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23 setembro, 2016

Poucos presbíteros celibatários? Então, abramos as portas para os homens casados.

Escrevíamos em abril deste ano: “FratresInUnum.com recebe confirmação segura de que Francisco pretende mesmo tratar do tema do celibato sacerdotal no próximo Sínodo dos Bispos. Estamos em condições de afirmar que o assunto foi pauta de reunião privativa dos bispos na Assembléia da CNBB de 2015, sendo capitaneado por Dom Cláudio Hummes. Então, o arcebispo emérito pediu que os bispos do Brasil fizessem uma “proposta concreta” a Francisco sobre o tema. A recém-eleita presidência da CNBB não demonstrou nenhum empenho especial pela causa, por conta divisão do episcopado brasileiro a respeito”. 

* * *

IHU – É o remédio no qual pensam o cardeal Hummes e o Papa Francisco devido à falta de clero, começando pela Amazônia. Mas também na China do século XVII os missionários eram poucos e a Igreja florescia. Sobre isso escreve a revista La Civiltà Cattolica.

A reportagem é de Sandro Magister e publicada por Chiesa.it, 21-09-2016. A tradução é de André Langer.

Há alguns dias, o Papa Francisco recebeu em audiência o cardeal brasileiro Cláudio Hummes, acompanhado pelo arcebispo de Natal, Jaime Vieira Rocha.

Hummes, de 82 anos, anteriormente arcebispo de São Paulo e prefeito daCongregação vaticana para o Clero, é atualmente o presidente tanto da Comissão para a Amazônia da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), como da Rede Pan-Amazônica, que reúne 25 cardeais e bispos dos países vizinhos, além de representantes indígenas das diversas etnias locais.

E é assim que se sustenta, entre outras coisas, a proposta de solucionar a falta de sacerdotes celibatários em áreas imensas como a Amazônia conferindo a ordem sagrada também a “viri probati” – ou seja, a homens de provada virtude, casados.

Por conseguinte, a notícia da audiência fez pensar que o Papa Francisco discutiu comHummes sobre esta questão e, em particular, sobre um sínodo “ad hoc” das 38 dioceses da Amazônia, que efetivamente está em fase avançada de preparação.

E há mais. Ganhou nova força a voz segundo a qual Jorge Mario Bergoglio quer confiar ao próximo sínodo mundial dos bispos, programado para 2018, precisamente a questão dos ministérios ordenados, bispos, sacerdotes, diáconos, inclusive a ordenação de homens casados.

A hipótese foi lançada logo depois do encerramento do duplo Sínodo sobre a Família.

E avançou rapidamente.

E agora parece ganhar terreno. Curiosamente, pouco antes que o Papa recebesseHummes, Andrea Grillo – um teólogo ultrabergogliano, professor no Pontifício Ateneu Santo Anselmo de Roma, cujas intervenções são sistematicamente reproduzidas e enfatizadas pelo sítio Il Sismografo, próximo ao Vaticano – chegou inclusive a antecipar um detalhe do próximo sínodo sobre o “ministério ordenado na Igreja”, que divide em três subtemas:

– o exercício colegial do episcopado e a restituição ao bispo da plena autoridade sobre a liturgia diocesana;

– a formação dos presbíteros, reconsiderando a forma tridentina no seminário, e a possibilidade de ordenar homens casados;

– a teologia do diaconato e a possibilidade de um diaconato feminino.

A autoridade a que fazem referência tanto Grillo como o resto dos reformistas clérigos e leigos quando formulam esta ou outras propostas é o falecido cardeal Carlo Maria Martini, com a intervenção que lançou no Sínodo de 1999.

O então arcebispo de Milão, jesuíta e líder indiscutível da ala “progressista” da hierarquia, disse que “teve um sonho”: o de “uma experiência de confronto universal entre bispos que servisse para desfazer alguns dos nós disciplinares e doutrinais que aparecem de tempos em tempos como pontos candentes no caminho das Igrejas europeias, mas não exclusivamente”.

Estes são os “nós” por ele enumerados:

“Penso em geral no aprofundamento e no desenvolvimento da eclesiologia de comunhão do Vaticano II. Penso na falta, às vezes dramática, em alguns lugares, de ministros ordenados e na crescente dificuldade que alguns bispos têm para dispor do número suficiente de ministros do Evangelho e da eucaristia para prover o cuidado das almas em seu território. Penso em alguns temas que dizem respeito à posição da mulher na sociedade e na Igreja, na participação dos leigos em algumas responsabilidades ministeriais, na sexualidade, na disciplina do matrimônio, na prática penitencial, nas relações com as Igrejas irmãs da Ortodoxia e, mais em geral, na necessidade de reacender a esperança ecumênica; penso na relação entre democracia e valores e entre leis civis e lei moral”.

Da agenda martiniana, os dois sínodos convocados até agora pelo papa discutiram, de fato, sobre a “disciplina do matrimônio” e “a visão católica da sexualidade”.

O novo sínodo poderia resolver “a falta de ministros ordenados” abrindo as portas para a ordenação de homens casados e de diáconos mulheres; este último já foi posto em marcha pelo Papa Francisco com a nomeação, em 02 de agosto passado, de umacomissão de estudo.

* * *

O principal argumento em apoio à ordenação de homens casados é o mesmo já expresso pelo cardeal Martini: “a crescente dificuldade que alguns bispos têm para dispor do número suficiente de ministros do Evangelho e da eucaristia para prover o cuidado das almas em seu território”.

A Amazônia seria, então, um destes “territórios” imensos em que os poucos sacerdotes ali presentes são capazes de chegar a núcleos remotos de fiéis não mais de duas a três vezes ao ano. Portanto, com grande prejuízo – sustenta-se – para “o cuidado das almas”.

Deve-se dizer, no entanto, que uma situação deste tipo não é exclusiva dos tempos atuais. De fato, caracterizou a vida da Igreja ao longo dos séculos e nas mais diversas regiões.

Mas, tem mais. A falta de presbíteros nem sempre foi um prejuízo para o “cuidado das almas”. Pelo contrário, em alguns casos coincidiu inclusive com o florescer da vida cristã. Sem que a ninguém ocorresse de ordenar homens casados.

Foi o que aconteceu, por exemplo, na China no século XVII. A isso faz referência um amplo artigo escrito pelo sinólogo jesuíta Nicolas Standaert, que leciona naUniversidade Católica de Louvaina, e que foi publicado na revista La Civiltà Cattolica, em seu número de 10 de setembro último. Trata-se, portanto, de uma fonte livre de qualquer suspeita vista sob o vínculo estreitíssimo e estatutário que a revista tem com os Papas e, em particular, com o atual, que acompanha pessoalmente a sua publicação, em acordo com o diretor da mesma, o jesuíta Antonio Spadaro.

