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25 novembro, 2021

Considerações sobre o Rorate Caeli.

Por Padre Antônio Mariano – FratresInUnum.com, 25 de novembro de 2021: Aproxima-se o Advento, e no interior de nossas almas já é possível escutar as notas suaves do Rorate.

Rorate Caeli desúper et nubes plúant justum.

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Embora comece com esse imperativo aos céus e às nuvens, o primeiro movimento que o Rorate produz em nós é essa elevação dos olhos para o céu. Nunca foi tão necessário para o católico olhar para os céus. Numa pequena crise, poderíamos até esperar uma resolução da parte dos homens. Mas, diante de tudo o que vemos acontecer na Santa Igreja, não temos mais esperança humana; necessitamos e aguardamos uma intervenção direta do Céu e olhamos para ele, esperando algum movimento que possa confortar-nos em nossas angústias.

Ne irascáris Dómine, ne ultra memíneris iniquitátis
Ecce cívitas Sancti facta est desérta
Sion desérta facta est, Jerúsalem desoláta est.
Domus sanctificatiónis tuae et gloriae tuae
Ubi laudavérunt Te patres nostri.


A primeira estrofe começa com a causa de todos os males: as nossas iniquidades, os nossos pecados. Os pecados que durante séculos lançamos na face de Deus, agora fazem cair sobre nós a ira do Senhor. Só nos resta pedir que o Senhor os esqueça, que não se irrite conosco.

Mas, merecemos nós esse esquecimento de Deus? Foram tão pouca coisa nossos crimes a ponto de que Deus os esqueça?

Não. 

Por isso, pedimos que Deus olhe para a sua cidade, para a cidade de seu Santuário, cidade desertificada, cidade desolada. A Igreja está deserta. Ainda que aqui ou ali ainda se encontre número de pessoas dentro do templo, quem lá conhece verdadeiramente o catecismo, quem realmente proclama a fé da Igreja de sempre?

Quem ali renega o liberalismo? Quem, realmente, está disposto a morrer pelo sagrado vínculo do matrimônio? Quantos sacerdotes realmente crêem na Presença de Nosso Senhor na Hóstia Consagrada?

Sião ficou deserta, Jerusalém está desolada.

A desolação de Jerusalém é porque tudo que nela resplandecia de santidade foi roubado – não há outra palavra. Roubaram de Jerusalém, isto é, da Igreja, a doutrina, a liturgia, a oração e a moral. Jerusalém é uma cidade decorada pelos corpos dos combatentes, às vezes já em agonia. Arrancaram de Jerusalém o seu estandarte que contém uma só palavra: Credo.

E ainda mais, está desolada, porque foi lhe posta no Santo dos Santos a abominação da desolação que impregna com seu fedor herético, liberal e sacrílego o que antes só emanava os suavíssimos odores do incenso da disposição a qualquer sacrifício para agradar somente a Deus.

Ah…. a casa da tua santificação e da tua glória, onde te louvavam nossos pais… Não queremos nada de novo! O vinho velho é o melhor! Não queremos uma Igreja nova, em saída (que se tornou um “de saída”…), sinodal e sucursal da ONU. Queremos a Igreja em que te louvaram nossos pais, talvez não nossos pais da terra, que muitas vezes não nos entendem por amarmos o que lhes foi ensinado a desprezar, mas aqueles, em sentido lato, pais e mães que a Igreja dá às nossas almas: S. Francisco, S. Domingos, S. Bruno, S. João da Cruz, S. Teresa, S. Catarina, S. Inácio, S. João Bosco… É na Igreja que eles te louvaram, Senhor, que nós queremos louvar também.

Se um dia o povo brasileiro pediu o seu Brasil de volta, com tanto maior força, nós católicos precisamos por todos os meios, pedir, exigir a nossa Igreja de volta.

Peccávimus et facti sumus tamquam immúndus nos,
Et cecídimus quasi fólium univérsi
Et iniquitátes nostrae quasi ventus abstulérunt nos
Abscondísti fáciem tuam a nobis
Et allisísti nos in mánu iniquitátis nostrae.

Todo pecado é uma mácula, uma mancha, uma sujeira. Mas há um pecado que é imundície, a impureza, os pecados contra o sexto e o nono mandamentos. Quantas vezes não soubemos guardar a nossa vista, nossos pensamentos, nossos corpos. Quanta licenciosidade nas conversas entre católicos, como se a masculinidade fosse sinônimo de animalidade?

Quantas imodéstias e desejos sedutores nas vestes em que tantas mulheres vão à Missa?
Quantos pais que defenderiam seus filhos de um assassino, mas expõe diante de seus olhos toda iniquidade oriunda da TV, as músicas imorais com as danças que sequer cabem no corpo de uma criança!

E isso tudo, não entre os pagãos, mas entre aqueles que dizem venerar a Sempre Virgem Maria! Esquecem-se que nada é mais oposto à Nossa Senhora do que a impureza!

E o clero? Já não advertiu em várias aparições reconhecidas pela Igreja, como Rue du Bac e La Sallete, a impureza das almas consagradas? Impureza em ações, em leituras, em apegos desordenados, em visitas desnecessárias…

Sim, esses pecados arrastaram a Igreja para o chão como folhas secas que o vento leva.

Se são os puros de coração que verão a Deus, não causa espanto que o Senhor esconda de nós a sua face. E como o pecado contra a pureza tem um poder particularmente insaciável e dominador, é por essas mesmas iniquidades que a mão justíssima do Senhor, o Santo Amor, como dizia S. Francisco de Assis, nos esmaga.

Víde, Dómine, afflictiónem pópuli tui
Et mitte quem missúrus es
Emítte Agnum dominatórem terrae
De pétra desérti ad montem fíliae Sion
Ut áuferat ipse jugum captivitátis nostrae.

Não há esperança. Nesse estado das coisas, os prudentes estarão aflitos e os insensatos se porão simplesmente a negar tudo e tentar semear um otimismo que não consiste no fato de que nosso auxílio esteja (somente) no nome do Senhor. Então, varridos pelas baixezas de nossas vilanias, pedimos ao Senhor que olhe.

Não podemos pedir-Lhe mais nada!

Que mérito temos para pedir que venha em socorro dos males que nós mesmos criamos? Pedimos, com certa astúcia, que Ele olhe. Porque a Ele será impossível olhar e não agir. Por mais que não mereçamos, será por seu Nome que Ele agirá, será pelas lágrimas da Santa Igreja que Ele agirá.

E a sua ação será o cumprimento dos anelos proféticos: “Ah, se rompêsseis os céus e descêsseis…” Sim, Ele enviará o que deve vir, aquele que é ao mesmo tempo Cordeiro de um Sacrifício e Dominador de todo o mundo. Ele não apenas tirará o jugo que nos pesa, mas o tomará sobre si. Em troca, nos oferecerá um outro, novo, suave e leve, nos proporcionará uma vassalagem que na verdade é um Reinar com Ele. E Ele virá para isso, para redimir e, redimindo, reinar.

Consolámini, consolámini, pópule meus
Cito véniet salus tua
Quare moeróre consúmeris, quia innovávit te dolor?
Salvábo te, noli timére
Ego énim sum Dóminus Deus túus Sánctus Israël, Redémptor túus.

E essa é a consolação que abranda as angústias do povo do Senhor: Ele não demora. Para nós o relógio corre, para Ele mil anos e um dia são a mesma coisa. Não estamos barganhando com um soberano de outro país para que venha em nosso auxílio. Não! “Eu sou o Senhor, teu Deus, Santo de Israel, teu Redentor”. Ó, quanta fortaleza, quanta confiança nos inspiram essas palavras. São como se Ele dissesse: “Eu te salvarei, tu és meu. A tristeza e as dores fazem parte da tua vida, não são a tua vida, Mas Eu, Eu sim, sou o teu Deus, a tua vida.” O Senhor diz à Igreja: “Nunca mais te chamarão abandonada, nem se dirá de tua terra rejeitada”. “Eu sou teu Senhor. E em breve virá a tua salvação.”

18 novembro, 2021

“Devo dar testemunho dos ritos sagrados da Igreja”.

A seguinte carta aberta ao Papa Francisco foi redigida pelo pe. Wojciech Gołaski OP e publicada originalmente em polonês. A seguir, publicamos a tradução de FratresInUnum.com a partir da versão de Rorate Caeli.

Jamna, Polônia, 17 de agosto de 2021
                                                                        A Sua Santidade Papa Francisco
                                                                        Domus Sanctae Marthae
                                                                        Santa Sé
                                                                        Cidade do Vaticano
Para a atenção de:
Rev. Mestre Geral da Ordem, Gerard Francisco Timoner III OP
Pe. Provincial da Província da Polônia, Paweł Kozacki OP
S.E. Bispo da Diocese de Tarnów, Andrzej Jeż
Rev. Superior da Casa de Jamna, Andrzej Chlewicki OP
Irmãos e Irmãs da Ordem
Rev. Superior do Distrito Polonês da Fraternidade São Pio X, Karl Stehlin FSSPX
Omnes quos res tangit
Beatíssimo Padre,

Pe. Wojciech Gołaski O.P.

Nasci há 57 anos e entrei para a Ordem Dominicana há 35 anos. Fiz meus votos perpétuos há 29 anos e sou sacerdote há 28 anos. Eu tinha apenas vagas lembranças da minha infância da Santa Missa em sua forma anterior às reformas de 1970. Dezesseis anos após minha ordenação, dois amigos leigos (desconhecidos um do outro) me incentivaram a aprender como celebrar a Santa Missa em sua forma tradicional Formato. Eu os escutei.

Foi um choque para mim. Eu descobri que a Santa Missa em sua forma clássica:

– direciona toda a atenção do sacerdote e dos fiéis para o Mistério,

– expressa, com grande precisão de palavras e gestos, a Fé da Igreja no que se passa aqui e agora no altar,
– reforça, com uma força igual à sua precisão, a fé do celebrante e do povo,
– não leva o sacerdote nem o fiel a nenhuma invenção ou criatividade própria durante a liturgia,
– coloca-os, pelo contrário, num caminho de silêncio e contemplação,
– oferece, pela quantidade e natureza de seus gestos, a possibilidade de atos incessantes de piedade e amor para com Deus,
– une o sacerdote e os fiéis, colocando-os do mesmo lado do altar e voltando-os na mesma direção:  versus Crucem, versus Deum .
Disse a mim mesmo: isso sim é a Santa Missa! E eu, um padre por 16 anos, não o sabia! Foi um poderoso eureka , uma descoberta, após o qual minha ideia da missa não poderia permanecer a mesma.
 
Desde o início me ocorreu que esse rito é o oposto do estereótipo. Em vez de formalismo, expressão livre da alma diante de Deus. Em vez de frigidez, o fervor do culto divino. Em vez de distância, proximidade. Em vez de estranheza, intimidade. Em vez de indiferença, segurança. Em vez da passividade dos leigos, sua conexão profunda e viva com o mistério (foi através dos leigos, afinal, que fui conduzido à missa tradicional). Em vez de um abismo entre o sacerdote e os fiéis, uma estreita união espiritual entre todos os presentes, protegida e expressa pelo silêncio do Cânon. Ao fazer esta descoberta, tornou-se claro para mim: esta mesma forma é a nossa ponte para as gerações que viveram antes de nós e nos transmitiram a Fé. Foi enorme a minha alegria nesta unidade eclesial que transcende todos os tempos.
Desde o início, experimentei a poderosa força de atração espiritual da Missa em sua forma tradicional. Não foram os sinais em si que me atraíram, mas o seu significado, que a alma sabe ler. O próprio pensamento da próxima celebração me enchia de alegria. Buscava todas as oportunidades de celebrar com entusiasmo e ansiedade. Muito em breve uma certeza completa amadureceu dentro de mim, que, se eu celebrasse a Missa (assim como todos os sacramentos e cerimônias) apenas em sua forma tradicional até o fim dos meus dias, não sentiria a menor falta da forma pós-conciliar.
Se alguém tivesse me pedido para expressar com uma única palavra meus sentimentos sobre a celebração tradicional no contexto do rito reformado, eu teria respondido “alívio”. Pois foi realmente um alívio, de profundidade indescritível. Era como quem, tendo caminhado a vida toda calçado com uma pedrinha que esfrega e irrita os pés, mas que não tem outra experiência de caminhada, lhe é oferecido, 16 anos depois, um par de sapatos sem pedrinha e as palavras: “Aqui”, “Coloque-os”, “experimente!” 
Não só redescobri a Santa Missa, mas também a surpreendente diferença entre as duas formas: a que estava em uso há séculos e a pós-conciliar. Eu não sabia dessa diferença porque não conhecia a forma anterior. Não posso comparar meu encontro com a liturgia tradicional a um encontro com alguém que me adotou e se tornou meu pai adotivo. Foi um encontro com uma Mãe que sempre foi minha Mãe, embora eu não a tivesse conhecido.
Em tudo isso, fui acompanhado pela bênção dos Sumos Pontífices. Eles haviam ensinado que o missal de 1962 “nunca fora legalmente ab-rogado e permaneceu, portanto, em princípio, sempre permitido”, acrescentando que “o que havia sido sagrado para as gerações anteriores permanece sagrado e grande também para nós, e não poderia de repente se tornar completamente proibido nem mesmo considerado prejudicial. Cabe a todos nós preservar as riquezas que se desenvolveram pela Fé e a oração da Igreja e dar-lhes o seu devido lugar ”(Bento XVI, Carta aos Bispos, 2007). Aos fiéis também foi ensinado: “Por seu uso venerável e antigo, a forma extraordinaria deve ser mantida com a honra que lhe é devida”; foi descrito como “um tesouro precioso a ser preservado” (Instrução Universae Ecclesiae, 2011). Estas palavras seguiram documentos anteriores que possibilitaram aos fiéis o uso da liturgia tradicional após as reformas de 1970, sendo o primeiro Quattuor abhinc annos de 1984. O fundamento e a fonte de todos esses documentos continua sendo a Bula de São Pio V, Quo primum tempore (1570).
Santo Padre, se, sem esquecer o documento solene do Papa Pio V, levarmos em consideração o lapso de tempo que abrange as declarações de seus predecessores imediatos, temos uma duração de 37 anos, de 1984 a 2021, durante os quais a Igreja disse aos fiéis, no que diz respeito à liturgia tradicional, e cada vez mais fortemente: “Existe tal caminho. Você pode caminhar por eele.”
Portanto, tomei o caminho que a Igreja me ofereceu.
Quem percorre este caminho – quem quer que este rito, que é o vaso da divina Presença e da divina Oblação, dê fruto na sua própria vida – deve abrir-se inteiramente para se entregar a si e aos outros a Deus, presente e agindo em nós através do vaso deste rito sagrado. Fiz isso com total confiança.
Então veio o dia 16 de julho de 2021.
Pelos seus documentos, Santo Padre, soube que o caminho que percorri durante 12 anos deixou de existir.
Temos afirmações de dois papas. Sua Santidade Bento XVI havia dito que o Missal Romano promulgado por São Pio V “deve ser considerado a expressão extraordinária da lex orandi da Igreja Católica de Rito Romano”. No entanto, Sua Santidade o Papa Francisco diz que “os livros litúrgicos promulgados pelos Papas São Paulo VI e São João Paulo II (…) são a única expressão da lex orandi do Rito Romano.” A afirmação do sucessor, portanto, nega a de seu predecessor ainda vivo.
Pode uma certa forma de celebrar a Missa, confirmada por uma Tradição centenária e imemorial, reconhecida por cada Papa, incluindo o senhor, Santo Padre, até 16 de julho de 2021, e santificada por sua prática ao longo de tantos séculos, de repente deixar de ser a lex orandi do Rito Romano? Se assim fosse, significaria que tal característica não é intrínseca ao rito, mas é um atributo externo, sujeito às decisões de quem ocupa cargos de alta autoridade. Na realidade, a liturgia tradicional exprime a lex orandi do rito romano por cada gesto e por cada frase e pelo conjunto que eles compõem. É garantido também expressar esta lex orandi, como a Igreja sempre defendeu, por conta do seu uso ininterrupto, desde tempos imemoriais. Devemos concluir que a primeira afirmação papal [de Bento] tem bases sólidas e é verdadeira e que a segunda [de Francisco] é infundada e falsa. Mas apesar de ser falso, ainda assim é dado poder de lei. Isso tem consequências sobre as quais escreverei a seguir.

