Archive for ‘História da Igreja’

10 maio, 2018

“O Concílio de João XXIII” – Volume II da Trilogia “Revolução Litúrgica”, de Michael Davies, é publicado no Brasil.

Por FratresInUnum.com, 10 de maio de 2018

Acaba de ser lançado pela Editora Permanência o livro “O Concílio de João XXIII”, segundo da trilogia “Revolução Litúrgica”, do autor inglês Michael Davies (sobre o primeiro livro da série, confira aqui). Publicado originalmente em 1977, o livro foi revisado e expandido pelo autor pouco antes de seu falecimento, no ano de 2004.

Capa_ConcilioJXXIII_perspectiva.JPGNesse segundo livro, Davies documenta a estratégia utilizada, no Vaticano II, por um grupo de bispos e teólogos liberais para subverter o ensinamento católico, desde a mudança conseguida, logo no início do Concílio, em seu Regimento Interno para assim garantir a indicação de membros do grupo para posições de maior destaque nas comissões que elaboraram os textos conciliares, até a colocação de verdadeiras “bombas-relógio” nos documentos oficiais, isto é, passagens capazes de ser interpretadas em sentido modernista após o Concílio.

Também são demonstradas, com farta apresentação de fontes primárias e notável clareza e objetividade, as pressões protestantes sobre o Concílio (e como a Igreja foi levada a adotar uma política ecumênica de conciliação na qual a unidade é buscada à custa da verdade), a influência da imprensa e da maçonaria e a figura ambígua de Paulo VI à luz de sua afeição pela filosofia do Humanismo Integral.

Trata-se de um documento indispensável para a compreensão do Concílio e de seu desdobramento sobre a vida da Igreja, o que afeta cada católico nos dias de hoje, quer o saiba ou não.

O livro pode ser adquirido pela internet neste link: http://www.editorapermanencia.net/

3 setembro, 2014

O verdadeiro rosto de São Pio X.

Por Roberto de Mattei – Corrispondenza Romana | Tradução: Fratres in Unum.com – Cem anos após sua morte, a figura de São Pio X ergue-se, triste e majestosa, no firmamento da Igreja. A tristeza que vela o olhar do Papa Sarto nas suas últimas fotografias não deixa entrever apenas as catastróficas conseqüências da Primeira Guerra Mundial, iniciada três semanas antes de sua morte. O que sua alma parece pressagiar é uma tragédia, de porte ainda maior, das guerras e revoluções do século XX: a apostasia das nações e dos próprios homens da Igreja, no século que se seguiria. 

O principal inimigo que São Pio X haveria de enfrentar tinha um nome, com o qual o mesmo Pontífice o designou: modernismo. A luta implacável ao modernismo caracterizou indelevelmente o seu pontificado e constituiu um elemento de fundo da sua santidade. “A lucidez e a firmeza com que Pio X conduziu a vitoriosa luta contra os erros do modernismo – afirmou Pio XII no discurso de canonização do Papa Sarto – atestam em que heroico grau a virtude da fé ardia em seu coração de santo (…)”. 

Ao modernismo, que se propunha “uma apostasia universal da fé e da disciplina da Igreja”, São Pio X opunha uma autêntica reforma, que tinha seu ponto principal na proteção e transmissão da verdade católica. A encíclica Pascendi (1907), com a qual ele fulminou os erros do modernismo, é o documento teológico e filosófico mais importante produzido pela Igreja no século XX. Mas São Pio X não se limitou a combater o mal nas ideias, como se este fosse dissociado da História. Ele queria golpear os portadores históricos dos erros aplicando censuras eclesiásticas, exercendo vigilância sobre os seminários e as universidades pontifícias, impondo a todos os sacerdotes o juramento antimodernista. 

Esta coerência entre a doutrina e a prática pontifícia suscitou violentos ataques, provenientes dos ambientes cripto-modernistas. Quando Pio XII promoveu sua beatificação (1951) e sua canonização (1954), o Papa Sarto foi definido pelos opositores como estranho aos fermentos renovadores de seu tempo, como o culpado por ter reprimido o modernismo com métodos brutais e policialescos. Pio XII confiou a Mons. Ferdinando Antonelli, futuro cardeal, a redação de uma Disquisitio histórica dedicada a desmontar as acusações contra seu predecessor com base em testemunhos e documentos. Mas essas acusações ressurgem hoje até mesmo na “celebração” que o “Osservatore Romano” dedicou a São Pio X, em 20 de agosto, aniversário de sua morte, através da pena de Carlo Fantappié.

Em sua recensão, no jornal da Santa Sé, do livro Pio X. Alle origini del cattolicesimo contemporaneo (Pio X. Às origens do catolicismo contemporâneo – Lindau, Torino 2014), de autoria de Gianpaolo Romanato, o Prof. Fantappié, preocupado em tomar distância da “instrumentalização dos lefebvristas” – como ele escreveu, de modo infeliz, usando um termo desprovido de qualquer significado teológico –, chega a identificar-se com as posições dos historiadores modernistas. Ele atribui de fato a Pio X “um modo autocrático de conceber o governo da Igreja”, acompanhado “de uma atitude tendencialmente defensiva no confronto com o establishment e de desconfiança em relação aos próprios funcionários, de cuja lealdade e obediência não raro duvidava”. Ele “faz também compreender como foi possível que o Papa tenha se excedido em práticas dissimulatórias ou tido uma desconfiança e dureza particulares contra certos cardeais, bispos e clérigos. Valendo-se de recentes pesquisas sobre documentos do Vaticano, Romanato elimina definitivamente aquelas hipóteses apologéticas que procuravam debitar a responsabilidade pelas medidas policialescas aos estreitos colaboradores associados, em vez de diretamente ao Papa”. Trata-se das mesmíssimas críticas novamente propostas alguns anos atrás no artigo Pio X, flagelo dos modernistas, de Alberto Melloni, segundo o qual “as cartas nos permitem documentar o ano em que Pio X havia sido parte ativa e consciente da violência institucional implementada pelos antimodernistas” (“Corriere della Sera”, 23 de agosto de 2006). 

O problema básico não seria “do método com o qual o modernismo foi reprimido, mas da oportunidade e validade de sua condenação”. A visão de São Pio X estava “superada” pela História, porque ele não compreendia a evolução da teologia e da eclesiologia do século XX. Sua figura no fundo tem o papel dialético de uma antítese em relação à tese da “modernidade teológica”. Então Fantappié conclui que o papel de Pio X teria sido o de “transportar o catolicismo das estruturas e da mentalidade da Restauração para a modernidade institucional, jurídica e pastoral”. 

Para tentar sair dessa confusão, podemos recorrer a um outro livro, de Cristina Siccardi, publicado há pouco pelas edições São Paulo com o título São Pio X. Vita del Papa che ha ordinato e riformato la Chiesa (São Pio X. Vida do Papa que ordenou e reformou a Igreja) e com um precioso prefácio de Sua Eminência o Cardeal Raymond Burke, Prefeito do Supremo Tribunal da Signatura Apostólica. 

O cardeal recorda como, no final de sua primeira encíclica E supremi apostolatus, de 4 de outubro de 1903, São Pio X anunciava o programa de seu pontificado, que se defrontava no mundo com uma situação de confusão e de erros, e na Igreja, com a perda da fé da parte de muitos. A essa apostasia ele contrapunha a palavra de São Paulo: Instaurare omnia in Christo, reconduzir a Cristo todas as coisas. “Instaurare omnia in Christo – escreve o cardeal Burke –, é verdadeiramente a divisa do pontificado de São Pio X, todo voltado a recristianizar a sociedade agredida pelo relativismo liberal, que espezinhava os direitos de Deus em nome de uma ‘ciência’ desvinculada de todo tipo de liame com o Criador” (p. 9). 

É nessa perspectiva que se situa a obra reformadora de São Pio X, a qual é, antes de tudo, uma obra catequética, porque ele compreendeu que aos erros invasivos impunha contrapor um conhecimento sempre mais profundo da fé, difundida aos mais simples, a começar pelas crianças. Por volta do fim de 1912, seu desejo se realizou com a publicação do Catecismo que dele toma o nome, destinado originalmente à Diocese de Roma, mas depois difundido em todas as dioceses da Itália e do mundo. 

A gigantesca obra reformadora e restauradora de São Pio X desenvolveu-se na incompreensão dos próprios meios eclesiásticos. “São Pio X – escreve Cristina Siccardi – não procurou o consenso da Cúria romana, dos sacerdotes, dos bispos, dos cardeais, dos fieis, e sobretudo não procurou o consenso do mundo, mas sempre e somente o consenso de Deus, ainda que em detrimento da própria imagem pública, e, assim agindo, fez sem dúvida muitos inimigos em vida e ainda mais após a morte” (p. 25). 

Hoje podemos dizer que os seus piores inimigos não são aqueles que o atacam frontalmente, mas os que procuram desvirtuar o significado de sua obra, fazendo dele um precursor das reformas conciliares e pós-conciliares. O quotidiano “La Tribuna de Treviso” informa que, por ocasião do centenário da morte de São Pio X, a diocese de Treviso “abriu as portas aos divorciados e aos casais de fato”, convidando-os, em cinco igrejas – entre elas a de Riese, cidade natal do Papa Giuseppe Sarto –, a rezar pelo bom êxito do Sínodo de outubro sobre a família, cuja linha o cardeal Kasper ditou em seu relatório ao Consistório de 20 de fevereiro. Fazer de São Pio X o precursor do cardeal Kasper é uma ofensa em relação à qual a desdenhosa definição melloniana de “flagelo dos modernistas” se torna um elogio.

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8 agosto, 2014

Na festa de São João Maria Vianney – O bom Pastor.

João Maria Vianney tomou consciência de sua grande responsabilidade de vigário: “Se o padre estivesse plenamente consciente da grandeza de seu ministério, só isso valeria”. Ele se reconhecia o representante de Deus diante de seus 230 paroquianos, mas, acima de tudo, representante deles perante Deus: “Deixai uma paróquia vinte anos sem vigário, e os animais passarão a ser adorados”. Exortava frequentemente os paroquianos a se converterem, mas estava convencido de que eles não o fariam sem sua ajuda permanente, sem suas orações mais fervorosas. Como muito pouco sabiam do que significava amar a Deus, pensava ser sua competência suprir o que neles faltava. Aí estava uma das razões de suas preces, de sua penitência, de suas preocupações: “Se eu soubesse tudo o que teria de enfrentar sendo Cura, teria morrido de tristeza. Não estou agastado de ser padre para celebrar a Santa Missa, mas não gostaria de ser vigário… estou enfadado… De que temor não deve ser tomado um pobre padre diante de um ministério tão extraordinário!…”.

