Search Results for “viri”

13 março, 2017

‘Viri probati’. O Celibato na mira.

Por FratresInUnum.com – 13 de março de 2017: Em Roma, fortalece-se o rumor de que a Santa Sé deveria permitir, até o fim deste ano, a ordenação de homens casados — os chamados viri probati — para a região da Amazônia. Vale buscar os arquivos de FratresInUnum.com, que tratou pela primeira vez da questão em abril de 2014, antes de qualquer outro meio de comunicação, quando o pontificado de Francisco apenas acabara de completar um ano.

Mais tarde, em abril de 2016, escrevíamos: “Estamos em condições de afirmar que o assunto [celibato] foi pauta de reunião privativa dos bispos na Assembléia da CNBB de 2015, sendo capitaneado por Dom Cláudio Hummes. Então, o arcebispo emérito pediu que os bispos do Brasil fizessem uma ‘proposta concreta’ a Francisco sobre o tema. A recém-eleita presidência da CNBB não demonstrou nenhum empenho especial pela causa, por conta divisão do episcopado brasileiro a respeito”.

Em entrevista concedida ao jornal alemão Die Zeit, publicada na semana passada, o pontífice não disse que estudaria a proposta de extinguir o celibato, mas que estudaria a possibilidade de que alguns homens casados pudessem exercer algumas funções sacerdotais, os chamados viri probati.

Afirmou o Papa:

“A vocação dos padres representa um problema enorme e a Igreja deverá resolvê-lo. No entanto, o celibato opcional, ou seja, facultativo, não é a solução, nem mesmo abrir as portas dos seminários a pessoas que não apresentam uma autêntica vocação. Já a questão dos viri probati é uma possibilidade, todavia, se deve precisar quais as tarefas que essas pessoas poderiam assumir nas comunidades “isoladas”. O Senhor disse: rezem. É isso que falta, a oração. E falta o trabalho com os jovens que procuram orientação”.

Frenesi generalizado em sites católicos pró-establishment [exemplos aqui e aqui], que se desdobram apressadamente: não é o celibato que está em jogo, mas, apenas uma exceção para casos extremos! Como se na Igreja pós-conciliar todas as excepcionalíssimas exceções — vide comunhão na mão, mulheres acólitas, etc — não se tornassem, em pouco tempo, regra absoluta inquebrantável.

Que o Senhor tenha misericórdia de nós e intervenha.

Tags:
12 abril, 2014

Ainda o encontro de Francisco com Dom Erwin Kräutler. O caso dos ‘viri probati’.

A matéria abaixo dá mais detalhes sobre o diálogo divulgado, em primeira mão, pelo Fratres no último domingo.

Papa Francisco: homens casados podem ser ordenados sacerdotes se os bispos estiverem de acordo

Por Secretum Meum Mihi | Tradução: Fratres in Unum.com – Um novo tema ressurgiu a partir da audiência de Dom Erwin Kräutler com o Papa Francisco (além de sua referida colaboração na encíclica sobre a ecologia). Trata-se dos viri probati, tema esse que acreditávamos que já estivesse arquivado.

Tradução feita a partir da tradução do Secretum Meum Mihi da parte principal de um artigo publicado no The Tablet, de 10 de abril de 2014.

Papa Francisco: homens casados podem ser ordenados sacerdotes se os bispos estiverem de acordo

10 de abril de 2014 por Christa Pongratz-Lippitt – Um bispo que se reuniu com o Papa Francisco em uma rara audiência privada, no dia 4 de abril, disse em uma entrevista que os dois discutiram o tema da ordenação de homens casados “provados” — viri probati — de uma maneira séria e positiva.

Dom Erwin Kräutler, bispo de Xingu, na selva tropical do Brasil, conversou com o Papa a respeito da próxima encíclica de Francisco sobre o meio ambiente e o tratamento dos povos indígenas, porém, a desesperadora escassez de sacerdotes na grande diocese do bispo veio à tona na conversa. De acordo com uma entrevista que o bispo, nascido na Áustria, deu ao diário Salzburger Nachrichten, no dia 5 de abril, o Papa estava com a mente aberta a respeito de encontrar soluções para o problema, dizendo que as conferências episcopais poderiam ter um papel decisivo.

“Disse-lhe que, como bispo da maior diocese do Brasil, com 800 comunidades eclesiais e 700.000 fiéis, só tinha 27 sacerdotes, o que significa que nossas comunidades só podem celebrar a Eucaristia, no máximo, duas ou três vezes ao ano”, disse o bispo Kräutler. “O Papa explicou que não podia tomar tudo nas mãos pessoalmente estando em Roma. Nós, os bispos locais, que estamos mais familiarizados com as necessidades de nossos fiéis, devemos ser corajudos, ou seja, ‘valentes’ em espanhol, e dar sugestões concretas”, explicou. Um bispo não deveria atuar sozinho, disse o Papa a Kräutler. Ele deu a entender que “as conferências episcopais regionais e nacionais deveriam dar um jeito de encontrar um consenso sobre a reforma e logo deveríamos levar a Roma nossas sugestões para reforma”, disse Kräutler.

Ao ser indagado se ele havia perguntado na audiência sobre a ordenação de homens casados, o bispo Kräutler respondeu: “O assunto da ordenação de viri probati, ou seja, dos homens casados provados que poderiam ser ordenados ao sacerdócio, surgiu quando estávamos falando da difícil situação de nossas comunidades. O mesmo Papa me falou de uma diocese no México, em que cada comunidade tinha um diácono, porém, muitas não tinham nenhum sacerdote. Havia 300 diáconos ali que, naturalmente, não podiam celebrar a Eucaristia. A questão era como as coisas poderiam continuar nessa tal situação”.

“Cabia aos bispos apresentar sugestões, disse novamente o Papa”.

Então, perguntaram a Dom Kräutler se agora dependia das conferências episcopais no que tange às reformas da Igreja prosseguirem ou não. Ele respondeu que “Sim”, “Depois da minha conversa pessoal com o Papa, estou absolutamente convencido disso”.

[…]

A referência a “uma diocese no México” é precisamente a diocese mexicana de San Cristobal das Casas, onde falta tudo, menos diáconos [Nota do Fratres: Bento XVI mesmo chegou a proibir oficialmente a ordenação de mais diáconos naquela diocese, pois via-se claramente que o propósito era promover o diaconato permanente em detrimento das vocações sacerdotais]

O artigo também faz referência a uma entrevista no Salzburger Nachrichten de 5 de abril de 2014. Porém, na realidade, ele é de 8 de abril de 2014, página 9 (ver imagem acima, clique para ampliar; cópia do artigo aqui).

* * *

[Atualização – 12/04/14 às 12:37] Nota do Fratres: Dom Erwin poderia pedir umas dicas à FSSPX sobre como manter uma taxa de crescimento de sacerdotes nos últimos anos. Achamos que seu método seja um tanto ineficiente, não é Dom Erwin? Talvez seja realmente uma daquelas mazelas trazidas do Velho Mundo por Brancos Viciados

1_numberpriests_2013

15 março, 2017

Cardeal Orani Tempesta responde à proposta de Dom Demétrio Valentini.

Tem voltado à tona alguns debates sobre a questão do sacerdócio ministerial. Falou-se sobre a possibilidade de haver a consagração do pão e do vinho por parte de leigos, especialmente onde faltam sacerdotes válida e licitamente ordenados. Aqui não estaria se tratando dos assim chamados “viri probati”, ou seja, da ordenação de homens casados, mas sim de cristãos leigos sem ordenação sacerdotal. Na última Assembleia da CNBB emitimos um documento muito importante sobre os cristãos leigos e sua missão na Igreja. A presença do laicato na Igreja e, como Igreja, no mundo tem uma grande área de atuação, mas o sacerdócio comum dos fiéis não se confunde com o sacerdócio ministerial.
Mas, quais são os documentos da Tradição da Igreja nessa área? Essa ideia que parece, à primeira vista, simpática e solucionadora do problema da falta de vocações sacerdotais não é nova nem tão simples. As fontes utilizadas foram, de um modo especial a Carta Sacerdotium Ministeriale (citada aqui como SM), da Congregação para a Doutrina da Fé, de 6 de agosto de 1983, e o Curso de Eclesiologia, de D. Estêvão Bettencourt, OSB. Rio de Janeiro: Mater Ecclesiae, 1996, p. 181-197.

read more »

2 março, 2017

Explosivo – Antonio Socci: Cardeais da Cúria que elegeram Francisco querem convencê-lo a renunciar.

Estamos à beira do abismo. E há quem pense (depois de o terem eleito) em substituir o Papa demolidor. Eis aqui com qual cardeal!

Por Antonio Socci, Libero28 de fevereiro de 2017 | Tradução: FratresInUnum.comDias atrás, o Der Spiegel reportava as palavras do Papa Bergoglio a alguns de seus fidelíssimos assessores: “É possível que eu entre para a história como aquele que dividiu a Igreja Católica“. E é por isso que seu amigo Eugenio Scalfari o considera como o maior “revolucionário”.

20150918cover1800-x-2400Há algum tempo, uma capa da revista Newsweek se perguntava se o Papa é católico ( “É o papa católico?”). E uma outra do Spectator o representava sentado em uma bola de demolição sob o título “Papa vs. Igreja” (o Papa contra a Igreja). Ambas retratavam um sentimento generalizado.

Com efeito, há exatos quatro anos desde a “renúncia” de Bento XVI e da erupção de Bergoglio, a situação da Igreja Católica havia se tornado explosiva, talvez estivesse mesmo no limite de um cisma mais catastrófico do que aquele da época de Lutero (que hoje está reabilitado na igreja bergogliana).

Picaretadas

A confusão é enorme porque ocorrem picaretadas até da parte de seus assessores mais próximos.

