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13 março, 2017

‘Viri probati’. O Celibato na mira.

Por FratresInUnum.com – 13 de março de 2017: Em Roma, fortalece-se o rumor de que a Santa Sé deveria permitir, até o fim deste ano, a ordenação de homens casados — os chamados viri probati — para a região da Amazônia. Vale buscar os arquivos de FratresInUnum.com, que tratou pela primeira vez da questão em abril de 2014, antes de qualquer outro meio de comunicação, quando o pontificado de Francisco apenas acabara de completar um ano.

Mais tarde, em abril de 2016, escrevíamos: “Estamos em condições de afirmar que o assunto [celibato] foi pauta de reunião privativa dos bispos na Assembléia da CNBB de 2015, sendo capitaneado por Dom Cláudio Hummes. Então, o arcebispo emérito pediu que os bispos do Brasil fizessem uma ‘proposta concreta’ a Francisco sobre o tema. A recém-eleita presidência da CNBB não demonstrou nenhum empenho especial pela causa, por conta divisão do episcopado brasileiro a respeito”.

Em entrevista concedida ao jornal alemão Die Zeit, publicada na semana passada, o pontífice não disse que estudaria a proposta de extinguir o celibato, mas que estudaria a possibilidade de que alguns homens casados pudessem exercer algumas funções sacerdotais, os chamados viri probati.

Afirmou o Papa:

“A vocação dos padres representa um problema enorme e a Igreja deverá resolvê-lo. No entanto, o celibato opcional, ou seja, facultativo, não é a solução, nem mesmo abrir as portas dos seminários a pessoas que não apresentam uma autêntica vocação. Já a questão dos viri probati é uma possibilidade, todavia, se deve precisar quais as tarefas que essas pessoas poderiam assumir nas comunidades “isoladas”. O Senhor disse: rezem. É isso que falta, a oração. E falta o trabalho com os jovens que procuram orientação”.

Frenesi generalizado em sites católicos pró-establishment [exemplos aqui e aqui], que se desdobram apressadamente: não é o celibato que está em jogo, mas, apenas uma exceção para casos extremos! Como se na Igreja pós-conciliar todas as excepcionalíssimas exceções — vide comunhão na mão, mulheres acólitas, etc — não se tornassem, em pouco tempo, regra absoluta inquebrantável.

Que o Senhor tenha misericórdia de nós e intervenha.

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12 abril, 2014

Ainda o encontro de Francisco com Dom Erwin Kräutler. O caso dos ‘viri probati’.

A matéria abaixo dá mais detalhes sobre o diálogo divulgado, em primeira mão, pelo Fratres no último domingo.

Papa Francisco: homens casados podem ser ordenados sacerdotes se os bispos estiverem de acordo

Por Secretum Meum Mihi | Tradução: Fratres in Unum.com – Um novo tema ressurgiu a partir da audiência de Dom Erwin Kräutler com o Papa Francisco (além de sua referida colaboração na encíclica sobre a ecologia). Trata-se dos viri probati, tema esse que acreditávamos que já estivesse arquivado.

Tradução feita a partir da tradução do Secretum Meum Mihi da parte principal de um artigo publicado no The Tablet, de 10 de abril de 2014.

Papa Francisco: homens casados podem ser ordenados sacerdotes se os bispos estiverem de acordo

10 de abril de 2014 por Christa Pongratz-Lippitt – Um bispo que se reuniu com o Papa Francisco em uma rara audiência privada, no dia 4 de abril, disse em uma entrevista que os dois discutiram o tema da ordenação de homens casados “provados” — viri probati — de uma maneira séria e positiva.

Dom Erwin Kräutler, bispo de Xingu, na selva tropical do Brasil, conversou com o Papa a respeito da próxima encíclica de Francisco sobre o meio ambiente e o tratamento dos povos indígenas, porém, a desesperadora escassez de sacerdotes na grande diocese do bispo veio à tona na conversa. De acordo com uma entrevista que o bispo, nascido na Áustria, deu ao diário Salzburger Nachrichten, no dia 5 de abril, o Papa estava com a mente aberta a respeito de encontrar soluções para o problema, dizendo que as conferências episcopais poderiam ter um papel decisivo.

“Disse-lhe que, como bispo da maior diocese do Brasil, com 800 comunidades eclesiais e 700.000 fiéis, só tinha 27 sacerdotes, o que significa que nossas comunidades só podem celebrar a Eucaristia, no máximo, duas ou três vezes ao ano”, disse o bispo Kräutler. “O Papa explicou que não podia tomar tudo nas mãos pessoalmente estando em Roma. Nós, os bispos locais, que estamos mais familiarizados com as necessidades de nossos fiéis, devemos ser corajudos, ou seja, ‘valentes’ em espanhol, e dar sugestões concretas”, explicou. Um bispo não deveria atuar sozinho, disse o Papa a Kräutler. Ele deu a entender que “as conferências episcopais regionais e nacionais deveriam dar um jeito de encontrar um consenso sobre a reforma e logo deveríamos levar a Roma nossas sugestões para reforma”, disse Kräutler.

Ao ser indagado se ele havia perguntado na audiência sobre a ordenação de homens casados, o bispo Kräutler respondeu: “O assunto da ordenação de viri probati, ou seja, dos homens casados provados que poderiam ser ordenados ao sacerdócio, surgiu quando estávamos falando da difícil situação de nossas comunidades. O mesmo Papa me falou de uma diocese no México, em que cada comunidade tinha um diácono, porém, muitas não tinham nenhum sacerdote. Havia 300 diáconos ali que, naturalmente, não podiam celebrar a Eucaristia. A questão era como as coisas poderiam continuar nessa tal situação”.

“Cabia aos bispos apresentar sugestões, disse novamente o Papa”.

Então, perguntaram a Dom Kräutler se agora dependia das conferências episcopais no que tange às reformas da Igreja prosseguirem ou não. Ele respondeu que “Sim”, “Depois da minha conversa pessoal com o Papa, estou absolutamente convencido disso”.

[…]

A referência a “uma diocese no México” é precisamente a diocese mexicana de San Cristobal das Casas, onde falta tudo, menos diáconos [Nota do Fratres: Bento XVI mesmo chegou a proibir oficialmente a ordenação de mais diáconos naquela diocese, pois via-se claramente que o propósito era promover o diaconato permanente em detrimento das vocações sacerdotais]

O artigo também faz referência a uma entrevista no Salzburger Nachrichten de 5 de abril de 2014. Porém, na realidade, ele é de 8 de abril de 2014, página 9 (ver imagem acima, clique para ampliar; cópia do artigo aqui).

* * *

[Atualização – 12/04/14 às 12:37] Nota do Fratres: Dom Erwin poderia pedir umas dicas à FSSPX sobre como manter uma taxa de crescimento de sacerdotes nos últimos anos. Achamos que seu método seja um tanto ineficiente, não é Dom Erwin? Talvez seja realmente uma daquelas mazelas trazidas do Velho Mundo por Brancos Viciados

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25 novembro, 2017

Coluna do Padre Élcio: O Juízo Universal.

 “Tendo dito isto,(Jesus) elevou-se à vista deles; e uma nuvem os ocultou aos seus olhos. Como estivessem olhando para o céu, quando ele ia subindo, eis que se apresentaram junto deles dois personagens vestidos de branco, os quais lhes disseram: Homens da Galileia, por que estais olhando para o céu? Esse Jesus que, separando-se de vós, foi arrebatado ao céu, virá do mesmo modo que o vistes ir para o céu” (Atos I, 9-11).

“Pois é necessário que todos nós compareçamos diante do tribunal de Cristo, para que cada um receba o que é devido ao corpo, segundo fez o bem ou o mal” (2 Cor. V, 10).

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

Vamos seguir o Catecismo Romano.

SUA REALIDADE: Em prova do Juízo Final, basta citar esta passagem do Apóstolo: “Todos nós teremos de comparecer perante o tribunal de Cristo, para que cada um receba retribuição do bem ou do mal, que tiver praticado em sua vida terrena” (2 Cor. V, 10 e Rom. XIV, 10).

juizo-finalA Escritura está cheia de textos, que os párocos descobrirão a cada passo, quando quiserem explicar este mistério e torná-lo mais acessível à inteligência dos fiéis (P. ex.: 1 Reis, 2, 10; Oséias  95, 13; Is 2, 12; Jer. 46, 10; Dan. 7, 26; Joel 2, 1-13; Sof. 1, 7-14; Mal. 4, 1; Mat. 13, 40; Luc. 17, 24; Atos 1, 11; Rom. 2, 16; 1 Cor. 15, 51; 1 Tess. 1, 10; Apoc. 20, 11).

O Juízo final é objeto de nossa esperança: Se desde o início do mundo, todos ansiavam pelo dia em que o Senhor Se revestiu de nossa carne, porquanto neste mistério punham a esperança de seu resgate, também agora devemos  –  depois da Morte e Ascensão do filho de Deus – suspirar ardentemente pelo segundo Dia do Senhor, “aguardando a ditosa
esperança e o aparecimento da glória do grande Deus” (Tito II, 13).

Explicação dos dois juízos: Na explicação desta matéria, os párocos terão de atender às duas ocasiões em que todo homem deve comparecer na presença do Senhor, para dar contas de todos os seus pensamentos, ações e palavras, e aceitar finalmente a sentença imediata do juiz. (Cf. Hebr. IX, 27).

O juízo particular: A primeira ocasião é o momento em que cada um de nós deixa este mundo; é levado incontinente ao tribunal de Deus, onde se examina, com a máxima justeza, tudo o que jamais fez, disse, e pensou em sua vida. [No original em latim: “Ibique de omnibus justissima quaestio habebitur, quaecumque aut egerit homo, aut dixerit, aut cogitaverit unquam”. Tomo a liberdade de corrigir a tradução porque em latim “unquam” só significa “jamais” nas frases negativas, interrogativas e condicionais. Nos outros casos significa: em algum momento, em algum dia. Então a tradução correta:

“Onde se examina com a máxima justeza, tudo o que em algum momento o homem fez, disse e pensou em sua vida”]. É o que se chama Juízo Particular.

O juízo universal: A segunda ocasião, porém, há de ser quando todos os homens comparecerem juntos, no mesmo dia e lugar, perante o tribunal do juiz, para que, na presença de todos os homens de todos os séculos, cada um venha a saber a sentença que a seu respeito foi lavrada. Para os ímpios e malvados, esta declaração de sentença constituirá a não menor parte de suas penas e castigos; ao passo que os virtuosos e justos nela terão boa parte de sua alegria e galardão. Naquele instante, será pois revelado o que foi cada indivíduo, durante sua vida mortal. Este Juízo se chama Universal.