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14 julho, 2014

Aquela “visita” do Padre Pio à cela do Cardeal Mindszenty.

No novo guia para a Igreja do Santo foi publicado, pela primeira vez, um testemunho completo do processo canônico que revela a bilocação do frade e seu encontro com o primaz da Hungria enquanto ele se encontrava na prisão.

Por Andrea Tornielli – Vatican Insider| Tradução: Gercione Lima – Fratres in Unum.com – A figura de São Pio de Pietrelcina, o frade estigmatizado que é venerado por milhões de devotos, nunca deixa de surpreender. Um novo elemento acaba de ser adicionado à coleção de episódios misteriosos que acompanharam sua vida.  Dessa vez trata-se de um testemunho publicado em um livro apresentado ontem, por ocasião do décimo aniversário da dedicação do novo santuário de San Giovanni Rotondo, onde está sepultado o corpo do frade, e diz respeito a um fenômeno de bilocação que teria levado Padre Pio a uma cela em Budapeste, onde estava encarcerado o cardeal Jozsef Mindszenty, Primaz da Hungria. O episódio, já conhecido, foi imortalizado em um dos mosaicos que decoram a cripta do Santuário dedicado ao Padre Pio, mas o depoimento que o descreve em detalhes nunca tinha sido publicado antes.

st-padre-pioO livro que traz o título «Padre Pio. La sua chiesa, i suoi luoghi, tra devozione storia e opere d’arte» [“Padre Pio: a sua igreja, os seus lugares, entre a devoção, história e arte”, tradução livre] (Edições Padre Pio de Pietrelcina) foi escrito por Stefano Campanella, diretor da Teleradio Padre Pio e autor de inúmeros ensaios sobre a figura do santo de Gargano.

Cardeal Mindszenty tinha sido preso pelas autoridades comunistas em dezembro de 1948 e condenado à prisão perpétua na Hungria no ano seguinte, depois de um processo falso em que o acusavam de conspirar contra o governo. Depois de oito anos passados no cárcere e em prisão domiciliar, foi libertado durante a revolta popular em 1956, e se refugiou na Embaixada dos EUA em Budapeste, onde permaneceu até 1973, quando o Papa Paulo VI o liberou de sua liderança naquela diocese.

Exatamente naqueles anos mais difíceis ​na prisão é que teria acontecido o fenômeno da bilocação, que teria transportado Padre Pio até lá para levar conforto ao cardeal. Uma das testemunhas diante dos juízes do processo de beatificação de Padre Pio é um dos homens que sempre esteve muito próximo ao frade, Angelo Battisti, diretor da Casa Alívio do Sofrimento e datilógrafo da Secretaria de Estado do Vaticano.

Cardeal Mindszenty

Cardeal Mindszenty

Eis como é descrita a cena da visita do Padre Pio ao Cardeal Mindszenty no livro: “O Capuchinho estigmatizado, enquanto se encontrava em San Giovanni Rotondo, foi até ele para levar-lhe o pão e o vinho destinados a se tornarem o corpo e o sangue de Cristo, isto é, a realidade do oitavo dia; nesse caso, a bilocação adquire ainda mais o significado da antecipação do oitavo dia, ou seja, da Ressurreição, quando o corpo é liberado dos limites do espaço e do tempo. Simbólico é também o número de registro do detento impresso em seu pijama de presidiário: 1956 é o ano da libertação do Cardeal.

“Como é sabido – conta Battisti em seu testemunho nas atas do processo canônico –, o cardeal Mindszenty foi preso, colocado na cadeia e vigiado o tempo todo. Com o passar do tempo, crescia fortemente o seu desejo de poder celebrar a Santa Missa. Uma certa manhã, apresentou-se diante dele o Padre Pio, com tudo que ele precisava. O Cardeal celebra sua Missa e Padre Pio lhe serve [como acólito]; depois se falaram e, no final, Padre Pio desaparece com tudo que havia levado. Um padre vindo de Budapeste me falou confidencialmente sobre o fato, perguntando se eu poderia obter uma confirmação do Padre Pio. E eu disse a ele que se eu tivesse perguntado uma coisa dessas, Padre Pio teria me expulsado aos xingos”.

Mas, numa noite de março em 1965, no final de uma conversa, Battisti pergunta ao frade estigmatizado: “Padre, o Cardeal Mindszenty reconheceu Padre Pio?” Depois de uma primeira reação de irritação, o santo de Gargano respondeu: “Que diabos, nós nos encontramos e conversamos, e você acha que não teria me reconhecido?” Confirmando assim a bilocação ao cárcere que teria acontecido alguns anos antes. “Então — acrescenta Battisti — ele tornou-se triste e acrescentou: O diabo é feio, mas o haviam deixado mais feio que o diabo”.

O que demonstra que o Padre o havia socorrido desde o início de sua prisão, porque não se pode conceber, humanamente falando, como o Cardeal foi capaz de resistir a todo o sofrimento a que foi submetido e que ele descreve em suas memórias. O Padre então concluiu: “Lembre-se de orar por esse grande confessor da fé, que tanto sofreu pela  Igreja.”

* * *

Sobre o Cardeal Mindszenty, leia nossa série de 2008-2009:

O caso Mindszenty (I): “Arranquem suas línguas”.

O caso Mindszenty (II): Você também confessaria.

O caso Mindszenty (III): O beijo de Judas. 

29 maio, 2014

Há 60 anos, o Santo Papa Sarto era canonizado.

Em 29 de maio de 1954, Giuseppe Sarto, o Papa Pio X, era canonizado.

A fama de santidade de Pio X remontava há muito tempo. Mesmo quando ainda vivo, atribuía-se a ele o dom da cura. Aqui mencionamos apenas três casos da época de seu pontificado. Certo dia, uma freira belga, que sofria de tuberculose, foi admitida a uma audiência pública com o Papa. Quando saiu, percebeu que estava completamente curada e não teve recaída. Em outra ocasião, após uma audiência pública, um alemão, cego de nascimento, ganhou sua visão após Pio X colocar as mãos em seus olhos e exortá-lo a confiar em Deus. De modo similar, uma criança cega foi imediatamente curada após o Papa pôr a mão em sua cabeça e dizer à mãe: “Reze ao Senhor e tenha fé”.

São Pio X.

São Pio X.

Tão logo o corpo de Pio X foi colocado no túmulo, começaram as peregrinações. Em breve chegaram relatos de favores e graças miraculosamente recebidas, atribuídas à sua intercessão. Em fevereiro de 1923, todos os cardeais residentes em Roma — a única vez na história — assinaram um requerimento para o início de sua causa de beatificação. Um postulador foi designado: Dom Benedetto Pierami, Procurador Geral dos Beneditinos de Vallambroso. Em São Pedro, poucos meses depois, em 28 de junho de 1923, Pio XI inaugurou um monumento em honra a Pio X. Uma estátua de mármore o mostra de braços estendidos e olhos voltados para o céu. Na base do monumento, oito painéis de bronze representando os mais proeminentes aspectos e acontecimentos de seu pontificado: 1. O Pontífice da Eucaristia; 2. O defensor da fé; 3. O apoiador da França Católica; 4. O Patrono das Artes; 5. O Guardião dos Estudos Bíblicos; 6. O reorganizador do Direito Canônico; 7. O Reformador da Música Sacra; 8. O Pai dos Órfãos e dos Abandonados.

O processo de beatificação

Os processos diocesanos (ou “processos ordinários”) começaram. Eles se deram na diocese de origem de Pio X e nas dioceses onde ele havia atuado em diferentes funções. Os quatro “processos ordinários” foram organizados sob a autoridade de cada um dos bispos responsáveis: em Treviso, 1923-1926; em Mântua, 1924-1927; em Veneza, 1924-1930; e em Roma, 1923-1931. Estes processos começaram menos de dez anos após a morte do Papa e, portanto, foi possível questionar pessoas que o conheceram: algumas de suas irmãs, alguns amigos de infância e juventude, alguns eclesiásticos que o conheceram em diferentes responsabilidades sacerdotais e episcopais, e também alguns prelados e cardeais do Vaticano. Ao todo, 205 testemunhas de sua vida foram interrogadas e suas declarações, sob juramento, foram examinadas. A cada testemunha foram feitas as mesmas perguntas (63 questões ao todo).

As declarações examinadas dos processos ordinários (mais de 10 mil páginas manuscritas) foram publicadas em forma de grandes sínteses — summarium — na Positio super introductione causae (Relatório sobre a introdução da causa). Esta Positio, que finalmente foi editada e produzida em 1941, tem 1130 páginas. Ela foi examinada pela Congregação dos Ritos, que publicou o Decreto para a Introdução da Causa em 1943 — significando que a causa de beatificação e canonização fora julgada oficialmente digna de ser apreciada pela Santa Sé.

Agora os novos processos, chamados apostólicos, seriam repetidos nos mesmos lugares dos “processos ordinários”. Eles duraram de 1943 a 1946. Oitenta e nove testemunhas foram chamadas, cada uma tendo de responder a oitenta e uma perguntas. Embora algumas das testemunhas do processo ordinários já não estavam mais vivas, havia novas testemunhas disponíveis para dar seu depoimento. No total, nessas duas séries de processos, cerca de 240 testemunhas foram interrogadas e deram declarações sobre a vida e virtudes de Pio X. Uma nova Positio foi redigida, composta de excertos das duas fases do processo, chamando-se Positio super virtutibus. Publicada em 1949, continha 897 páginas. As “objeções” (animadversiones) lançadas pelo Promotor da Fé — chamado de advogado do diabo — resultou, em 1950, em uma Nova Positio super virtutibus e em uma Novissima positio super virtutibus (82 e 17 páginas).

Enquanto isso, um exame canônico dos restos mortais foi realizado. Os restos mortais de Pio X foram retirados de seu túmulo em 19 de maio de 1944 e trazidos para a Basílica Vaticana. O esquife principal foi colocado na Capela do Santo Crucifixo e foi aberto na presença dos prelados membros do Tribunal do Processo Apostólico. O propósito do exame era ter certeza de que os restos mortais no túmulo eram os da pessoa candidata à beatificação. Por longa tradição, todavia, a cerimônia também servia para verificar se o corpo poderia estar incorrupto. Esta não corrupção não é uma prova adicional de santidade, mas é um milagre que pode confirmar a fama de santidade que, de toda forma, já havia sido estabelecida. Foi o caso dos restos mortais de Pio X. Uma testemunha presente na exumação e exame descreve o estado de incorruptibilidade descoberto em 19 de maio de 1944:

A exumação.

