Archive for ‘Cúria Romana’

2 agosto, 2016

Diaconato feminino. Continua a Revolução de Francisco.

Por FratresInUnum.com“Depois de intensa oração e madura reflexão”, Papa Bergoglio decidiu hoje instituir a Comissão para o estudo de Diaconato feminino, e isso apenas após três meses de que o tinha prometido à Plenária da União Internacional das Superiores Gerais (três meses!).

Após a imensa repercussão de sua então “promessa”, Francisco recou. Em viagem de retorno da Armênia, afirmou:

Santo Padre, há algumas semanas, o senhor falou de uma Comissão para refletir sobre o tema das mulheres diaconisas. Gostaria de saber se esta Comissão já existe e quais serão as questões sobre as quais refletirá? Enfim, por vezes, uma Comissão serve para se esquecer dos problemas: eu gostaria de saber se este é o caso? 

“Houve um presidente argentino que dizia e aconselhava aos presidentes de outros países: quando quiseres que uma coisa não se resolva, cria uma comissão! O primeiro a ficar surpreendido com esta notícia fui eu, porque, no diálogo com as religiosas – que foi gravado e depois publicado no jornal ‘L’Osservatore Romano’ –, tratava-se doutra coisa, mais ou menos nesta linha: ‘Ouvimos dizer que, nos primeiros séculos, havia diaconisas. Pode-se estudar isto? Criar uma Comissão?’ Nada mais… Fizeram uma pergunta; foram educadas, e não só educadas mas também amantes da Igreja, mulheres consagradas. (…) No dia seguinte [nos jornais]: ‘A Igreja abre a porta às diaconisas’. Verdadeiramente zanguei-me um pouco com os mass-media, porque isto é não dizer a verdade das coisas às pessoas”.

Mas parece que as raivas de Francisco passam bem depressa, e ele, que é um homem de palavra, cumpre a promessa que parecia desfeita – a de constituir uma comissão de estudos sobre a possibilidade de um diaconato feminino.

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Papa Francisco recebe comitiva anglicana no Vaticano. É isso que ele quer para a Igreja Católica?

Na Comissão, grita a escandalosa ausência do Cardeal Müller, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé… E causa espanto o elenco imenso de progressistas e teólogos e, sobretudo, teólogas liberais.

Salta aos olhos a presença de Piero Coda, focolarino e conhecidamente feminista.

Assim como o Sínodo dos Bispos foi apenas um simulacro: as decisões já estavam tomadas!, agora, a Revolução continua.

“Exurge! Quare obdormis, Domine?” (Ps XLIII,23).
“Levantai-Vos, oh Senhor! Por que dormis?” (Sl 43,23).

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25 julho, 2016

Falando com as paredes.

Enquanto um cardeal profere toda uma conferência para fundamentar seu pedido de retorno à posição “ad orientem” como um regresso à centralidade de Deus, outro purpurado limita-se, em sua tacanhez cnbbística,  a dizer que, nessa posição, o sacerdote celebra “voltado para a parede”…

Reforma da Liturgia. De novo?

Dias atrás, falou-se na imprensa e em alguns ambientes eclesiais de uma eventual nova reforma da Liturgia na Igreja. Propagou-se que os sacerdotes deveriam celebrar novamente a Missa voltados “ad Orientem” (para o Oriente), que significa que deveriam celebrar voltados para a parede, em vez de voltados para o povo, como se fazia antes da reforma do Concílio Vaticano II. Além disso, a santa Comunhão deveria ser recebida ajoelhados e diretamente sobre a língua.

A questão surgiu depois de uma recomendação, aos sacerdotes, do cardeal Roberto Sarah, Prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplinados Sacramentos, na abertura de um encontro sobre Liturgia, em Londres. Não se tratou de um ato oficial da Santa Sé, mas de um desejo do Cardeal,preocupado com o significado da liturgia do Advento; por ser ele o encarregado do Papa para a Liturgia em toda a Igreja, sua palavra foi tomada poralguns como se já fosse uma decisão da Santa Sé, com o aval do Papa.

Missa de Dom Odilo na Catedral da Sé em São Paulo.

Uma missa de Dom Odilo na Catedral da Sé em São Paulo. “A reforma promovida pelo Concílio não autoriza nem avaliza cometer abusos na liturgia”.

Sem demora, acaloradas discussões sobre uma suposta “reforma da reforma litúrgica” tomaram conta de alguns setores eclesiais; para alguns, seria necessário rever a reforma litúrgica promovida pelo Concílio, nas diretrizes da Constituição Sacrosanctum Concilium (1963). Isso significaria, na prática, voltar à maneira de celebrar a Liturgia antes do Concílio Vaticano II; motivos para tal revisão seriam a “intocabilidade” das normas litúrgicas anteriores ao Concílio, os abusos e a “dessacralização” das celebrações litúrgicas, supostamente causados pelas reformas conciliares.

Depressa, porém, a questão foi esclarecida durante uma audiência do cardeal Sarah com o Papa Francisco; e, no dia 11 de julho, o Padre Lombardi, porta-voz da Santa Sé, emitiu um Comunicado oficial, com “alguns esclarecimentos sobre a celebração da Missa”. Com suas palavras, o cardeal Sarah não estava anunciando orientações diversas daquelas atualmente vigentes nas normas litúrgicas e nas palavras do próprio Papa sobre a celebração “de frente para o povo” e sobre o rito ordinário da Missa.

O Comunicado recorda as normas da Instrução Geral do Missal Romano, relativas à celebração eucarística: “O altar-mor seja erigido separado da parede, para ser facilmente circundável e para que nele se possa celebrar de frente para o povo, como convém fazer em toda parte onde isso for possível. O altar ocupe um lugar que seja, de fato, o centro para onde se volte espontaneamente a atenção de toda a assembleia dos fiéis. Normalmente, seja fixo e dedicado” (nº 299).

No Comunicado, ficou claro que não está em andamento nenhuma “reforma da reforma da Liturgia”. E até se recomendou que seja evitado o emprego da expressão “reforma da reforma litúrgica”, que pode induzir a equívocos sobre a validade da disciplina litúrgica vigente na Igreja.

Resolvida a questão, vale lembrar, no entanto, que a reforma promovida pelo Concílio não autoriza nem avaliza cometer abusos na Liturgia. A disciplina litúrgica é regulada pelo Magistério da Igreja; e, sem prejuízo da criatividade, das liberdades e alternativas previstas nos ritos, ninguémestá autorizado, por iniciativa própria, a mudar a forma das celebrações e as normas litúrgicas prescritas. Mas a reforma do Concílio também supõe e requer uma contínua e adequada formação litúrgica do povo de Deus.