Nos últimos dias, até o novo Superior Geral dos Jesuítas (escolhido a dedo pelo próprio Bergoglio) causou incômodo pelo que disse sobre o Evangelho e sobre Jesus. Assim como o novo presidente da Academia Pontifícia para a Vida, nomeado pelo mesmo Bergoglio, que fez uma exaltação incondicional de Marco Pannella chegando a dizer: “Espero que o espírito de Marco nos ajude a viver na mesma direção”.

Na Igreja, está acontecendo de tudo. Os expoentes máximos da ideologia laicista sobre a vida estão sendo convidados com todas as honras para um simpósio no Vaticano, os cardeais que estão pedindo ao Papa para esclarecer ou corrigir os pontos errôneos da Amoris Laetitia são mal tratados. Além disso, estão para instituir as “mulheres diaconisas”, podendo mesmo chegar ao ponto de meterem a mão na liturgia para cunharem uma “missa ecumênica” com os protestantes, o que viria a marcar um ponto de não retorno.

Dias atrás, uma “bispa” protestante do Norte da Europa – com a intenção de fazer-lhe um elogio – declarou que Bergoglio se parece cada vez mais com um criptoprotestante (“verklappter protestant”).

Muitos fiéis Católicos temem que seja verdade. Por causa disso, grande parte dos cardeais que votaram nele estão profundamente preocupados e o partido curial que organizou a sua eleição e que o apoiou até agora, sem jamais dissociar-se, está cultivando a ideia (na minha opinião irrealista) de uma “persuasão moral” para convencê-lo a se aposentar. Eles já teriam inclusive o nome do homem que deverá substituí-lo para “consertar” a Igreja fragmentada.

Mas, para entender melhor o que está acontecendo, é preciso fazer uma reconstrução de como a Igreja veio parar nessa situação, talvez a mais grave dos seus 2000 anos de história.

Império Americano

É necessário partirmos do contexto geopolítico dos anos noventa, quando os Estados Unidos, considerando-se como a única potência mundial importante ainda remanescente, começou a conceber o projeto de um mundo unipolar “para um Novo Século Americano”. Fukujama anunciou o “fim da história”, isto é, como um planeta totalmente americanizado. Uma loucura, mas a última utopia ideológica do século XX.

A suposição era que – varrida do bloco soviético – a Rússia democrática, prostrada e humilhada pela americanização selvagem sob o regime de Yeltsin, não poderia jamais se recuperar, restando apenas como uma província atrasada do antigo império soviético.

Então, veio a grande crise de 2007-2008, enquanto na Rússia um novo líder, Vladimir Putin, levava o maior país do mundo a recuperar sua identidade espiritual, uma verdadeira independência nacional (econômica) e um papel internacional.

Assim, entre 2010-2016, a administração Obama/Clinton (com seu sistema anexo de poder global) desenvolveu uma estratégia global pesada destinada a isolar a nova Rússia de Putin e neutralizá-la.

Os dois pilares geopolíticos do império Obama/Clinton eram – na Europa – os fiéis vassalos alemãos liderados por Merkel e, no Oriente Médio, a Arábia Saudita.

Os parafusos

Tendo em mente  eliminar primeiramente a presença russa no Mediterrâneo e no Oriente Médio, os EUA lançaram um plano para a eliminação dos dois regimes desta área que eram antigos aliados da Rússia, ou seja, a Líbia e a Síria lideradas por Kadafi e Assad.

A ideia americana era deixar a região sob a hegemonia da Arábia Saudita, embora pareça estranho o fato de Obama ter subestimado o risco representado pelos protagonistas da chamada Irmandade Muçulmana na dita “Primavera Árabe”.

Até mesmo na Europa fomos testemunhas de outros transtornos. Em 2011, o governo italiano liderado por Berlusconi foi isolado da União Européia franco-alemã de Merkel e Sarkozy, para cair em seguida sob ataque e se ver forçado a renunciar. (Lembrem-se que Berlusconi era naquele tempo o único chefe europeu de governo com o qual Putin tinha um relacionamento cordial).

Depois vimos a desestabilização direta da área russa com o fogo de guerra na Ucrânia, fornecendo o pretexto ideal para a OTAN trazer toda a Europa do Leste, até as fronteiras da Rússia, sob o seu protetorado. Chegando mesmo ao ponto de fazer manobras militares perigosas na fronteira, criando um clima de guerra fria.

Por outro lado, é já de algum tempo que grande parte da mídia ocidental está fortemente concentrada no ataque contra Putin, uma criminalização curiosa, se considerarmos o que os americanos – com as suas “guerras humanitárias” – estavam fazendo.

Colonização ideológica

Enquanto isso, Obama – no seu segundo discurso de posse – lançava também uma ofensiva ideológica que visa impor ao mundo uma nova antropologia liberal e relativista (casamento gay, ideologia de gênero…etc).

É um projeto global que tenta desconstruir (além da identidade sexual) a identidade nacional, cultural e religiosa através do fenômeno da imigração de massa.

O próprio Secretário Geral da ONU, Ban Ki-moon, exalta a imigração como uma nova fronteira do progresso contra a qual ninguém deve se opor. O fenômeno então explode: entre 2010-2016 há um vertiginoso aumento nas massas de migrantes que se dirigem para a Europa, primeiramente atravessando a Itália e a Grécia. Nesse meio tempo, o que acontece na Igreja? Desde 2010 nós assistimos uma pressão muito pesada, tanto interna como externamente, contra o pontificado de Bento XVI que, em fevereiro de 2013, “renuncia”.

Nesses últimos dias, alguns intelectuais católicos americanos pediram publicamente a Trump para abrir uma investigação para apurar – considerando alguns documentos divulgados pelo Wikileaks – se houve, entre 2012 e 2013, interferência americana para uma “mudança de regime”  também no Vaticano.

Mas vamos nos ater aos fatos públicos.

Caso Bergoglio

Em 2013, foi eleito papa Bergoglio que joga para escanteio o magistério dos papas anteriores, inconvenientes demais para a ideologia dominante (não mais princípios inegociáveis, nem raízes cristãs da Europa, nem o confronto viril com o Islã como no discurso de Regensburg). Bergoglio adere então à agenda Obama: viva a imigração em massa, abraça o Islã e o ambientalismo catastrófico. Mas, adere igualmente à agenda alemã, que vai no sentido de uma protestantização da Igreja Católica.

Com efeito, são dois os partidos que o elegeram: o partido progressista liderado pelos cardeais alemães (que estavam alinhados ao cardeal Martini e ao grupo de St. Gallen.) e o “partido da Cúria” que mal tolerava Bento XVI e queriam retomar o controle da Igreja.

E é esse último, que apoiou todo o pontificado de Bergoglio, que hoje pretende levar ao papado o atual secretário de Estado Pietro Parolin.

A motivação adotada é aquela de “recosturar” a Igreja para evitar um racha trágico. Há certamente uma preocupação séria por causa da confusão e da dissolução de hoje. Mas, muitos acreditam que a bússola deste partido foi sempre o poder eclesiástico, que hoje se encontra limitado pela “cúria paralela” criada na Casa Santa Marta.

Eles confiam no fato de que o próprio Bergoglio já havia falado no passado sobre uma sua possível renúncia e que em 2015 disse: “para todos os serviços na Igreja é conveniente que haja um prazo de expiração, não existem líderes vitalícios na vida da Igreja. Isso só acontece em alguns países onde existe ditadura“.

Portanto, estaria Bergoglio pronto a renunciar? Provavelmente eles estão enganando a si mesmos.

Antonio Socci

Do “Libero”, 28 de fevereiro de 2017

Tags:
2 janeiro, 2017

Boff: Ajudei o papa a escrever a ‘Laudato si’. Haverá uma grande surpresa. Talvez padres casados ou mulheres diáconos.

Por Marco Tosatti, 27 de dezembro de 2016 | Tradução: André Sampaio – FratresinUnum: Leonardo Boff, o bem conhecido expoente da teologia da libertação, concedeu uma entrevista ao jornal alemão Kölner Stadt-Anzeiger. Boff, que tem 78 anos, falou livremente sobre a Igreja, e revelou alguns detalhes de sua relação com o Pontífice e de possíveis decisões futuras.

boff_-825x510A fonte da qual nós obtivemos o material que lhes oferecemos é um artigo de Maike Hickson para o One Peter Five. Sobre quanto se refere ao tema dos padres casados no Brasil, remetemos vocês a também alguns artigos que publicamos no passado acerca da matéria. É interessante notar como as declarações de Boff vão na mesma linha e direção de quanto escrevemos. Já há dois anos

Sobre a teologia da libertação, Boff diz que “Francisco é um de nós”. Em particular pela atenção aos problemas ecológicos, dos quais Boff se ocupou. O Pontífice leu os livros desse temário de Boff? “Mais que isso. Pediu-me material para a Laudato si’. Dei-lhe o meu conselho e lhe enviei coisas que escrevi… Contudo, o Papa me disse de maneira direta: ‘Boff, não me envie as cartas diretamente’.”

Por que não? “Disse-me: ‘Se o fizer, os subsecretários as interceptarão e eu não as receberei. Em vez disso, envie as coisas ao embaixador argentino junto à Santa Sé, com quem tenho um bom contato, e elas chegarão seguras às minhas mãos.” O embaixador é um velho amigo do Pontífice. ”E depois, um dia antes da publicação da encíclica, o Papa fez chamar-me para agradecer-me pela ajuda.”

No que diz respeito a um encontro pessoal, Boff falou ao Pontífice em relação a Bento XVI, que, quando Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, teve um papel importante na sua condenação: “Mas o outro ainda está vivo, afinal de contas!”. “Ele [Francisco] não aceitou isso [não aceitou o receio, a hesitação de Boff].  ‘Il Papa sono io’ [‘O Papa sou eu’], respondeu (em italiano no texto [do jornal alemão], n.d.r.). E fomos convidados a ir.”

