Archive for ‘Igreja’

23 setembro, 2017

Entrevista a D. Athanasius Schneider: “Não temos nada a perder quando dizemos a verdade”.

Publicamos em seguida a tradução de Senza Pagare da entrevista concedida por D. Athanasius Schneider, bispo-auxiliar de Astana (Cazaquistão), a Maike Hickson, do blog OnePeterFive

Maike Hickson (MH): Assinou, juntamente com o Professor Josef Seifert (entre muitos outros), a Declaração de Fidelidade confirmando o ensinamento tradicional da Igreja relativamente ao casamento. O Professor Seifert foi agora removido pelo seu arcebispo espanhol da sua Cátedra Dietrich von Hildebrand na Academia Internacional de Filosofia em Granada, Espanha – com a explícita referência adversa à sua crítica acerca de certas afirmações contidas na Amoris Laetitia. Podemos pedir a sua resposta a esta medida tão punitiva, que foi justificada com o argumento de que o Professor Seifert estava a enfraquecer a unidade da Igreja Católica e a confundir os fiéis?

Dom Athanasius em entrevista a Fratres in Unum.

Fevereiro de 2015 – Dom Schneider concede entrevista a Fratres in Unum em São Paulo.

Bispo Athanasius Schneider (BAS): O Professor Josef Seifert fez um acto urgente e muito meritoso ao formular publicamente e respeitosamente questões críticas acerca de certas afirmações evidentemente ambíguas no documento papal Amoris Laetitia, visto que estas afirmações estão a causar uma anarquia moral e disciplinar na vida da Igreja, uma anarquia que está à vista de todos e que ninguém que use a razão e tenha verdadeira fé e honestidade pode negar.

A medida punitiva contra o Professor Seifert da parte de um detentor de um posto eclesiástico é não somente injusta, mas representa ultimamente um desvio da verdade, uma recusa a um debate objectivo e a um diálogo, enquanto ao mesmo tempo a cultura do diálogo é proclamada como de maior prioridade na vida da Igreja dos nossos dias. Tal comportamento clerical contra um verdadeiro intelectual católico, como é o Professor Seifert, faz-me lembrar as palavras com que São Basílio Magno descreveu uma situação análoga no séc. IV, quando clérigos arianos invadiram e ocuparam a maioria das posições episcopais: “Apenas uma ofensa é agora vigorosamente punida – uma observância correcta das tradições dos nossos pais. Por esta causa os devotos são levados dos seus países e transportados para desertos. As pessoas religiosas mantêm silêncio, mas todas as línguas blasfemas são deixadas à solta” (Ep. 243)

MH: Quando falamos acerca da unidade da Igreja: qual é a base da unidade? Temos de sacrificar todo o debate racional e prudente acerca de matéria de Fé e Doutrina – se se estiverem a elevar ensinamentos diferentes e incomensuráveis – com o intuito de não causar possíveis fendas dentro da Igreja?

BAS: A base da autêntica unidade da Igreja é a verdade. A Igreja é na sua natureza “a coluna e o firmamento da verdade” (1Tim 3, 15). Este princípio é válido desde os tempos dos Apóstolos e é um critério objectivo para esta unidade: significa a “verdade do Evangelho” (cf. Gal. 2: 5.14). O Papa João Paulo II disse: “Mais do que unidade no amor, a unidade na verdade é sempre urgente para nós” (dirigido à Terceira Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, Puebla, 28 de janeiro de 1979). Santo Ireneu ensinou: “A Igreja acredita nas verdades da Fé tal como se tivesse apenas uma só alma, e um só coração, e ela proclama-as, ensina-as, e entrega-as, em perfeita harmonia, como se possuísse uma só boca” (Adv. haer., I, 10, 2).

No começo da Igreja, Deus mostrou-nos a obrigação de defender a verdade, quando se encontra em perigo de ser deformada por parte de quaisquer membros da Igreja, mesmo que seja proclamado da parte do Supremo Pastor da Igreja, como foi o caso com São Pedro em Antioquia (cf. Gal 2, 14). Este princípio de correcção fraterna no interior da Igreja foi válido em todos os tempos, mesmo direccionado ao Papa, e por isso deve ser válido no nosso tempo também. Infelizmente, quem quer que se atreva a dizer a verdade nos nossos dias – mesmo quando o faz com respeito para com os Pastores da Igreja – é classificado como um inimigo da unidade, tal como também sucedeu com São Paulo; pois, ele afirmou: “Tornei-me logo vosso inimigo porque vos disse a verdade” (Gal 4, 16).

MH: Muitos prelados permaneceram agora, no passado recente, em silêncio devido ao medo de causar um cisma na Igreja por fazer publicamente questões ou levantar objecções ao Papa Francisco em relação aos seus ensinamentos acerca do casamento. O que lhes diria acerca da sua escolha pelo silêncio? 

BAS: Primeiro que tudo, devemos ter em mente, que o Papa é o primeiro servo da Igreja (servus servorum). Ele é o primeiro a ter de obedecer de modo exemplar a todas as verdades do Magistério inalterável e constante, porque ele é apenas um administrador, e não um possuidor, das verdades católicas, que recebeu de todos os seus predecessores. O Papa nunca se deve ele próprio comportar em relação às verdades e disciplina constantemente transmitidas referindo-as como fosse um monarca absoluto, dizendo “Eu sou a Igreja” (analogamente ao Rei francês Luís XIV: “L’état c’est moi”). O Papa Bento XVI formulou este ponto aptamente: “O Papa não é um soberano absoluto, cujo pensar e querer são leis. Ao contrário: o ministério do Papa é garantia da obediência a Cristo e à Sua Palavra. Ele não deve proclamar as próprias ideias, mas vincular-se constantemente a si e à Igreja à obediência à Palavra de Deus, tanto perante todas as tentativas de adaptação e de adulteração, como diante de qualquer oportunismo.” (Homilia de 7 de Maio de 2005).

Os bispos não são trabalhadores do Papa, mas divinamente constituídos colegas do Papa, apesar de juridicamente subordinados a ele, mas mesmo assim colegas e irmãos. Quando o Papa tolera ele próprio uma ampla disseminação de erros óbvios de fé e de graves abusos dos sacramentos (como a admissão de adúlteros não arrependidos aos sacramentos), os bispos não se devem comportar como empregados servis embrulhando-se no silêncio. Tal atitude demonstraria indiferença em relação à grave responsabilidade do ministério Petrino e contradiria a própria natureza colegial do episcopado e o amor autenticado pelo Sucessor de Pedro. Devemo-nos lembrar das palavras de Santo Hilário de Poitiers, proferidas no tempo da confusão doutrinal geral do século IV: “Hoje, sob o pretexto de uma piedade que é falsa, sob a aparência enganadora de um ensinamento do Evangelho, algumas pessoas estão a tentar negar o Senhor Jesus. Eu digo a verdade, para que a causa da confusão que estamos a sofrer possa ser conhecida por todos. Não posso permanecer silencioso” (Contra Auxentium, 1, 4).

MH: Voltemos à crítica bem-educada do Professor Seifert à Amoris Laetitia. No seu novo artigo de Agosto de 2017, ele levanta a questão de se afirmar que por vezes casais divorciados e “recasados” devem ter de manter relações sexuais para o bem dos filhos desse novo laço não levar na realidade à conclusão de que já não existem absolutos morais; ou seja, que um pecado mortal pode, em certas situações, já não ser pecaminoso aos olhos de Deus. O Professor Seifert vê esta lógica como uma potencial “bomba atómica moral” que levará ao relativismo moral. Concordaria com ele neste aspeto? 

BAS: Estou completamente de acordo com o Professor Seifert neste ponto, e recomendo vivamente que outros também leiam o seu artigo magistral, intitulado “Does Pure Logic Threaten to Destroy the Entire Moral Doctrine of the Catholic Church?” (Será que a Lógica Pura Ameaça Destruir a Doutrina Moral Inteira da Igreja Católica?). No seu livro “Athanasius and the Church of Our Days” (Atanásio e a Igreja dos Nossos Dias), o Bispo Rudolf Graber de Regensburg escreveu em 1973: “O que aconteceu há 1600 anos atrás está a repetir-se hoje, mas com duas ou três diferenças: Alexandria é hoje a Igreja Universal, cuja estabilidade está a ser abalada, e o que estava em questão nessa altura por meios de força física e crueldade está agora a passar para um nível diferente. Exílio é substituído por expulsão para o silêncio de ser ignorado, matando por assassinato de carácter.” Esta descrição também se aplica ao actual caso do Professor Seifert.

MH: Tendo crescido num país de regime totalitário, quais são as suas próprias considerações acerca da liberdade académica em Espanha, quando um professor internacionalmente reconhecido pode ser removido das suas posições académicas meramente por ter levantado questões, questões educadas, sobre um documento papal e por ter apontado os possíveis perigos de algumas das suas afirmações? 

BAS: Durante décadas tornou-se politicamente correcto e “de bom tom” proclamar e promover praticamente a liberdade de discurso, debate e pesquisa, teológico, na Igreja, tanto que a liberdade de pensamento e de expressão se tornaram um slogan. Em simultâneo, pode agora observar-se o paradoxo desta mesma liberdade ser negada àqueles pertencentes à Igreja que nos nossos dias levantam a voz com respeito e educação na defesa da verdade. Esta situação bizarra lembra-me uma célebre canção que eu tinha de cantar na escola comunista na minha infância, e que dizia: “A União Soviética é a minha pátria amada, e não conheço outro país no mundo onde o homem pode respirar tão livremente.”

MH: Pode dizer-nos algumas palavras que o Cardeal Carlo Caffarra lhe tenha dirigido pessoalmente em relação à actual crise da Igreja, palavras dele que possam constituir, em parte, uma espécie de legado?

BAS: Falei apenas duas vezes com o Cardeal Caffarra. Até mesmo esses encontros e conversas curtas com o Cardeal Caffarra deixaram em mim algumas impressões profundas. Vi nele um verdadeiro homem de Deus, um homem de fé, de visão sobrenatural. Notei nele um amor profundo pela verdade. Quando falei com ele acerca da necessidade dos bispos erguerem a sua voz em relação ao ataque contra a indissolubilidade do matrimónio e a santidade dos laços sacramentais do matrimónio, ele disse: “Quando nós bispos fazemos isto, não devemos temer ninguém nem nada, pois não temos nada a perder.” Uma vez disse a uma senhora católica dos Estados Unidos, com uma fé profunda e grande inteligência, a frase utilizada pelo Cardeal Caffarra, nomeadamente que nós bispos não temos nada a perder quando dizemos a verdade. Em resposta ela disse estas palavras inesquecíveis: “Perderão tudo quando não fizerem isso.”

 

MH: Considera justificável que outros cardeais – tais como o Cardeal Christoph Schönborn ou o Cardeal Óscar Rodríguez Maradiaga – tenham censurado os quatro cardeais por terem publicado os dubia?

BAS: A formulação e publicação dos dubia por parte dos quatro cardeais foi altamente meritória e, de certa forma, também um acto histórico, honrando verdadeiramente o Colégio Sagrado dos Cardeais. Na presente situação, a indissolubilidade e a santidade do matrimónio sacramental estão a ser enfraquecidas e, na prática, negadas através da admissão normativa de adúlteros impenitentes aos sacramentos, banalizando e profanando assim também os sacramentos do Matrimónio, Confissão, e da Eucaristia. Em última instância está em causa a validade dos Divinos Mandamentos e toda a lei moral, tal como o Professor Seifert correctamente afirmou no seu artigo acima mencionado, e pelo qual foi severamente punido.

