Archive for ‘Coluna do Padre Élcio’

12 agosto, 2017

Reflexões da Sagrada Escritura: O escândalo dado pelo Sacerdote, pecado enorme por sua natureza.

Nosso caríssimo padre Élcio está de recesso por dois meses para tratamento de saúde, pelo que pedimos suas orações. Durante sua ausência, republicaremos suas colunas mais importantes – a que segue foi publicada originalmente em 27 de fevereiro de 2016.

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“O que escandalizar um destes pequeninos, que crêem em mim, melhor lhe fora que se lhe pendurassem ao pescoço a mó dum moinho, e que o lançassem no fundo do mar” (S. Mateus XVIII, 6)

“É inevitável que venham escândalos, mas ai daquele homem pelo qual vem o escândalo” (S. Mateus  XVIII, 7).

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

1 – O Sacerdote escandaloso é o grande inimigo de Deus. – Ofende à Santíssima Trindade, persegue-A, se assim posso exprimir-me, com uma impiedade que horroriza. O Eterno Pai elegera-o, para fazer conhecer e honrar o seu nome, para publicar e fazer observar a sua lei, para trazer à sua obediência as almas desgarradas, e confirmar no seu amor as almas inconstantes, para lhe preparar um povo de escolhidos, fazendo-o reinar sobre os corações; para isto o prevenira com as bênçãos da sua graça, o enchera de seus benefícios. Este Sacerdote tinha aceitado tão nobre missão, e prometido solenemente consagrar-lhe toda  a sua existência; ora, se chega a escandalizar, que faz ele? Combate contra a causa de Deus que prometer defender. Longe de submeter ao Senhor os súditos fiéis; longe de induzir os homens a respeitar o seu nome,  leva-os a blasfemá-lo; em lugar de o fazer reinar sobre os corações, expulsa-o deles; em lugar de lhe preparar escolhidos, é para o inferno que os recruta!

LaSalette08Deus Filho, Redentor das almas, confiava no Sacerdote, para lhes aplicar os merecimentos da sua morte e do seu sangue. Para isto o revestira de inefáveis poderes, e lhe pôs nas mãos todos os tesouros da sua misericórdia; pois a essas almas, remidas por tão alto preço, não só as deixa perder, mas ainda, à vista do seu Salvador, as fere, mata e precipita na eterna condenação; aniquila para elas a obra da Redenção!

Deus Espírito Santo tomara-o para seu instrumento. Queria servir-se dele, para combater o pecado, purificar as almas, e fazer delas outros tantos templos onde morasse com o Eterno Pai e com o Filho:  “Viremos a ele e nele faremos morada” (S. João XIV, 23); e o Sacerdote escandaloso, em vez de auxiliar estes misericordiosos desígnios, destrói-os; em vez de arruinar o império do pecado, estende-o e consolida-o; em vez de purificar as almas, mancha-as; e fecha para Deus esses templos espirituais de que era guarda, e abre-os para o demônio! Não é isto fazer à Santíssima Trindade uma guerra cruel e pérfida?

2- O Sacerdote escandaloso é inimigo das almas. – Constituindo-nos seus ministros, Deus queria que cooperássemos para as salvar. Temos rigorosa obrigação; de guiá-los e ampará-los; de levantá-los, se caem; e de empregar na sua santificação todos os meios que foram postos à nossa disposição. Como cumpre o Sacerdote escandaloso esta obrigação? Nós só temos acesso junto das almas, pela confiança que lhes inspiramos; que confiança pode inspirar aquele que prega uma moral, e pratica outra? Entre as palavras que dizem: “Não façais o eu  faço”, e as ações que clamam: “Não acrediteis o que eu digo”, advinha-se o que impressionará mais fortemente os espíritos, talvez já mal dispostos. Os corações corrompidos autorizam-se em suas desordens como o exemplo daquele que devia reprimi-las. E as almas simples não temerão perder-se, seguindo os maus exemplos do guia que Deus lhes deu. E neste caso, onde parará a licença de costumes? Quando à tendência que leva o homem a imitar tudo o que vê, vem juntar-se o impulso das paixões: o mau exemplo é uma torrente, que rompe todos os diques. Mas, se esta corrente se precipita dos mais altos montes, o seu curso será ainda mais impetuoso, e os estragos mais extensos; a alteza da nossa dignidade é a medida do mal causado com os nossos escândalos. O arbusto, ao cair, a nada causa dano; mas o carvalho frondoso esmaga, na sua queda, tudo o que encontra debaixo de si. Assim, o sal da terra tornou-se um princípio de corrupção, para os que ele devia conservar na inocência; a luz do mundo, que devia dirigir  as almas nos caminhos da virtude, mete-as nas alfurjas do vício; o Pastor de almas que devia defender o seu rebanho, faz nele uma horrível carnificina.

3- O Sacerdote escandaloso é o maior inimigo da Igreja. – Uma só queda no Santuário pode ter consequências incalculáveis. O mundo, tão indulgente para si, é inexorável para os ministros do Senhor. Ao mesmo tempo que desculpa os seus próprios crimes, não perdoa aos Sacerdotes uma fraqueza. E muito longe de encobrir, com o seu silêncio, os escândalos que neles vê, publica-os aos quatro ventos. Fá-los correr de paróquia em paróquia, de diocese em diocese. Perpetua-os, e dá-lhes uma espécie de imortalidade, bem lamentável.

O mundo quereria que durasse cem anos, e talvez até ao fim dos séculos, muitas almas pequem, se pervertam e se condenem, em consequência de um pecado cometido por um sacerdote escandaloso. A censura que faz cair sobre o seu mau proceder, recai indiretamente sobre todos os membros do Clero. Imputa os mesmos vícios aos que exercem as mesmas funções. Chega até a tratar como fábulas, as verdades mais sagradas, só porque é testemunha da sua oposição com os costumes daquele que as ensina. Se este Sacerdote, dizem, cresse o que prega, portar-se-ia assim? Eis, pois, a honra do Clero manchada, o zelo dos bons Sacerdotes paralisado, a piedade destruída, os sacramentos abandonados ou profanados, a fé quase extinta em vastas regiões, milhares de almas perdidas em consequência dos escândalos dados por um Sacerdote e um Pastor de almas. (…) “Vae homini illi!” Ai daquele homem por quem vier o escândalo! Se, ó Deus, todo-poderoso, se castigais de um modo tão terrível o escândalo dado a um só dos vossos filhos, que suplício reservais àquele que tiver escandalizado as multidões, e os povos?

E  o escândalo pode ser dado de de três maneiras diferentes: 1-  De intenção e perversidade; 2- De tibieza e de negligência; 3- De leviandade e de imprudência.

1º) Escândalo de intenção e de perversidade. – O homem do Santuário, que leva o esquecimento dos seus deveres até espalhar em volta de si um cheiro de morte, justifica de sobra a máxima: Corruptio optimi pessima = a corrupção do ótimo é péssima. Todavia, quando falamos do escândalo de intenção, não afirmamos que alguém perca as almas, pelo gosto de as perder. Este escândalo que é propriamente o de Satanás, só seria possível em um sacerdote que atingisse o último grau de perversidade. Mas, sem chegarmos a este ponto, sabe-se que certa palavra, certa ação, certo procedimento são capazes de ferir a consciência do próximo; vêem-se as consequências funestas, que de certo pecado podem resultar para a honra do Sacerdócio, e não se recua, comete-se. Este desgraçado Sacerdote ilude-se a si, para pecar livremente; abusa até da autoridade, do ascendente que lhe dá o seu estado, para abalar uma virtude, de que ele devia ser o amparo. (…)

2º) Escândalo de tibieza e negligência. – Este inspira menos horror que o primeiro; mas as consequências podem ser também deploráveis. Ai! e quão comum é ele! Se os costumes de um sacerdote não são um modelo, tornam-se um perigo; se não ensina a piedade com sua vida, inspira, autoriza, multiplica o vício. A vida do Sacerdote deve ser a censura não só das desordens públicas, mas ainda das falsas virtudes, que o mundo desejaria substituir às virtudes evangélicas. A sua separação de tudo o que é profano; sua modéstia, sua santidade devem recordar incessantemente aos seculares: que os verdadeiros cristãos são homens mortos para si mesmos, cuja vida está escondida com Jesus Cristo em Deus. Já conhecemos as exigências do mundo em matéria de santidade sacerdotal. Quer que o ministro de Deus seja um Anjo, isento de todo o defeito, adornado de todas as virtudes; se vê qualquer coisa de menos, admira-se, escandaliza-se. Se há exageração nas suas ideias neste ponto, esclareçamos os juízos do mundo, mas não os desprezemos. Relações com os seculares, funções desprezadas ou mal exercidas. Oh! quão numerosas são as ocasiões de escândalo, para um homem do Santuário, par um pastor de almas!

3º) Escândalo de leviandade e de imprudência.  É uma grande vitória para o inimigo das almas, se pode servir-se, para as perder, daqueles mesmos que Deus elegera para as salvar. Pouco lhe importa o modo como o auxiliam os ministros do Senhor; a leviandade e a imprudência servem-lhe quase tão eficazmente como o crime. Na realidade, a falta de prudência e de circunspeção nunca é inocente em um homem encarregado de interesses tão graves, e obrigado, por tantas leis, a uma vida que deve ser a mais séria e refletida. A um Sacerdote não se lhe admite, tão facilmente como a qualquer pessoa, a desculpa de que não pensava nisso; pois ninguém, tanto como ele, deve considerar atentamente o que diz e faz, quando, e em presença de quem o diz e o faz. Não basta que seja santo, é necessário que o mostre, e o mostre em tudo. Uma pergunta, uma palavra indiscreta, um gracejo, uma leviandade, em passo inconsiderado, têm sido muitas vezes semente de escândalo, desgraçadamente muito fecunda. Quantos eclesiásticos, em seu trato com o mundo, em suas viagens, mesmo no interior de sua casa, no meio das crianças e sobretudo no meio de pessoas de outro sexo, etc, porque desprezam precauções que a malignidade tornou indispensáveis, dão lugar a suspeitas, que ofendem a honra do Clero, e vêm a ser ocasião de ruína para as almas.

(Artigo extraído do livro “MEDITAÇÕES SACERDOTAIS” de autoria do R. P. Chaignon, S. J.).

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5 agosto, 2017

Reflexões da Sagrada Escritura: A volta do filho pródigo.

Nosso caríssimo padre Élcio está de recesso por dois meses para tratamento de saúde, pelo que pedimos suas orações. Durante sua ausência, republicaremos suas colunas mais importantes – a que segue foi publicada originalmente em 23 de abril de 2016.

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“Aproximam-se d’Ele os publicanos e os pecadores para O ouvir. Os fariseus e os escribas murmuravam, dizendo: Este recebe os pecadores e come com eles” (S. Lucas XV, 1 e 2).

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

Nosso Senhor Jesus Cristo mostra com três parábolas, a da ovelha tresmalhada, a da dracma perdida e a do filho pródigo, que assim agia porque a misericórdia de Deus é infinita. E Deus é infinitamente misericordioso porque conhece a fundo a nossa miséria. Como a meditação destas parábolas é confortadora para os pecadores arrependidos!

O  Nosso Pai do céu espera o pecador com paciência, busca-o com solicitude e recebe-o quando arrependido, com grande alegria.

O-pai-misericordioso-e-os-dois-filhos

É bom ler todas estas três parábolas. Encontram-se no Evangelho de São Lucas XV,  1-32. Quanto a parábola do filho pródigo, há três partes distintas: a partida, os desmandos e a volta do filho pródigo. Vamos meditar aqui apenas a terceira parte.

A primeira operação da graça na conversão do pecador é pôr-lhe à vista os seus pecados. Ela descobre-lhe o profundo abismo em que caiu, e inspira-lhe o desejo de sair dele. O filho pródigo entra em si. Faz, digamos assim, um exame de consciência. Ai! andava fora de si, havia muito tempo; até onde o tinham arrastado as suas paixões! Entra em si. Uma luz viva lhe dissipa as trevas; a ilusão cessa. Vê as coisas como são; já não exagera o valor dos gozos criminosos que tanto desejou. “Onde estou, diz ele consigo mesmo, e que fiz eu? Que significam estes vestidos esfarrapados, esta ocupação, esta fome? Que foi feito das minhas riquezas, da minha liberdade, da minha consciência, da minha honra? Casa paterna, não te tornarei a ver jamais? Quão longe estão de mim esses belos dias, em que, nada tendo a exprobrar-me, nada tinha a temer! Agora, a minha companhia são animais imundos; a mais dura escravidão, eis o meu estado; viver na miséria, eis a minha triste sorte. Quanto invejo a vossa sorte, ó servos de meu pai! A sua bondade previne os vossos pedidos, tendes em sua casa a abundância e eu, seu filho, morro aqui de fome.

