Archive for ‘Bastiões da Igreja’

25 julho, 2009

“Em caso nenhum se permita a Comunhão na mão”.

Dom Antônio de Castro MayerNa Igreja Latina, a fé viva na Presença Real se ostenta mediante a genuflexão e a postura genuflexa, quando se passa diante ou quando se está em presença da Santa Hóstia Consagrada, ou solenemente exposta, ou em reserva no sacrário. Semelhante atitude baseia-se na Sagrada Escritura. Nela. de fato, lemos que tal atitude é, no fiel, o sinal da adoração. Assim, são louvados os milhares de judeus que “não curvaram os joelhos diante de Baal” (Rom. 11, 4); e, a respeito do Deus verdadeiro, diz o Senhor em Isaías, que “a Ele se curvará todo joelho” (44, 23 – cf. Rom. 14, 11 ). Mais diretamente a Jesus Cristo, declara o Apóstolo que ao seu nome “dobra-se todo joelho, no Céu, na terra e nos infernos ” (Fil. 2, 10). Aliás, era a maneira como externavam sua fé no Salvador aqueles que Lhe pediam algum benefício (cf. Mat. 17, 14; Marc. 1, 40). Na Santa Igreja, o costume de dobrar os joelhos diante do Santíssimo Sacramento, além da adoração devida a tão excelso Senhor, tenciona, outrossim, manifestar reparação pelas injúrias com que a soldadesca infrene ludibriou do misericordioso Salvador, após a flagelação e coroação de espinhos: “de joelhos diante d’Ele, d’Ele zombavam” (Mat. 27, 29).

Fixa-se assim numa Tradição Apostólica o hábito de manifestar, mediante a genuflexão e a postura ajoelhada, nossa fé viva na Divindade de Jesus Cristo, substancialmente presente no altar. Eis porque recebe o fiel a Sagrada Comunhão de joelhos. Não o faz o Sacerdote na Missa, porque ele aí está representando a pessoa de Jesus Cristo. ‘Agit in ,persona Chisti”. faz as vezes de Cristo como sacrificador, ofício que de modo algum compete ao fiel. Fora da Missa, também o Sacerdote comunga de joelhos.

Não há por que deixar uso tão excelente

Não somente porque é um costume imemorial, com base na Bíblia Sagrada, como peia mesma natureza do ato, a genuflexão raros compenetra de humildade, leva-nos a reconhecer nossa pequenez de criaturas diante da transcendência inefável de Deus, e mais ainda, nossa condição de pecadores que só pela mortificação e a graça chegaremos a dominar nosso orgulho e demais paixões, e a viver como verdadeiros filhos adotivos de Deus, remidos pelo Sangue preciosismo de Jesus Cristo.

De onde, a substituição de semelhante costume piedoso por outro só poderia justificar-se, no caso de uma excelência superior tão grande que compensasse também o mal que há em toda mudança, como ensina Santo Tomás de Aquino (1. 2. q. 97, a. 2) com relação aos hábitos que dão vida às leis. Fiel a esta doutrina do Aquinate, o II Concílio do Vaticano estabelece que não se devem introduzir modificações na Liturgia, a não ser quando verdadeiramente necessárias, e assim mesmo, manda que as novas fórmulas dimanem organicamente das já existentes (Const. “Sacrosanctum Concilium”, n° 23).

Ora, o novo modo de comungar não oferece a excelência que sua introdução está a pedir. De fato, comungar de pé é coisa que não apresenta a seu favor textos da Sagrada Escritura, não tem as vantagens espirituais que a postura de joelhos traz consigo, como acima observamos, e tem os inconvenientes de toda mudança, que relaxa em vez de afervorar os fiéis.

Por isso, deve-se conservar o hábito de comungar de joelhos. […]

Recomendamos, portanto, a todos os caríssimos Sacerdotes que exercem o ministério no nosso Bispado, que se atenham a esta disposição diocesana: só distribuam a Sagrada Comunhão aos fiéis ajoelhados, admitindo apenas exceções em casos pessoais, quando alguma enfermidade torna impossível, ou quase, o ajoelhar-se. Em caso nenhum se permita a Comunhão na mão.

Dom Antônio de Castro Mayer, Circular sobre a Reverência aos Santos Sacramentos, 21 de novembro de 1970.

21 janeiro, 2009

Está consumado.

Sagrações Episcopais

É o que diz Andrea Tornielli. Gaudete!

Será tornado público nos próximos dias o decreto com que Bento XVI decidiu cancelar a excomunhão lançada aos quatro novos bispos ordenados por Monsenhor Lefebvre em 1988. Agora, outros além dos quatro (Bernard Fellay, Alfonso de Galarreta, Tissier de Mallerais e Richard Williamson) foram excomungados o próprio Lefebvre e o bispo brasileiro De Castro Mayer, que haviam participado da cerimônia.

[Atualização: 22 de janeiro de 2008, às 16:23] A informação de Tornielli foi difundida pela imprensa do mundo todo; outras fontes no meio católico corroboram a notícia de Tornielli. Nossos amigos André, Maria Teresa e Marcos acrescentam essas fontes e outras informações nos comentários deste post.

No Forum Catholique, o Professor Luc Perrin faz uma interessante análise sobre os atrasos para a concretização de alguns fatos previstos por Tornielli. O mais famoso deles, o anúncio de que a liberação da Santa Missa Tradicional se daria após o Sínodo sobre a Eucaristia, em 2005. Também conhecido foi o atraso na demissão de Mons. Piero Marini, antigo mestre de cerimônias do Papa, cuja realização se deu após 3 anos da notícia dada por Tornielli.

Segundo Perrin, “a qualidade profissional de A. Tornielli não está em causa, mas é claro que a Cúria ‘beneditina’ se alinhou às práticas correntes de nossos governos: as ‘fugas’ na mídia para ‘testar’ as reações da opinião ou de certos setores particulares da opinião.  O moinho de rumores e de anúncios ‘iminentes’ funcionam a pleno regime desde 2005, como se fosse alimentado por uma pilha atômica. Que se lembre da ‘Instrução’ para aplicar Summorum Pontificum’ anunciada, pelas próprias instâncias curiais, ‘iminente’… em Janeiro… de 2008: Eh, sim, iminência que permanece depois de um ano! Embora neste caso penso eu que se trata de uma informação séria, o rumor e a ‘fuga’ organizada fazem parte das técnicas de governo da Cúria de Bento XVI.

Como é de amplo conhecimento, Tornielli costuma ser o testa de ferro do Cardeal Castrillon Hoyos para lançar informações desagradáveis à opinião pública (notadamente a opinião episcopal). Que as reações adversas não demovam o Santo Padre!

17 janeiro, 2009

O Leão de Campos (IV): “Exulta de alegria o pai do justo; alegrem-se o teu pai e a tua mãe”.

Exulta de alegria o pai do justo; alegrem-se o teu pai e a tua mãe, e exulte a que te gerou. Como são amáveis os vossos tabernáculos, ó Senhor dos exércitos! A minha alma suspira e desfalece pelos átrios do Senhor.

Intróito da Missa da Sagrada Família – Prov. XXIII, 24 e 25; Salmo LXXXIII, 2 e 3.

A

ntonio de Castro Mayer nasceu em Campinas, no estado de São Paulo, no Brasil, em 20 de junho de 1904. Seu pai, João Mayer, nasceu na católica região da Bavária, sul da Alemanha. Pedreiro profissional (embora certamente não um Pedreiro no sentido diabólico da palavra), emigrou quando jovem a procura de trabalho. Sua sorte não aumentou grandemente em sua chegada ao Brasil e a vida permaneceu dura. Se ele não encontrou grande oportunidade ou grande riqueza, encontrou uma excelente companheira numa devota e amável esposa, uma simples Católica brasileira, Francisca de Castro. O casal durante sua vida matrimonial nunca conheceu nada além da pobreza, mas Deus abençoou sua casa com doze filhos. Quando Antonio tinha apenas seis anos de idade seu pai faleceu. A família encontrou-se lutando ainda mais para sobreviver, pois João não deixou nenhuma herança para sua família. No fim de seus dias, seu filho Antonio diria sempre que seu pai, sim, deixou-lhe uma herança, uma grande herança – a Fé Católica.

Os muitos filhos trabalhavam duro para ajudar sua mãe e manter a família unida. O jovem moço encontrou em seus ombros responsabilidades e deveres que poderiam, em circunstâncias ordinárias, estar além das capacidades de um garoto, mas pela fidelidade de sua mãe, ajuda de seus irmãos e irmãs, e graça de Deus, ele amadureceu rapidamente e a família sobreviveu. Talvez como recompensa à sua humilde submissão em sacrificar sua juventude e assumir as obrigações de um adulto em tão tenra idade, Deus o abençoou com alma de criança que não envelhece, a qual conservou até o dia de sua morte. Aqueles que são velhos em sua juventude freqüentemente mantêm a simplicidade da inocência em sua velhice. Tal era o caso de Antonio de Castro Mayer. A humildade, abertura e pureza da infância permaneceram com ele durante seus oitenta e seis anos na terra.

A devoção ensinada às crianças pelo pai antes de sua morte e por sua mãe até mesmo em sua viuvez tornou-se evidente nas três vocações entre os doze irmãos. Duas das filhas desse casal fiel tornaram-se freiras, uma Dominicana, outra Concepcionista. Aos doze anos, Antonio ingressou no seminário menor da Arquidiocese de São Paulo, localizado em Bom Jesus de Pirapora, na época sob direção dos Padres Premonstrantenses. Transferiu-se para o seminário maior de São Paulo em 1922. Desde o início, distinguia-se por seu intelecto apurado. Por conta desse dom especial, dom combinado com intensa dedicação e incansável capacidade de trabalhar, foi mandado a Roma para estudar na Universidade Gregoriana. Em 30 de outubro de 1927 foi ordenado ao sacerdócio pelo Cardeal Basilio Pompilij, Vigário Geral para Sua Santidade, o Papa Pio XI. Em 1928 foi-lhe outorgado o título de doutor em Teologia da mesma universidade e retornou ao Brasil para iniciar uma carreira de ensino no Seminário de São Paulo. Pelos próximos treze anos ele ensinaria, primeiro Filosofia e História da Filosofia, e depois Teologia Dogmática.

Em 1940, Dom José Gaspar d’Afonseca e Silva, arcebispo de São Paulo, o nomeou Assistente Geral para a Ação Católica na arquidiocese, na época em período de reorganização. Em 1941 ele foi nomeado Cônego da Catedral Metropolitana da Sé de São Paulo com o título de Primeiro Tesoureiro. No ano seguinte tornou-se Vigário Geral da Arquidiocese de São Paulo.

Vinte anos após entrar no seminário menor aos doze anos, vinte anos após sair de uma difícil vida de pobreza, simplicidade e humilde devoção, Padre Antonio de Castro Mayer assumiu a posição de Vigário Geral de uma das mais importantes Arquidioceses do Brasil. Sua ascensão foi meteórica, seu caminho livre para honras ainda maiores.