Podemos comparar esta situação a um navio num mar turbulento, no qual o capitão ignora os perigos óbvios, enquanto a maioria dos seus oficiais se envolvem em silêncio, dizendo: “Tudo está bem no navio a afundar.” Quando perante tal situação, uma pequena parte dos oficiais do navio levantam a voz pela segurança de todos os passageiros, são grotesca assim como injustamente criticados pelos seus colegas, como amotinadores ou como desmancha-prazeres. Mesmo que o capitão julgue as vozes dos poucos oficiais perturbadoras no momento, ele irá reconhecer agradecidamente a sua ajuda posteriormente, quando tiver de confrontar o perigo, olhando-o nos olhos, e quando estiver diante do Divino Juiz. Também ficarão agradecidos, tanto os passageiros como a História, quando o perigo tiver passado. O acto corajoso e os nomes daqueles poucos oficiais serão lembrados como verdadeiramente altruístas e heroicos; mas certamente não aqueles oficiais, que por ignorância, ou por oportunismo, ou por servilismo, se envolveram em silêncio ou até absurdamente criticaram aqueles que tomaram medidas de salvação naquele navio a afundar. De certa forma, isto corresponde à actual situação ao redor dos dubia dos quatro cardeais.

Temos de nos relembrar do que Santo Basílio observou durante a crise Ariana: “Os homens com autoridade têm medo de falar, pois os que alcançaram o poder através de interesses humanos são os escravos daqueles a quem devem a sua subida. E agora a própria defesa da ortodoxia é olhada em alguns lugares como uma oportunidade para o ataque mútuo; e homens escondem a sua própria vontade doente e fingem que a sua hostilidade é toda para o bem da verdade. Entretanto os não-crentes riem; homens de pouca fé vacilam; a fé é incerta; almas são submersas na ignorância, porque os adulteradores da palavra imitam a verdade. Os melhores dos leigos evitam as igrejas como escolas de impiedade e levantam as mãos nos desertos com suspiros e lágrimas ao Senhor no céu. A fé dos Padres da Igreja que recebemos; essa fé que sabemos ter o selo com as marcas dos Apóstolos; para aquela fé à qual assentimos, bem como para tudo o que no passado foi canonicamente e legalmente promulgado”. (Ep. 92,2)

MH: Agora que restam apenas dois cardeais dos dubia – depois da morte do Cardeal Carlo Caffarra e do Cardeal Joachim Meisner – quais são as suas próprias esperanças em relação a outros cardeais que possam agora surgir para colmatar este vazio? 

BAS: Espero e desejo que mais cardeais, à semelhança dos oficiais daquele navio num mar turbulento juntem agora as suas vozes às vozes dos quatro cardeais, independentemente de louvor ou culpa.

MH: Em geral, o que é que os católicos – leigos ou clérigos – fazem agora se estiverem a ser pressionados para aceitar alguns aspectos controversos da Amoris Leatitia, por exemplo em relação aos divorciados “recasados” e à possível permissão do acesso aos Sacramentos? E em relação àqueles padres que se recusam a distribuir a Sagrada Comunhão a esses casais “recasados”? E em relação aos professores católicos leigos que estão a ser ameaçados com o afastamento das suas posições de ensino devido ao seu criticismo, patente ou latente, face à Amoris Leatitia? O que é que podemos todos fazer quando confrontados, na nossa consciência, com as alternativas de trair os ensinamentos de Nosso Senhor, ou seguir em firme desobediência aos nossos superiores? 

BAS: Quando padres ou leigos se mantém fiéis ao imutável e constante ensinamento e prática de toda a Igreja estão em comunhão com todos os papas, bispos ortodoxos e Santos de dois mil anos, estando em especial comunhão com São João Baptista, São Thomas More, São John Fisher e com os inumeráveis esposos abandonados que se mantiveram fiéis aos seus votos, aceitando a vida de continência de maneira a não ofender Deus. A voz constante no mesmo sentido e significado (eodem sensu eademque sentencia) e a respectiva prática de dois mil anos é mais poderosa e segura do que a voz discordante e a prática de admitir adúlteros impenitentes à Sagrada Comunhão, mesmo que esta prática seja promovida por um único Papa ou bispos diocesanos. Neste caso temos de seguir o ensinamento constante e prática da Igreja, pois aqui entra a verdadeira tradição, a “democracia dos mortos”, o que significa a voz maioritária daqueles que nos precederam.

Santo Agostinho respondeu à errada e não tradicional prática Donatista de re-baptizar e de re-ordenar, afirmando que a constante e imutável prática da Igreja desde o tempo dos Apóstolos corresponde ao juízo seguro do mundo inteiro: “O mundo inteiro julga acertadamente”, i.e., “Securus judicat orbis terrarum” (Contra Parmenianum III, 24). O que significa que toda a tradição Católica julga seguramente e com certeza contra a prática fabricada e de curta-duração que, num ponto importante, contradiz todo o Magistério de todos os tempos. Esses padres, que seriam agora forçados pelos seus superiores a distribuir a Sagrada Comunhão a públicos e impenitentes adúlteros, ou a outros conhecidos e públicos pecadores, devem responder com uma santa convicção: “O nosso comportamento é o comportamento de todo o mundo Católico ao longo de dois mil anos”: “O mundo inteiro julga acertadamente”, “Securus judicat orbis terrarum”!

O Beato John Henry Newman disse na Apologia pro sua vita: “O juízo intencional, em que toda a Igreja repousa e concorda, é uma prescrição infalível e uma sentença final contra uma novidade temporal.” Neste nosso contexto histórico esses padres e fiéis devem dizer aos seus superiores eclesiásticos, e bispos, tal como devem dizer com caridade e respeitosamente ao Papa o que São Paulo uma vez disse: “Porque, nada podemos contra a verdade, senão pela verdade. Porque nos alegramos de ser fracos, enquanto vós sois fortes. E ainda rogamos pela vossa perfeição.” (2Cor 13, 8-9)

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22 setembro, 2017

Adeus, Wojtyla e Caffarra. Com Francisco muda-se a família.

Por Sandro Magister, Settimo Cielo, La Repubblica, 19 de setembro de 2017. Tradução: André Sampaio | FratresInUnum.com – O terremoto que mudou a cara da Pontifícia Academia para a Vida atingiu também o Instituto para Estudos sobre Matrimônio e Família, criado por João Paulo II e com o teólogo e logo cardeal Carlo Caffarra como seu primeiro presidente.

Paglia e Francisco

Paglia e Francisco.

Hoje [n.d.t: exatamente 1 ano após o endereçamento dos dubia a Francisco pelos cardeais Brandmüller, Burke, Caffarra e Meisner], esse histórico Instituto foi abolido e substituído por outro Instituto com um nome diferente.

Com efeito, assim se lê no artigo 1.º do Motu Proprio Summa familiae cura, publicado esta manhã, com o qual o papa Francisco “pôs a assinatura” na virada [em 8 de setembro, dois dias após o falecimento de Caffarra, n.d.t.]:

“Com o presente Motu Proprio estabeleço o Pontifício Instituto Teológico João Paulo II para as Ciências do Matrimônio e da Família, o qual, vinculado à Pontifícia Universidade Lateranense, sucede, substituindo-o, ao Pontifício Instituto João Paulo II para Estudos sobre Matrimônio e Família, criado pela Constituição Apostólica Magnum Matrimonii Sacramentum, o qual, portanto, vem a cessar.”

E no artigo 4.º:

“O Pontifício Instituto Teológico, assim renovado, adequará suas próprias estruturas e disporá dos instrumentos necessários – cátedras, docentes, programas, pessoal administrativo – para realizar a missão científica e eclesial que lhe é designada.”

Estão despedidos, consequentemente, todos os docentes do falecido Instituto, enquanto conservam seus cargos o atual grão-chanceler Vincenzo Paglia e o presidente Pierangelo Sequeri, cujas nomeações por parte do papa Francisco se mostraram, um ano atrás, o prelúdio do atual cataclismo.

Os dois acompanham a publicação do Motu Proprio com uma nota, que sublinha o “envolvimento direto” do papa, o qual – prosseguem dizendo – “confia a tarefa de modelar as regras, as estruturas e a operacionalidade do novo Instituto Teológico” às mesmas “autoridades acadêmicas do histórico Instituto João Paulo II”, ou seja, justamente, precisamente a eles dois, e não a outros.

Ao descrever o “mais amplo horizonte” sobre o qual deverá mover-se o Instituto, Paglia e Sequeri remetem, naturalmente, à Amoris laetitia, mas também à Laudato si’ e ao “cuidado pela criação”.

Resta agora ver quais serão os docentes da nova instituição, quais serão confirmados e quais não, tanto em Roma quanto nas outras sedes pelo mundo.

Assim também se verá que destino terão as últimas publicações do falecido Instituto, especialmente o “vade-mécum” sobre a reta interpretação da Amoris laetitia, o qual é visto como peste pelos paladinos da comunhão aos divorciados recasados e do qual o mesmo Motu Proprio Summa familiae cura parece tomar distância, quando escreve que não mais se consentirá em “limitar-nos a práticas da pastoral e da missão que refletem modelos e formas do passado”.

 

 

20 setembro, 2017

Editorial: CNBB e a “Igreja de entradas”.

Por FratresInUnum.com – 20 de setembro de 2017

Em sua recente viagem à Colômbia, Papa Francisco dirigiu contundentes palavras à diretoria do CELAM (Conselho Episcopal Latino-Americano), nas quais reapresentou de modo forte o seu modelo de Igreja em saída.

“Muito se falou sobre a Igreja em estado permanente de missão. Sair, partir com Jesus é a condição desta realidade. (…) Trata-se de ir dia após dia trabalhar no campo, lá onde vive o Povo de Deus que vos foi confiado. Não é lícito deixar-nos paralisar pelo ar condicionado dos escritórios, pelas estatísticas e pelas estratégias abstratas. É necessário dirigir-se à pessoa na sua situação concreta; não podemos afastar o olhar dela. A missão realiza-se num corpo a corpo”.

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Enquanto isso, porém, a CNBB lançava a sua campanha para arrecadação de dinheiro em prol da reforma de sua sede, em Brasília. Papa Francisco prega uma Igreja em saída, mas a CNBB prefere as entradas das Igrejas: com a coleta nacional, todas as ofertas de todas as comunidades católicas realizadas nas celebrações do domingo, 10 de setembro passado, foram totalmente destinadas a esta finalidade.

De norte a sul, os bispos mais afoitos para conseguirem uma promoção a patentes maiores, mobilizam-se para mostrar serviço.

Já há algum tempo que alguns bispos tentam empurrar em todas as comunidades o livreto “Igreja em oração”, que as Edições CNBB lançaram em concorrência com a “Liturgia Diária”, da editora Paulus, e com o “Deus conosco”, da editora Santuário. Em termos de mercado, é impressionante como, a despeito de seu discurso socialista, a CNBB se engaja nas violentas leis da concorrência capitalista!

Por praticamente todas as dioceses do Brasil, aliás, as mitras diocesanas cada dia mais se assemelham ao departamento financeiro de verdadeiras empresas multinacionais. Só pensam em dinheiro, só falam em dinheiro, só punem por dinheiro! Não existe mais moral, nem doutrina. Existe apenas Mamon!

