Archive for ‘Cúria Romana’

2 outubro, 2017

Burke: de volta à Assinatura Apostólica. Mas…

Sua nomeação é apenas para ser juiz membro do Supremo Tribunal da Assinatura Apostólica — cardeais são, normalmente, membros de várias congregações romanas, o que não é o caso de Burke: desde que deixou o comando do supremo tribunal da Igreja, o purpurado americano foi também defenestrado da Congregação para o Culto Divino, em novembro de 2016 — imediatamente após a divulgação dos dubia. Com a nomeação do arcebispo Angelo Becciu como delegado especial do Papa para a Ordem de Malta, a Burke restou somente o título de cardeal patrono, sem função efetiva. Burke, embora com apenas 69 anos, é já tratado como um cardeal aposentado: curioso observar que dos outros quatro nomeados juntamente com ele, três são já eméritos.

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Burke no Brasil em entrevista a FratresInUnum.com.

Por Catholic Herald | Tradução: FratresInUnum.com: Sua nomeação ocorre três anos após sua destituição como prefeito

O Papa Francisco renomeou o Cardeal Raymond Leo Burke para a Assinatura Apostólica, quase três anos após destituí-lo do cargo de prefeito.

A Santa Sé anunciou sábado pela manhã que o cardeal americano foi nomeado ao mais alto tribunal do Vaticano juntamente com o Cardeal Agostino Vallini, Cardeal Edoardo Menichelli, Arcebispo Frans Daneels e o Bispo Johannes Willibrordus Maria Hendriks.

O Cardeal Burke atuou como prefeito do tribunal durante seis anos antes de ser destituído, em 2014 e nomeado cardeal patrono da Ordem de Malta, um cargo predominantemente cerimonial. Na ocasião, era bastante incomum destituir um cardeal de posição hierárquica tão elevada sem designá-lo a responsabilidades compatíveis em algum outro lugar.

Desde então ele tem se tornado um forte defensor do ensinamento tradicional da Igreja e foi um dos quatro cardeais signatários dos ‘dubia’, que pede esclarecimento acerca do documento Amoris Laetitia.

22 setembro, 2017

Adeus, Wojtyla e Caffarra. Com Francisco muda-se a família.

Por Sandro Magister, Settimo Cielo, La Repubblica, 19 de setembro de 2017. Tradução: André Sampaio | FratresInUnum.com – O terremoto que mudou a cara da Pontifícia Academia para a Vida atingiu também o Instituto para Estudos sobre Matrimônio e Família, criado por João Paulo II e com o teólogo e logo cardeal Carlo Caffarra como seu primeiro presidente.

Paglia e Francisco

Paglia e Francisco.

Hoje [n.d.t: exatamente 1 ano após o endereçamento dos dubia a Francisco pelos cardeais Brandmüller, Burke, Caffarra e Meisner], esse histórico Instituto foi abolido e substituído por outro Instituto com um nome diferente.

Com efeito, assim se lê no artigo 1.º do Motu Proprio Summa familiae cura, publicado esta manhã, com o qual o papa Francisco “pôs a assinatura” na virada [em 8 de setembro, dois dias após o falecimento de Caffarra, n.d.t.]:

“Com o presente Motu Proprio estabeleço o Pontifício Instituto Teológico João Paulo II para as Ciências do Matrimônio e da Família, o qual, vinculado à Pontifícia Universidade Lateranense, sucede, substituindo-o, ao Pontifício Instituto João Paulo II para Estudos sobre Matrimônio e Família, criado pela Constituição Apostólica Magnum Matrimonii Sacramentum, o qual, portanto, vem a cessar.”

E no artigo 4.º:

“O Pontifício Instituto Teológico, assim renovado, adequará suas próprias estruturas e disporá dos instrumentos necessários – cátedras, docentes, programas, pessoal administrativo – para realizar a missão científica e eclesial que lhe é designada.”

Estão despedidos, consequentemente, todos os docentes do falecido Instituto, enquanto conservam seus cargos o atual grão-chanceler Vincenzo Paglia e o presidente Pierangelo Sequeri, cujas nomeações por parte do papa Francisco se mostraram, um ano atrás, o prelúdio do atual cataclismo.

Os dois acompanham a publicação do Motu Proprio com uma nota, que sublinha o “envolvimento direto” do papa, o qual – prosseguem dizendo – “confia a tarefa de modelar as regras, as estruturas e a operacionalidade do novo Instituto Teológico” às mesmas “autoridades acadêmicas do histórico Instituto João Paulo II”, ou seja, justamente, precisamente a eles dois, e não a outros.

Ao descrever o “mais amplo horizonte” sobre o qual deverá mover-se o Instituto, Paglia e Sequeri remetem, naturalmente, à Amoris laetitia, mas também à Laudato si’ e ao “cuidado pela criação”.

Resta agora ver quais serão os docentes da nova instituição, quais serão confirmados e quais não, tanto em Roma quanto nas outras sedes pelo mundo.

Assim também se verá que destino terão as últimas publicações do falecido Instituto, especialmente o “vade-mécum” sobre a reta interpretação da Amoris laetitia, o qual é visto como peste pelos paladinos da comunhão aos divorciados recasados e do qual o mesmo Motu Proprio Summa familiae cura parece tomar distância, quando escreve que não mais se consentirá em “limitar-nos a práticas da pastoral e da missão que refletem modelos e formas do passado”.

 

 

18 setembro, 2017

O Cardeal Müller acusa o Papa Francisco de não basear sua autoridade magisterial numa teologia “competente”.

Incomoda ao cardeal que o papa pense que “a religião e a política são uma coisa só”. O Cardeal denuncia que o Papa se preocupa mais por “questões de diplomacia e poder do que pelas questões da fé”. A fé cristã deveria estar no centro e o Papa deveria ser simplesmente um “servo da salvação”

Por Cameron Doody, Religión Digital, 14 de setembro de 2017 | Tradução: FratresInUnum.com“Vós não tendes nem ideia do que estais dizendo!” O Cardeal Gerhard Müller fez eco das palavras com as quais São Roberto Belarmino uma vez lançou em rosto do Papa Clemente VIII sua falta de competência teológica, para uma vez mais apontar o Papa Francisco, acusando-o de não basear sua “autoridade magisterial” numa teologia sólida.

Segundo relatam tanto o Tagespost como o Mannheimer Morgen, o ex-prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé participou na semana passada num colóquio em Mannheim para apresentar seu novo livro Der Papst. Sendgung und Auftrag (“O Papa. Missão e Mandato”).

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No colóquio em que Müller proferiu críticas a Francisco, participava também o Arcebispo Dom Georg Ganswein, Prefeito da Casa Pontifícia e secretário pessoal de Bento XVI.

Müller aproveitou suas intervenções para queixar-se uma vez mais das diferenças que manteve com o Papa, o que desencadeou sua destituição como cabeça do Santo Ofício, no final do mês de junho.

A essência das novas críticas do purpurado alemão é que Francisco, nos quatro anos de Pontificado, desvalorizou o papel da Doutrina da Fé na vida da Igreja, até o ponto — dolorosíssimo para Müller – de que seu Prefeito já não goza mais de nenhum prestígio.

Ao invés da Congregação [para a Doutrina da Fé], é a Secretaria de Estado do Vaticano a instituição que agora é considerada a mais importante na Igreja”, criticou Müller sobre a política do Papa Bergoglio.

“Questões de diplomacia e de poder agora têm prioridade”, afirmou, lamentando-se de que esta é uma mudança “radical”, mas “equivocada… e que deve ser corrigida. ” “A fé cristã é que deveria estar no centro, em seu lugar, e o Papa deveria ser simplesmente um “servo da salvação”.

Para jogar sal na ferida, Müller lançou-se contra a recente viagem que o Cardeal Pietro Parolin, atual Secretário de Estado, fez à Rússia. Ainda que o Papa, segundo Parolin, tenha se mostrado “contente” com os “resultados positivos” que a viagem deu em si, Müller quis distanciar-se dos dois, criticando a “ótica desafortunada” com a qual muitos interpretaram a visita, “porque aqui não se pode cair na armadilha de pensar que a religião e a política são uma coisa só.”

Segundo Müller, a associação da religião e da política “nunca prosperou quando a missão da Igreja se centralizava (e se concentra) no poder”.

E além disso, o ex-prefeito da Doutrina da Fé quis lançar mais um aviso ao atual Bispo de Roma, recordando-lhe que “o centro do Papado não é o Papa em si mesmo, mas a fé cristã”, com o qual Francisco deve levar em conta a necessidade — sentida pelos “cardeais dos Dubia” sobre o conteúdo de Amoris Laetitia — de “uma preparação teológica mais clara dos documentos [oficiais].

14 setembro, 2017

Josef Seifert adverte contra a “bomba atômica” que pode derrubar todo o ensinamento moral da Igreja.

Afastado da docência pelo Arcebispo de Granada, ao mesmo tempo em que é elogiado pelo Arcebispo de Vaduz por escrever um artigo sobre Amoris Laetitia, o filósofo católico Josef Seifert volta a advertir numa entrevista que o edifício moral da Fé Católica pode desmoronar.

Por 1P5/InfoCatólica | Tradução: FratresInUnum.com – À luz do recente ensaio de Josef Seifert, no qual examina as perigosas consequências lógicas de Amoris Laetitia, um ensaio pelo qual ele foi despedido de seu posto como professor pelo Arcebispo de Granada, a doutora Maike Hickson, em nome do site “One Peter Five”, entrou em contato com o filósofo austríaco para fazer-lhe algumas perguntas adicionais, não só sobre a Exortação Pós-Sinodal, que gerou tanta controvérsia, mas sobre o estado do ensino e da prática da moral na Igreja.

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Maike Hickson (MH): Há um ano, em agosto de 2016 – depois da publicação de Amoris Laetitia – o senhor publicou um ensaio no qual educadamente fazia uma crítica deste documento papal e pedia ao Papa que corrigisse alguns erros ou inclusive às vezes “afirmações objetivamente heréticas”. Qual é a razão pela qual o senhor agora volta mais uma vez a levantar sua voz num novo ensaio sobre este tema de Amoris Laetitia?

Josef Seifert (JS): Depois de publicar meu artigo, aconteceram muitas coisas: meu bom amigo Rocco Buttiligione e meu antigo aluno Rodrigo Guerra defenderam Amoris Laetitia apaixonadamente contra todas as minhas objeções, e eu lhes escrevi muitos e-mails e uma resposta que não se publicou. Um grupo de teólogos e filósofos acusou o Papa Francisco, por duas vezes, de uma longa série de heresias e outros erros que eles atribuíam ao documento, e entraram em detalhes para provar que tinham razão e para pedir ao Papa que se retratasse destes erros. Pediram-me que assinasse a carta, mas eu não o fiz por diversas razões. O Arcebispo de Granada me afastou como professor do seminário por causa de meu primeiro artigo. O Arcebispo de Vaduz, no Principado de Liechenstein, felicitou-me por este mesmo artigo e agradeceu-me pelo grande serviço que fiz à Igreja escrevendo-o. Os quatro cardeais expressaram seus dubia (ainda sem respostas). Por tanto, eu tinha muitas novas razões para refletir sobre Amoris Laetitia e sobre meu primeiro artigo, que tinha enviado primeiro como uma carta pessoal ao Papa Francisco (nunca respondida, e nem sequer reconhecida).

