Archive for ‘Igreja’

1 julho, 2020

Padre Claude Barthe a Mons. Viganò: “Vosso exemplo nos ajuda”.

Um evento histórico: a crítica do Vaticano II por Monsenhor Viganò.

Carta-aberta do Padre Claude Barthe [1] | Tradução: FratresInUnum.com*

Basílica de São Pedro, novembro de 2012: Pe. Barthe lê a mensagem do Papa Bento XVI aos participantes da peregrinação 'Una cum Papa Nostro'.

Basílica de São Pedro, novembro de 2012: Pe. Barthe lê a mensagem do Papa Bento XVI aos participantes da peregrinação ‘Una cum Papa Nostro’.

Tomo a liberdade de reagir à declaração de Vossa Excelência, “Sobre o Vaticano II e suas conseqüências” (Chiesa e post concilio, 9 de junho de 2020), para sublinhar, modestamente, a importância desta declaração para a Igreja. 

Que me seja permitido resumi-la em cinco pontos:

1 – O Vaticano II contém textos “em oposição direta à doutrina até então expressa no Magistério” 

Vosso ataque ao Vaticano II visa:

  • Aquilo que está em desacordo direto com a doutrina anterior, como a liberdade religiosa, da declaração Dignitatis humanæ, e os fundamentos presente nas declaração Nostra ætate sobre as novas relações com as religiões não-cristãs; ao que poderíamos ainda acrescentar o decreto sobre o ecumenismo, Unitatis redintegratio, que introduziu a inovação da “comunhão imperfeita” que teriam aqueles que estão separados de Cristo e da Igreja;
  • Além de ambigüidades que podem ser utilizadas no sentido tanto da verdade quanto do erro, como o subsistit in do n. 8 da Constituição Lumen gentium: “A Igreja de Cristo subsiste na Igreja Católica”, em lugar de: “A Igreja de Cristo é a Igreja Católica”.

2 – Tais distorções doutrinais são a origem dos erros que se seguiram – de que o “espírito do Concílio” é a prova.

Vossa Excelência explica que os desvios ou elementos muito prejudiciais para a fé cristã, que marcaram o período pós-conciliar (como a Declaração de Abou Dhabi, mas também as jornadas de Assis, a reforma litúrgica, a prática da colegialidade), encontram sua origem nestas distorções.

Além disso, ressalta de vosso texto que o conceito “espírito do Concílio” confirma a especificidade inovadora dessa assembléia, “pois nunca houve um ‘espírito do Concílio de Nicéia’, nem ‘espírito do Concílio de Ferrara-Florença’ e muito menos um ‘espírito do Concílio de Trento’, assim como nunca houve um ‘pós-concílio’ depois do Latrão IV ou do Vaticano I”. 

3 – Tais distorções não podem ser corrigidas

As tentativas visando corrigir os excessos do Concílio Vaticano II, escreveis, foram impotentes:

  • A) Ou porque enveredou-se pela via insuficiente da “hermenêutica da continuidade”. Com efeito, isso é tanto mais inviável quando essa hermenêutica é tanto menos um retorno ao magistério anterior, mas representa a busca de uma terceira via entre inovação e tradição. Bento XVI, em seu discurso à Cúria Romana de 22 de Dezembro de 2005, defendia uma “hermenêutica da renovação na continuidade” contra a “hermenêutica da descontinuidade e da ruptura”. Mas esta última, porém, diz respeito tanto aos ‘tradicionalistas’ quanto aos ‘progressistas’, pois uns e outros consideram que o Vaticano II operou algumas rupturas.

 

  • B) Ou porque incitou-se o Magistério a “corrigir” os erros do Vaticano II. Justamente vós mostrais que este projeto, “mesmo com a melhor das intenções, mina as fundações do edifício católico”: com efeito, opor o magistério de amanhã ao de hoje, que contradisse o de ontem, levaria ao fato de que nenhum ato do Magistério jamais seria definitivo.

Assim, num complemento de 15 de junho (Chiesa e post concilo), Vopssa Excelência sustenta a opinião de que um Papa no futuro “poderia anular todo o Concílio”.

Se me é permitido ampliar a vossa análise, diria que a única solução para contradizer por um ato do Magistério um ato precedente é constatar que o ato em questão não é magisterial na plena força do termo. Por exemplo, Pastor Aeternus, do Concílio Vaticano I, em 1870, anulou de facto o decreto Frequens, do Concílio de Constança, em 1417, que pretendia institucionalizar a superioridade do Concílio sobre o Papa. Essa anulação foi possível porque a Santa Sé nunca reconheceu o valor dogmático de Frequens. Do mesmo modo, com o Vaticano II, encontramo-nos num cenário como o de Frequens, uma vez que os órgãos do próprio Concílio Vaticano II (Dz 4351) e toda a interpretação posterior assegura que este Concílio foi de natureza simplesmente “pastoral”, isto é, não dogmática. De fato, o grande meio para sair da presente crise do Magistério é deixar aquilo a que se chama “pastoral” para trás, e entrarmos de novo no dogmático: que o Papa sozinho ou o Papa e os Bispos unidos a ele se expressem magisterialmente e não mais “pastoralmente”. 

4 – O presente pontificado é um esclarecimento paradoxal

Vossa Excelência escreve: “Aquilo que, desde há anos, ouvimos enunciado, vagamente e sem clareza, da mais alta Cátedra, encontramo-lo depois elaborado num verdadeiro e propriamente dito manifesto dos partidários do presente pontificado”.

Era o que muitos sentem quando tentam dar uma pia interpretatio (n.t.: interpretação piedosa) dos textos controversos do Vaticano II: eles dizem que (n.t.: a doutrina claramente heterodoxa professada a partir dum magistério ambíguo e sem clareza) não é possível, pois que a aplicação (n.t.: ortodoxa dos textos conciliares), de certo modo autêntica, é feita hoje em dia. Os textos deste pontificado são uma conclusão dos pontos litigiosos do Concílio, como, por exemplo, o reconhecimento errôneo dos direitos da consciência na Exortação Amoris lætitia, cujo n. 301 declara que em certas circunstâncias o adultério não é pecado.

5 – Um dever de consciência pesa sobre os prelados da Igreja, quais tenham consciência dessa situação

Falando de si mesmo, dizeis: “Eu mesmo, com honestidade e serenidade, obedeci, ao longo de sessenta anos, a ordens questionáveis, acreditando que representassem a voz amorosa da Igreja; e hoje, com igual serenidade e honestidade, reconheço que me deixei enganar”.

Numerosos prelados, notadamente desde as últimas assembléias do Sínodo, são conduzidos a recuar diante das conseqüências atuais das causas que remontam há meio século. Vosso exemplo e encorajamentos podem ajudá-los a expressar, com consciência, e para o bem da Igreja, seus desacordos com estas causas: os pontos defeituosos do Vaticano II. 

[1] Pe. Claude Barthe é autor de Trouvera-t-il encore la foi sur la terre ? Une crise de l’Église, histoire et questions (François-Xavier de Guibert, 2006, 3a edição); La Messe de Vatican II. Dossier historique (Via Romana, 2018).

30 junho, 2020

Católicos: eles não voltarão… ao menos que…

Por Mons. Eric Barr, Patheos, 17 de junho de 2020 | Tradução: FratresInUnum.com* – Eles não vão voltar à missa. Deixe-me repetir. Os católicos não voltarão à missa quando a pandemia terminar. Sei que as paróquias dirão que suas listas de espera estão cheias e estão na capacidade máxima para a missa dominical no momento. Mas isso é agora, quando só podemos ter cem pessoas, ou uma congregação de 25 a 35% da capacidade de uma igreja. Todos nós, padres, ouvimos o desejo de nossos paroquianos católicos de voltar aos sacramentos. E ficamos satisfeitos quando conseguimos que os voluntários esterilizem o santuário e limpem os bancos após cada celebração.

