo Instituto Bento XVI, Cordileone disse ter ficado “profundamente entristecido” por outros bispos que sugeriram que a conferência poderia adiar o plano, dadas as preocupações do Vaticano.

Na tarde de 15 de junho, a CNA corrigiu sua matéria sobre a missa papal supostamente planejada de Biden. A reportagem, disseram, foi feita “erroneamente”. 

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25 abril, 2021

O Leão de Campos (V): Quem era este homem?

Dom Antônio de Castro Mayer

Dom Antônio de Castro MayerCruz 25 de abril de 1991.

Fidelium animae per misericordiam Dei

requiescant in pace.

Q

uem era este homem elevado a uma posição de alta responsabilidade eclesiástica em 23 de maio de 1948? Quem era este homem que se tornaria uma das “duas testemunhas” da Igreja de sempre, sacrificando a honra do mundo e dias calmos na defesa da Fé Católica?

Todo homem permanece em certo grau envolto em mistério, o coração de cada personalidade humana individual e o centro de cada alma é aberto e revelado apenas para Deus. Há certos aspectos de Dom Antônio de Castro Mayer que não são misteriosos, mas abertos e claros a qualquer olho observador. Facetas de sua personalidade e aspectos de sua alma eram totalmente públicos. Era um daqueles homens abençoados com a unidade de ser, o interno e externo em harmonia, os vários lados de seu caráter unificados num todo. Um homem íntegro. Em seu caráter pode ser encontrado apenas dois mistérios reais a serem explorados mais tarde. Em sua época de fragmentação, insegurança e angústia existencial, andava ele, um homem justo, uno, em paz com seu Deus.

Dom Antônio[…] Nesta primeira foto do novo bispo de Campos consagrado em 1948, a autoridade descansa confortavelmente em seu possuidor; há “aquilo no rosto que [qualquer um] chamaria de bom grado de senhor”. Todos que o conheciam e especialmente aqueles que foram afortunados o bastante para conhecê-lo bem atestam esta autoridade, um dom dado por Deus.

Eles não podem falar do homem e mencionar seu nome sem suas vozes e comportamento assumirem uma espécie de temor e reverência. E, todavia, curiosamente, eles nunca mencionam estas qualidades diretamente. Parecem quase inconscientes do grande efeito que a presença deste homem tinha sobre eles. Sua atitude e vitalidade criavam estima em todos que o encontravam, uma estima próxima da veneração. Ainda quando essas mesmas pessoas falavam diretamente de seu jeito, quando escreviam aquelas qualidades especiais que o faziam único, falavam primeiro de sua humildade, sua simplicidade, sua inocência. Modesto em sua juventude, permaneceu um homem humilde por toda sua vida. Nunca se promovendo nem trabalhando para garantir o avanço de sua carreira quando jovem, permaneceu distante das honras do mundo e muitas vezes mesmo de seus simples prazeres.

Durante sua enfermidade final, que foi longa, seu médico expressou espanto por nunca ter ouvido aquele homem reclamar sequer uma vez, pouco importasse quanto desconforto ou dor experimentava. Quando seus padres tiveram de cuidar dele por causa de seu estado enfraquecido, nunca o ouviram se queixar. Dependia de seus padres para suas refeições. Perguntavam-no: “prefere mamão ou banana de fruta?”. Replicava: “você escolhe”. “Mas temos as duas. Qual você prefere?”, respondiam. “Tanto faz, você escolhe”. As graças de Deus eram abundantes; Dom Antônio apreciaria qualquer coisa que aparecesse em seu caminho. Assim, não surpreende ter vivido numa simplicidade quase de um eremita, se poderia dizer pobreza, no palácio episcopal. Chegaria o dia em que o mundo o puniria por esta santa austeridade. Esse não é o jeito do mundo.

