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29 dezembro, 2017

Coluna do Padre Élcio: “José e Maria maravilhavam-se das coisas que se diziam de Jesus”.

Explicação do Evangelho do Domingo dentro da Oitava do Natal.

Por Padre Élcio Murucci – FratresInUnum.com

S. Lucas II, 33-40
“José e Maria, Mãe de Jesus, maravilhavam-se das coisas que se diziam d’Ele. Simeão os abençoou e disse a Maria, sua mãe: Eis que este (Menino) está posto para ruína e para ressurreição de muitos em Israel, e para ser alvo de contradição. E uma espada trespassará a tua alma, a fim de se descobrirem os pensamentos escondidos nos corações de muitos. Havia também uma profetisa, (chamada) Ana, filha de Fanuel, da tribo de Aser; estava em idade muito avançada, tinha vivido sete anos com seu marido, desde a sua virgindade, e (permanecido) viúva até aos oitenta e quatro anos. Não se afastava do templo, servindo a Deus noite e dia com jejuns e orações. Ela também sobrevindo nesta mesma ocasião, louvava a Deus,  falava dele a todos os de Jerusalém, que esperavam a redenção. Depois que cumpriram tudo, segundo o que mandava a lei do Senhor, voltaram para a Galileia, para a sua cidade de Nazaré. O Menino crescia e se fortificava cheio de sabedoria, e a graça de Deus era com ele.”

Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

José e Maria maravilhavam-se das coisas que se diziam de Jesus. Mas esta admiração não datava deste dia somente. Maria, santíssima Mãe de Jesus, já havia admirado  a anunciação do Anjo, a saudação de sua prima Isabel, a demonstração de alegria do Precursor nos seio de sua mãe, os transportes de alegria de Zacarias no nascimento de seu filho João.

Que a Sagrada Família de Nazaré proteja as famílias brasileiras.

José e Maria juntos já haviam admirado a alegria dos Anjos, e seus santos cânticos no nascimento do Salvador, a visita dos pastores, as adorações dos Reis Magos e enfim maravilharam-se neste momento, a chegada inesperada do Velho Simeão e o testemunho que acabava de dar do Cristo. Realmente quantos motivos de admiração: “uma virgem concebe, uma mulher estéril dá à luz, um mudo fala, Isabel profetiza, João salta de alegria no seio materno, os Magos adoram, uma viúva O confessa, um justo espera” (Cf. Amb. L. II, in Luc.). Simeão os abençoa: É óbvio que não abençoa Jesus porque é o justo Simeão desejava ser abençoado por Ele. Abençoa, portanto, José e Maria. Embora Maria e José  o ultrapassavam em santidade, Simeão possuía a dignidade sacerdotal que lhe dava o direito de abençoar o povo.

Caríssimos, meditemos profundamente naquela profecia de Simeão. Aqui este idoso justo se dirige só à Maria  porque Maria somente era verdadeiramente a mãe de Jesus, e José era apenas seu pai adotivo, portanto, pai só de nome. Quando Simeão prediz que o Menino será ruína para muitos, certamente já era a ponta da espada de dor a ferir o imaculado Coração de Maria! Deus quer que todos os homens se salvem (Cf. 1 Tim., II, 4). O velho Simeão, é obvio, não quis dizer que Jesus seria causa da ruína de muitos (seria blasfêmia dizê-lo); queria sim dizer que seria ocasião. Antes já o havia explicado o profeta Isaías: “E será para vós um motivo de santificação, ao passo que servirá de pedra de tropeço, e de pedra de escândalo às duas casas de Israel; de laço e de ruína aos habitantes de Jerusalém” (Isaías VIII, 14 e 15). S. Paulo também o diz em Romanos IX, 33: “Eis que eu ponho em Sião uma pedra de tropeço; e uma pedra de escândalo; e todo aquele que crê nela, não será confundido”. O próprio Jesus explicá-lo-á: “Se eu não tivesse vindo e não lhes tivesse falado, não teriam culpa, mas agora não têm desculpa de seu pecado” (S. João XV, 22). Jesus Cristo é o único Salvador; mas muitos O odiaram sem motivo. E rejeitar o Salvador é atrair para si a ruína.

Mas quando o Velho Simeão diz à Maria que Jesus foi estabelecido para a ressurreição de muitos, ele quer dizer que Jesus é a causa, e não somente a ocasião de sua salvação. Ele é a causa geral da salvação de todos os homens, pelo benefício da Redenção; Ele é a causa particular da salvação dos justos pela Sua graça. Ele nos abre a porta do céu pela sua Paixão e Morte. Ele nos mostra o caminho pela Sua lei, Ele nos guia pelos seus exemplos. Ele nos sustenta na graça pelos seus socorros. Nossa salvação vem d’Ele, enquanto nossa condenação vem de nós: “A tua perdição, ó Israel, vem de ti mesmo, só em mim está o teu
auxílio” (Oséias XIII, 9).

Assim, Jesus Cristo foi a ressurreição de uns e a ruína de outros entre os filhos de Israel. O que Ele foi para o tempo em que viveu e para a nação que O possuiu, Ele não cessa de ser para as idades seguintes e para a universalidade do gênero humano. Nosso Senhor Jesus Cristo é a ressurreição de todos aqueles que escutam sua voz, que crêem em sua palavra, que observam sua lei e todos aqueles que confiam n’Ele como o único Mestre divino. Por outro lado, Ele é ruína para aqueles que não querem ouvir sua doutrina, que recusam crer n’Ele e rejeitam seus ensinamentos e desobedecem seus preceitos.

O Velho Simeão acrescenta que Jesus será um sinal de contradição. Esta profecia se realizou completamente na vida de Jesus. Que espécie de contradição tenha lhe faltado? Contradição à Sua pessoa, pois, não teve onde repousar a cabeça; contradição às Suas ações cujos motivos foram deturpados; contradição em Seus milagres que foram atribuídos a Belzebu; contradição às Sua palavras, que foram julgadas com intenções pérfidas; contradição da parte dos fariseus que O caluniaram; da parte dos doutores que O desprezaram; da parte dos sacerdotes que O perseguiram; da parte do povo que, logo após querer aclamá-Lo rei, quis apedrejá-LO; mesmo da parte dos Apóstolos cuja ignorância e ridículas pretensões  Jesus se viu obrigado a suportar. E nestes dois mil anos e hoje especialmente, Jesus é alvo de contradição, objeto de ofensas pelas heresias e impiedades. Quantos Judas Iscariotes!…

Quantos hierarcas eclesiásticos negam a Jesus diante dos inimigos, muitos dos quais estão inclusive infiltrados dentro da Igreja! Pelos conhecimentos das profecias Messiânicas e agora sobretudo pela profecia do Velho Simeão, Maria Santíssima contemplava o seu Filho e tinha diante dos olhos aquela imagem que fora mostrada no céu, por uma revelação divina, a S. João Evangelista: “Vi um Cordeiro que estava de pé, parecendo ter sido imolado” (Cf. Apoc. V, 6). O Cordeiro divino imolado pela salvação do mundo! E que dor  para Maria saber que o Sangue deste Cordeiro (que é o sangue de seu Coração Imaculado) será sem utilidade para muitos: “Quae utilitas in sanguine meo?” E sua dor era naturalmente em proporção com seu amor. Ora, ela amava Jesus não somente como seu Filho, mas também como seu Deus. Mas estas dores de Maria, estes tormentos e esta morte de Jesus teriam por efeito manifestar os corações de muitos. É nestas circunstâncias, com efeito, que se revelarão e se descobrirão as secretas disposições dos Judeus a respeito de Jesus; é, então, que aparecerão seus verdadeiros discípulos e que se farão conhecer seus inimigos. A tentação tem portanto esta utilidade de separar a palha do bom grão e os justos dos pecadores. A perseguição faz aparecer os mártires e patenteia os apóstatas; a heresia e o cisma colocam de um lado os filhos dóceis da Igreja e de outro, seus adversários. As seduções do mundo arrastam os fracos no caminho do mal, mas confirmam o fortes na senda do bem. As lutas presentes, as quais assistimos durante algum tempo, estes combates encarniçados do erro contra a verdade, estes ataques violentos a Jesus Cristo, à Igreja, ao sacerdócio, aos dogmas obrigam os indecisos a se pronunciarem. E aí deles se não o fizerem! Na verdade, os maus tornam-se piores, mas os bons se tornam melhores. E grande número de indiferentes saem do sono de sua tibieza e alguns chegam mesmo a ser campeões da fé.

E havia também uma profetiza chamada Ana etc.: Caríssimos, grande número de pessoas habitavam o Templo, muito mais ilustres e mais elevados em dignidade que Simeão e Ana: sacerdotes, escribas, doutores. Jesus não se manifesta a eles. O Evangelho nos faz entender que foram as virtudes de Ana que lhe atraíram esta grande dita: sua vida de oração, penitência e pureza. Sobretudo esta última: “Bem-aventurados os puros de coração, porque verão a Deus” (S. Mat. V, 8).

Caríssimos e amados irmãos, devemos crescer sem cessar, progredir sempre na piedade, na virtude e na graça de Deus. É o preceito que nos dá o primeiro Chefe visível da Igreja: “Crescei em graça e no conhecimento de Nosso Senhor Jesus Cristo” (2 Pedro III, 18). Amém!

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23 dezembro, 2017

Coluna do Padre Élcio: “Ó Jesus, que o vosso amor encha o vale de meu coração; que a humildade aplaine as colinas e os montes de meu orgulho”.

Explicação do Evangelho do 4º Domingo do Advento.

Por Padre Élcio Murucci – FratresInUnum.com

S. Lucas III, 1-6
1. No ano décimo quinto do império de Tibério César, sendo Pôncio Pilatos governador da Judéia, Herodes tetrarca da Galileia, Filipe, seu irmão, tetrarca da Itureia e da província da Traconítides e Lisânias tetrarca da Abilínea, 2. sendo pontífices  Anás e Caifás, o Senhor falou a João, filho de Zacarias, no deserto. 3. E ele foi por toda a terra do Jordão, pregando o batismo de penitência para remissão dos pecados, 4.  como está escrito no livro das palavras do profeta Isaías: “Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas: 5.  Todo o vale será terraplanado, e todo o monte e colina serão arrasados; os caminhos tortuosos tornar-se-ão direitos, e os escabrosos planos;  6. e todo o homem verá a salvação de Deus”.

Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

Observamos, em primeiro lugar o cuidado particular que o Evangelista, inspirado pelo Espírito Santo, tem de precisar a época, os lugares e as pessoas. Sua intenção é colocar os contemporâneos em condições de reconhecer a exatidão da narração evangélica, e assim, também impedir que no futuro os incrédulos  neguem os fatos aí contados.

natal - veni emannuelDevemos notar, outrossim, que S. Lucas nomeia, não somente os príncipes, os magistrados judeus, mas também os príncipes e governadores pagãos, como Tibério e Pôncio Pilatos. Porque, na verdade a religião deveria ser pregada também aos gentios e não somente aos judeus.

O Senhor falou a João no deserto: Estas palavras significam que S. João Batista recebeu positivamente de Deus, por inspiração ou pelo ministério dum Anjo, a ordem de anunciar o advento do Messias, e de Lhe preparar os caminhos, pregando a penitência. Ninguém, com efeito, pode profetizar e pregar, nem tão pouco exercer o sacerdócio, sem ter recebido de Deus um apelo positivo ou um missão especial: “Nenhum se arroga esta honra, senão o que é chamado por Deus, como Aarão”. Em Jeremias XXIII, 16 e segs; em Ezequiel XIII Deus queixa-se em termos severos dos pregadores sem missão, que ousam, por sua própria e ilegítima autoridade, assumir o ministério da Palavra: “Eu não enviava
estes profetas e eles corriam; não lhes dizia nada e eles profetizavam”… “Eis que venho contra os profetas que sonham mentiras, diz o Senhor, que as contam e enganam o meu povo com suas mentiras e os seus milagres” (Jeremias XXXIII, 21 e 32).

João estava então no deserto, para onde se tinha retirado na mais tenra idade: “Ora, o menino crescia e se fortificava no espírito; e habitava nos desertos até ao dia da sua manifestação” (S. Lucas I, 80). Ali se preparou para a missão divina com uma vida de recolhimento, de penitência e de oração. A Santa Igreja  instituiu os Seminários como “desertos” abençoados com esta mesma finalidade de preparar os chamados por Deus para a pregação de Sua palavra e o exercício da administração de Seus Mistérios: “Logo, nós desempenhamos as funções de embaixadores por Cristo, como exortando-vos Deus por meio de nós” (2 Cor. V, 20).

Mas, caríssimos, que prega João Batista? A penitência. Esta é, na verdade, a primeira virtude do Cristianismo. À exemplo do divino Mestre, João primeiramente praticou e só depois ensinou aos outros: “Começou a fazer e a ensinar” (Cf. Atos I, 1). Jesus havia praticado a penitência nas intempéries duma estrebaria, na austeridade da pobreza em Nazaré e no jejum de quarenta dias no monte dentro do deserto.

Mas, por que a penitência? Qual era afinal a sua necessidade? Ah! caríssimos, nesta época,  o mundo estava cheio de iniquidade. “Toda carne tinha corrompido seu caminho”. Os pagãos adoravam em seus deuses os crimes mais revoltantes e as paixões mas ignominiosas. Os próprios Judeus, extraviados pela superstição, uniam a um rigorismo na observação exterior da lei, um extremo relaxamento na prática do bem real. Era necessário lavar estas manchas pela penitência e preparar assim as almas para recepção da graça da Redenção.

Mas que dizer da penitência nos dias atuais? Caríssimos, quem não vê que o pecado inundou o mundo? Assim, as palavras de Jesus: “Se não fizerdes penitência, todos perecereis”, valem também para nós. Nossa Senhora em Lourdes e depois em Fátima pediu penitência; e mais de cem anos depois, só vemos mais pecados e menos penitência. A cidade de Nínive teria sido destruída caso o povo não tivesse feito penitência. E esta humanidade adúltera e pecadora se não fizer penitência, será também destruída. A quantidade de crimes: impiedade, blasfêmia, sensualidade, libertinagem, vícios das drogas, doutrinas perversas, ultrajes feitos Nosso Senhor Jesus Cristo, à Santíssima Virgem Maria e aos demais santos, menosprezo pela Sagrada Tradição, deturpação das Sagradas Escrituras, menosprezo pela Santa Madre Igreja. E os crimes mais horrorosos de nosso tempo é o ódio contra Deus e os sacrilégios contra a Santíssima Eucaristia. Têm prevalecido na Igreja doutrinas que negam o queda original do homem, que legitimam os instintos perversos dos homens, que reabilitam a carne, e olham a penitência como uma fraqueza e uma loucura. Portanto, reinam soberanos no mundo o materialismo, o panteísmo, o naturalismo e o subjetivismo. Constatamos em nossos tempos pagãos os vícios, as desordens de que o Cristianismo havia libertado o homem. Se entrarmos nas clausuras dos conventos, será que, pelo menos aí, ainda encontraremos penitência? Não queremos generalizar, mas podemos afirmar sem medo de errar, que, cada dia, dilui-se o espírito de penitência. Então, caríssimos, mais do que nunca, devemos pregar como o Batista: “Fazei dignos frutos de penitência… porque o machado já está posto à raiz das árvores .Toda árvore que não dá bom fruto, será cortada e lançada no fogo” (S. Lucas III, 8 e 9).