Uma fonte que trabalha numa determinada Cúria Diocesana referiu à nossa equipe que nunca se viu tanto controle financeiro e que o próprio clero se sente sufocado com o absurdo de tanta voracidade econômica. “As paróquias estão se tornando uma espécie de caça-níqueis”, disse-nos.

Ele mesmo nos contava de um bispo bastante panfletário, do interior do Estado do Rio de Janeiro, que cobra espórtulas de cada crismando e até das crianças para as quais administra a Primeira Comunhão. Boatos?! Tomara!

É espantoso que alguns prelados sejam tão ávidos por dinheiro com a desculpa de construirem catedrais horripilantes e, mais ainda, que tenham horror a qualquer coisa que lembre a tradição da Igreja, mas fiquem excitados com cultos ecumênicos e palestras em lojas maçônicas. Se bem que os maçons têm muito dinheiro…

Longe de nós imaginar que a nunciatura apostólica considere o montante das contas das dioceses como critério para promoções episcopais! Tampouco imaginamos nossos veneráveis bispos se exibindo mutuamente ao descortinarem os saldos de suas dioceses. Seria vergonhoso, seria digno de Judas, que se perdeu por causa de umas moedas de prata (no idioma de Francisco, chama-se o dinheiro de la plata). Mas os nossos sucessores dos apóstolos não são, em definitivo, sucessores de Judas. Seria absurdo!

Francisco, aliás, dizia ao CELAM: “a Igreja também não pode ser reduzida a uma organização dirigida, com modernos critérios empresariais, por uma casta clerical”.

Nossa referida fonte dizia que ouviu de um bispo que “a desgraça do Papa Francisco são os padres jovens, todos conservadores”.

Não! Definitivamente, não! A desgraça do Papa que queria “uma Igreja pobre e para os pobres” são os seus defensores mais apaixonados, que o desmentem com suas atitudes.

Alguém crê, seriamente, que nosso episcopado esteja preocupado com a conversão de alguém a Deus, com a evangelização corpo-a-corpo, com a acolhida de casais feridos, mesmo a destes recasados que tanto defendem? Na Alemanha, pelo menos (e desgraçadamente), os bispos querem angariar o dízimo dos adúlteros. No Brasil, como o mesmo não é diretamente tributado pelo governo do salário e repassado para a Conferência Episcopal, seria o sacrilégio o único interesse?

Papa Bergoglio auspicia uma Igreja em saída, mas os bispos não crêem nisso, eles creem numa Igreja de entradas.

Entendemos agora por que o projeto de Francisco já nasceu fracassado e permanecerá exatamente assim para sempre? Ninguém crê nele. Todos sabem que se trata apenas de um discurso, um grande teatro!

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19 setembro, 2017

Cardeal Sarah: “Vocês não são tradicionalistas: vocês são Católicos”.

A resposta do Cardeal Sarah a quem considera o uso da missa tridentina como algo do passado ou saudosista: “A quem nutre algumas dúvidas em relação a isso, eu diria: visitem estas comunidades e procurem conhecê-las, especialmente os jovens que fazem parte delas. Abram seus corações a mentes a estes nossos jovens irmãos e irmãs, e vejam o bem que eles fazem. Não são saudosistas nem amargurados, nem oprimidos pelas lutas eclesiásticas das décadas atuais; eles são cheios da alegria de viver a vida de Cristo em meio aos desafios do mundo moderno”

Por Andrea Zambrano, La Nuova Bussola Quotidiana, 15 de setembro de 2017 | Tradução: FratresInUnum.com

Sarah aos grupos estáveis de fiéis ligados à Missa Tradicional: “Não sejam tradicionalistas, sejam católicos. Saiam do gueto”.

“Não sejam tradicionalistas, sejam católicos, tanto quanto eu e o Papa” As palavras do cardeal Robert Sarah, Prefeito da Congregação para o Culto Divino, chegam pontuadas quase ao término da conferência dada pelo purpurado no Congresso de dez anos do [motu proprio] Summorum Pontificum de Bento XVI. E parecem pôr fim a uma longa travessia no deserto realizada por grupos estáveis e por tantos monges e religiosos (lá no Angelicum de Roma, estavam ontem sobretudo franceses e italianos) que nestes anos experimentaram os benefícios da forma extraordinária do rito romano.

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Peregrinação Summorum Pontificum 2017 – Cardeais Burke, Muller e Sarah na primeira fila.

É a assim chamada missa em latim ou missa tridentina. Um clichê linguístico usado para controlar e enquadrar um fenômeno nascido na surdina, mas que hoje cresceu a tal ponto que o termo tradicionalista parece muito estreito e em certas situações é já insuficiente, visto que a maior parte dos fiéis que têm esta sensibilidade são jovens e não são saudosistas de nada. Para dar plena cidadania à forma extraordinária do rito romano vem também o atual Prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, que aproveitou a ocasião de sua lectio magistralis de ontem para esclarecer também algumas de suas expressões, que haviam desencadeado as suspeitas de alguns guardiões da revolução: a Missa ad orientem, em primeiro lugar, e a Reforma da Reforma, secundariamente.

Não antes de recordar que o motu proprio foi um “sinal de reconciliação na Igreja e que trouxe muito fruto e, neste sentido, foi realizado também pelo Papa Francisco”. Partindo de Ratzinger, o cardeal recordou que o “esquecimento de Deus é o perigo mais urgente do nosso tempo”. “Se a Igreja de hoje é menos zelosa e eficaz em levar as pessoas a Cristo — disse ele à plateia do Angelicum –, uma das causas pode ser a nossa falta de participação na Sagrada Liturgia de um modo autêntico e eficaz. E isto talvez seja devido, por sua vez, à falta de uma adequada formação litúrgica — com a qual talvez esteja preocupado também o nosso Santo Padre, o Papa Francisco, quando diz que “uma liturgia que estivesse desligada do culto espiritual arriscaria de esvaziar-se”.

Para Sarah “isto pode ser também devido ao fato de que, muito frequentemente, a liturgia, tal como vem sendo celebrada, não é fiel e não corresponde plenamente a como é entendida pela Igreja, mas depaupera-se ou priva-se daquele encontro com Cristo na Igreja, que é um direito de todos os batizados”. Tanto que “muitas liturgias não são realmente nada mais que ‘antropocêntricas’, um teatro, um divertimento mundano, com muito barulho, danças e movimentos corporais, que se assemelham às nossas manifestações folclóricas”. Ao contrário, a liturgia é o momento de um encontro pessoal e íntimo com Deus e, aqui, o cardeal exortou a África, a Ásia e a América Latina a refletir “sobre as suas ambições humanas de inculturar a liturgia, de modo a evitar a superficialidade, o folclore e a auto-celebração cultural”.

Mas o que isso tem a ver com a Missa tridentina? Tem a ver porque no assim chamado usus antiquor estes riscos são notavelmente despotencializados. Como o de perder uma orientação litúrgica que, longe de ser uma questão meramente formal, representa, ao contrário, um detalhe fundamental para falar com Deus. Detalhe. Sarah repete-o, recordando já o ter mencionado e como, nos últimos anos, o retorno ao “voltar-se ad Deum ou ad orientem durante a liturgia eucarística seja uma gestualidade quase universalmente assumida nas celebrações do usus antiquor“.

Mas também a prática do orientamento “é perfeitamente apropriada — e eu o insisto — e pastoralmente vantajosa, na forma mais moderna do rito romano”. O cardeal é consciente de que isto lhe poderia ser motivo de acusação por ser atento aos detalhes: “Sim — prosseguiu –, porque como todo marido e mulher sabem, em cada relação de amor, os mais pequenos detalhes são importantes, porque é nestes e através destes que o amor se exprime e se vive dia-a-dia. As ‘pequenas coisas’, na vida matrimonial, exprimem e protegem as realidades maiores, tanto que o matrimônio inicia a romper-se quando estes detalhes são descuidados. Assim, também na liturgia: quando os seus pequenos rituais se tornam routine e não são mais atos de culto que exprimem as realidades do meu coração e da minha alma, quando não cuido mais dos detalhes, então aí está um grande perigo de que o meu amor ao Deus Onipotente se esfrie”.

O mesmo argumento para o silêncio, que é o único que “pode edificar aquilo que sustentará a sagrada celebração, porque o barulho assassina a liturgia, mata a oração, nos destrói e nos exila distantes de Deus”. Chega-se, assim, no coração da solene celebração da Santa Missa no usus antiquor que “é um ótimo paradigma disso, porque, com os seus níveis de rico conteúdo e de diversos pontos de coligação com a ação de Cristo, permite-nos alcançar tal silêncio. Tudo isso é certamente um tesouro com o qual possam ser enriquecidas algumas celebrações do usus recentior, às vezes horizontais demais e barulhentas”.

As reflexões de Sarah, porém, têm como protagonista a missa em geral e não apenas a da forma extraordinária. De fato, o cardeal convidou “a não rezar o breviário com o próprio telefone ou o iPad” porque “não é digno, dessacraliza a oração. Este aparelho não é um instrumento consagrado e reservado a Deus”. Mas também tirar fotografias durante a Santa Missa por parte de presbíteros não é digno.

Sobre os grupos estáveis de fiéis ligados à Missa Tradicional, Sarah expressou toda a sua gratidão, testemunhando “a sinceridade e a devoção destes jovens, homens e mulheres, sacerdotes e leigos, e das boas vocações ao sacerdócio e à vida religiosa que nasceram nas comunidades que celebram o usus antiquor. É a melhor resposta a quem considera o uso da missa tridentina como algo do passado ou saudosista: “A quem nutre algumas dúvidas em relação a isso, eu diria: visitem estas comunidades e procurem conhecê-las, especialmente os jovens que fazem parte delas. Abram seus corações a mentes a estes nossos jovens irmãos e irmãs, e vejam o bem que eles fazem. Não são saudosistas nem amargurados, nem oprimidos pelas lutas eclesiásticas das décadas atuais; eles são cheios da alegria de viver a vida de Cristo em meio aos desafios do mundo moderno“. Um apelo estendido também “aos meus irmãos bispos: estes fiéis, estas comunidades têm uma grande necessidade de cuidado paterno. Não devemos deixar que as nossas preferências pessoais ou as incompreensões do passado mantenham distantes os fiéis que aderem à forma extraordinária do rito romano“.

Porque — é o sentido das palavras de Sarah — o usus antiquor deveria ser considerado como uma parte normal da vida da Igreja do século XXI. “Estatísticamente, isso pode representar uma bem pequena parte da vida da Igreja, como previa o Papa Bento XVI, mas não por isso é uma via inferior de ‘segunda classe’. Não deveria haver concorrência entre a forma ordinária e a extraordinária do único Rito Romano: a celebração de todas as duas formas deveria ser um elemento natural da vida da Igreja nos nossos dias”.

Enfim, uma palavra “paterna” a todos aqueles que estão associados à forma mais antiga do Rito Romano. “Alguns chamam vocês de ‘tradicionalistas’ e, às vezes, até vocês mesmos se chamam assim. Por favor, não façam mais isso. Vocês não estão fechados em uma caixa num compartimento de uma livraria ou num museu de curiosidades. Vocês não são tradicionalistas: vocês são católicos do Rito Romano, tanto quanto eu e como o Santo Padre. Vocês não são de segunda classe ou membros particulares da Igreja Católica por causa do seu culto ou de suas práticas espirituais, que foram as de inumeráveis santos. Vocês são chamados por Deus, como todos os batizados, a tomar o seu lugar na vida e na missão da Igreja no mundo de hoje, ao qual também vocês são enviados”.