À pergunta sobre por que a visita não se realizou ainda, Boff respondeu: “Eu havia recebido um convite e havia já desembarcado em Roma. Mas justamente naquele dia, imediatamente antes do início do [segundo] Sínodo da Família em 2015, 13 cardeais, entre os quais o alemão Gerhard Müller, puseram em pé uma rebelião contra o Papa com uma carta endereçada a ele que foi publicada – que surpresa! – em um jornal. O Papa estava irado e me disse: ‘Boff, não tenho tempo. Devo restabeler a calma antes que o Sínodo comece. Nós nos veremos em um outro momento’”.

Boff depois disse, sobre o futuro: “Esperem e vejam! Ainda recentemente o cardeal Walter Kasper, que é um estreito confidente do Papa, me disse que logo haverá alguma grande surpresa”.

Que tipo de surpresa? “Quem o sabe? Talvez um diaconato para as mulheres, após tudo. Ou a possibilidade de que os padres casados se envolvam no trabalho pastoral. Este é um pedido explícito dos bispos brasileiros ao Papa, especialmente da parte de seu amigo o cardeal Cláudio Hummes. Ouvi que o Papa quer atender ao seu pedido – inicialmente por um período experimental, no Brasil.”

Boff depois falou que uma decisão nesse sentido não mudaria nada para ele: “Pessoalmente, não tenho necessidade disso. Não mudaria nada para mim, porque faço aquilo que sempre fiz: batizo, presido a exéquias, e, se me ocorre de chegar a uma paróquia sem padre, celebro a missa com o povo”.

Leonardo Boff é, desde décadas, uma figura proeminente da teologia da libertação. Para uma biografia completa, remetemos à Wikipedia, da qual extraímos este parágrafo:

“A atividade de Boff continuou depois de 1992 como teólogo da libertação, escritor, docente e conferencista. Ele permanece também envolvido com as comunidades eclesiais de base brasileiras. Em 1993 se tornou professor de ética, filosofia da religião e ecologia da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), da qual é professor emérito desde 2001. Nos anos seguintes se ocupou, de maneira sempre mais profunda, de política, tornando-se um verdadeiro e próprio teórico marxista, e se converteu em um expoente do considerado Movimento Antiglobalização (sempre foi convidado, na qualidade de orador, para as reuniões em Porto Alegre). Boff esteve sempre próximo das posições do Movimento Sem Terra brasileiro. Em 2001 lhe foi conferido o Right Livelihood Award [Prêmio de Subsistência com Equidade, também conhecido como Prêmio Nobel Alternativo]. Ele se tornou um defensor de Lula no momento da eleição deste como presidente do Brasil, mas se distanciou posteriormente, acusando-o de moderantismo. Atualmente (2010) vive no Jardim Araras, uma reserva ecológica em Petrópolis, junto de sua companheira Marcia Maria Monteiro de Miranda (ativista dos direitos humanos e ecologista), e tem seis filhos adotivos.”

21 dezembro, 2016

Cardeal Zen: Papa Francisco “trairia a Cristo” se permitisse à China comunista escolher bispos.

LifeSiteNews, Hong Kong, 29 de novembro, 2016 | Tradução: FratresInUnum.com: A mais alta autoridade Católica Chinesa afirmou que, se o papa Francisco permitisse à China comunista participar da escolha dos bispos Católicos da nação, isso seria o equivalente a “trair a Jesus Cristo.”

O combativo Cardeal Zen.

O combativo Cardeal Zen.

“Você não pode entrar em negociações com a mentalidade: ‘nós queremos assinar um acordo a qualquer custo’, pois assim você estaria se rendendo, estaria traindo a si próprio, você estaria traindo a Jesus Cristo”,  disse o cardeal Joseph Zen ao jornal The Guardian nesta semana.

O bispo emérito de Hong Kong, de 84 anos de idade, se opõe firmemente a um possível acordo entre o Vaticano e o Governo Chinês que gostaria de obter legitimidade para a entidade controlada pelo Estado, a Associação Patriótica Católica chinesa. Ele diz que tal movimento iria alienar os autênticos Católicos Chineses da “Igreja subterrânea”, separando-os da verdadeira Igreja encabeçada por Cristo e seu representante, o Papa.

O Wall Street Journal informou no início deste mês que, com tal acordo, “Roma se comprometeria a reconhecer como bispos somente aqueles clérigos que primeiramente obtiveram a nomeação pela conferência de bispos da Associação Patriótica”,permitindo assim que o Governo, e não a Igreja, decida quem é bispo.

O cardeal Zen disse, no início deste mês, que com um tal acordo, o Vaticano estaria simplesmente dando credibilidade a “bispos falsos” que, como “marionetes” totalmente controladas pelo governo, não buscariam o bem da Igreja, mas a sua destruição.

De acordo com o decreto do Concílio Vaticano II sobre Bispos (1965), o direito de nomear e apontar bispos pertence “correta, peculiar, e per si exclusivamente à autoridade eclesiástica competente”.

“Portanto, com a finalidade de devidamente proteger a liberdade da Igreja e de promover de forma  mais conveniente e eficiente o bem-estar dos fiéis, este Santo Concílio deseja que, no futuro, não mais direitos ou privilégios de eleição, nomeação, apresentação ou designação para o cargo de bispo sejam concedida a autoridades civis” — foi o que o Concílio afirmou naquela época.

O Código de Direito Canônico (cânon 377 § 5) declara que “nenhum direito e privilégio de eleição, nomeação, apresentação ou designação de bispos são concedidos às autoridades civis”.

O canonista Edward Peters disse que o Vaticano, ao lidar com a China, deve se lembrar da história e da lição de que “quanto maior é o papel desempenhado pelo poder secular nas nomeações eclesiásticas, maiores são as chances de abuso”.

“Tal concessão à China, se é isso que está realmente sendo proposto, certamente levaria outros estados totalitários a exigir o mesmo, recriando as mesmas complicações e confusões entre Igreja e Estado que marcaram e às vezes denegriram muito a história da Igreja”, escreveu ele em seu blog.

Zen disse ao The Guardian na entrevista que um acordo dessa natureza, apenas criaria a ilusão de uma “falsa liberdade” para uma falsa instituição.

“Mas é apenas a impressão de liberdade, não é a verdadeira liberdade, pois o povo, mais cedo ou mais tarde, vai ver os bispos como fantoches do governo e não como realmente os pastores do rebanho”, disse ele.

Zen gostaria de ver o Vaticano abandonar de vez esse acordo.

“Se não é possível obter um bom acordo, um acordo aceitável, então o Vaticano deveria sair disso e talvez tentar novamente mais tarde. Será que a Igreja poderia negociar com Hitler? Ou poderia negociar com Stalin? Não”, disse ele.

Zen sugeriu que o reconhecimento do Vaticano para a igreja administrada pelo governo ao confirmar a nomeação de seus bispos apenas serviria para “envenenar” a Igreja Católica real na China, onde se estima que cerca de sete milhões de fiéis a seguem secretamente.

“O sangue dos mártires é semente de novos cristãos”, disse ele. “mas se aquele sangue é envenenado, quanto tempo durarão esses novos cristãos”?

7 dezembro, 2016

J’Accuse!

Por Dom Orani João Cardeal Tempesta – Arcebispo de São Sebastião do Rio de Janeiro

O título acima está em francês e não é novo. Vem ele de 13 de janeiro de 1898 quando Emile Zola publicou na primeira página do jornal L’Aurora o artigo que traduzido para o português quer dizer “Eu acuso!”. Sim, em forma de carta ao presidente francês Felix Faure, Zola acusa a todos os que defenderam Dreyfus. Afinal, a sociedade francesa e a de outros países esperava uma condenação desse senhor por crimes de guerra, mas o tribunal arbitrariamente inocentara um verdadeiro culpado.

Pois bem, no dia 29 de novembro próximo passado, recebemos consternados, pela imprensa, a notícia segundo a qual a maioria da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) entendeu que um aborto cometido até o 3º mês de gestação não é crime, inocentando uma clínica clandestina de aborto. Uma violência cometida num estado tão cheio de violência! Isso poderá dar a outros juízes base para agirem de igual modo em suas respectivas Comarcas. Seria como dizer “Eu acuso, ao menos potencialmente, com pena de morte todos os nascituros inocentes e indefesos no ventre materno, caso alguém decida matá-los antes dos três meses de gestação”. Porém nesta semana, no próximo dia 7 de dezembro, poderá ainda o STF julgar (está na pauta) o caso de das crianças por nascer de mães que se contaminaram com algumas doenças. Querem também condenar à morte essas crianças. Como trabalhar pela paz em nosso país com tantas situações violentas condenando inocentes?

Aqui começam as nossas reflexões – jurídicas, biológicas e morais – junto aos nossos prezados(as) irmãos(as) a respeito desse tema tão polêmico por várias razões que tentaremos aclarar abaixo, a fim de que todos possam melhor entendê-lo a contento e, dentro da lei e da ordem, reagir. Tal medida descabida e inconstitucional há de ser frustrada pelos nossos nobres legisladores eleitos com o voto do povo, cuja esmagadora maioria é a favor da vida e contra o homicídio no ventre materno.

Com essa ação do STF, agindo em contrário à Constituição Federal que a todos garante o direito à vida como cláusula pétrea (art. 5º caput), caímos em uma tremenda insegurança jurídica, pois a Corte Suprema se dá o direito não só de legislar – papel exclusivo do Poder Legislativo, como bem lembrou o presidente da Câmara dos Deputados – mas até de reformar ou deformar a Constituição. Para onde iremos?