Sagração episcopal de Dom Antonio de Castro Mayer.O que ocorreu depois permanece aberto a interpretações. Em 1945, Antonio de Castro Mayer foi transferido para a paróquia de São José de Belém e iniciou a missão de inspecionar o currículo da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Permaneceu nesse posto até 6 de março de 1948, quando Sua Santidade, o Papa Pio XII, o nomeou bispo titular de Priene e Coadjuntor com direito de sucessão ao bispo de Campos. Muitos vêem isso como simplesmente uma progressão natural de nomeações, a carreira seguindo os arranjos comuns de mudanças de uma indicação para outra, o padre sempre se distinguindo em qualquer trabalho vindo a suas mãos. Há outra interpretação, contudo. Alguns vêem na mudança de Vigário Geral da importante diocese de São Paulo para as menores e menos proeminentes posições na paróquia e universidade uma repentina ruptura na constante linha ascendente de sucesso e promoção que caracteriza o início de carreira. Poderia mesmo a seleção como Bispo designado de Campos, uma pobre e não particularmente poderosa diocese, ser vista como uma significante mudança no progresso para cima dessa carreira eclesiástica? Antonio de Castro Mayer pode já num estágio relativamente cedo da carreira ter se tornado uma fonte de preocupação para certos eclesiásticos, que podem ter tentado desviar a correnteza de sucesso, para remover algo da influência e enviá-lo para lugares mais nebulosos, onde sua voz não teria tal presença ou altura para muitos ouvintes.

(The Mouth of the Lion, Dr. David Allen White. Angelus Press, 1993 – Pág. 37-39)

10 janeiro, 2009

Carta aberta do Pe. Paul Aulagnier do IBP ao Papa Bento XVI.

Original em La Revue Item

Tradução de Marcelo de Souza e Silva

Santíssimo Padre,

Permiti-me dirigir-me a vós com toda simplicidade de coração, com toda lealdade num espírito filial. Permiti-me expressar minha inquietação… desta maneira em uma «carta aberta», minha estupefação sobre um ponto preciso: a condenação de Dom Lefèbvre. Não compreendo porque vós não reexaminais este assunto.

Esta é a razão desta minha defesa.

Vós bem sabeis que ele foi um grande prelado, um grande missionário. Delegado apostólico para a África de língua francesa. Ele foi o grande defensor da Igreja em terras africanas. Deixou, quando de lá partiu, uma obra extraordinária. Tal é o reconhecimento de todos. Tudo isso postula em seu favor.

Tendo ele retornado à França, foi nomeado pelo Papa João XXIII, Arcebispo-bispo de Tulle, pôs-se então à tarefa sem ressentimentos e com o mesmo zelo que na África. Uma única coisa lhe interessava: servir a Igreja na fidelidade ao Sumo Pontífice. Apenas nomeado para a diocese de Tulle, ele foi eleito superior geral da Congregação dos Padres do Espírito Santo, uma congregação forte que contava mais de cinco mil membros no mundo todo.

O Concílio Ecumênico do Vaticano II fora então convocado pelo Papa João XXIII. Enquanto superior geral ele participou das sessões preparatórias do Concílio. Ele nos contou tudo… assim que tivemos a graça de conhecê-lo primeiro em Roma depois e em seguida em Ecône.

Abbé Paul AulagnierDolorosamente afetado pela crise sacerdotal, pelo colapso das vocações no Ocidente e pela perda do senso sacerdotal, tendo sido liberado de todas as suas responsabilidades – ele apresentou sua demissão, Roma o aconselhara a tal – ele decidiu enfim fazer de tudo para lutar contra. Fundou seu seminário em Friburgo com a autorização episcopal de Dom Charrière e com os encorajamentos do Cardeal Journet. Ele criou seu instituto sacerdotal: a Fraternidade Sacerdotal São Pio X, sempre com a autorização de Dom Charrière, Bispo de Friburgo-Lausanne-Genebra. Que alegria foi a sua logo que recebeu o decreto do bispo! Uma alegria própria da Igreja! Ele nos ensinou a grandeza do sacerdócio, seu papel, seu sentido.  Ele nos fez apreciar o tesouro da Missa, da Missa Católica. Ele nos fez relembrar sua finalidade, seus frutos e sua importância para o sacerdote e para os fiéis. Ele nos deu desde o coração até a obra um «moral de ferro». Ele multiplicou seus contatos para permitir a expansão de sua obra. Ele era incansável.

Chegou o ano de 1969, abril de 1969. Deu-se a publicação da Constituição Missale Romanum e do novo rito da Missa, a Nova Missa de Paulo VI. Terrível reforma litúrgica… contestada, contestável, que ia abalar desde as bases ao cume a Santa Igreja e sua unidade.

Teólogos se levantaram para se opor a aquilo, cardeais também. Intelectuais de renome fizeram ouvir sua voz. Para citar apenas um nome, permiti que eu invoque o Cardeal Ottaviani. Em uma carta ao Sumo Pontífice, Paulo VI, ele lhe apresentou uma crítica ao novo rito pedindo-lhe «ab-rogar este novo rito ou, ao menos, não privar o orbe católico, da possibilidade de continuar a recorrer à integridade e fecundidade do Missal Romano de São Pio V». Tudo isso provocou grande celeuma. Dom Lefèbvre tomou posição tarde demais.

Foi somente em 2 de junho de 1971 que ele reuniu em Ecône seu corpo docente e os seminaristas. No dia seguinte, ele foi ter com «os teólogos» e os seminaristas. Ele expôs sua posição. Explicou sua intransigência, seu «non possumus», com argumentos claros. Ele nos deixou, ao fim desta conferência, um texto, um pequeno texto que resumia sua corrente de pensamento. Naquela época, eu, seminarista, guardei ciosamente esse texto. Com freqüência eu o lia e relia. A posição de nosso fundador é simples, doutrinal, fundamentada sobre a mais segura teologia, sobre os decretos solenes do Concílio de Trento e sobre os princípios do Direito Canônico. Esta posição era púbica. Ela está escrita. Nas conferências ele jamais cessou de explicá-la e de justificá-la.

Ora, foi em razão dessa posição sobre a Missa que Dom Lefèbvre foi condenado.

Sua fundação foi tratada inicialmente como «selvagem». O primeiro a pronunciar tal termo foi Dom Etchegaray. Ele era naquela época Arcebispo de Marselha… Primeira afirmação falsa: Seu seminário não tinha nada de selvagem, tampouco seu instituto. «Tudo» foi aprovado por Dom Charrière, por Dom Adam. A fundação de Albano gozou do beneplácito do bispo local. Nada de «selvagem» a bem da verdade. Muito ao contrário, Dom Lefèbvre, como homem da Igreja, respeitador de suas leis, quis fazer tudo de acordo com as autorizações necessárias. E foi assim que ele fez. Mas pouco importava, ele não estava mais na linha. Porque ele não queria seguir cegamente as reformas conciliares… Tendo ele impedido que se voltasse atrás, era necessário desacreditá-lo. Suas fundações só poderiam ser classificadas como selvagens e condenadas.

Iniciava-se o ciclo infernal.

Então teve lugar uma visita canônica. Dom Onclin e Dom Deschamps foram enviados de Roma. Eles tinham propostas «novas» de tal forma que Dom Lefèbvre precisou protestar logo que ambos partiram. Foi quando surgiu então seu protesto de Fé de 24 de Novembro de 1974. Deus! Como tal declaração fez jorrar tinta! Como foi comentada! No exterior e no interior… e pelo próprio corpo docente. Era necessário que Dom Lefèbvre se retratasse. «Ele assinara sua própria condenação»… E foi então intimado em Roma diante de uma comissão «ad hoc», diante do Cardeal Garonne, Cardeal Wright e Cardeal Tabera. Eles tentaram convencê-lo da «futilidade» de sua posição. Tentativa inútil. Eles não imaginaram que encontrariam tamanha segurança, tamanha força, a força simples da doutrina católica, amada mais que a si mesmo.

Não podendo convencê-lo, era necessário esmagá-lo. Assim, sobrevieram-lhe as sanções canônicas. As pressões psicológicas foram terríveis a princípio.

Houve a ameaça de se fechar o seminário da Fraternidade. Como as ameaças não o detiveram, delas se passou para as sanções. E foi Dom Mamie, Bispo de Friburgo, que tomou a frente em tudo isso. Ao pobre, foi-lhe dada ordem de não realizar as ordenações do dia 29 de Junho de 1976. Terrível dilema do qual eu fui uma testemunha privilegiada. Na noite do dia 28, em meu escritório, ele ainda buscava uma solução… pesava os prós e os contras… A festa já se aproximava com todo seu fulgor.

Tudo estava pronto… «apesar de tudo, dizia-me ele, podemos ainda não fazer as ordenações». Ele era de uma calma suprema, tranqüilo. E no dia 29, diante de uma imensa multidão, ele explicou sua atitude. Ele falou com clareza e sem meios termos: nossa fidelidade à missa de sempre, à missa codificada, e mesmo canonizada por São Pio V é a causa de nossas dificuldades com Roma.

A sanção canônica sobreveio em 22 de Julho de 1976. Ele foi declarado «suspenso a divinis». Ele não poderia exercer nenhum poder inerente ao seu estado sacerdotal e episcopal. Em Lille, aos 29 de Agosto de 1976, ele explicou tudo novamente. Ele falou abertamente da reforma litúrgica, da reforma da missa, da missa «equívoca». Foi lá que ele falou da missa «híbrida»: «a Nova Missa é uma espécie de missa híbrida que não é hierárquica, mas democrática, onde a assembléia ocupa lugar mais importante que o sacerdote». Pode-se resumir a posição de Dom Lefèbvre dizendo que ele rejeita a nova missa porque ela é equívoca, mais protestante que católica, distante da Tradição católica e até mesmo em total ruptura com a Tradição e os dogmas católicos.

E o conflito perdurou. Hoje, vós sois a autoridade. É por isso que eu me dirijo a vós. Vós tendes mantido a condenação de Dom Lefèbvre, de sua fundação, de seus sacerdotes porque eles querem permanecer fiéis a esta Missa católica para salvaguardar sua Fé, garantia da eternidade.

No entanto, vós, quando éreis cardeal, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, vós vos tornastes bem severo quanto a essa reforma litúrgica que nos entristece.

Permiti que eu vos cite.

Vós prefaciastes um livro de Monsenhor Gamber em sua edição francesa gratamente difundida por Dom Gérard Calvet e intitulada A Reforma Litúrgica em Questão. Neste prefácio, vós elogiastes Monsenhor Gamber por sua obra teológica e litúrgica. Vós o recomendastes fortemente e fizestes dele um modelo, «um padre» desse renovar litúrgico que  trouxestes e ainda traz entre todos os vossos anseios. «Esse novo recomeço precisa de padres que lhe sejam modelos… Quem procura hoje tais padres encontrará um sem sombra de dúvida na pessoa de Monsenhor Klaus Gamber… ele poderia com sua destreza litúrgica – vós o dissestes – tornar-se um padre do novo recomeço» (p. 7). Não se pode ser mais claro.

Vós criticais «graciosamente» neste prefácio a reforma litúrgica. Vós afirmais que «a liturgia é (deve ser) um desenvolvimento contínuo», harmonioso (p. 7). E de fato a liturgia católica foi isto, aquela codificada por São Pio V. Ela evoluiu harmoniosamente através dos séculos. Tal se pode dizer tanto da liturgia quanto da doutrina católica. Não há pior herético que o «fixista». Não há nada mais radicalmente estático que a morte. A liturgia católica não é isso. Nós bem o sabemos. Isto posto, vós partis «em guerra» contra a liturgia reformada oriunda do Concílio Vaticano II. «O que se deu após o Concílio significa uma outra coisa: no lugar da liturgia, fruto do desenvolvimento contínuo, foi colocada uma liturgia fabricada. Saiu-se do processo vivo de crescimento e de transformação para se vagar na fabricação». Esta é a obra de Dom Bugnini. «Não se quis continuar a transformação e a maturação orgânica do ser vivo pelos séculos e as substituíram – segundo um modo de produção técnico – pela fabricação, produto banal do momento» (p. 7).

