Archive for ‘Atualidades’

20 novembro, 2017

Crítica amigável às teses de Rocco Buttiglione.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 16-11-2017 | Hélio Dias Viana – FratresInUnum.com: Conheço Rocco Buttiglione há mais de quarenta anos. Nós fomos assistentes do catedrático Augusto Del Noce (1910-1989) na Faculdade de Ciências Políticas da Universidade La Sapienza em Roma, mas desde então as nossas posições divergem, especialmente no que se refere ao nosso modo de julgar a modernidade. Buttiglione considerava compatível com o Cristianismo o processo histórico inaugurado pela Revolução Francesa, enquanto eu o considerava incompatível.

Apesar dessas divergências, apreciei o trabalho de Buttiglione como ministro do Patrimônio Cultural do governo Berlusconi (2005-2006), e também lhe expressei minha solidariedade quando, em 2004, não obteve sua nomeação como Comissário europeu, por ter definido o homossexualismo como sendo “um pecado”. Relembro tudo isso para mostrar minha sinceridade ao falar de uma “crítica amigável” de suas teses, do mesmo modo como Buttiglione é realmente sincero quando se refere ao Prof. Josef Seifert como seu “amigo ao longo da vida”, ao polemizar com ele em seu último livro Respostas (amigáveis) às críticas de Amoris Laetitia, com um prefácio do cardeal Gerhard Ludwig Müller (Ares, Milano 2017, p. 41).

O livro, que acaba de vir a lume, compõe-se de 200 páginas divididas em quatro capítulos. Nada há  nele que os leitores da Buttiglione não conheçam. Os capítulos são constituídos por ensaios já publicados em diferentes órgãos entre 2016 e 2017. Isso explica as muitas repetições, mas estas ajudam a compreender melhor a tese de fundo: a suposta liceidade de se admitir à comunhão os divorciados recasados, porque embora seus “atos sejam ilegítimos”, em alguns casos as pessoas “não podem incorrer em pecado mortal pela ausência de pleno conhecimento e de consentimento deliberado” (p. 172).

Já tive  ocasião de criticar essa posição, como pode ser visto neste link: (https://www.corrispondenzaromana.it/card-muller-buttiglione-confusione-aumenta/). Deve-se acrescentar que, para justificá-la, Buttiglione introduz uma distinção falaciosa entre “pecado grave”, “especificado pelo objeto (da matéria grave)”, e “pecado mortal”, “especificado pelo efeito sobre o agente (faz morrer a alma)”. “Todos os pecados mortais – escreve – também são pecados graves, mas nem todos os pecados graves são necessariamente mortais. Pode acontecer de em alguns casos a matéria grave não estar acompanhada do pleno conhecimento e do consentimento deliberado” (p. 173).

Tal tese já foi refutada por João Paulo II por ocasião do Sínodo de 1984, quando em face da proposta de alguns teólogos e sacerdotes de introduzir uma distinção tripartite dos pecados – veniais, graves e mortais – declarou, na exortação pós-sinodal Reconciliatio et paenitentia, que na doutrina da Igreja o pecado grave se identifica com o pecado mortal. Aqui estão as suas palavras: A tripartição poderia pôr em realce o fato de que entre os pecados graves existe uma gradação. Mas permanece sempre verdadeiro que a distinção essencial e decisiva é a que existe entre pecados que destroem a caridade e pecados que não matam a vida sobrenatural: entre a vida e a morte não há lugar para um meio termo” (Reconciliatio et paenitentia No. 17).

É claro que nos pecados graves há uma gradação. Na crucifixão de Nosso Senhor, por exemplo, não teve a mesma gravidade a participação de Pilatos e a dos líderes do povo judeu (Jo 19, 11). Mas todos os pecados graves são mortais, e todos os pecados mortais são graves. Para Buttiglione, pelo contrário, a coabitação de pessoas não casadas é sempre uma “ferida grave” ao bem moral da pessoa, mas nem sempre uma “ferida mortal” (p. 174). Depende de “circunstâncias”, que “não alteram a natureza do ato, mas podem alterar o julgamento sobre a responsabilidade da pessoa” (p. 174). A Igreja, portanto, “pode ​​excepcionalmente dar os sacramentos se  verificar que, apesar do conflito objetivo com a moral cristã, a pessoa não se encontra em um estado de pecado mortal devido a circunstâncias atenuantes subjetivas” (197). O adúltero, por exemplo, pode “estar em estado de pecado, mas não de pecado mortal” (p. 175). “Embora a regra seja válida sem exceção, os comportamentos que diferem da regra não são todos igualmente culposos” (p.185). A exceção aplica-se ao comportamento, não à regra. Fica-se atônito: como se pode violar de outra forma a regra moral a não ser pelo comportamento?

Buttiglione nega que a posição do Papa Francisco e seu deslize para a “ética da situação” sejam condenados pela Igreja. Mas para persuadir cumpre demonstrar aquilo que se afirma ou se nega. Infelizmente, devo reiterar com Josef Seifert, Carlos Casanova, Corrado Gnerre, Claudio Pierantoni e outros excelentes críticos de Buttiglione, que a posição de Amoris laetitia coincide com a da “ética da situação”, ou, mais precisamente, com a “ética das circunstâncias”.

De acordo com o Pe. Angelo Perego, a característica própria da ética da situação é “a negação da função decisiva e constitutiva da moralidade da ordem objetiva” (L’etica della situazione, edições “La Civiltà Cattolica”, Roma, 1958, pág. 106). Na moral tradicional, a suprema regra do agir humano é o ser, e não o agente operante. Por isso, a moral tradicional é essencialmente objetiva, porque surge do ser, ao qual se reporta continuamente. A ética das circunstâncias baseia-se, pelo contrário, no acontecer subjetivo. Na ética das circunstâncias de Buttiglione e do Papa Francisco o elemento constitutivo último da moralidade é de natureza estritamente subjetiva. A lei moral torna-se uma regra extrínseca que concorre para determinar o julgamento prático, sem nunca ser o elemento determinante. Qual é o fator decisivo? O “discernimento” das circunstâncias pelo confessor, que, como um mágico, pode transformar o bem em mal e o mal em bem.

 “À ética da situação – disse Pius XII – opomos três considerações ou máximas. A primeira é que admitimos que Deus deseja, antes de tudo e sempre, a reta intenção; mas isso não basta. Ele também quer uma boa obra. A segunda é que não é permitido fazer o mal para que dele venha o bem (Romanos 3: 8). A terceira é que pode haver circunstâncias em que o homem, e especialmente o cristão, deve lembrar-se que é necessário sacrificar tudo, até a própria vida, para salvar a alma. Todos os numerosíssimos mártires, mesmo em nosso tempo, o recordam. Mas a mãe dos Macabeus e seus filhos; santas Perpétua e Felicidade, sem levarem seus filhos em consideração; Maria Goretti e milhares de outros, homens e mulheres, venerados pela Igreja, teriam, portanto, contra as circunstâncias, afrontado inutilmente ou até mesmo erroneamente uma morte sangrenta? Certamente não; e eles permanecem, com seu sangue, as testemunhas mais eloqüentes da verdade, contra a nova moral” (Discurso de 18 de abril de 1952, AAS, 44 (1952), pp. 417-418).