O critério fundamental da reforma litúrgica do Concílio é que “todos os fiéis sejam levados àquela plena, cônscia e ativa participação das celebrações litúrgicas, que a própria natureza da Liturgia exige e à qual, por força do Batismo, o povo cristão (…) tem direito e obrigação” (SC 14). A atenção e fidelidade criteriosa às normas litúrgicas deve sempre ter em vista essa “participação plena, consciente e ativa” dos fiéis nas celebrações da Liturgia, para que possam receber os abundantes frutos dos sagrados Mistérios celebrados.

Quanto à maneira de comungar, os fiéis têm a liberdade de receber a sagrada Comunhão na mão ou, diretamente, na boca; também podem recebê-la de joelhos, ou em pé. O que importa, mais que tudo, é que a recebam com fé, a fé da Igreja no Sacramento da Eucaristia, e com aquela dignidade interior e devoção exterior que convém à Eucaristia.

Cardeal Odilo Pedro Scherer

Arcebispo metropolitano de São Paulo

Publicado no Jornal O SÃO PAULO  edição 3111 – De 20 a 27 de julho de 2016.

11 julho, 2016

Reforma de um mínimo suspiro de tentativa de reforma da reforma. 

Nota do Fratres: Nada mais do que o esperado por parte da Sala de Imprensa da Santa Sé. O demissionário padre Lombardi — descanse em paz –, desmentidor oficial do Vaticano, rápido em rechaçar qualquer vestígio de ortodoxia e sonolentíssimo em fustigar enganos, não fez mais do que o seu papel. Nada havia a ser esclarecido. O bom cardeal Sarah foi claríssimo quando apenas sugeriu uma mudança, sem valor oficial. Mas, é fundamental, imperioso, defender as reformas pós-conciliares contra o menor sussurro dos restauracionistas.

Cardeal Sarah

Cardeal Sarah

Não se deve esquecer que, há pouco mais de um ano, o Papa Francisco, comemorando o aniversário da primeira missa em italiano celebrada por Paulo VI, disse, referindo-se aos que defendem uma “reforma da reforma”:

Vamos agradecer ao Senhor pelo que Ele tem feito na sua Igreja nestes 50 anos de reforma litúrgica. Foi realmente um gesto corajoso para a Igreja se aproximar do povo de Deus para que eles pudessem entender o que estavam fazendo. Isso é importante para nós, seguir a missa dessa forma. Não é possível voltar atrás. Devemos sempre ir adiante. Sempre adiante! E aqueles que querem voltar atrás estão enganados. Sigamos adiante neste caminho.

É importante ressaltar que a fala do cardeal guineense, pela clareza que incomoda a atual hierarquia, mobilizou, numa velocidade insólita, todo o aparato modernista-eclesiástico de apologetas do “espírito do Concílio”. Primeiro, foi Dom Vincent Nichols, o ultra-progressista arcebispo de Westminster, sede do encontro em que discursou Sarah, a escrever imediatamente a seus padres, instando-os ao não seguir o pedido do prefeito da liturgia. Um gesto nada elegante de “comunhão episcopal” nada fraterna.

Até no Brasil, o Cardeal Arcebispo de São Paulo, privadamente, demonstrou ceticismo e minimizou as notícias acerca do discurso de Sarah, afirmando ser um gosto particular do prefeito e não um ato oficial do Vaticano, e que uma tal mudança significaria rever o estabelecido pelo Vaticano II — da nossa parte, é inacreditável que um Cardeal ignore que o Vaticano II, em sua Constituição sobre a Sagrada Liturgia Sacrosanctum Concilium, nada tenha disposto sobre a posição do altar.

Por fim, a reunião de Francisco e Sarah logo após a conferência do purpurado em Londres já estava na agenda? Ou foi um chamado à ordem? Esperamos que a primeira alternativa seja a verdadeira. No entanto, alguns analistas associaram o duro discurso de Francisco, chamando de “hereges e não católicos” os que afirmam “‘é isso ou nada’”, ao livro “Deus ou nada”, do Cardeal Robert Sarah (cujo prefácio de Bento XVI desapareceu misteriosamente).

* * *

Celebração da Missa, nenhuma mudança dos altares

O cardeal Sarah, durante uma conferência em Londres havia convidado os sacerdotes a celebrar voltados ao Oriente, de costas para o povo. Após um esclarecimento com o Papa, a nota de Lombardi.

Por Andrea Tornielli – La Stampa | Tradução: FratresInUnum.com: Parecia mais que um convite, porque a falar sobre isso, se bem que durante uma conferência e não como um ato oficial, foi o cardeal Robert Sarah, Prefeito da Congregação para o Culto Divino. O cardeal Africano, há uma semana, em Londres, na abertura da conferência Sacra Liturgia, havia lançado uma espécie de apelo a todos os sacerdotes do mundo, convidando-os a começarem, no primeiro domingo do Advento, em novembro, a celebrar a missa “versus Orientem”, isto é, com o altar voltado para o leste, de costas para o povo, como se usava antes da reforma conciliar. “É muito importante que voltemos, o mais rápido possível para uma direção comum, sacerdotes e fiéis voltados na mesma direção, para o oriente, ou pelo menos para a abside, para o Senhor que vem”, disse ele, acrescentando: “Peço-vos aplicar esta prática sempre que possível “.

As palavras de Sarah reverberaram em todo o mundo, encontrando apoio entusiástico nos sites e nos assim chamados blogs tradicionalistas, mesmo porque o cardeal tinha acrescentado que iria começar, de acordo com o Papa, um estudo para se chegar a uma “reforma da reforma” litúrgica, visando melhorar a sacralidade do rito. Um dia após a conferência de Sarah, o cardeal arcebispo de Westminster, Vincent Nichols, escreveu uma carta a seus sacerdotes, instando-os a não celebrar a Missa voltada para o Oriente, tal como solicitado pelo prefeito do Culto Divino, também por causa da legislação em vigor sobre esse assunto.

Nos últimos dias, o Cardeal Sarah se encontrou novamente em audiência com Francisco. E na tarde de segunda-feira, 11 julho, padre Federico Lombardi, no mesmo dia em que foi anunciada a nomeação do seu sucessor, emitiu uma declaração, evidentemente em concordância com o Pontífice e o cardeal, que desmonta a validade do convite de Sarah e põe fim à expressão “reforma da reforma”, já há tempos abandonada até mesmo por Bento XVI.

“É oportuno um esclarecimento – afirma o porta-voz do Vaticano – na sequência de relatos da mídia que circularam após uma conferência realizada em Londres pelo Cardeal Sarah, prefeito da Congregação para o Culto Divino, poucos dias atrás. O Cardeal Sarah sempre esteve preocupado justamente com a dignidade da celebração da missa, de modo que seja expressa adequadamente a atitude de respeito e adoração do mistério eucarístico. Algumas de suas expressões foram, no entanto, mal interpretadas”, como se anunciassem novas indicações diferentes daquelas até agora promulgadas nas normas litúrgicas e nas palavras do Papa sobre a celebração voltada para o povo e sobre o rito ordinário da Missa.