Motivos para o Juízo Universal:

a) Abrir todas as consciências.  Será então necessário mostrar porque, além do Juízo Particular para cada um, se fará ainda outro geral para todos os homens. Ora, os mortos deixam às vezes filhos que imitam os pais; descendentes e discípulos que seguem e propagam seus exemplos em palavras e obras. Esta circunstância aumenta necessariamente os prêmios ou castigos dos próprios mortos (Basilius M. de vera virginitate). [A primeira vista isto parecer-nos-á estranho; por isso, abaixo no final, explicá-lo-ei]. Tal influência, cujo caráter benéfico ou maléfico empolga muitos, só acabará no último dia do mundo. Convinha, então, fazer-se uma perfeita averiguação de todas essas obras e palavras, quer sejam boas, quer sejam más. O que, porém, não seria possível sem um julgamento geral de todos os homens.

b) Reabilitar os justos. Outro motivo ainda. Muitas vezes, os justos são lesados na reputação, enquanto os ímpios passam por grandes virtuosos. Pede a divina justiça que, numa convocação para o público julgamento de todos os homens, possam os justos recuperar a boa fama, que lhes fora iniquamente roubada aos olhos do mundo.

c) Responsabilizar também o corpo. Além disso, em tudo o que façam durante a vida, bons e maus não prescindem da cooperação de seus corpos. Daí decorre, necessariamente, que as boas ou más ações devem atribuir-se também aos corpos, que delas foram instrumentos. Era, pois, de suma conveniência que os corpos partilhassem, com as almas, dos prêmios da eterna glória ou dos suplícios, conforme houvessem merecido. Isto, porém, não poderia efetuar-se, sem a ressurreição de todos os homens, e sem um julgamento universal.

d) Justificar a Providência de Deus. Como também a fortuna e a desgraça não fazem escolha entre bons e maus, era afinal necessário provar que tudo é dirigido e governado pela infinita sabedoria e justiça de Deus. Convinha, pois, não só reservar, na vida futura, prêmios aos bons e castigos aos maus, mas também decretá-los num juízo público e universal, que os tornasse mais claros e evidentes a todos os homens. Desta forma, todos renderão louvor a Deus pela sua justiça e providência, em desagravo daquela injusta queixa com que às vezes nos próprios Santos, por sentimento humano, se lastimavam, ao verem os maus na posse de grandes cabedais e dignidades. O Profeta (Davi) dizia: “Meus pés estiveram a ponto de vacilar. Por pouco se não transviaram meus passos, porque me enchi de zelo contra os maus, quando observava a vida bonançosa dos pecadores” (Salmo 72, 2 e 3). Mais adiante: “Eis que, sendo pecadores, e favorecidos pelo mundo, eles conseguiram riquezas. E eu disse: Então não me adiantou guardar puro meu coração, e lavar em inocência minhas mãos; em ser torturado o dia inteiro, e padecer aflição desde o romper da madrugada” (Salmo 72, 12-14). Por conseguinte, precisava haver um Juízo Universal, a fim de que os homens se não pusessem a comentar que Deus passeia pelos quadrantes do céu, e que pouco se Lhe dá a sorte das coisas terrenas (Cf. Jó 22, 14). Com toda razão foi incluída a fórmula desta verdade nos doze artigos do Credo, para apoiar, com a força da doutrina, os ânimos que duvidem da providência e justiça de Deus.

e) Alentar os bons e aterrar os maus. Sobretudo, era mister que a lembrança do Juízo alentasse os bons, e aterrasse os maus. Conhecendo a justiça de Deus, aqueles não viriam a desfalecer; estes seriam arredados do mal, graças ao temor e à expectação dos eternos castigos. Por isso, falando do Último Dia, Nosso Senhor e Salvador declarou que haveria um Juízo Universal. Descreveu os sinais do tempo em que há de chegar, para que, ao vê-los, reconhecêssemos estar perto o fim do mundo. Depois, no momento de subir aos céus, enviou Anjos que dissessem aos Apóstolos, tristes com Sua ausência, as seguintes palavras de consolação: “Este Jesus que de vosso meio foi arrebatado ao céu, há de vir assim como O vistes subir ao céu” (Atos I, 11).

Observação: O Catecismo Romano continua tratando do Juízo Universal; mas, para não me alongar por demais, e ao mesmo tempo, querendo desde já explicar o primeiro motivo do Juízo Universal aduzido pelo Catecismo Romano, omitirei o restante deste capitulo.

Que Deus me ajude a bem explicar o primeiro motivo do Juízo Universal acima aduzido pelo Catecismo Romano:

Abrir todas as consciências. Em primeiro lugar citarei alguns escritores célebres a começar pelos santos que escreveram sobre isto. Santo Antônio Maria Claret, a primeira e mais lídima glória do Concilio Vaticano I, Missionário extraordinário e fundador dos Missionários do Coração de Maria, assim diz em seu Catecismo da Doutrina Cristã: “Os bons e os maus, com as obras que fizeram e com o bem que omitiram, deixaram neste mundo uma herdade plantada que, no bem ou no mal, continua a frutificar aumentando o prêmio ou o castigo; no dia do juízo (está falando sobre o Juízo Universal), porém chegará o seu fim, pois, então se verá todo o bem que fizeram os justos e todo o mal dos malvados”. E hoje pensamos na aplicação destas palavras ao próprio Santo Antônio M. Claret que deixou escritos 144 livros, queimou 3 mil livros obscenos e estampas escandalosas e distribuiu gratuitamente só na Ilha de Cuba mais de 200 mil livros bons. Olhando o outro lado da moeda, Fidel Castro no dia do Juízo Final dará contas a Deus pelos males do Comunismo que perdurarem mesmo após a sua morte.

Ouçamos agora o célebre escritor Dom Plat:

“Todo homem há de pagar tributo à morte. E desde aquele momento seus atos bons cessam de merecer, e os maus cessam de atrair novos castigos? Não, porque, ainda que o homem em questão, não mereça nem desmereça em virtude de atos pessoais, estes atos, realizados durante sua vida mortal, continuam tendo consequências boas, se foram louváveis, e consequências funestas, se foram maus ou criminosos. O Doutor Angélico, em seu magistral artigo sobre este tema (S. Thel. 3ª Parte, q. 59, a. 5. Este será o artigo do próximo sábado)   põe a Ario como exemplo: Ario que foi o primeiro dos grandes heresiarcas, Ario, o precursor, o inspirador, o pai, mais ou menos direto, da maior parte das heresias que hão desolado e que provavelmente desolarão o Oriente até a consumação dos séculos: “Ex deceptione Arri, et aliorum fautorum pullulat infidelitas usque ad finem mundi” (…)

Passemos agora, continua Plat, a outra classe de coisas mui diferentes: Que bem não fez S. Vicente de Paulo durante os oitenta anos de sua existência mortal (…) e é mui provável que esta influência do santo se perpetuará até o fim dos séculos. O que equivale dizer que (…) o santo varão aumentará de dia em dia o número de seus méritos. (…) Oh! quão grande é a responsabilidade que contraímos por nossas ações! Para muitos esta responsabilidade será tal, que a conta da mesma não se encerrará até a consumação dos séculos. Por esta razão , podemos dizer com um autor espiritual (Gaussens): “É necessário o juízo final, para que todas nossas boas obras hajam dado seu fruto; é necessário o juízo final, para que, ao findar o tempo, havendo manifestado todas as consequências de nossa vida, o justo Juiz possa examinar, em toda sua extensão, nossa culpabilidade ou nosso mérito” (Cf. Expl. do Cat. de S, Pio V, Símbolo dos Apóstolos, sermão 50º).

Agora, o Catecismo Católico Popular por Francisco Spirago: “No Juízo (Final) Deus revelará também a sua JUSTIÇA, porque acabará o que ficou imperfeito no juízo particular. Os atos, as palavras, os escritos de muitos homens fizeram ainda bem e mal depois da morte deles; os apóstolos, os missionários encheram de benefícios numerosas gerações; assim também os hereges corromperam não só os contemporâneos, mas também a posteridade. O grão semeado pelo homem não chega à completa maturidade senão no Juízo Final”.

Mas a mente humana exige ainda uma ulterior explicação: porque é de todos sabido que, após a morte não se pode mais nem merecer nem desmerecer. A parábola das dez minas(moedas de ouro) parece lançar uma luz sobre este assunto, à primeira vista, obscuro (S. Lucas XIX, 11-27). O homem nobre voltando depois de ter tomado posse de seu reino, chamou os dez servos para que prestassem contas e como o que recebera 1 moeda  não a fez frutificar, disse-lhe o Rei: “… Por que não puseste o meu dinheiro num banco, para que, quando eu viesse, o recebesse com os juros? E disse aos que estavam presentes: Tirai-lhe a moeda de ouro e dai-a ao que tem dez. Eles responderam-lhe: Senhor, ele já tem dez. Pois eu vos digo que a todo aquele que tiver, se lhe dará, e terá em abundância; ao que não tem, será tirado ainda mesmo o pouco que tem”. Creio que nesta última palavra encontramos a explicação. Pois, quem no juízo particular foi aprovado é porque morreu sem pecado mortal. Isto significa que, se cometeu pecados mortais, por palavras, obras e omissões que causaram escândalos e prejudicaram gravemente o próximo, não só  ou se arrependeram com contrição perfeita e desejaram receber o sacramento da penitência, ou se arrependeram com a simples atrição e receberam os sacramentos da penitência e/ou extrema unção, mas também se propuseram ou procuraram reparar na medida do possível todo escândalo e prejuízo (do contrário não teria havido verdadeiro arrependimento). E diz a Sagrada Escritura: “Se o ímpio fizer penitência de todos os pecados que cometeu,(…) Eu não me lembrarei mais de nenhuma das iniquidades que praticou”(Ezequiel XVIII, 21 e 22).  Ora, se Jesus não vai se lembrar delas no Juízo Particular, também  no Juízo Universal e “a fotiori”, nem das suas más consequências após túmulo até o fim do mundo. Portanto, quem se salva, além de não ser penalizado pelo mal que talvez praticou em vida (pois dele fez penitência), receberá um acréscimo de prêmios pelos frutos de suas boas obras mesmo aqueles posteriores à sua morte até o fim dos séculos. E assim: Todo aquele que tiver, se lhe dará, e terá em abundância.

Em relação aos condenados, os papéis se invertem: Se fizeram boas obras, ou já nasceram mortas pelo fato de seu ator estar em pecado mortal, ou perderam a vida (obras mortificadas) por pecado(s) mortais subseqüentes e com os quais o pecador morreu. Estas obras boas mas mortas ou mortificadas e que não merecem prêmio sobrenatural, Deus, sendo a própria Justiça, as recompensa com bens naturais materiais aqui na terra. Por isso diziam os santos que era mau sinal para os pecadores públicos e inveterados  serem cumulados de fortunas, prazeres e gozarem  sempre de saúde. Por outro lado, os condenados receberão penas adicionais no Juízo Final pelos maus frutos de suas obras más, subseqüentes à sua morte até o fim do mundo.  Ao que não tem, será tirado ainda mesmo o pouco que tem.

É óbvio, caríssimos e amados leitores, que em se tratando de mistérios de Deus, a inteligência humana, mesmo iluminada pela fé, poderá ir até certo ponto mas nunca lhe será permitido pretender compreender inteiramente os insondáveis desígnios divinos. Daí dizer S. Paulo: “Sapere ad sobrietatem” (Rom. XII, 3). Amém!