“Que todo vale seja enchido”: Que significam estas palavras? O vale é símbolo das almas pusilânimes e dos corações relaxados e apegados as coisas baixas do mundo. Portanto, S. João Batista pregava a penitência para que as almas se tornassem corajosas e as vontades, adestradas na renúncia de si mesmas; os corações deveriam se desprender das coisas terrestres e dos sentimentos vis, e se afeiçoarem à coisas nobres e celestiais. “Sursum corda!” Corações ao alto! Os corações abatidos pelas desilusões da terra, devem se elevar para o céu. Os que estão apegados à terra como sapos, para usar a expressão de S. Luiz Grignon de Montfort, se elevem como águias para o Altíssimo. O Céu é nossa Pátria, lá devem estar nossas esperanças; lá sim, encontraremos a nossa eterna felicidade!

Caríssimos, aproveitemos o Advento para enchermos nossas deficiências com o amor de Deus e do próximo! “E toda montanha seja abaixada”: Isto é, os espíritos soberbos, os orgulhosos e ambiciosos deverão ser rebaixados e humilhados, porque o Deus que vai descer até a nossa miséria e ao nosso nada, resiste aos soberbos e dá porém, sua graça aos humildes. Na verdade, um coração cheio de amor próprio e de soberba, não pode estar cheio de Deus. “Os caminhos tortuosos tornar-se-ão retos”: Esta comparação é para indicar os corações cheios de desígnios perversos, corações que tenham sido entortados pela injustiça, pela dissimulação, pela hipocrisia, pela mentira e por toda espécie de vícios. Deverão, então, ser endireitados pelas normas da justiça, da verdade, da sinceridade e da pureza.

“Os caminhos ásperos serão aplainados”: Isto é, as almas violentas e duras, que se deixam levar da ira, do rancor, da vingança, voltarão à doçura, à mansidão e à caridade pela influência da penitência que, juntamente com a oração, atrai as graças celestes.

“E todo homem verá a salvação de Deus”: O homem assim preparado verá o Salvador e participará dos seus méritos e da sua glória. Caríssimos, se nós queremos que Jesus venha a nós, se manifeste à nossa alma, lhe faça sentir as doces influências da sua divina
presença, nos comunique verdadeiramente a sua vida e as suas virtudes, preparemo-nos seriamente para bem O receber, limpemos o nosso coração de tudo o que é indigno d’Ele, de tudo o que poderia contristá-Lo. Despojemo-nos do homem velho, e revistamo-nos do Novo, procurando assim levar uma vida digna de Jesus.

Caríssimos, coisa tristíssima, constatamos hoje: comunhões mal feitas, sem a mínima melhora na vida espiritual. Muitos comungam e temos a impressão de que não sentem Jesus, não recebem os frutos de salvação e de santidade que Ele traz consigo! Por que? É porque a sua preparação deixa a desejar; esses não trabalham na sua conversão, na correção dos seus defeitos, não se importam da recomendação de Isaías e da Santa Madre Igreja: “Preparai o caminho do Senhor…” E vejam que não me refiro aqui a comunhões sacrílegas, que infelizmente são muitas… falo das almas que comungam estando em estado de graça, mas comungam sem a devida preparação, por rotina e com tibieza.

Por isso, terminemos  voltando-nos para Jesus: Ó Jesus, que o vosso amor encha o vale de meu coração; que a humildade aplaine as colinas e os montes de meu orgulho. Destruí, ó Senhor, com a chama ardente do Vosso amor todo o meu orgulho, soberba e vaidade, arrancai toda fibra do meu coração que não seja Vossa ou que esteja envenenada pelo amor próprio. Também eu quero diminuir-me, ó Senhor, para que possais crescer em mim, para que no dia do Vosso nascimento possais encontrar o meu coração completamente vazio e livre e portanto pronto para uma total invasão do Vosso amor. Amém!

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16 dezembro, 2017

Coluna do Padre Élcio: “Confessou a Verdade e não a negou”.

Explicação do Evangelho do 3º Domingo do Advento.

Por Padre Élcio Murucci – FratresInUnum.com

S. João I, 19-28
19. Eis o testemunho de João, quando os judeus lhe enviaram de Jerusalém sacerdotes e levitas a perguntar-lhe: Quem és tu? 20. Ele confessou a verdade e não a negou; e confessou: Eu não sou o Cristo. 21. Eles perguntaram-lhe: Quem és pois? És tu Elias? Ele respondeu: Não sou. És tu o profeta? Respondeu: Não sou. 22. Disseram lhe então: Quem és, pois, para que possamos dar resposta aos que nos enviaram? Que dizes de ti mesmo? 23. Disse-lhes ele: “Eu sou a voz do que clama no deserto: Endireitai o caminho do Senhor”, como disse o profeta Isaías. 24. Os que tinham sido enviados eram fariseus. 25. Interrogaram-no, dizendo: Como batizas, pois, se não és o Cristo, nem Elias, nem o profeta? 26. João respondeu-lhes dizendo: Eu batizo em água, mas no meio de vós está quem vós não conheceis. 27. Este é o que há de vir depois de mim, ao qual eu não sou digno de desatar a correia das sandálias. 28. Estas coisas passaram-se em Betânia, do lado de além do Jordão, onde João estava batizando.

 

Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

Neste domingo, o santo Evangelho mostra-nos o Precursor novamente dando testemunho de Nosso Senhor Jesus Cristo. Quão humilde e desinteressado este testemunho!

Divino Menino JesusOs Sacerdotes, os Levitas, enviados de Jerusalém, a cidade santa, vêm  oferecer a João o título de Cristo, de Messias, e colocar aos seus pés as homenagens que este título reclama. O próprio Espírito Santo inspira a S. João Evangelista a frisar enfaticamente a confissão do Precursor, deixando bem clara a retidão deste homem extraordinário: CONFESSOU A VERDADE E NÃO A NEGOU; E CONFESSOU: EU NÃO SOU O CRISTO.  Quantos hoje, seguramente com menos méritos e virtudes que João Batista, aceitam prazerosamente títulos análogos, ou até a si mesmos os atribuem!  Procuram atrair o povo não para Jesus pela santidade de vida; mas pela popularidade torna os fiéis seus fanáticos seguidores. Isto é uma rapina no Templo. Isto é trair a Jesus Cristo, porque para ser popular não se prega o que o Divino Mestre pregou, mas novidades ao sabor do mundo.  São precursores sim, mas do Anti-Cristo.

João Batista não é nem o Cristo, nem Elias, nem um profeta; ele é senão uma voz que clama no deserto. Sim, mas esta voz tão humilde, tão modesta se fez ouvir no mundo todo e ela aqui ainda ressoa e ressoará até o fim do mundo, enquanto que a voz destes falsos profetas modernos, desses pregadores de novidades e pretensas surpresas divinas, a voz, digo, destes soberbos “libertadores” está prestes a morrer, porque Jesus Cristo  sempre vence, reina e impera. Cristo é sempre o mesmo e Seus verdadeiros profetas não pregam novidades ao sabor do mundo, mas sempre a Tradição, procurando levar as almas a Jesus e Jesus às almas.

No início de seu Evangelho, S. João Apóstolo, diz: “Estava no mundo (o Verbo Encarnado) e o mundo fora feito por Ele, e o mundo não o conheceu”. E S. João Batista diz: “No meio de vós está quem vós não conheceis”. Na verdade, Jesus Cristo já estava há 30 anos entre o povo e este não o conhecia e não o recebia como o Messias, Ele, “glória como de Unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade” (S. João I, 14). É uma coisa surpreendente! Mas, caríssimos, não é igualmente incompreensível que Jesus seja hoje também inteiramente desconhecido por muitos? Há vinte séculos, com efeito, que Jesus Cristo está no mundo, o mundo foi feito por Ele, o mundo com suas luzes, com suas grandezas, suas glórias, sua civilização. Tudo o que neste mundo há de santo, de bom, de nobre é obra de Jesus Cristo, é obra de seu sangue, de seus trabalhos, de suas lágrimas, de sua morte, é obra de sua doutrina, obra de sua Igreja, desta Igreja da qual Ele não cessa de ser a alma. E o mundo assim feito por Jesus Cristo não O reconhece, o mundo O ultraja, O blasfema, O rejeita. Cumulados de seus benefícios, esclarecidos por suas luzes, no entanto, rejeitam a vida abundante que Jesus lhes oferece. Os homens de nosso tempo, em grande parte, talvez na maioria, recusam seu Benfeitor, menosprezam o seu único Guia, perseguem-No por toda parte, desprezam Sua Lei nas instituições, nas famílias e nas escolas.

Quem hoje conhece verdadeiramente a Jesus Cristo? Quem estuda Sua doutrina, quem procura se compenetrar de Suas máximas? Quem possui à fundo Sua Moral? E o pior, caríssimos, é que se realiza a palavra de Davi: “O injusto (pecador) disse em si mesmo que queria pecar; não há temor de Deus ante seus olhos. Porque ele procedeu dolosamente na sua presença, de sorte que a sua iniquidade se tornou mais odiosa. As palavras de sua boca são iniquidade e engano; não quis instruir-se para fazer o bem” (Salmo XXXV, 2-4). Hoje a maioria das mentes esta abarrotada de lamas pútridas de novelas e filmes imorais. Há fanatismo para os “ídolos” do futebol, do cinema, da música etc. Sobre eles sabem os mínimos detalhes. Mas não sabem o mínimo sobre Jesus Cristo. Como isto é triste!

Temos que lembrar aos homens modernos que Jesus Cristo é o único nome dado aos homens pelo qual podemos ser salvos (Cf. Atos IV, 12); não podemos encontrar a salvação senão em Jesus Cristo. Para ser salvo por Jesus Cristo é necessário primeiramente conhecê-Lo. “A vida eterna é esta: Que te conheçam a ti como um só Deus verdadeiro e a Jesus Cristo, a quem enviaste” (S. João, XVII, 3). Embora já transcorridos mais de 2 mil anos, ainda se faz necessário lembrar à humanidade que Jesus é a Porta pela qual é preciso entrar na verdade e na vida: “Eu sou a porta; se alguém entrar por mim, será salvo” (S. João X, 9).

Jesus é porta pela qual entramos na verdade sem limite e na vida sem fim. É preciso conhecer esta porta. Sem isto, choca-se contra a muralha, cansa-se e esgota-se por querer fazer uma passagem onde não há passagem possível; permanece-se do lado de fora, sem a verdade e sem a vida; debate-se nas trevas do erro, e extingue-se nos estertores da morte. Jesus é, pois, o caminho, a porta, a verdade, a vida e a luz!

Caríssimos, seja, pois, nosso maior empenho conhecer sempre melhor a Jesus e amá-Lo sem limite. S. Paulo colocava este conhecimento de Jesus acima de todos os conhecimentos, perto do qual o universo com todos seus tesouros não é nada: “Aquelas coisas que eu considerava como lucro, considerei-as como perdas por amor de Cristo. E na verdade tudo isso tenho por perda perante o eminente conhecimento de Jesus Cristo, meu Senhor, pelo qual renunciei a todas as coisas e as considero como esterco, para ganhar a Cristo” (Filip. III, 7 e 8). O conhecimento de Jesus Cristo, no entanto, não é um conhecimento só especulativo; é acima de tudo um conhecimento prático. Devemos ser o
perfume de Jesus na nossa conduta. Jesus é o modelo e nós somos como pintores. Nossa vida é a tela sobre a qual é necessário que reproduzamos traço por traço o protótipo divino que devemos ter sempre diante dos olhos. Se, portanto, conhecermos verdadeiramente a Jesus Cristo, infalivelmente este conhecimento aparecerá nos nossos atos.

O primeiro sinal pelo qual se manifesta o conhecimento de Jesus Cristo é o amor: “Quem não ama, não conhece a Deus, porque Deus é caridade” (1 João IV, 8). Deus, com efeito, sendo caridade, e Jesus Cristo não sendo senão a caridade de Deus tornada sensível pela Encarnação e Redenção, segue-se que conhecer a Jesus e não amá-Lo são duas coisas incompatíveis. E se amamos verdadeiramente a Jesus, amamos também os nossos irmãos. Daí S. João dizer neste mesmo capítulo no versículo 11: “Caríssimos, se Deus nos amou assim, devemos nós também amar-nos uns aos outros”. Os primeiros cristão conheciam a Jesus Cristo e O amavam de verdade, e por este amor, amavam seus irmãos. Viviam como se fossem “um só coração e uma só alma”, de tal modo que muitos pagãos se convertiam e exclamavam: “Vede como eles se amam!”

O segundo sinal pelo qual possamos saber se verdadeiramente conhecemos a Jesus é se nós observamos os seus mandamentos: “E sabemos que O(Jesus) conhecemos por isto: se guardamos os seus mandamentos. Quem diz que O conhece e não guarda os seus mandamentos, é um mentiroso e a verdade não está nele” (1 João II, 3 e 4).

Caríssimos, é possível, com efeito, conhecer a Jesus, ter penetrado no misterioso santuário de seu Coração Sagrado, ter medido a altura, a profundidade, a largura e o comprimento de seu amor por nós, sem se sentir animado de um santo zelo por observar seus mandamentos com uma fidelidade inviolável, a tal ponto que nem as ameaças, nem as torturas, nem a morte serão capazes de nos levar a nos afastarmos d’Ele,  de Seus mandamentos, de sua Doutrina, de Sua Igreja!? É o que nos mostra a vida dos santos, dos mártires, das santas virgens, das almas consagradas a Deus nos claustros e também dos leigos fervorosos que desprezam os prazeres que o mundo oferece. Eis o que o grande Apóstolo S. Paulo dizia num arroubo de amor a Jesus: “Quem nos separará do amor de Cristo? A tribulação? ou a angústia? ou a fome? ou a falta de agasalho, ou o perigo? ou a perseguição? ou a espada? … “Nenhuma criatura nos poderá separar do amor de Deus que está em Jesus Cristo Nosso Senhor” (Rom. VIII, 35 e segs).

