Archive for ‘Igreja’

20 janeiro, 2017

Uma demissão, uma demolição: eis a nova Cúria Romana.

IHU – A reforma da Cúria vaticana que o Papa Francisco está implementando é realizada em parte sob a luz do sol e em parte na sombra. Entre os procedimentos tomados recentemente na sombra, há dois emblemáticos.

A nota é de Sandro Magister, publicada no seu blog Settimo Cielo, 11-01-2017. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Sobre o primeiro, quem levantou o véu foi o vaticanista Marco Tosatti, no dia 26 de dezembro, quando deu a notícia da ordem dada pelo papa a um chefe de dicastério de demitir imediatamente três dos seus oficiais, ordem dada sem explicações e sem aceitar objeções.

Hoje, sabe-se que o dicastério em questão não é de segunda categoria, é a Congregação para a Doutrina da Fé. E os três demitidos gozavam da plena apreciação do seu prefeito, o cardeal Gerhard L. Müller, por sua vez objeto de repetidos atos de humilhação, em público, por parte do papa.

Mas quem é, dos três depostos, o oficial que Francisco em pessoa – como relatado por Tosatti – repreendeu duramente por telefone por ter expressado críticas contra ele, que chegaram aos ouvidos do papa por obra de um delator?

É o sacerdote Christophe J. Kruijen, 46 anos, holandês, em serviço na Congregação para a Doutrina da Fé desde 2009, teólogo de reconhecido valor, premiado em 2010 pela Embaixada de França junto à Santa Sé com o prestigiado Prix Henri De Lubac, conferido a ele por unanimidade por um júri que incluía os cardeais Georges Cottier, Albert Vanhoye e Paul Poupard, pela sua tese teológica intitulada “Salvação universal ou duplo êxito do juízo: esperar por todos? Contribuição ao estudo crítico de uma opinião teológica contemporânea relativa à realização da condenação”, defendida na Pontifícia Universidade São Tomás de Aquino, sob a orientação do teólogo dominicano Charles Morerod, depois reitor da mesma universidade e hoje bispo de Lausanne, Genebra e Friburgo.

Os “novíssimos”, isto é, a morte, o juízo, o inferno, o paraíso, são o assunto preferido dos estudos de Kruijen. Mas dele também se aprecia um excelente ensaio sobre a filósofa judia e, depois, monja carmelita Edith Stein, morta em Auschwitz em 1942 e proclamada santa em 1998: “Bénie par la Croix. L’expiation dans l’oeuvre et la vie d’Edith Stein”.

Nos escritos e nos discursos públicos do Mons. Kruijen não há uma única palavra de crítica a Francisco. Mas bastou uma delação arrancada de uma conversa privada dele para fazê-lo cair em desgraça com o papa, que fez o machado cair.

Também disso é feita a reforma da Cúria, sob as ordens e com o estilo de Jorge Mario Bergoglio.

O segundo procedimento implementado na sombra diz respeito à Congregação para o Culto Divino, da qual é prefeito o cardeal Robert Sarah, ele também objeto de repetidas humilhações públicas por parte do papa e já condenado a presidir os escritórios e os homens que remam contra ele.

Dirigida pelo secretário da congregação, o arcebispo inglês Arthur Roche, foi instituída, por vontade de Francisco, dentro do dicastério, uma comissão cujo objetivo não é a correção das degenerações da reforma litúrgica pós-conciliar – ou seja, aquela “reforma da reforma” que é o sonho do cardeal Sarah –, mas precisamente o contrário: a demolição de um dos muros de resistência aos excessos dos liturgistas pós-conciliares, a instrução Liturgiam authenticam, emitida em 2001, que fixa os critérios para a tradução dos textos litúrgicos do latim às línguas modernas.

Com Bento XVI, esses critérios foram ainda mais reforçados, em particular pela vontade daquele papa de manter firme o “pro multis” do Evangelho e do missal latino nas palavras da consagração do sangue de Cristo, contra o “por todos” de muitas traduções correntes.

Mas Francisco deixou logo claro que isso o deixava indiferente. E agora, com a instituição dessa comissão, ele vai ao encontro das ideias de modernização da linguagem litúrgica, defendidas, por exemplo, pelo liturgista Andrea Grillo, professor do Pontifício Ateneu Sant’Anselmo e muito apreciado na Casa Santa Marta:

Há quem tema que, depois da demolição da Liturgiam authenticam, o próximo objetivo dessa ou de outra comissão seja a correção do Summorum pontificum, o documento com que Bento XVI liberou a celebração da missa no rito antigo.

19 janeiro, 2017

A propósito da desconcertante participação do abortista Paul Ehrlich em um evento do Vaticano.

Por Prof. João Cláudio | FratresInUnum.com

A propósito da desconcertante participação do abortista Paul Ehrlich em um evento do Vaticano, e do ainda mais assustador silêncio dos papólatras de plantão.

Stefano Gennarini, discípulo de Joseph Ratzinger, responsável pela região Veneto, na Itália, do movimento Caminho Neocatecumenal e diretor do Centro de Estudos Jurídicos do Centro para a Família e os Direitos Humanos  (C-Fam), declarou estar “chocado” com o convite, que, de fato, concede um “imprimatur moral do Vaticano ” às teses de Ehrich sobre o uso do aborto seletivo e do infanticídio como métodos de redução demográfica.

Há em ato uma indiscutível abertura do Vaticano a histerismos ambientalistas, ao relativismo moral sob várias frentes e ao pensamento neomarxista, visível em palavras, atos e silêncios de Sua Santidade, o Papa Francisco; na escolha de seus colaboradores mais próximos, nas nomeações e demissões em institutos ligados mais diretamente à proteção da vida e da família  — que agora têm uma maioria de prelados e leigos de dúbia reputação.

No Vaticano, os elementos mais heterodoxos e debochados, mantidos de rédeas curtas nos papados anteriores, estão à solta. Os que se mantêm fiéis à Igreja, ou foram já dispensados ou estão acuados. Em geral, há um clima difuso de silêncio e terror, como contraponto ao marketing da “misericórdia” e da “tolerância” que se quer vender para a mídia mainstream  para os mais desavisados.

Há em Roma um inegável processo de autodemolição da fé e da moral perenes do Catolicismo.

O que fazer?

Rezar por Roma e pelo nosso Papa. Sem dúvida. Como sempre.

Rezar para que Deus tenha compaixão da sua Igreja e afaste de nós as pragas da heresia e da apostasia.

Apontar sem medo os atentados perpetrados a dano do tesouro perene da Igreja, daquilo que não pode ser modificado em hipótese alguma: Fé e Moral. Indicar, sem receio e sem falsas subserviências, os autores sempre mais ousados e apressados desta obra demoníaca de desmantelamento da última fortaleza contra a cultura da morte, prestes a tomar conta definitivamente desta geração.

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16 janeiro, 2017

Cardeal Caffarra: “Somente um cego pode negar que haja uma grande confusão”.

Abaixo, FratresInUnum.com publica uma importantíssima entrevista do Cardeal Carlo Cafarra, arcebispo emérito de Bologna e atualmente uma das maiores autoridades em Teologia Moral, acerca dos dubia recentemente apresentados ao Papa Francisco. Pedimos aos nossos leitores que leiam atentamente e, para o bem da Igreja, divulguem essa entrevista. Diante das retaliações esboçadas contra o Cardeal Burke, Cafarra vem a público mostrar que o tema não é a conduta pessoal desse ou daquele cardeal, mas as contradições de Amoris Laetitia. De certo modo, ele devolve o tema ao debate, e num nível muito elevado. É realmente confortante podermos ler declarações tão lúcidas, nas quais se sente o seu amor à Igreja, a sua fidelidade à doutrina, a sua retidão de consciência e a serenidade de quem sabe estar cumprindo um dever. São palavras dignas de um bispo da Igreja!

* * *

Entrevista com Cardeal Caffarra: “A divisão entre os pastores é a causa da carta que enviamos a Francisco. Não o seu efeito. Insultos e ameaças de sanções canônicas são coisas indignas”. “Uma Igreja com pouca atenção à doutrina não é mais pastoral, é apenas mais ignorante”.

Por Matteo Matzuzzi, Il Foglio, 14 de janeiro de 2017 | Tradução: FratresInUnum.com

Bolonha. “Creio que devam ser esclarecidas diversas coisas. A carta, – e os dubia anexos –, foi longamente refletida, durante meses, e longamente discutida entre nós. Pelo que me diz respeito, foi também objeto de longas orações diante do Santíssimo Sacramento”. O cardeal Carlo Caffarra coloca estas premissas, antes de iniciar a longa conversa com ‘Il Foglio’, sobre a hoje célebre carta “dos quatro cardeais”, enviada ao Papa para pedir-lhe esclarecimentos em relação a Amoris Laetitia, a exortação que tirou as conclusões do duplo Sínodo sobre a família e que tanto debate, — nem sempre com nobreza e elegância —, desencadeou dentro e fora dos muros vaticanos.

