Dom Odilo e a sua análise do cenário eleitoral.

FratresInUnum.com, 15 de agosto de 2022 – Dom Odilo Scherer, cardeal arcebispo de São Paulo, publicou um artigo em “O Estado de São Paulo” no último sábado, dia 13; o mesmo artigo foi publicado no site da arquidiocese de São Paulo, mas o site da arquidiocese está fora do ar.

O artigo divide-se basicamente em duas partes, que talvez pudessem ser intituladas “primeiro turno” e “segundo turno”.

Na primeira parte, ele critica a polarização ente “candidato a” e “candidato b”… Deixaria ele ao leitor a conclusão de que seria interessante considerar-se a chamada “terceira via”, a mesma que seria encabeçada por Moro, depois por Dória e, por fim, por Tebet e Gabrilli?… É interessante notar que a hipótese de uma ascensão da “terceira via” não está fora de cogitação, especialmente com a possibilidade de que um dos candidatos que perdesse numa projeção confiável viesse a renunciar à eleição, alegando, por exemplo, motivos de saúde ou idade avançada.

Dom Odilo também chama a atenção para o fato de que a eleição é exageradamente concentrada sobre o poder executivo, deixando-se o legislativo meio de que lado. Bem… digamos que o problema não seja propriamente atual. Parece que o eminentíssimo está um tanto chovendo no molhado.

De fato, esses eclesiásticos que não querem polemizar para não verem a sua carreira de nenhum modo manchada, para darem sempre a impressão de que são equilibrados e estão por cima das contradições e dos jogos de interesses, vivem a falar e a escrever obviedades, “lugares comuns”, chavões compartilháveis por qualquer pipoqueiro da esquina, desprovidos de qualquer relevância.

Contudo, a coisa continua. O arcebispo de São Paulo começa a criticar o que ele mesmo chama de “crise social brasileira”. Aqui, começaria, a nosso ver, a segunda parte do artigo.

Ele menciona o preço dos produtos, de comidas a remédios, o desemprego, a fome, o aumento dos moradores de rua, a crise ambiental (aquela bajuladinha bergogliana não poderia faltar, não é mesmo?…). Ele também menciona o crescimento da violência, falsificando o fato de que, nos últimos anos de governo, esta caiu consideravelmente, coisa que se vê pela gigantesca diminuição do número de assassinatos.

Mas, o mais interessante, é que, neste momento, o eminentíssimo faz aquela pausa poética para uma pergunta retórica cheia de ironia tosca (sim, porque, às vezes, a malícia só não excede a enormidade enciclopédica da inépcia): “Tudo culpa da pandemia de covid-19? Da guerra na Ucrânia?”

Ora, cardeal, mas será que vossa eminência ignora o fato de que vivemos uma crise internacional de dimensões impressionantes? A pandemia quebrou a economia da maior parte dos países, até a inflação americana está altíssima, o que impacta diretamente a economia de todas as nações, há alta no preço dos combustíveis por todo lado, e, depois dessa catástrofe sanitária, a calamidade de uma guerra está abalando todos mercados do mundo. Que coisa feia justamente um cardeal fazer-se de bobo e ignorar que, de fato, estamos num momento delicadíssimo política e economicamente, que tudo isso tende a se agravar com a crise entre Taiwan e China, que pode eclodir proximamente, e que não podemos ficar imunes a nada disso… É verdade que ele afirma “não se desconhece nem se subestima a influência de tais fatores circunstanciais, mas nosso problema não é novo e a atual crise social brasileira é mais velha que esses fatores”, mas qualquer criança sabe que tais “fatores circunstanciais” dificultam ainda mais o solucionamento dessas crises. Não é necessária muita inteligência para perceber que este discurso é tão somente uma retórica que esconde outras presumíveis intenções. Prossigamos.

Logo na sequência, ele ainda se ressente: “Que pena, estamos desperdiçando energias na reafirmação da confiabilidade das urnas eletrônicas”? Mas, por que, eminência? Será que a infalibilidade das urnas eletrônicas é um novo dogma de fé, a ser professado por todos os católicos? Se o Brasil tivesse inventado um sistema imune a fraudes, que são problemas ocorrentes em todas as democracias do mundo, a esta altura, todos os países estariam importando essa tecnologia que, além daqui, existe apenas no Butão e em Bangladesh… Não parece óbvio?

