Archive for ‘Cúria Romana’

7 dezembro, 2016

O Papa se cala, mas seus amigos cardeais falam. E acusam.

O prefeito do novo dicastério para a família ataca o Arcebispo de Filadélfia, Charles J. Chaput, pelo modo como ele implementa a  “Amoris Laetitia” em sua diocese. Eis as diretrizes que acabaram sob julgamento.

Por Sandro Magister, Roma, 23 de novembro de 2016 | Tradução: FratresInUnum.com: Nenhuma palavra saiu da boca do Papa Francisco depois que quatro cardeais pediram-lhe publicamente para desmantelar cinco grandes “dúvidas” suscitadas pelas passagens mais controversas da “Amoris laetitia”:

> “Fazer clareza”. O apelo dos quatro cardeais ao Papa

jpg_1351420Ou melhor, uma não-resposta foi o que o papa deu, quando em uma entrevista a Stefania Falasca para o jornal da Conferência Episcopal Italiana “Avvenire”, em 18 de novembro, a um certo ponto ele disse, falando com intimidade à sua amiga de longa data:

Alguns – pense em certas réplicas à ‘Amoris laetitia’ – ainda não compreendem, ou é branco ou preto, mesmo que seja no fluxo de vida que se tem de discernir.”

E uma outra não-resposta foi dada na audiência geral da quarta-feira, 23 de novembro, dedicada exatamente à obra de misericórdia: “aconselhar os duvidosos”:

“Não façamos da fé uma teoria abstrata, onde as dúvidas se multiplicam”

Em compensação, meteram-se a falar no lugar do papa não poucos eclesiásticos de seu círculo, que competem entre si para dizer que a exortação pós-sinodal “Amoris laetitia” é por si só claríssima e não pode dar lugar a dúvidas e, portanto, quem levanta tais dúvidas, na realidade, ataca o papa e desobedece ao seu magistério.

E entre esses loquazes enviados, particularmente, tem se destacado o cardeal Christoph Schönborn, o qual já foi várias vezes citado publicamente pelo Papa Francisco como seu intérprete autorizado e primeiro guardião da doutrina da Igreja, ignorando o Cardeal Gerhard L. Müller, cujo papel como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé foi agora reduzido a um mero título honorário.

Mas, o mais incontinente foi outro cardeal, fresquinho no cardinalato, o americano Kevin J. Farrell, que disse em uma entrevista ao “National Catholic Reporter”:

“Em ‘Amoris laetitia’, é o Espírito Santo que fala. E ela deve ser tomada como ela é. É o documento guia para os próximos anos. Eu, honestamente, não vejo por que alguns bispos acham que devem intrepretá-la”.

Portanto, engana-se quem acha que Francisco irá ainda intervir. “Eu acho que o papa já falou o suficiente” – acrescentou Farrell – quando, em 5 de setembro, deu a sua aprovação para a exegese de “Amoris laetitia” feita pelos bispos Argentinos da região de Buenos Aires, segundo a qual é possível aos divorciados novamente casados no civil receberem a comunhão, ainda que continuem a viver “more uxório”, ou seja, “como marido e mulher”.

Farrell foi feito cardeal pelo Papa Jorge Mario Bergoglio no consistório de 19 de novembro passado. E desde agosto do ano passado é prefeito do novo dicastério Vaticano para os leigos, família e vida.

É, portanto, um dos novos rostos da nova Cúria de papa Francisco. Uma cúria que – é repetido várias vezes – não deve atropelar, mas promover a multiforme “criatividade” de cada Bispo na respectiva diocese.

Mas, na verdade, está acontecendo o oposto. Em outra entrevista – desta vez ao “Catholic News Service”, a agência da Conferência Episcopal dos Estados Unidos – Farrell não pensou duas vezes para atacar “ad personam” um bispo ilustre e seu compatriota, cuja “culpa” teria sido apenas aquela de oferecer à sua diocese as diretrizes para a implementação de “Amoris Laetitia”, as quais, obviamente, não agradaram ao próprio Farrell.

O agredido não é um desconhecido. Trata-se de Charles J. Chaput, Arcebispo de Filadélfia, a cidade que em 2015 sediou o Encontro Mundial das Famílias em que o Papa Francisco fez visita (ver foto).

Chaput é um franciscano e o primeiro bispo dos Estados Unidos oriundo de uma tribo nativa americana. A pastoral da família é uma de suas competências mais reconhecida. Ele participou no Sínodo sobre a família e no final de sua segunda e última sessão foi eleito por um grande número de votos entre os doze membros do conselho de cardeais e bispos que fazem ponte entre um Sínodo e o outro.

De acordo com Farrell, no entanto, ele cometeu o delito de ter ditado aos seus sacerdotes e fiéis diretrizes “fechadas”, ao invés de “abertas”, como Papa Francisco quer.

“Eu não compartilho do sentido que o Arcebispo Chaput deu”, disse o novo prefeito da pastoral do Vaticano para a família. “A Igreja não pode reagir, fechando as portas antes mesmo de ouvir as circunstâncias e as pessoas. Não é assim que se faz.”

Chaput reagiu ao incrível ataque com uma contra-entrevista ao “Catholic News Service”, reproduzida na íntegra no Italiano e Inglês neste post de “Setimo Cielo”:

> O Papa se cala, mas o neo-cardeal, seu amigo, fala e acusa. Não há paz sobre “Amoris Laetitia“.

Mas o que interessa agora é verificar de perto o assunto do litígio, ou seja, as orientações oferecidas por Chaput à sua Arquidiocese de Filadélfia.

Elas são reproduzidas no link abaixo. Estas sim, bem claras e sem sombra de dúvida.

Diretrizes pastorais para implementação de Amoris Laetitia – Arquidiocese de Filadélfia

É fácil notar que as orientações da Arquidiocese de Filadélfia são semelhantes àquelas ditadas pelo Cardeal Ennio Antonelli aos sacerdotes da Arquidiocese de Florença, divulgadas em outubro passado em http://www.chiesa:

> Em Roma, sim, em Florença não. Eis como “Amoris laetitia” divide a Igreja.

O Cardeal Antonelli foi arcebispo de Florença entre 2001-2008 e depois, por quatro anos, prefeito do Pontifício Conselho para a Família, quando foi substituído em 2012 por Dom Vincenzo Paglia e este ano pelo novo cardeal Farrell, no novo ministério expandido.

Também a ele é reconhecida uma competência indiscutível no assunto. Mas, não obstante tudo isso, o Papa Francisco não o chamou para participar do duplo Sínodo sobre a família.

Três meses após a publicação de “Amoris laetitia”, até mesmo Antonelli disse que estava “à espera de orientação com autoridade desejável” do papa, que esclarecesse os pontos obscuros da Exortação. Portanto, bem antes que viessem à tona os quatro cardeais com suas cinco “dubia”.

