Archive for ‘Atualidades’

21 agosto, 2018

Carta do Papa Francisco ao povo de Deus.

CARTA DO PAPA FRANCISCO
AO POVO DE DEUS

 

«Um membro sofre? Todos os outros membros sofrem com ele» (1 Co 12, 26). Estas palavras de São Paulo ressoam com força no meu coração ao constatar mais uma vez o sofrimento vivido por muitos menores por causa de abusos sexuais, de poder e de consciência cometidos por um número notável de clérigos e pessoas consagradas. Um crime que gera profundas feridas de dor e impotência, em primeiro lugar nas vítimas, mas também em suas famílias e na inteira comunidade, tanto entre os crentes como entre os não-crentes. Olhando para o passado, nunca será suficiente o que se faça para pedir perdão e procurar reparar o dano causado. Olhando para o futuro, nunca será pouco tudo o que for feito para gerar uma cultura capaz de evitar que essas situações não só não aconteçam, mas que não encontrem espaços para serem ocultadas e perpetuadas. A dor das vítimas e das suas famílias é também a nossa dor, por isso é preciso reafirmar mais uma vez o nosso compromisso em garantir a protecção de menores e de adultos em situações de vulnerabilidade.

read more »

Tags:
20 agosto, 2018

Cardeal McCarrick e a máfia gay: corrupção do clero atual rivaliza com a da época dos Bórgias.

Por LifeSiteNews.com, 1.º de agosto de 2018 | Tradução: FratresinUnum.com – O escandaloso registro de abusos sexuais cometidos pelo Cardeal McCarrick contra seminaristas e menores de idade está espalhando terror por toda a Igreja, à medida que os católicos se põem a meditar cada vez mais sobre as suas perturbadoras consequências. Está claro agora que a fama de predador sexual de McCarrick era há décadas amplamente conhecida pela hierarquia católica, e ainda assim nada foi feito para freá-lo nem para impedir que ele ascendesse na carreira eclesiástica.

McCarrick

Não obstante as tentativas por parte de um pequeno número de padres e jornalistas católicos de trazer à tona a verdade sobre as imoralidades sexuais de McCarrick, e até de alertar a Santa Sé, o prelado teve êxito em ser promovido, chegando a receber o arcebispado de Washington e inclusive o barrete cardinalício. Aparentemente, nenhum crime era suficiente para ameaçar a carreira de McCarrick, até que ele se aposentasse em segurança.

read more »

Tags:
19 agosto, 2018

Foto da semana.

Bom dia. Estou contente em acolhê-los. Obrigado por esta visita, me faz bem. Quando eu era estudante, quando era preciso ir ao encontro do Geral, e quando devíamos ir com o Geral ao encontro do papa, levava-se a batina e a capa. Vejo que esta moda não existe mais, graças a Deus.

Palavras do Papa Francisco aos participantes do encontro “European Jesuits in Formation”, em Roma, 1º de agosto de 2018. Como bem notou Infovaticana (créditos da imagem), dos pouco mais de 30 ouvintes do discurso, havia alguns antiquados.

Tags:
15 agosto, 2018

Consultor do Vaticano: O Papa “rompe as tradições católicas quando bem quer”.

Padre Thomas Rosica afirmou que a Igreja é agora ‘governada por um indivíduo, e não… por suas próprias doutrinas de Tradição e Escritura’.

Por Catholic Herald, 14 de agosto de 2018 | Tradução: FratresInUnum.com – Sob o Papa Francisco, a Igreja agora é “abertamente governada por um indivíduo, em vez de pela autoridade somente da Escritura, ou mesmo por suas próprias doutrinas de Tradição mais Escritura”, afirmou um conselheiro do Vaticano.

Em um admirado retrato do Papa Francisco, o Padre Thomas Rosica escreveu que Francisco “rompe as tradições católicas quando bem quer” porque ele é “livre de vínculos desordenados”.

Pe. Rosica, um sacerdote canadense e consultor de mídia do Vaticano, escrevia no website da Salt & Light Catholic Media Foundation, da qual é CEO.

O artigo, escrito há duas semanas, foi republicado pela agência de notícias Zenit. Após as declarações de Pe. Rosica ganharem atenção nas redes sociais, Zenit removeu a declaração controversa e a substituiu por “[…]”.

Pe. Rosica afirmou que, como jesuíta, o Papa Francisco é guiado pelo princípio do “discernimento” que, por vezes, resulta em “libertar-se do enclausuramento de fazer algo de uma certa forma porque sempre foi assim”.

O artigo, que foi publicado na festa de Santo Inácio de Loyola, fundador dos jesuítas, afirmava que o Papa Francisco trouxe o “intelectualismo jesuíta” ao Papado.

As palavras de pe. Rosica vieram dias após o Vaticano anunciar que o Papa Francisco havia mudado o Catecismo, para declarar que a pena de morte, agora, é “inadmissível”. A mudança causou muito debate acerca do que significava, e se contradizia o ensinamento tradicional da Igreja, que afirma que a pena de morte não é intrinsecamente má.

Tags:
13 agosto, 2018

Divulgação – Literatura e Catolicismo em um mesmo evento.

Clássicos da literatura seriam a mesma coisa se não tivessem sido escritos por cristãos e mais especificamente por católicos? Para responder a essa pergunta a equipe do Congresso de Literatura Católica colocou o pé na estrada e reuniu, em mais de trinta palestras, alguns dos maiores nomes da crítica literária e do estudo das humanidades. Evitando uma proposta óbvia – que seria encarar a literatura católica apenas como um tema pertinente ao estudo de obras religiosas – o congresso traz para dentro do círculo católico obras de literatura de ficção, escritas ou não por católicos, que possuem uma narrativa especialmente alinhada com a visão católica do mundo, do homem, do bem e do mau.

