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21 outubro, 2017

Coluna do Padre Élcio: A ‘Amoris Laetitia’ é tomista?

“A lei do Senhor, que é imaculada, converte as almas; o testemunho do Senhor é fiel, dá sabedoria aos pequeninos”  (Salmo 18, 8).

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

Das 391 citações ou referências da “Amoris Laetitia” (AL), 19 são de Santo Tomás de Aquino, e destas somente a de nº 347 merece consideração, porque justamente sobre ela enfaticamente insiste o Papa Francisco com estas palavras:

“304. É mesquinho deter-se a considerar apenas se o agir duma pessoa corresponde ou não a uma lei ou norma geral, porque isto não basta para discernir e assegurar uma plena fidelidade a Deus na existência concreta dum ser humano. Peço encarecidamente [sublinhado meu] que nos lembremos sempre de algo que ensina São Tomás de Aquino e aprendamos a assimilá-lo no discernimento pastoral: « Embora nos princípios gerais tenhamos o carácter necessário, todavia à medida que se abordam os casos particulares, aumenta a indeterminação (…). No âmbito da acção, a verdade ou a rectidão prática não são iguais em todas as aplicações particulares, mas apenas nos princípios gerais; e, naqueles onde a rectidão é idêntica nas próprias acções, esta não é igualmente conhecida por todos. (…) Quanto mais se desce ao particular, tanto mais aumenta a indeterminação ».347 É verdade que as normas gerais apresentam um bem que nunca se deve ignorar nem transcurar, mas, na sua formulação, não podem abarcar absolutamente todas as situações particulares. Ao mesmo tempo é preciso afirmar que, precisamente por esta razão, aquilo que faz parte dum discernimento prático duma situação particular não pode ser elevado à categoria de norma. Isto não só geraria uma casuística insuportável, mas também colocaria em risco os valores que se devem preservar com particular cuidado. 347 Summa theologiae I-II, q. 94, art. 4.

Tudo leva crer que é neste texto de Santo Tomás que o Papa Francisco quer justificar a pretensa “moral tomista” da AL.

E, na mesma linha, na nota 348 cita ainda Santo Tomás:

348 – Referindo-se ao conhecimento geral da norma e ao conhecimento particular do discernimento prático, São Tomás chega a dizer que, « se existir apenas um dos dois conhecimentos, é preferível que este seja o conhecimento da realidade particular porque está mais próximo do agir » [Sententia libri Ethicorum, VI, 6 (ed. Leonina, t. 47, 354)].

Inicialmente gostaria de dizer que a “Correctio Filialis” (CF), além de respeitosa, é, outrossim, respeitável pela segurança e clareza na exposição da doutrina tradicional da Igreja, fundamentada com argumentos apodíticos. Os competentes autores da CF. tiveram o mérito inegável de fazer todas as citações que mostram a lídima doutrina da Igreja, baseada que é nas Sagradas Escrituras, na Sagrada Tradição e no Magistério Infalível e Perene da Santa Madre Igreja. Mas o Papa Francisco se limitou a dizer que a CF. foi respeitosa mas errada e afirmou sem mais que a Moral da AL é “tomista”, ou seja, é segura porque baseada no  grande Doutor da Igreja, Santo Tomás de Aquino.

Mas vale a pena mostrar o que ensinou Santo Tomás na Summa Theologiae I-II, q. 94, art. 4.

Aí o grande Doutor da Igreja fala da Lei Natural e prova que ela é a mesma para todos. Com esta e outras questões sobre a Lei, S. Tomás deixa claro que, após o pecado original, isto é, com a concupiscência e paixões humanas, a Lei Natural, não basta para discernir e assegurar uma plena fidelidade a Deus na existência concreta dum ser humano. Senão vejamos:

Summa Theologiae, q. 94, a. IV: Se a lei da natureza é a mesma para todos.

Neste 4º artigo discute-se assim: Parece que a lei da natureza não é a mesma para todos.

1. Pois, dizem as Decretais (dist. I, praef.): O direito natural é o que está contido na lei e no Evangelho. Ora, este não é o mesmo para todos, porque, no dizer da Escritura, nem todos obedecem ao Evangelho como está dito em Romanos, X, 16. Logo, a lei natural não é a mesma para todos.

2. Demais.  –  Chama-se justo ao que é conforme à lei, como diz o Filósofo Aristóteles em V Ethic. , lect. II. Ora, no mesmo livro (lect. XII) diz: nada há tão justo para todos, que se não diversifique para alguns. Logo, também a lei natural não é a mesma para todos.

3. Demais.  –  À lei natural pertence aquilo a que o homem por natureza se inclina, com foi dito no (a. 2 e 3). Ora, homens diversos naturalmente têm inclinações diversas: uns, para a concupiscência dos prazeres; outros, para o desejo das honras; outros, para outras
coisas. Logo, a lei natural não é a mesma para todos.

Mas, em contrário, Isidoro diz (Lib. V Etymol. c. IV): O direito natural é comum a todas as nações.

RESPONDO: Como já dissemos nos artigos 2 e 3, à lei natural pertence aquilo a que o homem naturalmente se inclina; e nisso se inclui a sua inclinação própria a agir segundo a razão. Ora, é próprio à razão proceder do geral para o particular, como está claro em Aristóteles (I Physic., lect. I). Mas o modo de proceder da razão especulativa difere do modo da razão prática. Pois a razão especulativa, versando principalmente sobre o necessário, onde é impossível haver mudança, a verdade se manifesta sem nenhuma exceção, tanto nas conclusões particulares, como nos princípios gerais. Ao contrário, a razão prática versa sobre o contingente, onde entram as obras humanas. Por onde, embora no geral também haja uma certa necessidade, quanto mais descermos ao particular, tanto mais exceções encontraremos. Assim, pois, na ordem especulativa a verdade é a mesma para todos, tanto nos princípios como nas conclusões; embora a verdade não seja conhecida de todos, nas conclusões, mas só nos princípios, chamados concepções comuns. Ao contrário, na ordem das ações, não há a mesma verdade ou retidão prática em todos, quanto ao particular, mas só quanto aos princípios gerais. E ainda, todos os que têm a mesma retidão, em particular, não a conhecem igualmente. Por onde é claro que, quanto aos princípios gerais da razão especulativa ou prática, a verdade ou retidão é igual para todos e é de todos igualmente conhecida. A verdade, porém das conclusões particulares da razão especulativa é a mesma para todos, mas não é de todos igualmente conhecida. Por exemplo, para todo o mundo é verdade que um triângulo tem os três ângulos iguais a dois retos, embora nem todos o saibam. Mas a verdade ou retidão das conclusões particulares da razão prática não é a mesma para todos, nem para aqueles aos quais é a mesma, é igualmente conhecida. Assim, todos têm como reto e verdadeiro que devem agir segundo a razão. E deste princípio resulta como uma conclusão própria, que se devem restituir os depósitos (empréstimos). O que, por certo, é verdade na maior parte dos casos; mas, num caso particular, pode ser danoso e, por conseguinte, irracional, restituí-los; por exemplo, se alguém o quisesse para lutar contra a pátria. E quanto mais particular for o caso tanto mais exceções haverá; p. ex., se dissermos que os depósitos se devem restituir com tal garantia ou de tal modo. Pois, quanto mais condições particulares se impuserem, de tantos modos mais poderá haver exceção à retidão no restituir ou em não o fazer.

Portanto, (continua Santo Tomás de Aquino), devemos concluir, que a lei da natureza, nos seus primeiros princípios gerais, é a mesma para todos, quanto à retidão e quanto ao conhecimento. Mas, relativamente a certos casos particulares, que são como conclusões dos princípios gerais, ela é, no mais das vezes, a mesma para todos, quanto à retidão e quanto ao conhecimento. Mas às vezes tal pode não se dar. Quanto à retidão, por causa de certos impedimentos particulares, do mesmo modo que, por causa deles, em alguns casos, falha a natureza, sujeita que está à geração e à corrupção. E também quanto ao conhecimento, porque uns têm a razão depravada pelas paixões ou pelos maus costumes, ou pela maus hábitos da natureza. Assim, p. ex. entre os Germanos, outrora, não era reputado por mal o latrocínio, embora seja expressamente contra a lei da natureza, como refere Júlio César (In lib. VI De bello gallico, cap. XXIII).

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO: [ Decretais: O direito natural é o que está contido na lei e no Evangelho. Ora, este não é o mesmo para todos, porque, “nem todos obedecem ao Evangelho].

RESPOSTA: A expressão citada não se deve entender como significando, que todo o conteúdo da lei e do Evangelho pertence à Lei Natural, pois, muitas coisas aí se ensinam superiores à Lei da Natureza; mas significa que aí se transmite plenamente, o que pertence à Lei da natureza. (…)

RESPOSTA À SEGUNDA OBJEÇÃO: [Chama-se justo ao que é conforme à lei. Ora, nada há tão justo para todos, que se não diversifique para alguns].

RESPOSTA: O lugar citado do Filósofo se entende daquilo que é naturalmente justo, não como princípios gerais, mas como certas conclusões derivadas destes princípios gerais, e que, sendo retas na maior pare dos casos, falham em alguns poucos.

RESPOSTA À TERCEIRO OBJEÇÃO [que assim foi formulado por Santo Tomás]: À lei natural pertence aquilo a que o homem por natureza se inclina. Ora, homens diversos naturalmente têm inclinações diversas: uns, para a concupiscência dos prazeres; outros, para o desejo das honras; outros, para outras coisas. Logo a lei natural não é a mesma para todos.

RESPOSTA: Assim como a razão do homem domina e impera sobre as outras faculdades, assim é necessário que todas as inclinações naturais das outras potências se ordenem racionalmente. Por isso, é em geral reto para todos, que, segundo a razão sejam dirigidas todas as paixões dos homens.

Até aqui a q. 94, a. IV, da !ª – 2ª da S. T.. Agora, com a graça de Deus, baseados sempre em Santo Tomás de Aquino, vamos ver melhor ainda o sentido deste artigo, no qual o Papa Francisco pretende se basear para garantir que AL é tomista e, portanto, de uma Moral segura.

Na “Summa Theologiae, I-II, q. 93, a. VI, o Doutor Angélico prova que todas as coisas humanas estão sujeitas à Lei Eterna:

“De dois modos um ser está sujeito à Lei Eterna. De um modo, enquanto pelo conhecimento participa da lei eterna; de outro modo, pela ação e pela passividade (=que sofre a ação), participando dela como de princípio motivo interno. Ora, é deste segundo modo que à lei eterna estão sujeitas as criaturas irracionais. Mas a natureza racional (o homem) tendo, além do que lhe é comum com todas as criaturas, algo de próprio, como racional que é, está sujeita à lei eterna de um e de outro modo. Pois, de um lado, tem de certa maneira a noção da lei eterna; e de outro, em toda criatura racional existe uma inclinação natural para o que está de acordo com à lei eterna, pois, é-nos natural possuir as virtudes, como diz Aristóteles. Ambos estes modos, porém, são nos maus, imperfeitos, e de certa maneira, corrompidos. Pois, além de terem a inclinação natural para a virtude, depravada pelos hábitos viciosos, o próprio conhecimento natural do bem lhes está entenebrecido pelas paixões e pelos hábitos pecaminosos. Ao contrário, nos bons um e outro modo existe da maneira mais perfeita, porque ao conhecimento natural do bem se lhes acrescenta o conhecimento da fé e da sabedoria; e à inclinação natural para o bem, o motivo interior da graça e da virtude.

Por onde, os bons estão perfeitamente sujeitos à Lei Eterna, por agirem sempre de acordo com ela. Os maus, por seu lado também lhe estão sujeitos, embora imperfeitamente, pelas suas ações, pelo fato de a conhecerem imperfeitamente,  e pelo fato de também imperfeitamente se inclinarem ao bem. Mas o que lhes falta na ação é-lhes suprido pela passividade, pois, na medida em que deixaram de fazer o que exigia a lei eterna, nessa mesma medida, hão de sofrer o que ela pede deles.

Respondendo à segunda objeção que assim foi formulada: O Apóstolo diz: “A sabedoria da carne é inimiga de Deus, pois não é sujeita à lei de Deus.  Ora, há muitos homens em quem domina a sabedoria da carne. Logo, não estão  todos sujeitos à Lei eterna de Deus.

