Archive for ‘Cúria Romana’

19 maio, 2017

Bombástico: Bento XVI entra em campo para frear a deriva litúrgica e apoiar o Cardeal Sarah.

Em 2014, Bento XVI apoiou publicamente aqueles a quem chamou de “grandes cardeais”, em mensagem lida publicamente em Missa no Rito Tradicional celebrada na Basílica de São Pedro pelo Cardeal Burke, que, à época, perdia todos os postos que ocupava. Agora, sai novamente em defesa de outro Cardeal que perdeu completamente seu prestígio em Roma e viu sua Congregação ser sitiada por membros de orientação progressista, após algumas mínimas tentativas de restaurar certa dignidade na liturgia.

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Por Riccardo Cascioli, La Nuova Bussola Quotidiana, 18 de maio de 2017 | Tradução: FratresInUnum.com – “Com o Cardeal Sarah a liturgia está em boas mãos.” Assinado: Bento XVI. O que à primeira vista pode parecer um simples gesto de respeito, é, na realidade, uma verdadeira bomba. Isso significa, de fato, que o Papa Emérito – apesar de seu estilo discreto – saiu diretamente em campo na defesa do Cardeal Robert Sarah, como prefeito da Congregação para o Culto Divino, que agora se encontra isolado e marginalizado pelos novos nomeados pelo Papa Francisco, e publicamente desautorizado em seu discurso pelo próprio Papa.

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O gesto dramático de Bento XVI chegou sob a forma de um prefácio de um livro do Cardeal Sarah, “La Force du silence” (O Poder do Silêncio), ainda não traduzido em italiano. O texto de Bento XVI deverá ser publicado nas próximas edições do livro, mas já foi divulgado ontem pelo site americano First Things.

Nele, Bento XVI elogiou muito o livro do Cardeal Sarah e o próprio Sarah, definindo-o como “mestre espiritual, que fala das profundezas do silêncio com o Senhor, expressão de sua união íntima com Ele, e que por isso tem algo a dizer para cada um de nós” .

E no final da mensagem ele se diz grato ao Papa Francisco  por “ter nomeado um tal mestre espiritual à frente da Congregação para a celebração da liturgia na Igreja”. É uma nota que seria mais uma armadura do que gratidão real. Não é segredo o fato de que ao longo do último ano, o Cardeal Sarah foi gradualmente deposto de fato, primeiramente com a nomeação dos membros da congregação que tiveram o êxito de cercar Sarah com elementos progressistas abertamente hostis à “reforma da reforma” pedida por Bento XVI e que o cardeal guineense tentava colocar em ação. Em seguida, a desautorização aberta da parte do papa a respeito da posição do altar; e depois, a nova tradução dos textos litúrgicos que seria resultado de estudos de uma comissão criada sem o conhecimento e contra o Cardeal Sarah. Finalmente, os movimentos para estudar a criação de uma missa “ecumênica” ignorando a própria Congregação.

Trata-se de uma deriva que atinge o coração do pontificado de Bento XVI, o qual colocava a liturgia no centro da vida da Igreja. E no documento agora publicado, o Papa Emérito relança um aviso sério: “Assim como para a interpretação da Sagrada Escritura,  também para a liturgia é verdade que se faz necessário um conhecimento específico. Mas também é verdade para a liturgia que na especialização pode faltar o essencial se esta não estiver enraizada em uma profunda união interior com o Igreja orante, que sempre está aprendendo novamente com o Senhor o que vem a ser a verdadeira adoração”.  Daí a declaração final que soa como um aviso: “Com o Cardeal Sarah, mestre do silêncio e da oração interior, a liturgia está em boas mãos.”

Esta intervenção de Bento XVI, que tenta blindar o Cardeal Sarah e legitimá-lo efetivamente como chefe da Congregação para a Liturgia, não tem precedentes. E embora a forma é a de um comentário “inofensivo” em um livro, ninguém pode fugir do significado eclesial deste movimento, que indica a preocupação do Papa Emérito pelo que está acontecendo no coração da Igreja.

Bento XVI intervém agora sobre algo que talvez melhor tenha caracterizado o seu pontificado: “A crise da Igreja é uma crise da liturgia”, ele foi capaz de falar, e tal julgamento foi relançado pelo Cardeal Sarah. Mas não devemos esquecer o que Monsenhor Georg Geinswein disse em uma entrevista recente, de modo aparentemente inocente, ao responder a uma pergunta sobre a confusão que existe na Igreja e as divisões que surgiram. Ele disse que Bento  XVI acompanha atentamente a tudo o que acontece na Igreja. E agora vemos que, no silêncio, começa a dar alguns passos.

25 abril, 2017

Papa está planejando se aposentar, dizem aliados — mas, somente quando tiver indicado um número suficiente de cardeais liberais.

Por Damian Thompson, The Spectator, 21 de abril de 2017 | Tradução: FratresInUnum.com – Aliados do Papa Francisco estão dizendo que ele planeja seguir o exemplo de Bento XVI e se aposentar. Todavia, ele só o fará uma vez que tiver designado um número suficiente de cardeais liberais para garantir que o próximo conclave não eleja um conservador que interpretará a doutrina católica de maneira mais estrita do que ele.

cover_11032017_landscapeIsso, ao menos, é o que os aliados do Papa vêm contando a colegas — alegando terem ouvido do próprio pontífice (Francisco mesmo é um notório tagarela e igualmente o são alguns dos cardeais que lhe são próximos).

O Papa, agora com 80 anos, aparentemente quer realizar mais três consistórios nos quais concederá o chapéu vermelho a bispos que compartilham de sua visão de reforma (o que quer que isso seja: os detalhes ainda são incompletos, já há quatro anos),

Ele poderia partir em dois ou três anos, levantando a possibilidade surreal de que teremos três papas e ex-papas vivos (Bento XVI parecia bastante saudável quando comemorou seus 90 anos no último final de semana).

 

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24 abril, 2017

Interdito sobre o grão-mestre. O Papa o proíbe de pôr os pés em Roma.

Por Sandro Magister, 18 de abril de 2017 | Tradução: FratresInUnum.com: Foi convocado para o dia 29 de abril, em Roma, o Conselho Pleno de Estado entre os Cavaleiros Professos, o órgão que segundo norma de estatuto elegerá o novo Grão-Mestre da Ordem de Malta.

Como é de conhecimento público, o Grão-Mestre anterior, o inglês Fra ‘Matthew Festing, renunciou no dia 24 de janeiro, entregando nas mãos do Papa Francisco a sua demissão, em obediência à sua ordem.

Desde então, o governo supremo da Ordem está sob suplência do Lugar-tenente temporário, o Grão-Comendador Fra ‘Ludwig Hoffmann von Rumerstein.

No entanto, desde o dia 4 de fevereiro, o Papa Francisco também sobrepôs à Ordem um delegado especial de sua própria escolha e “porta-voz exclusivo”, dotado, de fato, com plenos poderes, na pessoa do Arcebispo Angelo Becciu, vice-secretário de Estado.

A carta a seguir é uma prova clara do exercício desses plenos poderes.

Em nome do Papa, Becciu proíbe o ex-Grão-Mestre Festing de participar na eleição de seu sucessor, e não apenas isso! Também o proibiu de pôr os pés em Roma por ocasião da eleição.

