Archive for ‘Coluna do Padre Élcio’

22 abril, 2017

Reflexões da Sagrada Escritura: Estima e favor dado pelos sumos pontífices ao culto do Sagrado Coração de Jesus

“Àquele que é poderoso para fazer, acima de toda medida, com incomparável excesso, mais do que o que pedimos ou pensamos, segundo o poder que desenvolve em nós a sua energia, a Ele glória na Igreja e em  Cristo Jesus por todas as gerações, nos séculos dos séculos, Amém” (Ef 3, 20 s).

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

8. “Quem não vê, veneráveis irmãos, quão alheias são estas opiniões do sentir dos Nossos Predecessores, que desta cátedra de Verdade publicamente aprovaram o culto do Sacratíssimo Coração de Jesus? [Opiniões expostas no artigo anterior]. Quem ousará chamar inútil ou menos acomodada aos nossos tempos esta devoção que o Nosso Predecessor de imperecível memória Leão XIII chamou de “estimadíssima prática religiosa”, e na qual viu um poderoso remédio para os próprios males que, nos nossos dias de maneira mais aguda e com mais extensão, afligem os indivíduos e a sociedade? “Esta devoção, – dizia ele – que a todos recomendamos, a todos será de proveito”. E, acrescentava estes avisos e exortações que também se referem à devoção ao Sagrado Coração: “Daí a violência dos males que, há tempo, estão como que implantados entre nós, e que reclamam urgentemente busquemos a ajuda do único que tem poder para os afastar. E quem pode ser este senão Jesus Cristo, o unigênito de Deus? Pois nenhum outro nome foi dado aos homens sob o céu no qual devamos salvar-nos” (At 4, 12). “Cumpre recorrer a Ele, que é caminho, verdade e vida” (Enc. “Annum Sacrum”, 25 de maio 1889; Acta Leonis, Vol, 19, 1900, pp. 71, 77-78).

9. Nem menos dignos de aprovação e adequado para fomentar a piedade cristã julgou-o o Nosso imediato Predecessor, de feliz memória, Pio XI, que, na sua encíclica “Miserentissimus Redenctor”, escrevia: “Acaso não está contido nessa forma de devoção o compêndio de toda a religião, e mesmo a norma de vida mais perfeita, como quer que ele guie mais suavemente as almas para o profundo conhecimento de Cristo Senhor Nosso, e com maior eficácia as mova a amá-Lo mais de perto?” (Enc. Miserentissimus Redenctor”, 8 de maio 1928; A. A. S. 20, 1928, p. 167). Nós, por nossa parte, com não menor agrado do que os nossos predecessores, aprovamos e aceitamos essa sublime  verdade; e, quando fomos elevado ao sumo pontificado, ao contemplarmos o feliz e triunfal progresso do culto ao Sagrado Coração de Jesus entre o povo cristão, sentimos o nosso ânimo cheio de alegria e regozijamo-nos com os inúmeros frutos de salvação que ele havia produzido em toda a Igreja, sentimentos que tivemos a satisfação de exprimir logo na nossa primeira encíclica (Cf, Enc. “Summi Pontificatus” 20 de outubro, 1939; A. A. S. 31, 1939, p. 415). Através dos anos do nosso pontificado – cheios não só de calamidades e angústias, como também de inefáveis consolações, – esses frutos não diminuíram nem em número, nem em eficácia, nem em beleza, antes aumentaram. Com efeito, iniciativas múltiplas e muito acomodadas às necessidades dos nossos tempos surgiram para reacender este culto: referimo-nos às associações destinadas à cultura intelectual e à promoção da religião e da beneficência; às publicações de caráter histórico, ascético e místico encaminhadas a este mesmo fim; às piedosas práticas de  reparação e, de modo especial, às manifestações de ardentíssima piedade que tem promovido o Apostolado da Oração, a cujo zelo e atividade se deve o se haverem famílias, colégios, instituições, e mesmo algumas nações, consagrado ao Sacratíssimo Coração de Jesus; e não raras vezes, por ocasião dessas manifestações de culto, temos expressado a nossa paternal complacência (Cf. A.A.S. 32, 1940,p. 276; 35, 1943, p. 170; 37, 1945, pp. 263-264; 40, 1948, p. 501; 41, 1949, p. 331).

10. Portanto, ao vermos que tamanha abundância de águas, quer dizer, de dons celestiais do supremo amor, que têm brotado do Sagrado Coração do nosso Redentor, se derramam sobre incontáveis filhos da Igreja Católica por obra e inspiração do Espírito Santo, não podemos, veneráveis irmãos, deixar de exortar-vos com ânimo paterno a que, juntamente conosco, tributeis louvores e profundas ações de graças ao Dador de todos os bens, repetindo estas palavras do apóstolo das gentes: “Àquele que é poderoso para fazer, acima de toda medida, com incomparável excesso, mais do que o que pedimos ou pensamos, segundo o poder que desenvolve em nós a sua energia, a Ele glória na Igreja e em Cristo Jesus por todas as gerações, nos séculos dos séculos, Amém” (Ef 3, 20 s.). Mas, depois de tributarmos as devidas graças ao Deus eterno, queremos por meio desta encíclica exortar-vos, a vós e a todos os amadíssimos filhos da Igreja, a uma mais atenta consideração dos princípios doutrinais contidos na Bíblia, e nos Santos Padres, e nos teólogos, princípios nos quais, como em sólidos fundamentos, se apóia o culto do Sacratíssimo Coração de Jesus. Porque nós estamos plenamente persuadidos de que só quando à luz da divina revelação houvermos penetrado a fundo a natureza e a essência íntima deste culto, é que poderemos apreciar devidamente a sua incomparável excelência e a sua inexaurível fecundidade em toda sorte de graças celestiais, e destarte, meditando e contemplando piedosamente os inúmeros bens que ela produz, poderemos celebrar dignamente o primeiro centenário da festa do Sacratíssimo Coração de Jesus na Igreja universal.

11. Com o fim, pois, de oferecer à mente dos fiéis o alimento de salutares reflexões com as quais possam eles mais facilmente compreender a natureza deste culto, tirando dele frutos mais abundantes, deter-nos-emos antes de tudo nas páginas do Antigo e do Novo Testamento que contêm a revelação e descrição da caridade infinita de Deus para com o gênero humano, caridade cuja sublime grandeza jamais poderemos esquadrinhar suficientemente; depois aduziremos o comentário que sobre ela nos deixaram os padres e doutores da Igreja; e, finalmente, procuraremos esclarecer a íntima conexão que existe entre a forma de devoção que se deve tributar ao Coração do Divino Redentor e o culto que os homens estão obrigados a render ao amor que Ele e as outras Pessoas da SS. Trindade têm a todo gênero humano. Pois achamos que, uma vez considerados à luz da Sagrada Escritura e da Tradição os elementos constitutivos desta nobilíssima devoção, aos cristãos será mais fácil chegarem-se “com gáudio às águas das fontes do Salvador”; quer dizer, poderão eles apreciar melhor a singular importância que o culto ao Coração Sacratíssimo de Jesus adquiriu na liturgia da Igreja, na sua vida interna e externa, e também nas suas obras; e assim cada um poderá obter frutos espirituais que assinalarão uma salutar renovação nos seus costumes, segundo os desejos dos pastores do rebanho de Cristo”. (Encíclica ‘HAURIETIS AQUAS” de Pio XII).

16 abril, 2017

Reflexões da Sagrada Escritura: Santa Páscoa!

“Vós não sabeis que todos os que fomos batizados em Jesus Cristo, fomos batizados na sua morte? Nós fomos, pois, sepultados com Ele, a fim de morrer (para o pecado) pelo batismo, para que assim como Cristo ressuscitou dos mortos pela glória do Pai, assim nós vivamos uma vida nova” (Rom. VI, 3 e 4).

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

Desejo aos caríssimos leitores uma FELIZ E SANTA PÁSCOA!

Páscoa quer dizer passagem. Passemos de uma vida de pecado para a da graça, de uma vida tíbia para uma fervorosa, de uma vida fervorosa para uma santa. E assim possamos passar, um dia, deste vale de lágrimas, deste oceano de impurezas e de amarguras, para a Pátria do Repouso Eterno, a Jerusalém Celeste. Aleluia!

Os méritos de Jesus Cristo adquiridos pela sua Paixão e Morte, subsistem para depois da Sua gloriosa Ressurreição. Para isto significar, quis conservar as cicatrizes das chagas: apresenta-as ao Pai em toda a sua beleza, como títulos à comunicação da sua Graça.

Como diz São Paulo: “… (Jesus) porque permanece para sempre, tem um sacerdócio que não passa. Por isso pode salvar perpetuamente  os que por Ele mesmo se aproximam de Deus, vivendo sempre para interceder por nós”(Hebr. VII, 25).

É logo no Batismo que participamos da graça da Ressurreição. É também o que diz S. Paulo, como acima transcrevemos.  A água santa em que mergulhamos no Batismo é, segundo o Apóstolo, a imagem do sepulcro (na época se administrava o batismo também por imersão). Ao sair dela, fica a alma purificada de toda a falta, de toda a mancha, livre da morte espiritual e revestida da graça, princípio da vida divina. Jesus Cristo tem infinito desejo de nos comunicar a Sua vida gloriosa, assim como teve um ardente desejo de ser batizado com o batismo de sangue para nossa salvação. E o que é mister seja feito para correspondermos a este desejo divino e nos tornarmos semelhantes a Jesus ressuscitado?

É preciso viver no espírito do nosso Batismo: renunciar de verdade (e não só de lábios) a tudo o que na nossa vida é viciado pelo pecado; fazer “morrer” cada vez mais o “velho homem”. Continuando o texto supracitado no início: “Porque, se nos tornarmos uma só planta com Cristo, por uma morte semelhante a d’Ele, o mesmo sucederá por uma ressurreição semelhante, sabendo nós que o nosso homem velho foi crucificado juntamente com Ele, a fim de que seja destruído o corpo do pecado, para que não sirvamos jamais ao pecado” (Rom. VI, 5 e 6).