RESPOSTA: A sabedoria da carne, não pode estar sujeita à lei de Deus, no concernente à ação, pois inclina a ações contrárias à lei divina. Mas lhe está sujeita, no concernente à passividade, porque merece sofrer uma pena segundo a lei da divina justiça (Nota minha: S. Tomás não diz que os que se deixam guiar pelas paixões  merecem misericórdia mesmo não se arrependendo, mas sim merecem sofrer a pena da justiça divina). Contudo, em nenhum homem a sabedoria da carne domina a ponto de corromper totalmente o bem da natureza. Por isso, permanece no homem a inclinação para agir de conformidade com a lei eterna. Pois, o pecado não o priva totalmente do bem da natureza. [Nota minha: dizer que pode um adúltero achar que não está em pecado mortal, é utópico, e mesmo que possa haver algum caso, a Igreja é o sal da terra e a luz do mundo, e o confessor tem obrigação de tirar o penitente do pecado mortal material, somente excetuando no caso de morte, quando se percebe que o penitente moribundo corre o risco de não se retratar e se arrepender. O sacerdote neste caso, deixa-o na boa fé e dá-lhe todos os sacramentos e até o viático; mas, para evitar escândalo, deve fazê-lo de todo ocultamente, com a máxima discrição).

Santo Tomás de Aquino na Summa Theologiae, I-II, q. 91, a. IV mostra que além da lei natural e da humana é necessário, para a direção da vida humana, haver uma Lei divina. Cita primeiramente a Sagrada Escritura no Salmo 98, 33: “Impõe-me por lei, Senhor, o caminho das tuas justificações”.

E isto, diz o Doutor Angélico, por quatro razões:

– Primeiro, porque pela lei o homem dirige os seus atos em ordem ao fim último. Ora, se ele se ordenasse só para um fim que não lhe excedesse a capacidade das faculdades naturais, não teria necessidade de nenhuma regra racional, superior à lei natural e à humana derivada da natural. Mas como o homem se ordena ao fim da beatitude eterna, excedente à capacidade natural das suas faculdades, é necessário que, além da lei natural e da humana, seja também dirigido ao seu fim por uma lei imposta por Deus.

– Segundo, da incerteza do juízo humano, sobretudo no atinente às coisas contingentes e particulares, originam-se juízos diversos sobre atos humanos diversos; donde, por sua vez, procedem leis diversas e contrárias. Portanto, para poder o homem, sem nenhuma dúvida, saber o que deve fazer e o que deve evitar, é necessário dirija os seus atos próprios pela lei estabelecida por Deus, que sendo a própria sabedoria, não pode errar [ndr:Peço encarecidamente a atenção de todos sobre isto].

–  Terceiro, porque o homem só pode legislar sobre o que pode julgar. Ora, não pode julgar dos atos internos, que são ocultos, mas só dos externos, que aparecem. E contudo, a perfeição da virtude exige que ele proceda retamente em relação a uns e a outros.  Portanto, a lei humana, não podendo coibir e ordenar suficientemente os atos internos, é necessário que, para tal, sobrevenha a lei divina.  –  Quarto, porque, como diz Agostinho, a lei humana não pode punir ou proibir todas as coisas mal feitas. Pois, se quisesse eliminar todos os males, haveria consequentemente de impedir muitos bens, impedindo assim a utilidade do bem comum, necessário ao convívio humano. Por onde, afim de nenhum mal ficar sem ser proibido e permanecer impune, é necessário sobrevir a lei divina, que proíbe todos os pecados.

– E estas quatro causas estão resumidas no Salmo 18, 8 que diz o seguinte: “A lei do Senhor que é imaculada, isto é, que não permite a torpeza de nenhum pecado [ndr: não permite que a Igreja se suje na lama da estrada]; “converte as almas, porque regul, não só os atos externos, mas também os internos; “o testemunho do Senhor é fiel”, por causa da certeza da verdade e da retitude; “e dá sabedoria aos pequeninos” ordenando o homem a um fim sobrenatural e divino.

Santo Tomás de Aquino formula assim a primeira objeção contra a necessidade de uma Lei divina:

 

A Lei natural é uma participação da Lei eterna em nós. Ora, a Lei eterna é a lei divina. Logo, não é necessário haver uma lei divina, além da lei natural e das leis humanas dela derivadas.

Resposta: Pela lei natural, o homem participa da lei eterna, proporcionalmente à capacidade da sua natureza. Mas importa que, de modo mais alto, seja levado ao fim último e sobrenatural. E por isso se lhe acrescenta a lei dada por Deus, pela qual a lei eterna é participada de modo mais elevado.

Peço encarecidamente que lembrem-se ainda sempre destas afirmações de Santo Tomás de Aquino:

“O primeiro princípio na ordem das operações, à qual pertence a razão prática, é o fim último. E, sendo  o fim último da vida humana a felicidade ou beatitude, há de por força a lei dizer respeito, em máximo grau, à ordem da beatitude (…). Necessariamente a lei sendo por excelência relativa ao bem comum, nenhuma outra ordem, relativa a uma obra particular, terá natureza de lei, senão enquanto se ordena ao bem comum. (…) O ordenar-se para o bem comum, que é próprio da lei, é aplicável a fins particulares. E a esta luz, também se podem dar ordens relativas a certos fins particulares” (cf. S. Theol. I-II, q. 90, a. 2).

“Cristo, logo no princípio da sua pregação, convida para o reino dos céus, dizendo: ‘Fazei penitência, porque está próximo o reino dos céus” (Mat.Iv, 17).Donde o dizer Agostinho, que as promessas das coisas temporárias estão contidas no Antigo Testamento, que, por isso, se chama antigo; ao passo que a promessa da vida eterna pertence ao Novo Testamento. (…) A salvação dos homens não podia vir senão de Cristo, conforme à Escritura: “Nenhum outro nome foi dado aos homens pelo qual nós devamos ser salvos” (Atos, IV, 12). Por onde, a lei, que perfeitamente conduz todos à salvação, não podia ser dada senão depois do advento de Cristo. Mas antes dela, era necessário fosse dada ao povo, do qual Cristo havia de nascer, uma lei preparatória para recebê-lo, em que já se achassem contidos certos rudimentos da justiça salvífica.

A lei natural dirige o homem por certos preceitos gerais, em que convém tanto aos perfeitos como aos imperfeitos. Por isso é a mesma para todos. Ao passo que a lei divina o dirige mesmo em certas particularidades, em que os perfeitos não se comportam do mesmo modo que os imperfeitos. (cf. S. Theol. I-II, q. 91, a. V.).

A lei do homem, que lhe coube por ordenação divina, de acordo com a sua condição, é obrar de conformidade com a razão. E tanta força tinha essa lei, no estado primitivo [i. é, antes do pecado original] que nada de preter-racional ou de irracional podia surpreender o homem. Mas quando ele se afastou de Deus, incorreu na pena de ser arrastado pelo ímpeto da sensualidade. O que se dá com cada um em particular, quanto mais se afastar da razão; que, assim, de certo modo se assemelha aos brutos, levados pelo ímpeto da sensualidade, conforme àquilo da Escritura: ‘O homem, quando estava na honra não o entendeu; foi comparado aos brutos irracionais, e se fez semelhante a eles’ (Salmo 48, 21). (…) Por ter sido o homem, pela justiça divina, destituído da justiça original, e perdido o vigor da razão, o ímpeto mesmo da sensualidade, que o arrasta, tem natureza de lei, mas penal, por lei divina, inseparável do homem, destituído da dignidade que lhe era própria” (cf. S. Theol. I-II, q. 91, a. VI).

Caríssimos, veremos em outros artigos como o grande Doutor da Igreja, Santo Tomás de Aquino, fala especificamente dos Sacramentos do Matrimônio, da Penitência e da Santíssima Eucaristia. E aí compreenderemos sim que a CF é tomista.

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14 outubro, 2017

Reflexões da Sagrada Escritura: Nossa Senhora Aparecida, Rainha e Padroeira do Brasil.

“Mariae, de qua natus est Jesus, qui vocatur Christus”.
“Maria, da qual nasceu Jesus, chamado Cristo” (S. Mateus, I, 16).

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

Em 1954 Dom Carlos Carmelo de Vasconcelos Mota, Cardeal e Arcebispo Metropolitano de São Paulo, escreveu uma Carta Pastoral, verdadeira exaltação a Maria Santíssima. Dela daremos aqui aos caríssimos leitores apenas alguns trechos:

Nossa Senhora Aparecida, rainha e padroeira do Brasil, rogai por nós!

Nossa Senhora Aparecida, rainha e padroeira do Brasil, rogai por nós!

“Os filhos bem-nascidos e espiritualmente bem formados exultam sempre em conhecer a vida da criatura abençoada que lhes deu o ser e o materno leite e amor de mãe. Se assim é na ordem natural, mormente na ordem sobrenatural ou na ordem da vida da graça.

“Aquela que é Mater Divinae Gratiae tem todo o direito ao mais sublime amor e ao mais acendrado culto por parte de todos os verdadeiros cristãos, regenerados pelo divino sangue do Salvador dos homens. Pois este sangue redentor, Cristo o recebeu do seio  Imaculado e sempre virgem de Maria: Mariae, de qua natus est Jesus, qui vocatur Christus. A salvação moral e espiritual da cristandade descansará perenemente na proteção superna de Nossa Mãe do Céu, tal qual em seus braços maternais descansava o próprio Salvador, Jesus, o Cristo Filho de Deus Vivo.

A devoção a Nossa Senhora é a salvaguarda da fidelidade religiosa do nosso povo; e, para cada um de nós, o penhor da conquista do Paraíso. Para sermos verdadeiros e bons brasileiros, havemos de ser fiéis devotos da Mãe de Deus e Nossa. Em seus braços veio Jesus para nós; em seus braços iremos nós para Jesus.

“Foi no meado do Mês do Rosário, outubro de 1717, que, no Vale Mariano do Rio Paraíba, nas águas do porto de Itaguaçu, da paróquia de Guaratinguetá, deu-se o evento milagroso da Imagem Aparecida de Nossa Senhora da Conceição.

“O então vigário de Guaratinguetá, Padre José Alves de Vilela, deixou registrado no Livro de Tombo dessa sua privilegiada paróquia, um interessantíssimo relato de como a Imagem fora colhida pelas redes abençoadas do feliz pescador João Alves, que tinha por companheiros Domingos Martins Garcia e Filipe Pedroso. É de justiça ressaltar a benemerência desse sacerdote virtuoso e culto que, durante os primeiros trinta anos, cuidou zelosamente da devoção a Nossa Senhora Aparecida.

“Por iniciativa sua, com outros devotos, erigiu primitiva ermida, por ele mesmo, posteriormente transplantada e transformada em capela digna deste nome, cito no próprio local em que, cem anos mais tarde, construir-se-ia a majestosa igreja que é agora Basílica Nacional. (a antiga).

“Era em Itaguaçu que em todos os sábados, reunia-se a gente da vizinhança a cantar o terço, o ofício litúrgico popular e outros louvores a Nossa Senhora. Oxalá que tão belo exemplo de piedade de nossos antepassados não seja nunca jamais esquecido na tradição das famílias católicas de nossa Pátria!

Falando do PRIMEIRO CONGRESSO DA PADROEIRA diz Dom Mota:

“É o Brasil católico ajoelhado aos pés da Imaculada Conceição, é a alma brasileira que, em protestos de fé, cimenta e consolida os sentimentos que trouxemos do berço da nossa Pátria. Quer em romarias, mais ou menos organizadas, quer em grupos de famílias ou em visitas isoladas, sempre características do filial amor que devotamos à Mãe Santíssima, quantos saem daqui levando para a vida novas energias; quantos se regeneram no batismo da penitência; quantos abençoam a feliz inspiração que os trouxe um dia aos pés de Maria Santíssima!

“Aparecida é no Brasil a terra predileta de Nossa Senhora. É o Santuário em que ela se compraz de derramar as suas bênçãos, consolando e acariciando, a uns fortalecendo-lhes a fé e a coragem cristã, a outros inspirando nobres e salutares resoluções, quantas vezes restituindo-lhes a saúde do corpo, sempre a saúde da alma aos bem intencionados e sinceramente arrependidos”.

“Ainda as almas simples, as desse povo religioso e bom, que não sabe falar, mas sabe rezar, sentiam, como por instinto, que a Senhora Aparecida quer e deve reinar nos corações, nos lares, na família e na sociedade, em todos os recantos da Pátria estremecida, como Senhora absoluta de tudo quanto somos e de tudo quanto é nosso.