Aqui está a tradução completa da carta enviada para Festing no Sábado de Páscoa.

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O Delegado Especial

Junto à Ordem Soberana Militar e Hospitalária de

São João de Jerusalém

de Rodes e de Malta

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Cidade do Vaticano, 15 de abril 2017

Caro Venerado Irmão,

lettera3A partir do momento em que aceitei a tarefa que me foi confiada pelo Santo Padre como seu delegado junto à Ordem Soberana Militar e Hospitalária São João de Jerusalém, de Rodes e de Malta, uma das minhas prioridades é aprofundar-me no conhecimento da Ordem, seja através de reuniões pessoais com os seus membros, seja através de correspondência. Desta forma, eu tenho sido capaz de apreciar a vitalidade da Ordem, bem como a complexidade de seus problemas. O que também surgiu foi uma certa desorientação, acompanhada de profundo sofrimento devido à crise recente. No geral, no entanto, pode-se ver claramente o desejo de virar a página, trabalhando para reconciliar os diferentes elementos e realizar uma revisão das Constituições.

No entanto, tendo em vista o Conselho Pleno de Estado a ser realizado em 29 de abril, muitos expressaram o desejo de que o senhor não venha a Roma e não participe das sessões de votação. Sua presença reabriria as antigas feridas, só recentemente cicatrizadas, e impediria o evento de ocorrer em uma atmosfera de paz e harmonia recuperada.

Em face do exposto, e tendo partilhado a decisão com o Santo Padre, peço-lhe, na competência de Delegado Especial, que não esteja presente no Conselho Pleno de Estado e que não faça nenhuma viagem a Roma nesta ocasião. Peço-lhe isso como um ato de obediência, pelo qual o senhor reconhecerá, sem dúvida, o seu sacrifício como um gesto de doação para o bem da Ordem de Malta.

Estendo-lhe os meus melhores votos de Feliz Páscoa e asseguro-lhe uma recordação constante em minhas orações.

Sinceramente em Cristo,

Arcebispo Angelo Becciu

Delegado Especial

Fra ‘Matthew Festing

Burks, Tarsot

Hexham NE48 1LA

Northumberland

GRÃ-BRETANHA

18 abril, 2017

Cardeal Burke: Papa não me concedeu audiência.

Por LifeSiteNews, Roma, 11 de abril, 2017 | Tradução: FratresInUnum.com – O Cardeal Raymond Burke revelou em uma nova entrevista que ele solicitou uma audiência com o Papa Francisco, mas até agora não obteve resposta.

Cardeal Burke também reiterou que o Papa Francisco efetivamente o removeu de qualquer ato de governo na Soberana Ordem Militar de Malta, permanecendo, no entanto, como seu patrono.

O cardeal americano conhecido por sua ortodoxia abordou vários outros temas durante a longa entrevista com Gabriel Ariza, da InfoVaticana. Ele disse que os comentários feitos por parte do novo Superior dos Jesuítas lançam dúvidas sobre a validade das palavras de Cristo sobre o casamento e devem ser corrigidos. Cardeal Burke prosseguiu dizendo que o recente convite e pública recepção a um chefe de estado e seu parceiro homossexual também jamais deveria ter ocorrido.

Cardeal Burke:

À espera de uma palavra do Papa Francisco 

Exceto por ter cumprimentado o Papa Francisco em uma reunião do Colégio dos Cardeais e da Cúria Romana por ocasião do Natal, o Cardeal Burke disse que desde novembro não voltou a falar com o papa. Ariza, então, esclareceu que cardeal pediu ao Papa uma audiência.

“Mas eu não falei com ele, e ele não me concedeu uma audiência”, disse o Cardeal Burke. “Então, eu não sei o que ele está pensando.”

Alguns consideram as ações do papa contra o Cardeal Burke, relacionadas à controvérsia com os Cavaleiros de Malta, como uma retaliação pelos dubia submetidos a Francisco por causa de seu documento Amoris Laetitia.

Cardeal Burke reafirmou para Ariza que era necessário tornar público os dubia devido à confusão desenfreada na Igreja, sobre pontos essenciais pertinentes às questões morais do mal intrínseco, da reta disposição para receber a Sagrada Comunhão e a indissolubilidade do matrimônio.

Cardeal Burke mencionou que existem outros cardeais que apoiam os dubia, além dos quatro cardeais que os assinaram.

Não está claro se haverá uma correção formal e pública ao Papa Francisco, disse ele. Normalmente, antes de tomar esse passo, os cardeais que lançaram os dubia aproximam-se do papa para lhe dizer pessoalmente que o assunto é tão grave que eles, como líderes da Igreja, devem corrigi-lo.

“E eu confio que o Santo Padre responderá naquele momento,” prosseguiu o Cardeal Burke.

O assunto deve ser abordado com “grande respeito e delicadeza”, disse ele a Ariza. “E eu não quero sugerir uma data que de qualquer forma afetaria negativamente o modo de se lidar com o assunto ou que demonstrasse desrespeito pelas partes envolvidas.”

Problemas com os Cavaleiros de Malta

Ao ser indagado por Ariza sobre a natureza de seu papel junto aos Cavaleiros de Malta, após o Papa Francisco ter nomeado o arcebispo Giovanni Angelo Becciu como delegado especial do Vaticano para a Ordem em fevereiro, o Cardeal Burke respondeu: “Eu não tenho nenhum papel no momento. Eu tenho um título, mas não tenho nenhuma função”.

O jornalista primeiramente havia perguntado ao cardeal se a crise na Ordem de Malta havia acabado. Cardeal Burke disse que era uma pergunta difícil de responder.

“No momento, estou completamente removido de qualquer envolvimento com a Ordem de Malta”, disse. “Se por um lado eu mantenho o título de Cardeal Patrono, por outro lado o papa deixou claro que a única pessoa que pode tratar das questões da Ordem de Malta em nome do Santo Padre é o arcebispo Becciu. Então, eu não sei. “

A mais antiga ordem de cavalaria do mundo tornou-se o centro de turbulência durante os últimos meses envolvendo a  identidade e soberania da Ordem. A controvérsia girou em torno do envolvimento do grão-chanceler Albrecht von Boeselager numa distribuição de preservativos através de uma Obra de caridade da Ordem e subsequente violação de sua promessa de obediência, ao recusar-se a renunciar quando foi solicitado.

Também foram levantadas questões sobre o envolvimento de alguns cavaleiros com a Maçonaria, e um potencial conflito de interesses envolvendo membros de uma comissão do Vaticano nomeada para investigar a Ordem, além de uma grande doação feita aos Cavaleiros de Malta.

Cardeal Burke confirmou na entrevista que o Papa Francisco já havia pedido a ele para expulsar qualquer maçom de dentro dos Cavaleiros de Malta.

No entanto, em um movimento sem precedentes e controverso, o Papa Francisco assumiu a Ordem Soberana, pediu a renúncia do Grão-Mestre e reinstalou Von Boeselager, além de designar um delegado especial, eliminando efetivamente o papel do Cardeal Burke como Patrono.

Alguma coisa não está certa.

Cardeal Burke disse a Ariza que, no tocante à desordem dentro dos Cavaleiros de Malta, alguns pontos específicos precisam ser esclarecidos.