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26 outubro, 2017

A Correctio filialis e a Laudatio do Papa Francisco.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 19-10-2017 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.comTrês semanas após a Correctio filialis (http://www.correctiofilialis.org), surgiu a primeira resposta organizada: uma Laudatio publicada na web, assinada por um grupo de sacerdotes e intelectuais oriundos principalmente da  área austro-germânica (http: // www.pro-pope-francis.com/).

Quem são os signatários da Laudatio? Um deles, o prelado alemão Fritz Lobinger, bispo emérito de Aliwal (África do Sul), é o “pai” da expressão “presbíteros comunitários”, exposta no livro Teams of Elders. Moving beyond Viri probati (20017) [Equipes de Anciãos. Indo além dos Viri probati], no qual ele preconiza a introdução na Igreja de dois tipos de sacerdotes: os diocesanos e os comunitários, os primeiros celibatários em tempo integral, e os segundos casados, com família, à disposição da comunidade em que vivem e trabalham.

Outro signatário é o Pe. Paul Zulehner, discípulo de Karl Rahner, também conhecido por uma fantasiosa “Futurologia Pastoral” (Pastorale Futurologie, 1990). Em 2011 ele apoiou o “apelo à desobediência” lançado por 329 sacerdotes austríacos a favor do casamento dos sacerdotes, da ordenação sacerdotal de mulheres, do direito dos protestantes e dos divorciados recasados de receber a comunhão, e dos leigos de pregar e dirigir paróquias.

Martin Lintner é um religioso servita de Bolzano, professor em Bressanone e presidente do Insect (International Network of Societies for Catholic Theology). Ele é conhecido por seu livro La riscoperta dell’eros. Chiesa, sessualità e relazioni umane (2015) [A redescoberta do eros. Igreja, sexualidade e relações humanas], no qual se declara favorável à homossexualidade e às relações extraconjugais, bem como à aceitação entusiástica de Amoris laetitia, que marca, segundo ele, “um ponto de não retorno” na Igreja. Com efeito, “não podemos mais afirmar que hoje haja uma exclusão categórica de se aproximar dos sacramentos da Eucaristia e da reconciliação para aqueles que, na nova união, não se abstenham das relações sexuais. Não há nenhuma dúvida sobre isso, a partir do próprio texto da AL” (www.settimananews.it, 5 de dezembro de 2016).

Fica claro a esta altura que a profunda divisão que percorre a Igreja não é entre opositores e fãs do Papa Francisco. A linha de fratura ocorre entre quem é fiel ao Magistério imutável dos Papas e quem apoia o Papa Bergoglio por almejar  o “sonho” de uma igreja nova diferente daquela fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo.

Não é preciso ser historiador para entender que estamos vivendo uma página absolutamente incomum na vida da Igreja. Não estamos no fim do mundo, mas à  nossa época se podem aplicar as palavras que com tristeza disse Nosso Senhor sobre o Seu retorno no fim dos tempos: “Quando vier o Filho do Homem, acaso achará fé sobre a Terra?” (Lc 18, 8).

A perda de fé, até mesmo pelos homens da Igreja, é hoje uma evidência. Em 27 de janeiro de 2012, dirigindo-se à Assembleia Plenária da Congregação para a Doutrina da Fé, Bento XVI afirmou: “Estamos diante de uma profunda crise de fé, de uma perda do sentido religioso que constitui o maior desafio para a Igreja de hoje. Por conseguinte, a renovação da fé deve ser a prioridade no compromisso de toda a Igreja nos nossos dias.”  Essa perda da fé tem hoje as características de uma apostasia geral.

O cardeal Robert Sarah, intervindo num encontro das Conferências Episcopais da Europa, realizada em Trieste em 4 de novembro de 2013, afirmou que “mesmo entre os batizados e os discípulos de Cristo, existe hoje uma espécie de ‘apostasia silenciosa’, uma rejeição de Deus e da fé cristã na política, na economia, na dimensão ética e moral e na cultura pós-moderna ocidental”. O cardeal Raymond Leo Burke, por sua vez, em uma homilia pronunciada em 13 outubro de 2017 na Abadia de Buckfast, lembrou que a Mensagem de Fátima “trata das forças diabólicas desencadeadas sobre o mundo em nosso tempo, entrando na própria vida da Igreja, conduzindo as almas para longe das verdades da fé e, portanto, do amor divino que flui do glorioso Coração transpassado de Jesus”.

As almas se perdem porque a linguagem é ambígua e enganosa, e erros e heresias são espalhados todos os dias no povo fiel. O pontificado do Papa Francisco representa o êxito e a culminação de um processo de autodestruição da Igreja cujas origens são remotas, mas que  atingiu hoje uma velocidade vertiginosa.

Nas trevas em que as almas estão imersas, a Correctio filialis de 24 de outubro de 2017 foi como um raio de luz que rasgou a escuridão. A denúncia das heresias apoiadas e propagadas pelo Papa Francisco ressoou de um canto ao outro da Terra, invadindo a mídia e constituindo o tema dominante das conversas particulares de numerosos católicos. Nessas conversas, poucos negam a veracidade dos fatos denunciados pela Correctio. As divergências são mais sobre “o que fazer” diante de uma situação que não tem precedentes na História.

Não falta quem pratique a dupla  linguagem: critica em privado  e homenageia em público os que conduzem a Igreja ao desastre. Essa atitude foi chamada de “nicodemita” por Calvino, para indicar aqueles protestantes que dissimulavam sua doutrina homenageando publicamente a fé e os ritos católicos. Mas a própria Igreja Católica sempre condenou a dissimulação, prescrevendo a confissão pública da fé e o martírio como modelo de vida.

Confessar a fé significa denunciar os erros que se lhe opõem, ainda que os mesmos sejam propostos por bispos e inclusive por um Papa, como aconteceu com Honório I (625-638). Não importa muito saber se Honório foi herege ou favens haeresim [favorecedor de heresia]. O fato de ele ter sido condenado solenemente pelo VI Concílio de Constantinopla (681), presidido pelo papa Leão II, e de sua condenação ter sido confirmada por dois Concílios ecumênicos subsequentes, mostra que a hipótese teológica de um Papa herege, admitida por todos os canonistas medievais, é possível, independentemente do fato de ter-se verificado historicamente.

Mas quem tem autoridade para resistir a um Papa e corrigi-lo? Em primeiro lugar, tal dever incumbe aos cardeais, que são os conselheiros do Papa no governo da Igreja; depois aos Bispos, que constituem, em união com o Papa, a Igreja docente; por fim, aos sacerdotes, religiosos e freiras, e até mesmo aos simples fiéis leigos, que, como batizados, têm aquele aprimoradíssimo sensus fidei que lhes permite discernir a fé verdadeira da heresia.

Eusébio, antes de se tornar bispo de Dorilea, era advogado em Constantinopla quando, em 429, interrompeu em público uma homilia do sacerdote Nestório, que colocava em dúvida a Maternidade divina de Maria. Eusébio teria feito o mesmo se naquele dia, em lugar do Patriarca, estivesse falando o próprio Papa. Seu espírito católico não podia tolerar que a Santíssima Virgem fosse insultada diante do povo fiel.

Hoje a Igreja não precisa de nicodemitas, mas de confessores da fé da  têmpera de Eusébio ou de Máximo o Confessor, um simples monge que não hesitou em desafiar o Patriarca de Constantinopla e os imperadores bizantinos. Para aqueles que queriam obrigá-lo a comungar junto com os hereges monotelitas, ele respondeu: “Ainda que todo o universo comungue com eles, eu não comungarei”. Aos oitenta anos, após sofrer três processos por causa de sua lealdade, Máximo foi condenado à mutilação da língua e da mão direita, os dois órgãos mediante os quais, por palavras e escritos, ele havia combatido erros e heresias.

Ele teria podido repetir as palavras de São Paulo: Ninguém me assistiu na minha primeira defesa, antes todos me desampararam. Não se os impute por isso. Mas o Senhor me assistiu e fortaleceu-me, para que fosse por mim cumprida a pregação e todos os gentios a ouvissem; e fiquei livre da boca do leão” (2 Timóteo 4: 16-17).

O fato de serem poucos, incompreendidos e perseguidos aqueles que dão testemunho da fé católica é permitido pela Divina Providência para aumentar o mérito deles e fazer com que sua conduta não seja apenas legítima e necessária, mas santa e heroica. O que é o exercício heroico das virtudes senão cumprir o próprio dever em circunstâncias excepcionais, apoiado não nas próprias forças, mas na ajuda de Deus?

 

17 outubro, 2017

Sínodo para a Pan-Amazônia. Já vimos esse filme.

Mais um jogo de cartas marcadas? Pois foram exatamente assim os dois sínodos para a família, em que manobras das mais vergonhosas e o desprezo da vontade da maioria dos padres sinodais nos trouxeram, por fim, Amoris Laetitia.

Pois bem, leia aqui e anote em sua agenda (e reze muito, muito mesmo).

Papa anuncia o Sínodo para a Pan-amazônia

Cidade do Vaticano (RV) – Antes de rezar a oração mariana do Angelus, o Papa fez neste domingo (15/10) um anúncio surpreendente, que diz respeito de perto à nossa realidade. Após saudar todos os peregrinos e delegações oficiais de Brasil, França, Itália, México, Ordem de Malta e Espanha, países de origem dos santos recém-canonizados, Francisco disse:

“Atendendo o desejo de algumas Conferências Episcopais da América Latina, assim como ouvindo a voz de muitos pastores e fiéis de várias partes do mundo, decidi convocar uma Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a região Pan-amazônica. O Sínodo será em Roma, em outubro de 2019. O objetivo principal desta convocação é identificar novos caminhos para a evangelização daquela porção do Povo de Deus, especialmente dos indígenas, frequentemente esquecidos e sem perspectivas de um futuro sereno, também por causa da crise da Floresta Amazônica, pulmão de capital importância para nosso planeta. Que os novos Santos intercedam por este evento eclesial para que, no respeito da beleza da Criação, todos os povos da terra louvem a Deus, Senhor do universo, e por Ele iluminados, percorram caminhos de justiça e de paz”.

Há vários meses, tem-se cogitado a realização de um encontro do Papa no Vaticano com os bispos de toda a região (9 países compõem a Pan-Amazônia) para avaliar os desafios e buscar respostas comuns para seus mais de 30 milhões de habitantes.

Em maio de 2017, o Cardeal Cláudio Hummes, Presidente da REPAM, Rede Eclesial Pan-amazônica, entrevistado pela RV, ressaltou a importância de dois aspectos fundamentais: “o propriamente missionário e evangelizador naquela região, e a questão ecológica: a importância da floresta Amazônica e a ameaça que ela está sofrendo de destruição, de degradação, de desmatamento, etc.”.

A REPAM trabalha em sintonia com a Santa Sé, Conselho Episcopal Latino-americano (CELAM), Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Secretariado da América Latina e Caribe de Caritas (SELACC) e Confederação Latino-americana e Caribenha de Religiosos e Religiosas (CLAR).

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29 setembro, 2017

Aquilo que fez e que quer fazer o “Papa Jesus II”, o Demolidor.