Mas isso não importa. Eles não vão voltar. Para as centenas, talvez até milhares que desejam voltar, existem milhões de católicos que se sentiram bem à vontade na fé livre da Eucaristia. E eles vão continuar assim. A maioria silenciosa dos católicos absolutamente não sentem falta da missa. Em minha diocese, antes da praga, costumávamos ter 100.000 católicos na missa todos os domingos. As pessoas querem voltar, mas é uma fração desse número. Não deixe que listas completas de reservas nos iludam ao pensar que a maioria silenciosa sente falta da Eucaristia. Há razões para isso.

Razões para não ir à missa

Antes de mais nada, antes da pandemia, a maioria silenciosa dos católicos não vai à missa. Então, deixe-me alterar minha declaração. A maioria silenciosa dos fiéis se afastou silenciosamente da fé eucarística. Eles ainda se consideram católicos, mas a Igreja nos Estados Unidos está prestes a descobrir o pequeno e despojado remanescente de uma Igreja Eucarística que o Papa Bento XVI sempre falou. Por que isso aconteceu? Existem razões, mas também existem soluções. Primeiro, as razões pelas quais a maioria dos católicos que freqüentam a missa não retornará à Igreja.

Um conflito de valores

Existe um conflito de valores. Por um lado, fomos informados que, pela saúde da sociedade, deveríamos renunciar a grandes reuniões. Ouvimos dizer que é o melhor e, pelo bem de muitos, desistimos da Comunidade Eucarística. Por outro lado, sabemos que a vida de nossa fé depende da Eucaristia; ansiamos por isso também. Agora aparecem os bispos, que se unem às autoridades seculares, e nos mandam desistir de ir à Eucaristia em prol da saúde pública.

Isso cria uma crise de valores dentro de nós, e a maioria – que costuma ver a Missa como contracultural, fica facilmente convencida de que a melhor parte do valor é não ir à Igreja. Eles não podiam, se quisessem, porque as regras atuais proíbem a maioria dos católicos de ir, a menos que reservem seu lugar no altar eucarístico, como se você reservasse um assento de jantar em um restaurante requintado. Por mais desconfortáveis ​​que possam ficar, eles apostam e seguem a opção da saúde pública.

Uma crise de autoridade

Os bispos produziram uma crise de autoridade. Eles não pretendiam, mas o fizeram, de qualquer maneira. Alguns podem se lembrar nos anos 1960, quando os bispos nos libertaram da lei do jejum e da abstinência de carne na sexta-feira. Foi o levantamento da abstinência de carne que causou aquela crise de autoridade, da qual nunca nos recuperamos. Lembra? Em uma semana, você poderia ir para o inferno por deliberadamente comer bife na sexta-feira e, na semana seguinte, isso era visto como uma virtude. Os bispos, naquela época, eram tidos com maior reverência, mas as pessoas não eram enganadas. Autoridade ou não, você não pode ir para o inferno em uma semana por fazer algo que a próxima semana considera ok. O falecido Rev. Andrew Greeley costumava dizer que foi essa decisão, e não o controle de natalidade, que convenceu os católicos a se voltarem para suas próprias consciências pessoais e a se absolver de ações pelas quais normalmente a Igreja os julgaria.

Agora, os bispos removeram o grave atributo de pecado de perder a missa no domingo. É claro que eles tinham que fazer isso se não quisessem realizar missas. Simplesmente não se pode impor um fardo impossível às pessoas. Mas pense sobre isso. Para o católico comum, que nunca estudou teologia moral, um enigma é causado. Assim que as igrejas estiverem totalmente abertas, os bispos restaurarão a exigência legal de que os católicos devam ir à missa no domingo. Que católico normal ficará impressionado com isso, principalmente porque eles não pecam nos últimos meses por não irem à missa?

Poderia ter ajudado se os bispos fossem santos, orientados para a liderança e pastores, mas não são. Isso não significa que eles são ruins. Quase todos eles são bons homens e pessoas piedosas. Mas eles não são líderes fortes ou pastores. São gerentes que estão se esforçando ao máximo para moderar uma crise. Mas seus pronunciamentos não têm força moral; suas reputações estão em frangalhos por razões óbvias. A maioria dos católicos que freqüentam a missa não prestará atenção quando lhes disserem que agora devem ir à missa novamente e que perdê-la novamente colocará suas almas em perigo.

O grave erro da Missa televisionada

A missa televisionada é um complemento útil para a missa assistida, não um substituto. A história mostrará que uma das piores coisas que fizemos foi proliferar missas televisionadas durante o período de pandemia. Isso aliviou a mente de uma minoria de nossos católicos e não atraiu milhões de católicos privados de Missa. Missas televisionadas foram desenvolvidas para idosos e doentes, mas nunca houve uma teologia sobre ela. Elas eram boas principalmente para compartilhar a Palavra de Deus, mas não contribuiram nada quanto ao compartilhar seu Corpo e Sangue. Como nenhuma catequese foi dada durante a pandemia sobre essas Missas, muitos as consideraram uma substituta adequada. E continuarão a achá-la assim quando a pandemia terminar.

A missa de televisão destruiu a natureza sacramental de nossa fé e da Eucaristia. Os católicos privados de dogmas já tinham um entendimento pobre da natureza da Eucaristia, mas, agora, por uma simples ação de tentar preencher uma lacuna, eles foram ensinados, passivamente, admito, que a missa na TV é tão boa quanto a missa assistida presencialmente. Nós não pretendíamos fazer isso. Nós pensávamos que estávamos fazendo a coisa certa. No entanto, não poderíamos ter matado melhor o verdadeiro entendimento da Eucaristia se tivéssemos contratado os hereges eucarísticos das eras passadas para voltar e pregar para nós. Na verdade, perdi um padre amigo porque não o deixava postar sua missa de TV de sua paróquia na minha página do Facebook. Eu tinha sérias razões para não fazer uma missa na TV para quem quisesse, e não iria contribuir para diminuir a nossa compreensão da Eucaristia.

Restrições à assistência de Missa levam a encargos impossíveis

Como dissemos, tornamos mais difícil assistir à missa – se conseguirmos uma reserva. Antes de tudo, a pessoa precisa de uma reservar seu lugar na igreja. Segundo, eles têm que usar uma máscara. Terceiro, eles precisam ficar separados das pessoas. Quarto, seus lugares são esterilizados depois que vão embora, como se fossem um germe em uma placa de Petri eclesial. Quinto, porque temos que formar voluntários para manter a presença, adotar medidas, levar as pessoas a seus assentos e fazê-las sair da igreja, é tão fácil para os voluntários se tornarem pequenos ditadores de acesso aos sacramentos (podendo eles serem frustrados monitores de salas de aula). É demais para a comunidade. Estou brincando um pouco aqui, mas isso é desconfortável para os leigos.

Sem retorno … A menos que …

Agora, esta é uma avaliação sombria, mas garanto que a maioria dos católicos que frequentam a missa não voltará, a menos que façamos alguma coisa. E cabe aos bispos fazerem isso. Eu sei que entro na esfera deles. Como disse, eles são bons homens, mas que eu saiba, muito poucos, se houver, desenvolveram a catequese necessária para trazer os fiéis de volta à Missa. Eles apenas presumem que a multidão retornará. Sem chance. Vivemos em uma sociedade que diz que a atividade que gritar mais alto será aquela a ser respondida. As pessoas descobriram que muitas coisas disputam seu tempo. Ficamos notavelmente silenciosos, muitas vezes rolando como um cachorro açoitado para a autoridade secular, permitindo que ele nos dissesse o que fazer.

Pode parecer simplista, mais uma vez, explicar aos católicos por que uma missa real e presencial é necessária para sua saúde espiritual, mas é exatamente isso que precisamos fazer. Para algumas pessoas, a pandemia fortaleceu sua fé, mas dê uma olhada na última grande praga que assolou a Terra – a Peste Negra. ela enfraqueceu seriamente a Igreja e não gerou uma boa resposta para incentivar e direcionar espiritualmente os católicos a uma fé mais firme. Em vez disso, movemos um movimento pendular de mediocridade em direção à Reforma [protestante].