“Porque qualquer pessoa com bom senso percebe que há algo muito estranho acontecendo”, disse ele. “Em relação a esta grande doação, uma parte da qual foi deixada à Ordem de Malta, não há conhecimento claro sobre quem é o doador, qual é a natureza exata da doação nem como está sendo administrada, e isso não está certo. Essas coisas têm que ficar claras”.

Cardeal Burke prosseguiu dizendo achar muito estranho que as três pessoas diretamente envolvidas na doação feita à Ordem estivessem no chamado “grupo” que estava investigando a demissão do grão-chanceler e fazendo recomendações para que ele fosse reintegrado.

E “me parece estranho”, o Cardeal Burke sugeriu, “que pouco depois o irmão de Von Boeselager foi nomeado para a Comissão de Controle do Banco do Vaticano”.

“O senhor ficou com as mãos atadas,”  disse Ariza ao Cardeal Burke, o qual o respondeu: “Sim. Eu respeito a ordem do Santo Padre e não tenho nada para fazer na Ordem agora”.

O cardeal mencionou à InfoVaticana que ele não sabia dizer se sua remoção como Cardeal Patrono foi parte de uma crise armada dentro dos Cavaleiros de Malta. “Certamente, uma coisa é clara, e é que o restabelecimento do grão-chanceler era o objetivo principal”, disse ele.

Totalmente incorreto

Cardeal Burke abordou os recentes comentários feitos pelo novo Superior Geral dos Jesuítas, Padre Arturo Sosa Abascal, de que as palavras de Jesus contra o divórcio eram ‘relativas’ e sujeitas a ‘interpretação’.

“Isso é completamente errado”, Cardeal Burke afirmou. “Na verdade, acho incrível que ele possa fazer esse tipo de declarações. Elas também precisam ser corrigidas “.

O chefe dos jesuítas argumentou que as palavras de Cristo “devem ser contextualizadas”, porque “ninguém tinha um gravador para gravar as Suas palavras.” O Cardeal Burke chamou isso de  “irracional”.

“E de pensar que as palavras nos Evangelhos, que são palavras que, depois de séculos de estudos, foram compreendidas como sendo as palavras diretas de Nosso Senhor, agora já não são mais as palavras de Nosso Senhor porque não foram gravadas,” disse ele. “Eu não consigo entender isso.”

“É um erro grave que precisa ser corrigido”, continuou o cardeal, e pela Congregação para a Doutrina da Fé, “órgão do Papa para salvaguardar a verdade da fé e da moral”, ela pode fazer a correção.

A impressão errada

Cardeal Burke também criticou as boas-vindas recentemente dadas pelo Vaticano ao primeiro-ministro do Luxemburgo, Xavier Bettel, com seu parceiro homossexual por ocasião do 60º aniversário da assinatura do Tratado de Roma.

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Vaticano: Papa Francisco se reúne com primeiro-ministro homossexual do Luxemburgo, Xavier Bettel.

Fotos foram publicadas na mídia mostrando o casal homossexual sendo recepcionado com boas-vindas. Bettel twittou depois: “Foi um grande prazer e honra para mim e Gauthier sermos recebidos pelo líder da Igreja Católica.”

“Eu acho que algo tem que ser feito para resolver a imagem pública que é promovida por tais atos”, disse o Cardeal Burke. “No passado, a Santa Sé, simplesmente, de uma forma muito discreta e respeitosa, recusava-se a permitir uma coisa dessas.”

Tais exibições enviam uma mensagem errada, disse ele.

“Nós temos que retornar ao que era porque ao permitir abertamente esse tipo de coisa, se passa uma impressão muito forte que agora a Santa Sé aprova tais situações”, disse o Cardeal Burke. “Então isso tem que ficar claro.”

Da mesma forma, o cardeal apontou para o fato do Vaticano ter permitido o mais radical promotor do controle populacional Paul Ehrlich de falar em uma conferência sobre extinção biológica. Ehrlich fez uma apresentação em fevereiro a convite do chanceler da Pontifícia Academia das Ciências Sociais, Dom Marcelo Sanchez Sorondo

Ehrlich é um dos muitos indivíduos convidados oficialmente a se apresentar no Vaticano e que infringem o ensinamento da Igreja. O cardeal disse que esse convite para falar é “um excelente exemplo” da Santa Sé enviando a mensagem errada.

“Eu acho também que os termos para escolher aqueles que são oficialmente convidados para vir e falar em conferências na Santa Sé devem ser claros”, disse o Cardeal Burke. “Eu não entendo como as pessoas que se opõem abertamente à Igreja e seus ensinamentos podem ser convidados para este tipo de conferência.”

27 março, 2017

Podem as recentes declarações do Cardeal Müller encerrar os debates a respeito da Amoris Laetitia?

Por Mathias von Gersdorff

A crítica do Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé aos quatro Cardeais que se dirigiram ao Papa Francisco com perguntas sobre a Exortação Apostólica Amoris Laetitia levou muitos a perguntarem se não estaria assim terminada a discussão a respeito do documento papal sobre a família.

Foi o que escreveu, por exemplo, Guido Horst, jornalista do Tagespost, em 9 de janeiro de 2017: “Também o debate público sobre as dubia, as dúvidas dos quatro cardeais, está terminado. Nos círculos de especialistas ele poderá continuar,  porém não serve mais como elemento de motivação.”

O tempo mostrará se essa predição está correta, ou não. Contudo, dúvidas a seu respeito são pertinentes. Por duas razoes:

Primeiro: Entrementes, algumas dioceses – e até muitas conferências episcopais – estão autorizando a comunhão para divorciados recasados, em casos individuais. Isso deveria dar-se, pelo menos teoricamente, após uma verificação cuidadosa e de um caminho penitencial. Abstraindo-se de que os bispos que assim agem estão produzindo fatos que somente poderão ser justificados através de grandes distorções na interpretação da Amoris Laetitia, essas medidas estão muito aquém daquilo que o campo dos progressistas almeja.

Antes dos dois Sínodos realizados nos outonos de 2014 e 2015, estava claro que o progressismo visava a uma total demolição da moral sexual católica. O inicio dessa demolição se daria com a admissão dos divorciados recasados, porém pretendia-se muito mais: a aceitação das parcerias homossexuais, a indiferença moral face aos preservativos, a aceitação das uniões irregulares etc.

Quanto aos divorciados recasados, eles deveriam, em via de regra, ser autorizados a receber a Comunhão, e não apenas caso por caso e depois de uma verificação acurada.

Assim, não é de admirar que as primeiras vozes críticas se façam ouvir e lamentem, a partir de seu ponto de vista, o esquálido resultado dos Sínodos. Por exemplo, a do alemão Joachim Frank, presidente da Associação de Publicitários Católicos da Alemanha (GKPD).

Segundo: A moral sexual católica é um edifício, por assim dizer, moldado de uma peça única. Dele não se podem retirar pedras sem que a construção desmorone.

Uma interpretação liberal da Amoris Laetitia conduzirá assim, forçosamente, a uma situação que deixa a moral sexual católica parecer contraditória. Por exemplo, por que os divorciados recasados estão autorizados a receber a comunhão e os que vivem em uniões livres não?  Esses últimos não estão sequer em estado de adultério.

Os progressistas e a mídia que lhes é simpática vão cuidar para que as exceções (restritivas) aos divorciados recasados sejam cada vez mais ampliadas. Mais cedo ou mais tarde serão admitidos à comunhão não somente eles, mas também outras pessoas que não seguem a moral sexual ensinada pela Igreja.