Isso, aliás, há alguns anos, já preocupava o renomado jurista Dr. Ives Gandra da Silva Martins ao escrever o seguinte: “Pela Lei Maior brasileira, a Suprema Corte é a ‘guardiã da Constituição’ – e não uma ‘Constituinte derivada’”. No entanto, no Brasil, não tem faltado coragem para que o Supremo legisle no lugar do Congresso Nacional, mas isso é preocupante, diz o Dr. Ives. E o que o assusta? – “A questão que me preocupa é este ativismo judicial, que leva a permitir que um Tribunal eleito por uma pessoa só substitua o Congresso Nacional, eleito por 130 milhões de brasileiros, sob a alegação de que além de Poder Judiciário, é também Poder Legislativo, sempre que imaginar que o Legislativo deixou de cumprir as suas funções. Uma democracia em que a tripartição de poderes não se faça nítida, deixando de caber ao Legislativo legislar, ao Executivo executar e ao Judiciário julgar, corre o risco de se tornar ditadura, se o Judiciário, dilacerando a Constituição, se atribua poder de invadir as funções de outro. E, no caso do Brasil, nitidamente  o constituinte não deu ao Judiciário tal função”.

Que poderia o Congresso Nacional fazer no caso? – Poderia tomar a decisão, baseada no artigo 49, inciso XI, da CF, que lhe permite sustar qualquer invasão de seus poderes por outro poder, (artigo 142 “caput”) para garantir-se nas funções usurpadas. (http://anajus.jusbrasil.com.br/noticias/2687189, acessado em 30/11/16). É de se esperar que o Congresso Nacional não desaponte a milhões de brasileiros defensores da vida.

Não obstante a isso, há quem diga – erroneamente, é claro –, que o aborto no Brasil é legal em dois casos: (I) quando não há outro meio – que não o aborto – para salvar a vida da gestante; e (II) quando a gravidez resulta de estupro e o aborto é precedido do consentimento da gestante. Isso, porém, não é real. O que o Código Penal textualmente diz é o seguinte: em duas hipóteses o crime do aborto “não se pune”: “Art. 128 – Não se pune o aborto praticado por médico: I – se não há outro meio de salvar a vida da gestante; II – se a gravidez resulta de estupro e o aborto é precedido de consentimento da gestante ou, quando incapaz, de seu representante legal”.

Portanto, o crime permanece, apenas há a chamada escusa absolutória, ou seja, a lei deixa de ser aplicada ao errante, tal como é o caso de um filho que furta os pais (art. 181, Código Penal) ou de uma mãe que esconde seu filho malfeitor da polícia (art. 348, § 2º, Código Penal). Sempre há o crime, porém não se aplica a punição da lei. Aliás, se uma lei brasileira infraconstitucional autorizasse o aborto estaria fulminada de inconstitucionalidade e não teria valor algum frente à Constituição Federal.

Cabe, no entanto, dizer uma palavra ainda sobre a razão pela qual os casos de abortos vão parar no Judiciário. E fazemo-lo a partir de declarações insuspeitas de uma das grandes defensoras do aborto na Colômbia, a advogada Mónica Roa. Diz ela que os defensores do homicídio no ventre materno usaram de três diferentes técnicas para implantar o aborto naquele país. Primeiro fugiram do debate moral e religioso levando o caso para o campo da saúde pública e da ideologia de gênero. Mesmo mudando de foco nunca era demais recordar o que segue: “deixe a Igreja fora, ela tem argumentos irrefutáveis. Para ganhar a batalha é preciso tirar a Igreja da jogada” (cf. Alfredo Mac Hale inPe. David Francisquini. Catecismo contra o aborto: porque devo defender a vida humana. São Paulo: Artpress, 2009, p. 61).

No âmbito legislativo, cinco ou seis projetos de lei tinham fracassado – os políticos têm medo de perder votos dos fiéis participantes das Missas nos finais de semana, sobretudo se os Bispos forem firmes na defesa do Evangelho da vida. Levou-se, então, o caso à Suprema Corte colombiana e lá conseguiram seu intento (idem, p. 71-73).

Questiona-se, no entanto, que provas temos de que há vida desde a concepção? – perguntam alguns. A prova da Ciência, da própria Lógica ou do próprio bom-senso humano. Vejamos isso com base no livro A favor da vida a ser publicado em breve: A maneira mais simples (e óbvia) de provar que o nascituro é vivo se dá mediante a seguinte observação: o óvulo da mulher e o espermatozoide do homem são células vivas e se unem dando origem a um ser vivo da mesma espécie humana.

A prova de que há vida é que essas duas células, logo que se fundem (é uma nova vida), se reorganizam, crescem e continuam a ter todas as propriedades de uma célula viva. Portanto, contra a tese abortista, o bebê está vivo. Ele não é nem morto (se fosse morto, o organismo feminino o expeliria pelo aborto espontâneo ou daria sinais de mal-estar e levaria a mulher a buscar ajuda médica) e nem é inanimado/inorgânico (se fosse, nunca poderia nascer vivo).

Mais: um ser morto ou inanimado não realiza divisão celular. Ora, os bebês, além de nadarem e se locomoverem no útero da mãe vivenciam uma taxa bem alta de divisão celular (41 das 45 divisões que ocorrem na vida de um indivíduo). Por tudo isso que acabamos de expor, vê-se que o bebê é um ser vivo e defender o aborto é promover o homicídio.

O renomado geneticista francês Jérôme Lejeune, que muito trabalhou com os portadores da Síndrome de Down, depois de ter ele mesmo descoberto que essa síndrome era causada por um cromossomo a mais na pessoa especial, declarou com todas as letras e mais de uma vez o seguinte: “Não quero repetir o óbvio. Mas, na verdade, a vida começa na fecundação. Quando os 23 cromossomos masculinos transportados pelo espermatozoide se encontram com os 23 cromossomos da mulher [no óvulo], todos os dados genéticos que definem o novo ser humano já estão presentes. A fecundação é o marco do início da vida. Daí para a frente qualquer método artificial para destruí-la é um assassinato” (Pergunte e Responderemos n. 485, nov. 2002, p. 462-468).

Lejeune fala mais: “A vida tem uma longa história, mas cada um de nós tem um início muito preciso, que é o momento da concepção. A vida começa no momento em que toda a informação necessária e suficiente se encontra reunida para definir o novo ser. Portanto, ela começa exatamente no momento em que toda a informação trazida pelo espermatozoide é reunida à informação trazida pelo óvulo. Desde a penetração do espermatozoide se encontra realizado o novo ser. Não um homem teórico, mas já aquele que mais tarde chamarão de Pedro, de Paulo, de Tereza ou de Madalena.”

“Se o ser humano não começa por ocasião da fecundação, jamais começará. Pois de onde lhe viria uma nova informação? O bebê de proveta o demonstra. Aceitar o fato de que, após a fecundação, um novo ser humano chegou à existência já não é questão de gosto ou de opinião.”

Sobre o aborto, o geneticista francês diz que “em nossos dias, o embrião é tratado como o escravo antes do Cristianismo; podiam vendê-lo, podiam matá-lo… O pequeno ser humano, aquele que traz toda a esperança da vida, torna-se comparável ao escravo de outrora. Uma sociedade que mata seus filhos perdeu, ao mesmo tempo, sua alma e sua esperança” (E. Bettencourt. Problemas de Fé e Moral. Rio de Janeiro: Mater Ecclesiae, 2007, p. 176).

Por fim, o questionamento é: que deve o fiel católico fazer ante essa dramática situação? – Duas atitudes são básicas: 1) Organizar-se dentro da lei e da ordem a fim de incentivar os congressistas a defenderem a vida e não a morte, sustando os efeitos do STF na pretensão de legislar, e ainda movimentar para que no próximo dia 7 de dezembro não se comenta outro crime contra as crianças e contra a constituição brasileira; 2) A quem trabalha diretamente na área da saúde toca o grave dever da objeção de consciência frente a ordens que mandem executar o homicídio de um ser humano indefeso e inocente no ventre materno, conforme ensinou o Papa São João Paulo II na Encíclica Evangelium Vitae: “73. O aborto e a eutanásia são, portanto, crimes que nenhuma lei humana pode pretender legitimar. Leis deste tipo não só não criam obrigação alguma para a consciência, como, ao contrário, geram uma grave e precisa obrigação de opor-se a elas através da objeção de consciência. Desde os princípios da Igreja, a pregação apostólica inculcou nos cristãos o dever de obedecer às autoridades públicas legitimamente constituídas (cf. Rm 13,1-7; 1 Ped 2,13-14), mas, ao mesmo tempo, advertiu firmemente que ‘importa mais obedecer a Deus do que aos homens’ (At 5,29)”.

“74. Recusar a própria participação para cometer uma injustiça é não só um dever moral, mas também um direito humano basilar. Se assim não fosse, a pessoa seria constrangida a cumprir uma ação intrinsecamente incompatível com a sua dignidade e, desse modo, ficaria radicalmente comprometida a sua própria liberdade, cujo autêntico sentido e fim reside na orientação para a verdade e o bem. Trata-se, pois, de um direito essencial que, precisamente como tal, deveria estar previsto e protegido pela própria lei civil. Nesse sentido, a possibilidade de se recusar a participar na fase consultiva, preparatória e executiva de semelhantes atos contra a vida, deveria ser assegurada aos médicos, aos outros profissionais da saúde e aos responsáveis pelos hospitais, clínicas e casas de saúde. Quem recorre à objeção de consciência deve ser salvaguardado não apenas de sanções penais, mas ainda de qualquer dano no plano legal, disciplinar, econômico e profissional.”

Com essas palavras exorto a todos os diocesanos e demais pessoas de boa vontade a quem este escrito chegar para que não se entreguem à cultura da morte, não se conformem com esse descaminho em nossa querida pátria já tão cheia de violências, mas vençam a morte com a Vida que é o próprio Cristo Jesus, Nosso Senhor.

23 setembro, 2016

Poucos presbíteros celibatários? Então, abramos as portas para os homens casados.