No entanto, pior do que as pautas que o cardeal releva são aquelas que ele silencia. Sim, porque há omissões que denunciam mais que comissões e silêncios que gritam mais do que verdadeiros brados…

Ele releva com exclusividade as pautas da esquerda que são concentradas sobre a política social, enquanto finge não ver as demais pautas, aquelas que confrontam diretamente os interesses do eleitor católico: o aborto, a ideologia de gênero, o movimento homossexual, a legalização das drogas, o controle das mídias sociais, a regulação da imprensa, a intolerância religiosa – temas que são os mais importantes, sobretudo quando estamos a viver uma perseguição contra os católicos na Nicarágua. Dom Odilo faz parte da presidência do CELAM. Onde está uma condenação ao totalitarismo de Ortega, que fechou rádios católicas e prendeu um bispo? Onde está a preocupação do purpurado com o apoio que Lula deu ao regime nicaraguense no ano passado, na sua entrevista ao El País?

Esses temas serão solenemente ignorados pela maior parte dos bispos brasileiros. Evita-se tratar do assunto porque a pauta seria facilmente sequestrada pela direita. É sobre isso: trata-se de reconduzir Lula ao poder, ainda que se disfarçando de “terceira via”.

O cardeal volta à sopa das mazelas da “crise social brasileira” para, de improviso, sair com uma cutucada: “Populismos messiânicos, de qualquer matiz, já se mostraram danosos e ineficazes para resolver os problemas dos povos”. Aqui, ele falta dar nome e cpf do criticado.

Infelizmente, Dom Odilo se comporta exatamente como o estereótipo do “bispo melancia”: verde por fora, vermelho por dentro. É uma pena! Triste saber que um eclesiástico deste porte um dia foi considerado de confiança por ninguém menos que o Papa Bento XVI. Só que nada disso é uma surpresa… Quem não se lembrará das manifestações de amor devoto com a qual Dom Odilo falava de Lula em 2018, no evento comemorativo do acordo Brasil-Santa Sé (vídeo)?

A culpa é da escada.

Por Padre Jerome Brown, FratresInUnum.com, 7 de agosto de 2022 – Muitas mulheres que sofrem violência doméstica, por mil razões, acobertam seus algozes com várias desculpas. Certa vez, uma policial me falou que finalmente pôde ajudar uma senhora que umas duas vezes por semana “caía da escada”, embora morasse numa casa de apenas um andar…

Enquanto lia os comunicados oficiais que o Opus Dei e seu Prelado escreveram sobre o último Motu Proprio de Francisco, como sempre com um lindo nome — Ad Charisma tuendum — e um efeito devastador, sentia-me como alguém vendo uma mulher de braço quebrado e olho roxo, que com um sorriso envergonhado dizia ter caído da escada e que seu marido é muito bom para com ela.

Pois bem, a perpétua memória da Ut sit de João Paulo II durou pouco. Aliás, parece que todas as “perpétuas memórias” encontram um ponto final em Francisco. Não há nada que ele não queira mudar. Até mesmo à memória do “lava pés” Bergoglio quis dar seu ar pessoal introduzindo também mulheres. Se até algo instituído por Cristo pode ser “aperfeiçoado” por Bergoglio, quanto mais o que foi feito pelos Vigários de Cristo dos quais Bergoglio parece ser o supremo moderador, reformador, inventor.

O que acontece com a “Obra” é apenas um canapé do que espera os institutos tradicionais que buscam a todo o custo os “green cards” eclesiásticos.

Resta saber se eles dirão que caíram da escada.

Sobre o mea culpa do Papa Francisco no Canadá.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 27 de julho de 2022 | Tradução: Hélio Dias Viana – A Igreja Católica, fiel ao mandato do seu divino Mestre de “ir por todo o mundo e pregar o Evangelho a toda criatura” (Mar.16,15), realiza desde a sua fundação uma vasta obra missionária com a qual não só trouxe a Fé ao mundo, mas também a civilização, santificando lugares, povos, instituições e costumes. Graças a este trabalho, a Igreja civilizou também os povos das Américas, que estavam imersos no paganismo e na barbárie.

A primeira missão jesuíta do Canadá entre os índios iroqueses, dirigida pelo padre Charles Lalemant (1587-1674), desembarcou em Québec em 1625. Em 1632 chegou uma nova missão, conduzida pelo padre Paul le Jeune (1591-1664). O padre Jean de Brébeuf (1593-1649) voltou em 1633 com dois outros sacerdotes. De choça em choça, começaram a instruir crianças e adultos no Catecismo. Mas alguns feiticeiros convenceram os índios de que a presença dos padres atraía secas, epidemias e outras calamidades. Assim, os jesuítas decidiram proteger os catecúmenos isolando-os em cidades cristãs. A primeira foi construída a quatro milhas de Québec. Constava de um forte, uma capela, casas,  um hospital e uma residência para os padres.