Assim, tudo em nós deve ser dominado e governado pela graça. Nisto consiste para nós toda a santidade: afastar-nos do pecado, das ocasiões do pecado, desapegarmo-nos das criaturas e de tudo o que é terreno, para vivermos em Deus e para Deus com a maior plenitude e estabilidade possíveis.  E São Paulo continua explicando: “De fato aquele que morreu, justificado está do pecado. E, se morremos com Cristo, creiamos que viveremos também juntamente com Cristo”…

Caríssimos, esta obra de santidade inaugurada no Batismo, continua durante toda a nossa existência. É certo que Jesus Cristo só morreu uma vez; deu-nos assim o poder de morrer com Ele para tudo o que é pecado. Em sentido espiritual, São Paulo dizia: “Eu morro todos os dias”. Na verdade, neste sentido espiritual,  devemos “morrer” todos os dias, pois conservamos em nós as raízes do pecado, raízes estas que o demônio trabalha para fazer brotar de novo. Portanto, destruir em nós essas raízes, fugir de toda a infidelidade, desapegar-se de toda criatura amada por si mesma, afastar das nossas ações todo o motivo, não só culpável, mas puramente natural; libertar-nos de tudo o que é criado, terreno, conservar o coração livre duma liberdade espiritual, – eis, caríssimos, o primeiro elemento da nossa santidade. Mostra-o S. Paulo em termos os mais expressivos: “Purificai-vos do velho fermento para serdes uma massa nova; pois, desde que Jesus Cristo, nosso Cordeiro Pascal, foi imolado por nós, tornastes-vos pães ázimos. Participemos portanto do banquete, não com o fermento antigo, o fermento do mal e da perversidade, mas com os ázimos da pureza e da verdade” (1 Cor. V, 7 e 8).

Aqui também faz-se mister uma explicação: Entre os Israelitas, nas vésperas da festa da Páscoa, deviam desaparecer das casas toda a espécie de fermento; No dia da festa, depois de imolado o cordeiro pascal, comiam-no com pães ázimos, isto é, sem fermento, não levedados (Cf. Ex. XII, 26 e 27).  Pois bem! Tudo aquilo eram apenas “figuras e símbolos” da verdadeira Páscoa, a Páscoa cristã. Naquele momento da regeneração batismal, participamos da morte de Cristo, que fazia morrer em nós o pecado: tornamo-nos, e assim devemos permanecer pela graça, uma nova massa, isto é, “nova criatura”, “novo homem”, a exemplo de Jesus Cristo saído glorioso do sepulcro.

Como os judeus, chegada a Páscoa, se abstinham de todo  o fermento para comer a cordeiro pascal, “assim também vós, cristãos,  que quereis participar do mistério da Ressurreição e unir-vos a Jesus Cristo, Cordeiro imolado e ressuscitado por vós, deveis, doravante, levar uma vida isenta de todo o pecado; deveis abster-vos desses maus desejos que são como que um fermento de malícia e perversidade. Fermento velho são, ainda, as paixões desregradas que subvertem o coração, na revolta  contra as leis naturais e sobrenaturais, para levá-lo à condenação final. Fermento velho é, também, a vaidade que, motivando as boas obras, impede-lhes todo o merecimento divino. Fermento velho enfim, é aquele espírito mundano que, impregnando as mentes dos fiéis, leva-os a conciliarem máximas terrenas e ensinamentos de Nosso Senhor Jesus Cristo. Assim este fermento velho mina a vida espiritual dos cristãos. Envenenados por ideias mundanas ,vivem completamente alheios aos destinos eternos, apenas  buscando uma felicidade efêmera. Baseados numa noção deturpada de “misericórdia” e levados por um espírito ecumênico e não missionário, aprovam os erros dos inimigos da Igreja, e a eles se conformam. Curvando-se à leis do mundo, preferem a liberdade desenfreada dos homens deste século à moral puríssima e imutável dos Santos  Evangelhos.

É contra tudo isto que São Paulo alerta veementemente: “Purificai-vos do velho fermento, para que sejais uma nova massa, vós que constituís a sociedade dos filhos de Deus”. Caríssimos, não mais o fermento do pecado e, sim o pão ázimo da virtude; não mais o fermento doas paixões desregradas, e sim o pão ázimo da pureza; não mais o fermento da vaidade e sim o pão ázimo da verdade que busca a glória de Deus; não mais o fermento do espírito mundano e, sim, o pão ázimo dos princípios tradicionais que nos ensinam a andar na terra com as vistas voltadas para o reino dos céus, e nos impõem a profissão integral da nossa fé sem as mesquinhas concessões ao respeito humano, e sem as vulgares condescendências ao espírito moderno.

Em um palavra: celebrar a Páscoa com o pão ázimo da pureza e da verdade.

Não podemos servir a dois senhores ao mesmo tempo. E, se renunciamos ao demônio, suas obras que são os  pecados, e suas pompas e vaidades que levam ao pecado, digo, se renunciamos a tudo isto, é justamente para vivermos para Deus. E este viver para Deus encerra em si uma infinidade de graus. Supõe em primeiro lugar afastamento total de todo pecado mortal; pois, entre este e a vida divina há incompatibilidade absoluta. Há depois a separação do pecado venial, das raízes do pecado, de todo o motivo natural; desapego de tudo quanto é criado. Quanto mais completa for esta separação, mais libertados estamos, mais livres espiritualmente e mais se desenvolve e desabrocha também em nós a vida divina; à medida que a alma se liberta do humano, abre-se para o divino, vive na verdade a vida de Deus.

Caríssimos, é necessário permanecermos em Jesus que é a Vida, pela graça, pela fé que n’Ele temos, pelas virtudes de que Ele é o modelo perfeito. E é preciso que Jesus Cristo reine em nossos corações. É mister que tudo em nós Lhe seja submetido.  Jesus deve ser a nossa vida. Oxalá pudéssemos dizer com toda verdade como São Paulo: “Vivo, mas não sou eu mais que vivo, é Jesus Cristo que vive em mim!”

Enfim, os sinos da Páscoa anunciam  não apenas Jesus Cristo ressuscitado, mas, afinados na misericórdia divina, repicam alegres, também para os pecadores, mas para os pecadores arrependidos e penitentes, pecadores que também surgiram do sepulcro dos seus pecados. E assim aproximem-se também eles do Banquete Eucarístico de uma Santa Páscoa!

Resumimos tudo com estas outras palavras do Apóstolo: “Portanto, se ressuscitastes com Cristo, buscai as coisas que são lá de cima, onde Cristo está sentado à destra de Deus; afeiçoai-vos às coisas que são lá de cima, não às que estão sobre a terra. Porque estais mortos e a vossa vida está escondida com Cristo em Deus” (Col. III, 1-3). Amém! Aleluia!

8 abril, 2017

Reflexões da Sagrada Escritura: A Igreja e o mundo (III)

“Não ameis o mundo nem as coisas do mundo. Se alguém ama o mundo não há nele o amor do Pai, porque tudo o que há no mundo é concupiscência da carne, concupiscência dos olhos e soberba da vida”.

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

D. Antônio de Castro Mayer, de saudosa memória, em sua CARTA PASTORAL “AGGIORNARMENTO” E  TRADIÇÃO escreveu em 1971 que o esforço na adaptação (“aggiornamento”) foi além da simples expressão mais ajustada à mentalidade contemporânea. Declara que, em largos meios eclesiásticos, este “aggiornamento” atingiu a própria SUBSTÂNCIA  da Revelação. Diz D. Mayer: “Não se cuida de uma exposição da verdade revelada, em termos em que os homens facilmente a entendam; procura-se, por meio de uma linguagem ambígua e rebuscada, mais propriamente, propor uma nova Igreja, ao sabor do homem formado segundo as máximas do mundo de hoje. Com isso, difunde-se, mais ou menos por toda parte, a idéia de que a Igreja deve passar por uma mudança radical, na sua Moral, na sua Liturgia, e mesmo na sua Doutrina”.

Fico a imaginar que quando o Papa João XXIII, anunciou um Concilio, e este pastoral e para fazer “aggiornamento” (o verdadeiro sentido dado pelo Papa, certamente entrou num ouvido e saiu pelo outro) os modernistas esfregaram as mãos e disseram: “Ou agora ou nunca mais; o prato não podia estar melhor pronto para nós mudarmos esta Igreja ‘fechada e ultrapassada’!!!” E pior: são unidos e incansáveis nesta tarefa diabólica! Talvez não ousaram imaginar o que infelizmente está acontecendo: um Papa a seu favor, diametralmente oposto a S. Pio X.

Atualmente é o reinado das trevas, mas como eclipse. Por fim Nosso Senhor Jesus Cristo dará um basta ao Modernismo, ao Comunismo e ao Liberalismo  e triunfará o Imaculado Coração de Maria e teremos o Reinado do Sacratíssimo Coração de Jesus. Tenhamos fé, pois, a Igreja é divina!

Feita esta introdução, vamos ver como a verdadeira Igreja, (não a modernista) mas a tradicional, age em relação ao MUNDO, no sentido dado pelo texto em apreço.

A Igreja Tradicional, sempre baseada na Sagrada Escritura e na Tradição, combate o mundo ( no sentido exposto acima) e adverte os homens contra os seus perigos e as suas seduções. Ela admite e elogia os legítimos progressos da ciência e da sociedade. Aliás a Igreja deu grandes cientistas e homens célebres à sociedade. A doutrina e moral de Nosso Senhor Jesus Cristo, no entanto, são perfeitas, e como tais, não podem sofrer adições, subtrações, alterações ou transformações.

Podem sim esclarecer-se. É como um ser vivo que se desenvolve e aperfeiçoa, porém na mesma natureza, que faz com que o indivíduo seja sempre o mesmo.

Apenas um parêntese: Antigamente dizia-se simplesmente SANTA MADRE IGREJA, todos sabiam que se tratava da única e verdadeira Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo. Hoje, dominando na Igreja os Modernistas, faz-se mister adicionar a qualificação TRADICIONAL,  em oposição à ala progressista, que, como diz D. Mayer na citação acima, “procura-se propor uma nova Igreja, ao sabor do homem formado segundo as máximas do mundo de hoje”.

A Igreja Tradicional procura ver o que disse Jesus Cristo, que disseram os Apóstolos e os seus sucessores sobretudo os santos, no decorrer dos séculos.