As concessões relativas ao uso do Missal de 1962 agora têm um caráter diferente das anteriores. Não se trata mais de responder ao amor com que os fiéis aderem à forma tradicional, mas de dar tempo aos fiéis – quanto tempo, não nos é dito – para “voltar” à liturgia reformada. As palavras do Motu Proprio e da sua Carta aos Bispos deixam perfeitamente claro que foi tomada, e já está a ser implementada, a decisão de retirar a liturgia tradicional da vida da Igreja e lançá-la no abismo do esquecimento: não pode ser usado nas igrejas paroquiais, novos grupos não devem ser formados, Roma deve ser consultada para que novos padres a rezem. Os bispos devem agora ser Traditionis Custodes, “Guardiães da Tradição”, mas não no sentido de guardiões que a protegem, mas sim no sentido de guardiões de uma prisão.

Permita-me expressar minha convicção de que isso não acontecerá e que a operação irá falhar. Quais são os motivos desta convicção? Uma análise cuidadosa de ambas as Cartas de 16 de julho expõe quatro componentes: hegelianismo, nominalismo, crença na onipotência do Papa e responsabilidade coletiva. Cada um é um componente essencial de sua mensagem e nenhum deles pode ser conciliado com o depósito da Fé católica. Visto que não podem ser reconciliados com a Fé, não serão integrados a ela nem na teoria nem na prática. Vamos examinar cada um deles por vez.

1) HegelianismoO termo é convencional: não significa literalmente o sistema do filósofo alemão Hegel, mas algo que deriva desse sistema, ou seja, a compreensão da história como um processo bom, racional e inevitável de mudanças contínuas. Essa forma de pensar tem uma longa história, de Heráclito e Plotino, a Joaquim de Fiore, até Hegel, Marx e seus herdeiros modernos. A característica dessa abordagem é dividir a história em fases, de forma que o início de cada nova fase se junte ao final da anterior. As tentativas de “batizar” o hegelianismo nada mais são do que tentativas de dotar essas supostas fases históricas da autoridade do Espírito Santo. Presume-se que o Espírito Santo comunica à próxima geração algo que Ele não falou para a anterior, ou mesmo que Ele comunica algo que contradiz o que Ele disse antes. No último caso, devemos aceitar uma das três coisas: ou em certas fases a Igreja falhou em obedecer ao Espírito Santo, ou o Espírito Santo está sujeito a mudanças, ou Ele carrega contradições dentro de si.

Outra consequência dessa visão de mundo é uma mudança na forma como entendemos a Igreja e a Tradição. A Igreja já não é vista como uma comunidade que une os fiéis e transcende o tempo, como afirma a Fé católica, mas como um conjunto de grupos pertencentes às várias fases. Esses grupos não têm mais uma linguagem comum: nossos ancestrais não tinham acesso ao que o Espírito Santo nos diz hoje. A própria Tradição não é mais uma mensagem continuamente estudada; consiste antes em receber continuamente coisas novas do Espírito Santo. Em vez disso, passamos a ouvir, como em sua Carta aos Bispos, Santo Padre, da“dinâmica da Tradição”, muitas vezes com uma aplicação a eventos específicos. Um exemplo disso é quando o senhor escreve que a “última etapa desta dinâmica é o Concílio Vaticano II, durante o qual os bispos católicos se reuniram para ouvir e discernir o caminho mostrado à Igreja pelo Espírito Santo”. Esta linha de raciocínio implica que uma nova fase requer novas formas litúrgicas, porque as anteriores eram adequadas à fase anterior, que acabou. Uma vez que essa sequência de estágios é sancionada pelo Espírito Santo, por meio do Concílio, aqueles que se apegam às formas antigas, apesar de terem acesso às novas, se opõem ao Espírito Santo.

Essas opiniões, no entanto, são contrárias à Fé. A Sagrada Escritura, norma da Fé católica, não fornece nenhuma base para tal compreensão da história.Em vez disso, ensina-nos uma compreensão totalmente diferente. O Rei Josias, tendo sabido da descoberta do antigo livro da Lei, ordenou que a celebração da Páscoa fosse conduzida de acordo com ela, apesar de uma interrupção de meio século (2 Rs 22-23). Da mesma forma, Esdras e Neemias no retorno do cativeiro babilônico celebraram a Festa dos Tabernáculos com todo o povo, estritamente de acordo com os antigos registros da Lei, apesar de muitas décadas terem se passado desde a celebração anterior (Ne 8). Em cada caso, os antigos documentos da lei foram usados ​​para renovar o culto divino após um período de turbulência. Ninguém exigiu uma mudança no ritual com o fundamento de que novos tempos haviam chegado.

2) Nominalismo. Enquanto o hegelianismo influencia a compreensão da história, o nominalismo afeta a compreensão da unidade. O nominalismo implica que introduzir unidade externa (por meio de uma decisão administrativa de cima para baixo) é equivalente a alcançar a unidade real. Isso ocorre porque o nominalismo abole a realidade espiritual, procurando apreendê-la e regulá-la com medidas materiais. O senhor escreve, Santo Padre, que: “É para defender a unidade do Corpo de Cristo que sou forçado a retirar a faculdade concedida pelos meus predecessores”. Mas para alcançar esse objetivo, a verdadeira unidade, seus antecessores tomaram a decisão oposta, e não sem razão. Quando se compreende que a verdadeira unidade inclui algo espiritual e interno e, portanto, difere da mera unidade externa, não se busca mais simplesmente a uniformidade dos signos externos. Não obtemos verdadeira unidade desta forma.

A unidade não resulta da retirada de faculdades, da revogação do consentimento e da imposição de limitações. O rei Roboão, de Judá, antes de decidir como tratar os israelitas, que desejava que ele melhorasse sua sorte, consultou dois grupos de conselheiros. Os mais velhos recomendavam clemência e redução dos fardos das pessoas: a idade, na Sagrada Escritura, muitas vezes simboliza a maturidade. Os jovens, que eram contemporâneos do rei, recomendavam o aumento de seus fardos e o uso de palavras duras: juventude, nas Escrituras, muitas vezes simboliza imaturidade. O rei seguiu o conselho dos jovens. E falhou em trazer unidade entre Judá e Israel. Ao contrário, deu início à divisão do país em dois reinos (1Rs 12). Nosso Senhor curou essa divisão por meio da brandura, sabendo que a falta dessa virtude havia causado a divisão.

Antes do Pentecostes, os apóstolos avaliavam a unidade por critérios externos. Esta abordagem foi corrigida pelo próprio Salvador, que, em resposta às palavras de São João: “Mestre, vimos um homem expulsar os espíritos malignos em teu nome e não o deixamos fazê-lo, porque ele não era um de nós ”, respondeu“ Deixe-o, porque quem não é contra vós está convosco ”(Lc 9,49-50, cf. Mt 9,38-41). Santo Padre, o senhor teve muitas centenas de milhares de fiéis que “não eram contra” o senhor. E fez muito para tornar as coisas difíceis para eles! Não teria sido melhor seguir as palavras do Salvador indicando um fundamento espiritual de unidade mais profundo? O hegelianismo e o nominalismo freqüentemente tornam-se aliados, pois a compreensão materialista da história leva à convicção de que cada etapa deve terminar irrevogavelmente.

3) Crença na onipotência do Papa. Quando o Papa Bento XVI concedeu maior liberdade para o uso da forma clássica da liturgia, ele se referiu a um costume e séculos de uso. Isso forneceu uma base sólida para sua decisão. A decisão de Vossa Santidade não se baseia em tais fundamentos. Pelo contrário, revoga algo que existe e dura há muito tempo.  O senhor escreve, Santo Padre, que encontra apoio nas decisões de São Pio V, mas ele aplicou critérios exatamente opostos aos seus. Segundo ele, o que existiu e durou séculos continuaria sem ser perturbado; apenas o que era mais recente foi revogado. A única base que resta para sua decisão é, portanto, a vontade de uma pessoa dotada de autoridade papal. Pode esta autoridade, embora, por maior que seja, impedir que os antigos costumes litúrgicos sejam uma expressão da lex orandi da Igreja Romana? Santo Tomás de Aquino se pergunta se Deus pode fazer com que algo que existiu nunca tenha existido. A resposta é não, porque a contradição não faz parte da onipotência de Deus (Summa Theologiae , p. I, qu. 25, art. 4). Da mesma forma, a autoridade papal não pode fazer com que rituais tradicionais que tenham expressado a Fé da Igreja ( lex credendi ) por séculos, de repente, um dia, não mais expressem a lei da oração da mesma Igreja ( lex orandi ). O Papa pode tomar decisões, mas não aquelas que violam uma unidade que se estende ao passado e ao futuro, muito além da duração de seu pontificado. O Papa está ao serviço de uma unidade maior do que a sua autoridade. Pois é uma unidade dada por Deus e não de origem humana. Portanto, é a unidade que tem precedência sobre a autoridade, e não a autoridade sobre a unidade.

4) Responsabilidade coletiva. Indicando os motivos da sua decisão, Santo Padre, o senhor faz várias e graves acusações contra aqueles que exercem as faculdades reconhecidas pelo Papa Bento XVI. Não é especificado, entretanto, quem comete esses abusos, nem onde, nem em que número. Existem apenas as palavras “frequentemente” e “muitos”. Nem sabemos se é maioria. Provavelmente não. Ainda que não a maioria, mas todos aqueles que fazem uso das faculdades acima mencionadas, foram afetados por uma sanção penal draconiana. Eles foram privados de seu caminho espiritual, imediatamente ou em algum momento futuro não especificado. Certamente há pessoas que fazem mau uso de facas. Deve a produção e distribuição de facas, portanto, ser proibida? Sua decisão, Santo Padre, é muito mais grave do que seria o hipotético absurdo de uma proibição universal de fazer facas.

Santo Padre: por que está fazendo isso? Por que  atacou a sagrada prática da antiga forma de celebrar o Santíssimo Sacrifício de Nosso Senhor? Os abusos cometidos sob outras formas, por mais difundidos ou universais que sejam, não conduzem a nada além de palavras, a declarações expressas em termos gerais. Mas como se pode ensinar com autoridade que “o desaparecimento de uma cultura pode ser tão grave, ou até mais grave, do que o desaparecimento de uma espécie de planta ou animal” ( Laudato si  145), e alguns anos depois, com um único ato, destinar à extinção grande parte do patrimônio espiritual e cultural da própria Igreja? Por que as regras de “ecologia profunda” formuladas pelo senhor não se aplicam neste caso?Em vez disso, por que não perguntou se o número cada vez maior de fiéis que assistem à liturgia tradicional poderia ser um sinal do Espírito Santo? O senhor não seguiu o conselho de Gamaliel (Atos 5). Em vez disso, o senhor os atingiu com uma proibição que nem mesmo tinha vacatio legis .

