Archive for ‘Igreja’

18 julho, 2019

Cardeal Sarah: “O mundo não precisa de uma Igreja que seja o reflexo da própria imagem do mundo!”

Fonte: Associação Dom Vital

O Cardeal Robert Sarah, Prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, pronunciou uma conferência em Paris, na Igreja de Saint-François-Xavier, aos 25 de maio de 2019. Segue a tradução do texto integral dessa memorável conferência.

Caros amigos, permitam-me, antes de tudo, agradecer a Dom Michel Aupetit, Arcebispo de Paris, e ao pároco desta paróquia de São Francisco Xavier, o padre Lefèvre-Pontalis, pelas boas-vindas tão fraternas.

Devo apresentar-lhes meu mais recente livro: A tarde cai e o dia já declina. Nele, analiso a profunda crise que vive o Ocidente, crise da fé, crise da Igreja, crise sacerdotal, crise de identidade, crise do sentido do homem e da vida humana, o colapso espiritual e suas consequências.

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17 julho, 2019

A nova Igreja de Karl Rahner. O teólogo que ensinou a se render ao mundo.

Resenha da obra de Stefano Fontana sobre o pai de todo progressismo dito católico, Karl Rahner.

Por Silvio Brachetta, Osservatorio Internazionale Cardinale Van Thuân | Tradução: Gederson Falcometa – O Cardeal Giuseppe Siri resumiu o núcleo do erro teológico de Karl Rahner na “concepção do sobrenatural não gratuito”. Escreve-no em Getsêmani, em 1988, para os membros da Fraternidade da Virgem Maria. Em outras palavras, para Rahner o sobrenatural é ligado “necessariamente” a natureza humana: mas, neste caso, a graça não seria mais gratuita; não seria mais um dom; não poderia mais ser aceita ou recusada livremente pelo homem. Em suma, uma espécie de sobrenatural imposto por Deus ao homem. Uma gratuidade obrigatória. Se fosse verdadeiro o quanto sustenta Rahner – afirma Siri –,chegar-se-ia “à inutilidade do ato de fé”, porque “na minha essência Deus se faz presente”. Não devo aceitá-lo ou recusá-lo: Deus já faz parte de mim, queira eu ou não. O teólogo alemão não teve consciência, evidentemente, que com tal assunto “todos os princípios, todos os critérios e todos os fundamentos da fé” foram “colocados em questão e se fragmentaram”.

rahner

Mas o problema não é a opinião de um teólogo heterodoxo. É demonstrável que as sugestões rahnerianas têm comprometido e subvertido grande parte da teologia dos últimos sessenta anos. Rahner “parece ter vencido”, escreve Stefano Fontana no seu último ensaio dedicado ao “teólogo que ensinou” a Igreja “a render-se ao mundo”. Não é um exagero: “de uma investigação – escreve Fontana – conduzida no imediato pós-concílio na Pontifícia Universidade Lateranense emerge que, para os seminaristas que ali estudavam teologia, o maior teólogo católico de todos os tempos não fora Santo Tomás de Aquino ou Santo Agostinho, mas Karl Rahner”.

Um Deus atemático

Fontana descreve a parábola do pensamento rahneriano inserida fatalmente no método moderno de fazer filosofia e, então, teologia. É um método que Fontana já tinha exposto no seu ensaio precedente “Filosofia per tutti” (Fede & Cultura, 2016) e que consiste no assumir, de vez em quando, uma certa forma do “transcendente moderno”: o filósofo ou o teólogo da modernidade, a saber, não concebe mais uma relação direta com a realidade a conhecer, mas pensa que “o homem vê o mundo através de óculos dos quais não pode se libertar”. Estes óculos são as formas a priori do conhecimento de qualquer objeto, que, porém, modificam-no e limitam-no, tornando impossível qualquer certeza ou conclusão sobre ele. O objeto do conhecimento torna-se, assim, o próprio Deus, nunca completamente compreensível, jamais conhecido com segurança.

Rahner não foge a esta prática e desta lógica. O par de óculos com os quais ele lê todos os aspectos da realidade (incluindo Deus) é chamado – escreve Fontana – “buraco da fechadura”. Todo pensador da modernidade tem, no fundo, o seu apriorismo gnoseológico. O de Rahner é tal que “Deus se revela no escuro que precede e circunda o buraco da fechadura”. Revela-se de modo atemático, a saber, privado de conteúdos. Aquilo além do buraco, ao invés, é o mundo da experiência, das palavras humanas. Mas que relação podem ter esta experiência e estas palavras com a verdade? Uma relação equívoca, feita de dúvida e de incerteza, porque todo critério de juízo é colhido além da fechadura, onde me encontro eu e se encontra Deus, mas onde existe só o silêncio e a escuridão. É como medir o comprimento com um metro deformado. Não se poderá jamais alcançar a extensão das coisas por meio de um defeito inicial devido ao instrumento de medição. As coisas correspondem à realidade objetiva e o instrumento deformado está no homem, que é a realidade subjetiva.

Rahner tira estas convicções do apriorismo de Kant, mas é sobretudo em Heidegger que funda a própria gnoseologia: precisamente no princípio – escreve Fontana – segundo o qual “o homem, que se pergunta o que é o ser, está dentro do problema e então não existe conhecimento de um objeto que não seja também subjetiva”. Trata-se de uma rendição incondicionada a opinião, ao “ponto de vista” pessoal. Se, além do mais, o sujeito é defeituoso, o torna também objeto, o mundo, Deus, a minha experiência no mundo, a verdade do mundo e de Deus.

Desaparece a natureza humana

Outros ensinamentos provém da filosofia clássica, da teologia católica e do magistério da Igreja. De Platão a Santo Tomás de Aquino não se insinuou jamais a tentação de dizer que o homem não pudesse chegar à verdade, embora de modo imperfeito. O transcendental clássico é bem diferente daquele moderno: é rico de conteúdos e de esperança na capacidade cognoscitiva humana; coloca o critério do juízo sobre o mundo além do cosmo; aceita a ajuda de um Deus que se revela e fala; não tem problemas em individualizar a real vocação da pessoa além da física, além do fenômeno, situando na metafísica o próprio horizonte humano.