Ao mesmo tempo, alguns voluntários se ofereceram para converter os índios: Santa Maria da Encarnação Guyart Martin (1599-1672), uma irmã ursulina originária de Tours que com outras duas freiras havia fundado um internato em Québec para ensinar crianças indígenas; Dona Marie Madeleine de la Peltrie (1603-1671), viúva francesa que fundou com algumas Irmãs Hospitaleiras de Dieppe um hospital, também em Québec; membros da Sociedade de Nossa Senhora que com a ajuda do padre sulpiciano Jean Jacques Olier (1608-1657) e da Companhia do Santíssimo Sacramento fundaram em 1642 a Ville Marie de Montréal, a partir da qual nasceria a atual Montréal.

Mas os iroqueses se mostraram irredutivelmente hostis. Haviam mutilado atrozmente e coberto de brasas o padre Isaac Jogues (1607-1646) e seu coadjutor, padre René Goupil (1608-1642). Em março de 1649, os iroqueses martirizaram os padres Jean de Brébeuf e Gabriel Lalemant (1610-1649). Empalaram o padre Brébeuf com barras de ferro quente e lhe arrancaram pedaços de carne, que devoraram diante de seus olhos. Vendo que o mártir não parava de louvar a Deus, arrancaram-lhe os lábios e a língua e enfiaram tições acesos em sua garganta. O padre Lalemant foi torturado pouco depois com crueldade ainda maior. Mais tarde, um selvagem esmagou sua cabeça com um machado e arrancou-lhe o coração, bebendo seu sangue para assimilar sua força e coragem. Em dezembro, uma nova onda de ódio feroz produziu dois novos mártires, dos padres Charles Garnier (1605-1649) e Noël Chabanel (1613-1649). Os oito missionários jesuítas, conhecidos como Mártires do Canadá, foram beatificados por Bento XV em 1625 e canonizados por Pio XI em 1930.

Esses episódios fazem parte da memória histórica do Canadá e não podem ser esquecidos. Como jesuíta o Papa Francisco deveria estar familiarizado com esta epopeia, narrada entre outros por seu colega de Ordem padre Celestino Testore, em seu livro Os santos mártires do Canadá, publicado em 1941.

Mas, sobretudo, o Santo Padre deveria ter tratado com maior prudência o caso da suposta descoberta de valas comuns nas residências estudantis para índios do Canadá — rede de escolas fundada pelas autoridades e confiada principalmente à Igreja Católica, embora também em parte (30%) à anglicana canadense, com vista à integração do corpo discente na cultura nacional, de acordo com a Lei de Civilização Gradual aprovada pelo Parlamento em 1857. Nas últimas décadas, a Igreja Católica tem sido acusada de participar de um plano de extermínio cultural dos povos indígenas, cujos filhos teriam sido arrancados de suas famílias para serem doutrinados e, às vezes, submetidos a tratamentos abusivos para assimilá-los à cultura dominante. Em junho de 2008, com base em posturas indigenistas, as autoridades canadenses pediram perdão oficialmente aos indígenas e criaram uma Comissão de Verdade e Reconciliação para os internatos de índios.

Apesar dos 71 milhões de dólares recebidos, os investigadores da comissão trabalham há sete anos sem encontrar tempo para consultar os arquivos dos Oblatos de Maria Imaculada, a Ordem religiosa que no final do século XIX começou a administrar os internatos. Enquanto isso, graças às informações coletadas nesses arquivos, o historiador Henri Goulet, em sua Histoire des pensionnats indiens catholiques au Québec. Le rôle déterminant des pères oblats (Presses de l’Université de Montréal, 2016) [História dos pensionatos indígenas católicos em Québec. O papel determinante dos padre oblatos], mostrou que os Oblatos eram os únicos defensores da língua e do modo de vida tradicional dos índios do Canadá, ao contrário do governo e da igreja anglicana. Essa linha de pesquisa historiográfica é confirmada pelos trabalhos de um dos maiores estudiosos internacionais da história da religião no Canadá, o professor Luca Codignola Bo, da Universidade de Gênova.

Da acusação de genocídio cultural se passou para a de genocídio físico. Em maio de 2021, a antropóloga Sarah Beaulieu, depois de inspecionar com georadar o terreno adjacente ao internato de Kamloops, levantou a hipótese da existência de uma vala comum, sem ter realizado nenhuma escavação. As alegações da antropóloga, divulgadas pela grande mídia e endossadas pelo primeiro-ministro Trudeau, deram origem a teorias muito variadas, algumas das quais afirmam que centenas de crianças teriam sido mortas e enterradas clandestinamente em valas comuns ou túmulos irregulares em terrenos de escolas católicas no Canadá.