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“Estávamos conscientes de que o gesto que estávamos realizando era muito sério. As nossas preocupações eram duas. A primeira era a de não escandalizar os pequenos na fé. Para nós, pastores, este é um dever fundamental. A segunda preocupação era que nenhuma pessoa, crente ou não crente, pudesse encontrar na carta expressões que, mesmo remotamente, parecessem ainda que uma mínima falta de respeito para com o Papa. O texto final, portanto, foi fruto de diversas revisões: textos revisados, rejeitados, corrigidos”. Colocadas estas premissas, Caffarra entra no assunto.

“O que nos levou a este gesto? Uma consideração de caráter geral-estrutural e outra de caráter contingente-conjuntural. Comecemos com a primeira. Existe para nós, cardeais, o grave dever de aconselhar o Papa no governo da Igreja. É um dever, e os deveres obrigam. Há também o fato,  de caráter mais contingente, — que somente um cego pode negar —, que na Igreja existe uma grande confusão, incerteza, insegurança, causada por alguns parágrafos da Amoris Laetitia. O que está acontecendo nos últimos meses é que, sobre as mesmas questões fundamentais em relação à economia sacramental (matrimônio, confissão e Eucaristia) e a vida cristã, alguns bispos disseram A, outros disseram o contrário de A. Com a intenção de bem interpretar os mesmos textos”.

E “este é um fato, inegável, porque os fatos são teimosos, como dizia David Hume. O caminho de saída deste ‘conflito de interpretações’ seria o recurso aos critérios interpretativos teológicos fundamentais, utilizando os quais penso ser possível mostrar razoavelmente que Amoris Laetitia não contradiz a Familiaris Consortio. Pessoalmente, nos encontros públicos com leigos e sacerdotes, sempre segui este caminho”. Não foi suficiente, observa o arcebispo de Bolonha. “Entendemos que este modelo epistemológico não era suficiente. O contraste entre estas duas interpretações continuava. Havia um único modo para resolvê-lo: pedir ao autor do texto, interpretado de duas maneiras contraditórias, qual é a interpretação correta. Não há outro caminho. Colocava-se, em seguida, o problema sobre o modo pelo qual dirigir-se ao Pontífice. Escolhemos um caminho muito tradicional na Igreja, os assim chamados ‘dubia’”.

Por que? “Porque tratava-se de um instrumento pelo qual, caso o Santo Padre, segundo o seu soberano julgamento, tivesse querido responder, não seria obrigado a respostas elaboradas e longas. Deveria responder apenas ‘Sim’ ou ‘Não’. E remeter, como frequentemente os Papas o fizeram, aos autores de comprovado saber (em latim, ‘probati auctores‘), ou pedir à Doutrina da Fé que publicasse uma declaração adicional pela qual fosse explicado o ‘Sim’ ou o ‘Não’.  Parecia-nos o caminho mais simples. A outra questão que se colocava era se isto deveria ser feito privada ou publicamente. Refletimos e concordamos que teria sido uma falta de respeito tornar tudo público desde o início. Assim, o fizemos de modo privado, e somente quando tivemos a certeza que o Santo Padre não teria respondido, decidimos publicar”.

Este é um dos pontos sobre os quais mais se discutiu, e que deram origem a polêmicas relacionadas. Por último, veio o cardeal Gerhard Ludwig Müller, prefeito do ex Santo Ofício, que julgou como um erro a publicação da carta. Caffarra explica. “Interpretamos o silêncio como autorização para prosseguir o debate teológico. E, ademais, o problema envolve tão profundamente tanto o magistério dos bispos, (que, não esqueçamos, o exercem não por delegação do Papa, mas pelo próprio sacramento que receberam), como a vida dos fiéis. Uns e outros têm o direito de saber. Muitos fiéis e sacerdotes diziam: ‘mas os senhores cardeais, em uma situação como esta, têm o dever de intervir junto ao Santo Padre; senão, para que existem, se não ajudam o Papa em questões tão graves?’ Começava a produzir-se o escândalo de muitos fiéis, como se nós estivéssemos nos comportando como os cães que não ladram, dos quais fala o Profeta. Isto é o que há por trás daquelas duas páginas”.

Mesmo assim, as críticas choveram, inclusive de irmãos bispos ou monsenhores de cúria: “Algumas pessoas continuam a dizer que nós não somos dóceis ao magistério do Papa. É falso e calunioso. É exatamente porque não queremos ser indóceis que escrevemos ao Papa. Eu posso ser dócil ao magistério do Papa se sei o que o Papa ensina em matéria de fé e de vida cristã. Mas o problema é exatamente este: que sobre alguns pontos fundamentais não se entende bem o que o Papa ensina, como o demonstra o conflito de interpretações entre os bispos. Nós queremos ser dóceis ao magistério do Papa, mas o magistério do Papa deve ser claro. Nenhum de nós, — diz o arcebispo de Bolonha —, quis ‘obrigar’ o Santo Padre a responder: na carta falamos de soberano julgamento. Simples e respeitosamente fizemos perguntas. Finalmente, não merecem atenção as acusações de querermos dividir a Igreja. A divisão, já existente na Igreja, é a causa da carta, não o seu efeito. São, ao contrário, coisas indignas dentro da Igreja, sobretudo em um contexto como este, os insultos e as ameaças de sanções canônicas”. Na introdução da carta reconhecemos “uma grave perplexidade de muitos fiéis e uma grande confusão sobre questões muito importantes para a vida da Igreja”.

Em que consistem, especificamente, a confusão e a perplexidade? Responde Caffarra: “Recebi uma carta de um pároco que é uma fotografia perfeita do que está acontecendo. Escrevia ele: ‘Na direção espiritual e na confissão não sei mais o que dizer. Quando um penitente me diz: vivo, para todos os efeitos, como marido com uma mulher que é divorciada e agora estou comungando; eu lhe proponho um caminho para corrigir esta situação. Mas o penitente me detém e logo responde: ouça, padre, o Papa disse que posso receber a Eucaristia, sem precisar fazer o propósito de viver em continência. Eu não posso suportar mais esta situação. A Igreja pode me pedir tudo, mas não que eu traia a minha consciência. E a minha consciência tem objeções a um suposto ensinamento pontifício de permitir a Eucaristia para quem vive como marido e mulher, sem ser casado’. Assim escrevia o pároco. A situação de muitos pastores de almas, refiro-me sobretudo aos párocos, — observa o cardeal —, é esta: têm sobre os ombros um peso que não estão em condições de suportar. É nisso que penso quando falo de uma grande perplexidade. Falo dos párocos, mas muitos fiéis estão ainda mais perplexos. Estamos falando de questões que não são secundárias. Não estamos discutindo se o peixe quebra ou não quebra a abstinência. Trata-se de questões gravíssimas para a vida da Igreja e para a salvação eterna dos fiéis. Não devemos esquecer nunca que esta é a lei suprema da Igreja, a salvação eterna dos fiéis. Não outras preocupações. Jesus fundou a sua Igreja para que os fiéis tenha a vida eterna, e a tenham em abundância”.

A divisão a que se refere o cardeal Carlo Caffarra originou-se principalmente por causa da interpretação dos parágrafos de Amoris Laetitia que vão do número 300 ao 305. Para muitos, inclusive diversos bispos, encontramos aqui a confirmação de uma ruptura, não apenas pastoral, como também, e sobretudo, doutrinal. Outros, ao contrário, pensam que tudo está perfeitamente inserido e em conformidade com o magistério precedente. Como se pode sair de semelhante equívoco? “Colocaria duas premissas muito importantes. Pensar em uma práxis pastoral não fundamentada e enraizada na doutrina significa fundamentar e enraizar a práxis pastoral sobre o arbítrio. Uma Igreja com pouca atenção à doutrina não é uma Igreja mais pastoral, mas é uma Igreja mais ignorante. A Verdade da qual nós falamos não é uma verdade formal, mas uma Verdade que nos concede salvação eterna: ‘veritas salutaris‘, em termos teológicos. Explico. Existe uma verdade formal. Por exemplo, quero saber se o maior rio do mundo é o Rio Amazonas ou o Rio Nilo. Esta é uma verdade formal. Formal significa que este conhecimento não tem nenhuma relação com o meu modo de ser livre. Mesmo que a resposta tivesse sido a contrária, não teria mudado nada no meu modo de ser livre. Mas há verdades que eu chamo de existenciais. Se é verdade, — como Sócrates já havia ensinado —, que é melhor padecer a injustiça do que praticá-la, estou enunciando uma verdade que provoca a minha liberdade para agir de um modo muito diverso se fosse verdade o contrário. Quando a Igreja fala de verdade, — acrescenta Caffarra —, fala da verdade do segundo tipo, a qual, se é obedecida pela liberdade, gera a verdadeira vida. Quando ouço dizer que se trata apenas de uma mudança pastoral e não doutrinal, ou pensamos que o mandamento que proíbe o adultério seja uma lei puramente positiva que pode ser mudada, (e penso que nenhuma pessoa reta possa sustentar isto), ou isso significa admitir, sim, que o triângulo tem geralmente três lados, mas que existe também a possibilidade de construir algum que tenha quatro lados. Ou seja, estou dizendo um coisa absurda. Os medievais, além disso, diziam: “theoria sine praxi, currus sine axi; praxis sine theoria, caecus in via” (ndt: a teoria, sem a práxis, é como um carro sem eixo, que é o mesmo que dizer, sem rodas; a práxis, sem a teoria, é como um cego na estrada).