1. QUE DISSE NOSSO SENHOR JESUS CRISTO?

a) Jesus afirma que Ele não é do mundo e que seus seguidores também não são do mundo: Na oração ao Pai: “Dei-lhes a tua palavra e o mundo os odiou, porque não são do mundo, como também Eu não sou do mundo. Não peço que os tires do mundo, mas que os guarde do mal. Eles não são do mundo, como também eu não sou do mundo” (S. João, XVII, 14-16). Após a Última Ceia, dirigindo-Se aos seus discípulos:  “Se o mundo vos aborrece, sabei que primeiro do que a vós me aborreceu a mim. Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu, mas porque vós não sois do mundo[…] por isso o mundo vos aborrece” (S. João, XV, 18 e 19).

b) Jesus afirma que venceu o mundo: “Haveis de ter aflições no mundo, mas tende confiança, eu venci o mundo” (S. João, XVI, 33).

c) Jesus afirma que a sua paz não é a mesma do mundo: “Deixo-vos a paz: dou-vos a minha paz; não vo-la dou como a dá o mundo” (S. João, XIV, 27).

d) Jesus explicando a parábola do semeador, disse que são os cuidados do mundo com seus deleites desordenados e a ilusão das riquezas que impedem o homem de se converter quando ouve a palavra de Deus: “Os que recebem a semente entre os espinhos são aqueles que ouvem a palavra; mas as solicitudes do mundo e a ilusão das riquezas e os afetos desordenados, entrando, afogam a palavra e ela fica infrutuosa” (S. Marcos, IV, 18).

e) Jesus fala contra os escândalos e na necessidade da mortificação: “Ai do mundo por causa dos escândalos! Porque é inevitável que sucedam escândalos, mas ai daquele homem por quem vem o escândalo! Por isso, se a tua mão ou o teu pé te escandaliza, corta-o e lança-o fora de ti; melhor te e entrar na vida com um pé ou mão a menos, do que, tendo duas mãos e dois pés, ser lançado no fogo eterno” (S. Mateus, XVIII, 7-9).

f) Jesus exige abnegação, penitência e renúncia do mundo: “E chamando a si o povo com seus discípulos, disse-lhes: Se alguém me quer seguir, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me. Porque o que quiser salvar a sua vida[neste mundo]a perderá [a eterna]; mas o que perder a sua vida por amor de mim e do Evangelho, a salvará. Pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro se perder a sua alma? Ou que dará o homem em troca pela sua alma? No meio desta geração adúltera e pecadora, quem se envergonhar de mim e das minhas palavras, também o
Filho do homem se envergonhará dele, quando vier na glória de seu Pai com os santos anjos” (S. Marcos, VIII, 34-38).

g) Jesus no sermão da montanha mostra as suas máximas que são diametralmente opostas à máximas do mundo: Caríssimos, aconselho que leiam e meditem este sermão do Divino Mestre, sermão este que o Evangelista São Mateus relata nos capítulos 5º, 6º e 7º. 2.

QUE DISSERAM OS APÓSTOLOS SOBRE O MUNDO?

SÃO JOÃO EVANGELISTA: “Eu vos escrevo, jovens, porque sois fortes, e porque a palavra de Deus permanece em vós e porque vencestes o maligno. Não ameis o mundo nem as coisas do mundo. Se alguém ama o mundo não há nele o amor do Pai, porque tudo o que há no mundo é concupiscência da carne, concupiscência dos olhos e soberba da vida, e isto não vem do Pai, mas do mundo. Ora o mundo passa, e a sua concupiscência com ele, mas o que faz a vontade de Deus permanece eternamente” (1 S. João, II, 14-17). Hoje se dirigem aos jovens (JMJ) com linguagem bem diferente!!!

SÃO PAULO: “E não vos conformeis com este século (=mundo), mas reformai-vos com o renovamento do vosso espírito, para que reconheçais qual é a vontade de Deus, boa, agradável e perfeita” (Rom. XII, 2). “Digo-vos pois: andai segundo o espírito de Deus e não satisfareis os desejos da carne. Porque a carne tem desejos contrários ao espírito, e o espírito desejos contrários à carne; porque estas coisas são contrárias entre si, para que não façais tudo aquilo que quereis. As obras da carne são manifestas: são o adultério, a fornicação, a impureza e a luxúria, a idolatria, os malefícios, as inimizades, as contendas, as rivalidades, as iras, as rixas, as discórdias, as seitas, as invejas, os homicídios, a embriaguez, as glutonarias e outras coisas semelhantes, sobre as quais vos previno, como já vos disse, que os fazem tais coisas não possuirão o reino de Deus” (Gálatas, V, 16, 17 e 19-21). “Nem sequer se nomeie entre vós a fornicação ou qualquer impureza ou avareza como convém a santos; nem palavras torpes, nem loucas nem chocarrices que são coisas inconvenientes” (Efésios, V, 3-6). “Não vos deixeis seduzir; as más conversações corrompem os bons costumes”. “Não reine, pois, o pecado no vosso corpo mortal de maneira que obedeçais às suas
concupiscências” (Romanos, VI, 12). “E vós estáveis mortos pelos vossos delitos e pecados nos quais andastes outrora, segundo o costume deste mundo, segundo o príncipe que exerce o poder sobre este ar, espírito que agora domina sobre os filhos da incredulidade entre os quais também todos nós vivemos outrora, segundo os desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e da concupiscência e éramos por natureza filhos da ira como todos os outros”  (Efésios, II, 1-3). “Aqueles que são de Jesus Cristo crucificaram a sua carne com os seus vícios e concupiscências” (Gálatas, V, 24).

SÃO PEDRO: “Por Ele mesmo [Jesus] nos deu as maiores e mais preciosas promessas a fim de que por elas vos torneis participantes da natureza divina, fugindo da corrupção da concupiscência que há no mundo” (2 S. Pedro, I, 4). “Caríssimos, rogo-vos que, como estrangeiros e peregrinos, vós abstenhais dos desejos carnais que combatem contra a alma” (1 S. Pedro II, 11). SÃO TIAGO: “Adúlteros, não sabeis que a amizade deste mundo é inimiga de Deus?  Portanto, todo aquele que quiser ser amigo deste século constitui-se inimigo de Deus (S. Tiago, IV, 4). “A religião pura e sem mácula aos olhos de Deus e nosso Pai é essa: visitar os órfãos e as viúvas nas suas aflições, e conservar-se puro da corrupção deste mundo” (S. Tiago, I, 27).

A Teologia Moral tradicional sempre ensinou que temos obrigação de fugir das ocasiões perigosas; ambientes onde reinam a imoralidade e a imodéstia por causa da concupiscência dos olhos e da carne: “Quem ama o perigo morre nele” (Eclesiástico, III, 27). Daí também o conselho de Nosso Senhor Jesus Cristo: “Vigiai e orai para não cairdes em
tentação” (S. Marcos, XIV, 38). “Não frequentes o trato com a bailarina, nem a ouças, para que não suceda pereceres à força de seus atrativos (…). “Não deixes errar os olhos pelas ruas da cidade, nem andes  vagueando pelas suas praças. Afasta os teus olhos da mulher enfeitada, e não olhes com curiosidade para a formosura alheia. Por causa da formosura da mulher pereceram muitos, e por ela se acende a concupiscência como fogo” (Eclesiástico, IX, 4, 7-9).

Aquelas que vivem em excessos de vaidades e na imodéstia devem meditar no seguinte: Se a Sagrada Escritura tem tão detalhadas e exigentes advertências contra os perigos da simples vaidade e atrativos femininos quanto mais não será exigente em relação a maldade da imodéstia feminina. Jesus disse: “Ai da pessoa que der escândalos!” Por outro lado, aquelas pessoas que possam ficar perturbadas diante destes textos, já que são obrigadas a viver num mundo tão corrupto, queremos esclarecer que este texto da Bíblia adverte o homem contra a maldade de procurar o mal e se expor voluntariamente ao perigo. Mas se nós guardamos no coração a vontade decidida de não ofender a Deus, embora tendo que trabalhar em ambientes perigosos, tendo que andar nas ruas e praças das cidades e até que tratarmos com pessoas perigosas, nós não pecamos mesmo sendo inevitável a vista de muitas imoralidades e imodéstias, porque de um lado não procuramos estas coisas e por outro, quando se apresentam, não aceitamos. Procurar, então, mortificar a vista o quanto for possível e Deus nos dará a graça suficiente para não nos contaminarmos. E assim não perdemos também a alegria do espírito.

Coisa bem diferente é quando a pessoa procura o mal como por exemplo: se alguém sai às ruas e praças sem necessidade e já com o intuito de procurar ver o que não deve, ou vai ao baile (que foi sempre perigoso e hoje deixou de ser sem maldade), se vai ao carnaval etc., nestes casos já pecou, porque aceitou a maldade no coração. Os modernistas dizem que o que manda é o coração; os tradicionalistas dizem: sim, o que manda é o coração reto que procura fazer o que Deus manda, e evitar o que Ele proíbe.

 

1 abril, 2017

Reflexões da Sagrada Escritura: A Igreja e o mundo (II)

“Não ameis o mundo nem as coisas do mundo. Se alguém ama o mundo não há nele o amor do Pai, porque tudo o que há no mundo é concupiscência da carne, concupiscência dos olhos e soberba da vida, e isto não vem do Pai, mas do mundo” ( 1 S. João, II, 15 e 16).