“Portanto é bom lembrar – continua Lombardi – que a Institutio Generalis Missalis Romani (Instrução Geral do Missal Romano), que contém as normas relativas à celebração eucarística e que ainda está em pleno vigor, no nº 299, diz:”  “Altare extruatur a pariete seiunctum, ut facile circumiri et in eo celebratio versus populum peragi possit, quod expedit ubicumque possibile sit. Altare eum autem occupet locum , ut revera centrum sit ad quod totius congregationis fidelium attentio sponte convertatur”(isto é :” O altar deve ser construído destacado da parede, para que se possa facilmente circular em volta e celebrar voltado para o povo, o que é conveniente que seja realizado sempre que possível. O altar seja pois posicionado de modo a estar verdadeiramente no centro para que a atenção do fiel se volte naturalmente para a sua direção.”)

“Por sua parte, o Papa Francisco – afirma ainda o porta-voz do Vaticano – por ocasião da sua visita à Congregação para o Culto Divino, recordou expressamente que a forma” ordinária” da celebração da Missa é a prevista pelo Missal promulgado por Paulo VI, enquanto a forma “extraordinária”, que foi autorizada pelo Papa Bento XVI para as finalidades e com as modalidades por ele explicadas no motu proprio Summorum Pontificum, não deve tomar o lugar do “ordinário”.

“Não são, portanto, previstas novas orientações litúrgicas a partir do próximo Advento – esclarece Lombardi – como alguns erroneamente deduziram a partir de algumas palavras do Cardeal Sarah, e é melhor evitar o uso da expressão ‘reforma da reforma’, referindo-se à liturgia, dado que às vezes ela tem sido fonte de equívocos. Tudo isso foi expresso em concordância durante o curso de uma audiência recente concedida pelo Papa ao mesmo Cardeal Prefeito da Congregação para o Culto Divino”.

11 julho, 2016

Dom Aldo: “Pedi para conversar com o próprio papa. Mas isso não me foi concedido. Essa resposta nem veio”.

O padrão do Vaticano de Francisco se repete: um bispo tido por “conservador” e “divisivo”, que fere a “comunhão”, acusado de imoralidades por uma quadrilha eclesiástica de imorais, é instado a renunciar. O bispo tenta dialogar, clama por ser ouvido, mas não consegue sequer trocar meias palavras com o Papa da Misericórdia. 

‘Quando você mexe no bolso, vêm as reações’, diz bispo acusado de proteger padres pedófilos

Aldo di Cillo Pagotto diz que foi vítima de retaliação por investigar desvios de dinheiro na Igreja, fala da ‘infiltração’ gay no seminário e diz ter sido pressionado pelo Vaticano a renunciar

Dom Aldo Pagotto, arcebispo da Paraíba.

Dom Aldo Pagotto, arcebispo emérito da Paraíba.

Por Veja – Na última quarta-feira, o Vaticano anunciou que o papa Francisco aceitou a renúncia do arcebispo da Paraíba, dom Aldo di Cillo Pagotto. Oficialmente, dom Aldo deixou o posto por “motivos de saúde”. Mas só oficialmente. Por trás da decisão, há muito mais. Há pelo menos quatro anos, o arcebispo era investigado pelo próprio Vaticano sob suspeita de acobertar padres pedófilos. Dom Aldo também era acusado de promover orgias e de ter mantido relacionamento com um jovem de 18 anos – o que ele nega. Foi o primeiro caso, no Brasil, de um arcebispo que deixa o posto no curso de uma investigação sobre envolvimento em escândalos sexuais.

Na mesma quarta-feira, dom Aldo falou por quase duas horas a VEJA. O resultado da conversa é revelador dos bastidores da Igreja – e de segredos que, na grande maioria das vezes, graças à hierarquia e à disciplina dos religiosos, são mantidos distantes dos olhos e ouvidos do distinto público. Na entrevista, o bispo deixa evidente que, na verdade, foi obrigado a renunciar. Ele conta que, no início de junho, foi chamado a Brasília para uma conversa com o núncio apostólico, o representante do papa no Brasil. E que, naquele mesmo dia, o núncio — em nome do papa — o fez redigir a carta de renúncia.

O arcebispo se diz alvo de uma grande injustiça cometida pelo papado de Francisco e atribui a sua situação a uma disputa que tem como pano de fundo acusações de corrupção, homossexualismo, pedofilia e, quase sempre, disputa por poder.

A seguir, os principais trechos da entrevista.

Desvio de dinheiro

Dom Aldo diz que foi vítima de uma orquestração maquinada por um grupo de padres que se opunham a medidas que ele adotou desde que assumiu a Arquidiocese da Paraíba. Ao falar desses padres, cujos nomes ele se esforça para não revelar, o religioso escancara o ambiente interno conflagrado no clero – algo que a Igreja, quase sempre, consegue manter em segredo. Ele acusa os adversários de estarem envolvidos em desvios de dinheiro e de serem, eles próprios, personagens de escândalos sexuais. Na origem de tudo, diz ele, está a disputa pelo controle das finanças.

“Tudo começou porque eu tenho uma visão mais moderna. A questão administrativa e patrimonial da Arquidiocese estava bastante comprometida. Então começamos a colocar as coisas em ordem, com prestação de contas. Isso mexeu na posição de uns privilegiados. Havia coisas não muito bem resolvidas.”

“Quando você mexe no bolso, que é a parte mais delicada do corpo da pessoa, vêm as reações, que não são tão diretas no começo. Aí começam com outras acusações. Diziam que eu era financista, materialista, e que a Igreja não é só isso.”

“Essa reação partia de um grupo pequeno, mas muito bem articulado, formado por cinco padres. Passaram a acusar que o clero no estado estaria dividido, e outras coisas morais. Diziam que eu era ditador. Depois foram para os ataques pessoais de ordem afetiva e sexual. Aí foram para a baixaria mesmo, com acusações horrendas à minha pessoa e a outros padres também.”

“Esses padres têm poder financeiro. E a reação vinha justamente daí. Tudo parte de quando você quer mexer nas finanças.”

Mas esses padres estavam envolvidos com corrupção?, perguntou VEJA.

A resposta: “Havia um colégio aqui, o Pio XII, que eu tive que fechar quando cheguei porque havia uma coisa não resolvida ali. Era um colégio tradicional, de mais de 80 anos. Pedimos uma auditoria e fizeram de tudo para não fazer essa auditoria. Sempre me era aconselhado: ‘Não é bom mexer com isso’”.

Dom Aldo diz que, só nas contas da escola, havia um rombo de 1,8 milhão de reais. E quem são esses padres?

“Eu sei quem são. Alguns nomes eu levei para a Santa Sé. Pelo menos o nome de dois, entre eles o que capitaneia, eu informei à Santa Sé. São padres muito bem posicionados aqui, veteranos.”

