Archive for ‘Coluna do Padre Élcio’

16 outubro, 2018

A castidade sacerdotal.

Por Padre Élcio Murucci, 16 de outubro de 2018 – FratresInUnum.com

“Quid est quod dilectus meus in domo mea fecit scelera multa?” (“Como é que aquele que eu amo cometeu tantas maldades na minha casa?)” (Jeremias XI, 15)

Missa Sacrificio“Conta-se na Mitologia grega, diz o Pe. Félix Alejandro Cepeda, que em Tebas havia um monstro chamado Esfinge, o qual tinha rosto de mulher, asas de pássaro e garras de leão; sua ocupação era propor aos transeuntes enigmas ou advinhas  que lhe haviam ensinado as musas. Àquele que não sabia adivinhá-las, dava-lhe a morte. Um dia em que passava Edipo, perguntou-lhe a Esfinge: Qual é o ser ao mesmo tempo, o mais grande e o mais pequeno?  E Edipo, aquele infeliz Edipo, que estava destinado a matar  seu pai e a casar-se com sua mãe, respondeu: O HOMEM. Pois bem, continua o Pe. Félix, se a mim fosse feita a mesma pergunta, responderia sem vacilar: O SACERDOTE. O sacerdote, com efeito, é grande por sua excelsa dignidade, porém se envilece até ao máximo se cai no pecado mortal”. E, caríssimos, acrescento que, em se tratando de pecados impuros, seu aviltamento é  um dos mais hediondos.

Em Roma, nos tempos do paganismo, havia as Sacerdotisas de Vesta, chamadas Vestais. Eram incumbidas de manter sempre aceso o fogo sagrado no templo da deusa. Eram elas em número de seis; ingressavam no templo com cerca de 10 anos de idade, e ali ficavam durante 30 anos, período durante o qual deviam conservar intacta a sua virgindade. Eram tidas pelos romanos em alta estima, tanto assim que nas solenidades elas tinham sempre os lugares de honra, e vestiam um especial hábito branco ornado de púrpura. Se um magistrado as topava na rua, cedia-lhes a direita. Se uma das Vestais faltasse ao seu dever e violasse a castidade, era condenada a ser enterrada viva num lugar chamado CAMPO CELERADO. Caríssimos, já percebeis até onde quero chegar: se os pagãos tinham tal veneração pelas pessoas de vida casta que para trabalhar no templo da deusa, elas tinham que conservar a virgindade, imaginemos quão gravíssimo e hediondo é o pecado que cometem na Casa do verdadeiro Deus, muitos clérigos que se consagraram a Deus fazendo o voto de castidade perfeita e pecam justamente quebrando este voto. Dizia um piedoso escritor: “O que guarda com fidelidade a castidade, despe-se da humanidade para se revestir da natureza angélica; assim como o que a imola é um anjo decaído, um demônio”. Podemos afirmar que a mais bela jóia da coroa sacerdotal é a castidade. Caríssimos, na verdade, o sacerdote sendo já super eminente pela sublimidade de suas funções inteiramente divinas, se continuamente se aplica a espiritualizar sua carne e seus sentidos pela castidade, se, transportado por esta virtude até ao Coração de Jesus, n’Ele estabelece sua morada habitual, não saindo daí senão como os anjos e com a pureza dos anjos para exercer entre os homens seu divino ministério, quem poderá descrever a magnificência de sua glória?

Se esquece, porém, sua grandeza, se esquece sua união inefável com a Carne e Sangue de Jesus Cristo, com que nutre todos os dias sua alma no santo altar, se esquece a rigorosa lei da castidade que o obriga já como cristão, se enfim deixa o coração de Deus e os resplendores celestes para sepultar seu sacerdócio na torpeza e devassidão, que monstro ele se torna!!! Já não é anjo, nem sequer homem; passou a demônio. O sacerdote impudico quebra os laços que o prendiam a Deus, não tendo já luz para se conduzir nem fervor para se consolar, nem coragem para se levantar, nem zelo para salvar seus irmãos, visto que ele mesmo se perde, cai loucamente de abismo em abismo.  E suas desordens, secretas ao princípio, acabam pelo não ser e então é que se vê na Igreja um desses escândalos, que arrancam às almas piedosas, gemidos e lágrimas; escândalo que faz a alegria dos ímpios, que cobre de opróbrio o que o causa, e faz que o divino Salvador diga o mesmo que dizia de seu pérfido apóstolo: “Ai daquele homem… melhor fora que não tivesse nascido!” Assim, devemos considerar a virtude da castidade como sendo tão
indispensavelmente necessária a um padre para edificação do próximo, para o pleno sucesso de seu ministério e para sua própria santificação, que não só não deve fazer absolutamente nada contra esta virtude, mas até abster-se de tudo o que possa despertar um vislumbre de suspeita contra a pureza de seus costumes. E os padres devem estar sempre lembrados que os demônios fazem esforços incríveis para precipitá-los da sua suprema elevação no abismo do lodaçal do vício impuro.

Deus quer anjos para o governo de sua Igreja, que é o seu reino terrestre, como os tem para o seu reino do Céu; por conseguinte é indispensável aos sacerdotes a virtude angélica: Jesus disse que no céu os eleitos são como anjos: “Na ressurreição, nem os homens terão mulheres, nem as mulheres maridos, mas serão como os anjos de Deus no
Céu” (S. Mateus XXII, 30). Bossuet, comparando a divina fecundidade do Sacerdote, que dá a Deus filhos espirituais, com a de Maria, afirma que uma e outra requerem uma pureza de todo angélica. A reza do Breviário, o sacrifício de louvores, a oração pública, exige dos sacerdotes quase tanta pureza como a de Jesus Cristo. E que dizer dá pureza ilibada com que deve o sacerdote subir ao Altar para oferecer a Vítima divina!? As coisas santas devem ser exercidas por pessoas santas: “Sancta sanctis”. E pode haver algo mais santo sobre a face da terra do que  o Sacrifício do Altar, pelo qual temos Jesus que renova
o Sacrifício do Calvário?!

Três coisas protegem os sacerdotes contra as quedas no vício impuro: a humildade, a vigilância e a generosidade. A virtude da humildade é a primeira defesa da castidade sacerdotal. Que perto está o homem de cair no abismo, quando confia em si! Nem a gravidade do caráter nem os progressos feitos na perfeição, nem a idade avançada podem dar uma completa segurança. A confiança em si degenera facilmente em presunção. Deus dá a graça aos humildes, e resiste aos soberbos. “Queres ser casto, pergunta Santo Ambrósio, sê humilde; queres ser castíssimo? sê humilíssimo”. A vigilância é uma consequência da humilde desconfiança de nós mesmos, e do conhecimento dos perigos a que os sacerdotes estão expostos. A fraqueza natural é tão grande, o demônio tão astuto, o contágio tão universal, as ocasiões tão numerosas e, hoje, mais do que nunca, que, se não emprega a máxima precaução, o sacerdote terá brevemente um coração de réprobo, será um verdadeiro demônio encarnado. Nas relações mais indispensáveis com o mundo, até nas santas funções do ministério sagrado, por toda a parte estão armados laços à pureza dos sacerdotes.

Os sacerdotes trazem o precioso tesouro da castidade perfeita num vaso por demais frágil. Daí a vigilância deve ser aquela lâmpada acesa com que o homem prudente alumia todos os seus passos. Deve vigiar sobre a imaginação, o coração, sobre todos os sentidos exteriores. Na verdade, o sacerdote deve vigiar até sobre o zelo, mas, de uma maneira especial, sobre as relações com as pessoas cuja idade e sexo poria em perigo a sua virtude ou a sua reputação. Finalmente, é mister que o sacerdote tenha generosidade, porque há laços que ele, sendo prudente, não procura desatar, mas quebra-os e com prontidão. E nenhuma virtude exige tanto a generosidade como a castidade virginal. O sacerdote deve fazer de seu corpo, que é templo de Deus, uma hóstia viva, santa, agradável ao Senhor, para que lha possa oferecer unida ao sacrifício do Altar. É o que manda S. Paulo a todo mundo, e, a fortiori deve-se dizer o mesmo dos sacerdotes: “Rogo-vos, pois, irmãos pela misericórdia de Deus, que ofereçais os vossos corpos como uma hóstia viva, santa, agradável a Deus” (Rom. XII, 1). Como não praticar a mortificação de Jesus Cristo, aqueles que se alimentam todos os dias de Jesus crucificado? O sacerdote deve, além de fugir dos perigos, ter a generosidade de estar sempre ocupado.  Deve ter um amor apaixonado pelo estudo das Sagradas Escrituras e dos Santos Padres, isto é,  da Exegese e da Teologia Dogmática e Moral. Sempre, mas hoje mais do que nunca, um sacerdote sem vida interior, sem meditação e retiro está fadado a ruína que, infelizmente, pode ser eterna! Caríssimos colegas no sacerdócio, sejamos padres santos, e para conseguir o fim almejado, pratiquemos antes de tudo a bela virtude da castidade perfeita, da qual fizemos voto a Deus, no dia mais feliz e solene de nossa vida! Amém!

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14 outubro, 2018

Coluna do Padre Élcio: Perdoar as ofensas do próximo, para Deus perdoar os nossos pecados.

Evangelho do 21º Domingo depois de Pentecostes.