O resultado até agora são palestras surpreendentes e reveladoras nas quais aspectos esquecidos, porém essenciais, para a compreensão de nossa cultura vieram à tona. São palestras sobre as obras de autores como J. R. R. Tolkien, C. S. Lewis, Georges Bernanos, G. K. Chesterton, Gustavo Corção, Santa Teresa d´Ávila, Miguel de Cervantes, entre outros. Além de palestras específicas como: “O que Define um Escritor Católico?”; “a Lírica Católica”; “a Providência na Literatura”; “Literatura Católica: O que é?”; “Literatura Católica: A Beleza e o Bem.; e muitas outras. O Congresso de Literatura Católica será totalmente online e a veiculação das palestras acontecerá entre os dias 29, 30 e 31 de agosto, porém os participantes terão um ano de acesso para assistirem a todas as palestras depois dessa data.

O intuito dos organizadores do Congresso de Literatura Católica é fazer mais conhecido e compreendido o papel determinante do pensamento católico na literatura, assim como na que não é propriamente religiosa; desta forma, mostrando ao público que a cosmovisão católica foi, e é,  formidável alimento a tantos intelectuais, porque enriqueceu a própria arte literária e podemos tirar o maior proveito dessas maravilhosas obras com o objetivo de preencher o nosso imaginário com histórias, poemas, contos, canções, etc.; ou seja, tudo que melhor foi produzido empregando a cosmovisão católica, a visão de mundo que está perfeitamente alinhada com a Verdade.

Mais informações: www.literaturacatolica.com.br

* * *

Atenção: Toda divulgação comercial em FratresInUnum.com é absolutamente gratuita, contanto que útil à Igreja, e deve ser enviada para fratresinunum[arroba]gmail.com

7 agosto, 2018

Assumindo a descontinuidade: a mudança de paradigma e as reformas do Papa Francisco.

FratresInUnum.com entrevista José Antônio Ureta, o autor do livro “A ‘mudança de paradigma’ do Papa Francisco. Continuidade ou ruptura na missão da Igreja? Balanço quinquenal do seu pontificado” [a edição eletrônica do livro pode ser gratuitamente baixada neste link].

Primeiramente, Sr. Ureta, gostaríamos de lhe agradecer por nos conceder essa entrevista. Gostaríamos, primeiramente, que o senhor se apresentasse e falasse brevemente sobre sua formação e atuação.

ureta

Sr. Ureta na apresentação de seu livro, em Roma.

Eu que agradeço a oportunidade de poder dirigir-me aos leitores de Fratres in Unum, que acompanho diariamente com vivo interesse, do outro lado do Atlântico, para saber como vão os debates religiosos no Brasil, que para mim é quase uma segunda pátria.

Sou chileno, estudei Direito, mas não me formei, porque, na época tivemos o regime comunista de Salvador Allende, e então passei a dedicar-me full-time a defender a Tradição, a Família e a Propriedade nas pegadas do grande intelectual e líder católico brasileiro, o saudoso Dr Plinio Corrêa de Oliveira.

Como, nesses anos, a TFP estava em plena expansão, fui solicitado para ajudar outros grupos nascentes e, após ter passado três anos no Brasil, colaborei com as associações co-irmãs e autônomas da TFP brasileira no Canada e na África do Sul. Desde 1990 resido na Europa e colaboro com as TFPs locais, especialmente na área da formação intelectual dos novos cooperadores e em pesquisas doutrinárias ligadas à atualidade.

O senhor lançou, recentemente, a obra A ‘mudança de paradigma’ do Papa Francisco. Continuidade ou ruptura na missão da Igreja?. Balanço quinquenal do seu pontificado, que teve repercussão no mundo afora. Fale-nos um pouco sobre a obra, no que ela difere das demais publicações críticas a respeito do pontificado do Papa Francisco, e quais seus objetivos ao lançá-la.

Começo pelo fim. O objetivo é esclarecer os católicos que estão muito confusos desde que o Papa Francisco assumiu o trono de São Pedro e não sabem se estão obrigados a seguir todas as novidades que ele está introduzindo na prática pastoral e na doutrina da Igreja.

O livro é destinado a leigos comuns, com as preocupações de um católico comum, que vive num mundo inteiramente paganizado e que vai ficando cada vez mais anticristão, com legislações como o aborto, o pseudo-casamento homossexual e a eutanásia ou a imposição nas escolas da aberrante ideologia de gênero. Para não falar da absurda agenda ecológica que têm como modelo de desenvolvimento sustentável os índios da Amazônia.

O livro mostra como, nesses temas, o Papa Francisco tem operado uma “mudança de paradigma”, que frequentemente contradiz o ensino e a disciplina tradicionais da Igreja.

A obra difere de outros valiosos contributos para a avaliação do atual pontificado sob dois pontos de vista. De um lado, pelo fato de fazer uma síntese do conjunto dos cinco anos de pontificado, com uma farta documentação (não contei, mas acho que há perto de 500 referências, a grande maioria retirados da Internet, para que todos possam consultar os textos originais – um analista argentino comentou que o livro é uma “mina de ouro” de informações). De outro lado, pela opção de abordar, não temas teológicos e eclesiológicos, nos quais o Papa Francisco também tem operado “mudanças de paradigma”, mas exclusivamente temas ligados à esfera temporal, campo onde os leigos vivem e lutam para preservar sua fé, educar cristãmente seus filhos, etc. Mesmo ao abordar, por exemplo, a questão da comunhão para os divorciados civilmente recasados, autorizada “caso por caso”, na Amoris laetitia, o faz por envolver um problema essencial para os leigos e para toda a ordem social: a indissolubilidade do casamento.