Em uma análise mais minuciosa, o erro de Rahner identificado por Siri – sobre o sobrenatural ligado à natureza humana – talvez seja o último a ser levado em consideração, pois, uma vez que a metafísica desapareceu, os conteúdos relacionados aos conceitos de natureza, essência e substância também desaparecem. É ainda possível conceber, no pensamento rahneriano (ou moderno em gênero), uma natureza humana? Fontana diz que não: a perspectiva do teólogo alemão “torna difícil servir-se ainda do termo ‘natureza’”. Na visão existencialista de Heidegger e de Rahner, “o homem não tem natureza” enquanto “é um ser histórico”. O ser, no tempo e na história, fluidifica-se e ‘devene’ sem interrupção, lá onde a natureza clássica se apoia, pelo contrário, sobre uma verdade estável. Com a queda da natureza, então, cai a rota da lei natural e qualquer discurso sobre o sobrenatural. Não existem dois níveis em Rahner (natural e sobrenatural) – escreve Fontana – mas “um único nível, o da história, que é conjuntamente história sacra e história profana”. Aqui também se insere o pensamento de Hegel.

Os cristãos anônimos

Perseguindo além do mais as sugestões da teologia protestante do século passado, o rahnerismo chega assim a prospectar uma “deselenização” do cristianismo, lá onde a helenização era o uso, por parte da teologia, das categorias filosóficas gregas. Não existe mais uma doutrina com a qual discernir o tempo presente e sobre a qual organizar uma prática. Vice-versa, a prática tem o primado absoluto e qualquer conclusão (se é que houve uma) deve sempre seguir o “vir a ser” histórico. Tudo então é absorvido pelo historicismo: a doutrina, o dogma e o ensinamento. Tudo se torna relativo aos tempos e aos costumes. Tudo é questionável, interpretável – continua Fontana. Tudo evolui: até mesmo a Revelação, que se dá na imanência da história e não deve jamais ser entendida como concluída.

Em continuidade com o protestantismo, a fé surge privada das categorias racionais e se põe, assim, em antítese com a razão. Não só: pelo fato de ter um acesso à religião mediante o transcendental a priori, todos os homens são unidos na Revelação, todos são equidistantes da verdade. Não serve mais uma Igreja que ensine e nem mesmo uma obra de evangelização. Segundo Rahner, todos os homens – escreve Fontana – “são cristãos, ou cristãos anônimos”, ou “cristãos que não sabem que o são”. A tarefa do cristão batizado ou do clérigo não é mais, então, aquela de “governar, ensinar e santificar” qualquer um, mas aquela de “escutar” e “acolher” o não crente.

O dogma não é mais uma palavra definitiva

Ainda é preciso verificar até que ponto o rahnerismo afetou o tecido da Igreja, existe a evidência do quanto as sugestões das novas correntes teológicas coincidem com o pensamento de Rahner. E uma tal evidência leva a “afirmar que todas as teologias do progressismo teológico do pós-concílio encontram em Karl Rahner o seu pai”. Existe um único comum denominador atrás da prioridade que muitos bispos dão à ação pastoral, à depreciação do tomismo, ao diálogo a todo custo, ao primado da experiência atemática, à predileção pela linguagem do mundo, ao conceito de concílio (ou de sínodo) onde prevalece a ação do momento sobre conteúdos efetivos do encontro.

Fontana traz o exemplo do Cardeal Walter Kasper, muito ativo no último Sínodo da Família, cuja formação é totalmente rahneriana. Para Kasper, o moderno método teológico não deve partir dos dogmas, mas deve antes “ver o dogma como intermediário entre a Palavra de Deus e a situação da vida da comunidade cristã”. Não mais um dogma “visto como algo definitivo”, mas uma pura expressão linguística, que se deve curvar à situação real da pessoa e às diferentes percepções históricas.

O que mais impressiona sobre Rahner, todavia, é que “nenhuma condenação foi emitida, apesar dos numerosos e fundamentais pontos contrários à doutrina católica”. João XXIII o chamou ao Concílio Vaticano II como perito. Há algo errado aí.

Silvio Brachetta

Stefano Fontana, “La nuova Chiesa di Karl Rahner. Il teologo che ha insegnato ad arrendersi al mondo”, Fede & Cultura, 2017, pp. 109, euro 13,00

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15 julho, 2019

Ofensiva do diabo: derrubar os padres.

Por FratresInUnum.com, 15 de julho de 2019Há algo de sobrenatural naquela cena. Uma mulher desequilibrada desce as arquibancadas, salta as cercas de ferro, passa pelas estruturas de som, sobe num palco de dois metros, sai correndo sem ser percebida em todo o trajeto e atira ao chão um padre de quase dois metros e cerca de cem quilos como se fosse uma folha de papel…

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Alguém dizia que “Deus permite ao diabo agir apenas com a condição de que não esconda o rabo”. Deixando de lado todas as tolices e infantilidades litúrgicas do Padre Marcelo Rossi, o ataque sofrido carrega um misterioso alerta: há uma guerra declarada de Satanás contra o clero.

Não é mera coincidência que a reportagem principal da revista VEJA deste fim de semana seja propriamente sobre os abusos sexuais cometidos por padres na diocese de Limeira, que obrigaram o bispo Dom Vilson a renunciar ao cargo. A foto de capa é a de um padre com vestes tradicionais: batina e barrete, ambos frisados.

Para além do significado fotográfico óbvio – mesmo sendo para representar um molestador, o que representa um padre católico continua sendo ainda a batina tradicional –, é evidente que a intenção semiótica principal é a de colar no clero conservador a marca de abusadores potenciais, coisa que se não faz com o clero progressista.

Fato é que a reportagem de VEJA não está descolada de uma agenda interna mais ampla, que decorre da opção preferencial de Francisco pelo politicamente correto, mesmo com sacrifício dos bispos e dos padres do mundo inteiro. Sejamos mais claros.

Com o Motu Proprio Vos estis lux mundi, o papa argentino institui uma política denuncista na Igreja, que não apenas desburocratiza acusações, mas as potencializa de modo quase incontrolável. Via de regra, as dioceses precisariam disponibilizar guichês para a denúncia de seus clérigos, criando, assim, espaços para a produção de documentos acusatórios contra si mesmas. Trata-se do completo aniquilamento da aplicação do direito pela Igreja, em favor da soberania mundana.

E, para eximir-se de responsabilidades e, ao mesmo tempo, amarrar completamente os bispos, no Motu Proprio Sicut mater amabilis (a ironia do título é simplesmente sádica), Francisco estabelece que o bispo renuncie ou seja removido por decreto num prazo de quinze dias quando, por negligência, tiver agido ou omitido algo que cause algum dano grave a outros, sejam indivíduos ou grupos. Pode-se questionar se não é daí que decorre a necessidade de Francisco ficar em silêncio ante as acusações de Dom Viganò — teria o pontífice argentino, por coerência, de renunciar ao papado que perseguiu com tanto afinco.