Época de enfatizar músicas melhores, pregar e evangelizar leigos

Uma diocese que conheço está começando seu próprio Ano Santo Eucarístico. Brilhante da parte daquele bispo! Será um sucesso. Mas a catequese não é a única coisa necessária. Agora é a hora de rever como são as nossas liturgias, quão boas são as pregações e como incentivamos os leigos a evangelizar. A música, a pregação e a evangelização dos leigos para os leigos realmente ajudarão a impulsionar o retorno à Eucaristia. Mas isso exige tal vontade das autoridades estabelecidas, sejam bispos ou padres. É preciso um trabalho real. E não tenho certeza se a Igreja está pronta com essa energia.

Alguns de nossos padres criaram maneiras criativas de manter a fé nas mentes de seus paroquianos. Essa criatividade precisa ser aproveitada de maneira organizada e diocesana, para que todos os católicos saibam que a Igreja não está apenas retomando às atividades, mas é recarregada, renovada e dotada do Espírito para sair ativamente e trazer de volta não apenas nossos católicos comuns que frequentam a missa, mas aqueles que há muito se ausentavam da Eucaristia. A mão estendida do papa para aqueles em casamentos inválidos, bem como a da Igreja para as minorias que sofrem racismo ou discriminação, seria uma parte crucial desse esforço. Embora todos nós, padres, com certeza possamos usar da ajuda da pregação, este é um momento perfeito para as dioceses ajudarem a refazer as habilidades de pregação dos sacerdotes, principalmente quando as paróquias ainda têm meios de serem totalmente abertas. E, claro, música. Desde que os hinários desapareceram, talvez uma nova apreciação pela boa música litúrgica possa ser buscada. (Receio perder esta. “Reúna-nos”, “Todos são bem-vindos”, “Você é meu” são imunes ao Covid-19, eu acho).

Carpe diem

Nenhuma dessas coisas é realmente tão difícil de realizar. Nenhum deles exige um diploma em ciência de foguetes. As reformas dominicana e franciscana do século XIII e o alcance jesuíta ao mundo secular no século XVI revitalizaram essa grande comunidade da Igreja e mais uma vez mudamos o mundo. Então, o desafio é nosso. Lembre-se, eles não voltarão se não fizermos nada. Eles simplesmente não vão.  Carpe diem – aproveite o dia, bispos, padres, diáconos e leigos bem formados. Temos uma janela de oportunidade. Não vamos desperdiçar isso.

* Nosso agradecimento a um caro amigo pela tradução fornecida.

23 junho, 2020

A pequena “viagem apostólica” de Bento XVI.

Por FratresInUnum.com, 23 de junho de 2020 — Chega a ser impressionante como Bento XVI, sem dizer uma única palavra, já cansado, ancião, em cadeira de rodas, consegue ofuscar o seu sucessor! A viagem do pontífice à Alemanha foi um acontecimento retumbante e provou, mais uma vez, que o pontificado de Francisco não passa de um artificial fenômeno de mídia.

Bento resolveu sair de casa e visitar seu irmão de 96 anos. Queria despedir-se e dar-lhe os sacramentos. Em plena crise da pandemia, sem máscara nem luvas, aquele que enfrentou de peito aberto os piores teólogos do século XX, não temeu enfrentar o vírus chinês: foi e pronto!

Embora a razão da viagem tenha sido manifesta desde o início, não faltaram especulações interessantes. O próprio site ultra-bergogliano Vatican Insider chegou a reverberar em manchete uma notícia de um jornal alemão que sustentou a hipótese de que “Ratzinger poderia não voltar para Roma”. Curioso…

O Vatican Insider tem suficientes fontes — seu outrora editor, Andrea Tornielli, hoje chefia o editorial do Dicastério para a Comunicação do Vaticano —  para não precisar dar um tiro no escuro, para não fazer um mero chute jornalístico. Desde o início, aliás, o próprio porta-voz da Santa Sé dizia meio misteriosamente que Bento XVI “ficaria lá o tempo necessário”.

É um fato notório, porém, que a saída de Bento causou impacto e chamou muito a atenção. As pessoas queriam vê-lo, desejavam estar com o Santo Padre, tinham um desejo devoto de saudar o Papa. E talvez o seu discreto aparecimento tenha incomodado mais do que o previsto…

Para um papa como Francisco, que gosta de chamar a atenção, que telefona para jornalistas oferecendo-se para ser entrevistado, que ama jogar frases de efeito para ser reverberado pela imprensa, ser eclipsado por aquele que Meirelles em sua ficção “Os dois papas” apresentou como um papa antipático deve ser realmente uma tortura. Mas, seria uma tamanha vaidade a ponto de fazer um idoso ir e voltar de outro país, em menos de uma semana, em meio a uma pandemia?

No final das contas, sofrer o antagonismo de Ratzinger seria um golpe duro para Francisco e, por isso, parece ser bastante interessante manter um predecessor controlado, silencioso, devidamente trancado em seu mosteirinho, aquela pequenina Baviera vaticana em que ele resolveu sepultar-se vivo. É mais conveniente garantir o silêncio de Bento que permitir-lhe falar, ainda que aos sussurros, que deixar-lhe articular-se, ainda que mansamente.

O estrondo do livro de Bento XVI-Sarah em defesa do celibato foi enorme e adiou a agenda da ordenação dos viri probati. E tudo sob aquela velha diplomacia vaticana, em que olhares e sorrisos têm o peso de um touché. Imaginem o que seria Ratzinger livre…

Francisco disse certa vez que o “Papa emérito” é uma instituição. Isso quer dizer que, no fundo, o “experimento Bento” está sendo muito útil para que vejam o quanto pode ser incômodo conviver com um predecessor resignatário e, pior ainda, o quanto pode ser ruim ser este predecessor.

No fundo, a resposta para a questão que todos temos na cabeça – Bento XVI voltou porque quis ou porque foi forçado, digamos, pelas circunstâncias… – nos será dada pelo próprio Francisco daqui a alguns anos: terá ele coragem de renunciar ao pontificado e enfrentar o ostracismo da emeritude? Beberá ele do cálice que fizeram beber Ratzinger? Quem viver, verá!

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21 junho, 2020

Foto da semana.

Bento XVI acena durante sua viagem à Alemanha.

20 junho, 2020

A ideologia não poupa nada.

Papa em Lampedusa - Ambão inculturado

Papa Francisco em Lampedusa.

Nem a Ladainha de Nossa Senhora. O Cardeal Robert Sarah anunciou às conferências episcopais, em carta divulgada hoje, que Papa Francisco decidiu inserir três novas invocações a Nossa Senhora na Ladainha Lauretana:  “Mater misericordiae” (Mãe de Misericórdia), “Mater spei” (Mãe da Esperança) e, finalmente (!), “Solacium migrantium” (Conforto dos Migrantes).

Bem, ao menos não inseriu a Pachamama…

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18 junho, 2020

Profético?

Bento XVI vai à Alemanha visitar seu irmão.

Bento XVI vai à Alemanha visitar seu irmão.

“Era uma noite escura. Os homens não podiam mais discernir qual fosse o caminho para retornar a suas aldeias, quando apareceu no céu uma luz esplendorosíssima que esclarecia os passos dos viajantes como se fosse meio-dia. Naquele momento, foi vista uma multidão de homens, de mulheres, de velhos, de crianças, de monges, freiras e Sacerdotes, tendo à frente o Pontífice, sair do Vaticano enfileirando-se em forma de procissão. Mas eis um furioso temporal escurecendo um tanto aquela luz. Parecia engajar-se uma batalha entre a luz e as trevas. Chegou-se a uma pequena praça coberta de mortos e de feridos, dos quais vários pediam conforto em altas vozes.