O Senhor Deus, modelo para os governantes terrenos e, em primeiro lugar, para as autoridades da Igreja, não usa Seu poder dessa forma. A Sagrada Escritura fala assim a Deus: “Porque o teu poder é o princípio da justiça: e porque tu és o Senhor de todos, te fazes misericordioso para com todos (…) Mas tu, sendo dono do poder, julgas, e com grande favor, livra-nos de nós : porque o teu poder está perto quando a tua vontade ”(Sb 12, 16-18). O verdadeiro poder não precisa se provar com aspereza. E a severidade não é um atributo de qualquer autoridade que segue o modelo divino. O próprio Salvador nos deixou um ensinamento preciso e confiável sobre isso (Mt 20,24-28). Não apenas o tapete foi puxado, por assim dizer, debaixo dos pés das pessoas que caminhavam em direção a Deus; foi feita uma tentativa de privá-los do próprio terreno em que pisam. Esta tentativa não terá sucesso. Nada que esteja em conflito com o catolicismo será aceito na Igreja de Deus.

Santo Padre, é impossível experimentar o solo sob os pés por 12 anos e de repente afirmar que ele não está mais lá. É impossível concluir que minha própria mãe, encontrada depois de muitos anos, não é minha mãe. A autoridade papal é imensa. Mas mesmo esta autoridade não pode fazer minha mãe deixar de ser minha mãe! Uma única vida não pode suportar duas rupturas mutuamente exclusivas, uma das quais abre um tesouro, enquanto a outra afirma que esse tesouro deve ser abandonado porque o seu valor expirou. Se eu aceitasse essas contradições, não poderia mais ter nenhuma vida intelectual, nem, portanto, nenhuma vida espiritual. A partir de duas declarações contraditórias, qualquer afirmação, verdadeira ou falsa, pode ser feita a seguir. Isso significa o fim do pensamento racional, o fim de qualquer noção de realidade, o fim da comunicação efetiva de qualquer coisa a qualquer pessoa. Mas todas essas coisas são componentes básicos da vida humana em geral e da vida dominicana em particular.

Não tenho dúvidas sobre minha vocação. Estou firmemente decidido a continuar minha vida e serviço dentro da Ordem de São Domingos. Mas, para fazer isso, devo ser capaz de raciocinar correta e logicamente. Depois de 16 de julho de 2021, isso não é mais possível para mim dentro das estruturas existentes. Vejo com toda a clareza que o tesouro dos santos ritos da Igreja, o solo sob os pés de quem os pratica e a mãe da sua piedade, continua a existir. Tornou-se igualmente claro para mim que devo testemunhar isso.

Não me resta escolha senão voltar-me para aqueles que, desde o início das mudanças radicais (mudanças, note-se, que vão muito além da vontade do Concílio Vaticano II), defenderam a Tradição da Igreja, juntos com o respeito da Igreja pelas exigências da razão e que continuam a transmitir aos fiéis o depósito imutável da Fé católica: a Fraternidade Sacerdotal São Pio X. A FSSPX mostrou-se disposta a aceitar-me, respeitando plenamente a minha identidade dominicana. Proporciona-me não só uma vida de serviço a Deus e à Igreja, um serviço não impedido por contradições, mas também a oportunidade de me opor às contradições que são inimigas da Verdade e que atacaram a Igreja com tanto vigor.

Existe uma situação de controvérsia entre a FSSPX e as estruturas oficiais da Igreja. É uma disputa interna da Igreja e diz respeito a assuntos de grande importância. Os documentos e as decisões de 16 de julho fizeram com que minha posição sobre este assunto convergisse com a da FSSPX. Como no caso de qualquer disputa importante, esta também deve ser resolvida. Estou determinado a dedicar meus esforços para esse fim. Pretendo que esta carta seja parte desse esforço. Os meios usados ​​só podem ser um humilde respeito pela Verdade e gentileza, ambos provenientes de uma fonte sobrenatural. Assim, podemos esperar a solução da controvérsia e a reconstrução de uma unidade que abrangerá não apenas os que vivem agora, mas também todas as gerações, passadas e futuras.

Agradeço-lhe a atenção que dispensou às minhas palavras e rogo, Santíssimo Padre, a sua bênção apostólica.

Com devoção filial em Cristo,
Fr. Wojciech Gołaski, OP
29 outubro, 2021

As verdadeiras intenções por detrás do Sínodo.

Por FratresInUnum.com, 29 de outubro de 2021 – O objetivo da presente análise é apresentar ao leitor uma chave de leitura adequada para que possa compreender o significado do atual Sínodo sobre a sinodalidade, transcendendo o nível das superficialidades institucionalistas, por detrás das quais se escondem as verdadeiras intencionalidades.

Uma palestra importante

Diocese de Ponta Grossa se prepara para o Sínodo 2023 | Correio dos Campos  - Notícias dos Campos GeraisNo último dia 14 de outubro, a Diocese de Palmas-Francisco Beltrão promoveu uma noite de formação com todos os seus agentes de pastoral, sobre o Sínodo dos bispos. O convidado foi o Pe. Agenor Brighenti, conhecido teólogo ultra-progressista e adepto declarado da teologia da libertação.

Ele é uma importante referência, acima de qualquer suspeita de direitismo ou conservadorismo, e também goza do benefício da oficialidade, já que recentemente foi nomeado como membro da Comissão Teológica do sínodo e, portanto, não pode ser acusado de “estar por fora”.

A palestra de Brighenti é a melhor exposição que encontramos até agora das pretensões do Sínodo dos Bispos sobre a sinodalidade. Vamos resumir as suas ideias principais.

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25 outubro, 2021

Papa, Papado, Papismo.

Por Padre Antonio Mariano – FratresInUnum.com, 25 de outubro de 2021: Diante de uma crise cada vez maior na Santa Igreja, e uma crise que parece abalar um dos seus pilares que é o Papado, creio que talvez possa ajudar com alguma reflexão.

Eu sei que pode parecer frase de para-choque de caminhão, mas tempos difíceis não favorecem respostas fáceis. Diante da crise na Igreja, particularmente orbitada em torno da figura de Francisco, há, em minha opinião, duas respostas fáceis: o papismo e o sedevacantismo. Realmente os extremos se tocam.

O Papismo, que vemos seguido cegamente por todos aqueles que conseguiram algum status canônico na Igreja, justamente para o conservar, leva a considerar cada espirro de Francisco como um sopro do Espírito Santo para a Igreja. Francisco se torna a regra da fé.

Dentro da posição que chamo de Papista, podemos ainda encontrar grupos completamente opostos, que ou farão algum malabarismo silogístico para forçar todas as declarações de Francisco como verdadeiramente católicas, e acabarão se parecendo como aquela personagem de um programa humorístico que, por ser surda, dizia algo completamente diferente do que realmente foi dito. E também estão os papistas que nasceram no dia da eleição de Francisco, e que sempre se opondo aos Papas anteriores quando reafirmavam as coisas mais óbvias da fé, tornaram-se o mais fiel eco do novo Pontífice.

Isso não é por acaso.

Por exemplo: Francisco diz que os divorciados recasados devem ser acompanhados sacramentalmente. E isso é absolutamente verdadeiro. Mas também completamente dúbio.

É verdadeiro, porque o fato de que uma pessoa tenha se divorciado e se casado novamente não significa que ela não possa ter a decisão correta de, ao tomar consciência de seu estado de adultério, privar-se das intimidades conjugais, permanecendo, porém, sob o mesmo teto por alguma causa grave. Essa pessoa deve ser acompanhada sacramentalmente.

Mas os novos papistas dirão: “comunhão para todo mundo!”

Na primeira interpretação, veremos os ditos “conservadores” e, na segunda, os “progressistas”.

Seria louvável o esforço dos conservadores em espremer as declarações de Francisco na esperança de encontrar uma gota de ortodoxia se não caíssem, muitas vezes, em uma verdadeira desonestidade intelectual.

Parece termos diante de nós duas aves: um avestruz e um papagaio. Um mergulha a cabeça no buraco para não ver e o outro não se cansa de repetir os mantras do atual pontificado.

Diante do caos, surge então a outra resposta fácil: Francisco não é Papa.

A resposta é razoavelmente fácil, porque sendo assim, estamos diante de um antipapa que usurpou o trono de S. Pedro e que só merece o desprezo dos fiéis. Nessa questão, é necessário também considerar quando a Sé ficou vacante. Desde Pio XII? Desde João XXIII? Com o encontro de Assis feito por João Paulo II? Quando Bento XVI entrou numa mesquita? Ou na eleição de Francisco?

Essa resposta é razoavelmente fácil, mas traz conseqüências desastrosas porque, no final das contas, quem seria o verdadeiro clero? Qual missa seria lícita? Porque, se não há Papa e se nomeia um Papa no Cânon, isso seria um pecado… E, como se restabeleceria a ordem na Igreja se todos os Bispos e Padres não foram ordenados licitamente, ou mesmo validamente, nem receberam alguma real jurisdição? Isso sem falar no Colégio Cardinalício…

O sedevacantismo, em certo sentido, apazigua a consciência, mas cria muitos mais problemas que soluções.

Na atual circunstância, penso que manteremos nossa posição católica recorrendo à instituição do Papado, que é divina, e considerando em segundo lugar aquele que é o Papa.

O amor intelectual ao Papado deve ser maior que o amor sentimental ao Papa. Nesse sentido, consideraremos com a devida serenidade a situação de S. Vicente Ferrer e S. Catarina de Sena que chegaram a apoiar dois Papas diferentes (portanto um seria o antipapa, no caso, o de S. Vicente Ferrer) ou a exortação de S. João Bosco de que seus jovens não dissessem “Viva Pio IX!”, mas “Viva o Papa!”.

Os sedevacantistas geralmente assim se tornam porque, tal como os papistas, absolutizam o dogma da infalibilidade, que está estabelecido em circunstâncias bem peculiares. Não se trata de uma mágica ou de uma “possessão de algum espírito”, como já chegaram a afirmar os sedevacantistas, mas, sim, as ocasiões em que um Papa gozaria da infalibilidade seriam realmente bem raras.

É por isso que o amor ao Papado e a caridade para com o Pontífice levariam a resistir-lhe quando suas ações ou palavras não correspondessem à Fé da Igreja.

Penso no sermão que Dom Lefebvre proferiu nas sagrações episcopais, em Ecône, em 1988, no qual ele diz que “apesar de desejar, não poderia se submeter às autoridades romanas”. Creio que essa frase manifesta o ponto de equilíbrio e de justiça na atual situação.

Querer se submeter às autoridades romanas. A posição de Dom Lefebvre não parte de uma negação de que não exista mais autoridade, ao contrário, ele reconhece as autoridades e quer estar submetido a elas.

Porém, o que essas autoridades lhe pedem vai contra o que os antecessores dessas mesmas autoridades estabeleceram. Diante disso, a atitude que se toma é resistir a essas autoridades, crendo que um dia o Bom Deus trará essas autoridades à verdadeira fé.

Isso é muito difícil.

Pense num filho cujo pai é alcoólatra.

Ele ama seu pai, no entanto (e justamente por isso) deve reprovar suas atitudes e não compactuar jamais com seu vício, e ao mesmo tempo “desobedecer” as ordens iníquas que seu pai eventualmente lhe der.

Esse filho, ama e conhece a paternidade, sabe que é um dom de Deus e que ele, como filho, deveria se submeter. Porém, isso não é possível, porque aquele que ocupa esse lugar faz mal uso. Portanto, cabe ao filho, por amor a Deus, por amor à paternidade e por amor ao pai, resistir.

Que angústia não sente esse filho.

Que angústia sentimos nós.

Aquele que se alegra por não se submeter ao Papa não é católico.

Mas hoje, o Senhor nos convida, no passo da Paixão em que está a Santa Igreja, a bebermos do cálice da angústia e comer do pão das lágrimas.

Bebamos até a última gota, recolhamos cada migalha desse pão. Crendo que, não por acaso, o salmo com o qual começamos a Santa Missa seja um apelo de uma alma angustiada, injustiçada, perseguida, cuja única esperança é esperar no Senhor.

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23 outubro, 2021

Vox Populi = Vox Dei? (A voz do Povo é a voz de Deus?)

“A escuta na 1° Assembleia Eclesial para a América Latina”, um resumo.

Por Que no te la cuenten, 19 de outubro de 2021 | Tradução: FratresInUnum.com – No último 21 de setembro, publicou-se a “Síntese narrativa: a escuta na 1° Assembleia eclesial para a América Latina e o Caribe – CELAM” (224 páginas que lemos antecipando seu advento), conclusão “NÃO OFICIAL” segundo seus apresentadores (p. 2) de cinco meses de “escuta ao povo de Deus” através de respostas e contribuições por meio da página da “Assembleia sinodal” do CELAM.

Como habitualmente sucede nestes casos, as “propostas” não somente parecem ter sido elaboradas por certos grupos ideológicos minoritários, encravados nas estruturas de poder eclesial, como também selecionadas com uma finalidade muito precisa: “o processo de conversão da Igreja” (p. 1).

A técnica não é nova (algo parecido já ocorreu no Congresso Americano Missionário na Bolívia e no Sínodo dos Jovens de 2018): trata-se da repetição constante com a finalidade de tentar impor “desde baixo” os novos “paradigmas eclesiais” como o das diaconisas, o “sacerdócio feminino”, a “abertura à homossexualidade na Igreja” e a teologia do povo e da libertação, entre outras coisas.