E ainda: “Se vocês não deixaram ainda os limites do ‘gueto tradicionalista’, por favor, façam isso hoje. O Deus Onipotente chama vocês a isso. Ninguém lhes roubará o usus antiquor, mas muitos serão beneficiados, nesta vida e na vida futura, pelo seu fiel testemunho cristão que terá tanto a oferecer, considerando a profunda formação na fé que os antigos ritos e o ambiente espiritual e doutrinal relacionados a eles deram a vocês, porque ‘não se acende uma luz para colocá-la debaixo do alqueire, mas sobre uma lanterna para que ilumine a todos aqueles que estão na casa’. Esta é a sua verdadeira vocação, a missão para a qual lhes chama a Providência divina, quando suscitou no tempo oportuno o Motu Proprio Summorum Pontificum“.

18 setembro, 2017

O Cardeal Müller acusa o Papa Francisco de não basear sua autoridade magisterial numa teologia “competente”.

Incomoda ao cardeal que o papa pense que “a religião e a política são uma coisa só”. O Cardeal denuncia que o Papa se preocupa mais por “questões de diplomacia e poder do que pelas questões da fé”. A fé cristã deveria estar no centro e o Papa deveria ser simplesmente um “servo da salvação”

Por Cameron Doody, Religión Digital, 14 de setembro de 2017 | Tradução: FratresInUnum.com“Vós não tendes nem ideia do que estais dizendo!” O Cardeal Gerhard Müller fez eco das palavras com as quais São Roberto Belarmino uma vez lançou em rosto do Papa Clemente VIII sua falta de competência teológica, para uma vez mais apontar o Papa Francisco, acusando-o de não basear sua “autoridade magisterial” numa teologia sólida.

Segundo relatam tanto o Tagespost como o Mannheimer Morgen, o ex-prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé participou na semana passada num colóquio em Mannheim para apresentar seu novo livro Der Papst. Sendgung und Auftrag (“O Papa. Missão e Mandato”).

muller

No colóquio em que Müller proferiu críticas a Francisco, participava também o Arcebispo Dom Georg Ganswein, Prefeito da Casa Pontifícia e secretário pessoal de Bento XVI.

Müller aproveitou suas intervenções para queixar-se uma vez mais das diferenças que manteve com o Papa, o que desencadeou sua destituição como cabeça do Santo Ofício, no final do mês de junho.

A essência das novas críticas do purpurado alemão é que Francisco, nos quatro anos de Pontificado, desvalorizou o papel da Doutrina da Fé na vida da Igreja, até o ponto — dolorosíssimo para Müller – de que seu Prefeito já não goza mais de nenhum prestígio.

Ao invés da Congregação [para a Doutrina da Fé], é a Secretaria de Estado do Vaticano a instituição que agora é considerada a mais importante na Igreja”, criticou Müller sobre a política do Papa Bergoglio.

“Questões de diplomacia e de poder agora têm prioridade”, afirmou, lamentando-se de que esta é uma mudança “radical”, mas “equivocada… e que deve ser corrigida. ” “A fé cristã é que deveria estar no centro, em seu lugar, e o Papa deveria ser simplesmente um “servo da salvação”.

Para jogar sal na ferida, Müller lançou-se contra a recente viagem que o Cardeal Pietro Parolin, atual Secretário de Estado, fez à Rússia. Ainda que o Papa, segundo Parolin, tenha se mostrado “contente” com os “resultados positivos” que a viagem deu em si, Müller quis distanciar-se dos dois, criticando a “ótica desafortunada” com a qual muitos interpretaram a visita, “porque aqui não se pode cair na armadilha de pensar que a religião e a política são uma coisa só.”

Segundo Müller, a associação da religião e da política “nunca prosperou quando a missão da Igreja se centralizava (e se concentra) no poder”.

E além disso, o ex-prefeito da Doutrina da Fé quis lançar mais um aviso ao atual Bispo de Roma, recordando-lhe que “o centro do Papado não é o Papa em si mesmo, mas a fé cristã”, com o qual Francisco deve levar em conta a necessidade — sentida pelos “cardeais dos Dubia” sobre o conteúdo de Amoris Laetitia — de “uma preparação teológica mais clara dos documentos [oficiais].

17 setembro, 2017

Foto da semana.

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Basílica de São Pedro, 16 de setembro de 2017: O Arcebispo Guido Pozzo, secretário da Pontifícia Comissão Ecclesia Dei, celebra Missa Pontifical por ocasião da 10ª peregrinação Summorum Pontificum — Missa que estava programada para ser celebrada pelo Cardeal Carlo Caffarra, falecido no último dia 6.

Nas exéquias do Cardeal Caffarra, na catedral de Bolonha, seu sucessor naquela sede, Dom Matteo Zuppi, declarou*:

“Ele [Caffarra] queria que a Igreja indicasse e pregasse a Verdade de Cristo sem acomodações e oportunismos ‘não procurando agradar os homens, mas a Deus que prova corações’, e o fazia com tal clareza que granjeou, inclusive, o respeito de quantos tinham sensibilidade e convicções diferentes da sua. Recentemente, muitos que, no passado, tiveram posições diferentes das dele, enfatizavam justamente a sua integridade e clareza, bem como a importância de ter um interlocutor como ele” (…) Em tempos de narcisismo protagonista e de exibição de si, é uma riqueza que ajuda a ultrapassar as aparências e procurar a profundidade interior em cada encontro e no sensibilíssimo relacionamento das pessoas”.

* Créditos da tradução ao leitor PW. Imagens: Messa in Latino.

16 setembro, 2017

Reflexões da Sagrada Escritura: Jesus na Eucaristia fomenta a Fé e refreia as paixões.

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

“O Senhor instituiu um memorial das suas maravilhas, ele que é misericordioso e compassivo. Deu alimento aos que o temem”  (Salmo 110, 4 e 5).

Dando continuidade à Encíclica Mirae Caritatis do Papa Leão XIII, sobre a Santíssima Eucaristia. Já foi publicado o artigo: Jesus na Eucaristia é fonte de vida sobrenatural.

* * *

cristo comunhaoA fé

Graças a esse sacramento excelentíssimo, onde aparece sobretudo como os homens são elevados à natureza divina, podem estes fazer os maiores progressos em todas as virtudes da ordem sobrenatural. E primeiramente a fé. Em todos os tempos a fé tem tido os seus adversários: porquanto, se bem que ela eleve o espírito humano pelo conhecimento das verdades mais sublimes, todavia, como mantém oculta a natureza dessas verdades que ela mostra como excedendo a natureza, por isso mesmo parece rebaixar os espíritos.

Outrora atacava-se ora tal dogma de fé, ora tal outro; mais tarde, essa guerra estendeu a muito mais longe as suas devastações, e, na hora presente, chegou-se afirmar que absolutamente não existe nada de sobrenatural. Ora, nada mais apto a reconduzir aos espíritos o vigor e o fervor da fé que o mistério eucarístico, propriamente chamado o mistério de fé: por uma especial abundância e variedade de milagres, ele sozinho contém tudo o que está acima da natureza: O Senhor clemente e misericordioso perpetuou a lembrança de suas maravilhas: deu um alimento aos que o temem (Salmo 110, 4 e 5).

Realmente, se Deus fez tudo o que está acima da natureza, referiu-o à Encarnação do Verbo, pela qual devia operar-se a restauração e a salvação do gênero humano, consoante a palavra do Apóstolo: Ele se propôs… restaurar em Cristo tudo o que está no céu e tudo o que está na terra (Efésios I, 9  e 10).

No testemunho dos santos Padres, a Eucaristia deve ser considerada como uma continuação e uma extensão da Encarnação; por ela, a substância do Verbo encarnado é ainda a cada um dos homens, e o supremo sacrifício do Calvário é renovado de maneira admirável, segundo esta profecia de Malaquias: Em todo lugar é sacrificada e oferecida ao meu nome, uma oblação pura (Malaquias I, 11). Esse milagre, o maior de todos no seu gênero, é acompanhado de milagres inúmeros. Aqui todas as leis da natureza são suspensas: toda a substância do pão e do vinho é convertida no Corpo e no Sangue de Cristo; as espécies do pão e do vinho, não contendo realidade alguma, são sustentadas pelo poder divino; o corpo de Cristo acha-se presente simultaneamente em tantos lugares quantos lugares houver onde o sacramento se cumpre simultaneamente. E, para obter da razão humana uma maior submissão a respeito de tão grande mistério, milagres realizados outrora e em nossos dias, e de que em mais de um lugar existem testemunhos públicos, lhe vêm, por assim dizer, em auxílio, e contribuem para a glória da Eucaristia. Esse sacramento, pois, como vemos, alimenta a fé, nutre o espírito, destrói os sistemas dos racionalistas, e mostra-nos sobretudo os esplendores da ordem sobrenatural.

Refreia as paixões

Não obstante, o enfraquecimento da fé nas verdades divinas não é unicamente obra do orgulho de que falamos mais acima; é devido também à depravação dos coração. Porquanto, se é um fato de experiência que, quanto melhores os costumes de um homem, tanto mais viva também a sua inteligência, em compensação os prazeres da carne embotam os espíritos: reconheceu-o a prudência pagã e predisse-o a sabedoria divina (Sab. I, 4). Mas é sobretudo na ordem das coisas divinas que as volúpias carnais obscurecem a luz da fé, e mesmo, por uma justa reprovação de Deus, a extinguem. Em nossos dias, o desejo insaciável desses prazeres da carne [ndr: que diria hoje Leão XIII?!] incendeia todos os homens, que mesmo desde a mais tenra juventude, sentem os efeitos desse contágio mórbido. O remédio para um mal tão horrendo acha-se na Eucaristia. O seu primeiro efeito é, aumentando a caridade, reprimir a paixão. Santo Agostinho diz, com efeito: O alimento desta (da caridade) é o enfraquecimento da paixão, e a sua perfeição é ausência da paixão (De diversis quaestionibus LXX  XII, quaest. XXXVI).

Além disso, como o ensinou S. Cirilo de Alexandria, a carne castíssima de Jesus comprime a insolência da nossa carne: Realmente, o Cristo existente em nós aplaca a lei da carne que impera nos nossos membros (Liv. IV, c. II, sobre S. João, VI, 57). Bem mais, o fruto todo particular e dulcíssimo da Eucaristia é Aquele que esta profecia significava: Que há de bom n’Ele (em Cristo), e que há de belo, se não é o trigo dos eleitos e o vinho que faz germinar as virgens? (Zac. IX, 17); quer dizer, esse desejo forte e constante da santa virgindade, que, mesmo num século imerso nas delícias, floresce na Igreja Católica
sobre uma extensão de dia para dia mais vasta e com abundância sempre crescente. Em toda parte, bem se sabe, é ele uma fonte de progresso e de glória para a religião e para a sociedade”.

Agradeço de coração as orações de todos feitas em prol de minha saúde. Deus lhes pague!

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15 setembro, 2017

O caso Seifert: quem está se separando da Igreja?

