Archive for ‘Coluna do Padre Romano’

7 julho, 2017

Quo vadis, Bergoglio?

Por Pe. Romano | FratresInUnum.com

Os últimos dias têm sido, em Roma, dias de forte tensão. A sensação que paira no ar é a de que Bergoglio pressente que seu pontificado está com os dias contados, e é preciso acelerar o processo de “Reforma” almejado por ele e por aqueles que fizeram campanha cerrada para a sua eleição no último Conclave, de modo tal que – segundo confidenciou ele mesmo – essa seja irreversível e deixe de mãos atadas o seu sucessor. Uma reforma que se apresenta confusa e informe, em muitos aspectos, como confuso e sem traços bem definidos é o seu principal ator. A tal ponto que um alto prelado da Cúria – e não é, certamente, o único! – chegou a questionar, seriamente, se o ex-Primaz da Argentina não sofre de uma certa confusão mental crônica – para usar uma expressão bastante mitigada…

Passemos aos fatos recentes mais marcantes:

– Uma segunda carta foi enviada ao Pontífice, assinada pelo Cardeal Cafarra, Arcebispo Emérito de Bolonha, e pelos outros três Cardeais dos “Dubia”, implorando, respeitosamente, uma audiência para tratar dos grandes equívocos de “Amoris Laetitia”. Como da primeira vez, a resposta por parte do Papa foi o absoluto silêncio, obrigando os purpurados a tornarem pública, novamente, a sua missiva. Silêncio inexplicável, que vela ou um total desprezo aos que são chamados a ser os primeiros colaboradores e conselheiros do Sucessor de Pedro, ou uma atitude covarde de quem simplesmente não tem a coragem de expor-se à Verdade, que incomoda e obriga a não ficar em cima do muro, mas a tomar uma clara posição – coisa que Bergoglio simplesmente rejeita.

– Ao prefácio do último livro do Cardeal Sarah, Prefeito da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos, O Poder do Silêncio, feito pelo Papa Emérito Bento XVI, se levantou uma surpreendente e descabida reação do ultra-progressista teólogo e liturgista Andrea Grillo, docente do Pontifício Ateneu de Santo Anselmo que, parecendo tomar as dores do Pontífice reinante, descarregou uma pesada artilharia contra o Prefeito do dito dicastério e contra o Papa Ratzinger – este último, acusado de não se manter absolutamente calado depois de ter renunciado ao papado. Grillo defende a “morte institucional” do Papa Emérito, propondo, para o futuro, normas rígidas, que praticamente implicam no exílio do Papa demissionário para um outro planeta – quiçá, de outra galáxia! – ou, talvez, na sugestão de que o mesmo, para o bem da Igreja e tranquilidade do seu sucessor, solicite a eutanásia pontifícia!

– Pouco antes da ida do Cardeal Burke ao Brasil, o Decano do Sacro Colégio Cardinalício, Cardeal Sodano, enviou uma carta, em nome do Santo Padre, aos Cardeais residentes em Roma, pedindo-lhes que, ao se ausentarem da Cidade Eterna, comunicassem ao Papa para onde iriam e onde ficariam hospedados, respeitando uma venerável – na verdade, inexistente! – tradição. Sabe-se que a viagem do Cardeal Burke ao Brasil para o lançamento do livro de sua autoria “O Amor Divino Encarnado. A Sagrada Eucaristia Como Sacramento da Caridade”, traduzido para o português, foi boicotada, ao menos tacitamente, pelos bispos das dioceses por onde o mesmo passou. Fontes fidedignas afirmam que uma carta do Secretário de Estado, o Cardeal Parolin, teria sido enviada aos Ordinários das respectivas dioceses, advertindo-os a não apoiarem a visita do ex-Prefeito da Signatura Apostólica, por ser o mesmo “inimigo” do Papa – segundo Parolin – e por ter este falado publicamente contra Bergoglio e contra a Missa de Paulo VI – o que é falso.

– A uma comissão criada “ad hoc”, Francisco confiou a tarefa de se rever a doutrina da Encíclica “Humanae Vitae”, de Paulo VI, a qual defende e reafirma a doutrina tradicional católica sobre a moral sexual conjugal e o uso dos métodos anti-concepcionais. Provavelmente, ao fim desse estudo, teremos algo parecido com “Amoris Laetitia”, que deixa cada um livre de fazer o que bem entender, prescindindo de qualquer doutrina moral “abstrata”.