Por outro lado, como observou um amigo, se a doutrina de Buttiglione sobre a imputabilidade da culpa fosse válida, disso resultaria que também o aborto poderia transformar-se um pecado grave mas não imputável à mulher que aborta, tendo em vista sua situação psicológico-econômica no momento de pôr fim à sua gravidez e os problemas psicológico-econômicos que lhe proporcionariam dar à luz uma criança. O mesmo poderia ser dito da eutanásia e, a fortiori, da sodomia, que seria, sim, um pecado que clama por vingança, mas não imputável ao “sodomita” que não o seja por escolha, mas apenas por “natureza”.

O esforço intelectual de Rocco Buttiglione é, aliás, estéril, porque além das palavras permanecem os fatos. E os fatos são que, baseados em Amoris laetitia, um número crescente de sacerdotes asseguram aos penitentes no confessionário que a misericórdia divina cobre sua situação irregular e os convidam a se aproximarem tranquilamente da eucaristia. Perguntamos, então, ao Prof. Buttiglione: o número de comunhões sacrilegas e confissões inválidas aumentou ou diminuiu depois da Amoris laetitia? A noção de indissolubilidade do casamento se fortaleceu ou diminuiu? A resposta é clara. A nova “estratégia pastoral” destrói o casamento e os sacramentos, dissolve a lei natural e abre o caminho para novos erros e heresias no plano da doutrina e da prática. Nenhum sofisma pode desmenti-lo.

17 novembro, 2017

Mons. Fernández: o Papa mudou a disciplina sobre a comunhão dos divorciados que voltaram a se casar.

É a única interpretação possível de Amoris Laetitia. Num artigo publicado em CEBITEPAL, Mons. Víctor Manuel Fernández assegura que o Papa mudou a disciplina vigente sobre os divorciados que voltaram a se casar.

Por InfoCatólica, 23 de agosto de 2017 | Tradução: FratresInUnum.comO artigo que se intitula “O capítulo VIII de Amoris Laetitia: o que fica depois da tormenta”, de Mons. Fernández, Reitor da Pontifícia Universidade Católica da Argentina.

O texto começa assim:

Na hora de interpretar o capítulo oitavo de Amoris Laetitia, particularmente no que se refere ao acesso à comunhão eucarística dos divorciados em uma nova união, convém partir da interpretação que o mesmo Francisco fez de seu próprio texto, explícita em sua resposta aos Bispos da região de Buenos Aires.

Francisco propõe um passo adiante, que implica numa mudança na disciplina vigente. Mantendo a distinção entre bem objetivo e culpa subjetiva, e o princípio de que as normas morais absolutas não admitem exceção, distingue entre a norma e sua formulação e sobretudo reclama uma atenção especial aos condicionamentos atenuantes.

Francisco admite que um discernimento pastoral no âmbito do “foro interno”, atento à consciência da pessoa, possa ter consequências práticas no modo de aplicar a disciplina. Esta novidade convida a recordar que a Igreja realmente pode evoluir, como já aconteceu na História, tanto na sua compreensão da doutrina como na aplicação de suas consequências disciplinares.

Mas assumir isto no tema que nos ocupa, exige aceitar uma nova lógica sem esquemas rígidos. Contudo, isto não significa uma ruptura, mas uma evolução harmoniosa e uma continuidade criativa em relação aos ensinamentos dos Papas anteriores.

A realidade é que o que indica Mons. Fernández não é uma novidade nem uma continuidade criativa, mas uma proposição condenada explicitamente pelo Magistério da Igreja. Por exemplo, é contrário ao indicado na “Carta aos Bispos da Igreja Católica sobre a recepção da comunhão eucarística por parte dos fiéis divorciados que voltaram a se casar”, aprovada pelo Papa São João Paulo II e enviada aos Bispos pelo então Cardeal Joseph Ratzinger, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (logo depois, Papa Bento XVI), no dia 14 de setembro de 1994:

6. O fiel que convive habitualmente more uxorio com uma pessoa que não é a legítima esposa ou o legítimo marido, não pode receber a comunhão eucarística. Caso aquele o considerasse possível, os pastores e os confessores – dada a gravidade da matéria e as exigências do bem espiritual da pessoa(10) e do bem comum da Igreja – têm o grave dever de adverti-lo que tal juízo de consciência está em evidente contraste com a doutrina da Igreja(11). Devem também recordar esta doutrina no ensinamento a todos os fiéis que lhes estão confiados.

Isto não significa que a Igreja não tenha a peito a situação destes fieis que, aliás, de fato não estão excluídas da comunhão eclesial. Preocupa-se por acompanhá-las pastoralmente e convidá-las a participar na vida eclesial na medida em que isso seja compatível com as disposições do direito divino, sobre as quais a Igreja não possui qualquer poder de dispensa(12). Por outro lado, é necessário esclarecer os fiéis interessados para que não considerem a sua participação na vida da Igreja reduzida exclusivamente à questão da recepção da Eucaristia. Os fiéis hão-de ser ajudados a aprofundar a sua compreensão do valor da participação no sacrifício de Cristo na Missa, da comunhão espiritual(13), da oração, da meditação da palavra de Deus, das obras de caridade e de justiça(14).

7. A convicção errada de poder um divorciado novamente casado receber a comunhão eucarística pressupõe normalmente que se atribui à consciência pessoal o poder de decidir, em última instância, com base na própria convicção(15), sobre a existência ou não do matrimónio anterior e do valor da nova união. Mas tal atribuição é inadmissível(16). Efectivamente o matrimónio, enquanto imagem da união esponsal entro Cristo e a sua Igreja, e núcleo de base e factor importante na vida da sociedade civil, constitui essencialmente uma realidade pública.

Também é contrário ao ensinamento do Papa Bento XVI na Exortação Apostólica pós-sinodal Sacramentum Caritatis:

O Sínodo dos Bispos confirmou a práxis da Igreja, fundamentada na Sagrada Escritura (cf. Mc 10, 2-12), de não admitir aos sacramentos os divorciados casados de novo, porque seu estado e sua condição de vida contradizem objetivamente essa união de amor entre Cristo e a Igreja que se significa e se atualiza na Eucaristia.

O arcebispo Fernández pretende que a novidade introduzida pelo Papa Francisco seja irreversível:

Depois de vários meses de intensa atividade dos setores que se opõem às novidades do capítulo oitavo de Amoris Laetitia – minoritários mas hiperativos – ou de fortes tentativas de dissimulá-las, a guerra parece ter chegado a um ponto morto. Agora convêm reconhecer o que é que concretamente nos deixa Francisco como novidade irreversível.