Vós dissestes também: «A liturgia não é o produto do nosso fazer». Esta é a grande idéia de Monsenhor Gamber. Dom Lefèbvre teria sido desta mesma opinião, ele que sustentou até a ruptura as reformas de São Pio X, de Pio XII e mesmo de João XXIII em matéria litúrgica, contra certos seminaristas americanos que as rejeitavam.

Vós nos pedistes que pendêssemos para o pensamento de Monsenhor Gamber, que nós o tomássemos por nosso. Vós destes uma aprovação sentida de sua obra. É o que eu tenho feito.

Por vossa recomendação, eu li este livro. Devo confessar que jamais encontrei crítica tão forte, tão radical à Nova Missa mesmo sob a pena de Dom Lefèbvre.

Então observe agora minha questão. Vêde onde quero chegar. Vêde o que eu quereria vos dizer se vós me recebêsseis: «Por que aprovar tão denodadamente Monsenhor Gamber, aplaudi-lo, recomendá-lo e continuar a reprovar Dom Lefèbvre?» Monsenhor Gamber é, porém, ainda mais severo em sua crítica ao novo rito que Dom Lefèbvre. Não haveria então dois pesos e duas medidas? Eis meu pasmo e mesmo minha angústia!

Vêde algumas críticas de Monsenhor Gamber: «Colocou-se, doravante (com a reforma litúrgica) e de modo exagerado, o peso sobre a atividade dos participantes, deixando num segundo plano o elemento cultual» (p. 15).

Foi isso que Dom Lefèbvre afirmou em Lille, nem mais, nem menos. «Esse (elemento cultual, i.e. o Sacrifício, a própria ação eucarística) foi empobrecida mais e mais no nosso meio». «Do mesmo modo, agora falta em larga medida a solenidade que faz parte de toda a ação cultual, sobretudo se esta é realizada diante de uma grande multidão» (p. 12). É isso o que nós dizemos, nem mais, nem menos. Monsenhor Gamber ousa escrever a este respeito: «Em lugar da solenidade vê-se reinar freqüentemente uma austeridade calvinista» (p. 13).

Monsenhor Gamber prossegue… «Não raro, vemos certos ritos serem desprezados pelos próprios pastores e deixados de lado sob pretexto de que seriam antiquados: não se quer deixar suspeitar que se teria fracassado o trem da evolução moderna. Não obstante, uma multidão do povo cristão permanece ligada a tais formas antigas cheias de piedade. Os reformadores de hoje, muito apressados, não consideraram suficientemente até que ponto, no espírito dos fiéis, a doutrina e as formas piedosas coincidem. Para muitos modificar as formas piedosas significa modificar a fé».

Prefaciando este livro, vós destes vossa aprovação a esta crítica geral.

Dom Lefèbvre disse a mesma coisa. Ele não cessou durante toda a sua vida de nos lembrar o axioma fundamental em matéria litúrgica: lex orandi, lex credendi. Foi o tema de sua conferência – entre mais de mil – de 15 de Fevereiro de 1975, dada em Florença: «Para muitos, modificar as formas tradicionais significa modificar a fé».

«Os responsáveis na Igreja não escutaram a voz daqueles que não cessaram de adverti-los pedindo-lhes que não suprimissem o Missal romano tradicional (e autorizassem a nova liturgia somente em certo limites e «ad experimentum»)… Hoje, eis infelizmente esta situação: numerosos bispos se calam diante de quase todas as experiências litúrgicas, mas reprimem mais ou menos severamente o sacerdote que, por razões objetivas ou de consciência, se prende à antiga liturgia» (p. 14).

Foi a essa constatação que chegaram os «Grandes» no cardinalato. Foi isso o constatado por Dom Lefèbvre. Era isso o que fazia com que Dom Lefèbvre se ativesse por razões objetivas ou de consciência à antiga liturgia.

Então, já que vós sustentastes o pensamento de Monsenhor Gamber, visto haverdes prefaciado seu livro, querei, eu vos suplico fazer abrir o dossiê «questão Lefèbvre» e o julgar em bom e devido modo.

Monsenhor Gamber é deveras severo… contra essa reforma litúrgica. Após ter reconhecido que «as inovações litúrgicas» são possíveis, mas que tudo deve ser feito «com bom senso e prudência». Isso não é a razão última, mas pouco importa, ele conclui voltando-se então para o concreto da reforma litúrgica nascida do Concílio Vaticano II: «A ruptura com a Tradição está doravante consumada». Ele sublinha ainda: «Pela introdução da nova forma da celebração da Missa (trata-se aqui do próprio rito novo) e dos novos livros litúrgicos, e ainda mais pela liturgia concedida tacitamente pelas autoridades, organizada livremente na celebração da missa sem que se possa auferir de tudo isso uma vantagem do ponto de vista pastoral (e isto é o mínimo que se pode dizer!), juntamente a tudo isso, prossegue ele, constata-se em larga medida, uma decadência da vida religiosa que, é verdade, tem também outras causas. As esperanças postas na reforma litúrgica – já se pode dizer – não foram realizadas».

Vós prefaciastes isto.

Dom Lefèbvre jamais usou termos tão fortes e brutais.

Por graça! Retomai o dossiê. Dai nova vida ao recurso que o próprio Dom Lefèbvre levou às mãos do Prefeito da «Assinatura Apostólica» da época, mas que este último não pôde tratar por ordem do onipotente Cardeal Dom Villot. Hoje, vós tendes poder para isso. Fazei cessar a injustiça na Igreja… na França de modo particular… Fazei cessar a injustiça contra Dom Lefèbvre.

Vêde ainda! «De ano em ano, a reforma litúrgica, louvada com excesso de idealismo e grandes esperanças por numerosos sacerdotes e leigos, prova ser, como nós já havíamos dito, uma desolação de proporção assustadora». (p. 15)

Dom Lefèbvre disse isso, mas digo que jamais o fez tão fortemente.

Nosso autor prossegue: «Em vez das esperadas renovação da Igreja e da vida eclesiástica, nós assistimos a um desmantelamento dos valores da Fé e da piedade que nos foram transmitidas, já no lugar de uma renovação fecunda da liturgia, vemos uma destruição das formas da missa que foram organicamente desenvolvidas no curso dos séculos» (p. 15).

Vós aprovastes este julgamento, vós o prefaciastes elogiosamente. Dom Lefèbvre, que não disse nada além disso, foi condenado, mas Monsenhor Gamber foi aplaudido.

Prossigo minha leitura: «…a isto some-se uma amedrontadora aproximação das concepções do protestantismo sob a bandeira de um ecumenismo mal compreendido… Isto significa nada menos que o abandono de uma tradição até então comum ao Oriente e ao Ocidente» (p. 15).

Dom Lefèbvre não disse outra coisa. Foi o que ele disse em um artigo publicado em 1971 em La Pensée Catholique – mas já escrito em pleno Concílio: «Para se permanecer católico seria necessário tornar-se protestante?»… E ele concluía: «Não se pode imitar os protestantes indefinidamente sem de fato se tornar um». Mas eu julgo Monsenhor Gamber mais categórico ainda. Ele mesmo fala «de uma amedrontadora aproximação das concepções do protestantismo». A linha de pensamento é a mesma!

Então como é possível tecer louvores a um, Monsenhor Gamber, e continuar a condenar o outro, Dom Lefèbvre. Ambos dizem o mesmo.

Por graça, abri novamente o processo de Dom Lefèbvre. Esta é uma súplica legítima.

Monsenhor Gamber, em um segundo capítulo, trata da «ruína» do rito romano. Ele o pranteia, como vós o fazeis em vosso Motu Proprio Summorum Pontificum. De tal modo ele avança em sua análise que chega ao ponto de dizer que o rito novo, sem ser de per si inválido – o que Dom Lefèbvre jamais disse – é celebrado com mais e mais freqüência de maneira inválida. Dom Lefèbvre disse exatamente a mesma coisa. Nem mais, nem menos. Ele é apenas um pouco mais preciso: «Todas essas mudanças no novo rito são realmente perigosas, porque pouco a pouco, sobretudo para os jovens sacerdotes que não mais têm a idéia de sacrifício, da presença real e da transubstanciação, e para os quais tudo isso não significa mais nada, esses jovens sacerdotes perdem a intenção de fazer o que a Igreja faz e não celebram mais missas válidas» (Conferência de Florença de 15 de Fevereiro de 1975).

Esta foi a grande preocupação de João Paulo II no fim de seu reinado, sobremodo expressa em sua encíclica «Ecclesia de Eucharistia».

Eu passo, pois, ao capítulo IV do livro: o julgamento do prelado é terrível.

Ele expõe a princípio, brevemente, porém adequadamente, a reforma luterana, a reforma que Lutero fez a Missa católica sofrer, a Missa romana. «O primeiro, escreveu ele, a ter empreendido uma reforma da liturgia e isso em razão de considerações teológicas foi, incontestavelmente, Martinho Lutero. Ele negava o caráter sacrificial da Missa e por isso se escandalizava com certas partes da Missa, em particular as orações sacrificiais do Cânon» (p. 41).

Daí advém a reforma que ele empreendeu da missa e logo de início suprimiu as orações sacrificiais, mas ele agiu prudentemente – com a prudência da carne – para não chocar e criar reações.

Ora, nada de tão comparável com a reforma litúrgica conciliar.

Monsenhor Gamber é terrível. Ele afirma inicialmente que se agiu muito brutalmente no Concílio: «A nova organização da liturgia e, sobretudo, as modificações profundas do rito da Missa que apareceram sob o pontificado de Paulo VI e entrementes se tornaram obrigatórias – pode-se legitimamente discutir este ponto – foram muito mais radicais que a reforma litúrgica de Lutero e levaram muito menos em conta o sentimento popular» (p. 42).

Depois, ele afirma que alguns elementos da doutrina protestante foram levados em conta para justificar a reforma litúrgica. Ele fala ainda da «repressão do elemento latrêutico», «a supressão das formulas trinitária», e enfim do «enfraquecimento do papel do sacerdote». Aqui se encontra, pura e simplesmente, as afirmações de Dom Lefèbvre, aquelas do «Breve Exame Crítico» apresentado ao Papa pelo Cardeal Ottaviani. E diz ainda que «não foi suficientemente esclarecido em que medida, tanto aqui quanto no caso de Lutero, as considerações dogmáticas puderam exercer alguma influência» (p. 42).

Ele reconhece que «foi a nova teologia (liberal) que apadrinhou a reforma conciliar». Ele se ressente de que o Papa Paulo VI não tivesse acreditado que deveria ter levado a sério «as críticas dogmáticas», «nem as imperiosas e ásperas repreensões dos cardeais de mérito – como aqui não se pensar no Cardeal Ottaviani, no Cardeal Bacci, os quais haviam lançado objeções dogmáticas quanto ao novo rito da missa – nem as instantes súplicas provenientes de todas as partes do mundo impediram Paulo VI de introduzir imperativamente o novo missal» (p. 43).

Assim, para Monsenhor Gamber cuja doutrina vós tanto nos recomendais, o «Novo Ordo Missae» teria «odores» protestantes pelos traços de teologia protestante, teologia liberal.

Confessai que tudo isso, objetivamente, pode impedir qualquer entusiasmo de celebrá-lo e torna difícil falar de «santidade» ou de «valor» do novo rito como vós nos pedis para fazê-lo na carta que endereçastes aos bispos. A contradição permanece!

Vós aprovastes estas críticas. Por que então continuais a condenar Dom Lefèbvre?

Seu erro foi talvez ter tido razão cedo demais, ou de ter sido, em sua época, um bispo de caráter… Mas se ele demonstrava essa qualidade quem poderia com razão criticá-lo, ainda mais por tal lucidez e tamanha força? Foram estes os motivos da condenação?