Por Antonio Socci, 24 de setembro de 2017 | Tradução: FratresInUnum.com: Nenhum papa até agora tinha ousado atribuir-se o nome de São Francisco de Assis, o “outro Cristo”. Bergoglio o fez. Mas ele – no livro entrevista que acaba de ser publicado, com Dominique Wolton, “Politique et societé – como uma “excusatio non petita” (porque ninguém lhe havia pedido) diz em tom de brincadeira que não foi um ato de soberba, mas, ao contrário, de humildade, porque teria podido chamar-se “Jesus II”. Obviamente, sublinha que está brincando (também Arlecchino se confessou estava brincando…) [ndt.: em italiano, Socci faz referência ao Arlequim, personagem teatral que usava máscaras para dizer, em forma de piada, as verdades que não podiam ser ditas doutro modo. Em português soa como “toda brincadeira tem um fundo de verdade”].

Mas descortina piadas sobre a presunção dos argentinos (“Sabe qual é o melhor negócio? Comprar um argentino pelo seu valor e vendê-lo pelo valor que ele pensa ter”). Acrescenta que um argentino se suicida jogando-se do alto do seu Ego…

Em suma, exibe muita auto-ironia sobre o Ego dos argentinos, e assim tenta dar a entender que ali existe um problema. Talvez um problemão, aquele que há muitos anos tentou – inutilmente – resolver com a psicanalista.

Talvez seja este o seu modo, inclusive, de pedir ajuda. Mas, a essa altura, o homem parece ser um prisioneiro da máquina de guerra que se chama Ego-latria na forma de uma papolatria planetária.

O característico deste pontificado é, de fato, a enormidade das ambições.

Bergoglio parece querer “refundar” a Igreja e quase propor-se, de verdade, como um “papa Jesus II”, coisa que significa, porém, dispensar o próprio verdadeiro Fundador, Cristo, o qual – conhecendo os seus – percebeu que as suas palavras e os seus mandamentos permenecem para sempre e não mudam com o tempo (Mt 24,35).

Jesus chegou a fulminar o primeiro papa chamando-o de “satanás”, quando Pedro se pôs a raciocinar “segundo os homens e não segundo Deus” (Mc 8, 33). O risco sempre existe. Assistimos hoje a refundação bergogliana que “corrige” o próprio Jesus, adequando-o aos tempos e aos homens.

Em Amoris Laetitia, pretende, de fato, ser mais misericordioso que Cristo (que era um rigorista, ao contrário dos fariseus, que eram “bergoglianos”) [ndt.: aqui, Socci se refere ao fato, já comentado anteriormente, que os fariseus defendiam o segundo casamento, aferrados à casuística, enquanto Cristo aboliu o divórcio em todos os casos]. 

A ambição do papa argentino foi, inclusive, declarada por um dos seus mais estreitos colaboradores, em uma entrevista ao “Corriere della sera”, em 10 de maio de 2015.

IRREVERSÍVEIS 

O seu braço direito, Dom Victor Manuel Fernández, disse textualmente: “É necessário saber que ele (Bergoglio) pretende reformas irreversíveis”. 

Uma frase que pode ter uma interpretação muito revolucionária e heterodoxa para a Igreja.

De fato, a Igreja pertence a Jesus Cristo, não ao papa. Os papas são apenas os seus custódios temporários, não os proprietários: não têm um poder que se estende pelos séculos dos séculos, como Cristo.

Por definição, “irreversível é apenas a Lei de Deus, que está nas Sagradas Escrituras e no magistério constante da Igreja. 

Os papas estão submetidos a esta lei, não são os donos dela. Estes devem ser como os motoristas do carro que leva a Esposa (a Igreja, a propósito) ao encontro do Esposo (o próprio Cristo).

Se um motorista se apropriasse da Esposa mudando o seu destino e o fizesse de modo irreversível, quer dizer que se colocaria como substituto do verdadeiro Esposo. Como se fosse um “Jesus II”.

Mas isso não é permitido ao motorista da Esposa. “Jesus é um esposo ciumento”, dizia o Cardeal Biffi.

De fato, o mandato que Jesus deu a Pedro e a todos os seus sucessores não é efetivamente o de “mudar” a Igreja (e muito menos de modo “irreversível”), mas – ao contrário – de “guardá-la” (guardar o “depositum fidei” confirmando os irmãos na fé).

O papa – por definição – pode ser apenas “conservador”, de outra forma não é mais papa. O seu ministério é guardar íntegra a fé da Igreja. Não fazer dela uma prostituta a serviço do mundo.

COMO UMA ONG DE GEORGE SOROS

Por fim, vamos às mudanças “irreversíveis” do bergoglianismo. A mais vistosa é a transformação da Igreja – aos olhos do povo –, de uma realidade sobrenatural que conduz à salvação eterna, a uma agência humanitária que professa uma religião totalmente social e política, centrada nas migrações de massa como se fossem o Sumo Bem, no ecologismo catastrofista e no abraço acrítico com o Islã. A Igreja bergogliana, centrada sobre estes “direitos humanos”, notava há alguns dias Ernesto Galli della Loggia no “Corriere della sera”, “se soprepõe a outras presenças organizativas, ideológicas e políticas, que não têm nada a ver com a tradição. A começar, obviamente, pelas grandes organizações internacionais como a ONU ou a FAO”.

Galli afirma ainda que “uma análoga e ampla sobreposição existe, ademais, em relação aos componentes, por assim dizer, laico-progressistas, próprios do universo ideológico dos Países ocidentais, componentes que, também estes, nada têm a ver com a tradição católica” e que têm programas, especialmente em matéria de costumes, “que decerto são estranhos” à “Igreja de Roma”.

Galli della Loggia prossegue advertindo que os temas da Igreja bergogliana se sobrepõem também àquela ideologia humanitária “que hoje anima a transbordante presença pública de algumas riquíssima e influentíssimas figuras de ‘filantropos mundialistas’ – não teria outro modo de chamá-los: como Soros, Zuckerberg ou Bezos – já erigidos a nível de verdadeiros profetas midiáticos: também estes não apenas estranhos, mas ostensivamente hostis ao cristianismo católico”.

Uma tal transformação da Igreja era auspiciada há tempos por todos os seus inimigos. Como Ludwig Feuerbach, que escreveu que para “matar o cristianismo” não serviria recorrer à “perseguição”, a qual “ainda mais o alimenta e reforça”. A sua destruição pode acontecer apenas de outro modo: “Será através a irreversível transformação interna do Cristianismo em humanismo ateu com a ajuda dos próprios cristãos, guiados por um conceito de caridade que nada terá a ver com o Evangelho”. 

DEMOLIÇÃO 

Então, aqui estamos. Mas, antes é preciso acabar de abater a catedral bimilenar da Igreja Católica.

Depois de Amoris Laetitia que – segundo cardeais e bispos católicos – mina três sacramentos fundamentais (a confissão, a eucaristia e o matrimônio), uma outra matança se deu com o recente Motu proprio sobre as traduções dos livros litúrgicos, feito à revelia do Cardeal Sarah, Prefeito da Congregação para o Culto Divino. 

Segundo muitos, abre-se o caminho para legitimar um ataque final à Eucaristia e ao sacerdócio. Corremos o risco de caminhar rumo a uma progressiva fusão com os ritos protestantes, que seria “a abolição do sacrifício” e o fim da própria Igreja Católica (a propósito, entre os bergoglianos, já se tornou normal definir “a Reforma protestante como uma bênção para a Igreja”).

Mas em Santa Marta circulam também outras ideias “revolucionárias” (o adjetivo que Scalfari aplica sempre a Bergoglio). Uma das quais é, inclusive, a abolição do próprio Estado do Vaticano, que permitiria ao papa argentino passar para a história como aquele que definitivamente varreu com um só toque a Cúria vaticana e o “poder temporal” da Igreja (argumento a que o próprio Scalfari sempre retorna em seus colóquios com Bergoglio).

É um objetivo muito difícil. Mas, como toda esta revolução está tumultuando e pondo em guerra boa parte do mundo católico e é previsível que leve a uma sublevação no colégio cardinalício, Bergoglio está fazendo estudar-se, nas lacunas do direito canônico, a excepcionalidade de situações que permitiriam que ele mesmo nomeasse o seu sucessor, desautorizando os cardeais e tornando verdadeiramente “irreversível” a sua revolução.

No fundo, Dom Fernandez já prefigurava algo do gênero na sua entrevista ao Corriere: “os próprios cardeais podem desaparecer, no sentido de que não são essenciais. Essenciais são o Papa e os bispos”.

E ainda: “A Cúria vaticana não é uma estrutura essencial. O Papa poderia, inclusive, ir morar fora de Roma, ter um dicastério em Roma e outro em Bogotá, e talvez conectar-se por videoconferência com os especialistas em liturgia, que morariam na Alemanha” (ndt.: essa mesma ideia já havia sido cogitada por, nada mais, nada menos que, Leonardo Boff, num artigo seu de 2013).

Será assim a Igreja do Papa Jesus II?

Antonio Socci, “Libero”, 24  de setembro de 2017.

*  * *

Nota da Tradução: ao completar-se 1 ano do pontificado Papa Francisco, nosso brilhante padre Cristóvão escreveu uma coluna em que citou a fala de Mario Staderini, secretário do Partido Radical italiano, em entrevista a uma rádio, dias depois da renúncia de Bento XVI, 25 dias antes da eleição de Jorge Mario Bergoglio. Vale a pena recordá-la, dado o seu caráter impressionantemente “programático”:

O verdadeiro desafio para o próximo Papa será o de libertar a Igreja do poder temporal, daquele imenso poder econômico e político que deriva de ser ela a maior proprietária imobiliária do mundo e de ter alguns impérios financeiros e econômicos. Daquele poder que determinou as lutas pelo controle, um poder que está em grau de condicionar os Estados, de corromper os Estados, mas sobretudo à própria Igreja. Por isso, creio que o próximo papa deva se chamar Francisco I, como São Francisco, o pobrezinho de Assis, que se libertou de todas as suas posses para viver melhor segundo o Evangelho, ao invés de viver segundo a Igreja de Roma. Francisco I teria este significado e creio que seja o auspício máximo que se possa fazer neste momento. Haverá também um motivo pelo qual há 800 anos após a morte de São Francisco nenhum papa tenha decidido chamar-se Francisco, e o entendo também porque seria difícil andar por aí com o nome do símbolo da pobreza enquanto se continua a ser o maior proprietário de coisas. Creio que este, então, será o desafio do próximo Papa, e este não é tampouco algo irrealizável. Por exemplo, se poderia converter todo o patrimônio do Vaticano em um grande fundo para benefícios universais, a ser confiado eventualmente à ONU em forma de depósito, no sentido de que, se a ONU se comportasse mal, seria retomado, segundo as regras do direito internacional; um grande fundo que tenha como objetivo garantir o direito humano a viver sem a miséria, e creio que ninguém melhor que a Igreja poderia dar início a isso, com a condição, porém, de se separar daquela que foi nestes anos a verdadeira causa que destruiu a própria possibilidade de se ocupar da religiosidade, antes que simplesmente continuar a falar de moral e sobre a vida das pessoas. Creio que seja este um desafio importante que poderia, depois, ter reflexos positivos sobre os Estados. Façamos um exemplo: todos sabem o que penso do “oito por mil” (quota dos impostos que o Estado redistribui, à escolha do contribuinte, às instituições religiosas, ndt), mas, de Francisco I, eu esperaria que dissesse ao Estado Italiano que este dinheiro alimente diretamente este fundo. Antes, melhor ainda: a garantia será que, se o Estado continuar dando-o à Igreja Católica, esta se ocupará de depositá-lo neste fundo. Então, bem-vindo, eu espero Francisco I”.

