Archive for ‘Cúria Romana’

7 março, 2019

O livro que quer transformar a Igreja em Sodoma.

Por FratresInUnum.com, 7 de março de 2019: Sodoma é o nome da cidade bíblica cujo fim está ligado ao castigo divino pela difusão do pecado sexual contra a natureza com pessoas do mesmo sexo (cf. Gen. XIX,1-26). Por isso, Frédéric Martel escolheu “Sodoma” como nome de seu livro acerca da homossexualidade no Vaticano, pois, segundo ele, a Igreja se tornou como que um refúgio para homossexuais.

Em recente entrevista, porém, Martel deixou bastante claros alguns de seus pressupostos, sem os quais seria impossível chegar a essa conclusão. Apresentaremos, primeiro, os pontos principais da entrevista e, em seguida, faremos uma análise crítica. Pedimos ao leitor a paciência de ler calmamente o nosso texto.

Análise dos principais pressupostos do livro

Em primeiro lugar, ele afirma que “a castidade é profundamente contranatura”. Este é o pressuposto central e principal para todas as conclusões a que chega o autor.

Além disso, Martel afirma que a Igreja é “um ambiente homoerótico e as pessoas heterossexuais não querem ir para lá, querem se casar” e que, portanto, “as figuras na Igreja mais fervorosamente a favor da castidade e do celibato são muitas vezes os padres homossexuais”.

Aqui, o autor mostra muito bem que a finalidade do seu escrito é, primeiramente, lançar sob suspeita todos os padres que preguem a castidade, que defendam o celibato e que, portanto, tenham atitudes mais espirituais, místicas e doutrinais.

Ademais, ele afirma claramente que “para mim um cardeal ou um bispo ser gay não é problema. Há um problema, sim, com a vida dupla, com a hipocrisia”. Em outras palavras, o autor, que é um homossexual confesso, declara que a homossexualidade em si não é um problema, mas, como todos os que a atacam, segundo ele, são homossexuais enrustidos, isto é uma hipocrisia da qual a Igreja tem que libertar os seus clérigos, pois, “a homossexualidade, quando é reprimida, quando a pessoa se odeia a si própria e se flagela, acaba por tornar-se um problema que vem à superfície”.

Deste modo, Martel afirma que a homossexualidade no clero é um fenômeno cuja abrangência é enorme, mas não é um problema em si — o problema é combatê-la.

Um último detalhe digno de nota é que ele se apresenta como grande defensor de Francisco, diz que, para escrever o seu livro, ficou hospedado no Vaticano (na residência Santa Marta, que é a única hospedagem intra muros, lugar onde, por mera coincidência, reside o pontífice argentino), mas se defende, negando que “foi o Papa que encomendou este livro e que foi por isso que a sua entourage me deu acesso ao Vaticano”. Teriam razão os antigos, quando afirmavam que “quem muito se defende, muito se acusa”?…

Passemos à análise crítica dos pressupostos declarados pelo autor em sua entrevista.

A castidade contranatura?

O pilar principal de todo o livro é que a “castidade é contranatura” e, portanto, que toda pregação acerca da castidade só pode ser sinal de hipocrisia ou de repressão, a qual depois explodiria sob a forma de abusos sexuais.

É óbvio que só uma pessoa que não pratica a castidade pode pensar que é impossível que alguém a pratique por pura virtude e também por graça de Deus, através de uma profunda vida de oração. Hoje, em um mundo tão erotizado e tiranizado pela luxúria, talvez seja mais raro encontrarmos pessoas espontaneamente castas, mas isso não era muito raro até alguns anos atrás. Fica fácil, portanto, enganar o leitor: toma-se uma espécie de clichê mental compartilhado socialmente como se fosse um absoluto inquestionável, ao qual o próprio autor se nega a comprovar, aliás, porque é totalmente falso.

A verdade é o contrário do que diz o autor, pois o ser humano é essencialmente dotado de razão e, portanto, capaz de dominar o seu instinto sexual pela razão, e é nisso que consiste a virtude da castidade. Nada mais conveniente à natureza humana…

A castidade é uma virtude extremamente humanizante, equilibradora da psique, tranquilizadora, elevada. O celibato é a verdadeira marca da consagração completa do sacerdote católico, totalmente absorvido na sua missão apostólica e desinteressado por qualquer outro bem que não o seu crescimento espiritual para a salvação das almas. É plenamente acessível a qualquer pessoa o testemunho de tantos cristãos que são felizes por praticar a castidade ainda hoje e o número imenso de celibatários que sempre foram a coroa da Igreja Católica.

No entanto, desde o início da modernidade, as sociedades ocidentais se tornaram vítimas de um violento processo de implosão da razão e hiper-estimulação das paixões, especialmente da libido, da pulsão sexual. São séculos de esforços para corromper a consciência das pessoas e tornar cada dia mais impossível o acesso à luz da razão e, portanto, totalmente inacessível a luz da fé, que é muito superior e mais sutil.

Chegamos ao ponto de que, como bem ilustra Martel, tornou-se quase impossível para muitos imaginar que existe um mundo para além dos limites tão estreitos da libido. O prazer venéreo tornou-se o único viés pelo qual estas pessoas enxergam o universo e, portanto, qualquer coisa que exista fora disso se lhes apresenta como hipócrita, ilógica, inexistente. Martel chega ao ponto de distorcer de tal modo a realidade que, para ele, se um padre se apresentar como celibatário e casto, espiritual e conservador, deve-se por força concluir que é um homossexual perigoso!

O mais incrível, porém, é como se conseguiu que os próprios sacerdotes da Igreja sucumbissem a esta desgraça e se tornassem materialistas práticos. Não é raro que encontremos padres que pensem exatamente como Martel, partindo do princípio de que a castidade é desumana e que a prática do sexo é como que um cume da vida do homem.

O Pe. Luís Correa Lima, jesuíta, por exemplo, escreveu há um ano um artigo intitulado “A fraternidade e a superação da violência contra LGBT”, no qual a única opção que lhe parecia razoável na pastoral da Igreja com pessoas homossexuais é a aceitação irrestrita das suas práticas sexuais. Ele raciocina como se a castidade não existisse, como se não fosse humanamente integradora, chegando a dizer que tem razão quem busca “almejar construir um mundo em que as pessoas possam viver e respirar dentro da sua própria sexualidade”. O Pe. James Martin, também jesuíta e predileto da corte de Papa Francisco, fez considerações muito similares durante o Encontro Mundial das Famílias. Estes são apenas dois exemplares de um cenário desolador.

A Igreja, um ambiente homoerótico?

Martel afirma que a Igreja é um ambiente homoerótico e que os heterossexuais não querem saber de castidade, mas querem se casar e ter filhos, e que, por fim, o clero superpopulou-se de gays que se escondem por trás de suas batinas.

A afirmação de Martel é tão evidentemente verdadeira do ponto de vista estatístico que chega a confundir o leitor, visto que o número de padres homossexuais é gritantemente enorme.

Contudo, Martel toma como pertencente à essência do sacerdócio celibatário aquilo que é apenas uma anormalidade das últimas décadas. Qualquer pessoa um pouco mais velha sabe que, embora hoje haja um número tão assustador de homossexuais no clero, há cinquenta anos a Igreja simplesmente não era assim. É verdade que sempre existiram casos de padres que praticaram a homossexualidade, mas eram a exceção e não a regra.

Os padres antigos eram desbravadores, conhecidos por sua virilidade e coragem de sua pregação, tiravam do nada Igrejas pujantes, eram homens de reputação ilibada, venerados pela população, influentes desde o ponto de vista político e respeitados moral e intelectualmente. Quanto mais os bispos e cardeais!…

Foi nas últimas décadas que a prática da homossexualidade tornou-se tão generalizada no clero católico. Mas, antes, não era assim. Como chegamos a este ponto?

A homossexualização do clero católico: um projeto de corrupção

É preciso dizer os fatos com clareza: os seminários católicos sofreram a infiltração sistemática de agentes externos que disseminaram homossexuais por toda a estrutura da Igreja com o fim de destruí-la, e isso em todos os graus da hierarquia.

Neste sentido, o estudo de Michael Rose, “Adeus Homens de Deus” (Editora Ecclesiae, Campinas: 2015) apresenta uma vasta documentação que não deixa margem para dúvidas. Temos o testemunho confesso da principal agente desta trama. O livro precisa ser lido para que todos entendamos a monstruosa operação realizada para corromper a Igreja.

No Brasil, tivemos um caso bastante similar, cujos bastidores foram revelados por um infiltrado de uma sociedade secreta na Igreja Católica muito conhecido nas décadas de 70 e 80, chamado Neymar de Barros. Os seus dois livretes, A verdade sobre Neymar de Barros, volumes I e II (Editora Exodus, São Paulo: 1987), contam como ele forjou sua conversão para recolher dados do clero a fim de que a sociedade secreta que lhe contratara difundisse a homossexualidade entre os padres. Ele chega mesmo a apresentar uma pesquisa que realizaram acerca da porcentagem de homossexuais no clero brasileiro por volta do ano de 1978 (vol. II, p. 70).