A graça prepara assim a conversão de uma alma extraviada; esclarece-a, ilumina-a. Ao pecador, diz o Espírito Santo: “Pobre filho, onde estás”, como Deus perguntou a Adão logo que este pecou e procurou se esconder envergonhado: “Adão, onde estás, que fizeste?”

Deus derrama uma luz penetrante na sua alma; força-o a lembrar-se do estado de graça, do dia feliz da primeira comunhão. Então ele era tão feliz! Que doce paraíso estar com Jesus! Ah! que mudança terrível! Dantes, vencedor do demônio; hoje, seu mais desgraçado escravo. Antes alimentava-se com a própria Carne de Jesus pela comunhão.  O pecador, cheio de amargura, atormentado pelos remorsos, pode dizer como o filho pródigo: “Quantos diaristas há na casa de meu pai, que têm pão em abundância e eu aqui morro de fome!” Quantos conhecidos e parentes têm a consciência em paz, gozam santamente com as práticas religiosas, principalmente com a sagrada comunhão, nada lhes falta na casa de Deus; e eu, pereço de fome!

Para fazermos estas reflexões, tínhamos deixado o filho pródigo sentado debaixo de uma árvore, cabeça baixa, derramando lágrimas, na companhia imunda dos porcos. Agora, voltemos a ele novamente. Envergonhado do passado, receoso do futuro, enche-se de generosidade, e decide-se reparar seus erros. Seu coração está contrito e humilhado! Diz: “Levantar-me-ei, irei ter com meu pai, e dir-lhe-ei: Pai, pequei contra o céu e contra ti; já não sou digno de ser chamado teu filho. Trata-me como um dos teus diaristas”. E não perdeu tempo! Foi generoso!”E levantando-se foi para seu pai.

Aqui façamos também algumas reflexões: Eis o modelo do pecador penitente. Em vez de se entregar a um louco desalento, tem confiança; mas a sua confiança em nada diminui a sua humildade. “Levantar-me-ei”. Se é vergonhoso cair, é honroso levantar-se. Mas aonde ireis, pobre rapaz? Quem quererá interessar-se pela vossa sorte?  – “Irei para meu pai; enquanto me restar um pai, cuja ternura me é conhecida, resta-me um recurso seguro. É verdade que levei muito longe a minha ingratidão para com ele; mas se eu fui um filho desnaturado, ele é sempre bom pai”. – E que lhe direis vós? – “Dir-lhe-ei: Pai, esta só palavra comoverá seu coração. Se os soluços me impedirem de falar, as minhas lágrimas lhe falarão por mim; mas, se eu puder dominar a minha emoção confessar-lhe-ei todos os meus crimes. Dir-lhe-ei: Pequei contra o Céu, testemunha das minhas desordens; mas pequei também contra vós, o melhor dos pais!”

“Já não sou digno de ser chamado teu filho”. O filho fez justiça à bondade de seu pai, esperando que lhe perdoasse; e faz justiça a si mesmo, humilhando-se. Não reclama as prerrogativas de filho, é indigno delas; basta-lhe ser admitido no número dos criados: “Trata-me como a um dos teus diaristas”. Finalmente não se limita a vãos desejos: o que resolveu, executa-o, e sem demora. Disse: Levantar-me-ei e já está em pé; irei buscar a meu pai, e já deixou o vil rebanho, e se dirige para a casa paterna.

Quem esqueceu o seu destino eterno como filho de Deus, imite este modelo. Humilhe-se primeiramente; a humildade aproximá-lo-á de Deus, quanto a soberba o afastou d’Ele. A verdadeira penitência gera o desprezo de si. Deus não resiste aos seus atrativos: Deus se inclina para o homem humilde. Se o pecador se humilhar na sua presença, deve contar com a misericórdia divina. Quanto mais indigno for de tão bom pai, tanto mais excitará a sua compaixão. Perdoará o seu pecado, precisamente porque é grande: “Por causa de teu nome, Senhor, me hás de perdoar o meu pecado, porque é grande” (Salmo XXIV, 11).

Caríssimos, Deus, Nosso Senhor e Pai, quis mostrar-nos o seu próprio coração na terceira parte desta parábola, assim como nas duas primeiras nos mostrou o nosso. Teria o bom pai esquecido o seu filho? Não absolutamente! Pelo contrário, pensava nele incessantemente. Como o reconheceu logo, quando o viu no triste estado, a que o haviam reduzido o crime e a miséria? Como não se indignou ao dar com os olhos nele? Como pôde esquecer tão depressa todas as suas desordens, para só se lembrar da sua desgraça? São segredos do amor paternal. “Quando ele ainda estava longe, seu pai viu-o, ficou movido de misericórdia”. Oh! que belo espetáculo tenho aqui para contemplar! O pai não espera por seu filho: corre para ele, abraça-o, beija-o, cobre-o de carícias.

Este acolhimento tão terno e tão pouco merecido aumenta o arrependimento do culpado. Quer fazer a humilde confissão do seu pecado; mas o pai interrompe-o, e diz aos criados: “Ide buscar o melhor vestido para meu filho; metei-lhe um anel no dedo, e sapatos nos pés; preparai um festim, regalemo-nos; e todos os que me querem bem, tomem parte na minha alegria: meu filho estava morto, e reviveu; tinha-o perdido, e achei-o”.

Pecador arrependido, não temas as exprobrações de Deus, que desejava tanto a tua conversão; restituir-te-á a sua amizade, e com ela todos os vossos direitos, todos os bens que tínheis perdido, ofendendo-O.

O filho mais velho, voltando do campo, queixa-se, e indigna-se. Não, ó vós sempre fiéis pela graça, não sejais invejosos. Ninguém vos tira o que tendes: os vossos direitos, os vossos merecimentos, o amor do vosso Deus. Vosso irmão, de escravo torna-se rei, mas sem vos destronar a vós; enriquece-se, mas vós nada perdeis. Convinha que houvesse alegria, porque o vosso irmão era morto, e reviveu. A conversão de um pecador é motivo de alegria até para os Anjos do Céu!

Amém!

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30 julho, 2017

Reflexões da Sagrada Escritura: A Medalha Milagrosa e a conversão de Afonso Ratisbonne.

Nosso caríssimo padre Élcio está de recesso por dois meses para tratamento de saúde, pelo que pedimos suas orações. Durante sua ausência, republicaremos suas colunas mais importantes – a que segue foi publicada originalmente em 26 de novembro de 2015.

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

“Nessa maravilhosa conversão manifesta-se o dedo de Deus; aí se admira o poder de Maria Santíssima, pois não havia nada, absolutamente nada que dispusesse Afonso Ratisbonne para receber tão assinalado favor.

MedalhaMilagrosaNasceu Afonso em Strasburgo, no meio de uma rica família israelita. Eram ao todo dez irmãos. Teodoro, doze anos mais velho que Afonso, chega à fé cristã após longas e penosas pesquisas, na calma da reflexão e na plena madureza de espírito.

Teodoro, recebeu o batismo aos 25 anos, após haver concluído seu curso de Direito. Abraçou o estado eclesiástico e foi sagrado sacerdote cinco anos depois do seu batismo.

Seu irmão Afonso, desde a primeira mocidade jactava-se de não ter nenhuma religião. “Eu era judeu de nome, diz ele; eis tudo, porque eu não acreditava nem sequer em Deus. Nunca abri um livro de religião e, na casa do meu tio, bem como entre meus irmãos e irmãs, não se praticava a menor prescrição do judaísmo”.

Um ano e quatro meses antes da sua conversão, enfermara gravemente um dos seus sobrinhos, filho do seu irmão mais velho. O Padre Teodoro, que então exercia os seus ministérios sacerdotais em Paris, desejava pelo menos abrir as portas do céu a seu sobrinho, conferindo-lhe o santo batismo.

Teria talvez alcançado o assentimento do pai, se não fosse a intervenção do seu irmão Afonso que, cheio de indignação e de furor, enxotou violentamente para longe do pequenino moribundo o ministro de Deus. Este, que já havia sofrido tanto da parte da sua família e de toda a colônia israelita, retirou-se com calma, disposto a sofrer ainda mais pelo nome de Jesus Cristo e pela salvação dos seus.

No Santuário de Nossa Senhora das Vitórias, onde trabalhava, fazia o piedoso sacerdote ferventes preces pela conversão do seu irmão Afonso que o não podia tolerar. Como explicar tamanho ódio contra seu bondoso irmão Teodoro, se Afonso era judeu religiosamente falando só de nome? É que ele se filiara a maçonaria e então era implacável inimigo dos cristãos.

Havia Afonso concluído seu curso de Direito e estava para completar 27 anos, quando os desejos da sua família, corroborados por simpatia recíproca, o induziram a casar-se com a sua sobrinha, filha do seu irmão mais velho. “Pensei, então, narra Afonso, que a minha felicidade fosse completa. Via minha família no auge da alegria, pois devo dizê-lo, há poucas famílias cujos membros se unem tanto como a minha… Só um dos seus membros me parecia odioso: era meu irmão Teodoro. Entretanto ele também nos amava, mas seu hábito me causava repulsa, seu pensamento me turbava, sua palavra grave e séria excitava a minha cólera”.

“E, continua Afonso, “por causa da conversão de Teodoro eu nutria acerbíssimo ódio contra os padres, as igrejas, os conventos, e sobretudo contra os jesuítas, cujo nome só bastava para provocar o meu furor”.

A noiva de Afonso contava 16 anos apenas, pelo que julgaram seus pais conveniente diferir por algum tempo o casamento.

Neste meio tempo Afonso empreenderia uma viagem ao estrangeiro com o duplo fim de distrair-se e de revigorar a sua saúde.

Afonso deixou Strasburgo a 17 de novembro de 1841, decidido a visitar Nápoles, a passar o inverno em Malta e a voltar pelo Oriente. Outros, porém, eram os desígnios da Providência. Demorou alguns dias em Marselha e partiu para Nápoles.

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Ratisbonne e Maria Santíssima.

Durante a viagem fundeou o navio em Civitavecchia: era o dia 8 de dezembro e a artilharia disparava algumas salvas. Maravilhado, perguntou Afonso qual era o motivo daqueles rumores de guerra nas terras pacíficas do Papa. Responderam-lhe que era a festa da Imaculada Conceição. Sacudiu os ombros com desdém e não quis desembarcar. Não tinha nenhum desejo de visitar Roma, embora dois amigos seus o estimulassem vivamente a dar esse passo. Deus, porém, o guiava para o Cidade Eterna. Ao deixar Nápoles, em vez de comprar passagem para Palermo. por engano achou-se numa diligência que se dirigia para Roma e lá chegou a 6 de Janeiro.

Era o ano de 1842. Afonso Ratisbonne achava-se em Roma, a cidade eterna, da qual cada pedra é uma lembrança sagrada e tem uma voz para celebrar as grandezas da fé cristã. Ali Ratisbonne encontrou seu companheiro de infância Gustavo Bussíère, irmão do barão Teodoro de Busssière.

Teodoro de Bussière era íntimo amigo do Padre Teodoro Ratisbonne. O Barão abandonara o protestantismo para fazer-se católico e por esta razão inspirava a Afonso Ratisbonne uma profunda antipatia. Gustavo Bussière mantinha-se protestante e, em companhia de Afonso Ratisbonne, metia freqüentemente a rídiculo a Igreja Católica.

A 15 de Janeiro, nove dias apenas depois de sua chegada, resolveu Afonso deixar Roma e se viu na dura contingência de ir apresentar suas despedidas ao indesejável barão Teodoro de Bussière. O distinto e piedoso barão suportou pacientemente, durante uma hora, uma saraivada de sarcasmos proferidos pelo jovem Afonso contra o catolicismo, procurando evidentemente atingir os dois Teodoros convertidos: o seu irmão Ratisbonne convertido do judaísmo; e o irmão de Gustavo Bussière, convertido do protestantismo.