Escrevíamos em abril deste ano: “FratresInUnum.com recebe confirmação segura de que Francisco pretende mesmo tratar do tema do celibato sacerdotal no próximo Sínodo dos Bispos. Estamos em condições de afirmar que o assunto foi pauta de reunião privativa dos bispos na Assembléia da CNBB de 2015, sendo capitaneado por Dom Cláudio Hummes. Então, o arcebispo emérito pediu que os bispos do Brasil fizessem uma “proposta concreta” a Francisco sobre o tema. A recém-eleita presidência da CNBB não demonstrou nenhum empenho especial pela causa, por conta divisão do episcopado brasileiro a respeito”. 

* * *

IHU – É o remédio no qual pensam o cardeal Hummes e o Papa Francisco devido à falta de clero, começando pela Amazônia. Mas também na China do século XVII os missionários eram poucos e a Igreja florescia. Sobre isso escreve a revista La Civiltà Cattolica.

A reportagem é de Sandro Magister e publicada por Chiesa.it, 21-09-2016. A tradução é de André Langer.

Há alguns dias, o Papa Francisco recebeu em audiência o cardeal brasileiro Cláudio Hummes, acompanhado pelo arcebispo de Natal, Jaime Vieira Rocha.

Hummes, de 82 anos, anteriormente arcebispo de São Paulo e prefeito daCongregação vaticana para o Clero, é atualmente o presidente tanto da Comissão para a Amazônia da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), como da Rede Pan-Amazônica, que reúne 25 cardeais e bispos dos países vizinhos, além de representantes indígenas das diversas etnias locais.

E é assim que se sustenta, entre outras coisas, a proposta de solucionar a falta de sacerdotes celibatários em áreas imensas como a Amazônia conferindo a ordem sagrada também a “viri probati” – ou seja, a homens de provada virtude, casados.

Por conseguinte, a notícia da audiência fez pensar que o Papa Francisco discutiu comHummes sobre esta questão e, em particular, sobre um sínodo “ad hoc” das 38 dioceses da Amazônia, que efetivamente está em fase avançada de preparação.

E há mais. Ganhou nova força a voz segundo a qual Jorge Mario Bergoglio quer confiar ao próximo sínodo mundial dos bispos, programado para 2018, precisamente a questão dos ministérios ordenados, bispos, sacerdotes, diáconos, inclusive a ordenação de homens casados.

A hipótese foi lançada logo depois do encerramento do duplo Sínodo sobre a Família.

E avançou rapidamente.

E agora parece ganhar terreno. Curiosamente, pouco antes que o Papa recebesseHummes, Andrea Grillo – um teólogo ultrabergogliano, professor no Pontifício Ateneu Santo Anselmo de Roma, cujas intervenções são sistematicamente reproduzidas e enfatizadas pelo sítio Il Sismografo, próximo ao Vaticano – chegou inclusive a antecipar um detalhe do próximo sínodo sobre o “ministério ordenado na Igreja”, que divide em três subtemas:

– o exercício colegial do episcopado e a restituição ao bispo da plena autoridade sobre a liturgia diocesana;

– a formação dos presbíteros, reconsiderando a forma tridentina no seminário, e a possibilidade de ordenar homens casados;

– a teologia do diaconato e a possibilidade de um diaconato feminino.

A autoridade a que fazem referência tanto Grillo como o resto dos reformistas clérigos e leigos quando formulam esta ou outras propostas é o falecido cardeal Carlo Maria Martini, com a intervenção que lançou no Sínodo de 1999.

O então arcebispo de Milão, jesuíta e líder indiscutível da ala “progressista” da hierarquia, disse que “teve um sonho”: o de “uma experiência de confronto universal entre bispos que servisse para desfazer alguns dos nós disciplinares e doutrinais que aparecem de tempos em tempos como pontos candentes no caminho das Igrejas europeias, mas não exclusivamente”.

Estes são os “nós” por ele enumerados:

“Penso em geral no aprofundamento e no desenvolvimento da eclesiologia de comunhão do Vaticano II. Penso na falta, às vezes dramática, em alguns lugares, de ministros ordenados e na crescente dificuldade que alguns bispos têm para dispor do número suficiente de ministros do Evangelho e da eucaristia para prover o cuidado das almas em seu território. Penso em alguns temas que dizem respeito à posição da mulher na sociedade e na Igreja, na participação dos leigos em algumas responsabilidades ministeriais, na sexualidade, na disciplina do matrimônio, na prática penitencial, nas relações com as Igrejas irmãs da Ortodoxia e, mais em geral, na necessidade de reacender a esperança ecumênica; penso na relação entre democracia e valores e entre leis civis e lei moral”.

Da agenda martiniana, os dois sínodos convocados até agora pelo papa discutiram, de fato, sobre a “disciplina do matrimônio” e “a visão católica da sexualidade”.

O novo sínodo poderia resolver “a falta de ministros ordenados” abrindo as portas para a ordenação de homens casados e de diáconos mulheres; este último já foi posto em marcha pelo Papa Francisco com a nomeação, em 02 de agosto passado, de umacomissão de estudo.

* * *

O principal argumento em apoio à ordenação de homens casados é o mesmo já expresso pelo cardeal Martini: “a crescente dificuldade que alguns bispos têm para dispor do número suficiente de ministros do Evangelho e da eucaristia para prover o cuidado das almas em seu território”.

A Amazônia seria, então, um destes “territórios” imensos em que os poucos sacerdotes ali presentes são capazes de chegar a núcleos remotos de fiéis não mais de duas a três vezes ao ano. Portanto, com grande prejuízo – sustenta-se – para “o cuidado das almas”.

Deve-se dizer, no entanto, que uma situação deste tipo não é exclusiva dos tempos atuais. De fato, caracterizou a vida da Igreja ao longo dos séculos e nas mais diversas regiões.

Mas, tem mais. A falta de presbíteros nem sempre foi um prejuízo para o “cuidado das almas”. Pelo contrário, em alguns casos coincidiu inclusive com o florescer da vida cristã. Sem que a ninguém ocorresse de ordenar homens casados.

Foi o que aconteceu, por exemplo, na China no século XVII. A isso faz referência um amplo artigo escrito pelo sinólogo jesuíta Nicolas Standaert, que leciona naUniversidade Católica de Louvaina, e que foi publicado na revista La Civiltà Cattolica, em seu número de 10 de setembro último. Trata-se, portanto, de uma fonte livre de qualquer suspeita vista sob o vínculo estreitíssimo e estatutário que a revista tem com os Papas e, em particular, com o atual, que acompanha pessoalmente a sua publicação, em acordo com o diretor da mesma, o jesuíta Antonio Spadaro.

No século XVII, na China, havia poucos cristãos e estavam dispersos. Escreve Standaert: “Quando Matteo Ricci morreu em Pequim, em 1610, depois de 30 anos de missão, havia aproximadamente 2.500 cristãos chineses. Em 1665, os cristãos chineses eram, provavelmente, cerca de 80 mil e em 1700 aproximadamente 200 mil; quer dizer, eram ainda poucos comparados com toda a população, entre 150 milhões e 200 milhões de habitantes”.

E os presbíteros eram muito poucos: “Quando Matteo Ricci morreu, em toda a Chinahavia apenas 16 jesuítas: oito irmãos chineses e oito padres europeus. Com a chegada dos franciscanos e dos dominicanos, em cerca de 1630, e com um pequeno aumento dos jesuítas no mesmo período, o número de missionários estrangeiros passou dos 30 e permaneceu constante nos seguintes 30 ou 40 anos. Na sequência, houve um aumento, atingindo o pico de quase 140 missionários entre 1701 e 1705. Mas depois, por causa da controvérsia sobre os ritos, o número de missionários diminuiu para quase a metade”.

Em consequência, o cristão comum via o presbítero não mais de “uma ou duas vezes ao ano”. E nos poucos dias que durava a visita, o sacerdote “conversava com os chefes e os fiéis, recebia informações sobre a comunidade, interessava-se pelos doentes e os catecúmenos. Confessava, celebrava a eucaristia, pregava e batizava”.

Depois, o sacerdote desaparecia durante meses. Mas, as comunidades se mantinham. Além disso, conclui Standaert: “transformaram-se em pequenos, mas sólidos centros de transmissão da fé e da prática cristã”.

Seguem, na sequência, os detalhes dessa fascinante aventura, assim como relatada pela revista La Civiltà Cattolica.

Sem elucubrações sobre a necessidade de ordenar homens casados.

_______

“O missionário aparecia uma ou duas vezes ao ano”, por Nicolas Standaert, SJ, da La Civiltà Cattolica n. 3989, de 10 de setembro de 2016

No século XVII, os cristãos chineses não estavam organizados em paróquias, ou seja, em unidades geográficas em torno do edifício de uma igreja, mas em “associações”, as quais eram dirigidas por leigos. Algumas destas eram uma mistura de associação chinesa e de congregação mariana, de inspiração europeia.

Parece que estas associações estavam mais difundidas. Por exemplo, por volta de 1665 havia cerca de 40 congregações em Xangai, ao passo que havia mais de 400 congregações de cristãos em toda a China, tanto nas grandes cidades como nas aldeias.

O estabelecimento do cristianismo a este nível local se fez na forma de “comunidades de rituais eficazes”, grupos de cristãos cuja vida se organizava em torno de determinados rituais (missa, festividades, confissões, etc.). Essas eram “eficazes”, porque construíam um grupo e porque eram consideradas pelos membros do grupo como capazes de proporcionar sentido e salvação.

Os rituais eficazes estavam estruturados em base ao calendário litúrgico cristão, que incluía não apenas as principais festas litúrgicas (Natal, Páscoa, Pentecostes, etc.), mas também as celebrações dos santos. A introdução do domingo e das festas cristãs fez com que as pessoas vivessem segundo um ritmo diferente do calendário litúrgico utilizado nas comunidades budistas ou taoístas. Os rituais mais evidentes eram os sacramentos, sobretudo a celebração da eucaristia e da confissão. Mas a oração comunitária – sobretudo a oração do terço e das ladainhas – e o jejum em determinados dias constituíam os momentos rituais mais importantes.