Em todo caso, os elementos principais para a difusão do homossexualismo no clero foram a perseguição sistemática dos seminaristas heterossexuais, católicos devotos, com princípios morais claros e com doutrina segura; e a promoção de homossexuais declarados, a destruição da dogmática, da moral e, sobretudo, da espiritualidade, com a completa propagação do liberalismo total nos costumes, que serviu como uma espécie de oxigênio moral para os homossexuais no clero, e da construção de uma apologia teológica da homossexualidade que chegou a constituir aquilo que hoje em muitos grupos se chama de homo-heresia, uma reinterpretação completa da doutrina católica em termos homossexuais, que se tornou o oxigênio intelectual para esse disparate.

Aos poucos, construiu-se aquilo que Michael Vorris chama de “A rede” (The Network), uma verdadeira organização comunista e homo-herética que ocupou a Igreja Católica em todos os níveis. O próprio Martel deixa muito claro em sua entrevista que não há problema nenhum em ser padre gay, nem muito menos em ter um amante – ele diz que acha isso lindo! –, mas que o problema é ser um padre gay de direita, embora ele mesmo faça a distinção de um sub-grupo, ao qual ele chama de homófilos, que são os homossexuais não praticantes no clero católico – com essa distinção, Martel apenas está mencionando os eventuais homossexuais não militantes, ou seja, aqueles que não são membros de “A Rede”.

“A Rede” é constituída por clérigos homossexuais ostensivos, que se protegem e se “reproduzem”, atraindo para os seminários gays de todas as proveniências possíveis, e que se auto-promovem para os cargos de maior expressão na Igreja, tentando manipular a sua doutrina e teologia em seu próprio favor.

Em outras palavras, o livro de Martel, na tentativa de colocar um sinalizador sobre os padres conservadores, o que faz é colocar um sinalizador sobre os membros de “A Rede”. Agora, ficou muito fácil identificá-los. Ele mesmo protegeu a identidade de todos os seus entrevistados, que não são outros que os próprios entrevistados de “A Rede”, de Vorris. Nunca “A Rede” foi tão longe, nunca se exprimiu tão claramente e nunca os seus objetivos ficaram tão claros. Martel disse que suas gravações explodiriam com o Vaticano. Não! Explodiriam apenas com “A Rede”.

Entretanto, não deixa de ser curioso como “A Rede” conseguiu atingir tão alta influência.

Papa Francisco, o Papa de “A Rede”

Martel apresenta o pontífice argentino como uma espécie de Gorbatchev, que tenta salvar o sistema e, para isso, mudá-lo. Ele defende Francisco contra todo o “complô” que ele diz ter se instado para persegui-lo. No final, defende-se contra a acusação de ser um marionete de Bergoglio e chega a falar demais, reclamando de que alguns digam que o livro foi encomendado pelo papa.

De fato, não temos como saber se o livro foi pessoalmente encomendado por Francisco. Contudo, é evidente que ele protege de modo muito claro os membros de “A Rede” e toda a sua linha de ação é muito coerente com a intenção de “Sodoma”. O próprio Martel o reconhece, mostrando a conexão de tudo isso com o sínodo sobre as famílias, que criptograficamente abriu a comunhão aos divorciados recasados e também não mencionou com letras claras nenhuma condenação às práticas homossexuais e às uniões gays. É evidente que as observações de Martel vão na mesma linha das ações de Papa Francisco: de um lado, visam a plena cidadania gay na Igreja Católica e, de outro, a ordenação de homens casados, que garantiria o coeficiente heterossexual no clero, segundo os princípios homossexualistas do autor.

Em todo caso, Papa Francisco é o papa sob medida para “A Rede” e os seus planos manipuladores. Assim como as Fundações internacionais usam o aborto para corromper as mulheres e destruir, assim, as sociedades; “A Rede” está usando o homossexualismo para corromper o clero e, assim, destruir a Igreja. Isso não é propriamente uma novidade.

No início do século XIX, as forças secretas na Itália publicaram um conhecido documento chamado “Instrução permanente para a Alta Venda”. Ali, eles afirmam:

– “O Papa, quem quer que seja, jamais virá às Sociedades secretas; cabe às Sociedades secretas dar o primeiro passo em direção à Igreja, com o objetivo de vencer os dois”.

– “Não pretendemos ganhar os Papas para a nossa causa, fazê-los neófitos dos nossos princípios, propagadores das nossas ideias… O que devemos pedir, o que devemos procurar e alcançar, assim como os judeus esperam do Messias, é um papa segundo as nossas necessidades. Alexandre VI, com todos os seus crimes privados, não nos conviria, porque jamais errou nas matérias religiosas”.

– “Esmagai o inimigo, qualquer que ele seja, esmagai o poderoso à força de maledicências ou de calúnias: mas, sobretudo esmagai-o no ovo. É preciso ir à juventude; é ela que precisamos seduzir, é ela que devemos arrastar, sem que o perceba, sob a bandeira das Sociedades Secretas”.

– “Ora, pois, para garantir-nos um Papa nas proporções exigidas, trata-se inicialmente de moldar para ele uma geração digna do reino com o qual sonhamos. Deixai de lado a velhice e a idade madura; ide à juventude e, se for possível, até à infância… Uma vez estabelecida vossa reputação nos colégios, nos ginásios, nas universidades e nos seminários, uma vez que tiverdes captado a confiança dos professores e dos estudantes, fazei com que principalmente aqueles que se comprometem com a milícia clerical gostem de procurar vossas conversas”.

– “Essa reputação permitirá o acesso das nossas doutrinas ao seio do clero jovem, assim como ao fundo dos conventos. Em alguns anos, esse clero jovem terá, pela força das coisas, invadido todas as funções; ele governará, administrará, julgará, formará o conselho do soberano, será chamado a escolher o Pontífice que deverá reinar, e esse Pontífice, como a maioria dos nossos contemporâneos, estará necessariamente mais ou menos imbuído dos princípios humanitários que iremos começar a pôr em circulação; é um pequeno grão de mostarda que confiamos à terra; mas o sol das justiças desenvolvê-lo-á até ao mais alto poder, e vereis um dia que rica colheita esse pequeno grão produzirá”.

Alguém ignorará que Francisco é este papa não apenas esperado, mas preparado por décadas de infiltração? Fingiremos que a publicação do livro de Martel no primeiro dia do encontro sobre o abuso sexual de menores no Vaticano é uma mera coincidência? Não se trata de um diagnóstico sobre “Sodoma”, mas de sua apologia, implantação e apogeu na Igreja.

Já é hora de acordar. A Igreja está quase completamente tomada pelos seus inimigos. Corromperam a maior parte do clero e, agora, querem expelir a pequena porção ainda saudável que mantém a Igreja em pé…

Ficaremos parados? Cruzaremos os braços? Não! A Promessa da Santíssima Virgem é clara! Como leigos, resistiremos a esse massacre e o enfrentaremos nem que seja à custa de morte. A esta “Rede” maligna opomos outra rede, a rede dos consagrados à Santíssima Virgem! É hora de reagir!

Assim como da primeira vez, sobre “Sodoma” cairá o fogo do céu! A Igreja, como a família do justo Lot, não toma parte nesta iniquidade e não recuará nenhum milímetro. São duas cidades em luta: de um lado, Sodoma; doutro lado, a Jerusalém Celeste! Reconheceremos estes prevaricadores onde estiverem e os denunciaremos. Se eles não temem mais a Igreja, temerão o povo!

Continuaremos fieis à virtude, conservaremos a fé, manteremos íntegra a observância do celibato e teremos inteiramente inabalável o fogo da nossa entrega, pois sabemos que, como disse Nossa Senhora em Fátima: “no fim o meu Imaculado Coração triunfará”!

21 fevereiro, 2019

Clamoroso: o livro Sodoma, de Frederic Martel, afirma que o Papa sabia de McCarrick. A corte confirma.

Por Marco Tosatti, 17 de fevereiro de 2019 | Tradução: FratresInUnum.com – Sodoma, o livro de Frederic Martel sobre o qual tratamos recentemente, traz informações clamorosas. Segundo o autor, na versão inglesa do texto, que aqui apresentamos traduzida, Papa Bergoglio foi realmente informado pelo Arcebispo Carlo Maria Viganò do passado predatório [do ex-cardeal McCarrick, reduzido ao estado laical na semana passada] contra seminaristas e jovens padres, mas não considerou o fato tão relevante.

McCarrickE, consequentemente, não só ele levantou as restrições que Bento XVI impôs (cuja existência foi confirmada, para além de Viganò, pelo Cardeal Marc Ouellet), mas o utilizou como conselheiro em nomeações nos Estados Unidos (a promoção de Kevin Farrell a Camerlengo e a delegação a Blase Cupich da organização do encontro sobre abuso de crianças são as mais recentes confirmações, se é que eram necessárias), bem como fez de McCarrick seu representante pessoal tanto nos Estados Unidos (com Obama), como fora, na China, Armênia, Irã e Cuba.