Por Padre Élcio Murucci – FratresInUnum.com, 13 de outubro de 2018

“Naquele tempo, disse Jesus esta parábola a seus discípulos: O Reino dos céus se compara a um rei, que quis pedir contas a seus servos. Começando a fazer contas, apresentou-se-lhe um que lhe devia dez mil talentos. Mas não tendo ele com que pagar, mandou o senhor que fossem vendidos ele, sua mulher e seus filhos, e tudo quanto possuía, para pagar a dívida. Então este servo, prostrando-se em terra, disse-lhe suplicante: Tem paciência comigo e pagarei tudo. E compadecendo-se desse servo, o Senhor libertou-o e perdoou-lhe a dívida. Saindo dali, porém, o servo encontrou-se com um de seus companheiros que lhe devia cem dinheiros; e logo o agarrou e, sufocando-o, disse: Paga-me o que me deves. E o seu companheiro, prostrando-se a seus pés, implorava-lhe: Tem paciência comigo e pagarei tudo. Ele porém não quis; retirou-se e fez com que o metessem na prisão, até pagar a dívida. Vendo os outros servos, seus companheiros, o que se passava, entristeceram-se muito e foram contar a seu senhor tudo o que tinha acontecido. Então seu senhor o chamou e lhe disse: servo mau, eu te perdoei toda a dívida porque me suplicaste; não devias tu também ter piedade de teu companheiro, como eu tive de ti? E, enraivecido, seu senhor entregou-o aos algozes, até que pagasse toda a dívida. Assim também vos fará meu Pai celestial, se do íntimo de vossos corações não perdoar cada um a seu irmão”.

Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

Padre atende confissão durante ordenações em Ecône, 29 de junho de 2009. REUTERS/Denis Balibouse (SWITZERLAND RELIGION)

Padre atende confissão durante ordenações em Ecône, 29 de junho de 2009. REUTERS/Denis Balibouse (SWITZERLAND RELIGION)

A finalidade desta parábola é bem determinada: a necessidade de perdoarmos as ofensas que o próximo nos faz para que sejamos perdoados dos pecados que cometemos diretamente contra Deus nos três primeiros mandamentos; e indiretamente nos outros sete. Dando-nos o exemplo da misericórdia, Deus ensina-nos a usar dela como Ele. As nossas dívidas são os nossos pecados que precisam de ser lavados pelo Sangue de um Deus. Portanto, nossas dívidas para com Deus, devem ser calculadas segundo o preço do nosso resgate, o preciosíssimo Sangue de Jesus. O Sangue de Cristo é como um mar vermelho em que o exército enorme e terrível dos nossos pecados é inteiramente destruído, como afogado foi na Mar Vermelho o exército do Faraó. Mas é preciso estarmos sinceramente arrependidos, confessar humildemente os nossos pecados e perdoar do fundo do coração as ofensas que o próximo nos faz.

A segunda parte da parábola fala justamente do nosso perdão. Diz Jesus na parábola que ao voltar a casa aquele afortunado servo que fora absolvido de toda a dívida, encontrou-se com um seu companheiro que lhe devia cem dinheiros, soma verdadeiramente ínfima em comparação com os dez mil talentos que lhe tinham sido perdoados; mas este homem, que fora tratado com tanta piedade, não demonstrou nenhuma para com o seu semelhante, antes fez que o metessem na prisão até pagar a dívida. Não atendeu às suas súplicas e lágrimas.

Caríssimos, embora corando, temos de reconhecer que, tal como a bondade do rei é a imagem da misericórdia de Deus, a crueldade do servo é a imagem da nossa dureza, da nossa mesquinhez em perdoar ao próximo. No entanto, que dívidas poderá ter o próximo para conosco em comparação das que nós temos para com Deus? A gravidade da ofensa se mede pela dignidade da pessoa ofendida. Ora, todo pecado é uma ofensa feita à Majestade infinita de Deus. Quando o próximo nos ofende em alguma coisa, na verdade, ofende a uma miserável criatura. Mas eis o contraste: Deus perdoa, esquece, anula inteiramente as nossas graves ofensas e não cessa de nos amar e de nos favorecer, apesar das nossas contínuas infidelidades; nós, ao contrário, só com grande custo somos capazes de perdoar alguma pequena ofensa e, ainda que perdoemos, não sabemos esquecer inteiramente. Caríssimos, pensemos bem nisto: que seria se o próximo cometesse todos os dias para conosco tantas infidelidades e indelicadezas como nós cometemos para com Deus?

Assim também vos fará meu Pai celestial se não perdoardes do íntimo dos vossos corações cada um a seu irmão”. Na medida em que perdoarmos, seremos perdoados. Isto significa que somos nós próprios a dar a Deus a medida exata da misericórdia que há de usar para conosco. Aliás Jesus ensinou no Padre-Nosso: “Perdoai as nossas dívidas (= pecados, ofensas) assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido”. Quem sabe mentimos a esta protestação que repetimos a Deus milhares de vezes? Quem guarda ódio, rancor e vingança, e não perdoa, ao rezar o Padre-Nosso está pedindo a sua própria condenação.

Na verdade muita gente fica preocupada sem entender como praticar o perdão “Ex cordibus vestris”, isto é, de todo coração, do fundo do coração, seriamente. Evitando toda a hipocrisia, nós  devemos estar prontos a testemunhar àquele que nos ofendeu, uma verdadeira caridade e a dar-lhe, por todas as formas, sinais de benevolência. Alguém dirá: é difícil!!! Não há dúvida. Mas Deus não nos exige nada impossível. Neste caso ouçamos o conselho de Santo Agostinho: “É difícil, para mim, perdoar a quem me ofende? Recorrerei à oração. Em vez de repelir injúrias com injúrias, rezarei pelo injuriador. Se tiver vontade de lhe responder duramente, falar-Vos-ei, a Vós, Senhor, em seu favor. E em seguida lembrar-me-ei de que Vós prometeis a vida eterna, mas ordenais que perdoemos ao irmão. É como se me dissésseis: “Tu, que és homem, perdoa a outro homem, a fim de que Eu, que sou Deus, possa vir a ti”. Amém!

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6 outubro, 2018

Coluna do Padre Élcio: O bom exemplo de um pai e oficial.

Evangelho do 20º Domingo depois de Pentecostes.

Por Padre Élcio Murucci – FratresInUnum.com, 6 de outubro de 2018

Santo Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo segundo São João, 4, 46-53:

“Naquele tempo havia um oficial do rei cujo filho estava doente em Cafarnaum. Tendo ouvido que Jesus voltara da Judeia para a Galileia, foi ter com Ele, e pediu-lhe que viesse à sua casa e curasse seu filho, que estava à morte. Disse-lhe, então, Jesus: Se não virdes milagres e prodígios, não credes. O oficial do rei respondeu: Senhor, vinde, antes que meu filho morra. Disse-lhe Jesus: Vai, o teu filho vive. Acreditou o homem na palavra de Jesus e partiu. Quando ele já ia para casa, vieram-lhe ao encontro seus criados e deram-lhe a notícia de que o seu filho vivia. Perguntou-lhes, então, a hora em que o doente se achara melhor. Responderam-lhe: Ontem pela sétima hora, a febre o deixou. Reconheceu logo o pai ter sido aquela a mesma hora em que Jesus lhe dissera: Teu filho vive. E acreditou ele e toda a sua família.”

Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

Deus infinitamente bom e sábio, serve-se, às vezes, da doença como um recurso para salvar a alma. No caso presente do Evangelho, vemos que a doença corporal do filho é motivo para a convalescênça espiritual do pai e conversão de toda aquela família.

jesus filho cafarnaum

Na verdade, a fé daquele oficial do rei Herodes era diminuta e imperfeita. Vinha pedir a Jesus a cura do filho, unicamente porque ouvira dizer que aquele homem de Nazaré estava fazendo milagres. Jesus se achava em Caná da Galileia; e ali mesmo havia transformado água em vinho. Este oficial nem sequer pensava na razão e origem de tanto poder, ou seja, não pensava que Jesus Cristo era o Filho de Deus, o Messias. Além disso, julgava que Jesus só podia operar a cura, vindo tocar o próprio doente, ou impor-lhe as mãos. É por isso que o Salvador parece censurá-lo, embora amenize as palavras, dirigindo-as mais aos circunstantes que ao pai aflito: “Se não virdes milagres e prodígios, não credes”.  Os milagres são, sem dúvida, necessários. É por eles que o Messias, segundo os Profetas, devia manifestar a sua missão divina e a sua Igreja estender-se pelo mundo. Mas não deixa de ser verdadeira a palavra de Jesus a S. Tomé: “Bem-aventurados os que não viram e creram”. Aliás, os milagres, a maior parte das vezes, só convertem os homens de boa fé e de boa vontade. Os Fariseus, na sua maioria, viram, com seus olhos todos os milagres feitos por Jesus e não quiseram crer e crucificaram-No. Tinham olhos mas não viam, por causa do orgulho.

O oficial, parecendo não compreender a censura de Jesus, insistiu: “Senhor, descei, antes que meu filho morra”. Vemos que este oficial acredita no poder de Jesus, mas a sua fé continua imperfeita, pois que julga necessária a presença  do taumaturgo e não acredita ainda que Jesus possa curar o seu filho à distância ou ressuscitá-lo, se estiver morto. Devemos observar que Jesus estava na ocasião, no início de sua vida pública, e, portanto, não havia feito ainda muitos milagres. Veremos mais tarde, numa circunstância análoga, o Centurião romano dizer a Jesus com fé e humildade admiráveis, bem superiores às deste oficial do rei: “Senhor, eu não sou digno que vos incomodeis em vir a minha casa; dizei somente uma palavra e o meu servo será curado!” Por isso o Centurião mereceu ouvir de Jesus: “Não encontrei tamanha fé no meu povo de Israel!

O Divino Mestre, no entanto, não despreza essa fé imperfeita do oficial, mas trata de a robustecer, curando o enfermo ausente. Cumpriu-se mais uma vez a palavra do profeta: “Não quebrará a cana fendida, nem apagará a mecha que ainda fumega”. Disse Jesus àquele pai aflito: “Vai, teu filho vive”.

Acreditou o homem na palavra de Jesus e partiu. Não instou mais com Jesus: sinal de que acreditou. Sua fé já era bem mais viva e perfeita.

A meio do caminho encontrou seus servos que vinham ao seu encontro anunciar-lhe a feliz nova: seu filho  subitamente ficara curado. Perguntou o pai a que hora isto se deu. Se, deste modo quis, por assim dizer, verificar o fato, precisando o momento da sua realização, foi, para confirmar a sua própria fé e poder atribuir a Jesus e só a Jesus a cura do filho e assim se excitar a uma perfeita gratidão. Quis também, sem dúvida, que os seus servos partilhassem da sua admiração e da sua convicção, de que Jesus era o único autor dum tão grande milagre e assim levá-los a felicidade de acreditarem como ele.