Mas, também a expectativa de Antonelli foi respondida pelo Papa Francisco apenas com o silêncio. Bem como às expectativas de muitos outros cardeais e bispos, que de modo reservado lhe dirigiram e continuam a dirigir apelos semelhantes, movidos por uma crescente preocupação com a confusão prevalecente em toda a Igreja, tanto na fé como nas obras.

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6 dezembro, 2016

Cardeal Brasileiro ataca críticos de ‘Amoris Laetitia’: Nós somos 200 e eles só são 4.

LifeSiteNews, 29 de novembro de 2016 | Tradução: FratresInUnum.com: Depois que quatro Cardeais expressaram preocupações relativas às ambiguidades em Amoris Laetitia através da publicação do Dubia, o cardeal brasileiro Claudio Hummes os repreendeu dizendo eles estão sozinhos em suas causas.

Lula, católico praticamente para Chalita, comungando por conta própria, sob as bençãos do aposentado Dom Hummes.

Lula comungando por conta própria, sob as bençãos de Dom Hummes.

Apesar do fato de que outros bispos e muitos outros já se juntaram aos quatro compartilhando as mesmas preocupações, o cardeal Hummes procurou minimizar sua parte na controvérsia.

“Nós somos duzentos, enquanto eles são apenas quatro”, vangloriou-se Hummes numa entrevista em espanhol ao “Religião Digital”.

Embora alegando que o cardinalato como um todo apoia o Papa Francisco, Hummes acusa os quatro cardeais de provocar um cisma na Igreja. “A Igreja defende a sua unidade como uma unidade na pluralidade […]. Essa pluralidade é deslegitimada se a unidade é ameaçada por cismas. Estas divisões são o verdadeiro mal, não a pluralidade “.

Apesar da preocupação externada por Hummes, não escapa ao olhar do observador atento que um grande número de cardeais já se uniram várias vezes para defender o Magistério integral e tradicional da igreja. Durante o Sínodo dos Bispos, 13 cardeais assinaram uma carta fraterna dirigida ao Papa abordando a manipulação do Sínodo. Mais recentemente, os cardeais Raymond Burke, Carlo Caffara, Joachim Meisner, e Walter Brandmüller tornaram público seu pedido ao Papa para que ele esclareça o que permanece discutível em Amoris Laetitia.

“A Igreja quer ser aberta a todas as sensibilidades,” Hummes explicou. Mas não há nenhum sinal de abertura para os quatro cardeais da parte de Hummes ou do papa Francisco. Até agora, o papa Francisco não respondeu às dúvidas que foram formuladas em linguagem simples e que devem ser simplesmente respondidas com “sim” ou “não”.

A representação que o Cardeal Hummes faz, segundo a qual a Igreja é um partido democrático no qual a maioria é que dá as cartas – usando o seu exemplo de 4 X 200 – é igualmente defeituosa. O cardeal não se esquece do número de proponentes, mas sim do conteúdo da Dubia. Ao mesmo tempo, não muitos cardeais têm apoiado o Papa Francisco em sua recusa de responder as dúvidas.

“O Papa diz que nós temos que caminhar todos juntos e não excluir ninguém. Não é tão importante o que pensam, o que eles dizem, ou o que fazem… “, Hummes declarou na entrevista. Ele reitera: “Temos que caminhar juntos e encontrar uma forma de fazê-lo sem excluir ninguém.”

“Se alguém quiser excluir-se, então, é problema dele”, acrescentou maldosamente, deixando implícito que os quatro cardeais estão nadando contra a corrente e alguns deles por causa de algum tipo de obstinação pessoal. Na verdade, os quatro já explicaram publicamente que seu interesse reside no esclarecimento de dúvidas para os fiéis. As dúvidas foram originalmente concebidas para serem tratadas de forma privada e os cardeais só resolveram torná-la pública porque o Papa recusou-se a responder ao apelo.

“A uniformidade começa a criar muros e decidir quem está dentro e quem está fora”, explicou Hummes, invocando a imagem popular de um muro, a fim de atacar uma mentalidade conservadora. “O Papa poderia estar muito aborrecido com os motivos que levaram essas quatro pessoas a querer corrigi-lo.”

“Mas ele está totalmente tranquilo. Ele sabe o caminho certo que precisa ser seguido”. Esta declaração parece estar em contradição com relatos do jornalista Edward Pentin segundo o qual o Papa ficou, de fato, furioso com a dubia, “nada feliz”e “fervendo de raiva”.

Cardeal Hummes, ex-chefe da Congregação do Vaticano para o Clero e amigo pessoal do Papa Francisco, teve que esclarecer declarações controversas no passado, entre as quais as de uma entrevista em que disse que ele não poderia dizer se Jesus se oporia ao casamento gay.

Nota do Fratres: não nos esqueçamos das declarações relativizando o celibato sacerdotal, verdadeira obsessão de Hummes, quando acabara de ser nomeado Prefeito da Congregação para o Clero, em 2006. Ao pisar em Roma, foi obrigado a realizar um constrangedor mea culpa público, retificando suas afirmações.
23 novembro, 2016

Uma guerra civil está em curso na Igreja.

Por Marco Politi, Il Fatto Quotidiano, 21 de novembro de 2016 | Tradução: FratresInUnum.com: Papa Francisco fechou a Porta Santa, mas a sua mensagem é acompanhada pelo ruído de uma crise subterrânea. Uma guerra civil está em curso na Igreja. Um confronto que toca a autoridade do pontífice e seu programa de reformas. Estão em jogo visões opostas sobre o papel da Igreja, o “pecado”, a salvação das almas. E como em todas as guerras civis, o conflito não contempla concessões.

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Quatro cardeais escolheram estes dias para colocar diretamente sob acusação  a teologia de Francisco e seu documento pós-sinodal Amoris Laetitia (que abre o caminho para a comunhão de divorciados novamente casados). Os cardeais atribuem a Bergoglio ter semeado entre os fiéis “a incerteza, confusão e perplexidade” e pedem para que ele “lance luz” sobre o documento. Na carta, no estilo de disputas teológicas, são anexadas os chamados Dubia: “Perguntas sobre questões controversas”.

Com um gesto que tem o sabor de um desafio, a carta foi enviada “para informação” também ao responsável oficial da ortodoxia, o cardeal Gerhard Müller, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.

Trata-se de um acontecimento absolutamente sem precedentes na história moderna do papado. E a primeira coisa que chama a atenção é o silêncio constrangedor da hierarquia eclesiástica. Nem um cardeal se contrapôs publicamente à sua tese, nem um presidente de Conferência Episcopal, ou um dirigente de uma grande Associação Católica [ndt: posteriormente à divulgação deste artigo, o presidente da Conferência Episcopal da Grécia atacou duramente os cardeais]. E de pensar que, encarando o papel da consciência do qual fala Francisco, os quatro cardeais afirmam que em tal caso, arrisca-se a chegar ao ponto em que se tornam concebíveis “casos de adultério virtuosos, homicídio legal e perjúrio obrigatório”.

