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20 fevereiro, 2019

A nova religião ecologista de Dom Cláudio Hummes. Aos generais: “ninguém tem medo de cara feia”.

Por FratresInUnum.com, 19 de fevereiro de 2019 – Planeta! Planeta! Planeta! Esta foi a palavra mais repedida por Dom Cláudio Hummes em sua aula inaugural na Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção, da PUCSP, com a presença do grão-chanceler, o cardeal Dom Odilo Scherer. E nós estávamos lá!

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Duas vezes emérito, como arcebispo de São Paulo e Prefeito da Congregação para o Clero, o cardeal Hummes fez uma conferência sobre o Sínodo da Amazônia, a qual dividiu em duas partes: na primeira, fez um histórico; na segunda, uma contextualização teórica.

Em seguida, apresentamos as nossas notas taquigrafadas da palestra do cardeal.

Histórico do Sínodo da Amazônia

Dom Cláudio começou dizendo que, após tornar-se emérito, não sabia bem o que ia fazer, quando a CNBB o encarregou de acompanhar o trabalho na Amazônia. Em 2014, fundou-se a REPAM – Rede Pan-Amazônica –, da qual ele é presidente, e que articula o trabalho pastoral da Igreja na Amazônia, envolvendo os nove países que a compõem.

“Neste meio tempo houve a mudança dos papas: Bento XVI renunciou, pelos motivos que vocês conhecem, e foi eleito um papa argentino, que tomou o nome de Francisco”. Para Dom Claudio, isso significa que a Igreja se tornou “mais universal e menos europeia”.

Em sua viagem ao Brasil, em 2013, Francisco fez um discurso aos bispos em que mencionou, ao final, o problema da Amazônia, pois teria ficado impressionado com a insistência dos bispos brasileiros acerca do tema na Conferência de Aparecida – este teria sido o despertar do Pontífice.

Neste discurso, Francisco teria afirmado que a “Amazônia é um texto definitivo para a Igreja do Brasil” e animou os episcopados a não ter medo, a criar um clero autóctone, a avançar, a ser corajosos, a fazer propostas ousadas… “A Igreja não pode errar na Amazônia”. Por causa deste impulso do Papa, fundou-se a REPAM, para criar um “Plano Pastoral de Conjunto” para a Amazônia.

Foi neste época que o Papa lhe teria dito: “Dom Claudio, vamos rezar juntos, pois nós precisamos reunir os bispos, ainda não sei de que forma… Podia até ser, talvez, um sínodo”. Ele conversou com outros bispos para fazer o discernimento. “O Papa é jesuíta e precisa fazer discernimento, precisa de tempo”.

Em 2017, “eu estava com um problema no pulmão muito sério” (ele se refere ao câncer que apareceu neste período), “eu estava um trapo”. Mas, como era a canonização dos mártires do Rio Grande do Norte, “eu fui lá”. Na noite anterior, o Papa me disse: “amanhã eu vou anunciar o sínodo”. “Essa foi uma história que avançou muito rápida”.

Logo, o Papa anunciou o objetivo do Sínodo: “encontrar novos caminhos”. “Ele sempre dizia: ‘nós precisamos do novo’, ‘não tenham medo do novo’, precisamos sair da acomodação’”.

“O novo sempre traz resistências. Este papa também tem resistências – às vezes sem muito sentido, sem cabimento, mas, em todo caso… ‘Não tenham medo do novo’, o novo para a Igreja e para os povos indígenas, que não têm um futuro sereno, são os mais abandonados, os mais esquecidos, os mais atropelados. E, ao mesmo tempo, a questão da ‘Casa Comum’, da Ecologia”. O Papa encarregou a REPAM para ajudar a secretaria geral do sínodo a prepará-lo.

Logo em seguida, Francisco decidiu ir a Porto Maldonado, onde entrou em contato com os povos indígenas para escutá-lo. Este teria sido o objetivo principal da viagem apostólica. “Foi algo histórico, empolgante e comovente como o Papa realizou o encontro com os povos indígenas”, aos quais disse: “vocês são interlocutores insubstituíveis e a Igreja está aqui para defendê-los, a fim de que vocês sejam os protagonistas da própria história”.

Naquela ocasião, eles tiveram uma reunião de cinco horas de reunião com os índios. No dia seguinte, aconteceu a reunião com o papa, que se sentou no meio dos anciãos indígenas, os seus “sábios”. “Nós estávamos atrás e os índios estavam na frente, junto com o papa, com as suas roupas, alguns meio sem roupas”. O Papa disse: “Eu vim aqui escutar vocês”.

Segundo Dom Cláudio, o Papa “mexeu” com a metodologia da Igreja Brasileira, “ver, julgar e agir”. “Ver é escutar, não fazer a nossa análise”. O papa disse: “Hoje aqui está começando o sínodo, vocês são os principais”.

Logo no dia seguinte, houve a reunião dos bispos representantes dos nove países com o cardeal Baldisseri, que veio ao encontro do REPAM para criar o conselho pré-sinodal.

Com as palavras do papa – “hoje aqui está começando o sínodo” –, ele cria uma nova concepção do sínodo: “o sínodo é todo o processo”. “Nós realizamos mais de 20 assembleias pré-sinodais”. A secretaria do sínodo pediu que houvesse duas fontes de trabalho: “uma, a que os bispos recolhem na sua diocese, outra a que é recolhida pelo REPAM”.

O sínodo trouxe uma empolgação muito grande “e até a preocupação de alguns generais por aí… Mas nós continuamos o nosso trabalho normalmente. Ninguém tem medo de cara feia… No final, tudo vai se resolver no diálogo e na paz”.

“Estamos terminando neste momento as sínteses que vão a Roma no final de fevereiro”.

Contexto do sínodo da Amazônia

“Nós sabemos que o mundo hoje está consciente e enfrenta uma grande crise ecológica e climática”. “É urgente, pois não há muito tempo, mas há tempo ainda”.

Na COP21 de Paris chegou-se à conclusão de que seria necessário reverter a crise climática e cuidar do planeta. Dom Claudio ressaltou duas falas conclusivas desta Conferência da ONU: “plus tard, trop tard”, “muito tarde, tarde demais” e “aqui, na COP21, nós não salvamos o planeta, mas salvamos a possibilidade de salvar o planeta”.

“Quase todos os países assinaram o acordo, os Estados Unidos também, o Brasil também, mesmo com todos os problemas que hoje temos com os Estados Unidos… Espero que, com o Brasil, não”. “É nesse contexto que está este Sínodo. Eclesialmente, é o contexto da Laudato sì”.

“É missão da Igreja cuidar do planeta. É uma missão que Deus entregou a nós. Nós o fazemos por causa de Jesus Cristo. Nós não podemos não cuidar do planeta”.

“A partir daí, é preciso reescrever a nossa teologia da criação. A teologia que nós aprendemos precisa ser reescrita a partir dessa nova posição da Igreja: nós temos que cuidar do planeta! Vocês, que são jovens, precisam fazer isso. A própria cristologia precisa ser reescrita”.

“Este sínodo não terá apenas significado para a pan-Amazônia, mas terá um significado para o mundo”.

“É muito difícil haver outro sínodo da Amazônia. Este é o momento histórico da Amazônia, não se pode oscilar, não se pode perder este momento, que é um kairós”.

Depois, Dom Claudio começou a falar sobre o CO2 e o efeito estufa. “O calor entra, mas não sai. O gás carbônico faz isso: uma espécie da capa ao redor do planeta; o calor não consegue sair”. É preciso acabar com o Petróleo! Mas, pergunta-se o cardeal, como mudar as fontes de energia? Há países que não têm condições!

É preciso, também, continuou, mudar o paradigma tecnocrático: “a filosofia moderna fez uma revolução copernicana: pôs o sujeito no centro. Veio o antropocentrismo, o subjetivismo, o individualismo…” Ao mesmo tempo, veio a descoberta das ciências exatas, que trouxeram tecnologia avançada. “Isso criou a ideia de que nós, os pequenos, somos os donos de tudo que está fora”. “Com a ciência, a tecnologia, começou-se a explorar o planeta. Daí vem a ideia de um progresso indefinido, como se o planeta tivesse recursos inesgotáveis”. Isso está por trás da grande crise!

“Outro tema é a ecologia integral”. “Ecologia integral é como a Igreja entende, mas não só como a Igreja entende, pois a ecologia integral é algo que vai além da fé. Mas, o que é esta ecologia integral? No fundo é o seguinte: tudo está interligado no planeta: nós, o planeta e, por fim, o próprio Deus com o planeta”. “Nós não somos seres que foram gerados fora e fomos colocados neste planeta. Nós somos filhos deste planeta, nós somos frutos deste planeta. E muitas vezes nós entendemos que o planeta é uma coisa e nós temos outro destino. Nós fomos feitos dentro de todo o processo de desenvolvimento deste planeta. Tudo foi criado por Deus. Que nós cuidemos da nossa Mãe Terra. Este é um conceito fundamental”.

“E Deus, se encarnando em Jesus de Nazaré, Ele faz a definitiva ligação dele com este planeta, com todo este sistema. Deus também se interligou definitivamente em Jesus Cristo. E Jesus Cristo ressuscitado é o ponto culminante de toda esta caminhada do planeta. Esta é a ideia sintética de toda esta ecologia integral”.

Então, Dom Claudio citou um cântico que “agora todos cantam”. Segue o verso:

“Tudo está interligado,
como se fôssemos um!
Tudo está interligado
nesta ‘Casa Comum’”.

“Por isso, eu dizia que é necessário reescrever todas essas coisas”. “Isso já está em São Paulo, quando ele diz que Jesus Cristo é cabeça de toda a criação. Isso já estava em Teillard Chardin, quando ele aplicou isso à teoria da evolução. Mas ficou à margem, porque a teologia escolástica clássica não tinha muito clara essa ideia”.

“É preciso a gente estar atento, para estar atualizado. A moral, nos tempos que eu estudei, tinha páginas e páginas sem fim sobre o sexto e o nono (mandamentos), mas sobre a questão do dinheiro, nada ou praticamente nada. Esses dias, ouvindo uma pregação do papa, me caiu uma ficha. ‘Não se pode servir a Deus e ao dinheiro’. O grande obstáculo para o Reino de Deus é o dinheiro: a corrupção, a roubalheira, toda a violência se faz por causa do dinheiro. É o dinheiro que impede, mas os livros de moral falam pouco. É preciso reescrever essas coisas. Estão acontecendo coisas novas, que não são novas porque são velhas, porque estão no Evangelho”.