Com o objetivo de expor que “o povo levantou” é que oferecemos, aqui, algumas pérolas extraídas deste documento que, mais do que uma síntese, acaba por ser um “copia-e-cola” de propostas individuais, teologicamente desordenadas, sem muito método nem lógica que, apesar disto, “conecta-se com o Sínodo da Igreja Universal sobe Sinodalidade, no qual estaremos compartilhando os diversos frutos desta experiência como Assembleia Eclesial que segue o seu caminho” (p. 2)

Vejamos alguns dos textos propostos como parte do “povo santo de Deus”, “que é infalível in credendo” (Mensagem de abertura da 1° Assembleia Eclesial da ALyC do CELAM (p. 1), vários deles intitulados (sic) como “pérolas” das “vozes do povo de Deus”.

As seguintes são algumas citações textuais (o documento completo pode ser consultado aqui):

Teologia da Libertação

“Promover uma teologia da libertação, libertadora, que nos permita conectar-nos efetivamente ao projeto libertador de Jesus, que nos permita reconhecer as estruturas de poder e opressão, que facilite o encontro, o diálogo e que promova os gestos e atitudes de esperança para viver um ministério eclesial vivo. Voltar às fontes, como nos convida o Papa Francisco, e retomar seu compromisso inicial de deixar tudo para servir e fazer Jesus conhecido. Que tenha preferência pelos pobres e vulneráveis de nosso continente. Voltar à mensagem de Aparecida e retomar a Teologia da Libertação sem medo de censuras, mas com a certeza de ir pelo caminho correto” (p. 25). “Hoje contamos com a imagem de uma Igreja sem voz, cinza, que não atualiza a mensagem do Concílio Vaticano II, que não projeta a mensagem libertadora de Aparecida, nem as exigências da Teologia da Libertação” (p. 26)

Educação global e marxista

“Vozes do povo de Deus. Pérolas (sic): sigamos sonhando com o pacto global pela educação porque a educação é a porta de entrada a dias melhores na sociedade. Cremos firmemente que o acesso à educação é um direito, por isso a necessidade de um “Pacto Global pela Educação… liberar a educação, como defende Paulo Freire (e outros) é o caminho para uma sociedade em que cada cidadão está sujeito (cidadania ativa)” (p. 48)

O mundo protestante

“Vozes do povo de Deus. Pérolas (sic): “A Igreja Católica não considera as igrejas PROTESTANTES como perigo para a fé, ao contrário, são formas distintas de crer em Deus (…). “Os pastores e fiéis PROTESTANTES são mais entusiastas, ativos e ‘em saída’” (p. 86)

“O crescimento constante das IGREJAS EVANGÉLICAS e pentecostais em nossa comunidade em troca de receber bens materiais para melhorar sua qualidade de vida” (idem)

Sacerdócio e diaconato feminino

Presença e participação sem voz da mulher na Igreja: Reconhece-se sua presença e a participação… mas, muitas vezes, de forma passiva, submissa e sem voz nas instâncias de decisão eclesial. Ministerialidade da mulher: é necessário a formação e o reconhecimento da Ministerialidade da mulher em uma Igreja em saída, incluindo o diaconato feminino (…). Respeito e igualdade de opões que os sacerdotes e bispos têm dentro das comunidades eclesiais (p. 95)… “Pedir mudanças no direito canônico e na estrutura eclesial para que as mulheres assumam ministérios eclesiais / refletir seriamente e abrir-se à possibilidade de ministérios ordenados (Diaconato, ministério presbiteral)” (p. 97)

“A Igreja não pode permanecer estagnada, mas se requer uma adoção de medidas transformadores, reconhecer que se cometeram e se cometem injustiças especialmente com a mulher dentro da Igreja. Desmistificar o templo, tirar a Eucaristia dos templos e trazê-la à vida comum. Combater o clericalismo e optar por uma igreja sinodal (caminhando com todos/todas sem exclusão de ninguém), com a construção de estruturas fraternas” (p. 100)

“(Vozes do povo de Deus. Pérolas). Falta valorizar o trabalho pastoral e a missão de evangelização da mulher. Criar o diaconato da mulher” (p. 188).

“Não há somente a necessidade de mulheres diaconisas, mas são uma realidade. Uma igreja sinodal merece mulheres diaconisas” (p. 189)

Sacerdotes casados e celibato opcional

“Que se promova um departamento de ação pastoral nas conferências episcopais e no CELAM para o acompanhamento, atenção e diálogo constante com os sacerdotes casados”.

“Que se promova, a nível profissional, desde a dimensão humana, psicológica, filosófica e teológica uma comissão de estudo que forneça luzes sobre o celibato opcional, que apresente uma nova dimensão do ministério sacerdotal condizente à realidade atual”.

“Analisar a necessidade do celibato opcional como uma resposta às problemáticas que se apresentam na vida sacerdotal”.
“Que se considere a experiência dos sacerdotes casados na vida cristã como igreja doméstica, pastoral, sacerdotal, profissional, empresarial, laboral, educativa para que contribua com o crescimento da vida diocesana e paroquial” (p. 123)

Aceitação da homossexualidade

“A homossexualidade no clero tem silenciosamente disfarçado o cumprimento do celibato… a Igreja já não representa uma espiritualidade viva. A redução do cristianismo a alguns eventos sacramentais administrados pela casta clerical condenou a imensa maioria de fiéis a um papel passivo… por exemplo, os discursos de moral sexual da parte da Igreja já não têm nenhuma relação com a vida dos fiéis” (p. 124)

O que dói: “Dor pela indiferença da Igreja frente ao tema da Diversidade Sexual. É a dor das pessoas LGBTIQ+ ao sentirem-se rechaçadas pela Igreja, frente a sua orientação sexual… constatar que em alguns púlpitos há presbíteros que repetem e reiteram o rechaço à diversidade sexual. Dor e decepção daqueles colégios católicos que não acolhem com respeito, tolerância ativa e inclusão a orientação sexual de filhos e filhas. Preocupação que depois de cinco anos de Amoris Laetitia não avançou em praticamente nada, especialmente no que se refere à educação do clero e da hierarquia face à diversidade sexual.

“Algumas novas instâncias eclesiais que apareceram estes últimos anos que promovem a participação laical e o respeito à diversidade sexual. Da esperança à participação cidadã e movimentos sociais (incluindo o LGBTQI+) que propiciam novas possibilidades de diálogo, mais centradas na pessoa e no bem comum, questionando o modelo atual” (p. 198).

Evangelização a partir da base

(Vozes do povo de Deus. Pérolas): “DEIXAR-SE EVANGELIZAR PELOS POVOS onde se encontram as sementes o Reino que se constrói na terra, em um tempo e espaço determinados” (p. 118)… “A Igreja precisa escutar à sabedoria ancestral, reconhecer os valores presentes no estilo de vida das Comunidades Originárias” (p. 119)

* * *

Estas e muitas outras coisas são as que alguns, abrogando-se da representação do “Santo Povo de Deus” (assim, com maiúscula), desejam impor com certa pressa, como se lhes faltasse pouco tempo.

Que no te la cuenten…

Pe. Javier Olivera Ravasi, SE

19 outubro, 2021

CNBB, o teatro e a mordaça.

Por FratresInUnum.com, 19 de outubro de 2021 – Ontem, o Deputado Frederico D’Ávila (PSL-SP) publicou uma carta aberta em que pede desculpas pelo excesso de suas afirmações contra Dom Orlando Brandes, a CNBB e o Papa Francisco. Ele diz: “meu pronunciamento, que admito ter sido inapropriado e exagerado pelo calor do momento, se deu em resposta a alguns líderes religiosos que ultrapassam os limites da propagação da fé e da espiritualidade para fazer proselitismo político. Reitero que desculpo-me pelas palavras e exagero”.

Mesmo assim, a CNBB está resolvida a fazer pressão sobre a  Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (ALESP) pedindo a cabeça do deputado. Não, não há misericórdia para ele. Eles pediram uma “correção exemplar” para Frederico d’Ávila. Dom Pedro Luiz Stringhini, presidente do regional Sul 1 da CNBB, foi pessoalmente para uma conversa com o presidente Carlão Pignatari, juntamente com dois padres (um dos quais, incardinado e em exercício de ministério na diocese de Taubaté, deputado estadual pelo PV, Afonso Lobato) e os deputados Reinaldo Alguz (PV), André do Prado (PL) e Emídio de Souza (PT).

Numa medida desproporcional e espetaculosa, a CNBB está mobilizando todos os seus esforços para dar a impressão de uma indignação nacional. Contudo, o método utilizado foi muito bem exemplificado pelo bispo de Itapeva, Dom Arnaldo Neto.

Num ato de desagravo (!!!) ao Papa, a Dom Orlando Brandes e à CNBB, ele expulsa da Igreja e pede para nunca mais voltar todo fiel que critica a CNBB, o Papa e a Campanha da Fraternidade (!!!). E ameaça: “com Deus não se brinca!”. No final, conclui: “Peço à PASCOM que faça em todos os lugares um texto em desagravo a Dom Orlando Brandes”.

Em outras palavras, o que está acontecendo desde o último domingo é um teatro calculado para causar uma impressão em si mesma falsa: a impressão de que há uma indignação por parte do povo católico, indignação que não existe. A metodologia é simples: a CNBB publica uma carta aberta, as dioceses e os bispos replicam; membros de dezenas de organismos minúsculos ou de instituições da Igreja começam a fazer notas a pedido de leigos engajados — no caso de Itapeva, do bispo mesmo!; na sequência, organismos mais discretos aderem por bom-mocismo ou medo; cria-se um alvoroço infernal que, no fundo, não tem nada de susbtancioso… O bom povo católico permanece frio e indiferente, torcendo mesmo é pela briga!

Quando a gente deixa a superfície e vai ao fundo da polêmica, percebe que ela não passa de uma grande bolha de sabão, produzida artificialmente por estes mesmos organismos que vivem acusando o presidente da república de ter uma rede de fakenews. Tudo não passa de uma articulação de fachada para criar nos parlamentares paulistas, desacostumados com pressões desta natureza, o pânico de se verem pressionados a fim de lhes proporcionar o enforcamento de um Judas neste “sábado de aleluia” fora de época.

A primeira finalidade dessa representação grotesca é criar um precedente político e jurídico que iniba as críticas à CNBB oriundas da população em geral. O povo já não tem mais respeito algum por essa entidade e isso pode ser facilmente comprovado nos comentários das pessoas normais nas próprias mídias sociais da instituição. Não é necessário fazer grandes especulações. Basta olhar em redor e perceber que as pessoas não estão dando a mínima atenção para este problema.

A segunda é fazer politicagem, como é praxe da CNBB: preparar o terreno para as eleições de 2022, em que ela poderá se dizer vítima da tal “violência da direita” alardeada pelo mesmo Dom Orlando Brandes, a fim de minar o espaço para candidatos conservadores entre os fieis.

O desespero por transformar a fala do deputado numa perseguição sanguinolenta digna de um Nero chegou ao ponto de pedirem uma nota ao CELAM – mais um ato deste teatro fake, sob medida, para dar a este episódio provinciano as dimensões de uma guerra mundial –, coisa bem adequada a Dom Odilo, que é membro do Conselho Diretivo, e assina a missiva. Dizendo-o doutro modo, são sempre os mesmos personagens, em posições diferentes, para dar a impressão de algo grandioso.

A verdade é que o deputado Frederico d’Ávila cometeu um destempero, pelo qual ele já se desculpou, mas deu voz às queixas de milhares de fieis tanto contra a fala de Dom Brandes quanto contra as posturas esquerdistas habituais da CNBB. Não há nenhum escândalo verdadeiro por parte dos fieis, mas apenas um fingimento histérico, calculado para ser usado politicamente como mordaça pela CNBB contra os seus críticos. Estão todos estes bispos e padres dando uma carteirada clerical para usar a ALESP e o poder judiciário como arma contra os seus desafetos. É tudo só isso!

Se os deputados da ALESP vão cair nesta comédia, não sabemos, mas, se o bom senso prevalecer, toda essa pirotecnia terminará no vazio.

18 outubro, 2021

O ruim e o pior. A fala do Deputado e a reação da CNBB.

Por FratresInUnum.com, 18 de outubro de 2021 – Na Solenidade de Nossa Senhora Aparecida, o arcebispo Dom Orlando Brandes fez, em seu sermão, uma afirmação politizada que despertou a cólera dos católicos: “Para ser pátria amada não pode ser pátria armada”. A retórica politiqueira é recorrente na boca de Dom Brandes na festa da padroeira. A tentação de transformar o altar em palanque é, para ele, irresistível demais. Não faltaram reações de crítica, muitas delas bastante contundentes, tanto por parte dos fiéis, quanto por parte dos jornalistas. O povo, em geral, desaprovou a “indireta” do arcebispo e o criticou duramente pelas redes sociais.

A Postagem | Padres contra o fascismo: Leia a carta assinada por 400 padres  contra Bolsonaro.Pois bem, dois dias depois, no dia 14 de outubro, o Deputado Estadual Frederico D’Ávila (PSL-SP) fez um veemente pronunciamento na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (ALESP), em que xinga Dom Orlando Brandes, a CNBB e o Papa Francisco. Houve destempero em sua fala, o que o faz perder muito de sua razão.

Ontem, a CNBB lançou uma forte carta ao presidente da ALESP praticamente pedindo a cabeça do deputado e dizendo que vão usar a força judicial contra ele. Em todos estes anos, talvez a missiva de ontem tenha sido o escrito mais agressivo da CNBB; nada de diálogo nem de misericórdia.