O segredo do processo e o silêncio do papa

Alvo de denúncias cada vez mais constantes, e de uma série de dossiês enviados a Roma, dom Aldo Pagotto passou a ser formalmente investigado pelo Vaticano. O rol de acusações contra ele era extenso: além de ser acusado de proteger padres pedófilos, diziam as denúncias, teria relaxado os critérios para a aceitação de novos seminaristas. Além disso, era apontado como personagem central de um grupo de religiosos que se esbaldavam em festas e promoviam orgias sexuais. Em janeiro de 2015, já em consequência das investigações, o Vaticano impediu o arcebispo de ordenar novos padres.

“Em junho do ano passado fui ao Vaticano tirar a história limpo. Falei com o cardeal Stella (Beniamino Stella, prefeito da Congregação para o Clero — uma espécie de ministro do Vaticano). O cardeal me tratou muito bem, me escutou durante uma hora, mas disse que a resposta viria só depois de agosto e setembro e que o desfecho dependia também da Congregação para os Bispos. Comecei a cobrar e não vinha nada.”

“Em maio eu pedi para conversar com o próprio papa. Mas isso não me foi concedido. Essa resposta nem veio. Dois ou três dias depois de redigir a carta de renúncia, fiz outra carta ao papa reforçando esse pedido. Escrevi ao papa dizendo que gostaria muito de falar com ele. Ali eu ainda tinha esperança (de que a investigação pudesse ter outro desfecho). Nada.”

O chamado para renunciar

Dom Aldo revela que a renúncia não foi um ato de vontade própria. Foi uma determinação do Vaticano – uma determinação que a disciplina religiosa e o respeito à hierarquia da Igreja o obrigavam a aceitar. A renúncia era uma forma de evitar mais desgastes. A explicação oficial que viria na sequência – “motivos de saúde”— ajudaria

“Fiquei lá (na Nunciatura Apostólica, em Brasília) uma manhã inteira. A conversa com o núncio foi de pelo menos uma hora. A sós, no gabinete dele. Ele recordou todos os fatos. Eu pedi, de novo, para ter acesso ao que eu era acusado, ao relatório ou ao dossiê. Ele disse: não se pode mostrar. Então, se é assim… Ele também não disse quem acusava. Ele aconselha. Eu também tirei minhas dúvidas. Ele disse: ‘O papa está muito preocupado com você. É para o seu bem. Para o seu bem e para o bem da Igreja. Então, para o bem da Igreja e para o seu bem, você pense’. Eu cheguei a dizer: está bem, está muito certo, entendi tudo. Eu mesmo me choquei.”

“Ele me falou: ‘Olha, você faça essa carta’. É assim mesmo. Ele é o representante do papa.”

A certa altura, o arcebispo percebe que estava falando demais. E tenta se corrigir:

O senhor, então foi instado a renunciar?

“Não é bem assim…. Eu me aconselhei também. E eu aqui já dizia para alguns padres da minha insatisfação, do meu estado de saúde. Não é que recebi uma ordem: faça. Não é bem assim. A gente é livre. Eu disse a ele (ao núncio): é até interessante que eu faça (a carta), e fiz.”

O senhor acha justo o desfecho do caso?

“Não acho. Eu tenho muita dificuldade de aceitar uma coisa dessas. É muito ruim, muito ruim.”

‘Tive que limpar o seminário’

Dom Aldo Pagotto admite que havia “problemas” na Arquidiocese. Entre eles problemas, ele cita o fato de ter aceitado, como candidatos a padre, jovens homossexuais que já haviam sido rejeitados em outros seminários por “conduta inadequada”. Ele diz, porém, que fez o que tinha de ser feito: “limpou” o seminário.

“Nós tivemos problemas no seminário. Eu tive que limpar o seminário de pessoas suspeitas de comportamento não adequado.”

Em que sentido? Sexual?

“É, exatamente.”

E o que é “limpar”?

“Limpar quer dizer convidar a sair. Isso foi em 2012. Em um seminário sempre há entrada e saída de pessoas. Seminário onde só entram pessoas e ninguém sai não é bom. Tem pessoas com determinada tendência que vêm procurar seminário e você sabe que a intenção pode ser outra. Eu não posso ser julgado por isso. Na verdade, os papas todos tiveram problemas assim. O João Paulo teve problemas imensos. Depois veio Bento 16, que estatuiu normas muito caridosas, mas muito objetivas. E, agora, Francisco da mesa forma. No caso daqui, houve problemas, eu não posso negar. Mas eu fiz relatórios disso, desde o outro núncio apostólico, como estava o seminário, que tinha havido infiltração (de gays). Eu relatei a infiltração. Não escondi.”

A “infiltração” gay

“No seminário, o problema era homossexualismo. Falando abertamente, é isso. Tivemos alguns casos. O relato é de que houve infiltração, romance, defesa de comportamentos que não são admitidos pela Igreja. Naquele momento, entre 2011 e 2012, isso envolveu cinco ou seis pessoas. Faziam defesa desse comportamento lá dentro. Também havia comportamentos estranhos. Colegas estranharam, pessoas da comunidade também. Diziam: ‘Olha, esse rapaz aqui parece que é…’. Havia toda uma preocupação para evitar a reprodução desses escândalos que estamos vendo.”

Pedofilia na Arquidiocese

“Eu digo que por misericórdia eu aceitei alguns padres em crise. Aceitei seminaristas egressos (que já haviam sido expulsos de outros seminários), mas eu não sabia desse comportamento. Por indicação de alguém, por pedidos para que eu desse chance. Esses pedidos vinham de bispos, de superiores de alguma congregação. Enfim, eu fui misericordioso. Aceitei e me dei mal. Esses seminaristas foram ordenados por mim e depois tive que afastá-los. Eu afastei seis. Eram acusados de envolvimento de pedofilia. Um foi inocentado.”

“Era aquela questão com meninos, coroinhas. Dentro da igreja. Eram casos na região metropolitana de João Pessoa e no interior. Do interior eram três, e três da capital. As denúncias foram feitas por familiares dos meninos. Comecei a receber essas denúncias de 2012 para 2013, tudo de uma vez, uma atrás da outra. Os padres foram afastados imediatamente. Um deles morreu. Nunca foi ouvido em juízo e morreu de muita depressão, coitadinho.”

A acusação de relacionamento homossexual

“Deus me livre, isso não existe. É mentira. Não tem como.”

E com base em que o acusam de ser homossexual?

“Respondo com uma frase: ‘Acusemo-lo daquilo que nós somos’.”

Isso existe entre os religiosos que o acusam?

“Claro que existe. Acuse-o daquilo que a gente é.”

A acusação de organizar festas e orgias

“Mas que festas? Deus me livre, eu não tenho tempo para pecar. A minha única diversão é nadar na piscina de um colégio aqui perto. Não vou ao cinema. Minha vida é trabalho. Não existe isso aí.”

 

17 junho, 2016

“Herético”. O veredito do Cardeal Müller sobre Fernandez, o primeiro conselheiro do Papa.