“Este Santuário é água que satisfaz ao paladar do humilde e pequenino, e ao dos sábios; tanto atrai a devoção do caboclo do sertão, como a do gênio de Tomás de Aquino. Aqui na Basílica de Nossa Senhora Aparecida, reza-se pela paz do Brasil grandioso e unido.

“Que Nossa Senhora Aparecida, doravante, e para sempre, Rainha incontestada, e Soberana do Brasil, conserve-nos a todos a unidade da fé na unidade inquebrantável da Pátria!”

“Aquiescendo paternalmente à patriótica e piedosa súplica do colendo Episcopado Nacional, houve por bem Sua Santidade, o Papa Pio XI, por MOTU PROPRIO de 16 de julho de 1930, oficialmente proclamar a Beatíssima e Imaculada Virgem Maria, sob o título de APARECIDA – PRECÍPUA PADROEIRA DE TODO O BRASIL, junto de Deus.

“Eis as formais palavras da referida proclamação: (traduzindo do latim):

“Por “motu próprio” e por conhecimento certo e madura reflexão Nossa, na plenitude de Nosso poder apostólico, pelo teor das presentes letras, constituímos e declaramos a Beatíssima Virgem Maria concebida sem mancha, sob o título de APARECIDA PADROEIRA PRINCIPAL DE TODO O BRASIL diante de Deus. Concedemos isto para promover o bem espiritual dos fiéis no Brasil e para aumentar cada vez mais a sua devoção à Imaculada Mãe de Deus”.

…”E então, de suas dadivosas mãos, a Virgem Imaculada – onipotência suplicante como é – fará jorrar sobre nós caudais de bênçãos; bênçãos que sejam luz para o nosso espírito em trevas de sobressaltos, que sejam força para a nossa vontade trepidante e quase a capitular, que sejam tranqüilidade para a nossa consciência em desassossego, e que sejam vibrações de sadio entusiasmo para o nosso coração abafado e desiludido.

“Sensibilizados e ternissimamente agradecidos, podemos e devemos afirmar que, assim como a França foi o histórico cenário escolhido pela Virgem Imaculada para sua aparição a Catarina Labouré, a 27 de novembro de 1830, exigindo a cunhagem da Medalha, por antonomásia a MEDALHA MILAGROSA, assim como foi a Itália o palco majestoso da visão de Afonso Ratisbonne, a 20 de janeiro de 1842, na igreja de Santo André delle Fratte, em Roma, triunfando a Virgem da Medalha sobre o seu espírito de judeu acérrimo; assim também, e muito antes, fora o Brasil, em águas do Paraíba, o recesso tranqüilo e humilde, eleito por Nossa Senhora da Conceição, para o miraculoso aparecimento de sua Imagem a 17 de outubro de 1717. Imagem tão pequena em sua dimensão, quão grande, na veneração e no amor dos brasileiros.

…”Porque Maria Santíssima havia de ser Mãe de Deus por isso foi Imaculada em sua Conceição. E, depois, porque era a Mãe de Deus e Imaculada, por isso foi ressuscitada e assunta ao Céu, na integridade de sua pessoa. Em Maria, o Sol da graça infinita e da infinita justiça, refulgiu no seu zênite no mistério augusto e inefável da Maternidade Divina. Mas, na Imaculada Conceição, na gloriosa Ressurreição e na excelsa Assunção, rebrilhou o mesmo Solstício. Maria obteve vitória total sobre o pecado, pela plenitude da graça de Imaculada e Mãe de Deus: bem como obteve vitória total sobre a morte, pela plenitude da vida ressurreta e imortalizada na Glória do Paraíso.

“Pois essa Criatura super-privilegiada, OBRA PRIMA  do Criador onipotente, onisciente e onibondoso, é a PRINCIPAL E CELESTIAL  PADROEIRA DE TODO BRASIL, JUNTO DE DEUS. É a nossa Mãe do Céu! Que Nossa Senhora Aparecida console os que choram, conforte os que sofrem, encaminhe os transviados, reconcilie os inimigos, consolide as famílias, harmonize as sociedades, salve o Brasil! E assim como foi sua milagrosa Imagem recolhida nas redes dos pescadores, assim também se digne a querida Mãe e Padroeira recolher-nos a todos nas redes de sua bondade  e de seu poder, levando-nos para o Céu, levando-nos para

Jesus: AD JESUM PER MARIAM!”

7 outubro, 2017

Reflexão da Sagrada Escritura: São Francisco de Assis e a Eucaristia.

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

Nesta crise tão grande por que passa a Igreja, a fé que já era tão diminuta nos corações, corre o risco de se extinguir, e sobretudo atinente à Santíssima Eucaristia, sacramento e sacrifício que são mistérios de fé, “mysterium fidei”. Mister se faz aplicar antídotos e, um deles é meditar no que os santos pensavam  e como agiam a respeito. Assim, nesta semana da festa de São Francisco de Assis, postaremos alguns excertos de seus escritos sobre a Eucaristia, como Sacrifício e como Sacramento.

sao-francisco-de-assis2“Rogo-vos pois, a vós todos, meus irmãos, beijando-vos os pés, e comtoda a caridade de que sou capaz, que manifesteis toda reverência e toda honra que puderdes ao santíssimo Corpo e ao Santíssimo Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, no qual foram purificadas todas as coisas, assim as da terra como as do céu, e reconciliadas com o Deus onipotente (Col. I, 20). Peço ainda no Senhor a todos os meus irmãos sacerdotes, os que são, vierem a ser ou desejarem ser sacerdotes do Altíssimo, que, ao celebrar a missa, ofereçam o verdadeiro sacrifício do santíssimo Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, pessoalmente puros, com disposição sincera, com reverência e com santa e pura intenção, jamais levados por qualquer interesse terreno nem por temor ou consideração de qualquer pessoa ‘como quem procura agradar aos homens’ (Col. III, 22). Seja antes todo vosso querer , na medida que vos ajudar a graça do Onipotente, ordenado para Deus, desejando assim agradar unicamente a Ele, o supremo Senhor, porque só Ele opera ali como for do seu agrado. Pois – como Ele mesmo diz: ‘Fazei isto em memória de mim’ (Lc XXII, 19)  –  quem proceder de outra maneira tornar-se-á outro Judas traidor e faz-se réu do Corpo e Sangue do Senhor (1 Cor. XI, 27).

Lembrai-vos, irmãos meus sacerdotes, que está escrito sobre a lei de Moisés que quem a transgredia nem que fosse só em coisas exteriores morria sem dó por sentença do Senhor. “Quanto maior e mais terrível castigo merece padecer aquele que pisa aos pés o Filho de Deus e tem em conta de profano o sangue do testamento pelo qual foi santificado, insulta a graça do Espírito” (Heb. X, 28 e 29)! Pois, o homem, segundo diz o Apóstolo, não discernindo nem distinguindo de outros alimentos e obras o santo pão de Cristo, o come indignamente ou, sendo indigno, o come sem o reto espírito e em atitude inconveniente, profana a calca aos pés o Cordeiro de Deus. Porquanto diz o Senhor pelo profeta:

“Maldito aquele que faz com negligência a obra do Senhor (Jer. XLVIII, 10. E condena na verdade os sacerdotes que não quiserem tomar isto a peito, dizendo: “Quero amaldiçoar as vossas bênçãos!” (Mal. II, 2).

Escutai, irmãos meus: Se honramos tanto a Bem-aventurada Virgem Maria,  como convém, por haver trazido em seu santíssimo seio o Filho de Deus; se o bem-aventurado (João) Batista estremeceu e não ousou tocar o vértice de Deus; se se presta culta ao sepulcro onde ele repousou por algum tempo  –  que santidade, que justiça, que dignidade não deve ter aquele que toca com as mãos, recebe na boca e no coração e distribui aos outros o Senhor que já não  – como outrora  –  vem para morrer, mas há de viver na glória por toda a eternidade, e “a quem os anjos desejam contemplar” (1 Ped. I, 12)!

Considerai a vossa dignidade, irmãos sacerdotes, e “sede santos porque ele é santo” (Lev. XI, 44)! E assim como o Senhor Deus vos honrou acima de todos, amai-O, reverenciai-O, honrai-O! É uma grande desgraça e uma lamentável fraqueza se vós, tendo-o assim presente, ainda vos preocupais com qualquer outra coisa no mundo inteiro. Pasme o homem todo, estremeça a terra inteira, rejubile o céu em altas vozes quando, sobre o altar, estiver nas mãos do sacerdote o Cristo, Filho de Deus vivo! Ó grandeza maravilhosa, ó admirável condescendência! Ó humildade sublime, ó humilde sublimidade! O Senhor do universo, Deus e filho de Deus, se humilha a ponto de se esconder, para nosso bem, na modesta aparência do pão! Vede, irmãos, que humildade a de Deus! Derramai ante Ele os vossos corações (Sl 61,9)! Humilhai-vos para que Ele vos exalte (1 Ped, V, 6)! Portanto nada de vós retenhais para vós mesmos, para que totalmente vos receba quem totalmente se vos dá! (Excertos da CARTA AO CAPÍTULO DOS FRADES MENORES).

“Peço-vos ainda com mais insistência do que se pedisse por mim mesmo, supliques humildemente aos clérigos, todas as vezes que o julgueis oportuno e útil, que prestem a mais profunda reverência ao santíssimo Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo (…) Os cálices e corporais que usam, os ornamentos do altar, enfim tudo quanto se relaciona ao sacrifício, sejam de execução preciosa. E se em alguma parte o Corpo do Senhor estiver sendo conservado muito pobremente, reponham-nO em lugar ricamente adornado e ali O guardem cuidadosamente encerrado segundo as determinações da Igreja, levem-nO sempre com grande respeito e ministrem-nO com muita discrição. Em todas as pregações que fizerdes, exortai o povo à penitência e dizei-lhe que ninguém poderá salvar-se se não receber o santíssimo Corpo e Sangue do Senhor. E quando o sacerdote O oferecer em sacrifício sobre o altar, e aonde quer que o leve, todo o povo dobre os joelhos e renda louvor, de modo que a toda hora, ao dobre dos sinos, o povo todo, no mundo inteiro, renda sempre graças e louvores ao Deus onipotente” (Excertos da CARTA A TODOS OS CUSTÓDIOS DOS FRADES MENORES).

“Todos devemos confessar os nossos pecados ao sacerdote e é dele que recebemos o Corpo e o Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo. Pois quem não comer a sua Carne e não beber o seu Sangue não pode entrar no reino de Deus (cf. Jo VI, 54). É preciso no entanto que se coma e beba dignamente, porquanto, quem receber indignamente, “come e bebe a sua própria condenação porque não discerne o corpo do Senhor” (1 Cor XI, 29). … Visitemos também frequentemente as igrejas e honremos e respeitemos os clérigos, não tanto por sua pessoa  –  se forem pecadores  –  mas sobretudo por causa do seu ministério em que nos administram o santíssimo Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo que sacrificam sobre o altar, recebem e repartem aos outros. E estejamos todos firmemente convencidos de que ninguém pode salvar-se e não ser pelas santas palavras e pelo Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo. Os clérigos pronunciam e anunciam essas palavras e ministram o sacramento. E só eles estão autorizados a exercer esse ministérios e mais ninguém” (Excertos da CARTA AO FIÉIS).

“Os meus abençoados irmãos, clérigos e leigos, confessem seus pecados aos sacerdotes da nossa Ordem. Se não for possível, confessem-se a outros sacerdotes prudente e católicos. E saibam claramente e considerem que, tendo recebido de qualquer dos sacerdotes católicos penitência e absolvição, estão absolvidos, sem dúvida alguma, daqueles pecados, se procurarem humilde e fielmente cumprir a penitência imposta. (…) E assim contritos e confessados recebem o Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, com grande humildade e respeito, recordando que o próprio Senhor disse: “Quem come a minha carne e bebe o  meus sangue possui a vida eterna” (Jo VI, 55); e: “Fazei isto em memória de mim” (Lc XXiI, 19).