E explica o porquê afirma tal coisa:

Se o que interessa é conhecer como o próprio Papa interpreta o que ele escreveu, a resposta está muito clara em seu comentário às orientações dos Bispos da Região Buenos Aires. Depois de falar da possibilidade de que os divorciados numa nova união vivam em continência, eles dizem que “em outras circunstâncias mais complexas, e quando não se pode obter uma declaração de nulidade, a opção mencionada pode não ser de fato possível”. E a continuação, acrescentam que: “(…) não obstante, igualmente é possível um caminho de discernimento. Se se chega a reconhecer que, num caso concreto, há limitações que atenuam a responsabilidade e a culpabilidade (cf. 301-302), particularmente quando uma pessoa considere que cairia numa nova falta prejudicando aos filhos da nova união, Amoris Laetitia abre a possibilidade do acesso aos sacramentos da Reconciliação e da Eucaristia (cf. notas 336 e 351).

De fato, já que esta é a postura do Papa – acrescenta – não cabe esperar que responda a outras perguntas sobre sua própria interpretação como seria o caso dos Dubia apresentados por quatro cardeais:

Francisco lhe enviou imediatamente uma carta formal dizendo que “o escrito é muito bom e explicita definitivamente o sentido do capítulo VIII”. Mas é importante advertir que acrescenta: “Não há outras interpretações” (carta de 05/09/2016). Portanto, é desnecessário esperar outra resposta do Papa.

O restante do artigo de Mons. Fernández é uma tentativa de justificar a ruptura de Amoris Laetitia com o Magistério precedente. E vai mais além ao contrariar o ensinamento do Catecismo, que indica no seu parágrafo 2353 que “A fornicação é a união carnal entre um homem e uma mulher fora do matrimônio… É gravemente contrária… Além disso, é um escândalo grave.” No entanto, o Arcebispo considera que nem sempre é pecado:

 “(…) é lícito perguntar-se se os atos de uma convivência more uxório devem cair sempre, em seu sentido íntegro, dentro do preceito negativo que proíbe ‘fornicar’. Digo ‘em seu sentido íntegro’ porque não é possível sustentar que esses atos sejam, em todos os casos, gravemente desonestos em sentido subjetivo.

E também aponta a uma hipotética impossibilidade de cumprir os mandamentos em determinadas circunstâncias.

Francisco considera que, ainda conhecendo a norma, uma pessoa ‘pode estar em condições concretas que não lhe permitem atuar de maneira diferente e tomar outras decisões sem uma nova culpa. Como bem expressaram os Padres Sinodais, pode haver fatores que limitam a capacidade de decisão’. Fala de sujeitos que ‘não estão em condições seja de compreender, de valorizar ou de praticar plenamente as exigências objetivas da lei’. Num outro parágrafo o reafirma: ‘Em determindas circunstâncias, as pessoas encontram grandes dificuldades para agir de modo diverso’.

No entanto,  o Concílio de Trento, em seu cânon XVIII sobre a justificação, decreta:

Se alguém disser que é impossível ao homem ainda justificado e constituído em graça, observar os mandamentos de Deus, seja excomungado.

E diz a Escritura:

“Não vos sobreveio tentação alguma que ultrapassasse as forças humanas. Deus é fiel: não permitirá que sejais tentados além das vossas forças, mas com a tentação ele vos dará os meios de suportá-la e sairdes dela.” 1ª Cor 10,13

 

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13 novembro, 2017

Assim o Cardeal Caffarra viveu (e sofreu) seus últimos meses.

Numa visita que fiz ao Cardeal Cafarra em seu apartamento de Bolonha, o Cardeal reconheceu sentir-se vigiado e revelou ter informação de que suas comunicações estavam sendo interceptadas.

Por Gabriel Ariza, InfoVaticana, 12 de setembro de 2017 | Tradução: FratresInUnum.com – Poucos meses atrás, eu tive a oportunidade de visitar o Cardeal Carlo Cafarra em seu apartamento de Bolonha. Ele já havia publicado os Dubia e muitos franco-atiradores o identificavam já como “inimigo do Papa”, algo que, ele mesmo me confessou, fazia-o sofrer muitíssimo: “Eu preferiria que me acusassem de ter um amante homossexual do que ser acusado de inimigo do Papa.”

Devo dizer que me comoveu profundamente a simplicidade com que vivia o Cardeal. Cafarra ocupava um pequeno apartamento num dos edifícios do seminário de Bolonha. Um apartamento que necessitava de uma boa reforma, com as paredes cheias de buracos e fios pendurados, e um sistema de calefação bastante deficiente. Em Bolonha, uma cidade fria, Cafarra passava suas horas redeado de livros, cartas e papéis, e não deixava de responder a nenhuma das cartas ou e-mails que recebia de todas as partes do mundo. Eu me lembro daquele dia, por exemplo, que ele tinha que dar uma conferência para a Argentina por videoconferência, e pediu-me que lhe ajudasse a instalar o sistema no computador. Aproveitei para recomendar-lhe que instalasse o WhatsApp, assim eu pude me comunicar com ele a partir de então.

Tive a ocasião de falar com ele sobre as origens do Instituto João Paulo II, que inauguraria no dia 13 de maio de 1981, quando o Papa quase morreu assassinado por Ali Agka, e a carta que recebeu da Ir. Lúcia de Fátima, sobre a situação da Igreja, a crise gerada pela confusão na Amoris Laetitia e a publicação dos Dubia.

Uma das coisas que mais o inquietavam era a concepção que algumas pessoas têm do Papado. Recordo que ele apontou dois sintomas: o primeiro, quando Pio XII quis mudar a disciplina do jejum eucarístico, o Papa pediu a uma comissão teológica não que estudasse a mudança, mas que lhe dissessem se ele tinha legitimidade para realizar esta mudança. Tal era a sensação que tinha o Papa Pacelli sobre sua pequenez no papel de Sumo Pontífice. Outro dos sintomas era o juramento que fazem os cardeais. Caffarra dizia que até Paulo VI, os cardeais juravam dizer sempre a verdade, “e não aquilo que o Papa quer ouvir”. Depois da reforma de Montini, os cardeais juram defender o Papa com seu sangue. Sobre este aspecto, precisamente, ele me recomendou ler um grande intelectual: Josef Seifert.

Eu lhe comentei, então, que tinha ouvido que estavam vigiando-o, e que suas comunicações estavam sendo interceptadas. Ele me disse que sabia disso, que os quatro cardeais que tinham feito públicos os Dubia estavam sendo observados, que tinham suas comunicações interceptadas e que não podiam fazer muita coisa além de procurar alguma forma de comunicação mais segura. Era evidente que não lhe tirava a paz que algum curial pudesse conhecer os segredos mais íntimos de suas conversas: era um homem de Deus, e era Jesus Cristo o que saía de sua boca cada vez que falava.