Além dessa “mudança de paradigma” escandalosa da Amoris Laetitia,  nesta última semana, chegamos ao ponto de se revisar o próprio Catecismo (sobre a pena de morte — nem mesmo o fato de Bento XVI, responsável pela Congregação para a Doutrina à época da promulgação do Catecismo da Igreja Católica, ainda estar vivo parece refrear o Papa Francisco em sua determinação). Que risco a Igreja corre com tais mudanças no âmbito doutrinal?

Os riscos são enormes e foram muito bem apontados pelo editorial de Fratres in Unum.

Não somente levanta o gravíssimo problema canônico do estatuto de um Papa que promove uma novidade doutrinária que contraria uma verdade revelada infalível, porque ensinada constantemente pelo magistério universal da Igreja, mas a mesma argumentação antropológica e sociológica empregada pelo Papa para justificar tal mudança permite fazer mudanças similares em outras matérias.

Vocês evocaram a possibilidade de aceitar a contracepção, o divórcio e a coabitação pre-matrimonial baseados numa nova consciência social a respeito desses temas. O conhecido vaticanista da rádio e televisão italiana, Aldo Maria Valli, que é pessoalmente contrário à pena de morte, queixou-se da argumentação empregada pelo Papa, pelo mesmo motivo que vocês apontaram e exemplificou com a homossexualidade. Aliás o lobby LGBT já declarou que espera que, em breve, sejam retiradas do Catecismo as frases que afirmam que a tendência homo-erótica é “objetivamente desordenada” e “intrinsecamente desordenada”. É o que pede, há muitos anos, o jesuíta americano James Martin, que será a vedette do próximo Encontro Mundial das Famílias, em Dublin.

Como diz Valli, “se, de fato, os pressupostos de uma mudança da doutrina passam a ser ‘a sempre mais viva consciência’ de um determinado fenômeno ou de uma determinada condição e ‘a nova compreensão’ que se registra no mundo a propósito daquele fenômeno ou daquela condição, é evidente que o inteiro aparelho doutrinário da Igreja poderá ser facilmente mudado e eventualmente convulsionado”.

Alguns alegam que Francisco mantêm continuidade para com seus predecessores pós-conciliares, só possuindo um ritmo de reformas mais intenso. Essa análise é verdadeira?

No meu livro explico que o denominador comum de todas essas “mudanças de paradigma” é o adaptar-se à Modernidade, a qual tem como unidade moral profunda a emancipação do homem de tudo que o transcende, portanto de Deus e da ordem divina do universo. Isso fica patente, por exemplo, na ideologia de gênero que é uma fuga de realidade.

Essa tentativa de adaptação da Igreja à Modernidade vem do tempo do Modernismo, condenado por S. Pio X. Mas ele ressurgiu depois camuflado e conseguiu impor sua nouvelle théologie nas novidades doutrinárias e ambiguidades contidas nos documentos do Concílio Vaticano II. É exemplificativa desse espírito de acomodação com o mundo a famosa frase de Paulo VI, no discurso de encerramento: “A religião, que é o culto de Deus que quis ser homem, e a religião — porque o é — do culto do homem que quer ser Deus, encontraram-se. Que aconteceu? Combate, luta, anátema? Tudo isto poderia ter-se dado, mas de fato não se deu. (…) Vós, humanistas do nosso tempo, que negais as verdades transcendentes, dai ao Concílio ao menos este louvor e reconhecei este nosso humanismo novo: também nós —  e nós mais do que ninguém somos cultores do homem”.

Na medida em que os papas pós-conciliares foram difusores dessas novidades doutrinárias fundamentadas no culto humanista do homem, o pontificado de Francisco não é uma ruptura, mas uma continuidade com eles. A diferença está em que não procura mais justificar sua posição numa hermenêutica da continuidade com o ensino tradicional, mas assume a descontinuidade.

A “mudança de paradigma” do Papa Francisco opera-se em relação ao ensino perene da Igreja e, como disse, ela vem do início do século passado.

E o que podemos esperar quanto às reformas futuras? Francisco possui o apoio necessário, sobretudo no colégio cardinalício, para aplicá-las? Ou corre-se o risco de aprofundar ainda mais a divisão entre os católicos?

Tudo dependerá da atitude dos cardeais de orientação progressista moderada ou de orientação tradicional. Se eles fizerem uma enérgica correctio fraterna ao Papa Francisco a propósito da mudança do Catecismo, talvez ele diminua o ritmo da sua revolução. Mas não estou seguro que, mesmo nessa eventualidade, ele o faça. Porque já disse que tem pouco tempo e quer iniciar processos e, segundo um jornalista alemão muito bem informado, ele teria reconhecido num círculo restrito de cardeais que poderá passar para a história como “aquele que dividiu a Igreja”.