A fé deste oficial estava no começo, quando veio à procura de Jesus e pedir-lhe a cura do filho; aumentou, quando acreditou na palavra do Senhor: Vai, o teu filho vive; atingiu  perfeição, quando soube a boa notícia que os servos lhe traziam. Neste momento ele creu que Jesus era o verdadeiro Messias prometido, o Cristo, o Filho de Deus; e, não contente, de crer ele só, comunicou, pelas suas exortações e pelos seus exemplos, a sua fé, o seu amor e a sua felicidade a toda a sua casa. A partir deste dia, esta casa tornou-se uma espécie de igreja antecipada em que o Salvador recebeu as homenagens que lhe eram devidas.

Admiremos a fé ativa, o zelo e o amor deste oficial que, esclarecido pela graça, testemunha a Jesus o seu reconhecimento da maneira que mais lhe agrada, fazendo-o conhecer e amar pelos seus. É um verdadeiro apostolado. Belo exemplo que todos os pais de família e donos de casa verdadeiramente cristãos fariam bem em imitar, que as ocasiões não serão raras.

Infelizmente, numerosos cristãos, santificados desde o nascimento pelo Batismo, educados na verdadeira religião, cumulados por Deus de toda a espécie de benefícios, se bem que o não reneguem, contudo vivem de tal forma que, em vez de edificar as suas famílias, algumas vezes as escandalizam duma forma lamentável. Em lugar de se aproximarem dos sacramentos, de recitarem piedosamente as suas orações em comum, de praticarem as virtudes cristãs, vemo-los constantemente afastados de toda a prática religiosa, entregarem-se ao jogo, à bebida, a paixões vergonhosas e culpáveis.

Concedei, Senhor, benignamente a vossos fiéis o perdão e a paz, para que sejam purificados de toda culpa, e Vos sirvam com firme confiança. Amém!

 

29 setembro, 2018

Coluna do Padre Élcio: “Tornar certa a inclusão no número dos eleitos por meio das boas obras”.

Evangelho do 19º Domingo depois de Pentecostes –  S. Mateus IX, 1-8

Por Padre Élcio Murucci – FratresInUnum.com, 29 de setembro de 2018

Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

A parábola de hoje compreende duas partes bem distintas: A primeira dirige-se aos Judeus que, tendo sido os primeiros convidados e chamados várias vezes a reconhecer o Messias, Deus feito homem, recusaram vir e chegaram mesmo a matar alguns dos enviados do Senhor e que, por causa da sua obstinação, foram excluídos do reino de Deus. A sua reprovação e a ruína de Jerusalém são claramente anunciados.

FB_IMG_1537716160586A segunda parte refere-se aos Gentios, convidados em massa para o lugar dos Judeus. Entretanto, Nosso Senhor quer também instruí-los e mostrar-lhes, com o que aconteceu àquele que não tinha a veste nupcial, que não basta, para ser recebido no festim das núpcias divinas, ser batizado e ter fé, mas que é preciso ainda estar revestido da graça santificante.

O rei que faz as bodas de seu filho é o Pai celeste. Estas núpcias do Filho de Deus realizam-se de várias maneiras:  Antes de tudo pela Encarnação, ou seja, o Filho de Deus, une-se hipostaticamente à natureza humana no seio da Bem-aventurada Virgem Maria. Há, portanto, a união da natureza divina com a natureza humana na pessoa divina do Verbo, ou seja, do Filho de Deus.

Núpcias também no sentido de que o Filho de Deus feito Homem fez uma aliança mística com a sua Igreja. Neste sentido diz São Paulo que o matrimônio é grande em Jesus Cristo e na sua Igreja (Ef. V, 32).

Em terceiro lugar, podemos dizer que o Filho de Deus feito homem como que desposa a alma fiel pela graça, consoante a fórmula do profeta Oséas: “Eu vos desposarei em fidelidade”. (Oséas, II, 20).

Estas três núpcias santas, têm por único fim preparar as núpcias eternas no Céu.

Assim, ser convidado para as núpcias do Filho de Deus, é ser chamado ao conhecimento e ao amor de Jesus, a entrar no grêmio da Igreja, a unir-se a Nosso Senhor pela Sagrada Comunhão, para um dia, enfim, entrar no reino dos Céus e lá gozar a eterna felicidade. Diz o Apocalipse XIX, 9: “Bem-aventurados os que foram chamados à ceia das bodas do Cordeiro!”

E enviou seus servos a chamar os convidados para as bodas: Os judeus, os primeiros convidados, sempre se mostraram de cerviz dura, e rebeldes ao convite divino. Eis a terrível censura do Diácono Estevão aos judeus: “Homens de cerviz dura e incircuncisos de coração e ouvidos, vós resistis sempre ao Espírito Santo; assim como foram vossos pais, assim sois vós também. A qual dos profetas não perseguiram os vossos pais? Mataram até os que prediziam a vinda do Justo, do qual vós agora fostes traidores e homicidas; vós que recebestes a lei pelo ministério dos anjos e não a guardastes” (Atos VII, 51-53).  Os judeus rejeitaram este primeiro convite que foi feito desde Abraão até Moisés e os Profetas.

Novamente enviou outros servos: Este novo chamamento, mais iminente, representa a missão de João Batista e dos Apóstolos.

O festim da Igreja de Jesus Cristo está pronto: eis que o Verbo se fez carne; eis também a doutrina de vida; eis os sacramentos, sobretudo a Eucaristia, para alimentar, para regozijar e fortificar as almas. Jesus morrendo na Cruz exclamou: “Tudo está consumado”. Sim, tudo está pronto! o mistério da reparação está satisfeito eficazmente; a entrada do reino dos Céus, até então fechada pelo pecado, está aberta; a salvação é oferecida a todos: Vinde às núpcias!

Os Judeus recusaram o convite. Uns ocupados unicamente com os seus interesses materiais, ou com os prazeres, negligenciaram tão instantes convites. Outros, mais perversos, prenderam os servos enviados pelo rei. Estes homens ingratos e malvados, depois de terem ultrajado os servos do rei, mataram-nos. Na parábola dos vinhateiros,  Nosso Senhor Jesus Cristo disse que eles mataram o próprio Filho do Rei, ou seja, o próprio Jesus Cristo.

O rei encolerizou-se, mandou seus exércitos e exterminou aqueles homicidas, pondo fogo à sua cidade: Isto se cumpriu à letra quando as legiões romanas, guiadas por Tito e Vespasiano, investiram contra Jerusalém e, depois do memorável cerco, a destruíram juntamente com o Templo e dispersaram por toda a terra os habitantes que sobreviveram.

Agora a segunda parte da parábola: Diz respeito especialmente a todos os cristãos. O rei diz aos seus servos, isto é, aos Apóstolos e a seus sucessores no decorrer dos séculos: O festim das núpcias está pronto, isto é, os mistérios da Encarnação e da Redenção estão consumados. Os judeus, pela sua incredulidade e obstinação, tornaram-se indignos dele. Diz São Paulo: “Pelo seu (dos judeus) delito, veio a salvação aos gentios” (Rom. XI, 12). Deus sabe tirar o bem do mal. Portanto, ide por toda a terra, ao meio dos povos mais remotos e mais bárbaros, e todos aqueles que encontrardes, sem distinção de idade e de sexo, de condição ou de dignidade, sem acepção de pessoas. E o Apóstolo S. Paulo e Barnabé  diziam aos Judeus: “Vós éreis os primeiros a quem se devia anunciar a palavra de Deus, mas porque a rejeitais e vos julgais indignos da vida eterna, eis que nós nos voltaremos para os gentios; porque assim nos ordenou o Senhor…” (Atos XIII,  46 e 47).. Efetivamente, os Apóstolos dispersaram-se e foram pregar por todo o mundo. A sua obra foi continuada através dos séculos. Por isso a Igreja militante está cheia duma multidão inumerável de todas as regiões e de todos os povos.

Mas nela os justos e os pecadores, estão ainda confundidos: trigo e cizânia, bons e maus, porque, na verdade, todos foram chamados, mas nem todos se converteram sinceramente e são fiéis às obrigações contraídas no Batismo.

O rei entrou na sala do festim para ver os que estavam à mesa: Esta visita súbita simboliza a que Deus fará a cada um de nós na hora do juízo que se seguirá logo após a morte.   E o rei viu um homem sem a veste nupcial. Todos recebiam esta veste na entrada da sala do banquete. Todos os cristãos recebem a veste cândida da graça na entrada da Igreja pelo santo Batismo. Não basta, porém, vir assentar-se à mesa do banquete, participar dos sacramentos, praticar os atos exteriores da fé: é preciso ter ainda a veste da graça. É preciso tê-la conservado sempre ou, ao menos, tê-la recuperado pela penitência para participar do banquete da graça e depois do da glória.

Disse o rei aos servidores: Atai este homem que não traz a veste nupcial. Amarrai-o de pés e mãos e lançai-o nas trevas exteriores. Ali haverá choro e ranger de dentes. Tudo isto é imagem dos castigos que Deus infligirá ao pecador encontrado sem a veste nupcial da graça na hora do juízo. De pés e mãos ligadas porque sua pena será eterna. As trevas exteriores são a figura das horríveis trevas da privação da visão beatífica de Deus. Choro e ranger de dentes, imagem da aflição indizível, dos remorsos pungentes e do desespero que causarão ao pecador, a lembrança das suas infidelidades e a eternidade do inferno, onde caiu por sua culpa, porque dependia dele só, fazer-se receber no Céu.

Caríssimos, seremos nós do pequeno número dos eleitos? É segredo de Deus, mas isso depende de nós. São Pedro faz-nos esta recomendação que é, ao mesmo tempo, uma verdade dogmática e um preceito moral para assegurar a nossa salvação: “Portanto, irmãos, ponde cada vez maior cuidado em tornardes certa a vossa vocação e eleição por meio das boas obras, porque, fazendo isto, não pecareis jamais. Desde modo vos será dada largamente a entrada no reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” ( 2 S. Ped., I, 10 e 11). Amém!