Isso levará a um imenso número de comunhões sacrílegas e ao esvaziamento da moral sexual católica.

A admissão dos divorciados recasados afeta, ademais, três sacramentos: o do matrimônio, o da penitência (confissão) e o da eucaristia. A compreensão de cada um desses três sacramentos proíbe a comunhão para pessoas que vivem em estado de pecado grave (como é o adultério).

Em resumo: se com base na Amoris Laetitia tiver início um processo de dissolução da moral sexual católica, a Igreja estará ameaçada em seus fundamentos e a Fé católica correrá grave risco.

Não é de admitir que os fiéis católicos aceitem isso pura e simplesmente.

As dúbia dos Cardeais Burke, Brandmüller, Meisner e Cafarra sobre a Amoris Laetitia são no fundo uma tentativa de afastar em seu nascedouro o perigo acima descrito, percebido possivelmente apenas por poucos. Mas, cedo ou tarde, será preciso que surja uma forte reação contra este processo de desagregação da moral sexual católica, pois do contrário a existência da Igreja Católica estaria em perigo. (Tradução do original alemão por Renato Murta de Vasconcelos).

17 março, 2017

Cerimônia anglicana na Basílica de São Pedro causa perplexidade.

Por FratresInUnum.com: O anúncio feito há poucas semanas, pouquíssimo divulgado, de que um grupo de anglicanos teria o uso do altar da cátedra, na Basílica de São Pedro, não foi levado a sério. Não havia confirmação oficial da Santa Sé, nem divulgação nos meios de comunicação considerados confiáveis.

No entanto, na segunda-feira, 13 março, como noticia o site Magnificat Media, “um grupo de Anglicanos fez uma apresentação da Evensong (o equivalente às Vésperas Católicas), na Basílica de São Pedro. David Moxon, o equivalente a um arcebispo anglicano que dirige o Centro Anglicano de Roma, presidiu o evento sacrílego. Papa Francisco não estava presente”.

Continua, atônito, o site tradicionalista: “Que esta cerimônia blasfema tenha sido realizada na Basílica de São Pedro, a sede do Bispo de Roma, o coração da Cidade Eterna, torna tudo ainda mais ímpio. É de se perguntar a que religião exatamente pertencem os Bispos e Cardeais que participaram dessa liturgia. Certamente não é a mesma religião de São Paulo que na Grécia disputou com não católicos. Certamente não é a religião de Santo Agostinho, que debateu com os Donatistas. E mais definitivamente não é a religião do Concílio de Trento, que anatematizou aqueles que rejeitam o Ofício Petrino”.

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Tweet do Centro Anglicano de Roma anuncia celebração.

A realização da cerimônia deixou perplexos muitos católicos, considerando ainda que, segundo testemunhas, houve participação de membros do Pontifício Conselho para a Unidade dos Cristãos e do Secretário da Congregação para o Culto Divino. “Parece verdade”, reagiu à publicação do Centro Anglicano de Roma, no Twitter, um fiel resignado. O tweet (imagem acima) que dizia “Uma Igreja! Uma fé! Um Senhor! Evensong no coração da Igreja Católica”, assim foi respondido na rede social por nossa colaboradora Gercione Lima: “O que você quer dizer? Tem a intenção de renunciar à heresia anglicana e aderir à Fé Católica?”.

Rezemos para que assim seja!

Também o importante vaticanista Marco Tosatti repercutiu o acontecimento. “Ontem à tarde, pouco depois do momento em que, na Basílica de São Pedro foram celebradas as Vésperas com os expoentes da Igreja Anglicana, algumas dezenas de pessoas recitavam um rosário de reparação pela unidade da Igreja na Praça de São Pedro. Ao mesmo tempo, através de compartilhamento em redes, muito mais gente se unia em oração, cada um de onde se encontrava”.

Relata o vaticanista que um grupo que rezava em reparação na Praça de São Pedro era “bastante heterogêneo”, “composto por pessoas que circulam nos ambientes Ecclesia Dei, na Fraternidade São Pio X, bem como pessoas de inspirações diferentes. A Fraternidade São Pio X oficialmente aderiu ao evento através da organização de uma missa e depois pela recitação do rosário liderada por um de seus sacerdotes. É interessante essa participação, se considerarmos o que tem sido dito sobre um possível acordo entre a Fraternidade e a Santa Sé, o qual seria iminente”.

7 março, 2017

Arcebispo do Vaticano aparece em mural homoerótico encomendado por ele mesmo.

Por Matthew Cullinan Hoffman, LifeSiteNews, 3 de março de 2017 | Tradução: FratresInUnum.com: O arcebispo que agora está no comando da Pontifícia Academia para a Vida pagou a um artista homossexual para pintar um mural homoerótico blasfemo em sua igreja-catedral em 2007. No mural está incluída uma imagem do próprio arcebispo.

O arcebispo Vincenzo Paglia também foi recentemente nomeado pelo Papa Francisco como presidente do Pontifício Instituto João Paulo II de Estudos sobre Casamento e Família.

O enorme mural ainda cobre o lado oposto da fachada da igreja catedral da Diocese de Terni-Narni-Amelia. Ele retrata Jesus puxando duas redes para o céu cheia de homossexuais nus e semi-nus, transexuais, prostitutas e traficantes de drogas, misturados entre si em abraços eróticos.

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O então bispo Vincenzo Paglia aparece em uma rede “erótica” abraçado a outro homem semi-nu.

Incluído em uma das redes está Dom Paglia, que era então bispo diocesano. A imagem do Salvador foi pintada usando como modelo o rosto de um cabeleireiro local e suas partes íntimas podem ser vistas através de suas vestes translúcidas.

De acordo com o artista, um argentino homossexual chamado Ricardo Cinalli, conhecido por suas pinturas de corpos masculinos, Dom Paglia o selecionou em uma lista onde constavam dez artistas internacionalmente conhecidos, com a tarefa específica de pintar a parede interna da fachada. Dom Paglia, juntamente com Padre Fabio Leonardis, supervisionou cada detalhe da obra de Cinalli. De acordo com Cinalli, que o diz em tom de aprovação, Dom Paglia nunca lhe perguntou se ele acreditava ou não na doutrina cristã da salvação.

“Trabalhar com ele foi humana e profissionalmente fantástico”, disse Cinalli ao jornal italiano La Repubblica, em março do ano passado. “Nunca, em quatro meses, durante os quais nos víamos quase três vezes por semana, Paglia jamais me perguntou se eu acreditava ou não na salvação. Ele nunca me colocou numa posição desconfortável”.

“Não houve nenhum detalhe que fosse feito livremente, por acaso”, acrescentou Cinalli. “Tudo foi analisado. Tudo foi discutido. Nunca me permitiram trabalhar sozinho.

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O artista Ricadro Cinalli afirma que os personagens nas redes foram pintados com a intenção de serem eróticos.

Cinalli admite ao jornal La Repubblica que as pessoas nuas nas redes são destinadas a serem “eróticas”, embora Dom Paglia tenha traçado um limite quando Cinalli propôs mostrar as pessoas realmente copulando.