Na sequência, numerosos bispos, padres e leigos replicaram a nota em suas redes sociais, na mais rasgada demonstração de corporativismo, que é, no final das contas, a única religião do clero e do laicato engajado. Não existe mais a Fé católica nem os valores morais cristãos, não existe mais a honra de Deus nem a defesa da nossa santa religião, a única coisa que restou é a replicação das posições institucionais e a defesa dessas mesmas instituições; em suma, o bom-mocismo característico de uma sociedade hierárquica que já não tem mais convicções profundas.

Quiséramos ver tal demonstração de zelo quando a imagem de Nossa Senhora Aparecida foi profanada num muro da cidade de São Paulo. Ali, Dom Odilo Scherer não fez nenhuma live de execração; mas ontem ele a fez para defender a CNBB. Em outras palavras, para ele e para os demais, a CNBB está acima de Nossa Senhora e merece defesa mais do que Ela. É isso que ele está confessando com os seus atos, ainda que de maneira insconsciente, pois esta cegado pelo bom-mocismo institucionalista.

Do mesmo modo, não param de acontecer profanações, blasfêmias e até sacrilégios por todo o país. Deus tem sido continuamente ofendido, até escolas de samba agridem a Cristo de forma proposital, enquanto o clero católico permanece imobilizado e mudo, como cães que não sabem ladrar.

Contudo, a verdadeira razão que está por traz de tão cenográfico chilique é evidentemente, aliás, como sempre, de natureza política. O parlamentar ousou atacar a teologia da libertação e colocou o dedo na ferida: o clero progressista é apenas panfletário do petismo mais rançoso que existe, daquele esquerdismo que abençoa invasões de terra e subscreve as ações da Via Campesina. Além do mais, foi eleito pelo PSL, partido que elegeu o presidente Bolsonaro. Eles se sentiram instigados em seu brio, o veneno da jararaca gritou feito demônio, foi impossível conter a manifestação de ódio e de rixa.

Com tamanha efervescência de instintos tão animais, quem na CNBB seria capaz do bom senso de perceber que o deputado se excedeu, mas deu voz à revolta de milhares de fiéis? Quem tem a sapiência de tirar a conclusão de que a Igreja está por demais politizada num país dividido e que ela, a CNBB, é culpada por parte desta divisão, da qual se tornou vítima? Quem tem a lucidez de perceber que o cenário que se abre para 2022 requer do clero muito comedimento, porque a situação será profundamente mais agressiva que em 2018?

A resposta é simples: praticamente ninguém, pois os poucos sensatos jamais serão ouvidos por bispos que foram treinados para serem cabos eleitorais fanáticos de um partido político dos mais vergonhosos que jamais existiram neste país. Eles são os petistas mais fanáticos e pretendem mais uma vez usar a máquina eclesial como ferramenta de campanha para o Lula em 2022.

Dito de outro modo, tudo se resume a isto: a campanha eleitoral já começou e quase ninguém ainda se deu conta!

A declaração do deputado foi ruim, mas a reação da CNBB e asseclas foi pior. Não há nada para ser louvado em todo esse evento, a não ser a sensatez do povo, que manifestou o seu repúdio sem perder o respeito pela Igreja, como de praxe em todo fiel católico brasileiro, que há décadas tem de aguentar a apostasia esquerdista dos seus pastores sem perder a linha nem a reverência pela sua santa religião.

E, para a CNBB um recadinho bem à moda do povo: “quem fala o que quer, escuta o que não quer”. E ainda mais: “aceita, que dói menos”. Dom Orlando quis usar o monopólio do microfone para soltar indiretas contra o presidente sem lhe dar direito de resposta, mas a resposta veio. E veio amarga. Agora, aguente!

17 outubro, 2021

Profanações.

Por Padre Antônio Mariano – FratresInUnum.com, 17 de outubro de 2021: Nos últimos dias, chegaram várias notícias cujo pano de fundo é o mesmo: a profanação.

A Catedral de Toledo, uma Igreja Paroquial em Manaus, uma Basílica Romana… E esses foram os que se tornaram públicos. 

A picture of corals as part of art projection featuring images of humanity and climate change of Artistic rendering by Obscura Digital is projected onto the faade of St. Peter's Basilica at the Vatican

E não foram poucos os que manifestaram perplexidade diante desses eventos, que, num olhar atento, desgraçadamente não são tão raros.

A que ponto chegamos? Ver nossas Igrejas cedidas para clipes que incentivam o pecado, particularmente o pecado contra a natureza que brada ao céu, ou ver uma paródia sacrílega da Pietà composta por dois homens nús, onde recordamos de um dos pecados contra o Imaculado Coração de Maria que é a falta de respeito para com suas sagradas imagens!

Cada vez mais somos obrigados a reconhecer um espírito profético em certos homens que compreenderam para onde se dirigia a Igreja com as inovações do Concílio Vaticano II, um deles chegou a afirmar que ao começar a celebrar a missa em mesas seria a vitória de Lutero.

E é exatamente isso.

Tudo começa na dessacralização do Santo Sacrifício da Missa.

Se fizéssemos uma entrevista com a maioria dos que vão à Missa atual, perguntando qual a razão de irem à Missa, ou se reconhecem na Santa Missa um autêntico sacrifício as respostas fariam chorar os anjos.

O altar tornado mesa de copa, o sacrário relegado a um canto obscuro, as imagens inexistentes, o sacerdote que outrora era um sacrificador anônimo e que tornou-se um animador de auditório, o templo tornado espaço celebrativo… vitória de Lutero.

Recordo-me de uma vez em que fui venerar algumas relíquias de S. João Bosco que estavam encerradas numa belíssima imagem jacente e enquanto rezava, um padre celebrava a missa e explicando o que era “aquele boneco” contou a história do Rei Midas…

Dessacralização.

As coisas sagradas perderam completamente o valor para essas pessoas. Não há transcendência. Não há sagrado.

E se não há, qual o valor de uma Missa, ou de uma imagem, ou de uma Igreja?

Porque não ceder para outros usos? Uma reunião sindical? Um museu? Um expositório de obras bizarras? Um clipe gay? Qual o problema de fazer um barquinho e pôr ali a Pacha Mama e atravessar a nave da Basílica Vaticana com essa abominação?

Se – como já acontece em não poucos lugares – um grupo quisesse destruir uma Igreja, ou um monumento católico, como o Cristo Redentor, talvez houvesse alguma reação dos católicos. Mas mostrar o Cristo de máscara, refletir animais na Basílica Vaticana não parecem tão agressivos, afinal devemos ser uma Igreja em diálogo…

Vitória de Lutero.

Mas o Senhor não disse: “Ide e dialogai”, mas “Ide e ensinai”. Mais ainda, diz o Espírito Santo, “aquele que destruir o templo de Deus, Deus o destruirá”.

É porque não se reza mais nas Igrejas que essas profanações acontecem. É porque não se visita mais o Santíssimo Sacramento como o Divino Prisioneiro que chegamos a esse ponto!

É preciso resistir!

É preciso lutar! Queremos nossas Igrejas de volta! Queremos nossos monumentos católicos respeitados, mais ainda, venerados! Queremos a Missa Católica!

Mas não conseguiremos isso se ficarmos parados. Será que não percebemos que estamos em guerra como nos recordou o Apóstolo na Epístola de hoje?

Católicos, levantem-se! Levantem-se pela glória de Deus, pela santidade de seu templo! Levantem-se gritando o nome de Maria que sozinha vence todas as heresias. Façam do Credo o seu estandarte de batalha. Do Santo Sacrifício da Missa a jóia engastada em seus corações. Lutem.

Vitória de Deus.

* * *

Pe. Antonio Mariano está recebendo intenções para o Dia de Finados. Envie para profidelibusdefunctis@gmail.com.

15 outubro, 2021

Os guardiães da Tradição.

Por Dr. Augusto Mendes 

FratresInUnum.com, 15 de outubro de 2021 – O Brasil presencia um sólido movimento editorial católico, algo que impressiona qualquer observador um pouco mais vivido. Em 2005, ou mesmo em 2010, dificilmente poderíamos imaginar que alguns anos depois veríamos o surgimento de novas casas editoriais, uma avalanche de novas publicações, o resgate de obras consagradas e até mesmo o surgimento de importantes autores nacionais.

In illo tempore, apesar das grandes editoras nominalmente católicas do país, encontrar livros verdadeiramente católicos nem sempre era fácil. Em muitos casos, era um desafio insuperável. É verdade que certos clássicos das letras católicas nunca deixaram as prateleiras, como é o caso da Imitação de Cristo, da Filotéia, do Tratado da Verdadeira Devoção e da História de uma Alma, mas é igualmente verdade que as ausências eram muito mais amplas e notáveis.

Pensemos, por exemplo, no doutor comum do Igreja, Santo Tomás de Aquino, um mestre para todas as gerações e, portanto, um autor que deveria ser publicado e republicado initerruptamente em todo e qualquer país católico. Se é verdade que sua Suma Teológica estava disponível em uma tradução de qualidade já no início do século XXI, todos seus outros livros – e são tantos! – só eram encontrados em sebos, e mesmo assim com bastante dificuldade e por um alto preço. Os tomistas amargavam um esquecimento ainda pior. Garrigou-Lagrange, Cornelio Fabro, Sertillanges, Grabmann e outros mestres ou nunca haviam sido apresentados ao leitor brasileiro ou o foram há uma ou duas gerações. Mesmo um Nicolas Derise, que podemos considerar como nosso contemporâneo, ou um brasileiro como o Padre Maurílio Teixeira-Leite Penido, eram sumamente desconhecidos ou marginalizados.

Não podemos pensar que o problema era a falta de leitores interessados, pois mesmo autores que haviam granjeado fama no passado recente padeciam no limbo editorial esperando rever a luz. Há pouco mais de uma década, Chesterton estava apenas dando seus primeiros passos entre nossas estantes, Bernanos, que havia escolhido nosso país como sua pátria, era solenemente ignorado pelas últimas duas gerações de brasileiros; mesmo os naturais da terra, católicos genuinamente brasileiros, nascidos em uma pátria genuinamente católica, como o Padre Leonel Franca ou João Camilo de Oliveira Torres, foram tratados, até outro dia, como se fossem alienígenas, como se nunca tivessem pisado nessa terra. Eram representantes de um passado que muitos buscavam ativamente enterrar. Na faculdade tive uma professora que havia sido aluna do citado João Camilo. Quando falava dele era somente para criticar seus livros e explicar que tudo o que ele escreveu tinha pouco valor, era enviesado, porque ele era – na sua expressão inesquecível – “muito catolicão”.

Se pensarmos não mais nas pessoas, mas nos temas, veremos que a carestia de então era enorme. Sobre temas tão relevantes como Psicologia, Direito, História, Literatura, Economia, Filosofia e Teologia, nos seus diversos ramos e desdobramentos, não havia – e ainda hoje não há na medida adequada – obras escritas de uma perspectiva católica em circulação no mercado brasileiro.

Outra marcante ausência editorial era de obras ligadas ao movimento tradicionalista. Lembro-me de que a primeira vez que tive em mãos “Do Liberalismo à Apostasia” de Dom Marcel Lefebvre foi em uma cópia xerográfica feita por um amigo que havia viajado até o Rio de Janeiro e lá, graças ao contato direto com um tradicionalista “das antigas”, tinha conseguido copiar a velha edição, praticamente amadora, da Permanência, que mais se parecia com um caderno datilografado. Obras que só eram encontradas em língua estrangeira e adquiridas após bastante pesquisa e a um alto preço – Iota Unum ou a biografia de Dom Lefebvre – são hoje compradas com um clique do mouse e por um preço bastante razoável.

Todas essas lacunas editoriais são graves, mas não tanto quanto a que agora será sanada. Os doutores da Igreja, os grandes escolásticos, os apologetas, os catequistas, missionários, sermonistas, todos aqueles que exercem alguma atividade na Igreja, bebem, necessariamente, da mesma fonte: o magistério papal. O magistério pontifício, farol da verdade divina no ápice da Igreja, aquele que ilumina todos os católicos, em todas as épocas, que desfaz os erros, vence as heresias e guia a todos nos caminhos da verdade e vida. Era exatamente esse magistério que andava ausente das editoras católicas. É verdade que algumas encíclicas, especialmente dos Papas do século XIX e XX ainda são publicadas, é certo que temos compilações bem vastas de documentos pontifícios, como é o caso do Denzinger, mas também é verdade que não há nada tão amplo quanto o que está sendo preparado agora. A coleção Guardiões da Tradição englobará 250 documentos pontifícios (Bulas, Encíclicas e Alocuções) criteriosamente selecionadas para representar o ensinamento dos Papas ao longo dos dois milênios da história cristã nos seus pontos mais relevantes.

Os documentos serão publicados na sua integralidade – e não em seus trechos selecionados, como no Denzinger – e, sempre que necessário, acompanhados de notas explicativas. Haverá para cada documento uma breve introdução explicitando seu conteúdo e as razões de sua publicação. Os 250 documentos serão organizados cronologicamente, indo do Papa Cornélio (251-253) até Pio XI (1922-1939), e cada Pontífice receberá uma substanciosa apresentação, de forma que o livro poderá ser visto, também, como uma Enciclopédia dos principais Papas. Detalhados índices onomásticos e temáticos farão da coleção uma obra de consulta incontornável para todo católico que pretenda conhecer melhor a doutrina da Igreja nas suas fontes mais seguras.

