Archive for ‘Cúria Romana’

17 agosto, 2017

Bispos venezuelanos pressionaram Vaticano a rechaçar a Constituinte de Maduro.

Por Hermes Rodrigues Nery

Os bispos venezuelanos, pressionados pelo peso da realidade, é que pressionaram o papa Francisco a não ficar omisso diante da gravíssima crise da Venezuela, com o risco de comprometer toda a credibilidade internacional da diplomacia vaticana. Foi a pressão dos bispos que fez a Secretaria de Estado rechaçar a Constituinte de Maduro.

FratresInUnum.com – 17 de agosto de 2017: Foram os bispos venezuelanos que fizeram pressão para que o Vaticano rechaçasse a Constituinte de Nicolás Maduro. A situação da Venezuela se agravara de tal forma, que não havia mais como protelar o silêncio, a omissão, ou mesmo a ambiguidade de posição a respeito dos abusos de um regime político a devastar um país, com a maioria da população vulnerável à pobreza, ao despotismo e à violência.

papa_e_maduro94055Os fatos concretos mostravam o peso da realidade, que não era mais possível ignorar: o equívoco do projeto político da “Pátria Grande”, cuja integração latino-americana (visando a implantação do socialismo) dava evidências de falimento. Nesse contexto, a Venezuela passou a tornar-se um problema sério demais para o primeiro papa latino-americano, que recebera efusivamente os líderes dos movimentos populares de esquerda no Vaticano, como João Pedro Stédile, Evo Morales, e também o próprio Nicolás Maduro, dentre outros.

Phil Lawler destacou no Catholic Culture que “os bispos venezuelanos foram firmes e consistentes em sua oposição à campanha de Maduro para consolidar seu poder. (…) Do Vaticano, no entanto, houve silêncio. E Maduro, um demagogo hábil, não hesitou em chamar a atenção para esse silêncio, alegando que, enquanto os bispos venezuelanos se opõem a ele, o Papa não. Até apenas esta semana, não houve uma declaração clara do Vaticano para provar o erro de Maduro”. William McGurn destacou no Wall Street Journal que “o papa Francisco tem sido severo em seu julgamento sobre o tipo de ‘populismo’ praticado por Donald Trump, mas parece odiar denunciar o ‘populismo’ de uma esquerda latino-americana”.

Diante do cenário cada vez mais tenso na Venezuela, os analistas internacionais passaram a observar a postura do papa Francisco em relação aos desdobramentos da crise, pois muitos se recordavam do que ele dissera, com ênfase, ao Pe. Antonio Spadaro, na histórica entrevista da revista La Civiltà Cattolica: “nunca fui de direita”.

Ao falar sobre como os próprios líderes mundiais de esquerda avaliam Nicolás Maduro, Jacopo Barizaggazi mencionou Jorge Mario Bergoglio, afirmando: “O papa nascido na Argentina tem sido um forte apoio aos chamados líderes progressistas na América Latina, como Evo Morales, da Bolívia, e seus críticos o acusam de ambiguidade em relação ao governo na Venezuela. O Vaticano tentou mediar entre Maduro e a oposição, mas, em uma coletiva de imprensa, em abril, o papa parecia culpar a oposição pela falta de progresso, dizendo: ‘Parte da oposição não quer isso’. O analista do Vaticano, Sandro Magister, escreveu, em maio, que o papa foi “imperdoavelmente imprudente com Maduro e o chavismo”, além de ser “incompreensivelmente reticente às vítimas da repressão e à agressão que atinge a própria Igreja”.

O que o papa latino-americano poderia fazer caso a situação chegasse a um ponto em que não seria mais possível qualquer neutralidade, nem mesmo tibieza, especialmente quando os fatos comprovassem o horror de um regime político, com premissas e aspectos contrários à doutrina moral e social católica? Outros envolvimentos de Bergoglio no complexo contexto latino-americano geraram controvérsias, como o restabelecimento diplomático dos Estados Unidos e Cuba (Obama/Raul Castro, visando o fim do embargo a Cuba) e o polêmico “acordo de paz” entre o governo da Colômbia e os guerrilheiros das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC).

A sua aposta política, em alguns casos, deixava brechas para os líderes de esquerda instrumentalizarem certos pronunciamentos e iniciativas de Bergoglio (que chocavam os católicos) para favorecer seus intentos políticos, como também, em certos aspectos, a agenda das fundações internacionais e das agências da ONU. Não apenas as declarações polêmicas e ambíguas, mas também as atitudes que alargavam tais brechas. Afinal, os católicos ficavam cada vez mais confusos e angustiados quando viam, por exemplo, as portas abertas do Vaticano para receber, com efusão, Gustavo Gutierrez, Jeffrey Sachs e Paul Ehrlich, enquanto Michel Schooyans e Christine Wolmer deixavam de ser vitalícios na Pontifícia Academia para a Vida, para dar lugar a outros, inclusive abortistas, como Nigel Biggar.

Com a Venezuela, o “papa político” fez mais uma vez uma aposta arriscada, ao receber Maduro no Vaticano (quando a crise já indicava abusos inaceitáveis) e a colocar o cardeal Pietro Parolin à frente de negociações em que, desde o início, os bispos venezuelanos sabiam que com Maduro não havia o que dialogar, pois o que ele queria mesmo era radicalizar o chavismo, com o qual estava comprometido. Não apenas Maduro, mas outras lideranças de esquerda esperavam que não viesse de Bergoglio uma condenação política explícita e contundente, a curto prazo, pois ele, “defendeu várias vezes um estado forte que forneça os bens de ‘casa, terra e trabalho’ para a população”, como destacou George Neumayr.

No entanto, nos últimos meses, o que os bispos desejavam era uma palavra mais firme do Vaticano justamente contra o bolivarianismo, que Maduro não estava disposto em ceder. Era evidente que o impasse chegaria, quando as consequências do regime fizessem vítimas fatais, como  já vinha acontecendo. O fato é que a situação na Venezuela passou a exigir mais do que uma tomada de posição, mas ações a requererem coragem e coerência. Por isso, os bispos venezuelanos buscaram a audiência com o papa, a fórceps, o que ocorreu em 8 de junho de 2017, como conta McGurn: “… uma reunião de seis bispos que foram obrigados ao horário de Francisco, quando eles voaram para Roma em junho – sem serem convidados.”

Os prelados levaram a Francisco a posição da realidade, como salientou o Pe. Raymond J. de Souza, no Crux: “Não há mais nenhuma dúvida. Maduro preside um regime desonesto que está matando seu próprio povo em defesa de uma ideologia socialista desacreditada. Por que o papa Francisco procuraria permanecer neutro entre esse regime e as massas sofredoras?” E então, os bispos apresentaram concretamente a lista dos mortos do regime de Maduro (muitos jovens), e disseram que não há como ser ambíguo nessa questão, pois do contrário a Igreja perderia credibilidade. A pressão dos bispos venezuelanos, portanto, foi decisiva para a Secretaria de Estado do Vaticano ter rechaçado a Constituinte de Maduro.

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16 agosto, 2017

Dom Becciu: ‘Impensável’ para a Ordem de Malta perder seu caráter religioso.

O delegado especial do Papa para a Ordem de Malta disse ao Register que ela jamais poderia ser dividida em setores religiosos e humanitários, e expressa confiança no futuro da instituição.

Por Edward Pentin, National Catholic Register, 5 de maio de 2017 | Tradução: FratresInUnum.com: A ideia de que a Soberana Ordem Militar de Malta perderia seu caráter religioso está fora de cogitação, já que sua dupla missão de defender a fé e servir aos pobres não pode ser separada, afirmou o delegado especial do Papa Francisco para a antiga instituição de cavalaria.

Dom Angelo Becciu.

Dom Angelo Becciu.

Nos comentários do dia 5 de Maio, logo após a eleição, na semana passada, de Fra ‘Giacomo Dalla Torre del Tempio di Sanguinetto como novo líder interino da Ordem, o arcebispo Angelo Becciu disse: “por mil anos a Ordem de Malta sempre foi considerada ‘religiosa’ e, portanto, a idéia de que deixaria de ser religiosa é impensável.”

“Desde a fundação da Ordem, o tuitio Fidei [defesa da fé] e o obsequium pauperum [serviço aos pobres], seus dois pilares, nunca foram separados, nem poderiam ser “, disse o Arcebispo Becciu.

“Este era o desejo do Bem Aventurado Gérard [fundador da Ordem no século 12] e sempre foi a tradição dos Cavaleiros de Malta”, acrescentou.

Os comentários do arcebispo italiano, a quem o Papa Francisco nomeou em fevereiro como seu representante para a Ordem, serviram para tranquilizar aqueles que temiam que uma facção dos cavaleiros, liderada por seus membros alemães e pelo Grão Chanceler Albrecht von Boeselager, levaria a antiga instituição a transformar-se em uma organização não-governamental quase secular, possivelmente, dividindo-se em ramos religiosos e humanitários.

Muitos dos membros professos da Ordem, que fizeram votos de pobreza, castidade e obediência, também foram tranquilizados na semana passada quando o arcebispo Becciu passou um dia inteiro ouvindo as suas preocupações individualmente, incluindo as do ex-Grão-Mestre, Fra ‘Matthew Festing. Além disso, eles ficaram impressionados com seu discurso, pronunciado logo após a eleição do dia 29 de abril, o que os deixou ainda mais à vontade.