As fileiras da procissão se tornaram bastante ralas. Depois de ter caminhado por um espaço de duzentos levantares do sol, cada um percebeu que não estava mais em Roma. O espanto invadiu os ânimos de todos, e cada um se recolheu em torno do Pontífice para guardar a sua pessoa e assisti-lo em suas necessidades. Naquele momento, foram vistos dois anjos que portavam um estandarte e o foram apresentar ao Pontífice dizendo: ‘Recebe o vexilo d’Aquela que combate e dispersa os mais fortes exércitos da terra. Os teus inimigos desapareceram, os teus filhos, com lágrimas e com suspiros, invocam o teu retorno’. Levantando, depois, o olhar para o estandarte, se via escrito nele, de um lado: ‘Regina sine labe originale concepta ( Rainha concebida sem pecado original)’; e do outro lado: ‘Auxillium Christianorum (Auxílio dos Cristãos)’. O Pontífice tomou o estandarte com alegria, mas tornando a olhar o pequeno número daqueles que haviam permanecido em torno de si, ficou aflitíssimo. Os dois anjos acrescentaram: ‘Vai depressa consolar os teus filhos. Escreve a teus irmãos dispersos nas várias partes do mundo que é preciso uma reforma nos costumes e nos homens. Isto só se poderá obter repartindo aos povos o pão da Divina Palavra. Catequizai as crianças, pregai o desapego das coisas da terra’. ‘Chegou o tempo’, concluíram os dois anjos, ‘que os pobres serão os evangelizadores dos povos. Os Levitas serão buscados entre a enxada, a pá e o martelo, a fim de que se cumpram as palavras de Davi: Deus levantou o pobre da terra para colocá-lo sobre o trono dos príncipes do teu povo.’

Ouvindo isto, o Pontífice se moveu e as filas da procissão começaram a engrossar. Quando, afinal, ele colocou o pé na cidade santa, ele começou a chorar por causa da desolação em que estavam os cidadãos, dos quais muitos não existiam mais. Entrando novamente em Roma, ele entoou o Te Deum, que foi respondido por um coro de anjos, cantando: ‘Gloria in excelsis Deo, et pax in terris hominibus bonae voluntatis’. Terminado o canto, cessou de fato toda escuridão e se manifestou um sol fulgidíssimo As cidades, as aldeias, os campos tinham a população muito diminuída, a terra estava pisada como por um furacão, por um temporal e pelo granizo, e as pessoas iam umas para as outras dizendo com ânimo comovido: ‘Há um Deus em Israel’. Do começo do exílio até o canto do Te Deum, o sol se levantou duzentas vezes. Todo o tempo que transcorreu para se cumprirem estas coisas corresponde a quatrocentos levantares de sol.”

S. João Bosco – Sonho da procissão

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17 junho, 2020

Padre bolsonarista anuncia volta à Polônia e fala em “obediência ao bispo”.

Por Evandro Éboli, Veja – 17 de junho de 2020Há 18 anos no Brasil, o padre Pedro Stepien, de linha consevadora,  é conhecido por sua pregação contra o aborto, mesmo os previstos em lei, casos de anencefalia, risco de morte da gestante e estupro.

Até eleição de Jair Bolsonaro, circulava pelo Congresso Nacional em defesa da vida e da família, como costuma dizer. É dirigente do grupo Pró-Vida, formado por católicos.

Odeio o termo povos indígenas”. Uma blasfêmia em dois atos. Artigo ...

Padre Pedro consagrada Ministério da Cultura a Nossa Senhora.

O religioso se tornou nos últimos meses e semanas um fervoroso bolsonarista. É visto com frequência no cercadinho de apoiadores de Bolsonaro no Palácio do Alvorada, está sempre acompanhado de um grupo de católicos e conduz orações pelo presidente.

Não só por ele. Há duas semanas, Stepien esteve no gabinete de Abraham Weintraub, com seus fiéis seguidores, e fez uma oração pela permanência do ministro no cargo. Levou consigo a imagem de Nossa Senhora de Fátima.

Num vídeo destinado a seu grupo religioso, o padre anunciou hoje seu retorno à Polônia. Ainda que por três vezes repetiu  que “eu tomei essa decisão”, fica no ar que essa é a verdade de fato. Setores da Igreja estava incomodado com essa proximidade de Stepien com Bolsonaro e suas aparições seguidas ao lado do presidente e de seus auxiliares.

Amigos próximos ao padre, dizem que ele vai embora a contragosto. Mas que retornará ao Brasil em um ou dois anos.

O padre afirma que conversou como bispo Waldemar Passini, da diocese de Luziânia, a qual Stepien é vinculado. E também com seu bispo polonês. E decidiram que seria bom ele passar uma temporada no seu país de origem.

“O senhor pode voltar para descansar um pouquinho. Eu tomei essa decisão. E quem sabe Deus vai me chamar para outra diocese. Deixo claro meu respeito, estima e obediência para cada bispo. Quero deixar o Brasil por um tempo”, disse Stepien. Procurado pelo Radar, o padre preferiu não esticar muito a conversa e nem a responder sobre as razões de ir embora.

“Não quero comentar nada, nada, nada. Isso é entre mim e Deus. Com o tempo ele vai agir”, disse Stepien.

15 junho, 2020

O Concílio Vaticano II e a origem do descarrilamento.

Por Aldo Maria Valli, 14 de junho de 2020 | Tradução: FratresInUnum.com*A recente intervenção de Monsenhor Carlo Maria Viganò, referente aos vínculos entre o Concílio Vaticano II e os “desvios doutrinais, morais, litúrgicos e disciplinares que surgiram e progressivamente se desenvolveram até ao presente momento, aponta para uma questão que, embora seja causa de sofrimento para muitos de nós que crescemos na Igreja pós-conciliar, é inevitável.

Monsenhor Viganò, inspirando-se na contribuição do bispo Athanasius Schneider, fala abertamente de um “monstro gerado nos círculos dos modernistas” e que agora se mostra como é, “em sua índole subversiva e rebelde”.

Vamos direto ao ponto: se hoje temos uma Igreja que, muitas vezes, caminha caminhos heréticos de matriz gnóstica e se inspira naquele humanitarismo vago, tão popular no mundo e que, não por acaso, é aplaudida por quem sempre foi inimigo da Igreja, é porque o Concílio Vaticano II, ao contrário de todos os que o precederam, pretendeu, no fim das contas, fundar uma nova Igreja. É bem verdade que isso nunca foi proclamado e o que se propalou foi a necessidade de renovação sem que se tocasse o depositum fidei. Mas, de fato, os círculos modernistas instrumentalizaram o Concílio para introduzirem uma descontinuidade. A ferramenta retórica utilizada foi a expressão, completamente inédita, “espírito do Concílio”. Um conceito que, de fato, permitiu a infiltração da revolução, muito além do que estava sendo escrito nos textos. 

Há uma passagem, na intervenção de Monsenhor Viganò, que me impressionou de uma maneira particular, porque é muito pessoal e acredito que mais de um leitor vai se identificar com isso: “Chega um momento na nossa vida em que, por disposição da Providência, somos confrontados com uma escolha decisiva para o futuro da Igreja e para a nossa salvação eterna. Falo da escolha entre compreender o erro em que praticamente todos nós caímos, e quase sempre sem más intenções, e o querer continuar a procurar noutro lugar ou justificar-nos a nós mesmos”. 

Acredito que essa afirmação resume bem o drama daqueles que, tendo crescido na Igreja do pós-Concílio, hoje, depois de décadas, não podem deixar de abrir os olhos e dar-se conta do engano.

Sobre a questão ecumênica e litúrgica, escreve Viganò, que durante muito tempo “pensávamos que certos excessos fossem apenas um exagero daqueles que se deixaram levar pelo entusiasmo da novidade”. Mas fomos enganados. Referindo-se a horrenda pachamama, Monsenhor Viganò diz com toda a clareza: “se o simulacro de uma divindade infernal foi capaz de entrar na Basílica São Pedro, isso faz parte de um crescendo previsível desde o início”. Do mesmo modo, se “numerosos Católicos praticantes, e talvez até grande parte dos próprios clérigos, estão hoje convencidos de que a Fé Católica já não é necessária para a salvação eterna” e se muitos estão agora intimamente convencidos de que “o Deus Uno e Trino, revelado aos nossos pais, seja o mesmo deus de Maomé”, é porque a semente do erro e da heresia foi plantada há mais de meio século e vem sendo cultivada ao longo de décadas. 

“Progressistas e os modernistas – escreve Viganò – souberam ocultar astuciosamente nos textos conciliares, aquelas expressões ambíguas que, à época, pareciam inofensivas para a maioria, mas que hoje manifestam sua violência subversiva”. 