“Então, – refere o barão – apresentou-se à minha mente uma ideia maravilhosa, uma ideia celeste, que os sábios do mundo teriam julgado rematada loucura: “Já que sois um espírito tão forte e seguro de vós mesmo, lhe disse, não recusareis trazer o que estou para dar-vos”.

– De que se trata? perguntou secamente Afonso. – “Respondi-lhe mansamente – disse Bussière, trata-se simplesmente desta medalha”. Era a medalha milagrosa de Nossa Senhora das Graças. Recusou-a Afonso com um misto de indignação e de espanto.

“Mas – acrescentou o barão Bussière friamente – segundo o vosso modo de ver, isto vos deve ser absolutamente indiferente, ao passo que para mim trará um grandíssimo prazer”. – “Oh! – exclamou Afonso rindo a bom rir, a bandeiras despregadas – “então a trarei por mera complacência para mostrar-vos que é sem razão que acusam os judeus de obstinação e de invencível teimosia. Além disso me fornecereis um belíssimo capítulo para as minhas notas e impressões de viagem”.

“E, prossegue o barão, “Ratisbonne continuava com motejos que me ralavam o coração… Entretanto, passei-lhe ao pescoço uma fita à qual minhas netinhas tinham pregado uma medalha. Mas restava-me ainda uma coisa mais difícil de obter: queria que ele recitasse a piedosa invocação de São Bernardo: “Lembrai-vos, ó piíssima Virgem Maria…” Revoltou-se ao ouvir este segundo pedido. “Mas uma força interior impelia-me, prossegue B. de Bussuère, a lutar contra as suas reiteradas recusas com uma espécie de obstinação. Apresentei-lhe a oração suplicando-lhe que a trouxesse consigo e que tivesse a bondade de copiá-la porque eu não dispunha de outro exemplar”. Então, com um movimento de impaciência e ironia, para se ver livre das minhas importunações, disse ele: “Bem! eu escreverei; dar-vos-ei a minha cópia e conservarei a vossa”. E retirou-se visivelmente contrariado.

Afonso cumpriu a palavra; copiou a oração, leu-a e releu-a tantas vezes que já a sabia de cor. As palavras de “Memorare” não lhe saíam da memória.

No dia 20 de Janeiro, festa de São Sebastião, Afonso ainda se achava em Roma, onde o retinha uma força misteriosa. Ao meio dia conversou num café com dois amigos. “Se neste momento – diz ele – um terceiro interlocutor se tivesse aproximado de mim e me tivesse dito: “Afonso, dentro de um quarto de hora adorarás Jesus Cristo, teu Deus e teu Salvador… e renunciarás ao mundo, a suas pompas, a seus prazeres, a tua fortuna, a tuas esperanças, a teu futuro, e se for necessário renunciarás ainda a tua noiva, à afeição da tua família… Digo que se algum profeta me tivesse feito semelhante predição, só a um homem eu julgaria mais insensato que ele, e seria aquele que tivesse dado crédito à possibilidade de tal loucura”.

Era 20 de Janeiro de 1842. Ratisbonne acha-se ainda em Roma. Saindo de um Café onde acabara de conversar com dois amigos, encontra uma carruagem: é do Barão de Bussière que o convida para dar um passeio. Afonso, sem muito entusiasmo, mais para não fazer uma descortesia àquele do qual pouco antes tinha sido hóspede, aceita o convite. Acharam-se logo diante da igreja de Santo André delle Fratte. O piedoso conde de Laferronays devia receber as honras fúnebres e o Barão de Bussière fora encarregado de reservar uma tribuna para a família do defunto.

“Será coisa de dois minutos, diz ele a Afonso que, durante este tempo resolve visitar a igreja. Esperava-o nesta igreja a misericórdia de Maria Santíssima. Soara a hora da graça que desde a conversa no café, já trabalhava suavemente em sua alma. A Mãe de Deus se deixara comover pelas orações do barão de Bussière , do conde de Laferronays que morrera repentinamente depois de ter dito à sua esposa: “Repeti hoje mais de cem vezes o Lembrai-vos”, e sobretudo pelas orações e lágrimas ardentes que em seu Santuário derramava seu diletíssimo servo o Padre Teodoro, irmão de Afonso Ratisbonne.

Tenta Afonso descrever o que então se passou em sua alma: “Esta igreja é pobre e deserta; creio que nela me achei mais ou menos só… Nenhum objeto de arte atraiu a minha atenção… Subitamente nada mais vejo… ou antes, ó meu Deus, vejo uma só coisa! Como seria possível falar do que vi? Oh! não, a palavra humana não deve tentar exprimir o que se não pode exprimir; toda descrição, por sublime que seja, não seria mais que uma profanação da inefável realidade…”

Tornando à igreja, Barão de Bussière não encontra Afonso onde o havia deixado, mas ajoelhado diante da capela de São Miguel Arcanjo e de São Rafael, submergido em profundo recolhimento.

“A esta vista, pressentindo um milagre, depõe o barão, apoderou-se de mim um frêmito religioso. Dirijo-me a ele, agito-o várias vezes sem que ele dê conta da minha presença. Afinal, voltando para mim seu rosto banhado de lágrimas, junta as mãos e me diz: “Oh! como este senhor rezou por mim!”

Compreendi logo que se tratava do falecido Conde de Laferronays. Amparado, quase levado por mim, sobe à carruagem. Onde quereis ir? pergunto-lhe eu.

_ “Levai-me para onde quiserdes. Depois do que vi, obedeço”.

Declara-me em seguida que só falará com o consentimento de um padre, porque o que eu vi – acrescenta ele – só o posso dizer de joelhos”.

Conduzido à igreja do Jesú, dos padres jesuítas, ao lado do padre Villefort que o convida a explicar-se, tira Afonso a medalha, abraça-a, mostra-a e exclama: “Eu a vi! Eu a vi!… Havia uns instantes que eu estava na igreja, quando repentinamente me senti dominado por uma turbação inexprimível. Ergui os olhos; todo o edifício desparecera à minha vista; só uma capela tinha, por assim dizer, concentrado toda a luz; e, no meio desta irradiação, apareceu, em pé sobre o altar, grande, brilhante, cheia de majestade de doçura a Virgem Maria, tal qual está em minha medalha; uma força irresistível atraiu-me para ela. A Virgem com a mão me fez sinal para que me ajoelhasse. Pareceu dizer-me: “Está bem! Não me falou nada, mas eu compreendi tudo”.

Mais tarde dirigiu-se Afonso à Basílica de Santa Maria Maior a fim de agradecer a sua celeste benfeitora o grande benefício recebido.

Ao entrar na capela de Nossa Senhora, exclamou: “Oh! como estou bem aqui! Gostaria de ficar aqui para sempre: parece-me que já não estou na terra!”

Ao fazer a visita ao Santíssimo Sacramento, por pouco não desfaleceu. Apavorado, exclamou: “que coisa horrível estar na presença do Deus vivo sem ser batizado!”

Afirma o Padre Roothan, geral da Companhia de Jesus, que “depois da sua conversão o senso da fé nele se manifestava de modo tão intenso que lhe fazia sentir, penetrar e reter tudo o que lhe era proposto, tanto que em pouco tempo o julgaram suficientemente instruído para receber o santo Batismo”.

Ratisbonne recebeu sem dúvida uma assistência toda especial de Deus e da Santíssima Virgem.

A 31 de Janeiro, 11 dias após a aparição, Afonso Ratisbonne abjura solenemente a maçonaria e recebe o batismo na igreja do Gesú das mãos do cardeal Patrizzi. O vasto e suntuoso templo estava repleto. Ali se encontrava o escol da sociedade romana e estrangeira. Acompanhado pelo Padre Villefort e por seu padrinho, o barão de Bussière, Afonso foi levado à porta da igreja. Vestido de uma longa túnica de damasco branco, trazia o Terço e a medalha de Nossa Senhora nas mãos.

– Que pedes à Igreja de Deus? pergunta-lhe o oficiante.
– A fé!

Ah! diz uma testemunha ocular dessa cena majestosa, já tinha a fé católica aquele a quem a estrela da manhã iluminara com os seus raios.

Afonso beija a terra e fica prostrado até ao fim dos exorcismos.

Levanta-se e, guiado pelo pontífice, encaminha-se para o altar entre as bênçãos de uma imensa multidão que respeitosamente se abre à sua passagem.

Perguntam-lhe qual é o seu nome.

– Maria! responde num arrebatamento de amor e de gratidão.
– Que desejas?
– O batismo.
– Crês em Jesus Cristo?
– Creio!
– Queres ser batizado?
– Quero!

Com um sorriso de celeste beatitude levantou sua cabeça ainda umedecida da água batismal. Acabava de transpor um abismo: era cristão.
Afonso, cheio de Deus, radicalmente transformado pela graça, deixa o mundo e entra na Companhia de Jesus. Nela viveu dez anos vida exemplar e só a deixou, desfeito em lágrimas, para fazer a vontade de Deus que o queria ao lado do seu irmão, o Padre Teodoro, para com ele trabalhar numa obra tão grata ao mesmo Deus e de tanta relevância, qual é a da conversão dos judeus.

O piedoso Padre Maria Afonso Ratisbonne nunca se esqueceu de sua Mãe amantíssima que o arrancou das trevas da incredulidade para os esplendores da verdadeira fé.

Inclinava-se profundamente sempre que ouvia no canto das ladainhas a invocação: “Refúgio dos pecadores, rogai por nós!”

Os que o ouviam falar da sua Mãe Celeste adivinhavam o que se passava no seu coração; seu olhar fulgurante parecia que ainda contemplava a mais bela e a mais pura das virgens.

A medalha milagrosa, que exercera papel preponderante em sua conversão, era o seu mais caro tesouro. Julgou um dia que a havia perdido; sua aflição foi extrema; parecia-lhe que fora abandonado pela Virgem misericordiosíssima. Suas lágrimas não cessaram de correr até que a encontrou.

Maria Santíssima foi a sua consolação em todas as penas e seu grande motivo de esperança em todas as provações. Dizia que Maria Santíssima não é outra coisa que uma mão de Deus, não a mão que castiga, mas a mão das misericórdias.

Dizem os historiadores que quando o Padre Ratisbonne pregava sobre Nossa Senhora, todos os ouvintes se comoviam, muitos pecadores se convertiam. Leiam por gentileza o próximo post deste blog e verão a conversão mais importante que o Padre Maria Afonso obteve por intercessão de Maria Santíssima.

Caríssimos leitores, possa esse episódio tão comovente, que acabais de ler, reavivar em vossos corações a chama da devoção a Santíssima Virgem Maria.

Se quisermos assegurar o único bem desejável que é a eterna salvação de nossa alma, vivamos, como bons filhos, no Coração maternal de Maria Santíssima.

Os que a ela recorrem não deixam de ser ouvidos; os que choram em seu regaço materno não deixam de ser consolados e os que nela depositam inteira confiança e evitam tudo o que possa magoar-lhe o coração, nada têm que temer nem na vida nem na morte.

A devoção sincera a Maria Santíssima é penhor seguro de salvação. Deus quis que por ela tivéssemos Jesus. E Jesus é a nossa salvação. Por isso o pedido que nos faz a Nossa Mãezinha do Céu é este: “Não ofendam mais o meu Filho!”

As coisas aqui narradas foram quase integralmente extraídas do livro: “O caminho que leva para Deus” do Pe. Arlindo Vieira, S. J.

22 julho, 2017

Reflexões da Sagrada Escritura: Sertum Laetitiae.

Nosso caríssimo padre Élcio está de recesso por dois meses para tratamento de saúde, pelo que pedimos suas orações. Durante sua ausência, republicaremos suas colunas mais importantes – a que segue, foi publicada originalmente em 14 de maio de 2016.

* * *

“Quem busca a lei será cheio de bens; mas quem obra com simulação, nela achará ocasião de tropeço” (Eclesiástico XXXII, 19).

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

“SERTUM LAETITIAE” é uma Carta Encíclica que o Papa Pio XII escreveu em 1º de novembro de 1939 à Hierarquia Eclesiástica dos Estados Unidos da América. Depois de louvar o progresso espiritual daquele país, passa a mostrar os males a serem combatidos.

