Archive for ‘Cúria Romana’

16 fevereiro, 2018

Carta Apostólica do Papa Francisco: “Aprender a despedir-se”.

Papa Francisco apresentou uma Carta Apostólica em forma de Motu Proprio, sobre a renúncia de bispos titulares e aos chefes da Cúria Romana de nomeação pontifícia por motivos de idade.

Por Vatican News – Nesta manhã desta quinta-feira, 15, o Papa Francisco em uma Carta Apostólica em forma de Motu Proprio, convidou a todos os bispos e titulares das dioceses e da Cúria Romana de nomeação pontifícia a refletir sobre a importância de “aprender a se despedir”. E com esta Carta informou as novas orientações para as renuncias por motivo de idade.

O Papa deseja refletir sobre a atitude interior da renúncia,  que  deve ser primeiro  uma atitude interior.

“Quem se prepara para apresentar a renúncia precisa se preparar adequadamente diante de Deus, despir-se dos desejos de poder e da pretensão de ser indispensável. Isto permitirá atravessar com paz e confiança tal momento, que poderia ser doloroso e de conflito. Ao mesmo tempo, quem assume na verdade esta necessidade de despedir-se, deve discernir na oração como viver a etapa que está por iniciar, elaborando um novo projeto de vida, marcado por quanto seja possível de austeridade, humildade, oração de intercessão, tempo dedicado a leitura e disponibilidade a fornecer simples serviços pastorais.”

Despedir-se para o Santo Padre pode ser também um pedido de continuar o serviço por um período mais longo onde já está, renunciando, com generosidade, ao novo projeto pessoal. (…) Cada eventual prorrogação se compreende somente por motivos ligados ao bem comum eclesial. Esta decisão pontifícia não é um ato automático de governo; de consequência implica a virtude da prudência que ajudará, através de um adequado discernimento, a tomar a decisão apropriada”.

Segundo o Motu Proprio, consideravelmente a mudança consiste em dizer que quando um bispo titular, após completar 75 anos, apresentar a carta de renúncia, ela não perderá a validade se não for respondida em três meses, mas deverá aguardar a resposta do Santo Padre.

No caso dos bispos da Cúria Romana ou chefes de dicastérios, com a isenção dos cardeais, não será automática a renúncia, pois deverá esperar também a confirmação do Santo Padre, no qual apresentou algumas possíveis razões, tais como: “a importância de completar adequadamente um projeto muito profícuo para a Igreja; a conveniência de assegurar a continuidade das obras importantes; algumas dificuldades ligadas a composição do Dicastério em um período de transição; a importância de contribuir que tal pessoa possa trazer a aplicação de diretrizes recentemente  emitida pela Santa Sé ou a por novas orientações magisteriais”.

Desta forma, o Papa Francisco, no que se refere à renúncia dos bispos diocesanos e dos titulares de setores da Cúria Romana de nomeação pontifícia, contida na Rescriptum ex audientia de 3 de novembro de 2014, desejou integrar na legislação canônica estas mudanças, atualizando as normas acerca do tempo e das modalidades de renúncia ao ofício por atingir os limites da idade.

O texto na íntegra, com as orientações canônicas, pode ser encontrado no site vatican.va .

Tags:
9 fevereiro, 2018

Dom Víctor “Tucho” Manuel Fernández, inspirador de Amoris Laetitia, lança um ataque contra os cardeais Müller e Sarah.

Por Jeanne Smits[1], Réinformation TV, 17 de janeiro de 2018. Tradução: André Sampaio | FratresInUnum.com[2] Muito próximo do soberano pontífice, Dom Víctor Manuel Fernández publicou, há poucos dias [em 14/01/2018, n.d.t.], um artigo no jornal argentino La Nacion[3], com o fim de denunciar a atitude dos cardeais Sarah e Müller, que agem, segundo ele, como se Francisco não fosse papa. Reitor da Pontifícia Universidade Católica Argentina, arcebispo ad personam por graça do papa reinante, autor de um livro intitulado Cura-me com tua boca: a arte de beijar[4], chamado familiarmente de “Tucho”, Fernández influenciou de maneira altamente significativa a elaboração de Amoris laetitia[5], como demonstra a correspondência entre escritos seus do passado e os trechos mais controversos da exortação apostólica[6] [arcebispo ad personam: título honorífico pessoal, não implicativo de jurisdição de uma arquidiocese]. Ele se encontra 100% alinhado com as novidades do papa Francisco. Ao atacar dois cardeais que são conhecidos por suas visões tradicionais, mas que nunca tacharam de inaceitáveis os ensinamentos em causa – nem mesmo por meio dos dubia[7] [cujos signatários foram outros cardeais] –, o prelado argentino deixa entrever uma escalada na obra de desestabilização.

Víctor Manuel Fernández com o então cardeal Bergoglio

Víctor Manuel Fernández com o então cardeal Bergoglio.

Um verdadeiro ataque contra os dois cardeais

O artigo leva este título: “As errôneas interpretações da mensagem do papa”. “Tucho” Fernández escreve: “Muitas vezes se supõe que todos os que exercem alguma tarefa em instituições católicas estejam executando ordens do papa toda vez que se pronunciam. Contudo, isso sequer ocorre com os cardeais do Vaticano, visto que seguem pensando e falando como desejam, como se Francisco não fosse papa”. Acusação gravíssima, posta nesses termos.

São especificamente citados os cardeais Gerhard Müller[8], prefeito emérito da Congregação para a Doutrina da Fé, organismo do qual ele foi demitido sem deferências pelo papa, e Robert Sarah[9], ainda prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, mas cercado de pessoas que tomam decisões que destoam das suas diretrizes. Müller deveria ter sido demitido antes, sugere o arcebispo Fernández: “Acaso não nos perguntamos, muitas vezes, por que não era afastado o cardeal Müller, que não ocultava uma linha de pensamento bastante diferente [da do papa] e inclusive o criticava? E olhemos para o cardeal Sarah, que segue propondo que se volte a celebrar a missa de costas para o povo”.

O inspirador de Amoris laetitia teria afastado bem antes o cardeal Müller

Curiosamente, o artigo, em seu conjunto, parece constituir uma defesa do direito de toda pessoa a falar livremente e do entendimento de que um dirigente católico, em algumas de suas ações, não se vincula necessariamente ao papa. Assim, explica Fernández, o arcebispo Sánchez Sorondo[10] – outro argentino próximo de Francisco – age sozinho e sem requerer a permissão de ninguém quando convida figuras controversas – favoráveis a certas formas de eutanásia, ao aborto, ao controle da população – para reuniões da Pontifícia Academia das Ciências, da qual é chanceler, no Vaticano…

“Hoje, com Francisco, a Igreja usufrui de uma liberdade de expressão sem precedentes, e, para poder-se opinar, não é necessário estar pensando o que diria o papa. Agora, muitos católicos podem, irresponsavelmente, tratar Francisco como herege ou cismático, sem que lhes chegue sequer um pedido de esclarecimento da parte do Vaticano. Poucos anos atrás, receberíamos sanções graves por muito menos”, escreve Fernández.