Sobre os grampos no Vaticano

Os temores de Cafarra, ao contrário do que poderia pensar o leitor incauto, não são nada de novo, nem correspondem a peregrinas teorias da conspiração. Como explicava um dos vaticanistas mais ilustres, Edward Pentin, num artigo no Register, na época do escândalo Vatileaks, os grampos são muito comuns na Cúria Romana.

Pentin relata, por exemplo, como os oficiais do mais alto nível evitam dar detalhes de seu trabalho por telefone, não falam de nada no escritório ou deixam o celular fora do cômodo quando têm uma reunião confidencial. Os técnicos de TI do Vaticano, de fato, podem acessar os computadores de qualquer membro da Cúria, de forma remota, e ao não ser a Cidade do Vaticano exemplo de garantias processuais, a Gendarmeria [a Polícia Vaticana] pode utilizar este sistema sem necessidade de obter uma ordem judicial.

O próprio Vallejo Balda, o sacerdote espanhol que passou 14 meses preso na Cidade do Vaticano, denunciou ter 25 ‘bugs’ (vírus que espionam e rastreiam a atividade do computador) diferentes em seu PC, e rapidamente a propaganda oficial acusou-o por causa disto de “paranoico”. Nada mais longe da realidade.

Eu mesmo vi como um motorista vigia a porta da casa de um importante cardeal, anotando quem sobe e quanto tempo passa com o purpurado. Surpreendeu, por certo, após a morte de Cafarra, a pressa com que se realizaram as exéquias e o enterro.

Estou certo de que Deus já está rindo com a fina ironia e o sentido de humor de seu bom servo, Carlo Cafarra.

12 novembro, 2017

Foto da semana.

Burke Fatima

Fátima, 3 de novembro de 2017: O Cardeal Raymond Leo Burke celebra Missa Pontifical por ocasião da peregrinação do Instituto Cristo Rei e Sumo Sacerdote, que levou cerca de 4 mil fieis ao Santuário. Mais imagens aqui. E um comentário que vale a leitura aqui.

10 novembro, 2017

O “giro luterano” do Papa Francisco.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 09-11-2017 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.comEm 31 de outubro de 2016, o papa Bergoglio inaugurava o ano de Lutero, reunindo-se com representantes do luteranismo mundial na catedral sueca de Lund. A partir de então, reuniões e celebrações “ecumênicas” se sucederam ad abundantiam no interior  da Igreja.

Selo 500 anos de LuteroA um ano exato daquela data, o “giro luterano” foi chancelado por um ato simbólico, de cuja gravidade poucos se deram conta: a emissão, pelos Correios do Vaticano, de um selo comemorativo do nascimento do protestantismo em 31 de outubro de 1517, com a afixação das 95 teses de Lutero na porta da capela do castelo de Wittenberg.

“V Centenário da Reforma Protestante”, lê-se no topo do selo, apresentado em 31 de outubro deste ano pelo Departamento Filatélico do Vaticano. Segundo o comunicado oficial, o selo retrata “em primeiro plano, Jesus crucificado, tendo ao fundo um céu dourado sobre a cidade de Wittenberg, onde em 31 de outubro de 1517 foram fixadas pelo frei agostiniano as 95 teses. De joelhos, à esquerda, Martinho Lutero com uma Bíblia, enquanto à direita está seu amigo Felipe Melanchton – um dos maiores divulgadores da Reforma – tendo em mãos a Confissão de Augsburgo, o primeiro documento oficial dos princípios do protestantismo.”

A substituição, ao pé da Cruz, de Nossa Senhora e de São João pelos heresiarcas Lutero e Melanchton é uma afrontosa blasfêmia que nenhum cardeal ou bispo católico até agora criticou abertamente. O significado desta representação é explicado pela declaração conjunta da Federação Luterana Mundial e do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos, publicada no mesmo dia do lançamento do selo. A nota se refere ao balanço positivo do diálogo entre católicos e luteranos, confirma a “nova compreensão dos eventos do século XVI que provocaram a [sua] separação” e afirma como ambas as partes “d[ão] graças pelos dons espirituais e teológicos recebidos através da Reforma”.

Como se não bastasse, naqueles mesmos dias La Civiltà Cattolica, a voz “oficiosa” do Papa Francisco, celebrou Lutero com um artigo do padre Giancarlo Pani (Martinho Lutero, quinhentos anos depois, in La Civiltà Cattolica de 21 de outubro a 4 de novembro de 2017, pp. 119-130).

O Pe. Pani é o mesmo que em 2014 afirmou que os Padres do Concílio de Trento teriam admitido a possibilidade do divórcio e do novo casamento em caso de adultério, de acordo com o costume em voga na igreja cismática grega. Agora ele sustenta que Martinho Lutero não foi de nenhum modo um herege, mas um verdadeiro “reformador”. De fato, “as teses de Wittenberg não são nem um desafio nem uma rebelião contra a autoridade, mas a proposta de renovação da proclamação evangélica, no desejo sincero de uma ‘reforma’ da Igreja” (p. 128). Apesar da reivindicação “tanto da Igreja de Roma quanto de Lutero, de encarnar em tudo a verdade e de serem os seus dispensadores”, “não se pode negar o papel que Lutero teve como testemunha da fé. Ele é ‘o reformador’: soube iniciar um processo de ‘reforma’ do qual – sejam quais tenham sido então os resultados – a Igreja Católica também se beneficiou” (p. 129).

De ser assim, Lutero teria sido injustamente perseguido e difamado pela Igreja durante 500 anos, e a hora de reabilitá-lo teria chegado. Para isso, não bastaria limitar-se a apresentar o seu rosto profético, mas seria necessário que a Igreja acolhesse e pusesse em prática suas iniciativas reformadoras. E a Exortação pós-sinodal Amoris laetitia representaria uma etapa decisiva nesse caminho. Não se equivocaram,  pois, os autores da Correctio filialis ao Papa Francisco, quando enfatizaram “a afinidade entre as ideias de Lutero sobre a lei, a justificação e o casamento, e aquelas ensinadas ou favorecidas pelo Papa Francisco em Amoris laetitia e outros lugares”.

Vale a esta altura lembrar que o papa Bergoglio pertence, como o Pe. Pani, à Companhia de Jesus, e que o fundador desta, Santo Inácio de Loyola, foi o campeão da fé suscitado pela Divina Providência no século XVI contra o luteranismo. Na Alemanha, apóstolos como São Pedro Canísio e o Beato Pedro Fabro disputaram palmo a palmo o terreno com os hereges, e no plano da controvérsia antiprotestante ninguém superou São Roberto Belarmino.