“Precisamos encontrar novas formas de desenvolvimento que não sejam colonialistas. A Igreja também tem formas colonialistas quando evangeliza. Precisamos nos purificar de todo colonialismo. Colonialismo significa: ‘eu tenho a minha forma de desenvolvimento’, eles trazem de fora e simplesmente começam a atividade predatória”.

“Não podemos derrubar a floresta, pois, sem ela, os rios e as águas vão embora: os rios aéreos, terrestres e subterrâneos”. “Precisamos procurar novos modelos que não derrubem a floresta”.

“O Sínodo tem que estimular a busca de novos modelos. O sínodo não é competente pra isso, mas pode estimular”.

“Vocês sabem que o papa quer uma Igreja missionária, em saída. Uma Igreja misericordiosa, que não aposta na lei, nas instituições, na disciplina, na cobrança, mas aposta na caridade, na misericórdia. Uma Igreja missionária. A Igreja na Amazônia também sobre dos mesmos males que nós, por aí: sofremos com a nossa Igreja, que aposta muito na lei, na disciplina, na cobrança, nas instituições, nas estruturas, e isso não salva, a lei não salva. A única coisa que salva é a caridade, a misericórdia. É claro que a lei ajuda a colocar as coisas em ordem, mas apenas quando nos ajuda a ser misericordiosos e caritativos. O papa diz que a gora a lei está atrapalhando a Igreja de ser mais misericordiosa e em saída. Então, isso tem que ser mudado”.

“Deus se aproxima de nós com respeito e amor. Deus não manda males, ele nos ajuda a sair dos males. Essa ideia de que Deus me mandou um câncer, que meu filhou morreu porque Deus mandou… Não! Deus não manda males, não! Os males têm outra origem. Deus nos ajuda a sair dos males”.

“Temos que ser uma Igreja profética, que denuncia os males, que não têm medo de cara feia”. “Não ter medo de cara feia não significa que você tem que brigar, é você não ter medo, é se por à disposição pra dialogar… pra resolver as coisas pelo diálogo, não é pelo enfrentamento. Você tem que encontrar as pessoas, se elas têm outras ideias ou talvez elas sejam violentas… Essa ameaçazinha sobre a preparação do sínodo, que veio do governo, digo: ‘o povo tem liberdade democrática de falar, e sem se sentir ameaçado’. Isso é democraria, isso é direito. Pode até falar errado, mas não pode se sentir ameaçado. Isso não podemos aceitar”.

“O papa diz que os povos originários da panamazônia são os mais empobrecidos, os mais abandonados, os mais ameaçados. Eles são os pobres com os quais a Igreja deve caminhar e encorajar”.

“A Igreja sempre cuida da ‘Casa Comum’. Ela deve se envolver com isso. A Igreja, por missão, deve cuidar da ‘Casa Comum’, da criação, cuidar dela como um jardim”.

“Enfim, o assunto da Igreja inculturada. O papa é provocativo. Ele mexe conosco. A Igreja sempre soube que tem que fazer inculturação. Depois de fazer a inculturação europeia, a Igreja ficou com medo. E foi uma inculturação bem-sucedida e dura até os nossos dias. Mas não existe só a cultura europeia. O planeta é maior com isso”.

“A Europa não pode querer ser ela só. Em Evangelii Gaudium, o Papa diz que a fé cristã não pode ser só inculturada na europa. Ele dá o nome aos bois! A fé deve se inculturar em todas as culturas. Aí que vem a questão da colonização. Se nós implantamos a Igreja europeia aqui, isso é colonialismo. Então, como este sínodo vai estimular caminhos para que se inculture a fé! Em Porto Maldonado, ele disse aos indígenas que ajudem os seus bispos a inculturar na cultura deles a fé. Isso significa dar-lhes a possibilidade de que surja naquele lugar uma Igreja com o rosto daquela cultura. Que surja uma Igreja, não que venha de fora; que surja de dentro da sua história, da sua identidade, enfim, da sua espiritualidade, que de lá de dentro surja a Igreja de rosto panamazônico e de rosto indígena, diz o papa, uma Igreja indígena. Isso não significa que aqui em São Paulo nós temos de ter uma Igreja indígena, nós somos europeus com alguma misturinha, mas fundamentalmente europeus. Mas isso não acontece com os nossos indígenas nem com os nossos negros”.

“Hoje se fala de uma Igreja indigenista, que defende o direito dos índios. Mas isso não basta! Nós precisamos de uma Igreja indígena, com os seus próprios padres, com os seus próprios bispos, que parta da sua própria vida, da sua própria identidade, cultura e história”.

Respostas às perguntas finais

Após o término da palestra, reservaram um tempo de perguntas.

Dom Claudio explicou que o sínodo está sendo preparado com embasamento acadêmico, sendo respaldado por eventos sobretudo realizados pelas Universidades Jesuítas. Haverá um grande simpósio em Boston. “Os jesuítas foram os que mais agarraram esta causa”.

Um pouco adiante, ele disse que a Igreja precisa mobilizar a sociedade para pressionar os governos quanto às questões amazônicas.

O Padre Ruiz Barbosa, da Diocese de Santarém, perguntou acerca da carência de sacerdotes na Amazônia. Dom Claudio respondeu que “a questão dos ministérios certamente será discutida no sínodo, mas, logo de início o papa disse: ‘cuidado para não perder o foco! Cuidado para não transformar o sínodo da Amazônia num sínodo sobre os ministérios’, o foco principal é a ecologia integral. O grande problema das comunidades que você citou é que 70% não tem a Eucaristia. Podem até levar a comunhão, mas elas não têm a Celebração Eucarística e é a Celebração Eucarística que constrói a Igreja. Sem a Eucaristia, a Igreja não é nada. Então, ali falta a Eucaristia, falta a confissão sacramental. O povo quer ser reconciliado com Deus e com os irmãos. Sabemos que Deus perdoa quando se pede perdão, mas o sacramento da confissão é algo muito mais forte, mais estruturante. Não há o sacramento da unção dos enfermos. É um momento crucial, o do cristão que morre e a Igreja não dá nada a ele. A Igreja exigiu tanto dele e, no final da vida, a Igreja não dá nada. O sacramento é para isso. Jesus mandou ungir os enfermos, rezar pelos enfermos. Estes sacramentos são da vida cotidiana dos católicos. Pra nós é tão normal que a gente nem pensa nisso. Lá existe uma Igreja da Palavra. Fazem um grande trabalho, os catequistas, que fazem o culto da Palavra. Mas uma Igreja da Palavra não é uma Igreja cristã completa. Falta o sacramento. E o sacramento é a força que eu preciso para praticar a caridade. A caridade salva, a Palavra ilumina, mas é o sacramento que me dá força para eu, de fato, praticar a caridade que salva. Os sacramentos são meios, não são fins. Me ajudam a praticar a caridade, a misericórdia. Isso eles não têm. Eles têm que saltar da Palavra para a caridade. O Papa diz que isso tem que ser encaminhado diferentemente. Ele mesmo diz que ainda não têm ideias claras. E como fazer isso? Ele acena, às vezes, para aquela proposta daquele bispo sul-africano, na verdade missionário, Fritz Loginger. Ele tem umas propostas que o papa também acena, de presbíteros locais que só exercem o munus sanctificandi, ou seja, apenas os sacramentos e a oração, tenham apenas essa jurisdição. Ele acena um pouco para isso, mas ele mesmo diz que não temos clareza sobre essa situação. Ele diz que o celibato é um carisma que a Igreja não pode perder. Mas, em certas situações, absolutamente que não tem outras situações… Vejam como ele é: ele não citou a Amazônia, ele citou as ilhas do Pacífico. Claro que todo mundo sabia do que ele estava falando. Mas isso porque ele diz para não perder o foco, senão a imprensa só vai falar sobre isso. O importante é a Amazônia. Este é um problema!

Depois de falar sobre que cada país e cada Conferência Episcopal tem a sua parte da Amazônia, ele afirmou que “a Amazônia é um novo sujeito pastoral” e que deve ter um próprio plano de pastoral.

18 fevereiro, 2019

O Dom da Adoção Filial – A Fé Cristã é a única religião válida e unicamente desejada por Deus.

Por Dom Athanasius Schneider | Tradução: FratresInUnum.com

“A verdade da filiação divina em Cristo, que é intrinsecamente sobrenatural, é a síntese de toda a revelação divina. A filial divina é sempre um dom gratuito da graça, o dom mais sublime de Deus para a humanidade. Este dom se obtém, todavia, somente através da fé pessoal em Cristo e a recepção do batismo, como ensinou o próprio Senhor.

Dom Athanasius Schneider, bispo auxiliar de Karaganda, Cazaquistão.

Dom Athanasius Schneider.

“Em verdade, em verdade vos digo: quem não nascer da água e do espírito, não pode entrar no Reino de Deus. Quem nasceu da carne é carne, quem nasceu do espírito é espírito. Não vos maravilheis de que eu tenha dito: deveis nascer do alto” (João 3, 5-7)

Nas últimas décadas, ouve-se frequentemente, inclusive da boca de alguns representantes da hierarquia da Igreja – declarações sobre a teoria dos “cristãos anônimos”. Ela afirma o seguinte: a missão da Igreja no mundo consistiria, em última instancia, em suscitar a consciência de que todos os homens devem ter em Cristo a sua salvação e, portanto, a sua filiação divina. Uma vez que, segundo a mesma teoria, cada ser humano já teria a filiação divina na profundeza de sua pessoa. No entanto, esta teoria contradiz diretamente a revelação divina, tal como Cristo a ensinou e como seus apóstolos e a Igreja transmitiram sempre, por dois mil anos, imutavelmente e sem sombra de dúvida.

Em seu ensaio “A Igreja dos Judeus e os Gentios” (“Die Kirche aus Juden und Heiden”), Erik Peterson, o famoso convertido e exegeta, há bastante tempo (em 1933) advertiu contra o perigo dessa teoría, ao afirmar que não pode reduzir o ser cristão (“Christsein”) à ordem natural, na qual os frutos da redenção realizada por Jesus Cristo seriam imputados genericamente a cada ser humano como uma espécie de herança, só porque eles compartilham a natureza humana com o Verbo Encarnado. Pelo contrario, a filiação divina não é um resultado automático, garantido através da pertença à raça humana.