Em uma entrevista na última edição da “Herder Korrespondenz”, o Cardeal Gerhard L. Müller chamou nada menos que de “herege” a um tipo que se passa como “um dos conselheiros mais próximos do Papa”.

Por Sandro Magister | Tradução: FratresInUnum.com: Eis o que disse o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé:

“O ensinamento sobre o papado enquanto instituição divina não pode ser relativizado por ninguém, porque isso significaria querer corrigir o próprio Deus. […] Já faz algum tempo, que tem alguém que está sendo apresentado por determinados meios de comunicação como um dos conselheiros mais próximos do Papa, segundo o qual se pode muito bem deslocar a sede papal para Medellin ou espalhar os dicastérios da cúria por diferentes igrejas locais. Isso é fundamentalmente errado e até mesmo herético [sogar häretisch]. Sobre essa matéria, basta ler a constituição dogmática “Lumen Gentium” do Concílio Vaticano II para reconhecer o absurdo eclesiológico destes jogos mentais. A sede do papa é a Igreja de São Pedro em Roma”.

jpg_1351304Müller acrescentou que a missão explícita de São Pedro, de “guiar toda a Igreja como seu pastor supremo”, foi transmitida “para a Igreja de Roma e, com ela, a seu bispo, o papa”. E isso “não é um jogo organizativo, mas feito para preservar a unidade dada por Deus” e que também inclui “o papel do alto clero da Igreja romana, os cardeais, que ajudam o Papa no exercício do seu Primado”.

Não é difícil adivinhar quem é que está na mira de Müller. Trata-se de Dom Víctor Manuel Fernández, reitor da Universidade Católica Argentina em Buenos Aires e confidente de longa data de Jorge Mario Bergoglio, bem como, de fato, seu teólogo de confiança e arquiteto principal de seus principais documentos, desde a “Evangelii Gaudium” a “Amoris Laetitia “, e esta última chega ao ponto de plagiar trechos de artigos escritos pelo próprio Fernández há dez anos atrás:

“Amoris Laetitia” tem um escritor fantasma. Chama-se Víctor Manuel Fernández.

Mas o que o Cardeal Müller não engoliu mesmo de Fernández, é o que ele disse em uma entrevista ao “Corriere della Sera” de 10 de Maio de 2015:

“A Cúria do Vaticano não é uma estrutura essencial. O Papa poderia muito bem ir viver fora de Roma, ter um dicastério em Roma e outro em Bogotá, e talvez se conectar por teleconferência com os peritos em liturgia residentes na Alemanha. Em torno do Papa o que existe é um sentido teológico, é o colégio de bispos para servir o povo. […] os próprios cardeais podem desaparecer, na medida em que não são essenciais”.

E Fernández disse ainda, acusando precisamente o Cardeal Prefeito, que em entrevista ao “La Croix”, em 29 de Março, havia atribuído à Congregação para a Doutrina da fé “a missão de estruturação teológica” de um  Pontificado eminentemente “pastoral” como é o de Francisco:

“Eu li que alguns dizem que a Cúria Romana é uma parte essencial da missão da Igreja, ou que um prefeito do Vaticano é a bússola segura que impede a Igreja de cair no pensamento light, ou que aquele prefeito assegura a unidade da fé e garante ao pontífice uma teologia séria. Mas os Católicos, ao lerem o Evangelho, sabem que Cristo assegurou uma guia e iluminação especial ao papa junto a todos os bispos, mas não a um prefeito ou a uma outra estrutura. Quando se ouve dizer coisas desse tipo, quase parece que o papa é apenas um representante deles, ou aquele que veio para perturbá-los e deve ser controlado”.

Mais de um ano se passou desde que o teólogo argentino disparou contra Muller, mas aparentemente o Papa não ficou nem um pouco incomodado, visto que o mantém cada vez mais próximo.

E agora que Müller emitiu contra Fernández o veredito de “heresia”, é certo que quem vai cair ainda mais baixo no conceito do papa será ele, o cardeal, que já não conta para nada como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, e muito menos para a “estruturação teológica” deste pontificado.

A este propósito, não é de excluir que o Papa se referia especialmente a Müller quando, em seu terceiro sermão no retiro para sacerdotes, em 2 de Junho, disse ao comentar o encontro de Jesus com a mulher adúltera:

“Às vezes me dá uma mistura de pena e indignação quando alguém se esforça para explicar a última recomendação, o ‘não peques mais” e utiliza esta frase para “defender” Jesus e não o fato de que Ele passou por cima da lei”.

Com efeito, o Cardeal Müller tinha, de fato, escrito ao tomar uma posição em 2013, tendo em vista o sínodo sobre a família:

“Outra tendência em favor da admissão de divorciados novamente casados aos sacramentos é aquela que invoca o argumento da misericórdia. Porque o próprio Jesus era solidário com os sofredores, doando-lhes o seu amor misericordioso, a misericórdia seria um sinal especial de autêntico discipulado. Isso é verdade, mas é um argumento fraco quando se trata de matéria teológica e sacramental, porque toda a ordem sacramental é exatamente obra da misericórdia divina e não pode ser revogada sem negar o mesmo princípio que a sustenta.

“Através do que objetivamente soa como uma alusão falsa à misericórdia, incorre-se no risco da banalização da própria imagem de Deus, segundo a qual Deus não poderia fazer outra coisa senão perdoar. Ao mistério de Deus pertencem, além da misericórdia, também  a santidade e a justiça. Se resolvem ocultar esses atributos de Deus e não levam a sério a realidade do pecado, não se pode nem mesmo levar às pessoas a sua misericórdia.

“Jesus encontrou a mulher adúltera com grande compaixão, mas também disse: “Vai, e não peques mais” (Jo 8, 11). A misericórdia de Deus não dispensa dos mandamentos de Deus e das instruções da Igreja, antes, ela concede o poder da graça para a sua plena realização, para levantar-se após a queda e para uma vida de perfeição à imagem do Pai celeste “.

Mais do que isso, Müller escreveu em um livro-entrevista de 2014 e outro em 2016.

3 março, 2015

O caso do desaparecimento do prefácio de Bento XVI.

Por Katholisches.info | Tradução: Teresa Maria Freixinho – Fratres in Unum.com: (Roma) Os defensores da doutrina católica sobre o matrimônio e a família atualmente  estão enfrentando tempos difíceis. Os editores que publicaram livros em defesa do sacramento do matrimônio estão sendo pressionados. Os livros em defesa do matrimônio e da moral católica que estavam a caminho do Sínodo no Vaticano desapareceram. Ataques públicos contra os cardeais que se opõem à proposta de Kasper, aprovada pelo Papa Francisco, são desferidos para prejudicar-lhes a reputação. Demissões e destituições estão ocorrendo.

Onde está o prefácio?

Onde está o prefácio?