Em outras palavras, é a institucionalização da perseguição judicial na Igreja, tanto a padres quanto a bispos, é a ferramenta mais evoluída para infernizar inteiramente a vida eclesiástica.

A reportagem de VEJA é uma espécie de alarme, um tiro para o alto, a fim de que se institua todo este aparelhamento bergogliano nas cúrias. Os inimigos da Igreja estão exultantes e já perceberam que este pontificado é uma espécie de Cavalo de Troia, infiltrado para levar a cabo aquilo que Paulo VI chamava de autodemolição da Igreja. Em um vídeo recente, o ex-pastor Caio Fábio apresenta eufóricas louvações ao Papa Francisco, aclamado como aquele que veio para realizar a justiça contra os padres, tachados indistintamente como tarados.

“Criar dificuldades para vender facilidades”. Esta é a razão última de todas essas manobras. Em um pontificado que favorece a agenda gay, o feminismo descarado, o ecologismo psicótico, a esquerda internacional, parece quase incompreensível essa política de tolerância zero, não estivéssemos nós na iminência do Sínodo Pan-Amazônico, que é essencialmente um ataque ao sacerdócio católico e à santidade do celibato sacerdotal.

A hecatombe que visa desmoralizar o clero tem como objetivo principal a destruição do celibato para reduzir o sacerdócio a uma mera função profissional, dada a homens casados que se ocupem apenas de modo parcial do ministério, transformando a Igreja em uma mera empresa, destinada inexoravelmente à falência espiritual.

O plano do diabo não é somente derrubar os padres. É derrubar o sacerdócio católico como tal e inverter completamente a grande missão que Nosso Senhor concedeu aos Apóstolos: não se trata mais de converter o mundo, mas em ser convertido pelo mundo; não se trata mais de pregar para os índios, mas em regredir de tal modo que a Igreja se torne uma mera instituição tribal e pagã.

Quando o Padre Marcelo foi atacado, estava justamente falando que o sacerdote tem as mãos ungidas, não pertence mais a si mesmo e age in persona Christi. Foi um ataque bastante eloquente. “Quem tem ouvidos para ouvir, ouça”.

15 julho, 2019

Cardeal Müller: documento vaticano sobre a Amazônia contém heresia e estupidez. “Não tem nada a ver com o cristianismo”.

IHU – O cardeal Gerhard Müller juntou-se ao seu colega alemão, o cardeal Walter Brandmüller, para condenar o tão debatido texto de trabalho do Vaticano para o próximo Sínodo da Amazônia, nos termos mais fortes possíveis, chamando-o de uma obra não apenas de heresia, mas também de estupidez.

A reportagem é de Debra Heine, publicada por PJMedia.com, 11-07-2019. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

O cardeal conservador tem soado sinais de alerta sobre o controverso Sínodo de 6 a 27 de outubro, advertindo que seu propósito secreto é modificar o ensino da Igreja sobre a moral sexual e abrir suas portas para a “ecoteologia”.

Instrumentum laboris (ou documento de trabalho) do Vaticano “representa a abertura, de par em par, das portas do Magistério à ‘teologia indígena’ e à ‘ecoteologia’, dois derivados latino-americanos da teologia da libertação, cujos corifeus, depois da derrubada da União Soviética e do fracasso do ‘socialismo real’, atribuem aos povos indígenas e à natureza o papel histórico da força revolucionária em chave marxista”, opinou o autor chileno José Antonio Ureta recentemente.

O ex-editor-chefe do The Catholic HeraldDamian Thompson, chamou o documento, sem meias palavras, de “lixo”.

Em sua entrevista à revista católica La Nuova Bussola QuotidianaMüller pareceu concordar, dizendo que o documento tem “uma visão ideológica que não tem nada a ver com o cristianismo”.

“O Sínodo da Amazônia é um pretexto para mudar a Igreja, e o fato de ser feito em Roma quer enfatizar o início de uma nova Igreja”, disse Müller, ex-prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.

O prelado alemão disse que os apoiadores do papa já atacaram a ele e a outros por criticarem o documento, em um esforço para reprimir suas críticas.

Mas o Instrumentum laboris, apontou ele, “não tem nenhum valor magisterial”, portanto, “só ignorantes podem dizer que aqueles que o criticam são inimigos do papa”.

Müller continuou:

“Infelizmente, esse é o truque deles para evitar qualquer diálogo crítico. Se você tenta fazer uma objeção, você é imediatamente rotulado como inimigo do papa. Um esclarecimento mais do que apropriado, porque o texto do Instrumentum laboris é desconcertante ao descrever a Amazônia e os povos que a habitam como um modelo para toda a humanidade, um exemplo de harmonia com a natureza, uma síntese perfeita do que se entende por ecologia integral.

“É um documento que apresenta um quadro idílico da Amazônia, incluindo as religiões indígenas, a ponto de tornar inútil o cristianismo, senão para o apoio ‘político’ que ele pode dar para manter esses povos incontaminados e defendê-los dos predadores que querem levar desenvolvimento e ‘roubar’ recursos.”

O cardeal acrescentou que o papa e seus aliados “querem salvar o mundo de acordo com sua ideia, talvez utilizando alguns elementos das Escrituras”, mas as ideias deles são “profanas” e “não têm nada a ver com a Revelação”.

“Não por acaso, embora se fale de Revelação, de Criação, de sacramentos, de relações com o mundo, não se faça quase nenhuma referência substancial aos textos do Concílio Vaticano II que definem esses aspectos: Dei VerbumLumen gentiumGaudium et spes. Não se fala da raiz da dignidade humana, da universalidade da salvação, da Igreja como sacramento de salvação do mundo. Há apenas ideias profanas, sobre as quais se pode discutir, mas que não têm nada a ver com a Revelação.”

Ele citou uma seção do documento em que se fala de “um amplo e necessário campo de diálogo entre as espiritualidadescrenças e religiões amazônicas, que exige uma abordagem cordial das diferentes culturas. (…) A abertura não sincera ao outro, assim como uma atitude corporativista, que reserva a salvação exclusivamente ao próprio credo, são destruidoras desde mesmo credo”.