Que arte de inverter os papéis, e de modo incoerente, além do mais! Como se pode justificar a ideia de que o papa, que efetivamente se mostrou “grato” ao cardeal Müller, deveria tê-lo afastado antes, se a liberdade é, nesse campo, a regra? Como se ousa dizer que aqueles que se preocupam com a integridade da doutrina católica gozam de uma (culpável?) indulgência da parte do pontífice, enquanto se revelam abundantes os casos de demissão, destituição, aposentadoria desses “perturbadores da ordem”, isso sem falar nas mostras de irritação extremada que familiares da Casa Santa Marta atribuem a Francisco?

Todo mundo fala livremente, mas acabamos por nos indagar, e com certo gracejo, se “Tucho” não estaria um tanto se pronunciando sob ordens.

[1] http://reinformation.tv/mgr-victor-manuel-fernandez-attaque-cardinal-muller-amoris-laetitia-smits-79347-2/

[2] https://fratresinunum.com/

[3] http://www.lanacion.com.ar/2100513-las-erroneas-interpretaciones-del-mensaje-del-papa

[4] https://fratresinunum.com/2015/01/12/arcebispo-reitor-e-beijoqueiro/

[5] http://w2.vatican.va/content/francesco/pt/apost_exhortations/documents/papa-francesco_esortazione-ap_20160319_amoris-laetitia.html

[6] https://fratresinunum.com/2016/05/25/amoris-laetitia-tem-um-escritor-fantasma-chama-se-victor-manuel-fernandez/

[7] https://fratresinunum.com/2016/11/14/bombastico-cardeais-divulgam-carta-e-questionamentos-sobre-amoris-laetitia-que-francisco-se-negou-a-responder/

[8] https://fratresinunum.com/tag/dom-gerhard-ludwig-muller/

[9] https://fratresinunum.com/tag/cardeal-robert-sarah/

[10] https://infovaticana.com/2017/08/08/sanchez-sorondo-arzobispo-amigo-los-poderosos-antinatalistas-jamas-celebra-misa-reza-breviario/

28 dezembro, 2017

As ameaças de um Papa à Cúria – um histórico inédito –, o escândalo Maradiaga e o endurecimento do controle no Vaticano. Bom Natal.

Por Marco Tosatti[1], Stilum Curiae, 21 de dezembro de 2017. Tradução: André Sampaio | FratresInUnum.com[2] A usual série de censuras que o pontífice reinante endereça à Cúria Romana [por ocasião da apresentação dos votos natalinos, n.d.t.] foi, este ano[3] [21 de dezembro], marcada por uma escolha de tempo – eventual, ou pretendida, não sabemos – particularmente infeliz. De fato, exatamente enquanto o soberano vaticano falava da “reforma em curso” e dizia “A propósito da reforma, vem-me à mente a frase simpática e significativa de Dom Frédéric-François-Xavier de Mérode: ‘Fazer reformas em Roma é como limpar a Esfinge do Egito com uma escova de dentes’”, Emiliano Fittipaldi revelava [no jornal L’Espresso] que um dos homens mais próximos do pontífice, o cardeal Oscar Maradiaga[4], combatente da Igreja pobre para os pobres, está envolvido em casos financeiros muito controversos de milhões de euros.

Francisco à Cúria Romana, na apresentação dos augúrios natalinos de 2017

No momento, Oscar Maradiaga é um dos principais conselheiros do papa; seu resoluto defensor; e é coordenador do famoso grupo de nove cardeais (o C9) que por anos vem trabalhando na reforma da Cúria, a qual, até agora, deu à luz o minúsculo bebê da unificação de alguns conselhos pontifícios em organismos maiores, e uma reforma dos meios de comunicação à qual definir como clara – ao menos nesta fase – representaria exagero.

Mas o pontífice se lançava, em seu discurso, contra outros: “Permitam-me aqui proferir duas palavras sobre outro perigo, que é o dos traidores da confiança ou dos que se aproveitam da maternidade da Igreja; ou seja, o perigo das pessoas que são selecionadas cuidadosamente para dar maior vigor ao corpo e à reforma, mas – não compreendendo a alçada da sua responsabilidade – se deixam corromper pela ambição ou pela vanglória e, quando são delicadamente afastadas, se autodeclaram falsamente mártires do sistema, do “papa desinformado”, da “velha guarda”, em vez de recitar o mea-culpa. A par dessas pessoas, há depois outras que ainda trabalham na Cúria, às quais se concede todo o tempo para retomarem o caminho certo, na esperança de que encontrem na paciência da Igreja uma oportunidade para se converterem, e não para se aproveitarem. Isso certamente sem esquecer a esmagadora maioria de pessoas fiéis que nela trabalham com louvável empenho, fidelidade, competência, dedicação e também grande santidade”.

“Delicadamente” é o advérbio que o papa Bergoglio usou sem hesitação; para definir as demissões sem motivo, as pressões mais ou menos claras exercidas sobre pessoas PARA fazê-las ir embora; se não… para definir as demissões que foram extorquidas com o “estímulo” da obediência e com prevaricações. Delicadamente!

Tudo isso enquanto o controle sobre e-mails, sobre telefones fixos, e – dizem-me – agora também sobre alguns tipos de celular, está atingindo um nível de fazer inveja a qualquer Coreia do Norte. Dizer que as palavras do pontífice parecem ameaçadoras (“às quais se concede todo o tempo para retomarem o caminho certo…”) é dizer pouco; não seriam diferentes se pronunciadas nos anos 70 por um secretário do Partido Comunista Chinês. Elas são também, por outro lado, um sinal evidente de que o grau de desconforto na Cúria cresce – à parte, obviamente, estão os vértices dos dicastérios, já quase completamente nomeados pelo papa Bergoglio ou homologados segundo o seu regime –; e, para responder a isso, se deve recorrer a ameaças explícitas, certamente jamais ouvidas da boca de um Vigário de Cristo. Bom Natal.

[1] http://www.marcotosatti.com/2017/12/21/le-minacce-di-un-papa-alla-curia-un-inedito-storico-lo-scandalo-maradiaga-e-linasprirsi-dei-controlli-in-vaticano-buon-natale/

[2] https://fratresinunum.com/

[3] http://w2.vatican.va/content/francesco/it/events/event.dir.html/content/vaticanevents/it/2017/12/21/curia-romana.html

[4] https://fratresinunum.com/2017/12/21/explode-um-novo-escandalo-no-vaticano-o-braco-direito-pontificio-de-35-mil-euros-por-mes/

Tags:
21 dezembro, 2017

Explode um novo escândalo no Vaticano: o braço direito pontifício de 35 mil euros por mês.