De qualquer maneira, por seu apoio à agenda esquerdista, ele perdeu a simpatia inicial de todas as pessoas sensatas. Na Europa, seu apoio à imigração massiva dos muçulmanos é rejeitado abertamente. Na América Latina, sua clara simpatia pelos movimentos e governos esquerdistas (a recente mensagem ao presidente Lula é mais uma manifestação dela) fez com que um abismo esteja crescendo entre ele e a maioria dos fiéis. Nos Estados Unidos, sua inércia na defesa da vida e da família e seu apoio à agenda ecológica não passa pela garganta dos americanos. Até um progressista debandado, como Massimo Faggioli, professor da universidade Vilanova, dos agostinianos, na Pennsylvannia, reconhece num recente artigo para o Commonweal Magazine, intitulado “Francisco e a Esquerda Religiosa”, que o papa não está conseguindo sequer conectar-se com a esquerda americana, como Bento XVI teria feito com a direita, por causa das “diferenças significativas do progressismo do Papa Francisco e o progressismo americano contemporâneo”, que não o acompanha na radicalidade de sua “opção preferencial pelos pobres”. Em outros termos, o Papa Francisco está ficando cada vez mais isolado.

O site LifeSiteNews qualifica a presente crise moral do clero como que “rivalizando com a era dos Borgias”. Qual a relação entre a corrupção doutrinal e a crise moral?

Quando não se segue com fidelidade os ensinamentos de Nosso Senhor Jesus Cristo, mas as modas do mundo, é inevitável que seja “o príncipe deste mundo” que leve a melhor…

Tanto mais quanto, desde o pós Segunda Guerra Mundial, a moda que prevaleceu no mundo e que penetrou na Igreja foi o freudismo e a revolução sexual que ele justificou. Se o instinto sexual é irreprimível e um indivíduo tem uma tendência homossexual, não há nenhum mal em que se o deixe entrar no seminário e lhe seja favorecida a carreira eclesiástica… As consequências estão à vista de todos. Aliás, é preciso assinalar que a imensa maioria dos casos de abuso sexual do clero provém de homossexuais que abusam de adolescentes ou até de adultos. Coisa que o lobby LGBT não permite que seja sublinhado.

Após cinco anos de pontificado, é possível traçar algumas idéias sobre o cenário atual para a sucessão de Francisco?

Tudo dependerá, como disse acima, da atitude que tomem os cardeais progressistas moderados ou de tendência tradicional em vista da flagrante ruptura com o ensino tradicional representada pela rejeição da pena de morte “à luz do Evangelho”.

Tags:
25 julho, 2018

A via alemã para a subversão da Igreja.

Por Marco Tosatti, 24 de julho de 2018 | Tradução: FratresInUnum.com:  Uma conversa com um prelado americano traz à tona analogias entre a estratégia do Cardeal Marx, da Alemanha, e tudo que aconteceu nos Estados Unidos com a criação de grupos católicos a favor do aborto. Mas, aqui, a estratégia está diretamente apontada contra o coração da Igreja: a Eucaristia.

Há alguns dias, falava com um prelado estadunidense da Igreja sobre alguns desenvolvimentos de uma situação de crise e de confusão que se estão verificando, particularmente na Alemanha. O tema central era a intercomunhão, isto é, a possibilidade que os cônjuges protestantes pudessem participar [comungar] da Eucaristia, mas sem se converter ao catolicismo, permanecendo, então, na fé em que se encontravam.

Já assistimos as diversas fases do balé. A aprovação do subsídio pastoral por parte da Conferência Episcopal alemã, o apelo feito por sete bispos e cardeais a Roma, ao aparente “stop” da Congregação para a Doutrina da Fé, o adiamento de uma discussão para o outono, as declarações do Pontífice sobre as responsabilidades de cada bispo, as declarações a favor do experimento de alguns bispos, aos quais, porém, responderam sacerdotes de sua própria diocese… Enfim, uma situação de extrema confusão e de pouca clareza, em que se evidencia o impulso propulsionado dos bispos alemães, não adequadamente controlado e freado por quem, em Roma, teria autoridade de fazê-lo.

Mas, o amigo do outro lado do oceano me fez perceber algo interessante. Isto é, o modelo de estratégia posto em operação pelo Cardeal Marx e os seus colegas. Uma estratégia que ele conhece bem, porque a viu idealizada e posta em prática no seu país. Quando foi criado o Conselho Populacional para o controle do crescimento da população, nasceram as Católicas pelo Direito de Decidir, que são aquelas que se dizem católicas e, ao mesmo tempo, apoiam o aborto. Ajudadas pela Fundação Ford, foram cumpridos diversos passos.

O primeiro foi o de criar mudanças conceituais para quanto dizia respeito ao aborto e à regulação da natalidade. Uma vez lançadas as bases ideológicas e filosóficas da operação, passou-se ao momento sucessivo, em que se criavam discussões públicas para mover a opinião pública e colocar o problema em primeiro plano, nos tempos e nos modos queridos pelos organizadores da campanha. Na época, o objetivo era mudar, como de fato aconteceu em vários países, e como recentemente aconteceu na Irlanda, a lei civil sobre o aborto. E, não por acaso, Lifesitenews, um verdadeiro watchdog sobre estes temas, ainda recentemente denunciou como a Ford Foundation tenha distribuído milhões de dólares para organizações “católicas” que promovem o aborto na América Latina

Mas, fazia-me notar o prelado, o objetivo dos bispos alemães parece de alcance e gravidade muito maiores, enquanto a tentativa é de mudar a lei eclesiástica, e sob o ponto mais central e delicado, isto é, a Eucaristia. Uma verdadeira revolução na Igreja, desde dentro. E que prosseguiria, depois, outros objetivos, que já se estão delineando: o celibato eclesiástico, através dos “viri probati”, o diaconato feminino e a contracepção com métodos químicos ou mecânicos.