La Civiltà Cattolica foi fundada em 1850 com o encorajamento de Pio IX e desempenhou durante muito tempo o papel de bastião doutrinário contra os erros da época. Em sua primeira edição, em 6 de abril de 1850, ela dedicou um amplo ensaio (anônimo, mas de autoria do Pe. Matteo Liberatore) intitulado Racionalismo político da Revolução italiana, o qual encontrava no protestantismo a causa de todos os erros modernos. Essas teses foram desenvolvidas, entre outros, por dois conhecidos teólogos jesuítas, os padres Giovanni Perrone (O protestantismo e regra de fé, “La Civiltà Cattolica”, Roma, 1853, 2 vol.) e Hartmann Grisar (Lutero, Herder, Freiburg im Breisgau 1911/1912, 3 vols.).

Mas assume particular significado a comemoração da revolta luterana feita pela revista da Companhia de Jesus em outubro de 1917, no IV centenário da afixação das teses de Wittenberg (Lutero e o luteranismo, in La Civiltà Cattolica, IV (1917), pp. 207 -233; 421-430). O teólogo da Civiltà Cattolica explicava que: “A essência do espírito luterano, ou seja, do luteranismo, é a rebelião em toda a sua extensão e em toda a força da palavra. A rebelião que Lutero personificou foi variada e profunda, complexa e vastíssima; na aparência, ela de fato surgiu e foi violenta, odiosa, trivial, obscena e diabólica; mas, na realidade, foi planejada e dirigida de acordo com as circunstâncias, e visava objetivos conjunturais e de grande interesse, procurados e desejados com ânimo mesurado e tenacíssimo” (pp. 208-209).

Lutero – continua La Civiltà Cattolica“começou aquela indigna paródia com a qual o monge rebelde atribuía a Deus as ideias, as maldições, as infâmias de sua mente pervertida: ele ultrajou de modo inaudito o Papa em nome de Cristo; amaldiçoou a César em nome de Cristo; blasfemou contra a Igreja, contra os bispos, contra os monges com a mesma impetuosidade infernal, em nome de Cristo; jogou sua batina na árvore de Judá em nome de Cristo, e em nome de Cristo juntou-se com uma freira sacrílega” (p.209). “Com o pretexto muito cômodo de seguir a Escritura como a única fonte que contém a palavra de Deus, ele voltou sua guerra contra a teologia escolástica, a tradição, o direito canônico, a todas as instituições e preceitos da Igreja, aos Concílios: a todas essas coisas tão augustas e venerandas, ele, Martinho Lutero, monge pervertido e teólogo recauchutado, se substituiu com a sua autoridade! Os papas, os doutores, os Santos Padres não valiam mais nada: mais do que todos valia a palavra de Martinho Lutero!” (p.  212). A teoria da justificação luterana, finalmente, “nasceu da fantasia de Lutero, não a partir do Evangelho ou de outra palavra de Deus revelada aos autores do Novo Testamento: para nós qualquer novidade de Lutero encontra sua origem e estímulo na concupiscência, e seu desenvolvimento na falsificação da Escritura ou na mentira formal” (p.221).

O Pe. Pani não poderá negar que o julgamento que ele faz de Lutero discrepa em 360 graus daquele que seus confrades fizeram na mesma revista há um século. Em 1917, ele era reprovado como apóstata, rebelde, blasfemo; hoje é exaltado como reformador, profeta, santo. Nenhuma dialética hegeliana pode harmonizar o julgamento de ontem com o de hoje. Ou Lutero foi um herege que negou alguns dogmas básicos do Cristianismo, ou foi “testemunha da fé” que iniciou a Reforma da Igreja concluída pelo Concílio Vaticano II e pelo Papa Francisco. Em uma palavra, todo católico é chamado a escolher entre estar do lado do Papa Francisco e dos jesuítas de hoje, ou dos jesuítas de ontem e dos papas de todos os tempos.

É hora de escolher e a meditação de Santo Inácio sobre as duas bandeiras (Exercícios espirituais, nº 137) realmente nos ajuda nestes tempos difíceis.

9 novembro, 2017

A “perspectiva protestante” das “teologias da libertação”, como “parte da teologia moderna”.

Por Hermes Rodrigues Nery – FratresInUnum.com, 9 de novembro de 2017

Tanto na Mensagem de Natal à Cúria romana (2005), quanto à exposição que fez ao clero romano (em 14 de fevereiro de 2013), Bento XVI permaneceu convicto de que as incompreensões do Concílio Vaticano II se deram pelo modo como os mass media estimularam e se simpatizaram por “uma hermenêutica da descontinuidade e da ruptura”1, causando confusão, “e também de uma parte da teologia moderna”2.

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Talvez esteja aqui, nessa colocação, o que aproxima e o que distancia Joseph Ratzinger do grupo que elegeu Jorge Mário Bergoglio, em 2013. Isso porque certos tradicionalistas dizem que tanto Ratzinger, quanto Bergoglio estão em sintonia com a mesma visão modernista de Igreja, a diferença está apenas no grau, sendo que Bergoglio mostrou-se disposto, desde o início a pisar no acelerador, por uma revolução sem precedentes, como um novo João XXIII.

Mas Bento XVI há muito havia colocado a mão no breque, aí talvez começou a se distinguir. Na sua exposição ao clero romano, Bento XVI associou a “hermenêutica da descontinuidade e da ruptura”3 estimulada pelos mass media e também por “uma parte da teologia moderna”4.

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1 novembro, 2017

Um teólogo escreve ao Papa: Há um caos na Igreja, e o senhor é uma causa.

Por Sandro Magister, 1º de novembro de 2017 | Tradução: FratresInUnum.com – Thomas G. Weinandy é um dos teólogos mais conhecidos. Vive em Washington, no Seminário dos Capuchinhos, a ordem franciscana à qual pertence. É membro da Comissão Teológica Internacional, a comissão que Paulo VI colocou ao lado da Congregação para a Doutrina da Fé para que pudesse se valer dos melhores teólogos de todo o mundo. É membro desta comissão desde 2014, o que significa que foi nomeado pelo Papa Francisco.

No último mês de maio, enquanto estava em Roma para uma sessão da comissão, surgiu a idéia de escreveu a Francisco uma carta aberta para lhe confiar a inquietude, não só sua, mas de muitos fiéis, pelo crescente caos que há na Igreja, que considera ser causado, em boa parte, pelo próprio Papa.

Rezou muito, inclusive no túmulo de Pedro. Pediu a Jesus que lhe ajudasse a decidir escrever ou não a carta e que lhe desse um sinal… E ele chegou um dia depois, conforme o que havia pedido na oração, e que agora relata da seguinte forma:

> “There was no longer any doubt that Jesus wanted me to write…”

Ao ter sido confortado pelo céu, o padre Weinandy decidiu escrever a carta. Em meados do verão passado, enviou-a ao Papa Francisco. E hoje, festa de Todos os Santos, torna-a pública no portal americano de informação religiosa Crux e imediatamente depois, em Roma, em quatro idiomas, em Settimo Cielo [e, em português, no FratresInUnum.com, graças à gentileza de um nobre amigo].