Não se pode dizer facilmente em que proporção isso está acontecendo por obediência antecipada ou por ordem direta de instâncias superiores. Contudo, muitos indícios apontam para um firme centro de comando ao redor do Papa Francisco. Há um objetivo em mente e é preciso alcançá-lo em outubro de 2015. Nos bastidores, a rica igreja alemã aumentou sua pressão sobre RomaO Cardeal Reinhard Marx mandou o recado de que a Alemanha pode mudar a prática da Igreja por si caso Roma reverta o Sínodo novamente, como fez em outubro de 2014. Será que Marx é uma sombra do Papa em Munique? Na Roma argentina, estão querendo pegar – se não fosse pelos incômodos “conservadores” – aqueles que não querem acompanhar o progresso.

Dentre eles encontra-se o cardeal africano Robert Sarah. Recentemente, a editora francesa Fayard lançou um livro-entrevista com o Cardeal Sarah. Nele encontramos a seguinte afirmação: “A ideia de deixar o Magistério em uma bela caixa e assim separá-lo da prática pastoral, e, em seguida, dependendo das circunstâncias, desenvolvê-lo de acordo com as modas e paixões, é uma forma de heresia, de esquizofrenia patológica. Afirmo solenemente que a Igreja da África se oporá a qualquer forma de rebelião contra o Magistério de Cristo e da Igreja.”

Um livro com um enigma

Um livro que oferece um enigma. A editora o anunciou com um “Prefácio do Papa Emérito Bento XVI”, e o nome de  Bento XVI foi publicado na capa do livro (veja a foto acima), mas ele sumiu. O livro foi publicado sem o prefácio. “Muito possivelmente, Bento XVI escreveu um prefácio para o livro; caso contrário, a página de título não seria concebida com esse aviso, que poderia ser usado para fins publicitários”, disse [o blog francês] Benoit et moi . O porquê da retirada do prefácio segue sendo um mistério. “Que ideias politicamente corretas ganharam a última palavra na editora Fayard para considerar imprudente a publicação de um prefácio do Papa Emérito em um novo livro?”, indagou Benoit et moi, esperançoso de que o Cardeal Sarah divulguasse o prefácio escrito por Bento XVI.

As razões para a retirada do prefácio, obviamente, não devem recair sobre a editora francesa. Por enquanto, o que temos é a suspeita de pressão e intimidação contra aqueles que defendem a doutrina e a ordem católica, para que essa defesa seja denunciada como “ataques” contra o Papa.

Cardeal Sarah

Cardeal Sarah

O Cardeal Sarah atuou por 22 anos como arcebispo de Conakry, na Guiné. Ele sabe como lidar com situações difíceis sem se exasperar de imediato. Seu predecessor fora encarcerado por nove anos pelos comunistas que na época governavam a Guiné. Em 2001, o Papa João Paulo II o chamou a Roma e o designou Secretário da Congregação para a Evangelização dos Povos. Em 2010, o Papa Bento XVI o nomeou Presidente do Pontifício Conselho Cor Unum e o criou cardeal no mesmo ano. Ao final de 2014, o Papa Francisco o nomeou como o novo Prefeito da Congregação para o Culto Divino. Na busca de um sucessor para o ratzingeriano Cardeal Cañizares, pesaram sua origem e dedicação no contexto das obras de caridade da Igreja a favor dos africanos. O fator determinante parece ter sido que após a gafe verbal do Cardeal Walter Kasper durante o Sínodo, o Papa Francisco esforçou-se para fazer gestos de boa vontade em relação à África. Desde então, a Presidência do Pontifício Conselho Cor Unum está vacante, o que facilita a fusão proposta dos Conselhos Pontifícios como parte da reforma da Cúria.

2 março, 2015

E que tal Henrique VIII?

O Cardeal George Pell, secretário para a Economia, tem sido alvo de ataques no que alguns chamaram de retorno dos Vatileaks. Evidentemente, isso só ocorre por conta de seu claro posicionamento em favor da família. Não se vê vazamentos nem torpedos contra Kasper, Paglia, Marx…

* * *

Por Cardeal George Pell | Tradução: Teresa Maria Freixinho – Fratres in Unum.com: Curiosamente, o rígido ensinamento de Jesus de que “portanto, não separe o homem o que Deus uniu ” (Mt 19: 6) não ocorre muito tempo depois de sua insistência a Pedro sobre a necessidade do perdão (cf. Mateus 18: 21–35).

Cardeal George Pell.

Cardeal George Pell.

É verdade que Jesus não condenou a mulher adúltera que fora ameaçada de morte por apedrejamento, mas Ele não lhe disse para continuar do mesmo jeito ou ir levando a vida sem se modificar. Ele lhe disse para não mais pecar (cf. João 8: 1–11).

Uma barreira intransponível para aqueles que defendem uma nova disciplina doutrinal e pastoral a fim de receber a Sagrada Comunhão é a unanimidade quase completa de dois mil anos de história católica sobre esse assunto. É verdade que os ortodoxos têm uma tradição de longa data, embora diferente, que lhes foi imposta originalmente por seus imperadores bizantinos, porém, essa nunca foi a prática católica.

Alguém talvez alegue que as disciplinas penitenciais nos primeiros séculos antes do Concílio de Nicéia eram muito rigorosas, uma vez que eles discutiam se os culpados de assassinato, adultério ou apostasia poderiam ser reconciliados pela Igreja com suas comunidades locais uma única vez — ou nunca. Eles sempre reconheceram que Deus poderia perdoar, mesmo quando a capacidade da Igreja de readmitir pecadores à comunidade era limitada.

Esse rigor era a norma no tempo em que a Igreja estava se expandindo em número, apesar da perseguição. Não se pode ignorá-los, tanto quanto não se pode ignorar os ensinamentos do Concílio de Trento ou de São João Paulo II ou Bento XVI sobre o matrimônio. Será que as decisões que se seguiram ao divórcio de Henrique VIII foram totalmente desnecessárias?

24 fevereiro, 2015

Franciscanos da Imaculada: Golpe de cena, Padre Volpi rejeita o acordo que havia assinado.

Por Mauro Faverzani – Corrispondenza Romana | Tradução: Gercione Lima – Fratres in Unum.com: Padre Fidenzio Volpi, Comissário imposto à Ordem Apostólica dos Frades Franciscanos da Imaculada, sempre consegue surpreender. Em 12 de fevereiro, assinou livremente um ato de mediação com a família do padre Stefano Manelli, fundador do Instituto, o qual evitou o “processo civil por alegada difamação pendente no Tribunal Ordinário de Roma, seção Civil I.”

E eis que já no dia 18 de fevereiro, apenas seis dias mais tarde, ele emite uma circular interna, publicada no site oficial da Congregação, em que retira tudo e comunica “a vontade de deixar de cumprir o acordo assinado, considerando-o já não mais válido devido a negligência grave da outra parte”. Não está claro e não explica o que seria essa  “violação grave”.