Os temas abordados são os bem variados, indo das mais altas questões teológicas aos mais simples problemas sociais. Aquilo que os papas ensinaram sobre a Santíssima Trindade, as naturezas de Cristo e sua ação salvífica, as qualidades especialíssimas da Virgem Maria, a natureza da Igreja, a economia da salvação, a graça santificante, o papel da oração e as mais diversas questões litúrgicas terão destaque. O surgimento das ordens religiosas, a criação das faculdades na Idade Média, a canonização de determinados santos, as condenações das diversas heresias, a convocação para as cruzadas e a instituição da Inquisição serão apresentadas nos seus documentos originais. Questões políticas e sociais também terão lugar nesse vasto repertório: a liberdade da Igreja e de seus fiéis frente o Estado, os deveres dos governantes para com a Igreja, a verdadeira educação católica, os direitos dos trabalhadores, a moral católica aplicada à vida matrimonial e familiar, bem como a materialização da fé nas diversas formas de encontrarão o devido tratamento pela mão de mestre dos Papas. As mais controversas questões científicas, filosóficas, históricas e exegéticas também serão contempladas por essa ampla compilação de documentos pontifícios, apresentando aos leitores a solução para muitos problemas de ordem especulativa, ou, pelo menos, estabelecendo os pontos fundamentais que permitirão investigações seguras e intelectualmente frutuosas.

Dada a profusão de documentos pontifícios, estima-se que a coleção terá cinco volumes com cerca de 600 páginas cada um. Parte considerável desses documentos não se encontra publicada no Brasil e nem mesmo acessível em língua portuguesa na internet. A maior parte será vertida do original latino e, quando não for possível, as traduções mais confiáveis serão usadas para se chegar ao texto em português.

Além do óbvio interesse teológico dessa publicação, os cultores da Filosofia e da História também irão se beneficiar do estudo desses documentos, pois muitos deles inserem-se nos pontos fulcrais não só da histórica eclesiástica como também da história política e do pensamento.

No momento em que a doutrina católica tradicional se torna cada vez menos conhecida e seus tesouros são cada vez mais depauperados por aqueles mesmos que deveriam ser seus fiéis defensores, cabe a nós nos voltarmos àqueles antigos e fiéis Guardiões da Tradições que agora serão apresentados ao leitor brasileiro.

* * *

Para adquirir a coleção Guardiões da Tradição, basta ir ao site https://editora.centrodombosco.org/

9 outubro, 2021

Traditiones Custodes: separando fato de ficção.

A história oculta por trás de Traditiones Custodes.

Por Diane Montagna, The Remnant, 3 de outubro de 2021 | Tradução: FratresInUnum.com 

“Nada está oculto que não há de ser manifestado, nem nada secreto que não seja conhecido e não venha à luz” (Lc 8,17).

Às vezes, as coisas não são o que parecem. E às vezes, existem duas “realidades”: uma que é oficialmente dada por aqueles que estão no poder e outra que então descobrimos ser a verdade.

O Heroismo do sofrimento moral

São Pio V, o Papa de Lepanto.

Quando, em 16 de julho de 2021, o Papa Francisco promulgou Traditionis Custodes, restringindo a missa tradicional em latim, ele disse que, de acordo com os resultados de uma recente consulta do Vaticano aos bispos, as normas de seus predecessores, Papa João Paulo II e Papa Bento XVI, tinham sido exploradas por alguns que assistem à missa tradicional em latim para semear a dissidência em relação ao Concílio Vaticano II. 

Na carta apostólica , o Papa Francisco escreve a respeito do questionário aos bispos:

“Seguindo a iniciativa do meu Venerável Predecessor Bento XVI de convidar os bispos a avaliarem a aplicação do Motu Proprio Summorum Pontificum três anos após a sua publicação, a Congregação para a Doutrina da Fé fez uma consulta detalhada aos bispos em 2020. Os resultados foram cuidadosamente considerados à luz da experiência que amadureceu durante esses anos. ”

Ele continua:

“Tendo considerado os desejos expressos pelo episcopado e ouvido o parecer da Congregação para a Doutrina da Fé, desejo agora, com esta Carta Apostólica, avançar cada vez mais na busca constante da comunhão eclesial. Portanto, considerei apropriado estabelecer o seguinte:

O Papa Francisco então passa a delinear as novas restrições à Missa Tradicional em Latim.

Junto com o decreto, o Papa Francisco também emitiu uma carta de acompanhamento, dirigida aos bispos de todo o mundo. Ele a apresentou observando que, como Bento XVI havia feito com Summorum Pontificum em 2007, ele também desejava explicar os “motivos que levaram [sua] decisão” de restringir a Missa em latim tradicional.

O primeiro entre eles, diz ele, são os resultados da pesquisa enviada aos bispos de todo o mundo pela CDF. O Papa Francisco explica:  

“Instruí a Congregação para a Doutrina da Fé a distribuir um questionário aos bispos sobre a implementação do  Motu proprio Summorum Pontificum. As respostas revelam uma situação que me preocupa e entristece e que me convence da necessidade de intervir. Lamentavelmente, o objetivo pastoral dos meus Predecessores, que pretendiam “fazer todo o possível para que todos aqueles que realmente possuíam o desejo de unidade encontrassem a possibilidade de permanecer nesta unidade ou de a redescobrir”, foi muitas vezes desconsiderado. Uma oportunidade oferecida por São João Paulo II e, com ainda maior magnanimidade, por Bento XVI, destinada a resgatar a unidade de um corpo eclesial com sensibilidades litúrgicas diversas, foi aproveitada para alargar as lacunas, reforçar as divergências e suscitar divergências que ferem a Igreja, bloqueiam seu caminho e expõem-na ao perigo de divisão”.

Com base nesses resultados, o Papa Francisco conclui que:

“Em defesa da unidade do Corpo de Cristo, sou obrigado a revogar a faculdade concedida pelos meus Predecessores. O uso distorcido que tem sido feito desta faculdade é contrário às intenções que levaram a conceder a liberdade de celebrar a Missa com o  Missale Romanum  de 1962. ”

Mais adiante, na carta que acompanha, uma outra referência é feita aos resultados do questionário. Papa Francisco diz:

“Respondendo aos seus pedidos, tomo a firme decisão de revogar todas as normas, instruções, permissões e costumes que precedem o presente  Motu proprio, e declaro que os livros litúrgicos promulgados pelos santos Pontífices Paulo VI e João Paulo II, em conformidade com os decretos do Concílio Vaticano II, constituem a expressão única [ unica ] da  lex orandi  do Rito Romano”.

Segundo o Papa Francisco, então, a consulta aos bispos desempenhou um papel fundamental em sua decisão de restringir severamente a Missa tradicional. Como ele mesmo disse, os resultados o “preocuparam e entristeceram” tanto que o “persuadiram” a “intervir. ” E ordenou que o decreto entrasse em vigor imediatamente.

Após a promulgação de Traditionis Custodes, considerável especulação girava em torno da pesquisa, mas o Vaticano não publicou seus resultados.

Um superior da CDF se manifesta

Quatro dias depois, em 20 de julho de 2021, uma entrevista ao Catholic News Service apareceu no National Catholic Reporter e na America Magazine , na qual o superior da CDF, o arcebispo Augustine Di Noia, que atua como secretário adjunto na Congregação para a Doutrina da Fé, expressou seu apoio à narrativa oficial apresentada pelo Papa Francisco. Di Noia insistiu que a carta que acompanhava o Papa “destemidamente acerta o prego na cabeça: o movimento tradicional da missa latina sequestrou as iniciativas de São João Paulo II e de Bento XVI para seus próprios fins”.

Surgem perguntas

Mas Traditionis Custodes reflete verdadeiramente a situação real? Foi justo o questionário aos bispos de todo o mundo, no qual o Papa Francisco disse ter baseado sua decisão? Seria essa consulta considerada justa se parte do conteúdo de Traditionis Custodes já tivesse sido sugerido durante uma reunião plenária da CDF, no final de janeiro de 2020, que deu lugar a uma consulta que se destinava a justificar as decisões tomadas em Traditionis Custodes? Poderia ser chamada de justa se descobrisse que havia um segundo relatório paralelo criado dentro da Congregação para a Doutrina da Fé, que foi concluído antes de todas as respostas dos bispos terem sido recebidas pela CDF? E poderia ser considerado justo se Traditinis Custodes não representasse com precisão o relatório principal e detalhado preparado para o Papa Francisco pela quarta seção da CDF, ou seja, a antiga Ecclesia Dei? Muitas pessoas, de fato, sabiam que este relatório estava sendo preparado.

Vamos examinar o que agora veio à luz sobre cada uma dessas três questões.

A Sessão Plenária de 2020

À nossa primeira pergunta: faria sentido pensar que Traditionis Custodes foi apenas o resultado da consulta aos bispos de todo o mundo, quando agora sabemos que no final de janeiro de 2020 teve lugar uma sessão plenária da Congregação para a Doutrina da Fé , onde três cardeais já lançavam as bases para o Motu Proprio de 16 de julho de 2021?

Na tarde do dia 29 de janeiro de 2020, uma sessão plenária foi realizada para discutir a quarta seção da Congregação para a Doutrina da Fé, o que antes era conhecido como Comissão Pontifícia Ecclesia Dei, na qual o Prefeito da Congregação para o Doutrina da Fé, Cardeal Luis Ladaria, SJ, não esteve presente devido a problemas de saúde.

Antes de continuar, devo dizer que é amplamente considerado que o Cardeal Ladaria estava “relutante” em publicar Traditionis Custodes. Diz-se que ele é um bom homem, extremamente discreto, mas que não irá contra a vontade do Santo Padre.

Na ausência do cardeal Ladaria, a assembléia foi presidida pelo secretário da CDF, o arcebispo Giacomo Morandi. Morandi, alguns devem se lembrar, foi nomeado subsecretário da CDF em 2015, antes que três funcionários do Cardeal Muller fossem demitidos. Quando o cardeal Müller foi “deposto” em 2017 e o cardeal Ladaria foi nomeado prefeito, Morandi foi promovido a secretário.

Também estiveram presentes na sessão plenária de 29 de janeiro de 2020 outros membros da CDF, incluindo o Secretário de Estado do Vaticano, o Cardeal italiano Pietro Parolin; o cardeal canadense Marc Ouellet, prefeito da Congregação para os Bispos; o cardeal italiano Giuseppe Versaldi, prefeito da Congregação para a Educação Católica; o cardeal Beniamino Stella, então prefeito da Congregação para o Clero, os cardeais americanos Sean Patrick O’Malley e Donald Wuerl; o arcebispo italiano Rino Fisichella, presidente do Pontifício Conselho para a Promoção da Nova Evangelização; o arcebispo Charles Scicluna de Malta, que atua como secretário adjunto da CDF; o cardeal francês Jean-Pierre Ricard, o arcebispo francês Roland Minnerath e outros. O Papa não estava nesta reunião.

De acordo com fontes confiáveis, o cardeal Parolin, o cardeal Ouellet e o cardeal Versaldi estavam conduzindo a discussão e conduzindo-a em uma direção definida.

Para dar uma ideia do que foi dito, um cardeal – que é considerado mais um “acólito” do que um líder de gangue – expressou o alarme de que cerca de 13.000 jovens se inscreveram para a peregrinação de Chartres. Ele disse que precisamos descobrir por que esses jovens são atraídos para a missa tradicional e explicou aos outros presentes que muitos desses jovens têm “problemas psicológicos e sociológicos”. O cardeal em questão tem formação em direito canônico e psicologia, então suas observações sobre “problemas psicológicos” teriam tido mais peso, especialmente com bispos e cardeais que não estão familiarizados com a missa latina tradicional ou círculos de missa latina.

Outro cardeal disse que pela pouca experiência que teve, “esses grupos não aceitam mudanças” e “participam sem concelebrar”. A CDF deveria, portanto, pedir um “sinal concreto de comunhão, de reconhecimento da validade da Missa de Paulo VI”, insistiu ele, acrescentando que “não podemos continuar assim”. Ele apoiou a preocupação de que esses grupos atraiam os jovens e pediu que fossem encontradas formas concretas de demonstrar que essas pessoas estão na Igreja.

Um arcebispo italiano disse que concordava que a CDF não deveria retomar as discussões com a FSSPX, porque “não há diálogo com surdos”. Ele lamentou que o Papa Francisco tivesse feito concessões à FSSPX no Ano da Misericórdia, mas não estava recebendo nada em troca.

A reunião de uma hora e meia terminou com a seguinte citação: “A tradição é a fé viva dos mortos. O tradicionalismo é a fé morta dos vivos”.

Apesar da variedade de observações oferecidas nesta sessão plenária – que, novamente, durou uma hora e meia – houve apenas uma conclusão nas propostas finais apresentadas ao Santo Padre. E qual foi? Estudar cuidadosamente a eventual transferência de competência sobre os Institutos Ecclesia Dei e outros assuntos tratados pela Quarta Seção, para outros dicastérios do Vaticano que tratam de assuntos relacionados: a Congregação para o Culto Divino, a Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Apostólica Vida (também conhecida como Congregação para os Religiosos) e a Congregação para o Clero.

Nos artigos 6 e 7 de Traditionis Custodes, o Papa Francisco estabelece as seguintes normas:

Art. 6 .: Os Institutos de vida consagrada e as Sociedades de vida apostólica, erigidos pela Pontifícia Comissão  Ecclesia Dei , são da competência da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e das Sociedades de Vida Apostólica.

