Convocado para o encontro no Vaticano pelo papa, no mês passado, o cardeal arcebispo e Munique esperava ter o apoio papal, e, assim, persuadir dois bispos opositores e os oficiais do Vaticano a apoiar uma proposta pastoral altamente contenciosa dos bispos alemães que permite a cônjuges protestantes receberem a Sagrada Comunhão em alguns casos.

O assim chamado “subsídio pastoral”, que os bispos alemães esmagadoramente votaram em favor no último mês de fevereiro, propunha que um cônjuge protestante poderia receber a Eucaristia após ter feito um “sério exame” de consciência com um padre ou outra pessoa de responsabilidade pastoral, “afirmar a fé da Igreja Católica”, desejando pôr fim “a uma séria angústica espiritual”, com o “anseio de satisfazer um desejo pela Eucaristia”.

Seus proponentes afirmaram que ele ajudaria a resolver o sofrimento de alguns cônjuges protestantes impossibilitados de receber a Sagrada Comunhão com seus respectivos esposo ou esposa católicos. Os críticos chamaram-na de um “truque retórico” que erroneamente busca redefinir os sacramentos como meios de aliviar as angústias mentais e satisfazer necessidades espirituais.

As críticas aumentaram quando sete bispos alemães escreveram ao Vaticano, em 22 de março, para protestar contra a medida, argumentando que a proposta “não está correta” quando aborda a “fé e a unidade da Igreja, que não estão sujeitas a voto”, e pedindo que quatro pontos fossem esclarecidos.

Dos sete, dois deles, Cardeal Rainer Woelki, de Colônia, e Dom Rudolf Voderholzer, de  Regensburg, chegaram para o encontro do dia 3 esperançosos que, dadas as falhas, que muitos consideravam sérias, do documento — às quais se opôs Bento XVI, segundo fontes confiáveis — a proposta seria descartada pelo Papa, ou completamente revisada.

Prefeito carteiro. 

Mas, para a surpresa de muitos, nada disso aconteceu. Após ambos os lados exporem sua visão, Dom Luis Ladaria, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, retransmitiu aos participantes que o Papa Francisco apreciava o “comprometimento ecumênico dos bispos alemães e pedia-lhes, em espírito de comunhão eclesial, se possível, um posicionamento unânime”.

Comentando o caso ao Register no dia 4 de maio, o Cardeal Gerhard Müller, prefeito emérito da Congregação para a Doutrina da Fé, expressou sua decisão com o resultado, afirmando que a declaração era “muito pobre” e continha “nenhuma resposta à questão central, essencial”. Não é possível, enfatizou ele, estar em “comunhão sacramental sem comunhão eclesial”.

Para o bem da Igreja, afirmou, um “expressão clara da Fé Católica” é necessária, com o Papa “expressando a Fé”, especialmente no “pilar de nossa Fé, a Eucaristia”. Espera-se que Papa e a Congregação para a Doutrina da Fé, prosseguiu ele, “deem uma orientação muito clara”, não através de “opiniões pessoais, mas segundo a Fé revelada.”

Uma fonte próxima aos dos bispos contrários à proposta afirmou ao Register, em 4 de maio, que a “resposta oficiais é de que não há resposta”. O Santo Padre, disse ele, “falhou em cumprir seu dever como Papa a respeito de uma questão de dogma, que seu posto deve decidir”.

O Papa se “recusou” a tomar uma posição, ele enfatizou, “e a Congregação para a Doutrina da Fé foi feita de correio, não para a afirmar a Fé, mas para anunciar essa informação”. Os dicastérios, disse, “são inúteis” se todas as decisões forem deixadas a cargo das conferências episcopais. Ele reconheceu que o termo “unanimidade” não é definido adequadamente neste contexto, mas espera que o Cardeal Marx de alguma forma reduza o número de bispos contrários à proposta a fim de obter a necessária unanimidade para prosseguir adiante.

“Nosso papel agora é apoiar os sete bispos, apoiar nossos padres na argumentação”, declarou a fonte. “Será uma longa luta e pelos próximos seis meses nos dedicaremos a isso”.