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22 setembro, 2018

Coluna do Padre Élcio: “Tem confiança, filho, os teus pecados te são perdoados”.

 Evangelho do 18º Domingo depois de Pentecostes –  S. Mateus IX, 1-8

Por Padre Élcio Murucci – FratresInUnum.com, 22 de setembro de 2018

Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

O santo Evangelho oferece-nos ensejo de refletirmos sobre muitos assuntos. Quero falar sobre o poder de perdoar pecados, ou seja, sobre o sacramento da Penitência ou Confissão. O poder de perdoar pecados é, na verdade, um poder divino, isto é, só Deus pode perdoar pecados. Jesus Cristo perdoava pecados justamente porque Ele era Deus. Mas quem tem o poder, pode delegá-lo a outrem.

O-pai-misericordioso-e-os-dois-filhosFoi o que Nosso Senhor Jesus Cristo fez. Assim como deu aos Apóstolos o poder de batizar, celebrar o Santo Sacrifício da Missa, o poder de pregar, deu-lhes também a eles e aos seus sucessores o poder de perdoar pecados. Por isso é que Jesus disse: “Assim como o Pai me enviou, também eu vos envio a vós. Tendo dito estas palavras, soprou sobre eles e disse-lhes: Recebei o Espírito Santo. Àqueles a quem perdoardes os pecados, ser-lhes-ão perdoados; àqueles a quem os retiverdes, ser-lhes-ão retidos” (S. João XX, 21-23).

Todos reconhecem que os reis da terra têm o poder de mandar administrar a justiça em seu nome, quer dizer, de confiar a magistrados o direito de absolver e de condenar os culpados. Por que recusar a Deus o mesmo direito? O Rei do Céu terá menos poderes do que suas criaturas? Evidentemente Deus pode confiar a homens o poder de perdoar os pecados em seu nome. Ora, é um artigo de fé que Jesus Cristo comunicou este poder aos padres quando lhes disse: os pecados serão perdoados a quem vós os perdoardes. O Salvador não disse: os pecados serão perdoados a quem anunciardes que lhes são perdoados; não; pois, absolvendo, o padre perdoa verdadeiramente os pecados na qualidade de substituto de Jesus Cristo, em virtude do poder que lhe foi dado por Nosso Senhor, que é o principal ministro do Sacramento.

Caríssimos, é mesmo impossível que haja um outro meio de perdão. Com efeito, se houvesse na religião outro meio além da confissão, para se restabelecer na graça de Deus; se bastasse, por ex., humilhar-se em sua presença, jejuar, orar, dar esmolas, declarar-lhe sua falta no íntimo do coração, que aconteceria? Que ninguém mais se confessava. Pois quem seria bastante simples para ir solicitar, com um tom suplicante, aos pés de um homem, uma graça que poderia facilmente obter sem ele, e contra a sua vontade? Então que seria da confissão estabelecida pelo próprio Nosso Senhor Jesus Cristo (Cf. S. João, XX, 21 a 23).  – Cairia em desuso e ficaria sem efeito no mundo. Que seria do magnífico poder que Ele deu aos seus ministros de perdoar ou reter os pecados? Não é evidente que este poder tão admirável e divino tornar-se-ia um poder ridículo e completamente irrisório visto que nunca teriam de exercê-lo? Assim, ou há obrigação para todos os pecadores confessarem seus pecados ao padre, ou então Jesus Cristo zombou de seus ministros dizendo-lhes: os pecados serão perdoados a quem os perdoardes, etc. E teria igualmente zombado deles quando lhes disse: dar-vos-ei as chaves do reino dos céus (S. Mateus, XVI, 19). De que lhes serviria ter as chaves do céu se nele se pudesse entrar sem que fosse aberto pelo seu ministério?

Os grandes adversários do Sacramento da Penitência são os protestantes. Estes, seguindo Calvino, e também os ímpios modernos ousam dizer que a confissão era desconhecida nos primeiros séculos do Cristianismo. Sustentam que a confissão data do 4º Concílio de Latrão em 1215, época em que o Papa Inocêncio III tê-la-ia inventado. Caríssimos, isto constitui um grave erro que denota a mais grosseira ignorância, ou, pior ainda,  uma demonstração da mais insolente má fé. Vamos ouvir Santo Afonso: este grande Doutor da Santa Igreja diz que o Papa Inocêncio III, não fez senão determinar o tempo em que a confissão deve ser feita pelos fiéis, isto é, ao menos uma vez por ano, como já haviam prescrevido os papas Inocêncio I (+ 417), Leão I (+ 474), Zeferino (+218). Além disso, sabemos que a Tradição e a História da Igreja se apóiam no Santo Evangelho de S. João XX, 21 a 23, para provar que a confissão foi instituída por Jesus Cristo. Suponhamos os Sacramento da Penitência como a Igreja o administra, realmente estabelecido por Nosso Senhor Jesus Cristo: Eis aqui os fatos que se devem produzir e dos quais a História Eclesiástica dá, sem dúvida, testemunho; os Padres da Igreja falarão da Confissão em seus escritos, e dirão que ela vem de Jesus Cristo; hão de afirmar que é necessária à salvação, que deve ser feita com sinceridade e com contrição; que só os sacerdotes podem absolver, etc. Os Concílios traçarão as regras aos confessores, para remediar os abusos que nascerão em diversas épocas da história. Conservar-se-ão muitos nomes de confessores que prestaram o socorro de seu ministério a personagens históricos. Talvez se encontre nas mais antigas igrejas o lugar dos tribunais da penitência; enfim, as seitas separadas da Igreja de Jesus Cristo, desde os primeiros séculos, terão provavelmente conservado alguns vestígios dessa salutar instituição.

Consultando as antiguidades eclesiásticas obteremos precisamente estes resultados que acabamos de enumerar. Até historiadores protestantes, devendo ser sinceros diante da evidência, declararam que a Confissão entre os Católicos já era exercida nos quatro primeiros séculos. Por exemplo, o historiador protestante Gibbon diz: “o homem instruído não pode resistir ao peso da evidência histórica que estabeleceu a Confissão como um dos principais pontos da doutrina católica em todo o período dos quatro primeiros séculos”.

Entre outras seitas heréticas encontramos também quem dá testemunho histórico da existência da Confissão já nos primeiros séculos da Igreja Católica. Por exemplo: os heutiquianos, os jacobitas, os armênios, os nestorianos, em um palavra, as Seitas do Oriente, separadas da Igreja Romana desde o 4º e o 5º séculos, praticavam a confissão como necessária. Muitos sábios autores atestam que se vêem nas catacumbas de Roma os confessionários próximos aos altares, cujas pinturas, semelhantes às de Pompéia, remontam aos primeiros séculos do Cristianismo.

Em Teologia usam-se os argumentos tirados das Sagradas Escrituras e depois os argumentos da Tradição. Frequentemente, usam-se também os argumentos da reta razão humana.  Assim, em se tratando da origem divina do Sacramento da Penitência, vamos, com a graça de Deus, apresentar também os argumentos da reta razão, ou também chamados argumentos do bom senso.

Pois bem! O mais simples bom senso nos mostra que a confissão não pode ter senão uma origem divina. Suponhamos que seja uma invenção humana; certamente, uma tal invenção é bastante notável para que se conhecesse o seu autor. Sabe-se o primeiro cultor da ciência: foi Thales. Arquimedes inventou as espelhos-ustórios; Nilton descobriu a lei da gravidade; Gutenberg descobriu a arte de imprimir. Pedro Álvares Cabral descobriu o nosso querido Brasil; Colombo descobriu a América etc. etc., … quem é, pois,o inventor da confissão? Foi, acaso, um grande santo? Mas  os santos Padres desde os mais próximos dos Apóstolos já supõem a confissão como um fato existente e conhecido. Logo, não foram eles que inventaram a confissão. Se os padres, os bispos e os papas fossem isentos da confissão, aquela afirmação teria alguma aparência de verdade; eles, porém, estão sujeitos a ela como os simples fiéis. Onde, pois, a razão que os induziria a impor-se uma obrigação tão humilhante? Por que força secreta teriam eles podido constranger os reis a irem ajoelhar-se ante um pobre padre para lhe fazer acusação de suas fraquezas, a submeter-se sem réplica às suas decisões, e receber dele, com respeito, uma penitência proporcionada às suas faltas? Se os padres tivessem inventado a confissão, teriam sido levados por um motivo qualquer. Qual seria este motivo? O interesse? Evidentemente que não; pois o confessor não recebe remuneração alguma pela confissão. O prazer? Mas sabeis o que é ser confessor?   – Ser confessor é ser escravo de todos – depender dos outros desde a manhã até à noite  –  a qualquer hora do dia e da noite. O confessor tem que sondar as chagas mais repugnantes, sem tremer, ouvir os crimes por maiores que sejam, sem arrepiar-se.

É sobretudo à cabeceira dos doentes e moribundos que os padres devem estar presentes. O padre deve administrar os sacramentos aos pestíferos com risco de contaminar-se do mal. Sua vida é uma vida de sacrifícios, de prisão e de fadiga, sobretudo no confessionário e junto aos leitos dos doentes.Quem teria inventado a confissão? Talvez os fiéis? Mas esta segunda suposição é tão absurda como a primeira. A confissão é um constrangimento, um ato de humildade. Ora, o homem, em lugar de submeter-se de boa vontade a uma coisa que o constrange e humilha, é ao contrário levado a repelir tudo que o contraria. Quando alguns do Anglicanismo quiseram introduzir a confissão na Inglaterra; que resultou? As revoltas populares, os gritos sediciosos levantaram-se ao mesmo tempo em todos os pontos do país. Uma tal imposição por parte de fiéis só merece a irrisão pública. Só Deus tem autoridade para impor este ato de humilhação como condição para se receber o perdão dos pecados. Portanto, o homem não podia inventar a confissão; ela é obra de Deus. Só Ele, o soberano Mestre, a poderia impor ao homem; e o homem, qualquer que seja, rei ou súdito, rico ou pobre, é obrigado a submeter-se a essa lei divina, sob a terrível pena de condenação eterna para os que, depois do Batismo, tenham cometido pecado mortal.