Santo Atanásio (cf. Oratio contra Arianos [Discurso contra los Arrianos], II, 59) nos deixou uma simples e ao mesmo tempo precisa explicação da diferença entre o estado natural dos homens como criaturas de Deus e a glória de ser filhos de Deus em Cristo. Santo Atanásio desenvolve seu pensamento a partir das palabras do Santo Evangelho de São João, que diz:

“Mas a todos aqueles que o receberam, aos que creem no seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus, os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas sim de Deus.”(João 1, 12-13). São João usa a expressão “da vontade” para dizer que o homem se converte em filho de Deus não por natureza, mas por adoção. Este fato demonstra o amor de Deus, porque Aquele que é seu Criador se converte também em seu Pai. Isso ocorre, como diz o apóstolo, quando os homens recebem em seus corações o Espírito do Filho Encarnado, que clama neles “Abba, pai”. Santo Atanásio continua sua reflexão dizendo: como seres criados, os homens podem se converter em filhos de Deus exclusivamente através da fé e do batismo, recebendo o Espírito do verdadeiro e natural Filho de Deus. Precisamente por esta razão a Palavra se fez carne, para tornar os homens capazes da adoção filial e participação na natureza divina. Portanto, por natureza, Deus, estritamente falando, não é Pai dos seres humanos. Só aquele que aceita conscientemente a Cristo e é batizado, poderá clamar em verdade: “Abba, Pai” (Rom. 8, 15; Gal. 4, 6).

Desde o princípio da Igreja havia uma afirmação, como testemunha Tertuliano: “Nenhum cristão nasce, cristão se faz” (Apol., 18, 5).e São Cipriano de Cartago formulou esta verdade, dizendo: “Não pode ter a Deus por pai quem não tem a Igreja por mãe” (De Unit., 6).

A tarefa mais urgente da Igreja em nossos dias consiste em nos ocuparmos da mudança climática espiritual e do clima de migração espiritual, a saber, que é o clima de ausência de fé em Jesus Cristo e o clima de rejeição da realeza de Cristo, a fim de que se produza uma mudança para um clima de fé explícita em Jesus Cristo e a aceitação de Sua realeza, e que os homens possam migrar de sua miséria da escravidão espiritual da ausência de fé à felicidade de serem filhos de Deus, e migrar da vida em pecado para o estado de graça santificante. Estes são os migrantes com os quais devemos nos preocupar urgentemente.

O cristianismo é a única religião desejada por Deus. Portanto, o cristianismo nunca pode ser colocado de maneira complementar junto às outras religiões. Quem apoia-se na tese de que Deus desejaria a diversidade de religião, violaria a verdade da Revelação Divina, como afirmada de maneira inequívoca no primeiro mandamento do Decálogo. De acordo com a vontade de Cristo, a fé Nele e em seu ensinamento divino debe substituir a outras religiões, contudo, não pela força, mas pela persuasão amorosa, como expressa o hino de Louvor (Laudes) da 7 festa de Cristo Rei: “Non Ille regna cladibus, non vi metuque subdidit: alto levatus stipite, amore traxit omnia“(“Não pela espada, nem pela força e o temor que submete aos povos, mas exaltado na Cruz atrai amorosamente todas as coisas para Si”).

Só há um caminho para Deus, e é Jesus Cristo, pois Ele mesmo disse: “Eu sou o caminho” (João 14, 6). Só há uma verdade, e é Jesus Cristo, porque Ele mesmo disse: “Eu sou a verdade” (João 14, 6). Só há uma vida verdadeiramente sobrenatural, e é Jesus Cristo, porque Ele mesmo disse: “Eu sou a vida” (João 14, 6).

O Filho de Deus Encarnado ensinou que fora da Fé Nele não pode haver verdadeira religião que agrade a Deus: “Eu sou a porta: quem entre por mim, será salvo” (João 10, 9). Deus mandou a todos os homens, sem exceção, que escutassem a seu Filho: “Este é meu filho muito amado, ouvi-O” (Mc. 9, 7). Deus não disse: “Podeis escutar a meu Filho e outros fundadores das religiões, já que é minha vontade que haja religiões diferentes”.

Deus proibiu reconhecer a legitimidade da religião de outros deuses. “Não terás outros deuses além de mim” (Ex. 20, 3). Que comunhão pode haver entre luz e trevas? Que acordó entre Cristo e Baal, que colaboração entre crente e não crente? Que acordó entre o tempo de Deus e os ídolos? (2 Cor 6, 14-16).

Se as outras religiões correspondessem igualmente à vontade de Deus, não teria havido condenação divina da religião do bezerro de ouro no tempo de Moisés (cf. Ex 32, 4-20); então, os cristãos de hoje poderiam, sem punição, cultivar a religião de um novo bezerro de ouro, já que todas as religiões, segundo essa teoria, seriam igualmente agradáveis a Deus.

Deus deu aos apóstolos, e através deles à Igreja, para todos os tempos, a ordem solene de ensinar a todas as nações e aos seguidores de todas as religiões a única fé verdadeira, ensinando-lhes a observar todos os seus mandamentos divinos e a batizá-los. (cf. Mt 28, 19-20). Desde o começo da pregação dos Apóstolos e desde o primeiro Papa, o Apóstolos São Pedro, a Igreja sempre proclamou que em nenhum outro nome está a salvação, isto é, não há outra fé debaixo do céu na qual os homens possam ser salvos senão no Nome e na Fé de Jesus Cristo (cf. Hch 4, 12).

Nas palavras de Santo Agostinho, a Igreja ensinou em todo momento: “Só a religião cristã indica o caminho aberto a todos para a salvação da alma. Seme la, nada se salvará. Esta é a via regia, porque só ela conduz não a um reinado vacilante para a altura terrena, mas a um reino duradouro em toda a eternidade” (De Civitate Dei, 10, 32, 1).

As palavras seguintes do grande papa Leão XIII dão testemunho do mesmo ensinamento imutável do Magistério constante, quando afirma:

“O grande erro moderno do indiferentismo religioso e a igualdade de todos os cultos é o caminho oportuno para aniquilar a todas as religiões, e, em particular, a católica que, única verdadeira, não pode sem uma enorme injustiça ser colocada em pé de igualidade com as demais” (Encíclica Humanum Genus, no. 16)

Nos últimos tempos, o magistério apresentou substancialmente o mesmo ensinamento imutável no documento “Dominus Iesus” (6 de agosto de 2000), do qual citamos algumas afirmações relevantes:

“Nem sempre se tem presente essa distinção na reflexão hodierna, sendo frequente identificar a fé teologal, que é aceitação da verdade revelada por Deus Uno e Trino, com crença nas outras religiões, que é experiência religiosa ainda à procura da verdade absoluta e ainda carecida do assentimento a Deus que Se revela. Essa é uma das razões porque se tende reduzir, e por vezes até anular, as diferenças entre o cristianismo e as outras religiões”. (n. 7)

“Seriam, invés, contrárias à fé cristã e católica as propostas de solução que apresentam uma acção salvífica de Deus fora da única mediação de Cristo. “(n. 14)

“Não é raro que se proponha evitar na teologia termos como « unicidade », « universalidade », « absoluto », cujo uso daria a impressão de se dar uma ênfase excessiva ao significado e valor do evento salvífico de Jesus Cristo em relação às demais religiões. Ora, essa linguagem não faz mais que exprimir a fidelidade ao dado revelado” (n. 15)

“seria obviamente contrário à fé católica considerar a Igreja como um caminho de salvação ao lado dos constituídos pelas outras religiões, como se estes fossem complementares à Igreja, ou até substancialmente equivalentes à mesma, embora convergindo com ela para o Reino escatológico de Deus. “(n. 21)

“A verdade da fé exclui radicalmente essa mentalidade indiferentista ‘marcada por um relativismo religioso que conduz à crença de que “uma religião é o mesmo que a outra”. (João Paulo II, encíclica Redemptoris missio, 36)” (n. 22).

Os apóstolos e os inumeráveis mártires cristãos de todos os tempos, especialmente os dos primeiros três séculos, teriam evitado o martírio se tivessem dito: “A religião pagã e seu culto é uma maneira que também corresponde à vontade de Deus”. Não teria havido, por exemplo, uma França cristã, “filha primogênita da Igreja”, se São Remígio tivesse dito a Clovis, Rei dos Francos: “não deves abandonar tua religião pagã, podes praticar com tua religião pagã a religião de Cristo”. De fato, o santo bispo falou de modo diferente, embora de forma bastante abrupta: “Adora o que queimaste e queima o que adoraste”.

A verdadeira fraternidade universal só pode existir em Cristo, ou seja, entre os batizados. A glória plena da filiação divina só será alcançada na visão bem-aventurada de Deus no céu, como ensina a Sagrada Escritura.

“Considerai com que amor nos amou o Pai, para que sejamos chamados filhos de Deus. E nós o somos de fato. Por isso, o mundo não nos conhece, porque não o conheceu. 2.Caríssimos, desde agora somos fi­lhos de Deus, mas não se manifestou ainda o que havemos de ser. Sabemos que, quando isso se manifestar, sere­mos semelhantes a Deus, porquanto o veremos como ele é” (1 João 3, 1-2).

Nenhuma autoridade na terra – nem sequer a autoridade suprema da Igreja – tem o direito de dispensar qualquer seguidor de outra religião da fé explícita em Jesus Cristo, isto é, da fé no Filho de Deus encarnado e no único Redentor dos homens, afirmando-lhes que as diferentes religiões são, como tais, desejadas pelo próprio Deus. Indeléveis – porque escritas com o dedo de Deus e cristalina em seu significado – permaneçam, pelo contrário, as palavras do Filho de Deus: “Quem crê no Filho de Deus não está condenado, mas quem não crê já foi condenado, porque não acreditou no nome do Filho unigênito de Deus (João 3, 18).

Esta verdade foi válida até agora em todas as gerações cristãs e continuará sendo válida até o fim dos tempos, independentemente de se algumas pessoas na Igreja de nosso tempo tão instável, covarde, sensacionalista e conformista, reinterpretam esta verdade em um sentido contrario ao teor das palavras, apresentando assim esta reinterpretação como continuidade no desenvolvimento da doutrina.

Fora da fé cristã, nenhuma outra religião pode ser verdadeiro caminho desejado por Deus, porque esta é a vontade explícita de Deus, que todos os homens cream em seu Filho: “Esta é efetivamente a vontade de meu Pai: que quem veja o Filho e Nele creia tenha a Vida eterna” (João 6, 40).

Fora da fé cristã, nenhuma outra religião é capaz de transmitir a verdadeira vida sobrenatural: “Esta é a vida eterna, que Vos conheçam, único Deus verdadeiro, e a Vosso Enviado, Jesus Cristo” (João 17, 3).

8 de fevereiro de 2019

+ Athanasius Schneider, bispo auxiliar da Arquidiocese de Maria Santíssima em Astana – Cazaquistão.

14 fevereiro, 2019

A perda do vigor, mas não da fé.

A renúncia de Bento XVI afetou-me de tal forma, em todos os aspectos, com sérias conseqüências, em todos os campos, também na vida pessoal.