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 06-09-2017 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.com: A notícia foi divulgada por Maike Hickson. Em 31 de agosto, Dom Javier Martínez Fernández, Arcebispo de Granada, após ter suspendido do magistério o filósofo austríaco Josef Seifert, demitiu-o da Academia Internacional de Filosofia, da qual é um dos fundadores, mas que hoje depende da Arquidiocese. Deve-se lembrar que o Prof. Josef Seifert é considerado um dos maiores filósofos católicos contemporâneos. Seu currículo e sua bibliografia ocupam numerosas páginas. Mas, acima de tudo, ele é conhecido por sua fidelidade ao Magistério pontifício, o que lhe valeu a nomeação como membro da Pontifícia Academia para a Vida. Qualquer universidade católica ficaria honrada em tê-lo entre seus professores. Qual é o motivo da medida drástica contra ele? De acordo com uma declaração da Arquidiocese, o motivo de sua recente demissão é um artigo no qual o Prof. Seifert fez uma súplica a propósito da Exortação pós-sinodal Amoris laetitia do Papa Francisco.

No artigo incriminado, o Prof. Seifert pediu ao Papa Francisco para retificar uma afirmação da Amoris laetitia da qual, com base em uma lógica rígida, pode resultar a dissolução de todo o ensino moral católico.

Seifert cita a sentença de Amoris laetitia segundo a qual a consciência de casais adúlteros ou, dito de outra forma, “irregulares”, “pode reconhecer não só que uma situação não corresponde objetivamente à proposta geral do Evangelho, mas reconhecer também, com sinceridade e honestidade, aquilo que, por agora, é a resposta generosa que se pode oferecer a Deus e descobrir com certa segurança moral que esta é a doação que o próprio Deus está pedindo no meio da complexidade concreta dos limites, embora não seja ainda plenamente o ideal objetivo” (AL, 303).

Em outras palavras, comenta o Prof. Seifert, além de definir o estado objetivo de pecado grave como “não ainda plenamente o ideal objetivo”, Amoris laetitia afirma que podemos conhecer “com certa segurança moral” que o próprio Deus nos pede cometer atos intrinsecamente negativos, como o adultério ou a homossexualidade ativa.

O filósofo austríaco coloca a esta altura sua questão: “Partindo desse pressuposto, eu pergunto, a pura lógica não pode deixar de perguntar: Se um ato intrinsecamente imoral pode ser permitido num caso, e até desejado por Deus, como não deve ser aplicado a todos os atos considerados ‘intrinsecamente maus’? Caso seja verdade que Deus pode desejar que um casal adúltero viva em adultério, não deverá então ser reformulado também o mandamento ‘Não desejar a mulher do próximo’? (…) Não deverão, portanto, cair também os outros nove mandamentos, a Humanae Vitae, a Evangelium Vitae e todos os documentos passados, presentes ou futuros da Igreja, os dogmas ou os concílios, que ensinam a existência de atos intrinsecamente maus? (…) Não deveriam, então, por pura lógica, ser bons e louváveis ​​por causa da complexidade de uma situação concreta, a eutanásia, o suicídio ou assistência ao suicídio, a mentira, o roubo, o perjúrio, a negação ou traição a Cristo, como a de São Pedro, ou o homicídio, em algumas circunstâncias e depois de um ‘discernimento’ adequado?”. 

Eis a súplica ao Papa Francisco: “Quero suplicar ao nosso supremo Pai espiritual na Terra, o ‘doce Cristo na terra’, como Santa Catarina de Siena chamou um dos Papas sob cujo reino tinha vivido, enquanto o criticava ferozmente (…), para retificar essa afirmação. Se as suas consequências lógicas levam com férrea rigidez a nada menos que a destruição total dos ensinamentos morais da Igreja Católica, não deveria o ‘doce Cristo na Terra’ retificar a afirmação por conta própria? Não deveria ser revogada a mencionada tese, posto que ela conduz como consequência lógica à rejeição do fato de haverem atos que devem ser considerados intrinsecamente maus moralmente em qualquer circunstância e em todas as situações, e posto que se essa última afirmação chegasse a ser negada, isso destruirá, além da Familiaris Consortio e da Veritatis Splendor, também a Humanae Vitae e muitos outros ensinamentos solenes da Igreja? (…) E não deveriam todos os cardeais e bispos, todos os sacerdotes, monges ou Virgens consagradas e todos os leigos da Igreja, demonstrar o mais vivo interesse por esse assunto e subscrever este apaixonado apelo de um humilde leigo, um simples professor de filosofia e (entre outras matérias) também de Lógica?”.

Não houve qualquer resposta à pergunta levantada pelo Prof. Seifert. A declaração da Arquidiocese de Granada se limita a afirmar que a posição do filósofo “prejudica a comunhão da Igreja, confunde a fé dos fiéis e suscita desconfiança no sucessor de Pedro, o que, no final, não serve à verdade da fé, mas aos interesses do mundo”. A Arquidiocese de Granada acrescenta “ter feito seu, desde o primeiro momento, a aplicação do texto pontifício preparado pelos bispos da Região de Buenos Aires”, ou seja, de seguir as diretrizes dos prelados argentinos que em seu documento, aprovado pelo Papa Francisco, permitem o acesso dos adúlteros à comunhão.

A atitude do Arcebispo de Granada resume-se naquela proibição de fazer perguntas que, de acordo com o filósofo Eric Voegelin, é a característica dos regimes totalitários. Com o mesmo critério foram eliminados da Pontifícia Academia para a Vida todos os católicos fiéis à ortodoxia da Igreja, a começar pelo próprio Prof. Seifert, os professores mais ortodoxos são expulsos das escolas e das universidades católicas, os sacerdotes fiéis à Tradição são transferidos de suas paróquias e, em alguns casos, suspensos a divinis. O que acontecerá com os cardeais se e quando chegar a sua correctio fraterna?

Essa lógica repressiva é a que abre o cisma na Igreja. O único argumento que os fanáticos da Amoris laetitia são capazes de levantar contra os que a criticam é aquele, fraquíssimo, da “ruptura da comunhão”. Mas os que levantam objeções à Exortação pontifícia apelam para a doutrina imutável da Igreja, da qual não têm nenhuma intenção de distanciar-se. Se eles são sancionados oficialmente por causa de  sua fidelidade ao Magistério, aqueles que os sancionam são os que fazem um ato de auto-separação desse mesmo Magistério.

Os artigos do Prof. Josef Seifert são movidos pelo amor à Igreja e, sobretudo, à Verdade. O arcebispo que o pune se separa da lei natural e divina que proíbe o adultério, o assassinato e outros pecados graves, sem exceção ou compromisso. Acusando-o de romper a unidade com o Papa, o prelado reconhece a existência de um magistério do Papa Francisco incompatível com o Magistério da Igreja de sempre.

Dom Martínez Fernández puniu o Prof. Seifert porque este pediu humilde e respeitosamente ao Papa para retificar uma afirmação que conduz ao adultério e à dissolução da moral. Portanto, na Arquidiocese de Granada, como em Malta, na Argentina e em muitos outros lugares da Cristandade, para estar em comunhão com o Papa Francisco é necessário admitir, pelo menos em certas ocasiões, a liceidade do adultério e de outras transgressões da lei moral.

O Papa Francisco é o sucessor de Pedro, mas nosso Senhor não diz: ‘Aquele que me ama deve seguir cegamente o sucessor de Pedro’. Ele diz: “Aquele que me ama, aceita o meus mandamentos e os observa” (Jn 14: 15-21). Se o Pastor Supremo se desviar dos mandamentos divinos e convidar o rebanho a segui-lo, os fiéis devem afastar-se dele, pois “importa antes obedecer a Deus que aos homens” (Atos 5:29). Se para estar em comunhão com o Papa Francisco se é forçado a abraçar o erro, quem quiser permanecer na verdade de Cristo é obrigado a separar-se do Papa Francisco. É o que afirma publicamente Dom Martínez Fernández, Arcebispo de Granada.

 

14 setembro, 2017

Josef Seifert adverte contra a “bomba atômica” que pode derrubar todo o ensinamento moral da Igreja.

Afastado da docência pelo Arcebispo de Granada, ao mesmo tempo em que é elogiado pelo Arcebispo de Vaduz por escrever um artigo sobre Amoris Laetitia, o filósofo católico Josef Seifert volta a advertir numa entrevista que o edifício moral da Fé Católica pode desmoronar.

Por 1P5/InfoCatólica | Tradução: FratresInUnum.com – À luz do recente ensaio de Josef Seifert, no qual examina as perigosas consequências lógicas de Amoris Laetitia, um ensaio pelo qual ele foi despedido de seu posto como professor pelo Arcebispo de Granada, a doutora Maike Hickson, em nome do site “One Peter Five”, entrou em contato com o filósofo austríaco para fazer-lhe algumas perguntas adicionais, não só sobre a Exortação Pós-Sinodal, que gerou tanta controvérsia, mas sobre o estado do ensino e da prática da moral na Igreja.

seifert

Maike Hickson (MH): Há um ano, em agosto de 2016 – depois da publicação de Amoris Laetitia – o senhor publicou um ensaio no qual educadamente fazia uma crítica deste documento papal e pedia ao Papa que corrigisse alguns erros ou inclusive às vezes “afirmações objetivamente heréticas”. Qual é a razão pela qual o senhor agora volta mais uma vez a levantar sua voz num novo ensaio sobre este tema de Amoris Laetitia?

Josef Seifert (JS): Depois de publicar meu artigo, aconteceram muitas coisas: meu bom amigo Rocco Buttiligione e meu antigo aluno Rodrigo Guerra defenderam Amoris Laetitia apaixonadamente contra todas as minhas objeções, e eu lhes escrevi muitos e-mails e uma resposta que não se publicou. Um grupo de teólogos e filósofos acusou o Papa Francisco, por duas vezes, de uma longa série de heresias e outros erros que eles atribuíam ao documento, e entraram em detalhes para provar que tinham razão e para pedir ao Papa que se retratasse destes erros. Pediram-me que assinasse a carta, mas eu não o fiz por diversas razões. O Arcebispo de Granada me afastou como professor do seminário por causa de meu primeiro artigo. O Arcebispo de Vaduz, no Principado de Liechenstein, felicitou-me por este mesmo artigo e agradeceu-me pelo grande serviço que fiz à Igreja escrevendo-o. Os quatro cardeais expressaram seus dubia (ainda sem respostas). Por tanto, eu tinha muitas novas razões para refletir sobre Amoris Laetitia e sobre meu primeiro artigo, que tinha enviado primeiro como uma carta pessoal ao Papa Francisco (nunca respondida, e nem sequer reconhecida).

No entanto, o que motivou diretamente meu segundo artigo foi a descoberta  da convocatória de uma comissão feita pelo Papa Francisco, supostamente para revisar a Humanae Vitae (HV) e adaptá-la à Amoris Laetitia (AL). Além disso, eu expressei ao professor Buttiligione, um querido amigo cujo ponto de vista sobre a AL é radicalmente diferente do meu, o meu temor de que também a HV e a Evangelium Vitae fossem vítimas da mesma linha de pensamento expressa na AL. Ele aumentou meu medo e eu me alarmei quando ele me respondeu que obviamente à HV e à Evangelium Vitae deveriam ser aplicados o mesmo discernimento e os mesmos princípios que estão estabelecidos na AL sobre o matrimônio. Isto me comoveu profundamente. – Eu tinha escrito muitos artigos defendendo filosoficamente a Humanae Vitae e a Veritatis Splendor e preocupava-me muitíssimo a ideia de que todas essas doutrinas verdadeiras fossem revogadas, relativizadas e destruídas simplesmente aplicando a lógica do dito comentário de AL.