Seus prazeres terrenos eram poucos.  Seus livros, claro, mas isso não é novidade. Aparentemente sua única verdadeira ligação a prazeres deste mundo era seu amor pelo pingue-pongue. Nos fins de seus dias, uma raquete em sua mão indicaria a primavera de vida renovada e energia juvenil. Uma raquete em sua mão extrairia do misterioso íntimo de seu ser um desejo competitivo invisível. Com zelo, ele desafiaria seus padres, os fiéis da diocese ou as crianças que o visitavam. A batalha de dentro e fora da raquete na bolinha branca de plástico sob o revestimento verde na mesa lhe dava grande alegria. Instituiu um campeonato especial e, quando já eram passados seus próprios dias como jogador,  ainda se deliciava assistindo os quatrocentos meninos de toda a diocese mostrarem suas habilidades e avançarem os postos, raquetes em mãos, até a vitória final. Um troféu especial viaja toda primavera para a paróquia cujos moços mostraram a mais extraordinária proeza na competição de pingue-pongue daquele ano.

Tinha uma habilidade de mover-se entre seus fiéis e misturar-se com eles na vida cotidiana sem de qualquer maneira diminuir ou desfigurar sua autoridade. Sentia-se tão confortável oferecendo uma Missa Solene no Natal ou Páscoa diante de uma multidão abarrotada na Basílica do Santíssimo Salvador em Campos, uma igreja elevada ao status de basílica através de seus esforços, como ao oferecer uma benção à turma da primeira série em sua pequena cerimônia de formatura. Viveu a vida de sua diocese com os fiéis em todos os seus aspectos, em toda faceta possível da existência do dia-a-dia, e contudo sempre manteve sua dignidade como seu bispo. Serviria [como acólito] enquanto era bispo a Missa de seus jovens padres. O fazia sem falsa humildade e sem nunca fazê-los se sentir desajeitados. Não havia nada sobre sua própria Missa que a fizesse extraordinária, nada que a distinguisse. Era um bispo, sim; foi, além disso, um artesão, como o foi seu pai, fazendo bem seu trabalho e no melhor de suas habilidades, mas, ao mesmo tempo, ciente de que estava fazendo um trabalho. Sua atitude foi sempre “arregaçar as mangas e trabalhar”, e fez este trabalho sem pretensão ou esperança de elogios. As palavras do escritor inglês Evelyn Waugh vêm à mente. Numa carta escrita em 1964 ao Catholic Herald, Waugh alertava para os perigos da “renovação explosiva” dos inovadores do Concílio Vaticano Segundo “que desejam mudar o aspecto exterior da Igreja”. Ele chegava a descrever sua própria conversão, especificamente aqueles aspectos da Fé que o levaram à Igreja. Aquela “atração estranha” que mais o atraía, dizia, “era o espetáculo do padre e seus ajudantes na Missa rezada, subindo lentamente o altar sem dar uma olhada sequer para saber os muitos ou poucos que tem em sua congregação; um artesão e seu aprendiz; um homem com um trabalho que apenas ele é qualificado para fazer” (Waugh, Evelyn, A Little Order – Boston: Little, Brown, 1977 – pág. 188). O relato é uma descrição apropriada do trabalho do Bispo de Campos.

Um de seus padres o descreveu nestas palavras: “Ele foi um homem de grande simplicidade. Tinha a alma de uma criança”. Nunca falou mal de outros e se recusava a acreditar, às vezes para sua tristeza, que outros pensariam ou falariam mal dele. Amava crianças e aproveitava as ocasiões quando podia estar com elas. Era, em seu tranqüilo modo, uma delas.

Também permaneceu uma criança em sua devoção às suas mães, sua mãe terrena e sua Mãe espiritual. A incessante e intensa devoção de Dom Antônio à Santa Mãe de Deus marcou seu reinado em Campos. Uma de suas primeiras ações ao tornar-se Bispo de Campos foi publicar uma ordem especial a seus padres – doravante na diocese, ao fim de toda Missa, três Ave-Marias adicionais seriam rezadas pelo padre e fiéis à Nossa Santa Mãe com a intenção de que ela preservasse a verdadeira Fé Católica e de que a heresia nunca encontrasse abrigo na diocese. Tal devoção foi recompensada.