O amigo e primeiro conselheiro de Francisco, Oscar Maradiaga, pregava o pauperismo, mas obtinha meio milhão [de euros] por ano de uma Universidade de Honduras. Bergoglio quis que se realizasse uma investigação inclusive sobre os investimentos milionários e os comportamentos inadequados do bispo Pineda, fidelíssimo do purpurado. E hoje mesmo o papa falou de “traidores e aproveitadores na Igreja”. A investigação completa será no “Expresso”, no próximo domingo.

Por Emiliano Firripaldi, L’Espresso, 21 de dezembro de 2017 | Tradução: FratresInUnum.com – Quando terminou de ler a investigação do visitador apostólico que ele mesmo havia mandado a Honduras em maio, Papa Francisco colocou as mãos no solidéu (ndt. pequeno chapéu em forma de circunferência que os eclesiásticos usam).

Cardeal Maradiaga

Tinha acabado de descobrir que o seu amigo e primeiro conselheiro – o poderoso cardeal Oscar Maradiaga, inflamado sustentador de uma Igreja pobre e pauperista, e, em 2013 promovido pelo próprio Bergoglio como coordenador do Conselho dos cardeais – recebeu por anos cerca de 35 mil euros por mês (ao que se acrescentava um 13o. salário de 54 mil euros em dezembro) da Universidade Católica de Tegucigalpa.

Bergoglio não podia nem imaginar que várias testemunhas, tanto eclesiásticos como leigos, acusasariam Maradiaga de fazer alguns investimentos milionários, em sociedades londrinas, que depois desapareceriam no nada, nem que o Tribunal de Contas do pequeno país da América Central estivesse investigando acerca da utilização de enormes somas de dinheiro dadas pelo governo hondurenho à “Fundação para a educação e a comunicação social” e à “Fundação Suyapa”, ambas sob a responsabilidade da Igreja local e, portanto, do próprio Maradiaga.

“O papa está triste e dolorido, mas também muito determinado a descobrir a verdade”, explicam agora na Casa Santa Marta. Não apenas sobre a utilização final dos pagamentos vertiginosos obtidos pelo cardeal (só em 2015, se lê num relatório interno da Universidade, revisado pelo “Espresso”, o purpurado recebeu quase meio milhão de euros, cifra que segundo algumas fontes teria embolsado por uma década, como “Grão-chanceler” do ateneu); mas também por outros detalhes muito desagradáveis contidos na instrutória dirigida pelo bispo argentino Jorge Pedro Casaretto. Um homem de confiança de Francisco que colocou preto no branco graves acusações trazidas por muitas testemunhas (foram ouvidas umas cinquenta, entre pessoal administrativo da diocese e da universidade, sacerdotes, seminaristas, além do motorista e do secretário do cardeal), também o bispo auxiliar de Tegucipalga Juan José Pineda, fidelíssimo de Maradiaga e de fato aquele que fazia suas funções na América Central.

Francisco, tendo estudado o dossiê que lhe chegou até as mãos há seis meses, chamou para si a decisão final.

Maradiaga, salesiano somo o ex-secretário de Estado, Tarcísio Bertone, nasceu em Honduras há 75 anos. O seu aniversário será em 29 de dezembro e depois de alguns dias deverá entregar as suas demissões sobre a escrivaninha de Francisco, que decidirá ou não se lhe confirmará em seus encargos.

Professor primário e professor de matemática no ensino médio, o purpurado é um homem cultíssimo, fala corretamente cinco línguas, é especialista em teologia moral e filosofia, e é um grande apaixonado por música. Tornou-se célebre na América Latina como inimigo jurado da corrupção e paladino dos mais indigentes, em 2013, Francisco, que aprecia os seus dotes intelectuais e de governo, quis que ele fosse chefe do grupo dos conselheiros que está executando a reforma da cúria romana.

As acusações são muitas. “Há despesas para amigos íntimos de Pineda, como um mexicano que se faz chamar de ‘frei Erick’, mas que nunca professou votos”, explica um missionário. “O personagem chama-se Erick Cravioto Fajardo e viveu por anos em um apartamento adjacente ao do cardeal, em Villa Iris. Recentemente, Pineda, que viveu com ele debaixo do mesmo teto, comprou para ele um apartamento no centro e um carro. Tememos que o dinheiro venha do caixa da Universidade ou da Diocese. Denunciamos este relacionamento próximo e mal falado também no Vaticano. O papa sabe de tudo”.

As testemunhas ouvidas pelo visitador Casaretto falaram também de investimentos milionários catastróficos: Maradiaga teria lançado somas imensas da diocese em algumas sociedades financeiras de Londres, como a Leman Wealth Management (cujo titular, ao lerem-se os registros da Company House da Inglaterra e Gales, é alguém chamado Youssry Henien), e agora parte do dinheiro dado como crédito (e depositados em contas de institutos alemães) teria desaparecido.

Não apenas. No relatório de Casaretto levanta-se a hipótese de importantes buracos no império midiático posto em pé pelo arcebispado e controlado pela Fundação Suyapa (que gerencia jornais e televisões da diocese), enquanto o bispo Pineda foi recentemente indicado pelos jornalistas locais como o dirigente de operações financeiras seguras e como o destinatário de fundos públicos (parece que um milhão de euros) para ostensivos projetos destinados “à formação dos valores dos fieis e à compreensão das leis e da vida social”. Despesas que, segundo os acusadores, nunca foram sustentadas por justificativas válidas.

No Vaticano estão preocupados também pela abertura, por parte do Tribunal de Contas de Honduras, de uma investigação contábil da Diocese entre os anos de 2012-2014: os juízes do Tribunal superior de Contas querem entender se as dezenas de milhões de lempiras doadas a cada ano pelo governo em favor da Fundação para a Educação e a Comunicação social, cujo representante é ainda Maradiaga, foram usadas para os objetivos previstos pela lei. Até agora, a Igreja não entregou – lê-se em uma carta dos magistrados obtida pelo “Espresso” – os ativos e os passivos, e as várias justificativas de despesa.

Logo entenderemos se Bergoglio considerará as pesadas acusações como críveis ou não.

5 dezembro, 2017

Vaticano. Uma notícia ambígua, uma indiscrição e uma informação que esperamos que não seja confirmada sobre Mons. Gänswein.

Vêm do Vaticano uma notícia, uma indiscrição e algumas informações, que esperamos que não sejam confirmadas. Mas vamos por partes.

Por Marco Tosatti, 1º de dezembro de 2017 | Tradução: FratresInUnum.com: Como podem ver pelas fotos postadas no Facebook da Rádio Spada, no fascículo 10/2016 de Acta Apostolicæ Sedis foi publicada a carta privada que o Pontífice enviou as bispos argentinos, depois que eles promulgaram diretrizes para a aplicação do capítulo 8 (aquele das famosas novidades acerca da comunhão aos divorciados recasados) de Amoris Lætitia. Diretrizes que, como se percebeu e sublinhou, são qualquer coisa, menos claras.