20 julho, 2018

Eles estão no meio de nós.

Por Eles estão no meio de nós – A Igreja no Brasil é permeada de conflitos políticos desde o seu tenro desenvolvimento. A relação entre Igreja e Estado sempre foi campo minado de tensões. Elementos históricos, e dentre eles o florescimento político-partidário  progressista no país, produziram um solo fértil para que documentos, inclusive da Santa Sé, fossem lidos, reinterpretados e apropriados com intencionalidades distintas das quais foram inicialmente promulgados. A Ação Católica adotada por Pio XI e seu posterior encaminhamento adotado no Brasil revelam um exemplo – e por que não – um sinal de contradição?

A criação e o desenvolvimento de ações ideológicas no seio da Igreja brasileira demonstram que o país estava disponível a aceitar e conviver com o caos decorrente destas infiltrações. A presença da Teologia da Libertação no Brasil, após 1968, embora não seja a detentora exclusiva dos malefícios no catolicismo nacional, é uma das grandes responsáveis por nossos males, pois investiu em camadas de base, “formação” em escala de intelectuais e difusão ideológica.

Considerando o entendimento da Doutrina Católica, e nela a fé como um de seus pilares, subentende-se os sacramentos como sinais visíveis da graça de Deus. E que pureza há n’alma da Igreja, que embora materialmente seja mantida por mãos humanas, é sobretudo sustentada pela graça e pelo Espírito Santo. Deveria ser ela, portanto, cheia de manchas e pecado? Quando o Papa Paulo VI anunciou que “a fumaça de satanás entrou na Igreja”, com isto advertia que os sacramentos e a vida do povo de Deus estavam sob ameaça.

É nos sacramentos que resplandece a face misericordiosa do próprio Deus. Encontrar, no entanto, em seu lugar um deus histórico, homem comum e não o Homem Deus, tira o próprio Cristo da centralidade da vida da Igreja.

A Teologia da Libertação dessacraliza a disposição à santidade da Igreja. Os sacramentos são tidos, para essa teologia, como meros sinais de partilha e inclusão, e não da graça; não são sinais de transubstanciação, de Presença Real nem de penitência, mas de libertação social, emancipação e sincretismo de crenças que ignora a Tradição, o Magistério e as Escrituras, instituídos desde os séculos sob a luz de concílios, papas e doutores da Igreja em benefício da salvação eterna de todos os homens.

A aproximação do ideal marxista à doutrina da Igreja causa a ilusão de um falso céu na terra, ao contrário do que realmente nos ensina a vida de Cristo, uma vida de abnegação e desprendimento, que afirmou que a vida eterna é a plenitude da alma justa na presença do Deus amoroso; o mesmo Deus que nos chama a viver a santidade nesta vida terrena, que jamais poderá se comparar ao paraíso celeste por Ele prometido.

Os bastidores políticos que fomentam tal reinvenção para o catolicismo, principalmente na América Latina, são incompatíveis com a verdadeira Doutrina da Igreja em toda e qualquer instância. A compreensão e difusão dessas incompatibilidades deve ser acessível e didática. É crucial não somente se manifestar contra ideias, mas contra pessoas reais, no mundo real. Amparados por fatos, documentos, fontes, devemos nos posicionar frente à figuras que mantém uma espécie de honra pública e que, há muito tempo, estão no meio de nós.

Instituído pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, o ano do laicato, no presente 2018, inspira os leigos a protagonizar momentos edificantes na vida da comunidade eclesiástica no aprofundamento da fé, por meio de posicionamentos firmes e ativos. Impulsionados por esta ocasião, e já há muito feridos com os estigmas dessa incompatibilidade que permeia fé católica, esta produção justifica-se em uma dupla função: (1) outdoor, que denuncia irregularidades graves na Igreja; e (2) dossiê, que reúne extenso amparo documental e testimonial que implicam e inspiram a agir sabiamente na reversão desse triste quadro.

* * *

Clique aqui e ajuda a financiar a iniciativa!

Um filme de Bernardo Küster e Viviane Princival.aju

17 julho, 2018

Novo capítulo da divisão entre a viúva Ivone e a Montfort-Zucchi: o site “Flos Carmeli” e o surgimento de uma nova hermenêutica do Legado de Orlando Fedeli.

Por Manoel Gonzaga Castro | FratresInUnum.com, 17 de julho de 2018

manoelgonzagacastro@gmail.com

Há cerca de duas semanas, foi noticiado com exclusividade em FratresInUnum.com, por meio da coluna de minha colega Catarina, que o Sr. Alberto Zucchi, 58 anos, rompera com a viúva Ivone Fedeli, 60, sob a narrativa de que Ivone teria traído os ideais do Professor Orlando Fedeli (1933-2010), seu marido por mais de duas décadas, ao ter permitido, como atual superiora do ramo feminino da Fraternidade São Mauro (FSM), a participação de suas “freiras” na celebração da “Liturgia da Palavra”, na abertura do Sínodo da Arquidiocese de São Paulo, presidida por seu Arcebispo, Dom Odilo Pedro Cardeal Scherer.