“Mas também o Filho, em sendo igual ao Pai, não pode ser visto por alguém de modo diferente que o Pai e o Espírito Santo. Por isso são réprobos todos aqueles que viram o Senhor Jesus Cristo em sua humanidade sem enxergá-Lo segundo o espírito e a divindade e sem crer que Ele é o verdadeiro Filho de Deus. De igual modo são hoje em dia réprobos todos aqueles que  –  embora vendo o sacramento do Corpo de Cristo que, pelas palavras do Senhor, se torna santamente presente sobre o altar, sob as espécies de pão e vinho, nas mãos do sacerdote –  não olham segundo o espírito e a divindade nem crêem que se trata verdadeiramente do Corpo e do Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Atesta-o pessoalmente o Altíssimo quando diz: “Este é o meu Corpo e o Sangue de nova Aliança” (cf. Mc XIV, 22); e: “Quem comer a minha carne e beber o meu sangue terá a vida eterna” (cf. Jo VI, 55). Por isso é o espírito do Senhor que habita nos seus fiéis quem recebe o santíssimo Corpo e Sangue do Senhor (cf Jo VI, 62). Todos aqueles que não participam desse espírito e no entanto ousam comungar, “comem e bebem a sua condenação” (1 Cor XI, 29).

Portanto, “ó filhos dos homens, até quando tereis duro o coração?” (Sl 4, 3). Por que não reconheceis a verdade “nem credes no Filho de Deus”. (Jo IX, 35? Eis que Ele se humilha todos os dias (Fil II, 8); tal como na hora em que, “descendo do seu trono real” (Sab. XVIII, 5) para o seio da Virgem, vem diariamente a nós sob aparência humilde; todos os dias desce do seio do Pai sobre o altar, nas mãos do sacerdote. E como apareceu aos santos apóstolos em verdadeira carne, também a nós se nos mostra hoje no pão sagrado. E do mesmo modo que eles, enxergando sua carne, não viam senão sua carne, contemplando-o contudo com seus olhos espirituais creram nele como no seu Senhor e Deus (cf. Jo XX, 28), assim também nós, vendo o pão e o vinho com os nossos olhos corporais, olhemos e creiamos firmemente que está presente o santíssimo Corpo e Sangue vivo e verdadeiro. E desse modo o Senhor está sempre com os seus fiéis, conforme Ele mesmo diz: “Eis que estou convosco até a consumação dos séculos” (Mt XXVII, 20) (Excertos de: PALAVRAS DE EXORTAÇÃO A TODOS OS IRMÃOS).

“Mas todos aqueles que não vivem em espírito de penitência, nem recebem o Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo, e que praticam vícios e cometem pecados, e que vivem segundo suas más concupiscências e desejos perversos, e que não cumprem o que prometeram e com o seu corpo servem ao mundo, porque se deixaram ludibriar por suas concupiscências carnais, pelos cuidados e solicitudes deste mundo, pelo demônio, cujos filhos são e cujas obras praticam: cegos são eles, porque não são capazes de enxergar a verdadeira luz, Nosso Senhor Jesus Cristo. A sabedoria espiritual não na possuem porque não trazem dentro de si o Filho de Deus, que é a verdadeira sabedoria do Pai. E é deles que se diz: “Sua sabedoria foi devorada” (Sl 106, 27). Só enxergam, conhecem, sabem e praticam o mal e perdem deliberadamente suas almas. Reparai, ó cegos, iludidos por nossos inimigos, isto é,  –   pela carne, pelo mundo e pelo demônio  –  que é agradável ao corpo praticar o pecado, e amargo servir a Deus, porque todos os vícios e pecados procedem do coração do homem, como diz o Evangelho (Mt XV, 19). E nada tendes de vós, nem neste mundo nem no futuro. Julgais gozar por longo tempo as vaidades deste mundo, mas estais logrados, porque virá o dia e a hora na qual não pensais e que de todo desconheceis” (Excertos da CARTA AOS FIÉIS).

Carta a Todos os Clérigos: “Consideremos todos nós clérigos o grande pecado e ignorância que alguns manifestam com relação ao santíssimo Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo e seu santíssimo nome e palavras escritas que tornam santamente presente o  Corpo (de Cristo). Sabemos que o Corpo não pode restar presente se antes não for tornado presente pela palavra. Pois nada temos nem vemos corporalmente dele, do próprio Altíssimo, neste mundo, senão o Corpo e Sangue, os nomes e as palavras pelas quais fomos criados e remidos da morte para a vida. Logo, todos aqueles que administram tão sacrossantos mistérios e especialmente aqueles que os ministram sem a reta discrição, considerem no seu íntimo como são vulgares os cálices, corporais e panos de linho sobre as quais é oferecido em sacrifício o Corpo e Sangue de Nosso Senhor. E muitos O guardam em lugares bem comuns e O levam de modo lamentável (pela rua) e O recebem indignamente e O ministram indiscriminadamente. … Não excitam porventura tais fatos a nossa piedade e devoção por esse bom Senhor quando se digna de vir colocar-se ele próprio em nossas mãos e nós O tocamos e O recebemos todos os dias em nossa boca? Ou ignoramos que um dia havemos de cair em suas mãos?

Emendemo-nos depressa e firmemente dessas e de outras faltas. Onde quer que o santíssimo Corpo e Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo for conservado de modo inconveniente ou simplesmente deixado em alguma parte, que O tirem dali para colocá-Lo e encerrá-Lo num lugar ricamente adornado. Sabemos perfeitamente que estamos estritamente obrigados a observar tudo isto, em virtude dos mandamentos do Senhor e dos preceitos da santa Mãe Igreja; e os que o não fazem saibam bem que deverão prestar contas perante Nosso Senhor Jesus Cristo no dia do Juízo” (Excertos da CARTA A TODOS OS CLÉRIGOS).

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30 setembro, 2017

Reflexões da Sagrada Escritura: Jesus na Eucaristia fomenta várias outras virtudes.

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

“Aquele que come minha carne e bebe meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia” (S. João VI, 55).

“Todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice, anunciareis a morte do Senhor até que ele venha” (1 Cor. XI, 26).

“Visto que há um só pão, nós, embora muitos, formamos um só corpo, nós todos que participamos de um mesmo pão” (1 Cor. X, 17). 

* * *

NB: Dando continuidade à Encíclica “MIRAE CARITATIS” do Papa Leão XIII.

A esperança

A Santa Missa13. Eis aqui outro efeito deste sacramento: ele fortifica maravilhosamente assim a esperança dos bens imortais como a confiança no socorro divino. De feito, o desejo da felicidade, natural a todas as almas e inato nelas, é cada vez mais aguçado pela falsidade dos bens terrenos, pelas injustas violências de homens infames, enfim por todas as outras dores físicas e morais. Ora, o augusto sacramento da Eucaristia é ao mesmo tempo a causa e o penhor da felicidade e da glória, não para a alma somente, mas também para o corpo. Porquanto, enriquecendo as almas da abundância dos bens celestes, eles as inundam de alegrias dulcíssimas bem superiores aos que os homens imaginam e esperam: ampara-os na adversidade, dá-lhes forças no combate pela virtude, guarda-os para a vida eterna, e a ela os conduz fornecendo-lhes de alguma sorte os víveres necessários à viagem.

Quanto ao corpo frágil e sem força, essa divina Hóstia comunica-lhe o germe da ressurreição futura: o corpo imortal de Cristo infunde-lhe uma semente de imortalidade que, um dia, germinará e dará seus frutos. Que esta dupla sorte de bens deva daí resultar para a alma e para o corpo, sempre o ensinou a Igreja, conformemente à afirmação de Cristo:

“Aquele que come minha carne e bebe meu sangue tem a vida eterna, e eu o ressuscitarei no último dia (Jo VI, 55).

A penitência

14. O nosso assunto leva-nos a considerar, e é isto para nós de grande interesse, que a Eucaristia, instituída por Nosso Senhor como um memorial eterno da sua paixão, demonstra ao cristão a necessidade de emendar-se eficazmente (S. Tomás de Aquino, Opusc. LVIII, Ofício da festa do SS. Sacramento). Jesus disse, efetivamente, aos seus primeiros sacerdotes: Fazei isto em memória de mim (S. Lucas, XXII, 19); quer dizer, fazei-o para recordar minhas dores, minhas amarguras, minhas angústias, minha morte na cruz. É por isso que este sacramento – e esse sacrifício   –  é uma exortação constante a fazer penitência em todo tempo, e a suportar os maiores sofrimentos; é também uma grave e severa condenação desses prazeres que homens sem pudor tanto gabam e exaltam: Todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice, anunciareis a morte do Senhor até que ele venha (1 Cor XI, 26).

A caridade do próximo

15. Além disso, se investigarmos seriamente as causas dos males presentes, veremos que eles decorrem de haver a caridade dos homens entre si esmorecido ao mesmo tempo que se lhes arrefecia o amor a Deus. Eles se esqueceram de que são filhos de Deus e irmãos em Jesus Cristo; não se preocupam senão com seus interesses pessoais; quanto aos negócios alheios, não somente os descuram, mas não raras vezes os atacam e deles se apossam. Daí, entre as diversas classes de cidadãos, distúrbios e frequentes conflitos: a arrogância, a dureza e as fraudes, entre os poderosos; entre os pequenos, a miséria, a invejas e as divisões. Debalde se procura remediar esses males por leis previdentes pelo temor do castigo e pelos conselhos da prudência humana. Como já mais de uma vez e mais detidamente lembramos, é preciso preocupar-se e esforçar-se por obter que, por uma permuta de bons ofícios, as diversas classes de cidadãos contraiam entre si uma união de que Deus seja o princípio, e que produza  obras conformes ao espírito fraterno e à caridade de Jesus Cristo. Trouxe Cristo à terra essa virtude e quis que todos os corações sejam abrasados dela, a única capaz de proporcionar, mesmo para a vida presente, um pouco de felicidade assim para a alma como para o corpo: por ela, com efeito, o amor imoderado de si é refreado no homem;  por ela é reprimido o desejo ardente das riquezas, que é a raiz de todos os males (1Tim VI, 10). Se bem que, em verdade, se devam fazer observar todas as prescrições da justiça nas relações das diversas classes de cidadãos, todavia é principalmente com o socorro e os temperamentos da caridade que se poderá enfim obter a realização e a mantença, na sociedade humana, dessa igualdade aconselhada por São Paulo (2 Cor. VIII, 14).

16. Instituindo esse augusto sacramento, Cristo quis excitar o amor a Deus e, por esse mesmo fato, reaquecer o afeto mútuo entre os homens. Evidente é, com efeito, que este deriva naturalmente daquele, e que dele decorre como que espontaneamente. É  impossível que ele venha a faltar no quer que seja; muito mais, ele será necessariamente ardente e vigoroso se os homens considerarem seriamente nesse sacramento o amor de Cristo a eles: aí, o poder e a sabedoria de Cristo manifestam-se com esplendor, e as riquezas do seu divino amor aos homens aí são como que derramadas (Conc. Trid. ss. XIII. De Euchar., cap. II). À vista do exemplo insigne de Cristo prodigalizando-nos todos os seus bens, quanto não devemos nós amar-nos e ajudar-nos mutuamente, nós que estamos unidos por laços fraternos cada dia mais estreitos! Acrescentemos que os sinais constitutivos desse sacramento são, por sua vez incitamentos muito apropriados a essa união. A este respeito, S. Cipriano escreve: Enfim, os próprios sacrifícios do Senhor afirmam a universal união dos cristãos entre si por uma caridade firme e indissolúvel. Com efeito, quando o Senhor chama “seu corpo” ao pão formado por um conjunto de grãos, indica a união do nosso povo; e quando chama “seu sangue” ao vinho espremido desses milhares de cachos ou bagos de uva e formando uma só quantidade líquida, designa também o nosso rebanho formado pelo mistura de uma multidão de homens reunidos (Ep. 69, ad Magnum, n. 5). Do mesmo modo, nestes termos reproduz o Doutor angélico o pensamento de Agostinho (Trat. XXVI, in Joan., n. 13, 17): Nosso Senhor confiou seu corpo e seu sangue a essas substâncias que são formadas de múltiplos elementos reduzidos a um só corpo; primeiramente é o pão, composto de numerosos grãos reunidos; e em seguida é o vinho, proveniente de bagas inúmeras; e é por isso que Agostinho diz noutro lugar: Ó sacramento de piedade, ó sinal de unidade, ó vínculo de caridade! (Sum. Theol., III p., q. 79).