Mas também o Cardeal Marx e a conferência de bispos alemães se disseram desapontados. O encontro foi realizado na Congregação para a Doutrina da Fé, indicando que o Vaticano vê o caso como uma matéria doutrinal, e não simplesmente pastoral, como tentou argumentar o Cardeal Marx (ele insistiu, em fevereiro, que se tratava de um “subsídio pastoral”, sem pretender “mudar qualquer doutrina”.

De maneira mais significativa, os apoiadores da proposta fracassaram em obter o endosso entusiasta do Papa. Pelo contrário, coerente com seu desejo expresso na primeira exortação apostólica Evangelii Gaudium, Francisco prossegue com seus esforços para descentralizar o governo da Igreja, dando mais “autoridade doutrinal” às conferências episcopais. Ele está, portanto, devolvendo a bola para o campo dos bispos alemães.

“De certo modo, isso equivale a uma recusa [da proposta]”, declarou o analista da Igreja alemã Mathias von Gersdorff. “Soa como algo assim: o senhor [Cardeal Marx] criou um grande problema. Cabe a você resolvê-lo. E, se não conseguir unanimidade, então o problema está resolvido”.

A batalha perdida de Marx

Durante o encontro, foi também desapontador para o partido do Cardeal Marx a oposição do Cardeal Kurt Koch, presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Unidade dos Cristãos. O Cardeal suíço, que não teve ciência da proposta antes ou depois de sua votação, demonstrou-se simpático à preocupação dos sete bispos.

A desilusão por parte da conferência de bispos alemães também ficou evidente quando, após o encontro, o seu porta-voz, Matthis Kopp, declarou que não daria nenhuma conferência de imprensa, nem declarações ou entrevistas. “Foi uma batalha perdida, embora não tenha sido uma guerra perdida”, afirmou a fonte próxima às tratativas. “Kopp não quer falar sobre a batalha perdida”.

Mas os sete bispos e seus aliados têm as maiores preocupações. Embora creiam que o encontro poderia ter sido “muito pior”, segundo a mesma fonte, e a proposta não tenha sido publicada como um subsídio, como pretendia a conferência dos bispos alemães, eles vêem tudo como “revolução eclesiológica”.

“O verdadeiro problema não é o assunto em si, mas a recusa do Papa de desempenhar sua obrigação como Pedro, e isso pode ter graves consequências”, disse a fonte. “Pedro não é mais a rocha que era, pelo contrário, o pastor está dizendo às ovelhas: ‘vá e se vire para encontrar algo para comer'”.

Ele previu um processo similar sendo adotado para introduzir tais novidades como um clero casado, e que o deslocamento geral em direção à descentralização da doutrina fará a Igreja parece mais a Comunhão Anglicana.

Cardeal Müller, referindo-se à Lumen Gentium, recordou que as conferências episcopais possuem uma “importância secundária” em relação ao Papa, e que não é possível a elas votarem de maneira unânime sobre uma matéria de doutrina que contradiz “elementos básicos” da Igreja. “Devemos resistir a isso”, disse, advertindo que se o princípio da identidade Católica, que consiste tanto na comunhão sacramental como na eclesial, for destruído, “então a Igreja Católica está destruída”. A Igreja, insistiu, “não é um ator político”.

“Espero que mais bispos levantem suas vozes e façam o seu dever”, disse o Cardeal Müller. “Todo cardeal tem o dever de explicar, defender, promover a Fé Católica, não segundo os seus sentimentos pessoais, ou as variações da opinião pública, mas lendo e conhecendo o Evangelho, a Bíblia, as Sagradas Escrituras, os padres da Igreja. E também os Concílios, estudando os grandes teólogos do passado, podendo explicar e defender a Fé Católica, não com argumentos sofísticos para agradar a todos os lados, para ser querido por todos”.

Prosseguindo, o Cardeal Müller previu, com dor, que o assunto “continuará sem a clara necessidade de uma declaração sobre a Fé Católica”.

Ele afirmou que os bispos devem “continuar explicando a Fé” e que esperava que a Congregação para a Doutrina da Fé cumprirá o seu papel, não só como mediadores de diferentes grupos, mas tomando a dianteira quanto ao magistério do Papa”.

“Mais clareza e coragem devem ser encorajadas”, disse.