Com um total de 55 membros, apenas os membros professos podem subir ao posto de Grão-Mestre e liderar a Organização. Nenhum dos membros alemães da Ordem são professos, mas estão ansiosos para “modernizá-la” e fazendo de tudo para tentar mudar essa regra, a fim de tomar as rédeas da Ordem.

Os desafios de Fra’ Giacomo

Este será um desafio-chave enfrentado pelo cavaleiro de 73 anos de idade, Fra ‘Giacomo, um clássico arqueólogo e versado em história da arte. Eleito por um ano para liderar a Ordem de Malta, irá assumir todos os poderes do Grão-Mestre, apesar de seu título oficial ser apenas “tenente”.

A instituição soberana, que remonta às Cruzadas, tem relações diplomáticas com 106 países, 13.500 membros, e mais de 100.000 voluntários e funcionários servindo os pobres e os doentes em todo o mundo.

O primeiro compromisso oficial de Fra’ Giacomo será conduzir a 59º Peregrinação da Ordem à Lourdes entre 5-9 maio, um dos eventos mais significativos na vida espiritual da Ordem, durante o qual 7.000 membros e voluntários de todo o mundo darão assistência a cerca de 1.500 peregrinos doentes e deficientes .

Igualmente, buscando avançar suas atividades diplomáticas, sociais e humanitárias, uma das principais tarefas de Fra Giacomo será reformar a Constituição e Código da Ordem, abordando “pontos fracos potenciais da instituição”, segundo um comunicado de 29 de abril.

Com referência à demissão e posterior reintegração de Von Boeselager, bem como a renúncia forçada de Fra ‘Matthew como Grão-Mestre, o comunicado disse que as crises recentes haviam revelado algumas fraquezas nos freios e contrapesos do governo da Ordem e a reforma visa levar isso também em consideração”.

Esses pontos fracos, dizem, incluem aspectos no governo de Fra ‘de Matthew que alguns críticos consideram como autoritários e que violam a constituição da Ordem. Mas, à parte disso, as reformas são vistas amplamente como necessárias, e o próprio Fra ‘Matthew queria implementá-las.

“A reforma também se concentrará no fortalecimento da vida espiritual da Ordem e no aumento do número de seus membros professos”, acrescentou o comunicado, dizendo que consultas nesse sentido “já haviam sido iniciadas.” Todas as mudanças deverão ser votadas e ratificadas.

Várias preocupações permanecem, no entanto, dentro da Ordem. Essas incluem como um fator chave na demissão de Von Boeselager — a comprovada distribuição de contraceptivos e abortivos pelo ramo humanitário da Ordem, a Malteser International – e isso parece ter sido relegado como algo de pouca importância, até para o Vaticano.

Von Boeselager negou a responsabilidade, dizendo que colocou um fim na distribuição o mais rápido possível. Seus aliados também alegam que foi tecida uma armadilha para ele através da adulteração de um relatório encomendado pela Ordem sobre o caso, muito embora pelo menos dois membros da Ordem publicamente disseram que o próprio Von Boeselager lhes havia dito em privado que ele aprovava a distribuição com essas palavras: “Nós temos que dar contraceptivos para os pobres ou eles morrerão “.

O papel do Cardeal Parolin

Outras preocupações relacionam a perda da soberania da Ordem à comissão estabelecida pela Santa Sé através do secretário de Estado do Vaticano, Cardeal Pietro Parolin, em dezembro para investigar a demissão de Von Boeselager. O cardeal do Vaticano e Von Boeselager são velhos conhecidos. As investigações não-publicadas da Comissão levaram à remoção de Fra ‘Matthew como Grão-Mestre pelo Papa — um cargo normalmente vitalício — e à reintegração controversa de Von Boeselager como Grão-chanceler. Há preocupação também sobre a influência dominante do Arcebispo Becciu no funcionamento de uma instituição soberana, e que o trabalho humanitário tomou precedência sobre a defesa da fé e da ortodoxia.

Um outro ponto de discórdia tem sido um fundo financeiro baseado na Suíça no valor de 120 milhões de euros, alguns dos quais doados à Ordem, bem como questões sobre a origem do dinheiro e para onde se destina. Três membros da comissão de cinco membros formadas pela Santa Sé em dezembro estão diretamente envolvidos com esse fundo financeiro.

Mas fontes envolvidas com esse fundo, chamada Caritas Pro GRADU Vitae (CPVG), vigorosamente negam qualquer malfeito e um relatório “independente” alegadamente demonstrando que os fundos são limpos, “sem nenhuma irregularidade fiscal” está previsto para ser publicado em breve. No entanto, até esse momento ainda não está claro quem encomendou o relatório e o quão independente ele é.

Da sua parte, o Arcebispo Becciu enfatizou em seu comentário do dia 5 de Maio que “a transparência financeira é exigida de toda instituição” e que a Ordem está “comprometida com a transparência e examinando todos os aspectos de sua vida e operação.”

Perguntado se, de acordo com alguns relatos, 30 milhões de euros do CPVG foram repassados ao Vaticano porque a Santa Sé  estava passando por problemas de liquidez, o delegado especial do Papa disse que tais alegações eram “completamente infundadas”.

Com relação à eleição de Fra Giacomo, o novo líder da Ordem é visto como um homem bom e decente, que vai acalmar provavelmente muitas das tensões que surgiram nos últimos meses. Mas ele é também visto como uma das opções daqueles que desejam modernizar a Ordem e torná-la mais secular, pois é visto como “maleável”. Aqueles preocupados com isso esperam que o Arcebispo Becciu tenha ouvido o bastante daqueles que buscam preservar sua natureza religiosa, e, portanto, capacitar a Ordem a manter a sua identidade.

O próprio arcebispo permanece otimista para o futuro. “Estou confiante por duas razões”, disse ao Register. “Primeiro, porque, com base em meus encontros com muitos membros da Ordem vi um claro desejo e empenho para superar as dificuldades e para aprofundar dons e pontos fortes da Ordem”.

“Em segundo lugar, porque sempre que há crise na Igreja, a Providencia intervém para o bem de todos e estou convencido de que o espírito de renovação ajudará a Ordem na medida em que ela considera o caminho da reforma à frente, de acordo com seus próprios meios e discernimento. “

15 agosto, 2017

Francisco impõe a concelebração nos colégios sacerdotais de Roma.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 28-06-2017 | Tradução: Hélio dias Viana – FratresInUnum.com: Corre no Vaticano este rumor. A um colaborador que lhe perguntou se era verdade que existe uma comissão para “reinterpretar” a Humanae vitae, o  Papa Francisco teria respondido: “Não é uma comissão, é um grupo de trabalho”. Não se trata apenas de artifícios linguísticos  para ocultar a verdade, mas de jogos de palavras que revelam como o culto da contradição constitui a essência deste pontificado. Mons. Gilfredo Marengo, coordenador do “grupo de trabalho”, resume  bem essa filosofia, quando afirma ser necessário fugir do “jogo polêmico ‘pílula sim – pílula não’, como também daquele atual ‘comunhão aos divorciados  sim – comunhão aos divorciados não’” (Vatican Insider, 23 de março de 2017).

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Esta premissa nos é necessária para apresentar um novo documento confidencial, resultado igualmente de outro “grupo de trabalho”. É o “working paper” [documento de trabalho] da Congregação do Clero “Sobre a concelebração nos colégios sacerdotais de Roma”, que circula de maneira reservada nos colégios e seminários romanos. O que emerge com clareza desse texto é que o Papa Francisco deseja impor de fato, embora ainda não de princípio, a concelebração eucarística nos colégios e nos seminários romanos, afirmando que “a celebração comunitária deve ser sempre preferida à individual”. 

O motivo dessa decisão emerge do documento. Roma não é somente a sede da Cátedra de Pedro e o coração da Cristandade, mas também o lugar para onde convergem sacerdotes e seminaristas de todo o mundo a fim de adquirir aquela veneração pela fé, pelos ritos e tradições da Igreja, chamado outrora de “espírito romano”. A permanência em Roma, que ajudava a desenvolver o amor à Tradição da Igreja, oferece hoje a oportunidade de uma “reeducação” doutrinária e litúrgica para aqueles que querem “reformar” a Igreja segundo as diretivas do papa Bergoglio. A vida nos colégios romanos – afirma com efeito  o  “working paper” –  oferece ocasião “para se viver ao mesmo tempo um período intenso  de formação permanente  integral”.

O documento recorda explicitamente um recente discurso dirigido aos sacerdotes que estudam em Roma, no qual o Papa Francisco lembrou a importância eclesial da concelebração no contexto da comunidade dos  sacerdotes estudantes: “Trata-se de um desafio permanente para superar o individualismo e viver a diversidade como uma dádiva, procurando a unidade do presbitério, que é sinal da presença de Deus na vida da comunidade. O presbitério que não mantiver a unidade, na realidade expulsa Deus do próprio testemunho. Não dá testemunho da presença de Deus. Rejeita-o. Deste modo, congregados em nome do Senhor, de maneira particular quando celebrais a Eucaristia, manifestais inclusive sacramentalmente que Ele é o amor do vosso coração” (Discurso de 1° de abril de 2017).