Termino com a oração de Sta. Catarina de Sena: “Ó doce e amoroso Verbo, Vós dissestes-me: ‘Eis que eu te preparei o caminho e abri a porta com o meu Sangue; não sejas portanto negligente em segui-lo. Toma o caminho traçado por mim, eterna Verdade, e marcado pelo meu Sangue’. Ânimo, pois, alma minha, levanta-te e segue o teu Redentor, porquanto ninguém pode ir ao Pai senão por Ele. Ó doce Cristo, ó Cristo amor , Vós sois o caminho e a porta por onde nos convém entrar para chegar ao Pai”. Amém!

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9 dezembro, 2017

Coluna do Padre Élcio: “Eis que eu envio o meu mensageiro adiante de ti, o qual te preparará o caminho diante de ti”.

Explicação do Evangelho do 2º Domingo do Advento.

Por Padre Élcio Murucci – FratresInUnum.com

S. Mat. XI, 2-10
2. Como João, estando no cárcere, tivesse ouvido falar das obras de Cristo, enviou dois de seus discípulos, 3. a dizer-lhe: És tu aquele que há de vir, ou devemos esperar outro?4. Respondendo Jesus, disse-lhes: ide e contai a João o que ouvistes e vistes: 5. Os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são limpos, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam, os pobres são evangelizados; 6. e bem-aventurado aquele que não encontrar em mim motivo de escândalo. 7. Tendo eles partido, começou Jesus a falar de João às turbas: Que fostes vós ver ao deserto? Uma cana agitada pelo vento? 8. Mas que fostes ver? Um homem vestido de roupas delicadas? Mas os que vestem roupas delicadas vivem nos palácios dos reis. 9. Mas que fostes ver? Um profeta? Sim, vos digo eu, e ainda mais do que profeta; 10. Porque este é aquele de quem está escrito: “Eis que eu envio o meu mensageiro adiante de ti, o qual te preparará o caminho diante de ti”.

Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

João Batista era o precursor do Messias como fora escrito pelo profeta Isaías: “Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor” (Is. 40, 3).

john baptist

São João Batista

Malaquias igualmente diz: “Eis que mando o meu mensageiro, o qual preparará o caminho diante da minha face”. E o próprio Jesus confirma no vers. 10 do Evangelho de hoje, que João Batista é este mensageiro predito pelo profeta.

Mas, João Batista fora preso pelo rei Herodes porque censurava em face o adultério e o encesto deste cruel e debochado soberano. Lá do fundo da prisão, o Precursor quer dar um último testemunho de Jesus Cristo. João Batista já havia mostrado Jesus às margens do rio Jordão: “Eis o Cordeiro de Deus”. Dissera também quando Jesus vinha ter com ele: “Eis o Cordeiro de Deus, eis o que tira  o pecado do mundo. Este é aquele de quem eu disse: Depois de mim vem um homem que me foi preferido, porque era antes de mim, Eu não o conhecia, mas vim batizar em água, para ele ser reconhecido em Israel… Vi o Espírito (Santo) vir do céu em forma de pomba e repousou sobre ele. Eu não o conhecia, mas o que me mandou batizar em água, disse-me: Aquele, sobre quem vires descer e repousar o Espírito , esse é o que batiza no Espírito Santo. Eu o vi e dei testemunho de que ele é o Filho de Deus” (S. João I, 29-34).

Na verdade, os discípulos de João Batista não admitiam que pudesse haver outro Mestre acima dele. Mas o Precursor fazia questão de frisar que ele não era o Messias; foi mandado por Deus apenas para preparar os corações para receberem o Messias. Afirmava que o Salvador já estava no meio deles, e ele não era digno nem de desatar as correias de suas sandálias. Dizia outrossim, que era mister que Jesus crescesse e que ele diminuísse. Em outras palavras: o Batista deixava claro que a sua missão era levar o povo a seguir a Jesus e não a ele.

E assim compreendemos o significado desta atitude de João Batista em relação aos seus discípulos: queria que eles fossem até Jesus e vissem com os próprios olhos os milagres que Jesus fazia e que eram exatamente os que os profetas predisseram que o Messias faria quando viesse ao mundo. Embora um santo extraordinário, a Providência divina não quis que João Batista fizesse milagres.

Os enviados do Batista perguntaram a Jesus: “És tu aquele que há de vir ou devemos esperar outro? Respondeu-lhes Jesus: “Ide e contai a João  o que ouvistes e vistes: os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são limpos, os surdos ouvem, os mortos ressuscitam, os pobres são evangelizados”.

Lemos em Isaías XXXV, 3-6: “Deus mesmo virá e vos salvará. Então se abrirão os olhos dos cegos e se desimpedirão os ouvidos dos surdos. Então saltará o coxo como um cervo e desatar-se-á a língua dos mudos”. Em outro lugar diz: “E naquele dia os surdos ouvirão as palavras do livro, e dentre a escuridão e dentre as trevas as verão os olhos dos cegos” (Is. XXIX, 18).  Sobre os pobres eis o que diz ainda Isaías: “Não julgará pelo que se manifesta exteriormente à vista, nem condenará somente pelo que ouve dizer; mas julgará os pobres com justiça, tomará com equidade a defesa dos humildes da terra” (Is. XI, 3 e 4). E Davi no Salmo 71, 13: “Usará de clemência com o pobre e o desvalido, e salvará as almas dos pobres”.

Jesus não afirma: Eu sou o Messias. Faz muito mais: isto é, mostra que n’Ele se realizam as profecias sobre o Messias. Na presença dos discípulos de João Batista realiza as obras com que os profetas mostraram antecipadamente o perfil do futuro Messias. Os falsos profetas, os fundadores de religiões novas, Maomé, Lutero, Alan Kardec e muitos outros  afirmaram que eram os enviados de Deus, mas não o provaram com obras.

No versículo 6º Jesus diz: “E bem-aventurado aquele que não se escandalizar de mim!”. O velho Simeão havia predito que Jesus devia ser objeto de contradição por muitos, e esta predição se cumpria já. Jesus era alvo de escândalo por parte dos doutores que invejavam sua influência, pela vulgaridade que emanava de sua pobreza; era objeto de escândalo até por parte dos discípulos mesmos de João Batista que colocavam Jesus bem abaixo de seu mestre. Feliz portanto, exclama Jesus, aquele que não se escandalizar de mim, isto é, bem-aventurado aquele que reconhecer quem Eu sou, feliz quem vir em mim o Messias Redentor, o enviado do Altíssimo, o Filho de Deus!

Caríssimos, aceitemos tudo o que saiu dos lábios divinos de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele é, pois, o nosso Salvador, é o Filho de Deus vivo! Nos versículos 7-9 Jesus Cristo faz o elogio de João Batista: “Que fostes ver no deserto? Uma cana agitada pelo vento? Assim, o primeiro elogio que Jesus faz de João Batista é este de sua CONSTÂNCIA. João dera testemunho de Jesus às margens do Rio Jordão; dá-Lhe testemunho do fundo de sua prisão. Ele anuncia a verdade ao povo, aos sacerdotes, aos próprios reis, e com uma força que os faz tremer e empalidecer em seu trono. Portanto, João não é um caniço fraco e movediço à mercê do vento. Não é um destes homens pusilânimes que o temor o abate, que o respeito humano desconcerta e faz vacilar. Não, a prisão, a espada, a morte mesma não  levarão o Batista a trair seu dever. Na crise sem precedente que afeta a Igreja, ai dos Sacerdotes e Bispos que, às expensas da verdade, se preocupam prioritariamente quando não exclusivamente com seus interesses ambicionais ou monetários.

No vers. 8º  Jesus faz um segundo elogio ao Seu Precursor: “Mas que fostes ver? Um homem vestido de roupas delicadas? Mas os que vestem roupas delicadas vivem nos palácios dos reis”. Caríssimos, a PENITÊNCIA é uma das grades virtudes do cristianismo, uma virtude essencial, indispensável. Sem ela, a salvação eterna torna-se impossível. Portanto, quem quiser seguir a Jesus Cristo deve renunciar a si mesmo e tomar a sua cruz. João Batista que fora enviado por Deus para mostrar aos homens Jesus penitente, devia evidentemente apresentar em si mesmo antes de tudo os caracteres da penitência: habita os desertos, não tem por vestimenta senão peles de camelo presa por uma correia de couro; por alimento senão gafanhotos e mel silvestre. Nosso Senhor Jesus Cristo que quer inculcar no povo o amor da penitência, quis enfatizar cuidadosamente a prática da penitência em Seu santo Precursor.

Caríssimos, nestes tempos de moleza, de luxo e sensualidade, quão necessária se nos torna esta lembrança de Jesus e de Seu Precursor! Não somente nos palácios dos reis encontramos hoje aqueles que se vestem molemente, suntuosamente, sensualmente e imodestamente! Estes estão em total oposição à doutrina e aos exemplos do divino Mestre. No entanto, encontramos tais pessoas em toda parte, em todas as condições sociais, e, dizemos com tristeza, muitas vezes até nas casas paroquiais e episcopais. Talvez muitos sejam aqueles mesmos que, escandalizados criticam a suntuosidade na Casa de Deus.

No vers. 9º e 10º lemos o terceiro elogio: “Mas que fostes ver? Um profeta? Sim, vos digo eu, e ainda mais do que um profeta. Porque este é aquele de quem está escrito: “Eis que eu envio o meu mensageiro adiante de ti, o qual te preparará o caminho diante de ti”.  Na
verdade, os profetas não haviam feito senão anunciar o Salvador; João O mostra: “Eis o Cordeiro de Deus, eis aquele que tira os pecados do mundo”. Não é, portanto, somente profeta, ele é também apóstolo. Não somente prediz o Messias, ele O prega, O mostra à multidão, ganha para Ele numerosos discípulos. É outrossim, além de profeta e apóstolo, testemunha de Jesus também pelo sangue, ou seja, é mártir. Por ter dado testemunho da verdade, e por conseguinte, de Deus, que é a Verdade por essência, é que ele incorreu na cólera de Herodes, que é metido na prisão e que teve a cabeça cortada. E é por isso que Jesus disse que João era o maior dos filhos dos homens. Que santo da Antiga Lei, pois, reuniu tantos títulos, e mostrou em sua pessoa tão altas virtudes?

Caríssimos, que glória para João Batista receber dos lábios do Juiz Supremo e já aqui na terra, isto é, antes mesmo do Juízo Final, elogios tão altos! É que Jesus não se deixa vencer em generosidade. Estes elogios são, na verdade, a recompensa pelo desvelo, pelo zelo e pelo desinteresse perfeito com os quais João Lhe havia, por primeiro, dado testemunho.

Se quisermos, irmãos caríssimos, obter um dia esta mesma recompensa, isto é, que Jesus nos confesse, em seu dia supremo, diante do Pai, dos Anjos e dos homens, então, confessemo-Lo agora à exemplo de João Batista, confessemo-Lo por palavras, confessemo-Lo por obras, confessemo-Lo sem temor, sem respeito humano, com perigo de nossa vida, se necessário for. Não temos outra missão sobre a terra senão esta de servir de testemunha de Jesus Cristo e da verdade. É para isto que Deus nos colocou na terra. De cada um de nós é verdade dizer: “Este veio como testemunha, para dar testemunho da Luz”. A cada um de nós Jesus Cristo diz, como dizia aos seus apóstolos: “Sereis minhas testemunhas”. Devemos dar testemunho firme e impávido da doutrina e da pureza da moral de Nosso Senhor Jesus Cristo. Só assim, mereceremos no Juízo Universal, ouvir dos lábios divinos do Juiz Supremo aquelas palavras que nos farão felizes para todo sempre: “Vinde, benditos de meu Pai, possuí o reino de Deus, que vos foi preparado desde o início do mundo”. Amém!

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8 dezembro, 2017

“Eu sou a Imaculada Conceição”.

Por Padre Élcio Murucci – FratresInUnum.com

Ouçamos o Padre Rivaux:

Um só acontecimento bastaria para tornar o Pontificado de Pio IX eternamente célebre na Igreja: é a Definição do Dogma da Imaculada Conceição de Maria Santíssima, pronunciada a 08 de dezembro de 1854, na presença de 200 bispos, formando a mais augusta assembléia eclesiástica, havida desde o Concílio de Trento.

Eu sou a Imaculada Conceição.“É raro, diz o Padre Rivaux, que a Igreja defina um dogma para satisfazer somente aos piedosos desejos e à devoção dos fiéis. O motivo deste ato de poder, o maior que se possa exercer sobre o homem, foi sempre a condenação de algum erro perigoso; por isso os espíritos mais justos notam uma ligação e relação íntimas entre a definição dogmática da Imaculada Conceição e a condenação de todos os erros monstruosos, que infeccionavam o mundo, de sorte que uma dessas duas coisas não pode fazer-se sem a outra.

Desde o aparecimento do protestantismo, a guerra contra a Igreja tomou proporções gigantescas. Dessa grande heresia, continua o Padre Rivaux, nasceu o racionalismo, primeiramente teológico, depois teológico e filosófico, mais tarte teológico, filosófico e político, e finalmente teológico, filosófico, político e social. Este racionalismo, aplicado de mil modos pelas seitas modernas e sociedades secretas, abrange ao mesmo tempo o homem religioso e social, e forma um vasto sistema de erros, que invade e corrompe religião, moral, ciências, literatura, artes, política, família, tudo enfim, e ameaça arrancar de seus fundamentos toda a sociedade humana, para a reconstruir segundo as suas utopias, e dar-lhe uma nova organização humanitária.

“O princípio fundamental deste racionalismo de mil formas é a deificação da razão humana, que uns elevam ao nível e outros acima do dogma e da verdade revelada, e que finalmente os panteístas identificam com Deus mesmo. Deus confundido com o grande todo não subsiste e não se revela como pessoa senão na humanidade inteira; e os indivíduos da espécie humana somente dele são partículas ou modificações finitas e transitórias. – Como se vê, é um regresso para a antiga e absurda mentira de Satanás, tentando enganar a primeira mulher por estas palavras: Sereis com uns deuses.

“A conseqüência inevitável deste monstruoso sistema, ou antes o seu fundamento lógico necessário, é a negação do pecado original. Porque, segundo este sistema, o homem é isento de corrupção, é perfeito, é santo de sua natureza; os seus instintos, sejam quais forem, são bons e divinos, etc. Se no presente ele parece miserável e degradado, deve isto atribuir-se ao vício das leis sociais e religiosas. Cumpre pois curá-lo desses estorvos, emancipar a humanidade e reconstruí-la num estado perfeito, segundo uma nova moral, uma nova ciência, uma nova Igreja, e uma associação universal de todos os povos. É por isso que se fala tantas vezes de futuros destinos da humanidade, da emancipação da mulher, da carne, e até mesmo de redenção nova etc.