Não sou um historiador da Igreja, muito menos do Concílio Vaticano II. Sinto, porém, que posso aderir ao que Monsenhor Viganò diz quando afirma que houve um engano e que muitos caíram na armadilha. Quando o arcebispo fala de uma “corrida rumo ao abismo” e se diz surpreso que “ainda se persista em não querer investigar as causas primeiras da presente crise, limitando-se a deplorar os excessos de hoje como se não fossem a conseqüência lógica e inevitável de um plano orquestrado há décadas, somos confrontados com uma obrigação inevitável. 

Viganò é muito claro quando estabelece um paralelo entre pachamama e Dignitatis humanae, a liturgia protestante e as teses de monsenhor Annibale Bugnini, o documento de Abu Dhabi e Nostra Aetate. Tenho consciência de que muitas pessoas, mesmo entre aquelas que se opõem ao modernismo, diante destas declarações do arcebispo, assustam-se. Elas alegam que os males e os abusos não se originam do Concílio, mas de uma traição ao Concílio. Não vou aqui entrar nessa discussão. Da minha parte, sei que posso concordar com a análise de Monsenhor Viganò quando ele escreve que “o Concílio foi utilizado para legitimar, sob o silêncio da autoridade, os desvios doutrinais mais aberrantes, as inovações litúrgicas mais audaciosas e os abusos mais inescrupulosos. Esse Concílio foi a tal ponto exaltado, que ele foi posto como a única referência legítima para os Católicos, clérigos e bispos, enquanto a doutrina que a Igreja sempre ensinou com autoridade foi obscurecida e desprezada; e foi proibida a liturgia perene, que por milênios alimentou a fé de ininterruptas gerações de fiéis, mártires e santos”. E sei que posso também fazer minhas as palavras de Viganò quando escreve: “confesso-o com serenidade e sem controvérsia: fui um dos muitos que, apesar de tantas perplexidades e medos, os quais se mostram hoje absolutamente legítimos, confiaram na autoridade da hierarquia com uma obediência incondicional. Na realidade, penso que muitos, e eu sou um deles, não consideramos inicialmente a possibilidade de um conflito entre a obediência a uma ordem da hierarquia e a fidelidade à própria Igreja. A separação desnaturada, ou melhor, perversa, entre hierarquia e Igreja, entre obediência e fidelidade, foi certamente tornada palpável neste último pontificado”. 

Em resumo, “apesar de todas as tentativas de hermenêutica da continuidade, miseravelmente naufragadas no primeiro confronto com a realidade da presente crise, é inegável que, do Vaticano II em diante, uma igreja paralela foi constituída, sobreposta e contraposta à verdadeira Igreja de Cristo. Essa (igreja paralela) obscureceu progressivamente a divina instituição fundada por Nosso Senhor, até ao ponto para substituí-la por uma entidade bastarda, que corresponde à tão almejada religião universal, inicialmente teorizada pela maçonaria. Expressões como novo humanismo, fraternidade universal, dignidade do homem são palavras de ordem do humanitarismo filantrópico que nega o verdadeiro Deus; são expressões da solidariedade horizontal, de vaga inspiração espiritualista e do irenismo ecumênico, que a Igreja condena sumariamente”. 

Chegar a essas conclusões causa, repito, sofrimento. Como Viganò escreve, precisamos olhar a realidade de frente. “Esta operação de honestidade intelectual requer uma grande humildade, antes de tudo em reconhecer que fomos enganados durante décadas, de boa-fé, por pessoas que, constituídas em autoridade, não foram capazes de vigiar e guardar o rebanho de Cristo: ou porque quiseram viver tranqüilos, ou porque tiveram que honrar compromissos, ou por outras quaisquer conveniências, ou por má-fé ou simplesmente por dolo. Estes últimos, que traíram a Igreja, devem ser identificados, repreendidos, exortados a emendar-se e, se não se arrependerem, expulsos da Igreja. Assim age um verdadeiro Pastor, que se preocupa com a saúde das ovelhas e que dá a vida por elas; tivemos e ainda temos muitos mercenários para quem a anuência dos inimigos de Cristo é mais importante que a fidelidade à Sua Esposa”. 

A armadilha está engatilhada. Muitos caíram nela, mas isso não justifica perseverar no erro. “E se até Bento XVI ainda poderíamos imaginar que o golpe de estado do Vaticano II (que o cardeal Suenens definiu como ‘o 1789 da Igreja’) conheceria uma desaceleração, nos últimos anos, mesmo os mais ingênuos dentre nós compreenderam que o silêncio, por medo de suscitar um cisma, a tentativa de ajustar os documentos papais dando a eles um sentido católico para remediar a ambigüidade original, os apelos e os dubia endereçados a Francisco, deixados eloqüentemente sem resposta, são uma confirmação da situação de gravíssima apostasia à qual estão expostos os líderes da hierarquia, enquanto o povo cristão e o clero se sentem irremediavelmente afastados e tratados quase com raiva por parte do episcopado”. 

Muitas vezes, olhar de frente as origens de uma doença causa sofrimento e dor; um insidioso sentimento de fracasso também pode nos abater. No entanto, é necessário que isso seja feito se você deseja encontrar o caminho da cura. 

Aldo Maria Valli

* Nosso agradecimento a um generoso leitor por nos fornecer sua tradução.

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13 junho, 2020

Dom Viganò: “Do Vaticano II em diante foi constituída uma igreja paralela, sobreposta e contraposta à verdadeira Igreja de Cristo”.

9 de Junho de 2020
Santo Efrém

 

Li com muito interesse o ensaio de S.E. Athanasius Schneider publicado, no LifeSiteNews, a 1 de Junho, e posteriormente traduzido por Chiesa e post Concilio, intitulado Não há vontade divina positiva nem direito natural para a diversidade de religiões. O estudo de Sua Excelência compendia, com a clareza que distingue as palavras daqueles que falam segundo Cristo, as objecções à suposta legitimidade ao exercício da liberdade religiosa que o Concílio Vaticano II teorizou, contradizendo o testemunho da Sagrada Escritura, a voz da Tradição e o Magistério Católico, que de ambos é guardião.

O mérito deste ensaio reside, antes de tudo, em ter sido capaz de alcançar a relação causal entre os princípios enunciados ou implicados pelo Vaticano II e o seu consequente e lógico efeito nos desvios doutrinários, morais, litúrgicos e disciplinares que surgiram e se desenvolveram progressivamente até hoje. O monstrum gerado nos círculos dos modernistas poderia, a princípio, ser enganoso, mas, crescendo e fortalecendo-se, hoje mostra-se como realmente é na sua natureza subversiva e rebelde. A criatura, então concebida, é sempre a mesma e seria ingénuo pensar que a sua natureza perversa poderia mudar. As tentativas de corrigir os excessos conciliares – invocando a hermenêutica da continuidade – revelaram-se falhadas: Naturam espellas furca, tamen usque recurret (Horácio Epist. I, 10:24). A Declaração de Abu Dhabi e, como Mons. Schneider justamente observa, os seus prenúncios do pantheon de Assis, «foi concebida no espírito do Concílio Vaticano II», como confirma orgulhosamente Bergoglio.

Este “espírito do Concílio” é a licença de legitimidade que os modernistas opõem aos críticos, sem perceberem que é precisamente confessando aquele legado que se confirma não apenas a erroneidade das declarações actuais, mas também a matriz herética que deveria justificá-las. A bem dizer, nunca na vida da Igreja houve um Concílio que representasse um tal evento histórico a ponto de torná-lo diferente dos outros: nunca foi dado um “espírito do Concílio de Nicéia”, nem o “espírito do Concílio de Ferrara-Florença” e muito menos o “espírito do Concílio de Trento”, assim como nunca tivemos um “pós-concílio” depois do IV de Latrão ou do Vaticano I.