17. Essa doutrina é confirmada pelo Concílio de Trento, que ensina haver Cristo deixado à Igreja a Eucaristia “como o símbolo da sua unidade, e da caridade pela qual Ele quis que todos os cristãos fossem unidos e ligados entre si…; o símbolo desse corpo único de que Ele foi a cabeça, e ao qual quis que estejamos intimamente presos, como membros, pelos laços estreitíssimos da fé, da esperança e da caridade” (Sessão XIII, De Euchar., c. II). É também o que São Paulo ensinara: Por sermos um só pão, um só corpo, apesar do número, nós todos, que participamos de um só pão (1 Cor X, 17). E, certamente, belíssimo e dulcíssimo exemplo de fraternidade cristã e de igualdade social é ver se comprimirem indistintamente em torno dos altares o patrício e o homem do povo, o rico e o pobre, o sábio e o ignorante, participando todos igualmente do mesmo banquete celeste. E se, merecidamente, nos anais dos seus primórdios, cabe à Igreja uma glória especial de que a multidão dos crentes não tivesse senão um só coração e uma só alma (Atos IV, 32), não há dúvida alguma de que esse resultado tão precioso era devido à frequentação da mesa divina. Lemos, com efeito, a respeito dos primeiros cristãos: Eles perseveravam na doutrina dos apóstolos e na comunhão da fração do pão (Atos II, 42).

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16 setembro, 2017

Reflexões da Sagrada Escritura: Jesus na Eucaristia fomenta a Fé e refreia as paixões.

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

“O Senhor instituiu um memorial das suas maravilhas, ele que é misericordioso e compassivo. Deu alimento aos que o temem”  (Salmo 110, 4 e 5).

Dando continuidade à Encíclica Mirae Caritatis do Papa Leão XIII, sobre a Santíssima Eucaristia. Já foi publicado o artigo: Jesus na Eucaristia é fonte de vida sobrenatural.

* * *

cristo comunhaoA fé

Graças a esse sacramento excelentíssimo, onde aparece sobretudo como os homens são elevados à natureza divina, podem estes fazer os maiores progressos em todas as virtudes da ordem sobrenatural. E primeiramente a fé. Em todos os tempos a fé tem tido os seus adversários: porquanto, se bem que ela eleve o espírito humano pelo conhecimento das verdades mais sublimes, todavia, como mantém oculta a natureza dessas verdades que ela mostra como excedendo a natureza, por isso mesmo parece rebaixar os espíritos.

Outrora atacava-se ora tal dogma de fé, ora tal outro; mais tarde, essa guerra estendeu a muito mais longe as suas devastações, e, na hora presente, chegou-se afirmar que absolutamente não existe nada de sobrenatural. Ora, nada mais apto a reconduzir aos espíritos o vigor e o fervor da fé que o mistério eucarístico, propriamente chamado o mistério de fé: por uma especial abundância e variedade de milagres, ele sozinho contém tudo o que está acima da natureza: O Senhor clemente e misericordioso perpetuou a lembrança de suas maravilhas: deu um alimento aos que o temem (Salmo 110, 4 e 5).

Realmente, se Deus fez tudo o que está acima da natureza, referiu-o à Encarnação do Verbo, pela qual devia operar-se a restauração e a salvação do gênero humano, consoante a palavra do Apóstolo: Ele se propôs… restaurar em Cristo tudo o que está no céu e tudo o que está na terra (Efésios I, 9  e 10).

No testemunho dos santos Padres, a Eucaristia deve ser considerada como uma continuação e uma extensão da Encarnação; por ela, a substância do Verbo encarnado é ainda a cada um dos homens, e o supremo sacrifício do Calvário é renovado de maneira admirável, segundo esta profecia de Malaquias: Em todo lugar é sacrificada e oferecida ao meu nome, uma oblação pura (Malaquias I, 11). Esse milagre, o maior de todos no seu gênero, é acompanhado de milagres inúmeros. Aqui todas as leis da natureza são suspensas: toda a substância do pão e do vinho é convertida no Corpo e no Sangue de Cristo; as espécies do pão e do vinho, não contendo realidade alguma, são sustentadas pelo poder divino; o corpo de Cristo acha-se presente simultaneamente em tantos lugares quantos lugares houver onde o sacramento se cumpre simultaneamente. E, para obter da razão humana uma maior submissão a respeito de tão grande mistério, milagres realizados outrora e em nossos dias, e de que em mais de um lugar existem testemunhos públicos, lhe vêm, por assim dizer, em auxílio, e contribuem para a glória da Eucaristia. Esse sacramento, pois, como vemos, alimenta a fé, nutre o espírito, destrói os sistemas dos racionalistas, e mostra-nos sobretudo os esplendores da ordem sobrenatural.

Refreia as paixões

Não obstante, o enfraquecimento da fé nas verdades divinas não é unicamente obra do orgulho de que falamos mais acima; é devido também à depravação dos coração. Porquanto, se é um fato de experiência que, quanto melhores os costumes de um homem, tanto mais viva também a sua inteligência, em compensação os prazeres da carne embotam os espíritos: reconheceu-o a prudência pagã e predisse-o a sabedoria divina (Sab. I, 4). Mas é sobretudo na ordem das coisas divinas que as volúpias carnais obscurecem a luz da fé, e mesmo, por uma justa reprovação de Deus, a extinguem. Em nossos dias, o desejo insaciável desses prazeres da carne [ndr: que diria hoje Leão XIII?!] incendeia todos os homens, que mesmo desde a mais tenra juventude, sentem os efeitos desse contágio mórbido. O remédio para um mal tão horrendo acha-se na Eucaristia. O seu primeiro efeito é, aumentando a caridade, reprimir a paixão. Santo Agostinho diz, com efeito: O alimento desta (da caridade) é o enfraquecimento da paixão, e a sua perfeição é ausência da paixão (De diversis quaestionibus LXX  XII, quaest. XXXVI).

Além disso, como o ensinou S. Cirilo de Alexandria, a carne castíssima de Jesus comprime a insolência da nossa carne: Realmente, o Cristo existente em nós aplaca a lei da carne que impera nos nossos membros (Liv. IV, c. II, sobre S. João, VI, 57). Bem mais, o fruto todo particular e dulcíssimo da Eucaristia é Aquele que esta profecia significava: Que há de bom n’Ele (em Cristo), e que há de belo, se não é o trigo dos eleitos e o vinho que faz germinar as virgens? (Zac. IX, 17); quer dizer, esse desejo forte e constante da santa virgindade, que, mesmo num século imerso nas delícias, floresce na Igreja Católica
sobre uma extensão de dia para dia mais vasta e com abundância sempre crescente. Em toda parte, bem se sabe, é ele uma fonte de progresso e de glória para a religião e para a sociedade”.

Agradeço de coração as orações de todos feitas em prol de minha saúde. Deus lhes pague!

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8 setembro, 2017

Reflexões da Sagrada Escritura: Virtudes para uma família cristã.

Nosso caríssimo padre Élcio está de recesso por dois meses para tratamento de saúde, pelo que pedimos suas orações. Durante sua ausência, republicaremos suas colunas mais importantes – a que segue foi publicada originalmente em 16 de janeiro de 2016.

* * *

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

“Irmãos: revesti-vos como eleitos de Deus, santos e amados, de entranhas de misericórdia, benignidade, humildade, modéstia e paciência, suportando-vos uns aos outros, e perdoando-vos mutuamente, se alguém tiver queixas contra o outro; assim como o Senhor vos perdoou, perdoai-vos também. Mas sobre tudo isto: tende a caridade que é o vínculo da perfeição; e reine em vossos corações a paz de Cristo, para a qual fostes chamados em um só corpo; e sede agradecidos. Habite em vós abundantemente a palavra de Cristo, em toda a sabedoria, ensinando-vos e admoestando-vos uns aos outros com salmos, hinos e cânticos espirituais, cantando em vossos corações, com a ação da graça, louvores a Deus. E tudo quanto fizerdes por palavras ou por obra, fazei tudo em nome do Senhor Jesus Cristo, dando graças por Ele a Deus Pai. Mulheres, estai sujeitas a vossos maridos, como convém ao Senhor. Maridos, amai vossas mulheres, e não sejais ásperos para com elas. Filhos, obedecei em tudo a vossos pais, porque isto é agradável ao Senhor. Pais, não provoqueis à indignação os vossos filhos, para que se não tornem pusilânimes”(Colossenses, III, 12-21).

morning prayer family painlevre 63 rezandoNestas exortações de S. Paulo, temos os elementos indispensáveis para a felicidade das nossas famílias. Assim, o Apóstolo,  às opiniões do modernismo, destruidor dos mais sagrados vínculos, opõe os preceitos e virtudes criadores de uma felicidade e de uma paz ainda possível neste mundo. Aí está o segredo da paz familiar. Nosso Senhor Jesus Cristo afirmou que os filhos das trevas são mais prudentes nos seus negócios que os filhos da luz nos seus. Só para dar dois exemplos: O comerciante, aos clientes oferece prontamente suas mercadorias, ocultando a sua irritação quando as desprezam e sem ofender-se quando as recusam. Que “misericórdia”; que “paciência”; que “benignidade”; que ‘humildade”; que “perdão das ofensas”; que “sorrisos de amabilidade!”

O político a todos acolhe com amabilidade, tolerante com quem o importuna e prestimoso com quem lhe pede auxílio.  O comerciante faz tudo isto como se fosse um santo, mas não: é só para ganhar dinheiro. (Não quero com isto negar que há comerciante santo também).

O político parece praticar virtudes heróicas, mas, na verdade, pensa só em conseguir votos, e, consequentemente, honra e sobretudo, dinheiro. (Também aqui não pretendo negar que possa existir político santo: é difícil, mas para Deus nada é impossível).

Mas, caríssimos, qual destes motivos compara-se ao grande bem na paz familiar? Dádiva do céu, ela transforma o lar em um vestíbulo do paraíso, as agruras da vida em oásis de bênçãos. A paciência, a humildade, a benignidade, a misericórdia, ensinam aos cônjuges  a arte de se suportarem uns aos outros. Sigam os cônjuges os conselhos de São Paulo supracitados, e as divergências que pareciam separá-los virão a soldar ainda mais o vínculo matrimonial. Saibam os cônjuges perdoar-se mutuamente. Enquanto um momento de silêncio restituirá a bonança, um revide protrairá a tempestade por longos dias e semanas inteiras. Tal como Jesus generosamente perdoou nossos graves crimes, perdoem-se os esposos, com igual generosidade, as discrepâncias de temperamento e de caráter.

A caridade é o liame destinado a unir os fiéis entre si e com Deus. Nesta união consiste toda a perfeição cristã. O amor da paz deveria inspirar todos os sentimentos dos esposos como convém a membros de um só corpo. O lar verdadeiramente cristão deveria estar sempre agradecido a Deus pelos favores d’Ele recebidos. Os ensinamentos e máximas de Nosso Senhor Jesus deveriam ser a bússola em toda a sua conduta e empreendimentos. De um lar cristão são banidas e execradas as máximas do mundo.  “Exortai-vos uns aos outros por meio de salmos, hinos e cânticos espirituais”, insiste o Apóstolo, assim apontando-nos na oração a maior garantia de paz para o lar. A oração é, ao mesmo tempo, fonte de onde haurimos as energias necessárias para os momentos trágicos que não faltam na existência de cada indivíduo, como não faltam na vida de toda família. Repudiando os maus conselhos de um mundo colocado no Maligno, busquem os esposos na Santa Religião e no seu Deus o conforto que anima, e da prece fervorosa de um coração que sofre sairá a arma vitoriosa que tudo suporta. “Onde quer que dois ou três se acharem reunidos em meu nome – diz Jesus Cristo – estarei eu no meio deles” (S. Mateus XVIII, 20). Na verdade, nunca um lar se sente mais unido como quando todos os componentes se voltam para Deus repetindo todos a mesma prece divina: “Pai Nosso que estais no céu”. O lar, porém, que ignora a oração encaminha-se para o desmoronamento, enquanto o lar que ora, que reza todos dias o Santo Terço, sela com o nome de Deus e a intercessão de Sua Mãe Santíssima, a sua união e garante a sua felicidade. Seguindo, pois, os conselhos do Apóstolo São Paulo, não será difícil aos nossos lares realizar aquela felicidade que fará das famílias cristãs outros tantos vestíbulos do céu.