No entanto, o que motivou diretamente meu segundo artigo foi a descoberta  da convocatória de uma comissão feita pelo Papa Francisco, supostamente para revisar a Humanae Vitae (HV) e adaptá-la à Amoris Laetitia (AL). Além disso, eu expressei ao professor Buttiligione, um querido amigo cujo ponto de vista sobre a AL é radicalmente diferente do meu, o meu temor de que também a HV e a Evangelium Vitae fossem vítimas da mesma linha de pensamento expressa na AL. Ele aumentou meu medo e eu me alarmei quando ele me respondeu que obviamente à HV e à Evangelium Vitae deveriam ser aplicados o mesmo discernimento e os mesmos princípios que estão estabelecidos na AL sobre o matrimônio. Isto me comoveu profundamente. – Eu tinha escrito muitos artigos defendendo filosoficamente a Humanae Vitae e a Veritatis Splendor e preocupava-me muitíssimo a ideia de que todas essas doutrinas verdadeiras fossem revogadas, relativizadas e destruídas simplesmente aplicando a lógica do dito comentário de AL.

Por essas razões, eu meditei novamente sobre as mesmas perguntas e pensei que havia encontrado uma causa ainda maior de preocupação que aquelas que eu tinha expressado no meu primeiro artigo.

Por este motivo, decidi escrever um novo artigo muito mais curto e que se restringia a comentar uma só afirmação de AL que eu não havia considerado suficientemente no meu primeiro artigo. Esta simples afirmação me impactou profundamente, porque parecia provar que as mudanças no ensinamento moral de AL iam potencialmente muito mais além do que ninguém no atual debate (incluindo o próprio Papa Francisco e eu mesmo) tínhamos considerado sobre a admissão dos adúlteros não arrependidos e homossexuais aos sacramentos. Eu tive, por assim dizer, uma visão da grande ameaça que se escondia neste texto para todo o ensino da moral da Igreja. Tive a impressão que era minha obrigação, para servir bem ao Papa e à Igreja, apresentar a questão primordial que meu novo artigo apresenta, sem respondê-la, mas colocando-a de uma forma tão clara que o Papa e qualquer outro leitor pudesse fazê-lo corretamente. Eu me senti obrigado a escrever isso para evitar uma destrutiva bomba atômica teológico-moral que podia fazer que toda a doutrina moral da Igreja desabasse. Tenho a intenção – propondo esta pergunta com a maior clareza possível – de ajudar o Magistério do Papa Francisco a prever tal dano.

Devido às consequência lógicas e potenciais desta única afirmação que vi serem tão terríveis, e devido a que senti ao mesmo tempo que não era apropriado acusar o Papa de um erro tão grave (esta foi uma das razões pelas quais não aderi à acusação formal de heresia ao Papa que dois grupos de teólogos me tinham pedido que assinasse), e devido a que somente o próprio Papa e possivelmente o colégio cardinalício, ou um Concílio, poderiam corrigir esta afirmação [presente em AL] e evitar que se desenvolva suas lógicas consequências práticas, é que eu formulei meu artigo como uma pergunta principal, e uma série de interrogações que se deduzem aplicando a pura lógica à mencionada afirmação e pergunta.

MH:  O senhor poderia expor para nossos leitores sua preocupação mais importante sobre Amoris Laetitia?

JS: A minha preocupação principal está exposta neste meu segundo artigo. Se nossa consciência pode conhecer (e não só opinar falsamente) que Deus quer que cometamos um ato intrinsecamente mau, adúltero ou homossexual, desde que estejam algumas condições atenuantes, então a lógica deve extrair a consequência de que o mesmo princípio se aplica à anticoncepção (HV), ao aborto e a todos os outros atos que a Igreja e os mandamentos de Deus proíbem de forma absoluta. Esta é exatamente a postura e estas são exatamente as consequências da assim chamada “ética puramente teológica” que o teólogo jesuíta Josef Fuchs e muitos outros defendiam muitos anos atrás antes e depois da Humanae Vitae e que eu investiguei e refutei em muitos artigos e em um livro escrito em alemão e que não foi publicado. O Papa João Paulo II condenou clara e definitivamente este erro de Fuchs e outros defensores, e o fez solenemente na Veritatis Splendor e na Evangelium Vitae, esclarecendo assim o perene ensinamento moral dos Evangelhos e da Igreja. Nesta última encíclica, o Papa João Paulo II invoca a autoridade de São Pedro (EV, n.68) e declara (creio eu que dogmaticamente) que desde o primeiro momento da concepção, toda criança merece o respeito devido à pessoa, e, portanto, o aborto é sempre e intrinsecamente um grave ato imoral.

Foi então que eu experimentei um profundo sofrimento pessoal. Minha impressão era que agora todo o edifício da ética absoluta (já ensinada antes de Cristo por Sócrates e Cícero) do Antigo e do Novo Testamento, assim como o edifício da Igreja, poderia começar a desmoronar simplesmente aplicando a lógica desta afirmação [de AL].

Antes, no meu primeiro artigo, também expressei muitas outras preocupações:

– Que a distinção mediante o discernimento entre adúlteros bons e adúlteros maus, onde os primeiros, inclusive sem se arrependerem, poderiam ser admitidos aos sacramentos, enquanto que somente os outros teriam que ser excluídos, apresenta uma tarefa totalmente impossível para o sacerdote de discernimento entre bons e maus pecadores mortais (tal como muito bem o disse a Conferência Episcopal Polonesa).

O longo texto de AL propõe admitir aos sacramentos casais que, objetivamente falando, vivem em pecado mortal, mas não diz uma só palavra sobre o perigo de blasfêmia e sacrilégio, contra o que no adverte o Apóstolo São Paulo nos mais enérgicos termos, dizendo que “comemos e bebemos nossa condenação se recebemos a Sagrada Comunhão em pecado mortal”.

AL diz que “ninguém (inclusive o adúltero) será condenado para sempre” o que parece negar a existência do inferno, o que contrasta com as palavras de São Paulo que dizem que nenhum adúltero que não se tenha convertido irá ao Céu e, portanto, serão condenados para sempre se não se convertem.

– Que alguns cristãos não tenham a força para cumprir os mandamentos (com a ajuda dos sacramentos e da graça de Deus), o que foi uma das principais heresias propostas por Lutero e condenada pelo Concílio de Trento.

Eu ainda sustento estas e outras preocupações sobre AL, mas queria a) desenvolver no segundo artigo somente um ponto que me parece a “cruz” de AL, e b) apresentar algumas perguntas lógicas ao Papa e a outros leitores, que não vejo que podem ser respondidas negativamente. No entanto, se forem respondidas afirmativamente, esta conclusão a partir de AL nos levaria logicamente à destruição de todo o ensinamento moral da Igreja, e por este motivo deveria ser revogada, o que eu imploro (com reservas) ao Papa.

Eu, portanto, suplico com reservas ao Papa com toda caridade e amor, que se ele deve responder às perguntas lógicas que eu lhe proponho com um sim rotundo, que retire ao menos essa frase de AL e que não a converta num motivo para a reforma teológica e moral da Igreja.

Certamente, o Papa não manterá esta afirmação se com isto provoca – com sua resposta afirmativa à pergunta de meu artigo – a destruição do pilar da doutrina moral da Igreja e da ética natural (como foi ensinada por Sócrates e Cícero).

MH:  O senhor pensa que ainda restam dúvidas sobre se o Papa tem a intenção de permitir que alguns divorciados que voltaram a se casar recebam os sacramentos? Quais são para o senhor os argumentos mais sólidos para defender sua posição?

JS: Não tenho nenhuma dúvida! Inclusive os muito elogiados defensores de AL, tais como Rocco Buttilglione, o Cardeal Blasé Cupich e o Cardeal Schönborn o veem claramente e louvam a AL exatamente por isso. Ao contrário do que eu e muitos outros, eles tomam a admissão aos sacramentos dos pecadores não arrependidos como um fruto da misericórdia e da legítima consideração pastoral do Papa Francisco. Eles acreditam que AL, admitindo aos adúlteros não arrependidos, aos homossexuais, e a outros casais em “situações irregulares”, não contradizem a Veritatis Splendor nem Familiaris Consortio nº 84, que proíbem tudo isso baseando-se no Evangelho. O raciocínio deles é o seguinte: se esses casais fossem capazes de compreender que o que eles estão fazendo é algo mau e tivessem a força de vontade que o Papa João Paulo II assume, eles não poderiam ser admitidos aos sacramentos, como ensina o Santo Padre. Mas se esses pecadores não cumprem estas duas condições subjetivas necessárias para encontrar-se em pecado mortal (e Buttiglione, junto com o Papa, pensa que possivelmente a maioria dos homens e mulheres contemporâneos carecem de uma ou de ambas condições), eles deveriam ser admitidos aos sacramentos, como diz o Papa Francisco em AL. De acordo com esta interpretação, ambos os Papas têm razão e não se contradizem entre si. Podemos ver que também esses defensores de AL estão de acordo com que na Exortação de fato se propõe admitir aos adúlteros não arrependidos e outros pecadores, depois do devido discernimento aos sacramentos (os Bispos filipinos, em sua primeira resposta à AL, convidaram imediatamente a todos os casais aos sacramentos sem um prévio discernimento). Além disso, o Cardeal Shönborn e o Pe. Antonio Spadaro, SJ, chegaram a afirmar que AL elimina toda distinção entre casais em situação regular e irregular.

Além do mais, o elogio que o Papa fez da interpretação dos Bispos de Buenos Aires da AL de admitir aos adúlteros não arrependidos e outros casais depois do discernimento aos sacramentos e confirmando que essa era a leitura correta, prova o que estamos dizendo.

A mesma coisa se aplica ao elogio da interpretação muito mais liberal que fizeram os Bispos de Malta, baseando-se em pressupostos de uma radical ética de situação. Estas e muitas outras palavras e atos do Papa Francisco provam que a sua pergunta tem que ser respondida afirmativamente, inclusive ainda que o Cardeal Gerard Muller ou o Mons. Livio Melina adotassem a interpretação de que AL não mudasse a disciplina dos sacramentos.