No século XVII, na China, havia poucos cristãos e estavam dispersos. Escreve Standaert: “Quando Matteo Ricci morreu em Pequim, em 1610, depois de 30 anos de missão, havia aproximadamente 2.500 cristãos chineses. Em 1665, os cristãos chineses eram, provavelmente, cerca de 80 mil e em 1700 aproximadamente 200 mil; quer dizer, eram ainda poucos comparados com toda a população, entre 150 milhões e 200 milhões de habitantes”.

E os presbíteros eram muito poucos: “Quando Matteo Ricci morreu, em toda a Chinahavia apenas 16 jesuítas: oito irmãos chineses e oito padres europeus. Com a chegada dos franciscanos e dos dominicanos, em cerca de 1630, e com um pequeno aumento dos jesuítas no mesmo período, o número de missionários estrangeiros passou dos 30 e permaneceu constante nos seguintes 30 ou 40 anos. Na sequência, houve um aumento, atingindo o pico de quase 140 missionários entre 1701 e 1705. Mas depois, por causa da controvérsia sobre os ritos, o número de missionários diminuiu para quase a metade”.

Em consequência, o cristão comum via o presbítero não mais de “uma ou duas vezes ao ano”. E nos poucos dias que durava a visita, o sacerdote “conversava com os chefes e os fiéis, recebia informações sobre a comunidade, interessava-se pelos doentes e os catecúmenos. Confessava, celebrava a eucaristia, pregava e batizava”.

Depois, o sacerdote desaparecia durante meses. Mas, as comunidades se mantinham. Além disso, conclui Standaert: “transformaram-se em pequenos, mas sólidos centros de transmissão da fé e da prática cristã”.

Seguem, na sequência, os detalhes dessa fascinante aventura, assim como relatada pela revista La Civiltà Cattolica.

Sem elucubrações sobre a necessidade de ordenar homens casados.

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“O missionário aparecia uma ou duas vezes ao ano”, por Nicolas Standaert, SJ, da La Civiltà Cattolica n. 3989, de 10 de setembro de 2016

No século XVII, os cristãos chineses não estavam organizados em paróquias, ou seja, em unidades geográficas em torno do edifício de uma igreja, mas em “associações”, as quais eram dirigidas por leigos. Algumas destas eram uma mistura de associação chinesa e de congregação mariana, de inspiração europeia.

Parece que estas associações estavam mais difundidas. Por exemplo, por volta de 1665 havia cerca de 40 congregações em Xangai, ao passo que havia mais de 400 congregações de cristãos em toda a China, tanto nas grandes cidades como nas aldeias.

O estabelecimento do cristianismo a este nível local se fez na forma de “comunidades de rituais eficazes”, grupos de cristãos cuja vida se organizava em torno de determinados rituais (missa, festividades, confissões, etc.). Essas eram “eficazes”, porque construíam um grupo e porque eram consideradas pelos membros do grupo como capazes de proporcionar sentido e salvação.

Os rituais eficazes estavam estruturados em base ao calendário litúrgico cristão, que incluía não apenas as principais festas litúrgicas (Natal, Páscoa, Pentecostes, etc.), mas também as celebrações dos santos. A introdução do domingo e das festas cristãs fez com que as pessoas vivessem segundo um ritmo diferente do calendário litúrgico utilizado nas comunidades budistas ou taoístas. Os rituais mais evidentes eram os sacramentos, sobretudo a celebração da eucaristia e da confissão. Mas a oração comunitária – sobretudo a oração do terço e das ladainhas – e o jejum em determinados dias constituíam os momentos rituais mais importantes.

Essas comunidades cristãs revelam também algumas características essenciais da religiosidade chinesa: eram comunidades muito orientadas para a laicidade com dirigentes leigos; as mulheres tinham um papel importante como transmissoras de rituais e de tradições dentro da família; uma concepção do sacerdócio orientado para o serviço (presbíteros itinerantes, presentes apenas por ocasião das festas e de celebrações importantes); uma doutrina expressada de maneira simples (orações recitadas, princípios morais claros e simples); fé no poder transformador dos rituais.

Pouco a pouco, as comunidades chegaram a funcionar de maneira autônoma. Um presbítero itinerante (inicialmente eram estrangeiros, mas já no século XVIII eram, majoritariamente, sacerdotes chineses) costumava visitá-las uma ou duas vezes ao ano. Normalmente, os dirigentes das comunidades reuniam os diversos membros uma vez por semana e presidiam as orações, que a maior parte dos membros da comunidade conhecia de cor. Os dirigentes liam também os textos sagrados e organizavam a instrução religiosa. Muitas vezes havia reuniões exclusivas para mulheres. Além disso, havia catequistas itinerantes que instruíam as crianças, os catecúmenos e os neófitos. Na ausência de um presbítero, os dirigentes locais administravam o batismo.

Durante a visita anual, que durava alguns dias, o missionário conversava com os dirigentes e os fiéis, recebia informações sobre a comunidade, interessava-se pelos doentes e os catecúmenos, etc. Confessava, celebrava a eucaristia, pregava, batizava e rezava com a comunidade. Quando partia, a comunidade retomava a sua prática habitual de rezar o terço e as ladainhas.

Por conseguinte, o cristão comum via o missionário uma ou duas vezes por ano. O verdadeiro centro da vida cristã não era o missionário, mas a própria comunidade, com seus dirigentes e catequistas como vínculo principal.

Principalmente no século XVIII e começo de século XIX, estas comunidades se transformaram em pequenos, mas sólidos, centros de transmissão da fé e de prática cristã. Por causa da falta de missionários e de presbíteros, os membros da comunidade – por exemplo, os catequistas, as virgens e outros guias leigos – assumiam o controle de tudo, desde a administração financeira às práticas rituais, passando pela direção das orações cantadas e pela administração dos batismos.

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21 setembro, 2016

Misericordiosamente proscrito.

Indicamos ao Dalai Lama que participe, junto com outros marginalizados, do próximo Grito dos Excluídos. Que a CNBB realize, no próximo “Grito”, um ato de reparação pela falta de misericórdia para com essas periferias existenciais. 

Dalai Lama não é convidado para Assis: “Uma pena, eu teria ido de bom grado”

IHU – O espírito de Assis é sempre inclusivo, mas, desta vez, excluiu o Tibete. A 30 anos exatos da intuição profética de Wojtyla, que reuniu por primeiro na cidadezinha daÚmbria os maiores líderes religiosos do mundo, incluindo o Dalai Lama, foi celebrada, na manhã dessa terça-feira, uma iniciativa semelhante pela paz. Desta vez, porém, o homem que encarna o líder espiritual do budismo tibetano não esteve lá.