A notícia é totalmente infundada, pois nenhum corpo foi desenterrado, como documentou Vik van Brantegem no blog Korayzm.org em 22 de fevereiro. Em 1º de abril, o blog UCCR publicou uma entrevista detalhada com o historiador Jacques Rouillard, professor emérito de História da Universidade de Montréal, na qual ele nega categoricamente o genocídio cultural e físico dos indígenas canadenses e a existência de valas comuns nos internatos Ele está convencido de que por trás de todo o caso se oculta uma tentativa de obter indenizações milionárias. Em 11 de janeiro, o próprio professor Rouillard publicou um extenso artigo no site canadense Dorchester Review, no qual afirma que nas supostas valas comuns do internato de Kamloops não foram encontrados nenhum corpo de menor, enterros clandestinos ou qualquer outro enterro irregular. Atrás das escolas não há senão cemitérios, nos quais foram enterrados não apenas os alunos, mas também a população local e os próprios missionários. Com base na documentação apresentada por Rouillard, entre 1915 e 1964 morreram 51 crianças. Foi encontrada a documentação sobre a causa mortis de 35 delas, a maioria por doença e alguns por acidentes.

Um novo artigo publicado pelo professor Tom Flanagan e pelo juiz Brian Gesbrecht em 1º de março na Dorchester Review confirma não haver a menor indicação de que um único menor tenha sido assassinado nos 113 anos de história dos internatos católicos. De acordo com os dados fornecidos pela Comissão para a Verdade e Reconciliação, a taxa anual de mortalidade entre os alunos em internatos era uma média de quatro por mil, principalmente por tuberculose ou gripe.

Parece que as escavações foram finalmente autorizadas em Kamloops, mas, como diz o professor Rouillard, teria sido melhor tê-las feito no outono passado, para que se conhecesse a verdade, evitando assim que o Papa Francisco pedisse perdão por hipóteses não comprovadas. Um intelectual canadense o expressa com estas palavras: “Parece inacreditável que um estudo preliminar sobre uma suposta vala comum em um pomar tenha desencadeado uma avalanche de reivindicações com o aval das autoridades canadenses, as quais tenham sido reproduzidas pela mídia de todo o mundo. Não se trata de um conflito entre a história oficial e a história indígena transmitida oralmente, mas entre esta última e o senso comum. Até o momento não foram feitas exumações nem se encontraram restos. Uma acusação criminal requer provas verificáveis, especialmente se o autor do delito tiver morrido há muito tempo. Portanto, é importante que as escavações sejam feitas o quanto antes, para que a verdade prevaleça sobre a fantasia e as emoções. Se o que se quer é a reconciliação, não é preferível investigar e contar toda a verdade antes de inventar mitos sensacionalistas?»

Lançamento: Catecismo do Eleitor Católico.

Nossos amigos do apostolado Obras Católicas continuam com seu grande trabalho de restauração da literatura sepultada pelos inimigos da Igreja. Parabéns e sigam em frente!

* * *

Essa é a republicação de uma pequena mas valorosa obra escrita originalmente no ano de 1960 pelo Revmo. Padre Edmundo Henrique Dreher (Companhia de Jesus), um grande educador e exemplar sacerdote que, assim como ele mesmo vai dizer em seu prefácio, o fez com a intenção de prestar “um serviço a Deus, à Igreja e à pátria”.

Compre aqui.

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O intento do “CATECISMO DO ELEITOR CATÓLICO” é suprir uma lacuna que se encontra na maioria dos catecismos católicos editados em língua vernácula, no que concerne à exposição do 4º mandamento da Lei de Deus. Não se expõem nesses catecismos ou, ao menos, não se expõem com a minúcia e a clareza merecidas, os deveres cívicos dos católicos como, por exemplo, o de votarem, e de votarem bem; nem, muito menos ainda, se trata do dever da Igreja de orientar seus filhos acerca da desobriga do voto, mormente em tempo de eleições políticas. A consequência imediata deste lamentável estado de coisas é a de se deparar com católicos, e mesmo com bem intencionados, que julgam os deveres cívicos um assunto de alçada exclusivamente política, como se não assistisse à Igreja o menor direito de orientá-los. E a consequência mediata é a de vermos, com o coração confrangido, nações inteiras, de origem e sentimento católicos, fadadas por Deus a grande prosperidade temporal, desgovernadas politicamente por hábeis aproveitadores que, esquecidos de sua dignidade não só de cristãos, mas mesmo de homens, fomentam entre os cidadãos católicos a ignorância dos deveres cívicos-religiosos, com medo de que, esclarecidos, lhes pudessem interceptar a fonte de seu vergonhoso e impatriótico enriquecimento. Desejando, pois, suprir tal lacuna, o “CATECISMO DO ELEITOR CATÓLICO” propôs-se a esclarecer o eleitorado católico de tal sorte que tome plena consciência do seu sagrado dever cívico-religioso, em cujo cumprimento não poderá, por vezes, furtar-se a aceitar os conselhos de sua santa mãe, a Igreja, a qual, porque quer a salvação eterna de seus filhos, deve querer também a sua prosperidade temporal. Não cabe dúvida de que a Igreja é também competente em matéria de deveres cívicos, porquanto toda a vez que o católico se defrontar com um dever, seja ele de que ordem for, entra no campo moral e, como sabido, a Igreja não só é competente no que concerne à fé, mas também no que diz respeito à moral.