Ao mesmo tempo, o Papa aceita a postura da Conferência Episcopal Polonesa, e da Conferência Episcopal de Alberta, no Canadá, que seguem o ensinamento da Familiaris Consortio (FC) e rejeitam qualquer tipo de mudança na doutrina sacramental. O Papa Francisco aceitou a rejeição unânime dos Bispos poloneses de mudar as normas de FC declarando (como a mesma AL diz) que o magistério não deve ter um único ensinamento em tais matérias, mas que deve aceitar a diversidade cultural e nacional em matéria de tradições morais. Há uma preocupação estendida na Igreja de que isso acrescente um relativismo histórico e cultural aos outros problemas de AL. Porque certamente parece inaceitável que o que na Polônia constitua um pecado mortal, e faz com que se exclua da comunhão e da confissão os pecadores que não se arrependam, não tenha nenhuma dessas consequências quando o adúltero cruze a fronteira e vá se confessar e comungar na Alemanha, uma milha de distância ao leste do anterior sacerdote polonês, que se negou a dar-lhe a absolvição e a admiti-lo à comunhão.

MH No seu ensaio de 2016, o senhor diz que Amoris Laetitia poderia causar “uma avalanche de destrutivas consequências para as almas e para a Igreja”. Um ano mais tarde, o senhor vê tais consequências destrutivas já se desenvolvendo?

JS: Se somente um ou alguns – já não digamos a maioria – dos casais em “situações irregulares” que recebem os sacramentos agora cometem um sacrilégio e um pecado grave, obviamente as consequências destrutivas de AL estão acontecendo e portanto as palavras de Cristo a uma vidente em Granada são certas, já que diz que estas “falsíssimas doutrinas” conduzirão muitas almas ao inferno.

Além do mais, se está causando um grave dano às almas se agora alguns seminaristas não querem chegar a ser sacerdotes porque se verão forçados, contra a sua consciência, a administrar os sacramentos a católicos que voltaram a se casar e cujos primeiros matrimônios não foram declarados nulos pela Igreja. Se lhes diz que as portas do seminário estão abertas para quem quiser sair, e se eles não querem aceitar essa nova prática, deveriam ir embora. Por conseguinte, muitos dos melhores futuros sacerdotes vão embora e já não trabalharão pelo bem das almas. Aos sacerdotes se lhes anima, e inclusive seus Bispos lhes ordenam, atuar contra a sua consciência, alguns são ameaçados de ser expulsos de suas paróquias se atuam segundo a mesma. Os Bispos pressionam os sacerdotes que aderem à Tradição da Igreja e aos ensinamentos expressos na Familiaris Consortio pelo Papa João Paulo II. Alguns sacerdotes, que vivem contra os ensinamentos da Igreja, sentem-se animados a receber os sacramentos e a celebrar a Missa, professando uma carência de força de vontade para abster-se de relações homossexuais ou relações sexuais com mulheres. Reina uma grande confusão: muitos perdem a fé na Igreja como pilar da verdade e agora a veem como uma Babel de confusão, etc.

MH: Em seu novo ensaio de 2017, pergunta-se se Amoris Laetitia “afirma claramente que estes atos intrinsecamente desordenados e objetivamente pecaminosos […] podem ser permitidos, ou mesmo se podem ser objetivamente ordenados por Deus” e o senhor diz que, se isto for assim, nós estamos enfrentando uma “bomba atômica moral e teológica”. O senhor poderia nos explicar o significado desta expressão?

JS:  Se isto é certamente assim, o que AL diz no texto que eu analizo, isto é, se Deus em alguns casos, ou somente em um, quer que nós, em nossa situação concreta, cometamos um ato intrinsecamente errôneo, tais como atos homossexuais ou adultérios, não há nenhuma razão lógica que nos impeça aplicar isto à anticoncepção, ao aborto, à vingança de sangue, às mentiras, aos enganos, etc. Não podemos deixar de aplicar os mesmos princípios que declaramos serem válidos para um tipo de ato intrinsecamente maus a outros igualmente pecaminosos. Simplesmente podemos também negar que este ato, ou qualquer outro ato humano, seja intrinsecamente desordenado e mau.

No entanto, toda a Lei e os Profetas, o ensinamento moral da Igreja, giram em torno do reconhecimento de que muitos atos deste tipo não podem ser cometidos nunca nem em nenhuma situação. Assim, pois, se alguém deduz logicamente esta consequência de AL, tal afirmação provocaria uma avalanche de consequências e é uma bomba atômica espiritual que destruiria o maravilhoso edifício do ensinamento moral católico (e da ética natural).

MH:  Neste contexto de “atos intrinsecamente desordenados e objetiva e gravemente pecaminosos” o senhor menciona explicitamente não só aos divorciados e recasados, mas também às uniões homossexuais. O senhor acredita que o termo “casais irregulares” como se usa em Amoris Laetitia significa que vai ser mais inclusivo e que se vai aplicar também aos casais homossexuais?

JS: Está claro que é assim e muitas outras declarações do Papa e de Conferências Episcopais, tais como a das Filipinas, demonstram-no claramente.

MH No contexto de leis morais absolutas que agora parece que estão sendo enterradas por esta discussão, o senhor trouxe à tona o tema da Humanae Vitae e a possível revisão de seus ensinamentos sobre a contracepção. O senhor tem alguma informação concreta sobre esta comissão vaticana recentemente formada? Segundo sua opinião, alguns de seus membros são indicadores da direção que vai tomar este trabalho?

JS: Apareceu um grande número de artigos e de blogs, com fontes fidedignas e bem informadas, que confirmaram esta notícia. No entanto, mesmo que não acreditássemos neles, a lógica nos diz: se alguns adúlteros não arrependidos podem ser admitidos aos sacramentos e se seu adultério pode inclusive “ser o que Deus quer que eles façam na complexidade de sua situação”, porque segundo este raciocínio, alguns casais que usam métodos anticoncepcionais não poderiam ser igualmente admitidos aos sacramentos ou inclusive que “Deus na complexidade de sua situação concreta”, deseje que eles usem métodos anticoncepcionais e esterilização, em vez da abstinência temporal, porque dita situação levaria o esposo ou a esposa a cometer pecados mais graves?

MH:  O senhor acrescentou em seu novo ensaio, que o senhor mesmo havia sido escolhido pelo Papa São João Paulo II como membro ordinário vitalício da Pontifícia Academia para a Vida (um cargo que foi eliminado quando todos os membros da referida Academia foram despedidos pelo Papa Francisco em 2016 e não pode ser reeleito como membro devido às mudanças profundas na Pontifícia Academia realizadas em 2017): O senhor poderia nos explicar estas palavras? Isto significa que o senhor foi despedido da Pontifícia Academia para a Vida, apesar do fato de que havia sido designado (por João Paulo II) como membro vitalício da mesma?

JS:  De acordo com os estatutos da Pontifícia Academia para a Vida, todos os membros ordinários eram vitalícios. O Papa Francisco primeiro mudou os estatutos. Portanto, agora o período máximo da duração do cargo de um membro ordinário é de 5 anos. Em segundo lugar, o Papa Francisco despediu a todos os membros atuais da Pontifícia Academia para a Vida e cancelou sua Assembléia Geral convocada para 2016. Em terceiro lugar, nomeou novos membros e voltou a incluir a alguns outros que já tinham sido membros anteriormente, inclusive alguns muito bons. Eu estava entre os que foram despedidos e que não foram reincorporados.

MH: O senhor tem alguma ideia do porquê ter sido despedido da Pontifícia Academia para a Vida?

JS: Já que todos os membros da Academia para a Vida foram despedidos, como eu disse anteriormente, está claro o porquê eu também fui. A razão pela qual não fui reincorporado somente poderia ser respondida com certeza pelo Papa, ainda que eu posso especular sobre isso, se quiser.

Talvez por causa de meu artigo sobre a AL em 2016? Possivelmente porque eu em diversas ocasiões critiquei publicamente a dois presidentes da Pontifícia Academia para a Vida (durante o Pontificado de Bento XVI) e pedi ao Papa que os substituísse (coisa que ele fez numa das ocasiões)? Seria porque eu escrevi várias vezes sobre a definição de “morte cerebral”, para as várias reuniões da Academia para a Vida e dois encontros da Pontifícia Academia das Ciências (aos quais fui convidado como especialista na matéria) e durante dois anos para uma comissão sobre “morte cerebral” convocada pelo Cardeal Elio Sgreccia? Talvez porque eu enviei estas críticas aos Papas anteriores (João Paulo II e Bento XVI) com a esperança (frustrada) de que a Igreja rejeitasse claramente as definições e critérios de morte cerebral por serem inválidas? Ou talvez porque eu critiquei publicamente a mensagem que Mons. Marcelo Sanchez Sorondo enviou a um Congresso Médico Mundial sobre o coma e a morte, em Cuba, que identificava a “morte cerebral” com a morte humana e dizia que isso era um tipo de “dogma da Igreja Católica”, e que a adesão a este princípio era obrigatória, e sua falsa afirmação de que agora isso era “ensinamento oficial da Igreja Católica”? Talvez porque neste mesmo Congresso sobre o coma e a morte, e nos dois anteriores, fiz o discurso de abertura e nele criticava o fato de identificar “morte cerebral” e morte humana? Ou seria porque eu informei aos assistentes do referido Congresso o que e o porquê o Papa João Paulo II tinha expressado suas sérias dúvidas em relação a identificação entre a morte humana e a morte cerebral num discurso dirigido a médicos especializados em transplantes? Ou porque eu disse publicamente que o Papa São João Paulo II tinha convocado um simpósio sobre este tema na Pontifícia Academia para as Ciências no qual todos os doutores, filósofos, juristas, anestesistas, etc. rejeitaram esta identificação? Talvez porque eu revelei aos presentes que o texto prometido (e já revisado) deste simpósio havia sido suprimido aparentemente por Mons. Sanchez Sorondo e que a Pontifícia Academia para a Saúde havia convocado outro simpósio no qual só uma minoria (bastante significativa) rejeitava a identificação entre morte humana e morte cerebral?

MH: O senhor disse que a nova Pontifícia Academia para a Vida (PAV), tal como foi reorganizada no final de 2016, está profundamente mudada. Poderia explicar-nos como é isso? Quais são as mudanças que o senhor vê que estão ocorrendo na nova Academia para a Vida?