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

Desde o Concílio Vaticano II que vem se instalando e se avolumando uma desastrosa revolução dentro da Santa Madre Igreja. Na época em que escrevi este artigo já se falava em uma Nova Igreja, com uma Moral Nova e uma Liturgia Nova. Tudo mudou no sentido em que os Modernistas sempre tanto almejavam. Tivemos a grande graça de sermos orientados por um Bispo, sábio, humilde, homem de oração e de penitência, D. Antônio de Castro Mayer. Em abril de 1971 escrevia ele, citando Paulo VI: “muitos fiéis se sentem perturbados na sua fé por um acumular-se de ambiguidades, de incertezas  e de dúvidas, que atingem essa mesma fé no que ela tem de essencial. Estão neste caso os dogmas trinitário e cristológico, o mistério da Eucaristia e da Presença Real, a Igreja como instituição de salvação, o ministério sacerdotal no seio do Povo de Deus, o valor da oração e dos Sacramentos, as exigências morais que dimanam, por exemplo da indissolubilidade do matrimônio ou do respeito pela vida. Mais: até a própria autoridade divina da Escritura chega a ser posta em dúvida, em nome de uma ‘desmitização radical” (Exortação Apostólica de Paulo VI, A.A.S., 63, p. 99). Comentando estas palavras do Papa Paulo VI, diz D. Mayer: “Como vedes, amados filhos, a crise na Igreja não poderia ser mais profunda. Lendo as palavras do Papa, nós nos perguntamos: que ficou de intacto no Cristianismo? pois, se não há certeza sobre o dogma trinitário, mistério fundamental da Revelação cristã, se pairam ambiguidades sobre a Pessoa adorável do Homem-Deus, Jesus Cristo, titubeia-se diante da Santíssima Eucaristia, se não se entende a Igreja como instituição de salvação, se não se sabe a que o Sacerdote entre os fiéis, nem há segurança das obrigações morais, se a oração não tem valor, nem a Sagrada Escritura, que há de  Cristianismo, de Revelação cristã? (…) Depois D. Mayer mostra que havia um empenho por construir uma nova Igreja psicológica e sociológica: “Tanto mais, escreve o ínclito Bispo, quanto a Exortação do Santo Padre deixa entrever que há uma verdadeira conspiração para demolir a Igreja. É o que se deduz do trecho seguinte ao acima citado, no qual o Pontífice observa que às dúvidas, ambiguidades e incertezas na exposição positiva do dogma, somam-se o silêncio “sobre certos mistérios fundamentais do Cristianismo” e a “tendência para construir um novo cristianismo a partir de dados psicológicos e sociológicos” no qual “a vida cristã esteja destituída de elementos religiosos”(p. 99). Há, pois, continua D. Mayer, entre os fiéis, um movimento de ação dupla convergente para a formação de uma nova Igreja, que só pode ser uma nova falsa religião; de um lado, criam-se incertezas sobre os mistérios revelados; de outro, estrutura-se uma vida cristã ao sabor do espírito do século”. (Carta Pastoral, “Aggiornamento e Tradição”, L. “Por um Cristianismo Autêntico, p. 358 e 359).

Feita esta introdução, vamos agora ver o modo de agir dos modernistas em relação ao mundo. No texto último citado, no fim diz D. Antônio de Castro Mayer: “Estrutura-se uma vida cristã ao sabor do espírito do século”.  SÉCULO é sinônimo de MUNDO no sentido explicado no texto em apreço. É de todos evidente como a postura dos modernistas e dos tradicionalistas na Igreja, em relação ao mundo, é muito diferente. Os modernistas não se preocupam em combater o mundo; em advertir os féis contra suas máximas, seus perigos, suas seduções. O que é preciso, dizem eles, é satisfazer à mentalidade moderna. Dizem que a Igreja para não soçobrar precisa acomodar sua doutrina ao mundo de hoje. Não pode ficar parada no tempo e no espaço. Esta igreja nova estabelece a religião do homem e elimina tudo quanto possa significar uma imposição à liberdade ou uma repressão à espontaneidade humana. Desconhece assim a queda original e extenua a noção de pecado. Faz esquecer a austeridade cristã, não fala em penitência. Tem toda indulgência para o prazer mesmo venéreo, para os pecados da carne. Na vida conjugal e familiar, a religião do homem sobrepõe o prazer ao dever. Os filhos são considerados como um fardo pesado. Justificam os métodos anticoncepcionais. A moral nova é indulgente e até favorável a homossexualidade, e a co-educação. A imodéstia nos trajes, a frequentação de ambientes perigosos e pecaminosos, como: carnaval, praias, piscinas, bailes; os namoros mais indecentes e avançados, tudo isso é olhado com muita indulgência pela moral-nova da ala progressista. E como os homens ou procedem como pensam ou terminam pensando de acordo com seu procedimento, numa sociedade toda ela mergulhada na sensualidade, começam a perder a noção do bem e do mal (hoje já perderam) e a criar para si uma moral subjetiva que lhes não censure a conduta irregular. Daí a ojeriza a tudo que lhes avive a consciência do estado moralmente deplorável.  Parece que os modernistas querem tranquilizar as consciências no pecado. Como as consciências, na maioria talvez, já estejam cauterizadas, vão se familiarizando como o pecado, com os ambientes e costumes pecaminosas e bebem o pecado como por brincadeira, “per risum”: “É um divertimento para o louco fazer o mal” (Prov. X, 23).

Por isto, a sociedade de hoje não tolera que se lhe fale no inferno, que se lhe lembre que o demônio existe e é o príncipe deste mundo. Não gosta que se fale em castigos. Como gostaria que tudo isso não passasse de ilusões, quer viver como se nada disso tivesse consistência. Faz como a avestruz que esconde a cabeça na areia para não ver o perigo. E além do mais, os fautores e seguidores desta moral nova dos modernistas se colocam do lado do mundo, e nisto não são incomodados pela imprensa, televisão, rádio e hoje, Internet (Mídia), mas, pelo contrário, recebem todo apoio destes meios de comunicação que, na maioria das vezes, (ainda bem que a Internet tem sua aplicação  para o bem, só depende de cada um) são, na verdade, agentes do mundo. Os próprios sacerdotes da ala modernista deixam a batina e até o clergiman e se sentem assim mais à vontade no mundo participando de ambientes dissipantes e até pecaminosos. Jesus Cristo ia à casa de pecadores para convertê-los, mas estes vão a ambientes onde se cometem pecados, e os pecadores ficam ainda mais confirmados em sua enganosa tranquilidade de consciência . Mas sua verdadeira conversão torna-se menos viável.

No próximo artigo, se Deus quiser, falaremos do modo de agir da verdadeira Igreja, ou seja dos que seguem a Sagrada Escritura, segundo a interpretação dos Santos Padres, ensinamento este transmitido pelo Magistério vivo, perene e infalível da Igreja. Amém!

25 março, 2017

Reflexões da Sagrada Escritura: A Igreja e o mundo.

“Não ameis o mundo nem as coisas do mundo” (1 João, II, 15).

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

Escrevi este artigo quando ainda seminarista, ou mais precisamente, há 45 anos. Mostrei-o à S. Ex.cia Rev.ma D. Antônio de Castro Mayer, de santa memória, que, então,  bondosamente o leu e deu a sua aprovação.

Hoje, vemos como os modernistas, mais do que nunca, dominando na Igreja, fazem uma mistura das coisas sagradas com as mundanas, como foi o fato sacrílego acontecido no carnaval deste ano em São Paulo, quando o Cardeal Odilo Pedro Scherer permitiu que o bloco carnavalesco União de Vila Maria, sob pretexto de homenagear os 300 anos do encontro da Imagem de Nossa Senhora Aparecida, misturasse samba com cânticos religiosos, e colocasse a imagem de Nossa Senhora Aparecida, inclusive com o manto e coroa bentos por um padre do Santuário de Aparecida, colocasse, digo, num ambiente o mais mundano e pecaminoso possível, que é o carnaval, máxime o do Brasil. Assim sendo, achei por bem publicar este artigo. Oxalá as almas possam ver onde está a verdadeira doutrina de Nosso Senhor, e, outrossim, vejam como os modernistas são realmente os maiores inimigos da Igreja.

Feita que foi esta introdução, vamos iniciar as nossas reflexões sobre este texto das Sagradas Escrituras, acima enunciado. Demos, em primeiro lugar, a noção correta de MUNDO, sentido este expresso no texto em apreço e nos muitos outros que aqui citaremos. Tomamos aqui o termo MUNDO  não enquanto significa as obras da criação ou o conjunto das pessoas que vivem na terra (bons e maus), mas enquanto significa o complexo daqueles que são escravos da tríplice concupiscência e cujas máximas são contrárias às de Jesus Cristo.

Mundo neste último sentido é explicado pelo Apóstolo São João na sua Primeira Epístola: “Não ameis o mundo nem as coisas do mundo. Se alguém ama o mundo não há nele o amor do Pai, porque tudo o que há no mundo é concupiscência da carne, concupiscência dos olhos e soberba da vida, e isto não vem do Pai, mas do mundo. Ora o mundo passa, e a sua concupiscência com ele, mas o que faz a vontade de Deus permanece eternamente” (1 João, II, 15-17). Baseados sempre nas Sagradas Escrituras e na Tradição, vamos explicar esta definição do mundo dada por S. João Evangelista.

1. CONCUPISCÊNCIA DA CARNE: Sobre ela eis o que diz São Paulo: Caminhemos como de dia, honestamente; não caindo em glutonarias e na embriaguês, não em desonestidades e dissoluções; não em contendas e emulações, mas revesti-vos do Senhor Jesus Cristo e não vos ocupeis da carne em suas concupiscências” (Rom. XIII, 13 e 14). “Caminhemos como de dia, honestamente”. As obras dos filhos das trevas são feitas comumente à noite. São todas as desonestidades provenientes da concupiscência da carne. É o amor desordenado dos prazeres dos sentidos. Em primeiro lugar o amor sensual ou luxúria, espalhado por todo o corpo: ver, ouvir, falar, fazer tudo aquilo que acende e alimenta as chamas do amor impuro. Também os excessos no comer e beber e a moleza da vida.

Em outras passagens, o Apóstolo mostra como devem agir os “filhos da luz”: Aqueles que são de Jesus Cristo, crucificaram sua carne com seus vícios e concupiscências” (Gálatas, V, 24). Caríssimos, vede que S. Paulo não diz: “crucificaram seus vícios e concupiscências”, mas “sua carne com seus vícios e concupiscências”. O bom médico vai à raiz do
mal. A carne, depois do pecado original, é a raiz dos males.

Ouçamos ainda S. Pedro, o primeiro Papa: “O Senhor sabe livrar os justos da tentação e reservar os maus para o dia do juízo a fim de serem atormentados, principalmente aqueles que vão atrás da carne na imunda concupiscência” (1 Pedro, II, 9 e 10).