A reportagem é de Franca Giansoldati, publicada no jornal Il Messaggero, 20-09-2016. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Ele não foi convidado. O Dalai Lama, nestes dias envolvido em um ciclo de conferências entre Paris e Estrasburgo, anunciou que “teria ido de bom grado”, mas que ninguém, nem da Comunidade de Santo Egídio, promotora da iniciativa, nem doVaticano, fez qualquer convite. Desatenção? O monge budista Tseten Chhoekyapa, estreito colaborador do Dalai Lama para a Europa, desfez a questão com poucas palavras e muita amargura. “As razões? Peçam as explicações ao Vaticano ou à Santo Egídio.”

Sim, porque a presença do Dalai Lama teria sido bastante complicada, enquanto a diplomacia do papa está envolvida em uma negociação muito delicada com o governo dePequim para a normalização das relações com a Igreja Católica clandestina.

O processo

Um dossiê emaranhado aberto desde que Mao tomou o poder e rompeu as relações com a Santa Sé, provocando, progressivamente, um enrijecimento das posições, até verdadeiras perseguições contra os católicos. Com o tempo, a situação melhorou, e agora, com o Papa Francisco, entreveem-se frestas concretas de distensão e de diálogo com o governo chinês.

O convite ao Dalai Lama provavelmente teria explodido o banco das negociações. Arealpolitik só podia prevalecer, e assim, na tarde dessa terça-feira, em Assis, o papa, diante do túmulo de São Francisco, assinou uma declaração de paz com islâmicos, xintoístas, ortodoxos, anglicanos, budistas (japoneses), mas não com os tibetanos.

Não importa se as relações da Anistia Internacional não deixam dúvidas sobre o assédio que sofre esse povo por parte da ocupação chinesa em diante. Números de dar calafrios. Desde 2009, 200 monges puseram fogo em si mesmos em protesto. A Anistia Internacional fala de “genocídio tibetano”, também por causa do um milhão de pessoas desaparecidas em décadas de ocupação.

O Dalai Lama, nestes dias, lançou um apelo às instituições europeias, implorando uma maior proteção (provocando imediatamente a reação de Pequim, que ameaçou retaliações à União Europeia) e pedindo apoio para um Tibete com um alto grau de autonomia dentro da China.

Mas, em Assis, a Comunidade de Santo Egídio convidou apenas o venerávelMorikawa Koei, líder dos budistas japoneses, recentemente recebido também em audiência pelo Papa Francisco.

No entanto, “eu sempre acolhi de bom grado os convites do papa, começando em 1973”, comentou o Dalai Lama. Paulo VI foi o primeiro a recebê-lo no Vaticano. Em 2014, em Roma, foi organizado um encontro de todos os prêmios Nobel da Paz, mas, também naquela ocasião, não chegou nenhum convite ao Dalai Lama.

O Papa Francisco, no entanto, algum tempo depois, disse que o admirava muito, mas que não era habitual para o protocolo receber os chefes de Estado ou os líderes daquele nível quando participam de uma reunião internacional em Roma.

“De qualquer forma – acrescentou Francisco, respondendo aos jornalistas – não é verdade que eu não recebi o Dalai Lama porque tenho medo da China. Nós estamos abertos e queremos a paz com todos. O governo chinês é educado, nós somos educados. Fazemos as coisas passo a passo. Eles sabem que estou disposto a recebê-los ou a ir lá, na China. Eles sabem disso.”

Pequim vale uma missa, sim.

21 setembro, 2016

Quando Bergoglio filo-islâmico atacava Ratzinger.

Por Fausto Carioti, Libero Quotidiano, 22 de agosto de 2014 | Tradução: FratresInUnum.com: Uma história de oito anos atrás, ocorrida em Buenos Aires, que ajuda a compreender a posição assumida pelo Papa Francisco sobre o Isis, o “Estado islâmico”, que iniciou uma caçada implacável aos cristãos. Evitando como sempre nomear o Islã e os fanáticos islâmicos, Jorge Mario Bergoglio pediu para “parar o agressor injusto”, mas não “com bombardeios” ou “fazendo a guerra”. Uma escolha que não parece deixar salvação para as vítimas e que é julgada como estéril por muitos: os crentes (incluindo, nestas colunas, Antonio Socci) e os não crentes (como no caso de Massimo Cacciari).

Na verdade, esta intervenção está perfeitamente em linha com as ideias que Bergoglio expressou por muitos anos: sempre pronto para o apaziguamento, para a acomodação aos que, já como papa, recentemente, chamou de “nossos irmãos muçulmanos”. O incidente mais clamoroso remonta precisamente a 2006, imediatamente após o discurso proferido por Joseph Ratzinger, no auditório da Universidade de Regensburg, em 12 de setembro. Naquela ocasião, o papa alemão havia citado uma frase do imperador bizantino Manuel II: “Mostre-me apenas o que Maomé trouxe de novo, e você encontrará somente coisas más e desumanas, como sua ordem de difundir pela espada a fé que ele pregava”. Palavras que, como então Ratzinger explicou, serviam para “evidenciar a relação essencial entre fé e razão”, e que não implicavam em uma idêntica condenação do Islã pelo papa. Mas essa sutileza acadêmica e teológica não foi bem acolhida pelo mundo islâmico, que se jogou em peso contra Ratzinger, o qual também foi ameaçado de morte.

Mas no ataque contra o pontífice estavam, sobretudo, as acusações que lhes lançaram alguns expoentes da Igreja. Entre estes, o então arcebispo de Buenos Aires. O futuro papa evitou falar em primeira pessoa. Quem interveio foi Padre Guillermo Marcó, porta-voz de Bergoglio. Em declarações à edição argentina da revista Newsweek, ele usou de tons duríssimos: ele disse que a declaração de Ratzinger tinha sido muito “infeliz”. E ainda: “As palavras do Papa não me representam, eu nunca teria feito essa citação”. Concluindo: “Se o Papa não reconhece os valores do Islã e tudo permanece assim, em vinte segundos teremos destruído tudo o que foi construído em vinte anos”.