JS: Em primeiro lugar, não quero mitificar a antiga PAV fundada por São João Paulo II. Depois da presidência do santo médico doutor Jerome Lejeune, cujo processo de beatificação está em curso (que descobriu as causas da síndrome de Down e lutou tenazmente pela vida das crianças afetadas a quem muitos doutores e pais assassinavam quando se confirmava a existência da síndrome), e que morreu de câncer alguns meses depois de ser nomeado, tivemos outros dois presidentes. O primeiro foi o professor Juan de Dios Vial, reitor da Universidade Pontifícia de Chile, ajudado pelo excelente vice-presidente monsenhor (agora cardeal) Elio Sgreccia, quem se converteu posteriormente num igualmente sensato e competente presidente (ainda que alguns dos membros, incluindo eu mesmo, fomos muito críticos com a forma na qual ele manejou certos assuntos, como por exemplo, o debate sobre a “morte cerebral”). Mesmo em seus melhores tempos na PAV, houve muitas discussões, por exemplo, sobre se a assim chamada “morte cerebral” é realmente morte humana e aqueles que o negavam tais como os professores Allan Shewmon, Wolfgang Waldstein, Alejandro Serani, eu mesmo, etc, fomos progressivamente marginalizados. Depois, tivemos dois presidentes que fizeram declarações contrárias à verdade ética e ao ensinamento da Igreja (o primeiro, o Arcebispo Fisichella defendeu a legitimidade e a bondade de alguns abortos). O segundo organizou por exemplo um Congresso na Pontifícia Academia, no qual, dos sete oradores convidados para falar sobre tratamentos de infertilidade, seis defendiam diretamente métodos opostos ao ensinamento da Igreja. Estes e outros acontecimentos suscitaram uma bem merecida oposição de alguns membros. Em minha opinião, e na de muitos outros, isso contrariava claramente os fins da Academia para a Vida e o juramento pró-vida que cada membro tinha que fazer e, sobretudo, contrariava a doutrina da Igreja. Escrevi duas cartas abertas sobre a situação intolerável pela qual estava passando a antiga Academia. Eu não louvo a anterior Academia, nem nego que uma sensata reforma tivesse sido saudável.

No entanto, as profundas mudanças que ocorreram agora parecem ir muito mais longe e na direção contrária. Por um lado, em nível administrativo, o Papa Francisco mudou os estatutos, como já disse, e eliminou o sólido núcleo de membros incondicionalmente comprometidos com a vida, membros que o Papa João Paulo II tinha escolhido e, com isso, transformou a Academia numa sociedade cambiante e flexível que perdeu a identidade que alguns membros comprometidos lhe tinham dado. Mais importante ainda, os novos estatutos eliminam o juramento pró-vida que tínhamos que professar na anterior PAV. Foram nomeados alguns membros que são abertamente anti-vida. O novo presidente e bispo, Monsenhor Vicenzo Paglia, encomendou, antes de sua eleição, afrescos para sua Catedral na Itália nos quais aparece ele e muitas outras pessoas nuas e involucradas em atos homossexuais e outros pecados, e são atraídos para o Céu numa grande rede por um Jesus que cujas feições são as de conhecido barbeiro local homossexual. O grande pintor El Bosco tinha pintado os mesmos pecados que são glorificados neste afresco, em suas famosas pinturas do inferno. O Bispo Paglia também preside o Instituto João Paulo II onde exerce uma grande pressão sobre os professores para que não apoiem os ensinamentos morais e a disciplina dos sacramentos da Familiaris Consortio, mas que o façam aos da Amoris Laetitia.

MH O senhor está preocupado porque alguns membros da PAV, tais como Nigel Biggar, Padre Maurizio Chiodi, Padre Carlo Casalone, SJ ou o Padre Alain Thomasset, SJ alguns dos quais defendem ativamente o aborto ou o uso de anticoncepcionais?

JS:  É óbvio que estou preocupado. Nós tivemos membros como estes antes, como por exemplo um austríaco que promovia a “família dos teus sonhos” (Die Wunschfamilie) em cujo centro se incluía fertilização in vitro (FIV), a seleção de óvulos fertilizados de acordo com o sexo ou a saúde, a eliminação de crianças “deficientes” ou “não desejados” e, portanto, os aborto nas primeiras semanas. No entanto, a estes membros lhes foi pedido sua demissão. Agora parece que estão sendo nomeados diretamente pelo Vaticano. Isto significa uma mudança profunda da visão da Pontifícia Academia para a Vida atual frente à original.

MH À luz das discussões prévias sobre a Amoris Laetitia e as muitas tentativas de defender a doutrina moral tradicional da Igreja Católica, o senhor vê um paralelismo com o possível desenvolvimente da reinterpretação da Humanae Vitae e seu resultado?

JS:  Estou convencido de que a lógica diz que se o Papa Francisco não revogar o ensinamento [presente na AL] que eu analizei no meu último artigo e se ele não responder aos Dubia dos cardeais para deixar claro que há “atos intrinsecamente maus” e que estes atos nunca estão justificados em nenhuma circunstância, a Humanae Vitae será reinterpretada como um ideal que não se pode exigir a todo o mundo, e que depois de um discernimento, aqueles que praticam a contracepção (com ou sem efeitos abortivos) podem ser admitidos aos sacramentos, e que Deus mesmo, em algumas situações difíceis, assim quer. Disso se deduziria a negação dos atos intrinsecamente maus. E tal negação é certamente sugerida na passagem que eu analisei em meu último artigo. Assim, pois, espero fervorosamente que o Papa, se responder a minha pergunta afirmativamente, retire esta afirmação de AL e, portanto, e evite a deposição da Humanae Vitae.

MH: O Padre John A. Hardon, SJ (+30 de dezembro de 2000), reconhecido teólogo dogmático americano, costumava ressaltar que a maioria dos ensinamentos morais eram certamente ensinados infalivelmente pelo magistério ordinário universal, isto é, sem serem ensinadas ex cathedra. O senhor considera a proibição estrita do uso de qualquer forma de contraceptivos (muitos dos quais são abortivos) como parte do ensino infalível da Igreja? Ou seria possível que o Papa permitisse exceções a este ensinamento?

JS: Certamente o considero parte do ensino infalível da Igreja (ainda que não expresso num dogma). E mais, creio que sua verdade ética pode ser reconhecida pela razão pura e escrevi muitos artigos defendendo as provas filosóficas e as evidências de sua verdade.

MH Levando em conta seu próprio ensaio de 2017 com a próxima discussão sobre a Humanae Vitae, o senhor vê que existe um dano real e que o desmoronamento das leis morais absolutas pode conduzir a Igreja tolerar oficialmente o aborto e a contracepção?

JS: Penso que o grande dom da infalibilidade da Igreja evitou que o Papa Paulo VI, que se inclinava à opinião da maioria (pro contracepção) na comissão que ele tinha convocado, assim o fizesse, e escreveu a Humanae Vitae, na qual apoiava a opinião VERDADEIRA da minoria. Além do mais, creio que a mesma infalibilidade nunca permitirá que a Igreja siga a mensagem da Conferência Anglicana de Lambeth, que mudou a proibição do uso de anticoncepcionais nas igrejas protestantes, uma proibição que anteriormente tinha sido aceita por todas as igrejas cristãs.

No entanto, não acredito que seja impossível que um ensinamento infalível da Igreja seja negado FALÍVELMENTE por um Concílio ou por um Papa como já ocorreu algumas vezes na História da Igreja. Por exemplo, o Papa João XXII ensinou uma grave heresia, que ele mesmo revogou em seu leito de morte, escrevendo uma Bula que condenava seu próprio ensinamento, e que seu sucessor condenou como heresia. O Papa Libério assinou uma declaração semi-ariana que se desviava de alguma forma do dogma central da Igreja sobre a verdadeira divindade de Cristo e Santo Atanásio, que defendeu fervorosamente a verdade, foi várias vezes excomungado por esta defesa. Um Concílio queimou todos os escritos heréticos do Papa Honório que foi excomungado depois de morto. Por isso, ás vezes, – afortunadamente muito raramente, e nunca quando um Papa fala infalivelmente, declarando um dogma – um Papa pode cometer graves erros e inclusive cair em heresia. No meu último artigo eu não critico nem ataco ao Papa nem o acuso de heresia, só lhe faço algumas perguntas. Ninguém deveria esquecer que criticar uma afirmação não infalível do Papa ou uma opinião sua não é algo errado que faça mal à Igreja. O primeiro Papa, São Pedro, foi publicamente repreendido e criticado por São Paulo num Concílio e Santo Tomás fez uma grande defesa deste fato. O mesmo Cristo, logo depois de ter nomeado a São Pedro como primeiro Papa, e Pedra sobre a qual se construiria a Igreja, chamou-o de “Satanás”, e lhe disse: “Afasta-te de mim, Satanás!” e lhe acusou de querer impor seus pensamentos puramente humanos sobre os de Deus que incluíam os mistérios da Paixão e Morte de Jesus Cristo.

MH:  O Cardeal Walter Brandmueller recentemente discutiu publicamente a questão de uma profissão de fé papal, que frequentemente foi requerida em tempos de crise na Igreja. Poderia nos dizer se o senhor pensa que na situação atual tal profissão de fé papal seria útil?

JS:  Eu acredito que, se o Papa publicamente confessasse todo o verdadeiro Credo da Igreja Católica, seria realmente útil para trazer clareza e certeza a esta situação desesperadora e aparentemente confusa, mas provavelmente só um Concílio poderia pedir isto ao Papa ou ele teria que reconhecer pessoalmente que isto é útil.

MH: Os cardeais dos Dubia são repetida e duramente criticados por outros cardeais tais como o Cardeal Rodríguez e o Cardeal Schönborn. O senhor vê justificadas tais críticas ou qual seria sua resposta pessoal a estas reações de altos cargos contra os Dubia?

JS: Creio que os quatro cardeais dos Dubia (a três dos quais considero amigos e um deles amigo íntimo há 37 anos) atuaram de acordo com sua consciência com grande comedimento e respeito pelo Papa e com total justificação. Penso que as críticas que estão recebendo por seus Dubia são profundamente equivocadas, e o que é mais, o caluniar a estes grandes homens da Igreja é um grande pecado. Além disso creio que todo o Colégio Cardenalício deveria se unir a eles. Desde o meu ponto de vista todos os outros cardeais, bispos e todos os católicos, deveríamos apoiar aos quatro cardeiais (dos quais só restam três) e pedir-lhe ao Papa, junto com os Cardeais dos Dubia, uma resposta que restaurasse clareza e certeza e dissipasse a imensa confusão que reina agora e que ninguém que tenha olhos para ver e mente para pensar pode negar. Não são os Dubia, mas o fato de não responder às perguntas com sinceridade e com total claridade o que semeia a desconfiança sobre o Papa e provoca a confusão.

1 setembro, 2017

Liturgia. O contra-relatório do cardeal Sarah.

IHU – Claramente não é obra sua. Fazemos referência ao discurso que o Papa Francisco leu, no dia 25 de agosto, aos participantes da semana anual do Centro de Ação Litúrgica italiano. Um discurso cheio de referências históricas, de citações doutas com suas correspondentes notas, sobre uma matéria que ele nunca dominou.

sarahA reportagem é de Sandro Magister, publicada por Settimo Cielo, 29-08-2017. A tradução é do Cepat.

No entanto, é possível captar silêncios e palavras que refletem muito bem seu pensamento. O que mais deu o que falar foi esta declaração solene que fez a propósito da reforma litúrgica posta em marcha pelo Concílio Vaticano II: “Podemos afirmar com segurança e autoridade magisterial que a reforma litúrgica é irreversível”.

Tal declaração foi interpretada pela maioria como uma ordem do Papa Francisco para deter o suposto retrocesso iniciado por Bento XVI, com o motu proprio Summorum pontificum, de 2007, que restituía plena cidadania à forma pré-conciliar da missa em rito romano, permitindo sua livre celebração como segunda forma “extraordinária” do mesmo rito.