Após estas críticas gerais, Monsenhor Gamber chega a um ponto mais peculiar: à prex eucharistica. Ainda nesse ponto a crítica permanece terrível. «Os três novos cânons constituem por si mesmos uma ruptura completa com a tradição. Eles foram compostos de acordo com modelos orientais e galicanos, e representam, ao menos em seu estilo, um corpo estranho no rito romano» (49). Ele aprofunda um pouco mais em seu «menu» até as palavras da consagração, e é ainda mais severo: «A modificação ordenada por Paulo VI das palavras da consagração e das frases que se seguem… não tinha a menor utilidade para a pastoral. A tradução de «pro multis» para «por todos» que se refere a concepções teológicas modernas e que não é de modo algum encontrado em nenhum texto litúrgico antigo, é duvidosa e tem na verdade causado escândalo» (p. 50).

Monsenhor Gamber estava chocado, deveras chocado, com a mudança do termo «mysterium fidei» da fórmula da consagração do vinho. Mas sua explicação é luminosa: «Do ponto de vista do rito, é para se ficar estupefato ao ver que se tenha podido retirar, sem razão, o termo «mysterium fidei» inserido nas palavras da consagração desde por volta do século VI, para lhes conferir um significado novo; ele se tornou uma exclamação do sacerdote após a consagração. Uma exclamação desse tipo jamais esteve em uso. A resposta da assembléia: «Proclamamos, Senhor, a vossa morte…» só é encontrada em anáforas egípcias. Porém é estranha aos ritos orientais e a todas as orações eucarísticas ocidentais e está em total desconformidade com o estilo do cânon romano» (p. 50).

Desse modo, nós nos prontificamos a nos ater a crítica de Monsenhor Gamber. Eu creio que ela basta para poder justificar nossa posição prática. No entanto, porque quisemos permanecer ligados a estas críticas, àquelas do Breve Exame Crítico, que são as mesmas, nós fomos praticamente excomungados, cassados de nossas igrejas, nós fomos tomados por retrógrados. E nos disseram que não temos o senso da Tradição…

Mas então porque elevar às nuvens Monsenhor Gamber e continuar a combater Dom Lefèbvre? Eu não entendo.

Não haveria injustiça nisso? Eis o que eu tenho em meu coração e o que eu quero vos dizer, vós que sois o pai de todos.

Monsenhor Gamber vem a concluir o capítulo por este veredito: «Com o novo, quis-se mostrar aberto à nova teologia, tão equívoca, aberta ao mundo de hoje» (p. 54). «O que é certo é que o novo Ordo Missae, desta forma, não recebeu o assentimento da maioria dos padres conciliares».

Incrível!

Esta única afirmação deveria bastar para que qualquer um se ativesse firmemente ao antigo rito… «Mas vós não tendes o espírito do Concílio»! Esta arma que mata. No entanto, o que é este espírito do Concílio que é necessário ter para viver… Monsenhor Gamber o tinha? Mas que arbitrário! Que arbitrário!

Vós poderíeis talvez me dizer: «Tu te enganas. Não é a missa que põe o problema. Mas as sagrações. Dom Lefèbvre as realizou sem autorização pontifical. Por isso devia ser punido. Hoje, o novo Direito canônico prevê a excomunhão. Eis o problema! Eis o porquê da condenação». Mas é realmente esse o problema?

A idéia da sagração de um membro da Fraternidade havia sido aceita quando do protocolo de 5 de maio de 1988. Vós mesmo a havíeis aceitado.

Mas para o momento, permaneçamos ao nível do simples bom senso.

Dom Lefèbvre não foi menos amado pelas autoridades eclesiásticas após as sagrações que antes delas. Ele não foi menos execrado depois das sagrações que antes das mesmas. Antes delas, fizeram-lhe guerra, sua obra foi declarada «selvagem». Dom Garonne o declarou «louco»… Os bispos das dioceses lhe escreveram cartas horríveis quando ele visitava os tradicionalistas de suas dioceses. E que cartas!

Sim, Dom Lefèbvre já não era amado desde antes das sagrações. Ele não mais estava, parecia-lhe, em sua «comunhão». Já se lhe fechavam as igrejas. Os corações dos bispos se lhe fecharam… Mesmo em Roma, não se ousava mais recebê-lo… quando ele visitava um dicastério… o Prefeito ficava embaraçado… Ser visto com Dom Lefèbvre era comprometedor… Já muito antes das sagrações, ele era o « mal amado» da Igreja. Ele não tinha o espírito conciliar… E de fato, sua obra, sua obra sacerdotal foi interditada, seu seminário foi fechado. Interditadas as ordenações sacerdotais… Obviamente, ele nos ordenou para o Sacrifício da missa…! Ele era execrado por seus pares bem antes das sagrações e mesmo durante o Concílio.

Não se lhe perdoava a posição, sua presidência do Coetus internationalis Patrum.

Mesmo antes do Concílio, quando ele era Arcebispo-Bispo de Tulle, os cardeais e arcebispos da França lhe fechavam a porta de suas assembléias e reuniões. Mas ele tinha pleno direito a tomar parte nelas. Eles lhe recusavam tal. Isto é histórico! Se o Cardeal Richaud – então Arcebispo de Bordeaux – estivesse ainda neste mundo, ele poderia testemunhar quanto a isso.

Dom Lefèbvre no-lo disse. Mas ele ria-se disso. Ele não era rancoroso. Sim, mesmo antes das sagrações, Dom Lefèbvre não era amado. Era assim.

Sob esses aspectos, o problema das sagrações toma seu sentido verdadeiro. É na verdade um problema menor, o que quer que se diga… Neste sentido, as sagrações não foram a razão fundamental de sua excomunhão. Na prática, ele já o era. Após as sagrações ele se tornou, pode-se dizer, canonicamente. E isso não mudou quase nada… A pena canônica – sua declaração – foi inicial e essencialmente diplomática: para fazer medo e assustar os fiéis e lhes fazer abandonar o barco… O Cardeal Gagnon julgou mal.

Mas admitamos que a excomunhão tenha sua razão essencial e exclusiva nas sagrações. Esta ação – esta sanção – estende-se a Dom Lefèbvre, aos quatro bispos consagrados e ao co-consagrador Dom Castro Mayer… a mais ninguém, e de modo algum à Fraternidade Sacerdotal São Pio X e seus padres. Eles não estão excomungados. Eles estão na Igreja e são da Igreja. Eu mesmo nunca recebi a menor notificação de excomunhão. O Motu Proprio Ecclesia Dei Adflicta não me diz respeito diretamente.

Vós me direis talvez que a Fraternidade Sacerdotal São Pio X tenha sido suprimida por Dom Mamie, Bispo de Friburgo, e não exista mais. Ela não é mais de direito diocesano. Vós sois “zero”, nada. Vós não tendes qualquer existência legal.

Ah ! Permiti-me ainda!

Dom Mamie quis talvez suprimir a Fraternidade Sacerdotal São Pio X… Mas eu me permito humildemente vos lembrar que nós o fomos em razão de nossa ligação à missa tridentina e em razão de nossa rejeição do novo Ordo Missae.

Ora, prefaciando o livro de Monsenhor Gamber, vós prefaciastes nossas própria críticas.

Volto a repetir, Dom Lefèbvre e o Breve Exame Crítico são menos duros que Monsenhor Gamber e seu livro. Ademais vós nos dais razão em vosso recente Motu Proprio reconhecendo que a antiga missa «permaneceu sempre autorizada». Se ela permaneceu sempre autorizada, era legítimo a celebrar e ilegítimo condenar os que queriam celebrá-la.

Assim, pois, nossa condenação e nossa supressão estão sem razão suficiente.

Elas são injustas. Querei, Santíssimo Padre, restaurar a justiça, reparar a injustiça.

Dignai-vos, Santíssimo Padre, a receber a expressão de meu filial respeito e conceder-me vossa bênção.

Padre Paul Aulagnier.

Membro do Instituto do Bom Pastor.

8 janeiro, 2009

O caso Mindszenty (III): O beijo de Judas.

Leia também os posts anteriores sobre O caso Mindszenty.

Mindszenty na sacada da embaixada dos EUA, em Budapeste.Em 1956 Stalin estava morto e Khrushchev estava fazendo alguns ruídos incomuns. Em outubro, os Húngaros levantaram-se em revolta. Mindszenty não tinha sinais do que estava acontecendo nas ruas; seus guardas disseram-lhe que a multidão fora da prisão estava gritando por seu sangue. Poucos dias depois ele foi solto e realmente uma multidão de locais o atacou. Mas em vez de rasgarem sua carne, agarravam o herói liberto para beijar suas roupas. Quando ele retornou a Budapeste, os Vermelhos depostos tremiam diante deste fantasma que não permaneceria enterrado, contudo, numa transmissão de rádio ele aconselhou contra a vingança. Os Soviéticos não eram tão clementes e tanques rugiam para esmagar este desagradável incidente. Homem marcado, Mindszenty procurou asilo na embaixada Americana como seu último recurso. Agora um longínquo segundo purgatório tinha começado. Pio [XII] ergueu sua voz repetidamente contra esse último exemplo do terror Soviético, mas o Ocidente, descuidado de sua própria retórica libertadora, estava surdo.

Quando The Prisioner [ndt: um filme a respeito do caso do Cardeal Mindszenty] foi lançado, a Igreja era ainda a implacável inimiga do comunismo. O frágil Pio [XII] permaneceu como um Colosso contra o totalitarismo tanto de direita como de esquerda. Quando Pio deixou esse mundo sobreveio um vazio moral no Vaticano que nunca foi preenchido. No começo da década de 60, tanto os governos do Ocidente como os Papas do Novus Ordo decidiram que o entendimento com os Comunistas era preferível às noções arcaicas de Pio e Mindszenty. João XXIII e seu sucessor Paulo VI deram boas vindas ao sopro de ar fresco na Igreja, e em seu aroma estava incluído a cooperação com os Vermelhos. A nova Ostpolitik, gerenciada pelo Secretário de Estado de Paulo VI, Agostino Casaroli, não tinha espaço para guerreiros Cristãos do tipo de Mindszenty. A posição do governo Húngaro foi fortalecida quando Casaroli entrou em negociações com o apavorante regime de Janos Kadar. Enquanto a Guerra Fria derretia, o gelo era colocado em Mindszenty. O governo Americano fez-se compreender que ele não era mais bem-vindo na embaixada. Pior ainda, Paulo [VI] mandou um funcionário para persuadir Mindszenty a partir, mas apenas após assinar um documento cheio de condições que favoreciam os Vermelhos e essencialmente culpava a si mesmo por suas provações. A confissão de que os Comunistas não poderiam torturá-lo estava lhe sendo forçada pelo Papa!

Mindszenty e Paulo VIRetirado de sua terra nativa contra sua vontade, Mindszensty celebrou Missa em Roma com Paulo [VI] em 23 de outubro de 1971. O Papa lhe disse, “Você é e permanece arcebispo de Esztergom e primaz da Hungria”. Era o beijo de Judas. Por dois anos Mindszenty viajou, um vivo testamento da verdade, um homem que foi torturado, humilhado, aprisionado e finalmente banido dos interesses da Igreja. No outono de 1973, enquanto se preparava para publicar suas Memoirs, revelando a história toda ao mundo, ele sofreu a traição final. Paulo [VI], temeroso de que a verdade arruinaria o novo espírito de coexistência com os Marxistas, “pediu” a Mindszenty que renunciasse a seu cargo. Quando Mindszenty recusou, Paulo [VI] declarou sua Sé vacante, dando aos Comunistas uma vitória esmagadora.