A publicação da carta nos Acta é acompanhada por uma breve nota do Secretário de Estado, o Cardeal Pietro Parolin, que, com um “Rescriptumi ex audientia SS.mi” de junho de 2017, dá a notícia de que foi o próprio Papa que quis que os dois documentos – as linhas guias e a carta – fossem publicados no site eletrônico dos Acta Apostolicæ Sedis.

A notícia não pode senão alimentar ulteriormente a confusão e a incerteza em torno da controversa exortação apostólica e ao modo de agir do Pontífice, que aparece, de novo, longe da clareza e da precisão que muitos fiéis esperam dele. Não se dá uma resposta aos cardeais sobre os Dubia, não se dá uma resposta a carta, petições e outras iniciativas de estudiosos, teólogos e simples fiéis desorientados pela deliberada ambiguidade do documento. Mas, ao mesmo tempo, se oferece uma dose de oficialidade a uma carta dirigida a um membro de uma conferência episcopal.

Com qual objetivo? Para obrigar todos a um religiosum obsequium para com um magistério expresso de formas oblíquas e ambíguas, ou para responder sem se comprometer em uma resposta direta, que exporia o Pontífice de, maneira inequívoca, aos duvidosos e aos perplexos? Como simples fiel, isso tudo dá uma sensação de aversão por um comportamento que se poderia definir pretesco (ndt: hipocrisia típica de certos padres), no pior sentido do termo.

E, se for verdade o que soubemos de duas fontes diversas, talvez seja este um mal-estar também compartilhado no Vaticano. Um Cardeal de grande renome, ex diplomata e com um currículo importante à frente de Congregações e ofícios de relevo na Secretaria de Estado, teria repreendido o papa pela sua ação, dizendo-lhe em boa substância: Nós te elegemos para fazer as reformas, não para destruir tudo. A notícia se espalhou no Vaticano, porque a conversa, se é que isto pode ser chamado de conversa, se elevou a níveis altos de decibéis (eles gritaram), a ponto de superar as frágeis barreiras das portas e dos muros. O purpurado em questão foi um daqueles que apoiaram a candidatura de Jorge Mario Bergoglio no conclave de 2013 [o site Gloria.tv sugere que o envolvido seria o Cardeal Leonardo Sandri, argentino, Prefeito da Congregação para as Igrejas Orientais].

Por fim, uma informação que esperamos que não seja confirmada. No próximo 7 de dezembro, o arcebispo Georg Gänswein, já secretário do papa Bento XVI, cumpre os seus cinco anos como Prefeito da Casa Pontifícia. E, segundo as indiscrições de boa fonte, poderia não ser confirmado. Como, além disso, já aconteceu, como sabemos, ao Cardeal Müller. Com base na regra dos cinco anos, que dispara sobretudo e especialmente se o interessado não faz parte da corte do Pontífice. Nas últimas semanas, Mons. Gänswein esteve fora de Roma por algum problema de saúde, mas já voltou. Se a informação for verdadeira, restaria o problema de sua nomeação. É improvável a hipótese de uma Diocese na Alemanha: ele é católico demais! Talvez a secretaria de uma Congregação em Roma. Ou, como Müller, um “ficar à disposição”. Esperamos, porém, que a nossa fonte esteja errada [além de Mons. Gänswein, outro que parece estar com os dias contados é Mons. Guido Marini].

13 novembro, 2017

Assim o Cardeal Caffarra viveu (e sofreu) seus últimos meses.

Numa visita que fiz ao Cardeal Cafarra em seu apartamento de Bolonha, o Cardeal reconheceu sentir-se vigiado e revelou ter informação de que suas comunicações estavam sendo interceptadas.

Por Gabriel Ariza, InfoVaticana, 12 de setembro de 2017 | Tradução: FratresInUnum.com – Poucos meses atrás, eu tive a oportunidade de visitar o Cardeal Carlo Cafarra em seu apartamento de Bolonha. Ele já havia publicado os Dubia e muitos franco-atiradores o identificavam já como “inimigo do Papa”, algo que, ele mesmo me confessou, fazia-o sofrer muitíssimo: “Eu preferiria que me acusassem de ter um amante homossexual do que ser acusado de inimigo do Papa.”

Devo dizer que me comoveu profundamente a simplicidade com que vivia o Cardeal. Cafarra ocupava um pequeno apartamento num dos edifícios do seminário de Bolonha. Um apartamento que necessitava de uma boa reforma, com as paredes cheias de buracos e fios pendurados, e um sistema de calefação bastante deficiente. Em Bolonha, uma cidade fria, Cafarra passava suas horas redeado de livros, cartas e papéis, e não deixava de responder a nenhuma das cartas ou e-mails que recebia de todas as partes do mundo. Eu me lembro daquele dia, por exemplo, que ele tinha que dar uma conferência para a Argentina por videoconferência, e pediu-me que lhe ajudasse a instalar o sistema no computador. Aproveitei para recomendar-lhe que instalasse o WhatsApp, assim eu pude me comunicar com ele a partir de então.

Tive a ocasião de falar com ele sobre as origens do Instituto João Paulo II, que inauguraria no dia 13 de maio de 1981, quando o Papa quase morreu assassinado por Ali Agka, e a carta que recebeu da Ir. Lúcia de Fátima, sobre a situação da Igreja, a crise gerada pela confusão na Amoris Laetitia e a publicação dos Dubia.

Uma das coisas que mais o inquietavam era a concepção que algumas pessoas têm do Papado. Recordo que ele apontou dois sintomas: o primeiro, quando Pio XII quis mudar a disciplina do jejum eucarístico, o Papa pediu a uma comissão teológica não que estudasse a mudança, mas que lhe dissessem se ele tinha legitimidade para realizar esta mudança. Tal era a sensação que tinha o Papa Pacelli sobre sua pequenez no papel de Sumo Pontífice. Outro dos sintomas era o juramento que fazem os cardeais. Caffarra dizia que até Paulo VI, os cardeais juravam dizer sempre a verdade, “e não aquilo que o Papa quer ouvir”. Depois da reforma de Montini, os cardeais juram defender o Papa com seu sangue. Sobre este aspecto, precisamente, ele me recomendou ler um grande intelectual: Josef Seifert.

Eu lhe comentei, então, que tinha ouvido que estavam vigiando-o, e que suas comunicações estavam sendo interceptadas. Ele me disse que sabia disso, que os quatro cardeais que tinham feito públicos os Dubia estavam sendo observados, que tinham suas comunicações interceptadas e que não podiam fazer muita coisa além de procurar alguma forma de comunicação mais segura. Era evidente que não lhe tirava a paz que algum curial pudesse conhecer os segredos mais íntimos de suas conversas: era um homem de Deus, e era Jesus Cristo o que saía de sua boca cada vez que falava.