 

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10 julho, 2017

A destruição do Cardeal Pell.

Por Steve Skojec, One Peter Five, em 1 de julho de 2017 | Tradução: FratresInUnum.com – Há dois anos, quando essa história veio a público, perguntei a alguns amigos e colegas jornalistas, “este é o tiro de misericórdia em Pell?” Na época, é claro, seu nome não foi sequer ser mencionado. Mas na medida em que os eventos foram se desenvolvendo no que mais tarde viria a ser referido como “Vatileaks II,”  ou seja novas alegações na mídia sobre relatórios de má gestão financeira no Vaticano,  ficou então em aberto se Pell, como o homem colocado no poder para resolver as coisas, estaria ou não no olho da mira.

Na época, já pairava no ar uma impressão de que Pell, durante o mandato de sua investigação sobre o banco do Vaticano (também conhecido como o Instituto para as Obras de Religião, ou IOR), tinha rapidamente se tornado uma persona non grata. Quando ele assinou a Carta dos 13 cardeais expressando preocupação sobre o modo como o Sínodo estava sendo conduzido – algo que o próprio Francisco tomou como algo pessoal – sua queda em desgraça só se acelerou.

O clima parecia ter se tranquilizado por um tempo, especialmente depois que o próprio papa Francisco mandou interromper a auditoria que ele estava fazendo no banco do Vaticano em setembro do ano passado.

E então, esta semana, tudo explodiu. Alegações de que Pell esteve envolvido em casos de abuso sexual há algumas décadas e que haviam emergido há dois anos atrás agora passaram de uma investigação a indiciamento oficial. De acordo com fontes que conhecem o cardeal australiano, a mídia em sua terra natal sempre foi hostil para com ele e por muitos anos. Além do mais, ele não é bem-amado por uma parcela significativa do clero de lá. De acordo com a própria resposta de Pell, ele está ansioso para finalmente ter seu dia no tribunal e lutar contra as acusações que ele categoricamente nega.

No entanto, em um artigo de Nancy Flory no The Stream, todo o assunto pode ser caracterizado como uma “caça às bruxas”, projetado para destruir a reputação de Pell:

“Pell jamais conseguirá obter um julgamento justo”, escreveu a colunista australiana Angela Shanahan. Ela está descrevendo a ” caça às bruxas promovida pela mídia” que vem perseguindo o cardeal George Pell por dois anos. Novas e vagas acusações – de “históricos crimes sexuais” – foram apresentadas contra o cardeal Pell ontem pela manhã. Cardeal Pell repetidamente negou as alegações de abuso sexual feitas contra ele. Ainda assim, a mídia na Austrália não se cansa de repetir alegações sobre a culpa do cardeal. Eles imprimiram informação vazadas das  investigações contra Pell e afirmaram que um indiciamento era iminente. Além do mais, um livro negativo sobre o cardeal Pell (Cardinal: The Rise and Fall of George Pell) saiu em maio.

A “caça às bruxas”.

Algumas poucas almas corajosas têm questionado abertamente as insinuações feitas por esse julgamento midiático do Cardeal. Amanda Vanstone, colunista do The Sydney Morning Herald e que não é “nenhuma fã de religião organizada”, denunciou a histeria da mídia em relação ao cardeal Pell. “O que estamos vendo não é melhor do que um linchamento público da idade das trevas …  é pior do que fazer uma simples avaliação de culpabilidade. A arena pública está sendo usada para destruir uma reputação e provavelmente evitar um julgamento justo “, escreveu Vanstone. “O normal não seria tentar garantir que uma pessoa possa ter um julgamento justo”, pergunta ela , “mantendo fora da arena pública material prejudicial e que não foi devidamente comprovado?”

É de se perguntar se alegações sobre fatos ocorridos há décadas atrás – geralmente impossíveis de serem provadas – poderiam fazer outra coisa, senão deixar um homem como Pell com uma reputação totalmente arruinada. Certamente, um veredito de culpado sob tais circunstâncias, parece improvável. Mas, com manchetes como “Os pedófilos do Papa ” circulando agora na mídia,  mesmo uma absolvição unânime jamais conseguirá restaurar o seu bom nome.

Muitas pessoas vieram me perguntar se eu acho que ele é culpado. O que eu posso dizer é que sei muito pouco sobre as circunstâncias até mesmo para emitir um simples palpite. A busca implacável pela sua destruição tende a fazer com que eu me torne por reflexo solidário, mas a verdade aqui tem uma grande importância. Por amor a ela e para o bem das supostas vítimas, espero que um julgamento completo e justo seja possível, e que a verdade venha à tona.

Uma possível consideração deve ser feita em relação a uma potencial culpa de Pell . Refiro-me ao estilo gerencial do Papa Francisco. Como já observei antes, o papa parece ter uma tendência de se cercar de homens comprometidos. Desde Mons. Battista Ricca (também envolvido com a reforma bancária do Vaticano) ao Arcebispo Vincenzo Paglia , o Cardeal Francesco Coccopalmerio e o Cardeal Reinhard Marx,  percebemos que alguns dos homens mais notáveis e próximos a Francisco são sempre homens com esqueletos em seus armários, que poderiam ser facilmente retirados e colocados em exposição se eles vierem a se tornar … digamos assim inconvenientes. Se Pell fosse um homem com alguma história de  abuso sexual em seu passado, certamente isso poderia ser usado contra ele, se e quando necessário. Mas, ainda que ele seja tão inocente e puro como a neve, o simples fato dessas alegações existirem poderia prover uma arma necessária para colocá-lo em uma posição tão delicada. Afinal, Pell tinha permissão para investigar a caixa de Pandora que são as finanças do Vaticano. E é difícil não se perguntar se ele acabou descobrindo mais do que devia.

Lembre-se que em Janeiro de 2015, o “presidente deposto do banco do Vaticano”, Ettore Gotti Tedeschi, escreveu um artigo no Catholic Herald no qual ele alertava que Pell poderia não estar muito a par dos fatos acontecidos na história recente do banco – e como ele acreditava que ele havia sido demitido  devido à sua “decisão de apresentar um plano que teria mudado totalmente o papel e governo do banco”. Depois de ter apresentado o seu próprio lado da história, Gotti Tedeschi fez uma série de recomendações a Pell.

Por fim, acredito que o cardeal Pell deveria desvendar também esses quatro mistérios, embora eu tenha certeza de que é tarde demais, pelo menos para mim:

1) Quem mudou a lei contra lavagem de dinheiro do Vaticano, em Dezembro de 2011, e por quê?

2) Quem realmente decidiu que eu tinha que ser removido pelo Conselho Laico como presidente do Banco do Vaticano no dia 24 de maio de 2012, e por quê?

3) Quem foi que desobedeceu Bento XVI, o qual queria a minha reabilitação?

4) Quem decidiu que meus pedidos e súplicas para que eu fosse interrogado sobre os fatos acima deveriam ser ignorados? Quem não quer que venha a público a minha versão da verdade, e por quê?

É impossível ler essa lista e não vê-la como uma acusação de prevaricação intencional por parte de atores desconhecidos, mas gente de peso dentro da estrutura de poder do Vaticano.

A questão das mãos invisíveis operando alterações dentro do IOR é uma questão intrigante. Parece relevante aqui notar que parte do contexto por trás do golpe que derrubou a Soberana Ordem Militar de Malta (SMOM) envolve uma alegação de que um enorme legado (30 milhões de francos suíços) doado à Ordem foi entregue ao Banco do Vaticano. Marc Odendall, uma das peças-chave na facção Von Boeselager na história da Ordem de Malta, foi nomeado pelo Papa Francisco em 2014 para o Conselho de Autoridade de Informação Financeira do Vaticano – um órgão de supervisão criado pelo Papa Bento XVI para ajudar a limpar a corrupção e má gestão no IOR. Em dezembro passado, em torno do mesmo tempo que Albrecht von Boeselager estava sendo forçado a sair de seu cargo como Grand Chancellor da Ordem, o seu irmão Georg foi nomeado para um cargo de supervisão no Banco do Vaticano. E no meio de tudo isso, a administradora da doação de 30 milhões de francos foi acusada, em um relatório anonimamente escrito que foi divulgado para a mídia no início deste ano, de ter feito ameaças segundo as quais se o processo contra ela (arquivado pelo Ordem de Malta para obter o controle de seu legado) não fosse retirado, ela iria revelar segredos sujos sobre o que vem acontecendo dentro das próprias instituições financeiras do Vaticano:

“Ela sabia muito sobre alguns dos negócios financeiros e funcionamento interno do Vaticano, incluindo, devemos presumir, alguns que não eram inteiramente honestos.”

Ele continua: “Ela estava, agora acredita-se, indicando que se ela continuasse a ser processada ou indiciada, iria abrir a boca no trombone revelando ao mundo tudo o que ela sabia sobre essas transações financeiras internas do Vaticano e não hesitaria em divulgar os nomes de certos altos funcionários do Vaticano e suas conexões com as operações e negócios “.

Voltando ao papel do próprio Pell em acertar as finanças do Vaticano, me lembro também que foi ele que descobriu mais de um bilhão de euros “escondidos” dos livros de contabilidade do IOR em 2015:

As vastas somas de dinheiro não declaradas estavam escondidas em várias contas bancárias de organizações e grupos dentro da Santa Sé em Roma.

Os fundos não foram utilizados abusivamente e não fazem parte da onda de corrupção e escândalo que anteriormente trouxeram vergonha ao Vaticano, mas o dinheiro não foi devidamente declarado ou colocado em disponibilidade para a plena utilização do Vaticano porque foi escondido em uma prática italiana de manter à parte fundos não declarados.

“Em uma prática italiana de manter à parte fundos não declarados.”

Fala sério! Então, o que seria ilegal para qualquer outra pessoa é apenas “uma prática italiana”?

Há também uma outra história recente que poderia parecer ter um impacto mínimo se a considerarmos isoladamente, mas que assume um significado maior à luz das questões maiores que envolvem a corrupção no IOR. Libero Milone, o novo Auditor Geral nomeado pelo Papa Francisco em 2015 para mergulhar na situação financeira do Vaticano, de repente e inesperadamente renunciou no mês passado. Nenhum detalhe foi dado, mas é claro que desde o início Milone enfrentou resistência dentro da burocracia do Vaticano para reformas financeiras. No início de seu mandato, por exemplo, seu computador foi hackeado. E de acordo com Edward Pentin, “A divulgação dessa história deu lugar ao escândalo Vatileaks II.”

Pentin também observou um ponto em particular sobre a resistência enfrentada tanto por Milone como Pell:

Mais recentemente, ele [Milone] assinou uma carta com o cardeal George Pell, prefeito da Secretaria da Economia, repreendendo a Administração do Patrimônio da Sé Apostólica (APSA), o órgão do Vaticano responsável pela gestão imobiliária do Vaticano, depois que esse ordenou aos departamentos do Vaticano para fornecer suas informações financeiras não ao auditor geral, mas a um outro de fora.