– Como vinha sendo ventilado, o Cardeal Muller, conhecido defensor da doutrina católica sobre a indissolubilidade do matrimônio e, consequentemente, da impossibilidade dos casais conviventes em uma segunda união, vinculados por um matrimônio válido precedente, de receberem a Santa Comunhão e a absolvição sacramental – a não ser no caso de viverem em perfeita continência -, não teve o seu mandato renovado como Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé. Há pouco tempo, o purpurado alemão havia afirmado, numa entrevista, que o Papa – quem quer que ele seja – não é o Messias, mas o Vigário de Cristo na Terra. Era demais, para o autoritário Bergoglio, tolerar um colaborador tão incômodo!

Vêm-nos à mente algumas perguntas, que nos acompanham desde o início deste pontificado: Afinal, o que deseja Francisco? Para onde quer ele ir? Para onde pretende levar a Igreja? Não precisamos ser adivinhos ou profetas para perceber que a Igreja se encontra numa crise profunda sem precedentes, colocada em marcha com o Concílio Vaticano II, mas que em Francisco encontrou um condutor que decidiu pisar sem piedade no acelerador desse trem revolucionário, em total descontinuidade com o que, ao menos em parte, fizeram seus predecessores, que tentaram reverter tal processo. Os frutos já estão sendo colhidos: divisão no interior da Igreja – na qual, de fato, já existe um verdadeiro cisma -, confusão geral dos fiéis, relativismo total da fé e da moral, diminuição da prática sacramental, esvaziamento das igrejas, queda das vocações sacerdotais e religiosas.

Resta-nos, por enquanto, dirigir o olhar e a mente para o coração do Vaticano, de onde a voz frágil, mas firme e profética, de um bispo vestido de branco – que parece ter, no momento, turbado o outro bispo também vestido de branco – nos encoraja e assegura: “Sigamos com a Cruz; porém, ao fim, é o Senhor quem vence”.

11 janeiro, 2016

Bergoglio, o papa do fim do mundo.

Por Pe. Romano | FratresInUnum.com

Todos se recordam que, ao se dirigir à multidão reunida na Praça de São Pedro no dia 13 de março de 2013, o Cardeal Jorge Mario Bergoglio, imediatamente após a sua eleição como Papa, apresentava-se como um bispo que vinha do fim do mundo, aludindo, obviamente, à distância geográfica entre a Argentina e Roma. Não demorou muito para percebermos que a distância que separava o ex-arcebispo de Buenos Aires da Cidade Eterna não era apenas geográfica, e que a locução “fim do mundo” parecia ter uma conotação não apenas de localização, mas quase apocalíptica. Palavras e atos o demonstram desde o princípio, desde aquela inesperada aparição no balcão da Basílica Vaticana.

Infelizmente, a cada dia que passa, o abismo entre os atos de Bergoglio e a Sé de Pedro se aprofunda sempre mais. É impossível, a quem tem um mínimo de bom senso católico, não perceber a realidade dos fatos. Quem não tem esse senso católico vibra alucinadamente, pois se dá conta, claramente, que a intenção do Papa é de mudar a Igreja. Mas, que mudança almeja Francisco? Para muitos – inclusive pessoas bem intencionadas – trata-se de uma mudança boa, legítima, porque se está reportando a Igreja à sua origem evangélica, libertando-a de todos os resquícios de mundanidade, acumulados durante os séculos, e de doutrinas ultrapassadas. Seria bom recordar que há quase 500 anos, na Alemanha, um padre agostiniano, chamado Martinho Lutero, tinha o mesmo ideal de “mudança” e, a seu modo, levou-o adiante, “reformando” a Igreja.

A “reforma” de Bergoglio é mais sutil, e já foi testada — e condenada por um seu predecessor, São Pio X — porque procura manter as aparências destruindo a essência. Daí, gestos, discursos e frases, que podem ser aceitos por qualquer católico, serem misturados com outros tantos gestos, discursos e frases que, no passado seriam condenados. O resultado é uma grande confusão na já tão confusa mente dos fiéis e Pastores.