Se a história de Mindszenty é a do surgimento e queda da resistência do Ocidente ao comunismo, é também a crônica do auto-enfraquecimento do Catolicismo.

Excertos de Shooting the Cardinal, por Steve O’Brien – Ph.D. em história pelo Boston College e autor de Blackrobe in Blue: The Naval Chaplaincy of John O. Foley, S.J., 1942-46

5 janeiro, 2009

O caso Mindszenty (II): Você também confessaria.

Leia também: O caso Mindszenty (I): “Arranquem suas línguas”

Olhemos primeiro para o caso do Cardeal Mindszenty, acusado de enganar o povo Húngaro e colaborar com os inimigos, os Estados Unidos. Em sua exposição sobre o aprisionamento do Cardeal Mindszenty, Stephen K. Swift graficamente descreve três típicas fases no “processamento” psicológico de prisioneiros políticos. A primeira fase é dirigida a extorquir a confissão. A vítima é bombardeada com perguntas dia e noite. É inadequadamente e irregularmente alimentada. Não lhe é concedida quase nenhum descanso e permanece na câmara de interrogatório por horas sucessivamente enquanto seus inquisidores se revezam. Fome, exaustão, vistas embaçadas e doloridas sob lâmpadas fortíssimas, o prisioneiro torna-se pouco mais que um animal caçado.

  • “… quando o Cardeal estava de pé por sessenta e seis horas [relata Swift], ele fechou seus olhos e permaneceu calado. Nem mesmo respondeu as perguntas com negações. O coronel encarregado do turno bateu no ombro do Cardeal e lhe perguntou por que não respondia. O Cardeal respondeu: ‘Termine tudo. Mate-me! Estou pronto para morrer! ’ Disseram-lhe que nenhum mal lhe aconteceria; que poderia terminar tudo isso simplesmente respondendo a certas questões.
  • “… Pela manhã de Sábado ele dificilmente poderia ser reconhecido. Pediu por outra bebida e desta vez recusaram-lhe. Suas pernas e pés se incharam de tal maneira que lhe causavam intensa dor; caiu diversas vezes”

Cardeal Mindszenty

Aos horrores que as vítimas acusadas sofrem “de fora” devem ser acrescentados os horrores “de dentro”. Ele é perseguido pela instabilidade de sua própria mente, que não pode sempre produzir a mesma resposta a uma questão repetida. Como um ser humano com uma consciência, ele é perseguido por possíveis sentimentos de culpa escondidos, por mais piedoso que fosse, que minam sua compreensão racional de inocência. O pânico do que sofre lavagem cerebral é a total confusão que ele sofre sobre todos os conceitos. Suas avaliações e normas estão destruídas. Já não pode mais crer em nada objetivo exceto na lógica ditada e doutrinada daqueles que são mais poderosos que ele. O inimigo sabe que, muito além do exterior, a vida humana é feita de contradições interiores. Ele usa esse conhecimento para vencer e confundir aquele que sofre a lavagem. A contínua alternância entre os interrogadores torna ainda mais impossível crer num pensamento concatenado. Dificilmente a vítima se ajustou a um inquisidor quando ela tem que mudar seu foco de alerta para outro.

Ainda, esse conflito interno de normas e conceitos, essa contradição interna de ideologias e crenças é parte da doença filosófica de nossos tempos!

Como um ser social, o Cardeal é perseguido pela necessidade de bons relacionamentos humanos e companheirismo. A sugestão constantemente reiterada de suas culpas o empurra para a confissão. Como um indivíduo sofredor ele é chantageado por uma necessidade interna de ser deixado sozinho e despreocupado, mesmo que por poucos minutos. De dentro e de fora ele é inexoravelmente levado a assinar a confissão preparada por seus perseguidores. Por que ele deveria resistir ainda mais? Não há testemunhas visíveis para seu heroísmo. Ele não pode provar sua coragem moral e retidão após sua morte. O coração da estratégia da lavagem cerebral é retirar toda esperança, toda antecipação, toda crença no futuro. Ela destrói os próprios elementos que mantém a mente viva. A vítima está absolutamente sozinha.

Se a mente do prisioneiro se mostra muito resistente, narcóticos são dados para confundi-la: mescalina, maconha, morfina, barbiturato, álcool. Se seu corpo sofre um colapso antes de sua mente capitular, ele recebe estimulantes: benzedrina, cafeína, coramina, todos para ajudá-lo a preservar sua consciência até confessar. Muitos dos narcóticos e estimulantes que ultimamente ajudam a induzir a dependência mental e leva à confusão podem também criar uma amnésia, comumente um completo esquecimento da própria tortura. As técnicas de tortura conseguem o efeito desejado, mas a vítima esquece o que realmente aconteceu durante o interrogatório. Os clínicos que fazem trabalho terapêutico com derivados de anfetaminas que quando injetadas no sistema sanguíneo ajudam pacientes a se lembrarem de experiências há muito esquecidas, são familiares com a habilidade das drogas de trazer um tranqüilo esquecimento do período durante o qual o paciente era drogado e questionado.

Após, a vítima é treinada para aceitar sua própria confissão, tal como um animal é treinado a fazer pequenos truques. Falsas admissões são relidas, repetidas, marteladas em seu cérebro. Ele é forçado a reproduzir, de memória, várias e várias vezes as ofensas fantasiadas, detalhes fictícios que finalmente o convencem de sua criminalidade. No primeiro estágio ele é forçado à obediência mental por outros. No segundo ele entra num estágio de auto-hipnose, convencendo a si mesmo dos crimes fabricados. Conforme Swift: “As perguntas durante o interrogatório agora tratam com detalhes da ‘confissão’ do Cardeal. Primeiro, suas próprias afirmações são lidas para ele; então, afirmações de outro prisioneiros acusados de cumplicidade com ele; após, elaborações daquelas afirmações. Às vezes o Cardeal estava melancólico, outras enormemente perturbado e excitado. Mas ele respondia todas as perguntas de bom grado, repetia todas as afirmações uma, duas, até três vezes quando assim lhe era pedido”. (Lassio)

Na terceira e última fase do interrogatório e lavagem cerebral, o acusado, agora completamente condicionado e aceitando sua culpa imposta, é treinado a lançar falsos testemunhos contra si mesmo e outros. Ele não tem que se convencer mais através da auto-hipnose; ele apenas fala “a voz do seu senhor”. É preparado para um julgamento, completamente amaciado; torna-se cheio de remorsos e desejoso de ser sentenciado. É um bebê nas mãos de seus inquisidores, nutrido como um bebê e tranqüilizado por palavras como um bebê.

(The Rape of the Mind, The Psychology of Thought Control, Menticide, and Brainwashing. Joost A. M. Meerloo, M.D; The Techniques of Individual Submission; Chapter One – You too would confess)

31 dezembro, 2008

O caso Mindszenty (I): “Arranquem suas línguas”.

Link para o original.Segunda-feira, 14 de Fevereiro de 1949 – Hungria

Agitado e cheio de maus pressentimentos, o Arcebispo Joseph Mindszenty apressou-se até o Vaticano há apenas três anos. Estava uma semana atrasado; o exército Vermelho havia atrasado seu visto.

No dia seguinte, o Papa Pio XII colocou o chapéu vermelho de cardeal na cabeça do nascido camponês Joseph Mindszenty e outros 31 prelados. Enquanto o fazia, o Papa pronunciava uma antiga formula: “Recebei… este chapéu vermelho, sinal da inigualável dignidade do cardinalato, pela qual é declarada que vós deveis mostrar-vos corajoso até a morte em derramar vosso sangue pela exaltação da bem-aventurada fé…”

Depois, de acordo com um relato dado por padres Americanos, o Papa disse a Mindszenty: “Você pode ser o primeiro a ver esta cor vermelho-sangue tornar-se sangue vermelho”.

Historicamente, é curioso encontrar menção ao martírio mantido no ritual da criação de um cardeal. A lista de mártires da Igreja contém grande quantidade de bispos, mas apenas um cardeal 1. Quando o cargo evoluiu (provavelmente no século V), os cardeais ficavam a cargo de importantes igrejas na própria cidade e em torno de Roma. Enquanto existisse o mal no mundo, existiria perigo, mesmo no centro da Cristandade. Os cardeais eram relembrados que deles, assim como daqueles que iam para junto dos infiéis, se esperava fidelidade até a morte.

Santo Stefano Rotodon, Roma.

Santo Stefano Rotondo, Roma.

A igreja em Roma da qual o Cardeal Mindszenty tornou-se titular era a do protomártir (cerca de 50 A.D.) Santo Stefano [Estevão] Rotondo al Monte Célio, do século V 2. Nas paredes de Santo Stefano estão 34 afrescos mostrando cenas do martírio Cristão – Santa Margareth, seus seios despedaçados com ganchos; o Bispo Artemius, esmagado entre grossas placas de pedra; Bispo Simeon, cortado aos pedaços com facas. Mas nem todos os martírios envolvem morte. Um afresco em Santo Stefano conta a perseguição dos cristãos do século IV pelo Rei Unericus, no norte da África. Diz a descrição: “Aqueles que falaram e levantaram suas mãos contra o Rei tiveram suas línguas e mãos cortadas fora”.

Joseph Mindszenty viveu por três anos com a ameaça do martírio contra si. Sabia disso e falava disso, e dizia que estava pronto para aceitá-lo. Ele até se preparou para a forma de martírio que o alcançaria na semana passada, o martírio inventado pelo Rei Unericus – o martírio da língua que não poderia claramente professar aquilo a que ele dedicou sua vida.

Os comunistas, que têm seus próprios mártires, bem entendem o ditado “sangue dos mártires, semente da Igreja”. Eles procuraram remover Mindszenty, que permanecia em seu caminho, mas acima de tudo procuraram afastá-lo de sua coroa do martírio. Desse modo, Mindszenty apareceu no tribunal “confessando” e “se retratando”.

Como os comunistas armaram isso ninguém no Ocidente sabe (até hoje ninguém sabe o segredo das confissões na “Grande Limpeza” de 1937 na Rússia). De algum modo eles quebraram Joseph Mindszenty, homem de coragem incendiante. De algum modo eles fizeram-no dizer coisas que ele havia negado com radical veemência, e com pleno conhecimento das conseqüências, até sua prisão 40 dias antes.

Desde que o Rei Unericus cortou línguas, os homens não diminuíram em maldade, mas aprenderam artes sutis e torturas mais refinadas que faca e ganchos. Ninguém pode provar que Mindszenty estava drogado ou açoitado. Tudo que pode ser dito com certeza é que toda a vida de Mindszenty provou que ele era um homem bravo e teimoso, um homem que em toda encruzilhada em sua vida orgulhosamente tomou o mais perigoso, o mais íngreme caminho; ter feito tal homem “arrepender-se” foi uma espécie de milagre do mal.

A casa do pai. Joseph Mindszenty vem de uma região de combatentes – o baixo Dunantul, na barragem ocidental do Danúbio, a trincheira onde por 150 anos os Húngaros lutaram contra invasores Turcos do leste. Nasceu (1892) na cidade de Csehimindszenty, filho de Janos Pehm. Os comunistas fazem muito do fato de os Pehmns serem de origem Alemã, apesar de terem vivido na Hungria por três séculos. Janos Pehm era um camponês. Também era prefeito da cidade, um homem destemido, devoto, que perpetuamente se rebelava contra os patrões da região e insignificantes poderosos. Diz um padre húngaro: “O Primaz é um grande homem, é verdade. Mas seu pai – ele era realmente um grande homem”.