Para terminar, lembremos algo sobre a MISERICÓRDIA. O Rei Davi era um homem santo. A própria Bíblia mostra-o para os outros reis como um modelo de fidelidade a Deus. Mas, num momento de ociosidade e fraqueza cometeu o gravíssimo pecado de adultério e, em consequência o homicídio, outro pecado muito grave. Deus, através do profeta Natan, abriu-lhe os olhos e tocado de sincero arrependimento exclamou: “Pequei”.  Davi chorou a vida toda estes seus graves pecados. Não perdia oportunidade de fazer penitência e escreveu o Salmo 50, Miserere. Eis apenas alguns versículos deste belíssimo salmo de penitência: “Tem piedade de mim, ó Deus, segundo a tua misericórdia; segundo a multidão das tuas clemências, apaga a minha iniquidade” (vers. 1-3); “O meu sacrifício, ó Deus, é um espírito contrito, não desprezarás, ó Deus, um coração contrito e humilhado” (vers. 19).

 

2 setembro, 2017

Reflexões da Sagrada Escritura: A volta do filho pródigo.

Nosso caríssimo padre Élcio está de recesso por dois meses para tratamento de saúde, pelo que pedimos suas orações. Durante sua ausência, republicaremos suas colunas mais importantes – a que segue foi publicada originalmente em 31 de janeiro de 2017.

* * *

“Aproximam-se d’Ele os publicanos e os pecadores para O ouvir. Os fariseus e os escribas murmuravam, dizendo: Este recebe os pecadores e come com eles” (S. Lucas XV, 1 e 2).

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

Nosso Senhor Jesus Cristo mostra com três parábolas, a da ovelha tresmalhada, a da dracma perdida e a do filho pródigo, que assim agia porque a misericórdia de Deus é infinita. E Deus é infinitamente misericordioso porque conhece a fundo a nossa miséria. Como a meditação destas parábolas é confortadora para os pecadores arrependidos!

O  Nosso Pai do céu espera o pecador com paciência, busca-o com solicitude e recebe-o quando arrependido, com grande alegria.

O-pai-misericordioso-e-os-dois-filhos

É bom ler todas estas três parábolas. Encontram-se no Evangelho de São Lucas XV,  1-32. Quanto a parábola do filho pródigo, há três partes distintas: a partida, os desmandos e a volta do filho pródigo. Vamos meditar aqui apenas a terceira parte.

A primeira operação da graça na conversão do pecador é pôr-lhe à vista os seus pecados. Ela descobre-lhe o profundo abismo em que caiu, e inspira-lhe o desejo de sair dele. O filho pródigo entra em si. Faz, digamos assim, um exame de consciência. Ai! andava fora de si, havia muito tempo; até onde o tinham arrastado as suas paixões! Entra em si. Uma luz viva lhe dissipa as trevas; a ilusão cessa. Vê as coisas como são; já não exagera o valor dos gozos criminosos que tanto desejou. “Onde estou, diz ele consigo mesmo, e que fiz eu? Que significam estes vestidos esfarrapados, esta ocupação, esta fome? Que foi feito das minhas riquezas, da minha liberdade, da minha consciência, da minha honra? Casa paterna, não te tornarei a ver jamais? Quão longe estão de mim esses belos dias, em que, nada tendo a exprobrar-me, nada tinha a temer! Agora, a minha companhia são animais imundos; a mais dura escravidão, eis o meu estado; viver na miséria, eis a minha triste sorte. Quanto invejo a vossa sorte, ó servos de meu pai! A sua bondade previne os vossos pedidos, tendes em sua casa a abundância e eu, seu filho, morro aqui de fome.

A graça prepara assim a conversão de uma alma extraviada; esclarece-a, ilumina-a. Ao pecador, diz o Espírito Santo: “Pobre filho, onde estás”, como Deus perguntou a Adão logo que este pecou e procurou se esconder envergonhado: “Adão, onde estás, que fizeste?”

Deus derrama uma luz penetrante na sua alma; força-o a lembrar-se do estado de graça, do dia feliz da primeira comunhão. Então ele era tão feliz! Que doce paraíso estar com Jesus! Ah! que mudança terrível! Dantes, vencedor do demônio; hoje, seu mais desgraçado escravo. Antes alimentava-se com a própria Carne de Jesus pela comunhão.  O pecador, cheio de amargura, atormentado pelos remorsos, pode dizer como o filho pródigo: “Quantos diaristas há na casa de meu pai, que têm pão em abundância e eu aqui morro de fome!” Quantos conhecidos e parentes têm a consciência em paz, gozam santamente com as práticas religiosas, principalmente com a sagrada comunhão, nada lhes falta na casa de Deus; e eu, pereço de fome!

Para fazermos estas reflexões, tínhamos deixado o filho pródigo sentado debaixo de uma árvore, cabeça baixa, derramando lágrimas, na companhia imunda dos porcos. Agora, voltemos a ele novamente. Envergonhado do passado, receoso do futuro, enche-se de generosidade, e decide-se reparar seus erros. Seu coração está contrito e humilhado! Diz: “Levantar-me-ei, irei ter com meu pai, e dir-lhe-ei: Pai, pequei contra o céu e contra ti; já não sou digno de ser chamado teu filho. Trata-me como um dos teus diaristas”. E não perdeu tempo! Foi generoso!”E levantando-se foi para seu pai.

Aqui façamos também algumas reflexões: Eis o modelo do pecador penitente. Em vez de se entregar a um louco desalento, tem confiança; mas a sua confiança em nada diminui a sua humildade. “Levantar-me-ei”. Se é vergonhoso cair, é honroso levantar-se. Mas aonde ireis, pobre rapaz? Quem quererá interessar-se pela vossa sorte?  – “Irei para meu pai; enquanto me restar um pai, cuja ternura me é conhecida, resta-me um recurso seguro. É verdade que levei muito longe a minha ingratidão para com ele; mas se eu fui um filho desnaturado, ele é sempre bom pai”. – E que lhe direis vós? – “Dir-lhe-ei: Pai, esta só palavra comoverá seu coração. Se os soluços me impedirem de falar, as minhas lágrimas lhe falarão por mim; mas, se eu puder dominar a minha emoção confessar-lhe-ei todos os meus crimes. Dir-lhe-ei: Pequei contra o Céu, testemunha das minhas desordens; mas pequei também contra vós, o melhor dos pais!”

“Já não sou digno de ser chamado teu filho”. O filho fez justiça à bondade de seu pai, esperando que lhe perdoasse; e faz justiça a si mesmo, humilhando-se. Não reclama as prerrogativas de filho, é indigno delas; basta-lhe ser admitido no número dos criados: “Trata-me como a um dos teus diaristas”. Finalmente não se limita a vãos desejos: o que resolveu, executa-o, e sem demora. Disse: Levantar-me-ei e já está em pé; irei buscar a meu pai, e já deixou o vil rebanho, e se dirige para a casa paterna.

Quem esqueceu o seu destino eterno como filho de Deus, imite este modelo. Humilhe-se primeiramente; a humildade aproximá-lo-á de Deus, quanto a soberba o afastou d’Ele. A verdadeira penitência gera o desprezo de si. Deus não resiste aos seus atrativos: Deus se inclina para o homem humilde. Se o pecador se humilhar na sua presença, deve contar com a misericórdia divina. Quanto mais indigno for de tão bom pai, tanto mais excitará a sua compaixão. Perdoará o seu pecado, precisamente porque é grande: “Por causa de teu nome, Senhor, me hás de perdoar o meu pecado, porque é grande” (Salmo XXIV, 11).

Caríssimos, Deus, Nosso Senhor e Pai, quis mostrar-nos o seu próprio coração na terceira parte desta parábola, assim como nas duas primeiras nos mostrou o nosso. Teria o bom pai esquecido o seu filho? Não absolutamente! Pelo contrário, pensava nele incessantemente. Como o reconheceu logo, quando o viu no triste estado, a que o haviam reduzido o crime e a miséria? Como não se indignou ao dar com os olhos nele? Como pôde esquecer tão depressa todas as suas desordens, para só se lembrar da sua desgraça? São segredos do amor paternal. “Quando ele ainda estava longe, seu pai viu-o, ficou movido de misericórdia”. Oh! que belo espetáculo tenho aqui para contemplar! O pai não espera por seu filho: corre para ele, abraça-o, beija-o, cobre-o de carícias.

Este acolhimento tão terno e tão pouco merecido aumenta o arrependimento do culpado. Quer fazer a humilde confissão do seu pecado; mas o pai interrompe-o, e diz aos criados: “Ide buscar o melhor vestido para meu filho; metei-lhe um anel no dedo, e sapatos nos pés; preparai um festim, regalemo-nos; e todos os que me querem bem, tomem parte na minha alegria: meu filho estava morto, e reviveu; tinha-o perdido, e achei-o”.

Pecador arrependido, não temas as exprobrações de Deus, que desejava tanto a tua conversão; restituir-te-á a sua amizade, e com ela todos os vossos direitos, todos os bens que tínheis perdido, ofendendo-O.

O filho mais velho, voltando do campo, queixa-se, e indigna-se. Não, ó vós sempre fiéis pela graça, não sejais invejosos. Ninguém vos tira o que tendes: os vossos direitos, os vossos merecimentos, o amor do vosso Deus. Vosso irmão, de escravo torna-se rei, mas sem vos destronar a vós; enriquece-se, mas vós nada perdeis. Convinha que houvesse alegria, porque o vosso irmão era morto, e reviveu. A conversão de um pecador é motivo de alegria até para os Anjos do Céu!

Amém!

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26 agosto, 2017

Reflexões da Sagrada Escritura: O que é a ambiguidade?

Nosso caríssimo padre Élcio está de recesso por dois meses para tratamento de saúde, pelo que pedimos suas orações. Durante sua ausência, republicaremos suas colunas mais importantes – a que segue foi publicada originalmente em 31 de janeiro de 2017.

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Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

Já que o Português veio do Latim, comecemos por este. E por trilhar caminho mais seguro, vejamos pelo uso clássico. Não resta dúvida que Virgílio foi um grande escritor latino. Pois bem, ele empregou a palavra ambiguus para significar: o que tem dois sentidos (Eneidas 3, 180). Este seria o sentido próprio. Cícero empregou o termo ambiguus no sentido de enganador (já no sentido figurado). Se um gesto, ato ou palavra têm dois sentidos, naturalmente podem levar ao engano.

3692461733_469a9f17dfEm Português, ambíguo significa equívoco, incerto, impreciso. O antônimo é: claro, preciso, firme.

Vamos, agora, ao mais importante e seguro: O que diz a Bíblia Sagrada?

Disse Nosso Senhor Jesus Cristo: “Seja o vosso falar: sim, sim; não, não. Tudo o que disso passa, procede do maligno” (S. Mateus V, 37).

São Tiago repete a mesma pregação de Jesus: “Mas seja a vossa palavra: – sim, sim – não, não – para que não caiais sob o peso do juízo” (S. Tiago V, 12).

Lemos no Eclesiástico II, 14: “Ai do coração dobre… e do pecador que anda sobre a terra por dois caminhos”. No capítulo V, 11 do mesmo livro: “Não te voltes a todo vento, e não andes por todos os caminhos, porque é assim que todo pecador se dá a conhecer pela duplicidade da sua língua”.

Provérbios, VIII, 13: “O temor do Senhor odeia o mal. Eu detesto a arrogância e a soberba, o mau proceder e a LÍNGUA DUPLA”.

Destaquei esta última citação do Livro dos Provérbios porque é sobre ela que me deterei mais um pouco. Língua dupla é justamente a língua que profere ambiguidades, ou palavras de dois sentidos e, portanto, enganadoras. Estudamos em Teologia que, todas as vezes que as Sagradas Escrituras empregam a palavra detestar ou detestável etc. isto significa que se trata de algum mal grave. Estudamos isto na Teologia quando se trata de saber o que seria pecado grave ou leve.

Logo, em se tratando de ambiguidades que provocam desastres na fé e, portanto, de consequências eternas, é evidente, que neste caso, se revestem de uma gravidade incomensurável. Sabemos que a Santa Madre Igreja sempre ostentou uma clareza singular nos seus dogmas, definidos no decorrer dos séculos pelos vários Papas e Concílios.