Marcó era quem falava, mas todos sabiam que essas palavras representavam o pensamento do seu superior. Assim, enquanto o papa Bento XVI defendia seu caso perante o mundo islâmico, uma das vozes mais influentes da Igreja latino-americana, de fato, se posicionava do lado dos muçulmanos. Palavras “inéditas”, aquelas do porta-voz de Bergoglio, tanto que dentro dos muros leoninos “por um longo tempo não se falava de outra coisa”, disse um monsenhor ao Clarín, um dos principais jornais argentinos. Ao se ver diante do escândalo, o padre Marcó afirmou ter dito aquelas coisas não como secretário de imprensa de Bergoglio, mas como presidente do Instituto para o Diálogo Interreligoso, outra posição que ocupava. Uma justificativa nada convincente, tanto que partiu de Roma a pressão sobre o arcebispo para que ele o desmentisse. “Como é possível que seu porta-voz faça declarações semelhantes e Bergoglio não se sinta obrigado a negá-lo e removê-lo imediatamente?”, perguntou ao Clarín uma fonte do Vaticano. O padre, no entanto, permaneceu em seus postos. Foi substituído alguns meses mais tarde, quando quem pediu sua cabeça e por outras razões, foi o ministro do Interior da Argentina, obviamente considerado mais importante do que Bento XVI.

Enquanto isso, o Vaticano havia tirado um dos homens de Bergoglio, o jesuíta Joaquín Piña, do cargo de arcebispo de Puerto Iguazú: Piña tinha divulgado na imprensa opiniões semelhantes às de Marco. O jornal britânico The Telegraph, reconstruindo a história, diz que de Roma alertaram a Bergoglio que ele também seria removido se continuasse a deslegitimar Ratzinger. E Bergoglio reagiu cancelando a viagem que o levaria ao sínodo convocado pelo Papa. O assunto não terminou aí. No dia 22 de fevereiro de 2011, o Núncio Apostólico na Argentina, Dom Adriano Bernardini, lá mesmo em Buenos Aires, fez um sermão de fogo contra os inimigos de Ratzinger. O Santo Padre, disse ele, é vítima de  uma “perseguição”, foi “abandonado por aqueles que se opõem à verdade, mas acima de tudo por alguns sacerdotes e religiosos, não só pelos bispos”. Muitos dos que ele se referia estavam lá, na igreja, bem na frente dele. Bernardini, agora é núncio na Itália e não está listado entre as simpatias do Papa Bergoglio.

20 setembro, 2016

Secretário de Estado do Vaticano lembra mensagem de Fátima na missa dos representantes pontifícios.

Santuário de Fátima – O Secretário de Estado do Vaticano expressou esta quinta feira o desejo de ver o Papa Francisco nas celebrações do Centenário das Aparições em Fátima no próximo ano, sublinhando a importância e atualidade da Mensagem deixada por Nossa Senhora aos pastorinhos no contexto do mundo e da igreja atuais.

Na homilia que proferiu na Missa da Solenidade de Nossa Senhora das Dores, celebrada na Capela do Coro, na Basílica de São Pedro, no Vaticano, diante dos representantes diplomáticos do Papa nos cinco continentes, que se encontram em Roma para a celebração do seu jubileu, e publicada na edição impressa do jornal L´Osservatore Romano desta sexta feira, em que lembrou a importância da Cruz como ponto de partida para qualquer cristão,  D. Pietro Parolin destacou as “dores que o mundo atravessa” e que o transformaram “numa grande colina de Cruzes”, elogiando a importância da mensagem deixada por Nossa Senhora aos Pastorinhos para superar as dificuldades.

É um  “vínculo especial entre esta memória Mariana e o Papa, porque a devoção às dores de Maria, que é amplamente difundida entre o povo cristão, foi introduzida na Liturgia pelo Papa Pio VII” lembrou o responsável pela diplomacia do Vaticano.

“Mesmo nas aparições da Virgem Maria aos três pastorinhos em Fátima, cujo centenário será celebrado em 2017 – no qual esperamos vivamente que possamos contar com a presença do Papa  Francisco- há este vínculo estreito entre Maria, o Papa e o sofrimento. “

Dirigindo-se aos presentes, o cardeal disse: “certamente recordareis a imagem do bispo vestido de “branco”, que sobe a montanha rezando por todos os que sofrem, e que encontra”.

Essa imagem, explicou, “condensa e resume a disponibilidade para o martírio, que deve caracterizar a Igreja de todos os tempos, ontem, hoje e amanhã, começando a partir do primeiro martírio cristão do bispo de Roma”.

A oração, o sacrificio em reparação dos pecados e a conversão são aspetos centrais da Mensagem de Fátima, que o chefe da diplomacia da Santa Sé recordou estabelecendo um paralelo com os desafios que o mundo cristão enfrenta.

O secretário de Estado do Vaticano será o presidente da Peregrinação Internacional de outubro no Santuário de Fátima, que se realiza nos próximos dias 12 e 13 de outubro. Será a primeira vez que o cardeal virá à Cova da Iria.

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15 setembro, 2016

A verdadeira origem das divisões na Igreja.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 14-9-2016 | Tradução: FratresInUnum.comNa estratégia de comunicação da Santa Sé, fica-se com a impressão de que se misturam informações, desinformações, verdades, meias verdades e até mentiras. A história da Igreja é escrita por entrevistas, discursos improvisados, artigos em blogs paraoficiais, indiscrições midiáticas, deixando o campo aberto a todas as interpretações possíveis e dando origem à suspeita de que a confusão é planejada.

vaticano-420x278Dois exemplos recentes. O primeiro diz respeito à destituição, em 2012, do presidente do Istituto per le Opere di Religione-IOR [o “Banco do Vaticano”], Ettore Gotti Tedeschi. No derradeiro livro de Bento XVI, as Últimas conversas com Peter Seewald, o “Papa emérito” assume a responsabilidade pela remoção de Gotti Tedeschi, devido, segundo ele, à necessidade de “renovar os líderes” do Banco Vaticano. Mas o secretário  do Papa demissionário, Mons. Georg Gänswein, havia declarado anteriormente que o mesmo Bento XVI não havia tido conhecimento dessa destituição e “ficou surpreso, muito surpreso pelo ato de retirada da confiança ao professor”. Andrea Tornielli se referiu a isso em artigo de 22 de outubro de 2013, intitulado Bento XVI ficou muito surpreso com a demissão de Gotti Tedeschi. Em 9 de setembro de 2016, o mesmo vaticanista, sem reparar a contradição, apresenta a nova versão, com o título Ratzinger: foi minha a ideia de mudar os dirigentes do IOR em 2012. Qual é a verdade? Por certo alguém está mentindo e a confusão permanece.