“Eles tratam o nosso Credo como se fosse a nossa opinião europeia. Mas o Credo é a resposta iluminada pelo Espírito Santo à Revelação de Deus em Jesus Cristo, que vive na Igreja. Não há outros credos. Em vez disso, existem outras convicções filosóficas ou expressões mitológicas, mas ninguém jamais ousou dizer, por exemplo, que a Sabedoria de Platão é uma forma da revelação de Deus. Na criação do mundo, Deus manifesta apenas a Sua existência, o Seu ser um ponto de referência da consciência, do direito natural, mas não há nenhuma outra revelação fora de Jesus Cristo. O conceito de Lógos spermatikòs (as ‘sementes da Palavra’), adotado pelo Concílio Vaticano II, não significa que a Revelação em Jesus Cristo existe em todas as culturas independentemente de Jesus Cristo. Como se Jesus fosse apenas um desses elementos da Revelação.”

Quando perguntado se ele concordava com a avaliação do cardeal Brandmüller de que o documento é uma obra de “heresia”, Müller respondeu: “Heresia? Não só isso, é também estupidez. O herege conhece a doutrina católica e a contradiz. Mas aqui se faz apenas uma grande confusão, e o centro de tudo não é Jesus Cristo, mas eles mesmos, as suas ideias para salvar o mundo”.

No documento, a “cosmovisão” dos povos indígenas é um modelo de ecologia integral, que seria uma concepção na qual espíritos e divindades agem “com e no território, com e em relação com a natureza”.

Müller explicou porque o termo “cosmovisão” é incompatível com a doutrina da Igreja.

“A ‘cosmovisão’ é uma concepção materialista, semelhante à do marxismo, no fim, podemos fazer o que quisermos. Mas nós cremos na Criação, a matéria é a forma da essência da natureza, não podemos fazer o que quisermos. A Criação é para a glorificação de Deus, mas também é um desafio para nós, chamados a colaborar com a vontade salvífica de Deus para todos os homens. A nossa tarefa não é preservar a naturezacomo ela é, mas nós temos a responsabilidade pelo progresso da humanidade, na educação, na justiça social, pela paz.

“É por isso que os católicos constroem escolas, hospitais, essa também é a missão da Igreja. Não se pode idealizar a natureza como se a Amazônia fosse uma zona do Paraíso, porque a natureza nem sempre é amorosa para com o homem. Na Amazônia, existem predadores, existem infecções, doenças. E até mesmo essas crianças, esses jovens têm direito a uma boa educação, a fruir da medicina moderna. Não se pode idealizar, como se faz no documento sinodal, apenas a medicina tradicional.”

Ele também criticou a linguagem “hippie” do documento, como “conversão ecológica” e “Mãe Terra”.

“Devemos rejeitar absolutamente expressões como ‘conversão ecológica’, argumentou Müller. “Há apenas a conversão ao Senhor, e, como consequência, há também o bem da natureza.”

“Não podemos fazer do ecologismo uma nova religião, estamos aqui em uma concepção panteísta, que deve ser rejeitada. O panteísmo não é só uma teoria sobre Deus, mas também um desprezo pelo homem. Deus que Se identifica na natureza não é uma pessoa. Deus criador, ao contrário, criou-nos à Sua imagem e semelhança. Na oração, temos uma relação com um Deus que nos escuta, que entende o que queremos dizer, não um misticismo em que podemos dissolver a identidade pessoal.”

Ele continuou:

“A nossa mãe é uma pessoa, não a Terra. E a nossa mãe na fé é Maria. A Igreja também é descrita como mãe, como a noiva de Jesus Cristo. Mas essas palavras não devem ser infladas. Uma coisa é ter respeito por todos os elementos deste mundo, outra coisa é idealizá-los ou divinizá-los. Essa identificação de Deus com a natureza é uma forma de ateísmo, porque Deus é independente da natureza. Eles ignoram totalmente a Criação.”

Müller também discorda fortemente da crítica feita pelo documento ao antropocentrismo – a visão de que os seres humanos são a entidade mais importante no universo – chamando-a de “uma heresia contra a dignidade humana”.

“É uma ideia absurda pretender que Deus não seja antropocêntrico”, argumentou. “O homem é o centro da Criação, e Jesus se fez homem, não se fez planta.”

“Essa é uma heresia contra a dignidade humana. Pelo contrário, a Igreja deve enfatizar o antropocentrismo, porque Deus criou o homem à Sua imagem e semelhança. A vida do homem é infinitamente mais digna do que a vida de qualquer animal. Hoje já existe uma inversão desse princípio: se um leão é morto na África, é um drama mundial, mas aqui se matam as crianças no ventre da mãe, e está tudo bem. Stalin também defendia que era preciso tirar essa centralidade da dignidade humana; assim, ele podia chamar muitos homens para construir um canal e fazê-los morrer em prol das gerações futuras. É para isso que servem essas ideologias, para fazer com que alguns dominem sobre todos os outros. Mas Deus é antropocêntrico, a Encarnação é antropocêntrica. A rejeição do antropocentrismo vem apenas do ódio a si mesmos e aos outros homens.

“Outro conceito promovido no Instrumentum laboris é a ideia de inculturação, que está intimamente associada à Encarnação, ou ‘o Verbo se fez carne’. De acordo com a doutrina da Igreja, Jesus Cristo, a segunda pessoa da Trindade, era ‘verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem’. Ele foi concebido no ventre de uma mulher, a Virgem Maria, assim, a natureza divina do Filho se uniu, mas não se misturou, com a natureza humana.”

inculturação é a adaptação da liturgia cristã a culturas principalmente não cristãs. O fato de o documento aparentemente usar as palavras em ambos os sentidos incomodou o cardeal imensamente. “Usar a Encarnação quase como um sinônimo de inculturação é a primeira mistificação”, irritou-se.

“A Encarnação é um evento único, irrepetível, é o Verbo que se encarna em Jesus Cristo. Deus não se encarnou na religião judaica, não se encarnou em Jerusalém. Jesus Cristo é único. É um ponto fundamental, porque os sacramentos dependem da Encarnação, são presença do Verbo encarnado. Não se pode abusar de certos termos que são centrais no cristianismo.

Pergunta – Voltemos à inculturação: a partir do documento sinodal, entendemos que devemos adotar todas as crenças dos povos indígenas, seus rituais e seus costumes. Também se faz referência ao modo como o cristianismo primitivo se inculturou no mundo grego. E se diz que, assim como fizemos naquela época, devemos fazer hoje com o povo amazônico.