Sobre os grampos no Vaticano

Os temores de Cafarra, ao contrário do que poderia pensar o leitor incauto, não são nada de novo, nem correspondem a peregrinas teorias da conspiração. Como explicava um dos vaticanistas mais ilustres, Edward Pentin, num artigo no Register, na época do escândalo Vatileaks, os grampos são muito comuns na Cúria Romana.

Pentin relata, por exemplo, como os oficiais do mais alto nível evitam dar detalhes de seu trabalho por telefone, não falam de nada no escritório ou deixam o celular fora do cômodo quando têm uma reunião confidencial. Os técnicos de TI do Vaticano, de fato, podem acessar os computadores de qualquer membro da Cúria, de forma remota, e ao não ser a Cidade do Vaticano exemplo de garantias processuais, a Gendarmeria [a Polícia Vaticana] pode utilizar este sistema sem necessidade de obter uma ordem judicial.

O próprio Vallejo Balda, o sacerdote espanhol que passou 14 meses preso na Cidade do Vaticano, denunciou ter 25 ‘bugs’ (vírus que espionam e rastreiam a atividade do computador) diferentes em seu PC, e rapidamente a propaganda oficial acusou-o por causa disto de “paranoico”. Nada mais longe da realidade.

Eu mesmo vi como um motorista vigia a porta da casa de um importante cardeal, anotando quem sobe e quanto tempo passa com o purpurado. Surpreendeu, por certo, após a morte de Cafarra, a pressa com que se realizaram as exéquias e o enterro.

Estou certo de que Deus já está rindo com a fina ironia e o sentido de humor de seu bom servo, Carlo Cafarra.

10 novembro, 2017

A fumaça de Satanás segundo Francisco.

Não, não é aquela denunciada por Paulo VI. Afinal, de que vale proibir a Comunhão aos recasados, o acesso a cargos importantes no Banco Vaticano e na cúria romana? Não há com o que se preocupar! “Quem sou eu para julgar”?!  “Ouso dizer, a Igreja nunca esteve tão bem“. 

Intolerável, mesmo, é o tabaco. É proibido fumar!

* * *

Papa decide proibir venda de tabaco no Vaticano

JooXXIIIfumando_thumb2

João XXIII, canonizado por Francisco, propagava com seu exemplo “uma prática que prejudica claramente a saúde das pessoas”, nos dizeres do porta-voz do Vaticano.

Cidade do Vaticano (RV) – O Papa Francisco decidiu que a partir de 2018, será proibida a venda de tabaco na Cidade do Vaticano. “A explicação – segundo o porta-voz da Santa Sé, Greg Burke – é simples: nenhum lucro pode ser legítimo se está custando a vida de pessoas”.

Lembrando que, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o tabaco causa de mais de sete milhões de mortes ao ano no mundo, o porta-voz anunciou que “a Santa Sé não pode cooperar com uma prática que prejudica claramente a saúde das pessoas”.

Até agora, os funcionários e aposentados do Vaticano podiam comprar cigarros, charutos e tabaco com desconto no supermercado que se encontra no Estado pontifício, o que representa uma fonte de receita para a Santa Sé.

“No entanto, nenhum lucro pode ser legítimo se coloca em risco a vida das pessoas”, completou Greg Burke.

 

Tags:
5 novembro, 2017

Foto da semana.

Selo 500 anos de Lutero

Por La Nuova Bussola Quotidiana | Tradução: FratresInUnum.com – “Junto à cruz de Jesus estavam de pé sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Cléofas, e Maria Madalena. Quando Jesus viu sua mãe e perto dela o discípulo que amava, disse à sua mãe: Mulher, eis aí teu filho. Depois disse ao discípulo: Eis aí tua mãe. E dessa hora em diante o discípulo a levou para a sua casa.” (Jo 19, 25-27)

Este é um dos mais importantes momentos da Vida de Jesus, o ápice de Sua missão redentora. Maria está lá e ao Seu lado está João. Daquele momento em diante, Maria é Mãe de todos aqueles que virão a pertencer à Igreja: Mater Ecclesiae, como Paulo VI a chamou no encerramento do Concílio Vaticano II.

Todavia, a Santa Madre Igreja, para comemorar o evento das 95 teses afixadas por Martinho Lutero na grande porte da Igreja de Wittenberg há 500 anos, considerou oportuno divulgar um selo, através do Departamento Filatélico do Vaticano. Ele é descrito dessa forma, em sua apresentação oficial:

“Em primeiro plano, Jesus crucificado, tendo ao fundo um céu dourado sobre a cidade de Wittenberg. Em uma atitude penitencial, de joelhos, respectivamente da esquerda para a direita, Martinho Lutero segura a Bíblia, fonte e propósito de sua doutrina, enquanto seu amigo e teólogo, Filippe Melâncton, um dos mais importantes protagonistas da Reforma, segura a Confissão de Augsburgo, Confessio Augustuana, a primeira exposição dos princípios do Protestantismo redigida por ele”.

É verdade que estamos vivendo um clima de “distensão” entre Católicos e Luteranos; é verdade que um bispo católico [Mons. Galantino, secretário da Conferência Episcopal Italiana] chegou ao ponto de dizer que “A Reforma começou com Martinho Lutero há 5 séculos como um evento do Espírito Santo”, mas um selo lançado pela Santa Sé é realmente incomum.

A Santa Madre Igreja, da qual a Virgem Maria é símbolo e modelo, divulgar um selo com um mosaico criado por August von Kloeber em 1851 é um sinal dos tempos. Aqueles dois senhores, que iniciaram o movimento protestante, aos pés da Cruz, definiam a Mariologia como “a soma de todas as heresias”.

Créditos: Rorate-Caeli

26 outubro, 2017

A Correctio filialis e a Laudatio do Papa Francisco.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 19-10-2017 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.comTrês semanas após a Correctio filialis (http://www.correctiofilialis.org), surgiu a primeira resposta organizada: uma Laudatio publicada na web, assinada por um grupo de sacerdotes e intelectuais oriundos principalmente da  área austro-germânica (http: // www.pro-pope-francis.com/).

Quem são os signatários da Laudatio? Um deles, o prelado alemão Fritz Lobinger, bispo emérito de Aliwal (África do Sul), é o “pai” da expressão “presbíteros comunitários”, exposta no livro Teams of Elders. Moving beyond Viri probati (20017) [Equipes de Anciãos. Indo além dos Viri probati], no qual ele preconiza a introdução na Igreja de dois tipos de sacerdotes: os diocesanos e os comunitários, os primeiros celibatários em tempo integral, e os segundos casados, com família, à disposição da comunidade em que vivem e trabalham.