Efetivamente, no longo discurso lido pelo Papa Francisco, são citados em abundância Pio XPio XII e Paulo VI. Mas, ao contrário, nenhuma só referência a Bento XVI, grande estudioso da liturgia, ou a seu motu proprio, apesar de neste verão ter se completado, precisamente, o décimo aniversário de sua publicação.

Muito marginal é também a referência às enormes degenerações na qual caiu, infelizmente, a reforma litúrgica pós-conciliar, superficialmente denunciadas como “recepções parciais e práxis que a desfiguram”.

Silêncio total também sobre o cardeal Robert Sarah, prefeito da Congregação para o Culto Divino, e sobretudo a respeito de suas boicotadas batalhas em favor de uma “reforma da reforma”, que restitua à liturgia latina sua autêntica natureza.

Na sequência, o que publicamos é, de fato, o contra-relatório acerca do estado da liturgia na Igreja, que o cardeal Sarah publicou neste mesmo verão, alguns dias antes do discurso do Papa Francisco. Um contra-relatório centrado justamente em Bento XVIe no motu proprio Summorum pontificum.

Seu texto na íntegra pode ser lido em francês, no número de julho-agosto da publicação mensal católica La Nef.

Na continuidade, reproduzimos a tradução de algumas passagens.

Nela, o cardeal emite um objetivo futuro de grande importância: um rito romano unificado que una o melhor dos dois ritos pré-conciliar e pós-conciliar.

Naturalmente, não faltam referências a temas particularmente sensíveis para o cardeal Sarah: o silêncio e a oração dirigida ad orientem.

Contudo, também aborda o tema do abandono da fórmula “reforma da reforma”, rejeitada pelo próprio Papa Francisco e que se converteu em inservível. Em seu lugar, o cardeal Sarah prefere falar de “reconciliação litúrgica”, no sentido de uma liturgia reconciliada “consigo mesma, com seu ser profundo”.

Uma liturgia que saiba, efetivamente, acumular as “duas formas do mesmo rito” autorizadas pelo Papa Bento, “em um enriquecimento recíproco”.

Eis as reflexões do cardeal Robert Sarah

Por uma reconciliação litúrgica

“A liturgia da Igreja foi a atividade central de minha vida, converteu-se no centro de meu trabalho teológico”, afirma Bento XVI. Suas homilias continuarão sendo documentos insuperáveis, durante gerações. Contudo, é necessário também sublinhar a grande importância do motu proprio Summorum pontificum. Longe de se referir somente à questão jurídica do estatuto do antigo missal romano, o motu proprio delineia a questão da própria essência da liturgia e seu lugar na Igreja.

O que está em discussão é o lugar de Deus, o primado de Deus. Como ressalta o “Papa da liturgia”: “A verdadeira renovação da liturgia é a condição fundamental para a renovação da Igreja”. O motu proprio é um documento magisterial capital acerca do significado profundo da liturgia e, em consequência, de toda a vida da Igreja. Dez anos após sua publicação, é necessário fazer um balanço: realizamos estes ensinamentos? Nós os compreendemos em profundidade?

Estou intimamente convencido que ainda não foram descobertas todas as implicações práticas deste ensinamento… Quero apresentar, aqui, algumas de suas consequências.

Para um novo rito comum

Dado que há uma continuidade e unidade profundas entre as duas formas de rito romano, então, necessariamente as duas formas devem se iluminar e se enriquecer reciprocamente. É prioritário que, com a ajuda do Espírito Santo, examinemos, na oração e no estudo, como voltar a um rito comum reformado, sempre com a finalidade de uma reconciliação dentro da Igreja.

Seria belo que aqueles que utilizam o missal antigo observem os critérios essenciais da constituição sobre a sagrada liturgia do Concílio. É indispensável que estas celebrações integrem uma justa concepção da participatio actuosa dos fiéis presentes (SC 30). A proclamação da leitura deve poder ser compreendida pelo povo (SC 36). Do mesmo modo, os fiéis devem poder responder ao celebrante e não se limitar a ser espectadores alheios e mudos (SC 48). Por último, o Concílio faz uma convocação a uma nobre simplicidade do cerimonial, sem repetições inúteis (SC 50).

Caberá à comissão pontifícia Ecclesia Dei proceder em tal questão com prudência e de maneira orgânica. Pode-se desejar, ali onde for possível, e se as comunidades requererem, uma harmonização dos calendários litúrgicos. É necessário estudar os caminhos para uma convergência dos lecionários.

O primado de Deus

As duas formas litúrgicas fazem parte da mesma lex orandi. O que é esta lei fundamental da liturgia? Permitam-me citar, novamente, ao Papa Bento: “A má interpretação da reforma litúrgica que foi difundida durante muito tempo no seio da Igreja católicainduziu, cada vez mais, a colocar em primeiro lugar o aspecto da instrução, e o de nossa atividade e criatividade. O ‘fazer’ do homem provocou quase o esquecimento da presença de Deus. A existência da Igreja toma vida da celebração correta da liturgia. A Igrejaestá em perigo quando o primado de Deus já não aparece na liturgia e, como consequência, na vida. A causa mais profunda da crise que tem perturbado a Igreja, encontramos na obscuridade da prioridade de Deus na liturgia”.

Eis aqui, portanto, o que a forma ordinária deve voltar a aprender em primeiro lugar: o primado de Deus.

Permitam-me expressar humildemente meu temor: a liturgia da forma ordinária pode nos fazer correr o risco de nos distanciarmos de Deus por causa da presença massiva e central do sacerdote. Este está constantemente diante de seu microfone e tem, sem interrupção, a visão e a atenção dirigidas ao povo. É como uma tela opaca entre Deus e o homem. Quando celebrarmos a missa, coloquemos sobre o altar uma grande cruz, uma cruz bem visível, como ponto de referência para todos: para o sacerdote e para os fiéis. Assim teremos nosso Oriente, porque, em definitivo, o Oriente cristão, diz Bento XVI, é o Crucifixo.

Ad orientem

Estou convencido que a liturgia pode se enriquecer das atitudes sagradas que caracterizam a forma extraordinária, todos esses gestos que manifestam nossa adoração da santa eucaristia: juntar as mãos após a consagração, fazer a genuflexão antes da elevação e após o Per ipsum, comungar de joelhos, receber a comunhão nos lábios se deixando nutrir como uma criança, como Deus mesmo nos disse: “Eu sou o Senhor seu Deus. Abre sua boca, e eu a encherei” (Salmo 81, 11).

“Quando a visão sobre Deus não é determinante, todo o restante perde sua orientação”, disse-nos Bento XVI. Também o oposto é verdade: quando se perde a orientação do coração e do corpo para Deus, deixa-se de se determinar em relação a ele, perde-se o sentido da liturgia. Orientar-se para Deus é, antes de tudo, um fato interior, uma conversação de nossa alma para o Deus único. A liturgia deve operar em nós esta conversão para o Senhor que é o Caminho, a Verdade e a Vida. Por isso, essa utiliza sinais, meios simples. A celebração “ad orientem” é um deles. É um tesouro do povo cristão que nos permite manter vivo o espírito da liturgia. A celebração orientada não deve se converter na expressão de uma atitude facciosa e polêmica. Ao contrário, deve continuar sendo a expressão do movimento mais íntimo e essencial de toda liturgia: dirigir-nos ao Senhor que vem.

O silêncio litúrgico

Tive a oportunidade de ressaltar a importância do silêncio litúrgico. Em seu livro O espírito da liturgia, o cardeal Ratzinger escrevia: “Todo aquele que faça a experiência de uma comunidade unida na oração silenciosa do Canon, sabe que isto representa um silêncio autêntico. Aqui, o silêncio é, ao mesmo tempo, um grito poderoso, penetrante, lançado para Deus, e uma comunhão de oração repleta do Espírito”. Em seu momento, já havia afirmado com firmeza que recitar em voz alta toda a oração eucarística não era o único meio para obter a participação de todos. Temos que trabalhar para alcançar uma solução equilibrada e abrir espaços de silêncio neste âmbito.

A verdadeira “reforma da reforma”

Faço um chamado de todo o meu coração para que se coloque em andamento a reconciliação litúrgica ensinada pelo Papa Bento, no espírito pastoral do Papa Francisco! A liturgia nunca deve se tornar a bandeira de um partido. Para alguns, a expressão “reforma da reforma” se tornou sinônimo de domínio de um partido sobre o outro. Portanto, esta expressão corre o risco de se tornar uma expressão inoportuna. Prefiro, por conseguinte, falar de reconciliação litúrgica. Na Igreja, o cristão não tem adversários!

Como escrevia o cardeal Ratzinger: “Temos que voltar a encontrar o sentido do sagrado, o valor de distinguir o que é cristão do que não é. Não para levantar barricadas, mas para transformar, para sermos verdadeiramente dinâmicos”. Mais que “reforma da reforma”, trata-se de uma reforma dos corações! Trata-se de uma reconciliação das duas formas do mesmo rito, em um enriquecimento recíproco. A liturgia deve sempre se reconciliar consigo mesma, com seu ser profundo!

Iluminados pelo ensinamento do motu proprio de Bento XVI, confortados pela audácia do Papa Francisco, é o momento de chegar ao fundo deste processo de reconciliação da liturgia consigo mesma. Seria um sinal magnífico se pudéssemos, em uma próxima edição do missal romano reformado, incluir no apêndice as orações ao pé do altar da forma extraordinária, talvez em uma versão simplificada e adaptada, e as orações do ofertório que contêm uma epiclese tão bela que completa o Canon romano. Deste modo, ficaria manifestado que as duas formas litúrgicas se iluminam reciprocamente, em continuidade e sem oposição!

17 agosto, 2017

Bispos venezuelanos pressionaram Vaticano a rechaçar a Constituinte de Maduro.

Por Hermes Rodrigues Nery

Os bispos venezuelanos, pressionados pelo peso da realidade, é que pressionaram o papa Francisco a não ficar omisso diante da gravíssima crise da Venezuela, com o risco de comprometer toda a credibilidade internacional da diplomacia vaticana. Foi a pressão dos bispos que fez a Secretaria de Estado rechaçar a Constituinte de Maduro.

FratresInUnum.com – 17 de agosto de 2017: Foram os bispos venezuelanos que fizeram pressão para que o Vaticano rechaçasse a Constituinte de Nicolás Maduro. A situação da Venezuela se agravara de tal forma, que não havia mais como protelar o silêncio, a omissão, ou mesmo a ambiguidade de posição a respeito dos abusos de um regime político a devastar um país, com a maioria da população vulnerável à pobreza, ao despotismo e à violência.

papa_e_maduro94055Os fatos concretos mostravam o peso da realidade, que não era mais possível ignorar: o equívoco do projeto político da “Pátria Grande”, cuja integração latino-americana (visando a implantação do socialismo) dava evidências de falimento. Nesse contexto, a Venezuela passou a tornar-se um problema sério demais para o primeiro papa latino-americano, que recebera efusivamente os líderes dos movimentos populares de esquerda no Vaticano, como João Pedro Stédile, Evo Morales, e também o próprio Nicolás Maduro, dentre outros.