Mais grave é o segundo caso. Em 5 de setembro, o site Infocatolica publicou uma carta enviada pelo Papa Francisco aos bispos da região pastoral de Buenos Aires, em resposta ao documento Criterios básicos para la aplicación del capítulo VIII de Amoris laetitia. Neste documento, que visa proporcionar ao clero portenho alguns critérios relativos ao oitavo capítulo da exortação, os bispos argentinos afirmam que, com base na Amoris laetitia, os divorciados recasados podem ter acesso à comunhão sacramental, mesmo quando convivem more uxorio, sem a intenção de praticar a castidade. O Papa Francisco manifestou o seu apreço por essa diretiva, escrevendo aos prelados que “o texto é muito bom e explica de modo excelente o capítulo VIII da Amoris laetitia. Não há outra interpretação. E estou certo de que fará muito bem”. Abriram-se de imediato as polêmicas e a carta pontifícia desapareceu misteriosamente do site. Tanto é assim que muitos duvidaram de sua existência, até que o Osservatore Romano confirmou a sua autenticidade.

“Não há outra interpretação”. A posição do Papa Francisco sobre os divorciados recasados, já expressa no voo de regresso da ilha de Lesbos, neste ponto parece definitivamente clara. Mas se esta é a sua opinião, por que não exprimi-la de forma clara e explícita, em vez de confiá-la a uma nota de rodapé na Amoris laetitia e a uma carta privada que não vai ser publicada? Será talvez porque da primeira forma a contradição com o Magistério perene da Igreja seria pública e formal, enquanto se quer chegar a mudar a doutrina da Igreja de modo ambíguo e sub-reptício?

A impressão é de que estamos diante de uma manipulação das informações, o que  produz no seio da Igreja precisamente aquelas tensões e divisões que o Papa lamentou no seu discurso em Santa Marta no  dia 12 de setembro: “Divisões ideológicas, teológicas, que laceram a Igreja . O diabo semeia ciúmes, ambições, ideias, mas para dividir (…). As divisões fazem com que se veja esta parte, essa outra parte contra esta e… Sempre contra! Não é o óleo da unidade, o bálsamo unidade”.

As divisões, no entanto, nascem da linguagem ambígua do demônio e são vencidas principalmente pela verdade, a verdade da fé e da moral, mas também pela retidão da linguagem e do comportamento, o que significa renúncia a toda mentira, falsificação ou reticência, seguindo o ensinamento do Evangelho: “ Seja a vossa palavra sim, sim; não, não; o que não for isso vem do Maligno” (Mt 5, 37).

12 setembro, 2016

Surge carta do Papa dando a impressão de apoiar a Comunhão para divorciados recasados.

Por Steve Skojec, OnePeterFive, 9 de setembro de 2016 |  Tradução: FratresInUnum.comO site católico de língua espanhola InfoCatólica – que está sediado na Espanha, mas que também cobre assuntos da América Latina – publicou um documento dos bispos argentinos em resposta a Amoris Laetitia. Eles também publicaram uma carta correspondente atribuída ao Papa Francisco, na qual ele elogia o trabalho deles, dizendo (de acordo com a tradução levemente corrigida com a qual estamos trabalhando) que “a carta é muito boa e expressa plenamente o sentido do Capítulo VIII de Amoris Laetitia. Não há outras interpretações”.

E, ainda , os nºs 5 e 6 do documento dos bispos faz uma afirmação sobre a possibilidade de confissão e comunhão para os divorciados novamente casados que não estão vivendo em continência,  que é muito mais concreta do que o que é encontrado na própria exortação apostólica. Confira as seções em negrito (ênfase minha) abaixo:

1) Em primeiro lugar, recordamos que não convém falar em “permissão” para aceder aos sacramentos, mas sim um processo de discernimento acompanhado por um pastor. É um discernimento “pessoal e pastoral” (300).

2) Neste caminho, o pastor deveria enfatizar o anúncio fundamental, o kerygma, que estimule ou renove o encontro pessoal com Jesus Cristo vivo (cf. 58).

3) O acompanhamento pastoral é um exercício da “via caritatis”. É um convite a seguir “o caminho de Jesus, da misericórdia e de integração” (296). Este itinerário apela para a caridade pastoral do sacerdote que acolhe o penitente, ouve-o com atenção e mostra o rosto materno da Igreja, uma vez que aceita a sua boa intenção e seu bom propósito de colocar a vida inteira à luz do Evangelho e de praticar a caridade (cf. 306).

4) Este caminho, não termina necessariamente nos sacramentos, mas pode orientar-se para outros modos de se integrar mais na vida da Igreja: uma maior presença na comunidade, a participação em grupos de oração ou reflexão, o compromisso em diversos serviços eclesiais , etc. (Cf. 299).

5) Quando as circunstâncias específicas de um casal tornam isso possível, especialmente quando ambos são cristãos com uma jornada de fé, se pode propor o compromisso de viver em continência. Amoris Laetitia não ignora as dificuldades desta opção (ver nota 329) e deixa em aberto a possibilidade de acesso ao Sacramento da Reconciliação quando eles falharem nesse propósito (ver nota 364, de acordo com o ensinamento de João Paulo 11 ao Cardeal W . Baum, de 22/03/1996).
6) Em outras circunstâncias mais complexas, e quando eles não puderem obter uma declaração de nulidade, a opção acima mencionada pode não ser viável de fato. No entanto, é também possível um caminho de discernimento. Se vier a reconhecer que, num caso particular, há limitações que diminuem a responsabilidade e culpa (cf. 301-302), particularmente quando uma pessoa considerar que cairia em uma falta subsequente prejudicial aos filhos da nova união, Amoris Laetitia abre a possibilidade de acesso aos sacramentos da Reconciliação e da Eucaristia (cf. notas 336 e 351). Estes, por sua vez, dispoem a pessoa a continuar a amadurecer e crescer com o poder da graça.

O texto completo [tradução de nossa valorosa Gercione Lima] do original em espanhol pode ser visto abaixo:

Critérios de base para a aplicação do capítulo VIII da Amoris Laetitia
Região Pastoral Buenos Aires 

Estimados sacerdotes:

Recebemos com alegria a exortação Amoris Laetitia, que nos chama acima de tudo a fazer crescer o amor dos esposos e a motivar os jovens a optar pelo casamento e a família. Esses são os grandes temas que nunca deveriam ser esquecidos ou ofuscados por outras questões. Francisco abriu várias portas na pastoral familiar e nós somos chamados a aproveitar este tempo de misericórdia, para assumir como Igreja.

Agora vamos nos deter somente no capítulo VIII, uma vez que se refere a “orientação do Bispo” (300), a fim de discernir sobre o possível acesso aos sacramentos por alguns “divorciados numa nova união”. Acreditamos ser conveniente, como bispos de uma mesma região pastoral, concordarmos em alguns critérios mínimos. Assim oferecemos, sem prejuízo para a autoridade que cada Bispo tem sobre sua própria diocese para esclarecê-los, complementá-los ou limitá-los.