Ele mesmo rezaria o rosário em todas as horas do dia ou da noite. Seus padres relatam que quando viajavam com ele, muitas vezes ele os acordava em horas incomuns para rezar o rosário porque adorava rezar acompanhado. Certa vez durante uma visita ao seminário da Fraternidade São Pio X em Ecône, Suiça, o bispo acordou seus companheiros de viagem depois do “apagar das luzes” do seminário, uma hora de silêncio estritamente obrigatório, e anunciou seu desejo de rezar o rosário. Lembraram a ele que era tarde e que o seminário estava observando um período de silêncio e repouso, mas sua devoção a Nossa Senhora não seria dissuadida. Foram com ele assim que começou a andar pelos corredores do seminário com sua voz ecoando as Ave-Marias. As cabeças dos seminaristas enraivecidos começaram a aparecer enquanto mais e mais portas iam se abrindo bruscamente. Ao encontrar o vibrantemente fervoroso Dom Antônio como o réu rezador, suavemente fechavam suas portas e envergonhados retornavam para suas camas.

[…] A qualidade final de Dom Antônio de Castro Mayer que definia seu caráter é a óbvia – sua grande inteligência. Este dom é evidenciado em suas cartas pastorais e em sua vida, mas pode logo de início ser visto numa espécie de símbolo nas fotos do homem naqueles extraordinários óculos que adornavam seus olhos penetrantes. Se alguém fosse fazer uma caricatura do homem, começaria certamente por aqueles óculos. Pouco depois de sua elevação ao trono episcopal de Campos, os óculos apareceram – enormes, pesados, armação tipo concha. Os olhos escuros que brilham com intenso pensamento ficaram ampliados e pareciam colocados como jóias escuras nos sólidos círculos moldurados dos óculos. Eles dominavam sua cabeça e atraiam a atenção em toda fotografia para aqueles sábios olhos e à mente ágil trabalhando por detrás deles.

Dom AntonioNa medida em que chegava a idade, o bispo e já pequeno homem começou a diminuir fisicamente, encolhendo em tamanho enquanto seu espírito crescia, e os óculos, por serem os mesmos, tornavam-se cada vez mais salientes. Pareciam se tornar gigantes. Ao fim de sua vida, quando os anos e as provações por defender a Fé e a Igreja de Cristo cobraram seu preço total e reduziram a forma física de Dom Antônio novamente ao tamanho diminutivo de um garoto, os óculos tomavam muito do espaço na menor tela da face e servia como prismas escuros radiando a inteligência para fora em fluxos de sábias luzes. No fim ele era uma “sábia criança”, um prodígio idoso para a época.

Padre Possidente, que cuidou do bispo até o fim, conta de sua recuperação de consciência exatos quarenta minutos antes de sua morte. Embora seu corpo estivesse reduzido ao desamparo, embora ele pudesse respirar com muita dificuldade, e embora a fala agora fosse algo do passado, “seus olhos estavam completamente vivos”. Eles cintilavam com “a verdadeira luz que ilumina todo homem e que veio a este mundo”, a luz que este bispo “conheceu”, “recebeu” e “intensificou”. Brilhavam com a “verdadeira luz” que não pode se apagar.

The Mouth of the Lion: Bishop Antonio de Castro Mayer and the last Catholic Diocese. Dr. David Allen White, Angelus Press, 1993 – pág. 51 a 57

Leia as postagens anteriores da série sobre o Leão de Campos.

Post publicado originalmente em 2009.

16 dezembro, 2020

Por que os católicos carismáticos deveriam apreciar a Missa Latina Tradicional.

Agradecemos a gentileza do Dr. Peter Kwasniewski por nos fornecer já traduzido seu artigo publicado originalmente em Rorate Caeli.

Por Peter Kwasniewski

Universidade Franciscana de Steubenville, 23 de setembro de 2020

Em que pese minhas considerações de hoje se concentrarem na Missa Latina Tradicional, também irei além disso. Falarei, dentre tantos aspectos, sobre a ocultação do Espírito Santo, o antigo rito do batismo e o papel do Espírito em nossa vida pessoal devocional. O presente caso que apresento a vocês na forma de um esboço rápido revela que o melhor veículo de apoio a uma vida vivida no poder e na graça do Espírito Santo é a liturgia católica tradicional e tudo o que vem nela embutido.