2. CONCUPISCÊNCIA DOS OLHOS: Compreende duas coisas:

a) a curiosidade doentia ou seja o desejo imoderado de ver, ouvir e conhecer o que se passa no mundo, alimentando e excitando assim a sensualidade. Neste sentido eis o que diz o Espírito Santo nas Sagradas Escrituras: “Ooliba [figura da corrupção de Jerusalém] foi aumentando sempre a fornicação porque tendo visto alguns homens pintados na parede, umas imagens dos caldeus delineadas com cores… pela concupiscência dos seus olhos concebeu por eles uma paixão louca”  (Ezequiel, XXIII, 14 e 16). “Os olhos não se fartam de ver…” (Eclesiastes I, 8). “Eu(Jesus), porém, digo-vos que todo o que olhar para uma mulher, cobiçando-a já cometeu adultério com ela no seu coração” ( S. Mateus V, 28). Como a concupiscência vem do mundo, este promove tudo aquilo que provoca e fomenta a concupiscência dos olhos, e através desta, a concupiscência da carne, como por exemplo: revistas pornográficas, filmes, novelas e espetáculos imorais, bailes, imodéstia no vestir, sobretudo em certos ambientes como praias, piscinas, e festas mundanas, sobressaindo entre elas o Carnaval (máxime aqui no Brasil), namoros indecentes mesmo em público, (assim eu escrevia há 45 anos, e hoje? nem preciso dizer o que são!). Entra ainda o papel da televisão, do cinema, da maioria dos jornais e hoje máxime da Internet usada para o mal, como veículos de propagação destas imoralidades.

b) A concupiscência dos olhos pode ser interpretada também como o amor desordenado do dinheiro, ou avareza. Com efeito, o dinheiro, ou apegando o homem a terra e afastando seu pensamento de Deus ou provocando o luxo e o comodismo, oferece maior facilidade para tudo aquilo que fomenta a concupiscência dos olhos e promove a concupiscência da carne. Aliás é por aí que o demônio começa como ensina S. Paulo: “Os que querem enriquecer caem na tentação e no laço do demônio e em muitos desejos inúteis e perniciosos que submergem os homens na morte e na perdição. Com efeito a raiz de todos os males é o amor do dinheiro” (1 Timóteo, VI, 9 e 10). Jesus disse: “Não procureis (com cuidados excessivos) o que haveis de comer e beber e não andeis com espírito preocupado. Porque são os homens do mundo que buscam todas estas coisas” (S. Lucas, XII, 29). E explicando a parábola do semeador diz ainda: “A semente que caiu entre espinhos, representa aqueles que ouviram a palavra, porém, vão e ficam sufocados pelos cuidados do mundo, pelas riquezas e prazeres desta vida e não dão fruto” (S. Lucas, VIII, 14).
Eis como a Sagrada Escritura fala da concupiscência dos olhos tomada no sentido de AVAREZA: “O olho do avaro não se sacia com uma porção injusta; não se fartará, enquanto não tiver consumido e secado a sua vida. O olho mau tende para o mal, e não se saciará de pão, mas estará faminto e melancólico à mesa” (Eclesiástico, XIV, 9 e 10).

3. A SOBERBA DA VIDA: É o orgulho. É primeiramente a vaidade mais vulgar que gosta da ostentação e do luxo. O dinheiro ajuda a soberba. Esquecido de Deus e entregue a si mesmo, o homem considera-se o seu próprio deus. Daí vêm: avareza, espírito de independência, egoísmo, vã complacência, vanglória, jactância, ostentação, hipocrisia etc.. O homem orgulhoso confia em si mesmo; por isso se expõe aos perigos, aos ambientes mundanos, não aceita uma norma de vida, um moral fora e acima dele. Ele mesmo é o árbitro de suas ações, ele é que determina a sua moral, o seu modo de agir. Em uma palavra: ele faz a sua religião. Compreende-se assim facilmente com o orgulhoso, que, na verdade, é rejeitado por Deus, tem o caminho aberto para toda concupiscência, entregando-se aos pecados e baixezas da carne, o que aliás constitui um castigo de seu próprio orgulho. Vejamos apenas alguns textos da Sagrada Escritura sobre a soberba da vida: “Mas vós, pelo contrário, elevai-vos na vossa soberba” (S. Tiago, IV, 16). “O princípio da soberba do homem é afastar-se de Deus” (Eclesiástico, X, 14). “Não há coisa mais detestável do que o avarento. Por que se ensoberbece a terra e a cinza? “Tua arrogância enganou-te, assim como a soberba do teu coração” (Jeremias, CLIX, 16). O mundo, que tem como príncipe o demônio (Cf. S. João, XII,31; XIV, 30; XVI, 11).  ) e por estandarte a tríplice concupiscência, como age?

Caríssimos, depois da queda original a natureza humana é inclinada para a concupiscência que atrai e alicia, e esta é alimentada pelo mundo que por sua vez é governado pelo demônio. Estes são os três inimigos das nossas almas: o mundo, a carne, e o demônio. Eis a explicação dada pelo próprio Espírito Santo através de S. Tiago: “Cada um é tentado pela sua própria concupiscência que atrai e alicia. Depois a concupiscência quando concebeu dá à luz o pecado” (S. Tiago,I, 14). S. João diz por sua vez: “Aquele que comete o pecado é filho do demônio, porque o demônio peca desde o princípio” (1 S. João, III, 8). E no capítulo V, 19 diz: “Sabemos que somos de Deus, mas o mundo está sob o maligno”. Nosso Senhor Jesus Cristo na parábola do joio explicou que é o demônio o homem inimigo que suscita os maus sobre a terra (Cf. S. Mateus, XIII, 39).

O mundo então através da tríplice concupiscência e excitado pelo demônio persegue os bons de duas maneiras:

1 – Seduzindo-os através de suas vaidades e prazeres; promove, como vimos acima, tudo aquilo que favorece os olhares lascivos e enlaces sensuais, mas apresenta tudo isso como coisas necessárias para fomentar o amor; como úteis para a saúde, recreações, higiene, etc.. E assim, procura enganar as consciências. Depois o mundo elogia os que sabem gozar a vida. Prega o amor desordenado do prazer: “Coroemo-nos de rosas antes que elas murchem” (Sab. II, 8). É um dever sagrado, dizem os mundanos, aproveitar a mocidade, gozar a vida. O mundo seduz ainda pelos seus maus exemplos. Com mostra a trilhar o caminho largo, apresenta como argumento supremo a maioria. Todos os mandamentos se resumem neste: todo mundo faz assim; é a moda, etc..

2 – Quando não pode seduzir os bons, o mundo trata de os aterrar movendo-lhes perseguições: Assim, desviam-se da prática da religião os tímidos, metendo a riso os devotos, os que fazem penitência, os “ingênuos” que acreditam em dogmas imutáveis, motejam das mães que têm muitos filhos, e que vestem modestamente suas filhas, zombam daqueles que fogem dos ambientes perigosos: como bailes, praias, piscinas, carnaval, etc… Já disse a Sagrada Escritura: “Aqueles que querem viver piedosamente sofrerão perseguição” (2 Timóteo, III, 11).

Diante da opressão que o mundo lhes faz, consolem-se com o diz a Sagrada Escritura: Em realidade se Deus não perdoou ao mundo antigo; mas somente salvou com outros sete a Noé, pregador da justiça, quando fez vir o dilúvio sobre o mundo dos ímpios, e se condenou a uma total ruína as cidades de Sodoma e Gomorra, reduzindo-as as cinzas para servir de exemplo aqueles que venham a viver impiamente, se, enfim, livrou o justo Lot oprimido pelas injúrias e pelo viver luxurioso destes infames (esse justo que habitava entre eles sentia diariamente a sua alma atormentada, vendo e ouvindo as suas obras iníquas), é porque o Senhor sabe livrar os justos da tentação e reservar os maus para o dia do juízo, a fim de serem atormentados, principalmente aqueles que vão atrás da carne na imunda concupiscência e desprezam a soberania (de Cristo)”.

Caríssimos, desculpem-me por eu ter me estendido demais. Mas, na verdade, o artigo ainda continua. No próximo sábado, se Deus quiser, continuarei tratando da mesma matéria: Veremos, se Deus quiser, o modo de agir dos modernistas e o da Tradição em relação ao mundo. Faremos um terceiro artigo sobre A MODÉSTIA NO VESTIR. Sempre me baseando nas Sagradas Escrituras.

18 março, 2017

Reflexões da Sagrada Escritura: O sacerdócio comum dos fiéis.

 “Chegai-vos para Ele, como para a pedra viva  que  os homens tinham rejeitado, mas que Deus escolheu e honrou; também sobre ela vós mesmos, como pedras vivas, sede edificados em casa espiritual, em SACERDÓCIO SANTO, para oferecer SACRIFÍCIOS ESPIRITUAIS, que sejam aceitos a Deus por Jesus Cristo… Vós sois a GERAÇÃO ESCOLHIDA, O SACERDÓCIO REAL, A GENTE SANTA, UM POVO QUE DEUS CONQUISTOU, para que publiqueis as grandezas d’Aquele que das trevas vos chamou à sua maravilhosa luz”. (1São Pedro, II, 4 e 5-9).

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

O Apóstolo São Pedro, ao exortar os primeiros cristãos a unirem-se a Cristo para progredir na santidade, lembra-lhes os seus títulos de nobreza.

São Pedro fala aí de um sacerdócio, mas não no sentido próprio, em toda a extensão da palavra. Fala no sentido lato. Sacerdote no sentido próprio é aquele que é conferido pelo sacramento da Ordem. Este sacerdócio secundário vem do  batismo  que nos enxerta em Cristo. E com Cristo formamos então um só organismo sobrenatural.

Resumindo: O Sacerdócio existe de maneira real mas diversa: 1º em Cristo; 2º no padre; 3º no leigo. Em Cristo o Sacerdócio se realiza em sua plenitude; no padre, se realiza de maneira própria pelo sacramento da Ordem mas como uma participação do sacerdócio de Cristo; e no leigo o sacerdócio vem pelo batismo, mas de uma maneira muito mais apagada e limitada. É deste último que estamos tratando. Devemos explicar bem este ponto porque os protestantes que pregam que Jesus é o ÚNICO sacerdote, curiosamente, baseados neste texto de São Pedro, dizem que todos os fiéis são sacerdotes (!) E os progressistas também abusam desta passagem para dizer que os fiéis concelebram com o padre, o que também não é verdade como veremos depois.