Dois dos cardeais são membros da Cúria: o alemão Walter Brandmüller, ex-presidente do Pontifício Comitê de Ciências Históricas, e o norte-americano Raymond Burke, ex-presidente do Tribunal da Assinatura Apostólica. E dois são arcebispos eméritos de dioceses importantes: Carlo Caffara, um dos prediletos de  João Paulo II e Bento XVI, e até 2015 pastor de Bolonha, e Joachim Meisner, um íntimo do Papa Ratzinger, que até 2014 dirigiu a diocese de Colônia.

Liquidar a carta – a qual Francisco respondeu indiretamente em uma entrevista ao Avvenire, denunciando um “certo legalismo que pode ser ideológico – como sendo o lamento de quatro ultra-conservadores é não compreender o confronto subterrâneo que tem se desenvolvido na Igreja Católica nos últimos dois anos. Os quatro são apenas a ponta do iceberg, que está se alargando e se espalhando. Eles também falam por muitos que não se expõem.

Durante anos, os meios de comunicação não entenderam a profundidade do movimento anti-Obama, que provocou em 8 de novembro passado a derrota de sua política. Agora, arriscam repetir o mesmo erro com Francisco. Deslumbrados com o seu carisma e o consenso planetário que goza até mesmo entre os agnósticos e não-crentes, muitos ignoram a escalada sistemática daqueles entre o clero, os bispos, o colégio de cardeais que contestam a teologia da misericórdia do pontífice.

Entre os dois Sínodos houve uma mudança de acento fundamental. Enquanto nas últimas décadas, entre o confronto entre reformistas e conservadores, o pontífice permanecia como “árbitro” para a maioria da hierarquia da Igreja, hoje, ao invés, o Papa tornou-se a parte em causa. Basta ler a última entrevista do Cardeal Burke. A Amoris Laetitia diz ele, “não é o Magistério, pois contém graves ambiguidades que confundem os fiéis e pode induzi-los ao erro e pecado grave. Um documento que apresenta esses defeitos não pode ser ensinamento perene da Igreja“.

Em dois anos, tem havido um crescimento de ações dissidentes. Antes do Sínodo de 2014, cinco cardeais escreveram um livro em defesa da doutrina tradicional sobre o matrimônio. Em seguida, intervieram com outro livro 11 cardeais de todo o mundo, incluindo personalidades importantes, reconhecidas entre o clero e episcopado. Enquanto isso, cerca de 800 mil católicos, incluindo 100 bispos, assinaram uma petição ao Papa pedindo um bloqueio das inovações. No Sínodo de 2015, 13 cardeais escreveram a Bergoglio questionando a direção que estava tomando a assembleia.

Um movimento sistemático de contestação em que o reformador fez frente apenas timidamente. E, de fato – embora muitos desejam esquecer – na votação no Sínodo de 2015 sobre a Família, foram rejeitadas as teses de uma via penitencial que reconhecesse abertamente a possibilidade de comunhão para divorciados novamente casados. A maioria tradicional deste parlamento mundial de bispos disse “não”. Nesse meio tempo surgiu uma rede de cardeais, bispos, sacerdotes, teólogos e leigos empenhados, signatários de uma “declaração de fidelidade ao ensinamento perene da Igreja sobre o casamento.” Posteriormente, 45 teólogos escreveram (anonimamente) ao Colégio dos Cardeais, sugerindo que certas interpretações da Amoris Laetitia poderiam ser “heréticas”.

O movimento anti-Bergoglio trabalha sobre o tempo. Nos Estados Unidos, a escalada silenciosa subestimada contra Obama levou à derrota dos democratas. Na Igreja Católica, o que está em jogo é o futuro conclave. Hoje, o historiador da Igreja Alberto Melloni  fala de “isolamento” do pontífice. E Andrea Riccardi, outro historiador, diz que nunca no século XX um pontífice encontrou tanta oposição entre os bispos e o clero.

Na guerra civil em curso na Igreja, o objetivo é o pós-Francisco: não deverá subir ao trono papal um homem que leve a cabo o desenvolvimento das reformas iniciadas.
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22 novembro, 2016

​Na mira: a Doutrina da Fé.

Por FratresInUnum.com

As recentes “Dubia” dos quatro cardeais ao Papa Francisco e, para informação, à Congregação para a Doutrina da Fé, ameaçam fortemente o atual establishment na Igreja. Literalmente, eles não têm para onde correr.

Francisco e Stella.

Francisco e Stella (ainda Arcebispo).

Hoje, Papa Bergoglio começa seu movimento de contra-ataque, com a discreta e exclusiva nomeação do Cardeal Beniamino Stella como membro da Congregação para a Doutrina da Fé. Sim, ninguém mais foi nomeado, somente ele.

Para um leitor desatento, essa nomeação parece pouco significativa. Mas, para quem conhece o mistério que paira sobre a sombria figura desse purpurado, é bastante clamorosa a movimentação, tão mais clamorosa quanto silenciosa.

Aliás, o Cardeal Stella nunca aparece na superfície desse pontificado, mas, como publicamos anteriormente, ele é a verdadeira “eminência parda” em exercício, aquele que dá as cartas, aquele que pontifica!

Agora, sua presença na Congregação para a Doutrina da Fé tem a finalidade de encurralar o Cardeal Müller, Prefeito, amigo pessoal de Papa Ratzinger, organizador de sua Opera Omnia, cujas posições contra o “Paradigma Kasper”, que não prevaleceu no Sínodo, mas apenas em “Amoris Laetitia”, são abundantemente conhecidas.

De fato, estamos no governo das sombras! Enquanto o Papa Francisco finge desconhecer as sérias perguntas dos cardeais, reservando aos mesmos apenas indiretas venenosas, não está parado, age! Começa agora o aparelhamento do antigo Santo Ofício! Realmente, a Doutrina da Fé está na mira!

19 novembro, 2016

A sós.

Por FratresInUnum.com: Em uma decisão incomum, Francisco cancelou o encontro que costuma ocorrer entre o Pontífice e todos os cardeais presentes em Roma antes dos consistórios. Hoje, Francisco criará 17 novos cardeais para a Igreja Romana.

O encontro prévio aos consistórios é uma tradicional oportunidade para que o bispo de Roma ouça os anseios e consulte a opinião de seus Cardeais, que, dentre as principais funções, estão a de aconselhar o Papa e eleger o seu sucessor.

francisco

Nos dois consistórios anteriores realizados por Francisco, a reunião ocorreu ao longo de dois dias inteiros. Na primeira delas, Bergoglio, então recém eleito bispo de Roma, designou ao Cardeal Walter Kasper a função de apresentar as idéias que moldariam sua controversa Exortação Apostólica Amoris Laetitia.