1) Em primeiro lugar recordamos que não convém falar em “permissão” para aceder aos sacramentos, mas sim um processo de discernimento acompanhado por um pastor. É um discernimento “pessoal e pastoral” (300).

2) Neste caminho, o pastor deveria enfatizar o anúncio fundamental, o kerygma, que estimule ou renove o encontro pessoal com Jesus Cristo vivo (cf. 58).

3) O acompanhamento pastoral é um exercício da ‘via caritatis “. É um convite a seguir “o caminho de Jesus , o da misericórdia e de integração” (296). Este itinerário apela para a caridade pastoral do sacerdote que acolhe o penitente, o ouve com atenção e mostra o rosto materno da Igreja, uma vez que aceita a sua boa intenção e seu bom propósito de colocar a vida inteira à luz do Evangelho e de praticar a caridade (cf. 306).

4) Este caminho, não termina necessariamente nos sacramentos, mas pode orientar-se para outros modos de se integrar mais na vida da Igreja: uma maior presença na comunidade, a participação em grupos de oração ou reflexão, o compromisso em diversos serviços eclesiais , etc. (Cf. 299).

5) Quando as circunstâncias específicas de um casal tornam isso possível, especialmente quando ambos são cristãos com uma jornada de fé, se pode propor o compromisso de viver em continência. Amoris Laetitia não ignora as dificuldades desta opção (ver nota 329) e deixa em aberto a possibilidade de acesso ao Sacramento da Reconciliação quando eles falharem nesse propósito (ver nota 364, de acordo com o ensinamento de João Paulo 11 ao Cardeal W . Baum, de 22/03/1996).

6) Em outras circunstâncias mais complexas, e quando eles não puderem obter uma declaração de nulidade, a opção acima mencionada pode não ser viável de fato. No entanto, é também possível um caminho de discernimento. Se vier a reconhecer que, num caso particular, há limitações que diminuem a responsabilidade e culpa (cf. 301-302), particularmente quando uma pessoa considerar que cairia em uma falta subsequente prejudicial aos filhos da nova união, Amoris Laetitia abre a possibilidade de acesso aos sacramentos da Reconciliação e da Eucaristia (cf. notas 336 e 351). Estes, por sua vez, dispoem a pessoa a continuar a amadurecer e crescer com o poder da graça.

7) Todavia há que se evitar entender esta possibilidade, como sendo um acesso irrestrito aos sacramentos, ou como se qualquer situação pudesse ser justificada. O que se propõe é um discernimento que distinga adequadamente cada caso. Por exemplo, um cuidado especial exige-se para  “uma nova união que vem de um recente divórcio” ou “a situação de alguém que tenha falhado repetidamente em seus compromissos familiares” (298). Além disso, quando há uma espécie de apologia ou ostentação da própria situação”, como se ela fosse parte do ideal cristão” (297). Nestes casos mais difíceis, os pastores devem acompanhar pacientemente à procura de um caminho de integração (cf. 297, 299).

8) É sempre importante orientar as pessoas a colocar a sua consciência diante de Deus, e para isso é útil o “exame de consciência”, proposto em Amoris Laetitia 300, especialmente no que diz respeito a “como eles têm se comportado com seus filhos” ou com relação ao cônjuge abandonado. Quando houver injustiças não resolvidas, o acesso aos sacramentos é particularmente escandaloso.

9) Pode ser conveniente que um eventual acesso aos sacramentos se realize de forma reservada, especialmente quando situações de conflito estão previstas. Mas ao mesmo tempo não há que deixar de acompanhar a comunidade para que cresça num espírito de compreensão e acolhida, sem que isso implique em criar confusão no ensinamento da Igreja sobre o matrimónio indissolúvel. A comunidade é um instrumento da misericórdia que é “imerecida, incondicional e gratuita” (297).

10) O discernimento não se fecha, porque “é dinâmico e deve permanecer sempre aberto a novas etapas de crescimento e novas decisões que permitam realizar o ideal de maneira mais plena ” (303), segundo a “lei da gradualidade” (295) e contando com a ajuda da graça.

Somos antes de tudo pastores. Por isso, queremos acolher estas palavras do Papa: “Convido os pastores a escutar com carinho e serenidade, com o sincero desejo de entrar no coração do drama das pessoas e compreender seu ponto de vista, para ajudá-los a viver melhor e reconhecer o seu próprio lugar na Igreja “(312).

Com afeto em Cristo.

Bispos da Região

05 de setembro de 2016
* * *

O texto completo da carta original Papa Francisco em espanhol – escrito em resposta a este documento – pode ser visto a seguir:

Carta do Papa Francisco em apoio aos critérios de aplicação do capítulo VIII da “Amoris Laetitia”

CIDADE DO VATICANO, 05 de setembro de 2016
Mons. Sergio Alfredo Fenoy
Delegado da Região Pastoral Buenos Aires
Querido irmão:

Eu recebi a carta da Região Pastoral Buenos Aires “critérios básicos para a aplicação do capítulo VIII da Amoris Laetitia”. Muito obrigado por tê-la me enviado e felicito-os pelo trabalho que executaram: um verdadeiro exemplo de acompanhamento para os sacerdotes … e todos nós sabemos como é necessário essa proximidade do bispo com o clero e do clero com o bispo. O próximo “mais próximo” do bispo é o sacerdote e o mandamento de amar o próximo como a si mesmo começa para nós bispos,  precisamente com os nossos sacerdotes.

A carta é muito boa e expressa plenamente o sentido do Capítulo VIII da Amoris Laetitia. Não há outras interpretações. E eu tenho certeza de que fará muito bem. Que o Senhor os recompense por esse esforço de caridade pastoral.

E é precisamente a caridade pastoral que nos move a sair ao encontro dos alijados e uma vez encontrados, iniciar um caminho de acolhida, acompanhamento, discernimento e integração na comunidade eclesial. Sabemos que isso é trabalhoso, se trata de uma pastoral “corpo a corpo” que não se satisfaz com mediações programadas, organizacionais ou legalistas, mas necessária. Simplesmente acolher, acompanhar, discernir, integrar. Destas quatro atitudes pastorais, a menos cultivada e praticada é o discernimento; e eu considero urgente a formação no discernimento, pessoal e comunitário, em nossos seminários e presbitérios.

Finalmente, gostaria de lembrar que Amoris Laetitia foi o fruto do trabalho e da oração de toda a Igreja, com a mediação de dois Sínodos e do Papa. Portanto, eu lhes recomendo uma catequese completa da Exortação que certamente vai ajudar no crescimento, consolidação e santidade da família.