Mas, antes de continuarmos, vejamos bem o sentido verdadeiro do texto de São Pedro, na sua 1ª Epistola, XI, 9. Uma coisa logo atrapalha aquele que só tem em mãos o texto em português, é que S. Pedro diz: ” Vós sois … UM SACERDÓCIO REAL. Mas, acontece que a palavra REAL tem dois sentidos em português: REAL no sentido = que existe de fato, que é verdadeiro. E REAL no sentido = relativo ao rei, digno de rei, régio. E São Pedro emprega a palavra neste segundo sentido. Ele escreveu esta sua 1ª epístola em grego, e a palavra que ele empregou é: BASÍLEION  que só tem este segundo sentido ( = régio). Por isso São Jerônimo traduziu para o latim empregando a palavra REGALE. Se fosse no 1º sentido teria empregado a palavra REALE.  Mas que vem a ser um SACERDÓCIO RÉGIO? Equivale a UM CORPO RÉGIO DE SACERDOTES; equivale a REINO SACERDOTAL.  São Pedro, neste versículo 9º de sua 1ª epístola, faz apenas reproduzir, aplicando aos cristãos, aquilo que já havia sido dito aos judeus no livro do Êxodo XIX, 5 e 6: “Se, portanto, ouvirdes a minha voz e observardes o pacto que eu fiz convosco, sereis para mim a PORÇÃO ESCOLHIDA dentre todos os povos, porque minha é toda terra; e vós sereis o meu REINO SACERDOTAL e uma NAÇÃO SANTA”.

Deus chamou aos judeus uma REINO SACERDOTAL. Que se segue daí? Que entre os judeus todos eram sacerdotes? Não. Porque este sacerdócio efetivo da lei judaica era privativo dos descendentes de Arão.

Confira: Ex. XXVIII, 1; Números, XVI, 39 e 40 e muitos outros textos. Uma NAÇÃO SACERDOTAL, portanto, não quer dizer uma nação em que todos são sacerdotes, no sentido rigoroso da palavra, mas uma nação que é toda consagrada a Deus, assim como os sacerdotes são a Ele consagrados e é neste sentido que São Pedro chama um REAL SACERDÓCIO o povo cristão.

Depois, basta a gente ver como Jesus separou do meio do povo os seus Apóstolos, educou-os carinhosamente, revelando só a eles os mistérios do reino de Deus (Mat.XIII, 11) dando-lhes só a eles na intimidade da última Ceia o poder de realizar o mistério eucarístico (S. Luc. XII, 19), dando a eles numa casa de portas fechadas, o poder de perdoar pecados (S. João, XX, 23), enviando-os só a eles a ENSINAR e a batizar ( S. Mat. XXVIII, 19) , fazendo deles uns ministros de Cristo e dispensadores dos mistérios de Deus (1 Cor. IV, 1). Depois o próprio São Pedro nesta mesma epístola fala de rebanhos e pastores.

Portanto não tem o mínimo cabimento para interpretar esta passagem de São Pedro no sentido de dizer que todos os fiéis são sacerdotes.

Concluo, então, repetindo o que já disse no início: O sacerdócio existe de maneira REAL porém essencialmente DIVERSA: ou seja, JESUS CRISTO É O SACERDOTE SUPREMO EM TODA SUA PLENITUDE;  O SACERDÓCIO REALIZA-SE DE MANEIRA PRÓPRIA, EMBORA PARTICIPADA NO SACERDÓCIO HIERÁRQUICO, OU SEJA NOS PADRES. O SACERDÓCIO EXISTE TAMBÉM NOS LEIGOS MAS DE UMA MANEIRA LIMITADA, POR VIRTUDE DO SACRAMENTO DO BATISMO.

Portanto, só o Sacramento da Ordem confere o poder e a capacidade para operar a transubstanciação no Sacrifício da Santa Missa. O simples fiel, ou leigo, é pois incapaz de o fazer. Vamos mostrar melhor em que consiste, então ESTE SACERDÓCIO COMUM DOS FIÉIS.  Como vimos, São Pedro (1ª Pedro, II, 9) chama o povo cristão de “regale sacerdotium”, isto é, “sacerdócio régio”. O próprio Apóstolo mostra que se trata do sacerdócio que dá aos fiéis o poder e dever de apresentar a Deus vítimas espirituais, e em primeiro lugar a si mesmos,,transformados em vítimas pela imitação de Jesus Cristo, renúncia do amor próprio, mortificação, prática das virtudes.

Santo Tomás de Aquino declara que o caráter batismal confere ao que se batiza uma assimilação ao sacerdócio de Jesus Cristo. Eis o que ensina o doutor Angélico: “O leigo justo está unido a Cristo pela união espiritual da fé e da caridade, mas não pelo poder sacramental. Por isso tem o sacerdócio espiritual para oferecer hóstias espirituais, das quais diz a Escritura: “Sacrifício para Deus é o espírito atribulado” (Salmo 50, 19); e “Oferecei os vossos corpos como uma hóstia viva” (Rom. XII, 1); e ainda 1 Petr. II, 6: “Em sacerdócio santo, para oferecer sacrifícios espirituais” (Cf. S. Theol. 3ª p. q. 82. a. 1 ad 1). E Santo Tomás explica o porquê: “Todos os sacramentos tornam o homem participante do sacerdócio de Cristo, porque recebe assim um certo efeito dele. Mas nem por todos os sacramentos somos destinados a fazer alguma coisa ou a receber o que pertença ao culto do sacerdócio de Cristo. O que, porém, se exige para isso é que o sacramento imprima caráter” (Cf. S. Theol., 3ª p. q. 63, a. VI ad 1).   Este sacerdócio comum a todos os membros da Igreja, dá-lhes a capacidade de se beneficiarem das graças com que Jesus enriqueceu a sua Igreja, especialmente os sacramentos que os não batizados não podem receber. Neste sentido, são eles passíveis de se beneficiarem dos frutos do Sacrifício Eucarístico, que é o Sacrifício da Igreja. Os leigos batizados, além disso, têm a possibilidade de participar ativamente neste mesmo sacrifício da Santa Missa, enquanto são membros da Igreja, e portanto fazem parte do Corpo Místico de Cristo, em cujo nome Jesus oferece sua oblação sacrifical na Santa Missa. Os fiéis leigos tomam assim parte no Sacrifício do Altar. Diz o Papa Pio XII na “Mediator Dei”: “Pelo sacramento do batismo, os cristãos tornam-se, por título comum, membros do Corpo Místico de Cristo Sacerdote e, em virtude do “caráter” que se lhes imprime na alma, são deputados para o culto divino, participando assim, de modo conveniente ao seu estado, no sacerdócio de Cristo”.

Na Igreja há uma razão especial que justifica a intervenção do sacerdócio hierárquico nos atos do culto divino. É que o centro para o qual converge o culto católico, e a fonte de onde dimana a vitalidade da Igreja, é a Santíssima Eucaristia, Sacrifício que renova a oblação reparadora do Filho de Deus, e o Sacramento que O  contém real e verdadeiramente como está no Céu. Se no Antigo Testamento, a Arca da Aliança, mera figura das realidades futuras, exigia mãos santificadas para nela tocarem, que diremos da Santíssima Eucaristia?

Para os fiéis participarem da Missa segundo “o modo conveniente  ao seu estado” mostraremos o que não podem fazer, por lhes faltar o poder. E o que podem e devem fazer na qualidade de membros do Corpo Místico de Cristo.

O padre na Missa, imola e oferece a vítima; o fiel não imola, só oferece. Falta-lhe, como já dissemos, a capacidade para transubstanciar. O fiel não é ministro do Sacrifício da Missa. Em compensação o fiel oferece o Sacrifício em virtude do seu sacerdócio batismal. E oferece num sentido real, e não simplesmente metafórico. Ele oferece como “membro”, nunca como “instrumento de Cristo”. Só o sacerdote pelo sacramento da Ordem pode ser ministro e instrumento de Cristo.

Diz Pio XII: “Que os fiéis oferecem o Sacrifício pelas mãos do sacerdote, claramente se deduz do fato de que o ministro do Sacrifício do Altar age como representante de Cristo, enquanto Cabeça, que oferece em nome dos membros todos; é por isso que com razão se diz que toda a Igreja, por meio de Cristo, faz a oblação da vítima”. (Mediator Dei).

Para ilustrar a estreita união dos fiéis com o Sumo Sacerdote, no Sacrifício da Missa, recorre São Cipriano ao simbolismo do vinho e da água misturados no cálice, o vinho figurando a Cristo, a água figurando os fiéis.

Santo Tomás faz uma explanação mostrando que na Missa há a consagração que o Sacerdote realiza como representante de Jesus Cristo, e há as preces sacerdotais, especialmente as do cânon, que ele recita sozinho, mas como representante da Igreja, dos fiéis.

De maneira que , na realização do ato sacrifical da Missa, os fiéis não tomam parte, É executado só pelo Sacerdote que, no momento representa a pessoa de Jesus Cristo. E para que se tornasse capaz desse ato, recebeu o Sacerdote a unção sagrada no Sacramento da Ordem. E de fato, a Igreja é, por instituição divina, uma sociedade hierárquica, que não pode ser concebida à maneira das democracias regidas pelo sufrágio universal, onde os governos, eleitos pelo povo, são mandatários da comunidade.

Os fiéis, no entanto, devem considerar elemento essencial de suas vidas, participar ativamente no Santo Sacrifício da Missa. A Santa Missa deve ocupar o centro de toda a nossa existência.

Nas palavras de Inocêncio III, temos a norma da participação ativa dos fiéis no Santo Sacrifício do Altar: o que realizam em particular os Sacerdotes, o povo deve realizá-lo universalmente em voto. E no ato mesmo sacrifical, isto é, na consagração, a participação do povo fiel não pode ir além do voto, ou seja, da aprovação interna, da união de sentimentos aos do Sacerdote que celebra, e aos do próprio Jesus Cristo, que é imolado sobre o altar.