Por Hermes Rodrigues Nery – FratresInUnum.com, 14 de fevereiro de 2019

Quando Joseph Ratzinger foi eleito, em 19 de abril de 2005, meus filhos estavam com seis, sete anos, ambos fazendo catequese. Com Bento XVI, coincidiu o meu ingresso no movimento pró-vida, assumindo a coordenação diocesana em defesa da vida e a fundação do Movimento Legislação e Vida, naquele mesmo ano. O melhor do meu trabalho, no movimento, coincidiu com o pontificado de Bento XVI, especialmente na coordenação do I Congresso Internacional em Defesa da Vida, na Basílica de Nossa Senhora Aparecida, em fevereiro de 2008, tendo sido eleito vereador e Presidente da Câmara, e promulgado a primeira lei orgânica pró-vida do País, em 16 de abril de 2010.

Prof. Hermes Rodrigues Nery recebe a comunhão do papa Bento XVI, em 13 de maio de 2007, na Basílica de Nossa Senhora da Conceição Aparecida. (1)

Professor Hermes recebe a Comunhão do Papa Bento XVI, em 13 de maio de 2007, na Basílica de Nossa Senhora da Conceição Aparecida.

Quando pensei que dentro da Igreja eu estaria acolhido, e que eu pudesse fazer verdadeiros amigos capazes dos valores que o Evangelho  tanto anuncia (como viveram os primeiros apóstolos), e que a caridade fosse vivida, de fato, na convivência como irmãos de fé, unidos em Cristo, foi justamente aonde enfrentei maiores dissabores, hostilizações, desprezo, humilhações, inveja, avareza e todos os demais pecados capitais, ao ponto de chegar à constatação de impotência, do não saber o que fazer, sem meio algum para influir e fazer vicejar o melhor do Evangelho, no meio árido, inóspito, refratário, um deserto mesmo de muitos padecimentos, mas com alguns poucos cireneus, a quem sou sempre muito grato a Deus.

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11 fevereiro, 2019

O Manifesto do Cardeal Müller. E a íntegra da entrevista.

Publicamos a seguir a íntegra da entrevista, já publicada anteriormente em versão reduzida, concedida pelo Cardeal Gerhard Ludwig Müller ao La Nuova Bussola Quotidiana, bem como a versão portuguesa de sua Declaração de Fé.

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Cardeal Gerhard Müller, prefeito emérito da Congregação para a Doutrina da Fé.

Dom Gerhard Müller fala de maneira calma, buscando sempre as palavras corretas em italiano,mas seus juízos chegam claros e nítidos. Apesar de sua figura imponente, tem modos simples e malgrado tenha uma mais que sólida formação teológica (cuida, entre outras coisas, da opera omnia do cardeal Joseph Ratzinger-Bento XVI) tem a capacidade de ser muito claro.

Ele me acolhe cordialmente em seu apartamento, a dois passos da Basílica de São Pedro, que ele manteve apesar de ter sido demitido pelo Papa Francisco, o qual de uma forma um tanto brutal, em julho de 2017, não renovou seu mandato como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Mas este ano suas intervenções, fronte a confusão crescente que se verifica na Igreja, tiveram sempre o timbre do “guardião da ortodoxia”, uma espécie de Prefeito “sombra” do ex Santo Ofício.

Cardeal Müller, em vinte dias haverá um encontro no Vaticano sobre abusos sexuais, um escândalo que está obscurecendo a imagem da Igreja e que, ao mesmo tempo, causa muitas tensões … 

Creio que antes de mais nada este tema deve ser entendido em sua dimensão real. Embora seja um escândalo grave, é injusto generalizar, pois os abusos dizem respeito, de qualquer forma, a uma forma muito limitada de sacerdotes. E eu me sinto no dever de agradecer a todos os bispos, os sacerdotes e os diáconos e os outros colaboradores da Igreja Católica pelo modo com que se dedicam à missão confiada por Jesus e porque vivem conforme os critérios de nossa espiritualidade cristã. É justo que a opinião pública se dê conta deste bom trabalho e dos sacrifícios que fazem nossos bons pastores, tantos homens que buscam a verdade em suas vidas, que buscam a verdade de Deus em Jesus Cristo.

Em segundo lugar devemos reconhecer que este é um fenômeno que já teve o seu pico nos anos 70 e 80 do século passado, também por efeito da revolução sexual; desde então muito foi feito e hoje os casos diminuíram muito. Além disso é de perguntar-se do motivo pelo qual a opinião pública seja induzida a falar só disto e não de todos os abusos e crimes contra as crianças e os adolescentes que existem no mundo: não só os sexuais, que também na maior parte ocorrem fora da Igreja, mas também outros crimes como o aborto, ou então a possibilidade que a tantos é negada de viver com os próprios pais, mães, irmãos. E assim por diante.

É verdade. No entanto a Igreja se encontra no dever de confrontar-se com um fenômeno inquietante e, como o caso do ex cardeal McCarrick demonstra, ainda tem dificuldade em julgar também o passado.

Claramente é terrível para a Igreja que haja padres envolvidos, homens que em vez de terem vidas exemplares, abusam de sua missão. Representantes de Jesus Cristo, o Bom Pastor, agindo como lobos: é uma perversão de sua missão.

Mas quais são as causas dos abusos em relação aos menores?

Certamente quem abusa não reconhece a dignidade de um menor, que é um homem e como todos os homens tem sua dignidade. Mas é também uma sexualidade não dominada. O homem é chamado a usar sua sexualidade no sentido desejado pelo Criador, como está descrito no início do Gênesis.

A esmagadora maioria dos abusos sexuais cometidos por clérigos são, na verdade, atos homossexuais.

É um fato que mais de 80% das crianças vítimas de abuso são homens e adolescentes. Devemos encarar essa realidade, são estatísticas que não podem ser negadas. Os que  não querem ver esta realidade acusam os que dizem a verdade de aversão aos homossexuais em geral.  Mas os homossexuais enquanto categoria não existem, é uma invenção. É evidente que eles falam para encobrir os seus próprios interesses. Voltemos ao Gênesis: existe uma sexualidade feminina e uma masculina, nada mais. O homem foi criado para a mulher e a mulher foi criada para o homem, como diz São Paulo na Primeira Carta os Coríntios (capítulo ll). Na criação, o conceito de homossexualidade não existe, é uma invenção que não possui nenhum fundamento na natureza humana. As tendências homossexuais não são um fato ontológico, mas de ordem psicológica. Alguns querem tornar a homossexualidade  um dado ontológico.

No Código de Direito Canônico de 1983 desapareceu o cânone que anteriormente estabelecia para os clérigos responsáveis de atos sodomitas a remoção do ofício, a privação de qualquer privilégio e, nos casos mais graves, a redução ao estado laical. O que também hoje torna mais difícil intervir em casos como os do ex cardeal McCarrick. Quem quis cancelar este cânone e por qual motivo?

Não o sei, mas creio que seja fruto da atmosfera geral daquele período: não se quer punir as pessoas, mas apontar para o positivo. Seguramente a intenção é boa, mas não se pode negar a realidade da fraqueza humana. Se adverte as pessoas para ajuda-las a fazer o bem. E sobretudo a Igreja não pode aceitar entre os sacerdotes um mau comportamento contrário à vontade de Deus, assim destrói a própria credibilidade.

Existe infelizmente quem fez própria a ideologia homosexualista, mas se pode aceitar a falsidade do mundo e introduzi-la na Igreja? Devemos alimentar-nos da Palavra de Deus, da Escritura, da Tradição, do Magistério. Estes são os pontos de pensar como um católico. Devemos dar ao tempo moderno a boa resposta que vem de Deus. É o mundo que necessita de salvação, e não Deus que tem necessidade de salvação por parte do mundo.

Nos dias passados foi lançada uma petição justamente para pedir aos padres que participarão na reunião de cúpula no Vaticano em fevereiro de fechar a rede homossexual, e um dos pontos diz respeito justamente a reintrodução do cânone que pune os atos sodomitas.

Creio que a petição é legítima, há quem queira negar a verdade estatística pela qual a grande maioria dos abusos cometidos por sacerdotes sejam atos homossexuais. Não se pode fugir a esta realidade. Quem a nega não quer resolver o problema. Não se devem subvalorizar também os abusos cometidos com seminaristas: é um pecado enorme, um crime contra a dignidade destes homens, mas também no confronto com os genitores que confiam os próprios filhos aos sacerdotes, ao bispo, ao seminário. Um bispo que cai a este nível é um escândalo enorme. Imaginemos o que teria feito Jesus se um dos apóstolos tivesse feito isso com alguns outros discípulos? É um absurdo só em pensá-lo. Mas temo que também estas iniciativas de leigos sejam neutralizadas, acusando-as de uma rebelião contra o Papa.

É uma fixação, também o cardeal Kasper interveio várias vezes nestes dias denunciando um complô para fazer demitir o Papa Francisco.

Infelizmente no Vaticano existe quem explica tudo o que acontece na Igreja com o fato que seriam os inimigos do Papa que estão organizando um complô, através de sites da internet. Da Itália, Estados Unidos, Alemanha, França, todos juntos só para criar problemas ao Papa. É uma loucura. Não conheço todas as motivações dos outros, mas um católico está sempre ao lado do Papa, mesmo quando pode ter opiniões diversas sobre as quais é possível discutir. Os verdadeiros amigos do Papa são os que dizem a verdade, que o ajudam a encontrar o caminho certo, e não os que querem levá-lo na própria direção.

A propósito, o Papa e seus colaboradores mais estreitos quando falam de abusos apontam o dedo contra o clericalismo.

É um termo equívoco. O que é o clericalismo? Quem define este conceito? E quem é clerical? O termo nasceu na França e na Itália no século XIX e servia para atacar a Igreja como inimiga da sociedade moderna. Verdadeiramente querem entrar nesta polêmica contra nós próprios? Ou querem acusar Jesus que instituiu o clero? Clero é o termo grego que encontramos nos Atos dos Apóstolos quando os 11 Apóstolos tiram a sorte para a substituição de Judas e transferem a sua “parte” – cleros – a Matias.

Cleros então não é um grupo de pessoas, mas a participação na autoridade de Jesus Cristo que foi transferida aos Apóstolos e seus sucessores. Não é certamente este clericalismo que pode ser considerado culpado de pecado contra o VI mandamento. Os verdadeiros abusos de poder são a simonia, o carreirismo ou fazer-se cortesão na corte do Papa para receber a mitra, para ser premiado. Quando Maquiavel vale mais do que o evangelho no exercício da política eclesiástica, que é o abuso de poder. Falar de clericalismo ou por sob acusação o celibato é uma falsa estrada que desvia da verdadeira causa do problema.

Com efeito, não são poucos os que põem em discussão o celibato como resposta aos abusos.