Phil Lawler destacou no Catholic Culture que “os bispos venezuelanos foram firmes e consistentes em sua oposição à campanha de Maduro para consolidar seu poder. (…) Do Vaticano, no entanto, houve silêncio. E Maduro, um demagogo hábil, não hesitou em chamar a atenção para esse silêncio, alegando que, enquanto os bispos venezuelanos se opõem a ele, o Papa não. Até apenas esta semana, não houve uma declaração clara do Vaticano para provar o erro de Maduro”. William McGurn destacou no Wall Street Journal que “o papa Francisco tem sido severo em seu julgamento sobre o tipo de ‘populismo’ praticado por Donald Trump, mas parece odiar denunciar o ‘populismo’ de uma esquerda latino-americana”.

Diante do cenário cada vez mais tenso na Venezuela, os analistas internacionais passaram a observar a postura do papa Francisco em relação aos desdobramentos da crise, pois muitos se recordavam do que ele dissera, com ênfase, ao Pe. Antonio Spadaro, na histórica entrevista da revista La Civiltà Cattolica: “nunca fui de direita”.

Ao falar sobre como os próprios líderes mundiais de esquerda avaliam Nicolás Maduro, Jacopo Barizaggazi mencionou Jorge Mario Bergoglio, afirmando: “O papa nascido na Argentina tem sido um forte apoio aos chamados líderes progressistas na América Latina, como Evo Morales, da Bolívia, e seus críticos o acusam de ambiguidade em relação ao governo na Venezuela. O Vaticano tentou mediar entre Maduro e a oposição, mas, em uma coletiva de imprensa, em abril, o papa parecia culpar a oposição pela falta de progresso, dizendo: ‘Parte da oposição não quer isso’. O analista do Vaticano, Sandro Magister, escreveu, em maio, que o papa foi “imperdoavelmente imprudente com Maduro e o chavismo”, além de ser “incompreensivelmente reticente às vítimas da repressão e à agressão que atinge a própria Igreja”.

O que o papa latino-americano poderia fazer caso a situação chegasse a um ponto em que não seria mais possível qualquer neutralidade, nem mesmo tibieza, especialmente quando os fatos comprovassem o horror de um regime político, com premissas e aspectos contrários à doutrina moral e social católica? Outros envolvimentos de Bergoglio no complexo contexto latino-americano geraram controvérsias, como o restabelecimento diplomático dos Estados Unidos e Cuba (Obama/Raul Castro, visando o fim do embargo a Cuba) e o polêmico “acordo de paz” entre o governo da Colômbia e os guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC).

A sua aposta política, em alguns casos, deixava brechas para os líderes de esquerda instrumentalizarem certos pronunciamentos e iniciativas de Bergoglio (que chocavam os católicos) para favorecer seus intentos políticos, como também, em certos aspectos, a agenda das fundações internacionais e das agências da ONU. Não apenas as declarações polêmicas e ambíguas, mas também as atitudes que alargavam tais brechas. Afinal, os católicos ficavam cada vez mais confusos e angustiados quando viam, por exemplo, as portas abertas do Vaticano para receber, com efusão, Gustavo Gutierrez, Jeffrey Sachs e Paul Ehrlich, enquanto Michel Schooyans e Christine Wolmer deixavam de ser vitalícios na Pontifícia Academia para a Vida, para dar lugar a outros, inclusive abortistas, como Nigel Biggar.

Com a Venezuela, o “papa político” fez mais uma vez uma aposta arriscada, ao receber Maduro no Vaticano (quando a crise já indicava abusos inaceitáveis) e a colocar o cardeal Pietro Parolin à frente de negociações em que, desde o início, os bispos venezuelanos sabiam que com Maduro não havia o que dialogar, pois o que ele queria mesmo era radicalizar o chavismo, com o qual estava comprometido. Não apenas Maduro, mas outras lideranças de esquerda esperavam que não viesse de Bergoglio uma condenação política explícita e contundente, a curto prazo, pois ele, “defendeu várias vezes um estado forte que forneça os bens de ‘casa, terra e trabalho’ para a população”, como destacou George Neumayr.

No entanto, nos últimos meses, o que os bispos desejavam era uma palavra mais firme do Vaticano justamente contra o bolivarianismo, que Maduro não estava disposto em ceder. Era evidente que o impasse chegaria, quando as consequências do regime fizessem vítimas fatais, como  já vinha acontecendo. O fato é que a situação na Venezuela passou a exigir mais do que uma tomada de posição, mas ações a requererem coragem e coerência. Por isso, os bispos venezuelanos buscaram a audiência com o papa, a fórceps, o que ocorreu em 8 de junho de 2017, como conta McGurn: “… uma reunião de seis bispos que foram obrigados ao horário de Francisco, quando eles voaram para Roma em junho – sem serem convidados.”

Os prelados levaram a Francisco a posição da realidade, como salientou o Pe. Raymond J. de Souza, no Crux: “Não há mais nenhuma dúvida. Maduro preside um regime desonesto que está matando seu próprio povo em defesa de uma ideologia socialista desacreditada. Por que o papa Francisco procuraria permanecer neutro entre esse regime e as massas sofredoras?” E então, os bispos apresentaram concretamente a lista dos mortos do regime de Maduro (muitos jovens), e disseram que não há como ser ambíguo nessa questão, pois do contrário a Igreja perderia credibilidade. A pressão dos bispos venezuelanos, portanto, foi decisiva para a Secretaria de Estado do Vaticano ter rechaçado a Constituinte de Maduro.

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16 agosto, 2017

Dom Becciu: ‘Impensável’ para a Ordem de Malta perder seu caráter religioso.

O delegado especial do Papa para a Ordem de Malta disse ao Register que ela jamais poderia ser dividida em setores religiosos e humanitários, e expressa confiança no futuro da instituição.

Por Edward Pentin, National Catholic Register, 5 de maio de 2017 | Tradução: FratresInUnum.com: A ideia de que a Soberana Ordem Militar de Malta perderia seu caráter religioso está fora de cogitação, já que sua dupla missão de defender a fé e servir aos pobres não pode ser separada, afirmou o delegado especial do Papa Francisco para a antiga instituição de cavalaria.

Dom Angelo Becciu.

Dom Angelo Becciu.

Nos comentários do dia 5 de Maio, logo após a eleição, na semana passada, de Fra ‘Giacomo Dalla Torre del Tempio di Sanguinetto como novo líder interino da Ordem, o arcebispo Angelo Becciu disse: “por mil anos a Ordem de Malta sempre foi considerada ‘religiosa’ e, portanto, a idéia de que deixaria de ser religiosa é impensável.”

“Desde a fundação da Ordem, o tuitio Fidei [defesa da fé] e o obsequium pauperum [serviço aos pobres], seus dois pilares, nunca foram separados, nem poderiam ser “, disse o Arcebispo Becciu.

“Este era o desejo do Bem Aventurado Gérard [fundador da Ordem no século 12] e sempre foi a tradição dos Cavaleiros de Malta”, acrescentou.

Os comentários do arcebispo italiano, a quem o Papa Francisco nomeou em fevereiro como seu representante para a Ordem, serviram para tranquilizar aqueles que temiam que uma facção dos cavaleiros, liderada por seus membros alemães e pelo Grão Chanceler Albrecht von Boeselager, levaria a antiga instituição a transformar-se em uma organização não-governamental quase secular, possivelmente, dividindo-se em ramos religiosos e humanitários.

Muitos dos membros professos da Ordem, que fizeram votos de pobreza, castidade e obediência, também foram tranquilizados na semana passada quando o arcebispo Becciu passou um dia inteiro ouvindo as suas preocupações individualmente, incluindo as do ex-Grão-Mestre, Fra ‘Matthew Festing. Além disso, eles ficaram impressionados com seu discurso, pronunciado logo após a eleição do dia 29 de abril, o que os deixou ainda mais à vontade.

Com um total de 55 membros, apenas os membros professos podem subir ao posto de Grão-Mestre e liderar a Organização. Nenhum dos membros alemães da Ordem são professos, mas estão ansiosos para “modernizá-la” e fazendo de tudo para tentar mudar essa regra, a fim de tomar as rédeas da Ordem.

Os desafios de Fra’ Giacomo

Este será um desafio-chave enfrentado pelo cavaleiro de 73 anos de idade, Fra ‘Giacomo, um clássico arqueólogo e versado em história da arte. Eleito por um ano para liderar a Ordem de Malta, irá assumir todos os poderes do Grão-Mestre, apesar de seu título oficial ser apenas “tenente”.

A instituição soberana, que remonta às Cruzadas, tem relações diplomáticas com 106 países, 13.500 membros, e mais de 100.000 voluntários e funcionários servindo os pobres e os doentes em todo o mundo.

O primeiro compromisso oficial de Fra’ Giacomo será conduzir a 59º Peregrinação da Ordem à Lourdes entre 5-9 maio, um dos eventos mais significativos na vida espiritual da Ordem, durante o qual 7.000 membros e voluntários de todo o mundo darão assistência a cerca de 1.500 peregrinos doentes e deficientes .

Igualmente, buscando avançar suas atividades diplomáticas, sociais e humanitárias, uma das principais tarefas de Fra Giacomo será reformar a Constituição e Código da Ordem, abordando “pontos fracos potenciais da instituição”, segundo um comunicado de 29 de abril.

Com referência à demissão e posterior reintegração de Von Boeselager, bem como a renúncia forçada de Fra ‘Matthew como Grão-Mestre, o comunicado disse que as crises recentes haviam revelado algumas fraquezas nos freios e contrapesos do governo da Ordem e a reforma visa levar isso também em consideração”.

Esses pontos fracos, dizem, incluem aspectos no governo de Fra ‘de Matthew que alguns críticos consideram como autoritários e que violam a constituição da Ordem. Mas, à parte disso, as reformas são vistas amplamente como necessárias, e o próprio Fra ‘Matthew queria implementá-las.

“A reforma também se concentrará no fortalecimento da vida espiritual da Ordem e no aumento do número de seus membros professos”, acrescentou o comunicado, dizendo que consultas nesse sentido “já haviam sido iniciadas.” Todas as mudanças deverão ser votadas e ratificadas.

Várias preocupações permanecem, no entanto, dentro da Ordem. Essas incluem como um fator chave na demissão de Von Boeselager — a comprovada distribuição de contraceptivos e abortivos pelo ramo humanitário da Ordem, a Malteser International – e isso parece ter sido relegado como algo de pouca importância, até para o Vaticano.