Segundo o vídeo publicado, para Zucchi, essa autorização de Ivone teria corroborado com o projeto modernista de destruição da Missa Tridentina, representado em iniciativa ainda mais radical que sua substituição pela Missa Nova, pois o Novus Ordo, embora corrupto, ainda seria Missa, ao passo que a Liturgia da Palavra não passaria de idolatria. Assim, nos 35 anos de Montfort, nunca teria ocorrido uma traição tão grande, pois Ivone estaria conduzindo seus seguidores a um pecado mais grave que o cometido por quem vai à Missa Nova, de acordo com o ensinamento do Prof. Orlando Fedeli. Para ele, a frequência à forma ordinária por aqueles que “sabem” de seus males implicaria cometimento de pecado.

Segundo a interpretação de Zucchi, o Professor jamais aprovaria esse ato de sua esposa. Ainda no vídeo, Zucchi enfatiza energicamente que a ação de Ivone foi feita à total revelia da direção da Montfort, ou seja, dele, que tem dirigido a associação de forma centralizadora desde 2010, quando o fundador faleceu.

Nesse sentido, com seu “non serviam” a Zucchi, Ivone operou, no microcosmos do grupo, uma verdadeira revolução metafísica e moral. Com efeito, ela jurara fidelidade a Zucchi, publica e reiteradamente, alegando que “a autoridade é a forma de um grupo e que o Alberto, apesar de seus inúmeros defeitos bem conhecidos e de não ter a virtude do Lando, era a forma da Montfort após sua morte”, e que “não seguir a autoridade era uma das maiores manifestações de orgulho, que foi o pecado de Lúcifer”.

Como de costume, essa ruptura foi declarada em aula na sede da associação, com argumentação alegadamente definitiva, embasada em diversos autores estrangeiros que, conforme é sabido nos ambientes da Tradição em São Paulo, o montfortiano médio desconhece. A argumentação dessa aula, tirando a parte da “briga-baixaria-disputa” a que imediatamente servia, foi publicada em texto de cariz acadêmico em seu site (cf. “A Teologia do Novus Ordo Missae é a mesma da Celebração da Palavra de Deus?” )

Assim, em 90 minutos, Ivone passou de viúva piedosa e frágil a “prócer” do projeto modernista de implantação de um culto novo no seio da Igreja Católica, porque quis demonstrar unidade com o Cardeal Dom Odilo e obter favores para a incipiente Fraternidade São Mauro. Pessoas ligadas a Montfort-Zucchi ironizam que “a madre”, como é chamada, durou até que muito, pois outros traidores tiveram sua reputação interna assassinada em discursos, apoiados pela própria Ivone, de apenas 20 minutos.

Recapitulados os últimos fatos, tem relevância hoje a informação de que, passados oito anos da morte de seu marido, a viúva finalmente chamou para si a responsabilidade de interpretar o legado do falecido, lançando o site “Flos Carmeli”, com seção especialmente dedicada a essa tarefa: http://floscarmeliestudos.com.br/professor-orlando-fedeli/.

Confiram o vídeo de lançamento do site:

Ora, chama a atenção a quantidade de material disponibilizado no “Flos Carmeli”, com cerca de 120 vídeo-aulas, que começaram a ser gravadas já em 2016. O que reforça tanto a informação de que Ivone sempre visualizou um futuro sem Zucchi (dado seu desejo íntimo de fundar uma comunidade religiosa, ao passo que Zucchi depositava suas esperanças eclesiásticas exclusivamente no Instituto do Bom Pastor), quanto a crença de que o ataque de Alberto foi essencialmente uma tentativa de desmoralizar a viúva e de impedir que membros da já diminuta Montfort-Zucchi adiram à Fraternidade São Mauro.

Muito haveria que informar sobre todo esse processo de ruptura, permeado de intrigas e de conspirações, às quais a redação de FratresInUnum.com sempre esteve atenta e que não publicou antes, pois o desenlace ainda estava nebuloso e somos fiéis a nosso objetivo de prestar informações de qualidade a nossos leitores a respeito do movimento tradicionalista brasileiro.

Porém, estando clara a ruptura, sendo por isso que a noticiamos, surge agora a tarefa de compreender qual vai ser exatamente o enfoque interpretativo da obra de Fedeli a ser adotado pela viúva em sua disputa com Zucchi e também no embasamento teórico de sua congregação. Com efeito, a Fraternidade São Mauro se apresenta agora como a legítima detentora do “tesouro espiritual deixado pelo Lando”, conforme as palavras da viúva e as mensagens em sonho que Pe. Edivaldo Oliveira declara em palestras ter recebido a respeito da Fraternidade nos últimos anos (interessante notar que também Mons. João Clá Dias tem o hábito de fundamentar seus discursos em sonhos que costuma ter).

Ora, até 2010, havia um Orlando Fedeli atacando ferozmente o Concílio Vaticano II e a Missa Nova e sendo marginalizado pelas autoridades eclesiásticas por conta disso. Ele defendia suas ideias e pagava o preço.

Após a morte do fundador, Zucchi, por sua vez, desenvolveu um pensamento tradicionalista esquizofrênico baseado na esperança de Fedeli de que Bento XVI seria o Papa de Fátima. Assim, Zucchi declarou não fazer mais que seguir os comandos desse papa quanto à liturgia e o concílio.  Crendo estranhamente que isso era ser contra a Reforma Litúrgica e o Vaticano II, ele conseguia dialogar nessa chave de “sigo Bento XVI” com o Cardeal Dom Odilo e, assim, obter espaço, por exemplo, na Paróquia São Paulo Apóstolo ou no Mosteiro de São Bento, para seus congressos.

