Archive for ‘Atualidades’

23 julho, 2017

A interpretação do Concílio Vaticano II e a sua relação com a crise atual da Igreja.

Agradecemos a Sua Excelência Reverendissima, Dom Athanasius Schneider, o envio de seu artigo já em português para publicação exclusiva no Brasil em FratresInUnum.com.

A situação atual da inaudita crise da Igreja é comparável com aquela geral no século IV, onde o arianismo contaminou a esmagadora maioria do episcopado e foi reinante na vida da Igreja. Devemos procurar ver esta situação atual, por um lado, com realismo e, por outro, com o espírito sobrenatural, com um profundo amor para com a Igreja, que é nossa mãe, e que está sofrendo a paixão de Cristo por meio dessa tremenda e geral confusão doutrinal, litúrgica e pastoral.

Devemos renovar a nossa Fé de que a Igreja está nas mãos seguras de Cristo e que Ele sempre intervirá para renová-la nos momentos em que a barca da Igreja parece naufragar, como é o caso óbvio em nossos dias.
Quanto à atitude diante do Concílio Vaticano II, devemos evitar os dois extremos: uma rejeição completa (como o fazem os sedevacantistas e uma parte da FSSPX) ou uma “infalibilização” de tudo o que o Concílio falou.

O Concílio Vaticano II foi uma legítima assembleia presidida pelos Papas e devemos manter para com este concílio uma atitude de respeito. Contudo, isso não significa que não podemos exprimir dúvidas bem argumentadas e respeitosas propostas de melhoria, apoiando-se na Tradição integral da Igreja e no Magistério constante.

Pronunciamentos doutrinais tradicionais e constantes do Magistério durante um plurissecular período têm a precedência e constituem um critério de verificação acerca da exatidão de pronunciamentos magisteriais posteriores. Os pronunciamentos novos do Magistério devem, em si, ser mais exatos e mais claros, nunca, porém, ambíguos e aparentemente contrastantes com anteriores pronunciamentos constantes magisteriais.

Aqueles pronunciamentos do Vaticano II que são ambíguos devem ser lidos e interpretados segundo os pronunciamentos da inteira Tradição e do Magistério constante da Igreja.

Na dúvida, os pronunciamentos do Magistério constante (os concílios anteriores e os documentos de Papas, cujo conteúdo demonstrava ser uma tradição segura e repetida durante séculos no mesmo sentido) prevalecem sobre aqueles pronunciamentos objetivamente ambíguos ou novos do Concílio Vaticano II, os quais, objetivamente, dificilmente concordam com específicos pronunciamentos do Magistério anterior e constante (por exemplo, o dever do Estado de venerar publicamente Cristo, Rei de todas as sociedades humanas; o verdadeiro sentido da colegialidade episcopal frente ao primado petrino e ao governo universal da Igreja; a nocividade de todas as religiões não-católicas e o perigo que elas constituem para a salvação eternas das almas).

O Vaticano II deve ser visto e aceito tal como ele quis ser e como realmente foi: um concílio primeiramente pastoral, isto é, um concílio que não teve a intenção de propor doutrinas novas ou propô-las numa forma definitiva. Na maioria dos seus pronunciamentos, o Concílio confirmou a doutrina tradicional e constante da Igreja.

Alguns dos novos pronunciamentos do Vaticano II (por exemplo, colegialidade, liberdade religiosa, diálogo ecuménico e inter-religioso, atitude para com o mundo) não são definitivos e por eles, aparentemente ou em realidade, não concordarem com os pronunciamentos tradicionais e constantes do Magistério, devem ser ainda completados com explicações mais exatas e com suplementos mais precisos de caráter doutrinal. Uma aplicação cega do princípio da “hermenêutica da continuidade” também não ajuda, pois se criam com isso interpretações forçadas, que não convencem e que não ajudam para chegar ao conhecimento mais claro das verdades imutáveis da Fé Católica e da sua aplicação concreta.

Houve casos na história onde expressões não definitivas de alguns concílios foram, mais tarde, graças a um debate teológico sereno, precisadas ou tacitamente corrigidas (por exemplo, os pronunciamentos do Concílio de Florença acerca da matéria do sacramento da ordenação, isto é, que a matéria fosse a entrega dos instrumentos, mas a tradição mais segura e constante dizia que era suficiente a imposição das mãos do bispo, o que Pio XII em 1947 confirmou). Se depois do concílio de Florença os teólogos tivessem aplicado cegamente o princípio da “hermenêutica da continuidade” a este pronunciamento específico do concílio de Florença (um pronunciamento objetivamente errôneo), defendendo a tese que a entrega dos instrumentos como matéria do sacramento da ordem fosse uma expressão do Magistério constante da Igreja, provavelmente não se teria chegado ao consenso geral dos teólogos sobre a verdade que diz que somente a imposição das mãos do bispo constituiria propriamente a matéria do sacramento da ordem.