“Mas a Igreja Católica nunca aceitou os mitos gregos e romanos. Pelo contrário, rejeitou uma civilização que desprezava os homens com a escravidão, rejeitou a cultura imperialista de Roma ou a pederastia típica dos gregos. A referência da Igreja era ao pensamento da cultura grega, que chegara a reconhecer elementos que abriam o caminho para o cristianismo. Aristóteles não inventou as 10 categorias: elas já existem no ser, ele as descobriu.

“Assim como acontece na ciência moderna: não é algo que diga respeito apenas ao Ocidente, mas sim a descoberta de algumas estruturas e mecanismos que existem na natureza. O mesmo vale para o direito romano, que não é um sistema arbitrário qualquer. Em vez disso, é a descoberta de alguns princípios jurídicos, que os romanos encontraram na natureza de uma comunidade. Certamente, outras culturas não tiveram essa profundidade. Mas nós não vivemos na cultura grega, o cristianismo transformou totalmente a cultura grega e romana. Certos mitos pagãos podem ter uma dimensão pedagógica em relação ao cristianismo, mas não são elementos que fundaram o cristianismo.”

Talvez o aspecto mais controverso do Instrumentum laboris seja a sua releitura dos sacramentos, especialmente no que diz respeito às ordens sagradas, sob o pretexto de que há poucos padres em áreas tão remotas.

Müller reclamou que a abordagem “não tem nada a ver com o cristianismo”.

“A Revelação de Deus em Cristo faz-se presente nos sacramentos, e a Igreja não tem nenhuma autoridade para mudar a substância dos sacramentos”, argumentou ele. “Eles não são alguns ritos que nos agradam, e o sacerdócio não é uma categoria sociológica para criar uma relação na comunidade.”

“Qualquer sistema cultural tem os seus ritos e os seus símbolos, mas os sacramentossão meios da Graça divina, de modo que não podemos mudar nem o seu conteúdo nem a sua substância. Também não podemos mudar o rito quando esse rito foi constituído pelo próprio Cristo. Não podemos fazer o batismo com qualquer líquido, nós o fazemos com água natural. Na Última Ceia, Jesus Cristo não tomou qualquer bebida ou comida, ele tomou vinho de uva e pão de trigo.”

Quando perguntado sobre quem ele tinha em mente quando se referia “àqueles que querem mudar a Igreja”, Müller disse que não se trata de uma pessoa ou de um grupo de pessoas, mas sim a um “sistema” composto voluntariamente por pessoas cegas que acreditam que estão melhorando a Igreja, mas, de fato, a estão destruindo.

“Queremos nos adaptar ao mundo: matrimôniocelibatomulheres sacerdotes, tudo deve ser mudado na convicção de que assim haverá uma nova primavera para a Igreja”, explicou. “Eles não veem que, ao contrário, eles destroem a Igreja, são como cegos que caem na fossa. Mas, se alguém diz alguma coisa, é imediatamente marginalizado, rotulado como inimigo do papa.”

13 julho, 2019

Foto da semana.

Imagem foi compartilhada pelo perfil oficial do ex-presidente nas redes sociais
O Papa Francisco, juntamente com o preposto geral da Companhia de Jesus, pe. Arturo Sosa, recebe uma camiseta com a imagem e inscrição “Lula Livre”. A imagem foi divulgada pelo twitter do ex-presidente presidiário na última segunda-feira, 8.

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12 julho, 2019

O princípio de legalidade se extingue na Igreja?

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 10 de julho de 2019 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.com  Se o Papa Francisco fosse acusado de um crime por algum juiz, em qualquer parte do mundo, ele deveria despojar-se de seu cargo de Sumo Pontífice da Igreja Católica e submeter-se ao julgamento de um tribunal. Esta é a consequência lógica e necessária da decisão clamorosa com a qual a Santa Sé privou da imunidade diplomática o Núncio Apostólico na França, Mons. Luigi Ventura, acusado de assédio sexual.

A Santa Sé poderia ter dispensado o núncio de seu cargo e, enquanto esperava a justiça francesa seguir seu curso, ter dado início a uma investigação canônica contra ele, mesmo como uma garantia de imparcialidade para com o acusado. Mas a decisão de entregar o representante pontifício a um tribunal secular derruba a instituição da imunidade diplomática – expressão por excelência da soberania da Igreja e de sua liberdade e independência –, essa mesma imunidade diplomática, aliás, invocada para proteger os crimes cometidos na Itália pelo esmoleiro do Papa, o cardeal Konrad Krajewski [aquele que reconectou ilegalmente a eletricidade de um imóvel romano ocupado por grupos esquerdistas alternativos que não pagavam as contas].

O sucedido se insere no quadro de uma preocupante extinção de todo princípio de legalidade dentro da Igreja. O direito é coessencial à Igreja, que tem uma dimensão carismática e uma dimensão jurídica, ligadas inseparavelmente entre si, como o são a alma e o corpo. No entanto, a dimensão jurídica da Igreja é ordenada ao seu fim sobrenatural e está a serviço da verdade. Se a Igreja perde de vista seu fim sobrenatural, torna-se uma mera estrutura de poder, na qual a força da função eclesiástica prevalece sobre o que é verdadeiro e justo.

Este conceito “funcionalista” da Igreja foi denunciado pelo cardeal Gerhard Ludwig Müller, em recente entrevista a Edward Pentin no National Catholic Reporter. O cardeal Müller afirmou que a chamada reforma da Cúria, que está sendo discutida nos últimos meses, corre o risco de transformar a Cúria em uma instituição na qual todo o poder fica concentrado na Secretaria do Estado, desacreditando o colégio cardinalício e as congregações competentes: “Eles estão convertendo a instituição da Cúria em uma simples burocracia, em simples funcionalismo e não em uma instituição eclesiástica”.

Uma manifestação desse funcionalismo é o uso instrumental do direito canônico para sancionar institutos religiosos e simples sacerdotes que não estão dispostos a se alinhar com o novo paradigma do Papa Francisco. No caso das comunidades religiosas, a intervenção repressiva geralmente ocorre através do comissariado, seguida de um decreto de supressão ou reforma completa da instituição, sem dar motivação adequada e muitas vezes expressa na chamada “forma específica”, ou seja, com aprovação pontifícia, sem possibilidade de recurso.