Congresso

Congresso Montfort 2016, com a presença de Dom Odilo e do Abade Dom Mathias, ladeados por Alberto Zucchi e Ivone Fedeli. 

E Ivone? Qual será sua interpretação de Fedeli? O que fará ela, considerando que seu trato com o Cardeal é mais intenso que o de Zucchi, uma vez que ela está em vias de formalizar uma comunidade religiosa já operacional? Como seguir Fedeli, guardar e promover seu assim chamado tesouro espiritual, que inclui o combate à Missa Nova e ao Vaticano II, e obter a aprovação eclesiástica? Como seguir Fedeli e impedir que a licença de estudos do Padre Edivaldo Oliveira em São Paulo, que é o sacerdote que atende suas “freiras”, não seja cassada?

Afinal, nessa confusão toda, se há um ponto pacífico, é o de que ela, de fato, autorizou a ida de suas “freiras” à Liturgia da Palavra, o que se insere em um contexto de manifestar integração na vida da arquidiocese, fato do qual Zucchi se aproveitou.

Outro fato de que se aproveitam, para desmoralizá-la, também pacífico, é o de ela ter flexibilizado sua posição e de ter avalizado teologicamente a ordenação do Pe. Edivaldo em Ciudad del Este, numa Missa Tridentina “versus populum”, o que não deixou de ser encarado pelos “puristas” como uma invenção litúrgica “sui generis”.

O Professor, absolutamente apolítico que era, segundo alguns, jamais aceitaria tais fatos, visto que “foi d’abbord, pas la politique”, visto que a “fé vem antes de tudo, e não a política”.

Fiéis e sacerdotes piedosos e instruídos, que conhecem bem esses meandros tradicionalistas, opinam que tanto Zucchi, quanto Ivone não parecem em posição adequada para interpretar o “Legado de Orlando Fedeli”, pois ambos são parte dele e o fazem em meio a interesses práticos imediatos e brigas, o que lhes tira isenção. Nessa disputa, ambos precisam de Fedeli, para continuar seus movimentos, porém de um Fedeli a sua maneira.

Assim, sobre Ivone, se é possível um palpite, arriscam que ela vai deixar o Fedeli polemista em segundo plano, e ressaltar o “Lando pensador”, mais amistoso e contemplativo da beleza de Deus nas criaturas, na arte e na liturgia, o qual ainda não foi compreendido (por Zucchi e por todos os demais, leia-se). Ou seja, um Fedeli inédito, que ainda há de ser construído hermeneuticamente pela Fraternidade São Mauro, liderada pela madre Ivone.

Tudo isso, entretanto, fica para acontecimentos futuros, que, para o bem das almas, esperamos poder noticiar, cumprindo nosso objetivo de informação. Afinal, é importante estar ciente dessas vicissitudes humanas, para não corrermos o risco da frustração e do desespero, quando nos valemos desses movimentos como instrumentos para buscar a Deus.

Ademais, não é preciso ser pessimista e ignorar os bons frutos que podem surgir das lamentáveis contendas, ainda quando ocorrem entre “irmãos”, pois, ao fim e ao cabo, como católicos, estamos todos nos esforçando para alcançar a Jerusalém celeste, onde seremos definitivamente “fratres in unum”.

Quanto às origens e ao desenvolvimento da atual ruptura, voltaremos eventualmente a esse tema em próximas publicações.

 

16 julho, 2018

Releiamos a Humanae Vitae à luz da Casti connubii.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 6 de julho de 2018 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.comO Ocidente conheceu nas últimas décadas uma Revolução antifamiliar sem precedentes na História. Um dos pilares desse processo de desagregação da instituição familiar tem sido a separação dos dois fins primários do matrimônio, o procriativo e o unitivo.

O fim procriativo, separado da união conjugal, levou à fertilização in vitro e ao útero alugado. O fim unitivo, emancipado da procriação, levou à apoteose do amor livre, hétero e homossexual. Um dos resultados dessas aberrações é o recurso de casais homossexuais ao útero alugado para realizar uma grotesca caricatura da família natural.

wojtylapaulvi-650x401

A encíclica Humanae Vitae, de Paul VI, cujo quinquagésimo aniversário será celebrado em 25 de julho de 2018, teve o mérito de reafirmar a inseparabilidade dos dois significados do casamento e de condenar claramente a contracepção artificial, tornada possível nos anos 60 do século passado pela comercialização da pílula do Dr. Pinkus.

No entanto, até a Humanae Vitae tem culpa no cartório: a de não ter afirmado com igual clareza a hierarquia dos fins, ou seja, a primazia do fim procriativo sobre o unitivo. Dois princípios, ou valores, nunca podem estar num mesmo nível, em condição de igualdade. Um é sempre subordinado ao outro.

Isso se dá nas relações entre a fé e a razão, a graça e a natureza, a Igreja e o Estado, e assim por diante. Essas são realidades inseparáveis, mas distintas e ordenadas hierarquicamente. Se a ordem dessas relações não for definida, as tensões e os conflitos se seguirão, até a inversão da ordem dos princípios. Deste ponto de vista, uma das causas do processo de desintegração moral dentro da Igreja foi a falta de uma definição clara do fim primário do casamento pela encíclica de Paulo VI.

A doutrina da Igreja sobre o casamento foi afirmada como definitiva e obrigatória pelo Papa Pio XI em sua encíclica Casti Connubii, de 31 de dezembro de 1930. Neste documento, o Papa recorda à Igreja e à humanidade as verdades fundamentais sobre a natureza do casamento, estabelecido não pelos homens, mas pelo próprio Deus, e sobre as bênçãos e benefícios que advêm daí para a sociedade.