Essas comunidades cristãs revelam também algumas características essenciais da religiosidade chinesa: eram comunidades muito orientadas para a laicidade com dirigentes leigos; as mulheres tinham um papel importante como transmissoras de rituais e de tradições dentro da família; uma concepção do sacerdócio orientado para o serviço (presbíteros itinerantes, presentes apenas por ocasião das festas e de celebrações importantes); uma doutrina expressada de maneira simples (orações recitadas, princípios morais claros e simples); fé no poder transformador dos rituais.

Pouco a pouco, as comunidades chegaram a funcionar de maneira autônoma. Um presbítero itinerante (inicialmente eram estrangeiros, mas já no século XVIII eram, majoritariamente, sacerdotes chineses) costumava visitá-las uma ou duas vezes ao ano. Normalmente, os dirigentes das comunidades reuniam os diversos membros uma vez por semana e presidiam as orações, que a maior parte dos membros da comunidade conhecia de cor. Os dirigentes liam também os textos sagrados e organizavam a instrução religiosa. Muitas vezes havia reuniões exclusivas para mulheres. Além disso, havia catequistas itinerantes que instruíam as crianças, os catecúmenos e os neófitos. Na ausência de um presbítero, os dirigentes locais administravam o batismo.

Durante a visita anual, que durava alguns dias, o missionário conversava com os dirigentes e os fiéis, recebia informações sobre a comunidade, interessava-se pelos doentes e os catecúmenos, etc. Confessava, celebrava a eucaristia, pregava, batizava e rezava com a comunidade. Quando partia, a comunidade retomava a sua prática habitual de rezar o terço e as ladainhas.

Por conseguinte, o cristão comum via o missionário uma ou duas vezes por ano. O verdadeiro centro da vida cristã não era o missionário, mas a própria comunidade, com seus dirigentes e catequistas como vínculo principal.

Principalmente no século XVIII e começo de século XIX, estas comunidades se transformaram em pequenos, mas sólidos, centros de transmissão da fé e de prática cristã. Por causa da falta de missionários e de presbíteros, os membros da comunidade – por exemplo, os catequistas, as virgens e outros guias leigos – assumiam o controle de tudo, desde a administração financeira às práticas rituais, passando pela direção das orações cantadas e pela administração dos batismos.

Tags:
11 julho, 2016

Dom Aldo: “Pedi para conversar com o próprio papa. Mas isso não me foi concedido. Essa resposta nem veio”.

O padrão do Vaticano de Francisco se repete: um bispo tido por “conservador” e “divisivo”, que fere a “comunhão”, acusado de imoralidades por uma quadrilha eclesiástica de imorais, é instado a renunciar. O bispo tenta dialogar, clama por ser ouvido, mas não consegue sequer trocar meias palavras com o Papa da Misericórdia. 

‘Quando você mexe no bolso, vêm as reações’, diz bispo acusado de proteger padres pedófilos

Aldo di Cillo Pagotto diz que foi vítima de retaliação por investigar desvios de dinheiro na Igreja, fala da ‘infiltração’ gay no seminário e diz ter sido pressionado pelo Vaticano a renunciar

Dom Aldo Pagotto, arcebispo da Paraíba.

Dom Aldo Pagotto, arcebispo emérito da Paraíba.

Por Veja – Na última quarta-feira, o Vaticano anunciou que o papa Francisco aceitou a renúncia do arcebispo da Paraíba, dom Aldo di Cillo Pagotto. Oficialmente, dom Aldo deixou o posto por “motivos de saúde”. Mas só oficialmente. Por trás da decisão, há muito mais. Há pelo menos quatro anos, o arcebispo era investigado pelo próprio Vaticano sob suspeita de acobertar padres pedófilos. Dom Aldo também era acusado de promover orgias e de ter mantido relacionamento com um jovem de 18 anos – o que ele nega. Foi o primeiro caso, no Brasil, de um arcebispo que deixa o posto no curso de uma investigação sobre envolvimento em escândalos sexuais.

Na mesma quarta-feira, dom Aldo falou por quase duas horas a VEJA. O resultado da conversa é revelador dos bastidores da Igreja – e de segredos que, na grande maioria das vezes, graças à hierarquia e à disciplina dos religiosos, são mantidos distantes dos olhos e ouvidos do distinto público. Na entrevista, o bispo deixa evidente que, na verdade, foi obrigado a renunciar. Ele conta que, no início de junho, foi chamado a Brasília para uma conversa com o núncio apostólico, o representante do papa no Brasil. E que, naquele mesmo dia, o núncio — em nome do papa — o fez redigir a carta de renúncia.

O arcebispo se diz alvo de uma grande injustiça cometida pelo papado de Francisco e atribui a sua situação a uma disputa que tem como pano de fundo acusações de corrupção, homossexualismo, pedofilia e, quase sempre, disputa por poder.

A seguir, os principais trechos da entrevista.

Desvio de dinheiro

Dom Aldo diz que foi vítima de uma orquestração maquinada por um grupo de padres que se opunham a medidas que ele adotou desde que assumiu a Arquidiocese da Paraíba. Ao falar desses padres, cujos nomes ele se esforça para não revelar, o religioso escancara o ambiente interno conflagrado no clero – algo que a Igreja, quase sempre, consegue manter em segredo. Ele acusa os adversários de estarem envolvidos em desvios de dinheiro e de serem, eles próprios, personagens de escândalos sexuais. Na origem de tudo, diz ele, está a disputa pelo controle das finanças.

“Tudo começou porque eu tenho uma visão mais moderna. A questão administrativa e patrimonial da Arquidiocese estava bastante comprometida. Então começamos a colocar as coisas em ordem, com prestação de contas. Isso mexeu na posição de uns privilegiados. Havia coisas não muito bem resolvidas.”

“Quando você mexe no bolso, que é a parte mais delicada do corpo da pessoa, vêm as reações, que não são tão diretas no começo. Aí começam com outras acusações. Diziam que eu era financista, materialista, e que a Igreja não é só isso.”

“Essa reação partia de um grupo pequeno, mas muito bem articulado, formado por cinco padres. Passaram a acusar que o clero no estado estaria dividido, e outras coisas morais. Diziam que eu era ditador. Depois foram para os ataques pessoais de ordem afetiva e sexual. Aí foram para a baixaria mesmo, com acusações horrendas à minha pessoa e a outros padres também.”

“Esses padres têm poder financeiro. E a reação vinha justamente daí. Tudo parte de quando você quer mexer nas finanças.”

Mas esses padres estavam envolvidos com corrupção?, perguntou VEJA.

A resposta: “Havia um colégio aqui, o Pio XII, que eu tive que fechar quando cheguei porque havia uma coisa não resolvida ali. Era um colégio tradicional, de mais de 80 anos. Pedimos uma auditoria e fizeram de tudo para não fazer essa auditoria. Sempre me era aconselhado: ‘Não é bom mexer com isso’”.

Dom Aldo diz que, só nas contas da escola, havia um rombo de 1,8 milhão de reais. E quem são esses padres?

“Eu sei quem são. Alguns nomes eu levei para a Santa Sé. Pelo menos o nome de dois, entre eles o que capitaneia, eu informei à Santa Sé. São padres muito bem posicionados aqui, veteranos.”

O segredo do processo e o silêncio do papa

Alvo de denúncias cada vez mais constantes, e de uma série de dossiês enviados a Roma, dom Aldo Pagotto passou a ser formalmente investigado pelo Vaticano. O rol de acusações contra ele era extenso: além de ser acusado de proteger padres pedófilos, diziam as denúncias, teria relaxado os critérios para a aceitação de novos seminaristas. Além disso, era apontado como personagem central de um grupo de religiosos que se esbaldavam em festas e promoviam orgias sexuais. Em janeiro de 2015, já em consequência das investigações, o Vaticano impediu o arcebispo de ordenar novos padres.

“Em junho do ano passado fui ao Vaticano tirar a história limpo. Falei com o cardeal Stella (Beniamino Stella, prefeito da Congregação para o Clero — uma espécie de ministro do Vaticano). O cardeal me tratou muito bem, me escutou durante uma hora, mas disse que a resposta viria só depois de agosto e setembro e que o desfecho dependia também da Congregação para os Bispos. Comecei a cobrar e não vinha nada.”

“Em maio eu pedi para conversar com o próprio papa. Mas isso não me foi concedido. Essa resposta nem veio. Dois ou três dias depois de redigir a carta de renúncia, fiz outra carta ao papa reforçando esse pedido. Escrevi ao papa dizendo que gostaria muito de falar com ele. Ali eu ainda tinha esperança (de que a investigação pudesse ter outro desfecho). Nada.”

O chamado para renunciar

Dom Aldo revela que a renúncia não foi um ato de vontade própria. Foi uma determinação do Vaticano – uma determinação que a disciplina religiosa e o respeito à hierarquia da Igreja o obrigavam a aceitar. A renúncia era uma forma de evitar mais desgastes. A explicação oficial que viria na sequência – “motivos de saúde”— ajudaria

“Fiquei lá (na Nunciatura Apostólica, em Brasília) uma manhã inteira. A conversa com o núncio foi de pelo menos uma hora. A sós, no gabinete dele. Ele recordou todos os fatos. Eu pedi, de novo, para ter acesso ao que eu era acusado, ao relatório ou ao dossiê. Ele disse: não se pode mostrar. Então, se é assim… Ele também não disse quem acusava. Ele aconselha. Eu também tirei minhas dúvidas. Ele disse: ‘O papa está muito preocupado com você. É para o seu bem. Para o seu bem e para o bem da Igreja. Então, para o bem da Igreja e para o seu bem, você pense’. Eu cheguei a dizer: está bem, está muito certo, entendi tudo. Eu mesmo me choquei.”