Este procedimento, cada vez mais difundido, certamente não ajuda a acalmar os espíritos numa situação eclesial sujeita a fortes tensões. Mesmo se admitirmos a existência de deficiências humanas em algumas comunidades religiosas, não seria melhor corrigi-las do que destruí-las? O que acontecerá aos jovens sacerdotes e seminaristas que decidiram dedicar suas vidas à Igreja e são privados de seu carisma de referência? Que misericórdia é exercida em relação a eles? O caso dos Franciscanos da Imaculada é emblemático neste sentido.

No caso dos simples sacerdotes, o equivalente à supressão é a sua exclusão do status jurídico clerical, isto é, a chamada redução ao estado laico. Cumpre não confundir o estado clerical – que se refere a uma condição jurídica – com a ordem sagrada, que indica uma condição sacramental e imprime um caráter indelével na alma do sacerdote. A perda do estado clerical é uma medida problemática, especialmente no que diz respeito aos bispos, sucessores dos apóstolos. Muitos bispos, ao longo da História, caíram em pecados graves, cismas e heresias. A Igreja muitas vezes os excomungou, mas quase nunca os reduziu ao estado laical, precisamente por causa da indelebilidade de sua consagração episcopal.

Hoje, pelo contrário, se procede com muita facilidade à redução ao estado laical, e frequentemente não através de um processo judicial, mas usando o processo penal administrativo introduzido pelo novo código de 1983. No processo administrativo há apenas uma instância de julgamento, os poderes discricionários dos juízes são muito amplos, e o réu, a quem às vezes nem sequer se concede advogado de defesa, é privado dos direitos que lhe são atribuídos pelo processo judicial ordinário. O prefeito da congregação competente também tem a possibilidade, como no caso da dissolução de um instituto, de solicitar uma aprovação papal na forma específica, o que torna impossível qualquer recurso.

A consequência é uma praxe justicialista da parte da instituição que, ao longo da história, mais dava garantias aos processados, esquecendo as palavras que Pio XII dirigiu aos juristas: “A função do direito, sua dignidade e o sentimento de equidade, natural ao homem, exigem que a ação punitiva, do começo ao fim, não se baseie na arbitrariedade e na paixão, mas em regras jurídicas claras e fixas […]. Se é impossível estabelecer a culpa com certeza moral, o princípio deve ser aplicado: ‘in dubio standum est pro reo’” (Discurso de 3 de outubro de 1953 aos participantes do Congresso Internacional de Direito Penal, em AAS 45 (1953), pp. 735-737).

Ao contrário da excomunhão, que sugere a ideia de verdade absoluta defendida pela Igreja, a redução ao estado laico é um castigo mais facilmente compreendido por pessoas mundanas, que concebem a Igreja como uma vulgar empresa que pode “demitir” seus empregados, mesmo sem justa causa. Essa concepção funcionalista da autoridade anula a dimensão penitencial dos castigos na Igreja. Ao impor a oração e a penitência aos culpados, a Igreja demonstrava ter em vista acima de tudo suas almas. Hoje, para agradar o mundo, que exige punições exemplares, não há interesse pelas almas dos réus, que são mandados para casa, sem que a Igreja cuide mais deles.

Em artigo publicado pelo Corriere della Sera em 11 de abril de 2019, Bento XVI acusou o “garantismo” como uma das causas do colapso moral da Igreja. Nos anos seguintes à Revolução da Sorbonne, em Maio de 1968, dizia ele, mesmo na Igreja, “os direitos do acusado deviam ser garantidos, a ponto de excluir uma condenação”. O problema, na realidade, não era o de uma garantia excessiva para o acusado, mas de excesso de tolerância para seus crimes, alguns dos quais, como a homossexualidade, deixaram de ser considerados como tais desde os anos do Concílio Vaticano II, que antecedeu aquela Revolução. Foi nos anos do Concílio e do pós-Concílio que uma cultura relativista – na qual a homossexualidade foi considerada moralmente irrelevante e pacificamente tolerada – entrou nos seminários, faculdades e universidades católicas. Bento XVI, que pediu “tolerância zero” contra a pedofilia, nunca invocou a “tolerância zero” contra a homossexualidade, curvando-se, como seu sucessor, às leis do mundo.

Nas últimas semanas foram feitas novas revelações do arcebispo Dom Carlo Maria Viganò a respeito de crimes graves contra a moralidade, cometidos pelo arcebispo Dom Edgar Peña Parra, escolhido pelo Papa Francisco como Substituto na Secretaria de Estado. Por que as autoridades eclesiásticas, que há anos estavam inteiradas dessas acusações, nunca iniciaram investigações, como não as iniciaram pelos crimes cometidos no pré-seminário Pio X, que forma os coroinhas para as cerimônias papais na Basílica de São Pedro? As autoridades têm o dever de iniciar uma investigação: um dever inalienável, depois que as palavras do corajoso arcebispo ressoaram em todo o mundo.

Outra pergunta aguarda resposta. O cardeal George Pell está, desde março passado, em confinamento solitário na penitenciária de segurança máxima de Melbourne, aguardando um novo julgamento, após ter sido condenado em primeira instância. Por que as autoridades eclesiásticas o privam de um processo canônico que estabeleça sua culpa ou inocência não diante do mundo, mas da Igreja? É escandaloso que o Cardeal Pell esteja na prisão e a Igreja esteja em silêncio, aguardando o julgamento do mundo e recusando-se a emitir seu próprio julgamento, possivelmente em contraste com o do mundo.

Do quê a Igreja tem medo? Jesus não veio para vencer o mundo? O direito, que deveria ser um instrumento da verdade, tornou-se um instrumento de poder por parte daqueles que hoje governam a Igreja. Mas uma Igreja na qual o princípio da legalidade se extingue é uma Igreja sem Verdade e uma Igreja sem Verdade deixa de ser Igreja.

11 julho, 2019

Especialista peruano em teologia da libertação revela “esquema” por trás do Sínodo da Amazônia.

Por Diane Montagna, LifeSiteNews, Roma, 22 de junho de 2019 | Tradução: Juceli Bianco –  O próximo Sínodo dos Bispos sobre a Amazônia é um “esquema” projetado para “renovar” a Igreja segundo as “versões mais radicais da teologia da libertação”, afirma um autor peruano.

Julio Loredo, presidente da filial italiana da Tradição Família e Propriedade (TFP) e autor de “Teologia da Libertação, um salva-vidas de chumbo para os pobres” [Teologia della Liberazione. Un Salvagente di Piombo per i Poveri (Cantagalli, 2014)], disse que a história “não contada” do Sínodo da Amazônia é que ele tem sido construído há décadas e foi projetado para “mudar Igreja inteira” de acordo com a assim chamada “teologia indigenista e ecológica”.