TITULO: Catecismo do eleitor católico

ISBN: 978-65-89613-44-2

FORMATO: 10,0 x 14,0cm

CAPA: Brochura

LAMINAÇÃO: Fosca

MIOLO: 60 Paginas em Offset 75g

ACABAMENTO: PUR + Refile + Shirink Individual

Saudades de Sião.

Por Padre Jerome Brown, FratresInUnum.com, 23 de julho de 2022 – No Salmo 136 (137), o povo hebreu senta-se junto aos rios da Babilônia e chora não apenas por estar no exílio, mas, sobretudo, por “saudades de Sião”. O cativeiro por si mesmo já era um sofrimento, mas a recordação de Jerusalém, saber que ela existia, e que – dor maior – ele não estava lá por causa de seus próprios pecados, conduzia-o às lagrimas.

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Assim, os rios de Babilônia se encontravam com os rios das lágrimas de um povo castigado por seus pecados que não podia parar de pensar em um “se” sempre mais doloroso: “e se estivéssemos em Jerusalém…”

Há uma semana partia desse mundo S. A. I. R. Dom Luiz de Orleans e Bragança.

Numa entrevista a uma apresentadora estupefata, na década de 90, seu irmão e agora Chefe da Casa Imperial, S. A. I. R. Dom Bertrand, com sobrenatural naturalidade afirmava a castidade de seu irmão (e também a própria), uma vez que escolheram por não casar. E, com a simplicidade própria dos grandes, dizia que sendo católicos, não sendo casados, viviam puramente.

Nessa semana, considerando o passamento de Sua Alteza Imperial e Real, pensava eu num “se”.

O que seria do Brasil se fosse governado por um homem casto?

E pareceu-me ver como um castigo de Deus que não fosse assim. Um castigo merecido. Esse Brasil imoral, do funk, do carnaval, do orgulho gay, do adultério, da pornografia… não merecia um Imperador casto.

Como o Brasil maçom e positivista não mereceu a Princesa Isabel.

O exílio da Princesa foi um castigo divino para o Brasil. Castigo que perdura.

A providência quis que Dom Luiz partisse no mesmo dia em que a Igreja celebra o Imperador Santo Henrique, que mesmo tendo se casado com Santa Cunegundes, viveu virginalmente e, quando de sua morte, sua esposa estava ilibada.

A monarquia, particularmente considerando os últimos chefes da Casa Imperial, é a Jerusalém do povo brasileiro — povo que precisa chorar os seus pecados para lavar sua imundície e merecer um governante totalmente submetido a Deus e à Santa Igreja.

Dom Cláudio, um homem de contrastes ou um coerente clérigo da Igreja conciliar?…

Por FratresInUnum, 6 de julho de 2022 — Foi sepultado hoje, na cripta da Catedral da Sé, em São Paulo, o arcebispo emérito da cidade, Dom Claudio Hummes, franciscano, bispo, cardeal, uma personalidade muito interessante no atual cenário da Igreja.

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Hummes em 2008

É muito fácil julgar alguém a partir de uma posição doutrinal, inclusive porque dificilmente as pessoas conseguem realmente se enquadrar dentro dela, ao menos em todos os períodos de sua vida. A instabilidade da Igreja desde o Concílio Vaticano II, a crise teológica e pastoral dele decorrente e a mentalidade tipicamente positivista que predomina na formação do clero contemporâneo podem explicar como alguém consegue trafegar por tão diferentes direções no curto decurso de uma vida.

Quando falamos de “positivismo”, referimo-nos a essa mentalidade tão comum em uma Igreja que já não é determinada por um lastro doutrinal: para conservar a unidade, não podemos mais recorrer a princípios objetivos, mas apenas temos de seguir a quem manda, criando retóricas que justifiquem a posteriori as orientações dadas. 

É daí que decorre o comportamento camaleônico de tantos padres. Eles se comportam de um jeito quando o establishment é um e mudam quando é outro, com a facilidade de quem se move ao soprar dos ventos. Infelizmente, o depauperamento intelectual da Igreja pós-conciliar, que foi necessário para que se justificasse tamanha quebra doutrinal com a teologia precedente, produziu esse efeito, do qual são vítimas praticamente todos os padres sobreviventes ao Concílio e, sobretudo, os ordenados depois dele.