A segunda premissa que faz o arcebispo diz respeito “ao grande tema da evolução da doutrina, que sempre acompanhou o pensamento cristão. E que sabemos ter sido retomado de modo esplêndido pelo Beato John Henry Newman. Se há um ponto claro é que não há evolução onde há contradição. Se eu digo que ‘s’ é ‘p’ e depois digo que ‘s’ não é ‘p’, a segunda proposição não desenvolve a primeira, mas a contradiz. Aristóteles já havia justamente ensinado que ao se enunciar uma proposição universal afirmativa (por exemplo, todo adultério é injusto) e ao mesmo tempo uma proposição particular negativa tendo o mesmo sujeito e predicado (por exemplo, certos adultérios não são injustos), não se faz uma exceção à primeira. Mas a contradiz. Por fim, se quisesse definir a lógica da vida cristã, usaria a expressão de Kiekegaard: ‘Mover-se sempre, permanecendo sempre parado no mesmo ponto’”.

O problema, acrescenta o purpurado, “é ver se os famosos parágrafos nn. 300-305 de Amoris Laetitia e a famosa nota n.351 estão ou não estão em contradição com o magistério precedente dos Pontífices que enfrentaram a mesma questão. Segundo muitos bispos, estão em contradição. Segundo muitos outros bispos, não se trata de uma contradição, mas de um desenvolvimento. É por isso que pedimos uma resposta do Papa”. Chega, assim, ao ponto mais contestado e que tanto animou as discussões sinodais: a possibilidade de conceder aos divorciados e recasados civilmente a reaproximação à Eucaristia. Coisa que não encontra explicitamente espaço em Amoris Laetitia, mas que, segundo o juízo de muitos, é um fato implícito, que representa nada mais do que uma evolução em relação ao n. 84 da Exortação Familiaris Consortio, de João Paulo II.

“O problema no seu nó é o seguinte”, argumenta Cafarra: “O ministro da Eucaristia (em geral, o sacerdote) pode dar a Eucaristia a uma pessoa que vive more uxorio (ndt. como se fosse casada, isto é, tendo relações sexuais) com uma mulher ou com um homem que não é a sua mulher ou o seu marido, e não pretende viver em continência? As respostas são apenas duas: Sim ou Não. Ninguém, aliás, põe em questão que Familiaris consortio, Sacramentum unitatis, o Código de Direito Canônico e o Catecismo da Igreja Católica à esta pergunta respondam Não. Um Não válido, até que o fiel não proponha abandonar o estado de convivência more uxorio. Amoris Laetitia ensinou que, dadas certas circunstâncias precisas e realizado um certo percurso, o fiel poderia aproximar-se da Eucaristia sem se comprometer em viver a continência? Há bispos que ensinam que se pode. Por uma simples questão de lógica, se deveria, então, ensinar que o adultério não é um mal em si e por si. Não é pertinente apelar à ignorância ou ao erro em relação à indissolubilidade do matrimônio: um fato infelizmente muito difuso. Este apelo tem um valor interpretativo, não orientativo. Deve ser usado como método para discernir a imputabilidade das ações já realizadas, mas não pode ser princípio para ações a serem realizadas. O sacerdote – diz o cardeal – tem o dever de iluminar o ignorante e corrigir o errante”.

“Ao contrário, aquilo que Amoris Laetitia trouxe de novo sobre essa questão é a chamada aos pastores de alma de não se contentarem com responder Não (não se contentar, porém, não significa responder Sim), mas de tomar a pessoa pela mão e ajudá-la a crescer até o ponto que entenda que se encontra em uma tal condição que não pode receber a Eucaristia, se não cessar com as intimidades próprias dos esposos. Mas não é que o sacerdote possa dizer ‘ajudo o seu caminho dando-lhe os sacramentos’. E é sobre isso que, na nota n. 351, o texto é ambíguo. Se eu digo à pessoa que não pode ter relações sexuais com aquele que não é o seu marido ou a sua mulher, porém, no entanto, visto que isso é tão difícil, pode ter… apenas uma ao contrário de três por semana, não há sentido; e não uso de misericórdia para com essa pessoa. Porque, para pôr fim a um comportamento habitual – um habitus, diriam os teólogos – é necessário que haja o decidido propósito de não realizar nenhum ato próprio daquele comportamento. Há um progresso no bem, mas entre deixar o mal e iniciar a fazer o bem há uma escolha instantânea, mesmo que longamente preparada. Por um certo período, Agostinho rezava: ‘Senhor, dai-me a castidade, mas não já’”. A discorrer sobre os dúbia, parece-me compreender que, em jogo, mais do que Familiaris Consortio, esteja a Veritatis Splendor. É assim?

“Sim”, responde Carlo Cafarra. “Aqui está em questão aquilo que ensina a Veritatis Splendor. Esta Encíclica (6 de agosto de 1993) é um documento altamente doutrinal, nas intenções do Papa São João Paulo II, a tal ponto que – coisa excepcional atualmente nas encíclicas – é endereçada somente aos bispos, enquanto responsáveis da fé que se deve crer e viver (cf. n. 5). A estes, ao fim, o Papa recomenda serem vigilantes a respeito de doutrinas condenadas ou ensinadas pela própria encíclica. Aquelas, para que não se difundam na comunidade cristã, essas, para que sejam ensinadas (cf. n. 116). Um dos ensinamentos profundos do documento é que existem atos que podem ser por si mesmos e em si mesmos, prescindindo das circunstâncias em que são realizados e das intenções que o agente se propõe, qualificados como desonestos. E acrescenta que negar este fato pode levar a negar o sentido do martírio (cf. nn. 90-94). Cada mártir, de fato – sublinha o arcebispo emérito de Bolonha – poderia ter dito: ‘Mas eu me encontro em uma circunstância… em tais situações para as quais o dever grave de professar a minha fé ou de afirmar a intangibilidade de um bem moral não me obrigam mais’. Se pensarmos às dificuldades que Tomás More sofria por causa de sua esposa, na prisão: ‘tens deveres para com tua família, para com teus filhos’. Não é, então, apenas um discurso de fé. Mesmo usando apenas a reta razão vejo que, negando a existência de certos atos intrinsecamente desonestos, nego que exista um confim além do qual os poderosos deste mundo não podem e não devem ir. Sócrates foi o primeiro no ocidente a compreender isso. A questão, portanto, é grave, e sobre isso não se podem deixar incertezas. Por isso, nos permitimos pedir ao Papa para deixar claro, porque há bispos que parecem negar tal fato, fazendo referência a Amoris Laetitia. O adultério, de fato, sempre foi considerado entre os atos intrinsecamente maus. Basta ler o que diz Jesus a respeito, São Paulo e os mandamentos dados por Deus a Moisés”. Mas há ainda espaço, hoje, para os assim chamados atos “intrinsecamente maus”. Ou, talvez, é tempo de olhar mais o outro lado da balança, ao fato que tudo, diante de Deus, pode ser perdoado?

Atenção, diz Cafarra: “Aqui se faz uma grande confusão. Todos os pecados e as escolhas intrinsecamente desonestas podem ser perdoadas. Então, ‘intrinsecamente desonestos’ não significa ‘imperdoáveis’. Jesus, todavia, não se contenta em dizer à adúltera: ‘Nem eu te condeno’. Diz-lhe também: ‘Vai e, de agora em diante, não peques mais’ (Jo 8,10). São Tomás, inspirando-se em Santo Agostinho, faz um comentário belíssimo, quando escreve que ‘Teria podido dizer: vai, e vivas como queiras e estejas certa do meu perdão. Não obstante todos os teus pecados, eu te libertarei dos tormentos do inferno. Mas o Senhor, que não ama a culpa e não favorece o pecado, condena a culpa… dizendo: de agora em diante, não peques mais. Mostra-se, assim, como é terno o Senhor em sua misericórdia e justo na sua Verdade’ (cf. Comentário a João, 1139). Nós somos verdadeiramente – não é apenas um modo de dizer – livres diante do Senhor. E, então, o Senhor não nos joga seu perdão por trás de nossas costas. Deve haver um admirável e misterioso matrimônio entre a infinita misericórdia de Deus e a liberdade do homem, que se deve converter se quiser ser perdoado”.