Aliás, em toda a Missa, o elemento essencial da participação do fiel consiste em unir os próprios sentimentos da adoração, ação de graças, expiação e impetração ao que teve Jesus Cristo ao morrer por nós, e que devem animar o Sacerdote que oferece o Sacrifício da Missa. Esta união do culto interno, é que torna proveitosa a participação do fiel na Santa Missa. É um grande erro achar que participar da Missa é apenas seguir os gestos e repetir as palavras. Pio XII considera isto: “rito vão e formalismo sem sentido”.

O Papa Pio XII insiste na “Mediator Dei” sobre a importância do culto interno. “É necessário, diz ele, que os fiéis se imolem a si mesmos como vítimas”. Em que consista esta imolação, declara o papa em outro lugar da mesma encíclica: “Considerem os fiéis suma honra participar no Sacrifício Eucarístico de maneira que a “união como o Sumo Sacerdote não possa ser mais íntima, conforme a palavra do Apóstolo: “Tende em vós os mesmos sentimentos de Jesus Cristo.” (Fil. II, 5), o que “exige de todo cristão que reproduza em si, quanto, está nas possibilidades humanas, o mesmo estado de alma que tinha o Divino Redentor quando realizava o Sacrifício de si mesmo: a humilde submissão do espírito e a adoração, honra, louvor e ação de graças à Suprema Majestade de Deus; mais, reproduza em si mesmo a condição de vítima, a abnegação segundo os preceitos do Evangelho, o voluntário e espontâneo exercício da penitência, a dor e expiação dos próprios pecados; numa palavra: que todos espiritualmente morramos com Cristo na Cruz, de modo a podermos dizer com São Paulo: “Estou pregado na Cruz com Cristo” (Mediator Dei).

Não é despropósito dizer que na patena, ao lado da hóstia, estão as almas do celebrante e dos assistentes. Dignou-se o Senhor, na sua misericórdia, fazer de nós “cooperadores de Deus” (1 Cor. III, 9). Ora bem, a obra de Cristo foi a Redenção; cooperar nela é sofrer, como ele sofreu, para remir as almas. Não por indigência, mas por bondade, Ele aceita que unamos nossos padecimentos aos d’Ele, por nossos irmãos, “Alegro-me nos sofrimentos por vós, e que complete o que falta aos sofrimentos de Cristo, pelo seu Corpo que é a Igreja” (Col, I, 12).

Oh! se os fiéis compreendessem profundamente e perfeitamente praticassem a participação no Santo Sacrifício da Missa. Mais do que assistir à Missa, participar da Missa no seu decurso, mais do que tudo isto é prolongar a Missa na sua vida, é viver a Santa Missa!!!

11 março, 2017

Reflexões da Sagrada Escritura: O fim diversifica especificamente os atos em bons e maus

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

 Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, Primeira Parte da Segunda Parte – Questão XVIII, Artigo VI.

ART. VI.  –  SE O FIM DIVERSIFICA ESPECIFICAMENTE OS ATOS EM BONS E MAUS.

O sexto artigo discute-se assim: Parece que o fim não diversifica especificamente os atos em bons e maus.

1ª OBJEÇÃO: Pois, os atos se especificam pelo objeto. Ora, o fim não é objeto, de nenhum modo. Logo, o bem e o mal dele procedente não diversificam os atos especificamente.

2ª OBJEÇÃO: Demais. – O acidental não especifica, como já se disse no artigo 5. Ora, é acidental a um ato ser ordenado para um fim; assim, quando se dá esmola por vanglória. Logo, o fim não diversifica especificamente os atos em bons e maus.

3ª OBJEÇÃO: Demais. – Atos especificamente diversos podem se ordenar a um mesmo fim; assim ao fim da vanglória podem se ordenar os atos de diversas virtudes e de diversos vícios. Logo, o fim não diversifica especificamente os atos em bons e maus.

SED CONTRA. Mas, AO CONTRÁRIO, já foi provado acima na questão 1, a. 3 que os atos humanos têm a espécie oriunda do fim. Logo o bem e o mal que são advindos segundo o fim, diversifica a espécie dos atos.

RESPONDO [após fazer as devidas distinções e explicações] dando a SOLUÇÃO: Certos atos se chamam humanos, enquanto voluntários, como já se disse no artigo primeiro. Ora, o ato voluntário inclui dois outros: o interior, da vontade, e o exterior, tendo um e outro o seu objeto.

Ora, o fim propriamente é o objeto do ato interior da vontade; ao passo que o ato exterior tem por objeto aquilo mesmo sobre o que recai. Por onde, assim como o ato exterior se especifica pelo objeto sobre o qual recai, assim o ato interior da vontade, pelo fim, como seu objeto próprio. Ora, o que procede da vontade tem por assim dizer valor de forma para o que procede do ato exterior, pois a vontade se serve, para agir, dos membros, a modo de instrumentos; e nem os atos exteriores têm valor moral senão enquanto voluntários. Logo, a espécie dos atos humanos é formalmente considerada em relação ao fim; e materialmente, em relação ao objeto do ato exterior. Por onde, diz o
Filósofo em Ethic., lect. III, que “aquele que furta para cometer adultério é, propriamente falando, mais adúltero que ladrão”.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO.  –  O fim equivale a um objeto como já se disse.

RESPOSTA À SEGUNDA OBJEÇÃO.  –  É acidental ao ato exterior ordenar-se a um certo fim, mas não o é ao ato interior da vontade, pois este último está para o primeiro como a forma para a matéria.

RESPOSTA À TERCEIRA OBJEÇÃO.  –  Quando muitos atos especificamente diferentes se ordenam a um mesmo fim, há, na verdade, especificamente, diversidade em relação aos atos exteriores, mas unidade em relação ao
ato interior.

4 março, 2017

Reflexões da Sagrada Escritura: Os atos morais bons e maus diferem especificamente.

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

Santo Tomás de Aquino, Suma Teológica, 1ª Parte da 2ª Parte – Questão XVIII, Artigo V.

ARTIGO V. – SE OS ATOS MORAIS BONS E MAUS DIFEREM ESPECIFICAMENTE.

O quinto artigo discute-se assim. – Parece que os atos morais bons e maus não diferem especificamente.

1ª OBJEÇÃO: Pois, a bondade e a malícia dos atos é como a das coisas, segundo se disse no artigo primeiro. Ora, nestas o bem e o mal não diversificam a espécie; assim, da mesma espécie é tanto o homem bom como o mau. Logo, também a bondade e a malícia dos atos não os diversificam especificamente.

2ª OBJEÇÃO: Ademais. – O mal, sendo privação, é de certo modo, não-ser. Ora, este não pode diferençar, como diz o Filósofo em III Metaph., lect. VIII. E, como a diferença constitui a espécie, resulta que um ato mau não pertence a nenhuma espécie. Logo, o bem e o mal não diversificam especificamente os atos humanos.

3ª OBJEÇÃO: Ademais. – Atos especificamente diversos produzem efeitos diversos. Ora, um efeito pertencente a uma determinada espécie pode resultar tanto de um ato bom como de um mau; assim, o homem é gerado tanto do adultério como do concúbito matrimonial. Logo, os atos bons não diferem especificamente dos maus.

4ª OBJEÇÃO: Ademais. – Os atos são às vezes bons e maus pela circunstância, como já se disse no artigo terceiro. Ora, esta, sendo acidente, não os especifica. Logo, não é pela bondade nem pela malícia que os atos diferem especificamente.

SED CONTRA. Mas, PELO CONTRÁRIO,  segundo o Filósofo em II Ethic., lect. I: “hábitos semelhantes produzem atos semelhantes (Similes habitus similes actus reddunt). Ora, os hábitos bons diferem especificamente dos maus, como a liberalidade se difere especificamente da prodigalidade. Logo, também os atos bons diferem do mesmo modo dos maus.

RESPONDO  (dando a SOLUÇÃO, após fazer as devidas distinções e explicações): – Todo ato se especifica pelo seu objeto, como já se disse no artigo segundo. Por onde, é necessário que qualquer diferença no objeto corresponda a uma diversidade específica nos atos. Devemos porém notar que uma diferença no objeto, causa da diferença específica dos atos, relativamente a um princípio ativo, não é causa relativamente a outro, pois, o acidental não especifica; só o essencial especifica. Ora, uma diferença no objeto pode ser essencial, relativamente a um princípio ativo, e acidental relativamente a outro; assim, o conhecimento da cor e o do som diferem relativamente ao
sentido, mas não relativamente ao intelecto.

Ora, a bondade e a malícia dos atos humanos são relativos à razão. Pois como diz Dionísio (IV cap. De div. nom., lect. XXII): o bem do homem consiste “em ser conforme à razão, e o mal, contrário a ela”. E na verdade, o bem de uma coisa é o que lhe convém, formalmente, e o mal, o que lhe contraria a ordem formal. Por onde é claro que a diferença entre o bem e o mal, considerada relativamente ao objeto, implica relação essencial com a razão, o que lhe torna o objeto conveniente ou não conveniente; e assim, chamam-se humanos ou morais os atos procedentes da razão. Logo, é claro que o bem e o mal diversificam especificamente os atos morais, pois as diferenças essenciais diversificam as espécies.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. – Mesmo nos seres naturais o bem e o mal, isto é, o que é conforme ou contrário à natureza, diversifica-lhes as espécies; assim, o corpo vivo e o morto não pertencem à mesma espécie. E, semelhantemente, o bem sendo o conforme à razão, e o mal, o que lhe é contrário, diversificam a espécie moral.

RESPOSTA À SEGUNDA OBJEÇÃO: –  A privação que o mal supõe não é absoluta mas, resultante de uma certa potência. Assim, é especificamente mau um ato, não por não ter nenhum objeto mas por tê-lo não conveniente à razão, com apoderar-se dos bens alheios. Por onde, na medida em que o objeto for algo de positivo, pode constituir
a espécie de um ato mau.