A exumação.

Abrindo o caixão, encontraram o corpo intacto, vestido com as insígnias papais tal como foram enterrado 30 anos antes. Sob a firme pele que cobria a face, o contorno do crânio era claramente reconhecível. As cavidades dos olhos pareciam escuras, mas não vazias; estavam cobertas pelas pálpebras muito enrugadas e afundadas. O cabelo era branco e cobria o topo da cabeça completamente. A cruz peitoral e o anel pastoral brilhavam reluzentes. Em seu último testamento, Pio X pediu especialmente que seu corpo não fosse tocado e que o tradicional embalsamento não fosse realizado. Apesar disso, seu corpo estava excelentemente preservado. Nenhuma parte do esqueleto estava descoberta, nenhum osso exposto. Enquanto o corpo estava rígido, os braços, cotovelos e ombros estavam totalmente  flexíveis. As mãos eram belas e magras, e as unhas nos dedos estavam perfeitamente preservadas.

Terminada o exame canônico, os restos mortais de Pio X permaneceram na capela do Santo Crucifixo, aberta à veneração dos fiéis, até a manhã de 3 de julho. Depois, foram levadas para outra capela na Basílica Vaticana, a Capela da Apresentação, a primeira à esquerda quando se ingressa na Basílica, onde estão até hoje, abaixo do altar.

O processo de beatificação continuou. Alguns consultores da Congregação dos Ritos consideraram que os testemunhos sobre a batalha de Pio X contra o modernismo eram muito numerosos e controversos: eles lançaram detalhadas objeções a esse respeito e solicitaram um estudo suplementar com pesquisa documental. Este trabalho foi realizado pelo Relator Geral, Antonelli, um franciscano, que produziu sua Disquisitio circa quasdam obiectiones modus agendi Servi Dei respicientes in modernismi debellatione una cum summario additionali ex officio compilato, 1950. Esta longa compilação de documentos e comentários (303 páginas) conseguiu o apoio da Congregação e do Papa Pio XII.

Beato e Santo

Em 3 de setembro de 1950 [ndr: dia em que, no calendário tradicional, celebra-se a festa de São Pio X], o decreto foi assinado reconhecendo que Pio X praticou heroicamente as virtudes teologais da fé, esperança e caridade e as virtudes cardeais da prudência, justiça, fortaleza e temperança. Restava apenas para a beatificação o reconhecimento canônico de dois milagres realizados pela intercessão do Papa. Entre centenas de curas registradas pelo Postulador da Causa que não podiam ser atribuídas à medicina, duas foram selecionadas para reconhecimento canônico.

Missa de canonização de São Pio X.

Missa de canonização de São Pio X.

Uma foi a da freira francesa, Marie-Françoise Deperras, que sofria de um câncer no fêmur esquerdo, e que foi curada de maneira espetacular após a imposição de uma relíquia de Pio X e duas novenas ao Soberano Pontífice. A segunda, de uma outra religiosa, italiana, que sofria com um tumor maligno no abdome. A cura se deu em fevereiro de 1938 após a imposição da relíquia de Pio X e quando seu convento fez uma novena pedido sua intercessão. Após o estudo científico de ambos os casos, conduzido por peritos médicos da Congregação dos Ritos, as curas foram declaradas instantâneas, perfeitas e definitivas. Uma vez que foram decorrentes do recurso à intercessão de Pio X, elas foram declaradas de ordem sobrenatural e, em 11 de fevereiro de 1951, foram reconhecidas por decreto como autênticos milagres. Em 3 de junho de 1951, Pio XII pôde proceder com a solene cerimônia de beatificação de seu predecessor.

Finalmente, em 29 de maio de 1954, após o exame de um novo milagre, Pio XII realizou a canonização de Pio X. Em seu discurso, o Papa afirmou:

“A santidade, inspiradora e guia de Pio X em todos os seus empreendimentos, brilhou ainda mais fulgurante em suas ações quotidianas. A meta que almejava, unir e restaurar todas as coisas em Cristo, é algo que ele fez se tornar realidade em si mesmo antes de levá-la aos outros”.

Saint Pius X, Restorer of the Church – Yves Chiron, Angelus Press, 2002, pp. 303-305. Tradução: Fratres in Unum.com.

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22 abril, 2014

Entrevista do Prof. Roberto de Mattei ao mensário “Catholic Family News” dos EUA.

Por Catholic Family News | Tradução: Fratres in Unum.com

Professor de Mattei, as iminentes canonizações de João XXIII e de João Paulo II suscitam, por vários motivos, dúvidas e perplexidades. Como católico e como historiador, qual é o seu juízo?

Posso exprimir uma opinião pessoal, sem pretender resolver um problema que se apresenta complexo. Estou em primeiro lugar perplexo, em linha geral, pela facilidade com a qual nos últimos anos se iniciaram e concluíram os processos de canonização. O Concílio Vaticano I definiu o primado de jurisdição do Papa e a infalibilidade de seu Magistério segundo determinadas condições, mas de nenhum modo a impecabilidade pessoal dos Soberanos Pontífices. Na história da Igreja houve bons e maus Papas e é reduzido o número daqueles elevados solenemente aos altares. Hoje tem-se a impressão de que se quer substituir o princípio da infalibilidade dos Papas por aquele de sua impecabilidade. Todos os Papas, ou melhor, todos os últimos Papas, começando com o Concílio Vaticano II, são apresentados como santos. Não é por acaso que a canonização do Papa João XXIII e de João Paulo II tenha deixado para trás a canonização de Pio IX e a beatificação de Pio XII, enquanto avança o processo de Paulo VI. Como se um halo de santidade devesse envolver a era do Concílio e do pós-Concílio, para “infalibilizar” uma época histórica que introduziu na Igreja a primazia da prática pastoral sobre a doutrina.

O senhor pensa, pelo contrário, que os recentes Papas não foram santos? 

Permita-me exprimir sobre um Papa que, como historiador, conheço melhor: João XXIII. Tendo estudado o Concílio Vaticano II, aprofundei-me em sua biografia e consultei os atos de seu processo de beatificação. Quando a Igreja canoniza um fiel, não quer apenas assegurar que o falecido está na glória do Céu, mas também o propõe como modelo de virtude heróica. Dependendo do caso, tratar-se-á de um perfeito religioso, pároco, pai de família, etc. No caso de um Papa, para ser considerado santo ele deve ter praticado virtude heróica no cumprimento de sua missão de Papa, como fizeram, por exemplo, São Pio V ou São Pio X. Bem, quanto a João XXIII, nutro a meditada convicção de que seu pontificado representou um dano objetivo para a Igreja e que, portanto, é impossível falar de santidade quanto a ele. Declarou-o antes de mim, em um célebre artigo na “Rivista di Ascetica e Mistica”, alguém que entendia de santidade, o padre dominicano Inocêncio Colosio, considerado um dos maiores historiadores da espiritualidade nos tempos modernos.

Se, como o senhor pensa, João XXIII não foi um papa santo, e se, como parece, as canonizações são um ato infalível dos pontífices, estamos diante de uma contradição. Não se corre o risco de cair no sedevacantismo?

Os sedevacantistas atribuem um caráter hipertrofiado à infalibilidade pontifícia. O raciocínio deles é simplista: se o Papa é infalível e faz algo de ruim, isso significa que a sede está vacante. A realidade é muito mais complexa e é errada a premissa de que cada ato, ou quase, do Papa é infalível. Na realidade, se as próximas canonizações apresentam problemas, o sedevacantismo coloca problemas de consciência infinitamente maiores.

No entanto, a maioria dos teólogos, e especialmente os mais seguros, os da chamada “escola romana”, sustentam a infalibilidade das canonizações…

A infalibilidade das canonizações não é um dogma de fé: é a opinião da maioria dos teólogos, especialmente depois de Bento XIV, que a expressou, além disso, como doutor privado e não como Sumo Pontífice. Quanto à “Escola Romana”, o maior expoente vivo desta escola de teologia é hoje Mons. Brunero Gherardini. E Mons. Gherardini exprimiu na revista Divinitas, dirigida por ele, todas as suas dúvidas sobre a infalibilidade das canonizações. Conheço em Roma ilustres teólogos e canonistas, discípulos de outro ilustre representante da escola romana, Mons. Antonio Piolanti, que nutrem as mesmas dúvidas de Mons. Gherardini. Eles sustentam que as canonizações não preenchem as condições exigidas pelo Concílio Vaticano I para garantir a infalibilidade de um ato pontifício. A sentença da canonização não é em si infalível, porque lhe faltam as condições da infalibilidade, a começar pelo fato de que a canonização não tem como objeto direto ou explícito uma verdade de fé ou de moral, contida na Revelação, mas apenas um fato indiretamente ligado ao dogma, sem ser propriamente um “fato dogmático”. O campo da fé e da moral é amplo, pois inclui toda a doutrina cristã, especulativa e prática, o crer e o agir humano; mas um esclarecimento é necessário: uma definição dogmática não pode jamais implicar a definição de uma nova doutrina no campo da fé e da moral. O Papa só pode explicitar aquilo que está implícito em matéria de fé e de moral e que é transmitido pela Tradição da Igreja. O que os Papas definem deve estar contido na Escritura e na Tradição e é isso que assegura a infalibilidade ao ato. Tal não é certamente o caso das canonizações. Não é por acaso  que nem o Código de Direito Canônico de 1917 e 1983, nem os Catecismos, antigos e novos, da Igreja Católica, falam da doutrina da Igreja sobre as canonizações. Quanto a este tema, além do estudo de Mons. Gherardini acima mencionado, remeto para o excelente artigo de José Antonio Ureta no número de março de 2014 da revista Catolicismo. 

Considera que as canonizações perderam seu caráter infalível após a mudança no procedimento do processo das canonizações,  desejado por João Paulo II em 1983?