Perguntamos ao cardeal Cafarra se uma certa confusão não deriva também da convicção, radicada também entre tantos pastores, de que a consciência seja uma faculdade para decidir autonomamente em relação àquilo que é o bem ou o mal, e que em última análise a palavra decisiva seja da consciência individual. “Considero este o ponto mais importante de todos”, responde. “É o lugar onde nos encontramos e desencontramos com a pilastra fundamental da modernidade. Comecemos por esclarecer a linguagem. A consciência não decide, porque ela é um ato da razão; a decisão é um ato da liberdade, da vontade. A consciência é um juízo em que o sujeito da proposição que o exprime é a escolha que estou para realizar ou que já realizei, e o predicado é a qualificação moral da escolha. É, então, um juízo, não uma decisão. Naturalmente, cada juízo racional se exercita à luz de critérios, de outro modo não seria um juízo, mas qualquer outra coisa. Critério é aquilo com base em que eu afirmo aquilo que afirmo ou nego aquilo que nego. A este ponto, é particularmente iluminante uma passagem do Tratado sobre a consciência moral do Beato Rosmini: ‘Há uma luz que está no homem e há uma luz que é o homem. A luz que está no homem é a lei da Verdade e a graça. A luz que é o homem é a reta consciência, porque o homem se torna luz quando participa da luz da lei da Verdade mediante a sua consciência conformada àquela luz’. Ora, diante dessa concepção da consciência moral se opõe a concepção que erige como tribunal inapelável da bondade ou malícia das próprias escolhas a própria subjetividade. Aqui, para mim – diz o purpurado – está o desencontro decisivo da visão da vida própria da Igreja (porque própria da divina Revelação) e a concepção da consciência própria da modernidade”.

“Quem viu isso de maneira lucidíssima – acrescenta – foi o Beato Newman. Na famosa carta ao Duque de Norfolk, diz: ‘A consciência é um vigário aborígene de Cristo. Um profeta nas suas informações, um monarca nas suas ordens, um sacerdote nas suas bênçãos e nos seus anátemas. Para o grande mundo da filosofia de hoje, estas palavras não são verbosidades vãs e estéreis, privadas de um significado concreto. Em nosso tempo, ferve uma guerra renhida, diria, quase uma espécie de conspiração contra os direitos da consciência’. Mais adiante, acrescenta que ‘em nome da consciência se destroem as verdadeiras consciências’. Eis porque, entre os cinco dúbia, o número cinco é o mais importante. Há uma passagem de Amoris Laetitia, no n. 303, que não está clara; parece – repito: parece – admitir a possibilidade de haver um juízo verdadeiro da consciência (não invencivelmente errôneo; isso sempre foi admitido pela Igreja) em contradição com aquilo que a Igreja ensina como atinente ao depósito da divina Revelação. Parece. E, por isso, apresentamos a dúvida ao Papa”.

“Newman – recorda Cafarra – diz que ‘se o Papa falasse contra a consciência, tomada no verdadeiro significado da palavra, cometeria um verdadeiro suicídio, cavaria uma fossa debaixo dos seus pés’. São coisas de uma gravidade alarmante. Não diga nunca a uma pessoa: ‘Siga sempre a tua consciência’, sem acrescentar, sempre e na mesma hora: ‘Ama e procura a verdade sobre o bem’. Colocaria em suas mãos a arma mais destrutiva da sua humanidade”.

13 janeiro, 2017

Desordem na Ordem de Malta.

A demissão, no mês passado, do grão-chanceler da ordem pelo grão-mestre, relacionada ao envolvimento da ordem na distribuição de contraceptivos artificiais, desencadeou um grave desentendimento com a Santa Sé. 

Por Edward Pentin, National Catholic Register, 7 de janeiro de 2017 | Tradução: FratresInUnum.com: A demissão de uma figura importante da Soberana Ordem de Malta relacionada com a distribuição em alguns países em desenvolvimento provocou um grave desentendimento entre os Cavaleiros de Malta e a Santa Sé, mas, que ambas as partes esperam ser rapidamente resolvido.

An Anglo-Polish Carol Service Takes Place At St Clement Danes ChurchA disputa, que levou a uma controversa intervenção da Santa Sé, expôs uma abordagem divergente quanto ao tratamento a ser dado a práticas que a Igreja sempre ensinou serem gravemente imorais. Também revelou alegações de ambição da associação alemã dos Cavaleiros em estender sua influencia dentro da antiga ordem de cavaleria, o desejo do papa de livrar a ordem da maçonaria e uma misteriosa doação de 120 milhões de francos suíços (US$ 118 milhões, cerca de R$ 413 milhões) aos Cavaleiros.

A Ordem Soberana e Militar de Malta é uma ordem religiosa leiga sediada em Roma e remonta à Primeira Cruzada. Defendeu extensamente a fé contra as perseguições e se dedicou a ajudar no cuidados dos pobres, doentes e vulneráveis, empregando um pessoal médico de cerca de 25 mil profissionais e 80 mil voluntários por todo o mundo. É considerada um sujeito soberano pelo direito internacional e tem relações diplomáticas com 106 países.

O Cardeal americano Raymond Burke é o cardeal patrono da ordem, cuja tarefa é promover as relações entre a Santa Sé e os Cavaleiros e manter o Santo Padre informado sobre os aspectos espirituais e religiosos da ordem.

A disputa em andamento, que o Secretário de Estado do Vaticano, Cardeal Pietro Parolin, descreveu como uma “crise sem precedentes”, primeiramente tornou-se pública após o grão-mestre dos Cavaleiros de Malta, Fra’ Matthew Festing, demitir Albrecht Freiherr von Boeselager do posto de grão-chanceler (o oficial de número três da ordem), em 6 de dezembro, acusando-o de ser, ao fim, o responsável pela distribuição de contraceptivos através da agência humanitária da ordem Malteser International.

Apesar de ter professado votos de obediência ao grão-mestre como Cavaleiro de Segunda Classe, o experiente Cavaleiro alemão se recusou a renunciar no encontro de 6 de dezembro, um ato de insubordinação que a ordem qualificou de “vergonhoso” e que provocou um “procedimento disciplinar” que suspendeu Boeselager de todos os encargos nos Cavaleiros de Malta, segundo uma declaração de 13 de dezembro. A constituição da Ordem de Malta afirma que a obediência na ordem requer a obrigação de executar qualquer instrução como legitimamente dada pelo superior, dependendo da motivação da instrução.

Preservativos distribuídos

A razão para a demissão de Boeselager remonta, primeiramente, a quando ele era o grande hospitalário de 1989 a 2014, responsável pela Malteser International, a grande agência de ajuda humanitária dos Cavaleiros sediada em 24 países. Durante seu mandato, a organização documentou ter distribuído milhares de preservativos e contraceptivos orais, principalmente, mas não exclusivamente, para ajudar a prevenir prostitutas, no Extremo Oriente e na África, de pegarem HIV/AIDS.

“Eles estavam distribuindo preservativos não só a pacientes, mas a trabalhadores em geral”, declarou uma fonte bem informada ao Register, sob condição de anonimato. “A motivação aparente era prevenir a difusão da AIDS, e então, em geral, enquanto programa de planejamento familiar, também — espaçamento de nascimentos e coisas do tipo, que dificilmente pode ser relacionado à AIDS”.

No fim de 2014, o grão-mestre tomou ciência do caso; e em maio de 2015, Fra’ Festing instituiu uma comissão de três pessoas para descobrir o que aconteceu. A comissão apresentou seus resultados em janeiro de 2016; o caso da distribuição de contraceptivos foi posteriormente catalogado pelo Instituto Lepanto, demonstrando que milhares de contraceptivos foram distribuídos entre 2015 e 2012.

Boeselager tinha ciência do caso há algum tempo e foi primeiramente informado dessa situação “ao menos desde 2013, quando detinha o posto de grande hospitalário, ou desde quando Malteser International ordenou uma avaliação abrangente de todos os projetos acerca de sua conformidade ao ensinamento da Igreja Católica”, declarou Eugenio Ajroldi di Robbiate, diretor de comunicação dos Cavaleiros de Malta. “Desde o fim de 2014 até dezembro de 2016, houve diversas ocasiões em que o grão-mestre e Albrecht Boeselager discutiram o assunto”.

O porta-voz ressaltou que a comissão “reconheceu o profissionalismo da Malterser Internacional e a importância de seus projetos em 24 países do mundo, ressaltando que os que geraram problemas morais estavam limitados a Myanmar, Quênia e Sudão do Sul”.

Boeselager responde

Em uma declaração de 23 de dezembro, Boeselager protestou que não havia bases válidas para renunciar e que o “procedimento estabelecido” para sua remoção não foi seguido. Ele também criticou uma instrução do grão-mestre, afirmando que sua diretriz de que membros que não concordassem de sua decisão deveriam renunciar “recordava um regime autoritário”.