Pois bem, Dom Cláudio teve um começo progressista. Foi nomeado bispo coadjutor de Santo André por Paulo VI, em 1975. Naquele tempo, apoiou o movimento sindical, cujo máximo chefe foi seu amigo por toda a vida: Luís Inácio Lula da Silva, a quem se diz que ele ajudou a esconder durante as procuras da polícia da época. Ele nunca negou o seu passado engajado nas lutas dos trabalhadores amotinados sob a bandeira socialista. Nesse período, ele se aproximou da teologia da libertação, bem como deferiu duros ataques ao capitalismo e à globalização.

Contudo, durante o pontificado de João Paulo II, ele deu uma guinada à direita, especialmente quando foi arcebispo de Fortaleza (1996-1998). Ao ser nomeado arcebispo de São Paulo, já tinha uma fama de “conservador”, como bem documenta uma matéria da Folha de São Paulo, de 16 de abril de 1998:

“A nomeação de d. Cláudio foi recebida com preocupação pela parte da arquidiocese que defende maior participação da igreja nas questões políticas e sociais. Embora o novo arcebispo tenha se notabilizado pela defesa dos operários do movimento grevista do ABC, entre 78 e 82, quando era bispo de Santo André, nos últimos anos ele tem se identificado com o chamado setor ‘conservador’ do clero, que defende prioridade para as questões religiosas”.

De fato, a sua passagem pela arquidiocese de São Paulo foi muito mais “conservadora” que “progressista”: ele expulsou drasticamente do seminário todos os homossexuais, o que provocou uma baixa de candidatos ao sacerdócio absolutamente sensível; criou um modelo de formação bastante rigoroso, o qual ele exportou mediante cursos para reitores organizados sob a sua supervisão, que traziam sempre a participação de expositores de Roma, inclusive de importantes cardeais e chefes de dicastério (tratava-se de uma espécie de reprodução do curso de bispos tradicionalmente realizado pela arquidiocese do Rio de Janeiro, mas, no caso, para reitores de seminário); convidou para os cursos do clero da arquidiocese de São Paulo teólogos europeus de renome, que depois se tornaram bispos e até cardeais.

A mudança de direção provocou duras resistências por parte de uma parcela considerável do clero de São Paulo, que não lhe tinha nenhuma simpatia. Basta lembrar das cartas anônimas que circularam naquelas épocas, que eram verdadeiros protestos contra a sua pessoa e contra a sua linha pastoral, acusada de descontinuidade com Dom Paulo Evaristo Arns (cujo centenário a arquidiocese de São Paulo celebra de modo tão ostensivo este ano, sem quase nenhuma adesão popular).

Durante aqueles anos, Dom Cláudio começou a falar angustiadamente sobre a questão da evangelização porta-a-porta, pois estava aterrorizado com as notícias da expansão do protestantismo pelo Brasil. Psicologicamente, ele tinha aquele vício germânico de ideias fixas e, portanto, repetia aqueles discursos sob forma de refrão, em verso e prosa, por todos os lados em que andasse.

Quando Bento XVI foi eleito, nomeou-o Prefeito para a Congregação do Clero. Ali, embora tenha ocorrido aquele seu deslize inicial, quando se demonstrou favorável à discussão sobre a ordenação de homens casados para o sacerdócio, declaração “voluntariamente” corrigida no momento mesmo do seu desembarque no aeroporto de Fiumicino, ele também não teve um governo progressista, muito pelo contrário.

O Card. Hummes, por exemplo, determinou a sumária expulsão do sacerdócio de todos os padres que tivessem filhos, mediante uma carta enviada aos bispos do mundo inteiro por meio das nunciaturas. Determinou visitas apostólicas, fechamentos de seminários, intervenções em dioceses, e isso por todo o mundo. De certo modo, podemos dizer que a linha dura seguida pela Santa Sé nos anos seguintes, inclusive pela concessão do Papa das chamadas “faculdades especiais” à Congregação para o clero, foi fruto do seu trabalho precedente.

Foi durante a sua gestão como Chefe do Dicastério do Clero que a Santa Sé promoveu o Ano Sacerdotal, que foi um estrondo de exaltação do sacerdócio católico em meio a uma tempestade de escândalos, durante o qual se realizaram conferências importantíssimas acerca da importância do celibato sacerdotal e da santidade do sacerdócio.

Quando ocorre a eleição do Papa Francisco, ele muda completamente de direção. 