Ao contrário, devemos levar a sério o VI mandamento, a castidade como atitude, como virtude. Não é fácil nesta cultura sexualizada, mas é necessário se queremos encontrar uma saída a este desastre, que interessa toda a sociedade. A Igreja indica um caminho, é necessário retomar nossa antropologia. A Igreja não deve ser vista como uma organização que distribui poder e prestígio, é família de Deus que comporta familiaridade entre todos nós, a responsabilidade de um pelo outro, o respeito para com as crianças e os jovens. Nunca ver a outra pessoa como objeto de cupidez. O outro é sempre sujeito, nunca objeto, merece respeito.

Em vista da reunião de cúpula no fim de fevereiro, há já aqueles que querem aproveitar para sustentar que a homossexualidade deve ser aceita: não importa se um padre tem tendências homossexuais, o importante é que ele viva castamente. Na Alemanha, há bispos que já deram declarações neste sentido.

Seria um crime contra a Igreja: instrumentalizar o pecado para estabelecer ou normalizar um pecado contra o VI mandamento, é um crime. Não há forma de legitimar atos homossexuais ou mesmo atos sexuais desordenados. Se cremos em Deus, cremos que os Dez mandamentos são a expressão direta da vontade salvífica de Deus para conosco. Não são mandamentos exteriores como as leis positivas que edita o Estado, são a substância da moralidade do homem e de sua felicidade, são a expressão da vida, da verdade de Deus.

Em suma, arrisca-se derrubar a antropologia cristã…

É o que alguns se predispõem, querem o homem que se define a si próprio. Deus para eles é só um ponto de referência para a própria auto justificação. Algumas pessoas me escreveram que na juventude tiveram certas experiências homossexuais, mas depois superaram tudo e vivem agora felizes num matrimônio. Não são ideias, são experiências verdadeiras de pessoas, que devemos escutar.

Quando se desperta a sexualidade, podem existir momentos de confusão, mas isto não quer dizer que sejam tendências enraizadas. Existem pessoas que querem fazer da homossexualidade um dado ontológico.

Isto nos remete aquele documento sobre a pastoral para com as pessoas com tendências homossexuais publicado pela Congregação para a Doutrina da Fé em 1986, em que já se denunciava uma rede gay no interior e no exterior da Igreja que tem a finalidade de subverter a doutrina católica.

Sim, geralmente não se manifestam publicamente, mas se podem reconhecer por alguns comportamentos estranhos, pelo modo com que se apresentam, por certas opiniões. Se sustentam um ao outro e atacam pessoalmente os que são um obstáculo para a sua agenda, alteram a doutrina da Igreja para seus fins, fazem contínuas polêmicas contra os católicos ortodoxos. Isto os revela. Mas assim destroem não só a doutrina, mas também as pessoas que dizem desejar ajudar. Usam as pessoas que tem tendências homossexuais para fazer vencer sua ideologia: abusam ideologicamente destas pessoas.

Contudo, até o quotidiano dos bispos italianos, Avvenire, sustenta que na Igreja tenha havido uma mudança sobre a homossexualidade, que não há mais reprovação moral, e isto se deduziria da Exortação Apostólica Amoris Laetitia.

Isto não é verdade, mas mesmo se fosse verdade, um documento pontifício não pode mudar a antropologia radicada na criação de Deus. É possível que um documento pontifício ou o Magistério da Igreja não explique bem os dados da Revelação e da Criação, mas o Magistério não constitui a doutrina cristã.

Há um modo de compreender o Magistério que não tem nada que ver com a tradição católica, se trata o Papa como se fosse um oráculo, o que quer que diga torna-se verdade indiscutível. Mas não é assim: muitas coisas são opiniões privadas do Papa, coisas, então, que se podem discutir. Se o Papa hoje dissesse que as partes são mais do que o todo, teríamos mudado as estruturas da matemática, da geometria, um absurdo. Ou se o Papa dissesse hoje que não podemos mais comer a carne dos animais, para nenhum católico seria proibido comer carne.

O senhor quer dizer que se, por pura hipótese, o Papa escrevesse uma encíclica “vegetariana”, esta não vincularia os católicos? Como é isso?

Porque isto não faz parte da materia fidei. A autoridade do Papa é muito limitada. Alguns veem só a sua autoridade pública, o que é referido nos meios de comunicação social e o utilizam segundo os próprios pensamentos, mas na realidade não aceitam a autoridade do Papa assim como está fundamentada em nossa eclesiologia.

A propósito de eclesiologia, recentemente denunciamos na Nuova Bussola Quotidiana, o caso de uma missa ecumênica em Milão, na qual uma pastora batista proclamou o Evangelho, fez a homilia, distribuiu a Eucaristia após permanecer ao lado do padre durante a consagração.  E o pároco explicou que a transubstanciação é só uma forma de compreender a Eucaristia.  Infelizmente este tipo de ecumenismo não é um fato isolado. 

E um bispo deveria intervir, pois infelizmente existe uma crassa ignorância entre sacerdotes, bispos e mesmo cardeais: eles são servidores da Palavra de Deus, mas não a conhecem, bem como desconhecem a doutrina. Se falamos de transubstanciação, o Quarto Concílio de Latrão, o Concílio Tridentino e também o Vaticano II, assim como algumas encíclicas, como Mysterium Fidei (1965) explicaram que com essa expressão a Igreja constata a realidade da verdadeira conversão do pão e do vinho na substância do corpo e do sangue de Jesus Cristo.

Os luteranos creem na presença real, mas não no sentido católico, não creem na conversão do pão e do vinho. Não é pequena diferença. Na Inglaterra, no tempo de Eduardo VI e Elizabeth I (século XVI), havia a pena de morte para aqueles que acreditavam na transubstanciação. Muitos católicos foram martirizados e não é que sacrificaram suas vidas só por causa de uma das muitas maneiras de compreender a Eucaristia, mas era pela realidade do sacramento.

Santo Tomás dizia que é um pecado grave se os bispos e os sacerdotes não conhecem a doutrina da Igreja. É dever deles. Seguramente como o sacerdote de Milão terão lido algo em teólogos de terceira categoria, aqueles que escrevem sem conhecer a doutrina e dizem coisas estúpidas. Mas isto não pode justificar um ato quase blasfemo. Os protestantes não aceitam em sua fé o sacramento da ordem, assim não podem estar ao lado de um sacerdote católico. Se o pároco faz assim nega também o sacramento da ordem, se fez protestante. Também com os ortodoxos, de que, no entanto, reconhecemos o sacerdócio sacramental, não é possível concelebrar, pois falta a plena comunhão.

Mas o que um fiel pode fazer se se encontra numa missa dessas?

Deve protestar publicamente.  Têm o direito de sair ou, se é capaz, pode dizer algo: “Eu protesto contra esta dessacralização da Santa Missa”; “Vim aqui para celebrar a missa católica, não para participar de uma construção de um pároco que não conhece nada da fé católica”. O que aconteceu na paróquia de Milão não é um verdadeiro ecumenismo, ao contrário, é um golpe contra o verdadeiro ecumenismo.

Qual é o verdadeiro ecumenismo?

É o decreto do Concílio Vaticano II, Unitatis redintegratio, que nos capítulos 1 e 2 descreve os princípios de um ecumenismo católico. Não existe um ecumenismo em tese, mas o ecumenismo segundo os princípios da fé católica, e os outros tem um ecumenismo segundo seus princípios. Com as outras confissões cristãs não existe só uma diversidade nos conteúdos da fé, mas também na hermenêutica da fé.

Para os católicos os aniversários se tornaram perigosos. Após o Jubileu da Reforma Protestante, com todo o falso ecumenismo que impulsionou, agora temos os 800 anos do encontro entre São Francisco e o Sultão. Já estão acontecendo cursos de Islamismo nas paróquias e imãs estão sendo convidados para irem a igrejas explicar quem é Jesus para o Islã… 

Sim, mas aposto que o pároco não vai numa mesquita explicar o Concílio de Nicéia. Para nós, é uma ofensa dizer que Jesus foi só um homem, que não é o Filho de Deus. Como se pode convidar alguém para vir a uma igreja para fazer-se ofender? Mas hoje há uma má consciência presente no Catolicismo para com a própria fé e se ajoelham sempre diante dos outros. Primeiro o jubileu de Lutero, agora o de São Francisco:  se usam para protestantizar e para islamizar a Igreja. Isso não é verdadeiro diálogo, alguns de nós perdemos a fé e querem se tornar escravos de outros para serem amados.

Qual é o principal problema que a Igreja enfrenta hoje?

A relativização da fé. Parece complicado anunciar a fé católica em sua integridade e com uma consciência reta. Embora o mundo de hoje mereça a verdade e a verdade é a verdade de Deus Pai, é a verdade de Jesus Cristo, a verdade do Espírito Santo. Os falsos compromissos não servem ao homem de hoje. Em vez de propor a fé, educar o povo, ensinar às pessoas, tende-se sempre a relativizar, sempre se diz um pouco menos, menos, menos…

Um exemplo: em vez de tornar claro o sentido do matrimônio, a indissolubilidade, se buscam exceções, se recua; em vez de falar da dignidade do sacerdócio, sua glória, do esplendor da verdade dos sacramentos, se reduz tudo a uma ocasião de estar juntos. Há uma horizontalização do cristianismo, ele é reduzido de forma a agradar os homens de hoje, e assim se engana o povo.

Quando nos encontramos com pessoas de outras religiões, não podemos unir-nos numa fé vaga. Se reduz a fé a uma fé filosófica. Deus a um ser transcendente e depois dizemos que Alá ou Deus pai de Jesus Cristo são a mesma coisa. Assim como o Deus do deísmo não tem nada que ver com o Deus dos cristãos.

O Papa está insistindo muito no conceito de fraternidade universal. Como deve ser entendida, a fim de não confundir as pessoas?

Não me agradaram todos estes grandes louvores dos maçons ao Papa. A fraternidade deles não é a fraternidade dos cristãos em Jesus Cristo, é muito menos. Não podemos tomar como medida da fraternidade aquilo que vem da Revolução Francesa, que é ideologia, como o comunismo. Quem define quem é meu irmão? Somos irmãos entre nós porque somos filhos de Deus, porque aceitamos Cristo, que se fez homem. Este é o fundamento da fraternidade.

  Na base da criação somos todos filhos de Deus. Neste sentido falamos também de fraternidade universal: não se pode matar; também na guerra aquele que mato é meu irmão. Todos temos um Pai no céu, mas este Pai se revelou em Israel, a Moisés, aos profetas e no fim em Jesus Cristo. Se não elevamos a natural fraternidade do homem em direção à fraternidade em Jesus Cristo, jogamos fora a dimensão sobrenatural e naturalizamos a graça.