Em nossa opinião, trata-se de um caso extraordinariamente interessante de “fogo amigo”; pois, se há alguém de quem Frederic Martel fala bem, quando não entusiasticamente, em seu longo trabalho, este alguém é realmente o Papa Bergogio. Martel, como sabemos, foi ajudado e hospedado por prelados no Vaticano, a fim de desenvolver seu trabalho. Em uma entrevista na televisão, ele mencionou ao menos quatro altos prelados próximos ao Papa, que ajudaram e o encorajaram. Ele afirmou ter se encontrado com o diretor da Civiltà Cattolica, Antonio Spadaro, SJ, diversas vezes; no livro, há uma entrevista com Spadaro, e uma entrevista com o Cardeal Lorenzo Baldisseri, o grande diretor dos Sínodos (mais ou menos pré-arranjados) sobre a família e os jovens. Ele é um “famiglio” do Pontífice, homem de sua confiança. Então, devemos crer em Martel, particuparlmente porque ele coloca a frase central entre aspas. Eis aqui o pequeno trecho que traduzimos:

… Cardeais e bispos da Cúria Romana e do episcopado americano que, segundo ele, participaram desse enorme acobertamento: é uma lista interminável de nomes de prelados, entre os mais importantes no Vaticano, que foram “relevados”, independentemente de correta ou erroneamente (quando o Papa rejeitou as acusações, seu entorno me confirmou que Francisco ‘foi inicialmente informado por Viganò que o Cardeal McCarrick havia tido relações homossexuais com seminaristas maiores de idade, o que não era o bastante para, a seus olhos, condená-lo’).

Se Martel escreve a verdade — e não há razão para crer o contrário, uma vez que ele, certamente, não é um conservador homofóbico fariseu moralista e hipócrita — algumas considerações são necessárias.

A primeira: embora os seminaristas não eram menores, se uma pessoa hierarquicamente em posição superior, e que pode decidir o futuro de seus subordinados, abusa sexualmente deles, não se trata de uma questão de sexo entre adultos com consentimento: há uma forma de violência. Agora, sabemos que isso não parece importante ao Pontífice. Ou, ao menos, não tão importante, pelo menos para não favorecer ou usar o abusador até esse vínculo se tornar muito embaraçoso, para daí sacrificá-lo à opinião pública.

Depois: são meses e meses que os católicos estão esperando por uma resposta: Viganò mentiu ou não? Parece que, segundo Martel, e de acordo com a corte do Pontífice, ele falou a verdade.

Então, por que não admiti-lo? Por que não dizer, como homem e como cristão, “é verdade, eu fui advertido, mas, pensei que não era tão grave. Equivoquei-me no meu juízo, perdão”?

Tal comportamento teria um efeito muito diferente do que as reações ferozes com que os homens do pontífice, apoiados pela mídia complacente, partiram para a agressão à pessoa de Viganò, tentando atribuir a ascensão e a glória de McCarrick a papas anteriores, tentando negar que Bento XVI lhe tenha imposto restrições possíveis ao estado das coisas de então, e que essas restrições foram, de fato, canceladas pelo Papa Bergoglio. Não nos esqueçamos que o Núncio Viganò escreveu ao Cardeal Parolin, Secretário de Estado, perguntando se as sanções contra McCarrick deveriam ser consideradas abolidas. Sem nunca receber uma resposta…

Uma considerações final a respeito do cinismo implícito à reação do Pontífice.

Para esclarecer um tema dramático, os de minha idade se lembram das manifestações políticas da década de 70. Parafraseando um slogan muito usado naquela época, podemos dizer: “É o Papa — que ensinou — um padre que tenha assediado — não está errado” (ou em pecado, se você é um rígido fariseu).

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20 fevereiro, 2019

Também o encontro sobre abusos cria sérios “dubia”. A carta aberta de dois cardeais.

Por Sandro Magister, 19 de fevereiro de 2019 | Tradução: FratresInUnum.com

Até um mês atrás, a dupla finalidade da reunião que, de 21 a 24 de fevereiro, congregará em torno do Papa os chefes da hierarquia católica mundial, era a “proteção de menores e adultos vulneráveis”, como escreveu Francisco, na “carta ao povo de Deus” publicada em 20 de agosto.

CupichProva disso era a edição de “L’Osservatore Romano” de 11 de janeiro, que, ao fim da primeira página de Andrea Tornielli, diretor editorial de todos os meios de comunicação vaticanos e porta-voz do Papa, deixava clara a dupla finalidade, inclusive no título:

> Incontro tra Pastori…

No entanto, mais tarde os “adultos vulneráveis” desapareceram da agenda oficial do encontro. E, com eles, a questão dos abusos homossexuais contra jovens, muitos jovens, apesar de eles constituírem, estatisticamente, a maior parte dos abusos cometidos pelo clero.

Na concorrida coletiva de imprensa de 18 de fevereiro, na qual se apresentava a reunião (foto), o Cardeal Blase Cupich, número um da comissão organizadora, insistiu, pelo contrário, em negar que a prática homossexual seja a causa dos abusos, apesar de ter dito que a diminuição dos delitos nos últimos anos, nos Estados Unidos, se deu também por conta da investigação detalhada de aspirantes ao sacerdócio, excluindo os que eram de “risco”.

É fato que se proibiu não só a questão da homossexualidade no clero, mas também a própria palavra “homossexualidade”, que não aparece no relatório de informação sobre o encontro colocado à disposição de todos os meios de comunicação do mundo:

> Incontro: La protezione dei minori nella Chiesa. Vaticano, 21-24 febbraio 2019

A eliminação da questão da homossexualidade da agenda do encontro é claramente fruto de uma decisão do Papa Francisco, na qual não escondeu estar mais convencido que não se trata de abusos sexuais, mas de abuso de poder; não de pessoas individuais, mas de uma casta, a casta clerical.

Mas, muitos na Igreja duvidam que tudo deva se reduzir ao “clericalismo”.

Não é a primeira vez que Francisco cria “dubia” na doutrina, na moral e na praxis. Continuam sendo memoráveis o que denunciaram quatro cardeais depois da publicação de “Amoris Laetitia”, ao que o Papa nunca deu resposta.

E agora, novamente, dois desses cardeais, o alemão Walter Brandmüller e o americano Raymond Leo Burke, acreditaram ser seu dever vir à luz pública com a carta aberta que publicamos a seguir, dirigida aos bispos que participarão do encontro sobre a “proteção dos menores”.

Eles fazem um chamamento urgente a não permanecer calados diante de outra “chaga [que é] a agenda homossexual”, que invadiu a Igreja e que, na sua opinião, é um abandono da “verdade do Evangelho” e, consequentemente, também está na original da crise de fé atual.

Na reunião dos próximos dias, comprovar-se-á em que medida será escutado este apelo.

* * *

CARTA ABERTA AOS PRESIDENTES DAS CONFERÊNCIAS EPISCOPAIS

Tradução: Dubia

Caros irmãos, Presidentes das Conferências Episcopais,

É com profunda aflição que nos dirigimos a todos vós!

O mundo católico está desorientado e levanta uma pergunta angustiante: para onde está a ir a Igreja?

Diante desta deriva, hoje em curso, pode parecer que o problema se reduz ao problema dos abusos de menores, um crime horrível, especialmente se perpetrado por um sacerdote, que, todavia, não é senão uma parte de uma crise bem mais ampla. A chaga da agenda homossexual difunde-se no seio da Igreja, promovida por redes organizadas e protegida por um clima de cumplicidade e de conspiração de silêncio (“omertà”). Como é evidente, as raízes deste fenómeno encontram-se nessa atmosfera de materialismo, relativismo e hedonismo, em que se põe abertamente em discussão a existência de uma lei moral absoluta, ou seja, sem excepções.

Acusa-se o clericalismo de ser responsável pelos abusos sexuais, mas a primeira e a principal responsabilidade do clero não recai sobre o abuso de poder, mas em se ter afastado da verdade do Evangelho. A negação, até mesmo em público, por palavras e nos factos, da lei divina e natural, está na raiz do mal que corrompe certos ambientes da Igreja.

Diante de tal situação, cardeais e bispos calam. Também vós vos calareis aquando da reunião convocada para o próximo dia 21 de Fevereiro, no Vaticano?

Em 2016, estivemos entre os que interpelaram o Santo Padre acerca dos “dubia” que dividiam a Igreja após a conclusão do Sínodo sobre a família. Hoje, esses “dubia” não só continuam sem receber qualquer resposta, mas são apenas parte de uma crise da fé mais geral. Por isso, vimos encorajar-vos a que levanteis a vossa voz para salvaguardar e proclamar a integridade da doutrina da Igreja.

Rezamos e pedimos ao Espírito Santo para que assista a Igreja e ilumine os pastores que a guiam. Neste momento, é urgente e necessário um acto resolutório. Confiamos no Senhor que nos prometeu: “Eu estarei sempre convosco até ao fim dos tempos” (Mt 28, 20).