À luz dessa doutrina, o “working paper” da Congregação para o Clero reitera que a Missa concelebrada é preferível à celebração individual” (grifado no original, como também nas citações seguintes).

“Portanto, os Superiores são vivamente instados a encorajar a Concelebração, até mesmo várias vezes ao dia, na grande comunidade presbiteral. Em consequência, podem-se esperar várias celebrações nos Colégios, para que os presbíteros neles residentes possam participar de acordo com as próprias necessidades, cuidando de estabelecer dois ou três momentos ao longo do dia.” 

“Com efeito, os relacionamentos cotidianos, compartilhados diariamente e durante anos no mesmo Colégio Romano, são uma experiência importante na trajetória vocacional de cada sacerdote. Dessa maneira, na verdade se estabelecem vínculos de fraternidade e de comunhão entre os sacerdotes de diferentes dioceses e nações, que encontram uma expressão sacramental na celebração eucarística.”

“O distanciar-se das próprias diocese de incardinação e da missão pastoral por um tempo bastante longo garante certamente não só a formação intelectual, mas sobretudo oferece a ocasião de viver ao mesmo tempo um intenso período de formação integral permanente. Nesta perspectiva, a vida comum dos Colégios sacerdotais oferece esta modalidade de fraternidade sacerdotal, provavelmente nova em comparação com o passado. A experiência do Colégio representa uma oportunidade para uma frutuosa celebração da Eucaristia pelos sacerdotes. Portanto, a prática da Concelebração eucarística diária nos Colégios pode tornar-se uma oportunidade para o aprofundamento da vida espiritual dos sacerdotes, com importantes frutos, como: a expressão da comunhão entre os sacerdotes das várias Igrejas particulares, que se manifesta particularmente quando os Bispos das várias dioceses presidem a concelebração na ocasião das visitas a Roma; a oportunidade de ouvir a homilia feita por outro irmão; a celebração acurada, e mesmo solene, da Eucaristia cotidiana, o aprofundamento da devoção eucarística que cada sacerdote deve cultivar, além da própria celebração.”

 Entre as normas práticas indicadas,  lê-se:

“É recomendável que os sacerdotes possam participar ordinariamente da Concelebração eucarística nos horários previstos no Colégio, preferindo sempre a celebração comunitária à individual. Nesse sentido, os Colégios com um considerável número de sacerdotes hóspedes poderão estabelecer a Concelebração Eucarística em 2 ou 3 horários diversos no dia, de modo a permitir a cada um de participar de acordo com as  próprias necessidades pessoais, acadêmicas ou pastorais.” 

“Se os sacerdotes residentes no Colégio não puderem por razões particulares  participar da  Concelebração nos horários previstos,  devem preferir sempre celebrar juntos em outro horário mais conveniente.” 

É flagrante, e repetida em duas passagens do texto, a violação do cânon 902, segundo o qual “os sacerdotes podem concelebrar a Eucaristia; permanece íntegra, porém, a liberdade de cada um celebrar a Eucaristia individualmente”.  Em consequência, os colégios que aplicarem ao pé da letra o “working paper” infringirão a lei universal vigente.

Em 5 de março de 2012, por ocasião da apresentação do livro de Mons. Guillaume Derville, A concelebração eucarística. Do símbolo à realidade (Wilson & Lafleur, Montreal 2012), o cardeal Antonio Cañizares, então prefeito da Congregação para o Culto Divino, salientou a necessidade de “moderar” a concelebração, fazendo suas as palavras de Bento XVI: recomendo aos sacerdotes ‘a celebração diária da Santa Missa, mesmo quando não houver participação de fiéis’. Tal recomendação é ditada, antes de mais, pelo valor objetivamente infinito de cada celebração eucarística; e é motivada ainda pela sua singular eficácia espiritual, porque, se vivida com atenção e fé, a Santa Missa é formadora no sentido mais profundo do termo, enquanto promove a configuração a Cristo e reforça o sacerdote na sua vocação” (Exortação Apostólica Sacramentum Caritatis, n. 80).

A doutrina católica vê de fato na Santa Missa a renovação incruenta do Sacrifício da Cruz. A multiplicação das Missas dá mais glória a Deus e é um bem imenso para as almas. “Se cada Missa tem em si mesma um valor infinito – escreve Pe. Joseph de Sainte Marie –, as disposições dos homens para receber seus frutos são sempre imperfeitas e, nesse sentido, limitadas. Daí a importância do número de celebrações da Missa para multiplicar os frutos da salvação. Apoiada por este raciocínio teológico elementar, mas suficiente, a fecundidade salvífica da multiplicação das Missas também é comprovada pela prática litúrgica da Igreja e pela atitude do magistério. Dessa fecundidade, a Igreja – a história o ensina – tomou progressivamente consciência ao longo dos séculos, promovendo a prática e depois encorajando oficialmente cada vez mais a multiplicação das Missas” (L’Eucharistie, salut du monde, Dominique Martin Morin, Paris 1982 pp. 457-458).

Para os neo-modernistas, a Missa se reduz a uma assembleia, tanto mais significativa quanto maior for o número dos padres e dos fiéis que dela participam. A concelebração é entendida como um instrumento para fazer o sacerdote perder lentamente a consciência de seu caráter sacerdotal e de sua missão, que é unicamente a celebração do sacrifício eucarístico e a salvação das almas. Mas a diminuição das Missas e a perda do conceito verdadeiro do que é uma Missa constituem uma das principais causas da crise religiosa do nosso tempo. Agora, até mesmo a Congregação para o Clero, a mando do papa Bergoglio, faz sua contribuição para esse desmantelamento da fé católica.

14 agosto, 2017

“Gay se nasce”. Eminência Reverendíssima Cardeal Kasper, permita-me uma pergunta.

Por Luigi Amicone, 2 de outubro de 2015, Tempi | Tradução: FratresInUnum.com: “O teólogo reformista Kasper disse: ‘Gay se nasce. Não aos fundamentalistas em nome do Evangelho’.” É um título realmente sugestivo, caro Cardeal Walter Kasper, aquele que o Corriere dela Sera usou para apresentar a sua entrevista ao vaticanista do diário de Milão, Gian Guido Vecchi.

Agora, porém, o senhor deve nos dizer onde foi que erramos ao constatar apenas nas dez primeiras linhas de sua conversa um exemplo espetacular de confusão e, juntamente, uma politicagem em nada misericordiosa e de forma alguma pastoral.

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Cardeal Walter Kasper

Não esquecendo também que o senhor é, entre outras coisas, o autor do relatório apresentado no consistório extraordinário sobre a família que se tornou a base de discussão sobre o tema do Sínodo do dia 4 de outubro, deixamos claro a seguir o nosso pedido para que possamos ser contraditos, censurados ou esclarecidos por Sua Eminência Reverendíssima.

Quanto à politicagem, recordo-lhe o início da sua entrevista, onde diante da pergunta capciosa: “Por que existe tanta resistência, Eminência? Como na véspera do Sínodo do ano passado, desta vez surgiram até Cardeais assinando um livro em defesa do matrimônio e da família e também da “doutrina” … “e o senhor respondeu sinuosamente com um “mas, olha, eu não quero entrar nessa controvérsia. O Sínodo foi feito justamente para se discutir“. E logo em seguida partiu para o ataque: “Sim, alguns querem se fechar, não há nada para discutir, basta“.  Dá um suspiro – volta-se para o Corriere – sorri e diz :” Vê – o senhor continua, – existe um certo fundamentalismo… se faz uma ideologia para apoiar a própria tese…”.

Neste breve giro de palavras o senhor se permite fazer uma fogueira em torno dos autores do livro citado pelo seu entrevistador e sai catalogando de Carlo Caffara a Angelo Scola como “fundamentalistas” e “ideólogos”, seus colegas cardeais cuja única culpa é terem um pensamento diferente do seu.  E é isso que o senhor chama de “não entrar em controvérsias” e como uma “boa preparação do terreno das discussões sinodais”?

Segunda observação: a confusão. Após o ataque a seus colegas cardeais, encontramos esta bela pérola proferida pelo senhor, Eminência Reverendíssima (que o Corriere define, se não me engano, também a Botteghe Oscure, como “o ponto de referência dos reformistas”): “Para mim, essa inclinação (a homossexualidade, nota do editor) é um ponto de interrogação: ela não reflete o plano original de Deus, mas todavia é uma realidade porque gay se nasce”. Para dizer a verdade, Eminência, tivemos que esfregar os olhos, acreditamos ter lido errado. Então, resolvemos ler e reler, mas não há dúvida! O senhor realmente pede, como escreve entre aspas o Corriere, para que no Sínodo se abra um “diálogo” sobre a contracepção que já está difundida entre os fiéis (“Eu espero que sim, este cisma não pode durar“) e fala de acolhida e respeito pelos homossexuais: “Para mim, essa inclinação é um ponto de interrogação: não reflete o projeto original de Deus, mas todavia é uma realidade, porque gay se nasce“.