Uma religião universal não existe, existe uma religiosidade universal, uma dimensão religiosa que conduz todo homem em direção do mistério. Por vezes, circulam ideias absurdas, como a do Papa “chefe de uma religião universal”, mas isso é ridículo. Pedro é Papa por conta de sua confissão ou profissão de fé: “Vós sois o Cristo, o Filho de Deus vivo”. Este é o Papa, não o chefe da ONU.

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Declaração de fé

 “Não se perturbe o vosso coração!” (João 14,1)

Ante a crescente confusão no ensinamento da doutrina da fé, muitos bispos, sacerdotes, religiosos e leigos da Igreja Católica me convidaram a dar testemunho público da verdade da Revelação. É tarefa dos pastores guiar pelo caminho da salvação os homens que lhes foram confiados, e isso só pode acontecer se esse caminho for conhecido e eles o tiverem percorrido primeiro. A tal respeito, admoestava o apóstolo: “Porque sobretudo vos entreguei o que eu também recebi” (1 Cor 15,3). Hoje muitos cristãos não conhecem sequer os ensinamentos básicos da fé, com um perigo crescente de não encontrarem mais o caminho que leva à vida eterna. Mas continua sendo tarefa própria da Igreja conduzir os homens a Jesus Cristo, luz das nações (cf. LG 1). Nesta situação, pergunta-se como encontrar a orientação correta. Segundo João Paulo II, o Catecismo da Igreja Católica representa uma “norma segura para o ensinamento da fé” (Fidei Depositum IV). Ele foi escrito com o objetivo de fortalecer os irmãos e irmãs na fé, uma fé colocada amplamente à prova pela “ditadura do relativismo”[1].

  1. O Deus Uno e Trino, revelado em Jesus Cristo

A personificação da fé de todos os cristãos se encontra na confissão da Santíssima Trindade. Convertemo-nos em discípulos de Jesus, filhos e amigos de Deus pelo batismo no nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo. A diferença das três pessoas na unidade divina (254) marca uma diferença fundamental em relação às outras religiões na crença em Deus e na imagem do homem. Na confissão de Jesus Cristo os espíritos se dividem. Ele é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, gerado segundo sua natureza humana pelo Espírito Santo e nascido da Virgem Maria. O Verbo feito carne, o Filho de Deus, é o único redentor do mundo (679) e o único mediador entre Deus e os homens (846). Em consequência, a Primeira Carta de São João descreve como Anticristo àquele que nega sua divindade (1 João 2,22), já que Jesus Cristo, o Filho de Deus, é desde a eternidade um ser com Deus, seu Pai (663). A recaída em antigas heresias, que viam em Jesus Cristo só um bom homem, um irmão e amigo, um profeta e um moralista, deve ser combatida com clara determinação. Ele é, acima de tudo, o Verbo que estava com Deus e é Deus, o Filho do Pai, que assumiu nossa natureza humana para nos redimir e que deverá julgar os vivos e os mortos. Só ao Ele adoramos como o único e verdadeiro Deus na unidade com o Pai e o Espírito Santo (691).

  1. A Igreja

 

Jesus Cristo fundou a Igreja como sinal visível e instrumento de salvação, que subsiste na Igreja Católica (816). Deu uma constituição sacramental à sua Igreja, que surgiu “do lado de Cristo dormido na Cruz” (766), e que permanece até sua consumação (765). Cristo Cabeça e os fiéis como membros do Corpo são uma pessoa mística (795), por isso a Igreja é Santa, porque o único mediador a estabeleceu e mantém sua estrutura visível (771). Através deles, a obra da redenção de Cristo se faz presente no tempo e no espaço na celebração dos santos sacramentos, especialmente no sacrifício eucarístico, a Santa Missa (1330). A Igreja transmite em Cristo a revelação divina que se estende a todos os elementos da doutrina, “incluindo a doutrina moral, sem a qual as verdades da salvação da fé não podem ser salvaguardadas, expostas ou observadas” (2035).

  1. A ordem sacramental

 

A Igreja, em Jesus Cristo, é o sacramento universal de salvação (776). Ela não se reflete a si mesmo, senão a luz de Cristo que brilha em seu rosto. Isto acontece só quando, não a maioria nem o espírito dos tempos, senão a verdade revelada em Jesus Cristo se converte no ponto de referência, porque Cristo confiou à Igreja católica a plenitude da graça e da verdade (819): Ele mesmo está presente nos sacramentos da Igreja.

A Igreja não é uma associação fundada pelo homem cuja estrutura é votada por seus membros à vontade. É de origem divina. “O mesmo Cristo é a fonte do ministério na Igreja. Ele o instituiu, deu-lhe autoridade e missão, orientação e finalidade” (874). A admoestação do apóstolo segue sendo válida hoje em dia para que quem quer que pregue outro evangelho seja amaldiçoado, “embora sejamos nós mesmos ou um anjo do céu” (Gl 1,8). A mediação da fé está indissoluvelmente ligada à credibilidade humana de seus mensageiros, que em alguns casos abandonaram aos que lhes foram confiados, perturbaram-nos e danificaram gravemente sua fé. Aqui a palavra da Escritura vai dirigida àqueles que não escutam a verdade e seguem seus próprios desejos, que adulam os ouvidos porque não podem suportar o são ensinamento (cf. 2 Tm 4,3-4).

A tarefa do Magistério da Igreja é “proteger o povo dos desvios e das falhas e lhe garantir a possibilidade objetiva de professar sem erro a fé autêntica” (890). Isto é especialmente certo com relação aos sete sacramentos. A Eucaristia é “fonte e ápice de toda a vida cristã” (1324). O sacrifício eucarístico, no qual Cristo nos implica em seu sacrifício da cruz, aponta à união mais íntima com Cristo (1382). Por isso, as Sagradas Escrituras, em relação à recepção da Sagrada Comunhão, advertem: “‘quem come do pão e bebe da taça do Senhor indignamente, é réu do Corpo e do Sangue do Senhor’ (1 Cor 11,27). Quem tem consciência de estar em pecado grave deve receber o sacramento da Reconciliação antes de aproximar-se a comungar” (1385). Da lógica interna do sacramento se desprende que os fiéis divorciados pelo civil, cujo matrimônio sacramental existe diante de Deus, os outros Cristãos, que não estão em plena comunhão com a fé católica, assim como todos aqueles que não estão propriamente dispostos, não recebem a Sagrada Eucaristia de maneira frutífera (1457) porque não lhes traz a salvação. Assinalar isto corresponde às obras espirituais de misericórdia.

A confissão dos pecados na confissão pelo menos uma vez ao ano pertence aos mandamentos da igreja (2042). Quando os fiéis já não confessam seus pecados nem recebem a absolvição, a redenção cai no vazio, já que, acima de tudo, Jesus Cristo se fez homem para nos redimir de nossos pecados. O poder do perdão que o Senhor Ressuscitado conferiu aos apóstolos e aos seus sucessores no ministério dos bispos e sacerdotes se aplica também aos pecados graves e veniais que cometemos depois do batismo. A prática atual da confissão deixa claro que a consciência dos fiéis não está suficientemente formada. A misericórdia de Deus nos é dada para cumprir seus mandamentos a fim de nos converter em um com sua santa vontade, não para evitar o chamado ao arrependimento (1458).

“O sacerdote continua a obra de redenção na terra” (1589). A ordenação sacerdotal “dá-lhe um poder sagrado” (1592), que é insubstituível porque, através dele, Jesus Cristo se faz sacramentalmente presente em sua ação salvífica. Portanto, os sacerdotes escolhem voluntariamente o celibato como “sinal de vida nova” (1579). Trata-se da entrega no serviço de Cristo e de seu reino vindouro. Enquanto à recepção da consagração nas três etapas deste ministério, a Igreja se reconhece a si mesma “vinculada por esta decisão do Senhor. Esta é a razão pela qual as mulheres não recebem a ordenação” (1577). Assumir isto como uma discriminação contra a mulher só mostra a falta de compreensão deste sacramento, que não se trata de um poder terreno, senão da representação de Cristo, o Esposo da Igreja.

 

  1. A lei moral

 

A fé e a vida estão inseparavelmente unidas, porque a fé sem obras está morta (1815). A lei moral é obra da sabedoria divina e conduz o homem à bem-aventurança prometida (1950). Em consequência, “o conhecimento da lei moral divina e natural é necessário para fazer o bem e alcançar seu fim” (1955). Sua observância é necessária para a salvação de todos os homens de boa vontade. Porque os que morrem em pecado mortal sem se haver arrependido serão separados de Deus para sempre (1033). Isto leva a conseqüências práticas na vida dos cristãos, entre as quais se deve mencionar as que hoje se obscurecem com freqüência (cf. 2270-2283; 2350-2381). A lei moral não é uma carga, senão parte dessa verdade liberadora (cf. Jo 8,32) pela qual o cristão percorre o caminho da salvação, que não deve ser relativizada.

 

  1. A vida eterna

 

Muitos se perguntam hoje por que a Igreja, todavia está ali, embora os bispos prefiram desempenhar o papel de políticos em lugar de proclamar o Evangelho como mestres da fé. A visão não deve ser diluída por trivialidades, mas o proprium da Igreja deve ser tematizado. Cada pessoa tem uma alma imortal, que é separada do corpo na morte, esperando a ressurreição dos mortos (366). A morte faz definitiva a decisão do homem a favor ou contra Deus. Todo o mundo deve comparecer ante o tribunal imediatamente depois de sua morte (1021). Ou é necessária uma purificação ou o homem chega diretamente à bem-aventurança celestial e pode ver deus cara a cara. Existe também a terrível possibilidade de que um ser humano permaneça em contradição com Deus até o fim e, ao rejeitar definitivamente o seu amor, “condenar-se imediatamente para sempre” (1022). “Deus que te criou sem ti, não te salvará sem ti” (1847). O castigo da eternidade do inferno é uma realidade terrível, que -segundo o testemunho da Sagrada Escritura- atrai para si todos aqueles que “morrem em estado de pecado mortal” (1035). O cristão passa pela porta estreita, porque “larga é a porta e espaçoso o caminho que leva à perdição, e são muitos os que entram por ela” (Mt 7,13).

Ocultar estas e outras verdades de fé e ensinar ao povo em consequência, é o pior engano do qual o Catecismo adverte enfaticamente. Representa a prova final da Igreja e leva o povo a um engano religioso de mentiras, ao “preço de sua apostasia da verdade” (675); é o engano do Anticristo. “Ele enganará os que se perdem por toda classe de injustiça, porque se fecharam ao amor da verdade, pela qual deviam ser salvos” (2 Tessalonicenses 2,10).