Walter Card. Brandmüller

Raymond Leo Card. Burke

 

 

3 dezembro, 2018

“Francisco está errado”, afirma Mons. Nicola Bux.

Por Gloria.tv, 16 de novembro de 2018 – Papa Francisco está gerando “heresias, cismas e  controvérsias”, disse o prelado italiano Nicola Bux, amigo de Bento XVI e conselheiro da Congregação para as Causas dos Santos, ao jornalista italiano Aldo Maria Valli em 13 de outubro.

D. Nicola Bux.Bux mencionou as “declarações heréticas” de Francisco sobre o casamento, a vida moral e a recepção dos sacramentos, e que ele vê a Igreja como uma federação de comunidades eclesiais” – “um pouco como as comunidades protestantes”.

Segundo Bux, a origem da confusão doutrinária causada por Francisco é Amoris Laetitia(2016), mas desde então a situação tornou-se “consideravelmente pior” e “mais complicada”.

Bux refere-se à tentativa de Francisco de mudar a doutrina sobre a pena de morte. Se Francisco está certo sobre isso – ressalta Bux – então devemos concluir que a Igreja contradiz o Evangelho há dois mil anos ou tem que admitir que o Papa Bergoglio está se equivocando.

* * *

A matéria original a respeito das declarações de Mons. Nicola Bux ainda afirma::

Para abordar a atual crise, ele sugeriu que é necessário examinar a “validez jurídica” da renúncia do Papa Bento XVI para “superar problemas que hoje nos parecem insolúveis”. O teólogo, consultor da Congregação para a Causa dos Santos, implicou que o futuro estudo dessa situação poderia revelar que Francisco não foi eleito como um papa válido, mas seria, de fato, um anti-papa que poderia ser deposto do papado, anulando, assim, seus erros “insolúveis”.

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20 novembro, 2018

Vaticano destrói outra comunidade: 90% das freiras vão embora.

Por Gloria.tv, 11 de novembro de 2018 | Tradução: FratresInUnum.com – 34 das 39 freiras das Pequenas Irmãs de Maria pediram para ser dispensadas de seus votos. Fundada em 1949, elas administram quatro casas de misericórdia nas dioceses de Laval e Toulouse (França). As irmãs fazem uso do Novus Ordo em latim. Em 2012, elas se voltaram para o “vetus ordo”.

zi82f9tqq7mvhkdds7vob2zszhkdds7vob2zwA comunidade passou por duas visitas canônicas em 2016 e em 2018 foi acusada de “excessivo sectarismo”. As irmãs definiram o relatório emitido após a segunda visita como “uma caricatura” e um “preconceito”.

A madre superiora e a mestra das noviças foram exiladas para mosteiros distantes e substituídas por três comissárias modernistas. Todos os recursos canônicos e pedidos de misericórdia foram ignorados.

Uma comissária, irmã Geneviève Médeviellem, ensina no Instituto Católico de Paris e afirma que a fornicação é justificável.

Em 17 de setembro, o cardeal Braz de Aviz, responsável pela Congregação para os Religiosos, ordenou que as freiras aceitassem a intervenção “sem reservas” para não serem removidas.

34 freiras anunciaram no dia 7 de novembro que haviam decidido, em consciência, pedir a dissolução de seus votos.

No passado, o Vaticano já havia destruído as Irmãs de Auerbach (Alemanha), as Irmãs contemplativas de São João (França) e as Irmãs Franciscanas da Imaculada (Itália). Todas essas comunidades foram abençoadas com muitas vocações.

23 outubro, 2018

Viganò responde ao Cardeal Ouellet. O terceiro testemunho.

Mons. Carlo Viganò responde às objeções de seu antigo companheiro de cúria romana, o Cardeal Marc Ouellet.

Fonte: Marco Tosatti | Tradução: FratresInUnum.com

19 de outubro de 2018

Na memória dos mártires da América do Norte

Testemunhar a corrupção na hierarquia da Igreja Católica tem sido para mim uma decisão dolorosa e ainda o é. Mas eu sou um homem já velho, que sabe que em breve terá que prestar contas ao justo Juiz por suas ações e omissões, que teme Aquele que tem o poder de jogar corpo e alma no inferno.

Dom Carlo Maria Viganò.

Dom Carlo Maria Viganò.

Juiz, que apesar de sua infinita misericórdia, “dará a cada um segundo os méritos, a recompensa ou o castigo eterno” (Ato de fé). Antecipando a terrível pergunta daquele Juiz: “Como você pôde, você que estava ciente da verdade, permanecer em silêncio no meio de tanta falsidade e depravação?” Que resposta eu poderia dar?

Eu falei tendo plena consciência de que o meu testemunho iria provocar alarme e consternação em muitas pessoas eminentes: eclesiásticos, irmãos no Episcopado, colegas com quem trabalhei e rezei. Eu sabia que muitos deles se sentiriam magoados e traídos. Eu sabia que alguns deles iriam me acusar e questionar minhas intenções. E, o mais doloroso de tudo, eu sabia que muitos fiéis inocentes ficariam confusos e perplexos com o espetáculo de um bispo que acusa seus irmãos e superiores de malfeitos, pecados sexuais e grave negligência no seu dever. No entanto, acredito que meu contínuo silêncio teria posto em perigo muitas almas e certamente teria condenado a minha própria. Apesar de ter reportado várias vezes aos meus superiores, e até mesmo ao Papa, sobre as ações aberrantes de McCarrick, eu poderia ter denunciado antes e publicamente as verdades das quais eu estava ciente. Se existe alguma responsabilidade da minha parte por esse atraso, eu me arrependo, pois foi devido à gravidade da decisão que eu estava prestes a tomar e ao longo conflito da minha consciência.

Eu fui acusado de ter criado com o meu testemunho confusão e divisão na Igreja. Esta afirmação só pode ter algum fundo de verdade para aqueles que acreditam que tal confusão e divisão eram irrelevantes antes de Agosto de 2018. Qualquer observador desapaixonado, no entanto, já teria sido capaz de ver bem a presença prolongada e significativa de ambos, algo inevitável quando o Sucessor de Pedro se recusa a exercer sua principal missão, que é confirmar seus irmãos na fé e na sólida doutrina moral. Quando, pois, com mensagens contraditórias ou declarações ambíguas, a crise é agravada, a confusão só piora.

Então, eu falei. Porque é a conspiração do silêncio que causou e continua a causar enormes danos à Igreja, a tantas almas inocentes, a jovens vocações sacerdotais ou aos fiéis em geral. No mérito dessa minha decisão é que tomei consciência diante de Deus, e aceito com toda boa vontade qualquer correção fraterna, conselho, recomendações e convite a progredir na minha vida de fé e de amor a Cristo, à Igreja e ao papa.

Permitam-me lembrá-los novamente dos principais pontos do meu testemunho.

  • Em novembro de 2000, o núncio nos Estados Unidos, o Arcebispo Montalvo informou à Santa Sé sobre o comportamento homossexual do Cardeal McCarrick com seminaristas e sacerdotes.
  • Em dezembro de 2006, o novo núncio, o Arcebispo Pietro Sambi, informou à Santa Sé sobre o comportamento homossexual do cardeal McCarrick juntamente com outro padre.
  • Em dezembro de 2006, escrevi um memorando ao secretário de Estado, Cardeal Bertone, que o entregou pessoalmente ao substituto para os Assuntos Gerais, Arcebispo Leonardo Sandri, pedindo ao papa para tomar medidas disciplinares extraordinárias contra McCarrick visando prevenir crimes e escândalos futuros. Este memorando não recebeu nenhuma resposta.
  • Em abril de 2008, uma carta aberta ao Papa Bento XVI por parte de Richard Sipe foi transmitida ao Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o cardeal Levada e ao secretário de Estado, o cardeal Bertone, e que continha acusações adicionais sobre o hábito de McCarrick levar para a cama seminaristas e sacerdotes. Foi-me entregue, um mês depois, em maio de 2008, um segundo memorando que eu mesmo apresentei ao então Substituto para os Assuntos Gerais, Arcebispo Fernando Filoni, referindo-se às alegações contra McCarrick e pedindo sanções contra ele. Também esse meu segundo memorando não obteve uma resposta.
  • Em 2009 ou 2010, eu ouvi do cardeal Re, prefeito da Congregação para os Bispos, que o Papa Bento XVI tinha ordenado a McCarrick que cessasse seu ministério público e começasse uma vida de oração e penitência. O núncio Sambi comunicou as ordens do papa a McCarrick, levantando a voz de tal maneira que chegou a ser ouvido nos corredores da nunciatura.
  • Em novembro de 2011, o cardeal Ouellet, o novo prefeito da Congregação para os Bispos, reconfirmou para mim, o novo núncio nos Estados Unidos, as restrições ordenadas pelo papa para McCarrick, e eu mesmo comuniquei cara a cara a McCarrick.
  • No dia 21 de Junho de 2013, no final de uma reunião oficial dos núncios no Vaticano, o Papa Francisco me dirigiu palavras de reprovação e de difícil interpretação sobre o episcopado Americano.
  • No dia 23 de junho de 2013, encontrei-me pessoalmente com o Papa Francisco em uma audiência privada em seu apartamento para maiores esclarecimentos, e o papa me perguntou: “O Cardeal McCarrick, como é ele?”. Palavras que só podem ser interpretadas como uma falsa curiosidade para saber se eu era ou não aliado de McCarrick. Então, disse-lhe que McCarrick havia corrompido sexualmente gerações de sacerdotes e seminaristas, e que o Papa Bento lhe havia ordenado a dedicar-se a uma vida de oração e penitência.
  • Em vez disso, McCarrick continuou a desfrutar de uma consideração especial por parte do papa Francisco, que de fato lhe confiou novas responsabilidades e missões importantes.
  • McCarrick era parte de uma rede de bispos favoráveis à homossexualidade e que, gozando do favor do papa Francisco, promoveu nomeações episcopais para se proteger da justiça e fortalecer a homossexualidade na hierarquia e na Igreja em geral.
  • O próprio Papa Francisco parece ser conivente com a propagação desta corrupção ou ciente daquilo que faz. Ele é gravemente responsável porque não se opõe a essa corrupção e nem procura erradicá-la.