O motivo é evidente: aqueles Concílios eram todos, indistintamente, a expressão da voz uníssona da Santa Madre Igreja e, por essa mesma razão, de Nosso Senhor Jesus Cristo. Significativamente, aqueles que apoiam a novidade do Vaticano II também aderem à doutrina herética que vê contraposto o Deus do Antigo Testamento ao Deus do Novo, como se se pudesse dar uma contradição entre as Divinas Pessoas da Santíssima Trindade. Evidentemente, essa contraposição, quase gnóstica ou cabalística, é funcional para a legitimação de um novo sujeito deliberadamente diferente e oposto em relação à Igreja Católica. Os erros doutrinários quase sempre traem também uma heresia trinitária e é, portanto, retornando à proclamação do dogma trinitário que se poderão dispersar as doutrinas que a ele se opõem: ut in confessione veræ sempiternæque deitatis, et in Personis proprietas, et in essentia unitas, et em majestate adoretur æqualitas. Ao professar a verdadeira e eterna divindade, adoramos a propriedade das divinas Pessoas, a unidade na sua essência, a igualdade na sua majestade.

Mons. Schneider cita alguns cânones dos Concílios Ecuménicos que propõem, no seu dizer, doutrinas dificilmente aceitáveis hoje, como a obrigação de reconhecer os Judeus através do vestuário ou a proibição de os cristãos serem empregados de patrões maometanos ou hebreus. Entre estes exemplos, há também a necessidade da traditio instrumentorum, declarada pelo Concílio de Florença, posteriormente corrigida pela Constituição Apostólica Sacramentum Ordinis de Pio XII. O Bispo Athanasius comenta: «Pode-se legitimamente esperar e acreditar que um futuro papa ou concílio ecuménico corrigirá as afirmações erróneas pronunciadas» pelo Vaticano II. Parece-me um argumento que, mesmo com a melhor das intenções, mina as fundações do edifício católico. Se, de facto, admitirmos que possam haver actos magisteriais que, por uma alterada sensibilidade, sejam, com o passar do tempo, susceptíveis de revogação, de modificação ou de diferente interpretação, caímos inexoravelmente sob a condenação do Decreto Lamentabili e acabamos por dar razão a quem, recentemente, precisamente com base naquela tese errónea, declarou “não conforme ao Evangelho” a pena capital, chegando a alterar o Catecismo da Igreja Católica. E, de certa maneira, poderíamos, pelo mesmo princípio, acreditar que as palavras do Beato Pio IX, na Quanta cura, foram, de alguma forma, corrigidas precisamente no Vaticano II, tal como Sua Excelência espera que possa acontecer com a Dignitatis humanæ. Dos exemplos que usou, nenhum é, por si só, gravemente erróneo ou herético: ter declarado necessária a traditio instrumentorum para a validade da Ordem não comprometeu, de forma algum, o ministério sacerdotal na Igreja, levando-a a conferir invalidamente as Ordens. Também não me parece que se possa afirmar que este aspecto, por mais importante que seja, tenha insinuado doutrinas erróneas nos fiéis, algo que apenas aconteceu com o último Concílio. E quando, no curso da História, as heresias se espalharam, a Igreja sempre interveio prontamente para condená-las, como aconteceu no tempo do Sínodo de Pistoia, de 1786, que foi, de alguma forma, precursor do Vaticano II, especialmente onde aboliu a Comunhão fora da Missa, introduziu a língua vernácula e aboliu as orações em voz baixa do Cânone; mas ainda mais quando teorizou as bases da colegialidade episcopal, limitando o primado do Papa a mera função ministerial. Reler os actos desse Sínodo deixa-nos estupefactos com a formulação servil dos erros que, posteriormente, encontraremos, ainda maiores, no Concílio presidido por João XXIII e Paulo VI. Por outro lado, como a Verdade bebe de Deus, o erro nutre-se e alimenta-se no Adversário, que odeia a Igreja de Cristo e o seu coração, a Santa Missa e a Santíssima Eucaristia.

Chega um momento na nossa vida em que, por disposição da Providência, somos confrontados com uma escolha decisiva para o futuro da Igreja e para a nossa salvação eterna. Falo da escolha entre compreender o erro em que praticamente todos nós caímos, e quase sempre sem más intenções, e o querer continuar a procurar noutro lugar ou justificar-nos a nós mesmos.

Entre outros erros, também cometemos aquele de considerar os nossos interlocutores pessoas que, apesar da diversidade das ideias e da fé, animadas por boas intenções e que, quando se abrissem à nossa fé, estariam dispostas a corrigir os seus erros. Juntamente com numerosos Padres conciliares, pensámos no ecumenismo como um processo, um convite que chama os dissidentes à única Igreja de Cristo; os idólatras e os pagãos ao único Deus verdadeiro; o povo judeu ao Messias prometido. Mas, a partir do momento em que foi teorizado nas Comissões conciliares, passou a estar em oposição directa à doutrina até então expressa no Magistério.

Pensávamos que certos excessos fossem apenas um exagero daqueles que se deixaram levar pelo entusiasmo da novidade; acreditamos sinceramente que ver João Paulo II rodeado por homens santarrões, bonzinhos, imãs, rabinos, pastores protestantes e outros hereges fosse prova da capacidade da Igreja de convocar as pessoas para invocar a paz de Deus, enquanto que o exemplo autorizado daquele gesto deu início a uma sequência desviante de pantheon mais ou menos oficiais, chegando-se até a ver ser transportado aos ombros de alguns Bispos o ídolo imundo da pachamama, sacrilegamente dissimulado sob a presumida aparência de uma sagrada maternidade. Mas se o simulacro de uma divindade infernal foi capaz de entrar em São Pedro, tal faz parte de um crescendo previsto desde o início. Numerosos Católicos praticantes, e talvez até grande parte dos próprios clérigos, estão hoje convencidos de que a Fé Católica já não é necessária para a salvação eterna; acredita-se que o Deus Uno e Trino, revelado aos nossos pais, seja o mesmo deus de Maomé. Ouvia-se repeti-lo dos púlpitos e das cátedras episcopais já há vinte anos, mas recentemente ouve-se afirmar com ênfase até do mais alto Trono.

Sabemos bem que, suportados pelo dito evangélico Littera enim occidit, spiritus autem vivificat, os progressistas e os modernistas souberam ocultar astuciosamente, nos textos conciliares, aquelas expressões ambíguas que, à época, pareciam inofensivas para a maioria, mas que hoje se manifestam na sua valência subversiva. É o método do subsistit in: dizer uma meia verdade não tanto para não ofender o interlocutor (assumindo que seja lícito silenciar a verdade de Deus por respeito a uma Sua criatura), mas com o objectivo de poder usar o meio erro que a verdade inteira dissiparia instantaneamente. Assim, “Ecclesia Christi subsistit na Ecclesia Catholica” não especifica a identidade das duas, mas a existência de uma na outra e, por consistência, também noutras igrejas: eis a passagem aberta às celebrações interconfessionais, às orações ecuménicas, ao fim implacável da necessidade da Igreja em ordem à salvação, da sua singularidade, da sua missionariedade.

Alguns talvez se recordarão que os primeiros encontros ecuménicos eram realizados com os cismáticos do Oriente e, muito prudentemente, com algumas seitas protestantes. Com excepção da Alemanha, da Holanda e da Suíça, os países de tradição católica não acolheram, desde o princípio, as celebrações mistas, com pastores e párocos juntos. Lembro-me que, na época, se falava em remover a penúltima doxologia do Veni Creator para não ferir os Ortodoxos, que não aceitam o Filioque. Hoje, ouvimos recitar as suras do Alcorão dos púlpitos das nossas igrejas, vemos um ídolo de madeira ser adorado por freiras e frades, ouvimos Bispos desdizer o que, até ontem, nos pareciam as desculpas mais plausíveis de tantos extremismos. O que o mundo quer, por instigação da Maçonaria e dos seus tentáculos infernais, é criar uma religião universal, humanitária e ecuménica em que seja banido aquele Deus ciumento que nós adoramos. E se é isto que o mundo quer, qualquer passo na mesma direcção por parte da Igreja é uma escolha infeliz que se voltará contra aqueles que acreditam que podem brincar com Deus. As esperanças da Torre de Babel não podem ser trazidas de volta à vida por um plano globalista que tem como objectivo a eliminação da Igreja Católica para substituí-la por uma confederação de idólatras e hereges unidos pelo ambientalismo e pela fraternidade humana. Não pode haver nenhuma fraternidade senão em Cristo, e só em Cristo: qui non est mecum, contra me est.