O Padre Rivaux fala em 1877 como se hoje estivesse explicando a nossa era, ou melhor dizendo, como se estivesse expondo a “NOVA ERA”, “NEW AGE”.

“Assim perfeito e santo de sua natureza, continua o Padre Rivaux, o homem não precisou de redenção. Em conseqüência, Jesus Cristo não foi senão um filósofo humanitário, encarregado unicamente de uma missão civilizadora e terrestre. Atribuíram-lhe depois falsamente as prerrogativas e os caracteres do deus humanidade, donde o seu nome de Deus-Homem ou Homem-Deus. – A sua história católica não é mais que um complexo de mitos, etc.

“O nosso último destino, a nossa suprema felicidade acha-se neste mundo, e só por um progresso indefinido e fatal se deve alcançar, etc. – É desta maneira que blasfemam, renegam a Jesus Cristo, e que alguns sábios, em nome do progresso, nos fazem retroceder até ao paganismo mais absurdo e grosseiro. E este paganismo moderno, proveniente, não de se ter ignorado o Evangelho, mas de se ter conhecido e renegado será pior que o antigo, um mal quase irremediável, segundo este oráculo de São Paulo: “É impossível que os que foram uma vez iluminados, e depois disto caíram, tornem a ser renovados pela penitência”. Tal é o resumo, tais são as conseqüências desastrosas e ímpias dos erros modernos. Em suma, nega-se o pecado original quer em si e seus efeitos, quer na reparação, que recebeu por meio de Jesus Cristo.

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Pio IX proclama o dogma da Imaculada Conceição.

“Mas o dogma do pecado original com os seus estragos no homem, e o dogma da redenção divina que os repara, foram já definidos pela Igreja. Por outro lado, é tal o estado da sociedade, é tamanho o resfriamento da fé, tão universal o da caridade, que se julgava, que se não podia esperar grande resultado da renovação das antigas definições, nem de uma condenação formal e solene dos principais erros modernos. O mal parecia exigir uma medida oportuna e sábia, que esclarecesse os espíritos e servisse ao mesmo tempo para inflamar os corações dos fiéis. Ora, a Igreja não podia melhor conseguir este fim do que definindo o dogma da Imaculada Conceição, no qual se acham encerradas e como personificadas todas as verdades do catolicismo, diretamente opostas aos numerosos erros do racionalismo moderno.

“Com efeito, se Maria, por um privilégio único foi preservada do pecado original, segue-se, que a posteridade de Adão não é nem pura nem santa na sua origem; mas que é viciada e culpável, e precisa de um Redentor. – Se Maria foi preservada, porque devia ser Mãe de Deus, segue-se que Jesus Cristo, seu filho, não é um filósofo humanitário ou uma pura idéia: é verdadeiramente Deus, unindo na pessoa simples e única do Verbo a natureza divina e a natureza humana. – Se é à dignidade e aos méritos de Jesus Cristo, seu Filho, reparador da humanidade decaída, que Maria deveu a sua preservação, segue-se, que a missão de Jesus Cristo não foi uma missão terrestre e meramente social, mas sim celeste e sobrenatural: isto é, remir o homem pecador, tirá-lo da morte do pecado, livrá-lo da escravidão do demônio.

Aqui o Padre Rivaux condena antecipadamente a TL e o MST. Basta o bispo de Campos estudar a verdadeira Teologia!

“Logo, a graça que Jesus Cristo veio trazer-nos não é a civilização política, mas a fé, a vida sobrenatural, a dignidade de filhos adotivos de Deus; logo a felicidade, para a qual veio encaminhar-nos, não é a felicidade temporal desta vida, mas a felicidade eterna do céu; logo a terra é um lugar de transição, de exílio, de expiação, de luta entre a carne viciada pelo pecado e o espírito ajudado da graça de Jesus Cristo, e por conseqüência todos os atos do homem, que tendem a diminuir nele os ardores da concupiscência, fruto do pecado, e a reformar as suas paixões revoltadas: assim como a oração, as obras de mortificação e de penitência, não são exagerações da idade média, excessos de um misticismo exaltado, mas sim os justos meios de aplicação, e como o complemento da Paixão de Nosso Divino Redentor, como ensina o grande Apóstolo das nações (Coloss. I, 24).

– Concluamos ainda que, se o homem, desde a sua origem, foi pecador ou prevaricador, não é independentemente de sua natureza; logo há uma lei superior, a que deve obedecer; logo são falsas as máximas da pretendida liberdade absoluta do homem, da independência do seu pensamento, da soberania da humanidade e da opinião, etc.
“Pelo que precede se vê quantas verdades importantes se acham encerradas e concentradas na da Imaculada Conceição da Santíssima Virgem, e quantos erros perniciosos dos nossos tempos foram condenados pela definição deste dogma. – Assim se verifica cada vez mais o que a Igreja canta em honra de sua gloriosa Rainha: “Ó santa Virgem, só vós exterminastes todas as heresias no universo inteiro”: Cuncta haereses tu sola interemisti in universo mundo”.

“Uma dupla manifestação provocada pela definição deste dogma em oito de dezembro de 1854 provou bem esta verdade consoladora: a manifestação odienta e violenta da incredulidade, e a manifestação filial e jubilosa dos fiéis. O dragão infernal de novo esmagado sob o pé da Virgem não podia deixar de soltar gritos de furor; incapaz de cantar a beleza de Maria Imaculada, o monstro esforçou-se inutilmente por manchá-la e feri-la no calcanhar: insidiaberis calcaneo ejus.

“Mas por outro lado e ao mesmo tempo, os filhos da Igreja e da verdade exultaram de alegria e de felicidade. Os entusiasmos de Éfeso empalidecem e desaparecem perante os fogos de júbilo e de triunfo, que todo o mundo católico espontaneamente acendeu em honra da Imaculada Virgem Maria. – Este consolador dogma foi proclamado na cidade eterna, donde a vista de Maria abrange todo o universo católico, como o poder divino que ali se exerce; e as cidades e as aldeias imitam a Igreja Mãe e Senhora. – Deus, que recusara a proclamação da Imaculada Conceição às instâncias dos séculos de fé, tinha-a, em sua bondade, reservado para os nossos tempos, corrompidos e ameaçados por sofistas, sem dúvida para os curar e salvar. – Assim o procedimento da Igreja, a alegria dos fiéis, a raiva do inferno, o despeito, os sarcasmos e as blasfêmias da impiedade, tudo se explica naturalmente.

“Foi tão agradável à Santíssima Virgem a definição deste dogma, que ela se dignou confirmá-la, pronunciando em 1858, estas palavras: “EU SOU A IMACULADA CONCEIÇÃO”, na memorável e tão misericordiosa aparição em Lourdes, que abriu para todo o mundo e particularmente para a França uma fonte inexaurível de milagres, de graças, e de bênçãos”.

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2 dezembro, 2017

Coluna do Padre Élcio: O Advento e a segunda vinda do Senhor.

Comentário ao Evangelho do 1º Domingo do Advento no Missa Romano Tradicional.

S. Lucas XXI, 25-33
25. Haverá sinais no sol, na lua e nas estrelas; na terra, consternação dos povos pela confusão do bramido do mar e das ondas, 26. mirrando-se os homens de susto, na expectação do que virá sobre todo o mundo, porque as virtudes dos céus se abalarão. 27. Então verão o Filho do homem vir sobre uma nuvem com grande poder e majestade. 28. Quando começarem, pois, a suceder estas coisas, erguei-vos e levantai as vossas cabeças, porque está próxima a vossa libertação. 29. Acrescentou esta comparação: Vede a figueira e todas as árvores. 30. Quando começam a desabrochar, conheceis que está perto o estio. 31. Assim, também, quando virdes que acontecem estas coisas, sabei que
está próximo o reino de Deus. 32. Em verdade vos digo que não passará esta geração, sem que todas estas coisas se cumpram. 33. Passará o céu e a terra, mas as minhas palavras não passarão.
Caríssimos e amados irmãos!

Hoje é o primeiro domingo do Advento, tempo de preparação para a comemoração do Santo Natal, data esta, como diz São Paulo escrevendo a Tito III, 4, “em que se manifestou a bondade de Deus nosso Salvador e o seu amor pelos homens, não pelas obras de justiça que tivéssemos feito, mas por sua misericórdia”.

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Assim, à primeira vista, talvez tenhamos dificuldade em compreender porque no início do Advento, a Santa Madre Igreja, nos leva a meditar sobre a segunda vinda de Jesus, que será com grande poder e majestade e para julgar os vivos e os mortos. Na preparação de um mistério de bondade e amor a Igreja quer que meditemos num mistério da Justiça divina no Juízo Universal incutindo-nos temor, e, como diz Jesus no vers. 26: “Mirrando-se os homens de susto”.

A Santa Madre Igreja assim fazendo, age com sabedoria porque a Sagrada Escritura afirma que: “O temor do Senhor é o início da sabedoria” (Prov.. I, 7) e no Eclesiástico I, 27 diz: “O temor do Senhor expulsa o pecado; quem não tem este temor não poderá ser justo”. Ora, caríssimos, a melhor preparação para celebrarmos o Santo Natal, é evitar o pecado, convertermo-nos e começarmos uma vida nova sempre na graça de Deus.

A Santa Igreja, aliás, não só inicia, mas, como vimos no domingo passado, o último do ano litúrgico, também falou-nos do fim do mundo e do Juízo Final. Ela quer que passemos santamente o ano e assim nos leva a meditar sobre os novíssimos, porque segue, outrossim, o conselho do próprio Divino Espírito Santo nas Sagradas Escrituras: “Em todas as tuas obras lembra-te dos teus novíssimos e nunca jamais pecarás” (Eclesiástico VII, 40).

Caríssimos, vamos resumir o que escrever sobre o Juízo Universal, o grande Doutor da Igreja, Santo Afonso M. de Ligório: O Redentor destinou o dia do Juízo Universal (chamado com razão, na Escritura, o dia do Senhor), no qual Jesus Cristo se fará reconhecer por todos como universal e soberano Senhor de todas as coisas (Sl  9, 17). Esse dia não se chama dia de misericórdia e perdão, mas “dia da ira, da tribulação e da angústia, dia de miséria e calamidade” (Sofonias I, 15). Nele o Senhor se ressarcirá justamente da honra e da glória que os pecadores quiseram arrebatar-Lhe neste mundo.

Vejamos como há de suceder o juízo nesse grande dia. A vinda do divino Juiz será precedida de maravilhoso fogo do céu (Salmo 96, 3), que abrasará a terra e tudo quanto nela exista (2 S. Pedro III, 10). Palácios, templos, cidades, povos e reinos, tudo se reduzirá a um montão de cinzas. É mister purificar pelo fogo esta grande casa, contaminada de pecados. Tal é o fim que terão todas as riquezas, pompas e delícias da terra. Mortos os homens, soará a trombeta e todos ressuscitarão (1 Cor. XV, 52). Dizia S. Jerônimo: “Quando considero o dia do juízo, estremeço. Parece-me ouvir a terrível trombeta que chama: Levantai-vos, mortos, e vinde ao juízo”.

Ao clamor pavoroso dessa voz descerão do céu as almas gloriosas dos bem-aventurados para se unirem a seus corpos, com que serviram a Deus neste mundo. As almas infelizes dos condenados sairão do inferno e se unirão a seus corpos malditos, que foram instrumentos para ofender a Deus.

Que diferença haverá então entre os corpos dos justos e dos condenados! Os justos  parecerão formosos, cândidos, mais resplandecentes que o sol (S. Mateus XIII, 43). Feliz aquele que nesta vida soube mortificar sua carne, recusando-lhe os prazeres proibidos, ou que, para melhor refreá-la, como fizeram os Santos, a macerou e lhe negou também os gozos permitidos dos sentidos!… Pelo contrário, os corpos dos réprobos serão disformes,  e hediondos. Que suplício então para o condenado ter de unir-se a seu corpo! … “Corpo maldito  – dirá a alma   –  foi para te contentar que me perdi!” Responder-lhe-á o corpo: “E tu, alma maldita, tu que estavas dotada da razão, por que me concedeste aqueles deleites, que, por toda a eternidade, fizeram a tua e a minha desgraça?”

Assim que os mortos ressuscitarem, farão os anjos que se reúnam todos no vale de Josafá para serem julgados (Joel III, 14) e separarão ali os justos dos réprobos (S. Mat. XIII, 49). Os justos ficarão à direita; os condenados, à esquerda… Que confusão experimentarão os ímpios, quando, apartados dos justos, se sentirem abandonados! Disse S. João Crisóstomo que, se os condenados não tivessem de sofrer outras penas, essa confusão bastaria para dar-lhes os tormentos do inferno.

Caríssimo irmão, abandona  o caminho que conduz à esquerda. Os eleitos serão colocados à direita, e para maior glória   –  segundo afirma o Apóstolo  –  serão elevados aos ares, acima das nuvens, e esperarão com os anjos a Jesus Cristo, que deve descer do céu (1 Tess IV, 17). Os réprobos, à esquerda, como reses destinadas ao matadouro, aguardarão o Supremo Juiz, que há de tornar pública a condenação de todos os seus inimigos.

Abrem-se, enfim, os céus e aparecem os anjos para assistir ao juízo, trazendo os sinais da Paixão de Cristo, disse Santo Tomás. Singularmente resplandecerá a santa Cruz. “E então aparecerá o sinal do Filho do homem no céu; e todos os povos da terra chorarão” (S. Mat.
XXIV, 30). Os Apóstolos serão assessores e com Jesus Cristo julgarão os povos. Aparecerá, enfim, o Eterno Juiz em luminoso trono de majestade: “E verão o Filho do Homem, que virá nas nuvens do céu, com grande poder e majestade. À sua presença chorarão os povos” (S. Mat. XXIV, 30). A presença de Cristo trará aos eleitos inefável consolo, e aos réprobos aflições maiores que as do próprio inferno, disse S. Jerônimo. Cumprir-se-á, então, a profecia de S. João: “Os condenados pedirão às montanhas que caiam sobre eles e os ocultem à vista do Juiz irritado” (Apoc. VI, 16).