O primeiro objetivo é a procriação: que não significa apenas trazer filhos ao mundo, mas educá-los intelectual e moralmente, e, acima de tudo, espiritualmente, para conduzi-los ao seu destino eterno que é o Céu. O segundo objetivo é a assistência mútua entre os cônjuges, que não é apenas material, nem tampouco sexual ou sentimental, mas antes de tudo uma assistência e uma união espiritual.

A encíclica contém uma condenação clara e vigorosa do uso de meios contraceptivos, definidos como “uma ação torpe e intrinsecamente desonesta”. Portanto: “Qualquer uso do casamento em que pela maldade humana o ato seja destituído de sua virtude procriadora natural, vai contra a Lei de Deus e da natureza e aqueles que ousam cometer tais ações se tornam responsáveis de culpa grave.”

Pio XII confirmou em muitos discursos o ensinamento de seu antecessor. O esquema original sobre a família e o casamento do Concílio Vaticano II, aprovado por João XXIII em julho de 1962, mas rejeitado no início dos trabalhos pelos Padres Conciliares, reafirmou essa doutrina, condenando explicitamente “teorias que invertem a ordem correta dos valores, colocam o fim primordial do matrimônio no segundo plano em relação aos valores biológicos e pessoais dos cônjuges e que, na mesma ordem objetiva, indicam o amor conjugal como fim primário” (nº 14).

O fim procriativo, objetivo e enraizado na natureza se cumpre espontaneamente. O objetivo unitivo, subjetivo e baseado na vontade dos cônjuges pode desaparecer. A primazia do fim procriativo salva o casamento, a primazia do fim unitivo o expõe a sérios riscos.

Além disso, não devemos esquecer que os fins do casamento não são dois, mas três, porque subsidiariamente existe também o remédio para a concupiscência. Ninguém fala deste terceiro fim, porque se perdeu o significado da noção de concupiscência, confundido muitas vezes com o pecado, à maneira luterana.

A concupiscência, presente em todos os homens, exceto na Santíssima Virgem, imune do pecado original, nos recorda que a vida na terra é uma luta incessante, porque, como diz São João, “no mundo não existe senão concupiscência da carne, concupiscência dos olhos e orgulho da vida” (1 Jo 2:16).

A exaltação dos instintos sexuais, inoculados na cultura dominante pelo marxismo-freudismo, não é senão a glorificação da concupiscência e, consequentemente, do pecado original.

Essa inversão dos fins matrimoniais, que conduz inevitavelmente à explosão da concupiscência na sociedade, aflora na exortação do Papa Francisco Amoris laetitia, de 8 de abril de 2016, em cujo o número 36 se lê: “Com frequência apresentamos o casamento de modo tal que o fim unitivo, o convite a crescer no amor e o ideal de ajuda mútua permanecem à sombra de uma nota quase exclusiva sobre o dever de procriar.”

Estas palavras repetem quase literalmente aquelas pronunciadas pelo cardeal Leo-Joseph Suenens na aula conciliar, em 29 de outubro de 1964, num discurso que escandalizou Paulo VI. “Pode ser – disse o cardeal arcebispo de Bruxelas – que tenhamos acentuado a palavra da Escritura: ‘Crescei e multiplicai’ a ponto de deixar a outra palavra divina nas sombras: ‘Os dois serão uma só carne’. (…) Caberá à Comissão nos dizer se não enfatizamos muito o primeiro objetivo, que é a procriação, em detrimento de um fim igualmente imperativo, que é o crescimento da unidade conjugal”.

O cardeal Suenens insinua que a finalidade principal do casamento não é crescer e multiplicar, mas que “os dois sejam uma só carne”. Passamos de uma definição teológica e filosófica para uma descrição psicológica do casamento, apresentada não como um vínculo enraizado na natureza e dedicado à propagação da humanidade, mas como uma comunhão íntima, voltada para o amor recíproco dos cônjuges.

O casamento é reduzido mais uma vez a uma comunhão de amor, enquanto o controle de natalidade – natural ou artificial – é visto como um bem que merece ser encorajado sob o nome de “paternidade responsável”, pois ajuda a fortalecer o bem primário da união conjugal. A consequência inevitável é que, no momento em que essa comunhão íntima vier a fracassar, o casamento pode se dissolver.

A inversão dos fins é acompanhada pela inversão dos papéis dentro da união conjugal. O bem-estar psicofísico da mulher substitui sua missão de mãe. O nascimento de uma criança é visto como um elemento que pode perturbar a íntima comunhão de amor do casal. A criança pode ser considerada como um injusto agressor do equilíbrio familiar, da qual o casal se defende com a contracepção e, em casos extremos, com o aborto.

A interpretação que demos das palavras do cardeal Suenens não é forçada. Em coerência com aquele discurso, o cardeal primaz da Bélgica liderou em 1968 a revolta dos bispos e teólogos contra a Humanae Vitae. A Declaração do episcopado belga, de 30 de agosto de 1968, contra a encíclica de Paulo VI, foi, com a do episcopado alemão, uma das primeiras elaboradas por uma Conferência Episcopal e serviu de modelo de protesto a outros episcopados.

Aos herdeiros dessa contestação, que se propõem reinterpretar a Humanae Vitae à luz da Amoris laetitia, respondemos com firmeza que continuaremos a ler a encíclica de Paulo VI à luz da Casti connubii e do Magistério perene da Igreja.