Estou persuadido de que a gota d’água desta revolução bergogliana foi o último vídeo do Vaticano no qual o próprio Papa diz o que pensa a respeito de diálogo ecumênico e inter-religioso. Trata-se de algo escandaloso. De fato, a Religião Católica e, sobretudo, Nosso Senhor Jesus Cristo, são colocados no mesmo patamar das demais religiões – falsas – e dos outros deuses – demônios. Trata-se de uma nova crença, na qual o “deus amor” – qual? Buda, Alá, Cristo e, por que não, Satã? – é proclamado o Pai de todos, sem distinção, sem qualquer ligação com a fé verdadeira e o batismo. E não se pode sequer apelar para as sempre famigeradas improvisações de Francisco, pois o texto está escrito.

Doeu-me na alma ver a imagem do Deus Menino colocada ao lado de um buda; feriu-me o coração de cristão e sacerdote ver um padre equiparado a infiéis. O que pensar de tudo isso? Como permanecer sereno quando aquele que detém na terra o poder das chaves, o poder de ligar e desligar, parece usar estas chaves para abrir as portas do Inferno? Como não recordar a Bula “Exsurge, Domine”, com a qual o Papa… excomungava o herético e cismático Lutero, suplicando a Deus, com as palavras do Salmista, que se erguesse e derrotasse seus inimigos?

Tenho repetido muitas vezes, nestes dias, o ato de fé, pedindo a Deus a graça de viver e morrer como padre católico:

“Creio firmemente que há um só Deus, em três Pessoas realmente distintas, Pai, Filho e Espírito Santo, que dá o céu aos bons e o inferno aos maus para sempre. Creio que o Filho de Deus se fez Homem, padeceu e morreu na Cruz para nos salvar, e que ao terceiro dia ressuscitou. Creio tudo o mais o que crê e ensina a Santa Igreja Católica, Apostólica, Romana, porque Deus, Verdade infalível, o revelou. Nesta crença quero viver e morrer. Assim seja.”

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4 novembro, 2015

Impressões sobre o Sínodo (II): Ser ou não ser, eis a questão.

Existe pecado, e pecado mortal? Ser ou não ser católico de verdade – eis toda a questão!

Por Pe. Romano | FratresInUnum.com

O debate suscitado na Igreja e na mídia, a respeito da Comunhão aos casais em segunda união, depois de um casamento contraído validamente por um ou pelos dois “cônjuges”, deixa de lado uma questão fundamental: existe pecado, e pecado mortal? E, mais ainda: quem se encontra objetivamente numa situação de pecado, pode salvar-se?

Nuvens sobre o Vaticano.

Uma das terríveis lacunas deixadas pelo Relatório final do recém concluído Sínodo sobre a Família, em particular nos polêmicos e ambíguos nn. 84-86, é a total ausência de referência ao pecado no qual vivem as pessoas que se encontram em uma união adúltera.

Sim, adúltera.

Por mais que se possa apelar ao sofrimento em que se encontram tais pessoas, e por mais graves que tenham sido as razões que levaram à separação de um casamento anterior válido, o fato é que essas pessoas estão vivendo numa situação de pecado e em perigo de se perderem eternamente!

A primeira atitude da Igreja, ao acolher essas pessoas – uma atitude de verdadeira misericórdia! – é de ajudá-las a se confrontarem com a verdade divinamente revelada, sobre a unidade e indissolubilidade do matrimônio, e a buscarem o único caminho possível: o da conversão e da mudança de vida. Caminho este que poderá ser árduo e longo, mas que não pode ficar pela metade. Seria um gravíssimo erro, tanto para essas pessoas como para todos os demais fiéis, propor soluções pastorais de “integração” que, inevitavelmente, levariam à acomodação artificial a uma situação objetivamente grave, que teria consequências fatais, isto é, em breves palavras, a condenação eterna ao inferno.