“Neste caso, não havia – neste sentido – uma intenção sexual, mas sim erótica”, disse Cinalli. “Eu acho que o aspecto erótico é o mais perceptível entre as pessoas que estão dentro das redes”. Ele acrescentou mais tarde: “A única coisa que eles não me permitiram inserir foi o coito explícito entre duas pessoas dentro desta rede, onde tudo é permitido”.

A razão pela qual ele não foi autorizado a ser tão explícito, diz Cinalli, é que sua pintura já havia feito o suficiente para demonstrar a noção de que o homem tem “liberdade” nesta vida, e até mesmo na próxima, para se engajar em qualquer comportamento sexual que que julgar apropriado. “O bispo e o Padre Leonardis… me disseram que não achavam necessário chegar a esse extremo para demonstrar a liberdade que o homem, na realidade, já tem neste mundo e no próximo”.

A Igreja Católica condena todas as formas de comportamento sexual fora da relação sexual natural entre um homem e uma mulher unidos no casamento, incluindo a sodomia homossexual, e adverte que aqueles que morrem sem o arrependimento de tais pecados sofrerão a condenação eterna. A doutrina, que é encontrada no Antigo e Novo Testamentos da Bíblia, está refletida no Catecismo da Igreja Católica, que chama os atos homossexuais de “intrinsecamente desordenados” e acrescenta: “Em nenhuma circunstância podem ser aprovados”.

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Pintura na catedral representa Jesus levantando redes cheias de prostitutas, homossexuais, e outros personagens lascivos, para o céu.

Sob a supervisão de Paglia, Cinalli pintou o próprio arcebispo em uma das redes “eróticas”, semi-nu e abraçado a um homem de barba envolto apenas em um lençol solto. Ele também pintou o Padre Leonardis, então chefe do Escritório de Patrimônio Cultural, como um homem nu e musculoso, com uma tatuagem da flecha do cupido atravessando um coração contendo a palavra “amor”, enredado com outros em uma das redes “eróticas”.

Cinalli disse a La Repubblica que Padre Fabio, que morreu logo após a pintura ter sido concluída, era um homem ainda na casa dos cinquenta anos muito “aberto”, mas se recusou a dizer se ele era um homossexual.

“Padre Fabio era completamente aberto”, disse Cinalli. “Não cabe a  mim dizer se ele era homossexual ou não – não é importante, mas sua abertura foi absoluta”.

Cinalli explicou ao jornal La Repubblica que ele usou como modelo para o rosto de Jesus, o rosto de um cabeleireiro local porque as pessoas vêem Cristo de uma maneira que é “muito masculina”.

Cinalli admite que sua obra não foi bem recebida por muitos na Diocese de Terni-Narni-Amelia, que ficaram tão indignados com a obra, que Cinalli chegou a pensar que ela poderia ser destruída depois da morte de Padre Fabio. No entanto, Dom Paglia resistiu a tais pressões até deixar a diocese em 2012, e seu sucessor também resolveu deixar o mural no lugar.

LifeSite pediu à assessoria do Arcebispo Paglia para comentar, mas nenhuma resposta foi recebida até agora.

Vincenzo Paglia encarregado das questões de vida e família pelo Vaticano

Embora o mural tenha gerado controvérsia na diocese de Paglia, ele passou despercebido pelo radar da mídia nacional italiana, e a promoção de Paglia a arcebispo, bem como sua nomeação para presidente do Conselho Pontifício para a Família em 2012, não geraram nenhuma controvérsia. Em pouco tempo, porém, ele começou a dar pistas de suas atitudes liberais em relação à moralidade sexual, alegando já em 2013 que a Igreja Católica favorece “proteções legais e de herança para pessoas que vivem juntas, mas não são casadas” e se opõe a enquadrar a homossexualidade como um crime. Quando seus comentários receberam uma cobertura negativa da mídia Católica, ele afirmou que suas intenções foram “deturpadas”, mas não se retratou das suas declarações.

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Dom Vincenzo Paglia.

No início de 2015, sob a direção do Arcebispo Paglia, o Pontifício Conselho para a Família organizou uma série de palestras que levantaram a possibilidade de se dar a Sagrada Comunhão a pessoas que vivem em adultério mediante um segundo casamentos civil, após algum período de penitência pública. As palestras foram então publicadas em um livro, ironicamente chamado de “Família e Igreja: um vínculo indissolúvel”.

Em julho de 2016, ainda sob a direção do Arcebispo Paglia, o Pontifício Conselho para a Família publicou um novo programa de educação sexual que inclui imagens lascivas e pornográficas tão perturbadoras que um psicólogo sugeriu que o arcebispo fosse avaliado por uma comissão de revisão, de acordo com as normas da Carta de Dallas, que se destina a proteger crianças de abuso sexual.

“Minha reação profissional imediata foi de que essa abordagem obscena ou pornográfica abusa psicologicamente e espiritualmente dos jovens”, disse o Dr. Richard Fitzgibbons, um psiquiatra que foi consultor da Congregação para o Clero no Vaticano e que atuou como professor adjunto no Instituto João Paulo II de Estudos sobre Casamento e Família na Universidade Católica da América. “Como profissional que tratou tanto de sacerdotes como vítimas da crise do abuso sexual na Igreja, o que eu achei particularmente preocupante foi que as imagens pornográficas neste programa são semelhantes às usadas por predadores sexuais adultos de adolescentes”.

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Padre Fabio Leonardis, hoje falecido, aparece em uma das redes “eróticas” totalmente nu.

Em agosto do ano passado, o Papa Francisco transferiu Dom Paglia do Pontifício Conselho para a Família para a presidência da Pontifícia Academia para a Vida, bem como do Pontifício Instituto João Paulo II de Estudos sobre Casamento e Família, duas organizações fundadas pelo Papa São João Paulo II para defender a santidade da vida humana e os valores familiares. Logo se tornou evidente que a Academia estava sendo radicalmente transformada, quando novos estatutos que já não exigiam que os membros assinassem uma declaração de fidelidade aos ensinamentos perenes da Igreja Católica sobre o direito à vida, foram sancionados. Em 17 de fevereiro, foi confirmado que todos os membros associados à Academia tinham sido demitidos, deixando apenas Paglia e sua equipe no topo de uma organização vazia e com outros propósitos.

No mesmo dia, o Arcebispo Paglia fez um discurso elogiando o recém-falecido fundador do Partido Radical da Itália, Marco Pannella, um bissexual promíscuo cuja carreira foi largamente vivida atacando os valores da fé católica e da própria Igreja Católica. Apesar de Pannella ter lutado vigorosamente pela legalização do aborto, do “casamento” homossexual, dos “direitos” dos transexuais, do divórcio e uniões livres, além de procurar dissolver a concordata entre a Igreja e o Estado Italiano, Paglia o chamou de “homem de grande espiritualidade”, e disse que sua morte foi “uma grande perda, não só para o povo do Partido Radical, mas também para o nosso país”.

“Sua história mostra como um homem pode ajudar a história a avançar na defesa da dignidade de cada pessoa, especialmente aqueles que são marginalizados”, disse o Arcebispo Paglia. “Tenho grande prazer em dizer que Marco era verdadeiramente um homem espiritual que lutou e esperou contra toda a esperança.” Paglia concluiu: “Devemos receber e manter a sua (Panella) vitalidade”.