Art. 7: A Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos e a Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica, para assuntos de sua competência particular, exercem a autoridade da Santa Sé no que diz respeito à observância destas disposições.

Lembre-se de que o questionário foi enviado cinco meses depois, em maio de 2020. Não se sabe quem escreveu as perguntas.

Portanto, parece que a bola já estava cantada na sessão plenária no final de janeiro de 2020.

Um segundo relatório paralelo

Agora, a nossa segunda pergunta: poderia o questionário ser considerado justo se descobrissêmos que havia um segundo relatório paralelo criado dentro da seção doutrinária da Congregação para a Doutrina da Fé, que foi concluído antes mesmo de todas as respostas dos bispos terem sido recebidas pela CDF?

Fontes confiáveis ​​confirmaram que, enquanto o relatório principal estava sendo preparado, os superiores da CDF encomendaram um segundo relatório para ter certeza de que o relatório principal refletia o feedback dos bispos. A Congregação teria que ter certeza de que o relatório principal não chegasse apenas às conclusões usuais, por exemplo, que a Missa tradicional é um elemento positivo na vida da Igreja, etc., etc., etc. O segundo relatório foi, portanto, elabnorado como uma espécie de segunda opinião, uma verificação do relatório principal. Os superiores da CDF, portanto, encarregaram um oficial da seção doutrinária para escrever seu próprio relatório.

É importante ter em mente que as respostas teriam chegado por correio ou e-mail, ou por meio das nunciaturas ou conferências episcopais.

Para revisar o cronograma de como as coisas se desenrolaram: a sessão plenária acima referida realizou-se em janeiro de 2020. O questionário foi enviado no mês de maio seguinte. Os bispos tiveram até outubro de 2020 para responder, mas como acontece com as coisas romanas, as respostas continuaram a chegar até janeiro de 2021 e todas foram recebidas, revisadas e consideradas para o relatório principal.

Quanto ao segundo relatório paralelo, não se sabe se o funcionário encarregado da redação do relatório foi instruído a tirar certas conclusões.

O que é certo é que o segundo relatório paralelo, que eu sei foi encomendado por volta de novembro de 2020, foi entregue antes do Natal. No entanto, neste ponto, a CDF ainda estava recebendo e processando respostas à pesquisa, e o fez até janeiro de 2021. Portanto, o segundo relatório estava certamente incompleto, e também provavelmente superficial, dada a rapidez com que foi concluído, o volume de material para ser analisado e o fato de o material estar sendo recebido em quatro ou cinco idiomas.

Então, dois relatórios foram preparados. Aquele que melhor se adequava a determinada agenda foi escolhido como base para Traditionis Custodes? Ou os responsáveis ​​- percebendo que o material que chegou à CDF não refletiria ou justificaria o que aqueles que pressionavam por restrições queriam provar – encomendaram o segundo relatório e o concluíram em menos de um mês para que uma espécie de texto paralelo poderia ser oferecido ao Santo Padre?

Não se sabe se o Papa Francisco leu o segundo relatório, ou se o recebeu antes ou depois do relatório principal. Foi mantida toda discrição.

Mas o que está vindo à luz, e vamos olhar para este assunto seguinte, é que Traditionis Custodes não reflete as premissas ou conclusões do relatório detalhado principal. Portanto, a questão é: ele reflete as premissas e conclusões de outro relatório? Poderia ser este o segundo relatório? Ou poderia talvez não refletir as conclusões de qualquer relatório, mas foi elaborado de outra forma.

O Relatório Principal

Agora, a nossa terceira pergunta: poderia ser considerado justo se Traditionis Custodes não representasse com precisão o relatório principal e detalhado preparado para o Papa Francisco pela Congregação para a Doutrina da Fé?

Anteriormente, mencionei uma entrevista que apresentava o secretário adjunto da CDF, o arcebispo Augustine Di Noia, e foi publicada em 20 de julho de 2021, apenas quatro dias após a promulgação de Traditionis Custodes.  

Insistindo que estava falando “como teólogo” e não como oficial da CDF, o arcebispo Di Noia pareceu se distanciar do questionário, dizendo que não tinha os resultados. Ele também minimizou a importância da consulta, dizendo que a “justificativa do Papa para a revogação de todas as disposições anteriores nesta área não é baseada nos resultados do questionário, mas apenas ocasionada por eles ”. Uma formulação um tanto estranha, dada a própria explicação do Papa Francisco de seus motivos.

O artigo é apresentado como o resumo de uma correspondência ou telefonema por e-mail, então talvez o arcebispo Di Noia não tivesse o relatório em sua mesa quando segurava o telefone ou respondia por e-mail. Mas, como superior da CDF, é impossível, é inconcebível que ele não tivesse ao menos acesso a esse relatório, que foi elaborado pela Congregação para a Doutrina da Fé. Você não precisa ser um Einstein para descobrir isso.

Uma pessoa poderia dizer: “Como teólogo, não tenho os resultados” quando, como superior da CDF, você teria recebido uma cópia antecipada e estaria presente quando o relatório preliminar foi revisado? O sumário executivo foi visto em forma de rascunho por alguns na CDF.

Como um aparte, o artigo também afirma que o Papa Francisco “provavelmente consultou ou pelo menos deu cópias antecipadas do documento ao Papa emérito Bento XVI”. Disseram-me que o artigo que publiquei no Remnant em 1º de junho de 2021, seis semanas antes da promulgação de Traditionis Custodes, e que descrevia o que estava no primeiro e terceiro rascunhos, foi entregue ao Papa Bento XVI. Uma fonte confiável me disse depois que o papa emérito ficou “chocado”. Portanto, é difícil acreditar que ele foi consultado de alguma forma significativa.

O Papa Francisco recebeu o relatório principal? Fontes dizem que durante uma audiência com o prefeito da CDF, cardeal Ladaria, o Papa Francisco literalmente arrebatou a cópia de trabalho do relatório de suas mãos, dizendo que o queria imediatamente porque estava curioso sobre ele. Se o Papa Francisco realmente leu o relatório principal, não se sabe.

Conteúdo do Relatório Principal à Luz da Consulta

Pelo que sei, o relatório principal foi muito completo e dividido em várias seções. Uma parte foi muito analítica, oferecendo análises diocese por diocese, país por país, região por região, continente por continente, com circulares e gráficos. Outra parte foi um resumo onde toda a argumentação foi apresentada, junto com recomendações e tendências. E que eu saiba, uma parte do relatório continha citações tiradas das respostas que vieram de cada diocese. Esta coleção de citações teria sido incluída para dar ao Santo Padre uma amostra completa do que os bispos disseram.

Eu havia relatado em junho que apenas um terço dos bispos do mundo responderam à pesquisa. Pode-se argumentar que esta não é uma má representação, visto que não se esperaria necessariamente uma resposta de muitos países, por exemplo, onde a liturgia bizantina ou outras liturgias orientais são celebradas.

Nas regiões onde a missa tradicional é mais difundida (ou seja, França, Estados Unidos e Inglaterra), a situação é muito favorável. A CDF recebeu resposta de 65-75% desses países, e dessa porcentagem mais de 50% foram favoráveis. Isso teria se refletido no relatório principal.

O sumário executivo também teria refletido que há muitos frutos nascendo da missa tradicional.

O que uma pessoa razoável teria tirado do relatório principal? Que uma maioria razoável de bispos, usando palavras diferentes e de maneiras diferentes, basicamente estava enviando a mensagem: “Summorum Pontificum está bem. Não toque nisso”. Certamente não teria sido 80 por cento que disse isso desta forma. Mas mais de 35 por cento dos bispos teriam dito: “Não toque em nada, deixe tudo como está”. Além disso, outra porcentagem de bispos teria dito: “Basicamente, não toque nisso, mas haveria uma ou duas coisas que eu sugeriria, como um bispo tendo um pouco mais de controle”. Até mesmo alguns dos bispos que deram as respostas mais positivas ao questionário fizeram esse tipo de comentários ou sugestões.

Ao todo, então, mais de 60 por cento a dois terços dos bispos concordariam em manter o curso, talvez com algumas pequenas modificações. A mensagem era basicamente deixar Summorum Pontificum em paz e continuar com uma aplicação prudente e cuidadosa.

O relatório principal falava de áreas onde há espaço para melhorias, como mais formação em seminários. Alguns bispos falaram da necessidade de mais formação na Forma Extraordinária e da necessidade de uma boa liturgia em geral. Alguns bispos teriam falado da necessidade de mais latim. Em vez disso, como vemos em Traditionis Custodes, o oposto é que foi decretado.

Do que é de meu conhecimento, o que realmente aconteceu é que tudo o que era auxiliar no relatório principal foi projetado como um grande problema e foi expandido, ampliado de forma extremamente desproporcional. Considere o problema da unidade. Essa falta de unidade, pelo que disseram os bispos, veio de ambas as direções, não apenas de grupos tradicionais.

Alguns bispos – embora não celebrem a missa tradicional eles mesmos – disseram que estão felizes com o fato de os fiéis terem um lugar para ir. Eles dizem que, além dos malucos que se pode encontrar nos círculos tradicionais – e igualmente, se não mais, em outros lugares – geralmente esses grupos são compostos de jovens casais com muitos filhos. Eles rezam, ajudam financeiramente a paróquia e a diocese, estão envolvidos na vida paroquial e diocesana muito ativamente. Eles são bem formados e apreciam boa música. Comentários muito positivos.

Mais uma vez, a respeito da formação dos seminários, alguns bispos disseram que gostariam de ter uma maior presença da Forma Extraordinária da Missa em seu seminário e entre os padres mais jovens, mas eles não podem fazer mais do que estão fazendo atualmente, porque os padres mais velhos, especialmente aqueles que viveram a transição de antes para depois do Vaticano II, criariam estragos na diocese. Esses padres mais velhos veriam algo em que estiveram altamente envolvidos e que lhes foi apresentado como uma espécie de vitória, varrida pelos padres mais jovens e por um bispo solidário, que é mais favorável à tradição do que ao objeto de sua vitória. Esse tipo de resposta, embora uma pequena porcentagem, não se limitou a uma localização geográfica.

Curiosamente, na Ásia, alguns bispos disseram que têm um problema com a língua latina, porque ela vem de uma região diferente, o que é perfeitamente compreensível. Eles efetivamente disseram à CDF: Ficaríamos muito felizes se alguém de Roma viesse ensinar nossos padres, para que eles pudessem oferecer a Forma Extraordinária. No nosso seminário não temos porque os padres não sabem latim e não sabem celebrar. Ficaríamos felizes em tê-la porque aumenta a oração e a devoção. Mas tudo isso desapareceu e não recebeu nenhuma menção em Traditinis Custodes.  

Obviamente, alguns bispos fizeram comentários negativos, mas fontes confiáveis ​​dizem que nem as respostas, nem o relatório principal, foram predominantemente negativos.

A situação verdadeiramente trágica, segundo me disseram, é na Itália. Em muitas dioceses além de lugares como Roma, Milão, Nápoles e Gênova, e talvez alguns outros, Summorum Pontificum mal foi implementado, se é que foi implementado. No entanto, muitos bispos, que não têm nenhum conhecimento prático da implementação de Summorum Pontificum, responderam em termos ideológicos, dizendo (e eu parafraseio): “Isso não pode ser. Não reflete o Vaticano II. ”

Há até motivos para acreditar que alguns dos bispos italianos foram treinados em suas respostas. A Itália tem quase 200 bispos de origens muito diferentes. Eles vêm de diferentes localizações geográficas, seminários e universidades, e experiências de formação sacerdotal. Ainda assim, muitos deles, em sua resposta, usaram a mesma frase, “retorno ao regime pré-Summorum Pontificum”. Em italiano, a frase é: “Tornare al regime precedente di Summorum Pontificum”. Isso é um tanto estranho, especialmente quando até bispos que não têm nenhuma presença real da Forma Extraordinária em sua diocese a incorporam em suas respostas.

Outro ponto: no artigo mencionado anteriormente, o arcebispo Di Noia afirmou que “a coisa ficou totalmente fora de controle e se tornou um movimento, especialmente nos Estados Unidos, França e Inglaterra”. (Na verdade, estes não são países onde a missa tradicional em latim está “fora de controle”, mas simplesmente difundida.) Mas, uma vez que Traditionis Custodes fornece meios para assumir o controle desta situação “fora de controle”, de acordo com Di Noia, seria de se pensar que os bispos americanos, franceses e ingleses o teriam aplicado imediatamente com a interpretação mais forte possível. Provavelmente, eles teriam se aproveitado do fato de que era imediatamente aplicável, mas isso não aconteceu. Então, onde está o “fora de controle”?

Isso se refletiu nas respostas dos bispos após a promulgação de Traditinis Custodes. A primeira reação muitas vezes era decretar que tudo continuaria como está, até que houvesse tempo para estudar, discutir, etc. Onde os bispos já se opunham à Forma Extraordinária, eles decidiram ser mais santos que o Papa e proibi-la. Mas a maioria dos bispos disse que garantiria o cuidado pastoral daqueles que participam da missa tradicional em latim. Isso está de acordo com a forma como os bispos se expressaram em suas respostas à pesquisa. Na verdade, quando esses decretos foram publicados, eles refletiam o tom que o bispo havia usado ao responder.

O ponto-chave, como provavelmente já se deve ter percebido, é que as premissas e conclusões de Traditionis Custodes não são as mesmas apresentadas no relatório principal detalhado produzido pela Congregação para a Doutrina da Fé. Traditionis Custodes não foi consistente com o que o relatório principal recomendou ou revelou. Como disse uma fonte: “O que eles estão realmente interessados ​​em fazer é cancelar a Missa Antiga, porque a odeiam”.