Eu invoquei Deus como testemunha da veracidade dessas minhas afirmações, e nenhuma delas foi desmentida. O Cardeal Ouellet escreveu-me, censurando-me pela minha ousadia em ter quebrado o silêncio e moveu acusações graves contra os meus irmãos no episcopado e superiores, mas, na verdade, sua repreensão me confirma na minha decisão e, de fato, confirma minhas declarações, uma por uma e em sua totalidade.

  • O cardeal Ouellet admite ter me falado sobre a situação de McCarrick antes de eu partir para Washington para começar minha missão como núncio.
  • O Cardeal Ouellet admite ter me comunicado por escrito sobre as condições e restrições impostas a McCarrick pelo Papa Bento XVI.
  • O cardeal Ouellet admite que essas restrições proibiam McCarrick de viajar e aparecer em público.
  • O Card. Ouellet admite que a Congregação para os Bispos, por escrito, em primeiro lugar através do Núncio Sambi, e depois novamente por mim, ordenou McCarrick a levar uma vida de oração e penitência.

Então o que o cardeal Ouellet está contestando?

  • O Card. Ouellet contesta a possibilidade de que o Papa Francisco teria sido capaz de se lembrar de informações importantes sobre McCarrick, num dia em que ele havia se encontrado com dezenas de núncios e dedicado a cada um apenas alguns momentos de conversa. Mas não foi isso que eu testemunhei. Eu testemunhei que, num segundo encontro privado, eu informei pessoalmente ao Papa, respondendo a uma pergunta dele sobre Theodore McCarrick, o então cardeal arcebispo emérito de Washington, figura proeminente na Igreja dos Estados Unidos, dizendo ao papa que McCarrick havia corrompido sexualmente seus próprios seminaristas e sacerdotes. Nenhum papa pode se esquecer disso.
  • O Card. Ouellet nega a existência em seus arquivos de cartas assinadas pelo Papa Bento XVI ou do Papa Francisco sobre as sanções contra McCarrick. Mas não foi isso que eu testemunhei. Eu testemunhei que havia nos seus arquivos documentos-chave — independente da proveniência — que incriminam McCarrick e sobre as medidas tomadas contra ele e outras evidências do encobrimento de sua situação. E eu confirmo tudo isso novamente.
  • O Card. Ouellet contesta a existência nos arquivos do seu predecessor, o Cardeal Re, dos “memorandos de audiências” que impunham a McCarrick as restrições citadas. Mas não foi isso que eu testemunhei. Eu testemunhei que existem outros documentos, por exemplo, uma nota do Cardeal Re, não “ex-audientia SS.mi”, ou seja assinada pelo Secretário de Estado ou pelo Substituto.
  • O Card. Ouellet contesta que é falso apresentar as medidas tomadas contra McCarrick como “sanções” decretadas pelo Papa Bento XVI e anuladas pelo Papa Francisco. Verdade. Elas não eram tecnicamente “sanções”, mas eram procedimentos, “condições e restrições.” Desqualificar se eram sanções ou procedimentos não passa do mais puro legalismo. Do ponto de vista pastoral, é exatamente a mesma coisa.

Em suma, o cardeal Ouellet admite as afirmações importantes que eu fiz e faço, e contesta as afirmações que eu não faço, e nunca fiz.

Há um ponto que devo absolutamente desmentir naquilo que o cardeal Ouellet escreve. O cardeal afirma que a Santa Sé tinha conhecimento apenas de simples “boatos”, que não eram suficientes para se tomar medidas disciplinares contra McCarrick. Pois eu afirmo que a Santa Sé tinha conhecimento de uma multidão de fatos concretos e em posse de documentos comprobatórios, e que apesar de tudo, as pessoas responsáveis preferiram não agir ou foram impedidas de fazê-lo. As indenizações das vítimas de abuso sexual de McCarrick na Arquidiocese de Newark e na Diocese de Metuchen, as cartas do Padre Ramsey, dos núncios Montalvo no ano 2000 e Sambi em 2006, as cartas do Dr. Sipe em 2008, os meus dois memorandos à Secretaria de Estado, descrevendo em detalhes as acusações específicas contra McCarrick, são apenas boatos de sacristia? São correspondência oficial e não fofoca da sacristia. Os delitos denunciados eram gravíssimos, havia até mesmo a denúncia das absolvições dos cúmplices em atos torpes, com sucessiva celebração sacrílega da Missa. Estes documentos especificam a identidade dos autores, de seus protetores e a seqüência cronológica dos acontecimentos. Eles estão guardados nos arquivos apropriados; e não é necessário nenhuma investigação extraordinária para recuperá-los.

Nas acusações feitas contra mim publicamente, notei duas omissões, dois silêncios dramáticos. O primeiro silêncio é sobre as vítimas. A segunda é a causa básica de tantas vítimas, a saber, o papel da homossexualidade na corrupção do sacerdócio e da hierarquia. No tocante ao primeiro silêncio, é chocante que, em meio a tantos escândalos e indignação, haja tão pouca consideração por aqueles que foram vítimas de predadores sexuais por parte de quem foi ordenado como ministro do Evangelho. Não se trata de acertar contas ou questões de carreiras eclesiásticas. Não é uma questão de política. Não é uma questão de como os historiadores da igreja possam avaliar este ou aquele papado. Trata-se de almas! Muitas almas foram colocadas em perigo e ainda estão em perigo por sua salvação eterna.

Em relação ao segundo silêncio, essa grave crise não pode ser adequadamente afrontada e resolvida, enquanto não chamarmos as coisas por seu devido nome. Esta é uma crise devido à praga da homossexualidade naqueles que a praticam, em seus movimentos e em sua resistência a serem corrigidos. Não é exagero dizer que a homossexualidade se tornou uma praga no clero e que só pode ser erradicada com armas espirituais. É uma enorme hipocrisia fingir reprovar o abuso, dizer chorar pelas vítimas e recusar a denunciar a principal causa de tantos abusos sexuais: a homossexualidade. É uma hipocrisia recusar admitir que esse flagelo se deve a uma grave crise na vida espiritual do clero e não recorrer aos meios para remediá-lo.

Existe sem dúvidas no clero, violações sexuais também com mulheres, e estas também causam sérios danos às almas daqueles que as praticam, à Igreja e às almas daqueles que são corrompidos. Mas essas infidelidades ao celibato sacerdotal são geralmente limitadas aos indivíduos imediatamente envolvidos; eles não tendem, por si mesmos, a promover, ou disseminar comportamentos semelhantes, para cobrir tais malfeitos. Ao passo que esmagadoras são as provas de como a homossexualidade é endêmica e se dissemina por contágio, com raízes profundas difíceis de se erradicar.

É certo que os predadores homossexuais desfrutam de seus privilégios clericais a seu favor. Mas reivindicar a crise em si como clericalismo é puro sofisma. É fingir que um meio, um instrumento, é na realidade sua causa principal.

A denúncia da corrupção homossexual e da vileza moral que as permite crescer não encontra consenso e nem solidariedade em nossos dias, infelizmente, nem nas mais altas esferas da Igreja. Não é de se surpreender que ao chamar a atenção para essas feridas, eu seja acusado de deslealdade ao Santo Padre e de fomentar uma rebelião aberta e escandalosa, mas a rebelião implicaria em incitar os outros a derrubar o papado. E eu não estou exortando a nada desse tipo. Eu rezo todos os dias pelo Papa Francisco mais do que já fiz pelos outros papas. Peço, na verdade, imploro que o Santo Padre enfrente os compromissos que assumiu. Ao aceitar ser o sucessor de Pedro, ele assumiu a missão de confirmar seus irmãos e a responsabilidade de guiar todas as almas no seguimento de Cristo, no combate espiritual, pelo caminho da cruz. Que ele admita seus erros, arrependa-se, e demonstre querer seguir o mandado dado a Pedro e que, uma vez convertido, confirme seus irmãos (Lucas 22:32).