Por essas razões, eu meditei novamente sobre as mesmas perguntas e pensei que havia encontrado uma causa ainda maior de preocupação que aquelas que eu tinha expressado no meu primeiro artigo.

Por este motivo, decidi escrever um novo artigo muito mais curto e que se restringia a comentar uma só afirmação de AL que eu não havia considerado suficientemente no meu primeiro artigo. Esta simples afirmação me impactou profundamente, porque parecia provar que as mudanças no ensinamento moral de AL iam potencialmente muito mais além do que ninguém no atual debate (incluindo o próprio Papa Francisco e eu mesmo) tínhamos considerado sobre a admissão dos adúlteros não arrependidos e homossexuais aos sacramentos. Eu tive, por assim dizer, uma visão da grande ameaça que se escondia neste texto para todo o ensino da moral da Igreja. Tive a impressão que era minha obrigação, para servir bem ao Papa e à Igreja, apresentar a questão primordial que meu novo artigo apresenta, sem respondê-la, mas colocando-a de uma forma tão clara que o Papa e qualquer outro leitor pudesse fazê-lo corretamente. Eu me senti obrigado a escrever isso para evitar uma destrutiva bomba atômica teológico-moral que podia fazer que toda a doutrina moral da Igreja desabasse. Tenho a intenção – propondo esta pergunta com a maior clareza possível – de ajudar o Magistério do Papa Francisco a prever tal dano.

Devido às consequência lógicas e potenciais desta única afirmação que vi serem tão terríveis, e devido a que senti ao mesmo tempo que não era apropriado acusar o Papa de um erro tão grave (esta foi uma das razões pelas quais não aderi à acusação formal de heresia ao Papa que dois grupos de teólogos me tinham pedido que assinasse), e devido a que somente o próprio Papa e possivelmente o colégio cardinalício, ou um Concílio, poderiam corrigir esta afirmação [presente em AL] e evitar que se desenvolva suas lógicas consequências práticas, é que eu formulei meu artigo como uma pergunta principal, e uma série de interrogações que se deduzem aplicando a pura lógica à mencionada afirmação e pergunta.

MH:  O senhor poderia expor para nossos leitores sua preocupação mais importante sobre Amoris Laetitia?

JS: A minha preocupação principal está exposta neste meu segundo artigo. Se nossa consciência pode conhecer (e não só opinar falsamente) que Deus quer que cometamos um ato intrinsecamente mau, adúltero ou homossexual, desde que estejam algumas condições atenuantes, então a lógica deve extrair a consequência de que o mesmo princípio se aplica à anticoncepção (HV), ao aborto e a todos os outros atos que a Igreja e os mandamentos de Deus proíbem de forma absoluta. Esta é exatamente a postura e estas são exatamente as consequências da assim chamada “ética puramente teológica” que o teólogo jesuíta Josef Fuchs e muitos outros defendiam muitos anos atrás antes e depois da Humanae Vitae e que eu investiguei e refutei em muitos artigos e em um livro escrito em alemão e que não foi publicado. O Papa João Paulo II condenou clara e definitivamente este erro de Fuchs e outros defensores, e o fez solenemente na Veritatis Splendor e na Evangelium Vitae, esclarecendo assim o perene ensinamento moral dos Evangelhos e da Igreja. Nesta última encíclica, o Papa João Paulo II invoca a autoridade de São Pedro (EV, n.68) e declara (creio eu que dogmaticamente) que desde o primeiro momento da concepção, toda criança merece o respeito devido à pessoa, e, portanto, o aborto é sempre e intrinsecamente um grave ato imoral.

Foi então que eu experimentei um profundo sofrimento pessoal. Minha impressão era que agora todo o edifício da ética absoluta (já ensinada antes de Cristo por Sócrates e Cícero) do Antigo e do Novo Testamento, assim como o edifício da Igreja, poderia começar a desmoronar simplesmente aplicando a lógica desta afirmação [de AL].

Antes, no meu primeiro artigo, também expressei muitas outras preocupações:

– Que a distinção mediante o discernimento entre adúlteros bons e adúlteros maus, onde os primeiros, inclusive sem se arrependerem, poderiam ser admitidos aos sacramentos, enquanto que somente os outros teriam que ser excluídos, apresenta uma tarefa totalmente impossível para o sacerdote de discernimento entre bons e maus pecadores mortais (tal como muito bem o disse a Conferência Episcopal Polonesa).

O longo texto de AL propõe admitir aos sacramentos casais que, objetivamente falando, vivem em pecado mortal, mas não diz uma só palavra sobre o perigo de blasfêmia e sacrilégio, contra o que no adverte o Apóstolo São Paulo nos mais enérgicos termos, dizendo que “comemos e bebemos nossa condenação se recebemos a Sagrada Comunhão em pecado mortal”.

AL diz que “ninguém (inclusive o adúltero) será condenado para sempre” o que parece negar a existência do inferno, o que contrasta com as palavras de São Paulo que dizem que nenhum adúltero que não se tenha convertido irá ao Céu e, portanto, serão condenados para sempre se não se convertem.

– Que alguns cristãos não tenham a força para cumprir os mandamentos (com a ajuda dos sacramentos e da graça de Deus), o que foi uma das principais heresias propostas por Lutero e condenada pelo Concílio de Trento.

Eu ainda sustento estas e outras preocupações sobre AL, mas queria a) desenvolver no segundo artigo somente um ponto que me parece a “cruz” de AL, e b) apresentar algumas perguntas lógicas ao Papa e a outros leitores, que não vejo que podem ser respondidas negativamente. No entanto, se forem respondidas afirmativamente, esta conclusão a partir de AL nos levaria logicamente à destruição de todo o ensinamento moral da Igreja, e por este motivo deveria ser revogada, o que eu imploro (com reservas) ao Papa.

Eu, portanto, suplico com reservas ao Papa com toda caridade e amor, que se ele deve responder às perguntas lógicas que eu lhe proponho com um sim rotundo, que retire ao menos essa frase de AL e que não a converta num motivo para a reforma teológica e moral da Igreja.

Certamente, o Papa não manterá esta afirmação se com isto provoca – com sua resposta afirmativa à pergunta de meu artigo – a destruição do pilar da doutrina moral da Igreja e da ética natural (como foi ensinada por Sócrates e Cícero).

MH:  O senhor pensa que ainda restam dúvidas sobre se o Papa tem a intenção de permitir que alguns divorciados que voltaram a se casar recebam os sacramentos? Quais são para o senhor os argumentos mais sólidos para defender sua posição?

JS: Não tenho nenhuma dúvida! Inclusive os muito elogiados defensores de AL, tais como Rocco Buttilglione, o Cardeal Blasé Cupich e o Cardeal Schönborn o veem claramente e louvam a AL exatamente por isso. Ao contrário do que eu e muitos outros, eles tomam a admissão aos sacramentos dos pecadores não arrependidos como um fruto da misericórdia e da legítima consideração pastoral do Papa Francisco. Eles acreditam que AL, admitindo aos adúlteros não arrependidos, aos homossexuais, e a outros casais em “situações irregulares”, não contradizem a Veritatis Splendor nem Familiaris Consortio nº 84, que proíbem tudo isso baseando-se no Evangelho. O raciocínio deles é o seguinte: se esses casais fossem capazes de compreender que o que eles estão fazendo é algo mau e tivessem a força de vontade que o Papa João Paulo II assume, eles não poderiam ser admitidos aos sacramentos, como ensina o Santo Padre. Mas se esses pecadores não cumprem estas duas condições subjetivas necessárias para encontrar-se em pecado mortal (e Buttiglione, junto com o Papa, pensa que possivelmente a maioria dos homens e mulheres contemporâneos carecem de uma ou de ambas condições), eles deveriam ser admitidos aos sacramentos, como diz o Papa Francisco em AL. De acordo com esta interpretação, ambos os Papas têm razão e não se contradizem entre si. Podemos ver que também esses defensores de AL estão de acordo com que na Exortação de fato se propõe admitir aos adúlteros não arrependidos e outros pecadores, depois do devido discernimento aos sacramentos (os Bispos filipinos, em sua primeira resposta à AL, convidaram imediatamente a todos os casais aos sacramentos sem um prévio discernimento). Além disso, o Cardeal Shönborn e o Pe. Antonio Spadaro, SJ, chegaram a afirmar que AL elimina toda distinção entre casais em situação regular e irregular.

Além do mais, o elogio que o Papa fez da interpretação dos Bispos de Buenos Aires da AL de admitir aos adúlteros não arrependidos e outros casais depois do discernimento aos sacramentos e confirmando que essa era a leitura correta, prova o que estamos dizendo.

A mesma coisa se aplica ao elogio da interpretação muito mais liberal que fizeram os Bispos de Malta, baseando-se em pressupostos de uma radical ética de situação. Estas e muitas outras palavras e atos do Papa Francisco provam que a sua pergunta tem que ser respondida afirmativamente, inclusive ainda que o Cardeal Gerard Muller ou o Mons. Livio Melina adotassem a interpretação de que AL não mudasse a disciplina dos sacramentos.

Ao mesmo tempo, o Papa aceita a postura da Conferência Episcopal Polonesa, e da Conferência Episcopal de Alberta, no Canadá, que seguem o ensinamento da Familiaris Consortio (FC) e rejeitam qualquer tipo de mudança na doutrina sacramental. O Papa Francisco aceitou a rejeição unânime dos Bispos poloneses de mudar as normas de FC declarando (como a mesma AL diz) que o magistério não deve ter um único ensinamento em tais matérias, mas que deve aceitar a diversidade cultural e nacional em matéria de tradições morais. Há uma preocupação estendida na Igreja de que isso acrescente um relativismo histórico e cultural aos outros problemas de AL. Porque certamente parece inaceitável que o que na Polônia constitua um pecado mortal, e faz com que se exclua da comunhão e da confissão os pecadores que não se arrependam, não tenha nenhuma dessas consequências quando o adúltero cruze a fronteira e vá se confessar e comungar na Alemanha, uma milha de distância ao leste do anterior sacerdote polonês, que se negou a dar-lhe a absolvição e a admiti-lo à comunhão.

MH No seu ensaio de 2016, o senhor diz que Amoris Laetitia poderia causar “uma avalanche de destrutivas consequências para as almas e para a Igreja”. Um ano mais tarde, o senhor vê tais consequências destrutivas já se desenvolvendo?

JS: Se somente um ou alguns – já não digamos a maioria – dos casais em “situações irregulares” que recebem os sacramentos agora cometem um sacrilégio e um pecado grave, obviamente as consequências destrutivas de AL estão acontecendo e portanto as palavras de Cristo a uma vidente em Granada são certas, já que diz que estas “falsíssimas doutrinas” conduzirão muitas almas ao inferno.

Além do mais, se está causando um grave dano às almas se agora alguns seminaristas não querem chegar a ser sacerdotes porque se verão forçados, contra a sua consciência, a administrar os sacramentos a católicos que voltaram a se casar e cujos primeiros matrimônios não foram declarados nulos pela Igreja. Se lhes diz que as portas do seminário estão abertas para quem quiser sair, e se eles não querem aceitar essa nova prática, deveriam ir embora. Por conseguinte, muitos dos melhores futuros sacerdotes vão embora e já não trabalharão pelo bem das almas. Aos sacerdotes se lhes anima, e inclusive seus Bispos lhes ordenam, atuar contra a sua consciência, alguns são ameaçados de ser expulsos de suas paróquias se atuam segundo a mesma. Os Bispos pressionam os sacerdotes que aderem à Tradição da Igreja e aos ensinamentos expressos na Familiaris Consortio pelo Papa João Paulo II. Alguns sacerdotes, que vivem contra os ensinamentos da Igreja, sentem-se animados a receber os sacramentos e a celebrar a Missa, professando uma carência de força de vontade para abster-se de relações homossexuais ou relações sexuais com mulheres. Reina uma grande confusão: muitos perdem a fé na Igreja como pilar da verdade e agora a veem como uma Babel de confusão, etc.