O senhor,  Eminência Reverendíssima, disse exatamente assim: “uma coisa é ‘o projeto original de Deus’, uma outra – porém – é o fato de que ‘gay se nasce’.” Ora, a perplexidade gerada por essas suas palavras é evidente e pedimos aos leitores que recorram a todos os seus recursos da lógica para nos responder: isso quer dizer que Sua Eminência Reverendíssima tem um questionamento? Deixemos de lado o debate sobre Igreja e homossexualidade, porque essa seria outra discussão. Existe algo muito mais radical em suas palavras. Na verdade, suas palavras, Eminência Reverendíssima, são claríssimas: o senhor diz que “a inclinação homossexual não reflete o projeto original de Deus” mas logo em seguida diz “todavia é uma realidade”, não porque a homossexualidade é uma realidade como o são um monte de outras coisas que também não refletem o projeto original de Deus (como colocar o dedo no nariz, roubar uma marmelada e até coisas mais graves), mas “porque gay se nasce.” Olha a confusão! Que pergunta pode surgir quando se afirma ao mesmo tempo o “projeto original de Deus” e o projeto original do “gay se nasce”?

Parece-me lógico deduzir que o senhor, Eminência Reverendíssima, está convencido de uma das duas coisas, e que a sua pergunta se coloca dentro da seguinte alternativa: ou Deus, se existe, não tem nada a ver com o nascimento (ergo, não tem nada a ver com a criação presente, Ele criou o mundo há algum tempo e depois deixou correr à revelia como um joguinho impulsionado por uma mola, o que seria uma patente heresia); ou Deus, se existe, adora criar coisas novas contrárias ao seu projeto inicial (heresia dupla). E aqui, na verdade, já podemos ir parando porque todo o resto, como diria o grande Cardeal Elio Sgreccia ao Avvenire, nasce de uma questão fundamental e radical: “A misericórdia é verdade vivenciada, não há separação. Não se pode separar em Cristo a verdade do amor”.

Para o senhor, no entanto, Cardeal Walter Kasper, tudo parece nascer de uma divisão original escondida como uma cobra no seio do próprio Ser. Existe a verdade, mas também não existe porque a realidade vai para outro lado e ao invés de chamar esse outro lado de “pecado”, ou seja, a experiência verdadeiramente histórica que o homem não consegue fazer em face da verdade que ele vê (“o bem que eu quero não faço, mas faço o mal que eu odeio”, diz São Paulo), o senhor prefere chamar de “misericórdia” a anestesia em cima do “eu não consigo”. Assim, existe o ideal: dizer aos jovens para se casar, afirmar que o Sacramento é obra de Deus que torna infinita, indissolúvel e para sempre a liberdade infinita de um homem e de uma mulher (exceto os casos nulos onde não existiu a liberdade e, portanto, não existe sacramento), exorta-os a desafiar as dificuldades, traições, modas e caprichos. Mas, logo em seguida, o senhor mesmo parece dar a entender que não acredita muito nesse ideal e procura camuflar seu ceticismo com a pastoral. Claro que existe uma pergunta que devemos fazer e que é a mesma que Sua Eminência também deveria fazer. E a pergunta é: afinal quem são mesmo os fundamentalistas e ideólogos?

19 julho, 2017

O escândalo do silêncio.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 20-06-2017 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.com: Os quatro cardeais autores dos “dubia” sobre a Exortação Amoris laetitia tornaram público, através do blog do vaticanista Sandro Magister, um pedido de audiência apresentado pelo cardeal Carlo Caffarra ao Papa em 25 de abril passado, uma vez que os “dubia” não obtiveram resposta. O silêncio deliberado do Papa Francisco – que, no entanto, recebe personalidades muito menos relevantes em Santa Marta para discutir questões muito menos importantes para a vida da Igreja – é a razão da publicação do documento.

No pedido filial de audiência, os quatro cardeais (Brandmüller, Burke, Caffara e Meisner) fazem saber que gostariam de explicar ao Pontífice as razões dos “dubia” e expor a situação de grave confusão e perplexidade em que se encontra a Igreja, especialmente no que diz respeito a pastores de almas, em particular os párocos.

Na verdade, no ano que transcorreu a partir da publicação da Amoris laetitia, “foram dadas em público interpretações de alguns passos objetivamente ambíguos da Exortação pós-sinodal, não divergentes do, mas contrárias ao permanente Magistério da Igreja. Conquanto o Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé tenha declarado mais de uma vez que a doutrina da Igreja não mudou, apareceram numerosas declarações de bispos, cardeais e até mesmo de conferências episcopais, que aprovam o que o Magistério da Igreja jamais aprovou. Não apenas o acesso à Santa Eucaristia daqueles que objetiva e publicamente vivem numa situação de pecado grave, e pretendem nela continuar, mas também uma concepção da consciência moral contrária à Tradição da Igreja. Sucede assim – oh, e quão doloroso é vê-lo! – que o que é pecado na Polônia é bom na Alemanha, o que é proibido na Arquidiocese de Filadélfia é lícito em Malta, e assim por diante. Vem-nos à mente a amarga constatação de B. Pascal: ‘Justiça do lado de cá dos Pirenéus, injustiça do lado de lá; justiça na margem esquerda do rio, injustiça na margem direita’ ”.

Não há escândalo nem transgressão no fato de os colaboradores do Papa pedirem uma audiência privada, e que no pedido descrevam, com parrhesia mas objetivamente, a divisão que a cada dia cresce na Igreja. O escândalo é a recusa do Sucessor de Pedro em ouvir aqueles que pedem para ser recebidos. Tanto mais quanto o Papa Francisco quis fazer do “acolhimento” a marca registrada de seu pontificado, afirmando em um de seus primeiros sermões em Santa Marta (25 de maio de 2013) que “os cristãos que pedem nunca devem encontrar portas fechadas”. Por que recusar audiência a quatro cardeais que não fazem senão cumprir o seu dever de conselheiros do Papa?

         As palavras dos cardeais são filiais e respeitosas. Pode-se supor que a intenção deles seja de procurar “discernir” melhor, em uma audiência privada, as intenções e os planos de Papa Francisco, e eventualmente de fazer ao Pontífice uma correção filial in camera caritatis. O silêncio do Papa Francisco em relação a eles é obstinado e descortês, mas expressa em sua teimosia a conduta daqueles que vão adiante em seu caminho com determinação. Dada a impossibilidade de uma correção privada, pela inexplicável recusa de uma audiência, também os cardeais deverão prosseguir com decisão em seu caminho, se quiserem evitar que na Igreja o silêncio seja mais forte que suas palavras.

18 julho, 2017

As alegações sobre um escândalo de orgia homossexual regada a drogas na Santa Sé.

Seja qual for a verdade exata por trás dessa história sinistra e perturbadora, ela expõe o comportamento gravemente pecaminoso que vem ocorrendo dentro do Vaticano e que um elevado membro da Cúria revelou que “nunca esteve pior”.

Por Edward Pentin, National Catholic Register, 8 de julho de 2017 | Tradução: FratresInUnum.com: De acordo com relatos da mídia secular, a polícia do Vaticano interrompeu uma orgia homossexual regada a drogas em um apartamento do Santo Ofício. Mas quão verdadeiro é tudo isso?

Palácio do Santo Ofício

Palácio do Santo Ofício

A notícia foi divulgada pela primeira vez em um artigo do dia 28 de junho no jornal italiano Il Fatto Quotidiano: a polícia do Vaticano teria invadido um apartamento no mesmo edifício da Congregação para a Doutrina da Fé, onde descobriram drogas pesadas e um grupo de homens engajados em atividade homossexual. A partir daí, outros proeminentes veículos de comunicação de língua Inglesa  passaram a publicar os detalhes extensivos que haviam sido publicados pelo Il Fatto Quotidiano .

O artigo afirma que o ocupante do apartamento era o Secretário do Cardeal Francesco Coccopalmerio, presidente do Conselho Pontifício para os Textos Legislativos, o mais importante dicastério de Direito Canônico da Igreja.

O relatório afirma ainda que a área do edifício era reservada não apenas para monsenhores, mas funcionários superiores da Cúria, sugerindo que o secretário tinha amigos influentes em postos altos para garantir um apartamento tão prestigiado.

Outros residentes no Santo Ofício teriam reclamado sobre um fluxo constante de jovens do sexo masculino no local e das festas barulhentas no apartamento do secretário – queixas que motivaram a incursão policial. Outras suspeitas foram levantadas também quando outros viram o secretário, que é um monsenhor da Diocese de Palestrina, perto de Roma, tendo acesso a um carro de luxo com placa do Vaticano, que supostamente lhe permitia trazer drogas para o Vaticano, sem nunca ter sido interpelado pela polícia.

O artigo prossegue dizendo que depois do flagrante policial, o secretário foi levado para a clínica Pio XI em Roma, onde foi submetido a tratamento de desintoxicação por consumo excessivo de cocaína. Em seguida ele foi enviado para um mosteiro em um local desconhecido na Itália.

O autor do artigo, Francesco Antonio Grana, disse que Papa Francisco, cuja residência se localiza em Santa Marta, apenas a 500 metros de distância do Santo Ofício, estava ciente da batida policial e da prisão do monsenhor em questão. Grana aponta também para o fato de que a entrada principal para o Santo Ofício se abre para o território Italiano e por isso está fora do controle da Guarda Suíça e da polícia do Vaticano.