Ao nosso ver, a análise que os jornais fizeram de sua atuação no conclave é muito exagerada. Ele não era um membro da chamada Máfia de St. Gallen. O equívoco se deve ao fato de que, na biografia do Card. Danneels, menciona-se uma reunião realizada em 1984 da qual participou o Card. Basil Hume, inglês; que não pode ter participado da reunião de 2006, aquela que definiu Bergoglio como candidato da chapa progressista, visto que Hume faleceu em 1999.

A sua frase ao recém-eleito Bergoglio, “não esqueça dos pobres”, pode muito bem ter sido uma daquelas expressões brasileiras que se fazem quando alguém é promovido ou fica muito rico – não esqueça dos pobres, hein?! –, que não tem correspondente em espanhol ou italiano e, justamente por isso, pode ter sido captada de modo meio místico pelo papa argentino, a ponto de tê-lo dado a ideia de escolher o nome de Francisco e, por isso, de chamar o Card.  Hummes, juntamente com Danneels, para estar com ele na sacada de São Pedro durante a sua apresentação ao mundo… Hipóteses, sempre hipóteses…

Mas, se a sua participação na eleição de Francisco parece realmente ter sido fraca, seu protagonismo posterior no desenrolar do pontificado não o foi, pois ele soube rapidamente engajar o pontífice naquelas ideias que giraram em torno do eixo A-A – Alemanha-Amazônia: o ecologismo tribalista e a eventual ordenação dos homens casados para o sacerdócio, enfim, aqueles temas que, juntamente com o da comunhão aos adúlteros, a ordenação das mulheres e o casamento homossexual, compõem o conjunto das polêmicas germânicas que se tentaram impor com o chamado “Amazoniza-te”. 

Na verdade, a articulação em torno da Amazônia foi apenas uma espécie de tentativa de abrir uma brecha na Igreja para que se introduzisse depois toda a agenda do episcopado alemão, que detém os cofres mais opulentos da Igreja atual, com um Vaticano em plena crise financeira. Aqui, a tal opção pelos pobres já se esvaiu há muito tempo! E é justamente isso que está por detrás do atual Sínodo sobre a sinodalidade.

Contudo, se Laudato sì, o Sínodo da Amazônia e Querida Amazônia não conseguiram despertar engajamento nos fieis, produziu certo desapontamento tanto em Francisco quanto em Dom Cláudio: comenta-se que o papa não gostou do Sínodo da Amazônia, que se irritou com aquele culto à Pachamama, que esperava algo elevado do ponto de vista acadêmico e o que obteve foi uma grotesca celebração das CEBs, que causou vergonha por todos os lados; mas também Dom Cláudio saiu dessa experiência um tanto desiludido, tanto porque esperava maior reverberação, quanto porque os seus intentos de ordenação de um clero casado autóctone foram abortados pelo Papa, que não teve coragem de levar até o fim aquilo que havia ensejado.

Parece, mesmo, que essa fixação do Card. Hummes na ordenação de homens casados era devida a muitas questões interiores: ele era realmente contrário aos escândalos no clero e achava que um modo de resolvê-los seria esse, também se afligia com o avanço do protestantismo na região amazônica e queria uma contrapartida da Igreja… Mas terminou vendo essas aflições um tanto irrespondidas e, talvez, um pouco interiormente desiludido com o pontificado atual (ao menos há relatos de padres que trabalham na Amazônia e que teriam escutado discretas declarações disso por parte dele).

Em todo caso, ele é um modelo dos clérigos conciliares: vão de um lado para o outro ao sabor dos pontificados, quer sejam conservadores ou progressistas. A instabilidade doutrinal produziu o positivismo, que acabou sendo a psicologia dos padres e que os faz usar casula romana em 2009 e abraçar a Pachamama em 2019; contrastes chocantes, mas que podem ser compreendidos sob a luz de uma coerência subjetiva, a de obedecer a quem manda, independentemente de princípios, que são rearranjados retoricamente a posteriori para justificar as ações comandadas.

Se isso é uma tragédia psico-eclesial, de um lado, demonstra o completo fracasso intelectual do progressismo, de outro. Essa loucura teológica conseguiu produzir apenas vazio e ceticismo. O que resta, na vida prática, é adaptar-se. E talvez esse tenha sido o maior sucesso de Dom Cláudio, como comenta uma matéria da BBC de 15 de abril de 2005:

“A chave para o entendimento dessa aparente contradição na trajetória de d. Cláudio está na sua capacidade de se adaptar aos rumos da Igreja Católica mundial e à realidade do Brasil”.

Nesse sentido, D. Cláudio foi não apenas um clérigo típico da Igreja Conciliar, mas talvez tenha sido um dos mais eminentes e um dos exemplares mais bem-sucedidos.