MH: Em seu novo ensaio de 2017, pergunta-se se Amoris Laetitia “afirma claramente que estes atos intrinsecamente desordenados e objetivamente pecaminosos […] podem ser permitidos, ou mesmo se podem ser objetivamente ordenados por Deus” e o senhor diz que, se isto for assim, nós estamos enfrentando uma “bomba atômica moral e teológica”. O senhor poderia nos explicar o significado desta expressão?

JS:  Se isto é certamente assim, o que AL diz no texto que eu analizo, isto é, se Deus em alguns casos, ou somente em um, quer que nós, em nossa situação concreta, cometamos um ato intrinsecamente errôneo, tais como atos homossexuais ou adultérios, não há nenhuma razão lógica que nos impeça aplicar isto à anticoncepção, ao aborto, à vingança de sangue, às mentiras, aos enganos, etc. Não podemos deixar de aplicar os mesmos princípios que declaramos serem válidos para um tipo de ato intrinsecamente maus a outros igualmente pecaminosos. Simplesmente podemos também negar que este ato, ou qualquer outro ato humano, seja intrinsecamente desordenado e mau.

No entanto, toda a Lei e os Profetas, o ensinamento moral da Igreja, giram em torno do reconhecimento de que muitos atos deste tipo não podem ser cometidos nunca nem em nenhuma situação. Assim, pois, se alguém deduz logicamente esta consequência de AL, tal afirmação provocaria uma avalanche de consequências e é uma bomba atômica espiritual que destruiria o maravilhoso edifício do ensinamento moral católico (e da ética natural).

MH:  Neste contexto de “atos intrinsecamente desordenados e objetiva e gravemente pecaminosos” o senhor menciona explicitamente não só aos divorciados e recasados, mas também às uniões homossexuais. O senhor acredita que o termo “casais irregulares” como se usa em Amoris Laetitia significa que vai ser mais inclusivo e que se vai aplicar também aos casais homossexuais?

JS: Está claro que é assim e muitas outras declarações do Papa e de Conferências Episcopais, tais como a das Filipinas, demonstram-no claramente.

MH No contexto de leis morais absolutas que agora parece que estão sendo enterradas por esta discussão, o senhor trouxe à tona o tema da Humanae Vitae e a possível revisão de seus ensinamentos sobre a contracepção. O senhor tem alguma informação concreta sobre esta comissão vaticana recentemente formada? Segundo sua opinião, alguns de seus membros são indicadores da direção que vai tomar este trabalho?

JS: Apareceu um grande número de artigos e de blogs, com fontes fidedignas e bem informadas, que confirmaram esta notícia. No entanto, mesmo que não acreditássemos neles, a lógica nos diz: se alguns adúlteros não arrependidos podem ser admitidos aos sacramentos e se seu adultério pode inclusive “ser o que Deus quer que eles façam na complexidade de sua situação”, porque segundo este raciocínio, alguns casais que usam métodos anticoncepcionais não poderiam ser igualmente admitidos aos sacramentos ou inclusive que “Deus na complexidade de sua situação concreta”, deseje que eles usem métodos anticoncepcionais e esterilização, em vez da abstinência temporal, porque dita situação levaria o esposo ou a esposa a cometer pecados mais graves?

MH:  O senhor acrescentou em seu novo ensaio, que o senhor mesmo havia sido escolhido pelo Papa São João Paulo II como membro ordinário vitalício da Pontifícia Academia para a Vida (um cargo que foi eliminado quando todos os membros da referida Academia foram despedidos pelo Papa Francisco em 2016 e não pode ser reeleito como membro devido às mudanças profundas na Pontifícia Academia realizadas em 2017): O senhor poderia nos explicar estas palavras? Isto significa que o senhor foi despedido da Pontifícia Academia para a Vida, apesar do fato de que havia sido designado (por João Paulo II) como membro vitalício da mesma?

JS:  De acordo com os estatutos da Pontifícia Academia para a Vida, todos os membros ordinários eram vitalícios. O Papa Francisco primeiro mudou os estatutos. Portanto, agora o período máximo da duração do cargo de um membro ordinário é de 5 anos. Em segundo lugar, o Papa Francisco despediu a todos os membros atuais da Pontifícia Academia para a Vida e cancelou sua Assembléia Geral convocada para 2016. Em terceiro lugar, nomeou novos membros e voltou a incluir a alguns outros que já tinham sido membros anteriormente, inclusive alguns muito bons. Eu estava entre os que foram despedidos e que não foram reincorporados.

MH: O senhor tem alguma ideia do porquê ter sido despedido da Pontifícia Academia para a Vida?

JS: Já que todos os membros da Academia para a Vida foram despedidos, como eu disse anteriormente, está claro o porquê eu também fui. A razão pela qual não fui reincorporado somente poderia ser respondida com certeza pelo Papa, ainda que eu posso especular sobre isso, se quiser.

Talvez por causa de meu artigo sobre a AL em 2016? Possivelmente porque eu em diversas ocasiões critiquei publicamente a dois presidentes da Pontifícia Academia para a Vida (durante o Pontificado de Bento XVI) e pedi ao Papa que os substituísse (coisa que ele fez numa das ocasiões)? Seria porque eu escrevi várias vezes sobre a definição de “morte cerebral”, para as várias reuniões da Academia para a Vida e dois encontros da Pontifícia Academia das Ciências (aos quais fui convidado como especialista na matéria) e durante dois anos para uma comissão sobre “morte cerebral” convocada pelo Cardeal Elio Sgreccia? Talvez porque eu enviei estas críticas aos Papas anteriores (João Paulo II e Bento XVI) com a esperança (frustrada) de que a Igreja rejeitasse claramente as definições e critérios de morte cerebral por serem inválidas? Ou talvez porque eu critiquei publicamente a mensagem que Mons. Marcelo Sanchez Sorondo enviou a um Congresso Médico Mundial sobre o coma e a morte, em Cuba, que identificava a “morte cerebral” com a morte humana e dizia que isso era um tipo de “dogma da Igreja Católica”, e que a adesão a este princípio era obrigatória, e sua falsa afirmação de que agora isso era “ensinamento oficial da Igreja Católica”? Talvez porque neste mesmo Congresso sobre o coma e a morte, e nos dois anteriores, fiz o discurso de abertura e nele criticava o fato de identificar “morte cerebral” e morte humana? Ou seria porque eu informei aos assistentes do referido Congresso o que e o porquê o Papa João Paulo II tinha expressado suas sérias dúvidas em relação a identificação entre a morte humana e a morte cerebral num discurso dirigido a médicos especializados em transplantes? Ou porque eu disse publicamente que o Papa São João Paulo II tinha convocado um simpósio sobre este tema na Pontifícia Academia para as Ciências no qual todos os doutores, filósofos, juristas, anestesistas, etc. rejeitaram esta identificação? Talvez porque eu revelei aos presentes que o texto prometido (e já revisado) deste simpósio havia sido suprimido aparentemente por Mons. Sanchez Sorondo e que a Pontifícia Academia para a Saúde havia convocado outro simpósio no qual só uma minoria (bastante significativa) rejeitava a identificação entre morte humana e morte cerebral?

MH: O senhor disse que a nova Pontifícia Academia para a Vida (PAV), tal como foi reorganizada no final de 2016, está profundamente mudada. Poderia explicar-nos como é isso? Quais são as mudanças que o senhor vê que estão ocorrendo na nova Academia para a Vida?

JS: Em primeiro lugar, não quero mitificar a antiga PAV fundada por São João Paulo II. Depois da presidência do santo médico doutor Jerome Lejeune, cujo processo de beatificação está em curso (que descobriu as causas da síndrome de Down e lutou tenazmente pela vida das crianças afetadas a quem muitos doutores e pais assassinavam quando se confirmava a existência da síndrome), e que morreu de câncer alguns meses depois de ser nomeado, tivemos outros dois presidentes. O primeiro foi o professor Juan de Dios Vial, reitor da Universidade Pontifícia de Chile, ajudado pelo excelente vice-presidente monsenhor (agora cardeal) Elio Sgreccia, quem se converteu posteriormente num igualmente sensato e competente presidente (ainda que alguns dos membros, incluindo eu mesmo, fomos muito críticos com a forma na qual ele manejou certos assuntos, como por exemplo, o debate sobre a “morte cerebral”). Mesmo em seus melhores tempos na PAV, houve muitas discussões, por exemplo, sobre se a assim chamada “morte cerebral” é realmente morte humana e aqueles que o negavam tais como os professores Allan Shewmon, Wolfgang Waldstein, Alejandro Serani, eu mesmo, etc, fomos progressivamente marginalizados. Depois, tivemos dois presidentes que fizeram declarações contrárias à verdade ética e ao ensinamento da Igreja (o primeiro, o Arcebispo Fisichella defendeu a legitimidade e a bondade de alguns abortos). O segundo organizou por exemplo um Congresso na Pontifícia Academia, no qual, dos sete oradores convidados para falar sobre tratamentos de infertilidade, seis defendiam diretamente métodos opostos ao ensinamento da Igreja. Estes e outros acontecimentos suscitaram uma bem merecida oposição de alguns membros. Em minha opinião, e na de muitos outros, isso contrariava claramente os fins da Academia para a Vida e o juramento pró-vida que cada membro tinha que fazer e, sobretudo, contrariava a doutrina da Igreja. Escrevi duas cartas abertas sobre a situação intolerável pela qual estava passando a antiga Academia. Eu não louvo a anterior Academia, nem nego que uma sensata reforma tivesse sido saudável.

No entanto, as profundas mudanças que ocorreram agora parecem ir muito mais longe e na direção contrária. Por um lado, em nível administrativo, o Papa Francisco mudou os estatutos, como já disse, e eliminou o sólido núcleo de membros incondicionalmente comprometidos com a vida, membros que o Papa João Paulo II tinha escolhido e, com isso, transformou a Academia numa sociedade cambiante e flexível que perdeu a identidade que alguns membros comprometidos lhe tinham dado. Mais importante ainda, os novos estatutos eliminam o juramento pró-vida que tínhamos que professar na anterior PAV. Foram nomeados alguns membros que são abertamente anti-vida. O novo presidente e bispo, Monsenhor Vicenzo Paglia, encomendou, antes de sua eleição, afrescos para sua Catedral na Itália nos quais aparece ele e muitas outras pessoas nuas e involucradas em atos homossexuais e outros pecados, e são atraídos para o Céu numa grande rede por um Jesus que cujas feições são as de conhecido barbeiro local homossexual. O grande pintor El Bosco tinha pintado os mesmos pecados que são glorificados neste afresco, em suas famosas pinturas do inferno. O Bispo Paglia também preside o Instituto João Paulo II onde exerce uma grande pressão sobre os professores para que não apoiem os ensinamentos morais e a disciplina dos sacramentos da Familiaris Consortio, mas que o façam aos da Amoris Laetitia.