Quero terminar com a advertência de S. Pio V: “Sejam os confessores como eles devem ser [pai, médico, juiz, mediador, diretor das almas], ver-se-á para logo inteira reforma de todos os cristãos”. Amém!

15 setembro, 2018

Coluna do Padre Élcio: “Amar o próximo como a nós mesmos”.

Evangelho do 17º Domingo depois de Pentecostes –  S. Mateus XXII, 34-46

Sabemos que os mandamentos de Deus são dez. E todos os problemas das sociedades estariam resolvidos se as leis de Deus fossem cumpridas. Os três primeiros, que se referem a Deus, encerram-se nesta fórmula: Amar a Deus sobre todas as coisas. Isto significa a vontade de amar a Deus, não em grau infinito, mas sobre todas as coisas, de preferência a tudo o que Lhe seja contrário. Os outros sete mandamentos se reduzem ao amor do próximo, mas a um amor sincero e eficaz.

Nosso Senhor Jesus Cristo diz q ue o amor do próximo é semelhante ao amor de Deus, no sentido que a caridade é uma virtude única que tem dois aspectos: Deus e o próximo por amor de Deus. Devemos notar que a Lei  manda amar o próximo por amor de Deus.

Na explicação do evangelho do 12º domingo depois de Pentecostes já tivemos ensejo de fazer algumas reflexões sobre o amor de Deus e do próximo (S. Luc. X, 23-34). Vamos nos deter mais um pouco sobre o amor do próximo considerando este detalhe: COMO A NÓS MESMOS.

Nosso amor tem três objetos: Deus, o próximo e nós mesmos. Jesus Cristo manda-nos amar a Deus e ao próximo. É óbvio que Jesus supõe que naturalmente e sem sermos para isto compelidos, nos portemos de tal modo que cumpramos este dever para conosco. Com efeito, o amor de si é essencial ao homem; ele faz parte de sua natureza e é inseparável de seu ser. A Providência divina colocou em nós este sentimento precioso para nos fazer tender à felicidade a que Deus nos destinou. Não podemos nem deturpar nem destruir este sentimento.

Santo Agostinho observa que, embora Jesus não fale da obrigação do amor a nós mesmos, Ele, no entanto, não o omite; supõe-no, porque ordena que amemos o próximo como a nós mesmos. Mas este sentimento do amor a nós mesmos tem necessidade de ser dirigido, e, às vezes, até reprimido, raramente tem necessidade de ser estimulado. Temos a tendência de nos amarmos além dos limites em detrimento do amor que devemos aos outros. É justamente este amor fora dos limites que S. Paulo condena: “A caridade não busca [somente] os seus próprios interesses” (1 Cor. XIII, 5). É este amor excessivo de si que a linguagem humana estigmatiza com o nome de EGOÍSMO.  É evidente, porém, que Jesus prescreve uma igualdade não de sentimentos, mas de deveres. Pois, é-nos impossível, e por conseguinte não nos é mandado que sintamos pela totalidade de nossos irmãos, o que nós sentimos por nos mesmos. Amar o próximo como a nós mesmos, é tratá-lo como nós desejamos que os outros nos tratem; fazer ao próximo o que desejamos
que nos façam, e não fazer o que não desejamos que nos façam. Por exemplo: desejamos ser felizes, e assim devemos desejar a felicidade dos outros. É este o conselho que o velho Tobias deu ao seu filho Tobias: “Acautela-te, não faças nunca a outro o que não quererias que outro te fizesse”. O mesmo ensinou o Divino Mestre: “Assim, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-o também vós a eles; esta é a lei e os profetas” (S. Mateus VII, 12).

Devemos observar, outrossim, que esta igualdade de dever não é de tal modo absoluta que não sofra modificação. Não há circunstâncias em que o amor a nós mesmos deva ser exclusivo; mas pode haver casos em que ele seja preponderante. Na impossibilidade de procurar o bem próprio e o do próximo, deve o amor de si prevalecer. Em se tratando de bens temporais, podemos dar a nós mesmos a preferência; e, em se tratando de bens espirituais, temos o dever. Por mais sagrado que seja o dever  de fazer bem a nossos irmãos, o de nossa salvação eterna é-lhe superior, porque é para nos salvar que devemos fazer bem ao próximo. A mesma lei que nos ordena trabalhar em sua salvação, nos proíbe trabalhar em prejuízo da nossa.

Quando se trata de bens temporais, em caso de conflito dos nossos interesses com os de outrem, se, de ordinário, podemos preferir os nossos, há, no entanto casos em que por dever de estado e em virtude dum contrato tácito ou formal entre nós e a sociedade, nós somos obrigados a nos sacrificarmos em prol dos nossos irmãos e a procurarmos seu bem temporal às expensas do nosso. Estes casos não são raros, por exemplo, na vida do militar, do médico, do magistrado e do padre. E esta obrigação é bem mais grave ainda quando se trata de lhes procurar a salvação eterna, como é o caso do padre. Quantas vezes, nós padres nos expomos a contrair uma doença contagiosa na administração dos últimos sacramentos?!

É mister também no exercício da caridade fraterna distinguir duas espécies de deveres, uns interiores, outros exteriores. Podem haver motivos legítimos que dispensem destes últimos, mas jamais haverá razão que impeça de cumprir os primeiros. Exemplifiquemos: você é pobre e, por conseguinte, não podes dar esmola. Você está enfermo, por isso mesmo estás dispensado de prestar serviços mais pesados. Mas os deveres interiores são sempre praticáveis. Se alguém não pode fazer em a seus irmãos, pode e deve ao menos desejar-lhes o bem. Se alguém não pode prestar ajuda material aos seus irmãos, pode, ao menos, ajudá-los com suas orações.

Amar o próximo efetivamente e em verdade e não só de boca, mas na medida de nossas possibilidades e enquanto o permitem nossos recursos.

“Meus filhinhos não amemos de palavra e com a língua, mas por obra e em verdade”  (1 João III, 18). Aqui está o lado positivo da máxima do Divino Mestre: “Assim, tudo o que vós quereis que os homens vos façam, fazei-o também a eles”. Dar de comer a quem tem fome, de beber a quem tem sede, visitar e consolar os doentes e aflitos, dar vestes boas aos maltrapilhos, cobertas aos que estão passando frio etc.

Vejamos agora o lado negativo: “Não fazer a outrem o que não gostaríamos que os outros nos fizessem”. Daí, ficam aqui proibidas todas as maldades: a inveja, a ira, a discórdia, a dissensão,  as querelas, as inimizades etc. São enfim as obras da carne enumeradas por S. Paulo  na sua Epístola aos Gálatas V, 19-21. E o Apóstolo após  a enumeração destas obras que vêm da carne, termina com esta terrível advertência: “Os que as praticam, não possuirão o reino de Deus”.

Meditemos, outrossim, nestas outras palavras do Apóstolo dos gentios: “Rogo-vos, pois, eu, o prisioneiro no Senhor, que andeis de um modo digno da vocação a que fostes chamados, com toda a humildade e mansidão, com paciência, suportando-vos uns aos outros por caridade, solícitos em conservar a unidade do espírito pelo vínculo da paz. Há
um só corpo e um só Espírito, como também vós fostes chamados a uma só esperança pela vossa vocação. Há um só Senhor, uma só fé, um só batismo. Há um só Deus e Pai de todos, que está acima de todos, e atua por todas as coisas e reside em todos nós” (Efésios IV, 1-6). Somos todos irmãos, por natureza, de Adão e por adoção, de Deus. Assim, como os primeiros cristãos, todos deveriam viver realmente como irmãos, como se em todos batesse um só coração e os animasse uma só alma.

Nosso divino Salvador deseja que todos nós cumpramos o seu mandamento novo: “Amai-vos uns aos outros como Eu vos amei”. Amém!

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8 setembro, 2018

Coluna do Padre Élcio: “Quem se humilha será exaltado”.

Evangelho do 16º Domingo depois de Pentecostes – S. Lucas, XIV, 1-11.

Por Padre Élcio Murucci, 8 de setembro de 2018 – FratresInUnum.com

Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

O Santo Evangelho de hoje oferece-nos dois pontos de meditação: a cura do homem hidrópico em dia de sábado; e a parábola para ensinar a humildade. Consideremos este último. Para estarmos enraizados na caridade, é indispensável que o estejamos igualmente na humildade, pois só quem é humilde é capaz de amar verdadeiramente a Deus e ao próximo. Nosso Senhor Jesus Cristo dá-nos uma lição prática de humildade, condenando a caça aos primeiros lugares.

sagrado coração de jesusNão se sabia então o que era a humildade. Jesus mostra aos fariseus as humilhações do orgulho e as vantagens da humildade. No céu, como na terra, os humildes terão sempre o primeiro lugar. Os verdadeiros humildes não se enganam sobre o sentido desta parábola. Chamados ao primeiro lugar no banquete que Deus dá aos seus futuros eleitos, no grande vestíbulo da Igreja, eles vão, de si mesmos, colocar-se no último, onde se acham mais a vontade para cuidar da sua salvação eterna. À hora da morte, virá então dizer-lhe o Pai de família – “Amigo, assenta-te mais para cima”.

Ouçamos o comentário de São Bernardo: “Coloquemo-nos no último lugar, pois nenhum prejuízo nos pode vir pelo fato de nos humilharmos e nos julgarmos inferiores ao que na realidade somos. Todavia é um dano terrível e um mal enorme querermos nos elevar nem que seja uma só polegada acima do que somos, e preferir-nos a uma só pessoa. Assim como para passar por uma porta muito baixa não nos prejudica inclinarmo-nos demasiadamente, mas prejudica-nos muitíssimo levantarmo-nos um só dedo acima da trave; de igual modo não há motivo para temermos humilhar-nos demasiado, mas devemos temer e aborrecer o mais pequeno movimento de presunção”.