De acordo com o experiente vaticanista Marco Tosatti, a apresentação de cinco dubia por parte de quatro eminentes Cardeais teria sido fundamental para a decisão tomada pelo Papa.

Tosatti afirma que o questionamento seria reapresentado pelos Cardeais durante a reunião pré-consistorial, e “não só pelos signatários do pedido de esclarecimento, mas também, talvez, por outros cardeais, ávidos por uma palavra final do Papa”.

O Vaticano não deu nenhuma razão oficial para o cancelamento.

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2 agosto, 2016

Diaconato feminino. Continua a Revolução de Francisco.

Por FratresInUnum.com“Depois de intensa oração e madura reflexão”, Papa Bergoglio decidiu hoje instituir a Comissão para o estudo de Diaconato feminino, e isso apenas após três meses de que o tinha prometido à Plenária da União Internacional das Superiores Gerais (três meses!).

Após a imensa repercussão de sua então “promessa”, Francisco recou. Em viagem de retorno da Armênia, afirmou:

Santo Padre, há algumas semanas, o senhor falou de uma Comissão para refletir sobre o tema das mulheres diaconisas. Gostaria de saber se esta Comissão já existe e quais serão as questões sobre as quais refletirá? Enfim, por vezes, uma Comissão serve para se esquecer dos problemas: eu gostaria de saber se este é o caso? 

“Houve um presidente argentino que dizia e aconselhava aos presidentes de outros países: quando quiseres que uma coisa não se resolva, cria uma comissão! O primeiro a ficar surpreendido com esta notícia fui eu, porque, no diálogo com as religiosas – que foi gravado e depois publicado no jornal ‘L’Osservatore Romano’ –, tratava-se doutra coisa, mais ou menos nesta linha: ‘Ouvimos dizer que, nos primeiros séculos, havia diaconisas. Pode-se estudar isto? Criar uma Comissão?’ Nada mais… Fizeram uma pergunta; foram educadas, e não só educadas mas também amantes da Igreja, mulheres consagradas. (…) No dia seguinte [nos jornais]: ‘A Igreja abre a porta às diaconisas’. Verdadeiramente zanguei-me um pouco com os mass-media, porque isto é não dizer a verdade das coisas às pessoas”.

Mas parece que as raivas de Francisco passam bem depressa, e ele, que é um homem de palavra, cumpre a promessa que parecia desfeita – a de constituir uma comissão de estudos sobre a possibilidade de um diaconato feminino.

francis

Papa Francisco recebe comitiva anglicana no Vaticano. É isso que ele quer para a Igreja Católica?

Na Comissão, grita a escandalosa ausência do Cardeal Müller, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé… E causa espanto o elenco imenso de progressistas e teólogos e, sobretudo, teólogas liberais.

Salta aos olhos a presença de Piero Coda, focolarino e conhecidamente feminista.

Assim como o Sínodo dos Bispos foi apenas um simulacro: as decisões já estavam tomadas!, agora, a Revolução continua.

“Exurge! Quare obdormis, Domine?” (Ps XLIII,23).
“Levantai-Vos, oh Senhor! Por que dormis?” (Sl 43,23).

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25 julho, 2016

Falando com as paredes.

Enquanto um cardeal profere toda uma conferência para fundamentar seu pedido de retorno à posição “ad orientem” como um regresso à centralidade de Deus, outro purpurado limita-se, em sua tacanhez cnbbística,  a dizer que, nessa posição, o sacerdote celebra “voltado para a parede”…

Reforma da Liturgia. De novo?

Dias atrás, falou-se na imprensa e em alguns ambientes eclesiais de uma eventual nova reforma da Liturgia na Igreja. Propagou-se que os sacerdotes deveriam celebrar novamente a Missa voltados “ad Orientem” (para o Oriente), que significa que deveriam celebrar voltados para a parede, em vez de voltados para o povo, como se fazia antes da reforma do Concílio Vaticano II. Além disso, a santa Comunhão deveria ser recebida ajoelhados e diretamente sobre a língua.

A questão surgiu depois de uma recomendação, aos sacerdotes, do cardeal Roberto Sarah, Prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplinados Sacramentos, na abertura de um encontro sobre Liturgia, em Londres. Não se tratou de um ato oficial da Santa Sé, mas de um desejo do Cardeal,preocupado com o significado da liturgia do Advento; por ser ele o encarregado do Papa para a Liturgia em toda a Igreja, sua palavra foi tomada poralguns como se já fosse uma decisão da Santa Sé, com o aval do Papa.

Missa de Dom Odilo na Catedral da Sé em São Paulo.

Uma missa de Dom Odilo na Catedral da Sé em São Paulo. “A reforma promovida pelo Concílio não autoriza nem avaliza cometer abusos na liturgia”.

Sem demora, acaloradas discussões sobre uma suposta “reforma da reforma litúrgica” tomaram conta de alguns setores eclesiais; para alguns, seria necessário rever a reforma litúrgica promovida pelo Concílio, nas diretrizes da Constituição Sacrosanctum Concilium (1963). Isso significaria, na prática, voltar à maneira de celebrar a Liturgia antes do Concílio Vaticano II; motivos para tal revisão seriam a “intocabilidade” das normas litúrgicas anteriores ao Concílio, os abusos e a “dessacralização” das celebrações litúrgicas, supostamente causados pelas reformas conciliares.

Depressa, porém, a questão foi esclarecida durante uma audiência do cardeal Sarah com o Papa Francisco; e, no dia 11 de julho, o Padre Lombardi, porta-voz da Santa Sé, emitiu um Comunicado oficial, com “alguns esclarecimentos sobre a celebração da Missa”. Com suas palavras, o cardeal Sarah não estava anunciando orientações diversas daquelas atualmente vigentes nas normas litúrgicas e nas palavras do próprio Papa sobre a celebração “de frente para o povo” e sobre o rito ordinário da Missa.

O Comunicado recorda as normas da Instrução Geral do Missal Romano, relativas à celebração eucarística: “O altar-mor seja erigido separado da parede, para ser facilmente circundável e para que nele se possa celebrar de frente para o povo, como convém fazer em toda parte onde isso for possível. O altar ocupe um lugar que seja, de fato, o centro para onde se volte espontaneamente a atenção de toda a assembleia dos fiéis. Normalmente, seja fixo e dedicado” (nº 299).

No Comunicado, ficou claro que não está em andamento nenhuma “reforma da reforma da Liturgia”. E até se recomendou que seja evitado o emprego da expressão “reforma da reforma litúrgica”, que pode induzir a equívocos sobre a validade da disciplina litúrgica vigente na Igreja.

