Archive for ‘Igreja’

30 agosto, 2016

Os fiéis pedem ao Papa clareza contra os ataques do mal.

Por Roberto de Mattei, Il Tempo, Roma,  14-08-16 | Tradução: FratresInUnum.comNo mês de agosto, a Casa Santa Marta, no Vaticano, esvazia-se de seus hóspedes, mas o Papa Francisco,  como nos três anos precedentes,  passará  todo o mês no Vaticano. Ele anunciou que renunciará até mesmo a um tradicional compromisso pontifício – o Congresso Eucarístico Nacional,  que se realizará este ano em Gênova de 15 a 18 de agosto –, mas que no dia 19 viajará a Assis para celebrar o trigésimo aniversário do encontro entre as religiões, organizado pela Comunidade Santo Egídio.

A comunicação não partiu da Sala de Imprensa do Vaticano, mas do imã de Perúgia, Abdel Qader Moh’d, em entrevista à TV 2000. O Papa Bergoglio se encontrará depois, de 30 setembro a 2 de outubro, com ortodoxos e muçulmanos na Geórgia e no Azerbaijão, e no dia 31 de outubro em Lund, na Suécia, com luteranos para comemorar o quinto centenário da Reforma protestante. Iniciativas ecumênicas constituem a bússola do seu pontificado, que parece propor-se o objetivo de construir uma plataforma comum entre as religiões, com o risco, advertido por muitos, de esvaziar o catolicismo e incentivar a criação de uma “superreligião” sincretista.

O almoço de 11 de agosto com 21 refugiados sírios chegados à Itália após a visita papal à ilha de Lesbos, dos quais apenas dois eram cristãos, se insere nessa perspectiva da “opção preferencial” pelos não-católicos. Esta estratégia exige a negação da existência de guerras de religião. No entanto, a Igreja sofre perseguições em todo o mundo. Dom Dominique Lebrun, Arcebispo de Rouen, manifestou a intenção de iniciar um processo de beatificação que leve ao reconhecimento do martírio do Padre Jacques Hamel, morto “por ódio à fé”, como muitos cristãos do nosso tempo.

Virá de Roma uma palavra de aprovação? Virá um aceno de apoio aos três bispos espanhóis processados criminalmente por criticarem a lei que promove a transexualidade, aprovada há pouco em Madrid? O Observatório espanhol contra a LGBTfobia denunciou ao Ministério Público o Bispo de Getafe, Dom Joaquín María López de Andújar,  seu auxiliar, Dom José Rico Pavés, e o titular da Diocese de Alcalà, Dom  Antonio Reig Plá, por “incitamento ao ódio e discriminação contra a comunidade homossexual”.

Mas o mal não tem limite. Autorizado pelas autoridades locais, um grupo satanista americano organizou uma missa negra pública, no Centro Cívico de Oklahoma City, em 15 de agosto. O arcebispo da cidade, Dom Paul Coakley, exortou os fiéis a pedir a intercessão de São Miguel Arcanjo, da Virgem Maria e de todos os anjos e santos, “para que o Senhor cuide de nossa comunidade e nos proteja do mal e de suas muitas manifestações destrutivas e violentas”.

Hoje, no entanto, não é apenas uma diocese americana que sofre os ataques do mal, mas toda a Igreja. Os fiéis se voltam desorientados para o Vigário de Cristo, rogando-Lhe demonstrar sua paternidade não apenas em relação aos distantes, mas também aos próximos, necessitados mais do que nunca de clareza e encorajamento neste momento histórico tempestuoso.

30 agosto, 2016

São Paulo: Terço na Praça da Sé, sábado, 3 de setembro, às 15 horas.

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28 agosto, 2016

Foto da semana.

Por Teresa Maria Freixinho – FratresInUnum.com: Consoladora dos Aflitos, rogai por nós e pelos italianos!

Uma imagem assim não pode passar despercebida. Sempre nesse tipo de catástrofe natural encontramos esses sinais de que Deus está conosco nas tribulações. Sua Mãe amorosa intercede por todos os que sofrem.

A foto é de uma matéria da BBC e foi tirada em Pescara del Tronto, uma das cidades afetadas pelo terremoto de magnitude 6.2.

Rezemos pelos habitantes das cidades afetadas na região central da Itália.

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25 agosto, 2016

Pierangelo Sequeri: o programa do novo decano do Instituto “João Paulo II”.

Fundamental ler o artigo abaixo à luz da matéria publicada anteriormente – As 30 moedas dos Judas hodiernos. 

IHU – “Pierangelo Sequeri não é teólogo moralista, não está ligado a movimentos eclesiais, é um homem de fé e de cultura, não ideológico e não maximalista. Ele não faz uma teologia de farmacêutico, não usa a ‘balança’, não lê a Escritura com crivo fundamentalista, não tem a ansiedade da definição objetiva. Ele propõe uma ‘hermenêutica sapiencial da tradição’, mesmo daquela matrimonial e familiar.”