Padre Weinandy, de 71 anos, lecionou nos Estados Unidos em diversas universidades, em Oxford durante doze anos e em Roma na Pontifícia Universidade Gregoriana.

Foi, durante nove anos, diretor executivo do Secretariado para a Doutrina da Conferência Episcopal Norte-americana.

* * *

Santidade:

Escrevo esta carta com amor à Igreja e sincero respeito por vosso ministério. Vós sois o Vigário de Cristo na terra, o Pastor do Seu rebanho, o Sucessor de São Pedro e, portanto, a rocha sobre a qual Cristo construiu Sua Igreja. Todos os católicos, sejam clérigos ou leigos, devem dirigir-se a Vós com lealdade e obediência filiais fundamentadas na verdade. A Igreja se dirige a Vós com espirito de fé, com a esperança de que Vós a guieis no amor.

No entanto, Santidade, Vosso Pontificado parece estar marcado por uma confusão crônica. A luz da fé, a esperança e o amor não estão ausentes, mas muito frequentemente estão obscurecidos pela ambiguidade de vossas palavras e ações. Isto faz com que entre os fiéis haja cada vez mais inquietação, enfraquecendo sua capacidade de amor, de alegria e de paz. Permiti-me dar alguns exemplos.

O primeiro se refere à disputa em relação ao Capítulo oitavo de Amoris Laetitia. Não necessito compartilhar minhas próprias preocupações sobre seu conteúdo. Outros, não só teólogos, mas também cardeais e bispos, já o fizeram. A preocupação principal é vossa maneira de ensinar. Em Amoris Laetitia, vossas indicações parecem às vezes intencionalmente ambíguas, convidando tanto a uma interpretação tradicional do ensinamento católico sobre o matrimônio e o divórcio, como também a uma interpretação que parece levar consigo uma mudança neste ensinamento. Como Vós mesmo, com grande sabedoria, observa, os pastores devem acompanhar e animar às pessoas que se encontram em matrimônios irregulares; mas a ambiguidade persiste em relação ao significado real desse “acompanhamento”. Ensinar com uma falta de clareza pode inevitavelmente levar a pecar contra o Espírito Santo, o Espírito da verdade. O Espírito Santo foi entregue à Igreja e sobretudo a Vós, para dissipar o erro, não para fomentá-lo. Além disso, só onde há verdade pode haver verdadeiro amor, porque a verdade é a luz que liberta os homens e as mulheres da cegueira do pecado, uma obscuridade que mata a vida da alma. No entanto, Vós pareceis censurar e inclusive ridicularizar aqueles que interpretam o Capítulo oitavo de Amoris Laetitia segundo a Tradição da Igreja, rotulando-os de fariseus apedrejadores representantes de um rigorismo sem misericórdia. Este tipo de calúnia é alheia à natureza do Ministério Petrino. Parece que alguns de seus conselheiros se dedicam lamentavelmente a este tipo de atitude. Este comportamento dá a impressão de que vosso ponto de vista não pode sobreviver a um escrutínio teológico, e por isso deve ser sustentado mediante argumentos ad hominem.

Segundo. Muito frequentemente vossas formas parecem menosprezar a importância da doutrina da Igreja. Uma e outra vez Vós vos referis à doutrina como se fosse algo morto, algo útil somente para ratos de biblioteca, que estão longe das preocupações pastorais da vida diária. Aqueles que vos criticam foram acusados – e são palavras vossas – de fazer da doutrina uma ideologia. Mas é precisamente a doutrina cristã – incluindo as sutis distinções relacionadas às crenças fundamentais como a natureza trinitária de Deus, a natureza e a finalidade da Igreja; a Encarnação; a Redenção; os sacramentos – que liberta o homem das ideologias mundanas e garante-lhe que está pregando e ensinando o Evangelho verdadeiro, doador de Vida. Aqueles que subestimam a doutrina da Igreja se separam de Jesus, Autor da verdade. E o único que resta então é uma ideologia; uma ideologia que se conforma com o mundo do pecado e da morte.

Terceiro. Os fiéis católicos estão desconcertados pela vossa escolha de alguns bispos, homens que não só estão abertos àqueles que tem pontos de vista contrários à fé cristã, mas que também os apoiam e inclusive os defendem. O que escandaliza os fiéis e inclusive a alguns irmãos Bispos não é só o fato de que Vós nomeeis a estes homens como Pastores da Igreja, mas que permaneçais calado ante seu ensinamento e prática pastorais, debilitando assim o zelo de muitos homens e mulheres que defenderam a autêntica doutrina católica durante muito tempo, às vezes arriscando sua própria reputação e bem-estar. O resultado: muitos fiéis, em representação do sensus fidelium, estão perdendo a confiança em seu Pastor Supremo.

Quarto. A Igreja é um Corpo, o Corpo Místico de Cristo, e o Senhor vos encarregou a Vós a missão de promover e fortalecer sua unidade. Mas vossas ações e palavras parecem dedicar-se, frequentemente, a fazer o oposto. Alentar uma forma de “sinodalidade” que permite e fomenta várias opções doutrinais e morais dentro da Igreja só pode levar a uma maior confusão teológica e pastoral. Esta sinodalidade é insensata e na prática é contrária à unidade colegial dos Bispos.

Santo Padre, tudo isso me leva à última preocupação. Vós frequentemente falais sobre a necessidade de que haja transparência dentro da Igreja, exortando sobretudo nos dois últimos Sínodos, a que todos, especialmente os Bispos, falem francamente e sem medo ao que pudesse pensar o Papa. Mas, vós conseguistes perceber que a maioria dos Bispos do mundo estão surpreendentemente silenciosos? Por quê? Os Bispos aprendem rápido. E o que muitos aprenderam em vosso Pontificado é que vós não estais aberto a críticas, mas que vos molesta ser objeto delas. Muitos Bispos estão silenciosos porque desejam ser-vos leais e, por conseguinte, não se expressam – pelo menos publicamente; outra questão é se não o fazem privadamente – a preocupação que lhes causa vosso pontificado. Muitos temem que, se falarem francamente, serão marginalizados. Ou algo pior.

Constantemente me pergunto: “Por que Jesus deixa que tudo isso ocorra?” A única resposta que consigo dar-me é que Jesus quer manifestar quão débil é a fé de muitas pessoas que estão dentro da Igreja, inclusive de muitos – demasiados – Bispos. Ironicamente, Vosso Pontificado deu a liberdade e a confiança para aqueles que têm um ponto de vista pastoral e teológico prejudicial saíssem à luz e expusessem sua maldade, que antes estava oculta. Reconhecendo esta maldade, a Igreja humildemente necessitará renovar-se e assim seguir crescendo em santidade.

Santo Padre, rezo constantemente por Vós. E seguirei rezando. Que o Espírito Santo vos guie na direção da luz da verdade e da vida do amor, para que possais dispersar a maldade que nestes momentos está ocultando a beleza da Igreja de Cristo.