Resolvida a questão, vale lembrar, no entanto, que a reforma promovida pelo Concílio não autoriza nem avaliza cometer abusos na Liturgia. A disciplina litúrgica é regulada pelo Magistério da Igreja; e, sem prejuízo da criatividade, das liberdades e alternativas previstas nos ritos, ninguémestá autorizado, por iniciativa própria, a mudar a forma das celebrações e as normas litúrgicas prescritas. Mas a reforma do Concílio também supõe e requer uma contínua e adequada formação litúrgica do povo de Deus.

O critério fundamental da reforma litúrgica do Concílio é que “todos os fiéis sejam levados àquela plena, cônscia e ativa participação das celebrações litúrgicas, que a própria natureza da Liturgia exige e à qual, por força do Batismo, o povo cristão (…) tem direito e obrigação” (SC 14). A atenção e fidelidade criteriosa às normas litúrgicas deve sempre ter em vista essa “participação plena, consciente e ativa” dos fiéis nas celebrações da Liturgia, para que possam receber os abundantes frutos dos sagrados Mistérios celebrados.

Quanto à maneira de comungar, os fiéis têm a liberdade de receber a sagrada Comunhão na mão ou, diretamente, na boca; também podem recebê-la de joelhos, ou em pé. O que importa, mais que tudo, é que a recebam com fé, a fé da Igreja no Sacramento da Eucaristia, e com aquela dignidade interior e devoção exterior que convém à Eucaristia.

Cardeal Odilo Pedro Scherer

Arcebispo metropolitano de São Paulo

Publicado no Jornal O SÃO PAULO  edição 3111 – De 20 a 27 de julho de 2016.

11 julho, 2016

Reforma de um mínimo suspiro de tentativa de reforma da reforma. 

Nota do Fratres: Nada mais do que o esperado por parte da Sala de Imprensa da Santa Sé. O demissionário padre Lombardi — descanse em paz –, desmentidor oficial do Vaticano, rápido em rechaçar qualquer vestígio de ortodoxia e sonolentíssimo em fustigar enganos, não fez mais do que o seu papel. Nada havia a ser esclarecido. O bom cardeal Sarah foi claríssimo quando apenas sugeriu uma mudança, sem valor oficial. Mas, é fundamental, imperioso, defender as reformas pós-conciliares contra o menor sussurro dos restauracionistas.

Cardeal Sarah

Cardeal Sarah

Não se deve esquecer que, há pouco mais de um ano, o Papa Francisco, comemorando o aniversário da primeira missa em italiano celebrada por Paulo VI, disse, referindo-se aos que defendem uma “reforma da reforma”:

Vamos agradecer ao Senhor pelo que Ele tem feito na sua Igreja nestes 50 anos de reforma litúrgica. Foi realmente um gesto corajoso para a Igreja se aproximar do povo de Deus para que eles pudessem entender o que estavam fazendo. Isso é importante para nós, seguir a missa dessa forma. Não é possível voltar atrás. Devemos sempre ir adiante. Sempre adiante! E aqueles que querem voltar atrás estão enganados. Sigamos adiante neste caminho.

É importante ressaltar que a fala do cardeal guineense, pela clareza que incomoda a atual hierarquia, mobilizou, numa velocidade insólita, todo o aparato modernista-eclesiástico de apologetas do “espírito do Concílio”. Primeiro, foi Dom Vincent Nichols, o ultra-progressista arcebispo de Westminster, sede do encontro em que discursou Sarah, a escrever imediatamente a seus padres, instando-os ao não seguir o pedido do prefeito da liturgia. Um gesto nada elegante de “comunhão episcopal” nada fraterna.

Até no Brasil, o Cardeal Arcebispo de São Paulo, privadamente, demonstrou ceticismo e minimizou as notícias acerca do discurso de Sarah, afirmando ser um gosto particular do prefeito e não um ato oficial do Vaticano, e que uma tal mudança significaria rever o estabelecido pelo Vaticano II — da nossa parte, é inacreditável que um Cardeal ignore que o Vaticano II, em sua Constituição sobre a Sagrada Liturgia Sacrosanctum Concilium, nada tenha disposto sobre a posição do altar.

Por fim, a reunião de Francisco e Sarah logo após a conferência do purpurado em Londres já estava na agenda? Ou foi um chamado à ordem? Esperamos que a primeira alternativa seja a verdadeira. No entanto, alguns analistas associaram o duro discurso de Francisco, chamando de “hereges e não católicos” os que afirmam “‘é isso ou nada’”, ao livro “Deus ou nada”, do Cardeal Robert Sarah (cujo prefácio de Bento XVI desapareceu misteriosamente).

* * *

Celebração da Missa, nenhuma mudança dos altares

O cardeal Sarah, durante uma conferência em Londres havia convidado os sacerdotes a celebrar voltados ao Oriente, de costas para o povo. Após um esclarecimento com o Papa, a nota de Lombardi.

Por Andrea Tornielli – La Stampa | Tradução: FratresInUnum.com: Parecia mais que um convite, porque a falar sobre isso, se bem que durante uma conferência e não como um ato oficial, foi o cardeal Robert Sarah, Prefeito da Congregação para o Culto Divino. O cardeal Africano, há uma semana, em Londres, na abertura da conferência Sacra Liturgia, havia lançado uma espécie de apelo a todos os sacerdotes do mundo, convidando-os a começarem, no primeiro domingo do Advento, em novembro, a celebrar a missa “versus Orientem”, isto é, com o altar voltado para o leste, de costas para o povo, como se usava antes da reforma conciliar. “É muito importante que voltemos, o mais rápido possível para uma direção comum, sacerdotes e fiéis voltados na mesma direção, para o oriente, ou pelo menos para a abside, para o Senhor que vem”, disse ele, acrescentando: “Peço-vos aplicar esta prática sempre que possível “.

As palavras de Sarah reverberaram em todo o mundo, encontrando apoio entusiástico nos sites e nos assim chamados blogs tradicionalistas, mesmo porque o cardeal tinha acrescentado que iria começar, de acordo com o Papa, um estudo para se chegar a uma “reforma da reforma” litúrgica, visando melhorar a sacralidade do rito. Um dia após a conferência de Sarah, o cardeal arcebispo de Westminster, Vincent Nichols, escreveu uma carta a seus sacerdotes, instando-os a não celebrar a Missa voltada para o Oriente, tal como solicitado pelo prefeito do Culto Divino, também por causa da legislação em vigor sobre esse assunto.

Nos últimos dias, o Cardeal Sarah se encontrou novamente em audiência com Francisco. E na tarde de segunda-feira, 11 julho, padre Federico Lombardi, no mesmo dia em que foi anunciada a nomeação do seu sucessor, emitiu uma declaração, evidentemente em concordância com o Pontífice e o cardeal, que desmonta a validade do convite de Sarah e põe fim à expressão “reforma da reforma”, já há tempos abandonada até mesmo por Bento XVI.