Que a notícia do acordo apareceria em tudo que é agência de notícias, sites e blogs de todo o mundo é mais que óbvio. Que nem todos a tenham divulgado com uma linguagem juridicamente apropriada, pode até ser. Mas não no nosso site. Nós apresentamos essa notícia nos termos apropriados. E para que não restem dúvidas, apresentamos o original, para que todos possam julgar e ver como estão as coisas. Mas tudo isso não tem nada a ver com o ato em si considerado. Ato que é ou não é. E, como tal, não é rejeitável segundo o que lhe der na veneta.

Com tal documento – repetimos, assinado livremente – Padre Volpi admitiu  “o não-envolvimento dos familiares do padre Stefano Maria Manelli, reafirmando a estranheza absoluta” dos mesmos “em qualquer operação considerada ilegal e, portanto, contestada pelo próprio Comissário Apostólico, sobre a alegada transferência da disponibilidade dos ativos do Instituto dos Frades Franciscanos da Imaculada”. Desmentindo assim suas declarações anteriores, de caráter totalmente oposto, contidas em uma carta de 8 de Dezembro de 2013. Declaração, agora mais uma vez afirmada em sua recente circular, na qual, contrariando a mediação de 12 de fevereiro, parece voltar às velhas acusações, julgando-as  imunes  de  “caráter de falsidade” e de fato “facilmente verificáveis”. Ou seja, a sua afirmação de que os “bens do Instituto” teriam sido colocados à disposição de terceiros, “entre outros, certos membros da família do Padre Manelli.”

Ora, então tecnicamente a rescisão do documento assinado na frente do mediador do Tribunal de Justiça, portanto, um oficial do judiciário, fica parecendo improvável, senão impossível. Nada parece atribuível aos familiares do Padre Manelli, então, rebus sic stantibus, salvo algumas cláusulas ou notas de rodapé, dificilmente a retirada anunciada poderá surtir algum efeito. De qualquer modo, resta a questão básica: é verdade ou não é verdade o que o Padre Volpi disse e assinou? Este é o único aspecto a considerar. Como Padre Volpi explica ter declarado seis dias antes a estranheza absoluta do envolvimento da família do Padre Manelli em “qualquer operação considerada ilegal, sobre a alegada transferência da disponibilidade dos ativos do Instituto dos Frades Franciscanos da Imaculada” e, seis dias mais tarde, declarar ser verdadeiro e verificável  que os bens do Instituto “foram colocados” à disposição, entre outros, de certos membros da família do Padre Manelli ? Tratando-se de duas versões diametralmente opostas, em qual das duas deveríamos acreditar?

Padre Volpi tecnicamente tem razão quando declara não ter sido jamais “condenado por qualquer crime, ou submetido a algum processo penal”. Mas isso simplesmente porque o ”acordo de mediação” aqui mencionado, e que foi assinado por ele, como ele mesmo admite, “tinha como único objetivo evitar a continuação do processo civil junto ao Tribunal de Roma, com os custos adicionais por conta do Instituto”. Despesas essas que, por sua vez, agora parece que o Instituto será instado a custear para levar avante uma questão que diz respeito unicamente às declarações escritas por ele em 2013 e que agora se veem novamente sujeitas a desagradáveis ​​consequências judiciais.

É realmente um triste cenário proposto pela Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica, aquele em que, com o decreto n. 52741/2012, afastou os vértices dos Franciscanos da Imaculada e impôs Padre Volpi como comissário apostólico. O Secretário da Congregação, Dom José Rodriguez Carballo, permanece envolvido no maxi-escândalo que abalou a Ordem dos Frades Menores, um escândalo que levou a uma investigação da Procuradoria Suíça por tráfico ilícito com a apreensão de dezenas de milhões de euros, bem como a fiscalização do passivo sobre o hotel “Il Cantico” de Roma. Agora, Padre Volpi, que antes quis evitar a todo custo um processo por difamação ao assinar uma mediação, então — com a decisão, talvez um tanto demais   emocional e temperamental — retira tudo, considerando que já não é válida, como se o que ele declarou ontem não valesse mais hoje .

No último dia 22 de dezembro, Papa Francisco, nas saudações de Natal à Cúria Romana, defendeu uma Igreja de “saneamento” frente às “doenças da Cúria” – conforme definia, para incluir aí “fofocas, murmurações, maledicências” tanto quanto o “acumular” e muito, muito mais — Não teria então chegado o momento de começar a fazer a limpeza naqueles pontos que estão mais à sombra, naqueles onde melhor se esconde a sujeira? (M.F.)

20 fevereiro, 2015

Nunca poderá haver oposição entre “ação pastoral e doutrina”: Cardeal Piacenza refuta Kasper.

ROMA, 18 de fevereiro de 2015 – LifeSiteNews.com | Tradução: Fratres in Unum.com – Misericórdia e verdade nunca podem estar separadas, e certamente nunca devem ser contrapostas uma a outra, enfatizou o Cardeal Mauro Piacenza em seu discurso no mês passado a uma assistência de padres na Alemanha.

5f3b328dc9e5021d16da86c25a5b8dbeUma vez que diversos líderes da Igreja fazem pressão para que haja mudanças em sua com relação à distribuição da Comunhão, o cardeal refutou a noção de que os ensinamentos morais católicos devam ser ignorados, a fim de que a Igreja dispense “misericórdia”.

O Cardeal Piacenza, que atua como chefe da Penitenciaria Apostólica, um dos três supremos tribunais da Igreja, afirmou: “Quando no cristianismo misericórdia e verdade são apresentados como antagônicas ou, ao menos, como contraditórias, isso resulta sempre em uma percepção parcial.”

“Dificilmente se pode conceber que poderia haver uma ênfase tão forte sobre a misericórdia em detrimento da verdade. Ou, seu oposto, uma forte ênfase na verdade em detrimento da misericórdia.”

O cardeal rejeitou a proposta apresentada pelo Cardeal Walter Kasper e seus seguidores no Sínodo dos Bispos, em outubro, de que é possível existir uma “oposição artificial entre doutrina e atividade pastoral.”

“No cristianismo”, disse ele, “misericórdia e verdade são co-inerentes e inseparáveis, de modo que não podem ser propriamente distinguíveis”. A misericórdia e a verdade, acrescentou, “estão unidas sem confusão e são distintas sem separação… Uma misericórdia sem verdade não é cristã e, ao mesmo tempo, verdade sem a misericórdia não é cristã”.

“A cada caso em que a atividade pastoral se contrapõe à doutrina — uma atividade pastoral que está cheia de misericórdia em oposição à doutrina repleta de uma verdade fria e impiedosa – nós nos revelamos prisioneiros de uma estrutura pré-cristã, em que a verdade e a novidade radical do Verbo encarnado [Cristo] ainda não estão suficiente e adequadamente integradas.”