A humildade reside propriamente no coração, isto é, na vontade. Jesus exorta-nos a aprender d’Ele que é humilde de coração. Santa Teresa d’Ávila diz  que a humildade é a verdade. Sem dúvida, porque ela nos faz ver o nosso nada e a nossa profunda abjeção, ou seja, o que realmente corresponde à realidade. O conhecimento próprio é, na verdade, uma preparação para a humildade propriamente dita. Para haver a VIRTUDE DA HUMILDADE, é necessário, além da verdade (adequação de uma coisa com a razão) que haja justiça comutativa, que manda dar, ou atribuir  a cada um o que realmente lhe é devido. Portanto, além da razão humana é mister entrar a fé. Para que alguém seja humilde de coração é preciso que aceite como devidas a si, que é um nada pecador, as humilhações. Assim desprezamos a nós mesmos com toda sinceridade de nosso coração. Somos dignos de desprezo e devemos amar a nossa abjeção para que sobressaia mais a grandeza de Deus. Ademais, devemos desejar que todo mundo entre nos mesmos sentimentos a nosso respeito, e nos julgue como nos julgamos a nós mesmos. E a humildade em sumo grau só existe quando nos alegramos de que todos os homens se comportam para conosco, segundo o desprezo que lhes inspiramos. Quem chega a este grau de humildade, não se contenta de sofrer com paciência os opróbrios, mas recebe-os com alegria, e até os busca com o ardor que os mundanos empregam em buscar as honras e o renome. Os santos (porque os que possuem este grau de humildade são santos) amam as humilhações evidentemente não porque são em si amáveis, mas porque os tornam semelhantes ao Filho de Deus aniquilado por amor de nós. O outro motivo: é porque as humilhações nos dão o meio de testemunharmos a Jesus o nosso amor e de merecer o seu amor.

Deus antes da Encarnação não podia se humilhar: porque a verdade é que Ele é o Sumo Bem, é a própria Perfeição, é a própria Santidade. Daí, Lhe é devida toda honra e glória. Mas, fazendo-se homem como que se aniquilou, e além disso tomou a forma de servo, e fez-se obediente até à morte e morte de cruz. E cada um dos mistérios da vida de Jesus é uma prova de seu amor à abjeção: nascimento, circuncisão, fuga para o Egito, trinta anos passados na obscuridade. E na sua Paixão mostrou que o Seu desejo de humilhações não tinha limites.

Caríssimos, vejamos a excelência da humildade: considerada em si mesma e considerada em seus frutos.

EM SI MESMA A HUMILDADE É EXCELENTE: Basta explicarmos um pouco mais as noções sobre a humildade que acima demos. A humildade é a verdade, mas não já a verdade puramente especulativa, mas a que passa da inteligência para o coração. A inteligência mostra o que realmente somos e o coração dirige e santifica os afetos do coração. E assim, se reinar em mim a verdade, nunca entrará em mim a vaidade. Depois, a humildade é a justiça, pela qual se deve dar a cada um o que lhe pertence, “cuique suum”. A pessoa humilde compreende este oráculo do Senhor: “Isto diz o Senhor: Não se glorie o sábio no seu saber, nem se glorie o forte na sua força, nem se glorie o rico nas suas riquezas; porém, aquele se gloria glorie-se em me conhecer e em saber que eu sou o Senhor” (Jeremias. IX, 23 e 24). Se a pessoa humilde obteve algum sucesso, e praticou algum bem, atribui-o Àquele que dá a vontade e o poder. Quanto a ela, só fez o que devia fazer, e ainda se examina se o fez bem. Sabe, também, o que lhe é devido por tantas faltas que cometeu, e que comete ainda todos os dias; sabe de quantos crimes seria capaz, se a mão do Senhor a não amparasse.

A humildade é, outrossim, toda a religião. Pois é por ela que a pessoa humilde adora e ora, esperando tudo só de Deus. É a humildade que obedece, sujeitando a vontade. A castidade é a humildade da carne que ela sujeita ao espírito; a mortificação exterior é a humildade dos sentidos; a penitência é a humildade de todas as paixões, que ela sacrifica. A fé é a humildade da razão, que renuncia aos seus próprios pensamentos e se inclina ante os pensamentos de Deus.

A EXCELÊNCIA DA HUMILDADE CONSIDERADA EM SEUS FRUTOS: a graça, a paz, a glória presente e a eterna.

A GRAÇA: Deus dá a sua graça aos humildes. A oração do humilde penetra as nuvens e chega até o trono do Altíssimo. Assim como o ímã atrai o ferro, assim a humildade atrai a graça.

A PAZ: Primeiramente, a paz com Deus. Se o humilde pecou, consegue logo o perdão e torna Deus propício a ele, já que a humildade tem este privilégio de tudo reparar. Diz Davi no Salmo L, 19: “Deus nunca despreza um coração contrito e humilhado”. Temos um exemplo muito claro disto no Livro  I Reis XXI, 29: “O Senhor dirigiu sua palavra a Elias tesbita, dizendo: Não viste Acab humilhado diante de mim? Porque ele, pois, se humilhou, em atenção a mim, não farei vir aquele mal enquanto ele viver”. A paz com o próximo: Pois o humilde procura sempre o último lugar, esquece-se de si para só pensar nos outros.

Sendo filha da caridade, a humildade suaviza e une os corações. A paz consigo mesmo: É o que Jesus disse: “Aprendei de mim, que sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para as vossas almas”. Segundo Santo Agostinho, a paz é a tranquilidade da ordem; ora, nada há mais em ordem do que uma alma humilde. Há, pois, ordem quando cada coisa está em seu devido lugar. Donde, o humilde não conhece as perturbações provocadas pela soberba.

A GLÓRIA PRESENTE E A ETERNA: “Quem se humilha será exaltado”, garantiu o Divino Mestre. Sim, o homem mais verdadeiramente grande é aquele que cumpre melhor o seu fim, que é glorificar a Deus. Poderá haver maior glória do que ser semelhante a Nosso Senhor Jesus Cristo?! E não há melhor meio de ser semelhante a Ele, do que sendo humilde, e como Jesus, amar as humilhações. Temos tanta inclinação para a grandeza, e aqui está, caríssimos, a nossa verdadeira grandeza: imitarmos a Jesus. JESUS, MANSO E HUMILDE DE CORAÇÃO! FAZEI O MEU CORAÇÃO SEMELHANTE AO VOSSO”. Amém!

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1 setembro, 2018

Coluna do Padre Élcio: “É mais importante ressuscitar para viver sempre”.

Evangelho do 15º Domingo depois de Pentecostes – S. Mateus VI, 24-35.

Por Padre Élcio Murucci, 1º de setembro de 2018 – FratresInUnum.com

Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

O Evangelho deste domingo conta-nos a ressurreição de um rapaz, filho único de uma viúva que morava numa aldeia chamada Naim.

jovem_NaimHoje os padres que seguem a Liturgia Tradicional lêem no Breviário um trecho do sermão de Santo Agostinho sobre este Evangelho. Vamos dar um  resumo deste sermão.

Os Santos Evangelistas contam-nos apenas três ressurreições operadas por Jesus: a de uma menina, filha de Jairo, chefe da Sinagoga; a do jovem filho único da viúva de Naim; e a de seu amigo Lázaro de Betânia, irmão de Marta e Maria Madalena.

O santo Doutor comenta as três ressurreições operadas por Jesus como símbolos das milhares ressurreições espirituais. Santo Agostinho diz: “Amplius est ressuscitare semper victurum, quam suscitare iterum moriturum”. É mais importante ressuscitar para viver sempre, do que ressuscitar para morrer de novo.

Vejamos que lição pretendeu dar-nos Jesus nos mortos que ressuscitou.

Ressuscitou a menina logo após ela ter morrido. Ainda estava no seu leito em casa: não havia saído o enterro. Jesus operou o milagre e ali mesmo entregou-a viva a seus pais. Ressuscitou o jovem filho da viúva de Naim. O enterro já havia saído da casa. Já estava fora, ás portas da cidade. Ressuscitou Lázaro, cujo cadáver não só já saíra de casa, mas estava encerrado no sepulcro há quatro dias, e, portanto, cheirava mal.

Santo Agostinho explica as três sortes de pecadores: a defunta filha do chefe da Sinagoga é símbolo daqueles que têm o pecado no íntimo do coração, mas não o puseram ainda em obras. São os que consentem plenamente nos maus desejos graves, como no caso de adultério, sem contudo realizá-los. Estão mortos no interior do coração. No caso, há um morto, mas não saiu para fora. Às vezes, por efeito da palavra divina, como se Jesus em pessoa lhe dissesse: “Levanta-te” este pecador arrepende-se de seu consentimento ao mal e volta a respirar o ar de salvação e santidade. Este morto ressuscita dentro de casa; este coração revive na intimidade de sua consciência. Esta ressurreição da alma defunta, operada em segredo é simbolizada pela que teve lugar no recinto doméstico.

Outros passam do consentimento à obra, por assim dizer, o morto saiu para fora. Sai à luz o que já estava na sombra. Também a este que passou a vias de fato, pondo o mal em obras também é ressuscitado pela voz de Nosso Senhor Jesus Cristo e volta à vida espiritual o pecador que se deixou tocar e comover pela palavra da verdade. Já ia se avançando para o abismo e para a morte eterna. Mas Jesus pára-o, toca-o, restitui-lhe a vida da alma e entrega-o à sua Mãe, a Igreja. Destes pecadores que não só consentem no pecado no interior da consciência, mas o realizam com obras e logo se arrependem, é símbolo justamente a ressurreição do jovem filho da viúva de Naim.