Com suas duas irmãs, Joseph trabalhava o dia todo nos 20 acres de terra de seu pai, vivendo no casebre de seu pai que foi construído de tijolos secos ao sol. Quando foi para o seminário numa cidade vizinha, muitos de seus companheiros de classe o olhavam com desprezo como um filho de camponês. Era um intenso, sério e brilhante estudante.

O Doente & O Preso. Aos 23 anos, Joseph Pehm foi ordenado e voltou para Csehimindszenty, onde sua mãe orgulhosamente o viu celebrando sua primeira Missa. Em 1917 foi ensinar na pequena cidade de Zalaegerszeg, tornando-se mais tarde seu pároco. A paróquia por ele assumida estava em pobre estado. Ele criava quatro vacas e distribuía leite às crianças desnutridas. Consumiu muito tempo visitando os doentes e presos. Logo ele mesmo se tornaria preso. Quando Bela Kun estabeleceu seu reino Comunista de terror por quatro meses em 1919, Padre Pehm o atacou em um panfleto. Os Comunistas o conduziram pelas ruas da cidade “em desonra”, e então o aprisinoram na corte judicial da cidade.

Padre Pehm era um padre austero. O povo de Zalaegerszeg, como a maioria dos Húngaros, amava festas que bem duravam até o dia seguinte. Ele, indignado, determinou que não houvesse mais casamentos aos Sábados; queria todo seu rebanho pronto para a Missa de Domingo. Certa vez chamou um jovem capelão e disse: “Na última noite o observei andando junto à margem do rio com uma viúva. Primeiro, não penso ser correto que um jovem capelão ande sozinho em uma rua deserta à noite; segundo, não penso ser correto para ele andar com uma jovem viúva; e terceiro, se você fez essas coisas, você deve pedir sua transferência. Por favor o faça”

Chegaram a chamá-lo de “Papa de Zalaegerszeg”. Quando o Ministro da Fazenda, Janos Bud, começou a reduzir os gastos para a religião e trabalhos sociais, ele observou que a região de Zala seria melhor se deixada sozinha: “Aquele padre é um camarada duro para se entrar em confusão”.

1500 peças de roupas íntimas. A oposição de Mindszenty aos Nazistas o fez uma figura nacional. Ele tomou novamente o caminho mais penoso. Pregou contra o “novo paganismo” Nazista. Quando eles ocuparam a Hungria, muitos Húngaros descendentes de Alemães retiraram seus nomes húngaros e começaram a usar seus antigos nomes alemães novamente. O severo Padre Joseph Pehm fez o contrário. Renunciou ao nome alemão e tomou o Húngaro, derivado de sua cidade natal – Mindszenty.

Dez dias depois da tomada Alemã, Joseph Mindzenty tornou-se bispo de Veszprem. Em seu gracioso palácio rococó, Dom Mindszenty escondeu muitos judeus que estavam sendo perseguidos pelos nazistas. Na última semana, uma testemunha falou – mas não nas salas de julgamentos Comunistas. Ela era a senhora Janos Peter, uma judia Húngara que escapou do campo de concentração de Auschwitz. Agora vive em Viena. “Fui aconselhada a fugir para Veszprem”, relatou. “Coloquei-me sob a proteção do Bispo Mindszenty. Ele recebeu-me calorosamente e me escondeu no porão de seu palácio. Ao menos 25 pessoas estavam lá. Mindszenty nos trazia comida. Ele vinha até nós várias vezes ao dia e nos confortava com palavras apostólicas”.

Os Nazistas Húngaros finalmente prenderam Mindszenty. Todo Húngaro conhece a história de como ele caminhava até a prisão todo paramentado, abençoando o povo enquanto ia. Quando os Nazistas tomaram seu palácio, encontraram depósitos de roupas que ele coletou para os pobres. Sobre este fato os Vermelhos agora baseiam uma acusação de que Mindszenty foi preso por acumular 1500 peças de roupas íntimas. Por cinco meses, os Nazistas mantiveram Mindszenty na prisão de Sopron-Kohida.

Quando os Russos vieram, abriram as portas das prisões a todos os prisioneiros políticos. Mindszenty tomou uma carona de volta a Veszprem. Logo o Vaticano lhe daria uma nova sé, Esztergom, que carrega consigo a primazia sobre todas as outras do país.

Em três anos, Mindszenty ascenderia rapidamente de pároco a Princípe-Primaz. A Igreja sabia que estava entrando numa luta inevitável na Hungria. Mindszenty era inexperiente, com pouco conhecimento do mundo ou da diplomacia. Tinha, entretanto, duas características que devem tê-lo recomendado ao Vaticano: 1) um passado anti-nazista tão claro que os comunistas não poderiam manchar, e 2) uma extraordinária firmeza de caráter.

Mas nessa combinação de firmeza e inexperiência está o causador da tragédia.

Logo após tornar-se Primaz de Hungria, um amigo perguntou à mãe de Mindszenty se ela estava feliz pela ascensão de seu filho. A velha senhora disse: “Estive feliz muitas vezes por meu filho, e mais feliz ainda quando ele se preparava para o sacerdócio. Mas lamentei quando eles o levaram para Esztergom”.

“Eu sou a Igreja”. De muitas maneiras, o Príncipe-Primaz vivia como um pároco. Em seu enorme e sombrio palácio em Esztergom, ele usava apenas uma mesa de jantar e um quarto (nunca aquecido) onde recebia visitantes. Na mesa onde os predecessores de Mindszenty saboreavam excelentes cargas de gansos e faisões e ricos vinhos Húngaros, apenas uma refeição quente por dia era posta diante do Primaz. Nas sextas, comia apenas pão e água como um sacrifício pela libertação da Hungria do Comunismo.

Como em seus dias de vila, mantinha uma vaca que sua mãe havia lhe enviado. “Agora o Príncipe-Primaz tem leite”, disse certa vez, “isso é mais que suficiente”. Já que ele não tinha mais um jardineiro, trabalhava nos jardins do palácio, onde frangos agora ciscavam entre as verduras já meticulosamente aparadas. Um dia uma delegação veio a ele pedir uma contribuição para caridade: “Não tenho dinheiro aqui”, disse Mindszenty. “Levem o tapete”. A delegação surpresa saiu carregando um tapete oriental.

Incansavelmente inspecionou as paróquias em sua diocese. Seus olhos atentos nada deixavam passar. Certa vez ele confirmara um grupo de garotos e garotas da igreja da vila. Durante as cerimônias, deu uma olhada no telhado da igreja e repentinamente murmurou ao padre local: “Duas telhas estão faltando”.

Era profundamente fiel à sua mãe e escreveu um livro sobre maternidade. A visitava todo verão e trabalhava na velha fazenda em Csehimindszenty. No inverno, ela vinha ficar com ele. Mesmo no palácio do Cardeal, ela sempre vestia o tradicional véu preto de camponesa sobre a cabeça.

Ainda, a seu rebanho, Joseph Cardeal Mindszenty parecia como um prelado frio e distante. Um companheiro padre recorda suas visitas, como na ocasião de uma festa para as crianças pobres; o Cardeal se movia lentamente entre as criancinhas intimidadas, sorrindo friamente e entregando aqui e ali um contido tapinha em suas pequenas cabeças. Ele nunca se esqueceu para quê seu chapéu vermelho lhe fora dado.

Era ávido pelo martírio – até mesmo invejoso. Um dia, enquanto cavalgava por Budapeste seguido por vários outros padres, o carro que conduzia seu cortejo foi apedrejado por Comunistas. Mindszenty imediatamente parou seu próprio carro e furiosamente aproximou-se do agrupamento Vermelho: “Eu sou a Igreja!”, gritou o Cardeal Mindszenty: “Se vocês querem algo da Igreja, me apedrejem!”

O confronto entre Mindszenty e os Comunistas que governavam seu país não era daqueles que pudessem ser resolvidos ao “dar a César [o que é de César]”. Esse novo César era devorador de tudo. Em Estados que não tentam abocanhar profundamente as vidas pessoais de seus cidadãos, Estado e Igreja podem seguir seus caminhos em paz separados; o Estado Comunista é o instrumento de uma igreja – a igreja secular do Comunismo internacional. Ela ensina um sistema ético diretamente oposto ao de Mindszenty. Ativamente procura afastar de Deus quantos homens ela possa. Usa a plena força de seu poder político, seu sistema educacional e sua economia socializada para fazer seus convertidos e destruir seus rivais religiosos. Numa luta na qual Mindszenty se encontra não há linha lógica entre Igreja e Estado. Tudo isso era claro desde o que ocorreu na Rússia.

Por volta do fim da II Guerra Mundial, outros nove países 3 (sem contar as zonas Russas da Alemanha e Áustria) caíram nas garras do exército Vermelho. Essas terras continham 80 milhões de pessoas, das quais 42 milhões pertenciam a igrejas ligadas a Roma. A maioria dos outros habitantes pertencia à Igreja Ortodoxa Grega. Os Comunistas sabiam o que fazer com eles; na Rússia eles esmagaram a Igreja Ortodoxa, depois se utilizaram dos remanescentes. As igrejas Protestantes, em geral, permaneceram afastadas da batalha. 4

Na Romênia, 1.500.000 Católicos Romanos do rito Grego foram forçados à ingressar na Igreja Ortodoxa. O mesmo fato sobreveio a 3.500.000 Católicos Rutenos, agora cidadãos da U.R.S.S. Em países predominantemente Católicos, os Comunistas seguiram um caminho diferente; o passo intermediário em seu plano era instituir igrejas Católicas “nacionais”, separadas de Roma.

Há poucos meses, o Chefe Comunista da Hungria, Matyas Rakosi, teve uma entrevista com Istvan Barankovics, líder do Partido Católico Democrático do Povo. Ele assegurou a Barankovics que os Comunistas não tinham intenção de destruir a religião na Hungria. Perguntou como Barankovies se sentiria a respeito de “libertar a igreja Católica Húngara de Roma”. Disse Barankovics: “Uma religião baseada em linhas nacionais é sem significado. Você, que atacou Tito, deve apreciar isso.”

O negócio de viver. Os Húngaros Católicos tinham três caminhos abertos: colaborar com os Comunistas, despistar por um tempo ou lutar.

Poucos tomaram o primeiro caminho. Entre eles Padre Istvan Balogh, um padre gordo com apetite Rabelaisiano por comida e boa vida. Padre Balogh tinha variado seus deveres clericais com trabalhos como um publicar anúncios em cinemas e editor de jornais. Organizou o comércio de ovos e galinhas em torno de Szeged e gostava de ajudar nas festas de verão – na capacidade de tesoureiro. Padre Balogh tornou-se um membro do governo dominado por Comunistas. Dizia ele: “Tenhamos uma reconciliação para que todos possam dormir em paz em suas camas. Para o Cardeal Mindszenty, aceitar o martírio é uma coisa. Mas e os 6.000.000 de Católicos Húngaros para os quais o negócio é continuar vivendo?”

O segundo grupo, que queria retardar as coisas, era liderado por Laszlo Banass, que sucedeu Mindszenty como bispo de Veszprem, e Gyula Czapik, arcebispo de Eger. Sua política era desenvolvida por dois Jesuítas, Padre Joseph Janasi, um dos maiores intelectuais da Hungria, e Padre Kerkai, organizador de movimentos da juventude. Argumentavam que não importava o quão duramente os Católicos Húngaros se opusessem aos Comunistas, eles não tinham imediata perspectiva de resistência bem-sucedida. O jeito era fazer algumas concessões e esperar para ver o que aconteceria. Uma considerável parte do clero Católico e talvez a maioria do Corpo de Bispos tomaram essa postura. Ela estava de acordo com a política adotada por Adam Cardeal Sapieha na Polônia e pelo Arcebispo Joseph Beran, na Checoslováquia.