Veja o vídeo La Repubblica com a entrevista com Ricardo Cinalli (em espanhol e italiano) e que contém imagens mais detalhadas do mural.

2 março, 2017

Explosivo – Antonio Socci: Cardeais da Cúria que elegeram Francisco querem convencê-lo a renunciar.

Estamos à beira do abismo. E há quem pense (depois de o terem eleito) em substituir o Papa demolidor. Eis aqui com qual cardeal!

Por Antonio Socci, Libero28 de fevereiro de 2017 | Tradução: FratresInUnum.comDias atrás, o Der Spiegel reportava as palavras do Papa Bergoglio a alguns de seus fidelíssimos assessores: “É possível que eu entre para a história como aquele que dividiu a Igreja Católica“. E é por isso que seu amigo Eugenio Scalfari o considera como o maior “revolucionário”.

20150918cover1800-x-2400Há algum tempo, uma capa da revista Newsweek se perguntava se o Papa é católico ( “É o papa católico?”). E uma outra do Spectator o representava sentado em uma bola de demolição sob o título “Papa vs. Igreja” (o Papa contra a Igreja). Ambas retratavam um sentimento generalizado.

Com efeito, há exatos quatro anos desde a “renúncia” de Bento XVI e da erupção de Bergoglio, a situação da Igreja Católica havia se tornado explosiva, talvez estivesse mesmo no limite de um cisma mais catastrófico do que aquele da época de Lutero (que hoje está reabilitado na igreja bergogliana).

Picaretadas

A confusão é enorme porque ocorrem picaretadas até da parte de seus assessores mais próximos.

Nos últimos dias, até o novo Superior Geral dos Jesuítas (escolhido a dedo pelo próprio Bergoglio) causou incômodo pelo que disse sobre o Evangelho e sobre Jesus. Assim como o novo presidente da Academia Pontifícia para a Vida, nomeado pelo mesmo Bergoglio, que fez uma exaltação incondicional de Marco Pannella chegando a dizer: “Espero que o espírito de Marco nos ajude a viver na mesma direção”.

Na Igreja, está acontecendo de tudo. Os expoentes máximos da ideologia laicista sobre a vida estão sendo convidados com todas as honras para um simpósio no Vaticano, os cardeais que estão pedindo ao Papa para esclarecer ou corrigir os pontos errôneos da Amoris Laetitia são mal tratados. Além disso, estão para instituir as “mulheres diaconisas”, podendo mesmo chegar ao ponto de meterem a mão na liturgia para cunharem uma “missa ecumênica” com os protestantes, o que viria a marcar um ponto de não retorno.

Dias atrás, uma “bispa” protestante do Norte da Europa – com a intenção de fazer-lhe um elogio – declarou que Bergoglio se parece cada vez mais com um criptoprotestante (“verklappter protestant”).

Muitos fiéis Católicos temem que seja verdade. Por causa disso, grande parte dos cardeais que votaram nele estão profundamente preocupados e o partido curial que organizou a sua eleição e que o apoiou até agora, sem jamais dissociar-se, está cultivando a ideia (na minha opinião irrealista) de uma “persuasão moral” para convencê-lo a se aposentar. Eles já teriam inclusive o nome do homem que deverá substituí-lo para “consertar” a Igreja fragmentada.

Mas, para entender melhor o que está acontecendo, é preciso fazer uma reconstrução de como a Igreja veio parar nessa situação, talvez a mais grave dos seus 2000 anos de história.

Império Americano

É necessário partirmos do contexto geopolítico dos anos noventa, quando os Estados Unidos, considerando-se como a única potência mundial importante ainda remanescente, começou a conceber o projeto de um mundo unipolar “para um Novo Século Americano”. Fukujama anunciou o “fim da história”, isto é, como um planeta totalmente americanizado. Uma loucura, mas a última utopia ideológica do século XX.

A suposição era que – varrida do bloco soviético – a Rússia democrática, prostrada e humilhada pela americanização selvagem sob o regime de Yeltsin, não poderia jamais se recuperar, restando apenas como uma província atrasada do antigo império soviético.

Então, veio a grande crise de 2007-2008, enquanto na Rússia um novo líder, Vladimir Putin, levava o maior país do mundo a recuperar sua identidade espiritual, uma verdadeira independência nacional (econômica) e um papel internacional.

Assim, entre 2010-2016, a administração Obama/Clinton (com seu sistema anexo de poder global) desenvolveu uma estratégia global pesada destinada a isolar a nova Rússia de Putin e neutralizá-la.

Os dois pilares geopolíticos do império Obama/Clinton eram – na Europa – os fiéis vassalos alemãos liderados por Merkel e, no Oriente Médio, a Arábia Saudita.

Os parafusos

Tendo em mente  eliminar primeiramente a presença russa no Mediterrâneo e no Oriente Médio, os EUA lançaram um plano para a eliminação dos dois regimes desta área que eram antigos aliados da Rússia, ou seja, a Líbia e a Síria lideradas por Kadafi e Assad.

A ideia americana era deixar a região sob a hegemonia da Arábia Saudita, embora pareça estranho o fato de Obama ter subestimado o risco representado pelos protagonistas da chamada Irmandade Muçulmana na dita “Primavera Árabe”.

Até mesmo na Europa fomos testemunhas de outros transtornos. Em 2011, o governo italiano liderado por Berlusconi foi isolado da União Européia franco-alemã de Merkel e Sarkozy, para cair em seguida sob ataque e se ver forçado a renunciar. (Lembrem-se que Berlusconi era naquele tempo o único chefe europeu de governo com o qual Putin tinha um relacionamento cordial).

Depois vimos a desestabilização direta da área russa com o fogo de guerra na Ucrânia, fornecendo o pretexto ideal para a OTAN trazer toda a Europa do Leste, até as fronteiras da Rússia, sob o seu protetorado. Chegando mesmo ao ponto de fazer manobras militares perigosas na fronteira, criando um clima de guerra fria.

Por outro lado, é já de algum tempo que grande parte da mídia ocidental está fortemente concentrada no ataque contra Putin, uma criminalização curiosa, se considerarmos o que os americanos – com as suas “guerras humanitárias” – estavam fazendo.

Colonização ideológica

Enquanto isso, Obama – no seu segundo discurso de posse – lançava também uma ofensiva ideológica que visa impor ao mundo uma nova antropologia liberal e relativista (casamento gay, ideologia de gênero…etc).

É um projeto global que tenta desconstruir (além da identidade sexual) a identidade nacional, cultural e religiosa através do fenômeno da imigração de massa.

O próprio Secretário Geral da ONU, Ban Ki-moon, exalta a imigração como uma nova fronteira do progresso contra a qual ninguém deve se opor. O fenômeno então explode: entre 2010-2016 há um vertiginoso aumento nas massas de migrantes que se dirigem para a Europa, primeiramente atravessando a Itália e a Grécia. Nesse meio tempo, o que acontece na Igreja? Desde 2010 nós assistimos uma pressão muito pesada, tanto interna como externamente, contra o pontificado de Bento XVI que, em fevereiro de 2013, “renuncia”.

Nesses últimos dias, alguns intelectuais católicos americanos pediram publicamente a Trump para abrir uma investigação para apurar – considerando alguns documentos divulgados pelo Wikileaks – se houve, entre 2012 e 2013, interferência americana para uma “mudança de regime”  também no Vaticano.