Como mencionei antes, que eu saiba, uma parte do relatório continha citações tiradas das respostas recebidas de cada diocese. O objetivo era fornecer ao Santo Padre uma amostra representativa de respostas e foram divididas em várias categorias. Estas incluíram: “avaliações negativas sobre a atitude de certos fiéis”; “No isolamento da comunidade”; uma seção muito breve “sobre a irrelevância do FE (Forma Extraordinária) para as pessoas”; “Sobre a necessidade e / ou adequação pastoral da FE”; “Aqueles a quem a FE atrai”; uma considerável seção de citações sobre “o valor da FE para a paz e a unidade da Igreja”; “Sobre o valor teológico litúrgico e catequético da FE”; “Sobre o valor histórico do FE”; “Sobre a influência da FE na FO (Forma Ordinária)”; “Sobre a influência da FE nos seminários e / ou casas de formação”; e uma longa seção final de “propostas para o futuro”. Pode-se ver pelas citações incluídas que os resultados não foram cobertos de açúcar. Vamos considerar apenas alguns deles das várias categorias (FE = Forma Extraordinária; FE = Forma Ordinária):

Avaliações negativas sobre a atitude de certos fiéis

Em um sentido negativo, [a FE] pode fomentar um sentimento de superioridade entre os fiéis, mas na medida em que esse rito foi mais amplamente usado, esse sentimento diminuiu (Um Bispo da Inglaterra, resposta à pergunta 3).

Não vejo aspectos negativos no uso de FE como tal. Quando há aspectos negativos, eles se devem às atitudes negativas de quem tem opiniões fortes em uma ou outra direção a respeito dessa forma de celebração. Quando é a ideologia, e não o bem pastoral da Igreja, que orienta o discernimento sobre o uso do FE, surge o conflito e a divisão. Repito: isso é algo extrínseco ao próprio uso da Missa (Um Bispo dos Estados Unidos, resposta à pergunta 3).

Pode haver uma tendência entre alguns dos fiéis de ver esta [a FE] como a única missa “verdadeira”, mas acho que isso vem do fato de que essas pessoas foram vistas como “estranhas” ou marginalizadas. Se você tentar “regularizar” tanto quanto possível, essas pessoas se sentirão cuidadas e guiadas pastoralmente, e poderão ser muito fiéis e leais (um bispo da Inglaterra, resposta à pergunta 3).

Os aspectos [da FE] em si são apenas positivos: é um grande dom para todos poderem conhecer e assistir à festa de forma extraordinária. Os aspectos negativos só estão presentes na medida em que essas celebrações são celebradas e / ou frequentadas por pessoas desequilibradas ou ideologizadas (Um Bispo da Itália, resposta à pergunta 3).

A divisão e a discórdia não vêm do uso do FE, mas da percepção das pessoas sobre quem frequenta. As pessoas são vinculadas a motivações e tendências que não são verdadeiras (um bispo dos Estados Unidos, resposta à pergunta 3).

Sobre a irrelevância do FE para as pessoas

Às vezes, a forma não foi aplicada para o bem das almas, mas para satisfazer os gostos pessoais do presbítero (um bispo da Itália, resposta à pergunta 4).

Sobre a necessidade e / ou conveniência pastoral da FE

A oferta atual de missas e celebrações na FE atende às necessidades pastorais dos fiéis. Os conflitos iniciais sobre o estabelecimento de missas na FE foram resolvidos pacificamente nos últimos anos (Relatório Conjunto da Conferência Episcopal Alemã, resposta à pergunta 1).

A FE oferece aos fiéis um contexto para crescer na santidade por meio de uma celebração eucarística que aprofunda sua comunhão com Cristo e com os outros de uma forma que corresponda às suas sensibilidades. Uma afirmação semelhante pode ser feita sobre outras pessoas que crescem espiritual e eclesialmente por meio de formas de celebração mais contemporâneas (um bispo dos Estados Unidos, resposta à pergunta 3).

A atração exercida pela FE é tanto uma reação a uma celebração menos que satisfatória da FO quanto um desejo específico de uma liturgia latina (um bispo dos Estados Unidos, resposta à pergunta 9).

A FE atrai a esses

Este movimento atrai muitas famílias jovens que se sentem confortáveis ​​com esta liturgia e com as atividades que são oferecidas em torno dela. Acho que essa diversidade é boa na Igreja, e que a diminuição do número de praticantes não deve gerar a todo custo uma uniformidade de propostas. Esta forma litúrgica é nutritiva para muitos. Existe um sentido do sagrado que é agradável e que orienta para Deus (Um Bispo da França, resposta à pergunta 3).

Observamos que essas famílias participam de muitos eventos vocacionais e juvenis diocesanos em uma proporção muito maior do que qualquer outro grupo (um bispo dos Estados Unidos, resposta à pergunta 9).

As missas FE em nossa diocese atraem algumas famílias devotas. Enquanto alguns dos pais “educam em casa”, outros colocam os filhos nas escolas católicas locais. Essas famílias abraçam muitos dos princípios promovidos pelo Vaticano II, incluindo a necessidade de cultivar a Igreja doméstica e o apelo universal à santidade (Um Bispo dos Estados Unidos, resposta à pergunta 3).

Um número significativo de jovens fervorosos se sentem nutridos – não exclusivamente – pela FE. A presença pacífica da FE permite que alguns jovens (aliás, típicos da sua geração) que sentem um apelo ao sacerdócio confiem na Diocese (Um Bispo de França, resposta à pergunta 8).

Sobre o valor da FE para a paz e a unidade da Igreja

A FE, sob a direção prudente do Ordinário, permitiu que mais católicos pudessem rezar de acordo com seu desejo e dissipou os conflitos de antes. Sua presença silenciosa não deve ser perturbada (Um Bispo da Inglaterra, resposta à pergunta 9).

O aspecto mais positivo do uso da FE é que agora não há mais nenhum “clã” reivindicando a “verdadeira missa”. O mistério eucarístico foi libertado de uma divisão ideológica muito prejudicial. Isso foi uma grande vantagem para a percepção da unidade da Igreja realizada em torno da Eucaristia (Um Bispo da França, resposta à pergunta 3).

Eu veria como um benefício para toda a Igreja se a Santa Sé continuasse a apoiar os fiéis católicos que estão ligados à FE de Rito Romano. Mesmo em termos gerais, promover diferenças genuínas de pensamento e expressão é um benefício para a Igreja universal. Ter uma seção dedicada a ela na CDF é útil, quando desenvolvimentos litúrgicos ou esclarecimentos são necessários. De acordo com as normas universais, nossa Arquidiocese também se comprometeu a estabelecer um diálogo com os líderes locais e nacionais da FSSPX. Creio que este passo positivo foi facilitado pela existência de Summorum Pontificum e das comunidades que ele fomentou (Um Bispo dos Estados Unidos, resposta à pergunta 9).

Creio que muitos dos que se sentiram separados da Igreja e foram para comunidades extra-eclesiais se sentiram acolhidos de volta à estrutura da Igreja por causa de Summorum Pontificum (Bispo dos Estados Unidos, resposta à pergunta 3).

Sobre o valor litúrgico, teológico e catequético da FE

Eu mesmo celebrei as ordenações presbitrais na FE quando não era minha forma usual e pude apreciar sua riqueza, beleza e profundidade litúrgica (Bispo da França, resposta à pergunta 3).

Não seria difícil dizer que, se fossem entrevistados, quase 100% dos que frequentam a FE acreditam na presença real de Cristo na Eucaristia, enquanto números drasticamente menores têm sido mostrados para os católicos que vão predominantemente ao FO (Bispo dos Estados Unidos, resposta à pergunta 3).

Sobre a influência da FE na OF

Embora a EF não seja amplamente seguida, ele influencia a FO em uma direção muito saudável, que eu resumiria como “em direção a uma maior devoção [reverência]” (um bispo dos Estados Unidos, resposta à pergunta 9).

A FO e FE representam dois entendimentos diferentes da Eucaristia, Eclesiologia, sacerdócio batismal e sacramento da Ordem (apenas para mencionar as diferenças teológicas mais óbvias). Tentar adotar elementos da FE seria apenas enviar sinais inconsistentes aos fiéis (um bispo do Japão, resposta à pergunta 5).

Dois párocos que aprenderam a FE posteriormente introduziram a celebração ad orientem para algumas ou todas as suas missas, que foi bem recebida pelos seus fiéis, que foram previamente catequizados. Além disso, para alguns dos nossos sacerdotes, houve um maior cuidado com a hóstia consagrada, tanto através da reintrodução e do uso habitual da patena da comunhão como através de um maior cuidado do próprio sacerdote no altar (Um Bispo do Caribe, resposta a questão 5).

Propostas e / ou perspectivas para o futuro

A prática [de Summorum Pontificum] seguida até agora provou seu valor e, por razões pastorais, não deve ser mudada (Relatório Conjunto da Conferência Episcopal Alemã, resposta à pergunta 9).

Temo que sem a FE, muitas almas deixariam a Igreja (Um Bispo dos Estados Unidos, resposta à pergunta 3).

Os movimentos eclesiais [como os ligados à FE] têm grande potencial de renovar a Igreja (…). Ao mesmo tempo, os movimentos eclesiais também podem vagar por conta própria, criando uma Igreja quase paralela e caindo em uma atitude elitista que se vê apenas como “verdadeiros católicos”. Isso acontece quando eles são deixados sozinhos. Em outras palavras, eles só podem renovar a Igreja se a hierarquia se envolver com eles, permitindo que se desenvolvam segundo o Espírito, mas também mantendo a comunhão com a Igreja. Quando os membros desses movimentos se sentem desafiados ou ignorados por seus pastores, eles se retiram e ficam ressentidos, mas quando sentem que seus pastores estão entre eles e os orientam, então se tornam valiosos meios de evangelização (Um Bispo dos Estados Unidos, resposta à pergunta 9).

Acho que esta é a melhor abordagem a ser usada sobre o uso da FE: a escola de Gamaliel: “Se essa atividade for de origem humana, ela vai ser destruída, mas se vier de Deus, vós não conseguireis derrotá-los; não vos encontrais lutando contra Deus ”(At 5, 38-39) (idem).

Peça aos padres que celebram na FE que aprendam a celebrar na FO e a fazê-lo em grandes encontros em torno do bispo, e também que possam prestar serviço nas paróquias (Bispo de França, resposta à pergunta 9).

Devo afirmar, em sã consciência, que repensar as opções feitas é mais necessário e urgente do que nunca (Um Bispo da Itália, resposta à pergunta 9).

Tenho a impressão de que qualquer intervenção explícita pode causar mais mal do que bem: se a linha do Motu proprio for confirmada, as reações perplexas do clero terão nova intensidade; se a linha do Motu proprio for negada, as reações de dissidência e ressentimento dos amantes do antigo rito terão nova intensidade (Um bispo da Itália, resposta à pergunta 9).

Não creio que seja apropriado revogá-lo ou limitá-lo com novas normas, para não criar contrastes e novos conflitos, levando ao sentimento de falta de respeito pelas minorias e suas sensibilidades (Um Bispo da Itália, resposta a questão 9).

Conclusão

O que nos espera? É difícil dizer. Alguns sugeriram que uma instrução de implementação de Traditionis Custodes poderia ser publicada, talvez até o Natal, mas isso ainda é desconhecido.

Nós nos acostumamos com a Santa Sé apoiando a paz litúrgica da Igreja, mas não podemos mais considerar isso garantido. Em conclusão, e a título de conselho:

  1. Padres, grupos estáveis ​​e fiéis devem abster-se de qualquer correspondência com a Santa Sé. Os que estão vinculados à missa tradicional em latim também devem evitar dar a impressão de que são “guerreiros” em sua diocese ou paróquia, que estão sempre protestando ou infelizes. O objetivo deve ser não perder a missa tradicional em latim como forma normal de oração. E, como filhos do Pai celestial, devemos orar pela hierarquia. Este é nosso dever.
  2. Os padres diocesanos individuais devem continuar a oferecer missas privadas, uma vez que o Missal de 1962 não foi revogado.
  3. Os bispos a quem o Santo Padre confiou a tarefa de guardar a tradição devem avaliar verdadeiramente se a implementação de Traditionis Custodes traria verdadeiros benefícios espirituais para o seu rebanho. Os bispos podem perceber que o que inspirou o Santo Padre é totalmente diferente da situação em sua própria diocese e agir de acordo com isso.

Hoje é o 450º aniversário da Batalha de Lepanto (1571) e comemora a vitória da Santa Liga (uma aliança de Estados católicos comissionada para derrotar os turcos) sobre a frota do Império Otomano. Foi a maior batalha naval da história ocidental desde a antiguidade clássica. São Papa Pio V (1504-1572), que comissionou a Santa Liga, colocou tanta ênfase no poder do Rosário quanto na Santa Liga. Ele também é conhecido por seu papel no Concílio de Trento, por codificar o Rosário e por promulgar o Missale Romanum de 1570 com a bula papal Quo Primum. Com esta bula, o santo papa procurou assegurar que ninguém jamais pudesse mudar a missa. Na Batalha de Lepanto, a única coisa que existia entre a Europa e sua destruição certa foram os homens da cristandade dispostos a responder ao chamado da Igreja, e sua disponibilidade para rezar o Rosário em defesa da Europa católica. Que tais homens se levantem hoje na defesa da liturgia romana tradicional, e que Nossa Senhora tenha a vitória!

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