Milone e Cardeal Pell enviaram então uma carta em maio para todos os dicastérios dizendo “com profundo pesar” que tiveram que intervir refutando a instrução de APSA.  A ação arbitrária e unilateral por parte da APSA foi vista como uma resistência extraordinária, não só contra a autoridade da Secretaria de Economia e o auditor geral, mas também contra a Secretaria de Estado. E ao contrário da auditoria final da PwC no ano passado, fontes dentro do Vaticano disseram que isso não veio de uma autoridade superior, e foi, portanto, lida como um movimento provocativo da parte da APSA para “recuperar” alguns dos seus poderes.

APSA tem sido até agora, sem dúvida a mais resistente a reformas que envolvem um maior escrutínio financeiro.

De acordo com uma reportagem do website americano Newsmax.com, foi esta situação com a APSA que poderia ter levado o Papa Francisco a se voltar contra Pell e seu trabalho:

Pell de fato, encontrou uma nova fonte potencial de receita nos espaços comerciais e residenciais em Roma valorizados em cerca de 1 bilhão de euros e geridos pela Administração do Patrimônio da Santa Sé, ou APSA. Segundo o cardeal, a gestão não estava à altura e em julho de 2014 o Papa Francisco passou a Pell o controle das propriedades.

No entanto, o presidente da APSA, o Cardeal Domenico Calcagno, recentemente se tornou muito próximo ao Papa Francisco, tendo sido visto muitas vezes jantando com ele na residência Santa Marta. Ao longo de 18 meses, Francisco foi removendo Pell do controle imobiliário da APSA. Alguns culpam a crença de Pell no mercado livre,  algo do qual o papa Francisco é um conhecido crítico.

Francisco matou sua própria auditoria em setembro passado.

Então, aqui, mais uma vez, estamos diante de um mistério: por que Milone renunciou apenas há pouco menos de uma semana antes que Pell fosse formalmente indiciado? Será que ele sabia o que estava a caminho? Será que ele percebeu que os obstáculos empilhados contra seu trabalho eram simplesmente muito altos? Que o buraco da corrupção dentro do sistema financeiro do Vaticano era muito mais profundo?

Lembrem-se, também, como Professor Germano Dottori do Instituto de Estudos Estratégicos da LUISS-Guido Universidade Carli, em Roma, escreveu um artigo no início deste ano, demonstrando porque ele acredita que a alavancagem financeira foi armada por forças internacionais que acabaram culminando na renúncia do Papa Bento XVI:

Tanto o Governos italiano como o Papal foram simultaneamente atingidos por uma campanha escandalosa, coordenada, excepcionalmente violenta e sem precedentes, envolvendo até mesmo manobras mais ou menos nubulosas no domínio financeiro, com o efeito final culminando em novembro de 2011 com a saída de Berlusconi do Palácio Chigi e, em 10 de Fevereiro [sic – 11], de 2013, com a abdicação de Ratzinger. No auge da crise, a Itália viu progressivamente o seu acesso aos mercados financeiros internacionais fechados, enquanto o Instituto para as Obras Religiosas (IOR) [o Banco do Vaticano] foi temporariamente cortado do circuito do Swift 4. [Ênfase adicionada]

Um dos fatores menos conhecidos na abdicação do Papa Bento XVI é que, nos dias anteriores à sua declaração de renúncia, operações bancárias dentro do Vaticano tornaram-se de todo impossíveis. A situação foi resultado de uma pressão intencional feita contra o Vaticano –  Uma pressão que alguns dizem que foi usada para forçar o Vaticano a limpar sua corrupção financeira e cumprir com as normas bancárias internacionais, mas já outros acreditavam que equivalia a uma forma de chantagem contra a pessoa do papa.

Imagine o que deve ter sido fazer uma auditoria dessa confusão, descascando camada após camada de corrupção e ofuscação, para descobrir um  bilhão de euros onde não deveriam estar, e para tentar identificar os homens por trás dos bastidores, mexendo as cordas e desviando atenção.

Este ano, nós ouvimos até boatos de que o Vaticano tornou-se financeiramente insolvente. Rumores dizem que é por isso que a Igreja alemã, financiada anualmente pelos bilhões de euros recolhidos pelo imposto obrigatório à Igreja, tornou-se uma influência tão poderosa em Roma. Será possível que o fluxo do Reno que se derrama sobre o Tibre é transportado por uma torrente de liquidez?

Pergunto-me se alguma vez ficaremos sabendo.

Então não é preciso fazer muita ginástica mental pra se concluir que o cardeal Pell fez inimigos poderosos dentro do Vaticano na medida em que ele causava uma erosão neste sistema complicado e engessado da gestão financeira em busca de maior transparência e conformidade com as normas bancárias. Uma fonte que se comunicou comigo esta semana disse-me ainda que acredita que há aqueles que, depois de terem abusado dos privilégios dos seus ofícios no Vaticano para o ganho financeiro pessoal, estão ajudando a financiar a campanha contra Pell.

Boatos não passam de alegações até que a verdade venha à tona. Se Pell é culpado de abuso sexual, ele deve ser responsabilizado. Mas se esta é uma campanha para destruí-lo encabeçada por aqueles que tem muito mais a perder se o Vaticano fizer uma limpeza em sua gestão financeira, as pessoas com o conhecimento do que está acontecendo deveriam se apresentar para exonerar o homem.

De qualquer forma, a destruição do cardeal Pell parece ser nesta altura do campeonato, um fato consumado.

10 junho, 2017

Reflexões da Sagrada Escritura: Lições de Fátima (V).

“Pedi e recebereis, procurai e achareis, chamai e abrir-vos-ão” (S. Mateus, VII, 7).

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

CARÍSSIMOS COOPERADORES E AMADOS FILHOS.

As considerações que acabamos de fazer mostram a grande oportunidade das comemorações (cinquentenárias) centenárias das aparições da Virgem Santíssima na Cova da Iria. Nessas ternas visitas que nos fez a Mãe do Céu, Ela nos recomendou a oração e a penitência porque o mundo estava imerso no pecado e Deus era sumamente ofendido. Não é diversa a situação da sociedade nos dias de hoje. E podemos bem debitar os desvios doutrinários sobre os quais chamamos a vossa atenção, podemos debitar esse dessoramento da doutrina e da moral católica ao desejo imoderado do prazer, à falta de espírito de penitência e oração. De onde a necessidade de excitarmos em nós o amor da oração e da penitência, para oferecer reparação aos Sagrados Corações de Jesus e Maria, para afastar os castigos merecidos pelos pecados do mundo, para conservar a integridade da Fé e para contribuir a que muitos pecadores se convertam.

O terço em família

tercoE em primeiro lugar, fiéis à mensagem de Fátima, recomendamos-vos, caríssimos filhos, a reza do rosário de Maria. Como seria uma bela comemoração deste feliz (cinquentenário) centenário, um presente agradável à Mãe de Deus e um penhor de salvação, se as famílias de Nossa Diocese [católicas] retornassem ao costume de se reunirem à noitinha para, com todos os membros juntos, pais e filhos, rezarem o terço do santo rosário! O rosário conta na sua história pelo menos quarenta e quatro Sumos Pontífices que o louvaram e recomendaram em mais de duzentos Documentos. Ainda o atual Papa. gloriosamente reinante [na época Paulo VI], na Encíclica “Mense Maio” nos recomendava, a nós Pastores de rebanho de Cristo, “não deixeis de inculcar com todo o cuidado a prática do rosário, a oração tão querida da Virgem e tão recomendada pelos Sumos Pontífices, por meio da qual os fiéis podem cumprir da maneira mais suave e eficaz o mandamento do Divino Mestre: “Pedi e recebereis, procurai e achareis, chamai e abrir-vos-ão” (Mat. 7, 7).

Ouvi, caríssimos filhos, a palavra autorizada do Vigário de Cristo: é o rosário a maneira mais suave, portanto a mais fácil, e ao mesmo tempo a mais eficaz de cumprir o mandamento de pedir; e, pois, igualmente a mais eficaz para obter todas as graças de que havemos mister, e acima de todas, a graça de viver e morrer na amizade de Deus.

Já muitas vezes ouvistes falar, caríssimos filhos, sobre a beleza e valor intrínseco do santo rosário. Nele falamos a Deus com as palavras do próprio Jesus Cristo, palavras que nos ensinou o Salvador precisamente para rogar ao Pai Celeste: “Quando orardes dizei assim” (Luc. 11, 2). E nele nos dirigimos à Virgem Santíssima, à  Onipotência suplicante, com a saudação que mais lhe fala ao Coração, porquanto é a saudação que Ela ouviu quando, tornando-se Mãe de Deus, se fez igualmente Mãe nossa. E para completar, o rosário nos habitua à meditação salutar dos mistérios de nossa salvação. É, pois, propriamente  a oração do fiel, e uma resolução de recitá-lo sempre será ótimo meio de comemorar o (cinquentenário) centenário de Fátima.

A devoção dos primeiros sábados

Outra devoção a que estão ligadas as visões de Fátima é a prática da comunhão reparadora dos primeiros sábados. Na Cova da Iria, a Virgem Santíssima anunciou que mais tarde viria pedir a comunhão reparadora nos primeiros sábados e com um fim determinado. Aparecendo a Lúcia a 10 de dezembro de 1925, ao pedido dessa comunhão reparadora Ela anexou a promessa de sua assistência a hora da morte. Eis suas palavras: “Olha, minha filha, meu Coração cercado de espinhos, com que me ferem os homens ingratos com suas blasfêmias e iniquidades. Tu ao menos procura consolar-me e divulga que Eu prometo assistir na hora da morte, com as graças necessárias para a salvação, a todos os que no primeiro sábado de cada mês se confessarem, comungarem, recitarem uma parte do terço e me fizerem companhia durante um quarto de hora, meditando sobre os mistérios com a intenção de me oferecer reparação”.

A consagração ao Imaculado Coração de Maria

Mas, a parte principal da mensagem de Fátima refere-se à consagração e devoção ao Imaculado Coração de Maria e à penitência.

Na Cova da Iria aprendemos que Jesus deseja implantar na terra o reinado do Coração Imaculado de Maria de sua Mãe. Por isso, condicionou a salvação do mundo à consagração e devoção a esse mesmo Coração. Não há, no entanto, verdadeira consagração à Virgem Santíssima, sem o espírito e a prática da penitência, porquanto a consagração exige que continuamente reprimamos em nós as inclinações de nossa vontade e de nossos sentidos contrárias aos desejos de Virgem Mãe.