Esta tese é defendida no Courrier de Rome por um grande teólogo, o padre Jean-Michel Gleize. De resto, um dos argumentos nos quais o padre Low, no verbete Canonizações da Enciclopedia cattolica, baseia sua tese da infalibilidade, é a existência de um enorme conjunto de investigações e conclusões, seguido de dois milagres, antes da canonização. Não há dúvida de que, após a reforma do processo desejada por João Paulo II em 1983, este sistema de apuração da verdade tornou-se muito mais frágil e tem havido uma mudança no próprio conceito de santidade. O argumento, no entanto, não me parece decisivo, porque o procedimento das canonizações mudou profundamente ao longo História. A proclamação da santidade de Ulrich de Augsburg pelo Papa João XV em 993, considerada como a primeira canonização papal da História, foi realizada sem qualquer investigação por parte da Santa Sé. O processo minucioso de investigação remonta principalmente a Bento XIV, a quem se deve, por exemplo, a distinção entre canonização formal – de acordo com todas as regras canônicas – e canonização equipolente (ou equivalente), quando um Servo de Deus é declarado santo em virtude de uma veneração secular. A Igreja não exige um ato formal e solene de beatificação para qualificar um santo. Santa Hildegarda de Bingen recebeu após sua morte o título de santa, e o Papa Gregório IX iniciou, no final de 1233, uma investigação com vistas à sua canonização. No entanto, nunca houve uma canonização formal. Nem mesmo Santa Catarina da Suécia, filha de Santa Brígida, nunca foi canonizada. Seu processo desenvolveu-se entre 1446 e 1489, mas nunca foi concluído. Ela era venerada como uma santa sem ter sido canonizada.

O que o senhor acha da tese de São Tomás, retomada ainda no verbete Canonizações do Dictionnaire de Théologie catholique, segunda a qual  se o Papa não fosse infalível numa declaração solene como a canonização, ele enganaria a si mesmo e à Igreja? 

Cumpre primeiro dissipar um equívoco semântico: um ato não infalível não é um ato errado, que necessariamente induz ao erro, mas apenas um ato sujeito à possibilidade de erro. Na verdade, esse erro pode ser raríssimo, ou nunca acontecer. São Tomás, como sempre equilibrado em seu julgamento, não é um infalibilista excessivo. Ele está justamente preocupado em salvaguardar a infalibilidade da Igreja e o faz com um argumento teológico negativo, a contrario. Seu argumento pode ser aceito num sentido amplo, mas admitindo a possibilidade de exceções. Concordo com ele no fato de que a Igreja no seu conjunto não pode errar quando canoniza. Isso não quer dizer que cada ato da Igreja, como um ato de canonização, seja em si necessariamente infalível. O assentimento que se dá aos atos de canonização é de fé eclesiástica, e não divina. Isso significa que o fiel acredita porque aceita o princípio segundo o qual a Igreja normalmente não erra. A exceção não exclui a regra. Um autorizado teólogo alemão, Bernhard Bartmann, em seu Manual de Teologia Dogmática (1962), compara o culto prestado a um falso santo à homenagem prestada ao falso embaixador de um rei. O erro não prejudica o princípio segundo o qual o rei tem verdadeiros embaixadores e a Igreja canoniza verdadeiros santos.

Em que sentido, então, podemos falar de infalibilidade da Igreja nas canonizações?

Estou convencido de que seria um grave erro reduzir a infalibilidade da Igreja ao Magistério extraordinário do Romano Pontífice. A Igreja não é infalível apenas quando ensina de uma forma extraordinária, mas também em seu Magistério ordinário. Mas assim como existem condições de infalibilidade para o Magistério extraordinário, existem condições de infalibilidade para o Magistério ordinário. E a primeira delas é a sua universalidade, que ocorre quando uma verdade de fé ou moral é ensinada de forma consistente ao longo do tempo. O Magistério pode ensinar infalivelmente uma doutrina por um ato definitório do Papa, ou por um ato não-definitório do Magistério ordinário, desde que esta doutrina seja constantemente mantida e transmitida pela Tradição e pelo Magistério ordinário e universal. A instrução Ad Tuendam Fidem, da Congregação para a Doutrina da Fé, em 18 de Maio de 1998 (n.º 2), confirmao. Por analogia, pode-se argumentar que a Igreja não pode errar quando confirma com constância ao longo do tempo verdades relacionadas com a fé, fatos dogmáticos, usos litúrgicos. Mesmo as canonizações podem pertencer a esse grupo de verdades afins. Pode-se ter certeza que Santa Hildegarda de Bingen está na glória dos santos e pode ser proposta como modelo, não por ter sido solenemente canonizada por um Papa, porque no seu caso nunca houve uma canonização formal, mas porque a Igreja reconheceu seu culto, sem interrupção, desde a sua morte. Com maior razão os santos para os quais tenha havido canonização formal, como São Francisco ou São Domingos, a certeza infalível da sua glória deriva do culto universal, em sentido diacrônico, que a Igreja lhes concedeu, e não pelo julgamento da canonização em si. A Igreja não erra em seu magistério universal, mas pode-se admitir um erro da autoridade eclesiástica circunscrito no tempo e no espaço.

Gostaria de resumir a sua opinião?

A canonização do Papa João XXIII é um ato solene do Soberano Pontífice, que emana da autoridade suprema da Igreja e deve ser acolhido com o devido respeito, mas não é uma declaração em si infalível. Para usar linguagem teológica, é uma doutrina não de tenenda fidei, mas de pietate fidei. Não sendo a canonização um dogma de fé, não existe para os católicos uma obrigação positiva de dar-lhe assentimento. O exercício da razão, apoiado por um exame cuidadoso dos fatos, mostra claramente que o pontificado de João XXIII não foi vantajoso para a Igreja. Se eu devesse admitir que o Papa João XXIII praticou de modo heroico a virtude desempenhando seu papel de Pontífice, minaria pela base os pressupostos racionais de minha fé. Na dúvida, atenho-me ao dogma de fé estabelecido pelo Concílio Vaticano I, segundo o qual não pode haver contradição entre fé e razão. A fé transcende a razão e a eleva, mas não a contradiz, porque Deus, a Verdade por essência, não é contraditório. Em consciência, creio que posso manter todas as minhas reservas sobre este ato de canonização.

10 dezembro, 2013

Professor Roberto de Mattei no Rio de Janeiro: uma perspectiva histórica sobre o Concílio Vaticano II.

“Sem o Vaticano II não conseguimos compreender o Papa Francisco; não conseguimos compreender a crise atual na Igreja. Essa crise existe, está diante dos nossos olhos e não tem precedentes na História; ela é uma crise que a todos nos diz respeito como homens e como cristãos.”

Por Fratres in Unum.com –  Realizou-se na tarde do último domingo, dia 8, no Rio de Janeiro, a tão aguardada conferência do Professor Roberto de Mattei. O salão de conferências do Hotel Flórida ficou repleto e os organizadores estimam que cerca de duzentas pessoas estiveram presentes para prestigiar o renomado historiador e professor titular de História da Igreja e do Cristianismo na Universidade Europeia de Roma.

Professor Roberto de Mattei no Rio de Janeiro: evento contou com cerca de 200 assistentes.

Professor Roberto de Mattei no Rio de Janeiro: evento contou com cerca de 200 assistentes.

Após a apresentação dos componentes da mesa pelo Sr. Mario Dias de Oliveira, Presidente do Instituto Vera Fides, teve inicio pontualmente às 16:30h a palestra do Prof. Roberto de Mattei, que foi proferida em língua portuguesa, para admiração dos presentes. Durante mais de uma hora, Roberto de Mattei falou interruptamente com suma clareza e objetividade sobre o evento mais marcante para a Igreja Católica no último século.

Inicialmente, de Mattei abordou a finalidade dos Concílios em geral — confirmar uma doutrina ou corrigir um erro, ainda que eles não fossem privados da dimensão pastoral. Ao contrário dos anteriores, o Concílio Vaticano II [1] preferiu expressar-se da maneira “pastoral”, adaptando sua linguagem ao homem moderno, priorizando, assim, esta dimensão em relação àquela doutrinal. Consequentemente, o Concílio deixou de condenar problemas gravíssimos, como, por exemplo, o comunismo. João XXIII já preconizava essa postura na abertura da Assembléia: “Agora, porém, a esposa de Cristo prefere usar mais o remédio da misericórdia do que o da severidade. Julga satisfazer melhor às necessidades de hoje mostrando a validez da sua doutrina do que renovando condenações”.

Sucesso de público: cadeiras tiveram que ser adicionadas e o espaço ficou pequeno.

Sucesso de público: cadeiras tiveram que ser adicionadas e o espaço ficou pequeno.

De Mattei, então, discorreu sobre o esforço de padres conciliares conservadores a fim de pedir ao Santo Padre que o Concílio condenasse explicitamente o Comunismo. Essa iniciativa contou com o trabalho de um pequeno grupo constituído especialmente por Dom Antonio de Castro Mayer, bispo de Campos, Dom Geraldo de Proença Sigaud, bispo de Diamantina e pelo Prof. Plínio Correa de Oliveira, que consultaram centenas de Padres Conciliares sobre a oportunidade do Concílio se pronunciar contra a ideologia que dizimou milhões de homens no século passado. A essa iniciativa somou-se outra correlata, que pedia a consagração da Rússia ao Imaculado Coração de Maria. Ambas não lograram êxito. De Mattei discorreu também sobre as evidências de um acordo (o Pacto de Metz) [2] entre Roma e a Igreja Ortodoxa, segundo o qual o Concílio se absteria de condenar o comunismo em troca da participação de observadores do Patriarcado de Moscou.

Em seguida, foram abordadas questões como, por exemplo, a infiltração do comunismo nas estruturas a Igreja e o apoio de prelados vermelhos, como Dom Helder Câmara.

O professor explanou sobre o jogo de forças entre os dois grupos principais: progressistas – sobretudo de língua alemã — e conservadores, e o que ele chamou de Terceiro Partido, um grupo de Padres Conciliares sem muitas pretensões ideológicas e que se deixavam guiar pelo lobby dos dois anteriores.

Como ponto de destaque, o professor de Mattei salientou que o Concílio Vaticano II não pode ser visto apenas como aquilo que está escrito em seus documentos, mas sim como um evento global, que abrange diversos aspectos, incluindo suas consequências. Para exemplificar, ele falou da Revolução Francesa, comentando que “não é preciso que se leia ou se tenha conhecimento dos estatutos e documentos que a ensejaram; todos sabem o que a Revolução Francesa realmente significou, a julgar por seus frutos.” Pois bem, assim é o Concílio. Não se pode restringi-lo apenas aos seus documentos.

O professor deixou claro que sua análise do Concílio era sob o ponto de vista histórico, e que a ele não competia analisar o valor intrínseco de seus documentos, que deveriam ser analisados por teólogos e pela própria Igreja, em caráter dogmático.