Outro signatário é o Pe. Paul Zulehner, discípulo de Karl Rahner, também conhecido por uma fantasiosa “Futurologia Pastoral” (Pastorale Futurologie, 1990). Em 2011 ele apoiou o “apelo à desobediência” lançado por 329 sacerdotes austríacos a favor do casamento dos sacerdotes, da ordenação sacerdotal de mulheres, do direito dos protestantes e dos divorciados recasados de receber a comunhão, e dos leigos de pregar e dirigir paróquias.

Martin Lintner é um religioso servita de Bolzano, professor em Bressanone e presidente do Insect (International Network of Societies for Catholic Theology). Ele é conhecido por seu livro La riscoperta dell’eros. Chiesa, sessualità e relazioni umane (2015) [A redescoberta do eros. Igreja, sexualidade e relações humanas], no qual se declara favorável à homossexualidade e às relações extraconjugais, bem como à aceitação entusiástica de Amoris laetitia, que marca, segundo ele, “um ponto de não retorno” na Igreja. Com efeito, “não podemos mais afirmar que hoje haja uma exclusão categórica de se aproximar dos sacramentos da Eucaristia e da reconciliação para aqueles que, na nova união, não se abstenham das relações sexuais. Não há nenhuma dúvida sobre isso, a partir do próprio texto da AL” (www.settimananews.it, 5 de dezembro de 2016).

Fica claro a esta altura que a profunda divisão que percorre a Igreja não é entre opositores e fãs do Papa Francisco. A linha de fratura ocorre entre quem é fiel ao Magistério imutável dos Papas e quem apoia o Papa Bergoglio por almejar  o “sonho” de uma igreja nova diferente daquela fundada por Nosso Senhor Jesus Cristo.

Não é preciso ser historiador para entender que estamos vivendo uma página absolutamente incomum na vida da Igreja. Não estamos no fim do mundo, mas à  nossa época se podem aplicar as palavras que com tristeza disse Nosso Senhor sobre o Seu retorno no fim dos tempos: “Quando vier o Filho do Homem, acaso achará fé sobre a Terra?” (Lc 18, 8).

A perda de fé, até mesmo pelos homens da Igreja, é hoje uma evidência. Em 27 de janeiro de 2012, dirigindo-se à Assembleia Plenária da Congregação para a Doutrina da Fé, Bento XVI afirmou: “Estamos diante de uma profunda crise de fé, de uma perda do sentido religioso que constitui o maior desafio para a Igreja de hoje. Por conseguinte, a renovação da fé deve ser a prioridade no compromisso de toda a Igreja nos nossos dias.”  Essa perda da fé tem hoje as características de uma apostasia geral.

O cardeal Robert Sarah, intervindo num encontro das Conferências Episcopais da Europa, realizada em Trieste em 4 de novembro de 2013, afirmou que “mesmo entre os batizados e os discípulos de Cristo, existe hoje uma espécie de ‘apostasia silenciosa’, uma rejeição de Deus e da fé cristã na política, na economia, na dimensão ética e moral e na cultura pós-moderna ocidental”. O cardeal Raymond Leo Burke, por sua vez, em uma homilia pronunciada em 13 outubro de 2017 na Abadia de Buckfast, lembrou que a Mensagem de Fátima “trata das forças diabólicas desencadeadas sobre o mundo em nosso tempo, entrando na própria vida da Igreja, conduzindo as almas para longe das verdades da fé e, portanto, do amor divino que flui do glorioso Coração transpassado de Jesus”.

As almas se perdem porque a linguagem é ambígua e enganosa, e erros e heresias são espalhados todos os dias no povo fiel. O pontificado do Papa Francisco representa o êxito e a culminação de um processo de autodestruição da Igreja cujas origens são remotas, mas que  atingiu hoje uma velocidade vertiginosa.

Nas trevas em que as almas estão imersas, a Correctio filialis de 24 de outubro de 2017 foi como um raio de luz que rasgou a escuridão. A denúncia das heresias apoiadas e propagadas pelo Papa Francisco ressoou de um canto ao outro da Terra, invadindo a mídia e constituindo o tema dominante das conversas particulares de numerosos católicos. Nessas conversas, poucos negam a veracidade dos fatos denunciados pela Correctio. As divergências são mais sobre “o que fazer” diante de uma situação que não tem precedentes na História.

Não falta quem pratique a dupla  linguagem: critica em privado  e homenageia em público os que conduzem a Igreja ao desastre. Essa atitude foi chamada de “nicodemita” por Calvino, para indicar aqueles protestantes que dissimulavam sua doutrina homenageando publicamente a fé e os ritos católicos. Mas a própria Igreja Católica sempre condenou a dissimulação, prescrevendo a confissão pública da fé e o martírio como modelo de vida.

Confessar a fé significa denunciar os erros que se lhe opõem, ainda que os mesmos sejam propostos por bispos e inclusive por um Papa, como aconteceu com Honório I (625-638). Não importa muito saber se Honório foi herege ou favens haeresim [favorecedor de heresia]. O fato de ele ter sido condenado solenemente pelo VI Concílio de Constantinopla (681), presidido pelo papa Leão II, e de sua condenação ter sido confirmada por dois Concílios ecumênicos subsequentes, mostra que a hipótese teológica de um Papa herege, admitida por todos os canonistas medievais, é possível, independentemente do fato de ter-se verificado historicamente.

Mas quem tem autoridade para resistir a um Papa e corrigi-lo? Em primeiro lugar, tal dever incumbe aos cardeais, que são os conselheiros do Papa no governo da Igreja; depois aos Bispos, que constituem, em união com o Papa, a Igreja docente; por fim, aos sacerdotes, religiosos e freiras, e até mesmo aos simples fiéis leigos, que, como batizados, têm aquele aprimoradíssimo sensus fidei que lhes permite discernir a fé verdadeira da heresia.

Eusébio, antes de se tornar bispo de Dorilea, era advogado em Constantinopla quando, em 429, interrompeu em público uma homilia do sacerdote Nestório, que colocava em dúvida a Maternidade divina de Maria. Eusébio teria feito o mesmo se naquele dia, em lugar do Patriarca, estivesse falando o próprio Papa. Seu espírito católico não podia tolerar que a Santíssima Virgem fosse insultada diante do povo fiel.

Hoje a Igreja não precisa de nicodemitas, mas de confessores da fé da  têmpera de Eusébio ou de Máximo o Confessor, um simples monge que não hesitou em desafiar o Patriarca de Constantinopla e os imperadores bizantinos. Para aqueles que queriam obrigá-lo a comungar junto com os hereges monotelitas, ele respondeu: “Ainda que todo o universo comungue com eles, eu não comungarei”. Aos oitenta anos, após sofrer três processos por causa de sua lealdade, Máximo foi condenado à mutilação da língua e da mão direita, os dois órgãos mediante os quais, por palavras e escritos, ele havia combatido erros e heresias.