Finalmente, há aqueles que de mal em mal, chegam a enredar-se nos vícios, nos maus costumes, a tal ponto que não vêem por força do mau hábito, a malícia das suas ações e até se gabam de suas más obras. Assim, diz Santo Agostinho, os habitantes de Sodoma. Tão grande era ali o império do nefando costume, que a perversão se lhes parecia honestidade e mais digno de repreensão o censor do que o malfeitor. “Viestes, dizem os habitantes de Sodoma a Lot, para morar aqui, não para nos dar leis”.(que diria Santo Agostinho hoje quando se fazem leis para aprovar e defender os sodomitas?!). Eles, oprimidos pelos costumes malignos estão como que sepultados. Não só sepultados, mas como Lázaro no sepulcro, já cheiram mal. A pedra que cerrava o sepulcro de Lázaro significava a tirania do hábito, que subjuga a alma e não a deixa nem levantar-se nem respirar.

Diz-se de Lázaro que ele era um defunto de quatro dias (quatriduanus est). E, em verdade, a este mau hábito, que chamamos vício, chega-se como que por quatro etapas: primeira: uma suave chamada do prazer à porta do coração; segunda: o consentimento; terceira: a obra; quarta: o mau hábito. Há aqueles que repelem as coisas ilícitas logo que saem de seus pensamentos, para nem sequer sentir o prazer. Há aqueles que, sentindo o prazer, não consentem nele; ainda isto não é a morte, senão uma espécie de início de morte; porém, se ao deleite se junta o consentimento, vem a obra; e esta se torna costume. Neste caso, a gravidade é extrema. Neste sentido podemos dizer: esta alma está morta há tempo e cheira mal. Chega, então, Nosso Senhor, para o qual tudo é fácil; mas, como para dar a entender quão difícil é aqui a ressurreição, Ele, na ressurreição de Lázaro, suspira fortemente, e fala bem alto: “Lázaro,sai para fora deste sepulcro!” Sem embargo, à esta voz possante do Senhor, rompem-se as cadeias da tirania da sepultura, treme o poder da morte, e Lázaro foi devolvido à vida.

Irmãos, observai as circunstâncias desta ressurreição: saiu vivo do sepulcro, mas não podia andar. Diz, então, Nosso Senhor aos discípulos: “Desatai-o e deixai-o ir”. Jesus o ressuscitou da morte; os discípulos soltaram as ligaduras que impediam a Lázaro de andar. Reconhecei que a majestade divina se reserva certa coisa nesta ressurreição. A um consuetudinário (=pessoa dominada pelo vício) se lhe dizem duramente as palavras da verdade; porém, quantos não as ouvem? Depois das reprimendas, fica o pecador sozinho com os seus pensamentos e estes falam-lhe da má vida que leva e o péssimo hábito que o oprime. Enojado de si mesmo, resolve mudar de vida. Eis a ressurreição: ressuscitam, pois, quando começam a ser-lhes odiosos os procederes de antes; embora, porém, voltados à vida, não podem andar; as ligaduras de suas repetidas culpas impendem-nos. É mister, por isso, que ao ressuscitado se lhe desate e deixe caminhar; função esta encomendada pelo Senhor aos discípulos quando lhes disse: “O que desatardes na terra, será desatado no céu”.

E Santo Agostinho termina o sermão mostrando a necessidade da pronta ressurreição espiritual: “Estas reflexões, oh! caríssimos, devem persuadir aos vivos a continuar vivendo, e aos que não vivem, a recobrar a vida. Se o pecado concebido no coração não saiu ainda para fora, haja arrependimento, corrija-se o pensamento, ressuscite o morto na intimidade de sua consciência. Se executou a ideia, tampouco desespere; se o morto não ressuscitou dentro, ressuscite fora. Arrependa-se de sua ação, reviva em seguida, não baixe ao profundo da sepultura, não caia em cima a lousa do mau hábito. E se, porventura, me está ouvindo quem jaz oprimido pela fria e dura pedra, quem já traz sobre si o peso do costume e cheira mal, como morto de quatro dias, tampouco este deve perder a esperança; mui baixo está sepultado, porém, Cristo está em cima. Ele pode desfazer com a força de sua voz as lousas do sepulcro; Ele pode devolver-lhe a vida da alma; Ele os deixará nas mãos de seus discípulos para que o desatem. Façam também penitência estes mortos. Quando Lázaro ressuscitou depois de quatro dias, nada conservou da infecção primeira. Assim, pois, os vivos continuem vivendo, e os mortos de qualquer destas mortes, ressuscitem logo. Amém!

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25 agosto, 2018

Coluna do Padre Élcio: “A Providência Divina”.

Evangelho do 14º Domingo depois de Pentecostes – S. Mateus VI, 24-35..

Por Padre Élcio Murucci, 25 de agosto de 2018 – FratresInUnum.com

Antes de tudo, Nosso Senhor Jesus Cristo enuncia um princípio geral: Ninguém pode servir a dois senhores ao mesmo tempo. Evidentemente trata-se de dois senhores de sentimentos e vontades opostos, incompatíveis entre si. Por isso, seguir um, significa forçosamente rejeitar o outro; odiar um é amar o outro. E quais sejam esses dois senhores, Jesus esclarece-o logo: “Não podeis servir a Deus e a Riqueza”. No texto original está a palavra Mammona que os comentadores traduzem pela expressão: Dinheiro ou Riquezas. Mammon era, com efeito, o deus das riquezas, entre os sírios. Mammon está, pois, aqui como um deus falso oposto ao Deus verdadeiro. Na verdade, o dinheiro é o deus dos avarentos. São Paulo dizia que o estômago é o deus dos inimigos da cruz de Cristo, os gulosos: “Quorum deus, venter est”. Para os libidinosos o seu deus é o prazer carnal; para os soberbos é o seu “eu”. Ao deus de qualquer vício capital,  os mundanos sacrificam tudo: trabalhos, sofrimentos, pesares, e… até a vida eterna.

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“Olhai e vede os lírios dos campos”

O Divino Salvador condena o amor das riquezas, esse amor desordenado que acorrenta o coração do homem, fazendo-o esquecer os interesses da sua alma. Mas não condena o justo cuidado que deve ter todo homem de prover com o trabalho a sua própria subsistência, e a daqueles que lhe foram confiados. O Divino Mestre não disse: – não podeis servir a Deus, e ser ricos; mas não podeis servir (ao mesmo tempo) a Deus e ao Dinheiro. Há, com efeito, muitos santos que , sendo ricos, serviram-se santamente dos bens da fortuna. Foram donos de seus bens, e não escravos deles.

“Não vos inquieteis dizendo: Que havemos de comer, ou que havemos de beber, ou com que havemos de nos vestir? Porque os pagãos é que se preocupam com todas estas coisas, mas vosso Pai celeste sabe que necessitais de tudo isto”. Quanto maior, quanto mais urgente é a necessidade, tanto mais sólida deve ser a nossa confiança em Deus, porque Ele nos prometeu o necessário, não o supérfluo.

E ninguém é excluído dos cuidados paternais de Deus Nosso Senhor. É óbvio, porém, que tem atenções especiais com aqueles que se entregam a Ele. A sua Providência vigia sobre nós; conhece as nossas necessidades, e pensa em socorrer-nos primeiro que nós pensemos em pedir. É o que constatamos na multiplicação dos pães: Jesus viu aquela grande multidão e teve compaixão de todas aquelas pessoas (Cf. S. Marc. VI, 34 e 42). E o seu poder é igual à sua bondade: os poucos pães e peixes se multiplicam nas suas mãos e todos são saciados.

E, caríssimos, consideremos que, se tal é a sua solicitude pelos corpos, que não fará pelas almas? Daí devo dirigir-me sempre pela fé, pois ela ensina-me que nada detém Deus na execução dos seus desígnios. Ensina-me, outrossim, a fé que a sabedoria de Deus é infinita e dispõe todas as coisas com admirável fortaleza e suavidade: “(A sabedoria de Deus) atinge, pois, fortemente desde uma extremidade à outra; e governa tudo convenientemente” (Sab. VIII, 1). Ela sabe tirar o bem do mal, e converter os obstáculos em meios. José do Egito nunca esteve tão perto do trono como quando o prenderam!
Deus considera os meus sofrimentos e as minhas necessidades com os olhos de um pai: “Vosso Pai sabe o que vos é necessário, antes que vós o peçais” (S. Mat. VI, 8). E o próprio Deus na Santa Escritura nos afirma que não há mãe que tenha para seu filho os carinhos que Ele tem para conosco: “Porventura pode uma mulher esquecer-se do seu menino de peito, de sorte que não tenha compaixão do filho de suas entranhas? Porém, ainda que ela se esquecesse dele, eu não me esquecerei de ti” (Isaías, XLIX, 15).

Depois de apresentar várias razões para confiarmos na Providência Divina, Nosso Senhor Jesus Cristo tira a conclusão: “Procurai, pois, em primeiro lugar, o Reino de Deus e a sua justiça; e todas estas coisas se vos darão por acréscimo”.  Quer dizer, antes de tudo, acima de tudo, procurai o reino de Deus, empregai toda a atenção, solicitude e vigilância de que sois capazes na obtenção dos bens celestes, da felicidade eterna. E que significa  – e a sua justiça? Quer dizer os meios que conduzem à salvação, à vida eterna, a saber, a graça de Deus, as virtudes cristãs, as boas obras, numa palavra, tudo o que nos torne justos e santos diante de Deus, seus verdadeiros servos e seus filhos muito amados. E que significam as palavras: e o resto vos será dado por acréscimo? Quer dizer o seguinte: se vós fordes fiéis em bem servir a  Deus, em Lhe agradar em tudo, Ele, como bom Pai, tomará a seu cargo dar-vos tudo o que, na terra, é necessário à vida do corpo. “Fui moço, dizia Davi, e agora sou velho, e nunca vi o justo abandonado nem os seus filhos mendigando o pão”.

Dizendo que os bens temporais nos serão dados por acréscimo, Jesus nos faz entender que eles não fazem parte da recompensa que merecemos pelas nossas boas obras, cuja medida nos será dada no céu. Esses bens constituem, apenas, um dom liberalmente acrescentado à medida cheia e completa  que havemos de ter na Pátria celestial.