Sinceramente em Cristo,

Thomas G. Weinandy, O.F.M., Cap.

31 de julho de 2017
Festa de Santo Inacio de Loyola

 

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31 outubro, 2017

Editorial: Nos 500 anos da “Reforma” Protestante. Lutero e Bergoglio, um paralelo inquietante.

Por FratresInUnum.com – 31 de outubro de 2017

Uma heresia como as outras? Decisivamente, não. E isso não em benefício do luteranismo. Aliás, é exatamente o contrário.

As heresias antigas eram primores intelectuais em comparação com o disparate doutrinal de Lutero. O arianismo, embora tenha quase engolido a Igreja, era um erro em que humanamente a inteligência poderia tropeçar; erro que foi debelado com sucesso pela valentia de Santo Atanásio e do povo fiel. Como afirmava São Jerônimo, “enquanto o mundo de improviso amanheceu Ariano, em pé ficava o grande lutador Atanásio”.

“Em vida fui tua peste; morto, serei tua morte, ó papa” – Martinho Lutero.

Já o luteranismo era apenas uma caricatura de cristianismo: o livre exame das Escrituras, que acabava com a unidade da fé; uma Igreja sem sacramentos e sem uma hierarquia com poder de ordem; o desprezo pelas obras, como se a salvação fosse apenas resultado de uma confiança cega, a despeito do pecado. Enfim, a loucura mesma por escrito.

Lutero jamais teria sucesso por causa de suas ideias. Aliás, quando Melancton, seu fiel discípulo, escreveu a Constantinopla pedindo adesão à nova pregação, sua missiva foi desprezada, desconsiderada por causa de sua escandalosa incoerência doutrinal. Foram tratados simplesmente como desequilibrados.

Não fosse o interesse político e econômico que havia por trás da “Reforma”, Lutero teria acabado como um desvairado completo. Contudo, os príncipes alemães, sedentos de independência política em relação a Roma, insuflaram a insurreição luterana. A isto, e apenas a isto, deve-se o sucesso das “ideias” protestantes.

Deste modo, a sangria atingiu a cristandade ocidental, devorando um terço da Europa. O luteranismo foi emplacado propositalmente com um fim: destruir o papado católico e dividir a Igreja. O objetivo foi alcançado com sucesso.

Foi justamente graças à Companhia de Jesus que a Igreja conseguiu reverter a tormenta. Santo Inácio de Loyola, após sua extraordinária conversão, quis começar sua vida intelectual do zero: voltou a estudar com as crianças, reaprendeu tudo novamente, até que ingressou na Universidade de Paris, com a intenção explícita de arrebanhar as mentes mais brilhantes. Oito homens começaram a estudar juntos e, aprendendo como abordar o erro, passaram a estudar minuciosamente o protestantismo e começaram a combater aquele arremedo de cristianismo.

Em todo o território católico, justamente nas demarcações onde avançava a nova religião, jesuítas corajosos fundaram colégios e, assim, através da educação, contiveram a dissolução da cristandade, totalmente fieis à Cátedra de Pedro.

Duzentos anos após a “Reforma”, a maçonaria, oficialmente fundada em 1717, entendeu que a supressão da Companhia de Jesus, das Monarquias e das Instituições tradicionais era necessária para a internacionalização da economia e a refundação da sociedade sobre o novo pilar do capital. Aprenderam com Lutero a destruir a Igreja. Então, podiam jogar fora a nova crença e apenas utilizar seus métodos.

Atualmente, assistimos a um fenômeno parecido. Desde março de 2013, a Igreja Católica é chefiada por um Papa extremamente autoritário, com ideias completamente ineptas, confusas, contraditórias, que tenta a todo custo promover a destruição completa do catolicismo e do papado para trazer à luz um modelo de Igreja profundamente esquizofrênico. Nos discursos e nas ações de Francisco, surge o esboço de um catolicismo que se refunda numa Confederação de Igrejas Nacionais, independentes, que professam doutrinas contraditórias.

Em tempos normais, não haveria a mínima possibilidade de essas ideias ganharem algum prestígio…, não favorecessem elas a Nova Ordem Mundial, o esquema de poder globalista, que se serve da esquerda internacional apenas como instrumento para a destruição da Igreja e de todas as sociedades.

O luteranismo queria destruir a Igreja. O globalismo quer destruir as sociedades, para transformar os indivíduos em átomos soltos, totalmente suscetíveis ao governo planetário multicultural.

No pontificado de George Soros, Bergoglio escolheu ser apenas coroinha. Por isso, tem este “sucesso”. Mas, aliás, muito entre aspas. De fato, o clero e o povo não estão acompanhando a revolução bergogliana. Por exemplo, as Igrejas na Europa continuam vazias e, na América Latina, como reclamou o próprio George Soros num recente artigo, há uma onda conservadora em plena ascensão.

Nossa geração tem uma escolha a fazer: podemos permanecer inertes e assistir a dissolução completa do catolicismo ou resistir, confiantes no Triunfo do Imaculado Coração de Maria. Ela é a nossa escolha. É a escolha de todo o povo católico militante. Continuaremos a documentar todo o desmonte bergogliano, a atitude complacente dos pastores e a reação sadia de desprezo de todo o povo católico.

Como se sentirá Santo Inácio de Loyola ao ver o primeiro papa jesuíta destruindo tudo aquilo que ele deu a vida por defender e se sentando para comemorar Lutero, a quem o jesuíta São Roberto Belarmino atribuía a alcunha de “Dragão do Apocalipse”, justamente por ter arrastado com a cauda um terço da cristandade para o erro?…

Não desanimemos. Sigamos o exemplo daqueles varões doutos, eloquentes e militantes. Preguemos a tempo e contratempo, oportuna e inoportunamente, ensinemos a doutrina católica e o veneno de Lutero será completamente anulado pela força salvadora da verdade de Cristo, da nossa santíssima Fé Católica, Apostólica, Romana.

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29 outubro, 2017

Aos pés de Buda.

Por FratresInUnum.com – 29 de outubro de 2017

Depois de figurar numa escola de samba em pleno carnaval e ser “homenageada” por beldades como Preta Gil, em plenos 300 anos de comemoração do encontro da Imagem de Nossa Senhora Aparecida, ela mesma foi posta, num ato inter-religioso acontecido no último sábado, aos pés de Buda!

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Já o cartaz do evento é eloquente. Lado a lado, a Mãe Santíssima de Jesus Cristo e Buda. Igualados. Equiparados.

Abaixo, os dizeres do cartaz não permitem hermenêuticas alternativas: “VENHA REVERENCIÁ-LOS”.