Ele teria podido repetir as palavras de São Paulo: Ninguém me assistiu na minha primeira defesa, antes todos me desampararam. Não se os impute por isso. Mas o Senhor me assistiu e fortaleceu-me, para que fosse por mim cumprida a pregação e todos os gentios a ouvissem; e fiquei livre da boca do leão” (2 Timóteo 4: 16-17).

O fato de serem poucos, incompreendidos e perseguidos aqueles que dão testemunho da fé católica é permitido pela Divina Providência para aumentar o mérito deles e fazer com que sua conduta não seja apenas legítima e necessária, mas santa e heroica. O que é o exercício heroico das virtudes senão cumprir o próprio dever em circunstâncias excepcionais, apoiado não nas próprias forças, mas na ajuda de Deus?

 

24 outubro, 2017

A “Correctio paternalis” do Papa ao Cardeal Sarah – íntegra da carta.

Leia antes: Editorial: Francisco humilha Sarah. O apogeu da Babel litúrgica.

* * *

Por Ricardo Cascioli, La Nuova Bussola Quotidiana, 22 de outubro de 2017 | Tradução: FratresInUnum.com – A interpretação que o Cardeal Robert Sarah fez do Motu Proprio “Magnum Principium” não é a correta. O espírito do documento papal é exatamente conceder às Conferências Episcopais ampla autonomia e confiança na execução  das traduções litúrgicas, algo que o Cardeal Sarah queria limitar.  E quem o diz é o próprio Papa Francisco em uma carta de próprio punho endereçada ao prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos – ou seja, o Cardeal Sarah – que aqui publicamos na íntegra a pedido explícito do próprio Pontífice. Na verdade, foi exatamente a Nuova Bussola Quotidiana que  publicou, no dia 12 de outubro, a nota do cardeal Sarah, que levando em conta algumas das reações já manifestadas, propunha uma interpretação correta do Motu Proprio (clique aqui).

O Papa é quem pede que a Nova Bússola Quotidiana publique sua carta, logo após termos publicado a nota do Cardeal Sarah: é, por assim dizer, um gesto sem precedentes do Papa Francisco. E além das questões de mérito que acenamos, sentimo-nos honrados e gratos por essa atenção do Santo Padre que objetivamente confere à NBQ autoridade para sediar um debate sobre temas fundamentais para a vida da Igreja, que o vê como protagonista junto a alguns cardeais.

Mas, vamos nos ater ao tema da controvérsia: o assunto é a tradução dos textos litúrgicos do seu original em latim, que estão em uso em diversos países. As traduções (versões e eventuais adaptações) são preparadas pelas diversas Conferências episcopais, as quais logo depois solicitam a aprovação da Santa Sé. O exame da Santa Sé ocorre através de dois instrumentos: a confirmação (confirmatio) e o reconhecimento (recognitio), e é isso que o Motu proprio quer redefinir.  Nesse ponto, eis que surgem diferentes interpretações. Segundo o Cardeal Sarah, Confirmatio e Recognitio são diferentes para o efeito produzido: confirmação apenas para a tradução da edição típica em latim e reconhecimento para a adição de novos textos e modificações rituais que obviamente não sejam substanciais, portanto dois atos idênticos do ponto de vista da responsabilidade da Santa Sé. Assim, em ambos os casos é possível e se requer uma análise detalhada de tudo: novos textos, modificações rituais, traduções do original em latim.

 A preocupação do Cardeal Sarah como prefeito da Congregação para o Culto Divino é evidente: manter a unidade da Igreja também na liturgia, respeitando ao mesmo tempo a autonomia dos bispos de diversos países na elaboração da liturgia local.

O Papa, no entanto, agora vem a público e declara que não é essa a mensagem do Motu Proprio, cuja perspectiva é uma verdadeira “devolução” litúrgica. Ele deixa claro que os dois procedimentos – confirmação e reconhecimento – não são idênticos e que no exercício dessas duas ações ocorre uma responsabilidade “diferente”, tanto da parte da  Santa Sé como das Conferências Episcopais:

a) A Recognitio “significa apenas a verificação e a salvaguarda da conformidade com o direito e a comunhão da Igreja”. É uma frase um pouco hermética, mas que deveria provavelmente ser interpretada de acordo com as palavras do comentário de Monsenhor Artur Roche, secretário da Congregação para o Culto Divino, e que acompanhou a publicação do Motu Proprio Magnum Principium: “A Recognitio (…) envolve o processo reconhecimento da parte da Sé Apostólica das legítimas adaptações litúrgicas, incluindo aquelas ‘mais profundas’ que as conferências episcopais podem estabelecer e aprovar para seus territórios, dentro dos limites permitidos. Sobre esse terreno de encontro entre liturgia e cultura, a Sé Apostólica é, portanto, chamada a reconhecer, isto é, a rever e avaliar tais adaptações, visando salvaguardar a unidade substancial do rito romano”.

b) A Confirmatio é o ato sobre o qual a carta papal concentra mais atenção. Ali fica claramente dito que o julgamento sobre a fidelidade das traduções ao seu original em latim é competência das Conferências Episcopais, “ainda que em diálogo com a Santa Sé”. O que significa que a Santa Sé, ao conceder a confirmação, não realizará mais “um exame detalhado palavra por palavra”, exceto nos casos óbvios de fórmulas relevantes, como orações eucarísticas ou fórmulas sacramentais. Em suma, há muito mais liberdade para as Conferências Episcopais.

Na carta ao Cardeal Sarah , o Papa, em seguida, explica que algumas partes de Liturgiam Authenticam (2001),  o documento normativo para as traduções atualmente em vigor, estão suprimidas ou revogadas. “Passam cuidadosamente por uma releitura ” os nn. 79-84, relativos à aprovação da tradução e reconhecimento da Sede Apostólica; “e caem em desuso”, por sua vez, os nn. 76 e 80. Este último se concentra na recognitio e, obviamente, foi reformulado, enquanto o n. 76 requeria que a Congregação “examinasse mais de perto o trabalho de preparação de traduções nos principais idiomas”.

Uma outra passagem da carta do Papa que chama a atenção. Ele diz que Magnum Principium já não mais sustenta que as traduções devem se adequar em todos os pontos às regras da Liturgiam Authenticam, como foi feito no passado. Tal afirmação unida à outra, segundo a qual uma tradução litúrgica “fiel” implica numa fidelidade tríplice – ao texto original, ao idioma da tradução e à compreensão dos destinatários – dá a entender que Magnum Principium é apenas o início de um processo que pode ir muito longe.

E aqui está a importância desta controvérsia que vê o Papa desautorizando o cardeal Sarah, um Cardeal que nada mais faz senão que seguir a linha traçada por Bento XVI. Não há dúvida de que, com o “espírito” do Magnum Principium, esclarecido e acentuado pela carta papal que aqui publicamos, a tendência será a de avançar para diferentes missais nacionais cada vez mais diferentes entre si  e para um “espírito litúrgico” cada vez menos compartilhado.