É desconcertante que, desta corrida rumo ao abismo, estejam cientes tão poucos e que poucos tenham consciência de qual é a responsabilidade dos líderes da Igreja em apoiar estas ideologias anticristãs, como se quisessem garantir um espaço e um papel na carruagem do pensamento único. E surpreende que ainda persistam em não querer investigar as causas primeiras da crise presente, limitando-se a deplorar os excessos de hoje como se não fossem a consequência lógica e inevitável de um plano orquestrado há décadas atrás. Se a pachamama pôde ter sido adorada numa igreja, devemo-lo à Dignitatis humanae. Se temos uma liturgia protestante e, às vezes, até paganizada, devemo-lo às acções revolucionárias de Mons. Annibale Bugnini e às reformas pós-conciliares. Se se assinou o Documento de Abu Dhabi, deve-se à Nostra Aetate. Se chegamos a delegar as decisões nas Conferências Episcopais – mesmo em gravíssima violação da Concordata, como aconteceu em Itália –, devemo-lo à colegialidade e à sua versão actualizada da sinodalidade. Graças à qual nos encontramos, com a Amoris Laetitia, a dever procurar uma maneira de impedir que aparecesse o que era evidente a todos, ou seja, que aquele documento, preparado por uma impressionante máquina organizacional, deveria legitimar a Comunhão aos divorciados e concubinários, assim como a Querida Amazónia será usada como legitimação de mulheres sacerdotes (o caso de uma “vigária episcopal”, em Friburgo, é muito recente) e a abolição do Sagrado Celibato. Os Prelados que enviaram os Dubia a Francisco, na minha opinião, demonstraram a mesma piedosa ingenuidade: pensar que, quando confrontado com a contestação argumentada do erro, Bergoglio teria compreendido, corrigido os pontos heterodoxos e pedido perdão.

O Concílio foi usado para legitimar, no silêncio da Autoridade, os desvios doutrinais mais aberrantes, as inovações litúrgicas mais ousadas e os abusos mais inescrupulosos. Este Concílio foi tão exaltado a ponto de ser indicado como a única referência legítima para os Católicos, clérigos e bispos, obscurecendo e conotando com um senso de desprezo a doutrina que a Igreja sempre ensinara com autoridade e proibindo a perene liturgia que, por milénios, havia alimentado a fé de uma ininterrupta geração de fiéis, mártires e santos. Entre outras coisas, este Concílio provou ser o único que põe tantos problemas interpretativos e tantas contradições em relação ao Magistério precedente, enquanto não há um – do Concílio de Jerusalém ao Vaticano – que se não harmonize perfeitamente com todo o Magistério e que precise de alguma interpretação.

Confesso-o com serenidade e sem controvérsia: fui um dos muitos que, apesar de muitas perplexidades e medos, que hoje se mostram absolutamente legítimos, confiaram na autoridade da Hierarquia com uma obediência incondicional. Na realidade, penso que muitos, e eu entre eles, não considerámos inicialmente a possibilidade de um conflito entre a obediência a uma ordem da Hierarquia e a fidelidade à própria Igreja. Para tornar tangível a separação inatural, ou melhor, diria perversa, entre Hierarquia e Igreja, entre obediência e fidelidade, foi certamente este último Pontificado.

Na sala das lágrimas, adjacente à Capela Sistina, enquanto Mons. Guido Marini preparava o roquete, a mozeta e a estola para a primeira aparição do “neo-eleito” Papa, Bergoglio exclamou: “O carnaval acabou!”, recusando, com desdém, as insígnias que todos os Papas até então humildemente aceitaram como distintivas do Vigário de Cristo. Mas naquelas palavras havia algo de verdadeiro, mesmo que dito involuntariamente: a 13 de Março de 2013 caía a máscara dos conspiradores, finalmente livres da desconfortável presença de Bento XVI e descaradamente orgulhosos de terem finalmente conseguido promover um Cardeal que encarnava os seus ideais, o seu modo de revolucionar a Igreja, de tornar preterível a doutrina, adaptável a moral, adulterável a liturgia, revogável a disciplina. E tudo isto foi considerado, pelos próprios protagonistas da conspiração, a consequência lógica e a aplicação óbvia do Vaticano II, segundo eles enfraquecido precisamente pelas críticas expressas pelo próprio Bento XVI. A maior afronta daquele Pontificado foi a liberalização da veneranda Liturgia Tridentina, à qual era finalmente reconhecida legitimidade, interrompendo cinquenta anos de ilegítimo ostracismo. Não é por acaso que os apoiantes de Bergoglio são os mesmos que vêem no Concílio o primeiro evento de uma nova igreja, antes da qual havia uma velha religião com uma velha liturgia. Não é precisamente por acaso: aquilo que afirmam impunemente, provocando o escândalo dos moderados, é o que crêem também os Católicos, a saber: que, apesar de todas as tentativas de hermenêutica da continuidade miseravelmente naufragadas no primeiro confronto com a realidade da crise presente, é inegável que, do Vaticano II em diante, foi constituída uma igreja paralela, sobreposta e contraposta à verdadeira Igreja de Cristo. Essa obscureceu progressivamente a divina instituição fundada por Nosso Senhor para substituí-la por uma entidade bastarda, correspondente à desejada religião universal que foi inicialmente teorizada pela Maçonaria. Expressões como novo humanismofraternidade universaldignidade do homem são palavras de ordem do humanitarismo filantrópico que nega o verdadeiro Deus, da solidariedade horizontal de errante inspiração espiritualista e do irenismo ecuménico que a Igreja condena sem apelo. «Nam et loquela tua manifestum te facit» (Mt 26, 73): este recurso frequente, quase obsessivo, ao mesmo vocabulário do inimigo revela a adesão à ideologia em que esse se inspira; por outro lado, a renúncia sistemática à linguagem clara, inequívoca e cristalina própria da Igreja confirma a vontade de se destacar não apenas da forma católica, mas também da sua substância.

Aquilo que, desde há anos, ouvimos enunciado, vagamente e sem claras conotações, do mais alto Trono, encontramo-lo elaborado num verdadeiro e próprio manifesto dos apoiantes do actual Pontificado: a democratização da Igreja não mais pela colegialidade inventada pelo Vaticano II, mas o synodal path inaugurado no Sínodo sobre a Família; a demolição do sacerdócio ministerial através do seu enfraquecimento, com as derrogações do Celibato eclesiástico e a introdução de figuras femininas com funções quase sacerdotais; a passagem silenciosa do ecumenismo dirigido aos irmãos separados a uma forma de pan-ecumenismo que abaixa a Verdade do único Deus Uno e Trino ao nível das idolatrias e das superstições mais infernais; a aceitação de um diálogo inter-religioso que pressupõe o relativismo religioso e exclui o anúncio missionário; a desmistificação do Papado, perseguida pelo próprio Bergoglio como cifra do Pontificado; a progressiva legitimação do politically correct: ideologia de género, sodomia, casamentos homossexuais, doutrinas malthusianas, ecologismo, imigracionismo… Não reconhecer as raízes destes desvios nos princípios estabelecidos pelo Concílio impossibilita qualquer cura: se o diagnóstico persistir contra as evidências para excluir a patologia inicial, não pode formular uma terapia adequada.

Esta operação de honestidade intelectual requer uma grande humildade, antes de tudo no reconhecer ter sido enganados durante décadas, em boa fé, por pessoas que, constituídas em autoridade, não foram capazes de vigiar e guardar o rebanho de Cristo: aqueles que vivem em silêncio, alguns por muitos compromissos, outros por conveniência, outros por má-fé ou até mesmo por dolo. Estes últimos, que traíram a Igreja, devem ser identificados, censurados, convidados a emendar-se e, se não se arrependerem, expulsos do recinto sagrado. Assim age um verdadeiro Pastor, que se preocupa com a saúde das ovelhas e que dá a vida por elas; tivemos e ainda temos muitos mercenários para quem a anuência dos inimigos de Cristo é mais importante que a fidelidade à Sua Esposa.