Deve-se criar na Igreja um clima sereno de discussão doutrinal acerca daqueles pronunciamentos do Vaticano II que são ambíguos ou que criaram interpretações errôneas. Não há nada de escandaloso nisso, pelo contrário, será uma contribuiçao para guardar e explicar na maneira mais segura e integral o depósito da Fé imutável da Igreja.

Não se deve destacar demais um determinado concílio, absolutizando-o ou equiparando-o de fato, à Palavra de Deus oral (Tradição Sagrada) ou escrita (Sagrada Escritura). O Vaticano II mesmo disse, justamente (cf. Dei Verbum, 10), que o Magistério (Papas, Concílios, magistério ordinário e universal) não estão acima da Palavra de Deus, mas sob ela, submisso a ela, e somente ministro dela (da Palavra de Deus oral = Sagrada Tradição e da Palavra de Deus escrita = Sagrada Escritura).

Do ponto de vista objetivo, os pronunciamentos do Magistério (Papas e concílios) de caráter definitivo têm mais valor e mais peso frente aos pronunciamentos de caráter pastoral, os quais são, por natureza, mutáveis e temporários, dependentes de circunstâncias históricas ou respondendo às situações pastorais de um determinado tempo, como é o caso da maior parte dos pronunciamentos do Vaticano II.

O próprio contributo valioso e original do Concílio Vaticano II consiste no chamado universal de todos os membros da Igreja à santidade (cap. 5 da Lumen gentium), na doutrina sobre o papel central de Nossa Senhora na vida da Igreja (cap. 8 da Lumen gentium), na importância dos fiéis leigos em conservarem, defenderem e promoverem a Fé Católica e que eles devem evangelizar e santificar as realidades temporárias segundo o perene sentido da Igreja (cap. 4 da Lumen gentium), no primado da adoração de Deus na vida da Igreja e na celebração da liturgia (Sacrosanctum Concilium, nn. 2; 5-10). O resto se podia até um certo ponto considerar secundário, temporário e talvez no futuro mesmo esquecível, como foi o caso com os pronunciamentos não definitivos, pastorais e disciplinais de diversos concílios ecumênicos no passado.

Os quatro assuntos seguintes: Nossa Senhora, santificação da vida pessoal, defesa da Fé com a santificação do mundo segundo o espírito perene da Igreja e o primado da adoração de Deus são os tópicos mais urgentes a serem vividos e aplicados hoje em dia. Nisso, o Vaticano II tem um papel profético, o que, infelizmente, não está ainda realizado de modo satisfatório. Em vez de viver e de aplicar estes quatro aspectos, uma considerável parte da “nomenklatura” teológica e administrativa na vida da Igreja, há meio século, promoveu e está ainda promovendo assuntos doutrinários, pastorais e litúrgicos ambíguos, deturpando, assim, a intenção originária do Concílio ou abusando dos seus pronunciamentos doutrinários menos claros ou ambíguos a fim de criar uma outra Igreja de tipo relativista ou protestante. Estamos vivenciando o auge desse desenvolvimento em nossos dias.

O problema da atual crise da Igreja consiste, em parte, no fato de que se infalibizaram aqueles pronunciamentos do Vaticano II que são objetivamente ambíguos, ou aqueles poucos pronunciamentos dificilmente concordantes com a tradição magisterial constante da Igreja. Dessa forma, impediu-se um sadio debate e uma necessária correção, implícita ou tácita, dando, ao mesmo tempo, o incentivo para criar afirmações teológicas contrastantes com a tradição perene (por exemplo, no que diz respeito à nova teoria de um assim chamado duplo sujeito ordinário supremo do governo da Igreja, ou seja, o Papa sozinho e todo o colégio episcopal junto com o Papa; ou a doutrina da assim chamada neutralidade do Estado frente ao culto público que ele deve prestar ao Deus verdadeiro, que é Jesus Cristo, Rei também de cada sociedade humana e política; a relativização da verdade que a Igreja Católica é o único caminho da salvação querido e ordenado por Deus).

Devemos nos libertar das algemas da absolutização e da infalibilização total do Vaticano II e pedir que haja um clima de debate sereno e respeitoso, por amor sincero à Igreja e à sua Fé imutável.