Como uma das consequências mais prejudiciais do Vaticano II, o professor citou a substituição do conceito de “Igreja Militante” pelo de “Igreja Peregrina”. No início da palestra, citando o Padre O’Malley, ele comentou sobre o estilo dos documentos conciliares, que seria uma revolução na linguagem dos documentos da Igreja. A omissão ou limitação de referências ao Inferno, mesmo sem ser uma heresia, pode levar a caminhos graves, ou seja, a ideia de que ele não existe porque não se fala dele.

Uma longa fila formou-se para o autógrafo.

Uma longa fila formou-se para o autógrafo.

Após um pequeno intervalo, houve uma sessão de perguntas e respostas. O professor de Mattei respondeu a todas com muita clareza e simplicidade, ainda que fossem polêmicas ou delicadas. Uma das perguntas versava sobre a declaração do então Papa Bento XVI ao clero de Roma, a qual reclamava a existência de um Concílio Real e um Concílio da Mídia. O professor de Mattei respondeu que até se pode falar de um Concílio da Mídia [inventado pelos meios de comunicação], mas que este está também incluído dentro do único Concílio – o Concílio Real -, que deve ser analisado como um evento global.

A pedido do próprio Prof. de Mattei, as respostas foram dadas em italiano para melhor clareza e gentilmente traduzidas para o português pelo Dr. Mario Navarro da Costa, diretor de campanhas do IPCO, que atuou como intérprete para as perguntas e respostas.

O evento marcou ainda o lançamento do livro “Apologia da Tradição, um post-scriptum do livro Concílio Vaticano II – Uma História Nunca Escrita”, da Editora Ambientes & Costumes. Ao final dessa sessão, seis participantes foram sorteados com livros do autor, que foram entregues por cada um dos organizadores que compuseram a mesa.

Ao final, uma longa fila se formou para que todos pudessem ter seus livros autografados e cumprimentar pessoalmente o ilustre palestrante. Enquanto isso, os demais participantes puderam desfrutar de um café oferecido pelos organizadores e, assim, trocar ideias sobre a excelente conferência.

Da esquerda para a direita: Sra. Teresa Maria Freixinho (Fratres in Unum), Sr. Rodolpho Loreto (Instituto Vera Fides), S.A.I.R. Dom Antônio de Orleans e Bragança, Sr. Márcio Coutinho (Ação Jovem pela Terra de Santa Cruz) e o Sr. Mario Dias de Oliveira (Presidente do Instituto Vera Fides e Mestre de Cerimônias do Evento).

Da esquerda para a direita: Sra. Teresa Maria Freixinho (Fratres in Unum), Sr. Rodolpho Loreto (Instituto Vera Fides), S.A.I.R. Dom Antônio de Orleans e Bragança, Sr. Márcio Coutinho (Ação Jovem pela Terra de Santa Cruz) e o Sr. Mario Dias de Oliveira (Presidente do Instituto Vera Fides e Mestre de Cerimônias do Evento).

Agradecemos a todos os leitores do Fratres in Unum que participaram do evento no Rio de Janeiro e deixamos a caixa de comentários aberta a estes e também àqueles que estiveram ontem na palestra no Recife, para nos relatem suas impressões. Lembrando ainda que, conforme noticiamos anteriormente, hoje a palestra será em Brasília e na quinta-feira em São Paulo.

* * *


[1] O Concílio Vaticano II se realizou em Roma, de 11 de outubro de 1962 a 8 de dezembro de 1965 e contou a participação de 2.500 Padres Conciliares sob a orientação dos papas João XXIII e Paulo VI. Ele foi o vigésimo primeiro Concílio da Igreja.

[2] Este acordo se deu na cidade francesa de Metz, em agosto de 1962, e seus negociadores foram o Cardeal Tisserant, representando o Vaticano, e o arcebispo ortodoxo Nicodemo, que, conforme comprovado por documentação dos arquivos de Moscou, era um agente do KGB.

3 novembro, 2011

Prof. Roberto de Mattei, “… ‘regra da fé’ não é nem o Concílio Vaticano II, nem o Magistério vivo contemporâneo, mas a Tradição, ou seja, o Magistério perene”.

Entrevista com o professor Roberto de Mattei – Um docente católico é ‘indigno’ de ser premiado

Na atual cultura europeia, o conceito de liberdade de opinião adquiriu, também, infelizmente, em campo católico, matizes tipicamente iluministas e ideológicos. Em nome da defesa da liberdade “de todos” se procura impedir que aqueles que defendem ideias consideradas incompatíveis com esta liberdade as possam expressar. Isto tem uma inata valência antirreligiosa e principalmente anticatólica, já que a Fé romana tem a certeza das Verdades que proclama, e isto é percebido pelos relativistas como dogmatismo intolerante, a ser combatido em todas as suas expressões.

Neste quadro se insere o caso “de Mattei – Acqui Storia”, que apareceu nos principais jornais italianos: desde o “Corriere della Sera” ao “Il Giornale”, de “la República” ao “Libero”. O Prêmio Acqui Storia, chegado este ano à 44ª edição (a cerimônia de premiação será realizada em Acqui Terme, em 22 de outubro próximo), tornou-se o mais importante reconhecimento dedicado à História, não apenas em nível nacional, mas na Europa, e está dividido em três seções: histórico-científica, histórico-divulgadora e romance histórico. O Presidente do Prêmio, Guido Pescosolido, demitiu-se de forma polêmica contra a escolha de premiar o ensaio histórico-científico O Concílio Vaticano II. Uma história nunca escrita (Lindau Ed.) do Professor Roberto de Mattei, Católico com C maiúsculo e vice-presidente do CNR (Conselho Nacional de Pesquisas). Motivo: “Trata-se da obra de um militante”, no entanto havia declarado: “respeito todas as ideias”… Rocco Buttiglione, ex-ministro da Cultura, acusou Pescosolido de continuar uma ‘perseguição pessoal’ contra de Mattei. Cada estudioso lê e interpreta os eventos com base em sua própria bagagem cultural; mas isto não exclui de realizar obras sérias e rigorosas, sem manipulações, respeitando a objetividade dos fatos.

No ‘Corriere della Sera’ (3-10-2011) de Mattei escreveu: “Estou muito longe de Giuseppe Alberigo e de Alberto Melloni como orientação cultural, mas reconheço que desenvolveram sobre o Vaticano II um trabalho científico de primeira categoria. Depois, o juízo deles sobre o Concílio é oposto ao meu, mas isso é dialética normal entre históricos de diferentes procedências”. Justamente Melloni, no ‘Corriere della Sera’, reconheceu o valor historiográfico e crítico da obra do de Mattei. Declarou (‘Il Giornale’, 3-10-2011) o assessor de Cultura de Acqui Terme, ao qual compete a organização do Prêmio: “O ensaio de de Mattei não foi escolhido com base em considerações ideológicas, tanto é verdade que os jurados do prêmio pertencem a diferentes escolas científicas e tradições culturais”.

Nós entrevistamos o Professor Roberto de Mattei.

Professor, depois de estar entre os finalistas do prêmio PEN Club, seu livro ‘O Concílio Vaticano II. Uma história nunca escrita’ ganhou o Premio Acqui, o prêmio histórico italiano de maior prestígio. Até mesmo neste caso, não faltaram as polêmicas, inclusive com a renúncia do Presidente do Júri…

O Prêmio Acqui Storia foi atribuído ao meu livro exclusivamente pelo seu valor científico, independentemente de valorações ideológicas de qualquer natureza, como explicou o assessor Carlos Sburlati, mas o prof. Guido Pescosolido, presidente do júri, tão logo se esboçou a possibilidade de meu sucesso, pediu demissão. Poderia ter expressado um voto contrário, como se costuma fazer neste tipo de premiação, mas com sua demissão e as sucessivas declarações à imprensa quis dar a seu gesto o significado de um protesto contra a minha posição de ‘católico militante’ (assim me definiu no ‘Corriere della Sera’). Observo que qualquer católico é, ou deveria ser, ‘militante’, como membro da Igreja, que assim se define justamente porque aqui na terra combate. Mas o que os ‘liberais’ como Pescosolido não aceitam, a ponto de ‘virar a mesa em que se joga’, é que ‘católicos militantes’ possam obter públicos reconhecimentos ou estar em instituições de relevo. Pode-se conceder a eles a liberdade de expressão somente sob a condição de que a exprimam na semi-clandestinade dos círculos tradicionalistas, em um estado de substancial dhimmitude[1]. Estamos diante de uma clara expressão do ‘totalitarismo liberal’.

Em que sentido o senhor fala de ‘totalitarismo’?

O totalitarismo é caracterizado pela proibição de fazer pergunta, porque exige não homens, mas máquinas, que ajam de modo mecânico, privados de critérios de juízo, de acordo com a vontade de seus superiores, nos quais se anulam. O totalitarismo é estranho ao Cristianismo, que certamente conhece a obediência ao superior, mas sempre escolhida, nunca imposta, como acontece nos regimes totalitários. A Idade Média nunca foi totalitária porque o soberano se curvava à lei natural e divina, e às tradições e aos costumes do reino. Foi a Revolução Francesa que impôs a todo cidadão uma obediência à Revolução desvinculada de qualquer critério transcendente. Foi a Revolução Francesa que introduziu a lei dos ‘suspeitos’, matriz de todos os totalitarismos. De acordo com essa lei, as pessoas eram presas e condenadas, não por crimes objetivos, mas por aqueles que o suspeito poderia ter cometido como resultado de sua educação, de suas amizades, de suas simpatias ideológicas. O mesmo princípio guiou os “expurgos” de Stalin: a condenação era decretada não contra quem tivesse violado a lei, mas contra quem quer que não manifestasse plena adesão, cego entusiasmo, obediência servil à Revolução Comunista e a seu líder. Esta mentalidade totalitária inspira a prática do ‘politicamente correto’ das sociedades democráticas. Existem alguns temas que não podem ser tratados, sob pena não de prisão física, mas do isolamento psicológico e moral do ‘suspeito’. A mesma mentalidade tem penetrado no seio da Igreja, em alguns de seus expoentes, laicos e eclesiásticos: ela se manifesta, hoje, através da proibição de colocar questionamentos sobre o Concílio Vaticano II.

O senhor se refere às críticas feitas a seu livro também em alguns círculos católicos?