A penitência

De onde, a penitência, no sentido próprio da palavra  –  isto é, enquanto significa o arrependimento pelos pecados cometidos e a emenda de vida  – é o meio para se chegar ao reinado do Imaculado Coração de Maria. Nossa Senhora insistia muito sobre a emenda de vida. Nos interrogatórios a que foram os pastorinhos submetidos, volta sempre esta recomendação da Senhora: que nos emendemos. A emenda pede uma mudança de atitude com relação ao mundo e os prazeres dos sentidos. O cristão é o que não tem aqui na terra morada permanente, é o que vive com o pensamento no Céu. Por isso, tem o coração desapegado dos bens que sabe que são caducos e passageiros. Aspira aos bens eternos. Assim, igualmente, ele se despoja de si mesmo. Ele sabe que não nasceu para satisfazer às inclinações más das paixões. Ele sabe que precisa mortificar os sentidos para não ceder à violência de seus impulsos. Ele sabe que precisa disciplinar a vontade, pela humildade e obediência, não venha a acontecer que, no momento oportuno, ela não saiba dobrar-se quando seria imperioso submeter-se.

Assim, amados filhos, desejamos ardentemente que, por um exercício de todos os dias, vos habitueis à renúncia de vós mesmos. Não satisfazendo aos vossos desejos e gostos a não ser dentro do que é necessário ou conveniente, e sempre procurando ficar aquém do que pediria vossa vontade ou inclinação. Cremos que com esse exercício perseverante vos ireis habituando à renúncia de vós mesmos, e ao exercício da reta intenção em todas as coisas, de maneira que termineis tendo sempre em vista fazer a santíssima vontade de Deus. Sem confiar nas vossas forças, pedi sempre à Virgem Mãe esta graça, e Ela, ao ver vossa boa vontade, não vo-la negará.

A conversão dos pecadores

Fátima nos ensina outrossim a nos sacrificarmos pelos pecadores, pela conversão dos pecadores. É admirável o que fizeram nesta intenção as crianças que viram a Virgem. Como dissemos, pedem elas meças aos Santos do Deserto. Apesar de nossa miséria, não pensemos que não nos será possível atender também neste ponto à exortação da Virgem Santíssima. Temos muito que sofrer, independentemente de nossa vontade. São os sofrimentos que Nosso Senhor nos manda com o frio, o calor, os dissabores inerentes ao nosso estado de vida, e tantas outras coisas que nos mortificam e Nosso Senhor dispõe para nosso bem. São outros tantos meios que estão em nossas mãos e dos quais podemos dispor em benefício dos pobres pecadores. Se não nos aventuramos aos grandes sacrifícios que a si se impuseram os pastorinhos de Fátima, estes pequenos sacrifícios, aos quais podemos juntar alguns outros voluntários, não deixarão de ser aceitos em benefício dos pecadores.

DILETOS COOPERADORES E AMADOS FILHOS.

Não deixemos passar estas duas datas memoráveis, o (250º) 300º aniversário do encontro da milagrosa Imagem de Nossa Senhora da Conceição aparecida, e o (50º) 100º das aparições da Virgem Mãe na Cova da Iria, sem um sério exame de consciência que purifique nosso modo de pensar e agir, que nos faça mais fiéis a Jesus Cristo, que nos afaste de proceder como o mundo hodierno, tão dado à sensualidade, tão distante do espírito do Divino Salvador. Que Nossa Senhora da Conceição que é a mesma Nossa Senhora do Rosário de Fátima vos alcance de seu Divino Filho esta graça.

E que a bênção de Deus Onipotente, Pa+dre, Fi+lho e Espírito + Santo, desça sobre vós e permaneça sempre. Amém.

Dada e passada em Nossa episcopal Cidade de Campos, sob o Nosso sinal e o selo de Nossas armas, aos dois do mês de fevereiro do ano de mil novecentos e sessenta e sete, festa da Purificação da Bem-aventurada Virgem Maria. (Último capítulo da Carta Pastoral sobre a preservação da Fé e dos bons costumes, escrita por D. Antônio de Castro Mayer, então Bispo da Diocese de Campos).

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12 maio, 2017

Pecado, pena e sanção na Mensagem de Fátima.

Agradecemos a honra que nos dá o Dr. Ricardo Dip por fornecer, para publicação exclusiva em FratresInUnum.com, a conferência por ele pronunciada no Domus Pacis, em Fátima, no último dia 19 de abril, em evento do Consejo de Estudos Hispánicos Felipe II, de Madri.

* * *

Se fizerem o que Eu vos disser, salvar-se-ão muitas almas e terão paz” (Visão do inferno -aparição da Virgem em 13-7-1917, na Cova da Iria).

Por Ricardo Dip

1 . A escassez de tempo que circunstancia a perpetração desta pequena palestra −calcada na tríade “pecado, pena e sanção” nas mensagens fatimenses− já inibe muitíssimo a excursão por inúmeros caminhos periféricos que são sugeridos pela riquíssima história das aparições da Virgem Santíssima e do Anjo de Portugal, no Cabeço, na Cova da Iria, no Valinhos e na cidade espanhola de Tuy, a três pastorinhos lusitanos −Lúcia dos Santos e seus primos Francisco e Jacinta Marto.

Dezenas de milhares de pessoas acompanham missa em homenagem à Nossa Senhora de Fátima no Santuário de Fátima, em Portugal. Nos últimos dias, uma multidão de peregrinos se dirigiu ao local para celebrar o aniversário da primeira aparição da santa, em 13 de maio de 1917, segundo a crença católica. Nesta sexta-feira (13), são esperadas 250 mil pessoas no Santuário Francisco Leong/AFP Photo

Mas não parece bem queixar-se só (e talvez sequer principalmente) do tempo concedido para proferir-se esta comunicação. É que os documentos e estudos sobre o conjunto das “Mensagens de Fátima” são tamanhamente vultosos que não se poderia mesmo, de toda a sorte, esperar razoavelmente desta palestra mais do que uma pequena recolha seletiva de alguns capítulos desta maravilhosa história −melhor dizendo: do mais significativo episódio histórico− de nosso século XX.

2. Embora as expressões “Mensagem de Fátima” ou “Segredo de Fátima” possam compreender-se em um sentido estrito, referente apenas às manifestações dirigidas, no período de maio a outubro de 1917, por Nossa Senhora aos três pastorinhos portugueses, não se pode excluir a concorrência de um significado mais largo nessas expressões, para nelas abranger as três aparições do Anjo da Paz, em 1916, no monte do Cabeço, e também −de maneira particularmente relevante− a mensagem de Tuy, recebida pela Irmã Lúcia, aos 13 de junho de 1929, mensagem esta que prescreve o modo de um ato consagratório decisivo para definir a sorte da humanidade.

3. Em qualquer dessas manifestações, há uma constância referencial às ideias de pecado −blasfêmias, ofensas−, de pena −a guerra, a doença, a fome, o inferno, as perseguições, o martírio dos bons, o aniquilamento de nações− e de sanção premial: a cura, o fim da guerra. O reatus pœnæ não se superará enquanto não se suplantar o reatus culpæ, porque a pena é o pretium da culpa, ou seja, nas lúcidas lições do Santo Padre Pio XII, a recomposição metafísica da ordem violada (o precio do desprecio).

Com efeito, já na primeira aparição do Anjo da Paz −o Anjo de Portugal−, num dia indeterminado dos fins da primavera de 1916, lecionou-se aos pastorinhos esta oração reparadora:

Meu Deus! Eu creio, adoro, espero e amo-vos! Peço-vos perdão para os que não crêem, não adoram, não esperam e vos não amam!”,

e a isto sucedeu, em uma segunda aparição desse Anjo, a referência a “orações e sacrifícios”, recomendando-lhes ele:

De tudo que puderdes, oferecei a Deus sacrifício, em ato de reparação pelos pecados com que Ele é ofendido, e súplica pela conversão dos pecadores. Atraí, assim, sobre a vossa Pátria, a paz. Eu sou o Anjo da sua guarda, o Anjo de Portugal. Sobretudo, aceitai e suportai, com submissão, o sofrimento que o Senhor vos enviar”.

Aos mesmos pastorinhos, em 13 de maio de 1917, a Virgem falou de “sacrifícios”, “sofrimentos”, “reparação dos pecados”, “conversão dos pecadores”, “blasfêmias”, “ofensas”, e ensinou-lhes que a oração diária do Rosário levaria a obter “a paz para o mundo”, ensinamento que reiterou na aparição de 13 de julho seguinte: “Rezai o Rosário todos os dias com a intenção de obter o fim da guerra” −ou seja, da Primeira Guerra Mundial. “Rezai muito, fazei sacrifícios pelos pecadores…” (19-8-1917), “continuai rezando o Rosário para obter o fim da guerra” (13-9-1917), “é necessário que os homens se corrijam, que peçam perdão por seus pecados”, “que não ofendam mais a Nosso Senhor, que está já demasiado ofendido” (13-10-1917).

E é assim que o liame entre o prêmio da paz, a oração e a conversão é afirmado com todas as letras, pois que −assim consta expressamente da mensagem da terceira aparição fatimense da Virgem (13-7-1917): “só Nossa Senhora pode alcançar esta graça aos homens”, e a oração e metanoia, neste quadro, ocupam a função penitenciária substituinte da pena estatuída na mensagem.

4. Há, no entanto, uma passagem que parece caiba entender mais fundamental na consideração deste vínculo pecado-pena-sanção meritória no conjunto do segredo de Fátima. Essa passagem é a que corresponde às palavras da Virgem logo após a “visão do inferno”, que se deu na terceira das aparições:

Vistes o inferno, para onde vão as almas dos pobres pecadores. Para as salvar, Deus quer estabelecer no mundo a devoção a meu Imaculado Coração. Se fizerem o que Eu vos disser, salvar-se-ão muitas almas e terão paz. A guerra vai acabar. Mas se não deixarem de ofender a Deus, no reinado de Pio XI começará outra pior. Quando virdes uma noite alumiada por uma luz desconhecida, sabei que é o grande sinal que Deus vos dá de que vai punir o mundo de seus crimes, por meio da guerra, da fome e de perseguições à Igreja e ao Santo Padre. 

Para a impedir, virei pedir a consagração da Rússia a Meu Imaculado Coração, e a comunhão reparadora nos primeiros sábados. Se atenderem a meus pedidos, a Rússia se converterá, e terão paz. Se não, espalhará seus erros pelo mundo, promovendo guerras e perseguições à Igreja. Os bons serão martirizados. O Santo Padre terá muito que sofrer, várias nações serão aniquiladas. Por fim, o Meu Imaculado Coração triunfará. O Santo Padre consagrar-me-á à Rússia, que se converterá, e será concedido ao mundo algum tempo de paz. Em Portugal, se conservará sempre o dogma da Fé, etc.…”.

5. As penas cominadas nesta mensagem são a da guerra, a da fome e a das perseguições à Igreja e ao Santo Padre, e para evitá-las duas coisas pediu a Senhora de Fátima: a comunhão reparadora nos primeiros sábados e a consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria. Adotados que fossem estes pleitos da Virgem, a Rússia converter-se-ia e haveria paz −“Se atenderem a meus pedidos, a Rússia se converterá, e terão paz”. De não se adotarem, porém, o remédio seria o castigo −com a Rússia espalhando seus erros pelo mundo, com “guerras”, com “perseguições à Igreja”, com “aniquilação de nações”, com o “sofrimento do Santo Padre”, até que, a final, ainda que tardio o indicado ato de consagração, venha o triunfo do Imaculado Coração de Maria.