Quanto ao assunto dos contraceptivos, o ex grão-chanceler afirmou que a distribuição de preservativos em Myanmar para prevenir a difusão da AIDS foi “iniciada em nível local” e “sem o conhecimento” da sede da Malteser International. Tão logo a ordem soube da distribuição de preservativos, dois dos projetos foram imediatamente paralisados. Um terceiro continuou, declarou ele, porque um fim abrupto teria privado uma região pobre de Myanmar de todos os serviços médicos básicos. Esse projeto, por fim, terminou após a Congregação para a Doutrina da Fé intervir.

Boeselager afirmou que ele sempre enfatizou “claramente” que sente-se “vinculado aos ensinamentos da Igreja” e que “maquinar uma acusação” de que ele não reconhece os ensinamentos da Igreja sobre sexualidade e família, com base nos acontecimentos em Myanmar, é “absurdo”.

Todavia, um membro austríaco da Malteser International continua a defender o uso de preservativos  para prevenir a infecção por HIV em seu website, muito embora a Igreja ensine que o uso de contraceptivos é “gravemente imoral” em qualquer circunstância.

Esperava-se que o escândalo dos contraceptivos fosse tratado em 10 de novembro, quando o Cardeal Burke foi recebido em audência privada pelo Papa Francisco. Durante o encontro, Register soube que o Papa ficou “profundamente perturbado” por aquilo que lhe contou o cardeal. O Papa também deixou claro ao Cardeal Burke que ele desejava que a maçonaria fosse “expelida” da ordem, e pediu ações apropriadas.

A preocupação se seguiu por uma carta de 1º de dezembro ao Cardeal Burke, na qual Register tomou conhecimento de que o Santo Padre enfatizou ao cardeal o dever de promover o interesse espiritual da ordem e de remover qualquer afiliação com grupos ou práticas contrários à lei moral.

O Santo Padre não pediu explicitamente na carta que Boeselager fosse demitido, e, contrariamente a matérias, o Cardeal Burke insistiu que ele nunca teria dito a Boeselager que o Papa pediu especificamente por sua demissão. Antes, fontes internas se empenharam por dizer que a liderança dos Cavaleiros não podia ver como a questão poderia ser retificada de outra forma, quando se envolvia grande escândalo e ninguém assumia a responsabilidade por isso. A liderança acreditava estar claro que Boeselager era o principal responsável pelo que aconteceu, especialmente quando, durante o encontro de 6 de dezembro, não deu resposta quando questionado sobre a razão de não ter formalmente protestado sobre a exatidão do relatório da comissão.

Uma fonte confiável também recorda que Boeselager afirmou em uma recepção em Roma, em 2014: “Temos de dar contraceptivos aos pobres ou eles morrerão”. Boeselager também, conforme relatos, não respondeu quando confrontado com esta afirmação no encontro de 6 de dezembro.

A liderança dos Cavaleiros, incluindo o Cardeal Burke, estavam convencidos que havia se dado uma grave violação da lei moral, e especialmente quando ela se estendeu por um período de tempo, as pessoas responsáveis tinham de ser disciplinadas; de outra forma, a instituição perderia sua credibilidade.

Boeselager não respondeu ao pedido do Register para comentar as questões relacionadas à sua demissão.

A intervenção do Cardeal Parolin

Após sua demissão, fontes internas afirmam que Boeselager foi ao Cardeal Parolin, erroneamente contando a ele que lhe foi dito pelo Cardeal Burke que o Papa o instruía a renunciar.

Porque ele via a situação como uma emergência, segundo as fontes, o Cardeal Parolin não verificou o que foi comunicado a Boeselager pelo Cardeal Burke antes de escrever uma carta, em 12 de dezembro, a Fra’ Festing em nome do Santo Padre. Nela, ele enfatizava que as “únicas instruções” do Papa foram aquelas dadas ao Cardeal Burke em sua carta de 1º de dezembro.

“Em particular, a respeito do uso e distribuição de métodos e meios contrários à lei moral, Sua Santidade pediu que o diálogo [ênfase dele] seja a abordagem usada para tratar e resolver potenciais problemas”, escreveu o Cardeal Parolin em sua carta. “Ele nunca mencionou, pelo contrário, expelir ninguém”. O Cardeal acrescentou que esperava que o diálogo fosse usado para “adiante encontrar uma forma prudente que seja vantajosa a todos”.

Em resposta, Fra’ Festing destacou que a decisão que ele havia tomado era “plenamente de acordo com as instruções” retransmitidas pelo Cardeal Burke e pediu por um encontro urgente com o Cardeal Parolin para encontrar um caminho a seguir. No encontro, o Cardeal Parolin disse que ele queria instituir uma comissão para investir os assuntos relacionados à demissão. O grão-mestre e a liderança dos Cavaleiros recusou tal comissão, principalmente por conta do status de soberania dos Cavaleiros que proíbe tal interferência em seu governo interno, segundo o direito internacional.

A liderança dos Cavaleiros ficou com a impressão de que o Cardeal Parolin havia voltado atrás com a idéia.

A Comissão de Inquérito

No entanto, em 22 de dezembro, o grão-mestre e o Cardeal Burke receberam uma carta do Vaticano, comunicando que uma comissão, ou grupo, havia sido estabelecido; que as instruções do Papa em sua carta de 1º de dezembro deveriam ser suspensas; e que nada mais deveria ser feito até que o recém formado grupo concluísse seu trabalho. O Vaticano também informou a mídia no mesmo dia, embora não através do boletim diário do Vaticano, mas, por um e-mail, que o grupo de cinco membros tinha por objetivo rapidamente obter informação sobre a disputa.

Questionado se queria compartilhar sua opinião a respeito, o Cardeal Burke declarou ao Register: “Não posso fazer qualquer comentário sobre essas decisões porque nunca fui consultado. Eu estava presente na demissão”. Mas, ele acrescentou que o que lhe preocupava “muitíssimo” em toda “infeliz reação à justa ação do grão-mestre era a perda de sentido do que estava em jogo, isto é, uma grave violação do ensino moral da Igreja e, de fato, da lei moral natural por uma proeminente e histórica instituição Católica”.

Os cinco membros da comissão de inquérito são o arcebispo Silvano Tomasi, antigo observador da Santa Sé nas Nações Unidas em Genebra; o padre jesuíta Gianfranco Ghirlanda, ex reitor da Pontifícia Universidade Gregoriana; Jacques de Liedekerke, advogado; Marc Odendall, um banqueiro de investimento; e Marwan Sehnaoui, presidente da Ordem de Malta no Líbano.

Exceto Padre Ghirlanda, todos os indicados do grupo são membros da ordem, e a maior parte são de aliados de Boeselager. Odendall é conhecido por ser particularmente apoiador de Boeselager, e o Arcebispo Tomasi é um bom amigo de Odendall, segundo fontes de dentro da ordem.

Ademais, Register soube que Odendall, Sehnaoui e o Arcebispo Tomasi estiveram relacionados com Boeselager quanto a uma herança enorme deixada para a ordem por um benfeitor residente na França, avaliada em ao menos 120 milhões de francos suíços (US$ 118 milhões, cerca de R$ 413 milhões). O Cardeal Parolin tem conhecimento da doação desde, ao menos, março de 2014.

O Secretário de Estado também é conhecido amigo de Boeselager, e, em 15 de dezembro, nomeou seu irmão, Georg Freiherr von Boeselager, como um dos três novos membros da conselho do IOR (Banco do Vaticano).

O Cardeal declinou responder a uma série de questões sobre a demissão de Boeselager e a comissão papal, dizendo ao Register, em 2 de janeiro, que “não era oportuno”.

A Ordem rejeita a Comissão.

Em uma carta de 3 de janeiro aos Cavaleiros, o novo chanceler da Ordem, Fra’ John Critien, insistiu que a ordem “não pode colaborar” com a comissão papal, não só por conta de sua “irrelevância jurídica” em relação ao sistema legal da ordem, mas, “acima de tudo”, a fim de “proteger suas prerrogativas soberanas contra iniciativas objetivamente destinadas a questionar ou limitar seu caráter soberano”. A ordem já publicamente declarou que tal “interferência” é “inaceitável”.

Ele, portanto, enfatizou que a não colaboração com a comissão se dá puramente por “motivações jurídicas” e “não é, e de forma alguma pode ser considerada uma falta de respeito para com a comissão em si, nem para com o Secretariado de Estado da Santa Sé”.

Apoiadores da comissão afirmaram que uma das principais razões de ela ter sido erigida era que as associações nacionais da Ordem de Malta apoiavam Boeselager. Isso não parece ser exato, como Register pôde ver em cartas de apoio ao grão-mestre de várias associações, incluindo Itália, Espanhoa, Portugal, México, Chile e Malta.