Eis o que a respeito diz o grande Pio XII:

Pio XII“Queremos, todavia, que o nosso louvor seja salutar. A consideração do bem já obtido não deve levar à inércia do ócio, nem produzir deleites de vã glória nos espíritos, mas acender novos ardores no combate contra o mal e solidificar com maior firmeza todas as obras salutares, úteis e dignas de louvor. O cristão que respeita a dignidade do seu nome nunca deixa de ser apóstolo; o soldado de Cristo jamais há de sair do combate, de cuja participação somente a morte o pode arrancar. Bem conheceis onde deve ser mais atenta a vossa vigilância e que programa de ação traçar ao trabalho dos sacerdotes e fiéis, para que a Religião de Cristo, removidos os óbices, senhoreie os espíritos, oriente os costumes, e, causa única da salvação, penetre os refolhos íntimos e as próprias veias da sociedade civil.

Muito embora os progressos dos bens exteriores e materiais, nos confortos melhores e mais copiosos que dele provêm para a vida, não se devam desprezar; não obstante, de modo algum são eles suficientes para o homem, nascido para coisas melhores e mais sublimes. Feito à imagem e semelhança de Deus, a Deus anela por inelutável impulso da alma, sempre triste e inquieto, se escolhe colocar seu amor onde não está presente a verdade suma e o infinito bem. De Deus afastar-se é morrer, para Deus converter-se é viver, em Deus permanecer é iluminar-se; a Deus, porém, não se chega com atravessar espaços corpóreos, mas sob a direção de Cristo, pela plenitude de uma fé sincera, intemerata consciência, e vontade reta, pela santidade das obras e pela obtenção e uso de uma liberdade genuína, cujas sagradas normas foram promulgadas pelo Evangelho. Se, ao contrário, se desprezam os divinos mandamentos, não só não se obtém a felicidade posta além do breve espaço de tempo assinado à existência terrena, mas vacila a própria base na qual assenta a verdadeira civilização da humanidade, e só se devem esperar lastimáveis ruínas; é que os caminhos que levam à vida eterna são a força viva e seguro alicerce das realidades temporais.

Como, de feito, podem ter garantias o bem público e o decoro da civilização, se se subverte o direito e se despreza e ridiculariza a virtude? Acaso não é Deus a fonte e o sustentáculo do direito? O inspirador e prêmio da virtude? Ele, a Quem nenhum legislador se assemelha (Cf. Job 36, 22)? Em toda parte  –  segundo a confissão de homens sérios  –  é esta a raiz amarga e fértil de males: o desconhecimento da divina majestade, a negligência dos preceitos morais oriundos do alto, uma lamentável inconstância que hesita entre o lícito e o ilícito, o bem e o mal. Daí o cego e imoderado amor próprio, a sede dos prazeres, o alcoolismo, as modas dispendiosas e impudicas, a criminalidade mesmo de menores, a ambição do poder, a negligência com relação aos pobres, a cupidez de riquezas iníquas, o abandono dos campos, a leviandade em contrair o matrimônio, os divórcios, a desagregação das famílias, o resfriamento do mútuo afeto entre pais e filhos, a desnatalidade, a degenerescência da raça, o enlanguescimento do respeito para com as autoridades, o servilismo, a revolta, a negligência dos deveres para com a pátria e para com o gênero humano. Elevamos, além disso, a voz de nosso paterno lamento, porque ainda em tantas escolas frequentemente se despreza ou se ignora a Jesus Cristo, restringe a explicação do universo e da humanidade ao naturalismo e racionalismo, e se ensaiam novos sistemas educativos, dos quais não se podem esperar senão tristes frutos para a vida intelectual e moral da Nação.

A vida doméstica, outrossim, se, observada a lei de Cristo, floresce de verdadeira felicidade, assim também, quando repudia o Evangelho, perece miseravelmente e é devastada pelos vícios. “Quem busca a lei será cheio de bens; mas quem obra com simulação, nela achará ocasião de tropeço” (Ecli 32, 19). Que pode haver na terra mais jucundo e alegre que a família cristã? Nascida junto ao altar do Senhor, onde o amor foi proclamado santo vínculo indissolúvel, consolida-se e cresce no mesmo amor que a graça suprema alimenta. E então “é por todos honrado o matrimônio e imaculado o tálamo” (Heb 13, 4); as paredes tranquilas não ressoam de litígios nem são testemunhas de secretos martírios pela revelação de astutos manejos de infidelidade; a solidíssima confiança mútua afasta o espírito das suspeitas; no recíproco afeto de benevolência se aliviam as dores, e acrescentam-se as alegrias. Lá os filhos não são considerados peso insuportável, senão dulcíssimo penhores; nem uma condenável razão utilitária ou a procura de estéril prazer fazem que se impeça o dom da vida e que caia em desuso o suave nome de irmão e irmã.

Com que solicitude cuidam os pais que cresçam os filhos não apenas fisicamente vigorosos, senão que, seguindo a tradição dos antepassados, que lhes são frequentemente relembrados, sejam adornados da luz que lhes comunica a profissão da fé puríssima e a honestidade moral! Comovidos por tantos benefícios, os filhos cumprem seu máximo dever, isto é, honram a seus progenitores, secundam os seus desejos, sustentam-nos na velhice com seu auxílio fiel, tornam jucundas suas cãs com um afeto que, inalterado pela morte, no céu se há de tornar ainda mais glorioso e completo. Os membros da família cristã, não queixosos na adversidade, não ingratos na prosperidade, sempre estão plenos de confiança em Deus, a cujo império obedecem, a cujo querer se confiam, cujo socorro jamais esperam em vão. Aqueles, pois, que nas igrejas exercem funções diretivas ou de magistério, exortem assiduamente os fiéis a que constituam e mantenham famílias segundo a norma da sabedoria do Evangelho  – buscando assim com assíduo cuidado preparar para o Senhor um povo perfeito. Pelo mesmo motivo, cumpre também sumamente atender a que o dogma, que por divino direito afirma a unidade e indissolubilidade do matrimônio, seja compreendido em sua importância religiosa e santamente respeitado por todos os que contraem núpcias. Que tão capital ponto da doutrina católica tenha validíssima eficácia para a sólida estrutura da família, para o bem-estar crescente da sociedade civil, para a saúde do povo e para uma civilização cuja luz não seja falsa (…). (…) Nada mais feliz pode haver para cada homem, cada família e cada nação, do que obedecer ao Autor da salvação, seguir seus mandamentos, aceitar o seu Reino, no qual nos tornamos livres e ricos de boas obras: “Reino de verdade e vida, reino de santidade e graça, reino de justiça, amor e paz” (Prefácio da Missa de Cristo Rei). (Apenas excertos da encíclica “Sertum Laetitiae”).

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15 julho, 2017

Reflexões da Sagrada Escritura: Jesus na Eucaristia é fonte de Vida Sobrenatural

“Eu sou o pão da vida” . “Se alguém comer desse pão, viverá eternamente; e o pão que eu darei é minha carne para a vida do mundo” (Jo. 6, 48 e 52).

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

Demos a palavra ao Papa Leão XIII, de santa memória: 5. “Conhecer com fé íntegra a virtude da Santíssima Eucaristia, tal qual é, é conhecer tal qual é a obra que, na sua onipotente misericórdia, Deus feito homem realizou em favor do gênero humano. Porquanto a mesma fé que nos obriga a confessar e a honrar a Cristo como o soberano Autor da nossa salvação, o qual, pela sua sabedoria, pelas suas leis, ensinamentos, exemplos e pela efusão do seu sangue, renovou todas as coisas, igualmente nos força a crê-lo e adorá-lo assim realmente presente na Eucaristia, onde ele próprio permanece mui verdadeiramente até o fim dos tempos no meio dos homens, e como mestre e pastor cheio de bondade, como intercessor onipotente junto a seu Pai, para haurir em si mesmo e distribuir a eles com eterna abundância os benefícios da sua redenção. Quem atenta e religiosamente considerar os benefícios que emanam da Eucaristia, compreenderá que o mais excelente e o mais eminente é aquele que contém todos os outros, sejam quais forem: com efeito, é da Eucaristia que se transfunde nos homens essa vida que é a verdadeira vida: O Pão que darei é a minha carne para a vida do mundo (Jo 6, 52).

6. Não é só desta maneira (…) que Cristo é a Vida, Ele que declarou que o fim da sua vinda ao meio dos homens era trazer-lhes verdadeira abundância de uma vida mais do que humana: Vim a fim de que eles tenham a vida e a tenham superabundantemente (Jo 10, 10). E, realmente, ninguém o ignora, desde que a bondade e a humanidade de Deus nosso Salvador apareceram (Tito 3, 4) na terra, fez-se sentir uma força criadora de uma ordem de coisas toda nova e a difundir-se em todas as veias da sociedade civil e doméstica. Desde então, novas relações se estabeleceram entre o homem e seu semelhante, novas leis regeram a sociedade e os indivíduos, novos deveres foram impostos, as instituições, as ciências e as artes adquiriram novo surto; mas o principal é que os corações e as mentes foram  reconduzidos à verdade da religião e à pureza dos costumes; bem mais: uma vida toda celeste e toda divina foi-nos comunicada; é o que certamente significam estas expressões frequentemente relembradas na Sagrada Escritura: lenho de vida, palavra de vida, livro de vida, coroa de vida, e, em particular, pão de vida.

7. A vida de que falamos tem muita semelhança com a vida natural do homem, e esta é entretida e fortalecida pelo alimento; deve, pois, aquela ser sustentada e reanimada pelo seu alimento próprio. Importa lembrar aqui em que tempo e de que maneira Cristo nos exortou e induziu a receber convenientemente e dignamente o pão de vida que ele se propunha dar-nos. Quando se espalhou a notícia do milagre da multiplicação dos pães, realizado nas margens do lago de Tiberíades para saciar a multidão, logo muitos afluíram para Ele, esperando talvez obter para si mesmos um benefício semelhante. Jesus aproveitou essa ocasião, e, assim como outrora, à Samaritana que lhe pedia tirar para ela água do poço, Ele mesmo inspirara a sede da água que jorra para a vida eterna (Jo 4, 14), assim também eleva as almas dessa multidão ávida a fim de fazer desejar com mais ardor esse outro pão que permanece para a vida eterna (Jo 6, 27). “Mas esse pão, diz Jesus prosseguindo o seu ensinamento, não é aquele maná celeste que, na sua marcha  através do deserto, vossos pais acharam já pronto; não é sequer esse que, de todo admirados, recebestes recentemente de mim; porém eu mesmo sou esse pão: Eu sou o pão de vida (Jo, 6, 48). E, para ainda mais os convencer desta verdade, dirige-lhes este convite e lhes dá este preceito: Se alguém comer desse pão, viverá eternamente; e o pão que eu darei é minha carne para a vida do mundo (Jo 6, 52). Ele mesmo lhes prova assim a importância desta ordem: Em verdade, em verdade vos digo, se não comerdes a carne do Filho do homem e se não beberdes seu sangue, não tereis a vida em vós (Ib. 54, 10). Longe de nós, pois, esse erro, tão difundido e  perniciosíssimo, dos que pensam que o uso da Eucaristia deve ser quase exclusivamente reservado a esses homens livres de todos os cuidados, acusados de terem o coração estreito, e de só o repouso buscarem num regime de vida mais religiosa. Esse bem, fora do qual nada é mais excelente nem mais salutar, oferece-se a todos indistintamente, sejam quais forem a condição e a categoria de cada um; pertence a todos os que querem (e ninguém há que não deva
querê-lo) alimentar em si a vida da graça, cujo termo é a aquisição da vida bem-aventurada com Deus.

8. E prazam ao céu façam uma justa ideia da vida eterna e não a percam de vista aqueles, sobretudo, cujo talento, atividade, autoridade tanto podem para dirigir os acontecimentos e os homens. Mas, ao contrário, vemos e deploramos que a maioria deles consideram com orgulho o haverem inculcado ao século como que uma vida nova e próspera, porque, graças ao seu impulso, o obrigam a marchar a largos passos para toda sorte de progressos e de maravilhas. Na realidade, para qualquer lado que se dirijam os olhares, o que se verá é a sociedade humana, se se afastar de Deus, ao invés de fruir da tranquilidade que deseja, ser, ao contrário, presa de angústia e de agitação, como o doente atormentado por uma febre ardente: ao passo que ela aspira ansiosamente à prosperidade em que coloca a sua única esperança, vê-a desaparecer e fugir-lhe no momento em que acredita possuí-la. Efetivamente, os homens e os Estados dependem necessariamente de Deus, de sorte que não podem viver, nem mover-se, nem fazer  qualquer bem senão em Deus, por Jesus Cristo, de quem têm promanado e promanam abundantemente todos os  bens, os melhores e os mais preciosos.