Nenhum historiador pode imaginar que seu trabalho seja recebido sem discussão ou controvérsias, mas essas discussões acontecem, geralmente, no plano em que o historiador se situa: o dos fatos que narra. Não teria imaginado que meu livro fosse, no entanto, rejeitado por alguns em nome desses mesmos preconceitos ideológicos dos quais Bento XVI nos convida a nos livrarmos. Assim foi: em alguns jornais católicos meu livro foi acusado de ser ‘tendencioso’ e, portanto, inaceitável, porque dele parece emergir um juízo negativo em relação ao Concílio Vaticano II. O Concílio, tem sido escrito e repetido, é um ato supremo e infalível da Igreja e como tal não pode ser colocado em discussão: quem o discute se coloca, por isso mesmo, fora da Igreja.

Com esse incrível sofisma não só o meu estudo, mas qualquer livro, artigo ou afirmação que, respondendo ao chamado do Papa Bento XVI, no seu discurso de 20 de dezembro de 2005, queira colocar questionamentos sobre o Concílio, ou ao pós-Concílio, é imediatamente silenciado sob pena de excomunhão, se não canônica, ao menos psicológica, moral e midiática. Quem levanta questões sobre o Vaticano II é ‘suspeito’ de cisma e heresias, excluído dos salões eclesiásticos, isolado nas dioceses, nas paróquias, nas associações. Pelo contrário, aqueles que, em nome do Concílio Vaticano II, avançam teses ousadas e sem escrúpulos, às vezes heréticas ou perto da heresia, é convidado à mesa eclesiástica, tratado com o máximo respeito, considerado um interlocutor digno de atenção.

Não lhe surpreende que essas críticas tenham vindo sobretudo de católicos ‘neoconservadores’?

É verdade. As mais fortes críticas, de fato, vieram de círculos católicos que eu não gostaria de chamar de ‘neoconservadores’ porque me pareceria errado em relação aos verdadeiros conservadores, mas sim ‘neocentristas’ ou ‘neoconciliares’. São aqueles católicos que, para impor a própria hegemonia, brandem o ‘Magistério’ contra a Tradição da Igreja, propondo-se, em seguida, como os únicos intérpretes deste efêmero e magmático Magistério, mesmo que nunca infalível e nunca de definição. Outra característica deles é o complexo de inferioridade para com a cultura secular, que consideram sempre mais ‘respeitável’ e ‘científica’ do que aquela ‘tradicionalista’. São minimalistas, ou se se preferir ‘catacumbalistas’, porque aceitam, em última instância, seu destino catacumbal.

A Sua obra parece contrapor-se de maneira clara também ao clichê ‘tradicional’ sobre o Concílio Vaticano II, encarnada pela chamada Escola de Bolonha. Pode-se falar de uma fenda definitiva na homogeneidade quase absoluta da leitura ‘bolognese’ da Assis[2] pastoral?

A ‘Escola de Bologna’, depois da morte de Giuseppe Alberigo, é representada hoje por Alberto Melloni e alguns outros poucos alunos, enquanto se está formando uma nova escola em vez disso, que gosto de chamar de ‘romana’, em homenagem à grande escola teológica de que Mons. Brunero Gherardini é hoje ilustre representante. O termo Roma obviamente não é geográfico, ao contrário do de Bolonha, mas expressa a fidelidade destes autores ao perene ensinamento da Cátedra de Pedro. A esta escola ‘romana’ atribuiria o excelente livro recém publicado por Alessandro Gnocchi e Palmaro Mario: A Bela Adormecida. Porque depois do Vaticano II a Igreja entrou em crise. Porque despertará (Vallecchi Ed.), um livro que tem o mérito de desenvolver, em um modo brilhante e acessível ao grande público, questões importantes, tais como a Revolução da linguagem do Vaticano II.

Como reagem os estudantes universitários a essas novas pesquisas historiográficas? Há alunos laureados e laureandos que desejam aprofundar o sulco traçado pelo senhor?

Serão sobretudo os jovens a desenvolver e aprofundar os temas levantados pelo meu livro. Há ainda muitos arquivos para explorar, penso principalmente nos dos Países do Leste, e muitos diários para trazer à luz, tais como os dos Cardeais Felici e Ottaviani, cuja existência é certa, mas ainda mantidos em segredo. O problema real, no entanto, mais do que a aquisição de novos documentos é a discussão sobre o que é já conhecido. Esta discussão o Papa a abriu, a solicitou, a apreciou, como o confirmaram seus atos depois do discurso de 2005: refiro-me ao Motu Proprio Summorum Pontificum, com a qual devolveu a livre cidadania ao Rito Romano antigo, e à remissão da excomunhão aos quatro bispos consagrados por Mons. Marcel Lefebvre. A esta discussão eu pretendi dar uma contribuição, escrevendo uma história que, como tal, se colocasse ao nível dos fatos, buscasse a verdade do que houve no Concílio, para que, finalmente, discutindo-se isso, se soubesse do que fala, e o soubessem principalmente os jovens, aqueles que nasceram depois do Concílio Vaticano II e que o consideram muitas vezes um evento mítico, mais do que um fato histórico. É sobretudo para os jovens que o meu livro foi escrito, para ajudá-los a pensar, a discutir, a se situar na perspectiva sugerida por Bento XVI.

O senhor pensa em dedicar outros estudos ao XXI Concílio ecumênico da Igreja Católica?

Será lançado em novembro, pela Lindau editora, um novo livro meu sobre a Tradição da Igreja, no qual não deixarei de responder aos problemas historiográficos e teológicos levantados pelos críticos da minha história do Concílio.

Esta fissura no edifício conciliar, que alguns definiram o triunfo da Revolução na Igreja, preludia, em sua opinião, a um seu colapso? E, em caso afirmativo, quando?

O Concílio Vaticano II, considerado como evento histórico, e para além até mesmo de uma necessária valoração teológica de seus documentos, foi uma verdadeira revolução, não por acaso definida o ‘89 [3] da Igreja Católica. Como qualquer revolução, ele construiu um edifício destinado a ruir. Isto será feito abruptamente, e o nosso trabalho é o de não nos deixar esmagar pelas ruínas, que não serão as da Igreja, mas de homens e de estruturas de Igreja.

O senhor acredita que a Tradição, após a embriaguez do mito do aggiornamento [4], possa retornar a ter seu lugar de direito na Igreja?

A Tradição não é o passado, é o Depósito perene e sempre vivo da Fé e dos costumes da Igreja. Seu papel reemergirá, em minha opinião, com força sempre maior, como é natural que aconteça nos tempos de crise. A ‘hermenêutica da continuidade’, evocada por Bento XVI, não pode ser entendida se não como uma interpretação do Concílio Vaticano II à luz da Tradição, ou à luz do ensinamento divino-apostólico que perdura em todos os tempos e nunca se interrompe. Na Igreja, de fato, a ‘regra da Fé’ não é nem o Concílio Vaticano II nem o Magistério vivo contemporâneo, mas a Tradição, ou seja o Magistério perene, que constitui, com a Sagrada Escritura, uma das duas fontes da Palavra de Deus e usufrui da especial assistência sobrenatural do Espírito Santo.

Cristina Siccardi

Fonte: MessaInLatino.it via Una Fides

Tradução: Giulia d’Amore di Ugento.

* * *

[1] NdTª.: Neologismo francês derivado do árabe dhimmi e se refere ao status jurídico reconhecido aos não-muçulmanos em um país governado pelo direito muçulmano. Aqui quer expressar que os católicos, no mundo moderno, estão em uma relação de inferioridade em relação aos modernistas; reconhece-se-lhes o direito, mas devem exercê-lo quase que clandestinamente.

[2] NdTª.: Assis, aqui se refere à sessão conciliar. Houve quatro assises.

[3] NdTª.: Referência a 1789, ano da Revolução Francesa.

[4] NdTª.: Aggiornamento (atualização) é um termo italiano utilizado durante o Concílio Vaticano II e que o Papa João XXIII popularizou como expressão do desejo de que a Igreja Católica saísse atualizada do Concílio Vaticano II. Em outras palavras, o aggiornamento é a adaptação e a nova apresentação dos princípios católicos ao mundo atual e moderno, sendo por isso um objetivo fundamental do Concílio Vaticano II. O documento conciliar Sacrosanctum Concilium resume o espírito do aggiornamento da seguinte maneira: “fomentar a vida cristã entre os fiéis, adaptar melhor às necessidades do nosso tempo as instituições susceptíveis de mudança, promover tudo o que pode ajudar à união de todos os crentes em Cristo, e fortalecer o que pode contribuir para chamar a todos ao seio da Igreja“.

28 dezembro, 2010

Iota Unum – A crise do sacerdócio no pós-Concílio: a defecção dos padres com a chancela das autoridades.

A CRISE DO SACERDÓCIO

A DEFECÇÃO DOS SACERDOTES

A recusa de Paulo a se entristecer com as tristes realidades da Igreja pouco pôde contra o fato da defecção dos sacerdotes, estatisticamente comprovada [1] e evidente por todas as partes. Paulo VI abordou esse tema tão espinhoso e doloroso em dois discursos.

Na alocução da Quinta-Feira Santa de 1971, recordando o drama pascal do homem-Deus (abandonado pelos discípulos e traído pelo amigo), o Papa passou a falar de Judas até a apostasia dos sacerdotes.

Antecipou que “é necessário distinguir caso por caso, é necessário compreender, compadecer, perdoar, atender e, é sempre necessário amar”. Mas depois chamou os traidores ou os apóstatas de “infelizes ou desertores”, falou dos “vis motivos terrenos” que os guiam, e deplorou sua “mediocridade moral, que pretende achar normal e lógica a transgressão de uma promessa longamente meditada”. (OR, 10 de abril de 1971).

O coração do Papa está entristecido pela evidência dos fatos, e não podendo tirar a culpabilidade da apostasia, atenua-a um pouco, chamando-os, por exemplo, de “infelizes ou desertores”. Como não ver que a deserção não é uma alternativa à infelicidade, e que os lapsi são infelizes precisamente por terem desertado?

Falando ao clero romano, em fevereiro de 1978, sobre as defecções sacerdotais, o Papa disse: “As estatísticas nos constrangem; a casuística nos desconcerta; as motivações, sim, impõem-nos respeito e nos movem à compaixão, mas nos causam uma dor imensa; a sorte dos débeis que encontraram forças para desertar de seu compromisso nos confunde”. E o Papa fala de “mania de secularizaçãoque “profana a figura tradicional do sacerdote” e, por um processo de certa forma irracional, “extirpou do coração de alguns a sagrada reverência devida a sua própria pessoa” (Osservatore Romano, 11 de fevereiro de 1978).