“Qualquer um, de dia ou de noite, pode entrar no Vaticano livremente através desta entrada sem estar sujeito a qualquer controle”. Grana observou, acrescentando que isso faz do prédio do Santo Ofício “um local perfeito para desfrutar dos privilégios de extraterritorialidade, sem ter que passar pelo controle tanto do Estado Italiano como aqueles da Cidade do Vaticano “.

Ele também revelou que o cardeal Coccopalmerio havia supostamente recomendado, sem sucesso, que seu secretário fosse promovido a bispo.

O Vaticano se recusa a discutir essa história sinistra. Laura Signore, secretária do comandante da polícia do Vaticano, Domenico Giani, disse ao Register no dia 30 de junho que, “como é de costume”, o comandante da polícia “não pode emitir qualquer tipo de declaração ou conceder entrevistas.”

Ela acrescentou que o artigo “seriamente falta com a verdade” e recomendou que entrássemos em contato com a Sala Imprensa da Santa Sé para obter mais informações.

Vaticano não confirmará

O porta-voz da Santa Sé,  Greg Burke, deixou claro que ele não confirmará as alegações de orgia e não respondeu quando perguntado se ele poderia confirmar tudo ou apenas parte do que foi relatado na reportagem do Il Fatto Quotidiano. Perguntado mais tarde se o Vaticano poderia comentar quando a história houver atingido repercussão global, Burke preferiu permanecer em silêncio.

No dia 6 de julho, o Register chamou o secretário em questão em seu telefone celular, mas ele instantaneamente se recusou a falar quando soube que estava falando com um jornalista, murmurando palavras de  efeito: “Olha, eu não posso falar”, e desligou.

Enquanto isso, um membro proeminente e confiável da Cúria disse ao Register que ele ouviu de “fontes múltiplas” que a história é verdadeira, inclusive de outros membros elevados da Cúria.

Ele disse que a extensão de práticas homossexuais dentro do Vaticano “nunca esteve pior”, apesar dos esforços iniciados por Bento XVI para erradicar desvios sexuais da Cúria depois do escândalo Vatileaks de 2012.

Uma autoridade do Vaticano que de vez enquando costumava saudar o secretário do cardeal Coccopalmerio, disse ao Register que havia notado que ele não tinha visto o secretário pelo menos por dois meses, e antes que ele desaparecesse, tinha emagrecido muito.

O Register também contactou o Cardeal Coccopalmerio no dia 06 de junho diretamente via e-mail, perguntando se ele poderia confirmar a história, mas até agora ele não respondeu.

Os detalhes precisos dos eventos relatados na Congregação para a Doutrina da Fé (CDF), portanto, permanecem uma questão em aberto, mas a essência da história parece ser verdade. Se assim for, muitos considerariam tal comportamento ocorrido no Santo Ofício não apenas injusto, mas também altamente sacrílego.

O edifício do Santo Ofício, que também hoje é o lar de algumas religiosas, bem como a CDF, remonta ao século 16. De 1908 a 1965, a CDF era conhecida oficialmente como a Suprema Sagrada Congregação do Santo Ofício e seu objetivo era “difundir a sã doutrina Católica e defender aqueles pontos da tradição cristã que parecem estar em perigo por causa de doutrinas novas e inaceitáveis.”

Desde o pontificado de Bento XVI, o dicastério Vaticano também se tornou responsável por tratar casos de abuso sexual clerical, embora deva ser salientado que esse escândalo parece não ter tido nada a ver com a Congregação.

O Papa Francisco abordou a questão da homossexualidade no Vaticano anteriormente, e, em particular, a existência de um lobby gay. Retornando da Jornada Mundial da Juventude no Rio de Janeiro em 2013, ele disse que ainda que estava pra ver “qualquer um no Vaticano que poderia me dar um cartão de identidade escrito GAY. Mas dizem que eles estão lá “.

Depois de dizer que todos os lobbies são ruins, ele citou o ensinamento do Catecismo contra a marginalização de pessoas homossexuais, dizendo: “Se uma pessoa é gay, busca o Senhor e tem boa vontade, quem sou eu para julgá-la?”

No ano passado, o Cardeal Oscar Maradiaga, um conselheiro próximo ao papa Francisco, reconheceu a presença de um “lobby gay” no Vaticano e disse que “pouco a pouco o Papa está tentando purificá-lo.”

Elmar Mäder, um ex-comandante da Guarda Suíça entre 2002-2008, disse no ano passado que existe “uma rede de homossexuais” dentro do Vaticano,  após uma série de alegações sobre padres homossexuais que trabalham na Cúria. “Eu não posso refutar a alegação de que existe uma rede de homossexuais”, disse ele. “Minhas experiências indicam a existência de tal coisa”, afirmou ao jornal suíço Schweiz am Sonntag.

Até mesmo os demônios se repugnam 

À luz do mais recente escândalo e da situação atual, um ex-oficial instou os leitores a recordar as advertências de Nosso Senhor sobre os atos homossexuais, especialmente entre os sacerdotes, como foi explicado por Santa Catarina de Siena em seus diálogos escritos como se ditados pelo próprio Deus.

A mística medieval, co-padroeira de Roma e Doutora da Igreja, transmitiu essas palavras numa época em que um grande número do clero havia caído em pecado grave.

Esses sacerdotes, Nosso Senhor disse a Santa Catarina, não apenas falham em resistir às suas naturezas decaídas “mas fazem ainda pior quando eles cometem o pecado amaldiçoado contra a natureza [atos homossexuais].”

“Como o cego e estúpido, cuja luz do entendimento foi se esvaindo, eles não reconhecem a doença e miséria em que se encontram”, Nosso Senhor continuou, acrescentando que eles não apenas fazem com que Deus se sinta nauseado, “mas causam repugnância até mesmo aos demônios, a quem estas miseráveis criaturas escolheram como seus senhores”.

Ele acrescentou que “esse pecado contra a natureza é tão abominável que apenas por causa dele, cinco cidades foram destruídas, em virtude do julgamento da minha Justiça Divina, que já não podia mais suportá-las”. O Senhor disse a Santa Catarina que mesmo os demônios sentem “repulsa ao ver um pecado tão grande sendo cometido.”

Como remédio, Santa Catarina relata Nosso Senhor dizendo:

“Nunca deixe de oferecer-me o incenso perfumado das orações para a salvação das almas, porque Eu quero ser misericordioso para com o mundo. Com suas orações, suor e lágrimas, eu lavarei o rosto da minha noiva, a Santa Igreja. Eu mostrei-lhe antes seu rosto como de uma donzela cujo rosto estava todo sujo e deformado como se fosse uma leprosa. O clero e toda a Cristandade são os culpados disso por causa de seus pecados, apesar de receberem seu alimento do seio dessa noiva.”.

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13 julho, 2017

Cardeal Müller desmente boatos e afirma que o Papa não o tratou mal.

Roma, 12 Jul. 17 / 05:00 pm (ACI).- O Cardeal Gerhard Ludwig Müller negou energicamente os boatos da imprensa que afirmam que o Papa Francisco lhe fez cinco perguntas antes de informar que não iria renovar o seu mandato como Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.

Citando uma fonte alemã anônima, que por sua vez afirmou ter recebido a informação de outra pessoa, o site católico de notícias “One Peter Five” e o vaticanista italiano Marco Tosatti informaram que o Papa Francisco, ao se reunir com o Cardeal Müller no dia 30 de junho, fez cinco perguntas sobre alguns temas como a introdução de um diaconato feminino até a abolição do celibato, sua posição sobre “Amoris Laetitia”, sua posição sobre a decisão do Papa de demitir três membros do dicastério e a ordenação sacerdotal de mulheres.

De acordo com essas informações, depois de escutar as respostas do Cardeal alemão, Francisco lhe informou que o seu mandato havia terminado e saiu da sala, deixando para trás um paciente Müller que esperava do Santo Padre um sinal de gratidão, até que, envergonhado, o Arcebispo George Gänswein, Prefeito da Casa Pontifícia, disse ao Cardeal que a reunião havia terminado.

Entretanto, o Cardeal Müller assinalou ao veterano vaticanista Guido Horst que nenhuma dessas afirmações é verdadeira. Guido Horst, em um artigo de opinião publicado no site CNA Deucth – agência em alemão do Grupo ACI–, descreveu pessoalmente o encontro que teve com o purpurado alemão em Roma na manhã do dia 11 de julho.

O jornalista, correspondente do jornal “Tagespost”, mostrou ao Cardeal uma cópia dessas informações: o próprio Müller, de 69 anos, não havia visto a reportagem na internet.

O Cardeal ficou “perplexo ao ler esta descrição do seu encontro com o Papa”, escreveu Horst. “Isso é mentira”, disse-lhe o Cardeal Müller. De fato, indicou o Purpurado, todo o encontro ocorreu de maneira muito diferente e as afirmações da “fonte alemã anônima” são completamente falsas.