9. Ora, a fonte e o princípio de todos esses bens é sobretudo a sagrada Eucaristia: esta entretém, fortifica essa vida cuja privação nos causa tamanho pesar, e aumenta maravilhosamente essa dignidade humana de que se faz tanto caso agora. Com efeito, que coisa maior e mais desejável do que nos tornarmos, tanto quanto possível, participantes e associados da natureza divina? Ora, é isso precisamente o que Cristo nos concede na Eucaristia, pela qual ele prende e une a si ainda mais estreitamente o homem, elevado pela graça até à divindade. Há, com efeito, esta  diferença entre o alimento do corpo e o da alma: que aquele se converte na nossa própria carne, ao passo que este nos transforma nele; e, a este propósito, eis o que Santo Agostinho faz o próprio Cristo dizer: Tu não me  transformarás em ti como faz o alimento de tua carne, mas serás transformado em mim (Conf. lib. 7, c. 10).

AVISO: Até aqui são palavras do Papa Leão XIII, na Encíclica Sobre Santíssima Eucaristia, “Mirae Caritatis” escrita em 1902.

Quero aproveitar o ensejo para avisar ao “FRATRES IN UNUM” e aos seus caríssimos leitores que ficarei em recesso nesta coluna por 2 meses a partir do dia 17 de julho. Farei, se Deus quiser OS EXERCÍCIOS ESPIRITUAIS DE SANTO INÁCIO (30 dias) e depois farei várias consultas e tratamentos médicos. Caríssimos, peço-lhes a caridade de vossas valiosas orações e, desde já, vos agradeço. Que Deus Nosso Senhor abençoe a todos e os cumule de escolhidas graças. Salve Maria! Amém!

8 julho, 2017

Reflexões da Sagrada Escritura: Sobre a Absolvição dos Reincidentes

“Não estejas sem temor da ofensa que te foi perdoada e não amontoes pecados sobre pecados” (Eclesiástico V, 5).

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

395. NOÇÃO. Reincidente formal ou seja no sentido teológico, é aquele habitudinário que, já tendo confessado várias  vezes o mesmo pecado, volta sempre a cair do mesmo modo. Três coisas, portanto, são requeridas para que alguém verdadeiramente possa ser considerado reincidente:

a) Que tenha contraído o hábito mau de pecar. Absolutamente falando, não é necessário que o reincidente seja consuetudinário: se alguém, pois, por quatro vezes por ano se confessa e cada vez se acusa de ter cometido uma vez  um pecado solitário contra a pureza, é considerado reincidente, mas não consuetudinário: pois, quatro quedas por  ano no são suficientes para se contrair um hábito; de fato, porém, o reincidente dificilmente não será sempre ao mesmo tempo consuetudinário.

b) Que tenha confessado o mesmo pecado já várias vezes (por 3 ou 4 vezes). Portanto o penitente, que nas primeiras duas ou três vezes confessa o mesmo pecado, estritamente falando não é reincidente, e neste caso deve ser tratado como simples pecador se ainda não contraiu o mau hábito, ou como simples consuetudinário se já contraiu o hábito  de pecar, e, por isso, não hã razão peculiar de duvidar da disposição daqueles que dizem ter um sério  arrependimento.

c) Que, não tendo feito nenhum esforço para se emendar, tenha recaído nos mesmos pecados. Aquele, portanto, que empregou por algum tempo, os meios prescritos pelo confessor e lutou fortemente contra as tentações, embora depois tenha caído novamente, não é considerado propriamente reincidente.

396. Norma para a absolvição.

1. O reincidente, que prudentemente é julgado disposto, absolutamente falando pode sempre ser absolvido: pois, quem verdadeiramente pode ser julgado bem disposto, pode ser absolvido, embora seja reincidente; pois, para a válida e lícita absolvição não se requer outra coisa senão que no ato [no momento da confissão] esteja disposto; para uma verdadeira disposição, porém, não se requer uma futura emenda, nem a impede a previsão de futura queda. [Isto explica-se assim: o penitente habitudinário, embora esteja arrependido, dado o hábito que ainda não conseguiu extirpar, prevê que ainda vai cair, mesmo estando disposto a empregar todos os meios para não pecar].

2. Com relação, porém, aos reincidentes, há dificuldade em formar um juízo sobre sua disposição: pois, das frequentes quedas nos mesmos pecados graves, gera-se a suspeita de algum grave apego, de um fraco horror ao pecado e da falta de uma vontade séria de se emendar. Esta suspeita [com fundamento] torna duvidosa a sua boa disposição, mesmo que tais pecadores afirmem ter dor dos seus pecados; e, portanto [esta suspeita] impede que prudentemente possam ser julgados dispostos, a não ser que apareça alguma razão especial pela qual a dúvida seja suficientemente removida.

a) Deve-se entregar à prudência e discrição do confessor, o qual é assistido pelo auxílio da graça, para que forme um juízo sobre a disposição do penitente; e para efetuar este juízo, é ajudado primeiramente pela própria experiência e depois também a atenção aos sinais particulares [a própria confissão espontânea, a afirmação do penitente, o modo simples e humilde com que faz a confissão, as circunstâncias do penitente (empregou algum cuidado para não pecar, promete de boa vontade empregar os meios indicados para não pecar; se aproxima da confissão levado por algum  outro motivo como p. ex. um sermão que ouviu, a morte de um amigo, temor de morrer porque grassa alguma peste contagiosa, se confessa pecados culpavelmente antes omitidos; se cumpriu uma difícil obrigação como p .ex, uma
restituição; se para conseguir um confessor precisou sofrer um incômodo como p, ex. uma longa viajem ( cf. S. Afonso, n. 460).

b) Para que se possa formar mais facilmente um juízo sobre a disposição do reincidente, devemos notar que muitos são reincidentes [impropriamente ditos] POR FRAGILIDADE: são aqueles que muitas vezes caem nos mesmos pecados, pecados estes que, no entanto, habitualmente aborrecem de tal modo que, logo após a queda, detestam estes pecados e propõem emenda, e também resistem de certo modo por algum tempo, mas depois, ora por causa da fraqueza da vontade, ora pela veemência da tentação, novamente caem. Não se deve, portanto, duvidar da sua disposição. Agora, aqui tratamos dos reincidentes propriamente ditos, que são aqueles chamados REINCIDENTES POR MÁ VONTADE, ou seja, aqueles que aderem por um mau afeto ao objeto do pecado, e justamente por causa deste mau afeto, caem muitas vezes nos mesmos pecados; mas, não obstante, quer por costume, quer pelo respeito humano às vezes se aproximam dos sacramentos, nem apresentam verdadeira e sincera vontade de emenda.

Devemos dizer que a disposição destes tais não são duvidosas, mas antes são NULAS. Ora, o bom confessor não os despede simplesmente sem dar a absolvição, mas se esforça com salutares conselhos e exortações, por dispor tais penitentes a terem uma emenda de vida. E, se então o confessor vir sinais de verdadeira mudança de
vontade, neste caso pode absolver também a estes.

397. Sobre se deve ou não diferir a absolvição ao reincidente.

a) Se o reincidente não obstante bem disposto cair  novamente por fragilidade interna, como no pecado solitário de impureza, de deleitação morosa, de ódio, de blasfêmia etc., ordinariamente se deve esperar um fruto maior pela graça do sacramento do que pela dilação da absolvição. Às vezes, no entanto, parecerá ser preferível ao prudente confessor, dilatar a absolvição também a estes tipos de pecadores, principalmente se os remédios foram empregados  negligentemente.

b) Se o reincidente apesar de bem disposto recair na ocasião externa ou porque não cumpriu a obrigação (p. ex. de desfazer a calúnia, de se reconciliar), ordinariamente é conveniente diferir a absolvição, até que seja eliminada a ocasião ou cumprida a obrigação: pois, quem muitas vezes já quebrou a promessa, sua vontade, embora boa, deve ser robustecida por este remédio da dilação da absolvição. A dilação da absolvição acompanhada de uma apta  admoestação principalmente para os penitentes jovens de índole volúvel embora anteriormente piedosa e  religiosamente educados, que, ou não cumprem a obrigação, ou não abandonam o mau hábito, a dilação da  absolvição, digo, é um ótimo meio para incutir uma maior detestação do pecado e para robustecer sua vontade débil.

c) Se o reincidente está dubiamente disposto e não urge a necessidade de o absolver sob condição, absolutamente  falando, a absolvição deve ser diferida para que, assim, possa constar por experiência, qual seja a vontade do  penitente. Como porém, nos tempos atuais, principalmente nas cidades e lugares onde a fé enlanguesce, e as obrigações espirituais são negligenciadas, a negação ou dilação da absolvição por vezes pouco adianta, e até, antes pelo contrário, [tais penitentes] se sentem ofendidos e ficam revoltados e assim mais ainda os endurece; ordinariamente age melhor o confessor que se esforça para dispor tais penitentes a terem dor e bom propósito, e prescreve-lhes meios particulares de emenda e depois os absolve.

Nota. Para que não seja erradamente entendida e aplicada a teoria de Santo Afonso sobre os sinais extraordinários de disposição, deve-se notar:

1) Nos ocasionários e reincidentes não se requer uma dor extraordinária ou maior e um propósito mais firme: pois, desde que haja uma disposição suficiente, seguramente, podem ser absolvidos.

2) O ocasionário e reincidente sempre pode ser absolvido, desde que ele possa ser julgado prudentemente pelo confessor como verdadeiramente disposto, qualquer que seja o sinal no qual se funde tal juízo; quer ordinário, quer  extraordinário, quer o penitente apresente-o na confissão, quer o mostre finalmente levado pela admoestação do confessor.

3) Por isso agiria imprudentemente o confessor, que simplesmente julgasse indisposto o penitente  ocasionário e reincidente, por não ter descoberto nele senão um ou outro dos sinais extraordinários; e agiria mais imprudentemente ainda aquele confessor que a um tal penitente reincidente absolutamente diferisse a absolvição, sem que empregasse o cuidado e se esforçasse com salutares admoestações para levá-lo a ter a dor e o propósito necessários.

Um caso. Os reincidentes em embriaguez e como tais conhecidos publicamente, que quase toda semana ou muitas vezes ainda se embriagam, não devem ser inteiramente repelidos dos sacramentos, mas ordinariamente, nem imediatamente devem ser admitidos a eles. Não devem ser terminantemente excluídos dos sacramentos, porque não se deve desesperar da emenda de ninguém; mas também não devem ser imediatamente admitidos aos sacramentos, principalmente porque não se deve absolver aquele que, depois de breve tempo se prevê que vai violar o seu propósito (a não ser que urge a necessidade): pois se deveria temer o escândalo, caso caísse novamente logo após ter recebido os sacramentos; ademais, porque antes ele deve reparar o escândalo público. Assim, se deve diferir a absolvição até que, um tanto pelo menos se tenha emendado. E mesmo também no caso em que, por um sinal extraordinário de arrependimento, fosse imediatamente absolvido, é mister não admiti-lo imediatamente à santa Comunhão, quer para que, neste ínterim, possa reparar o escândalo público, quer para evitar talvez um novo escândalo caso venha recair. (Noldin, Summa Theologiae Moralis, V. III, L. 5, De Poenitentia, q. 3ª, a. n. 395-397).

1 julho, 2017

Reflexões da Sagrada Escritura: Sobre a Absolvição dos Consuetudinários.

“Oxalá se firmem os meus passos no cumprimento das tuas leis justas”. “Malditos os que se afastam dos teus mandamentos” (Salmo 118, 5 e 21).