De início, eu gostaria de citar um fato intrigante da história da Igreja: ao longo dos 2.000 anos de cristianismo, o Espírito Santo nunca foi tão tematizado na teologia, na espiritualidade e na liturgia da mesma maneira que o Pai e o Filho foram. Por que isso aconteceu?

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23 junho, 2020

A pequena “viagem apostólica” de Bento XVI.

Por FratresInUnum.com, 23 de junho de 2020 — Chega a ser impressionante como Bento XVI, sem dizer uma única palavra, já cansado, ancião, em cadeira de rodas, consegue ofuscar o seu sucessor! A viagem do pontífice à Alemanha foi um acontecimento retumbante e provou, mais uma vez, que o pontificado de Francisco não passa de um artificial fenômeno de mídia.

Bento resolveu sair de casa e visitar seu irmão de 96 anos. Queria despedir-se e dar-lhe os sacramentos. Em plena crise da pandemia, sem máscara nem luvas, aquele que enfrentou de peito aberto os piores teólogos do século XX, não temeu enfrentar o vírus chinês: foi e pronto!

Embora a razão da viagem tenha sido manifesta desde o início, não faltaram especulações interessantes. O próprio site ultra-bergogliano Vatican Insider chegou a reverberar em manchete uma notícia de um jornal alemão que sustentou a hipótese de que “Ratzinger poderia não voltar para Roma”. Curioso…

O Vatican Insider tem suficientes fontes — seu outrora editor, Andrea Tornielli, hoje chefia o editorial do Dicastério para a Comunicação do Vaticano —  para não precisar dar um tiro no escuro, para não fazer um mero chute jornalístico. Desde o início, aliás, o próprio porta-voz da Santa Sé dizia meio misteriosamente que Bento XVI “ficaria lá o tempo necessário”.

É um fato notório, porém, que a saída de Bento causou impacto e chamou muito a atenção. As pessoas queriam vê-lo, desejavam estar com o Santo Padre, tinham um desejo devoto de saudar o Papa. E talvez o seu discreto aparecimento tenha incomodado mais do que o previsto…

Para um papa como Francisco, que gosta de chamar a atenção, que telefona para jornalistas oferecendo-se para ser entrevistado, que ama jogar frases de efeito para ser reverberado pela imprensa, ser eclipsado por aquele que Meirelles em sua ficção “Os dois papas” apresentou como um papa antipático deve ser realmente uma tortura. Mas, seria uma tamanha vaidade a ponto de fazer um idoso ir e voltar de outro país, em menos de uma semana, em meio a uma pandemia?

No final das contas, sofrer o antagonismo de Ratzinger seria um golpe duro para Francisco e, por isso, parece ser bastante interessante manter um predecessor controlado, silencioso, devidamente trancado em seu mosteirinho, aquela pequenina Baviera vaticana em que ele resolveu sepultar-se vivo. É mais conveniente garantir o silêncio de Bento que permitir-lhe falar, ainda que aos sussurros, que deixar-lhe articular-se, ainda que mansamente.

O estrondo do livro de Bento XVI-Sarah em defesa do celibato foi enorme e adiou a agenda da ordenação dos viri probati. E tudo sob aquela velha diplomacia vaticana, em que olhares e sorrisos têm o peso de um touché. Imaginem o que seria Ratzinger livre…

Francisco disse certa vez que o “Papa emérito” é uma instituição. Isso quer dizer que, no fundo, o “experimento Bento” está sendo muito útil para que vejam o quanto pode ser incômodo conviver com um predecessor resignatário e, pior ainda, o quanto pode ser ruim ser este predecessor.

No fundo, a resposta para a questão que todos temos na cabeça – Bento XVI voltou porque quis ou porque foi forçado, digamos, pelas circunstâncias… – nos será dada pelo próprio Francisco daqui a alguns anos: terá ele coragem de renunciar ao pontificado e enfrentar o ostracismo da emeritude? Beberá ele do cálice que fizeram beber Ratzinger? Quem viver, verá!

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