“É oportuno um esclarecimento – afirma o porta-voz do Vaticano – na sequência de relatos da mídia que circularam após uma conferência realizada em Londres pelo Cardeal Sarah, prefeito da Congregação para o Culto Divino, poucos dias atrás. O Cardeal Sarah sempre esteve preocupado justamente com a dignidade da celebração da missa, de modo que seja expressa adequadamente a atitude de respeito e adoração do mistério eucarístico. Algumas de suas expressões foram, no entanto, mal interpretadas”, como se anunciassem novas indicações diferentes daquelas até agora promulgadas nas normas litúrgicas e nas palavras do Papa sobre a celebração voltada para o povo e sobre o rito ordinário da Missa.

“Portanto é bom lembrar – continua Lombardi – que a Institutio Generalis Missalis Romani (Instrução Geral do Missal Romano), que contém as normas relativas à celebração eucarística e que ainda está em pleno vigor, no nº 299, diz:”  “Altare extruatur a pariete seiunctum, ut facile circumiri et in eo celebratio versus populum peragi possit, quod expedit ubicumque possibile sit. Altare eum autem occupet locum , ut revera centrum sit ad quod totius congregationis fidelium attentio sponte convertatur”(isto é :” O altar deve ser construído destacado da parede, para que se possa facilmente circular em volta e celebrar voltado para o povo, o que é conveniente que seja realizado sempre que possível. O altar seja pois posicionado de modo a estar verdadeiramente no centro para que a atenção do fiel se volte naturalmente para a sua direção.”)

“Por sua parte, o Papa Francisco – afirma ainda o porta-voz do Vaticano – por ocasião da sua visita à Congregação para o Culto Divino, recordou expressamente que a forma” ordinária” da celebração da Missa é a prevista pelo Missal promulgado por Paulo VI, enquanto a forma “extraordinária”, que foi autorizada pelo Papa Bento XVI para as finalidades e com as modalidades por ele explicadas no motu proprio Summorum Pontificum, não deve tomar o lugar do “ordinário”.

“Não são, portanto, previstas novas orientações litúrgicas a partir do próximo Advento – esclarece Lombardi – como alguns erroneamente deduziram a partir de algumas palavras do Cardeal Sarah, e é melhor evitar o uso da expressão ‘reforma da reforma’, referindo-se à liturgia, dado que às vezes ela tem sido fonte de equívocos. Tudo isso foi expresso em concordância durante o curso de uma audiência recente concedida pelo Papa ao mesmo Cardeal Prefeito da Congregação para o Culto Divino”.

11 julho, 2016

Dom Aldo: “Pedi para conversar com o próprio papa. Mas isso não me foi concedido. Essa resposta nem veio”.

O padrão do Vaticano de Francisco se repete: um bispo tido por “conservador” e “divisivo”, que fere a “comunhão”, acusado de imoralidades por uma quadrilha eclesiástica de imorais, é instado a renunciar. O bispo tenta dialogar, clama por ser ouvido, mas não consegue sequer trocar meias palavras com o Papa da Misericórdia. 

‘Quando você mexe no bolso, vêm as reações’, diz bispo acusado de proteger padres pedófilos

Aldo di Cillo Pagotto diz que foi vítima de retaliação por investigar desvios de dinheiro na Igreja, fala da ‘infiltração’ gay no seminário e diz ter sido pressionado pelo Vaticano a renunciar

Dom Aldo Pagotto, arcebispo da Paraíba.

Dom Aldo Pagotto, arcebispo emérito da Paraíba.

Por Veja – Na última quarta-feira, o Vaticano anunciou que o papa Francisco aceitou a renúncia do arcebispo da Paraíba, dom Aldo di Cillo Pagotto. Oficialmente, dom Aldo deixou o posto por “motivos de saúde”. Mas só oficialmente. Por trás da decisão, há muito mais. Há pelo menos quatro anos, o arcebispo era investigado pelo próprio Vaticano sob suspeita de acobertar padres pedófilos. Dom Aldo também era acusado de promover orgias e de ter mantido relacionamento com um jovem de 18 anos – o que ele nega. Foi o primeiro caso, no Brasil, de um arcebispo que deixa o posto no curso de uma investigação sobre envolvimento em escândalos sexuais.

Na mesma quarta-feira, dom Aldo falou por quase duas horas a VEJA. O resultado da conversa é revelador dos bastidores da Igreja – e de segredos que, na grande maioria das vezes, graças à hierarquia e à disciplina dos religiosos, são mantidos distantes dos olhos e ouvidos do distinto público. Na entrevista, o bispo deixa evidente que, na verdade, foi obrigado a renunciar. Ele conta que, no início de junho, foi chamado a Brasília para uma conversa com o núncio apostólico, o representante do papa no Brasil. E que, naquele mesmo dia, o núncio — em nome do papa — o fez redigir a carta de renúncia.

O arcebispo se diz alvo de uma grande injustiça cometida pelo papado de Francisco e atribui a sua situação a uma disputa que tem como pano de fundo acusações de corrupção, homossexualismo, pedofilia e, quase sempre, disputa por poder.

A seguir, os principais trechos da entrevista.

Desvio de dinheiro

Dom Aldo diz que foi vítima de uma orquestração maquinada por um grupo de padres que se opunham a medidas que ele adotou desde que assumiu a Arquidiocese da Paraíba. Ao falar desses padres, cujos nomes ele se esforça para não revelar, o religioso escancara o ambiente interno conflagrado no clero – algo que a Igreja, quase sempre, consegue manter em segredo. Ele acusa os adversários de estarem envolvidos em desvios de dinheiro e de serem, eles próprios, personagens de escândalos sexuais. Na origem de tudo, diz ele, está a disputa pelo controle das finanças.

“Tudo começou porque eu tenho uma visão mais moderna. A questão administrativa e patrimonial da Arquidiocese estava bastante comprometida. Então começamos a colocar as coisas em ordem, com prestação de contas. Isso mexeu na posição de uns privilegiados. Havia coisas não muito bem resolvidas.”

“Quando você mexe no bolso, que é a parte mais delicada do corpo da pessoa, vêm as reações, que não são tão diretas no começo. Aí começam com outras acusações. Diziam que eu era financista, materialista, e que a Igreja não é só isso.”

“Essa reação partia de um grupo pequeno, mas muito bem articulado, formado por cinco padres. Passaram a acusar que o clero no estado estaria dividido, e outras coisas morais. Diziam que eu era ditador. Depois foram para os ataques pessoais de ordem afetiva e sexual. Aí foram para a baixaria mesmo, com acusações horrendas à minha pessoa e a outros padres também.”

“Esses padres têm poder financeiro. E a reação vinha justamente daí. Tudo parte de quando você quer mexer nas finanças.”

Mas esses padres estavam envolvidos com corrupção?, perguntou VEJA.