Uma indicação positiva nesse sentido podemos ver no fato de que, em 2 de agosto 2012, o Papa Bento XVI escreveu um prefácio ao volume relativo ao Concílio Vaticano II na edição da sua Opera omnia. Neste prefácio, Bento XVI exprime suas reservas quanto a um conteúdo específico dos documentos Gaudium et spes e Nostra aetate. Do teor dessas palavras de Bento XVI se vê que alguns defeitos pontuais em algumas passagens do Vaticano II não são remediáveis pela “hermenêutica da continuidade”.

Uma Fraternidade Sacerdotal de São Pio X canônica e plenamente integrada na vida da Igreja poderia também dar um válido contributo nesse debate, como também o desejou o Arcebispo Marcel Lefebvre. A presença plenamente canônica da FSSPX na vida da Igreja de hoje poderia também ajudar a criar um tal clima geral de um debate construtivo na Igreja, para que aquilo que foi crido sempre, em toda a parte e por todos os católicos durante dois mil anos, seja crido mais clara e de modo mais seguro também em nossos dias, realizando, assim, a verdadeira intenção pastoral dos Padres do Concílio Vaticano II.

A autêntica intenção pastoral visa a salvação eterna das almas, a qual se dá somente pelo anúncio de toda a vontade Divina (cf. At 20, 7). Uma ambiguidade na doutrina da fé e na sua aplicação concreta (na liturgia e na pastoral) ameaçaria a salvação eterna das almas e seria, por conseguinte, anti-pastoral, já que o anúncio da clareza e da integridade da Fé Católica e da sua fiel aplicação concreta é vontade explícita de Deus. Somente a obediência perfeita a esta vontade de Deus que, por Cristo, o Verbo Encarnado, e pelos Apóstolos nos revelou a verdadeira Fé, a Fé interpretada e praticada constantemente no mesmo sentido pelo Magistério da Igreja, traz a salvação das almas.

+ Dom Athanasius Schneider,

Bispo auxiliar da arquidiocese de Maria Santíssima em Astana, Cazaquistão

23 julho, 2017

Foto da semana.

Dom adair

Dom Adair José Guimarães, bispo diocesano de Rubiataba-Mozarlândia, no Estado de Goiás, consagra cálice conforme o rito romano tradicional.

Fonte: página “Forma Extraordinária do Rito Romano”:

21 julho, 2017

Bento XVI rompe novamente o silêncio e retoma a imagem da barca em meio a tempestade.

Por Hermes Rodrigues Nery

FratresInUnum.com, 21 de julho de 2017 – Três acontecimentos recentes nos levaram a refletir novamente sobre o impacto da renúncia de Bento XVI, sua catequese e seu testemunho nos tempos convulsivos da atualidade. O primeiro foi o fato de que a página no Facebook dedicada ao secretário pessoal de Bento XVI, Dom Georg Ganswein, página que afirma ser por ele chancelada, não ter postado fotos da visita de Francisco a Bento XVI, por ocasião da comemoração do seu 90º aniversário, em abril. O segundo, dois meses depois: o encontro de Francisco e Bento XVI, que ocorreria de novo, amplamente divulgado (com fotos e vídeos), onde Bento XVI – muito frágil – afirmara aos cinco novos cardeais que o visitavam: “Sigamos com a Cruz, porém, ao fim, é o Senhor quem vence”. Enquanto alguns se indagavam sobre o significado daquela afirmação, naquele contexto, então ocorreu o terceiro fato que fez Bento XVI voltar a sair do silêncio, pouco mais de quinze dias depois: a morte do Cardeal alemão Joachim Meisner (um dos autores do Dubia), que fezBento XVI enviar uma mensagem especial para ser lida por Ganswein, nas exéquias de Meisner, onde destacou: “O Senhor não abandona a sua Igreja, mesmo se, às vezes, a barca esteja quase repleta a ponto de soçobrar.”

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20 julho, 2017

Entrevista fundamental para compreender o Papa Francisco: Marcello Pera, político italiano e amigo próximo de Ratzinger.

Por Rorate Caeli, 20 de julho de 2017 | Tradução: FratresInUnum.com: Marcello Pera é um influente intelectual na Itália. Foi presidente do Senado e é um bom amigo de Bento XVI, inclusive escreveu, conjuntamente com ele, um livro de discursos sobre a decadência do ocidente (Sin Raíces: Europa, Relativismo, Cristianismo, Islam)

Em uma entrevista concedida ao jornal de Nápoles, Il Mattino, publicada em 9 de julho de 2017, Marcello Pera apresentou o que poderia se chamar uma visão geral do Papa Francisco desde o grande espectro moderado de italianos e europeus de todas as classes.

* * *

 

“Para Bergoglio só interessa fazer política, não lhe interessa, absolutamente, o Evangelho”

Pera: “A entrada indiscriminada [de imigrantes] desperta tensões explosivas”. 

Il Mattino, Nápoles, 9 de julho de 2017
Entrevista por Corrado Ocone

Em uma nova e exclusiva entrevista concedida a Eugenio Scalfari, do jornal “Repubblica”, o Papa Francisco intervém sobre o debate político com opiniões fortes e explosivas que, ao mesmo tempo, poderiam ser consideradas “de esquerda”. Desta vez, o pontífice falou dos poderosos da terra reunidos em Hamburgo para o G20, opondo-se por questão de princípios à toda política que tente controlar e limitar a migração massiva desde nações pobres para a Europa. Para entender melhor as idéias e, sobretudo, as ações políticas e midiáticas do Papa em comparação com as de seu predecessor, fizemos algumas perguntas ao ex-presidente do Senado, Marcello Pera. Sabe-se que ele, um [típico] católico liberal, compartilhou muitas idéias com o Papa emérito Bento XVI (incusive escrevendo a quatro mãos um livro: Sin Raíces: Europa, Relativismo, Cristianismo, Islam, Mondadori, 2004).

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Marcello Pera e Bento XVI.

Sr. Presidente, a que opinião chegou a respeito dos constantes chamados do Papa Bergoglio ao recebimento de imigrantes? Um recebimento indiscriminado, incondicional, total?

“Francamente, não entendo este Papa, tudo o que ele diz está muito além da compreensão racional. É evidente para todos que um recebimento indiscriminado não é possível: há um ponto crítico que não se pode alcançar. Se o Papa não faz referência a este ponto crítico, insiste-se em um recebimento massivo e total, pergunto-me a mim mesmo: por que o diz? Qual é o fim último de suas palavras? Por que lhe falta um mínimo de realismo, o mesmo que pede a qualquer um? A resposta que dou a mim mesmo é só uma: o Papa o faz porque odeia o ocidente, aspira destruí-lo, e faz todo o possível para chegar a esse fim. Ele aspira destruir a tradição cristã, o cristianismo tal como se desenvolveu históricamente”.

“Se tomamos em consideração o limite crítico sobre o qual as nossas sociedades já não podem receber a mais ninguém, nem assegurar a dignidade que corresponde a cada ser humano, veremos de imediato uma verdadeira invasão que nos submergirá a todos e que colocará em risco nossos costumes, nossa liberdade, e o próprio cristianismo. Haverá uma reação e uma gerra. Como o Papa não compreende isso? De que lado estará quando se desencadear essa guerra civil?”

Não crê que o Evangelho está relacionado com isso, a pregação de Cristo? A ética do Papa não seria talvez uma convicção absoluta, abstrata, que nã leva em consideração as consequências?” 

“Não, absolutamente. Assim como não há motivos racionais para isso, tampouco há motivos evangélicos para explicar o que o Papa diz. Ao fim, trata-se de um Papa que desde o dia de sua eleição só faz política. Ele busca o aplauso fácil, fazendo algumas vezes o papel de Secretário Geral da ONU, outras de Chefe de Governo, outras de líder sindical intervindo em acordos contratuais de uma corporação como Mediaset. E sua visão é a do Justicialismo peronista sul-americano, que não tem nada a ver com a tradição europeia de liberdade política de origem cristã. O cristianismo do Papa é de natureza diferente. E é um cristianismo político, inteiramente”.

No entanto, isso não parece provocar uma reação dos secularistas, que estavam permanente e efetivamente atentos durante os pontificados anteriores.

“Na Itália, o conformismo é total. Trata-se de um Papa apreciado pela opinião pública informada, responde a certas urgências básicas que eles têm, e estão prontos para aplaudi-lo, inclusive quando diz bobeiras”.

Em um trecho da entrevista a Scalfari, depois de ter feito um chamado à Europa, o Papa diz temer “alianças muito perigosas” contra os imigrantes por parte dos “poderes que têm uma visão distorcida do mundo: Estados Unidos e Rússia, China e Coréia do Norte”. Não é ao menos estranho juntar a uma antiga democracia como a dos Estados Unidos países fortemente autoritários e inclusive diretamente totalitários? 

“Sim, mas não me surpreende, à luz do que disse antes. O Papa reflete todos os preconceitos da América do Sul em relação à América do Norte, aos mercados, à liberdade e ao capitalismo. Ele o teria feito inclusive se Obama continuasse sendo presidente americano, porém, não há dúvida de que essas idéias do Papa estão fortemente associadas, em uma combinação perigosa, com o sentimento anti-Trump estendido por toda a Europa”.

Sr. Presidente, insistirei um pouco sobre esse “fazer política” do Papa. É, de fato, uma novidade em relação ao passado? 

“Sem dúvida. Bergoglio está pouco ou nada interessado no cristianismo enquanto doutrina, no aspecto teológico. E isso é uma novidade, sem dúvida. Este Papa tomou as rédeas do cristianismo e o converteu em política. Suas afirmações parecem se basear nas escrituras, porém, na realidade, são fortemente secularistas. A Bergoglio não importa a salvação das almas, mas o bem-estar e a seguridade social. E isso é um fato preliminar. Se depois nos voltamos a ouvir as coisas que diz, não podemos deixar de ver com preocupação que suas afirmações podem desencadear uma crise política e uma crise religiosa incontroláveis. Do primeiro ponto de vista [político], ele sugere que nossos Estados se suicidem, convida a Europa a deixar de ser ela mesma. Do segundo ponto de vista [religioso], não posso deixar de observar que no mundo católico se está desenvolvendo, às ocultas, um cisma, que é buscado por Bergoglio com obstinação e determinação, e por seus aliados, inclusive até com maldade”.

Por que isso está acontecendo? Não é completamente irracional?

“Não, não é. Diria, inclusive, que o Concílio Vaticano II explodiu finalmente em toda a sua radicalidade revolucionária e subversiva. São idéias que conduzem ao suicídio da Igreja Católica, idéias que já estavam respaldadas e justificadas naquele momento e ocasião. Esquecemo-nos que o Concílio precedeu as revoluções estudantil, sexual, de costumes e modos de vida. Antecipou-se a eles e, de certa forma, provocou-as. Naquele momento, o aggiornamento do cristianismo secularizou fortemente a Igreja, deflagrou uma mudança tão profunda que, ameaçando um cisma, foi controlado e mantido sob controle nos anos seguintes. Paulo VI respaldou [o Concílio], mas, ao fim, acabou sendo sua vítima. Os grandes Papas que lhe sucederam [João Paulo II e Bento XVI] estavam plenamente conscientes das consequências que tinham sido deflagradas, porém, tentaram estabelecer uma ponte entre o novo e a tradição. Fizeram-no de maneira sublime. Tinham revertido o curso; mas, agora, as rédeas foram soltas: a sociedade, no lugar da salvação; a cidade terrena de Santo Agostinho, no lugar da divina; elas parecem ser o ponto de referência da hierarquia eclesiástica governante. Os direitos do homem, todos, sem exclusão, tornaram-se o ideal e a bússola da Igreja, enquanto quase não resta lugar para os direitos de Deus e a tradição. Ao menos, aparentemente. Bergoglio se sente e vive completamente emancipado disso”.

Por que “aparentemente”?

“Porque, por trás da tela e dos aplausos, nem tudo que reluz é ouro. O aplauso na Praça de São Pedro não é tudo. Eu, que vivo no campo, dou-me conta que uma parte do clero, especial e surpreendentemente os mais jovens, permanecem estupefatos e confusos diante de certas afirmações do Papa. Sem mencionar a tantas pessoas que hoje já vivem com problemas de segurança que geram os imigrantes nas cercanias e se irritam quando ouvem falar de recebimento incondicional. O clero de idade madura está mais ao lado de Bergoglio: seja por conformismo seja por oportunismo, ou por convicção (tendo crescido também no mesmo ambiente cultural dos anos setenta, que é a origem de certas escolhas). Precisamente, devido a isso, falo de cisma profundo e latente. O qual não parece preocupar o Papa”.

O que pensa, em linhas gerais, sobre o controle das ondas migratórias e a insensibilidade da Europa em relação à Itália?

“Nosso país está sozinho, dramaticamente sozinho. É perigoso. Preocupa-me. Estamos sós porque outros países buscam seus interesses nacionais acima de tudo. Por trás das belas palavras de fachada, não se preocupam muito conosco. E estamos sós porque a Igreja nos convida a abrir de par em par as portas, e parece inclusive desfrutar de nossa debilidade. Temo uma reação brutal. Temo que o protesto do povo azede e alcance um resultado não desejável. Neste caso, não é questão de direita ou esquerda. Ademais, penso que as contradições do Papa serão vistas logo à luz do dia: ele já não está em sintonia com os fiéis. É altamente provável uma aliança entre os católicos conservadores e as forças nacionais, por assim dizer”.

…[*]

Como sair dessa crise? O que o senhor espera? 

“Espero que o Papa tome em suas mãos a cruz do ocidente, de seus valores. Que não sonhe com um ocidente empobrecido. E na Itália, espero uma classe política e uma opinião pública que volte a colocar no centro de seu discurso público os assuntos de identidade, sentimento nacional e tradição. No entanto, sempre sou mais pessimista. E tomo cada vez mais comprimidos para manter a calma”.

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* Pergunta não relacionada à Igreja, mas com o Primeiro Ministro Matteo Renzi.

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19 julho, 2017

O escândalo do silêncio.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 20-06-2017 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.com: Os quatro cardeais autores dos “dubia” sobre a Exortação Amoris laetitia tornaram público, através do blog do vaticanista Sandro Magister, um pedido de audiência apresentado pelo cardeal Carlo Caffarra ao Papa em 25 de abril passado, uma vez que os “dubia” não obtiveram resposta. O silêncio deliberado do Papa Francisco – que, no entanto, recebe personalidades muito menos relevantes em Santa Marta para discutir questões muito menos importantes para a vida da Igreja – é a razão da publicação do documento.

No pedido filial de audiência, os quatro cardeais (Brandmüller, Burke, Caffara e Meisner) fazem saber que gostariam de explicar ao Pontífice as razões dos “dubia” e expor a situação de grave confusão e perplexidade em que se encontra a Igreja, especialmente no que diz respeito a pastores de almas, em particular os párocos.

Na verdade, no ano que transcorreu a partir da publicação da Amoris laetitia, “foram dadas em público interpretações de alguns passos objetivamente ambíguos da Exortação pós-sinodal, não divergentes do, mas contrárias ao permanente Magistério da Igreja. Conquanto o Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé tenha declarado mais de uma vez que a doutrina da Igreja não mudou, apareceram numerosas declarações de bispos, cardeais e até mesmo de conferências episcopais, que aprovam o que o Magistério da Igreja jamais aprovou. Não apenas o acesso à Santa Eucaristia daqueles que objetiva e publicamente vivem numa situação de pecado grave, e pretendem nela continuar, mas também uma concepção da consciência moral contrária à Tradição da Igreja. Sucede assim – oh, e quão doloroso é vê-lo! – que o que é pecado na Polônia é bom na Alemanha, o que é proibido na Arquidiocese de Filadélfia é lícito em Malta, e assim por diante. Vem-nos à mente a amarga constatação de B. Pascal: ‘Justiça do lado de cá dos Pirenéus, injustiça do lado de lá; justiça na margem esquerda do rio, injustiça na margem direita’ ”.

Não há escândalo nem transgressão no fato de os colaboradores do Papa pedirem uma audiência privada, e que no pedido descrevam, com parrhesia mas objetivamente, a divisão que a cada dia cresce na Igreja. O escândalo é a recusa do Sucessor de Pedro em ouvir aqueles que pedem para ser recebidos. Tanto mais quanto o Papa Francisco quis fazer do “acolhimento” a marca registrada de seu pontificado, afirmando em um de seus primeiros sermões em Santa Marta (25 de maio de 2013) que “os cristãos que pedem nunca devem encontrar portas fechadas”. Por que recusar audiência a quatro cardeais que não fazem senão cumprir o seu dever de conselheiros do Papa?

         As palavras dos cardeais são filiais e respeitosas. Pode-se supor que a intenção deles seja de procurar “discernir” melhor, em uma audiência privada, as intenções e os planos de Papa Francisco, e eventualmente de fazer ao Pontífice uma correção filial in camera caritatis. O silêncio do Papa Francisco em relação a eles é obstinado e descortês, mas expressa em sua teimosia a conduta daqueles que vão adiante em seu caminho com determinação. Dada a impossibilidade de uma correção privada, pela inexplicável recusa de uma audiência, também os cardeais deverão prosseguir com decisão em seu caminho, se quiserem evitar que na Igreja o silêncio seja mais forte que suas palavras.

17 julho, 2017

Bento XVI: “O Senhor não abandona a sua Igreja, mesmo se, às vezes, a barca esteja quase repleta a ponto de soçobrar”.

Uma palavra de saudação de Bento XVI, Papa Emérito, por ocasião da missa de requiem do Cardeal Joachim Meisner, no dia 15 de julho de 2017.

Fonte: Rorate-Caeli | Tradução: FratresInUnum.com

Retirado da homenagem escrita de 2 páginas (original em alemão) pelo Papa Emérito Bento:

Neste momento, quando a Igreja de Colônia e os fiéis mais distantes se despedem do Cardeal Joachim Meisner, estou junto deles em meu coração e pensamentos e tenho a satisfação de atender ao desejo do Cardeal Woelki e dirigir-lhes uma palavra de reflexão.

Meisner

Bento XVI e o Cardeal Joachim Meisner.

Quando, na quarta-feira passada, fui informado, por telefone, sobre a morte do Cardeal Meissner, a princípio, não consegui acreditar. Havíamos conversado no dia anterior. Pela maneira de falar, ele estava grato por agora estar descansando, depois de ter participado no domingo anterior (25 de junho) da beatificação do bispo Teofilius Maturlionis, em Vilnius. Seu amor pelas Igrejas vizinhas do Oriente, que sofreram perseguição sob o Comunismo, bem como a gratidão pela resistência no sofrimento durante esse tempo deixaram uma marca indelével no Cardeal. Portanto, certamente não foi por acaso que a última visita de sua vida foi a um confessor da fé.

O que me impressionava de modo particular nas últimas conversas que tive com o Cardeal, agora de volta à casa do Pai, era a alegria natural, a paz interior e a tranquilidade que ele havia encontrado. Sabemos que foi difícil para ele, um apaixonado pastor de almas, deixar seu cargo, e isso precisamente no momento em que a Igreja tinha necessidade urgente de pastores que se oporiam à ditadura do zeitgeist [espírito do tempo], totalmente decididos a agir e pensar da perspectiva da fé. No entanto, fiquei ainda mais impressionado porque, nesse último período de sua vida, ele aprendeu a relaxar e viver cada vez mais da convicção de que o Senhor não abandona a sua Igreja, mesmo se, às vezes, a barca esteja quase repleta a ponto de soçobrar.

Havia duas coisas que nesse período final lhe permitiram ficar cada vez mais feliz e tranquilo:

– A primeira foi que ele sempre me contava que o que o enchia de profunda alegria era experimentar, no Sacramento da Penitência, como os mais jovens, acima de todos os jovens, passaram a experimentar a misericórdia do perdão, o dom de efetivamente  descobrir a vida, que só Deus pode lhes dar.

    – A segunda, que sempre lhe comovia e deixava feliz, foi o aumento perceptível da adoração Eucarística. Para ele esse foi o tema central na Jornada Mundial da Juventude em Colônia – o fato de que havia Adoração, um silêncio, em que o Senhor sozinho fala aos corações.

Algumas autoridades pastorais e litúrgicas consideravam que não seria possível conseguir esse silêncio na contemplação do Senhor com um número tão grande de pessoas. Alguns também pensavam que a adoração Eucarística, como tal, foi ultrapassada, porque o Senhor queria ser recebido no pão Eucarístico, em vez de ser contemplado. No entanto, o fato de que uma pessoa não pode comer esse pão apenas como uma espécie de alimento, e que “receber” o Senhor no Sacramento Eucarístico inclui todas as dimensões da nossa existência – receber tem que ser adoração, algo que entrementes tornou-se cada vez mais claro. Assim, o período de adoração Eucarística na Jornada Mundial da Juventude de Colônia tornou-se um evento interior que permanece inesquecível, e não apenas ao Cardeal. Posteriormente, esse momento esteve sempre presente em seu coração e lhe deu grandes luzes.

Quando na última manhã o Cardeal Meisner não apareceu para a Missa, ele foi encontrado morto em seu quarto. O breviário havia escorregado de suas mãos: ele morreu enquanto rezava, seu rosto estava voltado para o Senhor, em conversa com o Senhor. A arte de morrer, que lhe foi dada, demonstrou novamente como ele havia vivido: com a face voltada para o Senhor e conversando com ele. Assim, podemos confiar sua alma à bondade de Deus. Senhor, agradecemos o testemunho desse seu servo, Joachim. Deixai-o agora interceder pela Igreja de Colônia e pelo mundo inteiro! Descanse em paz!

[Nota: Traduzido por Dom Michael G Campbell OSA, Bispo de Lancaster, Reino Unido, e publicado no site da Diocese de Lancaster como um arquivo PDF.]

 

16 julho, 2017

Foto da semana.

IBP novos padres

Bordeaux, França, 1º de julho de 2017: Cinco diáconos são ordenados sacerdotes para o Instituto do Bom Pastor, dentre eles dois brasileiros, Marcos Vinicius Mattke e Ivan Chudzik, respectivamente, os dois primeiros da esquerda para a direita. Ambos, antigos leitores que colaboraram com publicações de FratresInUnum.com (ver aqui, aqui,  aquiaquiaquiaquiaqui, aqui

 

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14 julho, 2017

A  Reforma Litúrgica de Cranmer, de Michael Davies, agora em português.

Por FratresInUnum.com – Recebemos com alegria a notícia da publicação em português do primeiro livro da trilogia Revolução Litúrgica, de Michael Davies (conhecido de nossos leitores – cf. aqui e aqui), um livro que há tempos fazia falta ao leitor de língua portuguesa.

cranmerA Reforma Litúrgica de Cranmer mostra, ao examinar o Prayer Book (Livro de Oração) de Thomas Cranmer, de 1549, a extensão na qual a fé do povo católico pôde ser alterada simplesmente ao se alterar a liturgia. Nas palavras do autor: “A maneira como rezamos reflete e, em grande parte, decide o que cremos. (…) As crenças que fizeram com que os reformadores ingleses repudiassem o catolicismo e estabelecessem em seu lugar uma nova religião são explicadas em detalhe e, na maioria dos casos, com suas próprias palavras. Isso deixa claro que eles entendiam perfeitamente o que a Igreja Católica ensinava em relação a doutrinas tão fundamentais quanto a Eucaristia, e que rejeitaram aquele ensinamento completamente.”

O livro pode ser adquirido pela internet neste link: www.permanencia.org

Nos próximos meses, de acordo com a editora Permanência, serão publicados os dois outros livros da trilogia: O Concílio de João XXIII e A Missa Nova de Paulo VI.

É, sem dúvida, uma excelente forma de “co-memorarmos” (i.e., lembrarmos juntos) os 500 anos da revolta protestante e melhor compreendermos estes tempos singulares em que a Providência quis que vivêssemos.

13 julho, 2017

Cardeal Müller desmente boatos e afirma que o Papa não o tratou mal.

Roma, 12 Jul. 17 / 05:00 pm (ACI).- O Cardeal Gerhard Ludwig Müller negou energicamente os boatos da imprensa que afirmam que o Papa Francisco lhe fez cinco perguntas antes de informar que não iria renovar o seu mandato como Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.

Citando uma fonte alemã anônima, que por sua vez afirmou ter recebido a informação de outra pessoa, o site católico de notícias “One Peter Five” e o vaticanista italiano Marco Tosatti informaram que o Papa Francisco, ao se reunir com o Cardeal Müller no dia 30 de junho, fez cinco perguntas sobre alguns temas como a introdução de um diaconato feminino até a abolição do celibato, sua posição sobre “Amoris Laetitia”, sua posição sobre a decisão do Papa de demitir três membros do dicastério e a ordenação sacerdotal de mulheres.

De acordo com essas informações, depois de escutar as respostas do Cardeal alemão, Francisco lhe informou que o seu mandato havia terminado e saiu da sala, deixando para trás um paciente Müller que esperava do Santo Padre um sinal de gratidão, até que, envergonhado, o Arcebispo George Gänswein, Prefeito da Casa Pontifícia, disse ao Cardeal que a reunião havia terminado.

Entretanto, o Cardeal Müller assinalou ao veterano vaticanista Guido Horst que nenhuma dessas afirmações é verdadeira. Guido Horst, em um artigo de opinião publicado no site CNA Deucth – agência em alemão do Grupo ACI–, descreveu pessoalmente o encontro que teve com o purpurado alemão em Roma na manhã do dia 11 de julho.

O jornalista, correspondente do jornal “Tagespost”, mostrou ao Cardeal uma cópia dessas informações: o próprio Müller, de 69 anos, não havia visto a reportagem na internet.

O Cardeal ficou “perplexo ao ler esta descrição do seu encontro com o Papa”, escreveu Horst. “Isso é mentira”, disse-lhe o Cardeal Müller. De fato, indicou o Purpurado, todo o encontro ocorreu de maneira muito diferente e as afirmações da “fonte alemã anônima” são completamente falsas.

Os comentários do Cardeal coincidem com um breve e-mail enviado ontem pelo Diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, Greg Burke, ao site “One Peter Five” e a Marco Tosatti. Neste e-mail, Burke afirma que “a reconstrução (do encontro) é totalmente falsa” e solicita que a matéria seja atualizada.

12 julho, 2017

Padre Romano sem fronteiras.

O artigo Quo vadis, Bergoglio? do nosso caríssimo Padre Romano foi traduzido e publicado por duas relevantes páginas italianas — Una Vox e Chiesa et Post Concilio — e até traduzido para o tcheco! Agradecemos ao leitor Gederson Falcometa pela informação.