RESPOSTA À TERCEIRA OBJEÇÃO: –  O ato conjugal e o adultério, enquanto referidos à razão, diferem especificamente e produzem efeitos também especificamente diferentes; pois, aquele (=o conjugal) merece louvor e
prêmio; e este (= o ato adúltero) merece vitupério e pena. Não diferem porém de espécie enquanto relativos à faculdade de gerar; e portanto produzem o mesmo efeito, especificamente.

RESPOSTA À QUARTA OBJEÇÃO: – A circunstância, considerada como diferença essencial do objeto enquanto esta é relativa à razão, pode especificar um ato moral. E isto se dá necessariamente, sempre que a circunstância  muda em malícia a bondade de um ato; pois, ela não torna mau o ato, senão porque ela é contrária à razão.

18 fevereiro, 2017

Reflexões da Sagrada Escritura: As circunstâncias tornam uma ação boa ou má

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

Santo Tomás De Aquino – Suma Teológica – Primeira Parte da Segunda Parte.

QUESTÃO XVIII  –  Da Bondade e Da Malícia dos Atos Humanos em geral

ARTIGO III – Se as circunstâncias tornam uma ação boa ou má

OBSERVAÇÃO: Santo Tomás de Aquino trata deste artigo empregando somente argumentos filosóficos e daí não cita as Sagradas Escrituras.

O terceiro artigo discute-se assim. – Parece que as circunstâncias não tornam uma ação boa nem má.

1ª OBJEÇÃO: Pois, as circunstâncias estão em torno do ato, existindo como fora dele, segundo já se disse (q. 7, a. 1). Ora, “o bem e o mal existem nas coisas mesmas” como diz o filósofo Aristóteles em VI Metaphisica, lect. IV. Logo, as ações não são nem boas nem más em virtude das circunstâncias.

2ª OBJEÇÃO: Ademais, é sobretudo da bondade e malícia dos atos que trata a ciência dos costumes. Ora, as circunstâncias, sendo acidentes dos atos, escapam à consideração da ciência, pois nenhuma trata do que acidental, como dia Aristóteles em VI Metaph. lect. II. Logo a bondade e a malícia dos atos não resulta das circunstâncias.

3ª OBJEÇÃO: Demais, o que convém a uma coisa substancialmente não se lha atribui acidentalmente. Ora, do primeiro modo é que o bem e o mal convêm às ações, pois elas podem ser genericamente boas ou más. Como já se disse no artigo segundo. Logo, não lhes convêm serem boas ou más em virtude das circunstâncias.

SED CONTRA: Mas, em contrário, diz o filósofo Aristóteles no “Lib. II Ethic. lect. III, que o homem virtuoso age “como e quando deve, e conforme às demais circunstâncias”. Logo, ao contrário, o vicioso, dado a cada espécie de vício, age como e quando não deve e em desconformidade com as demais circunstâncias.

SOLUÇÃO: [Dando as devidas explicações e fazendo as necessárias distinções, daremos a solução e teremos condições de responder às três objeções acima apresentadas]. – Os seres naturais não recebem da forma substancial, que as especifica, toda a plenitude da perfeição que lhes é devida, mas muito lhes acrescentam os acidentes supervenientes; assim ao homem, a figura, a cor e os demais acidentes, dos quais, a falta de algum, para a proporção normal, redunda em mal. Pois, o mesmo de dá com as ações, cuja plenitude de bondade não consiste toda na espécie, mas no que lhes advém como acidente. Ora, tais são as circunstâncias devidas. Logo, se uma delas falta, a ação há de ser má.

Agora podemos responder às objeções acima apresentadas:

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO [Reler a 1ª OBJEÇÃO]. – As circunstâncias são exteriores à ação, por não serem da essência desta, embora nela existam, como acidentes; do mesmo modo que os acidentes das circunstâncias naturais são exteriores à essência delas.

RESPOSTA À SEGUNDA OBJEÇÃO: [Reler a 2ª OBJEÇÃO]. – Nem todos os acidentes têm relações contingentes com a substância, mas alguns têm necessárias, e como tais são objetos da consideração científica. E é deste modo que a ciência dos costumes considera as circunstâncias dos atos.

RESPOSTA À TERCEIRA OBJEÇÃO: [Reler a 3ª OBJEÇÃO]. – O bem e o ser se convertem. Ora, assim como este é substancial e acidental, assim também, tanto dos seres naturais como das ações morais, o bem é essencial e substancial.

4 fevereiro, 2017

Reflexões da Sagrada Escritura: Da Bondade e da Malícia dos atos humanos em geral.

“Todo aquele que faz o mal, aborrece a luz” (S. João, III, 20).

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

 

NB.: SUMA TEOLÓGICA de Santo Tomás de Aquino, 1ª Parte da 2ª Parte

Questão XVIII. “Em primeiro lugar devemos tratar de como uma ação humana é boa ou é má. E sobre esta primeira questão se discutem 11 artigos:

  1. Se toda ação é boa ou se há ações más.
  2. Se a ação do homem tira do objeto a sua bondade ou malícia.
  3. Se a ação do homem tira da circunstância a sua bondade ou malícia.
  4. Se a ação do homem tira do fim a sua bondade ou malícia.
  5. Se uma ação humana é especificamente boa ou má.
  6. Se o fim especifica os atos em bons e maus.
  7. Se a espécie que procede do fim está contida na que procede do objeto, como no gênero, ou se inversamente.
  8. Se há atos especificamente indiferentes.
  9. Se há atos concretamente indiferentes.
  10. Se uma circunstância especifica o ato moral como bom ou mau.
  11. Se toda circunstância que aumenta a bondade ou a malícia especifica o ato moral com bom ou mau.

ARTIGO I – Se todas as ações humanas são boas ou se há ações más.

OBJEÇÕES: Este primeiro artigo discute assim: Parece que todas as ações do homem são boas e nenhuma é má. [Pelo método de Santo Tomás de Aquino, a tese verdadeira é sempre a contrária à que é apresentada como parecendo ser certa].

1ª – Pois, como diz Dionísio, o mal só age em virtude do bem. Ora, a virtude do bem não produz o mal. Logo, nenhuma ação é má.

2ª – Ademais. – Nada age senão enquanto atual. Ora, nada é mau por ser atual, mas por ser a potência privação do ato; pois, um ser é bom na medida em que a potência é aperfeiçoada pelo ato, como diz Aristóteles. Ora, nada age enquanto mau, mas só enquanto bom. Logo, todas as ações são boas e nenhuma é má.

3ª – Ademais. – Só acidentalmente o mal pode ser causa, com se vê claramente em Dionísio. Ora, de toda ação há de resultar algum efeito, necessariamente. Logo, nenhuma é má, mas todas são boas. Mas, ao contrário (SED CONTRA) diz o Senhor em João III, 20: “Todo aquele que pratica o mal, aborrece a luz”.

RESPONDEREI as objeções, explicando antes os termos: Devemos dizer do bem e do mal das ações como se fala do bem e do mal das coisas, porque há proporção entre estas e as suas ações. Ora, cada coisa é boa na mesma medida em que é [=existe]: pois o bem e o ser se convertem,[=se equiparam] como já se disse na primeira parte (q. , a. I, 3ª). Só Deus porém tem toda a plenitude do ser, por causa da sua unidade e simplicidade; ao passo que as criaturas possuem a plenitude do ser que lhes convém, de modo múltiplo. Assim, umas possuem o ser de modo relativo, e contudo falta-lhes algo à plenitude devida. A plenitude do ser humano, p. ex. implica a composição de alma e corpo, com todas as potências e instrumentos do conhecimento e do movimento; por onde, a quem faltar um desses elementos, faltar-lhe-á algo da plenitude do seu ser. Pois quanto tiver de ser, tanto terá de bondade; e na medida em que lhe faltar algo da plenitude do seu ser, nessa mesma medida, lhe faltará a bondade e será considerado mau; assim, para um cego é bem o viver; e mal, estar privado da visão. Se porém não tivesse nenhum ser ou nenhuma bondade, não poderia considerar-se mau nem bom. Como, porém, da essência do bem é a plenitude do ser, o ente a que faltar a plenitude que lhe é devida, não será considerado bom, absoluta, mas relativamente, enquanto ser; poderá contudo ser considerado ser, absolutamente, e não ser, relativamente, conforme se disse na primeira parte (q, 5, a. I, ad 1).

Assim pois devemos concluir que toda ação, na medida em que é, nessa mesma medida é boa; e lhe faltará a bondade, sendo, por isso considerada má, na mesma medida em que lhe faltar algo da plenitude do ser devido; p. ex., se lhe faltar a quantidade determinada exigida pela razão, ou o lugar devido, ou coisa semelhante. [Agora, depois da explicação dos termos, temos condições de responder às objeções].

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO [Antes de lermos a resposta, é bom reler a objeção enumerada no início]. – O mal age em virtude do bem deficiente. Se pois o bem faltasse totalmente, não haveria ser nem ação; e se o bem não fosse deficiente [i. é, nada lhe faltasse do seu ser devido] não haveria mal. Por onde, a ação causada, em virtude de um bem deficiente, há de ser também deficientemente boa: é boa,relativamente; e é má, absolutamente.

RESPOSTA À SEGUNDA OBJEÇÃO: Nada impede  que um ser tenha, num ponto de vista, a atualidade [possui em ato uma qualidade que é devida ao seu ser] que o faz agir e, noutro ponto de vista, tenha a privação do ato, que lhe causa a ação deficiente. Assim um cego, tendo as pernas sãs, pode andar; mas, privado da visão, com a qual se dirige, a marcha fica-lhe defeituosa e há de se trôpego no andar.

RESPOSTA À TERCEIRA OBJEÇÃO: – Uma ação má pode, por si, produzir um efeito, na medida em que tiver algo de bondade e de ser. Assim, o adultério é causa de geração humana enquanto implica a união dos sexos e não, enquanto contrária a ordem racional.

Obser.: É óbvio que só teremos uma noção clara do assunto em apreço,depois de lermos a exposição dos 11 artigos. Com a graça de Deus e for de sua santíssima vontade, traduzirei e apresentarei aqui todos os 11 artigos. Trata-se de uma matéria sempre atual, mas hoje, mais do que nunca, seu conhecimento é oportuno e mesmo urgente.

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