Mas vamos nos ater aos fatos públicos.

Caso Bergoglio

Em 2013, foi eleito papa Bergoglio que joga para escanteio o magistério dos papas anteriores, inconvenientes demais para a ideologia dominante (não mais princípios inegociáveis, nem raízes cristãs da Europa, nem o confronto viril com o Islã como no discurso de Regensburg). Bergoglio adere então à agenda Obama: viva a imigração em massa, abraça o Islã e o ambientalismo catastrófico. Mas, adere igualmente à agenda alemã, que vai no sentido de uma protestantização da Igreja Católica.

Com efeito, são dois os partidos que o elegeram: o partido progressista liderado pelos cardeais alemães (que estavam alinhados ao cardeal Martini e ao grupo de St. Gallen.) e o “partido da Cúria” que mal tolerava Bento XVI e queriam retomar o controle da Igreja.

E é esse último, que apoiou todo o pontificado de Bergoglio, que hoje pretende levar ao papado o atual secretário de Estado Pietro Parolin.

A motivação adotada é aquela de “recosturar” a Igreja para evitar um racha trágico. Há certamente uma preocupação séria por causa da confusão e da dissolução de hoje. Mas, muitos acreditam que a bússola deste partido foi sempre o poder eclesiástico, que hoje se encontra limitado pela “cúria paralela” criada na Casa Santa Marta.

Eles confiam no fato de que o próprio Bergoglio já havia falado no passado sobre uma sua possível renúncia e que em 2015 disse: “para todos os serviços na Igreja é conveniente que haja um prazo de expiração, não existem líderes vitalícios na vida da Igreja. Isso só acontece em alguns países onde existe ditadura“.

Portanto, estaria Bergoglio pronto a renunciar? Provavelmente eles estão enganando a si mesmos.

Antonio Socci

Do “Libero”, 28 de fevereiro de 2017

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27 janeiro, 2017

O Papa “comissaria” a Ordem de Malta. Agora se espera a punição para o Cardeal Burke.

Por Riccardo Cascioli, La Nuova Bussola Quotidiana, 26 de janeiro de 2017 | Tradução: FratresInUnum.com – A dura e extraordinária intervenção do Papa Francisco, que forçou a renúncia do Grão-Mestre Robert Matthew Festing, para logo em seguida, anunciar uma espécie de liquidação da Soberana Ordem Militar de Malta, parece ser apenas o início de um terremoto, quer seja na Igreja, quer seja no campo das relações internacionais.

Em jogo estão muitas questões importantes: a correspondência entre as atividades beneficentes e a doutrina da Igreja, bem como a independência de um Estado soberano, mas, antes de mais nada, o que parece cada vez mais evidente é que pelo tom de toda a celeuma, o objetivo mesmo é a cabeça do Cardeal Raymond L. Burke, que é o Cardeal Patrono da Ordem de Malta, uma figura que atua um pouco como “capelão” e um pouco como diplomata representando o Vaticano junto à Ordem. Burke está entre os cardeais que mais manifesta perplexidade diante de algumas escolhas e decisões do Papa Francisco e é um dos quatro signatários dos Dubia acerca da Amoris Laetitia. Não é de hoje que ele está na mira. Tanto é que sua própria nomeação como patrono da Ordem de Malta em novembro de 2014 já foi um rebaixamento do seu cargo como prefeito do Tribunal da Assinatura Apostólica.

Como é de conhecimento público, a crise teve início quando, em novembro passado, o Grão-Mestre Festing destituiu o chanceler Albrecht Freiherr von Boeselager, acusado de ter incentivado a distribuição de contraceptivos na África e Ásia no âmbito dos programas de desenvolvimento financiados pela Ordem. Boeselager negou as acusações, não aceitou a demissão e pediu a intervenção da Santa Sé, que da sua parte resolveu nomear uma comissão, encabeçada pelo arcebispo Silvano Tomasi, responsável por verificar como os eventos se sucederam. Em nome da Ordem de Malta, Festing declarou seu desejo de não colaborar com a comissão do Vaticano por considerá-la como uma interferência indevida nos assuntos internos de um órgão soberano. A resposta da Secretaria de Estado do Vaticano foi imediata, reivindicando a legitimidade da investigação, que seria apenas com a intenção de se por a par da situação, tomar conhecimento. Mas a queda de braço seguiu adiante (para aprofundar-se sobre detalhes dos eventos clique aqui) até a virada inédita de 24 de Janeiro.

Naquele final de tarde, o Papa Francisco convocou Festing e pediu sua demissão imediata, induzindo-o a escrever diante de sua presença a carta requerida. É claro que não sabemos todo o conteúdo do colóquio, mas a pressão moral deve ter sido fortíssima pra fazer Festing engolir o comunicado de alguns dias atrás onde ele defendia enfaticamente a soberania da Ordem. E também há rumores de que nessa carta de demissão, poderia haver referências ao papel ativo que o Cardeal Burke teria desempenhado na destituição de Boeselager.

Na verdade, desde que o caso explodiu, fontes bem próximas ao Papa Francisco insistem muito sobre uma suposta responsabilidade de Burke, o qual  teria ostentado um apoio inexistente do Papa à decisão de torpedear o Grão-chanceler. A partir deste ponto de vista, é interessante perceber, como exatamente sobre esse ponto têm insistido muito os cabeças do Vatican Insider, cujo trabalho de franco atiradores – como se sabe – é implacável. Em vão, Burke nega o fato e as circunstâncias, alegando que ele como Cardeal Patrono não tem voz nas decisões do Capítulo, que são fruto de procedimentos internos da Ordem. As acusações contra ele estão num contínuo crescimento, embora esteja claro que por trás do confronto na Ordem, há divisões que se arrastam há anos entre os diferentes grupos nacionais e que foram recentemente enriquecidas por uma disputa em torno de um legado de € 120.000.000 depositado em um Fundo na Suíça (clique aqui).

Em todo caso, ontem, 25 de janeiro, a Sala de Imprensa da Santa Sé – com um humorismo não-intencional – anunciou a aceitação da renúncia do Grão-Mestre Festing. Além do mais, divulgou a futura nomeação de um delegado pontifício chamado para governar a Ordem (confiada ao Grande Comendador nesse ínterim). Em outras palavras, a Ordem de Malta é considerada como  um “comissariado” da Santa Sé.

Esta é uma decisão sem precedentes, que causou grande confusão e terá repercussão internacional: a Ordem de Malta é de fato um Estado soberano, um Estado sem território, que também tem um embaixador junto à Santa Sé. Como bem observado pelo semanário britânico The Catholic Herald, a decisão do Papa equivale a uma anexação real, uma clara violação do direito internacional que, em última análise, ameaça até mesmo a independência da Santa Sé. Com um precedente deste tipo, como poderia a Santa Sé se defender legalmente se, por exemplo, um dia “o Governo italiano resolvesse ver a independência da Cidade do Vaticano como uma formalidade anacrônica”?

Enquanto isso, no presente, a decisão arrisca destruir a milenar atividade da Ordem de Malta que está presente em todo o mundo com “obras de misericórdia para os doentes, os necessitados e os sem pátria”, como ditado pela sua Constituição. A presença da Ordem de Malta em mais de cem países é garantida pela representação diplomática, que agora pode ser colocada sob discussão exatamente por causa desta perda de soberania.