Invocação

Como operários da vinha do Senhor, temos todos a responsabilidade de recordar estas verdades fundamentais aderindo-nos ao que nós mesmos recebemos. Queremos animar o povo a caminhar pelo caminho de Jesus Cristo com decisão, para alcançar a vida eterna obedecendo seus mandamentos (2075).

Peçamos ao Senhor que nos faça saber quão grande é o dom da fé católica, que abre a porta para a vida eterna. “Porque quem se envergonhar de mim e de minhas palavras nesta geração adúltera e pecadora, também o Filho do homem se envergonhará dele quando vier na glória de seu Pai com os santos anjos” (Mc 8, 38). Portanto, estamos comprometidos a fortalecer a fé, na qual confessamos a verdade, que é o mesmo Jesus Cristo.

Estas palavras também se dirigem em particular a nós, Bispos e sacerdotes quando Paulo, o apóstolo de Jesus Cristo, dá esta admoestação ao seu companheiro de armas e sucessor Timóteo: “Conjuro-te em presença de Deus e de Cristo Jesus que há de vir julgar os vivos e mortos, por sua Manifestação e por seu Reino: “Proclama a Palavra, insiste a tempo e a destempo, repreende, ameaça, exorta com toda paciência e doutrina. Porque virá um tempo em que os homens não suportarão, a sã doutrina, mas sim, arrastados por suas próprias paixões, far-se-ão com um acervo de mestres pelo afã de ouvir novidades; apartarão seus ouvidos da verdade e se voltarão para as fábulas. Tu, pelo contrário, portas-te em tudo com prudência, suporta os sofrimentos, realiza a função de evangelizador, desempenha com perfeição teu ministério.” (2 Tm 4,1-5).

Que Maria, a Mãe de Deus, nos implore a graça de nos aferrar à verdade de Jesus Cristo sim vacilar.

Unido na fé e na oração

Roma, 10 de fevereiro de 2019

Gerhard Cardinal Müller

Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fe, desde 2012/2017

[1] Os números que aparecem no texto correspondem ao Catecismo da Igreja Católica.

10 fevereiro, 2019

Foto da semana.

Um sacerdote brasileiro da Fraternidade Sacerdotal São Pio X celebrou, ao longo desta semana, várias Santas Missas na Basílica de Santa Maria Maior, em Roma, sem nenhuma necessidade de autorização especial ou qualquer dificuldade.

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6 fevereiro, 2019

A Igreja hoje renunciou a ensinar a verdade integral.

Por Riccardo Cascioli, La Nuova Bussola Quotidiana, 3 de fevereiro de 2019 | Tradução: FratresInUnum.com

“Falar da crise de abuso sexual de menores, enquanto se ignora o fato de que 80% dos abusos são atos homossexuais, demonstra que não há intenção de resolver o assunto”. “O mais grave problema da Igreja hoje é a tendência de fazer concessões ao mundo e se furtar de proclamar a verdade integral”. O Cardeal Gerhard Müller fala. 

Cardinal Müller

 

Dom Gerhard Müller fala de maneira calma, mas seu juízo vem alta e claramente. Ele me acolhe cordialmente em seu apartamento, a um pulo da Basílica de São Pedro, que ele manteve apesar de ter sido demitido pelo Papa Francisco de uma forma um tanto áspera em julho de 2017, quando não renovou seu mandato como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.

Cardeal Müller, em vinte dias haverá um encontro no Vaticano sobre abusos sexuais, um escândalo que está obscurecendo a imagem da Igreja e que, ao mesmo tempo, causa muitas tensões internas… 

É terrível para a Igreja que haja padres envolvidos, homens que em vez de terem vidas exemplares, abusam de sua missão. Representantes de Jesus Cristo, o Bom Pastor, agindo como lobos: é a perversão de sua missão.

A esmagadora maioria dos abusos sexuais cometidos por padres são, na verdade, atos homossexuais.

É fato que cerca de 80% das crianças vítimas de abuso são homens e adolescentes. Devemos encarar essa realidade, são estatísticas que não podem ser negadas. Quem quer que ignore os fatos não quer resolver o problema. Fazem acusações contra os que dizem a verdade, ao afirmar que eles têm uma inclinação geral contra os homossexuais. Mas os homossexuais enquanto categoria não existem, é uma invenção. É evidente que eles falam para encobrir os seus próprios interesses. Na criação, o conceito de homossexualidade não existe, é uma invenção que não possui fundamento na natureza humana. Essas tendências não são ontológicas, mas de ordem psicológica. Alguns querem tornar a homossexualidade em um dado ontológico.

Em vista do encontro no fim de fevereiro, há aqueles que querem usá-lo como oportunidade para argumentar que não importa se um padre tem tendências homossexuais, o importante é que ele viva castamente. Na Alemanha, há bispos que já deram declarações neste sentido.

Seria um crime contra a Igreja: explorar o pecado para estabelecer ou normalizar o pecado contra o sexto mandamento, um crime. Não há forma de legitimar atos homossexuais ou mesmo atos sexuais desordenados. Se cremos em Deus, cremos que os dez mandamentos são expressões diretas da vontade salvífica de Deus para conosco, são a substância da moralidade do homem e de sua felicidade, são expressão da vida, da verdade de Deus.

Recentemente, o caso de uma missa ecumênica em Milão foi denunciado, na qual uma pastora batista leu o Evangelho, pregou a homilia e distribuiu a Eucaristia após permanecer o lado do padre durante a consagração. O pároco explicou que a transubstanciação é só uma forma de compreender a Eucaristia. Este tipo de ecumenismo não é um fato isolado. 

Isso equivale a um ato blasfemo. Há uma ignorância grosseira entre os padres, bispos e mesmo cardeais: eles são servos da Palavra de Deus, mas não a conhecem, bem como desconhecem a doutrina. Se falamos de transubstanciação, o Quarto Concílio de Latrão, o Concílio Tridentino e também o Vaticano II, assim como algumas encíclicas, como Mysterium Fidei (1965) explicaram que com essa expressão a Igreja reconhece a verdadeira conversão do pão e do vinho na substância do corpo e do sangue de Jesus Cristo. Na Inglaterra, no tempo de Eduardo VI e Elizabeth I (século XVI), havia a pena de morte para aqueles que acreditavam na transubstanciação. Muitos católicos foram martirizados e não sacrificaram suas vidas por causa de uma das muitas maneiras de compreender a Eucaristia, era pela verdade do sacramento.

Mas o que um leigo pode fazer se acabar parando numa missa dessas?

Devem protestar publicamente. Eles têm o direito de sair ou, se se sentirem aptos a falar, devem dizer: “Eu protesto contra a dessacralização da Santa Missa; vim aqui para assistir à Missa Católica, não para participar em alguma construção da missa por um pároco que não conhece nada da Fé Católica”.

Após o aniversário da Reforma Protestante, agora temos os 800 anos do encontro entre São Francisco e o Sultão. Já estão acontecendo cursos de Islã nas paróquias e imãs estão sendo convidados para irem a igrejas explicar quem foi Jesus para o Islã… 

Para nós, é uma ofensa dizer que Jesus foi só um homem, que Ele não é o Filho de Deus. Como se pode convidar alguém para vir a uma igreja ofendê-lo? Há uma má consciência presente hoje no Catolicismo para com a própria fé e, por outro lado, ajoelhamo-nos para os outros. Primeiro o jubileu de Lutero, agora o de São Francisco: é só uma forma de trazer o protestantismo para dentro e de islamizar a Igreja. Isso não é verdadeiro diálogo, alguns de nós perdemos nossa Fé e queremos nos tornar escravos de outros para sermos amados.

Qual é o principal problema que a Igreja enfrenta hoje?

A relativização da Fé. Parece muito complicado anunciar a Fé Católica em sua integridade e de cabeça erguida. Embora o mundo hoje mereça a verdade e a verdade é a verdade de Deus Pai, Filho e Espírito Santo. Acordos falsos não ajudam as pessoas no mundo de hoje. Em vez de propor a Fé e educar o povo, tendemos a relativizar, sempre dizer um pouco menos, menos, menos… O Cristianismo se preocupou com o mundo, reduziu-se para agradar a todos hoje e, consequentemente, o povo está decepcionado.

O Papa constantemente enfatiza o conceito de fraternidade universal. O que se pretende com essa expressão, a fim de não confundir as pessoas?

Não fico nem um pouco satisfeito quando os maçons louvam o Papa. A fraternidade deles não é a fraternidade dos Cristãos em Jesus Cristo, é muito menos. Com base na criação, somos todos filhos de Deus. Temos todos um pai no céu, mas este pai revelou-se em Israel, a Moisés, aos profetas e finalmente em Jesus Cristo. Fraternidade é, certamente, evitar guerras, brigas entre pessoas, mas não podemos reduzi-la a isso. Uma religião universal não existe, há uma religiosidade universal, uma dimensão religiosa que impulsiona a todos em direção ao mistério. Por vezes, circulam ideias absurdas, descrevendo o Papa como chefe de uma esquerda internacional ou chefe de uma religião universal, mas isso é absolutamente contrário à instituição do papado de Jesus Cristo. Jesus instituiu Pedro como o primeiro e princípio de sua sucessão no papado, por conta de sua confissão ou profissão de fé: “Vós sois o Cristo, o Filho de Deus vivo”. Esta é a substância do papado, é a voz da profissão de fé da Igreja e não o chefe da ONU.

4 fevereiro, 2019

O apostolado da FSSPX numa prisão nos EUA.

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Fonte: DICI – Tradução: Dominus Est

Um Retiro Inaciano foi conduzido pela FSSPX sob circunstâncias excepcionais: trancados a chave em Lamesa, Texas.

No início deste verão, um padre da Fraternidade teve o privilégio de pregar os Exercícios Inacianos a 40 detentos de uma prisão no oeste do Texas (EUA).

A Unidade Preston Smith, parte do sistema penitenciário em Lamesa, Texas, pode acomodar mais de 2.200 presos, em diferentes graus de confinamento. Esta prisão tem a grande graça de contar com um dedicado catequista católico tradicional, o Sr. Michael Banschbach, que visita a prisão duas vezes por mês para instruir na fé entre 40 e 50 prisioneiros. Como você pode se lembrar, da entrevista na edição de maio-junho de 2016 da Revista The Angelus, o Sr. Michael Banschbach mora em Midland, Texas, com sua grande família. Sob os auspícios e com a bênção dos sacerdotes da Fraternidade, ele iniciou um apostolado na prisão, que deu muitos frutos em todo o estado.