Mas, que consciência têm nossos pastores dessas verdades fundamentais? A perda da consciência do pecado é, certamente, o maior drama da nossa época. E se aqueles que são chamados a pregar o Evangelho a todas as gentes, e a anunciar que, sem conversão, não há salvação, omitem-se em anunciar tais verdades, estamos diante de uma situação catastrófica! De fato, o discurso atual, dentro da Igreja, e que se refletiu sobre o Sínodo, é o de quase absoluto silêncio sobre as verdades últimas da nossa existência – os novíssimos -: morte, juízo, inferno e paraíso, e sobre o pecado, que condiciona a nossa salvação. Verdades basilares da nossa Santa Religião, e que devem determinar a nossa vida sobre esta terra, porque, como diz Nosso Senhor, “que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro, se vem a perder a sua alma?” (Cf. Mc 8, 36)

Estamos, portanto, no coração da crise da Igreja, que é uma crise de fé. Fé na Redenção, cuja visão parece – ao menos no discurso e na prática pastoral – distanciar-se sempre mais da sua intrínseca conexão com o pecado, que é a causa de todos os males, temporais e eternos, do homem. Cristo se torna o amigo, o companheiro de caminhada dos homens, o defensor das causas mais nobres da humanidade, e não o Salvador, o Redentor que vem para tirar o pecado do mundo, para reconciliar o ser humano com Deus, livrando-o do pecado. Não é, pois, de se admirar que a abordagem do Relatório seja toda ela de cunho sociológico e antropológico. Palavras como integração, acolhida, avaliação da situação concreta, quando dissociadas, ainda que indiretamente, da verdade integral da Revelação, reduzem a mensagem evangélica a uma mera filantropia e a uma misericórdia que quer quase que justificar o pecado a todo custo.

Certamente, não há nada de novo no que acabo de dizer: afinal, este é o discurso que, há muito, ecoa a partir dos púlpitos e cátedras, e de inúmeros simpósios e congressos. Contudo, parece que entramos numa nova fase, na qual aqueles que receberam autoridade máxima para ensinar a verdade e dissipar as trevas do erro, também se dobram a essa linguagem humanística e relativista. Pastores que foram constituídos como tais para conduzir as ovelhas a Cristo emanam um perfume sedutor de ovelhas, mas, na verdade – conscientemente ou não -, tornam-se lobos vorazes, que abrem as portas do abismo para um rebanho que não consegue mais distinguir o bem e o mal, se não houver quem o ajude.

Atualíssimas, portanto, são as palavras de Paulo VI a Jean Guiton, seu amigo e confidente, pouco tempo antes de morrer: “Há uma grande perturbação neste momento da Igreja, e o que se questiona é a fé. O que me perturba, quando considero o mundo católico, é que dentro do catolicismo parece, às vezes, que pode predominar um pensamento não católico, e pode suceder que este pensamento não católico dentro do catolicismo se converta, amanhã, como o pensamento mais forte. Porém, nunca representará o pensamento da Igreja. É necessário que subsista uma pequena grei, por muito pequena que seja”. Dizeres de um Papa que, certamente, não pode ser rotulado de tradicionalista e que, em outro momento de grande lucidez, afirmou que “por alguma brecha a fumaça de Satanás entrou no Templo de Deus” (29 de junho de 1972).

A Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo é, certamente, indefectível e santa. Porém, o dano que causa às almas um ensino vago e ambíguo não pode deixar-nos tranquilos. Por amor à verdade, por amor à salvação eterna das almas, a começar pela nossa própria, não podemos calar a verdade. Nas últimas décadas, tem-se falado tanto de profetismo na Igreja, geralmente associado à denúncia  das injustiças sociais. Pois bem: é preciso nadar contra a corrente – como os profetas!

Faz-se mister denunciar, como S. João Batista, a maldade do pecado, da impureza, do adultério, e lembrar que nenhuma integração forçada pode garantir a salvação eterna, se não estiver profundamente enraizada na verdade. É necessário lembrar, também aos Pastores da Igreja, que existe um inferno eterno, para onde todos – incluindo eles – podem ir, se não se converterem. É fundamental que a pregação da Igreja volte a ser “sim ou não, pois tudo o mais vem do Maligno”(cf. Mt 5, 37).

O problema do Sínodo é, pois, uma questão de fé, da verdadeira fé, da fé católica, sem a qual não podemos nos salvar. O dilema é este: a perda da fé católica. Ser ou não ser católico: eis a questão, a grande e decisiva questão!