Em 4 de janeiro, o Arcebispo Tomasi respondeu à carta de Fra’ Critien, de 3 de janeiro, que ele afirmou “fazer algumas declarações cujas imprecisões geram equívocos” e “diretamente contradizem os desejos do Santo Padre”. Segundo o arcebispo, a questão relacionada à demissão de Boeselagar “não é só a soberania da ordem, mas a afirmação razoável de procedimentos questionáveis e de falta de causa provadamente válida para ação tomada”. Também, ele disse, “nunca houve um pedido de renúncia ou demissão de ninguém, da parte da Santa Sé e especificamente do Santo Padre”.

“Acerca do que Sua Excelência qualifica de irrelevância jurídica da comissão, os argumentos usados para substituir o grão-chanceler provocaram a sua ereção pelo Santo Padre, uma vez que a irregularidade inferida quanto ao procedimento profundamente dividiu a ordem”, declarou o Arcebispo Tomasi.

Procurando uma solução

Tanto a ordem como a Santa Sé estão empenhados em resolver rapidamente o problema, e apesar dos protestos das altas esferas da ordem, o Vaticano continua a ver a comissão papal, que se encontrou pela primeira vez em 5 de janeiro, como a melhor forma de encontrá-la.

Em comentários ao jornal italiano Il Messaggero, de 31 de dezembro, o Cardeal Parolin afirmou que a comissão “reuniria informação, e depois vamos ver”.

Este artigo é a primeira de duas partes. 

Edward Pentin é o correspondente do Register em Roma

12 janeiro, 2017

Quem quer destruir a Ordem de Malta?

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 11-01-2017 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.com“Muito antes que as Nações tivessem chegado a estabelecer uma lei internacional; muito antes que tivessem podido forjar o sonho – ainda não realizado – de uma força armada comum para proteção da sã liberdade humana, da independência dos povos e de uma pacífica equidade nas suas relações mútuas, a Ordem de São João já havia reunido em uma irmandade religiosa e sob a disciplina militar, homens de oito ‘línguas’ diferentes, votados à defesa dos valores espirituais, que constituem o apanágio comum da Cristandade:  a fé, a justiça, a ordem social e a paz.”

ordine-di-maltaEssas palavras, dirigidas em 8 de janeiro de 1940 pelo Papa Pio XII aos Cavaleiros da Soberana Ordem Militar de São João de Jerusalém, dita de Rodes e depois de Malta, resumem as características da mais antiga das Ordens de Cavalaria, o único Estado soberano cuja bandeira ondulou no campo das Cruzadas. Uma ordem cujo carisma tem sido sempre o da “Tuitio fidei et Obsequium pauperum” [Defesa da fé e serviço dos pobres]. É imaginável que um Papa queira destruir essa instituição, glória da Cristandade? Infelizmente, é precisamente esta a impressão que se tem  dos últimos acontecimentos relativos à Ordem de Malta.

Correspondência Romana ofereceu uma primeira reconstrução dos fatos em 24 de dezembro de 2016. Edward Pentin aprofundou e enriqueceu o cenário com novos detalhes no National Catholic Register de 7 de janeiro de 2017. O quadro, em resumo, é o seguinte: em 6 de dezembro, o Grão-Mestre da Ordem de Malta, Fra Matthew Festing, na presença de duas testemunhas, uma das quais era o cardeal-patrono Raymond Leo Burke, pediu ao chanceler Albrecht Freiherr von Boeselager que renunciasse. Com efeito, tinha vindo à luz que o chanceler Boeselager, durante o período em que foi o Grande Hospitalário da Ordem, havia abusado de seu poder promovendo a distribuição de milhares de preservativos e contraceptivos, inclusive abortivos, em alguns países do Terceiro Mundo. Apesar da promessa de obediência que o liga ao Grão-Mestre, o Grão-Chanceler recusou-se a renunciar. Contra ele foi então iniciado um procedimento para suspendê-lo de todas as posições que ocupava.

Boeselager pediu ajuda à Secretaria de Estado do Vaticano, que nomeou uma comissão de inquérito para “recolher elementos susceptíveis de informar plena e rapidamente a Santa Sé” sobre o assunto. Em 23 de dezembro, o Grão-Mestre da Ordem definiu como “inaceitável” a decisão do Secretário de Estado, observando que a remoção de Boeselager é um “ato de administração interna do governo da Ordem Soberana de Malta e, em consequência, recai exclusivamente na sua competência”. Com uma declaração subsequente de 10 de janeiro, o Grande Magistério reiterou a sua intenção de não cooperar com a comissão de investigação do Vaticano, “também a fim de proteger sua esfera de soberania com relação a iniciativas que se apresentam objetivamente (e, portanto, além das intenções, que são juridicamente irrelevantes) como visando questionar ou pelo menos  restringir dita  esfera”.

A iniciativa do Vaticano parece ter sido uma enorme gafe. O sistema jurídico da Ordem de Malta é regulado pela Constituição de 1997. O artigo 3º da Constituição, parágrafo 1, afirma que “a Ordem é sujeito de direito internacional e exerce funções soberanas”. Estas são: o Poder Executivo, representado pelo Grão-Mestre, assistido pelo Conselho Soberano; o Poder Legislativo, representado pelo Capítulo Geral; o Poder Judiciário, representado pelos Tribunais Magisteriais. A Ordem de Malta emite passaportes diplomáticos e possui escritórios extraterritoriais em Roma, onde oficialmente recebe os representantes de mais de cem países com os quais mantém relações de igual para igual.

A Ordem tem relações privilegiadas com a Santa Sé, mas com plena autonomia. A Santa Sé nomeia um cardeal-patrono e a Ordem o seu embaixador, de acordo com as normas do Direito internacional. Como observa o Prof. Paolo Gambi, apesar de ser detentora da natureza religiosa própria às Ordens dependentes da autoridade eclesiástica, a Ordem tem uma posição muito peculiar, “gozando de uma autonomia quase única na cena eclesiástica e limitando o influxo dessa natureza aos membros que emitiram votos” (La soberana militar Ordem de Malta en el orden jurídico eclesial e internacional, Ius Canonicum, XLIV, n. 87 (2004), pp. 197-231). O artigo 4, parágrafo 6 da Constituição da Soberana Ordem de Malta é claro ao afirmar que “a natureza religiosa não exclui o exercício das prerrogativas soberanas relativas à Ordem enquanto sujeito de direito internacional reconhecido pelos Estados”.

A confirmação de tal status de direito internacional, inclusive em relação à Santa Sé, encontra-se no Anuário Pontifício, onde a Ordem é mencionada apenas uma vez, e não entre as Ordens religiosas, mas antes como uma das Embaixadas dos Estados acreditados junto à Santa Sé. A Constituição de 1997 também eliminou várias intervenções eclesiásticas previstas anteriormente, como a aprovação da Santa Sé para a validade da eleição do Grão-Mestre e o consentimento expresso dela para que a profissão solene de votos seja válida.

A competência da Santa Sé sobre a vida religiosa dos Cavaleiros diz respeito apenas àqueles pertencentes à primeira classe, os Cavaleiros de Justiça, que emitem, de forma solene, os três votos monásticos. Os membros da segunda classe, os Cavaleiros na Obediência, cuja promessa nada tem a ver com o voto de obediência dos Cavaleiros de Justiça, estão subordinados apenas aos seus superiores na Ordem. O ex-Grão-Chanceler Albrecht von Boeselager, casado e pai de cinco filhos, é um leigo que pertence à segunda classe, não dependendo de nenhum modo da Santa Sé. Além disso, os Cavaleiros de Justiça, que devem ser considerados “religiosos para todos os efeitos” (artigo 9 parágrafo 1 da, Constituição), não têm vida em comum e representam um unicum na vida da Igreja. Fra Ludovico Chigi Albani della Rovere (1866-1951), Príncipe e Grão-Mestre da Ordem de 1931 a 1951, após a morte de sua esposa (1898) pronunciou os votos religiosos como Cavaleiro da Justiça, mas continuou a viver no Palazzo Chigi [atual sé do Grande Magisteriado da Ordem], que até 1916 era propriedade de sua família, levando uma vida de grande senhor, como competia à sua condição.

Naturalmente, a Igreja tem sobre a Ordem de Malta os mesmos direitos que tem em relação a cada Estado, quando estão em jogo questões que afetam diretamente a fé e a moral. O Papa, de fato, tem o direito e o dever de intervir em toda questão social e política relacionada com a consecução do fim supremo do homem, que é a vida eterna. Se, por exemplo, um Estado legitima as uniões sexuais contra a natureza, o Papa tem o dever de intervir, denunciando a grave violação da Lei divina e natural. E se a Ordem de Malta estiver promovendo a contracepção e o aborto, o Papa tem o dever de fazer ouvir sua voz. Hoje, pelo contrário, a Igreja se abstém  de pronunciar-se sobre problemas morais que Lhe são próprios [a distribuição de preservativos], e intervém em questões políticas e administrativas que fogem de sua alçada [a suspensão do ex-Grão-Chanceler].