Começará o julgamento, abrindo-se os autos do processo, isto é, as consciências de todos (Dan. VII, 10). A própria consciência dos homens os acusará depois (Rom. II, 15). A seguir, darão testemunho clamando vingança, os lugares em que os pecadores ofenderam a Deus (Hab. II, 11). Virá enfim, o testemunho do próprio Juiz que esteve presente a quantas ofensas lhe fizeram (Jer. XXIX, 23). Disse S. Paulo que naquele momento o Senhor “porá às claras o que se acha escondido nas trevas” (1 Cor. IV, 5). Os pecados dos eleitos, no sentir do Mestre das Sentenças e de outros teólogos, não serão manifestados, mas ficarão encobertos, segundo estas palavras de Davi: “Bem- aventurados aqueles, cujas iniquidades foram perdoadas, e cujos pecados são apagados” (Salmo 31, 1). Pelo contrário   –  disse S. Basílio  –  as culpas dos réprobos serão vistas por todos, ao primeiro relancear d’olhos, como se estivessem representadas num quadro. Exclama S. Tomás: “Se no horto de Getsêmani, ao dizer Jesus: Sou eu, caíram por terra todos os soldados que vinham para o prender, que sucederá quando, sentado no seu trono de Juiz, disser aos condenados: “Aqui estou, sou aquele a quem tanto haveis desprezado!”.

Chegada a hora da  sentença, Jesus Cristo dirá aos eleitos estas palavras, cheias de doçura: “Vinde, benditos de meu Pai, e possuí o reino que vos está preparado desde o princípio do mundo” (S. Mat. XXV, 34). Que consolação não sentirão aqueles que ouvirem estas palavras do soberano Juiz: “Vinde, filhos benditos, vinde a meu reino. Já não há mais a sofrer, nem a temer. Comigo estais e permanecereis eternamente.

Abençôo as lágrimas que sobre os vossos pecados derramastes. Entrai na glória, onde juntos permaneceremos por toda a eternidade”. A virgem Santíssima  abençoará também os seus devotos e os convidará a entrar com ela no céu. E assim, os justos, entoando gozosos Aleluias, entrarão na glória celestial, para possuírem, louvarem e amarem eternamente a Deus.

Os réprobos, ao contrário, dirão a Jesus Cristo: “E nós, desgraçados, que será feito de nós?” E o Juiz Eterno dir-lhes-á: Já que desprezastes e recusastes minha graça , apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno (S. Mat. XXV, 34). Apartai-vos de mim, que nunca mais vos quero ver nem ouvir. Ide, ide, malditos, que desprezastes minha bênção…” Mas para onde, Senhor, irão estes desgraçados?… Ao fogo do inferno, para arder ali em corpo e alma…” E por quantos séculos?… Por toda a eternidade, enquanto Deus for Deus. Depois desta sentença, abrir-se-á na terra um imenso abismo e nele cairão conjuntamente demônios e réprobos. Verão como atrás deles se fechará aquela porta que nunca mais se há de abrir… Nunca mais durante toda a eternidade!… Ó maldito pecado!… A que triste fim levarás um dia tantas pobres almas!… Ai! das almas infelizes às quais aguarda tão deplorável fim.

Vejamos, agora, o que escreveu Santo Tomás de Aquino: SUM. THEOL., 3ª Parte, q. 59, a. 5.

Se além do juízo proferido no tempo presente, haverá um outro Juízo Universal. Este quinto artigo discute-se assim: Parece que além do juízo particular proferido no tempo presente, não haverá nenhum outro juízo universal.

OBJEÇÕES:

1 – Pois, é inútil acrescentar qualquer juízo, depois da retribuição dos prêmios. Ora, no tempo presente é que se faz a retribuição dos prêmios e das penas: disse, pois, o Senhor ao ladrão na cruz como se lê em Lucas XVI, 22: Hoje estarás comigo no paraíso, diz-se  em outro lugar do Evangelho que morreu o rico e foi sepultado no inferno (Lucas XII, 22). Logo, é vão esperar o Juízo Final.

2 – Demais: Em Naum I, 9  diz-se, segundo outra tradução (dos Setenta): “Deus não julgará duas vezes a mesma coisa” [segundo a Vulgata: a tribulação não virá duas vezes].  Ora, no tempo presente o juízo de Deus se exerce na ordem temporal e na espiritual. Logo, parece que não devemos esperar nenhum juízo final.

3 – Demais: O prêmio e a pena correspondem ao mérito e ao demérito. Mas o mérito e o demérito não recaem sobre o corpo senão enquanto instrumento da alma. Logo, nem o prêmio ou a pena são devidos aos corpos senão por causa da alma. Portanto, não há necessidade de nenhum juízo final para ser o homem premiado ou punido no seu corpo, além daquele pelo qual são punidas ou premiadas as almas.

SED CONTRA:

Mas, EM CONTRÁRIO, diz o Evangelho em João XII, 48: ” A palavra que eu vos tenho falado, esta o julgará no último dia”. Logo, haverá um juízo no último dia além do juízo exercido no presente tempo [logo após a morte].

RESPONDO dando a SOLUÇÃO: Deve-se dizer que o juízo de uma coisa mutável não se pode dar perfeitamente senão depois de sua consumação: assim nenhum juízo perfeito sobre a qualidade de uma ação pode ser proferido, antes de consumada em si e nos seus efeitos. Pois, muitas ações, que parecem úteis, demonstram-se nocivas pelos seus efeitos.
Semelhantemente, nenhum juízo perfeito pode ser proferido de um homem, enquanto não se lhe terminar a vida; porque pode de muitos modos mudar do bem para o mal ou vice-versa, ou do bem para o melhor, ou do mal para o pior. Donde o dizer o Apóstolo em Hebreus IX, 27: “Está decretado aos homens que morram uma só vez e que depois disto se siga o juízo”.

Devemos, porém, saber que, embora a morte termine a vida de um homem em si mesma, contudo permanece, de certo modo, dependente do futuro.

–  Primeiro, por viver ainda na memória dos outros, que às vezes deles guardam uma fama boa ou má, que não corresponde à verdade.

– Segundo, por perdurar nos filhos, que são como parte do pai, segundo aquilo da Escritura em Eclesiástico XXX, 14: “Morre o pai dele e foi como se não morresse, porque deixou depois de si um seu semelhante”. E contudo muitos que foram bons deixaram maus filhos e inversamente.

– Terceiro, quanto ao efeito das suas obras; assim, os sofismas de Ario e de outros sedutores  gerarão a infidelidade até ao fim do mundo, bem como até o fim progredirá a fé nascida da pregação dos Apóstolos.

– Quarto, quanto ao corpo que, umas vezes é dado honras e, outras, é deixado insepulto; e contudo vem ao cabo a resolver-se de todo em cinzas.

–  Quinto, quanto às coisas em que o homem fixou o seu afeto, p. ex. em certos bens temporais, dos quais uns acabam mais depressa e outros duram mais diuturnamente.

Ora, todas essas coisas estão sujeitas à estimativa do juízo divino. Por onde, não podem elas todas ser perfeita e manifestamente julgadas, enquanto dura o curso desta vida. Donde a necessidade de um juízo final, no dia derradeiro, quando o que concerne a cada homem em particular, perfeitamente e de qualquer modo, será perfeita e manifestamente julgado.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO. [É bom reler cada objeção antes de ler sua resposta]. Certos homens foram de opinião que nem as almas dos santos serão premiadas no céu, nem as dos condenados punidas no inferno, até o dia do Juízo (final). O que é manifestamente falso, pelo dito do Apóstolo em 2 Cor. V, 8: “Cheios de confiança, temos mais vontade de nos ausentarmos do corpo e estar presentes ao Senhor”; o que é já não andar por fé, mas por visão, como resulta da seqüência do texto. Ora, isso é ver a Deus em essência, no que consiste a vida eterna, conforme está claro no Evangelho de S. João XVIII, 3. Por onde é manifesto que as almas separadas do corpo vivem na vida eterna. Donde se conclui que depois da morte, no que toca à alma, o homem está posto num estado imutável. E assim, para prêmio da alma não é necessário seja o juízo diferido para depois. Mas, como há outras coisas que dizem respeito ao homem e se desenrolam em todo o decurso do tempo e que não estão isentas ao juízo divino, é necessário que de
novo, ao fim dos tempos, sejam trazidas a juízo. Embora, pois, por elas o homem não mereça nem desmereça, contudo lhe redundam de certo modo em prêmio ou em pena. E por isso é necessário seja tudo ponderado no juízo final.

RESPOSTA À SEGUNDA OBJEÇÃO: [por gentileza, leia a objeção acima]. Deus não julgará duas vezes a mesma causa, i. é, sob a mesma luz. Mas, à luzes diversas, nenhum inconveniente há em julgar Ele duas vezes.

RESPOSTA À TERCEIRA OBJEÇÃO: [por gentileza, leia a objeção acima]. Embora o prêmio ou a pena do corpo dependa do prêmio ou da pena da alma, contudo, não sendo a alma mutável, em virtude do corpo, senão por acidente, desde que estiver separada dele ficará num estado imutável e receberá então a sua sentença. Ao contrário, o corpo permanecerá mutável até ao fim dos tempos. Logo e necessariamente, no juízo final é que há de receber o prêmio ou a pena.

Caríssimos, gostaria de acrescentar algo que Santo Tomás de Aquino diz sobre os Anjos no Juízo Universal: O Doutor Angélico lembra primeiramente que a sorte eterna dos anjos, tanto dos bons como dos maus, já está decidida; possuem o prêmio ou a pena que corresponde à sua fidelidade ou infidelidade a Deus. Todavia, acrescenta que no último juízo será considerado o que de bem ou de mal tiverem praticado em suas relações com os homens no decurso da História; isto lhes valerá consequentemente um aumento acidental de glória ou de pena. (Cf. Summa Theologica, Supl. q. 89, a. 8).

Creio que, por analogia, e mudando o que deve ser mudado, podemos aplicar este raciocínio do Santo Doutor também aos homens no que tange às consequências de suas obras (tanto dos bons como dos maus) depois da morte até o fim do mundo. Em outras palavras: pelo Juízo Particular logo após a alma sair do corpo já estão fixadas a salvação dos bons, e a condenação dos maus; mas, no Juízo Final, os bons receberão o prêmio pelas boas consequências de suas boas obras depois da morte  e os maus o castigo pelas consequências de suas más obras pós túmulo até o fim do mundo. Aliás é o que, em outras palavras, ensina o Doutor Angélico na resposta à primeira objeção.

Meu Deus e meu Salvador! Já que declarastes pela boca do vosso Profeta: “Convertei-vos a mim, e eu me voltarei a vós” (Zac. I, 3), tudo abandono, renuncio a todos os gozos e bens do mundo, e converto-me, abraçando a Vós, meu amantíssimo Redentor. Recebei-me no vosso Coração e inflamai-me no vosso santo amor, de modo que jamais cogite em separar-me de Vós… Maria Santíssima, minha esperança, meu refúgio e minha mãe, ajudai-me e alcançai-me a santa perseverança. Amém!

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25 novembro, 2017

Coluna do Padre Élcio: O Juízo Universal.

 “Tendo dito isto,(Jesus) elevou-se à vista deles; e uma nuvem os ocultou aos seus olhos. Como estivessem olhando para o céu, quando ele ia subindo, eis que se apresentaram junto deles dois personagens vestidos de branco, os quais lhes disseram: Homens da Galileia, por que estais olhando para o céu? Esse Jesus que, separando-se de vós, foi arrebatado ao céu, virá do mesmo modo que o vistes ir para o céu” (Atos I, 9-11).

“Pois é necessário que todos nós compareçamos diante do tribunal de Cristo, para que cada um receba o que é devido ao corpo, segundo fez o bem ou o mal” (2 Cor. V, 10).

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

Vamos seguir o Catecismo Romano.

SUA REALIDADE: Em prova do Juízo Final, basta citar esta passagem do Apóstolo: “Todos nós teremos de comparecer perante o tribunal de Cristo, para que cada um receba retribuição do bem ou do mal, que tiver praticado em sua vida terrena” (2 Cor. V, 10 e Rom. XIV, 10).

juizo-finalA Escritura está cheia de textos, que os párocos descobrirão a cada passo, quando quiserem explicar este mistério e torná-lo mais acessível à inteligência dos fiéis (P. ex.: 1 Reis, 2, 10; Oséias  95, 13; Is 2, 12; Jer. 46, 10; Dan. 7, 26; Joel 2, 1-13; Sof. 1, 7-14; Mal. 4, 1; Mat. 13, 40; Luc. 17, 24; Atos 1, 11; Rom. 2, 16; 1 Cor. 15, 51; 1 Tess. 1, 10; Apoc. 20, 11).

O Juízo final é objeto de nossa esperança: Se desde o início do mundo, todos ansiavam pelo dia em que o Senhor Se revestiu de nossa carne, porquanto neste mistério punham a esperança de seu resgate, também agora devemos  –  depois da Morte e Ascensão do filho de Deus – suspirar ardentemente pelo segundo Dia do Senhor, “aguardando a ditosa
esperança e o aparecimento da glória do grande Deus” (Tito II, 13).

Explicação dos dois juízos: Na explicação desta matéria, os párocos terão de atender às duas ocasiões em que todo homem deve comparecer na presença do Senhor, para dar contas de todos os seus pensamentos, ações e palavras, e aceitar finalmente a sentença imediata do juiz. (Cf. Hebr. IX, 27).

O juízo particular: A primeira ocasião é o momento em que cada um de nós deixa este mundo; é levado incontinente ao tribunal de Deus, onde se examina, com a máxima justeza, tudo o que jamais fez, disse, e pensou em sua vida. [No original em latim: “Ibique de omnibus justissima quaestio habebitur, quaecumque aut egerit homo, aut dixerit, aut cogitaverit unquam”. Tomo a liberdade de corrigir a tradução porque em latim “unquam” só significa “jamais” nas frases negativas, interrogativas e condicionais. Nos outros casos significa: em algum momento, em algum dia. Então a tradução correta:

“Onde se examina com a máxima justeza, tudo o que em algum momento o homem fez, disse e pensou em sua vida”]. É o que se chama Juízo Particular.

O juízo universal: A segunda ocasião, porém, há de ser quando todos os homens comparecerem juntos, no mesmo dia e lugar, perante o tribunal do juiz, para que, na presença de todos os homens de todos os séculos, cada um venha a saber a sentença que a seu respeito foi lavrada. Para os ímpios e malvados, esta declaração de sentença constituirá a não menor parte de suas penas e castigos; ao passo que os virtuosos e justos nela terão boa parte de sua alegria e galardão. Naquele instante, será pois revelado o que foi cada indivíduo, durante sua vida mortal. Este Juízo se chama Universal.