A resposta: “Havia um colégio aqui, o Pio XII, que eu tive que fechar quando cheguei porque havia uma coisa não resolvida ali. Era um colégio tradicional, de mais de 80 anos. Pedimos uma auditoria e fizeram de tudo para não fazer essa auditoria. Sempre me era aconselhado: ‘Não é bom mexer com isso’”.

Dom Aldo diz que, só nas contas da escola, havia um rombo de 1,8 milhão de reais. E quem são esses padres?

“Eu sei quem são. Alguns nomes eu levei para a Santa Sé. Pelo menos o nome de dois, entre eles o que capitaneia, eu informei à Santa Sé. São padres muito bem posicionados aqui, veteranos.”

O segredo do processo e o silêncio do papa

Alvo de denúncias cada vez mais constantes, e de uma série de dossiês enviados a Roma, dom Aldo Pagotto passou a ser formalmente investigado pelo Vaticano. O rol de acusações contra ele era extenso: além de ser acusado de proteger padres pedófilos, diziam as denúncias, teria relaxado os critérios para a aceitação de novos seminaristas. Além disso, era apontado como personagem central de um grupo de religiosos que se esbaldavam em festas e promoviam orgias sexuais. Em janeiro de 2015, já em consequência das investigações, o Vaticano impediu o arcebispo de ordenar novos padres.

“Em junho do ano passado fui ao Vaticano tirar a história limpo. Falei com o cardeal Stella (Beniamino Stella, prefeito da Congregação para o Clero — uma espécie de ministro do Vaticano). O cardeal me tratou muito bem, me escutou durante uma hora, mas disse que a resposta viria só depois de agosto e setembro e que o desfecho dependia também da Congregação para os Bispos. Comecei a cobrar e não vinha nada.”

“Em maio eu pedi para conversar com o próprio papa. Mas isso não me foi concedido. Essa resposta nem veio. Dois ou três dias depois de redigir a carta de renúncia, fiz outra carta ao papa reforçando esse pedido. Escrevi ao papa dizendo que gostaria muito de falar com ele. Ali eu ainda tinha esperança (de que a investigação pudesse ter outro desfecho). Nada.”

O chamado para renunciar

Dom Aldo revela que a renúncia não foi um ato de vontade própria. Foi uma determinação do Vaticano – uma determinação que a disciplina religiosa e o respeito à hierarquia da Igreja o obrigavam a aceitar. A renúncia era uma forma de evitar mais desgastes. A explicação oficial que viria na sequência – “motivos de saúde”— ajudaria

“Fiquei lá (na Nunciatura Apostólica, em Brasília) uma manhã inteira. A conversa com o núncio foi de pelo menos uma hora. A sós, no gabinete dele. Ele recordou todos os fatos. Eu pedi, de novo, para ter acesso ao que eu era acusado, ao relatório ou ao dossiê. Ele disse: não se pode mostrar. Então, se é assim… Ele também não disse quem acusava. Ele aconselha. Eu também tirei minhas dúvidas. Ele disse: ‘O papa está muito preocupado com você. É para o seu bem. Para o seu bem e para o bem da Igreja. Então, para o bem da Igreja e para o seu bem, você pense’. Eu cheguei a dizer: está bem, está muito certo, entendi tudo. Eu mesmo me choquei.”

“Ele me falou: ‘Olha, você faça essa carta’. É assim mesmo. Ele é o representante do papa.”

A certa altura, o arcebispo percebe que estava falando demais. E tenta se corrigir:

O senhor, então foi instado a renunciar?

“Não é bem assim…. Eu me aconselhei também. E eu aqui já dizia para alguns padres da minha insatisfação, do meu estado de saúde. Não é que recebi uma ordem: faça. Não é bem assim. A gente é livre. Eu disse a ele (ao núncio): é até interessante que eu faça (a carta), e fiz.”

O senhor acha justo o desfecho do caso?

“Não acho. Eu tenho muita dificuldade de aceitar uma coisa dessas. É muito ruim, muito ruim.”

‘Tive que limpar o seminário’

Dom Aldo Pagotto admite que havia “problemas” na Arquidiocese. Entre eles problemas, ele cita o fato de ter aceitado, como candidatos a padre, jovens homossexuais que já haviam sido rejeitados em outros seminários por “conduta inadequada”. Ele diz, porém, que fez o que tinha de ser feito: “limpou” o seminário.

“Nós tivemos problemas no seminário. Eu tive que limpar o seminário de pessoas suspeitas de comportamento não adequado.”

Em que sentido? Sexual?

“É, exatamente.”

E o que é “limpar”?

“Limpar quer dizer convidar a sair. Isso foi em 2012. Em um seminário sempre há entrada e saída de pessoas. Seminário onde só entram pessoas e ninguém sai não é bom. Tem pessoas com determinada tendência que vêm procurar seminário e você sabe que a intenção pode ser outra. Eu não posso ser julgado por isso. Na verdade, os papas todos tiveram problemas assim. O João Paulo teve problemas imensos. Depois veio Bento 16, que estatuiu normas muito caridosas, mas muito objetivas. E, agora, Francisco da mesa forma. No caso daqui, houve problemas, eu não posso negar. Mas eu fiz relatórios disso, desde o outro núncio apostólico, como estava o seminário, que tinha havido infiltração (de gays). Eu relatei a infiltração. Não escondi.”

A “infiltração” gay

“No seminário, o problema era homossexualismo. Falando abertamente, é isso. Tivemos alguns casos. O relato é de que houve infiltração, romance, defesa de comportamentos que não são admitidos pela Igreja. Naquele momento, entre 2011 e 2012, isso envolveu cinco ou seis pessoas. Faziam defesa desse comportamento lá dentro. Também havia comportamentos estranhos. Colegas estranharam, pessoas da comunidade também. Diziam: ‘Olha, esse rapaz aqui parece que é…’. Havia toda uma preocupação para evitar a reprodução desses escândalos que estamos vendo.”

Pedofilia na Arquidiocese

“Eu digo que por misericórdia eu aceitei alguns padres em crise. Aceitei seminaristas egressos (que já haviam sido expulsos de outros seminários), mas eu não sabia desse comportamento. Por indicação de alguém, por pedidos para que eu desse chance. Esses pedidos vinham de bispos, de superiores de alguma congregação. Enfim, eu fui misericordioso. Aceitei e me dei mal. Esses seminaristas foram ordenados por mim e depois tive que afastá-los. Eu afastei seis. Eram acusados de envolvimento de pedofilia. Um foi inocentado.”

“Era aquela questão com meninos, coroinhas. Dentro da igreja. Eram casos na região metropolitana de João Pessoa e no interior. Do interior eram três, e três da capital. As denúncias foram feitas por familiares dos meninos. Comecei a receber essas denúncias de 2012 para 2013, tudo de uma vez, uma atrás da outra. Os padres foram afastados imediatamente. Um deles morreu. Nunca foi ouvido em juízo e morreu de muita depressão, coitadinho.”