Christopher Lamb cita no Tablet de 5 de Janeiro uma carta enviada em 21 de dezembro a Fra Matthew Festing pelo Secretário de Estado, cardeal Pietro Parolin, na qual se nota que o Papa Francisco deseja que a remoção de von Boeselager não ocorra. “Como já expressei em minha carta anterior, de 12 de dezembro de 2016: sobre o uso e a difusão de métodos e meios contrários à lei moral, Sua Santidade pediu um diálogo sobre o modo pelo qual podemos enfrentar e resolver eventuais problemas. Mas ele jamais disse para exonerar ninguém!”.

Portanto, com relação àqueles que violam a lei divina e natural, o caminho é o do diálogo e da mão estendida. Para quem, pelo contrário, defende a fé e a moral católica, está pronta a vara do comissariado político e da comissão de inquérito.

O grupo de cavaleiros que faz coro com Albrecht von Boeselager representa a corrente secularista, que gostaria de transformar a Ordem de Malta numa ONG humanitária, enquanto a atual equipe dirigente representa a fidelidade às raízes religiosas da Ordem. Mas esse é, aliás, o seu grande pecado, ao qual se soma outro. Ao longo de nove séculos de história, a Soberana Ordem Militar de Malta nunca perdeu sua fisionomia aristocrática, cavalheiresca e soberana. Esta fisionomia representa a antítese do miserabilismo e do igualitarismo professados por aqueles que hoje governam a Igreja. O resultado é que se denuncia o clericalismo, mas se o aplica, de fato, com desastrosas consequências. A truculenta intervenção da Secretaria de Estado em nome do Papa Francisco está, de fato, causando caos e divisões dentro da Ordem.

A Soberana Ordem Militar de Malta superou todas as vicissitudes ao longo de sua história. Durante dois séculos na Palestina, dois séculos em Rodes e dois séculos e meio em Malta, muitas vezes sua missão pareceu caducar. Mas a instituição sempre se reergueu, mesmo quando se alastrou pela Europa o turbilhão da Revolução Francesa e de Napoleão. Deve-se esperar que o Grão-Mestre Fra Matthew Festing e o Conselho Soberano que o assiste saibam resistir com firmeza às fortes pressões que estão recebendo nestes dias.

Ninguém teria podido duvidar do amor ao Papado do Grão-Mestre Ludovico Chigi Albani, que na sua qualidade de Marechal da Santa Igreja Romana participou de três eleições pontifícias. No entanto, ele se opôs tenazmente a qualquer tentativa eclesiástica de ingerência na vida da Ordem. A Santa Sé devia reconhecer a natureza soberana da Ordem de Malta, “sem a interferência de outras autoridades seculares ou religiosas”, como recordou Bento XVI ao receber os cavaleiros, por ocasião do nono centenário da bula pontifícia Pie postulatio voluntatis de 15 de fevereiro de 1113, que reconheceu a Ordem e outorgou-lhe seus privilégios. Com este ato solene, disse o Papa Bento XVI, “Pascoal II colocava a recém-nascida ‘fraternidade hospitalar’ de Jerusalém, em homenagem a São João Batista, sob a tutela da Igreja, e a tornava soberana”.

11 janeiro, 2017

Entrevista de Cardeal Müller na TV causa espanto.

Chefe doutrinal do Vaticano censura publicação de ‘dubia’, mas alguns críticos afirmam que ele se engana, enquanto surge a informação de que nenhuma das correções da Congregação para a Doutrina da Fé a ‘Amoris Laetitia’ foi aceita. 

Por Edward Pentin, National Catholic Register, 9 de janeiro de 2017 | Tradução: FratresInUnum.com: Cardeal Gerhard Müller, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé [CDF], afirmou em uma entrevista ao vivo de televisão, no domingo, que a “correção fraterna” ao Papa Francisco acerca de sua exortação apostólica Amoris Laetitia (A Alegria do Amor) “não é possível por ora”, porque a documento não “apresenta perigo para a fé”.

Mas o comentário do cardeal, feito ontem ao correspondente no Vaticano do canal italiano Tgcom24, Fabio Marchese, contrasta com revelações feitas por ao menos dois eminentes oficiais do Vaticano ao Register na semana passada, de que a CDF apresentou um grande número de correções a Amoris Laetitia antes de sua publicação, no último mês de abril, “e sequer uma das correções foi aceita”.

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Surpreso com a divulgação dos dubia

Cardeal Müller afirmou, no domingo, que os cardeais têm “todo direito de escrever uma carta ao Papa”, porém, acrescentou que estava “surpreso de que tenha se tornado público, quase forçando o Papa a dizer ‘sim’ ou ‘não'”.

“Não gosto disso”, disse. “Também, uma possível correção fraterna ao Papa parece-me muito distante; não é possível por ora, porque não se trata de um perigo para a fé, como afirmava Santo Tomás [de Aquino]”.

Ele declarou que sentia ser “uma perda para a Igreja discutir essas coisas publicamente”, acrescentando que Amoris Laetitia é “claríssima em sua doutrina e que podemos interpretar todo a doutrina de Jesus sobre o matrimônio, toda a doutrina da Igreja em 2000 mil anos de história”.

Papa Francisco, concluiu o cardeal, “pede para se discernir a situação dessas pessoas que vivem em uniões irregulares, que não estão de acordo com o ensinamento da Igreja sobre o matrimônio, e para ajudá-las a encontrar um caminho para uma nova integração na Igreja, segundo as condições dos sacramentos,a mensagem cristã sobre o matrimônio”. Ele declarou que não vê “nenhuma oposição: por um lado, temos o ensinamento claro sobre o matrimônio, por outro, a obrigação da Igreja em se preocupar com essas pessoas em dificuldade”.

Todavia, as declarações do cardeal encontraram espanto em Roma, com alguns argumentando que o cardeal perdeu o foco: a questão, dizem, não é se Amoris Laetitia pode ser lida em continuidade com a tradição, mas se é ambígua o bastante de modo que possa ser lida de maneira heterodoxa.

As observações do cardeal também vêm após a divulgação de que a CDF teve claro receio sobre o documento antes de sua publicação — preocupações que nunca foram objeto de consideração. Um bem informado oficial recentemente declaro ao Register que uma comissão da CDF que revisou um rascunho de Amoris Laetitia levantou dubia “similares” àquelas dos quatro cardeais. Esses dubia fizeram parte da correção de 20 páginas [a Amoris Laetitia] da CDF, primeiramente revelada por  Jean-Marie Genois em Le Figaro, de 7 de abril, na véspera da publicação do documento.

Outro experiente oficial foi além, revelando ao Register que, na semana passada, o Cardeal Müller disse-lhe pessoalmente que a CDF “apresentou muitas, muitas correções, e sequer uma das correções foi aceita”. Ele acrescentou que o que afirma o Cardeal na entrevista “é exatamente o contrário de tudo que ele me disse sobre a questão até agora” e que tinha a “impressão de alguém que não falava por si mesmo, mas repetia o que alguém dizia-lhe para dizer”.

Histórico forte

Cardeal Müller frequentemente falou de modo firme em defesa do ensinamento da Igreja sobre o matrimônio e a família nos últimos três anos (ver aqui e aqui). E em um discurso em Oviedo, Espanha, no ano passado, ele enfaticamente afirmou que Amoris Laetitia não abre as portas da Sagrada Comunhão a divorciados, reafirmando o art. 84 da exortação apostólica Familiaris Consortio, de S. João Paulo II, que afirma que os divorciados recasados não podem ser admitidos à Comunhão Eucarística ao menos que estejam aptos a viver em “completa continência”.

Porém, analistas afirmam que ele parece ignorar as preocupações sobre as interpretações divergentes do documento — profundas apreensões que se alega serem compartilhadas por muitos outros além dos quatro cardeais — e suspeitam que após o Papa recentemente remover três colaboradores do cardeai sem apresentar qualquer justificativa, e com uma correção formal possivelmente iminente, ele tenha se sentido compelido, ou foi compelido, a demonstrar ao Papa um inequívoco sinal de lealdade. Outros alegam que o italiano usado pelo cardeal na entrevista é mais matizado do que a tradução inglesa, que ele sabe o que está fazendo, e está tentando defender a ortodoxia e a unidade da Igreja a seu modo.

Um número significativo de conferências episcopais por todo o mundo expressaram suas preocupações ao Papa, averiguou o Register, e, como os quatro cardeais, não receberam resposta. Mesmo antes da publicação do documento,  30 cardeais, tendo lido uma versão antecipada da exortação apostólica, escreveram ao Papa expressando suas reservas, especialmente quanto à questão da Comunhão a divorciados civilmente recasados, advertindo que o documento enfraqueceria os três sacramentos essenciais da Igreja: a Eucaristia, o matrimônio e a confissão. O Papa também nunca respondeu à carta, disse uma fonte do Vaticano ao Register. 