A caridade cristã nos obriga a rezar por sua alma e a desejar que ele descanse nos braços de Deus. Fato é que os seus equívocos não apagam o bem que ele fez e, por isso, esperamos que o Senhor lhe tenha concedido tempo de arrependimento e a salvação eterna.

Dom Claudio Hummes, o amigo de Lula.

Por Hermes Rodrigues Nery, 4 de julho de 2022.

Uma reportagem da revista Veja, em 2002, dizia que Cláudio Hummes estava na lista de papáveis[1]. Ao ser escolhido para dirigir os Exercícios Espirituais ao papa João Paulo II, em 2002, Hummes mostrou seu prestígio junto à Cúria Romana, meses depois de ter sido nomeado cardeal.

Cláudio Hummes e Lula

Em janeiro de 2003, ele assumiu o comando da Congregação para o Clero, chefiando cerca de 400 mil sacerdotes, em todo o mundo. Naquele mesmo ano, Frei Betto despachava no terceiro andar do Palácio do Planalto, em Brasília, numa sala ao lado do amigo Luís Inácio Lula da Silva (1945- ), que iniciava seu primeiro mandato como Presidente da República Federativa do Brasil. Na ocasião, muitos bispos quiseram eleger Cláudio Hummes Presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), dada a sua proximidade com Lula (que chegou a ir pessoalmente a Itaici para influenciar os bispos a votarem em Cláudio Hummes). Mesmo sem ser candidato, Hummes recebeu 64 votos, tendo sido eleito Geraldo Majella Agnelo (1933- ), com 207 votos. Amaury Castanho (1927-2006), bispo de Jundiaí, enfatizou aos colegas que havia “uma ponte excelente”[2] entre Hummes e Lula. Dias antes da assembleia da CNBB, Hummes celebrou a missa do Dia do Trabalho em São Bernardo do Campo e “pediu aos presentes que saudassem a chegada de Lula com ‘vivas’”[3]. Foi Hummes quem conseguiu viabilizar o encontro de Lula com o papa João Paulo II, no Brasil, aonde Lula esperou duas horas, sob chuva, pelo encontro em 1980, antes do papa dar início à celebração no estádio do Morumbi, em São Paulo.

Mesmo depois de eclodir o escândalo do Mensalão[4], em 2005, Hummes foi enfático sobre Lula, ao dizer no programa de televisão Roda Viva: “Eu continuo sendo amigo dele, admiro ele muito e creio que foi um dos sinais maiores do Brasil diante do mundo (…) mas eu gostaria de dizer que eu continuo vendo o Lula como uma pessoa absolutamente honesta”[5]. E ainda ao ser indagado o que falaria para ele, assim que o reencontrasse, Hummes afirmou: “Eu daria a ele um grande abraço, certamente daria a ele um grande abraço e diria que eu espero que ele consiga dar a volta por cima e reconstruir esse governo e levar em frente o governo e terminar. É isso que eu diria a ele. E eu espero isso dele, que tem capacidade de fazer isso. A estrutura moral interior ele tem, para isso”[6]. A amizade de Cláudio Hummes e Lula perdurou até depois de sua saída da Presidência da República, tendo sido recebido pelo líder petista, no Instituto Lula, em São Paulo, mesmo depois do surgimento da Operação Lava Jato[7].

Prof. Hermes Rodrigues Nery é Coordenador Nacional do Movimento Legislação e Vida. Email: prof.hermesnery@gmail.com

[1] SABINO, Mário. Um papa brasileiro?. Veja online, ed. 1746, 10 abr. 2002. Disponível em: <https://bit.ly/2Mcook9&gt;. Acesso 31 jan. 2021.

[2] CARIELLO, Rafael. CNBB elege d. Geraldo Majella. Folha de S. Paulo, 6 mai. 2003. Disponível em: <https://bit.ly/3aaZxVL&gt;. Acesso 31 jan. 2021.

[3]  Idem, ibidem.

[4] Escândalo de compra de votos que abalou o governo Lula em 2005.

[5] RODA VIVA. Entrevista com Dom Cláudio Hummes. Memória Roda Viva, 11 jul. 2005. Disponível em: <https://bit.ly/3t54Hv4&gt;. Acesso 31 jan. 2021..

[6] Idem, ibidem.

[7] INSTITUTO LULA. Lula encontra Dom Cláudio Hummes, 11 ago. 2014. Disponível em: <https://bit.ly/3aehxyt&gt;. Acesso 31 jan. 2021. Lula foi preso pela Operação Lava Jato em 7 de abril de 2018, aonde ficou 580 dias preso na carceragem da Polícia Federal em Curitiba, sendo solto em 8 de novembro de 2019, após o Supremo Tribunal Federal ter decidido pela inconstitucionalidade da prisão em segunda instância.