Von Boeselager negou a responsabilidade, dizendo que colocou um fim na distribuição o mais rápido possível. Seus aliados também alegam que foi tecida uma armadilha para ele através da adulteração de um relatório encomendado pela Ordem sobre o caso, muito embora pelo menos dois membros da Ordem publicamente disseram que o próprio Von Boeselager lhes havia dito em privado que ele aprovava a distribuição com essas palavras: “Nós temos que dar contraceptivos para os pobres ou eles morrerão “.

O papel do Cardeal Parolin

Outras preocupações relacionam a perda da soberania da Ordem à comissão estabelecida pela Santa Sé através do secretário de Estado do Vaticano, Cardeal Pietro Parolin, em dezembro para investigar a demissão de Von Boeselager. O cardeal do Vaticano e Von Boeselager são velhos conhecidos. As investigações não-publicadas da Comissão levaram à remoção de Fra ‘Matthew como Grão-Mestre pelo Papa — um cargo normalmente vitalício — e à reintegração controversa de Von Boeselager como Grão-chanceler. Há preocupação também sobre a influência dominante do Arcebispo Becciu no funcionamento de uma instituição soberana, e que o trabalho humanitário tomou precedência sobre a defesa da fé e da ortodoxia.

Um outro ponto de discórdia tem sido um fundo financeiro baseado na Suíça no valor de 120 milhões de euros, alguns dos quais doados à Ordem, bem como questões sobre a origem do dinheiro e para onde se destina. Três membros da comissão de cinco membros formadas pela Santa Sé em dezembro estão diretamente envolvidos com esse fundo financeiro.

Mas fontes envolvidas com esse fundo, chamada Caritas Pro GRADU Vitae (CPVG), vigorosamente negam qualquer malfeito e um relatório “independente” alegadamente demonstrando que os fundos são limpos, “sem nenhuma irregularidade fiscal” está previsto para ser publicado em breve. No entanto, até esse momento ainda não está claro quem encomendou o relatório e o quão independente ele é.

Da sua parte, o Arcebispo Becciu enfatizou em seu comentário do dia 5 de Maio que “a transparência financeira é exigida de toda instituição” e que a Ordem está “comprometida com a transparência e examinando todos os aspectos de sua vida e operação.”

Perguntado se, de acordo com alguns relatos, 30 milhões de euros do CPVG foram repassados ao Vaticano porque a Santa Sé  estava passando por problemas de liquidez, o delegado especial do Papa disse que tais alegações eram “completamente infundadas”.

Com relação à eleição de Fra Giacomo, o novo líder da Ordem é visto como um homem bom e decente, que vai acalmar provavelmente muitas das tensões que surgiram nos últimos meses. Mas ele é também visto como uma das opções daqueles que desejam modernizar a Ordem e torná-la mais secular, pois é visto como “maleável”. Aqueles preocupados com isso esperam que o Arcebispo Becciu tenha ouvido o bastante daqueles que buscam preservar sua natureza religiosa, e, portanto, capacitar a Ordem a manter a sua identidade.

O próprio arcebispo permanece otimista para o futuro. “Estou confiante por duas razões”, disse ao Register. “Primeiro, porque, com base em meus encontros com muitos membros da Ordem vi um claro desejo e empenho para superar as dificuldades e para aprofundar dons e pontos fortes da Ordem”.

“Em segundo lugar, porque sempre que há crise na Igreja, a Providencia intervém para o bem de todos e estou convencido de que o espírito de renovação ajudará a Ordem na medida em que ela considera o caminho da reforma à frente, de acordo com seus próprios meios e discernimento. “

15 agosto, 2017

Francisco impõe a concelebração nos colégios sacerdotais de Roma.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 28-06-2017 | Tradução: Hélio dias Viana – FratresInUnum.com: Corre no Vaticano este rumor. A um colaborador que lhe perguntou se era verdade que existe uma comissão para “reinterpretar” a Humanae vitae, o  Papa Francisco teria respondido: “Não é uma comissão, é um grupo de trabalho”. Não se trata apenas de artifícios linguísticos  para ocultar a verdade, mas de jogos de palavras que revelam como o culto da contradição constitui a essência deste pontificado. Mons. Gilfredo Marengo, coordenador do “grupo de trabalho”, resume  bem essa filosofia, quando afirma ser necessário fugir do “jogo polêmico ‘pílula sim – pílula não’, como também daquele atual ‘comunhão aos divorciados  sim – comunhão aos divorciados não’” (Vatican Insider, 23 de março de 2017).

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Esta premissa nos é necessária para apresentar um novo documento confidencial, resultado igualmente de outro “grupo de trabalho”. É o “working paper” [documento de trabalho] da Congregação do Clero “Sobre a concelebração nos colégios sacerdotais de Roma”, que circula de maneira reservada nos colégios e seminários romanos. O que emerge com clareza desse texto é que o Papa Francisco deseja impor de fato, embora ainda não de princípio, a concelebração eucarística nos colégios e nos seminários romanos, afirmando que “a celebração comunitária deve ser sempre preferida à individual”. 

O motivo dessa decisão emerge do documento. Roma não é somente a sede da Cátedra de Pedro e o coração da Cristandade, mas também o lugar para onde convergem sacerdotes e seminaristas de todo o mundo a fim de adquirir aquela veneração pela fé, pelos ritos e tradições da Igreja, chamado outrora de “espírito romano”. A permanência em Roma, que ajudava a desenvolver o amor à Tradição da Igreja, oferece hoje a oportunidade de uma “reeducação” doutrinária e litúrgica para aqueles que querem “reformar” a Igreja segundo as diretivas do papa Bergoglio. A vida nos colégios romanos – afirma com efeito  o  “working paper” –  oferece ocasião “para se viver ao mesmo tempo um período intenso  de formação permanente  integral”.

O documento recorda explicitamente um recente discurso dirigido aos sacerdotes que estudam em Roma, no qual o Papa Francisco lembrou a importância eclesial da concelebração no contexto da comunidade dos  sacerdotes estudantes: “Trata-se de um desafio permanente para superar o individualismo e viver a diversidade como uma dádiva, procurando a unidade do presbitério, que é sinal da presença de Deus na vida da comunidade. O presbitério que não mantiver a unidade, na realidade expulsa Deus do próprio testemunho. Não dá testemunho da presença de Deus. Rejeita-o. Deste modo, congregados em nome do Senhor, de maneira particular quando celebrais a Eucaristia, manifestais inclusive sacramentalmente que Ele é o amor do vosso coração” (Discurso de 1° de abril de 2017).

À luz dessa doutrina, o “working paper” da Congregação para o Clero reitera que a Missa concelebrada é preferível à celebração individual” (grifado no original, como também nas citações seguintes).

“Portanto, os Superiores são vivamente instados a encorajar a Concelebração, até mesmo várias vezes ao dia, na grande comunidade presbiteral. Em consequência, podem-se esperar várias celebrações nos Colégios, para que os presbíteros neles residentes possam participar de acordo com as próprias necessidades, cuidando de estabelecer dois ou três momentos ao longo do dia.” 

“Com efeito, os relacionamentos cotidianos, compartilhados diariamente e durante anos no mesmo Colégio Romano, são uma experiência importante na trajetória vocacional de cada sacerdote. Dessa maneira, na verdade se estabelecem vínculos de fraternidade e de comunhão entre os sacerdotes de diferentes dioceses e nações, que encontram uma expressão sacramental na celebração eucarística.”

“O distanciar-se das próprias diocese de incardinação e da missão pastoral por um tempo bastante longo garante certamente não só a formação intelectual, mas sobretudo oferece a ocasião de viver ao mesmo tempo um intenso período de formação integral permanente. Nesta perspectiva, a vida comum dos Colégios sacerdotais oferece esta modalidade de fraternidade sacerdotal, provavelmente nova em comparação com o passado. A experiência do Colégio representa uma oportunidade para uma frutuosa celebração da Eucaristia pelos sacerdotes. Portanto, a prática da Concelebração eucarística diária nos Colégios pode tornar-se uma oportunidade para o aprofundamento da vida espiritual dos sacerdotes, com importantes frutos, como: a expressão da comunhão entre os sacerdotes das várias Igrejas particulares, que se manifesta particularmente quando os Bispos das várias dioceses presidem a concelebração na ocasião das visitas a Roma; a oportunidade de ouvir a homilia feita por outro irmão; a celebração acurada, e mesmo solene, da Eucaristia cotidiana, o aprofundamento da devoção eucarística que cada sacerdote deve cultivar, além da própria celebração.”

 Entre as normas práticas indicadas,  lê-se:

“É recomendável que os sacerdotes possam participar ordinariamente da Concelebração eucarística nos horários previstos no Colégio, preferindo sempre a celebração comunitária à individual. Nesse sentido, os Colégios com um considerável número de sacerdotes hóspedes poderão estabelecer a Concelebração Eucarística em 2 ou 3 horários diversos no dia, de modo a permitir a cada um de participar de acordo com as  próprias necessidades pessoais, acadêmicas ou pastorais.” 

“Se os sacerdotes residentes no Colégio não puderem por razões particulares  participar da  Concelebração nos horários previstos,  devem preferir sempre celebrar juntos em outro horário mais conveniente.” 

É flagrante, e repetida em duas passagens do texto, a violação do cânon 902, segundo o qual “os sacerdotes podem concelebrar a Eucaristia; permanece íntegra, porém, a liberdade de cada um celebrar a Eucaristia individualmente”.  Em consequência, os colégios que aplicarem ao pé da letra o “working paper” infringirão a lei universal vigente.

Em 5 de março de 2012, por ocasião da apresentação do livro de Mons. Guillaume Derville, A concelebração eucarística. Do símbolo à realidade (Wilson & Lafleur, Montreal 2012), o cardeal Antonio Cañizares, então prefeito da Congregação para o Culto Divino, salientou a necessidade de “moderar” a concelebração, fazendo suas as palavras de Bento XVI: recomendo aos sacerdotes ‘a celebração diária da Santa Missa, mesmo quando não houver participação de fiéis’. Tal recomendação é ditada, antes de mais, pelo valor objetivamente infinito de cada celebração eucarística; e é motivada ainda pela sua singular eficácia espiritual, porque, se vivida com atenção e fé, a Santa Missa é formadora no sentido mais profundo do termo, enquanto promove a configuração a Cristo e reforça o sacerdote na sua vocação” (Exortação Apostólica Sacramentum Caritatis, n. 80).

A doutrina católica vê de fato na Santa Missa a renovação incruenta do Sacrifício da Cruz. A multiplicação das Missas dá mais glória a Deus e é um bem imenso para as almas. “Se cada Missa tem em si mesma um valor infinito – escreve Pe. Joseph de Sainte Marie –, as disposições dos homens para receber seus frutos são sempre imperfeitas e, nesse sentido, limitadas. Daí a importância do número de celebrações da Missa para multiplicar os frutos da salvação. Apoiada por este raciocínio teológico elementar, mas suficiente, a fecundidade salvífica da multiplicação das Missas também é comprovada pela prática litúrgica da Igreja e pela atitude do magistério. Dessa fecundidade, a Igreja – a história o ensina – tomou progressivamente consciência ao longo dos séculos, promovendo a prática e depois encorajando oficialmente cada vez mais a multiplicação das Missas” (L’Eucharistie, salut du monde, Dominique Martin Morin, Paris 1982 pp. 457-458).