A terceira visão – total resistência intelectual – foi adotada pelo Príncipe-Primaz Mindszenty. O maior grupo do clero Católico e leigos o seguiram. Os Comunistas agora dizem que Mindszenty acreditava que uma guerra entre Estados Unidos e Rússia estava próxima. Há motivos, inteiramente alheios às afirmações Comunistas, para se crer que Mindszenty realmente mantinha essa posição. Se isso determinou sua postura, não é claro. Um homem de natureza lutadora poderia ter adotado uma postura de batalha acreditando ou não que a ajuda estava próxima.

Por qualquer razão, Mindszenty golpeou. Pouco antes das eleições de 1945 ele circulou uma carta pastoral na qual afirmava: “… Foi a tirania que trouxe a Europa a essa terrível guerra… Foi a tirania que pisoteou os mais sagrados direitos humanos… Foi a tirania que negou mesmo em teoria que os indivíduos têm direito de desenvolver suas habilidades, seus talentos, seus gostos… Mas não devemos ter o tipo de ‘democracia’ que substitui uma brutalidade, uma facção faminta pelo poder, por outra [ndt: no caso, o Nazismo pelo Comunismo] … Pedimos, irmãos, que pesem estas palavras antes de lançar seus votos… Não fiquem amedrontados pelas ameaças dos filhos do mal. Quanto menos oposição encontrar, mais forte crescerá a tirania…”

Um alaúde sem cordas. Depois disso, grandes multidões enchiam igrejas e praças públicas quando ele falava; milhares seguiam-no quando liderava a procissão na festa de Santo Estevão, Rei da Hungria, carregando a mão mumificada do Santo da capela de Santo Estevão em Budapeste até a igreja da coroação.

Mindszenty não combateu a reforma agrária dos Comunistas, o que custou à igreja Húngara quase nove décimos de seus pertences. Ele fez-se presente quando os Comunistas começaram suas manobras para nacionalizar as escolas da Hungria e fazê-las ferramentas da propaganda Comunista. A igreja dirigia e mantinha com seus próprios fundos mais de 60% de todas as escolas Húngaras.

Após perder a maior parte de suas receitas como resultado da reforma agrária, a Igreja tinha problemas para manter as escolas abertas. O governo solicitamente ofereceu pagar os professores Católicos, o que os fariam servidores do Estado Comunista. Mindszenty veementemente recusou. Então, sob direta ordem de Moscou, os Comunistas decidiram nacionalizar as escolas absolutamente. Quando o Parlamento Húngaro formalmente aprovou a lei de nacionalização, Mindszenty ordenou que os sinos das Igrejas por toda a Hungria fossem tocados como um sinal de dor e alarme.

Os Comunistas tentaram silenciar Mindszenty ao oferecê-lo condução segura para fora da Hungria. Ele recusou: “O lobo não tem mais segurança no estrangeiro do que um Cristão honesto no Estado Comunista Húngaro hoje”, disse a um visitante na época. “Em quatro meses devo provavelmente estar esperando minha vez na cela da forca. Mas eu nunca mudarei minhas atitudes ou voltarei atrás em qualquer dessas coisas que disse contra o governo Comunista. Deus ordenou meu destino e coloco-me em suas mãos”.

Disse: “Estamos sentados sobre as águas da Babilônia. Eles querem que aprendamos canções tão estrangeiras a nós como os sons de um alaúde sem cordas”.

Esse tipo de conversa alarmava muitos Católicos na Hungria. Em Roma, Monsenhores agitavam suaves mãos em agonia pela “falta de tato” do Príncipe-Primaz. Não era muito o que ele dizia, mas o modo como ele dizia.

Entretanto, Roma notou que a política conciliatória do Cardeal Sapieha e do Arcebispo Beran não estava sendo bem-sucedida ao frear o avanço Comunista contra a Igreja. O Papa Pio XII apoiou Mindszenty contra os moderados Húngaros.

Da Justiça & Caridade. Em novembro passado, os Comunistas começaram a aproximar-se de Mindszenty. Sua residência era vigiada noite e dia. Os Vermelhos tomaram uma fábrica próxima e a transformaram num dormitório para os 80 agentes secretos apontados para guardar o palácio do cardeal. Mindszenty sabia o que estava vindo. Escreveu: “Não acuso meus acusadores… Estou rezando por um mundo de justiça e caridade e também por aqueles que, nas palavras de meu Mestre, não sabem o que fazem”.

Ele pediu a sua mãe que ficasse com ele. Clérigos que os visitavam afirmavam que a mãe Mindszenty e seu filho estavam calmos e felizes. Padres diziam que quando os oficiais do governo vinham ver o Cardeal, ele orgulhosamente erguia suas mãos cada vez mais alto enquanto eles se inclinavam para beijar seu anel.

Mindszenty escreveu sua última carta pastoral. Em seu envelope, ele escreveu a agora famosa nota a seu clero, advertindo que qualquer “confissão” que possa aparecer algum dia com sua assinatura seria apenas resultado da “fragilidade humana”. Em outras cartas, alertou que ele poderia ser drogado e assim levado a confessar algo que não cometeu.

No dia seguinte ao Natal, a polícia Comunista chegou a Joseph Cardeal Mindszenty. Sua mãe lhe disse calmamente: “Filho, não tenha medo da morte, se necessário”.

Em todas as igrejas Húngaras (exceto as da diocese do Arcebispo Czapik) padres leram a carta pastoral de Mindszenty. Era também sua resposta àqueles que, como Czapik, queria o compromisso com os filhos do mal. “Depois de tomar tantas coisas, o mundo ainda pode nos roubar isso ou aquilo, mas não pode retirar nossa fé em Jesus Cristo”, dizia Mindszenty.

Esse era o Mindszenty que os Comunistas prenderam. Ninguém o pressionou para a sua oposição perigosa. Ele não se enganou pensando que estava seguro. Ele tomou, por conta de seu caráter que não se rende, o íngreme caminho para o martírio.

Livre de pressão? Cinco semanas depois, um outro Joseph Mindszenty sentou-se no tribunal 5 . Estava vestido de preto, como um padre comum. Antes do julgamento começar, o juiz presidente leu uma carta do acusado ao Ministro da Justiça.

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Cardeal Mindszenty em seu julgamento.

“Quero amenizar a presente tensão”, Mindszenty teria escrito. “Eu voluntariamente admito que, em princípio, cometi os atos presentes na denúncia… Depois de 35 dias de constante meditação… eu considero que um acordo entre a Igreja e Estado seja necessário… Por isso, de bom grado declaro – livre de qualquer pressão, é claro – que desejo me retirar do exercício de minhas funções por um tempo…”

Na corte Mindszenty novamente e novamente declarou que lamentava o que fizera. Quando ele admitiu receber doações em dólar do estrangeiro e permitir seus subordinados vendê-los no mercado negro, disse: “Peço desculpas. Quero repor o dano feito ao Estado Húngaro”.

O juiz presidente perguntou: “Alguém o forçou a fazer esta confissão?” Mindszenty respondeu: “Não”. O juiz então mencionou a carta que Mindszenty escreveu antes de sua prisão, repudiando qualquer confissão que pudesse ser feita. Disse o Cardeal: “Quero afirmar que hoje vejo as coisas de outra maneira. Quero repetir – Eu lamento meu erro. Quero que a carta seja considerada nula e inválida.”

Os Comunistas publicaram o “Livro Amarelo”, contendo o que eles chamavam de confissão escrita de Mindszenty. Ele incluía passagens de ávidas auto-acusações quase infantis muito remanescentes do estilo dos tribunais de limpeza de Moscou, e sem nenhuma relação com o caráter de Joseph Mindszenty. Exemplos: “Eu organizei todas aquelas forças, em casa e fora, cujos interesses eram derrubar a república, suas instituições e realizações… Esperava a restauração da monarquia após a III Guerra Mundial… Eu mesmo queria coroar Otto [de Habsburg] porque isso me asseguraria todos aqueles privilégios que são garantidos a quem é o primeiro na nobreza…”

Se isso era tudo que os Comunistas tinha a oferecer, o mundo poderia estar certo que a consciência de Mindszenty foi atacada por drogas ou tortura. Mas os sucessores do Rei Unericus trabalharam mais habilmente do que isso. O Mindszenty que apareceu no tribunal não parecia ter sido drogado ou torturado. Confiáveis observadores Ocidentais que estavam presentes notaram (como as fotografias confirmaram) que ele parecia pálido e tenso. Entretanto, ele deu a impressao de um homem em posse de suas faculdades. Nenhuma droga conhecida à ciência Ocidental poderia dar conta destas repetidas “confissões”. Ninguém que conhecia qualquer coisa sobre Mindszenty poderia imaginar que a tortura poderia fazer este forte homem negar a si mesmo.

Os propagandistas Comunistas fizeram o máximo com a desistência do Cardeal. Transmissões dos procedimentos causaram grande impressão nos Húngaros, a maior parte dos quais grudados em seus rádios desde o começo do julgamento. Muitos, que antes acreditavam em sua inocência, agora mudaram de idéia quando ouviram a própria voz de Mindszenty.

“Rezei nesta manhã”. Uma vez, durante o julgamento, foi permitido a Mindszenty ver sua mãe. Com lágrimas dos olhos, ela lhe perguntou se eles haviam lhe tratado bem. “Não se preocupe, mãe”, disse ele, “tudo terminará bem”.

No último dia de seu testemunho, Mindszenty falou coerente e comoventemente, em voz lenta e firme:

“Tenho meio século sobre meus ombros, meio século de definitiva educação e princípios. Esta educação e estes princípios são postos na vida de um ser humano como os trilhos de uma linha de trem são ancorados na terra. Isso explica muitas coisas…”

“Permaneci por mais de 40 dias perante a polícia e o tribunal. Eles me perguntam e eu respondo. As perguntas e respostas não são apenas para aqueles que me questionam. Um homem também dá respostas à sua própria alma…”

“Se eu colidi com as leis do Estado, eu lamento. Estou certo que, enquanto permanecendo fiel aos princípios básicos, hoje faria certas coisas diferentemente na mesma situação. Nunca fui um inimigo do povo Húngaro. Não tenho disputas com os trabalhadores e com os camponeses aos quais eu e minha família pertencemos”.

“Rezei nesta manhã ao meu Senhor e pedi por paz. Não para amanhã, ou num futuro distante, mas para paz em nosso tempo”.

“Eu trouxe o amor de minha igreja a este tribunal, e peço este amor ao Estado Húngaro ao qual aqui mostro obediência. Também peço este amor a mim mesmo e possa o Senhor dar sabedoria à corte quando passarem a sentença…”

A corte retirou-se por dois dias. Então, pronunciou a sentença de Joseph Mindszenty: prisão perpétua.

Este julgamento seria lembrado e discutido por muitos anos. Uma lição estava presente e terrivelmente clara. Uma vez tendo os Comunistas estabelecido suas leis, nenhum homem, por mais forte que seja, pode estar certo de manter sua integridade. Mindszenty, olhando em direção ao martírio, citou São Paulo: “Para mim viver é Cristo e morrer é lucro”.

Eles não permitiram que Mindszenty morresse. Arrumaram um martírio mais amargo para ele.

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1] João Fischer, bispo de Rochester, foi nomeado cardeal em maio de 1535, após Henrique VIII o aprisionar. Henrique proibiu a entrega do chapéu vermelho na Inglaterra, declarando que, pelo contrário, ele enviaria a cabeça de Fisher a Roma para o chapéu.  Depois de pouco tempo, Fisher foi decapitado.

2] Não confundir com Santo Estevão, Rei da Hungria (975-1038.)