Ele afirmou que essa “polarização ocorre” com “certa legitimidade”, mas ela deve ser entendida “dentro dos limites de ‘uma e outra'” sem cair de “maneira destrutiva na dicotomia ‘ou uma ou outra’, o que não é católico.”

Em seu discurso, intitulado “A misericórdia e a verdade se encontrarão”, Piacenza citou os salmos para ilustrar o verdadeiro significado da doutrina católica, dizendo: “’O Amor e a Verdade se encontrarão.’ Temos uma nova realidade, que não é feita por mãos humanas; é algo a ser almejado e intensamente esperado, mas que somente se concretizará como dom de Deus.”

Ao abordar o tema favorito do Cardeal Walter Kasper e seus seguidores da ala “progressista” da Igreja, Piacenza disse: “Devemos reconhecer o primado da consciência”, mas acrescentou que isso se deve entender no contexto do “primado da verdade”.

“Apesar da negação dramática da verdade objetiva em nossa época”, disse o cardeal, “… podemos perceber a necessidade dramática da verdade no coração de cada homem, uma necessidade irreprimível e inevitável, porque ela é colocada pelo próprio Deus no coração do ser humano, quando ele disse: ‘Façamos o homem à nossa imagem e semelhança.’ … À imagem de Deus Ele o criou.”

Segundo ele, “o sacramento da confissão é aquele encontro supremo com a misericórdia oferecida por Deus ao homem e a verdade sobre o homem e sua relação com Deus, a quem ele é chamado a reconhecer.”

O Cardeal Piacenza disse que um “bom confessor guiará” o penitente para reconhecer “uma verdade objetiva que vem de fora de si mesmo, porque ela é dada e revela-se como a condição para uma experiência autêntica e objetiva da misericórdia.”

O gabinte de Piacenza é responsável pela concessão ou indeferimento de dispensas às disciplinas sacramentais da Igreja. Alguns pecados são considerados tão graves pela Igreja que não podem ser tratados ao nível local do pároco ou até mesmo do bispo, mas estão “reservados à Santa Sé”, incluindo a profanação da Sagrada Eucaristia, considerada como verdadeiramente o corpo e sangue de Cristo.

A Penitenciaria Apostólica, chamada de “tribunal da misericórdia”, é o órgão do Vaticano responsável por conceder ou negar dispensas às disciplinas sacramentais da Igreja, tal como determinar como e quando conceder a absolvição para aqueles que foram automaticamente excomungados “latae sententiae” ou por suas próprias ações. Este é o caso de pecados graves como o aborto.

Seu gabinete talvez seja o mais próximo, em um nível humano, das questões que causaram uma polêmica mundial no ano passado, em particular, a proposta de permitir que católicos divorciados e recasados ​​civilmente recebam a Sagrada Comunhão sem mudar seu modo de vida. Um católico em um estado de pecado grave ou “mortal” não pode receber a Comunhão até fazer uma confissão sacramental válida, o que implica, pelo menos, na intenção declarada de nunca mais cometer o pecado novamente.

Alguns bispos e cardeais que se opuseram à proposta do Cardeal Kasper salientaram que isso obrigaria os sacerdotes a distribuir, de maneira consciente, a Comunhão a pessoas em condição objetivamente pecaminosa, o que constituiria um ato de profanação deliberada.

A verdade cristã, disse ele, nunca é “uma vara empunhada contra o outro”, mas sim um “chamado para uma relação autêntica, que seja capaz de levar o homem à realização de si mesmo: seu relacionamento com Deus”.

17 dezembro, 2014

Relatório sobre as irmãs norte-americanas enfatiza a “gratidão” e reflete mudanças no Vaticano.

IHU – O relatório do Vaticano dessa terça-feira sobre a investigação das ordens religiosas femininas dos Estados Unidos (disponível aqui, em inglês) foi amplamente positivo no tom, em contraste com as declarações emitidas quando a investigação começou em 2009.

A nota é de John Thavis, publicada no seu blog, 16-12-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

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Naquela época, o cardeal Franc Rodé, que dirigia a Congregação vaticana para as ordens religiosas, disse que o estudo tinha como objetivo identificar atitudes “seculares” e “feministas” que tinham se infiltrado nas ordens das freiras e ajudaram a provocar um drástico declínio no número de membros.

O relatório dessa terça-feira não vai nesse sentido. Em vez disso, delineia desafios reais enfrentados pelas ordens religiosas, ao mesmo tempo em que agradece repetidamente as irmãs pelo seu serviço ao Evangelho.

Essa abordagem equilibrada reflete uma mudança de guarda no Vaticano – mas é uma mudança que começou com o Papa Bento XVI. Em 2011, Bento XVI nomeou o cardeal brasileiro João Braz de Aviz para substituir o cardeal Rodé. O cardeal brasileiro assumiu a investigação das religiosas, mas adotou uma abordagem muito mais conciliatória.

Eu acho que o relatório equilibrado dessa terça-feira foi praticamente uma conclusão antecipada, tendo em vista a liderança continuada do cardeal Braz de Aviz na Congregação vaticana para as ordens religiosas e dado que o Papa Francisco claramente quer a paz com as irmãs norte-americanas.

No entanto, parece haver uma dinâmica do “bom policial, mau policial” que ainda perdura no Vaticano. Uma investigação separada do Vaticano sobre a Leadership Conference of Women Religious (LCWR), a maior associação de irmãs norte-americanas, foi realizada pela Congregação doutrinal e tem sido muito mais crítica.

Em 2012, a Congregação doutrinal emitiu uma “avaliação doutrinal” e insistiu em grandes mudanças na LCWR para garantir que a organização se alinhe com o ensinamento católico em áreas como a ordenação de mulheres, a homossexualidade, o aborto e a eutanásia.

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O cabo de guerra sobre a implementação dessas mudanças continua. No ano passado, em uma rara demonstração de pontos de vista divergentes nos níveis mais altos do Vaticano, o cardeal Braz de Aviz criticou a forma como a revisão da LCWR foi conduzida. Isso levou a uma rápida declaração do Vaticano, que tentou minimizar qualquer desacordo entre Braz de Aviz e o cardinal Gerhard Müller, presidente da Congregação doutrinal.

O cardeal Müller não afrouxou, no entanto. Alguns meses atrás, ele repreendeu a LCWR por ter adotado ideias que ele disse que levam a “erros fundamentais” sobre “a onipotência de Deus, a encarnação de Cristo, a realidade do pecado original, a necessidade de salvação e o caráter definitivo da ação salvífica de Cristo”.

A LCWR está trabalhando com o arcebispo de Seattle, J. Peter Sartain, que foi nomeado em 2012 para implementar a avaliação doutrinal. Depois de se encontrar com o arcebispo em agosto passado, a LCWR emitiu um comunicado que dizia em parte: “Continuaremos a conversa com o arcebispo Sartain como uma expressão de esperança de que novas formas possam ser criadas dentro da Igreja para uma discussão saudável das diferenças”.