“É uma completa renovação da Igreja a partir de um ponto de vista “amazônico” que nada mais é que o ponto culminante da teologia da libertação”, disse Loredo em comentários a LifeSite na sexta-feira, 21 de Junho.

Loredo, que é editor e colaborador habitual para o novo site, “Pan-Amazn Synod Watch” (lançado por uma coalizão internacional para combater estes esforços), disse que esta visão “agora está sendo proposta por um papa latino-americano para toda a Igreja “.

“Isso é muito importante”, disse ele, acrescentando que este ponto de vista “também coincide com as opiniões mais extremas dos modernistas e progressistas em termos de eclesiologia”.

Loredo disse que o próximo Sínodo “está sendo preparado e formado por uma rede bem organizada de associações e movimentos “indigenistas”, como REPAM (Rede Eclesial Pan-Amazônica).

“Todos os seus mentores vêm das fileiras do movimento da Teologia da Libertação”, disse ele.

“Outro ponto a destacar”, acrescentou Loredo, “é que a encíclica Laudato Si é a base doutrinal do Sínodo”. Esta encíclica, disse, “tem partes inspiradas na Teologia da Libertação Ecológica ou Eco-teologia e partes inspiradas em documentos das Nações Unidas, como a Agenda 21 e o Tratado sobre a Biodiversidade”.

“Estes são tratados vinculantes para todos os países que os assinaram durante a Cúpula da Terra no Rio de Janeiro, em 1992”, explicou o autor peruano. “Estes documentos foram estudados e propostos por pesquisadores da Internacional Socialista que procuravam explorar novas vias para o pós-socialismo ou pós-comunismo. Conceitos como “desenvolvimento sustentável” e “crescimento negativo” foram lançados por esses documentos. Então, não estamos falando apenas da Igreja na Amazônia. “

Loredo disse que foi “surpreendido” com o fato de que o Vaticano, através do Sínodo Pan-Amazônico, assume “a agenda neopagã proposta pelas das Nações Unidas, em conferências tais como a Cimeira do Rio em 1992 e a Rio+20 em 2012”.

“Eu participei como jornalista na conferência de 1992, e estudei estes tópicos em profundidade.”

Em relação ao documento preparatório e ao Instrumentum laboris para a reunião de Outubro, Loredo disse que o fato de que os documentos “abarcam uma interpretação radical de ‘desenvolvimento sustentável’” é particularmente preocupante.

Igualmente preocupante, segundo ele, é a ausência total de qualquer coisa negativa sobre as tribos amazônicas, algumas das quais disse “praticam o canibalismo, o infanticídio e a bruxaria”.

“Para alguém como eu, que venho estudando teologia da libertação e teologia indígena por tantas décadas, há tantas coisas nestes documentos que estão perfeitamente claras”, disse Loredo. “Mas para alguém que não acompanha essas correntes, pode ser desconcertante, ou pelo menos não completamente compreensível.”

10 julho, 2019

FSSPX em Portugal – Santa Missa ao vivo.

Escreve-nos o sr. Diogo Silva:

Boa noite,

FSSPX Portugal lançou há algumas semanas a possibilidade dos fieis acederam às celebrações dominicais e solenidades no seu canal do youtube em directo. Sabemos que muitas almas não conseguem aceder aos sacramentos na sua forma tradicional, pelo que optamos por esta iniciativa.
A Santa missa é rezada em latim, em Lisboa ou Fátima, por norma às 11am (Lisbon GMT+1).
Divulgamos também um vídeo em separado com a homilia.
Agradecemos a vossa divulgação desta iniciativa.
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8 julho, 2019

A última entrevista de Francisco com os jesuítas é reveladora – também de suas contradições.

IHU – Quando o Papa Francisco está viajando para fora da Itália, não há apenas entrevistas coletivas no avião para jornalistas perguntarem a ele e ouvirem suas respostas ao vivo. Há também encontros com os jesuítas locais, que acontecem a portas fechadas, mas os quais, alguns dias depois, o padre Antonio Spadaro publica a transcrição completa em “La Civiltà Cattolica“.

relatório da entrevista entre Francisco e os jesuítas da Romênia, que ocorreu na noite de 31-05-2019, na nunciatura em Bucareste, contém três passagens com três argumentos que são particularmente reveladores do pensamento do Papa.

A reportagem é de Sandro Magister, publicada por Settimo Cielo, 17-06-2019. A tradução é de Wagner Fernandes de Azevedo.

1.- O primeiro tem a ver com acusações públicas contra Francisco, de ter protegido e promovido pessoas que ele conhecia sobre seus delitos sexuais, em particular o ex-cardeal americano Theodore McCarrick e o bispo argentino Gustavo Óscar Zanchetta.

O papa não repetiu aos jesuítas da Romênia que nunca soube algo sobre os crimes de um ou de outro. Mas ele confirmou que não queria responder a essas acusações, invocando em apoio de seu próprio silêncio dois exemplos retirados da história da Companhia de Jesus.

O primeiro exemplo é a suavidade do jesuíta São Pedro Fabro (1506-1547), oposta por Francisco à dureza batalhadora de outro jesuíta contemporâneo a ele, São Pedro Canisio (1521-1597):

“Devemos carregar em nossos ombros o peso da vida e suas tensões. […] você tem que ter paciência e doçura. Foi o que Pedro Fabro fez, o homem do diálogo, da escuta, da proximidade, do caminho. O tempo atual é mais de Fabro que Canísio, que, ao contrário de Fabro, era o homem da disputa. Numa época de críticas e tensões devemos fazer como Fabro, que trabalhou com a ajuda dos anjos: pediu ao seu anjo que falasse com os anjos dos outros para fazer com eles o que não podemos fazer. […] não é hora de convencer, de fazer discussões. Se alguém tem uma dúvida sincera sim, pode falar, esclarecer. Mas não responda a ataques”.

O segundo exemplo é dado pelas cartas – reunidas em um volume editado pelos jesuítas de “La Civiltà Cattolica” – dos propósitos gerais da Companhia de Jesus no período da supressão da Ordem, na segunda metade do século XVIII:

“Se lerem o livro, verão que ali é dito o que deve ser feito nos momentos de tribulação à luz da tradição da Companhia. O que Jesus fez no tempo da tribulação e da crueldade? Ele não começou a litigar com os fariseus e saduceus, como fizera antes quando tentaram prendê-lo. Jesus permaneceu em silêncio. No momento da crueldade não se pode falar. Quando há perseguição […] abraça-se a cruz”.