Eis como, com honestidade e serenidade, obedeci, há sessenta anos, a ordens questionáveis, acreditando que representassem a voz amorosa da Igreja, e hoje, com igual serenidade e honestidade, reconheço que me deixei enganar. Ser coerente hoje em dia, perseverando no erro, representaria uma escolha infeliz e tornar-me-ia cúmplice desta fraude. Reivindicar uma lucidez de julgamento desde o início não seria honesto: sabíamos todos que o Concílio representaria, mais ou menos, uma revolução, mas não podíamos imaginar que tal se revelaria tão devastadora, mesmo para o trabalho daqueles que deveriam tê-lo evitado. E se até Bento XVI ainda poderíamos imaginar que o golpe de estado do Vaticano II (que o cardeal Suenens definiu o 1789 da Igreja) conheceria uma desaceleração, nos últimos anos, mesmo os mais ingénuos dentre nós compreenderam que o silêncio, por medo de suscitar um cisma, a tentativa de ajustar os documentos papais no sentido católico para remediar a ambiguidade pretendida, os apelos e os dubia a Francisco, deixados eloquentemente sem resposta, são uma confirmação da situação de gravíssima apostasia à qual estão expostos os líderes da Hierarquia, enquanto o povo cristão e o clero se sentem irremediavelmente afastados e considerados quase com aborrecimento por parte do Episcopado.

A Declaração de Abu Dhabi é o manifesto ideológico de uma ideia de paz e de cooperação entre as religiões que pode ter alguma possibilidade de tolerância se vier de pagãos, privados da luz da Fé e do fogo da Caridade. Mas quem tem a graça de ser filho de Deus, em virtude do Santo Baptismo, deveria ficar horrorizado só com a ideia de poder construir uma blasfema Torre de Babel numa versão moderna, tentando reunir a única verdadeira Igreja de Cristo, herdeira das promessas do Povo eleito, com aqueles que negam o Messias e com aqueles que consideram blasfema só a ideia de um Deus Trino. O amor de Deus não conhece medidas e não tolera compromissos, caso contrário simplesmente não é Caridade, sem a qual não é possível permanecer n’Ele: qui manet in caritate, in Deo manet, et Deus in eo. Pouco importa se é uma declaração ou um documento magisterial: sabemos muito bem que a mens subversiva dos modernistas aposta precisamente nestes cavalos para difundir o erro. E sabemos muito bem que o objectivo destas iniciativas ecuménicas e inter-religiosas não é converter a Cristo quantos estão distantes da única Igreja, mas desviar e corromper aqueles que ainda conservam a Fé católica, levando-os a acreditar ser desejável uma grande religião universal que une “numa única casa” as três grandes religiões abraâmicas: este é o triunfo do plano maçónico em preparação para o reino do Anticristo! Que isto se concretize com uma Bula dogmática, com uma declaração ou com uma entrevista de Scalfari no Repubblica, pouco importa, porque as palavras de Bergoglio são esperadas pelos seus apoiantes como um sinal, ao qual responder com uma série de iniciativas já preparadas e organizadas anteriormente. E se Bergoglio não segue as indicações recebidas, multidões de teólogos e clérigos já estão prontos a lamentar-se da “solidão do Papa Francisco”, qual premissa para a sua demissão (por exemplo, penso em Massimo Faggioli num dos seus recentes escritos). Por outro lado, não seria a primeira vez que estes usam o Papa quando favorece os seus planos e se livram dele ou atacam-no assim que se afasta.

A Igreja celebrou, no passado domingo, a Santíssima Trindade e propõe-nos, no Breviário, a recitação do Symbolum Athanasianum, agora proscrito pela liturgia conciliar e já confinado a apenas duas ocasiões na reforma de 1962. Daquele Símbolo, agora desaparecido, permanecem gravadas em letras de ouro as primeiras palavras: «Quicumque vult salvus esse, ante omnia opus est ut teneat Catholicam fidem; quam nisi quisque integram invioletamque servaverit, absque dubio in aeternum peribit».

 Carlo Maria Viganò

Fonte: Dies Irae

12 junho, 2020

A calúnia contra as TVs Católicas, crime civil e canônico.

Por FratresInUnum.com, 12 de junho de 2020 – Como expusemos em artigo anterior, o jornal “O Estado de São Paulo” fez uma reportagem maliciosa sobre uma reunião de representantes de TVs Católicas com deputados e o presidente da República. O mais impressionante foi a reação quase imediata da Comissão Pastoral da Comunicação da CNBB, que não hesitou em qualificar a reunião como “barganha”. A partir daí, a avalanche de ataques não parou de acontecer, especialmente por parte da ala progressista da Igreja Católica.

A melhor resposta, porém, foi dada pelo arcebispo de Curitiba, Dom José Antônio Peruzzo. Atendo-se aos fatos públicos, ele escreveu ao seu clero: “a reportagem do Estadão foi inteligentemente malévola: divulgou o acontecimento com grande tardança e os apresentou em distorções grosseiras. Outros grandes jornais do país também acompanharam e nada publicaram. Acaso o Estadão é o único ‘concessionário da lucidez’? Pareceu maldade encomendada. Tudo se tornou ainda mais debatido depois da nota do setor de comunicações da CNBB. Também foi uma nota infeliz. Foi detrativa. Embora especialistas, tomaram como veraz uma reportagem viciada. E puseram-se a falar que a Igreja não aceita barganhas. É uma pena que chamaram de barganha o que e quem nada barganhou. Basta verificar e acompanhar toda a reunião”.

Diante de toda a celeuma provocada, por enquanto, nem Comissão de Comunicação nem a Presidência da CNBB publicaram alguma retratação. A omissão é especialmente grave, visto que esses canais de televisão são praticamente a única recordação ao povo simples da existência da Igreja Católica, nesses nossos dias de pandemia e o lockdown sacramental das dioceses. É impróprio alegar que a medida não traga consequências, pois as emissoras sobrevivem da contribuição dos fieis e podem, sim, ser profundamente prejudicadas pela difusão de informações falsas.

A não retificação não é isenta de consequências legais, tanto civis quanto canônicas. Civilmente, podem ser facilmente processados por calúnia. Mas a situação não é diferente do ponto de vista canônico.

A Lei da Igreja não é tão complacente com crimes contra a honra quanto possa parecer à  primeira vista. O Código de Direito Canônico prevê o crime, bem como a sua penalização: “Quem apresentar ao Superior eclesiástico outra denúncia caluniosa de delito, ou por outra forma lesar a boa fama alheia, pode ser punido com pena justa, sem excluir uma censura. O caluniador pode ainda ser compelido a dar a satisfação conveniente” (c. 1390 § 2-3) e também: “Pode ser punido com pena justa em conformidade com a gravidade do delito: quem afirmar alguma falsidade em documento eclesiástico público” (c. 1391, nº 3).

Mesmo que nenhum dos interessados quisesse abrir um processo canônico em um tribunal eclesiástico contra qualquer um dos responsáveis pelas entidades que assinaram a nota, poderia apresentar uma queixa diretamente à Congregação para os Leigos, à Congregação para os Bispos e ao Pontifício Conselho para as Comunicações sociais, todos no Vaticano, para obter alguma resposta por parte da Igreja.

A este propósito, como a nota foi pública e moveu escândalo entre os fieis, qualquer pessoa poderia manifestar a sua queixa, pois o delito foi notório e inflige diretamente as leis eclesiásticas, dando espaço a que os fieis acionem a justiça da Igreja. É muito triste que, ao invés de procurarem os interessados e se inteirarem de um vídeo público, organismos da Igreja se juntem apressadamente a jornalistas para atacar caluniosamente “dissidentes” da corrente única (a da Teologia da Libertação) na Igreja do Brasil, a despeito da “pluralidade” que dizem defender.

Seria muito desejável que houvesse uma reparação às TVs católicas e que os mesmos que as ultrajaram viessem a público para se retratar. Sua pressa político-ideológica fez com que cometessem uma ação desastrada e danosa para a própria comunhão da Igreja, que eles dizem tanto defender.

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