Concluindo, gostaria de repetir o meu apelo aos meus irmãos bispos e sacerdotes que sabem que as minhas afirmações são verdadeiras e que estão em condição de poder testemunhar, ou que têm acesso aos documentos que possam resolver esta situação para além de qualquer dúvida. Vocês também estão diante de uma escolha. Vocês podem escolher se retirar da batalha, continuar na conspiração do silêncio e desviar o olhar do avanço da corrupção. Vocês podem inventar desculpas, compromissos e justificativas que irão protelando até o dia do ajuste de contas. Vocês podem se consolar com a duplicidade e a ilusão de que será mais fácil dizer a verdade amanhã e depois novamente no dia seguinte.

Ou vocês podem escolher falar. Confie Naquele que nos disse: “a verdade vos libertará”. Não digo que será fácil decidir entre o silêncio e o falar. Exorto-vos a considerar em seu leito de morte qual a escolha diante do justo Juiz que você não se arrependerá de ter tomado.

+ Carlo Maria Viganò, 19 de outubro de 2018

Arcebispo Titular de Ulpiana –  Memória dos Mártires da América do Norte

Núncio Apostólico

25 setembro, 2018

Palavras de um Cardeal: O Papa é frio como gelo, um astuto maquiavélico, e o que é pior, ele mente.

Por LifeSiteNews, 22 de setembro de 2018 | Tradução: FratresInUnum.com – Hoje, a revista alemã Der Spiegel, uma das revistas políticas mais influentes da Europa, publicou uma matéria sobre os fracassos do papado de Francisco. LifeSiteNews já resumiu partes desta matéria sobre o envolvimento do Papa Francisco no encobrimento de casos de abuso na Argentina. Mas os autores da Spiegel também fazem um relato de suas conversas com prelados do Vaticano, sem citar seus nomes, mas que falaram de modo bem crítico sobre o Papa Francisco.

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“Não mentirás” – capa de Der Spiegel de 22 de setembro de 2018.

De acordo com a revista, um cardeal não apenas chamou claramente o papa de mentiroso, mas também disse: “Desde o início, não acreditei em uma só palavra dele”. Os comentários da própria Spiegel sobre esse papado, como veremos, também não deixam por menos.

Um dos interlocutores de alto escalão disse à equipe jornalística que, no Vaticano, reina “um clima de medo e incerteza”. “Francisco é muito bom em pôr as coisas em movimento”, disse um prelado alemão, “mas, quando no final sobram apenas resultados vacilantes, isso com certeza não ajuda”. Exemplos de tais vacilações podem ser encontradas, como diz Spiegel, no modo como o Papa Francisco tratou o debate sobre a Comunhão para cônjuges protestantes de católicos. Um cardeal alemão conta à revista sobre mentiras, intrigas, “e um Santo Padre que, ao contrário de qualquer um de seus predecessores, põe em dúvida a verdade da fé”.

Marie Collins, ela própria uma importante vítima de abuso e defensora das vítimas, fala sobre o modo como o papa e o Vaticano lidam com os casos de abuso: “belas palavras em público e [então] ações opostas por detrás de portas fechadas”.

A revista Spiegel comenta que o papa poderia muito bem ter optado por ignorar os “indícios de crimes dentro de seu próprio círculo íntimo”, porque “ele está interessado, devido a uma política de poder, em manter um ou outro cardeal ou bispo em seu ofício” [ndr: ver exemplo aqui]. Aos olhos da revista alemã, “Francisco, coloca-se em uma posição vulnerável”. Ele luta por anos “contra o capitalismo global, mas assim como seus predecessores — tomou somas que chegam a milhões do agora rejeitado cardeal McCarrick, que esse mesmo recebeu de doadores”. “O Papa elogia o valor da família tradicional, mas depois se cerca de conselheiros e colaboradores que vivem o oposto — em uma situação mais ou menos de concubinato com representantes de ambos os sexos”.

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“O papa ainda é o dono da situação?”, pergunta-se a Spiegel. A revista aponta que “a crítica [deste papado], entretanto, vem de um círculo muito maior do que o dos arqui-conservadores conectados globalmente”. Um dos problemas deste Papa, de acordo com a revista, é que “ele é silencioso em assuntos delicados”, tais como o dubia dos quatro cardeais a respeito de sua exortação pós-apostólica Amoris Laetitia, mas também a respeito da petição de 30.000 mulheres que recentemente solicitaram que ele respondesse às questões decorrentes do relatório Viganò. Ele não responde a essas mulheres, permanece mudo, e “deixa sem resposta a acusação de que, desde junho de 2013, ele tinha conhecimento sobre os feitos do molestador de menores, Cardeal McCarrick”.

Ao falar sobre um dos colaboradores mais próximos do papa, o cardeal Reinhard Marx e sua própria arquidiocese de Munique, a revista Der Spiegel aponta para a crise da fé na Baviera. “Uma parte do problema na Arquidiocese, no entanto, é doméstico”, explica. A credibilidade da Igreja ali, acrescenta, está sendo prejudicada pelos fatos de que “um clérigo de alto escalão de Munique coloca descaradamente sua concubina sentada no banco de frente da igreja, e que também nesta cidade, há indignação sobre pastores abertamente homossexuais e sobre um Papa imprevisível”.

“Desde o começo, não acreditei em uma só palavra sua.” São as palavras incisivas de um cardeal dentro dos muros do Vaticano: “Ele prega misericórdia, mas é na verdade uma pessoa fria como gelo, um astuto maquiavélico e, o que é pior — ele mente.”

30 agosto, 2018

“Eu não vou dizer uma palavra sobre isso”.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 29 de agosto de 2018 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.com – “Eu não vou dizer uma palavra sobre isso.” Com esta frase, pronunciada em 26 de agosto de 2018 no voo de volta de Dublin a Roma, o Papa Francisco reagiu às impressionantes revelações do arcebispo Carlo Maria Viganò, que o colocavam diretamente em causa. Para a jornalista Anna Matranga (NBC), que lhe perguntara se era verdade o que foi escrito pelo ex-núncio nos Estados Unidos, o Papa respondeu: “Li essa declaração esta manhã. Eu a li e sinceramente tenho que lhe dizer isso, para você e para todos aqueles que estão interessados: leia, cuidadosamente, a declaração e faça seu próprio julgamento. Não vou dizer uma palavra sobre isso. Eu acredito que a declaração fala por si, e você tem capacidade jornalística suficiente para tirar conclusões. É um ato de confiança: quando tiver passado algum tempo e você tiver tirado conclusões, talvez eu fale. Mas eu gostaria que sua maturidade profissional fizesse esse trabalho: vai te fazer bem, de verdade. Fica bem assim.”

Um arcebispo rompe o clima de silêncio e conivência e denuncia, com nomes e circunstâncias específicos, a existência de uma “corrente filo-homossexual favorável a subverter a doutrina católica em relação à homossexualidade” e a presença de “redes de homossexuais difundidas atualmente em muitas dioceses, seminários, Ordens religiosas, etc.”, que “encobrem o segredo e a mentira com o poder dos tentáculos de um polvo e esmagam vítimas inocentes, vocações sacerdotais e estrangulam toda a Igreja”. Diante dessa voz corajosa que rompe o silêncio, o Papa Francisco se cala e confia aos meios de comunicação de massa a tarefa de julgar segundo seus critérios políticos e mundanos, muito diferentes dos critérios religiosos e morais da Igreja. Um silêncio que parece ainda mais grave do que os escândalos revelados pelo arcebispo Viganò.

Esta lepra se desenvolveu após o Concílio Vaticano II, como resultado de uma nova teologia moral que negava os absolutos morais e reivindicava o papel da sexualidade fora do casamento, hétero e homossexual, considerada como um fator de crescimento e desenvolvimento da pessoa humana. A homossexualização da Igreja se espalhou nos anos setenta e oitenta do século XX, como testemunha o livro, meticulosamente documentado, do padre Enrique Rueda, The Homosexual Network: Private Lives And Public Policy [A rede homossexual: vidas privadas e políticas públicas], publicado em 1982.

Para se entender como a situação não fez desde então senão agravar-se, é essencial ler o estudo Homossexualidade e sacerdócio – O nó górdio dos católicos? (Poznań Theological Studies, 31, 2017, pp. 117-143), pelo Prof. Andrzej Kobylinski, da Universidade Cardeal Stefan Wyszynski de Varsóvia (https://journals.indexcopernicus.com/api/file/viewByFileId/261531.pdf). Kobylinski cita um livro intitulado The Changing Face of the Priesthood: A Reflection on the Priest’s Crisis of Soul [A face mutante do sacerdócio: uma reflexão sobre a crise de alma do sacerdote], de Donald Cozzens, Reitor do Seminário em Cleveland, Ohio, onde o autor diz que, no início do século XXI, o sacerdócio tornou-se uma “profissão”, eminentemente exercida por homossexuais, podendo-se falar de um “êxodo heterossexual do sacerdócio”.