Motivos para o Juízo Universal:

a) Abrir todas as consciências.  Será então necessário mostrar porque, além do Juízo Particular para cada um, se fará ainda outro geral para todos os homens. Ora, os mortos deixam às vezes filhos que imitam os pais; descendentes e discípulos que seguem e propagam seus exemplos em palavras e obras. Esta circunstância aumenta necessariamente os prêmios ou castigos dos próprios mortos (Basilius M. de vera virginitate). [A primeira vista isto parecer-nos-á estranho; por isso, abaixo no final, explicá-lo-ei]. Tal influência, cujo caráter benéfico ou maléfico empolga muitos, só acabará no último dia do mundo. Convinha, então, fazer-se uma perfeita averiguação de todas essas obras e palavras, quer sejam boas, quer sejam más. O que, porém, não seria possível sem um julgamento geral de todos os homens.

b) Reabilitar os justos. Outro motivo ainda. Muitas vezes, os justos são lesados na reputação, enquanto os ímpios passam por grandes virtuosos. Pede a divina justiça que, numa convocação para o público julgamento de todos os homens, possam os justos recuperar a boa fama, que lhes fora iniquamente roubada aos olhos do mundo.

c) Responsabilizar também o corpo. Além disso, em tudo o que façam durante a vida, bons e maus não prescindem da cooperação de seus corpos. Daí decorre, necessariamente, que as boas ou más ações devem atribuir-se também aos corpos, que delas foram instrumentos. Era, pois, de suma conveniência que os corpos partilhassem, com as almas, dos prêmios da eterna glória ou dos suplícios, conforme houvessem merecido. Isto, porém, não poderia efetuar-se, sem a ressurreição de todos os homens, e sem um julgamento universal.

d) Justificar a Providência de Deus. Como também a fortuna e a desgraça não fazem escolha entre bons e maus, era afinal necessário provar que tudo é dirigido e governado pela infinita sabedoria e justiça de Deus. Convinha, pois, não só reservar, na vida futura, prêmios aos bons e castigos aos maus, mas também decretá-los num juízo público e universal, que os tornasse mais claros e evidentes a todos os homens. Desta forma, todos renderão louvor a Deus pela sua justiça e providência, em desagravo daquela injusta queixa com que às vezes nos próprios Santos, por sentimento humano, se lastimavam, ao verem os maus na posse de grandes cabedais e dignidades. O Profeta (Davi) dizia: “Meus pés estiveram a ponto de vacilar. Por pouco se não transviaram meus passos, porque me enchi de zelo contra os maus, quando observava a vida bonançosa dos pecadores” (Salmo 72, 2 e 3). Mais adiante: “Eis que, sendo pecadores, e favorecidos pelo mundo, eles conseguiram riquezas. E eu disse: Então não me adiantou guardar puro meu coração, e lavar em inocência minhas mãos; em ser torturado o dia inteiro, e padecer aflição desde o romper da madrugada” (Salmo 72, 12-14). Por conseguinte, precisava haver um Juízo Universal, a fim de que os homens se não pusessem a comentar que Deus passeia pelos quadrantes do céu, e que pouco se Lhe dá a sorte das coisas terrenas (Cf. Jó 22, 14). Com toda razão foi incluída a fórmula desta verdade nos doze artigos do Credo, para apoiar, com a força da doutrina, os ânimos que duvidem da providência e justiça de Deus.

e) Alentar os bons e aterrar os maus. Sobretudo, era mister que a lembrança do Juízo alentasse os bons, e aterrasse os maus. Conhecendo a justiça de Deus, aqueles não viriam a desfalecer; estes seriam arredados do mal, graças ao temor e à expectação dos eternos castigos. Por isso, falando do Último Dia, Nosso Senhor e Salvador declarou que haveria um Juízo Universal. Descreveu os sinais do tempo em que há de chegar, para que, ao vê-los, reconhecêssemos estar perto o fim do mundo. Depois, no momento de subir aos céus, enviou Anjos que dissessem aos Apóstolos, tristes com Sua ausência, as seguintes palavras de consolação: “Este Jesus que de vosso meio foi arrebatado ao céu, há de vir assim como O vistes subir ao céu” (Atos I, 11).

Observação: O Catecismo Romano continua tratando do Juízo Universal; mas, para não me alongar por demais, e ao mesmo tempo, querendo desde já explicar o primeiro motivo do Juízo Universal aduzido pelo Catecismo Romano, omitirei o restante deste capitulo.

Que Deus me ajude a bem explicar o primeiro motivo do Juízo Universal acima aduzido pelo Catecismo Romano:

Abrir todas as consciências. Em primeiro lugar citarei alguns escritores célebres a começar pelos santos que escreveram sobre isto. Santo Antônio Maria Claret, a primeira e mais lídima glória do Concilio Vaticano I, Missionário extraordinário e fundador dos Missionários do Coração de Maria, assim diz em seu Catecismo da Doutrina Cristã: “Os bons e os maus, com as obras que fizeram e com o bem que omitiram, deixaram neste mundo uma herdade plantada que, no bem ou no mal, continua a frutificar aumentando o prêmio ou o castigo; no dia do juízo (está falando sobre o Juízo Universal), porém chegará o seu fim, pois, então se verá todo o bem que fizeram os justos e todo o mal dos malvados”. E hoje pensamos na aplicação destas palavras ao próprio Santo Antônio M. Claret que deixou escritos 144 livros, queimou 3 mil livros obscenos e estampas escandalosas e distribuiu gratuitamente só na Ilha de Cuba mais de 200 mil livros bons. Olhando o outro lado da moeda, Fidel Castro no dia do Juízo Final dará contas a Deus pelos males do Comunismo que perdurarem mesmo após a sua morte.

Ouçamos agora o célebre escritor Dom Plat:

“Todo homem há de pagar tributo à morte. E desde aquele momento seus atos bons cessam de merecer, e os maus cessam de atrair novos castigos? Não, porque, ainda que o homem em questão, não mereça nem desmereça em virtude de atos pessoais, estes atos, realizados durante sua vida mortal, continuam tendo consequências boas, se foram louváveis, e consequências funestas, se foram maus ou criminosos. O Doutor Angélico, em seu magistral artigo sobre este tema (S. Thel. 3ª Parte, q. 59, a. 5. Este será o artigo do próximo sábado)   põe a Ario como exemplo: Ario que foi o primeiro dos grandes heresiarcas, Ario, o precursor, o inspirador, o pai, mais ou menos direto, da maior parte das heresias que hão desolado e que provavelmente desolarão o Oriente até a consumação dos séculos: “Ex deceptione Arri, et aliorum fautorum pullulat infidelitas usque ad finem mundi” (…)

Passemos agora, continua Plat, a outra classe de coisas mui diferentes: Que bem não fez S. Vicente de Paulo durante os oitenta anos de sua existência mortal (…) e é mui provável que esta influência do santo se perpetuará até o fim dos séculos. O que equivale dizer que (…) o santo varão aumentará de dia em dia o número de seus méritos. (…) Oh! quão grande é a responsabilidade que contraímos por nossas ações! Para muitos esta responsabilidade será tal, que a conta da mesma não se encerrará até a consumação dos séculos. Por esta razão , podemos dizer com um autor espiritual (Gaussens): “É necessário o juízo final, para que todas nossas boas obras hajam dado seu fruto; é necessário o juízo final, para que, ao findar o tempo, havendo manifestado todas as consequências de nossa vida, o justo Juiz possa examinar, em toda sua extensão, nossa culpabilidade ou nosso mérito” (Cf. Expl. do Cat. de S, Pio V, Símbolo dos Apóstolos, sermão 50º).

Agora, o Catecismo Católico Popular por Francisco Spirago: “No Juízo (Final) Deus revelará também a sua JUSTIÇA, porque acabará o que ficou imperfeito no juízo particular. Os atos, as palavras, os escritos de muitos homens fizeram ainda bem e mal depois da morte deles; os apóstolos, os missionários encheram de benefícios numerosas gerações; assim também os hereges corromperam não só os contemporâneos, mas também a posteridade. O grão semeado pelo homem não chega à completa maturidade senão no Juízo Final”.

Mas a mente humana exige ainda uma ulterior explicação: porque é de todos sabido que, após a morte não se pode mais nem merecer nem desmerecer. A parábola das dez minas(moedas de ouro) parece lançar uma luz sobre este assunto, à primeira vista, obscuro (S. Lucas XIX, 11-27). O homem nobre voltando depois de ter tomado posse de seu reino, chamou os dez servos para que prestassem contas e como o que recebera 1 moeda  não a fez frutificar, disse-lhe o Rei: “… Por que não puseste o meu dinheiro num banco, para que, quando eu viesse, o recebesse com os juros? E disse aos que estavam presentes: Tirai-lhe a moeda de ouro e dai-a ao que tem dez. Eles responderam-lhe: Senhor, ele já tem dez. Pois eu vos digo que a todo aquele que tiver, se lhe dará, e terá em abundância; ao que não tem, será tirado ainda mesmo o pouco que tem”. Creio que nesta última palavra encontramos a explicação. Pois, quem no juízo particular foi aprovado é porque morreu sem pecado mortal. Isto significa que, se cometeu pecados mortais, por palavras, obras e omissões que causaram escândalos e prejudicaram gravemente o próximo, não só  ou se arrependeram com contrição perfeita e desejaram receber o sacramento da penitência, ou se arrependeram com a simples atrição e receberam os sacramentos da penitência e/ou extrema unção, mas também se propuseram ou procuraram reparar na medida do possível todo escândalo e prejuízo (do contrário não teria havido verdadeiro arrependimento). E diz a Sagrada Escritura: “Se o ímpio fizer penitência de todos os pecados que cometeu,(…) Eu não me lembrarei mais de nenhuma das iniquidades que praticou”(Ezequiel XVIII, 21 e 22).  Ora, se Jesus não vai se lembrar delas no Juízo Particular, também  no Juízo Universal e “a fotiori”, nem das suas más consequências após túmulo até o fim do mundo. Portanto, quem se salva, além de não ser penalizado pelo mal que talvez praticou em vida (pois dele fez penitência), receberá um acréscimo de prêmios pelos frutos de suas boas obras mesmo aqueles posteriores à sua morte até o fim dos séculos. E assim: Todo aquele que tiver, se lhe dará, e terá em abundância.

Em relação aos condenados, os papéis se invertem: Se fizeram boas obras, ou já nasceram mortas pelo fato de seu ator estar em pecado mortal, ou perderam a vida (obras mortificadas) por pecado(s) mortais subseqüentes e com os quais o pecador morreu. Estas obras boas mas mortas ou mortificadas e que não merecem prêmio sobrenatural, Deus, sendo a própria Justiça, as recompensa com bens naturais materiais aqui na terra. Por isso diziam os santos que era mau sinal para os pecadores públicos e inveterados  serem cumulados de fortunas, prazeres e gozarem  sempre de saúde. Por outro lado, os condenados receberão penas adicionais no Juízo Final pelos maus frutos de suas obras más, subseqüentes à sua morte até o fim do mundo.  Ao que não tem, será tirado ainda mesmo o pouco que tem.

É óbvio, caríssimos e amados leitores, que em se tratando de mistérios de Deus, a inteligência humana, mesmo iluminada pela fé, poderá ir até certo ponto mas nunca lhe será permitido pretender compreender inteiramente os insondáveis desígnios divinos. Daí dizer S. Paulo: “Sapere ad sobrietatem” (Rom. XII, 3). Amém!

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18 novembro, 2017

Coluna do Padre Élcio: Os Novíssimos segundo São João Bosco.

“Em todas as tuas obras, lembra-te dos teus novíssimos, e nunca jamais pecarás” (Eclesiástico VII, 40).

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

A MORTE

A morte é a separação da alma do corpo e o total abandono das coisas deste mundo. Todos sabem que um dia devem morrer, mas ninguém sabe onde e como morrerá. Você não sabe se a morte o surpreenderá na sua cama ou no seu trabalho, na estrada ou em outro lugar.

morte_del_giusto_gA ruptura de uma veia, um infarto, um tumor que talvez já esteja crescendo em seu organismo, uma  queda, um acidente, um terremoto, um raio e outras mil causas de que você nem suspeita agora, podem privá-lo da vida. E isto pode acontecer daqui a um ano, a um mês, uma semana, a uma hora e, talvez, apenas terminada a leitura desta meditação. Quantos se deitaram à noite com boa saúde e de manhã foram encontrados mortos! Quantos ainda hoje morrem de improviso! E onde se encontram agora? Se estavam na graça de Deus, felizes deles! São para sempre bem-aventurados. Mas se estavam em pecado mortal, agora estão eternamente perdidos! Diga-me, meu caro jovem, se você devesse morrer neste instante, que seria de sua alma?

Embora o lugar e a hora de sua morte lhe sejam desconhecidos; você sabe com certeza que vai morrer. Esperemos que a sua última hora não venha de repente, mas aos poucos, por uma doença comum. De qualquer modo virá um dia em que, estendido em sua cama, você estará prestes a passar à eternidade assistido por um sacerdote e cercado por parentes que choram. Você terá a cabeça dolorida, os olhos embaçados, a língua ressequida, um suor gélido e o coração fraquíssimo. Assim que a alma expirar, seu corpo será vestido e colocado num caixão. Aí os vermes começarão a roer suas carnes, e bem depressa de você não restarão a não ser poucos ossos descarnados e um pouco de pó.

Experimente abrir um sepulcro e verá a que ficou reduzido aquele jovem antes cheio de saúde, aquele rico, aquele ambicioso, aquele orgulhoso! Meu caro filho, ao ler estas linhas, lembre-se de que elas falam de você, como de todos os outros homens! Agora, o demônio, para induzi-lo a pecar, procura desviar sua atenção destes pensamentos e escusá-lo de suas culpas, dizendo-lhe não ser um grande mal aquele prazer, aquela desobediência, aquela omissão da Missa no domingo ou em dia santo, e assim por diante; mas quando chegar o momento da sua morte, será ele mesmo que vai lhe revelar a gravidade destes e dos outros pecados, e vai lançá-los diante de sua consciência. Que fará você então? Ai de você se, naquele momento, se achar em desgraça de Deus!

Não se esqueça, meu jovem amigo, de que daquele momento depende a sua eterna salvação ou a sua eterna condenação. Duas vezes temos diante de nós uma vela acesa: no Batismo e na hora da morte. A primeira vez para fazer-nos ver os preceitos da Lei divina que devemos cumprir, e a segunda para fazer-nos ver se os cumprimos. À luz daquela vela quantas coisas se verão! À luz daquela vela, você verá se amou a Deus ou se O desprezou; se honrou seu santo Nome ou se O blasfemou; você verá as festas profanadas, as Missas perdidas, as impurezas cometidas, os escândalos dados, os furtos, os ódios, as soberbas … Oh! meu Deus, verei tudo naquele momento em que se abrirá diante de mim a porta da eternidade!