Mais uma vez agradeço-lhe pelo trabalho realizado e incentivo-os a seguir em frente nas diversas comunidades da diocese, com o estudo e a catequese da Amoris Laetitia.

Por favor, não se esqueçam de rezar e rezar por mim.

Que Jesus os abençoe e a Virgem os cuide.

Fraternalmente

Francisco

O que nós não sabemos com certeza é se o Papa Francisco, de fato, escreveu e assinou esta carta. Ela está sendo atribuída a ele sem uma cópia fotografada do original. É improvável, todavia, que seja falsa, pois tem um estilo que parece ser autêntico, e este será o ponto de discórdia que será levantado por aqueles que preferem não acreditar que um Papa poderia endossar e promover sacrilégio.

Nós também carecemos de uma tradução dos originais em espanhol. [a tradução acima é exclusiva para o português, fornecida pela nossa colaboradora Gercione] (Um comentário francês sobre isso também surgiu, para aqueles que podem lê-lo.) É improvável que quando obtivermos um original isso vá mudar alguma coisa, mas muitas vezes há nuances sutis e expressões idiomáticas que podem de alguma forma alterar o significado. O veredito final terá que esperar até que possamos identificar um tradutor que decifre o texto. (Infelizmente, os nossos recursos são limitados a este respeito.)

No entanto, enquanto aguardamos a confirmação final, isso parece ser exatamente o que se parece: uma confirmação direta e afirmativa do próprio papa de que ele pretende permitir que aqueles que vivem em pecado grave e objetivo possam receber os sacramentos da confissão e comunhão sem o arrependimento necessário e mudança de vida. Isso é um sacrilégio. Tomado como uma contradição dos Evangelhos, tal afirmação poderia sem dúvida ser considerada herética.

Este é um assunto muito a sério e pesado, pois se afasta do terreno da ambiguidade para o endosso, conectando Francisco ainda mais estreitamente com as censuras teológicas contra a Amoris Laetitia, às quais ele tem o dever moral de responder.

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5 setembro, 2016

Primeira Missa Solene no Mosteiro de São Bento: Cônego Heitor Matheus, Instituto Cristo Rei – 11/09/2016.

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Primeira Missa Solene 

do Rev. Cônego Heitor Matheus

do Instituto de Cristo Rei Sumo Sacerdote

Domingo, dia 11 de setembro, às 18h.

No Mosteiro de São Bento – São Paulo, SP.

Uma indulgência plenária será concedida aos fieis que assistirão piedosamente ao Santo Sacrifício, segundo as condições usuais (Confissão sacramental, Comunhão Eucarística e Oração nas intenções do Sumo Pontífice)
1 setembro, 2016

Biquíni ou Burquini? Uma tragicomédia digna de Voltaire.

Por Cristina Siccardi | Corrispondenza Romana, 24 de agosto de 2016 | Tradução: FratresInUnum.com –  No Tratado sobre a Tolerância, uma das mais famosas obras de Voltaire, publicada na França em 1763, encontramos não só os fundamentos da inconclusiva e luciferina incultura contemporânea, mas, infelizmente, também os pressupostos que permitiram que muitos homens da Igreja e muitos padres do Concílio Vaticano II abraçassem, a despeito de uma divina e sábia tradição bimilenar, a liberdade religiosa como um bem universal.

Hoje chegamos a tal ponto que, diante de uma Igreja que não diz uma palavra sobre os ostensivos e indescritíveis maus hábitos contemporâneos, vemos o primeiro-ministro francês Manuel Valls sair em defesa da proibição lançada por algumas prefeituras francesas  contra o uso de burquinis, uma roupa de banho criada em 2004 com enorme sucesso comercial entre os muçulmanos ao redor do mundo, por uma estilista australiana de origem libanesa, Aheda Zanetti. Valls declarou que o pudico burquini é “incompatível com os valores da França” e que não é uma roupa de banho, mas “a expressão de uma ideologia que se fundamenta na submissão da mulher”. O biquíni ou outras formas de ofensa indecente ao pudor, no entanto, são parte integrante dos “valores” da França, que faz da liberdade religiosa uma de suas jóias mais gloriosas. E eis que só entre 2000-2013 foram destruídas 20 igrejas na França e, de acordo com um relatório do Senado francês, outras 250 terão o mesmo destino. Silêncio total da parte de Roma.

Assim, impotentes, tivemos que assistir à polícia de Paris com sua tropa de choque, arrastando à força sacerdotes e coroinhas para evacuá-los da Igreja de Santa Rita que, em breve, será demolida para dar lugar a um estacionamento, enquanto as mesquitas legais e ilegais crescem como cogumelos por toda a Europa, essa mesma Europa com cada vez menos filhos por causa de uma taxa de natalidade buscada por uma ideologia que destrói famílias e que favorece o aborto. No entanto, o liberalismo não denominacional começa a pagar um preço por sua irracionalidade porque a revolução devora os seus próprios filhos, abrindo espaço para aqueles que não abrem mão de sua identidade, como é o caso dos muçulmanos.

Valls e, com ele, os políticos e homens da Igreja não nos fazem lembrar a oração a Deus, feita pelo “bonzinho” Voltaire  exatamente no seu Tratado sobre a Tolerância? Entre aqueles desabafos nefastos, portadores de inúmeras desgraças e catástrofes, dizia o guru dos jacobinos guilhotinadores:

 “Já não é, portanto aos homens que me dirijo; mas a Vós, Deus de todos os seres, de todos os mundos, de todos os tempos (…) Dignai-vos olhar com misericórdia os erros que derivam da nossa natureza. Fazei com que esses erros não gerem a nossa desgraça. Vós não nos doastes um coração para que nos odiássemos uns aos outros, nem as mãos para que degolássemos uns aos outros; fazei com que possamos ajudar-nos uns aos outros a suportar o fardo de uma vida penosa e passageira. Fazei com que as pequenas diferenças entre as roupas que cobrem nossos corpos fracos, incluindo aí todas as nossas linguagens inadequadas, todos os nossos costumes ridículos, todas as nossas leis imperfeitas, todas nossas opiniões insensatas sobre as nossas convicções, tão desiguais aos nossos olhos, e tão iguais diante de vós, em suma, que todas essas pequenas nuances que distinguem os átomos chamados “homens” não se tornem sinais de ódio e perseguição. Fazei com que aqueles que acendem velas em pleno dia para vos celebrar suportem aqueles que se contentam apenas com a luz do teu sol; que aqueles que cobrem suas roupas com um linho branco para dizer que devemos vos amar não detestem aqueles que dizem a mesma coisa sob um manto de lã negra; que seja igual adorar-vos em uma língua morta ou em uma mais nova (…) Que todos os homens lembrem-se que são irmãos! Temos horror à tirania exercida sobre as almas (…) Se são inevitáveis os flagelos da guerra,  que não nos odiemos ou nos dilaceremos em tempo de paz, e que empenhemos o breve instante de nossa existência para abençoar juntos em mil línguas diferentes, de Sião à Califórnia, a vossa bondade que nos deu este instante”.