A Sala de Imprensa da Santa Sé declinou comentar sobre a rejeição das correções da CDF a Amoris Laetitia, afirmando, em 2 de janeiro, que ela “não comenta o processo [de redação] dos documentos papais”.

Cardeal Müller também não respondeu, questionado por Register em 9 de janeiro, se está ciente da alegada confusão decorrente das diferentes interpretações de Amoris Laetitia, ou por que ele crê ser desnecessária uma correção formal quando as correções de seu próprio dicastério não foram aceitas.

10 janeiro, 2017

Nota sobre o padre Tom Uzhunnali

Por Teresa M. Freixinho| FratresInUnum.com

“Ó Deus, vem libertar-me; apressa-te, Senhor, em socorrer-me!” (Sl 69, 2)

 Ele está vivo e pede orações por sua libertação!

No início do ano fomos sacudidos pela notícia chocante da invasão da casa das Missionárias da Caridade em Áden, no Iêmen, por homens armados do Estado Islâmico. Na ocasião os terroristas mataram 14 religiosas e sequestraram o padre salesiano Tom Uzhunnalil, então com 56 anos. Algumas religiosas chegaram a noticiar que ele estava sendo torturado e que seria crucificado na Sexta-Feira Santa.

Acabamos de receber este vídeo, em que padre Tom implora atenção internacional e pede orações por sua libertação. Ele se dirige a todos que possam interceder por ele, especialmente, aos bispos do mundo inteiro e ao Santo Padre. Padre Tom aparece bastante debilitado e deprimido.

Rezemos pelo padre Tom, para que o Bom Deus o liberte e lhe dê forças e fé neste momento de angústia, bem como opere a conversão de seus algozes!

 

10 janeiro, 2017

A concretude da igreja de padre Jorge.

Por P. Wimmer | FratresInUnum.com

Padre Jorge volta à carga contra o que pensa ser “esquemas abstratos”.

Para sermos bem concretos, ponhamos o exemplo de um pai de família que, aos seus 50 anos, resolveu deixar a esposa e filhos para viver com uma mulher de 25. A esposa já não era atraente, os filhos, jovens e adolescentes, dando trabalho. Ele pode se mudar para um flat perto do trabalho, onde aliás conheceu a sua nova, mui nova, “companheira”, e viver sua vidinha pequeno-burguesa, pois, afinal, seus vencimentos o permitem. Ele, que é cristão, e não pensa segundo a lógica abstrata e legalista do passado. Ele quer se abrir a novas possibilidades, quer respirar um pouco depois de tantos anos de uma convivência nem sempre amena, quase forçada. Quer esquecer as dificuldades do início de carreira, quer, enfim, experimentar o novo, a liberdade. Nada de esquemas abstratos e legalistas!

A esposa, que sempre o ajudou e que batalhou com, e lhe deu filhos, um pouco trabalhosos, é verdade, ficará olhando pela janela a mudança. Ela até já pensa em baixar um aplicativo no celular, para ver se arruma um novo “parceiro”. O que é importa, afinal, é viver o aqui e agora, viver a precariedade do momento, viver as surpresas da vida com espírito aberto e sem esquemas rígidos e pré-concebidos. Também ela quer se dar o direito de ser feliz , quer viver a esperança.

O marido canastrão e seu rabo de saia serão acolhidos na terna igreja do bairro, a igreja de Padre Jorge.

Padre Jorge detesta constrangimentos por motivo de religião. Religião não deve onerar as pessoas com nada. Deve ser um oásis de acolhimento e de ternura. O mundo já exige demais… Criar problemas? Exigências? Cobranças? Nada disso! Padre Jorge sabe que tudo é difícil. Ele mesmo, em sua vida de consagrado, tem lá as suas dificuldades. As pessoas têm que se sentir bem. Cada um que siga a sua consciência. Deus não olha resultados e eficiências. Isso é uma versão capitalista da religião. O que importa é viver a justiça no seu dia-a-dia, promover a fraternidade e a partilha.

Padre Jorge quer acolher, quer tocar, quer a união dos corações e das mentes num sentimento indiferenciado de esvaziamento de si – kenótico.

O marido canastrão e aventureiro e o seu rabo de saia não querem, de modo algum, ficar sem a terapia dominical, a terapia humanista do acolhimento. Eles se sentem bem na comunidade. Dá pra ir ao clube, almoçar tranquilo, beber no bar da piscina até as 19:00, por uma bermuda e pegar a Missa das 20:30 como chave de ouro.

Na paróquia, há muitas atividades de promoção social. Padre Jorge tem muito cuidado para não haver a mínima sombra de proselitismo. A igreja tem que se ocupar das condições concretas de quem a procura, sem marretar doutrinas. Doutrina só gera divisão e afirmação de ego. Não se deve propor nada a ninguém, exceto o compromisso com a partilha e a justiça. Padre Jorge fez até um convênio com o Rotary e outro com Terreiro Maria Padilha. Para padre Jorge, o que importa é fazer o bem, sem criar divisões. Para ele, as pessoas devem ficar onde estão, pois se deus a pôs lá, é lá que ela deve ficar! A função da religião é servir o ser humano. E sobretudo: para padre Jorge, não importa o que você faz dentro de quatro paredes! Quem é ele pra julgar?

E o “ministério de música” de Padre Jorge? É tão bom – um repertório bem acolhedor, sentimental mesmo, que certamente levará a nova “família” – marido canastrão e rabo de saia- às lágrimas da ternura e do esquecimento de si, fazendo experimentar o deus concreto e pé-no-chão, que não liga para leis e códigos abstratos de conduta.

Para padre Jorge, tudo é uma grande dialética de precariedades, nada é definitivo. A síntese se dá pelo confronto dos opostos. Ele pensa assim, desde que sua opinião prevaleça sempre. Para ele, não podemos engessar a realidade. Nós devemos estar atentos aos sinais dos tempos, como dizia São João XXIII, o papa bom.

Padre Jorge é o homem mais acolhedor do mundo. Dizem que um amigo seu escreve suas homilias. Esse amigo tem até um livro sobre a terapia do toque e do beijo.

Tente contrariar Padre Jorge.

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9 janeiro, 2017

Müller e Napier. A confusão continua.

Escreve-nos Agostino Pecci, desde Itália:

Bom dia!

Como saberá, o Cardeal Gerhard Ludwing Müller, Prefeito da Conregação para a Doutrina da Fé, interveio ontem durante a transmissão [do programa]  “Stanze Vaticane”,da  Tgcom24, acerca dos “dubia” levantados pelos 4 cardeais. Além de não concordar com a publicação da carta, ele também afirmou: “Uma correção fraterna ao Papa parece-me distante, neste momento não é possível porque não há nenhum perigo para a fé”…

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Cardeal Müller

Um comentário que me surge espontaneamente do coração: ABSOLUTAMENTE INCREDITÁVEL!

Enquanto isso, a confusão das interpretações aumentam… até mesmo a intervenção do cardeal Napiero revela claramente.

O que pensar disso tudo?

Estive relendo nesses dias as aparições de Nossa Senhora (do Bom Sucesso) à venerável Madre Mariana de Jesús Torres, de Quito (Ecuador)… talvez ali se possa encontrar resposta…

Uma cara saudação e que a Estrela do Mar nos conceda um Bom Sucesso na navegação neste mar sempre mais tempestuoso.

* * *

A sexta “dubia” do Cardeal Napier, em seu twitter:

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“Se os ocidentais em situações irregulares podem receber a Comunhão, devemos nós dizer a nossos polígamos e outros ‘desajustados’ que a eles também é permitido?”

7 janeiro, 2017

O verdadeiro significado da inscrição CMB no dia da Epifania.

Por Don Alfredo Morselli*, Messa In Latino | Tradução: Padre Romano – FratresInUnum.com:  Em muitos países estrangeiros, especialmente do Leste da Europa, costuma-se escrever sobre as portas as iniciais C M B, que são intercaladas entre os algarismos do ano corrente; portanto, neste ano, seria:

20+C+M+B+17.

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Pensa-se que sejam as iniciais dos Magos, em latim, ou seja, Caspar, Melchior, Balthasar, mas poderiam também significar: “Christus Mansionem Benedicat”, isto é, Cristo abençoe esta casa.

Pessoalmente, estou propenso a uma outra interpretação:

20+Caffarra+Meisner+Brandmuller/Burke+17

Os “dubia” dos Cardeais são as minhas “certezas”; possam a estrela de sua coragem e a luz de sua fidelidade à doutrina católica dissipar as ambiguidades de “Amoris laetitia”.

* sacerdote da arquidiocese de Bolonha