Os comentários do Cardeal coincidem com um breve e-mail enviado ontem pelo Diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, Greg Burke, ao site “One Peter Five” e a Marco Tosatti. Neste e-mail, Burke afirma que “a reconstrução (do encontro) é totalmente falsa” e solicita que a matéria seja atualizada.

11 julho, 2017

Fonte: Antes de demitir o Cardeal Müller, o Papa fez cinco perguntas pontuais.

Por Maike Hickson, One Peter Five, em 10 de julho de 2017 | Tradução: FratresInUnum.com –  Depois que o Cardeal Gerhard Müller, ex-Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, revelou que havia conversado ao telefone com o finado Cardeal Joachim Meisner sobre sua recente demissão e que essa conversa acontecera na véspera do súbito falecimento de Meisner, na manhã de 5 de julho, várias fontes bem informadas na Europa com quem mantenho contato usaram todas a mesma expressão, ou seja, eles especularam que talvez o Cardeal Meisner “tenha morrido de tristeza”. À luz das seguintes revelações sobre o conteúdo do encontro entre o Papa Francisco e o Cardeal Müller, em 30 de junho, podemos estar ainda mais propensos a acreditar que isso tenha acontecido – ao menos, como uma possibilidade moral.

As informações a seguir procedem do relato de uma fonte alemã confiável, que falou ao OnePeterFive sob a condição de anonimato. Ele cita uma testemunha ocular que almoçou recentemente com o Cardeal Müller em Mainz, na Alemanha. Durante a refeição, o Cardeal Müller teria divulgado na presença dessa testemunha ocular certas informações sobre seu último encontro com o Papa, durante o qual ele foi informado de que seu mandato como Prefeito da CDF não seria renovado.

De acordo com esse relato, o Cardeal Müller foi convocado pelo Palácio Apostólico em 30 de junho, e assim ele foi para lá com seus arquivos de trabalho, supondo que essa reunião seria uma reunião de trabalho habitual. Contudo, o Papa lhe disse que tinha apenas cinco perguntas a fazer:

  • Você é contra ou a favor de um diaconato feminino? “Sou contra”, respondeu o cardeal Müller.
  • Você é contra ou a favor da revogação do celibato? “É claro que sou contra”, respondeu o cardeal.
  • Você é contra ou a favor do sacerdócio feminino? “Definitivamente sou contra essa ideia”, respondeu o Cardeal Müller.
  • Você está disposto a defender a Amoris Laetitia? “Tanto quanto seja possível para mim”, respondeu o Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé: “ainda existem ambiguidades”.
  • Você está disposto a retirar sua reclamação a respeito da demissão de três de seus próprios funcionários? O Cardeal Müller respondeu: “Santo Padre, estes homens eram bons e sem culpa, dos quais sinto falta agora, e não foi correto demiti-los passando por cima de mim, pouco antes do Natal, de modo que tiveram que esvaziar seus escritórios até o dia 28 de dezembro. Sinto falta deles agora”.

Então, o papa respondeu: “Bom, Cardeal Müller, eu só queria lhe informar que não prorrogarei o seu mandato [ou seja, após o dia 2 de julho] como Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.”

Sem dizer adeus ou dar uma explicação, o papa saiu da sala. A princípio, o Cardeal Müller pensou que o papa saiu para buscar um sinal de gratidão e, assim, ficou esperando pacientemente. Mas, não havia tal presente, nem mesmo um gesto de gratidão pelo seu serviço. O Prefeito da Casa Pontifícia, Arcebispo Georg Gänswein, teve que lhe explicar que a reunião havia terminado, e que era hora de partir.

No momento em que escrevemos este texto, não conseguimos obter confirmação desses eventos por parte do Cardeal Müller, nem de seu secretário, a quem nos dirigimos para comentar. Igualmente, pedimos um comentário de Greg Burke no Gabinte de Imprensa do Vaticano, mas, na ocasião não recebemos resposta alguma.

Se esse relato for verídico – e, dadas às fontes, temos poucos motivos para duvidar disso – podemos imaginar por que o Cardeal Meisner teria ficado angustiado depois de tomar conhecimento dessa reunião nas horas precedentes à sua morte. Será que estas cinco perguntas com suas respostas do tipo sim ou não, se de fato foram feitas ao Cardeal Müller, constituem uma espécie de dubia reversa? Será que as respostas do Cardeal, na medida em que estavam em consonância com o pensamento católico ortodoxo, foram o motivo para que ele não fosse convidado a permanecer no cargo de Prefeito da CDF? Três das cinco perguntas (diaconato feminino, celibato sacerdotal e promoção da Amoris Laetitia) foram amplamente discutidas como parte da agenda de “reforma” do papa. (A esse respeito vale a pena mencionar que o Arcebispo Luis Francisco Ladaria Ferrer, SJ, aprovado como substituto de Müller como Prefeito da CDF, foi nomeado no ano passado como Presidente da Comissão para o estudo do diaconato feminino). Mas será que o sacerdócio feminino realmente deveria ser analisado em relação ao diaconato feminino, mesmo que o Papa Francisco já tenha afirmado pessoalmente o entendimento de que o Papa João Paulo II decidiu definitivamente contra essa possibilidade? E quanto à última suposta pergunta – a respeito da demissão pelo papa de três sacerdotes da CDF no ano passado? Se essa pergunta fosse feita, seria apenas uma prova de obediência inquestionável? Lembre-se de que a resposta atribuída ao papa, quando indagado pelo Cardeal Müller sobre a demissão desses três sacerdotes, foi simplesmente dizer: “Eu sou o papa, não preciso dar razões para nenhuma das minhas decisões. Decidi que eles têm que sair e eles precisam sair”.

Em uma entrevista ao jornal alemão Passauer Neue Press, Müller revelou informações adicionais que parecem corroborar a forma abrupta descrita acima do seu encontro final com o papa: Segundo o Cardeal Müller, o Papa Francisco disse que “comunicou sua decisão” de não renovar seu mandato “em um minuto” no último dia de trabalho de seu mandato de cinco anos e não apresentou qualquer razão para isso.

“Não posso aceitar esse estilo [sic]”, disse Müller. “A doutrina social da Igreja deve ser aplicada” no relacionamento com os funcionários, acrescentou.

Conforme documentado em nosso próprio relato sobre a saída do Cardeal Müller, ele sofreu uma série de indignidades durante seu mandato como Prefeito da CDF sob o presente pontificado. No entanto, Müller esforçou-se desde o anúncio de sua saída para dar a aparência pública de que sua relação com o papa não estava desgastada. “Não houve diferenças entre mim e o papa Francisco”, disse Müller a um jornal alemão local durante a mesma visita a Mainz, quando ele alegou ter revelado ao seu companheiro de jantar o contexto de seu encontro final com o papa. Não está inteiramente claro se Müller está expressando uma falta de conflito entre si e o papa como sinal de solidariedade, ou para enfatizar a inesperada decisão do Papa de não renovar seu mandato. Seja qual for o caso, ele procurou minimizar publicamente o significado de sua demissão.

Há pouco sobre a demissão de Müller de um dos gabinetes eclesiásticos mais proeminentes da Igreja Católica que não seja incomum. Enquanto o respeitado vaticanista, Marco Tosatti, observou em seu importante ensaio First Things, de 7 de julho, que a saída de Müller do cargo aos 69 anos – muito antes da idade de aposentadoria obrigatória – foi “um gesto inédito na História recente da Igreja”. Nas últimas seis décadas. Tosatti observou que: “Os prefeitos da congregação mais importante da Igreja (chamada “La Suprema”) se aposentaram por motivos de idade ou de saúde, ou foram convocados, no caso de Joseph Ratzinger, para se tornar papa.” Nenhum deles durante esse período sofreu a indignidade de simplesmente ser demitido sem cerimônias.

Um caso relatado por Tosatti a partir de suas próprias conversas com amigos do cardeal alemão dá credibilidade especial à imagem emergente que o Papa Francisco há muito tempo tratou o prefeito emérito com desprezo:

Parece que Müller experimentou a vida sob Bergoglio como uma espécie de Calvário. Isso, apesar das declarações de Müller – ele foi um bom soldado até o fim, e ainda mais.

O primeiro passo do Calvário de Müller foi um episódio desconcertante ocorrido em meados de 2013. O cardeal estava celebrando Missa para um grupo de estudantes e intelectuais alemães na igreja anexa ao palácio da congregação. Seu secretário foi até ele no altar: “O papa quer falar com o senhor.” “Você lhe disse que estou celebrando missa?”, indagou Müller. “Sim”, disse o secretário, “mas ele diz que não se importa, ele quer falar com o senhor assim mesmo”. O cardeal foi até a sacristia. O papa, muito mal-humorado, deu-lhe algumas ordens e um dossiê sobre um dos seus amigos, um cardeal. (Este é um assunto muito delicado. Tenho buscado uma explicação deste incidente de canais oficiais. Até que venha a explicação, se algum dia vier, não posso dar mais detalhes.) Obviamente, Mūller ficou surpreso.

Como Marco Tosatti, buscamos, mas nunca podemos fornecer uma explicação sobre o incidente das cinco perguntas dos canais oficiais. Só podemos dizer que nossas fontes não são dadas a especulação ociosa. Eles estão confiantes de que os eventos aconteceram conforme descrito.