A ambiguidade é tão perigosa que não adianta o Magistério “Vivo” da Igreja ficar sempre dizendo qual é o sentido verdadeiro. Os inimigos da Igreja sempre tirarão suas consequências no sentido que não é o verdadeiro. E 50 anos foram suficientes, sobretudo para quem os vem acompanhando, para se perceber que os modernistas no Concilio tiveram a intenção (como parece mostrar o cardeal Kasper — houve até no Concílio quem declarou esta sua intenção; mas é claro não podemos julgar e generalizar; veremos no dia do Juízo) de colocar ambiguidades onde poderiam tirar depois suas conclusões. E tudo parece indicar que eles entendiam que Concílio Pastoral era sinônimo de Ecumenismo. E talvez a ambiguidade tenha sido empregada para se poder fazer ecumenismo. Cito apenas esta passagem do Concílio Vaticano II: “A Igreja de Cristo subsiste na Igreja Católica”. Todos os Santos, Papas, Concílios e Doutores sempre ensinaram que a Igreja de Cristo é a Igreja Católica. O povo católico nunca teve dificuldade em entendê-lo. Agora, o tal “subsist in”, “subsiste em” é tão difícil de entender que até os teólogos se sentem embaraçados na ginástica que fazem para explicá-lo. Então a Pastoral não é para o povo entender melhor, mas, para os protestantes se sentirem melhor e mais firmes nas suas heresias. Que Concílio Pastoral é esse! Queremos deixar claro o seguinte: o que o Concílio repetiu da Tradição e não o deturpou por nenhuma ambiguidade, é bom! Mas, há um axioma que diz: “Bonum ex integra causa, malum ex quocumque defectu”. Extraindo pela raiz o que há de defeituoso, ambíguo e perigoso do Concilio Vaticano II, este não provocará mais meio século de discussões e desastres. Tornar-se-á uma boa árvore e dará bons frutos. É o que certamente fará o Magistério Vivo, Perene e Infalível da Santa Madre Igreja. Quando, não sabemos! Como o Concílio Vaticano II não definiu nada, restará o que nele traz da Tradição.

O perigo da Ambiguidade e o Bom Senso

Vimos o que é uma coisa ambígua: o que pode ser interpretado em dois sentidos. Algo, portanto, perigoso. E por isto mesmo autores clássicos, como por exemplo Cícero, empregaram o adjetivo “ambiguus” para significar “perigoso”.

Vamos compreendê-lo com um exemplo infelizmente acontecido, e não simples ficção. Trata-se do maior desastre aéreo até hoje acontecido. Ocorreu em 27 de Março de 1977, no Aeroporto de Tenerife, que fica nas Ilhas Canárias. Dois Jumbos, um da Pan Am e outro da companhia aérea da Holanda KLM, se chocaram quando se preparavam para decolar. Morreram 612 pessoas.

Mas, qual a causa desta tão terrível tragédia? A ambiguidade, e foi uma ambiguidade apenas fônica. Foi o seguinte: a torre de controle havia ordenado a um dos pilotos “Hold position”, isto é, sustente a posição, ou seja, FIQUE PARADO. Mas o piloto entendeu “Roll to position”, o que quer dizer: vá para a posição, isto é, SIGA. O piloto do outro jumbo recebeu esta última ordem bem entendida. E foi assim que os dois aviões se chocaram em pleno aeroporto.

Então, a partir deste dia a aviação internacional retirou do seu vocabulário a expressão “roll to position”, trocando-a por outra que não provocasse dúvidas e novos desastres. A avião internacional agiu segundo o bom senso. Não se limitou a avisar que os pilotos ficassem mais atentos para não se equivocarem. Não disse que estivessem bem convencidos dos significados das duas expressões. Em se tratando de vidas humanas, a voz do bom senso exigia a máxima segurança.

Agora, apenas, uma ficção. Suponhamos (só para efeito de argumentação) que desde Santos Dumont (início do século XX), a expressão de comando fosse outra sem a mínima ambiguidade de som, tanto assim que nunca tinha havido mal entendido neste ponto, e, consequentemente, nunca ninguém tinha morrido por isso. Pois bem, depois foi mudada. E então, depois desse acidente tão fatídico, tão triste, suponhamos que a aviação internacional não quisesse voltar à expressão tradicional que nunca apresentou perigo de ambiguidade. Isso seria o cúmulo da ausência de bom senso. Seria um absurdo inqualificável.

Caríssimos e amados leitores, sirva tudo isso como parábola.

A Santa Igreja é o avião que nos conduz ao Céu. Quando se trata de avião, é mister empregar sempre o mais seguro. E todo cuidado é pouco quando se trata de se chegar ao Céu ou não. Céu e inferno são eternos. Felicidade eterna ou infelicidade eterna. Por isso, a Santa Igreja, como Mãe solícita e bondosa, sempre ostentou uma clareza singular nos seus dogmas. Por exemplo, a Santa Missa, que é ao mesmo tempo a sua oração por excelência e uma explícita profissão de fé, clara e sem ambiguidades, deu tantos frutos de santidade! Foi sempre uma barreira inexpugnável contra as heresias, defendendo a fé dos seus filhos. Por isso os protestantes tinham ódio da Missa de sempre. E por que elogiaram tanto a Missa Nova? Porque em si mesma tem ambiguidades. E podendo ser feita em vernáculo poderia ser assim manipulada à vontade!

No Concílio Vaticano II, repetindo o exemplo, trocou-se a expressão “A Igreja de Cristo é a Igreja Católica” por esta outra tão ambígua que até os que querem explicá-la no bom sentido, sentem dificuldade: “A Igreja de Cristo subsiste na Igreja Católica”. Quer dizer: a primeira expressão inequívoca desde o início do Cristianismo nunca pôde ser interpretada heterodoxamente e os católicos nunca tiveram a mínima dificuldade em entendê-la. Mas, no Concílio Vaticano II, para dar azo ao ecumenismo, aquela expressão foi trocada pela outra mais difícil de ser entendida pelos católicos e com uma facilidade imensa de ser explorada pelos inimigos da Igreja, como realmente foi e está sendo mesmo após o Magistério “Vivo” dizer que o sentido verdadeiro é o da Tradição. É o perigo da ambiguidade.

O pior é que as almas estão se perdendo. Os desastres na fé provocados por essas ambiguidades têm consequências eternas. Milhões de católicos estão passando para as seitas. E o pior de tudo isto é que pessoas que comandam o avião da Igreja continuam com as expressões novas ambíguas. E péssimo é que as antigas são “detritos”. As expressões inequivocamente tradicionais foram inseridas no Concilio Vaticano II apenas como acessórios descartáveis, com a finalidade única de conseguir todas as assinaturas dos Padres do Concilio. A maioria do Concílio, terminado o Concílio, na prática, tiraria as consequências das ambiguidades, e descartaria os acessórios tradicionais. Uma árvore má só pode dar maus frutos.

Parece que não poderia haver algo mais triste, lamentável e desastroso do que o Papa empregar uma linguagem ambígua em questões dogmáticas (a indissolubilidade do Matrimônio e a presença real de Jesus Cristo Eucarístico). No entanto, mais desastroso, lamentável e triste do que isto, é o fato de o Soberano Pontífice se recusar a responder às respeitosas e bem fundadas “DUBIAS” que os quatro cardeais lhe apresentaram. Se se tratasse de um possível desastre ambiental, certamente logo procuraria dar uma explicação (aliás, ao tratar deste assunto (LAUDATO SI) usou de muita clareza!). Às vezes, fico a pensar que as profecias de Nossa Senhora de La Salette já se estão cumprindo!

Rezemos não só para que esses quatro cardeais vão à frente e não retrocedam, mas que apareçam outros em defesa da doutrina de Nosso Senhor Jesus Cristo. NA SANTA MADRE IGREJA, A LEI SUPREMA É A SALVAÇÃO DAS ALMAS. Amém!

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19 agosto, 2017

Reflexões da Sagrada Escritura: Restaurar em Cristo todas as coisas.

Nosso caríssimo padre Élcio está de recesso por dois meses para tratamento de saúde, pelo que pedimos suas orações. Durante sua ausência, republicaremos suas colunas mais importantes – a que segue foi publicada originalmente em 30 de janeiro de 2016.

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“É n’Ele (Jesus Cristo) que temos a redenção pelo seu sangue, a
remissão dos pecados, segundo as riquezas de sua graça, a qual
derramou abundantemente sobre nós, em toda sabedoria e prudência; a
fim de nos tornar conhecido o mistério da sua vontade, segundo o seu
beneplácito, que tinha estabelecido consigo mesmo, de restaurar em
Cristo todas as coisas…” (Efésios I, 7-10).

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

“… A volta das nações ao respeito da majestade e da soberania divina, por mais esforços, aliás, que façamos para realizá-lo, não advirá senão por Jesus Cristo. De feito, o Apóstolo adverte-nos que ninguém pode lançar outro fundamento senão aquele que foi lançado e que é a Cristo Jesus  (1 Cor III, 11). Só a ele foi que o Pai santificou e enviou a este mundo (S. João X, 36), esplendor do Pai e figura da sua substância (Heb. I, 3), verdadeiro Deus e verdadeiro homem, sem o qual ninguém pode conhecer a Deus como convém, pois ninguém pode conhecer a Deus como convém, pois ninguém conhece o Pai a não ser o Filho e aquele a quem o Filho quiser revelá-lo (S. Mateus XI,  27).

São Pio X.

São Pio X.

“Donde se segue que restaurar tudo em Cristo e reconduzir os homens à obediência divina são uma só e mesma coisa. E é por isto que o fito para o qual devem convergir todos os nossos esforços é reconduzir o gênero humano ao império de Cristo. Feito isto, o homem achar-se-á, por isso mesmo, reconduzido a Deus. Mas – queremos dizer – não um Deus inerte e descuidoso das coisas humanas, como nos seus loucos devaneios o forjaram os materialistas, senão um Deus vivo e verdadeiro, em três pessoas na unidade de natureza, autor do mundo, estendendo a todas as coisas a sua infinita Providência, enfim legislador justíssimo que pune os culpados e assegura às virtudes a sua recompensa”

“Ora, onde está a via que nos dá acesso a Jesus Cristo? Está debaixo dos nossos olhos: é a Igreja. Diz-no-lo com razão S. João Crisóstomo: ‘A Igreja é a tua esperança, a Igreja é a tua salvação, a Igreja é o teu refúgio’. Foi para isso que Cristo a estabeleceu, depois de adquiri-la ao preço do seu sangue; foi para isso que Ele lhe confiou a sua doutrina e os tesouros da graça divina para a santificação e salvação dos homens”.

… “Trata-se de reconduzir as sociedades humanas, desgarradas longe da sabedoria de Cristo, reconduzi-las à obediência da Igreja; a Igreja, por seu turno, submetê-las-á a Cristo, e Cristo a Deus. E, se pela graça divina nos for dado realizar esta obra, termos a alegria de ver a iniquidade ceder lugar à justiça, e folgaremos de ouvir uma grande voz dizendo do alto dos céus: Agora é a salvação, e a virtude, e o reino de nosso Deus e o poder de seu Cristo (Apocalipse XII, 10).”

“Todavia, para que o resultado corresponda aos nossos votos, mister se faz, por todos os meios e à custa de todos os esforços, desarraigar inteiramente essa detestável e monstruosa iniquidade própria do tempo em que vivemos e pela qual o homem se substitui a Deus; restabelecer na sua antiga dignidade as leis santíssimas e os conselhos do Evangelho; proclamar bem alto as verdades ensinadas pela Igreja sobre a santidade do matrimônio, sobre a educação da infância, sobre a posse e o uso dos bens temporais, sobre os deveres dos que administram a coisa pública; restabelecer, enfim, o justo equilíbrio entre as diversas classes da sociedade segundo as leis e as instituições cristãs.”

“Tais são os princípios que, para obedecer à divina vontade, nós nos propomos aplicar durante todo o curso do Nosso Pontificado e com toda a energia de nossa alma” (…)

São Pio X indica, a seguir, os meios para formar em todos Jesus Cristo e assim n’Ele restaurar todas as coisas:

– Formar Cristo nos sacerdotes;

– Daí todo cuidado com os Seminaristas;

– Cuidado com os novos Sacerdotes;

– Necessidade do ensino religioso;

– Fazer tudo isto com caridade cristã;

É preciso que todos os fiéis colaborem.

Formar Cristo nos Sacerdotes:

“Que meios importa empregar para atingir um fim tão elevado? Parece supérfluo indicá-los, tanto eles apresentam à mente por si mesmos. Sejam os vossos [dos bispos] primeiros cuidados formar Cristo naqueles que, pelo dever da sua vocação, são destinados a formá-lo nos outros. Queremos falar dos sacerdotes, Veneráveis Irmãos. Porquanto todos aqueles que são honrados com o sacerdócio devem saber que têm, entre os povos com que convivem, a mesma missão que Paulo testava haver recebido, quando pronunciava esta ternas palavras: ‘Filhinhos, a quem eu gero de novo, até que Cristo se forme em vós’ (Gálatas IV, 19).