“Ele me falou: ‘Olha, você faça essa carta’. É assim mesmo. Ele é o representante do papa.”

A certa altura, o arcebispo percebe que estava falando demais. E tenta se corrigir:

O senhor, então foi instado a renunciar?

“Não é bem assim…. Eu me aconselhei também. E eu aqui já dizia para alguns padres da minha insatisfação, do meu estado de saúde. Não é que recebi uma ordem: faça. Não é bem assim. A gente é livre. Eu disse a ele (ao núncio): é até interessante que eu faça (a carta), e fiz.”

O senhor acha justo o desfecho do caso?

“Não acho. Eu tenho muita dificuldade de aceitar uma coisa dessas. É muito ruim, muito ruim.”

‘Tive que limpar o seminário’

Dom Aldo Pagotto admite que havia “problemas” na Arquidiocese. Entre eles problemas, ele cita o fato de ter aceitado, como candidatos a padre, jovens homossexuais que já haviam sido rejeitados em outros seminários por “conduta inadequada”. Ele diz, porém, que fez o que tinha de ser feito: “limpou” o seminário.

“Nós tivemos problemas no seminário. Eu tive que limpar o seminário de pessoas suspeitas de comportamento não adequado.”

Em que sentido? Sexual?

“É, exatamente.”

E o que é “limpar”?

“Limpar quer dizer convidar a sair. Isso foi em 2012. Em um seminário sempre há entrada e saída de pessoas. Seminário onde só entram pessoas e ninguém sai não é bom. Tem pessoas com determinada tendência que vêm procurar seminário e você sabe que a intenção pode ser outra. Eu não posso ser julgado por isso. Na verdade, os papas todos tiveram problemas assim. O João Paulo teve problemas imensos. Depois veio Bento 16, que estatuiu normas muito caridosas, mas muito objetivas. E, agora, Francisco da mesa forma. No caso daqui, houve problemas, eu não posso negar. Mas eu fiz relatórios disso, desde o outro núncio apostólico, como estava o seminário, que tinha havido infiltração (de gays). Eu relatei a infiltração. Não escondi.”

A “infiltração” gay

“No seminário, o problema era homossexualismo. Falando abertamente, é isso. Tivemos alguns casos. O relato é de que houve infiltração, romance, defesa de comportamentos que não são admitidos pela Igreja. Naquele momento, entre 2011 e 2012, isso envolveu cinco ou seis pessoas. Faziam defesa desse comportamento lá dentro. Também havia comportamentos estranhos. Colegas estranharam, pessoas da comunidade também. Diziam: ‘Olha, esse rapaz aqui parece que é…’. Havia toda uma preocupação para evitar a reprodução desses escândalos que estamos vendo.”

Pedofilia na Arquidiocese

“Eu digo que por misericórdia eu aceitei alguns padres em crise. Aceitei seminaristas egressos (que já haviam sido expulsos de outros seminários), mas eu não sabia desse comportamento. Por indicação de alguém, por pedidos para que eu desse chance. Esses pedidos vinham de bispos, de superiores de alguma congregação. Enfim, eu fui misericordioso. Aceitei e me dei mal. Esses seminaristas foram ordenados por mim e depois tive que afastá-los. Eu afastei seis. Eram acusados de envolvimento de pedofilia. Um foi inocentado.”

“Era aquela questão com meninos, coroinhas. Dentro da igreja. Eram casos na região metropolitana de João Pessoa e no interior. Do interior eram três, e três da capital. As denúncias foram feitas por familiares dos meninos. Comecei a receber essas denúncias de 2012 para 2013, tudo de uma vez, uma atrás da outra. Os padres foram afastados imediatamente. Um deles morreu. Nunca foi ouvido em juízo e morreu de muita depressão, coitadinho.”

A acusação de relacionamento homossexual

“Deus me livre, isso não existe. É mentira. Não tem como.”

E com base em que o acusam de ser homossexual?

“Respondo com uma frase: ‘Acusemo-lo daquilo que nós somos’.”

Isso existe entre os religiosos que o acusam?

“Claro que existe. Acuse-o daquilo que a gente é.”

A acusação de organizar festas e orgias

“Mas que festas? Deus me livre, eu não tenho tempo para pecar. A minha única diversão é nadar na piscina de um colégio aqui perto. Não vou ao cinema. Minha vida é trabalho. Não existe isso aí.”

 

21 junho, 2016

Onde é o nosso lugar? Um Católico ex-gay faz uma reflexão sobre o massacre de Orlando.

Por Joseph Sciambra, 15 de junho de 2016 | Tradução: FratresInUnum.com: Quando eu me mudei para o  bairro de Castrom em San Franciscom em 1988, eu não poderia ter escolhido um momento pior na história para me assumir como um homem “gay”. Era o auge da crise da AIDS. Só naquele ano, mais de 4.800, em sua maioria homens “gays”, morreram de AIDS nos EUA. No ano seguinte, o número de mortes só fez triplicar. Entrando na década seguinte, minha vida aparentemente exuberante tornou-se constantemente interrompida, na medida em que eu era forçado a ficar completamente sem ação quando um após outro belo e esperançoso jovem descia silenciosamente à sepultura.

Alguns desses rapazes falecidos eu conheci muito bem, enquanto outros estavam entre os incontáveis vultos que roçavam contra o meu corpo nas penumbras das casas noturnas. Alguns, eu mal consigo lembrar, pois eles existiam apenas como um catálogo ou coleção de homens quase sem rosto com quem eu tinha passado alguns momentos. Eles eram aqueles que por vezes eu anonimamente me aninhava ao lado. Atos de mútuo desespero compartilhados mutuamente nos juntavam, e inevitavelmente nos separavam. Frequentemente, eu só iria reconhecê-los na morte. No entanto, nenhum de nós queria que fosse assim. Nenhum de nós fez a passagem para o estado de “gay querendo morrer”, não mais do que aqueles aparentemente belos e esperançosos jovens que numa certa noite foram a uma boate local.

Mas, para minha geração, o que nos juntou, mesmo no meio da epidemia da AIDS, era uma necessidade coletiva de sermos aceitos; às vezes, por qualquer pessoa. Pois, muitos de nós crescemos como meninos solitários e assustados, incertos de quem éramos num nível mais básico de identidade. Mas, como filhos dos anos 70,  da era das discotecas, onde os ícones “gays” emergiam da cultura pop pela primeira vez, por volta da minha adolescência e como ávido fã da cantora Madonna – eu já não me sentia envergonhado por quem eu achava que eu era. No entanto, como os homens “gays” perfazem no máximo  cerca de 4% da população, encontrar parceiros e amigos iguais, especialmente em uma cidade relativamente pequena, não era uma tarefa muito fácil.

Assim, quando eu completei 18 anos, com o coro das vozes masculinas no refrão da música do Village People “Go West” tocando sem parar no meu cérebro, eu fui para San Francisco para estar entre os da minha própria espécie. O primeiro lugar que eu fui parar foi numa boate “gay” – uma espécie de lugar mágico com uma grande pista de dança lotada, tomada quase de forma consistente por homens incrivelmente atraentes. Mais cedo, naquela mesma noite, andando pela Rua Castro, como um turista perdido de fora da cidade, a música do Pet Shop Boys ecoando no ar, levou-me diretamente para a porta daquela boate. No interior, tudo o que eu sempre desejei fundia-se em um mundo fantástico de total felicidade: o menino que todo mundo rejeitava, o garoto magricela que ficava jogado de lado, a pequena fada triste que só queria brincar com os outros meninos, tornou-se, de repente, o objeto de atração; homens bonitos e viris me compravam bebidas e empurravam-se uns contra os outros a fim de jogarem-se em cima de mim. Ao contrário do mundo em geral, do qual eu tinha acabado de escapar – havia consistência e harmonia ali; havia ocasionalmente algumas discussões ou brigas de bêbados e inúteis, mas, no geral, todos se davam bem. Para mim, isso era a Verdade.

Eu vejo agora as fotos dos mortos, e eles me fazem lembrar dos homens que eu conheci – que morreram de AIDS há muito tempo atrás. Eles, também, achavam que a cena “gay” era o lugar onde eles pertenciam. Quando é que a Igreja Católica dará as boas-vindas a estes homens?  Mas, não com falsas platitudes sobre “ter nascido gay”. Nós precisamos ser acolhidos na Igreja –  mas com a Verdade e com o Amor.

No entanto, para além deste espaço público, também havia recantos escuros na boate, onde muitas vezes os homens escapavam para se relacionar uns com os outros. Olhando para trás agora, eu posso ver como todos nós estávamos desesperados por amor e aceitação, pois ficar esfregando uns contra os outros na pista de dança nunca foi suficiente. Às vezes, esses breves encontros deixavam-me sentindo um vazio, mas só antes, porque antes eu estava sozinho, e agora já não estava mais. Porque esses ambientes “gay” forneciam esperança de que  eu não era o único, e que, entre outros que sentiam o mesmo que eu sentia, ser “gay” fazia todo o sentido. Estávamos à procura de uma identidade, e a comunidade “gay” fornecia-nos uma que se encaixava como uma luva. E, por um tempo – eu fui muito feliz. Eu me sentia em casa, e queria que nunca acabasse.

Mas, acabou. De repente, embora sempre reconheci a realidade da AIDS pairando no ar – eu imaginava que era algo que acontecia com outras pessoas, mas jamais comigo ou meus amigos. Mas então as pessoas que eu conhecia muito bem, começaram a ficar doentes e morrer. Era aleatório e rápido. Alguns de nós começou a perder a conta. E eu me perguntava por que eu estava aqui; porque estávamos todos aqui. Será que estávamos todos de alguma forma marcados para morrer?  Seria o desconhecido Deus da minha infância um senhor cruel que nos odiava e queria todo homem gay destruído?