A questão vai muito além do aspecto meramente litúrgico, como argumentou repetidamente o cardeal Joseph Ratzinger e mais tarde Papa BentoXVI, a respeito do conceito de Igreja e do entendimento que a Igreja tem de si mesma. Em jogo está principalmente o papel e o poder das Conferências Episcopais para as quais o Papa Francisco pretende transferir “até mesmo uma certa autêntica autoridade doutrinal ” (cfr. Evangelii Gaudium no. 32).

Pelo contrário, já no livro-entrevista com Vittorio Messori intitulado  “O Relatório sobre a Fé” (1985) – O Cardeal Ratzinger, então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, comentando positivamente sobre a valorização do “papel de responsabilidade do bispo” desejada pelo Concílio, lamentou a deriva pós-Vaticano II: “o relançamento do papel do bispo foi realmente amortecido ou corre o risco de ser sufocado pela inserção dos bispos em conferências episcopais cada vez mais organizadas e com estruturas burocráticas, muitas vezes pesadas. No entanto, não devemos esquecer que as conferências episcopais não possuem base teológica, não fazem parte da estrutura ineliminável da Igreja, como ela é desejada por Cristo: elas só têm uma função prática e concreta”. O coletivo não substitui a pessoa do bispo. Este é um ponto decisivo, “porque – disse o Cardeal Ratzinger – se trata de salvaguardar a própria natureza da Igreja Católica que se baseia em uma estrutura episcopal, não em algum tipo de federação de igrejas nacionais. O nível nacional não é uma dimensão eclesial. É necessário que fique claro mais uma vez, que em cada diocese não há mais do que um só pastor e mestre da fé, em comunhão com os outros pastores e mestres e com o Vigário de Cristo”.

* * *

Publicamos a seguir a tradução da carta do Papa Francisco ao Cardeal Robert Sarah [destaques nossos]:

 

Cidade do Vaticano, 15 outubro 2017

À Sua Eminência Reverendíssima

Sr. Card. Robert SARAH

Prefeito da Congregação para o Culto Divino

e a Disciplina dos Sacramentos

Cidade do Vaticano

Eminência,

Recebi sua carta de 30 de setembro u.s., com o qual o senhor quis expressar gentilmente sua gratidão pela publicação do Motu Proprio Magnum Principium e transmitir-me uma nota elaborada, “Commentaire”, sobre o mesmo, visando uma melhor compreensão do texto.

Ao agradecê-lo sinceramente por seu empenho e contribuição, tomo a liberdade de expressar-me de modo simples e espero claramente, algumas observações sobre a referida nota que considero particularmente importante para a aplicação e a justa compreensão do Motu Proprio e para evitar qualquer mal-entendido.

Antes de tudo, é importante destacar a importância da nítida diferença que o novo Motu Proprio estabelece entre recognitio e confirmatio, bem sancionada nos §§ 2 e 3 do canon 838, para revogar a prática adotada pelo Dicastério seguindo a Liturgiam Authenticam (LA) e que o novo Motu Proprio decidiu modificar. Não se pode dizer, portanto, que recognitio e confirmatio são “estritamente sinônimos (ou) são intercambiáveis” ou mesmo que “são intercambiáveis ao nível de responsabilidade da Santa Sé”.

Na verdade, o novo canon 838, através da distinção entre recognitio e confirmatio, estabelece as diferentes responsabilidades da Sé Apostólica no exercício dessas duas ações, bem como a das Conferências Episcopais. Magnum Principium não sustenta mais que as traduções devem estar em tudo de acordo com as regras da Liturgiam Authenticam, como foi feito no passado. Por isso, cada um dos números da Liturgiam Authenticam devem ser relidos atentamente, incluindo os números. 79-84, a fim de distinguir o que é pedido pelo código para a tradução e o que é necessário para as legítimas adaptações.  Fica, portanto, claro que alguns números da LA foram revogados ou caíram em desuso, nos termos em que eles foram reformulados pelo novo canon do Motu Proprio (por ex. N. 76 e também o n. 80).

Sobre a responsabilidade das Conferências Episcopais de traduzir “fideliter”, é necessário deixar claro que o julgamento sobre a fidelidade ao original em latim e as eventuais correções necessárias, era tarefa do Dicastério, enquanto que agora a norma concede às Conferências Episcopais a faculdade de julgar a bondade e a coerência de um e de outro termo nas traduções do original, ainda que em diálogo com a Santa Sé. Portanto, a confirmatio não supõe mais um exame detalhado feito palavra por palavra, exceto em casos óbvios que podem ser fatos apresentados aos Bispos para a sua posterior reflexão. Isto aplica-se em particular às fórmulas relevantes, como para as Orações Eucarísticas, especialmente as fórmulas sacramentais aprovadas pelo Santo Padre. A confirmatio também leva em conta a integridade do livro, ou seja, verifica se todas as partes que compõem a edição típica foram traduzidas [1].

Aqui se pode acrescentar que, à luz do MP, o “fideliter” do § 3 do cânon, implica uma tríplice lealdade: ao texto original, em primeiro lugar; ao idioma particular no qual for traduzido e finalmente à compreensão do texto por parte dos destinatários (cf. Institutio Generalis Missalis Romani nos. 391-392)

Neste sentido, a recognitio indica apenas a verificação e salvaguarda da conformidade ao direito e à comunhão da Igreja. O processo de tradução dos textos litúrgicos relevantes (e as fórmulas sacramentais, o Credo, o Pai Nosso.) para um determinado idioma – a partir do qual são consideradas traduções autênticas – não deveria conduzir a um espírito de “imposição” às Conferências Episcopais de uma determinada tradução feita pelo Dicastério, pois isso poria em causa o direito dos bispos sancionado no cânon, e mesmo antes da SC 36 § 4. De resto, leve em conta a analogia com o canon 825 § 1 sobre a versão da Sagrada Escritura que não requer confirmatio por parte da Sé Apostólica.

Conclui-se, assim, que não é correto atribuir à confirmatio a finalidade da recognitio (ou seja, “verificar e salvaguardar a conformidade com o direito”). Certamente, a confirmatio não é um ato puramente formal, mas necessário para a edição do livro litúrgico “traduzido”, pois é concedida depois que a versão tiver sido submetida à Sé Apostólica para a ratificação da aprovação dada pelos Bispos, em um espírito de diálogo e ajuda à reflexão se e quando necessário, respeitando os direitos e deveres, considerando a legalidade do processo seguido e suas modalidades [2].

Finalmente, Eminência, reitero a minha gratidão fraterna por seu empenho e observando que a nota “Commentaire” foi publicada por alguns sites da internet e erroneamente atribuída à sua pessoa, eu peço gentilmente que o senhor providencie para que essa minha resposta seja divulgada nos mesmos sites, além de enviar a mesma à todas as Conferências Episcopais, aos membros e consultores do Dicastério.

Fraternalmente

Francisco