A prisão veio sediar o retiro após um encontro casual do capelão com um padre da Fraternidade que visitava o local para celebrar a Santa Missa para alguns dos internos. No decorrer da conversa, surgiu o tema dos Exercícios Inacianos. Alguns meses depois, o capelão da prisão perguntou ao Sr. Banschbach: “quando aquele padre virá aqui pregar um retiro?”

Então, depois de obter permissão do Superior de Distrito e de tomar as providências necessárias, o Retiro foi planejado para ocorrer entre 10 e 12 de maio de 2018. Logisticamente, as circunstâncias eram compreensivelmente muito difíceis. Os presidiários foram confinados em compartimento único – neste caso, o ginásio – e o tempo previsto era das 8:00h às 20:00h. Não havia possibilidade, como normalmente se tem em um retiro, para sair para uma caminhada ou voltar a o quarto. Os dias de 12 horas acabaram sendo dias de 14h, graças à intervenção do capelão da prisão com o diretor, que nos permitiu estendê-lo até as 22:30h.

Como os internos estavam conosco durante todo o dia, éramos responsáveis ​​por alimentá-los, o que significava que todos os dias tínhamos que fornecer suprimentos suficientes para alimentar 40 homens, para as 3 refeições do dia. A atmosfera era menos propícia à meditação, mas os homens, com exceção de uma dupla, estavam edificando em seus esforços e  seu silêncio, necessários para ouvir a voz de Deus.

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Como estávamos todos presos juntos, sem aposentos privados para voltar e fazer as meditações, a solução foi colocar cadeiras ao redor do perímetro da quadra de basquete de frente para a parede. Os homens foram informados que a cadeira era o “quarto” deles e que, quando as conversas terminassem, deveriam ir lá para meditar. Esta foi uma solução formulada no momento e, na verdade, funcionou muito bem. Foi também motivo de uma história engraçada, pois quando o guarda voltou pela primeira vez após o fim de uma palestra ele se assustou e imediatamente se colocou em guarda. Ele explicou: “Uau, isso foi muito estranho, porque nunca há silêncio na prisão e quando há, você pode apostar que é porque eles estão tramando algo, e provavelmente está prestes a ser atacado”. O que ele tinha visto era o generoso esforço dos homens em meditação.

Se foi um retiro difícil para o pregador, os ajudantes leigos e os prisioneiros, também foi um retiro onde o demônio estava muito ativo. Atrasos de tempo, situações com reféns, tumultos que exigiram gás lacrimogêneo em vários blocos de células, água derramando pelo teto da “sala de conferências” – até mesmo o padre perdeu sua identificação no último dia, o que poderia ter lhe negado acesso durante o último dia do retiro – eram todos sinais de que o demônio não estava feliz com o que estava acontecendo e estava fazendo todo o possível para “arruinar as obras”!

Com o demônio tão claramente em ação, era, acreditava o padre, apenas as orações de todos os irmãs, irmãos, sacerdotes e fiéis que permitiram que tudo funcionasse bem. Em todas as dificuldades, a única resposta foi ver nela a ação do demônio, permitida por nosso Pai Celestial, e suportar os golpes. O padre disse aos detentos que poderiam aprender uma boa lição de tudo aquilo: em nossa vida quando queremos fazer a coisa certa (quando queremos seguir a vontade de Deus), o mundo, a nossa pobre carne decaída e o demônio lançarão todos os tipos de obstáculos em nosso caminho e, portanto, não devemos nos surpreender ou desencorajar, mas manter pacificamente nossas boas resoluções.

Em sua caridade, pedimos suas orações por esses homens para que eles permaneçam firmes em suas resoluções e tenham a certeza de que eles estão rezando por você e por todos os seus irmãos católicos que estão além das grades.

Padre Thomas Asher

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3 fevereiro, 2019

Foto da semana.

catedral filipinas

Da redação da Canção Nova, com Vatican News – Neste domingo, 27 [de janeiro de 2019], um ataque com bombas foi feito na Catedral de Nossa Senhora do Monte Carmelo, na cidade de Jolo, em Sulu, nas Filipinas.

O atentado aconteceu durante a Missa, menos de uma semana depois do referendo que estabeleceu a criação de uma província autônoma com maioria muçulmana no sul do país.

Até o momento, o balanço oficial é de 27 mortos e 77 feridos.

Conforme relatado à Ajuda à Igreja que sofre por Dom Lito Lampon, bispo emérito de Jolo e hoje arcebispo de Cotabato, uma das duas bombas explodiu na entrada da Catedral de Nossa Senhora do Monte Carmelo, enquanto a outra no estacionamento em frente. “Tudo ocorreu durante a Santa Missa. A primeira bomba explodiu enquanto os fiéis cantavam o Aleluia – continua o prelado – a segunda, enquanto as autoridades respondiam ao fogo “.

O administrador apostólico de Jolo, padre Romeo Saniel, que no momento do ataque participava junto com Dom Lampon de uma Reunião Plenária da Conferência Episcopal em Manila, afirmou que a maioria das vítimas era assídua na missa das 8h:

“Recordo Daisy Barade de los Reyes que era o presidente do conselho paroquial, Romy Reyes e sua esposa Leah: eram meus amigos. Todos eles permaneceram corajosamente em Jolo, apesar das ameaças e do alto nível de insegurança”.

Grande dor

Padre Saniel está convencido de que este é um atentado anticristão e que as vítimas foram mortas por causa de sua fé. “Não há palavras para descrever nossa dor. Pedimos que rezem pelas vítimas e seus entes queridos, bem como pelas famílias dos soldados que perderam a vida tentando dar segurança à nossa catedral”.

Segundo a AIS, os cristãos da região já vivem ataques há vários anos, por ser uma localidade de maioria islâmica. Há grupos de extremistas e separatistas, filiados ao Isis.

Até o momento, ninguém assumiu a responsabilidade pelo ataque ocorrido menos de uma semana depois que a minoria muçulmana no país de maioria católica obteve uma autonomia especial, na esperança de pôr fim a um conflito que vinha ocorrendo há 50 anos no qual cerca de 150 mil pessoas morreram. Embora a maioria dos muçulmanos residentes na área tenha aprovado o acordo de autonomia, os da província de Sulu, onde Jolo está localizada, o rejeitaram.

Orações

Após o Ângelus deste domingo, 27, diretamente do Panamá, o Papa Francisco rezou pelas vítimas do ataque nas Filipinas, e pediu paz.

1 fevereiro, 2019

Novo site: Tradicionalismo Católico.

Cumprindo sua missão de informação a respeito da realidade da Igreja Católica, Fratres in Unum gostaria de divulgar o blog Tradicionalismo Católico que, conforme sua apresentação, dedica-se a explicar o movimento tradicionalista católico que surgiu em reação ao Concílio Vaticano II e seus desdobramentos, entre os quais se destaca a Missa Nova (“Novus Ordo Missae”).

Até o momento, foram publicados dois artigos que didaticamente fornecem uma visão geral do que seja o movimento tradicionalista:

O aviso de novas publicações será feito ordinariamente através da página Facebook do referido blog. Não deixe de segui-la.

31 janeiro, 2019

Um Papa que se “desmente”.

Por FratresInUnum.com, 31 de janeiro de 2019 – Mais uma entrevista aérea. E os nossos ouvidos, hoje habituados ao absurdo, quase não reagem mais às palavras de um papa, que soam irreverentes. Convém, todavia, analisar com brevidade as palavras do pontífice, pois elas nos deixam entrever muito de sua personalidade.

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Coletiva de imprensa do Papa Francisco no vôo de volta da Jornada Mundial da Juventude, no Panamá.

Um exemplo muito claro foi a sua resposta acerca da mudança da lei sobre o celibato. Inicialmente, ele disse: “prefiro dar a vida antes de mudar a lei do celibato”, citando o papa Paulo VI. Contudo, logo em seguida, começa a fazer uma longa apologia, como que en passant, da ordenação de homens casados, despretensiosamente relatando-a como uma legítima corrente de pensamento: “[Padre] Lobinger diz: se poderia ordenar sacerdote um idoso casado, esta é a sua tese. (…) Esta é a tese, o livro é interessante e talvez isso possa ajudar a responder o problema. Acredito que o tema deve ser aberto nesse sentido para os lugares onde existe um problema pastoral, por falta de sacerdotes”.

Como é possível que alguém diga e se desdiga na mesma declaração? Além de ser esta uma tática verbal muito utilizada pelos mais maquiavélicos – o estímulo contraditório desbarata a vítima e a torna completamente incapaz de qualquer reação psicológica –, autocontradizer-se revela a mente deste papa.

Numa resposta posterior, sobre os escândalos sexuais nos Estados Unidos, ele inicialmente apresenta o encontro de fevereiro próximo com os presidentes das conferências episcopais como a sua resposta ao problema, mas ressalva que “é preciso moderar as expectativas em relação a estes pontos que lhes disse, porque o problema dos abusos continuará, é um problema humano, em todos os lugares”.

É inacreditável que o papa diga isto. Os bispos americanos queriam começar a resolver o problema com medidas drásticas, mas foram impedidos pelo Vaticano para que Francisco afirmasse, já de antemão, que “o problema dos abusos continuará”?

Antes, quando lhe perguntaram sobre o afastamento de muitos jovens da Igreja, ao invés de reconhecer humildemente os limites pastorais do clero, ele acusou os pastores e os fieis, culpando “os católicos hipócritas, que vão à missa todos os domingos e não pagam o décimo terceiro, pagam por fora, exploram as pessoas”. Antes, ele usava os padres como escudo, agora, ataca-os, bem como os leigos, conservando-se a salvo de toda e qualquer crítica. (Nem mencionemos o assunto da educação sexual para as crianças…)

Que pessoa normal não se afastaria de alguém cuja duplicidade de palavras é tão explícita? Será que tal pessoa poderia ser considerada confiável? A malandragem costuma ser recurso de gente desonesta, que procura alcançar objetivos ruins através de meios ainda piores. Não queremos pensar que um papa utilize tais artefatos.

No caso, não se trata apenas de uma trapaça humana, mas da adulteração da Igreja de Deus. Repare que, logo no início da coletiva, ele diz que a sua missão “é a missão de Pedro, confirmar na fé”, mas logo ajunta: “e isso não com mandatos frios ou preceptivos, mas deixando-me tocar o coração e respondendo ao que acontece ali”. Não há sólido que não se torne gasoso na boca deste papa!

As palavras de Francisco sobre o celibato – “Prefiro dar a vida antes de mudar a lei do celibato” – evocam aquela exclamação de São Pedro a Cristo, durante a Santa Ceia: “Darei a minha vida por ti”!, ao que Jesus respondeu: “Darás a tua vida por mim?… Em verdade, em verdade te digo: não cantará o galo até que por três vezes me tenhas negado” (Jo 13,37-38).

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