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

Noção. 1. Que é consuetudinário ou habitudinário? É aquele que, pela repetição dos pecados do mesmo gênero, contraiu uma má inclinação ou hábito de cometer os mesmo pecados. O costume ou hábito de pecar é uma certa facilidade e propensão adquirida por pecados repetidos, de cometer estes os mesmos pecados. Para se constituir o hábito concorrem essencialmente dois elementos: a frequência dos pecados do mesmo gênero e, ao mesmo tempo, a proximidade entre cada queda; pois, os pecados muitas vezes reiterados não provocam o hábito nem quando se  distanciam demasiado, nem quando são demasiadamente próximos entre si, como por exemplo, se são cometidos  num mesmo dia, mas depois são omitidos.

2. Não é possível definir com precisão quando foi contraído o mau hábito, porque isso depende, ora, da índole do pecado, ora, do tempo mais longo ou mais breve que entremeia os atos pecaminosos, ora sobretudo dependendo da natureza do pecado: pois, quanto mais facilmente um pecado é cometido, tanto mais atos são requeridos dentro de certo tempo, para se contrair o hábito; e, como os pecados internos (e o mesmo se pode dizer dos pecados da língua) são cometidos mais facilmente que os pecados externos, geralmente são requeridos mais atos para se contrair um hábito de pecados internos (e da língua) do que nos pecados externos.

a) Quem por notável tempo, p. ex., por um ano, comete mensalmente por cinco vezes um pecado externo deve-se julgar que adquiriu o hábito daquele pecado; e, em matéria de luxúria, quem por duas ou uma vez no mês, no decurso de um ano, pecou, deve-se julgar que contraiu o hábito daquele pecado de impureza.

b) Quem uma vez por dia, durante longo tempo pecou por maus desejos ou blasfêmias é considerado consuetudinário; e aquele que cometeu estes mesmos pecados três ou quatro vezes na semana, por algum tempo, deve se tido como consuetudinário.

Norma para a absolvição. Qualquer consuetudinário, pode e deve ser absolvido, embora não tenha havido antes nenhuma emenda, mas desde que seriamente proponha se emendar: pois o mau costume (mau hábito) que está se esforçando por eliminar, não é pecado, mas uma inclinação para o pecado, e, portanto pode coexistir com a verdadeira disposição do coração. [Em outras palavras: o fato de o penitente não ter ainda conseguido, apesar de seus esforços, eliminar o mau hábito, não significa que não esteja arrependido].

a) Seriam mais severos do que pede a justiça, aqueles confessores que, antes de conceder a absolvição, exigissem do penitente que eliminassem totalmente o mau hábito e não houvesse mais recaídas. Embora, pois, a emenda de vida seja coisa ótima, não é, porém, o único sinal de arrependimento [disposição] e portanto nem o necessário, mas pode muito bem haver verdadeira disposição sem aquelas coisas [eliminação do mau hábito e não recaídas]. E até pelo  fato de a pessoa ter caído no mesmo pecado imediatamente após a confissão, isto não significaria falta de arrependimento e de bom propósito. Pode acontecer, pois, que o espírito afastado das coisas mundanas e meditando nas verdades eternas, auxiliado pela graça de Deus, conceba uma verdadeira dor e tenha um bom propósito, mas, logo depois, quando novamente se volta para o meio das coisas do mundo e das ocasiões [porque não poderá ficar em  retiro para o resto da vida] , este mesmo espírito tão disposto no ato da confissão, veementente aliciado e  excitado, o que constitui sua mutabilidade e fraqueza, novamente adira ao pecado, de tal modo que, aquele que há pouco antes, tinha se convertido para Deus, agora, novamente se volte para as criaturas. No entanto, se o penitente muitas vezes já admoestado, volta ao confessionário, sem nenhuma emenda, o confessor prudentemente pode duvidar de sua verdadeira disposição [tem motivo para duvidar da existência de verdadeiro arrependimento], mesmo que o penitente afirme que está arrependido.

b) Se o consuetudinário se recusa a se confessar mais frequentemente, de per si, não pode o confessor negar-lhe a  absolvição, seja porque a confissão mais freqüente não é preceituada pela Igreja, seja porque outros meios de emenda podem ser empregados. Se, porém, outros meios não podem ser considerados bastante eficazes, como pode  acontecer aos habitudinários nos vícios da carne, a absolvição deve sim ser negada àquele que recusasse utilizar o meio de emenda moralmente necessário e não difícil de ser empregado.

Até aqui: Noldin, SUMMA THEOLOGIAE MORALIS, Vol. III, DE SACRAMENTIS, De poenitentia, a. 5, n. 393 e 394.

Nota: Por falta de tempo e espaço, não traduzi o artigo sexto, que trata dos reincidentes. Este artigo está  estreitamente ligado ao anterior. Se Deus quiser e com Sua graça, fá-lo-ei no próximo sábado.

10 junho, 2017

Reflexões da Sagrada Escritura: Lições de Fátima (V).

“Pedi e recebereis, procurai e achareis, chamai e abrir-vos-ão” (S. Mateus, VII, 7).

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

CARÍSSIMOS COOPERADORES E AMADOS FILHOS.

As considerações que acabamos de fazer mostram a grande oportunidade das comemorações (cinquentenárias) centenárias das aparições da Virgem Santíssima na Cova da Iria. Nessas ternas visitas que nos fez a Mãe do Céu, Ela nos recomendou a oração e a penitência porque o mundo estava imerso no pecado e Deus era sumamente ofendido. Não é diversa a situação da sociedade nos dias de hoje. E podemos bem debitar os desvios doutrinários sobre os quais chamamos a vossa atenção, podemos debitar esse dessoramento da doutrina e da moral católica ao desejo imoderado do prazer, à falta de espírito de penitência e oração. De onde a necessidade de excitarmos em nós o amor da oração e da penitência, para oferecer reparação aos Sagrados Corações de Jesus e Maria, para afastar os castigos merecidos pelos pecados do mundo, para conservar a integridade da Fé e para contribuir a que muitos pecadores se convertam.

O terço em família

tercoE em primeiro lugar, fiéis à mensagem de Fátima, recomendamos-vos, caríssimos filhos, a reza do rosário de Maria. Como seria uma bela comemoração deste feliz (cinquentenário) centenário, um presente agradável à Mãe de Deus e um penhor de salvação, se as famílias de Nossa Diocese [católicas] retornassem ao costume de se reunirem à noitinha para, com todos os membros juntos, pais e filhos, rezarem o terço do santo rosário! O rosário conta na sua história pelo menos quarenta e quatro Sumos Pontífices que o louvaram e recomendaram em mais de duzentos Documentos. Ainda o atual Papa. gloriosamente reinante [na época Paulo VI], na Encíclica “Mense Maio” nos recomendava, a nós Pastores de rebanho de Cristo, “não deixeis de inculcar com todo o cuidado a prática do rosário, a oração tão querida da Virgem e tão recomendada pelos Sumos Pontífices, por meio da qual os fiéis podem cumprir da maneira mais suave e eficaz o mandamento do Divino Mestre: “Pedi e recebereis, procurai e achareis, chamai e abrir-vos-ão” (Mat. 7, 7).

Ouvi, caríssimos filhos, a palavra autorizada do Vigário de Cristo: é o rosário a maneira mais suave, portanto a mais fácil, e ao mesmo tempo a mais eficaz de cumprir o mandamento de pedir; e, pois, igualmente a mais eficaz para obter todas as graças de que havemos mister, e acima de todas, a graça de viver e morrer na amizade de Deus.

Já muitas vezes ouvistes falar, caríssimos filhos, sobre a beleza e valor intrínseco do santo rosário. Nele falamos a Deus com as palavras do próprio Jesus Cristo, palavras que nos ensinou o Salvador precisamente para rogar ao Pai Celeste: “Quando orardes dizei assim” (Luc. 11, 2). E nele nos dirigimos à Virgem Santíssima, à  Onipotência suplicante, com a saudação que mais lhe fala ao Coração, porquanto é a saudação que Ela ouviu quando, tornando-se Mãe de Deus, se fez igualmente Mãe nossa. E para completar, o rosário nos habitua à meditação salutar dos mistérios de nossa salvação. É, pois, propriamente  a oração do fiel, e uma resolução de recitá-lo sempre será ótimo meio de comemorar o (cinquentenário) centenário de Fátima.

A devoção dos primeiros sábados

Outra devoção a que estão ligadas as visões de Fátima é a prática da comunhão reparadora dos primeiros sábados. Na Cova da Iria, a Virgem Santíssima anunciou que mais tarde viria pedir a comunhão reparadora nos primeiros sábados e com um fim determinado. Aparecendo a Lúcia a 10 de dezembro de 1925, ao pedido dessa comunhão reparadora Ela anexou a promessa de sua assistência a hora da morte. Eis suas palavras: “Olha, minha filha, meu Coração cercado de espinhos, com que me ferem os homens ingratos com suas blasfêmias e iniquidades. Tu ao menos procura consolar-me e divulga que Eu prometo assistir na hora da morte, com as graças necessárias para a salvação, a todos os que no primeiro sábado de cada mês se confessarem, comungarem, recitarem uma parte do terço e me fizerem companhia durante um quarto de hora, meditando sobre os mistérios com a intenção de me oferecer reparação”.

A consagração ao Imaculado Coração de Maria

Mas, a parte principal da mensagem de Fátima refere-se à consagração e devoção ao Imaculado Coração de Maria e à penitência.

Na Cova da Iria aprendemos que Jesus deseja implantar na terra o reinado do Coração Imaculado de Maria de sua Mãe. Por isso, condicionou a salvação do mundo à consagração e devoção a esse mesmo Coração. Não há, no entanto, verdadeira consagração à Virgem Santíssima, sem o espírito e a prática da penitência, porquanto a consagração exige que continuamente reprimamos em nós as inclinações de nossa vontade e de nossos sentidos contrárias aos desejos de Virgem Mãe.

A penitência

De onde, a penitência, no sentido próprio da palavra  –  isto é, enquanto significa o arrependimento pelos pecados cometidos e a emenda de vida  – é o meio para se chegar ao reinado do Imaculado Coração de Maria. Nossa Senhora insistia muito sobre a emenda de vida. Nos interrogatórios a que foram os pastorinhos submetidos, volta sempre esta recomendação da Senhora: que nos emendemos. A emenda pede uma mudança de atitude com relação ao mundo e os prazeres dos sentidos. O cristão é o que não tem aqui na terra morada permanente, é o que vive com o pensamento no Céu. Por isso, tem o coração desapegado dos bens que sabe que são caducos e passageiros. Aspira aos bens eternos. Assim, igualmente, ele se despoja de si mesmo. Ele sabe que não nasceu para satisfazer às inclinações más das paixões. Ele sabe que precisa mortificar os sentidos para não ceder à violência de seus impulsos. Ele sabe que precisa disciplinar a vontade, pela humildade e obediência, não venha a acontecer que, no momento oportuno, ela não saiba dobrar-se quando seria imperioso submeter-se.

Assim, amados filhos, desejamos ardentemente que, por um exercício de todos os dias, vos habitueis à renúncia de vós mesmos. Não satisfazendo aos vossos desejos e gostos a não ser dentro do que é necessário ou conveniente, e sempre procurando ficar aquém do que pediria vossa vontade ou inclinação. Cremos que com esse exercício perseverante vos ireis habituando à renúncia de vós mesmos, e ao exercício da reta intenção em todas as coisas, de maneira que termineis tendo sempre em vista fazer a santíssima vontade de Deus. Sem confiar nas vossas forças, pedi sempre à Virgem Mãe esta graça, e Ela, ao ver vossa boa vontade, não vo-la negará.

A conversão dos pecadores

Fátima nos ensina outrossim a nos sacrificarmos pelos pecadores, pela conversão dos pecadores. É admirável o que fizeram nesta intenção as crianças que viram a Virgem. Como dissemos, pedem elas meças aos Santos do Deserto. Apesar de nossa miséria, não pensemos que não nos será possível atender também neste ponto à exortação da Virgem Santíssima. Temos muito que sofrer, independentemente de nossa vontade. São os sofrimentos que Nosso Senhor nos manda com o frio, o calor, os dissabores inerentes ao nosso estado de vida, e tantas outras coisas que nos mortificam e Nosso Senhor dispõe para nosso bem. São outros tantos meios que estão em nossas mãos e dos quais podemos dispor em benefício dos pobres pecadores. Se não nos aventuramos aos grandes sacrifícios que a si se impuseram os pastorinhos de Fátima, estes pequenos sacrifícios, aos quais podemos juntar alguns outros voluntários, não deixarão de ser aceitos em benefício dos pecadores.