Há um caso emblemático que Kobylinski recorda – aquele do arcebispo de Milwaukee (Wisconsin), Rembert Weakland, aclamado expoente da corrente progressista e “liberal” americana: “Weakland encobre, há décadas, casos de abuso sexual de padres, apoiando uma visão da homossexualidade contrária à do Magistério da Igreja Católica. No final do exercício episcopal, ele também deu um desfalque enorme, roubando quase meio milhão de dólares dos cofres de sua arquidiocese para pagar seu ex-parceiro que o acusava de assédio sexual. Em 2009, Weakland fez o seu ‘coming out’, publicando uma autobiografa intitulada A Pilgrim in a Pilgrim Church [Um peregrino em uma Igreja peregrina], na qual ele admitiu ser homossexual e ter tido durante décadas relações sexuais seguidas com muitos parceiros. Em 2011, a Arquidiocese de Milwaukee foi forçada a declarar falência, devido ao alto custo das indenizações devidas às vítimas de padres pedófilos”.

Em 2004 apareceu o John Jay Report [título baseado no nome da seção especializada em justiça penal da Universidade da Cidade de Nova Iorque, que o preparou], documento preparado a pedido da Conferência Episcopal Americana, no qual foram analisados todos os casos de abuso sexual de menores por padres e diáconos católicos nos EUA nos anos 1950-2002. “Este documento de quase 300 páginas tem um valor informativo extraordinário – escreve Kobyliński. O John Jay Report demonstrou a ligação entre a homossexualidade e o abuso sexual de menores pelo clero católico. De acordo com o relatório de 2004, na grande maioria dos casos de abuso sexual, não é uma questão de pedofilia, mas de efebofilia, ou seja, uma perversão que não consiste em atração sexual pelas crianças, mas por adolescentes na puberdade. O John Jay Report mostrou que cerca de 90% dos padres condenados por abuso sexual infantil são padres homossexuais”.

Portanto, o escândalo de McCarrick não é senão o último ato de uma crise que vem de longe. No entanto, na Carta do Papa ao Povo de Deus, e ao longo de sua jornada na Irlanda, o Papa Francisco nunca denunciou essa desordem moral. O Papa acredita que no abuso sexual pelo clero o principal problema não é a homossexualidade, mas o clericalismo. Referindo-se a esses abusos, o historiador progressista Alberto Melloni escreve que “Francisco finalmente confronta o crime no plano eclesiológico: e o confia àquele agente teológico que é o povo de Deus. Ao povo Francisco diz sem rodeios que é o ‘clericalismo’ que incubou essas atrocidades, não um excesso ou uma insuficiência de moral” (La Repubblica, 21 de agosto de 2018).

“Le cléricalisme, voilà l’ennemi!” – “O clericalismo, eis o inimigo!” A famosa frase pronunciada em 4 de maio de 1876 na Câmara de Deputados francesa por Léon Gambetta (1838-1882), um dos expoentes máximos do Grande Oriente da França, poderia ser adotada pelo Papa Francisco. Essa frase, no entanto, é considerada a palavra de ordem do laicismo maçônico do século XIX e foi por sua aplicação que os governos da Terceira República Francesa realizaram nos anos seguintes um programa político “anticlerical” que teve como etapas a laicização completa do ensino, a expulsão dos religiosos do território nacional, o divórcio, a abolição da concordata entre a França e a Santa Sé.

O clericalismo de que fala o Papa Francisco é aparentemente diferente, mas no final das contas ele corresponde àquela concepção hierárquica tradicional da Igreja, que foi combatida ao longo dos séculos pelos galicanos, pelos liberais, pelos maçons e pelos modernistas. Para reformar a Igreja, purificando-a do clericalismo, o sociólogo italiano Marco Marzano sugere ao Papa Francisco este caminho: “Pode-se, por exemplo, começar a retirar completamente dos párocos o governo das paróquias, privando-os das funções de governo (financeiro e pastoral) absoluto e monocrático das quais se beneficiam hoje. Introduzindo um elemento importante de democracia, poder-se-ia tornar os bispos elegíveis. Poder-se-ia fechar os seminários, instituições da Contra-Reforma nas quais o clericalismo como espírito de casta é ainda hoje exaltado e cultivado, substituindo-os por estruturas de formação abertas e transparentes. Pode-se, sobretudo, suprimir a regra sobre a qual o clericalismo na maioria das vezes se funda hoje (e que é também a base da grande maioria dos crimes sexuais do clero), que é o celibato obrigatório. É justamente a suposta castidade do clero, com todo o corolário de pureza e sacralidade sobre-humana que a acompanha, que estabelece a premissa principal do clericalismo” (Il Fatto quotidiano, 25 de agosto, 2018).

Quem quer eliminar o clericalismo, quer de fato destruir a Igreja. E se, em vez disso, se entende o clericalismo como o abuso de poder exercido pelo clero quando abandona o espírito do Evangelho, não há clericalismo pior do que o daqueles que renunciam a estigmatizar pecados gravíssimos como a sodomia e deixam de recordar que a vida cristã deve necessariamente terminar no céu ou no inferno.

Nos anos seguintes ao Vaticano II, grande parte do clero abandonou o ideal da realeza social de Cristo e aceitou o postulado da secularização como um fenômeno irreversível. Mas quando o Cristianismo se submete ao laicismo, o Reino de Cristo é transformado em um reino mundano e reduzido a uma estrutura de poder. O espírito militante é substituído pelo espírito do mundo. E o espírito do mundo impõe silêncio sobre o drama que a Igreja está vivendo atualmente.

30 agosto, 2018

Francisco-Viganò: novas revelações. Müller demitido por aplicar política de tolerância zero. Instalada a guerra entre Vaticano e Americanos.

Por FratresInUnum.com, 30 de agosto de 2018 – A imprensa americana continua divulgando novas revelações sobre a crise de abusos sexuais, envolvendo diretamente o Papa Francisco.

McCarrickO LifeSiteNews publicou, ontem, um novo furo de reportagem: o Cardeal Müller, ex-prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, teria sido demitido por seu rigor com padres abusadores. Dessa vez, fonte confiável da Congregação para a Doutrina da Fé afirmou que o seu ex-prefeito, “Cardeal Müller sempre decidiu e agiu com mais clareza nesses casos de abuso e é por isso que ele foi demitido, assim como seus três bons colaboradores”.

Segundo a mesma fonte, contrariamente à decisão de Müller, o Papa teria vindo em defesa do padre Don Inzoli, condenado anteriormente por um tribunal eclesiástico pelo abuso de meninos de 12 anos. Francisco, contrariamente aos conselhos de Muller, buscou reabilitá-lo, reduzindo suas penas e permitindo, inclusive, que participasse de eventos eclesiais públicos, o que causou grande escândalo e comoção na Itália. Inzoli fora considerado culpado por mais de cem episódios de abuso. Apenas após a justiça italiana ter condenado o sacerdote a quase cinco anos de prisão, o Vaticano iniciou contra ele um novo processo canônico.

A mesma fonte teria ainda dito que vários “vários membros da Cúria, em postos de alto escalão, sabiam das sanções impostas a McCarrick por Bento XVI”.

O Papa Francisco teria também negado um apartamento no Palácio do Santo Ofício para um secretário do Cardeal Müller e cedido-o ao Padre Luigi Capozzi, secretário do Cardeal Coccopalmerio. Por reclamação dos vizinhos, o apartamento foi invadido pela polícia, que encontrou ali grandes quantidades de cocaína em meio a uma orgia homossexual. Francisco teria sido informado anteriormente sobre os problemas morais do referido sacerdote, mas, mesmo assim, garantiu-lhe um apartamento privilegiado no Vaticano. O Cardeal Coccopalmerio, por sua vez, é o mesmo que teria relevado “elementos positivos” nas relações homossexuais.

A reportagem recolhe também uma importante afirmação de Henry Sire, autor do livro “The Dictator Pope”, segundo o qual “a ênfase do papa na misericórdia criou um ambiente em que vários padres sob sanções canônicas impostas pela Congregação para a Doutrina da Fé imploraram com sucesso à sua clemência, através de poderosas conexões da Cúria”.

Enfim, a guerra está instalada entre os Católicos americanos e Francisco.

Diversos bispos diocesanos se manifestaram pedindo esclarecimentos ao Papa, dando credibilidade ao testemunho de Dom Viganò.

Por sua vez, entre os leigos, um grupo chegou a investigar por conta própria a localização da residência atual do Cardeal McCarrick para se colocar diante do local para protestar. Outros, fazem manifestações em frente à residência do Cardeal Wuerl, arcebispo de Washington.

Veremos como o Vaticano vai lidar com o ativismo dos americanos, que não costumam esquecer e encerrar problemas sem resolução.

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27 agosto, 2018

Francisco, o papa do lobby gay.

Por FratresInUnum.com, 27 de agosto de 2018

“Quem sou eu para julgar?” — A frase, a este ponto antológica, é uma daquelas “pérolas” saídas da boca do papa argentino numa de suas espontâneas entrevistas aéreas. Um papa gay friendly, essa foi a conclusão a que chegou imediatamente a opinião pública.