Grande e terrível momento do qual depende uma eternidade de glória ou de sofrimentos! Você está compreendendo o que lhe digo? Eu lhe digo que daquele momento depende o ir para o céu ou para o inferno; ser para sempre feliz ou desesperado; para sempre filho de Deus ou escravo de Satanás; para sempre gozar com os anjos e os santos no céu ou gemer e queimar para sempre com os condenados no inferno! Por isso, prepara-se para aquele grande momento fazendo logo um ato de contrição e, o mais depressa que você puder, uma boa e santa confissão.

Decida-se, depois, a viver sempre na graça de Deus, porque como se vive assim se morre.

O JUÍZO PARTICULAR

O juízo é a sentença que Jesus vai pronunciar no fim da nossa vida, com a qual fixará o destino de cada um por toda a eternidade. Assim que sua alma tiver saído do corpo, comparecerá diante do Juiz Divino, que lhe pedirá conta rigorosa do bem e do mal que você praticou na sua vida. Num piscar de olhos, como que numa luz repentina, você verá toda a sua vida posta em confronto com a vontade de Deus. Então você ficará horrorizado com os pecados cometidos dos quais não se arrependeu, com as orações desleixadas, com os escândalos dados. Verá as almas que, com seus maus exemplos, levou ao pecado, as quais o amaldiçoam no inferno e pedem sua condenação. Verá os demônios ansiosos para arrastá-lo consigo e, embaixo, o inferno escancarado para recebê-lo. Você tentará, então, levantar o olhar suplicante para a face de Cristo, mas não conseguirá manter o olhar. Invocará o auxílio de Nossa Senhora, mas Ela não poderá mais fazer nada por você. Então, não encontrando acolhida, gritará às montanhas e às pedras que o cubram e o aniquilem, mas elas não se moverão. Sua alma imortal não poderá de maneira alguma refugiar-se no nada. Nesta hora, você mesmo, reconhecendo a Justiça de Deus, invocará o inferno como uma libertação!

Meu caro jovem, você está ainda em tempo de evitar um juízo de condenação! Peça logo perdão a Deus de seus pecados e comece desde hoje uma vida verdadeiramente cristã. Naquele dia tremendo, você será feliz por ter amado a Jesus e ter observado seus mandamentos. Até os sofrimentos, que você padece agora, ser-lhe-ão naquele momento fonte de alegria. Viva, portanto, hoje como gostaria de ter vivido então!

O INFERNO

Quem recusa Deus até o fim, isto é, até a hora da morte, continuará a recusá-Lo para sempre. Por isso, a Justiça divina, respeitando a livre escolha feita pela sua criatura, afasta-a para sempre de Si, deixando-a caminhar para o destino de quem recusou o Sumo Bem para escolher o sumo mal, o Inferno Eterno. A primeira pena que os condenados sofrem no inferno é a pena dos sentidos, que serão atormentados por um fogo que queima terrivelmente sem jamais se consumir; fogo nos olhos, fogo na boca fogo em todas as partes. Cada sentido  padece a própria pena conforme o mau uso que dele fez em vida. Os olhos são aterrorizados pela vista dos demônios e dos outros condenados. Os ouvidos só escutam uivos e prantos de desespero. O olfato sofre com o mau cheiro do enxofre e a boca com sede e fome canina. O rico epulão, no meio dos tormentos do inferno, levantou o olhar para o céu e pediu, suplicante, uma gota d’água para refrescar a ardência de sua língua: mas até essa gota d’água lhe foi negada!

Oh! Inferno, Inferno! Quão infelizes são os que caem nos teus abismos! Meu caro, jovem, se você devesse morrer neste momento, para onde iria? Mas agora você não pode suportar um minuto o dedo na chama de uma vela sem gritar de dor, como poderá suportar o tormento de todas aquelas chamas por toda a eternidade? A segundo pena que os condenados padecem no inferno é a pena do dano. Esta é, sem comparação, mais terrível que a dos sentidos, porque é a privação completa e eterna do Bem Infinito para o qual fomos criados.

Como os nossos pulmões têm necessidade do ar para viver, assim a nossa alma tem necessidade de Deus; e como a morte por afogamento é a mais terrível que existe, assim não há pena mais insuportável para a alma do que a necessidade insopitável que sente de “respirar” Deus. Sem contar que o sofrimento do afogado dura poucos minutos, enquanto que o padecimento do condenado dura para sempre! E com a privação de Deus, o condenado é privado também da companhia dos Anjos, de Nossa Senhora, dos Santos e dos seus caros defuntos, que não verá nunca mais.

Caro jovem, como poderá ainda viver em pecado, agora que você conhece que terríveis penas esperam quem não se decide a amar a Deus verdadeiramente! Não adie a sua conversão! Tem certeza de que esta não será a última chamada, e, se não corresponde a ela, não terá outras para salvá-lo do inferno?

Considere, meu caro jovem, que se você for para o Inferno, nunca mais dele sairá! Pois no Inferno não só se sofrem todas as penas, mas todas eternamente. Passarão cem anos desde que você caiu no Inferno, passarão mil anos e o Inferno terá apenas iniciado; passarão cem mil, cem milhões, passarão mil milhões de séculos, e o inferno estará ainda em seu começo. Se um Anjo levasse aos condenados a notícia de que Deus os quer libertar do Inferno, depois de passados tantos milhões de séculos quantas são as gotas d’água do mar, as folhas das árvores e os grãos de areia da terra, esta notícia lhes causaria a maior satisfação. “É verdade  –  diriam  –  que devem passar ainda tantos séculos, mas um dia hão de acabar!” Pelo contrário, passarão todos esses séculos e todos os tempos que se possam imaginar, e o Inferno estará sempre no princípio.

Se ao menos o pobre condenado pudesse enganar-se a si mesmo e iludir-se pensando:

“Quem sabe, um dia talvez Deus poderá me arrancar deste tormento…” Mas não, nem isto será possível, porque foi o próprio condenado que, na hora da morte, firmou sua vontade contra Deus a tal ponto que não quer mudá-la mais agora que entrou na eternidade. Será ele mesmo a querer para sempre aquelas chamas que o queimam, aqueles demônios que o atormentam, e a rejeitar para sempre aquele Deus que ele ofendeu!

Meu jovem amigo, compreende bem o que você está lendo? Uma pena eterna por um só pecado mortal que, talvez, cometeu com tanta facilidade! Escute, pois, o meu conselho: Se a consciência o acusa de algum pecado mortal (mesmo que seja um só), vá depressa confessar-se e comece logo uma vida boa. Para isto, escolha um santo sacerdote ao qual você poderá recorrer para pedir conselho e, se necessário, faça uma confissão geral, ou seja, que abranja toda a sua vida. Lembre-se sempre de que, para não cair no Inferno, qualquer sacrifício que você possa fazer é bem pouca coisa, porque todos os sacrifícios deste mundo duram pouco, enquanto que o Inferno dura para sempre!

O PARAÍSO

Tanto apavora o pensamento do Inferno, quanto consola a lembrança do Paraíso que Deus preparou para aqueles que O amam. Se você pudesse gozar ao mesmo tempo de todas as alegrias deste mundo, desde as belezas criadas até os alimentos mais saborosos, desde as músicas mais suaves até os afetos mais puros, saiba que tudo isso é nada em comparação com as alegrias que o aguardam no Céu!

Pense, com efeito, na alegria que experimentará encontrando-se com os seus parentes e amigos, que virão correndo ao seu encontro para acolhê-lo no meio deles; pense na beleza e nobreza dos Anjos e dos Santos que, aos milhões, louvam ao seu Criador. No Céu você verá a grande multidão de jovens que conservaram intacta a virtude da pureza e daqueles que a reconquistaram pelo arrependimento e pela penitência: e os verá todos felizes cumulados de uma felicidade que nunca lhes será tirada.

Mas saiba que todas as alegrias do Paraíso não são nada em comparação com a alegria que se experimenta ao ver a Deus! Como o sol ilumina e embeleza todo o mundo, assim Deus, com sua presença, ilumina e embeleza todo o Paraíso e enche seus bem-aventurados moradores de delícias inefáveis. N’Ele você verá, como num espelho, todas as coisas, gozará todos os prazeres, amará todos os Santos do Céu.

São Pedro, no monte Tabor, por ter contemplado uma só vez o rosto de Jesus radiante de luz, sentiu-se repleto de tanta doçura que, fora de si, exclamou: “Senhor, como é bom estar aqui!” E ali teria ficado para sempre. Pense, portanto, naquela sua alegria de poder contemplar e amar, não por um instante apenas, mas para sempre, aquele rosto divino que encanta os Anjos e os Santos e que embeleza todo o Paraíso! E pense que alegria será para você contemplar e beijar o rosto puríssimo e amável de Maria Santíssima, que na terra você invocou tantas vezes e agora o recebe como filho caríssimo e o apresenta a Jesus!

Crie coragem, portanto, meu caro filho; se ainda lhe couber padecer alguma coisa neste mundo, não importa; o prêmio que o aguarda no Céu recompensará infinitamente todos os seus sofrimentos. Então sim, você poderá dizer: “Estou salvo! Estarei para sempre com o Senhor!” Então sim, você bendirá o momento em que deixou o pecado, o momento em que fez aquela boa confissão e começou a freqüentar os Sacramentos, o dia em que deixou as más companhias, as más leituras e os maus espetáculos… Então, cheio de gratidão, você se voltará para Deus e Lhe cantará seus louvores por todos os séculos.

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11 novembro, 2017

Coluna do Padre Élcio: A Santíssima Eucaristia enquanto Sacrifício.

“Em todo lugar é sacrificada e oferecida ao meu nome uma oblação pura” (Malaquias I, 11).

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

23. Enquanto sacrifício, esse mistério augustíssimo derrama não somente sobre cada homem, mas sobre todo o gênero humano, uma grandíssima abundância de frutos de salvação; por isso a Igreja costuma oferecê-lo assiduamente pela salvação do mundo inteiro. Convém que todos os piedosos cristãos se esforcem por aumentar cada vez mais a estima e o culto desse sacrifício; e nos nossos dias é isto mais do que nunca necessário. Por isto nós queremos que as suas virtudes múltiplas sejam conhecidas mais perfeitamente e mais atentamente meditadas.

Missa Sacrificio24. Os princípios seguintes são manifestamente reconhecidos pelas luzes naturais da razão: Deus criador e conservador possui sobre os homens, quer a título privado quer sob o ponto de vista público, um poder supremo e absoluto; tudo o que somos e tudo o que temos de bom, individualmente e na sociedade, vem-nos da liberalidade divina: em troca, testemunhar a Deus o maior respeito como ao nosso senhor, e uma vivíssima gratidão como ao nosso principal benfeitor. E no entanto, hoje em dia quantos homens se contam que praticam e observam estes deveres com a piedade que convém? Se jamais houve época que estudasse o espírito de revolta contra Deus é certamente esta, em que de novo reboam mais fortes contra Cristo estes gritos ímpios: “Não queremos que este reine sobre nós” (S. Luc. XIX, 14), e estas palavras criminosas “Arranquemo-lo do meio de nós” (Jer. XI, 19). E há mesmo uns que se encarniçam com impetuosa violência em banir definitivamente Deus de toda sociedade civil e conseguintemente de toda associação humana.

25. Se bem que um tal grau de demência celerada não se manifeste em toda parte, todavia é triste ver quantos esqueceram a divina Majestade, dos seus benefícios e sobretudo da salvação que Cristo nos adquiriu. Mas agora tal perversidade ou tal despreocupação devem ser reparadas por uma reduplicação de ardor de piedade comum para com o sacrifício eucarístico: nada pode honrar mais a Deus nem lhe ser mais agradável. Divina, com efeito, é a vítima que é imolada: por ela, pois, nós tributamos à augusta Trindade toda a honra exigida pela sua imensa dignidade; oferecemos também a Deus Pai um holocausto de valor e de doçura infinitos, seu Filho único; donde resulta que não somente rendemos graças à sua benevolência, mas nos quitamos inteiramente para com o nosso benfeitor.

26. Desse tão grande Sacrifício podemos e devemos recolher ainda um duplo fruto dos mais preciosos. A tristeza invade o espírito de quem reflete nesse dilúvio de torpezas que por toda parte se entornou depois, que, como dissemos, o poder divino foi deixado de lado e desprezado. O gênero humano parece, em grande parte, chamar sobre si a cólera do céu; de resto, essa messe de obras culpadas que se levanta está também madura para a justa reprovação de Deus. Cumpre, pois, excitar os fiéis piedosos e zelosos a se esforçarem por aplacar a Deus que pune os crimes, e por obterem para um século de calamidades socorros oportunos. Saibamos que esses resultados devem ser pedidos sobretudo por esse Sacrifício. Porquanto não podemos satisfazer plenamente as exigências da divina justiça, nem obter em abundância os benefícios da clemência divina, senão pela virtude da morte de Cristo. Ele quis que essa virtude da morte de expiação e de oração ficasse inteira na Eucaristia: esta não é uma vã e simples comemoração da sua morte, mas é a sua reprodução verdadeira e maravilhosa, posto que mística e incruenta.

27. Aliás, apraz-nos declará-lo, grande alegria experimentamos em ver que nestes últimos anos as almas dos fiéis começaram a renovar-se no amor e devoção ao sacramento da Eucaristia, o que nos faz esperar tempos e acontecimentos melhores [ndr. foi o tempo de São Pio X, o Papa da Eucaristia]. Neste intuito, como fizemos notar no início desta Carta, obras numerosas e variadas foram estabelecidas por uma piedade inteligente, especialmente as confrarias, fundadas quer para aumentar o brilho das cerimônias eucarísticas, quer para adorar perpetuamente, dia e noite, o augusto Sacramento, quer enfim para reparar os insultos e as injúrias que a ele são feitos. Todavia, Veneráveis Irmãos, não nos é lícito, nem a vós tão pouco, descansar sobre o que foi realizado: porque muito mais ainda resta por fazer e por empreender para que esta dádiva, de todas a mais divina, receba, daqueles mesmos que praticam os deveres da religião cristã, homenagens mais numerosas e mais esplendentes, e para que tão grande mistério seja honrado o mais dignamente possível.

Conclusão: renovar o antigo fervor.