DILETOS COOPERADORES E AMADOS FILHOS.

Não deixemos passar estas duas datas memoráveis, o (250º) 300º aniversário do encontro da milagrosa Imagem de Nossa Senhora da Conceição aparecida, e o (50º) 100º das aparições da Virgem Mãe na Cova da Iria, sem um sério exame de consciência que purifique nosso modo de pensar e agir, que nos faça mais fiéis a Jesus Cristo, que nos afaste de proceder como o mundo hodierno, tão dado à sensualidade, tão distante do espírito do Divino Salvador. Que Nossa Senhora da Conceição que é a mesma Nossa Senhora do Rosário de Fátima vos alcance de seu Divino Filho esta graça.

E que a bênção de Deus Onipotente, Pa+dre, Fi+lho e Espírito + Santo, desça sobre vós e permaneça sempre. Amém.

Dada e passada em Nossa episcopal Cidade de Campos, sob o Nosso sinal e o selo de Nossas armas, aos dois do mês de fevereiro do ano de mil novecentos e sessenta e sete, festa da Purificação da Bem-aventurada Virgem Maria. (Último capítulo da Carta Pastoral sobre a preservação da Fé e dos bons costumes, escrita por D. Antônio de Castro Mayer, então Bispo da Diocese de Campos).

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20 maio, 2017

Reflexões da Sagrada Escritura: Lições de Fátima (II).

“Se me amais, observareis os meus mandamentos” (S. João, XIV, 15).

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

“Nós nos demoramos aqui a recordar convosco, amados filhos, este ensinamento ininterrupto da Igreja, não só para que vejais, quase diríamos sintais, como os fatos da Cova da Iria estão dentro da mais genuína tradição católica, mas, sobretudo, sendo relegadas ao esquecimento, pois que delas não se gosta de ouvir falar, por motivos que abaixo exporemos. No entanto, nada mais salutar do que a meditação de tais verdades. Insistimos, pois, sobre as mesmas, porque a tanto Nos obriga o dever de zelar pela salvação eterna de Nossas ovelhas, e, outrossim, porque Nos parece falha qualquer comemoração de Fátima que a não ponha em plena luz.

fatima

Não há dúvida, o recordá-las o Altíssimo na Cova da Iria foi uma dessas manifestações da inefável misericórdia com que Deus persegue os pecadores, porque não quer que morram, mas sim que se convertam e vivam (cf. Ez. 33, 11).

Falta de atenção às advertências de Nossa Senhora Infelizmente, é menor a vontade dos pecadores de se salvarem. Os pedidos de Nossa Senhora não foram ouvidos. Após a primeira desoladora conflagração mundial, “não cessaram de ofender a Deus”, e veio a outra guerra pior ainda, mais atroz, mais devastadora, na qual, segundo a palavra de Jacinta, grande parte dos que morreram foram para o inferno.

Não obstante, a punição não serviu para a cura. Todo o mundo hoje tem pavor de um novo conflito universal, mas esquece-se de que a guerra foi castigo dos pecados, e volta novamente para uma vida animada pelo desejo desenfreado dos prazeres, onde domina a paixão impura. E já não se limitam os indivíduos a cevarem-se no vício da carne; a sensualidade irrompe dos aglomerados urbanos para os campos e infecciona toda a sociedade. [Hoje, depois de 50 anos, já se chegou ao auge da iniquidade: legalização de pecados e de pecados horrendos, aqueles que bradam aos Céus pedindo vingança: legalização do aborto, de uniões civis de pessoas do mesmo sexo, a ideologia de gênero etc.].

Resulta do fato larga e nefasta consequência. Por uma disposição da psicologia humana, não suporta o homem, longo tempo, contradição entre o modo de agir e a maneira de pensar. O indivíduo ou procede como pensa, ou termina pensando de acordo com seu procedimento. De sorte que, por inelutável exigência psicológica, numa sociedade engolfada na sensualidade, começam os homens a perder a noção do bem e do mal, e a criar para si uma moral subjetiva que lhes não censure a conduta irregular. Daí a ojeriza a tudo que lhe avive a consciência do estado moralmente deplorável.

Por isso a sociedade de hoje não tolera que se lhe fale do inferno, que se lhe lembre que o demônio existe e é o Príncipe deste mundo. Como gostaria que tudo isso não passasse de ilusões, quer viver como se nada disso tivesse consistência. Faz como a avestruz que esconde a cabeça para não ver o perigo.

Dessoramento  da moral católica

Daí, outrossim, o ressurgimento, e com maior desfaçatez, da moral-nova, condenada por Pio XII, e sobre a qual advertimos Nossos caríssimos filhos em Carta Pastoral de 6 de janeiro de 1953. Na sua atual apresentação, a moral-nova se volta especialmente contra os conceitos tradicionais de virtude e vício, envolvidos no sexto e nono preceitos do Decálogo. E há, nos meios católicos, quem não enrubeça de sustentar hoje como erotismo normal, ao lado de outras, as aberrações indelevelmente estigmatizadas no castigo tremendo com que a Providência consumiu a Sodoma e Gomorra. Quanto ao casamento, pretextando uma sua nova e mais alta visualização, tiram-lhe a nobreza do sacrifício que dele faz uma instituição ordenada a colaborar com a onipotência criadora de Deus. Os filhos não os consideram mais a alegria do lar, e sim um fardo pesado e indesejável. Triunfa o egoísmo, diante do qual cambaleiam a unidade e indissolubilidade do casamento, e há uma criminosa indulgência para com o vício solitário.

A imodéstia nos trajes e a falta de seriedade nas maneiras coincidem com a grosseria do espírito.

De acordo com a profecia de Nossa Senhora em Fátima, a radicalização do pecado no mundo traria como castigo, além da guerra, o fato de que a Rússia espalharia seus erros por toda a parte. É ao que assistimos, na ordem política, econômica e social, onde já vão dominando por todo o orbe os princípios materialistas do comunismo. Não obstante, para o triunfo pleno deste na terra inteira, impõe-se a demolição da Igreja, único baluarte sério que ainda lhe pode opor resistência. A demolição da Igreja, é a demolição de sua doutrina, parte essencial da obra de Jesus Cristo.

Tão essencial, que o Apóstolo maldiz aqueles que procuram perverter-lhe o sentido. Na Carta ao Gálatas, lança anátema sobre os falsificadores do Evangelho: “Se alguém  -escreve energicamente  – nós ou um Anjo baixado do Céu, vos anunciar um evangelho diferente do que vos temos anunciado, seja anátema” (1, 9).

Desarticulação da doutrina da Igreja

Os desvios da moral-nova, que apontamos acima, já fazem parte de um dessoramento do Evangelho que a Igreja sempre nos ensinou. No entanto, a desarticulação da doutrina católica que notamos em mestres, que se arvoram em renovadores do Cristianismo na Igreja, é mais profunda. Diríamos que um senso de erro e pecado invadiu a sociedade e infecciona também meios católicos. Como, quer o relaxamento moral, a que acima aludimos, quer os erros de doutrina, espalham-se rapidamente, pelo mundo inteiro, graças à facilidade das comunicações modernas, julgamos de Nosso dever alertar-vos, caríssimos filhos, não venha a criar-se no vosso espírito uma mentalidade cristã falsa, contrária ao Evangelho de Jesus Cristo.

A noção de pecado e amor de Deus

Assim, um dos pontos que os fautores do novo cristianismo ignoram é o pecado, porquanto   –  dizem  –  o fiel deve ser formado no amor e não no temor servil. Ao menos evite-se a expressão “pecado mortal”, para não parecer algo de definitivo, para não traumatizar a criança. O mesmo se diga da distinção entre pecado mortal e pecado venial, que cria uma casuística que mirra o amor.

Não há dúvida de que o modelo a ser apresentado a todo fiel, para sua formação, seja qual for sua idade, é a Pessoa adorável de Jesus Cristo, cujo amor ardente se deve inculcar ao cristão desde os primeiros anos. Essa norma, no entanto, não só não pede que se evite falar sobre o pecado, como se torna falha, inoperante, se omitir semelhante noção.

De fato, como formar o coração da criança, a vontade do adulto no amor divino, sem ensinar-lhes que esse amor pede uma conformação da própria vontade com a vontade de Deus? E como conformar a vontade própria com a do Altíssimo, se não se sabe o que Ele quer, o que Lhe agrada e o que Lhe desagrada, ou seja, o que Ele manda e o que Ele proíbe? O próprio amor divino, está a exigir que Deus nos diga o que deseja que façamos, e, consequentemente, o que não quer que pratiquemos. Santa Maria Goretti deu certamente a maior prova de amor a Deus Nosso Senhor. O próprio Jesus Cristo o declarou quando disse que “ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos” (Jo, 15,13). Ora, o que levou essa menina de seus doze anos ao martírio? – A fuga do pecado. Ao sedutor que a impelia ao ato mau, opunha: – Não. É pecado! Perguntamos, como poderia essa virgem mostrar tão grande amor a Nosso Senhor se não tivesse a noção de pecado?  Se não soubesse distinguir o que Deus não quer que se faça?

A noção de pecado é, pois, indispensável para a formação da própria caridade com que devemos amar a Deus sobre todas as coisas. Sem essa noção, é impossível dar uma ideia do que seja virtude e do que seja vício. Em outras palavras, é impossível distinguir entre o bem e o mal, é impossível qualquer formação moral.

É, pois, de todo necessária para a formação católica uma noção exata do pecado. E não vemos porque se deva evitar a expressão “pecado mortal”, quando o pecado que ela designa dá de fato a morte à alma, tanto assim que uma pessoa que morra em estado de pecado mortal não se salva, vai para o inferno. Temos falado sempre de pecado, sem nenhum adjetivo, porque, no sentido estrito da palavra, pecado é só o mortal. Este, com efeito, é que envolve uma desobediência deliberada a uma ordem positiva de Deus Nosso Senhor em matéria grave, encerra, portanto, uma preferência do homem de si mesmo, de sua vontade, com preterição da vontade de Deus. Nem por isso queremos significar que seja inútil, ociosa ou prejudicial a distinção entre pecado mortal e pecado venial. Muito pelo contrário, está ela fundada na debilidade da nossa natureza, capaz de atos incompletos, semideliberados, capaz de proceder como crianças que evitam o que as faça romper com seus pais, mas permitem-se muitas coisas que elas sabem que, embora desagradem, não chegam a destruir a amizade paterna. O conceito de pecado venial, aliás, serve, de um lado para evitar o desespero, e de outro para nos habituar à humildade, tão fracos somos que não alcançamos agradar a Deus absolutamente em todas as coisas, como o desejáramos.

Coincide com a maneira de pensar por Nós aqui reprovada a afirmação de que a confissão auricular não é nem necessária nem conveniente às crianças, e, mesmo para os adultos, só raramente deve ser admitida, porquanto para a absolvição basta a contrição. Dizemos, apenas, que toda esta maneira de conceber o Sacramento da Penitência não é católica. O Concílio Tridentino (Sess. XVI) reconhece a distinção entre pecado mortal e pecado venial, declara que, por imposição divina, devem ser confessados todos os pecados mortais, porquanto cada um deles deve ser submetido ao tribunal da penitência.

De maneira que se deve reprovar o costume de dar absolvição geral aos fiéis, sem primeiro ouvi-los em confissão auricular, sendo que a cada um julgará o confessor antes de absolvê-lo.

Se agora perguntarmos a quem interessa a dissolução do senso moral, não teremos dúvida em responder: ao comunismo. Logo, um dos meios de se opor ao avanço deste é dar uma noção viva do pecado, sem a qual, aliás, é impossível qualquer formação católica. Será, portanto, sempre necessário repetir aos fiéis as palavras de Jesus Cristo: “Si diligitis me mandata mea servate” (Jo. 14, 15)  – “mandata”, isto é, ordens, leis, cujo conhecimento só é completo, e cuja observância só envolve caridade perfeita, quando se conhecem também quais os castigos que sofrerão os transgressores.

Não é, pois, preciso dizer que para nós, seres compostos de espírito e matéria, cujas ideias se formam através da sensibilidade, a noção de pecado só nos é completa quando avaliamos a enormidade deste pelos castigos pavorosos com que justamente o pune a Justiça divina. Uma formação religiosa que omitisse a exposição do inferno seria falha, não se poderia dizer católica.