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Cartaz da Parada Gay de Maringá, PR, utiliza imagem do Papa Francisco.

Ornando bandeiras e outdoors de marchas gays por todo o mundo, a foto de um papa e sua frase nunca foram tão solenemente citadas entre os depredadores da cristandade, os mesmos que cometem blasfêmias e sacrilégios com símbolos cristãos, atirando-os na latrina de suas orgias.

 

Ninguém imaginava, porém, que a frase fosse, de fato, programática. “Quem sou eu para julgar”? A omissão não era apenas relativamente a Mons. Ricca, conhecidamente homossexual, nem apenas em relação à Austrália e ao Chile – não esqueçamos que ele defendeu Barros, dizendo que não tinha provas contra ele e acusando as vítimas de caluniadores. Em sua carta testemunho, Mons. Viganò traz à tona toda a mentira da “tolerância zero” de Francisco: ele encobriu o caso McCarrick, protegeu acobertadores como Wuerl e o está atualmente fazendo com Maradiaga. Todos cúmplices, todos amigos.

“Quem sou eu para julgar”? De fato, ele se omitiu até quando pôde, quer dizer, até o ponto em que a mídia não o permitiu mais sem manchar a sua imagem… Ele não julgou, mas a justiça americana, sim. A América, e não o Vaticano, fez justiça às vítimas.

Ontem, na viagem de retorno de Dublin, os jornalistas não pouparam Francisco:

O ex-núncio Viganò sustenta que lhe falou sobre os abusos cometidos pelo cardeal McCarrick. É verdade?

Eu li esta manhã aquele comunicado de Viganò. Digo sinceramente isto: lede-o vós atentamente e fazei-vos o vosso juízo pessoal. Eu não direi uma única palavra sobre isso. Creio que o documento fala por si mesmo. Tendes a capacidade jornalística suficiente de extrair as conclusões, com a vossa maturidade profissional.

Imaginem se esta resposta fosse dada por Bento XVI… Ninguém perdoaria Ratzinger por dar uma evasiva tão descarada. É vergonhoso!

Um Papa que fala de todos os assuntos possíveis com a maior desinibição, dá inúmeras entrevistas a Scalfari, nunca esclarecidas, sobre as mais inimagináveis temáticas na boca de um Papa, agora se cala! Manda os jornalistas julgarem por si mesmos e, depois, só depois, ele se pronunciará! Transparência e tolerância zero, bem, só para os inimigos. “É sobre a viagem?”, interrompe, constrangido, Bergoglio a jornalista que mal consegue esboçar a pergunta.

Algumas pessoas se lamentam de que a lama venha para fora. Acham que comentá-lo é “expor” a Igreja. Mas não há outro modo. Para que seja curada, a ferida tem de ser exposta. São décadas de ocultação complacente, décadas de corrupção dissimulada. Aliás, foi esse pensamento de que “rouba suja se lava em casa” o argumento utilizado justamente pelos acobertadores, para encobrir a sua malícia e a de seus comparsas. Quando a casa é dominada por marginais, não há outro recurso senão gritar, e bem alto!

Mas, tudo isso não se produziu por geração espontânea. Ao contrário, foi fruto de uma engenharia, pois “além das questões referentes à grave imoralidade sexual, o ambiente do seminário apresenta um grande número de outros impedimentos ao seminaristas ortodoxo. O mais óbvio e talvez o mais insidioso deles é a heterodoxia – aberta ou sutil dissidência dos ensinamentos oficiais da Igreja. Diversos professores são avessos à transmissão daquilo que a Igreja ensina e alguns nem mesmo se dão ao trabalho de esconder seu desdém do catolicismo. (…) Ainda assim, as ideias que vêm sendo ensinadas nos seminários de hoje em dia vão muito além da esfera desses próprios erros ‘padrão’ da doutrina modernista. Agressivas teorias feministas, amiúde promovidas por irmãs religiosas devotas da teologia da libertação e de várias encarnações da psicologia junguiana, deixam claro que alguns docentes encarregados da formação dos futuros padres não apoiam o sacerdócio católico tal como a Igreja o define”. Este testemunho de Michael S. Rose, em seu conhecido livro Good bye, good men (“Adeus, homens de Deus”, Ecclesiae: Campinas, 2015, pp. 105-106) se torna ainda mais dramático quando passa a exemplificar as aulas de moral sexual dadas nos seminários, em que a postura dos autores dos livros usados nestes cursos “era contrária a que a sexualidade humana seja prioritariamente concebida para a reprodução” e, portanto, apresentavam “exercícios de masturbação”; sobre a homossexualidade, apresentavam “informação detalhada e ilustrações de sexo” e discutiam “a opção de ter uma relação aberta com um parceiro sexual principal e diversos outros parceiros auxiliares”, assegurando aos seminaristas que “era importante que eles se sentissem confortáveis quanto às suas orientações sexuais, ‘quaisquer que elas fossem’” (pp. 119-121).

Em outras palavras, o problema não é o enlouquecimento espontâneo de alguns clérigos, mas a estrutura de uma formação depravada que se espalhou por toda a Igreja desde que autores heterodoxos em teologia moral destruíram a consciência dos seminaristas, e continuam destruindo.

Não bastasse isso, o sistemático desmonte da devoção e da espiritualidade fez com que a piedade litúrgica fosse “usada como outra razão para a discriminação dos seminaristas ortodoxos” (p. 135) e, sendo a liturgia pública e a devoção, privada e pública, algumas das mais óbvias expressões de fé católica nos seminários, a perversão ou o impedimento de devoções legítimas e próprias é umas das principais causas de abandono do seminário pelos seminaristas ortodoxos” (p. 146).

Sem formação ética nem espiritualidade, com muita imoralidade e perversão sexual, será imprevisível que os seminários produzissem esses cúmulos de delinquência e criminalidade?

No Brasil, tivemos um caso bastante similar, cujos bastidores foram revelados por um infiltrado de uma sociedade secreta na Igreja Católica muito conhecido nas décadas de 70 e 80 chamado Neymar de Barros. Os seus dois livretes, A verdade sobre Neymar de Barros, volumes I e II (Editora Exodus, São Paulo: 1987), contam como ele forjou sua conversão para recolher dados do clero afim de que a sociedade secreta que lhe contratara difundisse a homossexualidade entre os padres. Ele chega mesmo a apresentar uma pesquisa que realizaram acerca da porcentagem de homossexuais no clero brasileiro por volta do ano de 1978 (vol. II, p. 70).

Contudo, a carta que Francisco escreveu ao povo americano, semana passada, apresentava como núcleo do problema o clericalismo, não o homossexualismo. Acontece, porém, que ele mesmo foi vítima de suas palavras: agora, após ter ele mesmo condenado McCarrick, a quem protegera nos anos anteriores, mostra o quanto o seu clericalismo foi justamente a ferramenta mais poderosa para a difusão exponencial do homossexualismo.

No entanto, esta reprodução não foi apenas prática. Ao contrário, só foi possível graças a um respaldo teórico, vale dizer, teológico.

É este relativismo moral, personificado por Francisco em seu trágico simulacro de magistério, que viabilizou esta desgraça cujas consequências amargas se fazem sentir nos Estados Unidos e no mundo inteiro. Não se trata apenas de um erro pontual, de um vacilo do primeiro papa latino-americano. É todo um modelo de Igreja, toda uma imensa e prevalente corrente teológica surgida na primeira parte do século XX que produziu este fenômeno.

Não, não bastam as desculpas de Francisco, nem mesmo a sua renúncia, nem mesmo a penitência alegada por Viganò em sua carta. É a Igreja que precisa renunciar Francisco e tudo aquilo que ele personifica. Como dizia o bispo de Madison, estamos cansados, estamos fartos, estamos exaustos dessa canonização teológica do pecado. Que a Igreja se levante, que os bispos se levantem (a exemplo do bispo de Tyler, Texas, EUA)!

De fato, o lobby gay internacional entendeu imediatamente o significado daquela infeliz expressão na boca do pontífice e soube extrair dela todo o seu alcance. Enquanto a Igreja americana gritava de dor pelos escândalos homossexuais, no mesmíssimo final de semana, o confrade jesuíta de Bergoglio, Pe. James Martin, fazia uma apologia às duplas gays no encontro mundial das famílias, em Dublin.

Não se trata de uma omissão, mas da promoção descarada do pecado! Não é possível mais esconder que, alegando furtar-se ao julgamento, na verdade, ele deixa aberto o caminho para o delito, eximindo-se de qualquer responsabilidade. Agora, a casa caiu, a máscara caiu! Francisco já não consegue mais dissimular o seu flagrante favorecimento à causa gay, da qual se fez padrinho. Já não lhe é mais possível esconder-se nem mesmo por trás de uma pergunta retórica, de uma resposta ambígua, de uma insinuação enigmática, de um “quem sou eu para julgar?”…

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