Antes de terminar quero já responder a uma possível pergunta: Sendo muitos os vícios capitais, por que Nosso Senhor Jesus Cristo fala só da avareza, ao menos aqui, nesta oportunidade? Por vários motivos: Primeiramente, o próprio Divino Espírito Santo diz na Bíblia Sagrada: “A raiz de todos os males é o amor ao dinheiro, por causa do qual alguns se desencaminharam da fé e se enredaram em muitas aflições” (1Tim. VI, 10). E ainda: “Não há coisa mais iníqua do que aquele que ama o dinheiro, porque venderia até a sua mesma alma, visto que se despojou em vida das próprias entranhas” (Eclesiástico X, 10). A outra razão é que: enquanto os outros vícios soem diminuir com a idade, a avareza cresce. E ainda podemos dizer que este vício capital, mais do que os demais, engana com pretextos: a necessidade de se  prevenir para o futuro, garantir o sustento dos filhos também para o futuro; é preciso trabalhar etc. A avareza leva muitos a perder a fé, e leva à impenitência final. Vede o exemplo de Judas Iscariotes. Os demais vícios muitas vezes aparecem odiosos e humilham. A avareza alimenta e facilita os demais vícios. Por isso vemos que é por aí que o demônio começa. É o caminho mais fácil que o inimigo de nossa alma encontra para perdê-la.

Infelizmente, não vemos católicos, alguns que se dizem praticantes e comungam frequentemente, e, no entanto, cometem injustiças, têm ódio daqueles que os lesaram nos seus haveres? Quantos ódios nas famílias por causa de heranças! É coisa muito triste!!!

Ó Jesus, concedei-nos a graça de procurar, antes de tudo, o reino de Deus e a sua justiça, para que, usando retamente dos bens da terra, cheguemos, pela prática das virtudes, ao Reino dos Céus. Amém!

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18 agosto, 2018

Coluna do Padre Élcio: “Ide mostrar-vos aos sacerdotes”.

Evangelho do 13º Domingo depois de Pentecostes – São Lucas, XVII, 11-19.

Por Padre Élcio Murucci, 18 de agosto de 2018 – FratresInUnum.com

Aconteceu que, indo Jesus para Jerusalém, atravessava o país da Samaria e da Galileia. Ao entrar numa aldeia, saíram-lhe ao encontro dez leprosos que pararam à distância, e puseram-se a gritar: “Jesus, nosso Mestre, tende compaixão de nós”! Assim que os viu, disse-lhes Jesus: “Ide mostrar-vos aos sacerdotes”. E aconteceu que enquanto eles iam, ficaram curados. Um deles, vendo-se curado, voltou atrás, e glorificou a Deus em alta voz; e prostrando-se por terra, aos pés de Jesus, deu-Lhe graças; e este era samaritano. Então, Jesus perguntou: Não foram dez os que ficaram curados? Onde estão, pois, os outros nove? Não houve quem voltasse e viesse dar glória a Deus, senão este estrangeiro. E disse-lhe: Levanta-te a vai: tua fé te salvou.

Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo!

Como nota o Santo Evangelista, Jesus estava em viagem. Mesmo em viagem, o Salvador espalha o bem por toda a parte. Aprendamos a praticar, como o Divino Mestre, o bem e a caridade, o nosso dever enfim, em todas as circunstâncias da vida, nesta viagem para a
eternidade.

jesus e os dez leprososEstes leprosos são a imagem dos pecadores, como a lepra é a imagem do pecado. Como eles, não deixemos que Jesus passe ao nosso lado, indiferentes aos seus benefícios. Corramos ao Seu encontro para que nos livre da lepra do pecado; não percamos o momento da graça que não sabemos se voltará outra vez. Santo Agostinho dizia: “Temo a Jesus que passa e não volta mais”.

Estes leprosos estavam à porta da cidade, e pararam à certa distância de Jesus, porque lhes era vedado o convívio com os outros homens, a fim de os não contaminarem. (Naquela época, esta doença horrível não tinha cura e era contagiosa. Hoje, graças a Deus, a medicina oferece tratamento, e a doença não progride e deixa de ser contagiosa). Assim com o homem vicioso, atingido pela lepra espiritual, deve-se evitar a convivência, pois não somente o seu exemplo, mas ainda as suas próprias palavras nos trazem o contágio do pecado. É a advertência que nos faz o Apóstolo: “Não vos deixeis seduzir; as más conversações corrompem os bons costumes” (1 Cor. XV, 33).

Caríssimos, observemos que Jesus não curou os leprosos imediatamente, mas ordenou que eles fossem mostrar-se aos sacerdotes. O Salvador quer experimentar a sua fé, obediência e humildade. Segundo a Lei, os sacerdotes deviam verificar e autenticar os casos de cura de um leproso, para lhes restituir os direitos perdidos pela enfermidade.

Ora, aqueles homens não estavam ainda curados; mas, porque tiveram fé, receberam a graça desejada, antes mesmo de se apresentarem aos sacerdotes. Também , a todos nós que contraímos a lepra do pecado, diz  Nosso Senhor Jesus Cristo: “Ide mostrar-vos ao sacerdote”. Ide, confessar-lhe as vossas faltas, mostrar-lhe a vossa consciência em todo o seu lastimável estado, ou seja, mostrar realmente a alma ao sacerdote com uma confissão sincera, humilde e íntegra. Mas o padre da Nova Lei, não somente verifica os casos de cura, como ainda purifica realmente, pelo poder que lhe foi transmitido pelo Divino Mestre (Cf. S. João XX, 21-23). E muitas vezes acontece que, mesmo antes de ajoelhar-se aos pés do confessor, já o pecador está realmente perdoado, porque a contrição perfeita unida ao desejo sincero de confessar-se, só por si é bastante para nos alcançar o perdão. Ao pecador arrependido Deus justifica, pelos merecimentos de Jesus Cristo, antes mesmo da recepção do Sacramento da Penitência. Todavia, não sem relação a ele, porquanto a contrição perfeita já inclui o DESEJO de receber o Sacramento (D. 725, 807, 898). Por analogia com o Batismo, diz o Mons. Penido, observam os teólogos que tal voto nem sempre é necessariamente EXPLÍCITO.

E aconteceu que, enquanto eles iam, ficaram curados. Mas apenas um deles, por sinal um samaritano, voltou para agradecer a Jesus. Este homem, habitante dos confins da Samaria, tinha-se juntado aos leprosos de Israel, vencendo as repugnâncias de raça e de religião. A desgraça tinha-os unido, tinha derrubado o muro que existia entre eles. Mas, desde que se viram livres daquele açoite, os nove judeus já não viram no samaritano mais que o inimigo de seu povo. Separaram-se dele e seguiram o seu caminho. Ele, entretanto, vinha agradecer ao seu benfeitor. “Como? – exclamou Jesus. “Então não foram dez os curados? Não houve quem voltasse para dar graças a Deus a não ser este estrangeiro?” Esta reflexão respira profunda tristeza, que as palavras “este estrangeiro” ainda mais acentuam. Aquele incidente era como que o resumo de toda a Sua missão. Prodigalizara a mãos cheias os seus benefícios a Israel, e seu povo O rejeitava. Uns dias depois, talvez os mesmos que tinham sido curados figurassem entre a turba frenética que reclamava a sua morte. Consola-O o samaritano, símbolo de todos os filhos da gentilidade, que haveriam de receber com fé e reconhecimento o benefício da redenção. Basta lermos o que o mesmo São Lucas escreve nos Atos dos Apóstolos.

Disse Jesus ao samaritano adorador agradecido: “Levanta-te e vai: que a tua fé te salvou”. Também os outros nove deveram a sua cura à fé com que obedeceram à determinação do Divino Mestre, ma só este estrangeiro agiu conforme a sua fé e segundo as suas inspirações; só este voltou a dar graças e a proclamar bem alto o nome do seu Salvador. Por isso só foi louvada a fé deste samaritano. Os Santos Padres dão ainda uma outra explicação a estas palavras de Jesus: A tua fé te salvou: A sua fé valeu-lhe, ao mesmo tempo, a cura do corpo e a justificação espiritual. Além disso, esta gratidão mereceu-lhe a graça especial, não só de renunciar ao cisma dos Samaritanos, mas também de abraçar a religião de Nosso Senhor Jesus Cristo e de publicar as maravilhas de misericórdia de que acabava de ser objeto. Entretanto, os outros nove, como comenta São Beda, depois de também, pela sua fé, terem obtido a cura, perderam-se contudo pela sua ingratidão.

Pela gratidão deveria todo homem pensar sempre nos benefícios recebidos de Deus, deveria agradecer ao benfeitor e fazer bom uso dos seus dons. Pois bem, o homem ingrato, em lugar de recordar as graças que recebeu de Deus, esquece-as; em lugar de as agradecer a Nosso Senhor, desconhece que as recebeu d’Ele, e, às vezes até as atribui a si; em lugar de as empregar em servi-Lo, abusa delas para O ofender. “A ingratidão, diz S. Bernardo, é inimiga da alma, a destruição dos seus merecimentos, a ruína das suas virtudes e a perda dos benefícios que ela tinha recebido…, é um vento abrasador que seca a fonte dos dons celestiais, da piedade, do orvalho da misericórdia”. E no mesmo sermão o santo doutor diz que a ingratidão é a corrupção do coração, que priva das primeiras graças e obsta às segundas, porque, o ingrato merece perder o bem que possui, e não merece obter o que lhe falta. E eis o que diz a Sagrada Escritura: “Isto diz o Senhor Deus: Visto que te esqueceste de mim, e me lançaste para trás das costas, carrega tu também com a tua maldade…” (Ezequiel, XXIII, 35).  Em Oséias I, 6 , Deus mostra qual o castigo reservado ao povo ingrato de Israel: “…Eu não me tornarei mais a compadecer da casa de Israel, antes os esquecerei inteiramente”. Terrível castigo!!!

Caríssimos e amados irmãos em Nosso Senhor Jesus Cristo, tenhamos fé nas palavras do Divino Mestre: “A quem perdoardes os pecados, serão perdoados… Ide, mostrai-vos ao sacerdote”. Façamos com humildade, sinceridade e fé as nossas confissões e saibamos dar ações de graças à Misericórdia infinita de Nosso Divino Salvador. Amém!

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