Por enquanto, basta observar que, nas atuais circunstâncias, mesmo os céticos teriam dificuldade em descartar um relato desse incidente. As histórias que saem do Vaticano ficam mais incríveis a cada dia – e mesmo a pior delas parece não merecer comentários – ou, o que é mais importante, correção – aos olhos das autoridades da Igreja.

Steve Skojec contribuiu para esta história.

10 julho, 2017

A destruição do Cardeal Pell.

Por Steve Skojec, One Peter Five, em 1 de julho de 2017 | Tradução: FratresInUnum.com – Há dois anos, quando essa história veio a público, perguntei a alguns amigos e colegas jornalistas, “este é o tiro de misericórdia em Pell?” Na época, é claro, seu nome não foi sequer ser mencionado. Mas na medida em que os eventos foram se desenvolvendo no que mais tarde viria a ser referido como “Vatileaks II,”  ou seja novas alegações na mídia sobre relatórios de má gestão financeira no Vaticano,  ficou então em aberto se Pell, como o homem colocado no poder para resolver as coisas, estaria ou não no olho da mira.

Na época, já pairava no ar uma impressão de que Pell, durante o mandato de sua investigação sobre o banco do Vaticano (também conhecido como o Instituto para as Obras de Religião, ou IOR), tinha rapidamente se tornado uma persona non grata. Quando ele assinou a Carta dos 13 cardeais expressando preocupação sobre o modo como o Sínodo estava sendo conduzido – algo que o próprio Francisco tomou como algo pessoal – sua queda em desgraça só se acelerou.

O clima parecia ter se tranquilizado por um tempo, especialmente depois que o próprio papa Francisco mandou interromper a auditoria que ele estava fazendo no banco do Vaticano em setembro do ano passado.

E então, esta semana, tudo explodiu. Alegações de que Pell esteve envolvido em casos de abuso sexual há algumas décadas e que haviam emergido há dois anos atrás agora passaram de uma investigação a indiciamento oficial. De acordo com fontes que conhecem o cardeal australiano, a mídia em sua terra natal sempre foi hostil para com ele e por muitos anos. Além do mais, ele não é bem-amado por uma parcela significativa do clero de lá. De acordo com a própria resposta de Pell, ele está ansioso para finalmente ter seu dia no tribunal e lutar contra as acusações que ele categoricamente nega.

No entanto, em um artigo de Nancy Flory no The Stream, todo o assunto pode ser caracterizado como uma “caça às bruxas”, projetado para destruir a reputação de Pell:

“Pell jamais conseguirá obter um julgamento justo”, escreveu a colunista australiana Angela Shanahan. Ela está descrevendo a ” caça às bruxas promovida pela mídia” que vem perseguindo o cardeal George Pell por dois anos. Novas e vagas acusações – de “históricos crimes sexuais” – foram apresentadas contra o cardeal Pell ontem pela manhã. Cardeal Pell repetidamente negou as alegações de abuso sexual feitas contra ele. Ainda assim, a mídia na Austrália não se cansa de repetir alegações sobre a culpa do cardeal. Eles imprimiram informação vazadas das  investigações contra Pell e afirmaram que um indiciamento era iminente. Além do mais, um livro negativo sobre o cardeal Pell (Cardinal: The Rise and Fall of George Pell) saiu em maio.

A “caça às bruxas”.

Algumas poucas almas corajosas têm questionado abertamente as insinuações feitas por esse julgamento midiático do Cardeal. Amanda Vanstone, colunista do The Sydney Morning Herald e que não é “nenhuma fã de religião organizada”, denunciou a histeria da mídia em relação ao cardeal Pell. “O que estamos vendo não é melhor do que um linchamento público da idade das trevas …  é pior do que fazer uma simples avaliação de culpabilidade. A arena pública está sendo usada para destruir uma reputação e provavelmente evitar um julgamento justo “, escreveu Vanstone. “O normal não seria tentar garantir que uma pessoa possa ter um julgamento justo”, pergunta ela , “mantendo fora da arena pública material prejudicial e que não foi devidamente comprovado?”

É de se perguntar se alegações sobre fatos ocorridos há décadas atrás – geralmente impossíveis de serem provadas – poderiam fazer outra coisa, senão deixar um homem como Pell com uma reputação totalmente arruinada. Certamente, um veredito de culpado sob tais circunstâncias, parece improvável. Mas, com manchetes como “Os pedófilos do Papa ” circulando agora na mídia,  mesmo uma absolvição unânime jamais conseguirá restaurar o seu bom nome.

Muitas pessoas vieram me perguntar se eu acho que ele é culpado. O que eu posso dizer é que sei muito pouco sobre as circunstâncias até mesmo para emitir um simples palpite. A busca implacável pela sua destruição tende a fazer com que eu me torne por reflexo solidário, mas a verdade aqui tem uma grande importância. Por amor a ela e para o bem das supostas vítimas, espero que um julgamento completo e justo seja possível, e que a verdade venha à tona.

Uma possível consideração deve ser feita em relação a uma potencial culpa de Pell . Refiro-me ao estilo gerencial do Papa Francisco. Como já observei antes, o papa parece ter uma tendência de se cercar de homens comprometidos. Desde Mons. Battista Ricca (também envolvido com a reforma bancária do Vaticano) ao Arcebispo Vincenzo Paglia , o Cardeal Francesco Coccopalmerio e o Cardeal Reinhard Marx,  percebemos que alguns dos homens mais notáveis e próximos a Francisco são sempre homens com esqueletos em seus armários, que poderiam ser facilmente retirados e colocados em exposição se eles vierem a se tornar … digamos assim inconvenientes. Se Pell fosse um homem com alguma história de  abuso sexual em seu passado, certamente isso poderia ser usado contra ele, se e quando necessário. Mas, ainda que ele seja tão inocente e puro como a neve, o simples fato dessas alegações existirem poderia prover uma arma necessária para colocá-lo em uma posição tão delicada. Afinal, Pell tinha permissão para investigar a caixa de Pandora que são as finanças do Vaticano. E é difícil não se perguntar se ele acabou descobrindo mais do que devia.

Lembre-se que em Janeiro de 2015, o “presidente deposto do banco do Vaticano”, Ettore Gotti Tedeschi, escreveu um artigo no Catholic Herald no qual ele alertava que Pell poderia não estar muito a par dos fatos acontecidos na história recente do banco – e como ele acreditava que ele havia sido demitido  devido à sua “decisão de apresentar um plano que teria mudado totalmente o papel e governo do banco”. Depois de ter apresentado o seu próprio lado da história, Gotti Tedeschi fez uma série de recomendações a Pell.

Por fim, acredito que o cardeal Pell deveria desvendar também esses quatro mistérios, embora eu tenha certeza de que é tarde demais, pelo menos para mim:

1) Quem mudou a lei contra lavagem de dinheiro do Vaticano, em Dezembro de 2011, e por quê?

2) Quem realmente decidiu que eu tinha que ser removido pelo Conselho Laico como presidente do Banco do Vaticano no dia 24 de maio de 2012, e por quê?

3) Quem foi que desobedeceu Bento XVI, o qual queria a minha reabilitação?

4) Quem decidiu que meus pedidos e súplicas para que eu fosse interrogado sobre os fatos acima deveriam ser ignorados? Quem não quer que venha a público a minha versão da verdade, e por quê?

É impossível ler essa lista e não vê-la como uma acusação de prevaricação intencional por parte de atores desconhecidos, mas gente de peso dentro da estrutura de poder do Vaticano.

A questão das mãos invisíveis operando alterações dentro do IOR é uma questão intrigante. Parece relevante aqui notar que parte do contexto por trás do golpe que derrubou a Soberana Ordem Militar de Malta (SMOM) envolve uma alegação de que um enorme legado (30 milhões de francos suíços) doado à Ordem foi entregue ao Banco do Vaticano. Marc Odendall, uma das peças-chave na facção Von Boeselager na história da Ordem de Malta, foi nomeado pelo Papa Francisco em 2014 para o Conselho de Autoridade de Informação Financeira do Vaticano – um órgão de supervisão criado pelo Papa Bento XVI para ajudar a limpar a corrupção e má gestão no IOR. Em dezembro passado, em torno do mesmo tempo que Albrecht von Boeselager estava sendo forçado a sair de seu cargo como Grand Chancellor da Ordem, o seu irmão Georg foi nomeado para um cargo de supervisão no Banco do Vaticano. E no meio de tudo isso, a administradora da doação de 30 milhões de francos foi acusada, em um relatório anonimamente escrito que foi divulgado para a mídia no início deste ano, de ter feito ameaças segundo as quais se o processo contra ela (arquivado pelo Ordem de Malta para obter o controle de seu legado) não fosse retirado, ela iria revelar segredos sujos sobre o que vem acontecendo dentro das próprias instituições financeiras do Vaticano:

“Ela sabia muito sobre alguns dos negócios financeiros e funcionamento interno do Vaticano, incluindo, devemos presumir, alguns que não eram inteiramente honestos.”

Ele continua: “Ela estava, agora acredita-se, indicando que se ela continuasse a ser processada ou indiciada, iria abrir a boca no trombone revelando ao mundo tudo o que ela sabia sobre essas transações financeiras internas do Vaticano e não hesitaria em divulgar os nomes de certos altos funcionários do Vaticano e suas conexões com as operações e negócios “.