A inquietude do Papa deriva, por um lado, da amplitude estatística do fenômeno, e, por outro, da profunda corrupção que este supõe. Tampouco se trata principalmente da corrupção dos costumes sacerdotais enquanto violação do celibato (pois se corrompeu também em outras épocas, ainda que sem cair em apostasia), mas sim de outra corrupção que consiste no rechaço das essências e no intento posterior de converter o sacerdote em algo distinto de si mesmo (isto é, um não-sacerdote), atribuindo ao novo estado, no entanto, a identidade do primeiro. Evidentemente, alterando a essência, essa identidade se converte em algo puramente verbal.

Quanto às estatísticas, convém recordar as duas formas com que teve lugar o abandono do sacerdócio (inadmissível enquanto sacramentalmente ordenado): por dispensa da Santa Sé, ou por arbitrária e unilateral ruptura. Esta segunda forma não é nenhuma novidade na Igreja.

Na Revolução Francesa, apostataram 24.000 (vinte e quatro mil) dos 29.000 (vinte e nove mil) sacerdotes do clero assermentée [ndr: “juramentados”, isto é, que fizeram juramento de sustentar a Constituição Civil do Clero] 21 (vinte e um) bispos de 83 (oitenta e três), casando-se dez deles. [2].

Durante o pontificado de São Pio X não foram poucos os que abandonaram os hábitos por razões de fé ou por desejo de independência. Mas, até o Concílio, o fenômeno era esporádico; cada caso suscitava interesse ou escândalo, e o padre secularizado se convertia em personagem literário.

A peculiaridade das defecções na Igreja pós-conciliar não provém da impressionante quantidade dos casos, mas de sua legalização pela Santa Sé, concedendo amplamente a dispensa pro gratia, que dispensa o sacerdote do ministério, mas lhe mantém todos os direitos e funções próprias do leigo (tornando inativo e insignificante o caráter indelével da ordenação recebida).

Se rara era a redução de um sacerdote ao estado laico infligida como pena, raríssima era a concedida pro gratia por falta de consentimento, algo semelhante ao defectus consensus do direito matrimonial.

Deixados de lado os da Revolução Francesa, são escassos na história da Igreja exemplos de bispos casados.

São casos célebres os de Vergerio, bispo de Capo d’Istria, no tempo do Concílio de Trento; De Dominis, arcebispo de Split, na época de Pablo V; Seldnizky, bispo de Breslau, sob o pontificado de Gregório XVI; e depois de um século, mons. Mario Radovero, auxiliar de Lima, já padre do Vaticano II (CR, 23 de março de 1969).

A LEGITIMAÇÃO CANÔNICA DA DEFECÇÃO SACERDOTAL

A novidade do fenômeno da defecção sacerdotal não está tanto em seu grande número (enormemente desproporcional com relação ao do período pré-conciliar) como na variação no modo com que foi contemplado e tratado pela Igreja [3]. Na realidade, não há nenhum fato na história que pontualmente não se encontre já no passado. Por isso, bem que se poderia afirmar, segundo um ditado do comediante latino, Nihil  estiam factum quod non factumsitprius. Porém, o elemento relevante e inovador é o juízo moral que a mente faz, e só este juízo é indício do curso real da história.

Embora, certamente, do ponto de vista numérico, as defecções turbaram o Papa, a prática da dispensa (convertida em habitual depois de ter sido quase nula durante longo tempo) proporcionou um outra configuração moral e jurídica ao fracasso no compromisso sacerdotal, retirando o caráter de deserção que teve em outra época.

Um altíssimo personagem da Cúria Romana, a quem correspondia por ofício lidar com tais práticas, confessou-me como essas reduções ao estado laical, que entre 1964 e 1978 se deram anualmente aos milhares, eram há tempos tão incomuns, que muitos (inclusive no clero) ignoravam até a existência de tal instituição canônica.

Da Tabularum statisticarum collectio de 1969 e do Annuarium statisticum Ecclesiae de 1976 editado pela Secretaria de Estado tomamos conhecimento de que nesses sete anos, no orbe católico, os sacerdotes diminuíram de quatrocentos e treze mil para trezentos e quarenta e três mil, e os religiosos de duzentos e oito mil para cento e sessenta e cinco mil.

Do mesmo Annuarium statisticum de 1978 se deduz que os abandonos foram de três mil, seiscentos e noventa em 1973, e de dois mil e trinta e sete em 1978.

As dispensas cessaram quase totalmente a partir de outubro de 1978, por ordem de João Paulo II [4].

Apesar das defecções terem dizimado as tropas, a verdadeira gravidade do fato reside na legitimação recebida através daquela abundante generosidade da dispensa.

O direito canônico (can. 211-4) estabelecia que para a redução ao estado laical o clérigo perde ofícios, benefícios e privilégios clericais, mas permanece obrigado a guardar o celibato.

Desta obrigação se livram (can. 214) somente aqueles de quem se demonstre a invalidez da ordenação por falta de consentimento. Porém, dá a impressão de que a jurisprudência atual da Santa Sé não deduz a falta de consentimento a partir das disposições do sujeito no momento da ordenação, mas a partir das posteriores experiências de incapacidade ou de descontentamento moral desdobradas na vida do sacerdote já ordenado.

É o critério que os tribunais diocesanos dos Estados Unidos tentaram introduzir nas causas de nulidade matrimonial, sendo reprovado e interrompido por Paulo VI em 1977. Seguindo tal critério, o fato mesmo de que um sacerdote peça em um momento de sua vida retornar ao estado laical se converte em prova de que, já no momento em que se comprometeu, era imaturo e incapaz de um consentimento válido.

Fica também excluída a convalidação do consentimento inválido prevista pelo can. 214, que impediria a concessão da dispensa. Nisso, como na jurisprudência dos tribunais americanos, existe tanto um rechaço velado do valor que todo ato moral individual possui perante o caráter absoluto da lei, como uma adoção não confessada do principio da globalidade (§§ 201-203). Ficam exonerados de responsabilidade os momentos pontuais da vontade, para dela revestir seu conjunto.

Possivelmente, a diminuição das vocações sacerdotais (assim como o crescimento das defecções) depende, em suas razões mais profundas, desta frivolização do compromisso, que arrebata do sacerdócio esse caráter de totalidade e de perpetuidade que satisfaz (apesar dos momentos amargos e difíceis) à parte mais nobre da natureza humana.

Como disse João Paulo II, estas defecções são “um anti-sinal e um anti-testemunho, que estão entre os motivos do retrocesso das grandes esperanças de nova vida que brotaram na Igreja do Concílio Vaticano II” (OR, 20 de maio de 1979).

A crise do clero deu lugar a explicações apoiadas no habitual non causas pro causis, argumentando com o sociológico e o psicológico, em vez da moral. A etiologia do fenômeno é eminentemente espiritual e afeta uma ordem dupla.

Em primeiro lugar, do ponto de vista natural, existe um rebaixamento do valor da liberdade, considerada incapaz de vincular-se de modo absoluto a coisa alguma, e, pelo contrário, capaz de desfazer qualquer atadura. Como é fácil compreender, estamos diante de algo idêntico ou análogo ao caso do divórcio. Também este se fundamenta na impossibilidade da liberdade humana em vincular-se a si mesma incondicionalmente: isto é, baseia-se na negação do absoluto.

Em segundo lugar, do ponto de vista sobrenatural (além do enfraquecimento da liberdade como virtude que absolutiza os propósitos e situa o homem em uma indefectível coerência), há uma deficiência da fé: uma dúvida acerca desse absoluto a que se dedica o sacerdote e ao qual não há dedicação autêntica se não é de iure absoluta.

Esta   deficiência, que poderia corrigir-se ou ser corrigida, acaba, todavia, reforçada, por conta da dispensa outorgada pelo autoridade suprema. Cai-se em um círculo vicioso, onde se crê negar a liberdade por uma insistência no absoluto, quando, de fato, este último é precisamente o que é necessário para uma se alcançar uma liberdade madura.

Tal praxe indulgente e generosa causava escândalo em si mesma como sintoma de debilidade moral e de um decadente sentido da dignidade pessoal, e também ao compará-la com a condição dos leigos, ligados pela indissolubilidade do matrimônio; por isso foi rapidamente interrompida por João Paulo II.

Ademais, a Congregação para a Doutrina da Fé, em um documento comum datado de 14 de outubro de 1980 e publicado em «Documentation catholique» (n. 566, outubro de 1980) e em «Esprit et vie» (1981, p. 77), promulgou uma disciplina restritiva que reduz a somente a dois pontos os motivos de dispensa: a falta de consentimento no ato da ordenação, e o erro do Superior na admissão a ela.


[1] No Annuarium statisticum de 1980 se avalia uma diminuição da tendência regressiva e algum sinal de recuperação do número de sacerdotes. A proporção das ordenações sacerdotais subiu de 1,40 para 1,41 para cada cem sacerdotes. As defecções estacionaram. No entanto, o número de sacerdotes no orbe católico decresceu durante o ano em 0,6%. Religiosos e religiosas continuam diminuindo, porém, mais as religiosas (comum a proporção negativa de 1,4%, contra 1,1% do ano anterior). Em geral, a queda é própria da Europa e o aumento da África (OR, 28 de maio de 1982).

[2] PAUL CHRISTOMF., Les choix du clergédans les Révolutions de 1789, 1830 e 1848, Lille 1975, t. 1, p.

[3] A novidade consiste na participação da hierarquia no movimento contrário ao celibato. Disse o Cardeal LÉGER, por exemplo: “É lícito questionar-se se não seria possível reconsiderar esta instituição” (ICI, n. 279, p. 40, 1 de janeiro de 1967).

[4] A decisão do Papa Wojtyla foi vivamente censurada pelos inovadores. Vide, por exemplo, a entrevista concedida por HORST HERRMANN, professor de direito canônico ao semanário «Der Spiegel» de 6 de outubro de 1981: “Por que temos que continuar fazendo parte de um grupo de homens que traem continuamente o Evangelho do Amor?”

Romano Amerio, Iota Unum – Sarto House, 5. ed., 2004, pp. 179-184.

Tradução: Fratres in Unum.com

30 novembro, 2009

Dois aniversários, uma profissão de fé.