A acusação de relacionamento homossexual

“Deus me livre, isso não existe. É mentira. Não tem como.”

E com base em que o acusam de ser homossexual?

“Respondo com uma frase: ‘Acusemo-lo daquilo que nós somos’.”

Isso existe entre os religiosos que o acusam?

“Claro que existe. Acuse-o daquilo que a gente é.”

A acusação de organizar festas e orgias

“Mas que festas? Deus me livre, eu não tenho tempo para pecar. A minha única diversão é nadar na piscina de um colégio aqui perto. Não vou ao cinema. Minha vida é trabalho. Não existe isso aí.”

 

17 junho, 2016

“Herético”. O veredito do Cardeal Müller sobre Fernandez, o primeiro conselheiro do Papa.

Em uma entrevista na última edição da “Herder Korrespondenz”, o Cardeal Gerhard L. Müller chamou nada menos que de “herege” a um tipo que se passa como “um dos conselheiros mais próximos do Papa”.

Por Sandro Magister | Tradução: FratresInUnum.com: Eis o que disse o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé:

“O ensinamento sobre o papado enquanto instituição divina não pode ser relativizado por ninguém, porque isso significaria querer corrigir o próprio Deus. […] Já faz algum tempo, que tem alguém que está sendo apresentado por determinados meios de comunicação como um dos conselheiros mais próximos do Papa, segundo o qual se pode muito bem deslocar a sede papal para Medellin ou espalhar os dicastérios da cúria por diferentes igrejas locais. Isso é fundamentalmente errado e até mesmo herético [sogar häretisch]. Sobre essa matéria, basta ler a constituição dogmática “Lumen Gentium” do Concílio Vaticano II para reconhecer o absurdo eclesiológico destes jogos mentais. A sede do papa é a Igreja de São Pedro em Roma”.

jpg_1351304Müller acrescentou que a missão explícita de São Pedro, de “guiar toda a Igreja como seu pastor supremo”, foi transmitida “para a Igreja de Roma e, com ela, a seu bispo, o papa”. E isso “não é um jogo organizativo, mas feito para preservar a unidade dada por Deus” e que também inclui “o papel do alto clero da Igreja romana, os cardeais, que ajudam o Papa no exercício do seu Primado”.

Não é difícil adivinhar quem é que está na mira de Müller. Trata-se de Dom Víctor Manuel Fernández, reitor da Universidade Católica Argentina em Buenos Aires e confidente de longa data de Jorge Mario Bergoglio, bem como, de fato, seu teólogo de confiança e arquiteto principal de seus principais documentos, desde a “Evangelii Gaudium” a “Amoris Laetitia “, e esta última chega ao ponto de plagiar trechos de artigos escritos pelo próprio Fernández há dez anos atrás:

“Amoris Laetitia” tem um escritor fantasma. Chama-se Víctor Manuel Fernández.

Mas o que o Cardeal Müller não engoliu mesmo de Fernández, é o que ele disse em uma entrevista ao “Corriere della Sera” de 10 de Maio de 2015:

“A Cúria do Vaticano não é uma estrutura essencial. O Papa poderia muito bem ir viver fora de Roma, ter um dicastério em Roma e outro em Bogotá, e talvez se conectar por teleconferência com os peritos em liturgia residentes na Alemanha. Em torno do Papa o que existe é um sentido teológico, é o colégio de bispos para servir o povo. […] os próprios cardeais podem desaparecer, na medida em que não são essenciais”.

E Fernández disse ainda, acusando precisamente o Cardeal Prefeito, que em entrevista ao “La Croix”, em 29 de Março, havia atribuído à Congregação para a Doutrina da fé “a missão de estruturação teológica” de um  Pontificado eminentemente “pastoral” como é o de Francisco:

“Eu li que alguns dizem que a Cúria Romana é uma parte essencial da missão da Igreja, ou que um prefeito do Vaticano é a bússola segura que impede a Igreja de cair no pensamento light, ou que aquele prefeito assegura a unidade da fé e garante ao pontífice uma teologia séria. Mas os Católicos, ao lerem o Evangelho, sabem que Cristo assegurou uma guia e iluminação especial ao papa junto a todos os bispos, mas não a um prefeito ou a uma outra estrutura. Quando se ouve dizer coisas desse tipo, quase parece que o papa é apenas um representante deles, ou aquele que veio para perturbá-los e deve ser controlado”.

Mais de um ano se passou desde que o teólogo argentino disparou contra Muller, mas aparentemente o Papa não ficou nem um pouco incomodado, visto que o mantém cada vez mais próximo.

E agora que Müller emitiu contra Fernández o veredito de “heresia”, é certo que quem vai cair ainda mais baixo no conceito do papa será ele, o cardeal, que já não conta para nada como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, e muito menos para a “estruturação teológica” deste pontificado.

A este propósito, não é de excluir que o Papa se referia especialmente a Müller quando, em seu terceiro sermão no retiro para sacerdotes, em 2 de Junho, disse ao comentar o encontro de Jesus com a mulher adúltera:

“Às vezes me dá uma mistura de pena e indignação quando alguém se esforça para explicar a última recomendação, o ‘não peques mais” e utiliza esta frase para “defender” Jesus e não o fato de que Ele passou por cima da lei”.

Com efeito, o Cardeal Müller tinha, de fato, escrito ao tomar uma posição em 2013, tendo em vista o sínodo sobre a família:

“Outra tendência em favor da admissão de divorciados novamente casados aos sacramentos é aquela que invoca o argumento da misericórdia. Porque o próprio Jesus era solidário com os sofredores, doando-lhes o seu amor misericordioso, a misericórdia seria um sinal especial de autêntico discipulado. Isso é verdade, mas é um argumento fraco quando se trata de matéria teológica e sacramental, porque toda a ordem sacramental é exatamente obra da misericórdia divina e não pode ser revogada sem negar o mesmo princípio que a sustenta.

“Através do que objetivamente soa como uma alusão falsa à misericórdia, incorre-se no risco da banalização da própria imagem de Deus, segundo a qual Deus não poderia fazer outra coisa senão perdoar. Ao mistério de Deus pertencem, além da misericórdia, também  a santidade e a justiça. Se resolvem ocultar esses atributos de Deus e não levam a sério a realidade do pecado, não se pode nem mesmo levar às pessoas a sua misericórdia.

“Jesus encontrou a mulher adúltera com grande compaixão, mas também disse: “Vai, e não peques mais” (Jo 8, 11). A misericórdia de Deus não dispensa dos mandamentos de Deus e das instruções da Igreja, antes, ela concede o poder da graça para a sua plena realização, para levantar-se após a queda e para uma vida de perfeição à imagem do Pai celeste “.

Mais do que isso, Müller escreveu em um livro-entrevista de 2014 e outro em 2016.