Enquanto o “deus” de Voltaire nos conduziu às desgraças atuais de corrupção civil e religiosa, o verdadeiro Deus Uno e Trino sacrificou Seu único Filho para a salvação de cada um de nós. Tem toda a razão Sergio Romano, no prefácio ao Tratado sobre a Tolerância (RCS 2010), quando ele o denomina um “jornalista”. Um jornalista que, com suas paixões intelectuais, sua grande cultura, sua maneira inteligente de narrar, seu estilo irônico e brilhante, sua curiosidade sobre os acontecimentos de seu tempo, foi diabolicamente capaz de mudar o rumo do pensamento europeu com suas picaretagens e descristianizar, depois de algumas gerações, as nações onde ainda se despontavam abadias, catedrais, igrejas de extraordinário poder e beleza interior e exterior.

Antes, Lutero, no século XVI, e depois Voltaire, no século XVII,  ambos trabalharam juntos com as forças do mal para combater a Igreja Romana, Una, Santa, Católica e Apostólica. Se desde o início as teses voltairianas resultaram vitoriosas porque havia um inimigo a ser abatido, já no século XX os seus resultados, na prática, começam a se fragmentar, a deteriorar-se dentro de uma multiplicidade de contradições, distribuídas em um enorme labirinto de paredes tragicômicas: biquínis e/ou burquinis? Sacerdotes e/ou imãs nas igrejas? Paternidade ou não a casais homossexuais?… Perguntas que denotam a monstruosidade fora de sua mente desprovida de consciência.

As ambições modernas da Dignitatis Humanae, um documento conciliar teologicamente tão discutido como independente quanto destacado dos parâmetros da verdadeira e pacífica tolerância Católica, oferecem agora um fruto amargo que pode ser ativamente explorado pelos prolíficos invasores muçulmanos.

A tragicomédia é bem conveniente à nossa era, aquela mesma que o mestre barroco do gênero, Pierre Corneille, ilustrou da seguinte forma: “Eis aí um monstro estranho (…) O primeiro ato é apenas um prólogo, os três seguintes são uma comédia imperfeita , o último é uma tragédia, e tudo isto costurado junto é uma comédia. O Reino de Deus é outra coisa, uma apoteose de grandeza e harmonia, de bem-aventurança na terra (como demonstraram os santos) e bem-aventurança na eternidade: aqui fé e razão não ofuscam a mente e a alma paira no céu sereno sulcado pela Verdade trazida pelo Filho de Deus. Nada a ver com os abismos profundos lavrados pelo “jornalista” Voltaire, que se contentava apenas com “este momento presente.”

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30 agosto, 2016

Os fiéis pedem ao Papa clareza contra os ataques do mal.

Por Roberto de Mattei, Il Tempo, Roma,  14-08-16 | Tradução: FratresInUnum.comNo mês de agosto, a Casa Santa Marta, no Vaticano, esvazia-se de seus hóspedes, mas o Papa Francisco,  como nos três anos precedentes,  passará  todo o mês no Vaticano. Ele anunciou que renunciará até mesmo a um tradicional compromisso pontifício – o Congresso Eucarístico Nacional,  que se realizará este ano em Gênova de 15 a 18 de agosto –, mas que no dia 19 viajará a Assis para celebrar o trigésimo aniversário do encontro entre as religiões, organizado pela Comunidade Santo Egídio.

A comunicação não partiu da Sala de Imprensa do Vaticano, mas do imã de Perúgia, Abdel Qader Moh’d, em entrevista à TV 2000. O Papa Bergoglio se encontrará depois, de 30 setembro a 2 de outubro, com ortodoxos e muçulmanos na Geórgia e no Azerbaijão, e no dia 31 de outubro em Lund, na Suécia, com luteranos para comemorar o quinto centenário da Reforma protestante. Iniciativas ecumênicas constituem a bússola do seu pontificado, que parece propor-se o objetivo de construir uma plataforma comum entre as religiões, com o risco, advertido por muitos, de esvaziar o catolicismo e incentivar a criação de uma “superreligião” sincretista.

O almoço de 11 de agosto com 21 refugiados sírios chegados à Itália após a visita papal à ilha de Lesbos, dos quais apenas dois eram cristãos, se insere nessa perspectiva da “opção preferencial” pelos não-católicos. Esta estratégia exige a negação da existência de guerras de religião. No entanto, a Igreja sofre perseguições em todo o mundo. Dom Dominique Lebrun, Arcebispo de Rouen, manifestou a intenção de iniciar um processo de beatificação que leve ao reconhecimento do martírio do Padre Jacques Hamel, morto “por ódio à fé”, como muitos cristãos do nosso tempo.

Virá de Roma uma palavra de aprovação? Virá um aceno de apoio aos três bispos espanhóis processados criminalmente por criticarem a lei que promove a transexualidade, aprovada há pouco em Madrid? O Observatório espanhol contra a LGBTfobia denunciou ao Ministério Público o Bispo de Getafe, Dom Joaquín María López de Andújar,  seu auxiliar, Dom José Rico Pavés, e o titular da Diocese de Alcalà, Dom  Antonio Reig Plá, por “incitamento ao ódio e discriminação contra a comunidade homossexual”.

Mas o mal não tem limite. Autorizado pelas autoridades locais, um grupo satanista americano organizou uma missa negra pública, no Centro Cívico de Oklahoma City, em 15 de agosto. O arcebispo da cidade, Dom Paul Coakley, exortou os fiéis a pedir a intercessão de São Miguel Arcanjo, da Virgem Maria e de todos os anjos e santos, “para que o Senhor cuide de nossa comunidade e nos proteja do mal e de suas muitas manifestações destrutivas e violentas”.

Hoje, no entanto, não é apenas uma diocese americana que sofre os ataques do mal, mas toda a Igreja. Os fiéis se voltam desorientados para o Vigário de Cristo, rogando-Lhe demonstrar sua paternidade não apenas em relação aos distantes, mas também aos próximos, necessitados mais do que nunca de clareza e encorajamento neste momento histórico tempestuoso.

30 agosto, 2016

São Paulo: Terço na Praça da Sé, sábado, 3 de setembro, às 15 horas.

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