Há exatos 40 anos, no dia 30 de novembro de 1969, entrava em vigor o Novus Ordo Missae de Paulo VI. Ele, cuja adoção não fora “deixada certamente ao arbítrio dos padres ou os fiéis”, viria de maneira avassaladora “substituir o antigo [ordo], após madura deliberação, depois das instâncias do Concílio Vaticano II” (Paulo VI, alocução ao consistório para nomeação de vinte cardeais, 24 de maio de 1976).

Há 35 anos, em 21 de novembro de 1974, Dom Marcel Lefebvre publicava uma declaração que muitos à época chamariam de “auto-condenação”. Nela, o arcebispo fazia sua profissão de fé católica e denunciava as novidades que “contribuíram, e continuam contribuindo, para a demolição da Igreja”.

* * *

‹‹ Neste dia de aniversário, é bom se recordar da declaração de Mons. Lefebvre de 21 de novembro de 1974, para a reler. Apesar de pressões diversas de amigos, professores, de seu próprio corpo docente de Ecône, apesar da incrível pressão em Roma dos Cardeais Tabéra, Wright, Garonne, apesar da pressão de Mons. Bennelli, substituto da Secretaria de Estado, apesar da pressão do Cardeal Villot, Secretário de Estado, apesar do risco de supressão da sua Fraternidade, que foi realizada por Mons. Mamis, bispo de Friburgo, sucessor de Mons. Charrière, Mons. Lefebvre jamais mudou um ïota. Bela força de alma! Bela convicção! Belo amor à verdade! Deve-se sacrificar tudo por ela!

Ela [a declaração] é sempre a minha “carta”, ainda que eu constate com alegria que Roma dá, pouco a pouco, sob o pontificado de Bento XVI, “um franco golpe em favor” de sua Tradição ›› .

Pe. Paul Aulagnier, La Revue Item

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Nós aderimos, de todo o coração…

Nós aderimos de todo o coração e com toda a nossa alma à Roma católica, guardiã da fé católica e das tradições necessárias para a manutenção dessa fé, à Roma eterna, mestra de sabedoria e de verdade.

Pelo contrário, negamo-nos e sempre nos temos negado a seguir a Roma de tendência neomodernista e neoprotestante que se manifestou claramente no Concílio Vaticano II, e depois do Concílio em todas as reformas que dele surgiram.

Todas estas reformas, com efeito, contribuíram, e continuam contribuindo, para a demolição da Igreja, a ruína do sacerdócio, a destruição do Sacrifício e dos Sacramentos, a desaparição da vida religiosa, e a implantação de um ensino naturalista e teilhardiano nas universidades, nos seminários e na catequese, um ensino surgido do liberalismo e do protestantismo, condenados múltiplas vezes pelo magistério solene da Igreja.

Nenhuma autoridade, nem sequer a mais alta na hierarquia, pode obrigar-nos a abandonar ou a diminuir a nossa fé católica, claramente expressa e professada pelo magistério da Igreja há dezenove séculos.

‘Se ocorresse – disse São Paulo – que eu mesmo ou um anjo do céu vos ensinasse outra coisa distinta do que eu vos ensinei, seja anátema’ (Gal. 1, 8).

Não é isto o que nos repete hoje o Santo Padre? E se se manifesta uma certa contradição nas suas palavras e nos seus atos, assim como nos atos dos dicastérios, então elegeremos o que sempre foi ensinado e seremos surdos ante as novidades destruidoras da Igreja.

Não se pode modificar profundamente a lex orandi (lei da oração, liturgia) sem modificar a lex credendi (lei da Fé, doutrina, magistério). À Missa nova corresponde catecismo novo, sacerdócio novo, seminários novos, universidades novas, uma Igreja carismática e pentecostalista, coisas todas opostas à ortodoxia e ao magistério de sempre.

Esta Reforma, por ter surgido do liberalismo e do modernismo, está completamente empeçonhada, surge da heresia e acaba na heresia, ainda que todos os seus atos não sejam formalmente heréticos. É, pois, impossível para todo o católico consciente e fiel adotar esta reforma e submeter-se a ela de qualquer modo que seja.

A única atitude de fidelidade à Igreja e à doutrina católica, para bem da nossa salvação, é uma negativa categórica à aceitação da Reforma.

E por isso, sem nenhuma rebelião, sem amargura alguma e sem nenhum ressentimento, prosseguimos a nossa obra de formação sacerdotal à luz do magistério de sempre, convencidos de que não podemos prestar maior serviço à Santa Igreja Católica, ao Soberano Pontífice e às gerações futuras.

Por isso, cingimo-nos com firmeza a tudo o que foi crido e praticado na fé, costumes, culto, ensino do catecismo, formação do sacerdote e instituição da Igreja, pela Igreja de sempre, e codificado nos livros publicados antes da influência modernista do Concílio, à espera de que a verdadeira luz da Tradição dissipe as trevas que obscurecem o céu da Roma eterna.

Fazendo assim, com a graça de Deus, o socorro da Virgem Maria, de São José e de São Pio X, estamos convictos de permanecer fiéis à Igreja Católica e Romana e a todos os sucessores de Pedro, e de ser os ‘fideles dispensatores mysteriorum Domini Nostri Jesu Christi in Spiritu Sancto’. Amem. (cf. I Cor. 4, 1 e ss.)”

+ Marcel Lefebvre

21 de novembro de 1974

Fonte: FSSPX – Brasil

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História.

Em 26 de março de 1974, um encontro foi realizado em Roma para discutir a Fraternidade Sacerdotal São Pio X e sua principal fundação, o seminário em Ecône.

Presentes neste encontro estiveram o Cardeal Garrone, Prefeito da Congregação para a Educação Católica; o Cardeal Wright, Prefeito da Congregação para o Clero; Mons. Mayer, secretário da Congregação para os Religiosos; Mons. Mamie, Bispo de Lausanne, Genebra e Friburgo — a diocese na qual a Fraternidade primeiro obteve sua autorização canônica; Mons. Adam, bispo de Sion — a diocese na qual Ecône está localizada. Foi decidido que um relatório sobre a Fraternidade e o Seminário deveria ser compilado.

Com surpreendente rapidez o relatório pedido foi despachado em quatro dias, em 30 de março de 1974. Foi redigido por Mons. Perroud, vigário geral da diocese de Lausanne, Genebra e Friburgo. Este relatório, acompanhado por uma carta de Dom Mamie, foi enviado ao Cardeal Garrone.

Em 30 de abril de 1974, Mons. Lefebvre e Mons. Mamie se encontraram em Friburgo.

Em meados de junho de 1974, supostamente o Papa Paulo VI teria convocado uma Comissão ad hoc de Cardeais. Conquanto não seja possível afirmar com certeza que isso é falso, é certo que o documento convocando a Comissão nunca foi feito. Como será demonstrado posteriormente, este documento era um dos ítens que o defensor de Mons. Lefebvre teria solicitado ver não tivesse a apelação do Arcebispo sido barrada. Não seria exagero presumir que uma razão pela qual fora negado ao Arcebispo o devido processo legal tenha sido que um número de sérias irregularidades foram trazidas à luz.  Isso dificilmente pode ser uma coincidência em vista das críticas levantadas pela legalidade duvidosa dos procedimentos contra Mons. Lefebvre, que quando uma Comissão de Cardeal foi convocada para examinar o caso do pe. Louis Coache, um sacerdote tradicionalista que foi removido de sua paróquia por sua defesa da Missa e do catecismo tradicionais, grande cuidado foi tomado para não deixar brechas legais. […]

Em 23 de junho de 1974, a Comissão de Cardeais se reuniu e decidiu por uma visitação canônica ao Seminário.

A Visitação Apostólica do Seminário de Ecône ocorreu de 11 a 13 de novembro de 1974. Os dois visitadores eram belgas: Mons. Descamps, um biblista, e Mons. Onclin, um canonista. A Visitação Apostólica foi conduzida com grande eficácia. Professores e estudantes eram submetidos a questões agudas e detalhadas a respeito de todos os aspectos da vida do seminário. De todo modo, considerável escândalo foi causado pelas opiniões que os dois visitadores romanos expressaram na presença dos estudantes e professores. Pois, conforme Mons. Lefebvre, estes dois visitadores consideravam normal e de fato inevitável que houvesse um clero casado; eles não acreditavam na existência de uma Verdade imutável; também tinham dúvidas sobre o conceito tradicional da Ressurreição de Nosso Senhor.

Em 21 de novembro de 1974, em reação ao escândalo causado por estas opiniões dos Visitadores Apostólicos, Mons. Lefebvre considerou necessário esclarecer onde ele se mantinha em relação àquela Roma representada por esta disposição de idéias. “Essa”, disse ele, “foi a origem de minha Declaração que, é verdade, foi redigida indubitavelmente num espírito de excessiva indignação”.

Nesta Declaração ele rejeitava as posições expressas pelos Visitadores, mesmo se elas eram atualmente aceitáveis àquela Roma que os Visitadores representavam oficialmente.

Nesta Declaração ele afirmava:

…nós negamos… e sempre nos temos negado a seguir a Roma de tendência Neomodernista e Neoprotestante…

Nenhuma autoridade, nem sequer a mais alta na hierarquia, pode obrigar-nos a abandonar ou a diminuir a nossa fé católica, claramente expressa e professada pelo magistério da Igreja há dezenove séculos.

É difícil ver como qualquer Católico ortodoxo possa eventualmente discordar de Mons. Lefebvre a este respeito. É ainda mais significante, então, que a Comissão de Cardeais posteriormente tenha afirmado que a Declaração “parece-nos inaceitável em todos os pontos”.

Também é importante notar que esta Declaração não era pretendida como uma declaração pública, para não se falar numa espécie de Manifesto desafiando a Santa Sé. Se pretendia que fosse uma declaração privada apenas para benefício dos membros da Fraternidade São Pio X.

Contudo, a declaração vazou sem a permissão de Mons. Lefebvre, e porque o texto, ou extratos dele, estavam sendo usados de maneira à qual ele não poderia fechar os olhos, ele autorizou Itinéraires a publicar na íntegra o texto original francês em janeiro de 1975. Uma tradução inglesa desta Declaração foi publicada em Approaches 42-3 e The Remmant de 6 de fevereiro de 1975.

É particularmente significante que a Comissão de Cardeais tenha persitentemente se recusado a ver esta Declaração no contexto de sua origem: como uma reação privada de justa indignação ao escândalo ocasionado pelas posições propagadas pelos dois Visitadores Apostólicos que foram enviados a Ecône pela Comissão de Cardeais.

Apologia Pro Marcel Lefebvre, Michael Davies, vol. I, cap. IV – A campanha contra Ecône.