3] Estônia, Letônia, Lituânia, Polônia, Checoslováquia, Romênia, Iugoslávia, Bulgária, Albânia.

4] Isso pouco ajudou aos protestantes onde suas escolas foram nacionalizadas na Hungria. O bispo Luterano Lajos Ordass, que tentou se opor aos Comunistas, está na prisão sob a falsa acusação de contrabando. Ferenc Nagy, um líder Presbiteriano que como Premier tentou colaborar com os Comunistas, foi forçado a deixar o país.

5] No tribunal com Mindszenty estavam outros seis homens também acusados de particular na “consipiração”. Todos eles “confessaram”, incluindo o secretário do Cardeal, Andras Zachar, e o Príncipe Paul Eszterhazy, que fora o homem mais rico da Hungria.

22 dezembro, 2008

O Leão de Campos (III): Dom Antonio e a CNBB.

 

A

dissecação de Dom Antonio de Castro Mayer ao movimento “cursillo” [Ndt: Cursilho em espanhol, em referência ao movimento Cursilhos da Cristandade, sobre o qual Dom Antonio escreveu uma Carta Pastoral em 1972] parecia ser aos outros bispos ainda uma nova afronta. Eles, é claro, não respondiam, não debatiam, não argumentavam. Adicionavam isso à sua lista de reclamações contra o Bispo de Campos e esperavam seu momento de atacar.

Esse momento chegou com um ataque ao Syllabus de Erros do Papa Pio IX. Essa vasta lista de heresias modernistas e erros de pensamento por anos gerou uma animosidade demoníaca por parte dos reformadores da Igreja, pois esse Papa, junto do Papa São Pio X em sua encíclica Pascendi, catalogou e documentou todos os pensamentos corrompidos e intenções destrutivas daqueles mesmos reformadores. Eles ressentiam tal exposição concisa e reluzente. Um jovem padre brasileiro modernista atacou abertamente o Syllabus por escrito e Dom Antonio, o cavaleiro da ortodoxia, levantou-se em sua defesa. Publicou uma resposta na qual demolia os argumentos do padre, explicava seus erros e expunha suas falhas intelectuais. Dom Antonio revelou a completa fraqueza do pensamento do jovem clérigo, mas este jovem padre tinha amigos poderosos em altas posições. No encontro seguinte da CNBB, um bispo levantou-se na assembléia e começou a publicamente atacar Dom Antonio, algo que muitos desejaram fazer no passado, mas que ninguém antes teve, na realidade, coragem. Isso foi uma violação do companheirismo oco que comumente reinava em tais encontros de bispos, assim como um claro ataque à noção modernista de colegialidade. A declamação aumentou em força e o bispo chegou mesmo ao ponto de demandar desculpas públicas de Dom Antonio de Castro Mayer. Dom Antonio permaneceu calado. Os outros bispos sentiram o cheiro do primeiro sangue que fora derramado. O ranger de dentes e as mordidas agora começaram de fato. Aqui finalmente estava a oportunidade de cravar os dentes na pele deste estrepitoso colega. Dom Antonio nada disse; manteve sua compostura ante seus acusadores e esperou pelo fim do ataque. Quando acabou, levantou-se, e sem expressar uma palavra, deixou a assembléia.

Nem apareceu no encontro seguinte programado. Sua ausência agora pesava em seus irmãos bispos tão severamente quanto sua presença no passado. De maneira curiosa, eles precisavam dele lá, pois sem ele já não tinham mais um foco para sua raiva. Entenderam sua partida como uma reprovação, e estavam certos. Outro bispo, de tipo gentil, amigável, agüado, procurou aliviar a tensão e fez uma visita ao Bispo de Campos. Ele implorou a Dom Antonio, dizendo: “Você deve voltar”. Dom Antonio respondeu: “Por quê? Minha posição é a expressa doutrina da Igreja Católica. Devo defender a doutrina da Igreja diante de meus irmãos bispos?”.

(The Mouth of the Lion – Bishop Antonio de Castro Mayer and the last Catholic diocese, Dr. David Allen White – Angelus Press, 1993)

 

12 dezembro, 2008

O Leão de Campos (II): A sabedoria não nos preserva do sofrimento.

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sabedoria não nos preserva do sofrimento. Não podemos imaginar a dor sofrida por este homem que viu com tão extraordinária profundidade a Paixão do Corpo Místico em nossos tempos. A Igreja, em imitação a Cristo, foi condenada por si mesma, entregue aos incrédulos, forçada agora a sofrer uma agonia não imaginada em qualquer outra época. Esse bispo permaneceu um discípulo fiel. Seus olhos assistiram a agonia com resoluta clareza por detrás daquelas sólidas estruturas. Aqueles olhos nunca iriam pestanejar enquanto ele seguia o caminho com o condenado Corpo Místico, testemunhando a miséria, compartilhando o tormento. Tal alma seria, é claro, devota de Maria, Mãe de Deus. Tal alma também a imitaria em sofrer as dores de um coração transpassado.

Na primavera de 1969, a espada feriu desde Roma. O Papa Paulo VI decretou que uma nova Missa seria instituída. Isso não era apenas um escândalo; o prefácio à descrição do novus ordo missae dava uma nova definição do Santo Sacrifício da Missa que beirava um impensável desvio à heresia.O Imenso Sacrifício da Missa tornara-se uma simples ceia. A mudança na natureza do sacramento pode ser entendida rapidamente ao simples contar o número de referências a “sacrifício” no rito Tridentino e compará-lo ao número de referências na nova Missa. Isso não era só novo; era o esmagamento do antigo ritual do sacrifício e a substituição por uma nova visão.

Dom Castro Mayer não falou uma só palavra, mas chamou seu carro e um motorista, ciente de que não estava em condições de dirigir. Pediu que fosse levado à cidade de Varre Sai, no extremo norte da diocese, onde seu seminário se localizava. Depois da jornada de muitas horas em angustiante silêncio, entrou no seminário, a carta ainda em mãos, e, aparentando palidez, tenso e chocado, a entregou ao Padre José Possidente, diretor do seminário. E então falou pela primeira vez desde que abriu e leu a carta, “Não é possível, não é possível; Eu não vou aceitar isso”, e lágrimas marejavam aqueles olhos brilhantes e escapavam abaixo a face pálida pelo choque. Uma grande tristeza tomou conta do bispo e, em algum canto de sua alma, aquela dor, uma dor sentida por todos os fiéis que conheciam e amavam a Missa, nunca passou. Este jugo não era suave; este fardo não era leve.

Dom Antonio de Castro Mayer não era, entretanto, um homem de sua época. Ele era antes e acima de tudo um homem de Deus; não era um resmungão, um molenga ou um derrotista. Mesmo esse vendaval não mudaria seu senso do dever. Fora-lhe dada uma tarefa a ser cumprida e ele continuaria a desempenhá-la. A situação agora, de certo modo, se esclarecia. Os modernistas então chegaram a essa extensão em seu furor de demolição, seu carnaval de liberdade, sua orgia de sacrilégio. Os pastores estavam a serviço dos lobos e o rebanho estava cercado. Logo os cadáveres ensangüentados se espalhariam pela paisagem sob um céu vazio desprovido de luz. Dom Castro Mayer não iria consentir a esta selvageria. Ele tinha seu próprio rebanho para guardar. Ele deveria fazer uma sólida guarda e preservar agora não apenas a Fé em sua diocese, mas, Deus o ajude, também a Missa. Armou-se com as armas de um bispo, mitra, báculo e anel,  sinais de autoridade dados a ele em sua sagração, e tomou a caneta. Esgotado e entristecido, combateu.

(The Mouth of the Lion: Bishop Antonio de Castro Mayer and the last Catholic Diocese. Dr. David Allen White, Angelus Press, 1993)

4 dezembro, 2008

O Leão de Campos (I): A participação dos fiéis na Missa.

Iniciamos uma nova série de posts que apresentará excertos de alguns dos mais importantes documentos de Dom Antônio de Castro Mayer, saudoso e heróico bispo de Campos. Parte dos textos aqui publicados serão traduções de outros idiomas: lamentavelmente, hoje é mais fácil encontrar textos de Dom Antônio em Francês ou Inglês que encontrá-los no Brasil. De maneira irônica, em nosso país tem-se maior conhecimento dos escritos de Mons. Lefebvre que os de Dom Antônio.

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Há, de fato, em nossos dias, alguns que, avizinhando-se de erros já condenados, ensinam no Novo Testamento se conhece apenas um sacerdócio pertencente a todos os batizados, e que o preceito dado por Jesus aos apóstolos na última ceia – fazer o que ele havia feito – se refere diretamente a toda a Igreja dos cristãos e só depois é que foi introduzido o sacerdócio hierárquico. Sustentam, por isso, que só o povo goza de verdadeiro poder sacerdotal, enquanto o sacerdote age unicamente por ofício a ele confiado pela comunidade […]. Recordemos apenas que o sacerdote faz as vezes do povo porque representa a pessoa de nosso Senhor Jesus Cristo enquanto é Cabeça de todos os membros e se oferece a si mesmo por eles: por isso vai ao altar como ministro de Cristo, inferior a Ele, mas superior ao povo. O povo, ao invés, não representando por nenhum motivo a pessoa do divino Redentor, nem sendo mediador entre si próprio e Deus, não pode de nenhum modo gozar dos poderes sacerdotais. Tudo isso consta da fé verdadeira.

(Pio XII, Mediator Dei)

Proposição Falsa: Os fiéis concelebram com o Padre o Santo Sacrifício da Missa.
Proposição Verdadeira: Os fiéis participam no Santo Sacrifício da Missa.

As duas proposições necessitam de uma pequena explicação. Nunca se pode dizer que os fiéis “concelebram” com o padre, pois na Igreja a expressão “concelebrar” refere-se a Missas com vários celebrantes. Eles todos ativamente coincidem em oferecer o sacrifício e em efetuar a transubstanciação. Um exemplo disso é encontrado na Missa de ordenação sacerdotal, na qual os novos padres concelebram com o bispo.  Da mesma forma, a proposição na qual é dita que os fiéis participam no Sacrifício da Missa requer uma explicação. Muitos entendem que isso signifique que os fiéis “concelebram” o sacrifício… Outros entendem que significa que o padre não é além de um mandatário ou delegado do povo, e seus atos sacerdotais não tem valor exceto enquanto ele representa o povo. Não é nesse sentido que a proposição deve ser entendida, de acordo com o ensinamento de Mediator Dei. De fato, o padre não é delegado do povo, pois ele é escolhido por vocação divina e engendrado pelo sacramento das santas ordens. Isso não significa que o padre, em certo sentido, não represente o povo. Ele o representa  enquanto representa Jesus Cristo, cabeça do Corpo Místico, do qual os fiéis são membros, e quando o padre oferece o sacrifício no altar, ele o faz em nome de Cristo, Sumo Sacerdote, que oferece em nome de todos os membros de Seu Corpo Místico. Portanto, em certo sentido, o sacrifício é oferecido em nome do povo. É por isso [que os fiéis] devem participar no sacrifício. De que forma devem eles participar? Mediator Dei nos diz: “Une os seus votos de louvor, de impetração, de expiação e a sua ação de graças à intenção do sacerdote, aliás do próprio sumo pontífice, a fim de que sejam apresentados a Deus Pai na própria oblação da vítima, embora com o rito externo do sacerdote.” [Mediator Dei, 93]

Assim existe um significado definitivo à expressão “participar”, que pode ser usada se toma-se cuidado de excluir qualquer outro significado menos exato.

Dom Antonio de Castro Mayer, Carta Pastoral sobre os Problemas do Apostolado Moderno, 1953.