MH O senhor está preocupado porque alguns membros da PAV, tais como Nigel Biggar, Padre Maurizio Chiodi, Padre Carlo Casalone, SJ ou o Padre Alain Thomasset, SJ alguns dos quais defendem ativamente o aborto ou o uso de anticoncepcionais?

JS:  É óbvio que estou preocupado. Nós tivemos membros como estes antes, como por exemplo um austríaco que promovia a “família dos teus sonhos” (Die Wunschfamilie) em cujo centro se incluía fertilização in vitro (FIV), a seleção de óvulos fertilizados de acordo com o sexo ou a saúde, a eliminação de crianças “deficientes” ou “não desejados” e, portanto, os aborto nas primeiras semanas. No entanto, a estes membros lhes foi pedido sua demissão. Agora parece que estão sendo nomeados diretamente pelo Vaticano. Isto significa uma mudança profunda da visão da Pontifícia Academia para a Vida atual frente à original.

MH À luz das discussões prévias sobre a Amoris Laetitia e as muitas tentativas de defender a doutrina moral tradicional da Igreja Católica, o senhor vê um paralelismo com o possível desenvolvimente da reinterpretação da Humanae Vitae e seu resultado?

JS:  Estou convencido de que a lógica diz que se o Papa Francisco não revogar o ensinamento [presente na AL] que eu analizei no meu último artigo e se ele não responder aos Dubia dos cardeais para deixar claro que há “atos intrinsecamente maus” e que estes atos nunca estão justificados em nenhuma circunstância, a Humanae Vitae será reinterpretada como um ideal que não se pode exigir a todo o mundo, e que depois de um discernimento, aqueles que praticam a contracepção (com ou sem efeitos abortivos) podem ser admitidos aos sacramentos, e que Deus mesmo, em algumas situações difíceis, assim quer. Disso se deduziria a negação dos atos intrinsecamente maus. E tal negação é certamente sugerida na passagem que eu analisei em meu último artigo. Assim, pois, espero fervorosamente que o Papa, se responder a minha pergunta afirmativamente, retire esta afirmação de AL e, portanto, e evite a deposição da Humanae Vitae.

MH: O Padre John A. Hardon, SJ (+30 de dezembro de 2000), reconhecido teólogo dogmático americano, costumava ressaltar que a maioria dos ensinamentos morais eram certamente ensinados infalivelmente pelo magistério ordinário universal, isto é, sem serem ensinadas ex cathedra. O senhor considera a proibição estrita do uso de qualquer forma de contraceptivos (muitos dos quais são abortivos) como parte do ensino infalível da Igreja? Ou seria possível que o Papa permitisse exceções a este ensinamento?

JS: Certamente o considero parte do ensino infalível da Igreja (ainda que não expresso num dogma). E mais, creio que sua verdade ética pode ser reconhecida pela razão pura e escrevi muitos artigos defendendo as provas filosóficas e as evidências de sua verdade.

MH Levando em conta seu próprio ensaio de 2017 com a próxima discussão sobre a Humanae Vitae, o senhor vê que existe um dano real e que o desmoronamento das leis morais absolutas pode conduzir a Igreja tolerar oficialmente o aborto e a contracepção?

JS: Penso que o grande dom da infalibilidade da Igreja evitou que o Papa Paulo VI, que se inclinava à opinião da maioria (pro contracepção) na comissão que ele tinha convocado, assim o fizesse, e escreveu a Humanae Vitae, na qual apoiava a opinião VERDADEIRA da minoria. Além do mais, creio que a mesma infalibilidade nunca permitirá que a Igreja siga a mensagem da Conferência Anglicana de Lambeth, que mudou a proibição do uso de anticoncepcionais nas igrejas protestantes, uma proibição que anteriormente tinha sido aceita por todas as igrejas cristãs.

No entanto, não acredito que seja impossível que um ensinamento infalível da Igreja seja negado FALÍVELMENTE por um Concílio ou por um Papa como já ocorreu algumas vezes na História da Igreja. Por exemplo, o Papa João XXII ensinou uma grave heresia, que ele mesmo revogou em seu leito de morte, escrevendo uma Bula que condenava seu próprio ensinamento, e que seu sucessor condenou como heresia. O Papa Libério assinou uma declaração semi-ariana que se desviava de alguma forma do dogma central da Igreja sobre a verdadeira divindade de Cristo e Santo Atanásio, que defendeu fervorosamente a verdade, foi várias vezes excomungado por esta defesa. Um Concílio queimou todos os escritos heréticos do Papa Honório que foi excomungado depois de morto. Por isso, ás vezes, – afortunadamente muito raramente, e nunca quando um Papa fala infalivelmente, declarando um dogma – um Papa pode cometer graves erros e inclusive cair em heresia. No meu último artigo eu não critico nem ataco ao Papa nem o acuso de heresia, só lhe faço algumas perguntas. Ninguém deveria esquecer que criticar uma afirmação não infalível do Papa ou uma opinião sua não é algo errado que faça mal à Igreja. O primeiro Papa, São Pedro, foi publicamente repreendido e criticado por São Paulo num Concílio e Santo Tomás fez uma grande defesa deste fato. O mesmo Cristo, logo depois de ter nomeado a São Pedro como primeiro Papa, e Pedra sobre a qual se construiria a Igreja, chamou-o de “Satanás”, e lhe disse: “Afasta-te de mim, Satanás!” e lhe acusou de querer impor seus pensamentos puramente humanos sobre os de Deus que incluíam os mistérios da Paixão e Morte de Jesus Cristo.

MH:  O Cardeal Walter Brandmueller recentemente discutiu publicamente a questão de uma profissão de fé papal, que frequentemente foi requerida em tempos de crise na Igreja. Poderia nos dizer se o senhor pensa que na situação atual tal profissão de fé papal seria útil?

JS:  Eu acredito que, se o Papa publicamente confessasse todo o verdadeiro Credo da Igreja Católica, seria realmente útil para trazer clareza e certeza a esta situação desesperadora e aparentemente confusa, mas provavelmente só um Concílio poderia pedir isto ao Papa ou ele teria que reconhecer pessoalmente que isto é útil.

MH: Os cardeais dos Dubia são repetida e duramente criticados por outros cardeais tais como o Cardeal Rodríguez e o Cardeal Schönborn. O senhor vê justificadas tais críticas ou qual seria sua resposta pessoal a estas reações de altos cargos contra os Dubia?

JS: Creio que os quatro cardeais dos Dubia (a três dos quais considero amigos e um deles amigo íntimo há 37 anos) atuaram de acordo com sua consciência com grande comedimento e respeito pelo Papa e com total justificação. Penso que as críticas que estão recebendo por seus Dubia são profundamente equivocadas, e o que é mais, o caluniar a estes grandes homens da Igreja é um grande pecado. Além disso creio que todo o Colégio Cardenalício deveria se unir a eles. Desde o meu ponto de vista todos os outros cardeais, bispos e todos os católicos, deveríamos apoiar aos quatro cardeiais (dos quais só restam três) e pedir-lhe ao Papa, junto com os Cardeais dos Dubia, uma resposta que restaurasse clareza e certeza e dissipasse a imensa confusão que reina agora e que ninguém que tenha olhos para ver e mente para pensar pode negar. Não são os Dubia, mas o fato de não responder às perguntas com sinceridade e com total claridade o que semeia a desconfiança sobre o Papa e provoca a confusão.

12 setembro, 2017

Editorial: No sétimo dia do Cardeal Carlo Caffarra.

Por FratresInUnum.com – 12 de setembro de 2017

“Nós não compartilhamos em absoluto aquela posição de quantos consideram que a Sede de Pedro está vacante”. Foram estas as marcantes palavras do arcebispo emérito de Bolonha, há sete dias falecido, o Cardeal Carlo Caffarra, em sua última carta pública ao Papa Francisco, carta em que pedia uma audiência, audiência que foi negada.

wp-image-540957462A frase é, em si mesma, muito misteriosa, considerando-se o fato de que Caffarra foi um dos eleitores do último conclave. Como assim? Existe alguém que tenha participado daquele conclave e que cogita a possibilidade de uma eleição ilegítima? Intrigante!

Sua carta revela a lealdade de quem fala com clareza ao seu superior, sem bajulações descabidas nem desrespeitos levianos.

Contudo, não deixa de causar espanto que, em apenas dois meses, dois dos quatro signatários dos dubia tenham morrido.

Aqui, obviamente, não queremos conjecturar nenhuma hipótese criminal, tal como o envenenamento ou outro tipo de homicídio discreto. Afinal de contas, esses usos deixaram de ser adotados, digamos, há algumas décadas, excetuando-se, talvez, o caso de João Paulo I. A propósito, diz-se que, quando tornou-se emérito, o Cardeal Medina transferiu-se imediatamente para o Chile, alegando que se sentia mais seguro lá que em Roma. Mas, enfim, são métodos ultrapassados!

Também não queremos apelar ao argumento ad macumbam, ainda que o recurso à feitiçaria fosse bastante recorrente por parte de certos hierarcas da antiguidade, sobretudo durante do Renascimento. Mesmo que o diabo ande às soltas, esse tipo de premissa preternatural não seria tão facilmente demonstrável.

Preferimos pensar tratar-se de desgosto, mesmo! Como dizem os italianos, o velho crepacuore. Desgosto por ter dado a vida inteira pela defesa da santidade do matrimônio e da sacralidade da vida e ver estas duas colunas sendo continuamente profanadas durante o pontificado atual, desgosto por ver a doutrina moral católica totalmente refém do relativismo de um magistério dialético, tão monstruoso como um dragão de sete cabeças, desgosto por ser desprezado na idade anciã, justo por um papa que considera que um dos piores males dos tempos atuais é o abandono dos idosos.

A morte do Cardeal Caffarra silencia a voz de um confessor da fé, talvez do principal dentre os quatro que se levantaram para, com toda a franqueza e abertura que Francisco vive protestando dever existir na Igreja, apresentar-lhe a perplexidade de fieis católicos do mundo inteiro que se sentem desorientados com a atual confusão. Por isso, é natural que alguém se pergunte se o seu falecimento não significaria o fim dos dubia e a completa derrota da posição católica.

Nossa opinião é um estrondoso “não!”, pois, embora a púrpura cardinalícia tenha alguma força, mais forte que ela é o poder da verdade, poder que constrangeu Francisco ao silêncio!

Francisco não pode responder aos cinco dubia. Ele não passa pela prova evangélica do “sim, sim; não, não”. Ele renunciou conscientemente à nitidez da verdade e aderiu, também conscientemente, aos tons de cinza do antagonismo doutrinal.

Esse pontificado acabou. Francisco renunciou tacitamente a ser magister, mestre da Igreja Católica. Seu compromisso não é com suas ovelhas, Ele “não pensa como Deus, mas como os homens”. Não à toa, o Cardeal Müller afirmou que no Vaticano “hoje, a diplomacia e as questões de poder têm prioridade” em relação à verdade.

O silêncio de Francisco é a vitória dos quatro cardeais. Podem todos morrer, mas a eloquência do silêncio de suas vozes jamais sobrepujará o ensurdecedor grito do silêncio de Francisco.

“Nós não compartilhamos em absoluto aquela posição de quantos consideram que a Sede de Pedro está vacante”, dizia o Cardeal Caffarra. De fato, há alguém ali sentado: Francisco não renunciou ao seu ofício, mas renunciou exercê-lo.

Caffara, embora morto, vive. Francisco, embora vivo, escolheu morrer!

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