Estas questões enormes, enquanto simplesmente tentava sobreviver ao massacre – naquele  momento, eu não podia sequer começar a compreender. Mais tarde, quando conquistei uma certa medida de calma e paz, percebi que todos os que entram em alguma boate gay ou bar, ou mesmo uma sauna gay ou sex clube, é porque eles não tem mais para onde ir. Não importa o que fizemos para nós mesmos, nenhum de nós merecia morrer. Só que fizemos, e, embora estivéssemos aterrorizados, ficamos a nos perguntar – para onde mais poderíamos ir?

Eu me tornei maior de idade no período pós-conciliar da Igreja na década de 70. Naquela época, uma espécie de indiferença aparentemente benigna permeava todos os aspectos da educação Católica. Isto criou uma adesão rigorosa à teoria subjetiva segundo a qual todas as doutrinas e ensinamentos multisseculares da Igreja são inerentemente relativos a certos indivíduos e situações. Essencialmente nos disseram para cada um criar o seu próprio Jesus pessoal – para fazer o nosso próprio mundo; e foi isso  exatamente o que fizemos. Quanto a mim, eu criei o meu próprio “mundo gay e um deus “gay”. Quando a AIDS começou a chegar cada vez mais perto de mim – eu pensei que o Deus que eu havia criado tinha se voltado contra mim.

O flagrante fracasso de toda a hierarquia católica nos EUA de agir rápida e decisivamente na repressão contra a dissidência generalizada, especificamente no tocante a filosofias altamente errôneas sobre a homossexualidade, tornou-se materializada em um homem principalmente: Padre John J. McNeill. Além dele, haviam outros altos dissidentes “gays” na década de 70, ou seja, Bispo Raymond Hunthausen, o falecido padre Robert Nugent e irmã Jeannine Gramick; dos três, Gramick ainda está viva e ativa – causando estragos tanto fora como dentro da Igreja.

Eu nunca esquecerei um amigo querido, uma das vanguardas “gay” do movimento, que se assumiu naquela época revolucionária dos anos 70, e que repetidamente recomendava, quando ele descobriu que eu tinha sido criado como Católico, o livro best seller de McNeill : “A Igreja e o homossexual”. Meu amigo, que me disse que ele tinha uma vez vacilado incessantemente sobre sua um pouco atrasada “saída do armário” como um” homem gay”, e que pois se assumiu após  ter completado 20, disse que Padre McNeill confirmou que suas dúvidas recorrentes eram infundadas. Ele apontou para algo em especifico que Padre McNeill tinha escrito: “Os seres humanos não escolhem sua orientação sexual; eles descobrem-na como algo dado. “Ele leu em voz alta para mim passagens detalhando a afirmação de Padre McNeill segundo as quais os atos sexuais cometidos entre pessoas do mesmo sexo eram tão” santos “como aqueles entre homens e mulheres. Até então, ele estava, pelo que eu poderia dizer, talvez em sua terceira ou quarta relação “estável”. Mas, como eu disse a ele, minha geração havia crescido sem qualquer amarra persistente pesada, cultural, social ou religiosa sobre a sexualidade. Eu simplesmente sabia que eu era “gay” e sabia onde era o meu lugar. Meu amigo acabaria morrendo de Aids alguns anos mais tarde.

Eu nunca contraí o HIV, no entanto, passei a maior parte da década de 90 em um ciclo constante de antibióticos, tentando, às vezes inutilmente, evitar as infecções sexualmente transmissíveis intermináveis que continuavam correndo pelo meu corpo. Quando eu abandonei o mundo “gay”, não por qualquer escolha, mas por causa da realidade iminente da morte, eu inexplicavelmente, e quase que imediatamente, fui falar com um padre católico.  Eu contei pra ele tudo que eu havia feito e vivido na última década e como eu queria deixar San Francisco e Castro. Quando eu terminei de falar, ele soltou um suspiro e disse: “Mas, você nasceu gay, que é onde você pertence.” Ele criticou alguns dos meus métodos, que eu tinha vivido minha vida enquanto “gay” de uma forma um pouco irregular e irresponsável e que eu deveria tentar “sossegar” com um homem só.

Hoje analisando alguns pontos, vejo que muitos sacerdotes e prelados concordariam com ele. Um recentemente disse: “Eu acredito que as pessoas nascem da maneira que elas nascem e eu creio que Deus nos cria como nós somos.” Mas, ainda mais preocupante é a seguinte declaração: “Para mim, essa inclinação é um ponto de interrogação: pois ela não reflete o projeto original de Deus e não obstante é uma realidade, porque você nasce gay”. Este é provavelmente o pior tipo de paternalismo mal orientado sob o disfarce de misericórdia liberal. É um fracasso épico: ao mesmo tempo que  parecem defender a doutrina católica, segundo a qual a homossexualidade não é parte do plano de Deus, tentam nos condenar a algo que não faz parte do plano de Deus – porque, afinal de contas “teríamos nascido gay”.

Em um salto ainda mais auto-destrutivo, imediatamente após o massacre de Orlando, um Bispo da Flórida tinha que dizer isto: “… infelizmente, é a religião, inclusive a nossa, que os tem como alvo, principalmente verbalmente, e que também gera muitas vezes desprezo pelos gays, lésbicas e transgêneros. Os ataques de hoje em homens e mulheres LGBT muitas vezes plantam a semente do desprezo, em seguida, o ódio, que pode finalmente levar à violência “.

Esta definitivamente não é a Igreja Católica e não é o que a Igreja Católica defende, apesar de que até eu tive que descobrir isso por mim mesmo depois de muitas provações e erros.  Como a maioria dos homens “gays” e mulheres que se arrastam até a Igreja – rapidamente descobri que as práticas “pastorais” a respeito da homossexualidade dependem muitas vezes de com quem você está falando; esta incerteza vinda dos sacerdotes podem causar ressentimento ou uma capitulação de volta para a nossa identidade “gay” – embora de uma forma mais circunscrita em que às vezes se abraça a castidade. Mas, uma coisa que eu sabia quase imediatamente – é que eu não quero voltar pra aquela vida. Pois, o Senhor Jesus Cristo havia me perseguido – e, na mesma noite da minha conversão, eu estava envolvido em uma cena tão tenebrosa, que comparativamente ia muito além de qualquer um dos encontros rotineiros que eu já tinha tido em banheiros de boates gays. Mas, no último momento da minha vida, me foi dada uma escolha final, e eu escolhi Ele. Mas, será que a Igreja não deveria oferecer a todos os homens e mulheres “gays” exatamente essa mesma escolha? Ou, deveríamos esperar até o momento da morte?

No entanto, em certa medida, a Igreja tem contribuído para a eventual morte de alguns homens e mulheres homossexuais, mas não da maneira como este Bispo da Flórida está propondo. Pois, é na frouxidão (e no abandono da) doutrina católica, e não por sua dureza imaginária, que a Igreja se torna cúmplice. Porque, ao não oferecer nenhuma alternativa para a identidade “gay” – isso não gera o ódio, mas sim rejeição pura e simples. Ao invés da Igreja ser um refúgio defensivo contra o caos, a incerteza e a violência do mundo, para muitos homens e mulheres “gay”, a Igreja realmente acaba simbolizando esse caos e a desunião – mesmo por sua hipocrisia, simbolizada pela lavagem de roupa em público como por exemplo, os desacordos às vezes maliciosos entre os prelados durante o Sínodo recente. Independente do que saiu no papel, a Igreja apareceu conflituosa e confusa. A incapacidade de alguns dentro da Igreja de apresentar uma mensagem clara e concisa sobre a homossexualidade tem causado muitos a desconsiderar a Igreja pura e simplesmente, e voltar-se para o único outro mundo que eles conhecem.

Infelizmente, alguns membros da Igreja, como esse  Bispo da Flórida, continuam a cometer os mesmos erros do passado, constantemente referindo-se a nós como gays, lésbicas, transgêneros e LGBT; e nós não somos nenhuma dessas coisas. Nós não nascemos “gay”, e nós não nascemos danificados. Podemos até termos sido feridos ao longo do caminho, mas, como o resto da humanidade, podemos nos recuperar e curar. Nós não pertencemos a uma identidade, não pertencemos a um movimento, e nós não pertencem a um grupo. Então não fale com a gente como se nós pertencêssemos. Nós pertencemos a Deus.

Será que tem alguém corajoso o suficiente para nos mostrar o caminho?

Eu vejo as fotos dos mortos, e eles me fazem lembrar dos homens que eu conheci – que morreram de AIDS há um longo tempo atrás. Eles, também, pensavam que “gay” era o lugar onde eles pertenciam. Quando é que a Igreja Católica dará as boas-vindas a estes homens? Mas não com falsas platitudes sobre nascer gay. Temos de ser acolhidos na  Igreja – mas com a Verdade e com o Amor.

Quarenta e nove vidas preciosas foram perdidas em uma noite, mas desde que a epidemia da AIDS começou, um número estimado de 311.087 homens “gays” com um diagnóstico de AIDS morreram, incluindo 5380 estimados em 2012.

“A pessoa humana, feita à imagem e semelhança de Deus, dificilmente pode ser descrita adequadamente por uma referência reducionista à sua orientação sexual. Cada ser humano na face da terra tem problemas pessoais e dificuldades, mas também desafios para o crescimento, pontos fortes, talentos e dons igualmente. Hoje, a Igreja fornece um contexto extremamente necessário para o cuidado da pessoa humana quando ela se recusa a considerar a pessoa como “heterossexual” ou “homossexual” e insiste que cada pessoa tem uma identidade fundamental: a criatura de Deus, e por graça, o seu filho e herdeiro da vida eterna. – Carta aos Bispos da Igreja Católica sobre o cuidado pastoral de pessoas homossexuais

Joseph Sciambra é blogueiro em JosephSciambra.com. Este artigo é reproduzido com permissão de seu blog.

Tags: