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19 janeiro, 2017

A propósito da desconcertante participação do abortista Paul Ehrlich em um evento do Vaticano.

Por Prof. João Cláudio | FratresInUnum.com

A propósito da desconcertante participação do abortista Paul Ehrlich em um evento do Vaticano, e do ainda mais assustador silêncio dos papólatras de plantão.

Stefano Gennarini, discípulo de Joseph Ratzinger, responsável pela região Veneto, na Itália, do movimento Caminho Neocatecumenal e diretor do Centro de Estudos Jurídicos do Centro para a Família e os Direitos Humanos  (C-Fam), declarou estar “chocado” com o convite, que, de fato, concede um “imprimatur moral do Vaticano ” às teses de Ehrich sobre o uso do aborto seletivo e do infanticídio como métodos de redução demográfica.

Há em ato uma indiscutível abertura do Vaticano a histerismos ambientalistas, ao relativismo moral sob várias frentes e ao pensamento neomarxista, visível em palavras, atos e silêncios de Sua Santidade, o Papa Francisco; na escolha de seus colaboradores mais próximos, nas nomeações e demissões em institutos ligados mais diretamente à proteção da vida e da família  — que agora têm uma maioria de prelados e leigos de dúbia reputação.

No Vaticano, os elementos mais heterodoxos e debochados, mantidos de rédeas curtas nos papados anteriores, estão à solta. Os que se mantêm fiéis à Igreja, ou foram já dispensados ou estão acuados. Em geral, há um clima difuso de silêncio e terror, como contraponto ao marketing da “misericórdia” e da “tolerância” que se quer vender para a mídia mainstream  para os mais desavisados.

Há em Roma um inegável processo de autodemolição da fé e da moral perenes do Catolicismo.

O que fazer?

Rezar por Roma e pelo nosso Papa. Sem dúvida. Como sempre.

Rezar para que Deus tenha compaixão da sua Igreja e afaste de nós as pragas da heresia e da apostasia.

Apontar sem medo os atentados perpetrados a dano do tesouro perene da Igreja, daquilo que não pode ser modificado em hipótese alguma: Fé e Moral. Indicar, sem receio e sem falsas subserviências, os autores sempre mais ousados e apressados desta obra demoníaca de desmantelamento da última fortaleza contra a cultura da morte, prestes a tomar conta definitivamente desta geração.

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13 janeiro, 2017

Desordem na Ordem de Malta.

A demissão, no mês passado, do grão-chanceler da ordem pelo grão-mestre, relacionada ao envolvimento da ordem na distribuição de contraceptivos artificiais, desencadeou um grave desentendimento com a Santa Sé. 

Por Edward Pentin, National Catholic Register, 7 de janeiro de 2017 | Tradução: FratresInUnum.com: A demissão de uma figura importante da Soberana Ordem de Malta relacionada com a distribuição em alguns países em desenvolvimento provocou um grave desentendimento entre os Cavaleiros de Malta e a Santa Sé, mas, que ambas as partes esperam ser rapidamente resolvido.

An Anglo-Polish Carol Service Takes Place At St Clement Danes ChurchA disputa, que levou a uma controversa intervenção da Santa Sé, expôs uma abordagem divergente quanto ao tratamento a ser dado a práticas que a Igreja sempre ensinou serem gravemente imorais. Também revelou alegações de ambição da associação alemã dos Cavaleiros em estender sua influencia dentro da antiga ordem de cavaleria, o desejo do papa de livrar a ordem da maçonaria e uma misteriosa doação de 120 milhões de francos suíços (US$ 118 milhões, cerca de R$ 413 milhões) aos Cavaleiros.

A Ordem Soberana e Militar de Malta é uma ordem religiosa leiga sediada em Roma e remonta à Primeira Cruzada. Defendeu extensamente a fé contra as perseguições e se dedicou a ajudar no cuidados dos pobres, doentes e vulneráveis, empregando um pessoal médico de cerca de 25 mil profissionais e 80 mil voluntários por todo o mundo. É considerada um sujeito soberano pelo direito internacional e tem relações diplomáticas com 106 países.

O Cardeal americano Raymond Burke é o cardeal patrono da ordem, cuja tarefa é promover as relações entre a Santa Sé e os Cavaleiros e manter o Santo Padre informado sobre os aspectos espirituais e religiosos da ordem.

A disputa em andamento, que o Secretário de Estado do Vaticano, Cardeal Pietro Parolin, descreveu como uma “crise sem precedentes”, primeiramente tornou-se pública após o grão-mestre dos Cavaleiros de Malta, Fra’ Matthew Festing, demitir Albrecht Freiherr von Boeselager do posto de grão-chanceler (o oficial de número três da ordem), em 6 de dezembro, acusando-o de ser, ao fim, o responsável pela distribuição de contraceptivos através da agência humanitária da ordem Malteser International.

Apesar de ter professado votos de obediência ao grão-mestre como Cavaleiro de Segunda Classe, o experiente Cavaleiro alemão se recusou a renunciar no encontro de 6 de dezembro, um ato de insubordinação que a ordem qualificou de “vergonhoso” e que provocou um “procedimento disciplinar” que suspendeu Boeselager de todos os encargos nos Cavaleiros de Malta, segundo uma declaração de 13 de dezembro. A constituição da Ordem de Malta afirma que a obediência na ordem requer a obrigação de executar qualquer instrução como legitimamente dada pelo superior, dependendo da motivação da instrução.

Preservativos distribuídos

A razão para a demissão de Boeselager remonta, primeiramente, a quando ele era o grande hospitalário de 1989 a 2014, responsável pela Malteser International, a grande agência de ajuda humanitária dos Cavaleiros sediada em 24 países. Durante seu mandato, a organização documentou ter distribuído milhares de preservativos e contraceptivos orais, principalmente, mas não exclusivamente, para ajudar a prevenir prostitutas, no Extremo Oriente e na África, de pegarem HIV/AIDS.

“Eles estavam distribuindo preservativos não só a pacientes, mas a trabalhadores em geral”, declarou uma fonte bem informada ao Register, sob condição de anonimato. “A motivação aparente era prevenir a difusão da AIDS, e então, em geral, enquanto programa de planejamento familiar, também — espaçamento de nascimentos e coisas do tipo, que dificilmente pode ser relacionado à AIDS”.

No fim de 2014, o grão-mestre tomou ciência do caso; e em maio de 2015, Fra’ Festing instituiu uma comissão de três pessoas para descobrir o que aconteceu. A comissão apresentou seus resultados em janeiro de 2016; o caso da distribuição de contraceptivos foi posteriormente catalogado pelo Instituto Lepanto, demonstrando que milhares de contraceptivos foram distribuídos entre 2015 e 2012.

Boeselager tinha ciência do caso há algum tempo e foi primeiramente informado dessa situação “ao menos desde 2013, quando detinha o posto de grande hospitalário, ou desde quando Malteser International ordenou uma avaliação abrangente de todos os projetos acerca de sua conformidade ao ensinamento da Igreja Católica”, declarou Eugenio Ajroldi di Robbiate, diretor de comunicação dos Cavaleiros de Malta. “Desde o fim de 2014 até dezembro de 2016, houve diversas ocasiões em que o grão-mestre e Albrecht Boeselager discutiram o assunto”.

O porta-voz ressaltou que a comissão “reconheceu o profissionalismo da Malterser Internacional e a importância de seus projetos em 24 países do mundo, ressaltando que os que geraram problemas morais estavam limitados a Myanmar, Quênia e Sudão do Sul”.

Boeselager responde

Em uma declaração de 23 de dezembro, Boeselager protestou que não havia bases válidas para renunciar e que o “procedimento estabelecido” para sua remoção não foi seguido. Ele também criticou uma instrução do grão-mestre, afirmando que sua diretriz de que membros que não concordassem de sua decisão deveriam renunciar “recordava um regime autoritário”.

Quanto ao assunto dos contraceptivos, o ex grão-chanceler afirmou que a distribuição de preservativos em Myanmar para prevenir a difusão da AIDS foi “iniciada em nível local” e “sem o conhecimento” da sede da Malteser International. Tão logo a ordem soube da distribuição de preservativos, dois dos projetos foram imediatamente paralisados. Um terceiro continuou, declarou ele, porque um fim abrupto teria privado uma região pobre de Myanmar de todos os serviços médicos básicos. Esse projeto, por fim, terminou após a Congregação para a Doutrina da Fé intervir.

Boeselager afirmou que ele sempre enfatizou “claramente” que sente-se “vinculado aos ensinamentos da Igreja” e que “maquinar uma acusação” de que ele não reconhece os ensinamentos da Igreja sobre sexualidade e família, com base nos acontecimentos em Myanmar, é “absurdo”.

Todavia, um membro austríaco da Malteser International continua a defender o uso de preservativos  para prevenir a infecção por HIV em seu website, muito embora a Igreja ensine que o uso de contraceptivos é “gravemente imoral” em qualquer circunstância.

Esperava-se que o escândalo dos contraceptivos fosse tratado em 10 de novembro, quando o Cardeal Burke foi recebido em audência privada pelo Papa Francisco. Durante o encontro, Register soube que o Papa ficou “profundamente perturbado” por aquilo que lhe contou o cardeal. O Papa também deixou claro ao Cardeal Burke que ele desejava que a maçonaria fosse “expelida” da ordem, e pediu ações apropriadas.

A preocupação se seguiu por uma carta de 1º de dezembro ao Cardeal Burke, na qual Register tomou conhecimento de que o Santo Padre enfatizou ao cardeal o dever de promover o interesse espiritual da ordem e de remover qualquer afiliação com grupos ou práticas contrários à lei moral.

O Santo Padre não pediu explicitamente na carta que Boeselager fosse demitido, e, contrariamente a matérias, o Cardeal Burke insistiu que ele nunca teria dito a Boeselager que o Papa pediu especificamente por sua demissão. Antes, fontes internas se empenharam por dizer que a liderança dos Cavaleiros não podia ver como a questão poderia ser retificada de outra forma, quando se envolvia grande escândalo e ninguém assumia a responsabilidade por isso. A liderança acreditava estar claro que Boeselager era o principal responsável pelo que aconteceu, especialmente quando, durante o encontro de 6 de dezembro, não deu resposta quando questionado sobre a razão de não ter formalmente protestado sobre a exatidão do relatório da comissão.

Uma fonte confiável também recorda que Boeselager afirmou em uma recepção em Roma, em 2014: “Temos de dar contraceptivos aos pobres ou eles morrerão”. Boeselager também, conforme relatos, não respondeu quando confrontado com esta afirmação no encontro de 6 de dezembro.

A liderança dos Cavaleiros, incluindo o Cardeal Burke, estavam convencidos que havia se dado uma grave violação da lei moral, e especialmente quando ela se estendeu por um período de tempo, as pessoas responsáveis tinham de ser disciplinadas; de outra forma, a instituição perderia sua credibilidade.

Boeselager não respondeu ao pedido do Register para comentar as questões relacionadas à sua demissão.

A intervenção do Cardeal Parolin

Após sua demissão, fontes internas afirmam que Boeselager foi ao Cardeal Parolin, erroneamente contando a ele que lhe foi dito pelo Cardeal Burke que o Papa o instruía a renunciar.

Porque ele via a situação como uma emergência, segundo as fontes, o Cardeal Parolin não verificou o que foi comunicado a Boeselager pelo Cardeal Burke antes de escrever uma carta, em 12 de dezembro, a Fra’ Festing em nome do Santo Padre. Nela, ele enfatizava que as “únicas instruções” do Papa foram aquelas dadas ao Cardeal Burke em sua carta de 1º de dezembro.

“Em particular, a respeito do uso e distribuição de métodos e meios contrários à lei moral, Sua Santidade pediu que o diálogo [ênfase dele] seja a abordagem usada para tratar e resolver potenciais problemas”, escreveu o Cardeal Parolin em sua carta. “Ele nunca mencionou, pelo contrário, expelir ninguém”. O Cardeal acrescentou que esperava que o diálogo fosse usado para “adiante encontrar uma forma prudente que seja vantajosa a todos”.

Em resposta, Fra’ Festing destacou que a decisão que ele havia tomado era “plenamente de acordo com as instruções” retransmitidas pelo Cardeal Burke e pediu por um encontro urgente com o Cardeal Parolin para encontrar um caminho a seguir. No encontro, o Cardeal Parolin disse que ele queria instituir uma comissão para investir os assuntos relacionados à demissão. O grão-mestre e a liderança dos Cavaleiros recusou tal comissão, principalmente por conta do status de soberania dos Cavaleiros que proíbe tal interferência em seu governo interno, segundo o direito internacional.

A liderança dos Cavaleiros ficou com a impressão de que o Cardeal Parolin havia voltado atrás com a idéia.

A Comissão de Inquérito

No entanto, em 22 de dezembro, o grão-mestre e o Cardeal Burke receberam uma carta do Vaticano, comunicando que uma comissão, ou grupo, havia sido estabelecido; que as instruções do Papa em sua carta de 1º de dezembro deveriam ser suspensas; e que nada mais deveria ser feito até que o recém formado grupo concluísse seu trabalho. O Vaticano também informou a mídia no mesmo dia, embora não através do boletim diário do Vaticano, mas, por um e-mail, que o grupo de cinco membros tinha por objetivo rapidamente obter informação sobre a disputa.

Questionado se queria compartilhar sua opinião a respeito, o Cardeal Burke declarou ao Register: “Não posso fazer qualquer comentário sobre essas decisões porque nunca fui consultado. Eu estava presente na demissão”. Mas, ele acrescentou que o que lhe preocupava “muitíssimo” em toda “infeliz reação à justa ação do grão-mestre era a perda de sentido do que estava em jogo, isto é, uma grave violação do ensino moral da Igreja e, de fato, da lei moral natural por uma proeminente e histórica instituição Católica”.

Os cinco membros da comissão de inquérito são o arcebispo Silvano Tomasi, antigo observador da Santa Sé nas Nações Unidas em Genebra; o padre jesuíta Gianfranco Ghirlanda, ex reitor da Pontifícia Universidade Gregoriana; Jacques de Liedekerke, advogado; Marc Odendall, um banqueiro de investimento; e Marwan Sehnaoui, presidente da Ordem de Malta no Líbano.

Exceto Padre Ghirlanda, todos os indicados do grupo são membros da ordem, e a maior parte são de aliados de Boeselager. Odendall é conhecido por ser particularmente apoiador de Boeselager, e o Arcebispo Tomasi é um bom amigo de Odendall, segundo fontes de dentro da ordem.

Ademais, Register soube que Odendall, Sehnaoui e o Arcebispo Tomasi estiveram relacionados com Boeselager quanto a uma herança enorme deixada para a ordem por um benfeitor residente na França, avaliada em ao menos 120 milhões de francos suíços (US$ 118 milhões, cerca de R$ 413 milhões). O Cardeal Parolin tem conhecimento da doação desde, ao menos, março de 2014.

O Secretário de Estado também é conhecido amigo de Boeselager, e, em 15 de dezembro, nomeou seu irmão, Georg Freiherr von Boeselager, como um dos três novos membros da conselho do IOR (Banco do Vaticano).

O Cardeal declinou responder a uma série de questões sobre a demissão de Boeselager e a comissão papal, dizendo ao Register, em 2 de janeiro, que “não era oportuno”.

A Ordem rejeita a Comissão.

Em uma carta de 3 de janeiro aos Cavaleiros, o novo chanceler da Ordem, Fra’ John Critien, insistiu que a ordem “não pode colaborar” com a comissão papal, não só por conta de sua “irrelevância jurídica” em relação ao sistema legal da ordem, mas, “acima de tudo”, a fim de “proteger suas prerrogativas soberanas contra iniciativas objetivamente destinadas a questionar ou limitar seu caráter soberano”. A ordem já publicamente declarou que tal “interferência” é “inaceitável”.

Ele, portanto, enfatizou que a não colaboração com a comissão se dá puramente por “motivações jurídicas” e “não é, e de forma alguma pode ser considerada uma falta de respeito para com a comissão em si, nem para com o Secretariado de Estado da Santa Sé”.

Apoiadores da comissão afirmaram que uma das principais razões de ela ter sido erigida era que as associações nacionais da Ordem de Malta apoiavam Boeselager. Isso não parece ser exato, como Register pôde ver em cartas de apoio ao grão-mestre de várias associações, incluindo Itália, Espanhoa, Portugal, México, Chile e Malta.

Em 4 de janeiro, o Arcebispo Tomasi respondeu à carta de Fra’ Critien, de 3 de janeiro, que ele afirmou “fazer algumas declarações cujas imprecisões geram equívocos” e “diretamente contradizem os desejos do Santo Padre”. Segundo o arcebispo, a questão relacionada à demissão de Boeselagar “não é só a soberania da ordem, mas a afirmação razoável de procedimentos questionáveis e de falta de causa provadamente válida para ação tomada”. Também, ele disse, “nunca houve um pedido de renúncia ou demissão de ninguém, da parte da Santa Sé e especificamente do Santo Padre”.

“Acerca do que Sua Excelência qualifica de irrelevância jurídica da comissão, os argumentos usados para substituir o grão-chanceler provocaram a sua ereção pelo Santo Padre, uma vez que a irregularidade inferida quanto ao procedimento profundamente dividiu a ordem”, declarou o Arcebispo Tomasi.

Procurando uma solução

Tanto a ordem como a Santa Sé estão empenhados em resolver rapidamente o problema, e apesar dos protestos das altas esferas da ordem, o Vaticano continua a ver a comissão papal, que se encontrou pela primeira vez em 5 de janeiro, como a melhor forma de encontrá-la.

Em comentários ao jornal italiano Il Messaggero, de 31 de dezembro, o Cardeal Parolin afirmou que a comissão “reuniria informação, e depois vamos ver”.

Este artigo é a primeira de duas partes. 

Edward Pentin é o correspondente do Register em Roma

12 janeiro, 2017

Quem quer destruir a Ordem de Malta?

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 11-01-2017 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.com“Muito antes que as Nações tivessem chegado a estabelecer uma lei internacional; muito antes que tivessem podido forjar o sonho – ainda não realizado – de uma força armada comum para proteção da sã liberdade humana, da independência dos povos e de uma pacífica equidade nas suas relações mútuas, a Ordem de São João já havia reunido em uma irmandade religiosa e sob a disciplina militar, homens de oito ‘línguas’ diferentes, votados à defesa dos valores espirituais, que constituem o apanágio comum da Cristandade:  a fé, a justiça, a ordem social e a paz.”

ordine-di-maltaEssas palavras, dirigidas em 8 de janeiro de 1940 pelo Papa Pio XII aos Cavaleiros da Soberana Ordem Militar de São João de Jerusalém, dita de Rodes e depois de Malta, resumem as características da mais antiga das Ordens de Cavalaria, o único Estado soberano cuja bandeira ondulou no campo das Cruzadas. Uma ordem cujo carisma tem sido sempre o da “Tuitio fidei et Obsequium pauperum” [Defesa da fé e serviço dos pobres]. É imaginável que um Papa queira destruir essa instituição, glória da Cristandade? Infelizmente, é precisamente esta a impressão que se tem  dos últimos acontecimentos relativos à Ordem de Malta.

Correspondência Romana ofereceu uma primeira reconstrução dos fatos em 24 de dezembro de 2016. Edward Pentin aprofundou e enriqueceu o cenário com novos detalhes no National Catholic Register de 7 de janeiro de 2017. O quadro, em resumo, é o seguinte: em 6 de dezembro, o Grão-Mestre da Ordem de Malta, Fra Matthew Festing, na presença de duas testemunhas, uma das quais era o cardeal-patrono Raymond Leo Burke, pediu ao chanceler Albrecht Freiherr von Boeselager que renunciasse. Com efeito, tinha vindo à luz que o chanceler Boeselager, durante o período em que foi o Grande Hospitalário da Ordem, havia abusado de seu poder promovendo a distribuição de milhares de preservativos e contraceptivos, inclusive abortivos, em alguns países do Terceiro Mundo. Apesar da promessa de obediência que o liga ao Grão-Mestre, o Grão-Chanceler recusou-se a renunciar. Contra ele foi então iniciado um procedimento para suspendê-lo de todas as posições que ocupava.

Boeselager pediu ajuda à Secretaria de Estado do Vaticano, que nomeou uma comissão de inquérito para “recolher elementos susceptíveis de informar plena e rapidamente a Santa Sé” sobre o assunto. Em 23 de dezembro, o Grão-Mestre da Ordem definiu como “inaceitável” a decisão do Secretário de Estado, observando que a remoção de Boeselager é um “ato de administração interna do governo da Ordem Soberana de Malta e, em consequência, recai exclusivamente na sua competência”. Com uma declaração subsequente de 10 de janeiro, o Grande Magistério reiterou a sua intenção de não cooperar com a comissão de investigação do Vaticano, “também a fim de proteger sua esfera de soberania com relação a iniciativas que se apresentam objetivamente (e, portanto, além das intenções, que são juridicamente irrelevantes) como visando questionar ou pelo menos  restringir dita  esfera”.

A iniciativa do Vaticano parece ter sido uma enorme gafe. O sistema jurídico da Ordem de Malta é regulado pela Constituição de 1997. O artigo 3º da Constituição, parágrafo 1, afirma que “a Ordem é sujeito de direito internacional e exerce funções soberanas”. Estas são: o Poder Executivo, representado pelo Grão-Mestre, assistido pelo Conselho Soberano; o Poder Legislativo, representado pelo Capítulo Geral; o Poder Judiciário, representado pelos Tribunais Magisteriais. A Ordem de Malta emite passaportes diplomáticos e possui escritórios extraterritoriais em Roma, onde oficialmente recebe os representantes de mais de cem países com os quais mantém relações de igual para igual.

A Ordem tem relações privilegiadas com a Santa Sé, mas com plena autonomia. A Santa Sé nomeia um cardeal-patrono e a Ordem o seu embaixador, de acordo com as normas do Direito internacional. Como observa o Prof. Paolo Gambi, apesar de ser detentora da natureza religiosa própria às Ordens dependentes da autoridade eclesiástica, a Ordem tem uma posição muito peculiar, “gozando de uma autonomia quase única na cena eclesiástica e limitando o influxo dessa natureza aos membros que emitiram votos” (La soberana militar Ordem de Malta en el orden jurídico eclesial e internacional, Ius Canonicum, XLIV, n. 87 (2004), pp. 197-231). O artigo 4, parágrafo 6 da Constituição da Soberana Ordem de Malta é claro ao afirmar que “a natureza religiosa não exclui o exercício das prerrogativas soberanas relativas à Ordem enquanto sujeito de direito internacional reconhecido pelos Estados”.

A confirmação de tal status de direito internacional, inclusive em relação à Santa Sé, encontra-se no Anuário Pontifício, onde a Ordem é mencionada apenas uma vez, e não entre as Ordens religiosas, mas antes como uma das Embaixadas dos Estados acreditados junto à Santa Sé. A Constituição de 1997 também eliminou várias intervenções eclesiásticas previstas anteriormente, como a aprovação da Santa Sé para a validade da eleição do Grão-Mestre e o consentimento expresso dela para que a profissão solene de votos seja válida.

A competência da Santa Sé sobre a vida religiosa dos Cavaleiros diz respeito apenas àqueles pertencentes à primeira classe, os Cavaleiros de Justiça, que emitem, de forma solene, os três votos monásticos. Os membros da segunda classe, os Cavaleiros na Obediência, cuja promessa nada tem a ver com o voto de obediência dos Cavaleiros de Justiça, estão subordinados apenas aos seus superiores na Ordem. O ex-Grão-Chanceler Albrecht von Boeselager, casado e pai de cinco filhos, é um leigo que pertence à segunda classe, não dependendo de nenhum modo da Santa Sé. Além disso, os Cavaleiros de Justiça, que devem ser considerados “religiosos para todos os efeitos” (artigo 9 parágrafo 1 da, Constituição), não têm vida em comum e representam um unicum na vida da Igreja. Fra Ludovico Chigi Albani della Rovere (1866-1951), Príncipe e Grão-Mestre da Ordem de 1931 a 1951, após a morte de sua esposa (1898) pronunciou os votos religiosos como Cavaleiro da Justiça, mas continuou a viver no Palazzo Chigi [atual sé do Grande Magisteriado da Ordem], que até 1916 era propriedade de sua família, levando uma vida de grande senhor, como competia à sua condição.

Naturalmente, a Igreja tem sobre a Ordem de Malta os mesmos direitos que tem em relação a cada Estado, quando estão em jogo questões que afetam diretamente a fé e a moral. O Papa, de fato, tem o direito e o dever de intervir em toda questão social e política relacionada com a consecução do fim supremo do homem, que é a vida eterna. Se, por exemplo, um Estado legitima as uniões sexuais contra a natureza, o Papa tem o dever de intervir, denunciando a grave violação da Lei divina e natural. E se a Ordem de Malta estiver promovendo a contracepção e o aborto, o Papa tem o dever de fazer ouvir sua voz. Hoje, pelo contrário, a Igreja se abstém  de pronunciar-se sobre problemas morais que Lhe são próprios [a distribuição de preservativos], e intervém em questões políticas e administrativas que fogem de sua alçada [a suspensão do ex-Grão-Chanceler].

Christopher Lamb cita no Tablet de 5 de Janeiro uma carta enviada em 21 de dezembro a Fra Matthew Festing pelo Secretário de Estado, cardeal Pietro Parolin, na qual se nota que o Papa Francisco deseja que a remoção de von Boeselager não ocorra. “Como já expressei em minha carta anterior, de 12 de dezembro de 2016: sobre o uso e a difusão de métodos e meios contrários à lei moral, Sua Santidade pediu um diálogo sobre o modo pelo qual podemos enfrentar e resolver eventuais problemas. Mas ele jamais disse para exonerar ninguém!”.

Portanto, com relação àqueles que violam a lei divina e natural, o caminho é o do diálogo e da mão estendida. Para quem, pelo contrário, defende a fé e a moral católica, está pronta a vara do comissariado político e da comissão de inquérito.

O grupo de cavaleiros que faz coro com Albrecht von Boeselager representa a corrente secularista, que gostaria de transformar a Ordem de Malta numa ONG humanitária, enquanto a atual equipe dirigente representa a fidelidade às raízes religiosas da Ordem. Mas esse é, aliás, o seu grande pecado, ao qual se soma outro. Ao longo de nove séculos de história, a Soberana Ordem Militar de Malta nunca perdeu sua fisionomia aristocrática, cavalheiresca e soberana. Esta fisionomia representa a antítese do miserabilismo e do igualitarismo professados por aqueles que hoje governam a Igreja. O resultado é que se denuncia o clericalismo, mas se o aplica, de fato, com desastrosas consequências. A truculenta intervenção da Secretaria de Estado em nome do Papa Francisco está, de fato, causando caos e divisões dentro da Ordem.

A Soberana Ordem Militar de Malta superou todas as vicissitudes ao longo de sua história. Durante dois séculos na Palestina, dois séculos em Rodes e dois séculos e meio em Malta, muitas vezes sua missão pareceu caducar. Mas a instituição sempre se reergueu, mesmo quando se alastrou pela Europa o turbilhão da Revolução Francesa e de Napoleão. Deve-se esperar que o Grão-Mestre Fra Matthew Festing e o Conselho Soberano que o assiste saibam resistir com firmeza às fortes pressões que estão recebendo nestes dias.

Ninguém teria podido duvidar do amor ao Papado do Grão-Mestre Ludovico Chigi Albani, que na sua qualidade de Marechal da Santa Igreja Romana participou de três eleições pontifícias. No entanto, ele se opôs tenazmente a qualquer tentativa eclesiástica de ingerência na vida da Ordem. A Santa Sé devia reconhecer a natureza soberana da Ordem de Malta, “sem a interferência de outras autoridades seculares ou religiosas”, como recordou Bento XVI ao receber os cavaleiros, por ocasião do nono centenário da bula pontifícia Pie postulatio voluntatis de 15 de fevereiro de 1113, que reconheceu a Ordem e outorgou-lhe seus privilégios. Com este ato solene, disse o Papa Bento XVI, “Pascoal II colocava a recém-nascida ‘fraternidade hospitalar’ de Jerusalém, em homenagem a São João Batista, sob a tutela da Igreja, e a tornava soberana”.

11 janeiro, 2017

Entrevista de Cardeal Müller na TV causa espanto.

Chefe doutrinal do Vaticano censura publicação de ‘dubia’, mas alguns críticos afirmam que ele se engana, enquanto surge a informação de que nenhuma das correções da Congregação para a Doutrina da Fé a ‘Amoris Laetitia’ foi aceita. 

Por Edward Pentin, National Catholic Register, 9 de janeiro de 2017 | Tradução: FratresInUnum.com: Cardeal Gerhard Müller, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé [CDF], afirmou em uma entrevista ao vivo de televisão, no domingo, que a “correção fraterna” ao Papa Francisco acerca de sua exortação apostólica Amoris Laetitia (A Alegria do Amor) “não é possível por ora”, porque a documento não “apresenta perigo para a fé”.

Mas o comentário do cardeal, feito ontem ao correspondente no Vaticano do canal italiano Tgcom24, Fabio Marchese, contrasta com revelações feitas por ao menos dois eminentes oficiais do Vaticano ao Register na semana passada, de que a CDF apresentou um grande número de correções a Amoris Laetitia antes de sua publicação, no último mês de abril, “e sequer uma das correções foi aceita”.

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Surpreso com a divulgação dos dubia

Cardeal Müller afirmou, no domingo, que os cardeais têm “todo direito de escrever uma carta ao Papa”, porém, acrescentou que estava “surpreso de que tenha se tornado público, quase forçando o Papa a dizer ‘sim’ ou ‘não'”.

“Não gosto disso”, disse. “Também, uma possível correção fraterna ao Papa parece-me muito distante; não é possível por ora, porque não se trata de um perigo para a fé, como afirmava Santo Tomás [de Aquino]”.

Ele declarou que sentia ser “uma perda para a Igreja discutir essas coisas publicamente”, acrescentando que Amoris Laetitia é “claríssima em sua doutrina e que podemos interpretar todo a doutrina de Jesus sobre o matrimônio, toda a doutrina da Igreja em 2000 mil anos de história”.

Papa Francisco, concluiu o cardeal, “pede para se discernir a situação dessas pessoas que vivem em uniões irregulares, que não estão de acordo com o ensinamento da Igreja sobre o matrimônio, e para ajudá-las a encontrar um caminho para uma nova integração na Igreja, segundo as condições dos sacramentos,a mensagem cristã sobre o matrimônio”. Ele declarou que não vê “nenhuma oposição: por um lado, temos o ensinamento claro sobre o matrimônio, por outro, a obrigação da Igreja em se preocupar com essas pessoas em dificuldade”.

Todavia, as declarações do cardeal encontraram espanto em Roma, com alguns argumentando que o cardeal perdeu o foco: a questão, dizem, não é se Amoris Laetitia pode ser lida em continuidade com a tradição, mas se é ambígua o bastante de modo que possa ser lida de maneira heterodoxa.

As observações do cardeal também vêm após a divulgação de que a CDF teve claro receio sobre o documento antes de sua publicação — preocupações que nunca foram objeto de consideração. Um bem informado oficial recentemente declaro ao Register que uma comissão da CDF que revisou um rascunho de Amoris Laetitia levantou dubia “similares” àquelas dos quatro cardeais. Esses dubia fizeram parte da correção de 20 páginas [a Amoris Laetitia] da CDF, primeiramente revelada por  Jean-Marie Genois em Le Figaro, de 7 de abril, na véspera da publicação do documento.

Outro experiente oficial foi além, revelando ao Register que, na semana passada, o Cardeal Müller disse-lhe pessoalmente que a CDF “apresentou muitas, muitas correções, e sequer uma das correções foi aceita”. Ele acrescentou que o que afirma o Cardeal na entrevista “é exatamente o contrário de tudo que ele me disse sobre a questão até agora” e que tinha a “impressão de alguém que não falava por si mesmo, mas repetia o que alguém dizia-lhe para dizer”.

Histórico forte

Cardeal Müller frequentemente falou de modo firme em defesa do ensinamento da Igreja sobre o matrimônio e a família nos últimos três anos (ver aqui e aqui). E em um discurso em Oviedo, Espanha, no ano passado, ele enfaticamente afirmou que Amoris Laetitia não abre as portas da Sagrada Comunhão a divorciados, reafirmando o art. 84 da exortação apostólica Familiaris Consortio, de S. João Paulo II, que afirma que os divorciados recasados não podem ser admitidos à Comunhão Eucarística ao menos que estejam aptos a viver em “completa continência”.

Porém, analistas afirmam que ele parece ignorar as preocupações sobre as interpretações divergentes do documento — profundas apreensões que se alega serem compartilhadas por muitos outros além dos quatro cardeais — e suspeitam que após o Papa recentemente remover três colaboradores do cardeai sem apresentar qualquer justificativa, e com uma correção formal possivelmente iminente, ele tenha se sentido compelido, ou foi compelido, a demonstrar ao Papa um inequívoco sinal de lealdade. Outros alegam que o italiano usado pelo cardeal na entrevista é mais matizado do que a tradução inglesa, que ele sabe o que está fazendo, e está tentando defender a ortodoxia e a unidade da Igreja a seu modo.

Um número significativo de conferências episcopais por todo o mundo expressaram suas preocupações ao Papa, averiguou o Register, e, como os quatro cardeais, não receberam resposta. Mesmo antes da publicação do documento,  30 cardeais, tendo lido uma versão antecipada da exortação apostólica, escreveram ao Papa expressando suas reservas, especialmente quanto à questão da Comunhão a divorciados civilmente recasados, advertindo que o documento enfraqueceria os três sacramentos essenciais da Igreja: a Eucaristia, o matrimônio e a confissão. O Papa também nunca respondeu à carta, disse uma fonte do Vaticano ao Register. 

A Sala de Imprensa da Santa Sé declinou comentar sobre a rejeição das correções da CDF a Amoris Laetitia, afirmando, em 2 de janeiro, que ela “não comenta o processo [de redação] dos documentos papais”.

Cardeal Müller também não respondeu, questionado por Register em 9 de janeiro, se está ciente da alegada confusão decorrente das diferentes interpretações de Amoris Laetitia, ou por que ele crê ser desnecessária uma correção formal quando as correções de seu próprio dicastério não foram aceitas.

2 janeiro, 2017

A morte de Castro demonstra que o comunismo é uma religião totalitária.

Por Rodolfo Casadei, Tempi, 1º de dezembro de 2016 | Tradução: FratresInUnum.com: O ritual com o qual Cuba celebra a morte de Fidel Castro é a demonstração plástica de que o comunismo não é política, mas religião. Os nove dias de luto nacional (nove como os dias de novenas, inspirados nos nove dias de oração dos Apóstolos e de Maria entre a Ascensão e Pentecostes), as cinzas levadas em procissão por todo o país (como as estátuas da Virgem Maria peregrinas transportadas em rotas pré-determinadas), a abertura de um mausoléu ao público onde será possível visitar os restos mortais do defunto (verdadeiro santuário onde ativistas cubanos e internacionais rogarão a Fidel para que cuide de seus entes queridos, como acontece em Predappio no túmulo de Mussolini) são a cópia precisa de um culto religioso.

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Discute-se se Castro foi um ditador mais cruel ou mais benéfico, mas tal discussão se desloca de um ponto de partida redutivo: antes mesmo de ditador, o líder máximo foi o chefe institucional de um sistema totalitário. E sistemas totalitários nada mais são do que a versão secularizada das religiões. Como toda religião, precisa de um cabeça visível no qual coincidem autoridade e carisma e que é oferecido para a veneração dos fiéis. De modo que o totalitarismo dos últimos dois séculos necessita que as massas se dediquem ao culto idólatra do líder, no qual colocam a sua fé e por quem estejam dispostos a morrer.

Fidel, como outros tiranos dos últimos 90 anos, gozou do consenso das grandes massas porque uma vez perdida a fé na religião transcendente, as massas têm necessidade de um ídolo no qual derramar sua devoção religiosa. Com Fidel Castro, morreu o papa do comunismo. Mas, como diz Alonso Muñoz Perez, enquanto com a morte do papa segue-se um conclave, o papa comunista escolhe para si o seu sucessor.

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23 dezembro, 2016

Falece Mons. Juan Claudio Sanahuja.

Monsenhor Sanahuja.

Segundo o site InfoCatólica, acaba de falecer o combativo Mons. Juan Claudio Sanahuja. Requiescat in pace.

21 dezembro, 2016

Cardeal Zen: Papa Francisco “trairia a Cristo” se permitisse à China comunista escolher bispos.

LifeSiteNews, Hong Kong, 29 de novembro, 2016 | Tradução: FratresInUnum.com: A mais alta autoridade Católica Chinesa afirmou que, se o papa Francisco permitisse à China comunista participar da escolha dos bispos Católicos da nação, isso seria o equivalente a “trair a Jesus Cristo.”

O combativo Cardeal Zen.

O combativo Cardeal Zen.

“Você não pode entrar em negociações com a mentalidade: ‘nós queremos assinar um acordo a qualquer custo’, pois assim você estaria se rendendo, estaria traindo a si próprio, você estaria traindo a Jesus Cristo”,  disse o cardeal Joseph Zen ao jornal The Guardian nesta semana.

O bispo emérito de Hong Kong, de 84 anos de idade, se opõe firmemente a um possível acordo entre o Vaticano e o Governo Chinês que gostaria de obter legitimidade para a entidade controlada pelo Estado, a Associação Patriótica Católica chinesa. Ele diz que tal movimento iria alienar os autênticos Católicos Chineses da “Igreja subterrânea”, separando-os da verdadeira Igreja encabeçada por Cristo e seu representante, o Papa.

O Wall Street Journal informou no início deste mês que, com tal acordo, “Roma se comprometeria a reconhecer como bispos somente aqueles clérigos que primeiramente obtiveram a nomeação pela conferência de bispos da Associação Patriótica”,permitindo assim que o Governo, e não a Igreja, decida quem é bispo.

O cardeal Zen disse, no início deste mês, que com um tal acordo, o Vaticano estaria simplesmente dando credibilidade a “bispos falsos” que, como “marionetes” totalmente controladas pelo governo, não buscariam o bem da Igreja, mas a sua destruição.

De acordo com o decreto do Concílio Vaticano II sobre Bispos (1965), o direito de nomear e apontar bispos pertence “correta, peculiar, e per si exclusivamente à autoridade eclesiástica competente”.

“Portanto, com a finalidade de devidamente proteger a liberdade da Igreja e de promover de forma  mais conveniente e eficiente o bem-estar dos fiéis, este Santo Concílio deseja que, no futuro, não mais direitos ou privilégios de eleição, nomeação, apresentação ou designação para o cargo de bispo sejam concedida a autoridades civis” — foi o que o Concílio afirmou naquela época.

O Código de Direito Canônico (cânon 377 § 5) declara que “nenhum direito e privilégio de eleição, nomeação, apresentação ou designação de bispos são concedidos às autoridades civis”.

O canonista Edward Peters disse que o Vaticano, ao lidar com a China, deve se lembrar da história e da lição de que “quanto maior é o papel desempenhado pelo poder secular nas nomeações eclesiásticas, maiores são as chances de abuso”.

“Tal concessão à China, se é isso que está realmente sendo proposto, certamente levaria outros estados totalitários a exigir o mesmo, recriando as mesmas complicações e confusões entre Igreja e Estado que marcaram e às vezes denegriram muito a história da Igreja”, escreveu ele em seu blog.

Zen disse ao The Guardian na entrevista que um acordo dessa natureza, apenas criaria a ilusão de uma “falsa liberdade” para uma falsa instituição.

“Mas é apenas a impressão de liberdade, não é a verdadeira liberdade, pois o povo, mais cedo ou mais tarde, vai ver os bispos como fantoches do governo e não como realmente os pastores do rebanho”, disse ele.

Zen gostaria de ver o Vaticano abandonar de vez esse acordo.

“Se não é possível obter um bom acordo, um acordo aceitável, então o Vaticano deveria sair disso e talvez tentar novamente mais tarde. Será que a Igreja poderia negociar com Hitler? Ou poderia negociar com Stalin? Não”, disse ele.

Zen sugeriu que o reconhecimento do Vaticano para a igreja administrada pelo governo ao confirmar a nomeação de seus bispos apenas serviria para “envenenar” a Igreja Católica real na China, onde se estima que cerca de sete milhões de fiéis a seguem secretamente.

“O sangue dos mártires é semente de novos cristãos”, disse ele. “mas se aquele sangue é envenenado, quanto tempo durarão esses novos cristãos”?

20 dezembro, 2016

Cardeal Burke defende signatários de ‘dubia’ em entrevista bombástica à EWTN.

Por LifeSiteNews – 16 de dezembro de 2016 | Tradução: FratresInUnum.com: No programa “The World Over with Raymond Arroyo” da última quinta-feira, o Cardeal Raymond Burke respondeu àqueles dentro da Igreja que estão criticando a ele e a outros três cardeais por pedirem esclarecimentos morais sobre Amoris Laetitia. Ele afirmou que os cardeais não estão criando divisão, mas “abordando” a divisão já existente dentro da Igreja. Ele também insiste que ele “nunca” fará parte de um cisma por defender a Fé Católica, e que ataques contra o matrimônio desestabilizam a Igreja e a sociedade.

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Cardeal Burke e Dom Athanasius Schneider na Marcha pela Vida, em Roma, 8 de maio de 2016.

Burke diretamente respondeu às afirmações feitas pelos colaboradores próximos do Papa, padre Antonio Spadaro e Cardeal Cristoph Schönborn, sobre Amoris Laetitia. Em particular, ele se referiu à declaração de Spadaro de que o Papa Francisco já respondeu ao dúbia dos quatro cardeais ao aprovar as diretrizes lançadas pelos bispos de Buenos Aires, que permitiram a Comunhão a divorciados recasados. Burke também respondeu à afirmação do Papa Francisco de que pessoas que são excessivamente “rígidas” quanto à defesa da doutrina sofrem de um tipo de “condição”.

Respondendo à afirmação de Spadaro de que Burke e os outros três cardeais estão tentando “potencializar” a divisão e tensão na Igreja, Burke disse, “de fato, estamos tentando tratar da divisão que já está muito potencializada, para usar a expressão dele”.

“Somente quando essas questões, que foram apresentadas segundo a maneira tradicional de resolver questões na Igreja, e que têm relação com matérias muito sérias, somente quando essas questões forem adequadamente respondidas a divisão será dissipada”, afirmou Burke. “Porém, como está acontecendo agora, na medida em que isso continuar, a divisão somente crescerá e, é claro, o fruto da divisão é o erro. E aqui estamos falando sobre a salvação das almas, pessoas levadas a erro em matérias que têm a ver com a sua salvação eterna. Então, o padre Spadaro está muitíssimo errado nessa afirmação”.

Burke declarou estar “muitíssimo ofendido” pela recente afirmação de padre Spadaro de que o Papa Francisco não responde a questões “binárias”.

“É o papel do papa, como pastor da Igreja universal, como guardião da unidade dos bispos e de todo o Corpo de Cristo, responder a essas questões”, disse Burke. “Sugerir que fazer essas questões é sinal de falta de sinceridade é profundamente ofensivo. Posso assegurar que, por mim, e conheço os outros cardeais envolvidos, nós nunca levantaríamos questões a menos que tivéssemos a mais profunda e sincera preocupação pela própria Igreja e por cada um dos fiéis”.

O Papa Francisco “deu sua própria opinião” sobre a Comunhão a divorciados recasados, mas “a questão só pode ser respondida em termos do que a Igreja sempre ensinou e praticou”, declarou Burke. “Não é uma questão de… alguma ideia especulativa que eu possa ter sobre como abordar essas questões, mas de como Cristo em sua Igreja trata essas questões?…. até que se dê essa resposta, nós permanecemos em um estado de confusão”.

Burke e Arroyo discutiram as aparentes incompatibilidades de Amoris Laetitia com trechos da exortação Familiaris Consortio do Papa S. João Paulo II e a afirmação de Schönborn de que se trata de uma “evolução” do ensinamento da Igreja.

“Não se pode ter um amadurecimento de um ensinamento que é uma ruptura com o próprio ensinamento, que é um rompimento com esse ensinamento”, disse Burke. “As afirmações do Cardeal Schönborn a esse respeito não refletem o que se chama de desenvolvimento doutrinal – em outras palavras, através da reflexão da Igreja ela aprofunda sua apreciação de um ensinamento e ajuda os fiéis a praticar esse ensinamento. Neste caso, trata-se de uma completa ruptura com o ensinamento da Igreja, um completo distanciamento em relação ao que a Igreja sempre ensinou e praticou. Um amadurecimento é algo orgânico, onde se vê que aquilo que a Igreja vem ensinando sobre o matrimônio agora é expresso com maior plenitude”.

Burke denunciou a “politização da Igreja” que ocorreu com os ataques aos quatro cardeais, através dos meios de comunicação, realizados pelos defensores de um relaxamento na prática da Igreja. Essa “politização” é “muito aumentada por todas essas formas de intervenção midiática, é muito prejudicial e estão causando um grande dano ao bem comum na Igreja”, afirmou.

“Eu percebo que um espírito mundano, um espírito terreno entrou na Igreja, que divide seus membros em vários campos: liberais e conservadores”, disse Burke, sendo esses últimos “os ‘fundamentalistas’, como alguns adoram aqueles de nós que estamos lutando para defender o ensinamento constante da Igreja”.

Burke também respondeu à recente entrevista de Dom Athanasius Schneider na qual ele explicou a “estranha forma de cisma” que se dá hoje na Igreja. Schneider enfatizou como “muitos eclesiásticos guardam uma unidade formal com o Papa, por vezes, para o bem de suas próprias carreiras e por uma espécie de papolatria”, mas, “ao mesmo tempo, romperam os laços com Cristo, a Verdade, e com Cristo, a verdadeira cabeça da Igreja”. Fizeram-no ao negar a verdade do matrimônio e ao aderir “a um evangelho da liberdade sexual” que rompe com o sexto mandamento, afirmou.

Burke falou do assunto na mesma linha de Schneider, explicando que os que defendem o ensinamento perene da Igreja são o contrário dos cismáticos.

“De minha parte, nunca serei parte de um cisma”, disse Burke. “Sou Católico Romano e defender a Fé Católica Romana não é a causa de me separar da Igreja. E, então, eu simplesmente pretendo continuar a defender a Fé por amor a Nosso Senhor e por seu Corpo Místico, por meus irmãos e irmãs na Igreja, e creio que os outros cardeais têm o mesmo espírito”.

Quando Arroyo questionou Burke sobre as afirmações do Papa Francisco de que pessoas que estão “meio que presas em sua ‘rigidez’ quanto a doutrina e, por outro lado…, sofrem de uma compulsão ou condição”, o Cardeal afirmou que os dúbia “não são reações de pessoas que sofrem de desordens emocionais”.

“Nossa apresentação de cinco perguntas é feita com grande serenidade e respeito”, disse. “Estarmos profundamente preocupados com a verdade da doutrina da Fé e sua integridade não é sinal de enfermidade”.

19 dezembro, 2016

Os oitenta anos do Papa Francisco.

Por Roberto de Mattei, “Il Tempo”, 16 de dezembro de 2016 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.comO Papa Francisco transpõe o limiar do seu 80º aniversário: Ingravescentem aetatem (idade avançada), conforme a define Paulo VI no motu proprio de 21 de novembro de 1970, cuja chegada impõe a todos os cardeais abandonar seus cargos,  tirando-lhes até o direito de entrar no conclave. Paulo VI estabeleceu a regra para criar uma nova cúria “montiniana”, mas introduziu assim uma profunda contradição no âmago de uma  prática mais do que milenar da Igreja. Porque se a idade é obstáculo para a condução de uma diocese ou de um dicastério, e até mesmo impede um cardeal de eleger um Papa, como se pode imaginar que, completados oitenta anos, possa um cardeal que se tornou Papa suportar o peso de guiar a Igreja universal?

Não são essas, contudo, as considerações que levaram o Papa Francisco a declarar em 12 de dezembro: “Eu tenho a sensação de que meu pontificado será breve, 4, 5 anos. […] Talvez não, mas tenho a sensação de que o Senhor me colocou aqui por pouco tempo. Mas é um sentimento, por isso deixo sempre a possibilidade aberta”. A verdadeira razão de uma possível abdicação parece ser não um enfraquecimento das forças, mas a consciência do Papa Bergoglio de ter-se embrenhado, menos de três anos após a sua eleição, naquilo que foi definido  por Antonio Socci no “Libero” como o inexorável “crepúsculo de um pontificado” (20 de novembro de 2016).

O projeto Papa Francisco de “reformar” a Igreja com a ajuda do Sínodo dos Bispos e de colaboradores dóceis enguiçou, e o balanço do Jubileu foi mais do que decepcionante. “O Papa Francisco fechou a porta santa, mas sua mensagem é acompanhada pelo ruído de uma crise subterrânea. Uma guerra civil está em curso na Igreja”, escreveu Marco Politi em “Il Fatto quotidiano” (21 de novembro de 2016). O conflito foi aberto, premeditadamente ou não, pelo próprio Papa Francisco, especialmente após a exortação Amoris laetitia, e hoje a Igreja não avança, mas afunda numa terra sulcada pelas fissuras de profundas divisões.

Alguém comparou o fracasso do pontificado do Papa Francisco ao de Barack Hussein Obama. Em três anos consumou-se em Roma aquilo que em Washington tardou oito anos: a passagem da euforia da primeira hora à depressão final, pelo fracasso total dos objetivos almejados.

Mas seria errado ler o pontificado do Papa Francisco em termos puramente políticos. Ele nunca poderia pronunciar o “yes,  we can” de Obama.  Para um Papa, diferentemente de um político, nem tudo é possível. O Sumo Pontífice tem poder supremo, pleno e imediato sobre toda a Igreja, mas não pode alterar a lei divina que Jesus Cristo deu à Igreja, nem a lei natural que Deus inscreveu no coração de cada homem. É o Vigário de Cristo, mas não o seu sucessor. O Papa não pode mudar as Sagradas Escrituras, nem a Tradição, que são a regra remota da fé da Igreja, mas deve submeter-se a elas.

É este  o impasse diante do qual se encontra hoje o Papa Bergoglio. Os “dubia” apresentados pelos quatro cardeais (Brandmüller, Burke, Caffara e Meisner) à Congregação para a Doutrina da Fé o colocaram num beco sem saída. Face ao teor da Exortação Apostólica Amoris laetitia, os cardeais pedem ao Papa para responder claramente com um sim ou com um não às seguintes questões: os divorciados que voltaram a casar no civil e não querem abandonar a situação objetiva do pecado em que se encontram têm o direito a receber o Sacramento da Eucaristia? E, de modo mais geral: a lei divina e natural ainda é absoluta, ou em alguns casos permite exceções?

A resposta atinge os fundamentos da moral e da fé católica. Se aquilo que era verdade ontem não o é hoje, aquilo que é verdade hoje poderia não sê-lo amanhã. Mas caso se admita que a moralidade pode sofrer uma mutação de acordo com os tempos e as circunstâncias, a Igreja está destinada a afundar-se no relativismo da sociedade fluida de nossos dias. Caso contrário, será então preciso remover o cardeal Vallini, Vigário de Roma, que na sua exposição durante o encontro da Conferência Pastoral da diocese do Papa, em 19 de setembro, disse que o divorciados novamente casados podem ser admitidos à comunhão, de acordo com um “discernimento que distinga adequadamente cada caso”. Sua posição foi adotada em 2 de dezembro pelo jornal “Avvenire”, órgão da Conferência Episcopal Italiana, segundo o qual as disposições de Amoris laetitia eram “palavras muito claras sobre as quais o Papa colocou o seu imprimatur”.

Mas pode o Papa atribuir ao “discernimento” dos pastores o direito de quebrar a lei divina e a lei natural das quais a Igreja é a guardiã? Se um Papa tentar mudar a fé da Igreja, ele renuncia explícita ou implicitamente ao seu mandato como Vigário de Cristo e, mais cedo ou mais tarde, será obrigado a renunciar ao pontificado. A hipótese de uma reviravolta como esta não pode ser excluída no decurso de 2017. A abdicação voluntária tornaria possível ao Papa Francisco abandonar o campo como um reformador incompreendido, imputando à rigidez da Cúria a responsabilidade pelo seu fracasso. Se isso vier a acontecer, é mais provável que ocorra após o próximo Consistório, que permita ao Papa Bergoglio introduzir no Sacro Colégio um novo grupo de cardeais próximos dele, para influenciar a escolha de seu sucessor. A outra hipótese seria a  de uma correção fraterna da parte dos cardeais, a qual, uma vez tornada pública, equivaleria a uma constatação de erro ou heresia.

Nada de mais errado, em qualquer caso, do que as palavras do cardeal Hummes: “São quatro cardeais. Nós somos duzentos”. Além do fato de que a fidelidade ao Evangelho não se mede de acordo com critérios numéricos, os duzentos cardeais aos quais se refere o cardeal Hummes nunca se distanciaram de seus quatro confrades, mas com o seu silêncio de algum modo tomaram distância do Papa Francisco. As primeiras declarações de apoio aos dubia, tanto pelo cardeal Paul Josef Cordes, ex-presidente emérito do Pontifício Conselho Cor Unum, quanto pelo Cardeal George Pell, Prefeito da Secretaria para a Economia, são significativas. Alguns já começam a quebrar o silêncio. Não são duzentos, mas são certamente mais de quatro.

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15 dezembro, 2016

Movimentos de esquerda (que Dom Paulo Evaristo Arns ajudou a organizar) queriam vê-lo Papa.

Movimentos de esquerda, que Dom Paulo ajudou a organizar, queriam vê-lo Papa, em 1978.

Por Hermes Rodrigues Nery | FratresInUnum.com

Em agosto de 1978, aluno do Pe. Rosalvino, no Instituto Dom Bosco, em São Paulo, percebi a grande torcida que houve por Dom Paulo Evaristo Arns para papa. Queriam um papa brasileiro, o papa das periferias, como já diziam. Pe. Rosalvino levava as crianças para passeios na periferia de São Paulo, também em Jandira, pegando trem na Estação da Luz. “Era a hora de Dom Paulo papa”, diziam. “Pensávamos que ele (Paulo Evaristo Arns) seria (deveria ser) o Papa da realização do Concílio, a partir da Igreja da Grande Promessa que era, então, o Brasil (a mais rica e criadora de todas as Igrejas do momento). Foi uma grande oportunidade, era um momento de Evangelho. ”, afirmou anos depois, o teólogo espanhol Xabier Pikaza.
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A Igreja da América Latina estava pronta, as comunidades eclesiais de base estimuladas por Dom Paulo, vivendo o carisma franciscano, como o “amigo do povo”, pois assim ele queria ser chamado por todos, com seu sorriso largo (inspirado no amigo Dom Hélder Câmara), dentre tantos que lutavam por uma Igreja “dos pobres e para os pobres”. Estávamos no pátio do Instituto Dom Bosco, no Bom Retiro, quando os sinos tocaram e fomos rezar na igreja Nossa Senhora Auxiliadora. Havia sido eleito o italiano Albino Luciani, que adotou o nome composto de João Paulo I. Percebíamos as movimentações de lideranças, indo e vindo, nas dependências dos salesianos, muitas delas dizendo que era a hora de Dom Paulo. Apenas 33 dias depois, fomos todos surpreendidos pelos sinos da Igreja, anunciando a precoce morte de Albino Luciani, e novamente se voltaram para o novo conclave, e o que se ouvia pelos corredores “agora, sim, seria eleito o primeiro papa da América Latina”, e dom Arns seria o primeiro papa brasileiro. Não queriam mais italianos. E então, parte do desejo deles havia sido atendido, e os cardeais elegeram, em 16 de outubro de 1978, o polonês Karol Wojtila, com o nome de João Paulo II.

Xavier Pikaza lamentou-se profundamente: “Foram 35 anos de interregno, de freio e medo. Ainda posso sentir isso na minha pele revivendo a primeira impressão que tive, quando me disseram (em 1978), retornando para casa, da janela: ‘Não foi o Arns, mas Wojtyla’. Foi o que muitos me disseram agora no Brasil.” E mais: “Paulo Evaristo Arns foi marginalizado, sua linha de base eclesial foi rechaçada e seu trabalho episcopal em São Paulo foi corroído (especialmente em 1980, com a divisão da sua diocese e a nomeação de bispos de outra linha). Certamente, Paulo E. Arns seguiu exemplarmente ativo até sua renúncia (1996), mas já não representava a linha oficial da Igreja, que foi se escorando em outra direção.”

Na análise de Pikaza, o interregno de 35 anos dos reinados de São João Paulo II e Bento XVI foi longo demais, por isso agora, todos eles, tem pressa, muita pressa para que Bergoglio execute o programa sonhado por Dom Paulo Arns, mas reconhece que as condições não são as mesmas que em 1978:

“Talvez em 1978 ainda não se podia fazer em todas as partes aquilo que Paulo E. Arns queria, pois muitas Igrejas não haviam aceitado o espírito e a caminhada do Vaticano II (1962-1965), apesar de que uma parte considerável da Igreja da América Latina, a partir de Medellín (1968) e de Paulo VI (Evangelii Nuntiandi, 1975), havia assumido um caminho de libertação e de transformação eclesial que parecia impossível de ser detido, como sabia na Espanha o cardeal Tarancón. Muitos cristãos queriam então que a Igreja promovesse verdadeiramente o surgimento de espaços de libertação humana (inclusive econômica e social) para que os pobres e oprimidos do continente pudessem viver e se desenvolver; muitos queriam uma Igreja libertada, em sintonia radical com o Evangelho. Mas o conjunto da Igreja oficial sentiu medo.

— Esse medo expressou-se nos 35 longos e duros anos de João Paulo II e Bento XVI (1978-2013). Certamente, esses anos tiveram muitas coisas boas, mas, com efeito, em chave eclesial, o balanço foi negativo. Estamos pior que em 1978, com mais feridas e receios, com mais medos e descréditos; os mais idosos perdemos parte da nossa esperança e os jovens se sentem manipulados (muitos preferem ser manipulados!). Em 1978, era, talvez, muito cedo para a grande travessia. Agora (2013), com o Papa Bergoglio pode ser muito tarde, a não ser que o Espírito sopre forte, pois temos pressa”.

O próprio Dom Paulo também reconheceu o exagero das homilias politizadas dos teólogos da libertação como um dos fatores para o esvaziamento das igrejas. Mas foi incansável em ajudar os movimentos populares a se organizarem, fato esse confirmado pelas expressões de gratidão manifestadas por João Pedro Stédile:

“A maioria dos movimentos do campo que hoje existem – MST, MAB [Movimento dos Atingidos por Barragens], Movimento dos Pequenos Agricultores, Comissão Pastoral da Terra, Cimi [Conselho Indigenista Missionário] -, nascemos orientados por vossa sabedoria, que pregava: Deus só ajuda quem se organiza. Então fomos nos organizar. Queremos agradecer de coração por tudo, sobretudo porque o senhor ajudou a acabar com a ditadura militar no Brasil”

O fato é que era altamente estratégica para os movimentos de esquerda, a tática gramsciana de ocupação, por dentro da instituição, até chegar os mais elevados postos de decisão, a Arquidiocese de São Paulo. E só com a chegada de Dom Paulo Evaristo àquela importante Arquidiocese (e depois nomeado cardeal) é que as portas foram abertas para a teologia da libertação se disseminar por toda parte, nas paróquias, nos seminários, e tudo mais. Muito se lamentou dele não ter sido papa em 1978, porque, a partir de então o Vaticano se empenharia em colocar freio ao projeto de poder dos padres e bispos de esquerda.

E então o próprio Dom Paulo Evaristo Arns fez questão de acompanhar Leonardo Boff a Roma, para defende-lo, da punição recebida pelo então cardeal Joseph Ratzinger. Não apenas ficaram insatisfeitos, mas tudo fariam para viabilizar o plano de um papa latino-americano, alinhado com os ideais deles, da Igreja “dos pobres para os pobres”. O franciscano Arns foi inteiramente solidário com o franciscano Boff, e só teriam segurança garantindo que outro franciscano sucedesse Arns no comando da Arquidiocese de São Paulo e, depois, assumisse postos na própria Cúria Romana. E então o franciscano Dom Cláudio Hummes (que fez Lula emergir como l&iacu te;der sindical no ABC) foi nomeado sucessor de Dom Paulo Arns na Arquidiocese de São Paulo, e depois seguiu para Roma, tornando-se prefeito da Congregação para o Clero, até aparecer, em 2013, na loggia da Basílica de São Pedro, ao lado de Jorge Mário Bergoglio, que aceitou o conselho de D. Cláudio Hummes para assumir o programa da Igreja sonhada por Dom Paulo Evaristo Arns, com o nome de Francisco.

No primeiro encontro que tive com Dom Paulo Evaristo Arns, em 1993, em sua residência episcopal, para uma longa entrevista (publicada no meu livro “Encontros & Idéias – que reúne as entrevistas feitas para Jornal da Tarde, no período de 1988 a 2002), dom Paulo contou-me do período em que viveu na França (de 1947 a 1952), preparando a sua tese sobre São Jerônimo, disse que teve a oportunidade de conhecer grandes intelectuais franceses (Claudel, Mauriac, Albert Camus e o próprio Jean Paul Sartre, a quem ele assistiu suas conferências. Não só a Sorbonne o encantou, como mais tarde o ecumenismo, dizendo-me, que teve “a oportunidade de participar duas ve zes na reunião das grandes religiões, num esforço de encontrar um novo caminho.” E disse: “As nações agora estão unindo suas culturas e encontrando outras expressões para criar um tempo novo”. E mais: “Lembro-me que um dos temas dessas reuniões era a paz. Lá estavam cristãos, budistas, muçulmanos e judeus. Estavam representantes de todas as grandes religiões do mundo, cada qual podia se exprimir livremente, fazer orações em comum, em grupos. Debatíamos todos os grandes problemas da Terra. (…) No caso de uma das reuniões o tema foi a paz, depois o pensamento foi em torno da fome no mundo. É assim que eu penso que as coisas funcionarão: em torno de ideias. Só um grande pensamento poderá unir a humanidade e conduzi-la ao bem comum que todos desejamos”.

Dom Paulo nutria admiração por Fidel Castro, a quem chegou a escrever uma carta publicada no jornal Granma: “ “Querido Fidel (…) A fé cristã descobre nas conquistas da Revolução os sinais do Reino de Deus (…) Tenho-o presente diariamente em minhas orações, e peço ao Pai que lhe conceda sempre a graça de conduzir o destino de sua pátria. (…) Fraternalmente, Paulo Evaristo, cardeal Arns”.

Havia entre ambos muitas afinidades, também biográficas. Fidel Castro contou a Frei Betto (descrito em seu livro “Fidel e a Revolução”, Ed. Círculo do Livro, 1986, p. 132): “Através das reuniões com os futuros combatentes, com quem eu partilhava ideias e instruções, fomos criando uma organização, disciplinada e decidida, com gente jovem e saudável e com ideias patrísticas e progressistas. Organizávamo-nos para lutar contra a ditadura”. Derrubado Fulgêncio Batista, o que se viu foi a instalação de outra ditadura, que até hoje penaliza o povo cubano.

Mas as palavras de Fidel Castro poderiam ser ditas também por dom Paulo, preservando o mesmo espírito de preparar e organizar os movimentos populares. Contou-me também, nas entrevistas que tivemos, que participou em Paris (no tempo em que frequentou também a Sorbonne), de “Semana de Intelectuais Católicos”, nem tanto para debater e refletir sobre o catolicismo, mas para buscar um pensamento capaz de unir a todos, um novo caminho. Seria esse “novo caminho” anunciado por Bergoglio, ao curvar-se ao povo, em sua primeira aparição como papa?

Assim como Fidel Castro, Dom Paulo Evaristo Arns teve também uma vida longeva. Poucos dias após a morte de Fidel Castro, os movimentos populares de esquerda perdem Dom Paulo, que fez questão de colocar o boné do MST nas comemorações de seus 95 anos, no teatro da PUC-SP, tendo sido saudado por João Pedro Stédile.

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No encontro de 1993, Dom Paulo fez um bilhete me apresentando a Dom Geraldo Majella Agnelo, que, na época trabalhava como Secretário-Geral da Congregação do Culto Divino e dos Sacramentos. Assim que cheguei a Roma pude constatar que o preferido dos progressistas, que queriam papa, em 1978, ainda exercia influência, fazendo aqui e ali indicações, contatos, etc. E somente hoje pude compreender as palavras de Xavier Pikaza:
“Em 1978, era, talvez, muito cedo para a grande travessia. Agora (2013), com o Papa Bergoglio pode ser muito tarde, a não ser que o Espírito sopre forte, pois temos pressa”.

A História mostrará, a longo prazo, qual o legado que deixará efetivamente a sua marca. O momento requer de nós a oração. O Espírito Santo faz os ajustes necessários. “Pelos frutos, conhecereis a árvore!”

Hermes Rodrigues Nery é coordenador do Movimento Legislação e Vida.