Para os neo-modernistas, a Missa se reduz a uma assembleia, tanto mais significativa quanto maior for o número dos padres e dos fiéis que dela participam. A concelebração é entendida como um instrumento para fazer o sacerdote perder lentamente a consciência de seu caráter sacerdotal e de sua missão, que é unicamente a celebração do sacrifício eucarístico e a salvação das almas. Mas a diminuição das Missas e a perda do conceito verdadeiro do que é uma Missa constituem uma das principais causas da crise religiosa do nosso tempo. Agora, até mesmo a Congregação para o Clero, a mando do papa Bergoglio, faz sua contribuição para esse desmantelamento da fé católica.

14 agosto, 2017

“Gay se nasce”. Eminência Reverendíssima Cardeal Kasper, permita-me uma pergunta.

Por Luigi Amicone, 2 de outubro de 2015, Tempi | Tradução: FratresInUnum.com: “O teólogo reformista Kasper disse: ‘Gay se nasce. Não aos fundamentalistas em nome do Evangelho’.” É um título realmente sugestivo, caro Cardeal Walter Kasper, aquele que o Corriere dela Sera usou para apresentar a sua entrevista ao vaticanista do diário de Milão, Gian Guido Vecchi.

Agora, porém, o senhor deve nos dizer onde foi que erramos ao constatar apenas nas dez primeiras linhas de sua conversa um exemplo espetacular de confusão e, juntamente, uma politicagem em nada misericordiosa e de forma alguma pastoral.

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Cardeal Walter Kasper

Não esquecendo também que o senhor é, entre outras coisas, o autor do relatório apresentado no consistório extraordinário sobre a família que se tornou a base de discussão sobre o tema do Sínodo do dia 4 de outubro, deixamos claro a seguir o nosso pedido para que possamos ser contraditos, censurados ou esclarecidos por Sua Eminência Reverendíssima.

Quanto à politicagem, recordo-lhe o início da sua entrevista, onde diante da pergunta capciosa: “Por que existe tanta resistência, Eminência? Como na véspera do Sínodo do ano passado, desta vez surgiram até Cardeais assinando um livro em defesa do matrimônio e da família e também da “doutrina” … “e o senhor respondeu sinuosamente com um “mas, olha, eu não quero entrar nessa controvérsia. O Sínodo foi feito justamente para se discutir“. E logo em seguida partiu para o ataque: “Sim, alguns querem se fechar, não há nada para discutir, basta“.  Dá um suspiro – volta-se para o Corriere – sorri e diz :” Vê – o senhor continua, – existe um certo fundamentalismo… se faz uma ideologia para apoiar a própria tese…”.

Neste breve giro de palavras o senhor se permite fazer uma fogueira em torno dos autores do livro citado pelo seu entrevistador e sai catalogando de Carlo Caffara a Angelo Scola como “fundamentalistas” e “ideólogos”, seus colegas cardeais cuja única culpa é terem um pensamento diferente do seu.  E é isso que o senhor chama de “não entrar em controvérsias” e como uma “boa preparação do terreno das discussões sinodais”?

Segunda observação: a confusão. Após o ataque a seus colegas cardeais, encontramos esta bela pérola proferida pelo senhor, Eminência Reverendíssima (que o Corriere define, se não me engano, também a Botteghe Oscure, como “o ponto de referência dos reformistas”): “Para mim, essa inclinação (a homossexualidade, nota do editor) é um ponto de interrogação: ela não reflete o plano original de Deus, mas todavia é uma realidade porque gay se nasce”. Para dizer a verdade, Eminência, tivemos que esfregar os olhos, acreditamos ter lido errado. Então, resolvemos ler e reler, mas não há dúvida! O senhor realmente pede, como escreve entre aspas o Corriere, para que no Sínodo se abra um “diálogo” sobre a contracepção que já está difundida entre os fiéis (“Eu espero que sim, este cisma não pode durar“) e fala de acolhida e respeito pelos homossexuais: “Para mim, essa inclinação é um ponto de interrogação: não reflete o projeto original de Deus, mas todavia é uma realidade, porque gay se nasce“.

O senhor,  Eminência Reverendíssima, disse exatamente assim: “uma coisa é ‘o projeto original de Deus’, uma outra – porém – é o fato de que ‘gay se nasce’.” Ora, a perplexidade gerada por essas suas palavras é evidente e pedimos aos leitores que recorram a todos os seus recursos da lógica para nos responder: isso quer dizer que Sua Eminência Reverendíssima tem um questionamento? Deixemos de lado o debate sobre Igreja e homossexualidade, porque essa seria outra discussão. Existe algo muito mais radical em suas palavras. Na verdade, suas palavras, Eminência Reverendíssima, são claríssimas: o senhor diz que “a inclinação homossexual não reflete o projeto original de Deus” mas logo em seguida diz “todavia é uma realidade”, não porque a homossexualidade é uma realidade como o são um monte de outras coisas que também não refletem o projeto original de Deus (como colocar o dedo no nariz, roubar uma marmelada e até coisas mais graves), mas “porque gay se nasce.” Olha a confusão! Que pergunta pode surgir quando se afirma ao mesmo tempo o “projeto original de Deus” e o projeto original do “gay se nasce”?

Parece-me lógico deduzir que o senhor, Eminência Reverendíssima, está convencido de uma das duas coisas, e que a sua pergunta se coloca dentro da seguinte alternativa: ou Deus, se existe, não tem nada a ver com o nascimento (ergo, não tem nada a ver com a criação presente, Ele criou o mundo há algum tempo e depois deixou correr à revelia como um joguinho impulsionado por uma mola, o que seria uma patente heresia); ou Deus, se existe, adora criar coisas novas contrárias ao seu projeto inicial (heresia dupla). E aqui, na verdade, já podemos ir parando porque todo o resto, como diria o grande Cardeal Elio Sgreccia ao Avvenire, nasce de uma questão fundamental e radical: “A misericórdia é verdade vivenciada, não há separação. Não se pode separar em Cristo a verdade do amor”.

Para o senhor, no entanto, Cardeal Walter Kasper, tudo parece nascer de uma divisão original escondida como uma cobra no seio do próprio Ser. Existe a verdade, mas também não existe porque a realidade vai para outro lado e ao invés de chamar esse outro lado de “pecado”, ou seja, a experiência verdadeiramente histórica que o homem não consegue fazer em face da verdade que ele vê (“o bem que eu quero não faço, mas faço o mal que eu odeio”, diz São Paulo), o senhor prefere chamar de “misericórdia” a anestesia em cima do “eu não consigo”. Assim, existe o ideal: dizer aos jovens para se casar, afirmar que o Sacramento é obra de Deus que torna infinita, indissolúvel e para sempre a liberdade infinita de um homem e de uma mulher (exceto os casos nulos onde não existiu a liberdade e, portanto, não existe sacramento), exorta-os a desafiar as dificuldades, traições, modas e caprichos. Mas, logo em seguida, o senhor mesmo parece dar a entender que não acredita muito nesse ideal e procura camuflar seu ceticismo com a pastoral. Claro que existe uma pergunta que devemos fazer e que é a mesma que Sua Eminência também deveria fazer. E a pergunta é: afinal quem são mesmo os fundamentalistas e ideólogos?

19 julho, 2017

O escândalo do silêncio.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 20-06-2017 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.com: Os quatro cardeais autores dos “dubia” sobre a Exortação Amoris laetitia tornaram público, através do blog do vaticanista Sandro Magister, um pedido de audiência apresentado pelo cardeal Carlo Caffarra ao Papa em 25 de abril passado, uma vez que os “dubia” não obtiveram resposta. O silêncio deliberado do Papa Francisco – que, no entanto, recebe personalidades muito menos relevantes em Santa Marta para discutir questões muito menos importantes para a vida da Igreja – é a razão da publicação do documento.

No pedido filial de audiência, os quatro cardeais (Brandmüller, Burke, Caffara e Meisner) fazem saber que gostariam de explicar ao Pontífice as razões dos “dubia” e expor a situação de grave confusão e perplexidade em que se encontra a Igreja, especialmente no que diz respeito a pastores de almas, em particular os párocos.

Na verdade, no ano que transcorreu a partir da publicação da Amoris laetitia, “foram dadas em público interpretações de alguns passos objetivamente ambíguos da Exortação pós-sinodal, não divergentes do, mas contrárias ao permanente Magistério da Igreja. Conquanto o Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé tenha declarado mais de uma vez que a doutrina da Igreja não mudou, apareceram numerosas declarações de bispos, cardeais e até mesmo de conferências episcopais, que aprovam o que o Magistério da Igreja jamais aprovou. Não apenas o acesso à Santa Eucaristia daqueles que objetiva e publicamente vivem numa situação de pecado grave, e pretendem nela continuar, mas também uma concepção da consciência moral contrária à Tradição da Igreja. Sucede assim – oh, e quão doloroso é vê-lo! – que o que é pecado na Polônia é bom na Alemanha, o que é proibido na Arquidiocese de Filadélfia é lícito em Malta, e assim por diante. Vem-nos à mente a amarga constatação de B. Pascal: ‘Justiça do lado de cá dos Pirenéus, injustiça do lado de lá; justiça na margem esquerda do rio, injustiça na margem direita’ ”.

Não há escândalo nem transgressão no fato de os colaboradores do Papa pedirem uma audiência privada, e que no pedido descrevam, com parrhesia mas objetivamente, a divisão que a cada dia cresce na Igreja. O escândalo é a recusa do Sucessor de Pedro em ouvir aqueles que pedem para ser recebidos. Tanto mais quanto o Papa Francisco quis fazer do “acolhimento” a marca registrada de seu pontificado, afirmando em um de seus primeiros sermões em Santa Marta (25 de maio de 2013) que “os cristãos que pedem nunca devem encontrar portas fechadas”. Por que recusar audiência a quatro cardeais que não fazem senão cumprir o seu dever de conselheiros do Papa?

         As palavras dos cardeais são filiais e respeitosas. Pode-se supor que a intenção deles seja de procurar “discernir” melhor, em uma audiência privada, as intenções e os planos de Papa Francisco, e eventualmente de fazer ao Pontífice uma correção filial in camera caritatis. O silêncio do Papa Francisco em relação a eles é obstinado e descortês, mas expressa em sua teimosia a conduta daqueles que vão adiante em seu caminho com determinação. Dada a impossibilidade de uma correção privada, pela inexplicável recusa de uma audiência, também os cardeais deverão prosseguir com decisão em seu caminho, se quiserem evitar que na Igreja o silêncio seja mais forte que suas palavras.