6. Vamos deter-nos aqui no exame de apenas um dos meios evasivos das penas estatuídas na mensagem: a consagração da Rússia ao Coração Imaculado de Maria −“O Santo Padre consagrar-me-á à Rússia, que se converterá, e será concedido ao mundo algum tempo de paz”. Na terceira aparição, a Virgem anunciara que ainda viria pedir a consagração da Rússia a Seu Imaculado Coração, pedido que se consumaria no ano de 1929, com a mensagem de Tuy.

Ainda os mais rigorosos observantes das sentenças triunfalistas que afirmam a realização do versado ato consecratório da Rússia ao Coração de Nossa Senhora não podem, eles próprios, negar os fatos perseverantes e atualíssimos das guerras, da fome, da persecução à Igreja e da perseguição ao Papado.

De 1939 −data que marca o início da II Guerra Mundial, ao tempo do Pontificado de Pio XI− até nossos dias, não somente a guerra foi um status extensa e constante em nosso mundo, mas, o que muito agudiza o tema, a guerra se tornou qualitativamente pior, não apenas em razão do maior poder destrutivo das forças, senão que também por frequentemente não se excluírem as metas civis. Passamos, com efeito, de guerras mundiais −fenômeno que não se conhecia antes do século XX− à guerra total, em que todos, todos, militares e civis, adultos, mulheres e crianças, são parte do objetivo da guerra, e em que toda a cultura, toda ela, é alvo da destruição.  Põe-se, assim, à mostra o infrutífero das tentativas profanas de consecução da paz, a falência das inúmeras consagrações seculares dos povos, de Yalta e Potsdam ao tratado de Roma e ao protocolo de Kioto.  Se a isto adicionarmos o mapa da fome em larguíssima parte do mundo contemporâneo, as perseguições à Igreja −a ponto mesmo de ser já corrente a expressão “cristianofobia” − e também a persecução ao Papado, muito difícil será sustentar, com plausibilidade, que já estejam cumpridas as condições para a paz fatimense e o triunfo do Imaculado Coração. A queda do muro de Berlim, em novembro de 1989, e a dissolvência da União Soviética, em dezembro de 1991, propiciaram alguma animação transitória sobre a efetividade da consagração da Rússia ao Coração de Maria, mas os fatos sucessivos conspiraram contra o precoce entusiasmo de opiniões pouco fundadas na realidade das coisas.

Ao largo do século XX, por ao menos sete vezes procedeu-se a alguma sorte de consagração pontifical à Virgem Maria: no dia 31 de outubro de 1942, o Papa Pio XII consagrou todo o mundo ao Coração mariano, ato que renovou em dezembro seguinte, e que, cerca de dez anos mais tarde, aos 7 de julho de 1952, por meio da carta apostólica Sacro Vergente Anno, viria a completar, consagrando, agora explicitamente, os povos da Rússia ao Coração mariano. Calha, entretanto, que o Santo Papa Pio XII não observou uma das condições impostas na mensagem de Tuy, a participação dos bispos do mundo inteiro no ato consagratório:

É chegado o momento (assim se enuncia na mensagem de 1929) em que Deus pede ao Santo Padre que faça, em união com todos os bispos do mundo, a consagração da Rússia a meu Imaculado Coração…”.

Doze anos depois, em 21 de novembro de 1964, promoveu-se uma renovação desse ato consecratório: fê-lo Paulo VI, junto aos Padres do Concílio pastoral Vaticano II, mas sem observar, ainda uma vez, a condição de que que o ato se fizesse “em união com todos os bispos do mundo”.

Nos anos de 1982 e 1983, João Paulo II convidou a que, com ele, os bispos de todo o orbe consagrassem o mundo à Virgem Santíssima, o que se fez nos termos seguintes:

Ó Mãe dos homens e dos povos, Tu conheces todos os seus sofrimentos e as suas esperanças, Tu sentes maternalmente todas as lutas entre o bem e o mal, entre a luz e as trevas que agitam o mundo −acolhe o nosso grito dirigido no Espírito Santo, diretamente ao Teu coração e abraça com o amor da Mãe e da Serva do Senhor os povos que mais esperam este abraço, e ao mesmo tempo os povos cuja consagração Tu também esperas de modo particular. Toma debaixo da tua proteção maternal a família humana inteira que, com afetuoso transporte, a Ti, ó Mãe, nós confiamos. Aproxime-se para todos o tempo da paz e da liberdade, o tempo da verdade, da justiça e da esperança.”

Tal se vê, o texto não fez a consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria em união com os bispos de todo o mundo, senão que pediu se tomasse a “família humana inteira” sob a proteção maternal da “Mãe dos homens e dos povos”.

Daí que, novamente, em 25 de Março de 1984, João Paulo II, afiançando-se “unido com todos os pastores da Igreja numa ligação especial sob a qual constituem um corpo e um colégio“, tornou a consagrar o “mundo inteiro” ao Coração de Nossa Senhora, sem, especificamente, contudo, mencionar o nome da Rússia.

7. Abdicando, neste nosso pequeno texto, de discutir o tema de uma possível quarta parte do segredo de Fátima −ou, em outras palavras, a de que não se tenha divulgado, por inteiro, sua terceira parte−, interessa, no entanto, para aferir o atual status do problema das penas e dos prêmios fatimenses, enunciar as diferentes interpretações dadas ao texto central do que se divulgou dessa parte do segredo, que assim se redigira pela Irmã Lúcia em 3 de janeiro de 1944:

Depois das duas partes que já expus, vimos ao lado esquerdo de Nossa Senhora um pouco mais alto um Anjo com uma espada de fogo em a mão esquerda; ao cintilar, despedia chamas que parecia iam incendiar o mundo; mas apagavam-se com o contacto do brilho que da mão direita expedia Nossa Senhora ao seu encontro: O Anjo apontando com a mão direita para a terra, com voz forte disse: Penitência, Penitência, Penitência! E vimos n’uma luz imensa que é Deus: ‘algo semelhante a como se vêem as pessoas n’um espelho quando lhe passam por diante’ um Bispo vestido de Branco ‘tivemos o pressentimento de que era o Santo Padre’. Vários outros Bispos, Sacerdotes, religiosos e religiosas subir uma escabrosa montanha, no cimo da qual estava uma grande Cruz de troncos toscos como se fôra de sobreiro com a casca; o Santo Padre, antes de chegar aí, atravessou uma grande cidade meia em ruínas, e meio trêmulo com andar vacilante, acabrunhado de dor e pena, ia orando pelas almas dos cadáveres que encontrava pelo caminho; chegado ao cimo do monte, prostrado de joelhos aos pés da grande Cruz foi morto por um grupo de soldados que lhe dispararam vários tiros e setas, e assim mesmo foram morrendo uns trás outros os Bispos Sacerdotes, religiosos e religiosas e varias pessoas seculares, cavalheiros e senhoras de varias classes e posições. Sob os dois braços da Cruz estavam dois Anjos cada um com um regador de cristal em a mão, n’êles recolhiam o sangue dos Mártires e com ele regavam as almas que se aproximavam de Deus”.

Opinam alguns que se trate de um quadro pessoal, seja (i) relativo a João Paulo II, diante do atentado que sofreu em 13 de maio de 1981, seja (ii) referível a acontecimentos pessoais ainda por vir. Diferentemente, há quem julgue tratar-se de uma execução virtual do Papado, ou (iii) já ocorrida (o que desata na vacância da Sé romana) ou (iv) ainda a ocorrer. O contraste entre estas interpretações radica mais ao fundo na pugna entre, de um lado, a adoção de uma rígida e onímoda observância da docência eclesial de turno, e, de outro, a dúvida ou mesmo a certeza de que padecemos já da apostasia predita para os tempos apocalípticos do “falso profeta”.

O fato é que −deixando à margem o proferimento (de que se tem já notícia) da consagração da Rússia por leigos substitutivos da ação do Papa− o claro-escuro das interpretações possíveis desta terceira parte do segredo parece, ao menos, sugerir, no contraste com o imenso e intenso fenômeno persistente e atual das guerras, da fome no mundo e das perseguições à Igreja, que é muito provável, muitíssimo −para não dizer que seguríssimo− estarmos ainda sob o reato das penas profetizadas na mensagem de Fátima.

Penitência, Penitência, Penitência!  −bradou o Anjo com voz forte−,  e enquanto Deus segue a punir o mundo de seus crimes, “por meio da guerra, da fome e de perseguições à Igreja e ao Santo Padre”, espera-se, com a confiança melancólica destas palavras de Jean Madiran: Demain, le Pape, a consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria, a consagração da Rússia pelo Santo Padre em união com todos os bispos do mundo, condição divina, condição essencial, condição inarredável −porque Deus não muda−, condição a que os povos aspiram ver cumprida para, então, assistirem ao certíssimo Triunfo final do Coração Imaculado da Virgem Santíssima.

                        Demain, le Pape…

         

Bibliografia básica:

BARTHAS, Casimir. La Virgen de Fátima. Tradução castelhana. 2.ed. Madrid: Rialp, 1986.

DANIELE, Araí, em colaboração com GIBSON, Hutton, TELLO CORRALIZA, Tomás, FONTAN, Alberto e Outros. Segredo de Fátima ou perfídia em Roma? Fátima: Promissio, 2010.

DANIELE, Araí. Entre Fátima e o abismo. São Paulo: Excelsior, 1988.

DANIELE, Araí. Nella profezia di Fatima… il mistero dell’altra Roma. Regio Emilia: Radio Spada, 2015.

DE JAEGHERE, Michel. Enquête sur la christianophobie. Issy-les-Moulineaux: Renaissance Catholique, 2006.

GUITTON, René. Cristianofobia -La nuova persecuzione (versão italiana de Ces chrétiens qu’on assassine). Turim: Lindau, 2010.

MARCHI, João de. Era uma Senhora mais brilhante que o sol. 24.ed. Fátima: Missões Consolata, 2015.

MARTINS, Pe. Antônio Maria. O segredo de Fátima nas memórias e cartas da Irmã Lúcia. São Paulo: Loyola, 1985.

MAURO, Mario, VENEZIA, Vittoria e FORTE, Matteo. Guerra ai cristiani. Turim: Lindau, 2010.

WALSH, William Thomas. Nuestra Señora de Fátima. Tradução castelhana. 4.ed. Madri: Espasa-Calpe, 1960.

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26 abril, 2017

Festing em Roma.

Segundo Philip Pullella, correspondente da Reuters em Roma, Fra ‘Matthew Festing, “renunciado” pelo Papa Francisco do posto de Grão-mestre da Ordem de Malta, “participará do encontro que poderia eleger seu sucessor, afirmou o grupo na quarta-feira, em um desafio direto à ordem dada pelo Papa Francisco de que ele ficasse de fora. Um porta-voz dos Cavaleiros afirmou que Matthew Festing, que renunciou em 24 de janeiro, informou o grupo que viria para o encontro neste sábado, em sua sede, em Roma. Não estava claro se ele se apresentaria à reeleição, como alguns de seus apoiadores o encorajaram” .

Festing fora proibido de pisar em Roma durante os dias em que acontecerá a reunião.

Por sua vez, Sandro Magister relata em seu blog a reunião do Papa Francisco teve que as lideranças da Ordem na Casa Santa Marta.