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As fotos e vídeos do evento são ainda mais escandalosos. O Cardeal Arcebispo de São Paulo, Dom Odilo Scherer, ao lado do bispo diocesano de Osasco, Dom João Bosco Barbosa, presidente da Comissão Nacional Vida e Família da CNBB, o redentorista reitor do Santuário Nacional de Aparecida, Pe. João Batista de Almeida, e uma dezena de clérigos, todos devidamente paramentados com suas batinas, prestigiando o momento blasfemo. Incenso oferecido a Buda por mãos dos bispos, a Imagem de Aparecida posta abaixo de Buda, orações em conjunto… Os mártires de todos os tempos do cristianismo envergonhados, a Mãe de Cristo rebaixada, e abaixo de Buda!

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Pelas redes sociais, fiéis consternados protestam, indignados com tamanha impiedade.

Após recebermos dezenas de manifestações, resolvemos, também nós, unir-nos às suas vozes para desagravar a Virgem Santíssima, ultrajada de modo tão irreverente por tamanho relativismo.

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Prostremo-nos diante da Imagem Santa de Nossa Senhora e rezemos, pedindo perdão por tamanha confusão.

A natureza do acontecimento estrapola em muito a finalidade de um encontro pela paz e a justiça. Trata-se de um verdadeiro desrespeito a Nossa Senhora.

Este desfile de agravos precisa acabar!

27 outubro, 2017

Editorial – Descentralização: o golpe mortal de Francisco no papado.

Por FratresInUnum.com – 27 de outubro de 2017

Voltemos a Cesaréia de Filipe. Ali, na Cidade de César, considerado deus do império romano, pergunta Nosso Senhor a seus discípulos o que pensam os homens dEle e, para eles, quem Ele é. Num ímpeto, São Pedro responde: “Tu és o Messias, o Filho do Deus vivo” (Mt 16,16).

Essa é a primeira passagem do Evangelho de São Mateus em que Cristo é proclamado não “Filho de Deus”, mas “O Filho de Deus”.

A reação de Nosso Senhor foi imediata: “Feliz és, Simão, filho de Jonas, porque não foi a carne nem o sangue que te revelou isto, mas meu Pai que está nos céus. Por isso, eu te declaro: tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja; as portas do inferno não prevalecerão contra ela” (Mt 16,17-18).

Simão foi o primeiro a crer e, por isso, se transforma em Pedro. Aquilo que o faz Pedra é a sua profissão de fé, a fé que a graça de Deus faz explodir em seu coração.

Sem fé, não temos acesso a Cristo. “Sem fé, é impossível agradar a Deus” (Hb 11,6), pois Cristo habita em nossos corações pela fé (cf. Ef 3,17). “Quem é o vencedor do mundo, senão aquele que crê que Jesus é ‘o’ Filho de Deus?” (1Jo 5,5).

O ofício de Pedro consiste exatamente nisso: “Simão, Simão, eis que Satanás vos pediu para vos joeirar como trigo; mas eu roguei por ti, para que a tua fé não desfaleça; e tu, quando te converteres, confirma teus irmãos” (Lc 22,31-32).

Papa Francisco, porém, caminha no sentido apontado por Nosso Senhor?

No relato da confissão de Pedro, no Evangelho de São Mateus, pouco depois, o apóstolo tenta demover Cristo da Cruz. “Mas Jesus, voltando-se para ele, disse-lhe: Afasta-te, Satanás! Tu és para mim um escândalo; teus pensamentos não são de Deus, mas dos homens!” (Mateus 16,23). Ele tinha deixado de pensar como Deus, para pensar como César.

Quem é o César dos nossos dias? Não é justamente o politicamente correto, a nova ética da elite globalista que domina a mídia e as fundações internacionais? Não é o progressismo meta-capitalista de George Soros e companhia, que subsidiam a esquerda internacional para destruir a sociedade e, junto com ela, a Igreja?

Pois bem, em sua carta ao Cardeal Sarah, Papa Francisco, ao confirmar toda a radicalidade de seu ato de descentralização promulgado em Magnum Principium, parece cometer explicitamente um atentado ao papado, à natureza do ofício petrino e, portanto, à constituição divina da Igreja.

O Cardeal africano tentou ainda atenuar a gravidade da situação, dizendo que “reconhecimento” e “confirmação” seriam, na prática, a mesma coisa e estariam a cargo da Sé Apostólica. Francisco desmentiu publicamente, mandou que se publicasse a carta nos mesmos sites e encaminhasse às conferências episcopais de todo o mundo, num ato de urgência em fazer clareza impressionante. Enquanto isso, os dubia

Doravante, às Conferências Episcopais se confere o poder de “confirmar” as suas próprias traduções dos livros litúrgicos, acrescentando, inclusive, as alterações que acharem oportunas. A Santa Sé apenas reconhecerá aquilo que for estabelecido por elas.

Aqui, porém, cabe uma pergunta: e se alguma Conferência Episcopal apresentar uma tradução que contenha alguma heresia?

De fato, Francisco estaria abdicando o ofício de Pedro e se nega a confirmar seus irmãos na fé, que é o maior serviço, o serviço essencial de sua missão como Pastor da Igreja Universal.

Não se trata, aqui, de uma mera nuance administrativa. A Igreja Católica está fundada sobre a rocha fundamental da fé conservada por Pedro, mas Francisco parece renunciar a cumprir o seu papel e mais: fê-lo de modo formal, por escrito e sem deixar dúvidas.

É a fé! É a fé que importa! O ofício petrino é um serviço à fé. É por causa da fé que existe o Papa e não para simplesmente coordenar institucionalmente a Igreja. Aprovando a tradução dos missais, a Santa Sé não estava se impondo ou retirando autonomia dos bispos ou das Conferências dos mesmos, mas apenas servindo-os em benefício da fé. Agindo deste modo, Francisco está se retirando da posição de alicerce da Igreja e, quando se remove um alicerce, o prédio cai!

Qual é nosso papel nessa hora tão dramática? Precisamos fazer como São Paulo, na epístola aos Gálatas: “quando, porém, Cefas veio a Antioquia, resisti-lhe francamente, porque era censurável” (Gl 2,11).

Precisamos resistir e conservar a nossa fé integralmente, a despeito de toda a leviandade em matérias tão fundamentais e sérias. Pelo que geralmente se entende das palavras e gestos de Francisco, ele expressa uma concepção de fé fundamentalmente luterana: uma confiança vaga em Deus que gera um amor naturalista, tão somente filantrópico. Dizendo que não quer transformar a Igreja numa ONG, é exatamente nisso que ele a está transformando, transformando seu ofício numa mera coordenação de ações programadas.

Resistamos! Resistamos com coragem! Conservemos nossa Fé Católica e não nos desencorajemos por causa dessa pública traição, desse adultério contra a sacralidade da Igreja.

Nosso Senhor olhará a nossa fidelidade e a premiará, concedendo-nos, pelas Mãos Imaculadas de Maria, um Pastor fiel, e não alguém que se engraçou com os lobos e que passou a dispersar o seu próprio rebanho, ao invés de congregá-lo.

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