Ora, como poderão eles cumprir um tal dever, se eles próprios não forem primeiramente revestidos de Cristo? E revestidos até poderem dizer com o Apóstolo: ‘Vivo, já não eu, mas Cristo vive em mim’ (Gal. II, 20). ‘Para mim, Cristo é a minha vida’ (Filipenses I, 21). Por isso, embora todos os fiéis devam aspirar ao estado de homem perfeito, à medida da idade da plenitude de Cristo (Efésios IV, 3), essa obrigação incumbe principalmente àquele que exerce o ministério sacerdotal. Por isto é ele chamado outro Cristo; não somente porque participa do poder de Jesus Cristo, mas porque deve imitar-Lhe a imagem em si mesmo”.

“Se assim é, Veneráveis Irmãos, quão grande não deve ser a vossa solicitude para formar o clero na santidade! Não há negócio que não deva ceder o passo a este. E a consequência é que o melhor e o principal do vosso zelo deve aplicar-se aos vossos Seminários, para introduzir neles uma tal ordem e lhes assegurar um tal governo, que neles se veja florescerem lado a lado a integridade do ensino e a santidade dos costumes. Fazei do Seminário as delícias do vosso coração, e não descureis coisa alguma daquilo que, na sua alta sabedoria, o Concílio de Trento, prescreveu para garantir a prosperidade dessa instituição”.

Em seguida São Pio X lembra aos bispos algumas advertências das Sagradas Escrituras:

‘Não imponhas precipitadamente as mãos a ninguém, e não te faças participante dos pecados dos outros’ (1 Timóteo, V, 22).  ‘Guarda o depósito, evitando as novidades profanas na linguagem, tanto quanto as objeções de uma ciência falsa, cujos partidários com todas as suas promessas faliram na fé’ (1 Timóteo VI, 20 ss). São Pio X conclui sua encíclica lembrando a misericórdia divina: “Que Deus, rico em misericórdia (Ef. II, 4), apresse, na sua bondade, essa renovação do gênero humano em Jesus Cristo, visto não ser isso obra nem daquele que quer, nem daquele que corre, mas do Deus das misericórdias’ (Romanos IX, 16). (Este artigo são excertos da Encíclica “E Supremi  Apostolatus” – 1903).

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12 agosto, 2017

Reflexões da Sagrada Escritura: O escândalo dado pelo Sacerdote, pecado enorme por sua natureza.

Nosso caríssimo padre Élcio está de recesso por dois meses para tratamento de saúde, pelo que pedimos suas orações. Durante sua ausência, republicaremos suas colunas mais importantes – a que segue foi publicada originalmente em 27 de fevereiro de 2016.

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“O que escandalizar um destes pequeninos, que crêem em mim, melhor lhe fora que se lhe pendurassem ao pescoço a mó dum moinho, e que o lançassem no fundo do mar” (S. Mateus XVIII, 6)

“É inevitável que venham escândalos, mas ai daquele homem pelo qual vem o escândalo” (S. Mateus  XVIII, 7).

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

1 – O Sacerdote escandaloso é o grande inimigo de Deus. – Ofende à Santíssima Trindade, persegue-A, se assim posso exprimir-me, com uma impiedade que horroriza. O Eterno Pai elegera-o, para fazer conhecer e honrar o seu nome, para publicar e fazer observar a sua lei, para trazer à sua obediência as almas desgarradas, e confirmar no seu amor as almas inconstantes, para lhe preparar um povo de escolhidos, fazendo-o reinar sobre os corações; para isto o prevenira com as bênçãos da sua graça, o enchera de seus benefícios. Este Sacerdote tinha aceitado tão nobre missão, e prometido solenemente consagrar-lhe toda  a sua existência; ora, se chega a escandalizar, que faz ele? Combate contra a causa de Deus que prometer defender. Longe de submeter ao Senhor os súditos fiéis; longe de induzir os homens a respeitar o seu nome,  leva-os a blasfemá-lo; em lugar de o fazer reinar sobre os corações, expulsa-o deles; em lugar de lhe preparar escolhidos, é para o inferno que os recruta!

LaSalette08Deus Filho, Redentor das almas, confiava no Sacerdote, para lhes aplicar os merecimentos da sua morte e do seu sangue. Para isto o revestira de inefáveis poderes, e lhe pôs nas mãos todos os tesouros da sua misericórdia; pois a essas almas, remidas por tão alto preço, não só as deixa perder, mas ainda, à vista do seu Salvador, as fere, mata e precipita na eterna condenação; aniquila para elas a obra da Redenção!

Deus Espírito Santo tomara-o para seu instrumento. Queria servir-se dele, para combater o pecado, purificar as almas, e fazer delas outros tantos templos onde morasse com o Eterno Pai e com o Filho:  “Viremos a ele e nele faremos morada” (S. João XIV, 23); e o Sacerdote escandaloso, em vez de auxiliar estes misericordiosos desígnios, destrói-os; em vez de arruinar o império do pecado, estende-o e consolida-o; em vez de purificar as almas, mancha-as; e fecha para Deus esses templos espirituais de que era guarda, e abre-os para o demônio! Não é isto fazer à Santíssima Trindade uma guerra cruel e pérfida?

2- O Sacerdote escandaloso é inimigo das almas. – Constituindo-nos seus ministros, Deus queria que cooperássemos para as salvar. Temos rigorosa obrigação; de guiá-los e ampará-los; de levantá-los, se caem; e de empregar na sua santificação todos os meios que foram postos à nossa disposição. Como cumpre o Sacerdote escandaloso esta obrigação? Nós só temos acesso junto das almas, pela confiança que lhes inspiramos; que confiança pode inspirar aquele que prega uma moral, e pratica outra? Entre as palavras que dizem: “Não façais o eu  faço”, e as ações que clamam: “Não acrediteis o que eu digo”, advinha-se o que impressionará mais fortemente os espíritos, talvez já mal dispostos. Os corações corrompidos autorizam-se em suas desordens como o exemplo daquele que devia reprimi-las. E as almas simples não temerão perder-se, seguindo os maus exemplos do guia que Deus lhes deu. E neste caso, onde parará a licença de costumes? Quando à tendência que leva o homem a imitar tudo o que vê, vem juntar-se o impulso das paixões: o mau exemplo é uma torrente, que rompe todos os diques. Mas, se esta corrente se precipita dos mais altos montes, o seu curso será ainda mais impetuoso, e os estragos mais extensos; a alteza da nossa dignidade é a medida do mal causado com os nossos escândalos. O arbusto, ao cair, a nada causa dano; mas o carvalho frondoso esmaga, na sua queda, tudo o que encontra debaixo de si. Assim, o sal da terra tornou-se um princípio de corrupção, para os que ele devia conservar na inocência; a luz do mundo, que devia dirigir  as almas nos caminhos da virtude, mete-as nas alfurjas do vício; o Pastor de almas que devia defender o seu rebanho, faz nele uma horrível carnificina.

3- O Sacerdote escandaloso é o maior inimigo da Igreja. – Uma só queda no Santuário pode ter consequências incalculáveis. O mundo, tão indulgente para si, é inexorável para os ministros do Senhor. Ao mesmo tempo que desculpa os seus próprios crimes, não perdoa aos Sacerdotes uma fraqueza. E muito longe de encobrir, com o seu silêncio, os escândalos que neles vê, publica-os aos quatro ventos. Fá-los correr de paróquia em paróquia, de diocese em diocese. Perpetua-os, e dá-lhes uma espécie de imortalidade, bem lamentável.

O mundo quereria que durasse cem anos, e talvez até ao fim dos séculos, muitas almas pequem, se pervertam e se condenem, em consequência de um pecado cometido por um sacerdote escandaloso. A censura que faz cair sobre o seu mau proceder, recai indiretamente sobre todos os membros do Clero. Imputa os mesmos vícios aos que exercem as mesmas funções. Chega até a tratar como fábulas, as verdades mais sagradas, só porque é testemunha da sua oposição com os costumes daquele que as ensina. Se este Sacerdote, dizem, cresse o que prega, portar-se-ia assim? Eis, pois, a honra do Clero manchada, o zelo dos bons Sacerdotes paralisado, a piedade destruída, os sacramentos abandonados ou profanados, a fé quase extinta em vastas regiões, milhares de almas perdidas em consequência dos escândalos dados por um Sacerdote e um Pastor de almas. (…) “Vae homini illi!” Ai daquele homem por quem vier o escândalo! Se, ó Deus, todo-poderoso, se castigais de um modo tão terrível o escândalo dado a um só dos vossos filhos, que suplício reservais àquele que tiver escandalizado as multidões, e os povos?

E  o escândalo pode ser dado de de três maneiras diferentes: 1-  De intenção e perversidade; 2- De tibieza e de negligência; 3- De leviandade e de imprudência.

1º) Escândalo de intenção e de perversidade. – O homem do Santuário, que leva o esquecimento dos seus deveres até espalhar em volta de si um cheiro de morte, justifica de sobra a máxima: Corruptio optimi pessima = a corrupção do ótimo é péssima. Todavia, quando falamos do escândalo de intenção, não afirmamos que alguém perca as almas, pelo gosto de as perder. Este escândalo que é propriamente o de Satanás, só seria possível em um sacerdote que atingisse o último grau de perversidade. Mas, sem chegarmos a este ponto, sabe-se que certa palavra, certa ação, certo procedimento são capazes de ferir a consciência do próximo; vêem-se as consequências funestas, que de certo pecado podem resultar para a honra do Sacerdócio, e não se recua, comete-se. Este desgraçado Sacerdote ilude-se a si, para pecar livremente; abusa até da autoridade, do ascendente que lhe dá o seu estado, para abalar uma virtude, de que ele devia ser o amparo. (…)

2º) Escândalo de tibieza e negligência. – Este inspira menos horror que o primeiro; mas as consequências podem ser também deploráveis. Ai! e quão comum é ele! Se os costumes de um sacerdote não são um modelo, tornam-se um perigo; se não ensina a piedade com sua vida, inspira, autoriza, multiplica o vício. A vida do Sacerdote deve ser a censura não só das desordens públicas, mas ainda das falsas virtudes, que o mundo desejaria substituir às virtudes evangélicas. A sua separação de tudo o que é profano; sua modéstia, sua santidade devem recordar incessantemente aos seculares: que os verdadeiros cristãos são homens mortos para si mesmos, cuja vida está escondida com Jesus Cristo em Deus. Já conhecemos as exigências do mundo em matéria de santidade sacerdotal. Quer que o ministro de Deus seja um Anjo, isento de todo o defeito, adornado de todas as virtudes; se vê qualquer coisa de menos, admira-se, escandaliza-se. Se há exageração nas suas ideias neste ponto, esclareçamos os juízos do mundo, mas não os desprezemos. Relações com os seculares, funções desprezadas ou mal exercidas. Oh! quão numerosas são as ocasiões de escândalo, para um homem do Santuário, par um pastor de almas!

3º) Escândalo de leviandade e de imprudência.  É uma grande vitória para o inimigo das almas, se pode servir-se, para as perder, daqueles mesmos que Deus elegera para as salvar. Pouco lhe importa o modo como o auxiliam os ministros do Senhor; a leviandade e a imprudência servem-lhe quase tão eficazmente como o crime. Na realidade, a falta de prudência e de circunspeção nunca é inocente em um homem encarregado de interesses tão graves, e obrigado, por tantas leis, a uma vida que deve ser a mais séria e refletida. A um Sacerdote não se lhe admite, tão facilmente como a qualquer pessoa, a desculpa de que não pensava nisso; pois ninguém, tanto como ele, deve considerar atentamente o que diz e faz, quando, e em presença de quem o diz e o faz. Não basta que seja santo, é necessário que o mostre, e o mostre em tudo. Uma pergunta, uma palavra indiscreta, um gracejo, uma leviandade, em passo inconsiderado, têm sido muitas vezes semente de escândalo, desgraçadamente muito fecunda. Quantos eclesiásticos, em seu trato com o mundo, em suas viagens, mesmo no interior de sua casa, no meio das crianças e sobretudo no meio de pessoas de outro sexo, etc, porque desprezam precauções que a malignidade tornou indispensáveis, dão lugar a suspeitas, que ofendem a honra do Clero, e vêm a ser ocasião de ruína para as almas.

(Artigo extraído do livro “MEDITAÇÕES SACERDOTAIS” de autoria do R. P. Chaignon, S. J.).

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