Não há necessidade de salientar como se torna oportuno comemorar as aparições de Nossa Senhora em Fátima, na quais a Misericórdia divina veio ao encalço dos pecadores, fazendo-lhes sentir o peso de suas faltas através do espetáculo pavoroso do inferno” (Excerto da Carta Pastoral “SOBRE A PRESERVAÇÃO DA FÉ E DOS BONS COSTUMES”, escrita pelo então Bispo de Campos, RJ, D. Antônio de Castro Mayer, em 1967].

13 maio, 2017

Reflexões da Sagrada Escritura: Lições de Fátima (I).

“Fazei tudo o que Ele  vos disser” (S. João, II, 5). “Importa orar sempre e não cessar de o fazer” (S. Lucas, XVIII, 1). “Se não fizerdes penitência, todos perecereis do mesmo modo” (S.Lucas, XIII, 5). “Em todas as tuas obras lembra-te dos teus novíssimos, e nunca jamais pecarás” (Eclesiástico, VII, 40). “Donde vêm as guerras e as contendas entre vós? Não vêm elas das vossas concupiscências que combatem em vossos membros?” (S. Tiago, IV, 1).

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

Excertos da Carta Pastoral escrita pelo então Bispo de Campos, D. Antônio de Castro Mayer, de santa memória, por ocasião do 250º aniversário do encontro da milagrosa imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida e do 50º aniversário das aparições de Nossa Senhora do Rosário de Fátima: CARTA PASTORAL SOBRE A PRESERVAÇÃO DA FÉ E DOS BONS COSTUMES (Ano de 1967).

Lições de Fátima

Beata Jacinta e Beato Francisco com Irmã Lúcia de Fátima

Jacinta e Francisco, canonizados hoje pelo Papa Francisco, com Irmã Lúcia de Fátima

Os fatos que se desenrolaram em Fátima contêm um amoroso apelo de Deus Nosso Senhor:

1. a que O desagravemos e ao Coração Imaculado de sua Mãe Santíssima, das ofensas de que continuamente são objeto;

2. a que nos compadeçamos dos pobres pecadores;

3. cuja conversão, assim como o desagravo, se obtêm pela oração e as mortificações, as voluntárias e as enviadas pelo mesmo Deus. Ensinam-nos, outrossim:

4. que a meditação sobre o inferno tem eficácia especial na conversão dos pecadores;

5. que a guerra foi um meio de que Deus se utilizou para punir os pecados do mundo;

6. que entre as orações mais eficazes, está a reza do santo rosário;

7. que a salvação do mundo se condiciona à consagração e devoção ao Imaculado Coração de Maria.

Inculcam, enfim:

8. a devoção aos Santos Anjos;

9. o poder do milagre para autenticar a mensagem divina.

Estes pontos todos  concordam perfeitamente com o ensino tradicional da Igreja. É na visão celeste da Corte angélica que cresce no coração dos fiéis a confiança da Bondade Divina, que tão amorosamente providenciou os guias de nossa peregrinação terrena. Sobre a Virgem Santíssima, de há muito a doutrina constante da Sagrada Hierarquia e a piedade ativa dos fiéis a associaram à obra redentora de Nosso Senhor Jesus Cristo, seu Divino Filho. Como por Maria recebeu o mundo ao Salvador, assim por Maria receberam os homens os frutos da Redenção. A Virgem Santíssima é chamada a Onipotência suplicante, por quanto está sempre a interceder por nós, e suas preces são sempre aceitas do Pai Eterno. Mais; por disposição da Providência, nenhuma graça desce do Céu à terra si se não interpuser a intercessão de Nossa Senhora. Como corolário dessa doutrina tradicional da Igreja, Nosso Senhor determina, em Fátima, que a salvação do mundo Ele a concederá por meio do Imaculado Coração de sua Mãe Santíssima. Nessa mesma ordem da Providência estão as graças especiais concedidas à reza do rosário mariano, como, aliás, já consta da história eclesiástica, desde que foi essa devoção introduzida entre os fiéis. As guerras e calamidades, desde o Antigo Testamento, são apresentadas como consequência do pecado, e é doutrina tradicional que, como todos os males, também elas entraram no mundo pelo pecado original, fonte dos demais outros.
Importa, no entanto, nos detenhamos mais sobre o espírito de reparação, a penitência e a consideração sobre o inferno.

Reparação e penitência

Ao espírito de reparação, a compaixão nos sofrimentos do Divino Salvador e, consequentemente, nos de sua Mãe Santíssima, nos convidam as expressões cheias de ternura do Discípulo amado que auscultou o Coração de Jesus, e as queixas amorosas do próprio Divino Salvador. A palavra de São João, “Sic Deus dilexit mundum ut Filium suum Unigenitum daret – Deus de tal maneira amou o mundo que entregou seu Filho Unigênito” ( Jo. 3, 16), soa como um brado a despertar em nossos corações as fibras da gratidão; e a de Jesus Cristo, no Horto das Oliveiras, quando se viu oprimido pelos nossos pecados, e triturado pelas nossas ofensas: “Non potuistis una hora vigilare mecum?  –  Não pudestes vigiar uma hora apenas comigo?” (Mat. 26, 40), é uma amorosa censura por nossa falta de compaixão nos seus sofrimentos. A penitência, a mortificação dos sentidos e da própria vontade são parte essencial da doutrina de Jesus Cristo, constantemente pregada pelos Apóstolos e pela Santa Igreja. É ela condição indispensável para que a pessoa possa entrar no Reino de Deus: “Fazei penitência, porque se aproxima o Reino de Deus” (Mat. 4, 7), prega-nos Jesus Cristo. “Fazei penitência e seja cada um de vós batizado no nome de Jesus Cristo, para remissão de vossos pecados” (At. 2, 38), confirma o Príncipe dos Apóstolos. Por seu turno, a mortificação, à imitação de Jesus Cristo, obediente até à morte, e aceitando todos os sofrimentos que torturaram seu Corpo sacrossanto, deve acompanhar o fiel que deseja manter sua união com o Divino Salvador: “Trazemos sempre em nosso corpo os traços da morte de Jesus para que também a vida de Jesus se manifeste em nós” ( 2 Cor. 4, 10), diz São Paulo de si mesmo, e recomenda a mesma norma aos seus discípulos: “Se viverdes segundo a carne, haveis de morrer; mas, se, pelo Espírito [isto é, a graça de Deus], mortificardes as obras da carne, vivereis” (Rom. 8, 13). Depois, a Igreja inculcou sempre aos seus filhos o espírito de penitência. Foi este espírito que povoou os desertos com os santos anacoretas, como foi a renúncia até à morte que deu energia aos Mártires para sofrerem os mais atrozes tormentos por Jesus Cristo. E todos os grandes Santos, os Patriarcas das Ordens e Congregações religiosas puseram sempre a penitência como fundamento para chegarem, eles mesmos e seus discípulos, à vida de união com Jesus Cristo.

A natureza decaída exige a penitência

A razão por que a penitência é assim tão necessária é a concupiscência que habita em nosso corpo de pecado. É a lei da carne que se opõe à virtude: “Sinto nos meus membros, diz São Paulo, outra lei que luta contra  a lei de meu espírito e que me prende à lei do pecado, que está no meu corpo” (Rom. 7, 23). Este fato, esta luta, esta contradição íntima de nossa natureza, que nos leva a fazer o mal que reprovamos, é que nos obriga a uma vigilância, uma mortificação contínua, a fim de que, auxiliados pela graça de Deus, em nós não domine o pecado, mas vivamos segundo o Espírito de Jesus Cristo. A exortação, pois, do Salvador no Jardim das Oliveiras, “vigilate et orate ne intretis in tentationem” (Mat. 26, 41), vale para todos os tempos. Oração e penitência recomenda Maria Santíssima em Fátima, para a conversão dos pecadores.

De fato, a oração e a penitência, assumida com espírito de reparação, à imitação de Jesus Cristo, não apenas valem para o fiel que as pratica, como o torna colaborador na obra redentora do Filho de Deus, conforme a palavra do Apóstolo: “Alegro-me nos sofrimentos suportados por vós. O que falta às tribulações de Cristo, completo na minha carne por seu corpo que é a Igreja” (Col. 1, 24). Em suma, deve o cristão, para santificar-se e colaborar na conversão dos pecadores, levar uma vida nova, santa em Cristo Jesus, e isso dele pede que, pela mortificação contínua dos seus membros, renuncie ao que há de mundano: a devassidão, a impureza, as paixões, os maus desejos, a concupiscência, a ira, a cólera, a maledicência, a maldade, as palavras torpes, etc. (Cf. Col., 3, 5-8). Não há dúvida que a luta que se pede ao fiel é um combate duro, porquanto o inimigo é interno, aliciante e, bem manejado pelo Príncipe deste mundo, é sem a graça de Deus, invencível.

Benefícios da meditação sobre o inferno

Uma dessas graças que devem ser arroladas entre as forças que vencem nossas tendências para o mal, é a consideração dos novíssimos, conforme a expressão da Escritura: “Memorare novissima tua, et in aeternum non peccabis” (Ec. 7, 40). E entre os novíssimos o que causa maior impressão e, por isso, goza de especial eficácia para arrancar o homem animal, que somos, ao vício, e orientá-lo à prática da virtude, é o inferno com suas penas eternas, a perda da bem-aventurança e o fogo interminável.

Frequentes vezes propôs o Salvador o fogo inextinguível do inferno como meio para levar seus discípulos à prática dos Mandamentos: Se a tua mão for para ti ocasião de queda, corta-a; melhor te é entrares na vida eterna aleijado, do que, tendo duas mãos, ires para a Geena, para o fogo inextinguível […]. Se o teu pé for para ti ocasião de queda,
corta-o fora; melhor te é entrares na vida eterna aleijado, do que, tendo dois pés, seres lançado à Geena do fogo inextinguível […]. Se o teu olho for para ti ocasião de queda, arranca-o; melhor te é entrares com um olho de menos na Reino de Deus do que, tendo dois olhos, seres lançado à Geena do fogo, onde […] o fogo não se apaga” (Marc. 9, 42 ss.). Em São Mateus, o Senhor nos adverte que não devemos temer os que matam o corpo, mas não podem matar a alma, pois devemos “temer antes Aquele que pode precipitar a alma e o corpo na Geena” (Mat. 10, 28). O mesmo intencionava o Salvador, quando declarava a sentença do Juízo Final: “Ide, malditos, para o fogo eterno que foi preparado para o demônio e seus anjos” (Mat. 25, 41).

Idêntica doutrina, igual exortação encontramos nos escritos dos Apóstolos. São Paulo frequentemente adverte que os pecadores não possuirão o Reino de Deus, e São João, no Apocalipse, assim fala do castigo eterno que aguarda os sequazes do demônio: “Se alguém adorar a fera e a sua imagem, e aceitar o seu sinal na fronte ou na mão, há de beber também o vinho da cólera divina, o vinho puro deitado no cálice da sua ira. Será atormentado pelo fogo e pelo enxofre diante dos seus Santos anjos e do Cordeiro. A fumaça do seu tormento subirá pelos séculos dos séculos [isto é, eternamente]. Não terão descanso algum, dia e noite, esses que adoram a fera e a sua imagem, e todo aquele que acaso tenha recebido o sinal do seu nome” (14, 9-11). Mais abaixo volta a falar da pena que espera os pecadores: “Cada um foi julgado segundo suas obras […]. A segunda morte é esta: o flagelo do fogo. Se alguém não foi encontrado no livro da vida, foi lançado ao fogo” (20, 13 ss.).

Com semelhante doutrina, não admira que os autores ascéticos proponham a meditação do inferno como salutar para obter a conversão e salvação dos pecadores e, mesmo, o afervoramento dos bons, porquanto o inferno também nos mostra o amor que Jesus nos teve liberando-nos de cativeiro tão horrendo. Vem a propósito salientar que Santo Inácio de Loyola no Livro dos Exercícios Espirituais  –  livro elogiado e recomendado por inúmeros Papas  –  entre as meditações fundamentais da primeira semana, a semana que deve determinar a conversão do exercitante, coloca a reflexão sobre o inferno precisamente à maneira como Nossa Senhora o propôs aos videntes de Fátima: falando intensamente aos sentidos.