2.- A segunda passagem reveladora refere-se à ideia apreciada por Francisco de sabedoria e inocência inata das “pessoas”. Uma ideia que apoia tanto sua visão teológica da Igreja como “santo povo fiel de Deus“, quanto a sua visão política tipicamente “populista”:

“Quais são os verdadeiros consolos? […] eu os encontro com o povo de Deus. […] O povo de Deus entende as coisas melhor do que nós. O povo de Deus tem um senso, o ‘sensus fidei‘ que corrige a linha e coloca você no caminho certo. “

Em apoio a essa visão, Francisco recorreu a duas anedotas.

Na primeira, ele relatou ter encontrado uma velha, em um dia qualquer, com “olhos lindos e brilhantes”, que depois de algumas piadas lhe disse que orava todos os dias por ele. E ele respondeu: “Diga-me a verdade: para mim ou contra mim”. E a velha que disse: “Mas, claro: eu rezo por você! Muitos outros dentro da Igreja oram contra você”. Moral da fábula: “A verdadeira resistência [contra o papa] não está no povo de Deus, que é o verdadeiro povo”.

A outra anedota refere-se a quando Jorge Mario Bergoglio era um simples sacerdote e chegava todos os anos ao santuário de Nossa Senhora do Milagre, localizado no norte da Argentina:

“Há sempre muitas pessoas lá. Um dia, depois da missa, saindo com outro padre, uma simples senhora vem da aldeia, não ‘iluminada’. Ela carregava consigo fotos e crucifixos. E ele perguntou ao outro padre: ‘Padre, você me abençoa?’ Ele, que é um bom teólogo, respondeu: ‘Mas você estava na missa?’ Ela respondeu: ‘Sim, padre’. Então ele perguntou: ‘Você sabe que a bênção final abençoa tudo?’ A senhora: ‘Sim, padre’. […] Naquele momento, outro padre saía e o ‘pequeno padre’ virou-se para cumprimentá-lo. Naquele momento, a senhora de repente se virou para mim e disse: ‘Padre, você me abençoa?’ Aí está. Percebem? A senhora aceitou toda a teologia, mas ela queria essa bênção. A sabedoria do povo de Deus! O concreto! Vocês dirão: mas pode ser superstição. Sim, às vezes alguém pode ser supersticioso. Mas o que importa é que o povo de Deus é concreto. No povo de Deus encontramos os aspectos concretos da vida, das verdadeiras questões, do apostolado, das coisas que temos que fazer. As pessoas amam e odeiam como deveriam amar e odiar”.

3.- A terceira passagem reveladora, na entrevista com os jesuítas da Romênia, refere-se à questão da comunhão para pessoas divorciadas que se casaram novamente, uma questão ainda não resolvida desde que as dubias” expostas por quatro cardeais permanecem sem resposta:

“O perigo em que corremos o risco de cair sempre será a casuística. Quando o Sínodo sobre a Família começou, alguns disseram: aí está, o papa chama um Sínodo para dar comunhão aos divorciados. E hoje eles ainda seguem falando! De fato, o Sínodo percorreu um caminho na moralidade matrimonial, indo da casuística do escolasticismo decadente à verdadeira moralidade de São Tomás. O ponto em que em Amoris laetitia se fala da integração dos divorciados, abrindo eventualmente à possibilidade dos sacramentos, foi feita segundo a moral mais clássica de São Tomás, a casuística mais ortodoxa, não a decadente de ‘pode ou não pode'”.

*

O argumento aqui apresentado por Francisco como uma justificativa para “Amoris Laetitia” é o mesmo que tinha exibido, quase com as mesmas palavras, aos jesuítas do Chile e do Peru, com quem ele conversou em 16-01-2018, em Santiago do Chile, durante a sua viagem a esses países.

Da mesma forma que se refere a São Pedro Fabro, ao contrário de São Pedro Canísio, com muitas invocações aos anjos, se encontra de forma idêntica na entrevista entre Francisco e os jesuítas da Lituânia e Letônia, com quem se reuniu em Vilnius, em 23-09-2018.

Acontece muitas vezes que Francisco se repete, principalmente quando fala improvisando. Mas às vezes acontece que também traz aspectos íntimos de sua personalidade.

Por exemplo, para os jesuítas do Chile e do Peru ele passou a dizer que é “pela saúde mental” que ele se recusa a ler os escritos de seus oponentes:

“Pela saúde mental, não leio os sites da Internet desta chamada ‘resistência’. Sei quem são, conheço os grupos, mas não os leio, simplesmente por causa da saúde mental. […] Algumas resistências vêm de pessoas que acreditam ter uma doutrina verdadeira e acusam você de ser um herege. Quando nessas pessoas, pelo que dizem ou escrevem, não encontro bondade espiritual, simplesmente rezo por elas. Sinto muito, mas não paro nesse sentimento de saúde mental”.

Em outras ocasiões, Bergoglio apresentou outras linhas sobre suas preocupações internas e sobre seus momentos de “desolação” em sua vida.

Mas basta destacar aqui sua mais recente contradição, com o declarado rechaço de ler “os sites da Internet” de seus oponentes.

Na quinta-feira, 13-06, em discurso aos núncios apostólicos que se reuniram em Roma, em algum momento, Francisco ordenou-lhes para cortar todo o contato com sites e blogs de “grupos hostis ao Papa, à Cúria e à Igreja de Roma”.

Agora, como Francisco concluiu esse discurso? Com a “Ladainha da humildade“, do Servo de Deus e cardeal Rafael Merry del Val (1865-1930), Secretário de Estado de São Pio X.

Uma nota de rodapé, no texto oficial do discurso, refere-se às fontes de onde essa sentença foi coletada.

Essa fonte é um post do site da Internet “Corrispondenza Romana“, com a assinatura de seu fundador e diretor Roberto de Mattei, historiador da Igreja, um dos críticos mais radicais do atual pontificado.

Este não é um sinal de que Francisco não apenas lê, mas também bebe, quando lhe serve, na fonte desses sites da Internet, que ele diz deixar de lado “pela saúde mental”?

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6 julho, 2019

Foto da semana.

Vaticano, 1º de julho de 2019: Consistório público de Francisco com os Cardeais para o anúncio de canonizações, dentre as quais a de Irmã Dulce Lopes Pontes e do Cardeal John Henry Newman. Nas imagens, os Cardeais Burke e Müller cumprimentam o pontífice.

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