Seria um dramático gol contra para a Igreja e seria verdadeiramente incompreensível se, em seguida, vier a ser confirmado que o objetivo de toda essa celeuma é a cabeça do Cardeal Burke. A insistência com a qual ele vem sendo acusado de ter feito do Papa um escudo para torpedear uma persona non grata – ignorando, no entanto, o fato de ele já ter negado isso  – indicaria a disposição para uma punição pesada (para um cardeal está entre as piores acusações). Ainda mais se for confirmada a “confissão” imposta ao Grão-Mestre Festing. Tudo isso nos leva a pensar que querem se aproveitar desta oportunidade para chegar àquela punição exemplar invocada por alguns prelados logo após a publicação dos Dubia que os cardeais haviam assinado: ou seja, a remoção do título de Cardeal.

De qualquer modo, a impressão é de que estamos só no início.

26 janeiro, 2017

O Vaticano destruiu a soberania da Ordem de Malta. E se a Itália resolver fazer o mesmo com o Vaticano?

Por Ed Condon, The Catholic Herald, 25 de janeiro de 2017 | Tradução: FratresInUnum.com: A cúria continua sendo um lugar onde panelinhas têm mais autoridade que a lei. E isso não cai nada bem. 

A coisa mais notável sobre a controvérsia envolvendo a Ordem de Malta não é que o fato de que o Grão-Mestre, Fra ‘Matthew Festing, tenha renunciado. Isso já é extraordinário o suficiente, especialmente, levando-se em conta que foi, ao que parece, a convite do Papa Francisco. Não, a característica mais surpreendente da história é o anúncio de hoje de que o Papa irá instalar um delegado apostólico para governar a Ordem. Com efeito, isso acaba por abolir a Ordem como entidade soberana. Segundo a lei internacional, o que estamos vendo é, efetivamente, a anexação de um país por outro.

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Fra’ Matthew Festing na tradicional audiência de ano novo da Ordem (Ordem de Malta).

Como se chegou a esta situação? De alguma forma, o pequeno grupo que se reuniu em torno do antigo Grão-chanceler, Albrecht Boeselager, conseguiu transformar uma questão de governo interno da Ordem em uma explosiva crise diplomática entre dois entes soberanos dos mais antigas e proeminentes do mundo ocidental.

A panelinha nunca teve o que se pudesse considerar um verdadeiro caso. Como já escrevi antes, não resta dúvida de que, em termos jurídicos, a Comissão foi estabelecida sob recomendação da Secretaria de Estado da Santa Sé para investigar a demissão de Boeselager, e tanto foi como continua sendo totalmente ilegítima.

Resta claro que Boeselager foi demitido após a sua recusa em demitir-se, de acordo com o processo legal aprovado pela Ordem. Foi então alegado que Fra ‘Festing “desafiou” Papa Francisco ao demitir Boeselager. Mas, qualquer opinião que o Papa possa ter expressado antes do evento, teria sido em uma carta sobre o assunto, muito comentada em boatos, e endereçada ao Cardeal Burke diretamente, o enviado da Santa Sé à Ordem. Essa carta não foi sequer formalmente confirmada como existente e muito menos vazada. Seu suposto conteúdo continua sendo a grande pergunta sem resposta no cerne de todo este caso.

Quanto ao que se pode deduzir dos vários comentários, o Papa, na verdade, não deu nenhuma indicação de que era contra a demissão de Boeselager. De fato, o Santo Padre parece profundamente preocupado com a gravidade das acusações contra Boeselager e até mesmo com a possibilidade de infiltração maçônica entre os membros e as atividades da Ordem. O fato de que o verdadeiro texto desta carta tenha permanecido totalmente confidencial fala alto sobre a discrição e respeito pelo Santo Padre, tanto da parte do Cardeal Patrono como do Grão-Mestre, ainda que ambos tenham sido acusados de exatamente o contrário.

A humildade e cortesia de Fra’ Festing são típicos do homem. Ele serviu a Ordem e ao Papa muito bem, com total devoção e respeito às obrigações da lei e da sua posição. E agora, ele foi forçado a deixar seu posto para poder cumprir o seu dever. No entanto Boeselager -que se recusou a obedecer a uma ordem direta de seu soberano- e seus aliados triunfaram.

Esses aliados empreenderam uma sórdida campanha com vazamento de cartas do departamento do Cardeal Parolin, que acabaram tendo o triste e óbvio fim de armarem uma cilada pública na qual Fra’ Festing é retratado como alguém que supostamente “desafiou” os desejos explícitos do Papa. Na verdade, ainda de acordo com o confuso e mutável cronograma construído por seus amigos, ficou claro que Boeselager foi demitido bem antes da aparente intervenção(e ainda ilegítima) do Cardeal Parolin.

As tristes e severas conseqüências dessa cadeia de eventos são consideráveis. A legitimidade internacional da Ordem de Malta está agora em ruínas, a sua integridade constitucional e posição diplomática agora parecem irreparáveis.

O anúncio de hoje de um delegado apostólico a ser nomeado pelos representantes do Papa, essencialmente, significa a revogação total da soberania da Ordem. No entanto, as consequências para a própria Santa Sé podem, a longo prazo, serem igualmente graves ou até mais severas. O desrespeito pelo relacionamento mutuamente soberano entre a Santa Sé e a Ordem estabelece um precedente no direito internacional, que permanecerá pairando sobre as negociações da Secretaria de Estado com outros governos como uma bomba que ainda não explodiu.

Se a Santa Sé pode tão descaradamente inserir-se no governo interno de uma outra entidade soberana, cuja legitimidade decorre de um acordo mútuo sob a lei internacional e que agora não tem nenhuma defesa legal, então, caso aconteça que um outro órgão soberano, digamos assim, o governo da República Italiana, resolva ver a Santa Sé como uma formalidade semelhantemente anacrônica, Cardeal Parolin deveria então se preparar para encarar as ações citadas de hoje como um precedente legítimo quando o IOR, comumente chamado o Banco do Vaticano, vir sua soberana independência sob renovada pressão por parte de outros países ou organismos internacionais. O Papa Bento XVI disse que “uma sociedade sem leis é uma sociedade sem direitos”. A nua desconsideração pela lei demonstrada nas últimas semanas semeou uma colheita amarga para o corpo diplomático da Santa Sé colher no futuro.

Para aqueles menos preocupados com os aspectos diplomáticos e legais dessa situação, existe uma verdade enfática que emergiu de tudo isso. Agora ficou claro que apesar de todas as grandes esperanças de reforma da cúria que acompanharam a eleição do Papa Francisco, o Vaticano permanece sendo um lugar onde panelinhas e redes pessoais têm mais autoridade que a lei, e onde vazamentos e difamação continuam a fazer parte do negócio de cada  dia do governo.

O próprio Papa, como ele já declarou muitas vezes, não é um advogado e nem alguém conhecido por ter muito interesse em leis. Aqueles na Cúria que o impulsionaram a tomar essa decisão, deliberadamente, serviram-se dele, do Ofício Petrino, da soberania internacional da Santa Sé e naturalmente dos homens e mulheres da Ordem de Malta, e de modo incrivelmente mal. Eu suspeito que agora não é mais uma questão de “se”, mas de “quando”, eles acabarão vindo a se arrepender.