Voltando ao papel do próprio Pell em acertar as finanças do Vaticano, me lembro também que foi ele que descobriu mais de um bilhão de euros “escondidos” dos livros de contabilidade do IOR em 2015:

As vastas somas de dinheiro não declaradas estavam escondidas em várias contas bancárias de organizações e grupos dentro da Santa Sé em Roma.

Os fundos não foram utilizados abusivamente e não fazem parte da onda de corrupção e escândalo que anteriormente trouxeram vergonha ao Vaticano, mas o dinheiro não foi devidamente declarado ou colocado em disponibilidade para a plena utilização do Vaticano porque foi escondido em uma prática italiana de manter à parte fundos não declarados.

“Em uma prática italiana de manter à parte fundos não declarados.”

Fala sério! Então, o que seria ilegal para qualquer outra pessoa é apenas “uma prática italiana”?

Há também uma outra história recente que poderia parecer ter um impacto mínimo se a considerarmos isoladamente, mas que assume um significado maior à luz das questões maiores que envolvem a corrupção no IOR. Libero Milone, o novo Auditor Geral nomeado pelo Papa Francisco em 2015 para mergulhar na situação financeira do Vaticano, de repente e inesperadamente renunciou no mês passado. Nenhum detalhe foi dado, mas é claro que desde o início Milone enfrentou resistência dentro da burocracia do Vaticano para reformas financeiras. No início de seu mandato, por exemplo, seu computador foi hackeado. E de acordo com Edward Pentin, “A divulgação dessa história deu lugar ao escândalo Vatileaks II.”

Pentin também observou um ponto em particular sobre a resistência enfrentada tanto por Milone como Pell:

Mais recentemente, ele [Milone] assinou uma carta com o cardeal George Pell, prefeito da Secretaria da Economia, repreendendo a Administração do Patrimônio da Sé Apostólica (APSA), o órgão do Vaticano responsável pela gestão imobiliária do Vaticano, depois que esse ordenou aos departamentos do Vaticano para fornecer suas informações financeiras não ao auditor geral, mas a um outro de fora.

Milone e Cardeal Pell enviaram então uma carta em maio para todos os dicastérios dizendo “com profundo pesar” que tiveram que intervir refutando a instrução de APSA.  A ação arbitrária e unilateral por parte da APSA foi vista como uma resistência extraordinária, não só contra a autoridade da Secretaria de Economia e o auditor geral, mas também contra a Secretaria de Estado. E ao contrário da auditoria final da PwC no ano passado, fontes dentro do Vaticano disseram que isso não veio de uma autoridade superior, e foi, portanto, lida como um movimento provocativo da parte da APSA para “recuperar” alguns dos seus poderes.

APSA tem sido até agora, sem dúvida a mais resistente a reformas que envolvem um maior escrutínio financeiro.

De acordo com uma reportagem do website americano Newsmax.com, foi esta situação com a APSA que poderia ter levado o Papa Francisco a se voltar contra Pell e seu trabalho:

Pell de fato, encontrou uma nova fonte potencial de receita nos espaços comerciais e residenciais em Roma valorizados em cerca de 1 bilhão de euros e geridos pela Administração do Patrimônio da Santa Sé, ou APSA. Segundo o cardeal, a gestão não estava à altura e em julho de 2014 o Papa Francisco passou a Pell o controle das propriedades.

No entanto, o presidente da APSA, o Cardeal Domenico Calcagno, recentemente se tornou muito próximo ao Papa Francisco, tendo sido visto muitas vezes jantando com ele na residência Santa Marta. Ao longo de 18 meses, Francisco foi removendo Pell do controle imobiliário da APSA. Alguns culpam a crença de Pell no mercado livre,  algo do qual o papa Francisco é um conhecido crítico.

Francisco matou sua própria auditoria em setembro passado.

Então, aqui, mais uma vez, estamos diante de um mistério: por que Milone renunciou apenas há pouco menos de uma semana antes que Pell fosse formalmente indiciado? Será que ele sabia o que estava a caminho? Será que ele percebeu que os obstáculos empilhados contra seu trabalho eram simplesmente muito altos? Que o buraco da corrupção dentro do sistema financeiro do Vaticano era muito mais profundo?

Lembrem-se, também, como Professor Germano Dottori do Instituto de Estudos Estratégicos da LUISS-Guido Universidade Carli, em Roma, escreveu um artigo no início deste ano, demonstrando porque ele acredita que a alavancagem financeira foi armada por forças internacionais que acabaram culminando na renúncia do Papa Bento XVI:

Tanto o Governos italiano como o Papal foram simultaneamente atingidos por uma campanha escandalosa, coordenada, excepcionalmente violenta e sem precedentes, envolvendo até mesmo manobras mais ou menos nubulosas no domínio financeiro, com o efeito final culminando em novembro de 2011 com a saída de Berlusconi do Palácio Chigi e, em 10 de Fevereiro [sic – 11], de 2013, com a abdicação de Ratzinger. No auge da crise, a Itália viu progressivamente o seu acesso aos mercados financeiros internacionais fechados, enquanto o Instituto para as Obras Religiosas (IOR) [o Banco do Vaticano] foi temporariamente cortado do circuito do Swift 4. [Ênfase adicionada]

Um dos fatores menos conhecidos na abdicação do Papa Bento XVI é que, nos dias anteriores à sua declaração de renúncia, operações bancárias dentro do Vaticano tornaram-se de todo impossíveis. A situação foi resultado de uma pressão intencional feita contra o Vaticano –  Uma pressão que alguns dizem que foi usada para forçar o Vaticano a limpar sua corrupção financeira e cumprir com as normas bancárias internacionais, mas já outros acreditavam que equivalia a uma forma de chantagem contra a pessoa do papa.

Imagine o que deve ter sido fazer uma auditoria dessa confusão, descascando camada após camada de corrupção e ofuscação, para descobrir um  bilhão de euros onde não deveriam estar, e para tentar identificar os homens por trás dos bastidores, mexendo as cordas e desviando atenção.

Este ano, nós ouvimos até boatos de que o Vaticano tornou-se financeiramente insolvente. Rumores dizem que é por isso que a Igreja alemã, financiada anualmente pelos bilhões de euros recolhidos pelo imposto obrigatório à Igreja, tornou-se uma influência tão poderosa em Roma. Será possível que o fluxo do Reno que se derrama sobre o Tibre é transportado por uma torrente de liquidez?

Pergunto-me se alguma vez ficaremos sabendo.

Então não é preciso fazer muita ginástica mental pra se concluir que o cardeal Pell fez inimigos poderosos dentro do Vaticano na medida em que ele causava uma erosão neste sistema complicado e engessado da gestão financeira em busca de maior transparência e conformidade com as normas bancárias. Uma fonte que se comunicou comigo esta semana disse-me ainda que acredita que há aqueles que, depois de terem abusado dos privilégios dos seus ofícios no Vaticano para o ganho financeiro pessoal, estão ajudando a financiar a campanha contra Pell.

Boatos não passam de alegações até que a verdade venha à tona. Se Pell é culpado de abuso sexual, ele deve ser responsabilizado. Mas se esta é uma campanha para destruí-lo encabeçada por aqueles que tem muito mais a perder se o Vaticano fizer uma limpeza em sua gestão financeira, as pessoas com o conhecimento do que está acontecendo deveriam se apresentar para exonerar o homem.

De qualquer forma, a destruição do cardeal Pell parece ser nesta altura do campeonato, um fato consumado.

1 julho, 2017

Ladaria, novo Prefeito para a Doutrina da Fé.

ladaria

Por Boletim da Sala de Imprensa da Santa Sé, 1º de julho de 2017 | Tradução: FratresInUnum.com – O Santo Padre, o Papa Francisco, agradeceu ao Eminentíssimo Senhor Cardeal Gerhard Ludig Müller na ocasião da conclusão de seu mandato quinquenal como Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e como Presidente da Pontifícia Comissão “Ecclesia Dei”, da Pontifícia Comissão Bíblica e da Comissão Teológica Internacional, e chamou a sucedê-lo nos mesmos encargos Sua Excelência Reverendíssima Dom Luis Francisco Ladaria Ferrer, SJ, Arcebispo titular de Tibia, até então Secretário da Congregação para a Doutrina da Fé.

 

* * *

Nota do Fratres: Nenhum encargo foi confiado ao Cardeal Müller, ao menos por ora. O próprio formato da comunicação no Bollettino é insólito, tratando a transição como uma simples “mudança de turno”, diferentemente da praxe de se anunciar já o posto que o demissionário passará a ocupar.

Há alguns meses, cogitava-se que Müller, para simplesmente sair de Roma, receberia alguma diocese relevante na Alemanha. Agora, fala-se somente em assumir a Ordem do Santo Sepulcro. Teria ele o mesmo destino de Burke, isto é, o ostracismo?

Uma observação sobre o jesuíta Ladaria: ele foi nomeado, em fevereiro do ano passado, pelo próprio Papa Francisco, para encabeçar a comissão de estudo sobre o papel da mulher na Igreja e a possibilidade de um diaconato feminino…