28. É por isso que cumpre aperfeiçoar com ardor dia a dia mais vigoroso as obras empreendidas, fazer reviver, onde quer que tenham desaparecido, as antigas instituições, e entre outras as confrarias eucarísticas, as rogações ao Santíssimo Sacramento exposto às adorações dos fiéis, as procissões solenes e triunfais feitas em sua
honra, as piedosas genuflexões diante dos divinos tabernáculos, e todas as outras santas e salutaríssimas práticas do mesmo gênero; cumpre-nos, além disso, empreender tudo aquilo que nesta matéria podem sugerir-nos a prudência e a piedade. Mas é preciso sobretudo nos esforçarmos por fazer reviver em larga medida nas nações católicas o uso frequente da Eucaristia. É o que ensinam o exemplo da Igreja nascente, lembrado mais acima, os decretos dos Concílios, a autoridade dos Padres e dos homens mais santos de todas as épocas. Como o corpo, a alma precisa a miúdo de alimento: ora, a Sagrada Eucaristia oferece-lhe o alimento de vida por excelência. E é por isso que mister se faz dissipar os preconceitos dos adversários, os vãos temores de grande número de pessoas, e afastar absolutamente as razões especiosas de se abster da comunhão. Porque se trata de uma devoção que, mais do que qualquer outra, será útil ao povo cristão, já para desviar o nosso século da sua inquieta solicitude pelos bens perecíveis, já para fazer renascer e alimentar constantemente em nossas almas o espírito cristão.

29. Sem dúvida alguma, as exortações e os exemplos dados pelas classes elevadas, mormente o zelo e a atividade do clero, para isso contribuirão poderosamente. Com efeito, os sacerdotes que o Cristo Redentor encarregou de cumprir e de dispensar os mistérios do seu Corpo e do seu Sangue, melhor não podem certamente agradecer-lhe a grandíssima honra que receberam, do que se esforçando para desenvolver com todo o seu poder a glória eucarística de Jesus Cristo, e, consoante os desejos do seu Coração santíssimo, convidar a atrair as almas dos homens às fontes ordinárias de tão augusto sacramento e de tão grande sacrifício”.

(Excerto da Encíclica “MIRAE CARITATIS” escrita pelo Papa Leão XIII em 28 de maio de 1902).

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4 novembro, 2017

Coluna do Padre Élcio: O Matrimônio segundo Santo Tomás de Aquino.

“Este sacramento é grande, mas eu o digo em relação a Cristo e à Igreja” (Efésios V, 32).

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

No Suplemento da 3ª Parte da Suma Teológica, nas questões 41-68, o Doutor Angélico fala sobre o Matrimônio. Da questão 42 traduzirei na íntegra o artigo primeiro:

ART. I – Se o matrimônio é um sacramento.

Este primeiro artigo discute-se assim: parece que o matrimônio não é sacramento. [Seguem-se cinco argumentos que são objeções pretendendo provar o contrário da verdade, isto é, que o matrimônio é um sacramento].

matrimonio1. Pois, todo sacramento da Lei Nova tem uma forma que é da essência dele. Ora, a bênção dada pelo sacerdote nas núpcias não é da essência do matrimônio. Logo, o matrimônio não é sacramento.

2. Demais: O sacramento, segundo Hugo (lib. I De sacram., IX, c. II) é um elemento material [=sinal sensível]. Ora, o matrimônio não tem por matéria nenhum elemento material. Logo, não é sacramento.

3. Demais: Os sacramentos tiram da Paixão de Cristo a sua eficácia. Ora, pelo matrimônio não nos conformamos com a Paixão de Cristo, que foi um pena; pois o matrimônio é acompanhado de prazer. Logo, não é sacramento.

4. Demais: Todo Sacramento da Lei Nova realiza o que figura. Ora, o matrimônio não opera a conjunção entre Cristo e a Igreja, que significa. Logo, o matrimônio não é sacramento.

5. Demais: Nos outros sacramentos há a realidade e o sacramento. Ora, tal não pode dar-se com o matrimônio, que não imprime caráter; do contrário não seria reiterado. Logo, não é sacramento.

SED CONTRA.  Mas EM CONTRÁRIO é o que São Paulo diz em Efésios, V, 32:

Este sacramento é grande. Logo, etc.

2. Ademais o Sacramento é sinal de uma coisa sagrada. Ora, tal é o matrimônio. Logo, etc.
RESPONDO dando a SOLUÇÃO: O sacramento tem por fim ministrar um remédio de santificação contra o pecado, remédio que se apresenta sob sinais sensíveis. Ora, como tal se dá com o matrimônio, é contado entre os sacramentos.

DONDE A RESPOSTA À 1ª OBJEÇÃO:   As palavras com que se exprime o consentimento matrimonial são as formas deste sacramento; mas não a bênção sacerdotal que é um como sacramental.

RESPOSTA À 2ª OBJEÇÃO: O sacramento do matrimônio se consuma pelo ato de quem o recebe, assim como a penitência. Por onde, como o sacramento da penitência não tem outra matéria senão os dotes mesmos que caem sob o domínio dos sentidos e que têm lugar de elemento material, assim também se dá com o matrimônio.

RESPOSTA À 3ª OBJEÇÃO:  Embora pelo matrimônio não nos conformamos com a Paixão de Cristo como pena, conformamo-nos porém com ela pela caridade com que Cristo sofreu pela Igreja que se lhe ia unir como esposa.

RESPOSTA À 4ª OBJEÇÃO: A união entre Cristo e a Igreja não é a realidade contida neste sacramento, mas a realidade significada mas não contida; e essa realidade nenhum sacramento a produz. Ma tem outra realidade contida e significada que produz, como dissemos (ad 5). O Mestre porém (IV, dist. XXVI) se refere à realidade não contida, por pensar que o matrimônio não é causa de uma realidade que possa conter.

RESPOSTA À 5ª OBJEÇÃO:  Também o sacramento do matrimônio encerra esses três elementos. Porque o que constitui só o sacramento são os atos externos aparentes; a realidade e sacramento é o laço resultante de tais atos, que prendem o homem à mulher; a realidade última contida é o efeito deste sacramento; e a não contida é a realidade, que
designa o Mestre.

Da questão 67 traduzirei na íntegra o artigo primeiro:

ART. I  –  Se a indissolubilidade do matrimônio é de lei natural. Este primeiro artigo discute-se assim: parece que a indissolubilidade do matrimônio não é de lei natural.

1. Pois, a lei da natureza é comum para todos. Ora, nenhuma lei, senão a de Cristo, proíbe repudiar a esposa. Logo, a sua união inseparável com o marido não é de lei natural.

2. Demais.  –  Os sacramentos não foram instituídos pela lei natural. Ora, a indissolubilidade do matrimônio pertence ao bem do sacramento. Logo, não é de lei natural.

3. Demais.  –  A união dentre homem e mulher se ordena principalmente à geração dos filhos, à criação e à instrução deles. Ora, tudo isso se realiza num tempo determinado. Logo, depois desse tempo, é lícito ao marido separar-se da esposa, sem colidir em nada com a lei natural.

4. Demais.  –  O fim principal do matrimônio é o bem da prole. Ora, a dissolubilidade do casamento contraria esse bem; porque, como dizem os filósofos, não pode ter filhos de uma mulher um homem que também poderia tê-los de outra, e a qual por seu lado também poderia conceber de outro homem. Logo, a indissolubilidade do matrimônio é antes contrária à lei da natureza, que estabelecida por ela.

SED CONTRA. – Mas em contrário.  –  Aquilo sobretudo é de lei natural, que a natureza teve, desde o seu princípio, como bem instituído. Ora, tal é a indissolubilidade do matrimônio, como fica claro em Mateus, XIX. Logo, é de lei natural.

Ademais é de lei natural que o homem não desobedeça a Deus. Ora, de certo modo podia desobedecer-Lhe se separasse os que Deus uniu.  Como, portanto disto se conclui a indissolubilidade do matrimônio em Mateus XIX, 6: vê-se que ela é de lei natural.

RESPONDO dando a SOLUÇÃO:  Deve-se dizer que o matrimônio por intenção da natureza se ordene para a educação da prole, não só por algum tempo, mas por toda a vida deles. Por isso é de lei natural que os pais entesourem para os filhos, e estes sejam herdeiros dos pais (2 Cor. XII, 14). Logo, sendo os filhos o bem comum do marido e da esposa, deve a sociedade conjugal ficar perpetuamente indissolúvel, segundo o ditame da lei natural. E assim conclui-se que a indissolubilidade do casamento é de lei natural.

DONDE A REPOSTA À 1ª OBJEÇÃO: Deve-se dizer que só a lei de Cristo conduziu o gênero humano à perfeição restituindo-lhe o estado novo da natureza [como Deus a fizera no início]. (ndt. : Seria um absurdo afirmar que no estado atual da humanidade, de um paganismo prático, a Lei de Jesus Cristo deva ficar só no papel, porque a misericórdia deve ir ao encontro dos recalcitrantes para abraçá-los com o pecado e tudo.

Mas, dirão os modernistas: e os filhos? Respondo: A primeira coisa que os pais devem fazer é não escandalizá-los e sabemos o que o Supremo Legislador disse a respeito do escândalo. Mas continuemos acompanhando o Santo Doutor. Por isso à lei de Moisés nem às leis humanas foi possível fazer desaparecer tudo o contrário à lei natural; isto estava reservado só LEI DO ESPÍRITO E DA VIDA [destaque meu], (cf. Rom. VIII, 2).

RESPOSTA À 2ª OBJEÇÃO: A indissolubilidade é natural ao matrimônio, como símbolo da perpétua conjunção entre Cristo e a Igreja, e como exigido pela sua função natural, ordenada ao bem da prole, como se disse. Mas porque a separação do matrimônio mais diretamente repugna à significação do sacramento do que ao bem da prole, a que só por consequência repugna, como foi dito na q. 65, a. 3: por isso a indissolubilidade do matrimônio se entende antes, como para o bem do sacramento que para o da prole. Embora possa estar compreendido tanto num como noutro bem. Ora, enquanto pertencente ao bem da prole, será a indissolubilidade de lei natural; mas não enquanto pertinente ao bem do sacramento.

RESPOSTA À 3ª OBJEÇÃO: A solução fica patente pelo que foi dito.

RESPOSTA À 4ª OBJEÇÃO: O matrimônio principalmente se ordena ao bem comum, em razão do fim principal, que é o bem da prole; embora em razão do fim secundário também se ordene ao bem comum da pessoa que o contraiu, pois o casamento é, em si mesmo considerado, remédio à concupiscência. Por isso, nas leis reguladoras do matrimônio mais se consulta ao interesse geral que a casos particulares. Assim, pois, embora a indissolubilidade do matrimônio impeça o bem da prole num caso particular, contudo convém a esse bem absolutamente considerado. Por isso a objeção não colhe.

Queremos ainda pedir a atenção de todos para mais alguns tópicos da Suma Teológica de Santo Tomás de Aquino no que diz respeito ao matrimônio:

No artigo V da q. 62  Santo Tomás prova que a mulher repudiada não pode casar com outro: “O Apóstolo diz: ‘Mando, não eu, senão o Senhor, que a mulher se não separe do marido; e se ela se separar, que fique sem casar’ (1 Cor. VII, 10). Demais. – Ninguém pode tirar qualquer vantagem do pecado. Ora, tirá-la-ia a adúltera a que fosse lícito contrair núpcias mais desejadas; e daria isso ocasião de adultério aos desejosos de contrair novo matrimônio. Logo, não é lícito contrair novo matrimônio, nem ao homem nem a mulher. “Nada que venha sobre o matrimônio pode dissolvê-lo [Nihil adveniens supra matrimonium potest ipsum dissolvere]. Pois, como diz Agostinho, ‘o vínculo conjugal subsiste entre ambos por toda a vida, nem pode ser quebrado pela separação ou pela união com outra pessoa. Portanto, enquanto vive um não pode o outro passar a segundas núpcias'(lib. I De nupt. et concupisc., cap. X). Portanto, enquanto vive um não pode o outro passar a segunda núpcias. (Idem ad 3: “Embora a mulher, depois do divórcio, não esteja obrigada a cumprir o dever conjugal para com o marido adúltero e a coabitar com ele contudo ainda subsiste o vínculo matrimonial que a obrigava. Portanto não pode contrair outro casamento, durante a vida do marido.

No Supl. da 3ª Parte, questão 42, a. II, Santo Tomás prova que o matrimônio devia ser instituído antes do pecado e mostra, outrossim, que este bem do matrimônio foi instituído diversamente conforme os diversos estados humanos: “Em Mateus XIX, 4 diz: ‘Não tendes lido que quem criou o homem desde o princípio fê-los macho e fêmea?

Demais: O matrimônio foi instituído para a procriação dos filhos. Ora, já antes do pecado era necessário ao homem essa procriação. Logo, o matrimônio devia ser instituído antes do pecado. SOLUÇÃO: A natureza inclina para o matrimônio tendo em vista um bem, que varia segundo os diversos estados em que vivem os homens. Por isso, e necessariamente, esse bem foi instituído diversamente conforme os diversos estados humanos. Por isso, o matrimônio, enquanto ordenado à procriação de filhos, necessária mesmo antes de existir o pecado, foi instituído antes do pecado. Mas enquanto remédio contra as feridas causadas pelo pecado, foi instituído depois do pecado, no tempo da lei da natureza. Quanto, porém, a determinação de pessoas, a instituição teve lugar na lei de Moisés. Mas enquanto representa o mistério da união entre Cristo e a Igreja, foi instituída na Lei Nova, sendo assim sacramento dessa lei. Quanto enfim às outras utilidades resultantes do matrimônio,… haure sua instituição na lei civil.  –  Mas como um sacramento deve por essência ser um sinal e um remédio, o matrimônio é um sacramento em razão das instituições intermediárias de que foi objeto. Pela sua primeira instituição, porém foi estabelecido como uma função natural; e quanto à última, desempenha o papel de um ofício social”. Respondendo à 4ª objeção que assim foi formulada: “A instituição de um sacramento deve ser feita por Deus. Ora, antes do pecado, as palavras referentes ao matrimônio não foram determinadamente proferidas por Deus, mas por Adão. Quanto às palavras pronunciadas por Deus em Gen. I, 28: “Crescei e multiplicai-vos, também se aplicam aos brutos, para os quais não há matrimônio. Logo…

Santo Tomás responde: “O matrimônio foi instituído por Deus antes do pecado, quando formou o corpo da mulher de uma costela de Adão, dando-lhe a este como companheira e dizendo-lhe: Crescei e multiplicai-vos. As palavras que, embora também as tivesse dito aos animais, não deviam contudo ser realizadas pelos brutos do mesmo modo como pelos homens. Quanto a Adão, foi por inspiração de Deus que pronunciou essas palavras,(cf. Gên. II,23 e 24) para que compreendesse que a instituição do matrimônio foi feita por Deus”.

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