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24 agosto, 2016

As 30 moedas dos Judas hodiernos.

Vazamento de e-mails mostram  que George Soros pagou US$650.000 para influenciar bispos durante a visita do Papa aos Estados Unidos. 

Por John-Henry Westen, Life Site News, 23 de agosto de 2016 | Tradução: FratresInUnum.comE-mails que vazaram através da rede WikiLeaks revelam que o bilionário globalista George Soros — um dos maiores doadores da campanha de Hilary Clinton — pagou US$650.000 para influenciar a visita do Papa Francisco aos Estados Unidos, em setembro de 2015, em favor “de uma mudança nos paradigmas e prioridades nacionais às vésperas da campanha presidencial de 2016”. Os fundos foram doados em abril de 2015 e o relatório sobre a sua eficácia sugere que entre as operações bem sucedidas estavam incluídas “a compra individual de bispos para que se expressem publicamente dando maior suporte a mensagens de justiça econômica e racial, a fim de criar uma massa crítica de bispos alinhados ao Papa”.

As verbas foram concedidas a duas entidades norte-americanas que estão envolvidas em um projeto a longo prazo, de acordo com o relatório, visando uma mudança de paradigma nas “prioridades da Igreja Católica dos Estados Unidos”. Os beneficiários foram PICO, um grupo de organização comunitária de cunho religioso, e Faith in Public Life (FPL), um outro grupo progressista que opera na mídia promovendo causas de “justiça social” de cunho esquerdista. Soros tem financiado causas esquerdistas em todo o mundo e tem concentrado esforços e fundos na tentativa de barrar leis pró-vida no mundo inteiro.

Atas da reunião de Maio de 2015, da Fundação Open Society de George Soros em Nova York revelam que, ainda nos estágios de planejamento da visita papal, o grupo planejava trabalhar diretamente através de um dos principais assessores do papa, o cardeal Oscar Rodriguez Maradiaga, que foi nomeado especificamente no relatório. A fim de aproveitar a oportunidade da visita do Papa aos EUA, diz o relatório, “vamos apoiar as atividades de organização da PICO para engajar o papa em questões de justiça econômica e racial, inclusive usando da influência do Cardeal Rodriguez, que é o consultor sênior do Papa e vamos enviar uma delegação para visitar o Vaticano, na primavera ou no verão, para permitir que ele escute diretamente dos Católicos de baixa renda na América”.

Em 2013, o Cardeal Rodriguez Maradiaga endossou o trabalho da PICO em um vídeo, durante uma visita dos representantes da entidade à diocese do cardeal. “Quero apoiar todos os esforços que eles estão empreendendo para promover comunidades de fé”, disse. “Por favor, continuem ajudando a PICO”.

O relatório pós operacional sobre o financiamento para influenciar a visita papal está em outro documento intitulado 2016, Revisão de 2015 Fundos de Oportunidade EUA. O grupo de Soros ficou satisfeito com o resultado de sua campanha ao ver várias declarações anti-Trump proferidas por vários bispos como resultado dos seus esforços. “O impacto desta operação e as relações que têm suscitado podem ser vistos pela ampla gama de líderes religiosos intencionalmente apontando o dedo contra candidatos presidenciais, acusando-os de fomentar uma  ‘retórica do medo'”, diz o relatório.

Além disso, o resumo do relatório também diz que o financiamento foi útil para combater a “retórica anti-gay” nos meios de comunicação. A “eficácia da campanha na mídia pode ser vista pela capacidade da equipe em reagir e combater a retórica anti-gay  que se seguiu após a história de Kim Davis (a funcionária do condado de Kentucky que foi presa por desafiar uma ordem judicial federal para emitir licenças de casamento para casais homossexuais e a quem depois o Papa visitou)”, afirma o relatório.

O financiamento especificamente teve como alvo a agenda “pró-família”, redirecionando-a do seu foco, que é a defesa da família, para uma preocupação com a igualdade de renda. “Mídia FPL, enquadramento e atividades de opinião pública, incluindo a realização de pesquisa de opinião para demonstrar que os eleitores católicos estão de acordo com a agenda do Papa em assuntos como a desigualdade de renda, bem como ganhar cobertura da mídia para impulsionar a mensagem de que para ser ‘pró-família’ é necessário resolver antes a crescente desigualdade social”, diz o relatório de maio.

A Procuradora Elizabeth Yore, que atuou na delegação do Heartland Institute que viajou ao Vaticano, em abril de 2015, para instar o Papa Francisco a re-examinar sua confiança nos promotores de controle de população da ONU, os quais promovem a agenda do Aquecimento Global, falou com LifeSiteNews sobre a iniciativa de Soros:  “Os Católicos representam um imenso e influente bloco na eleição dos EUA”, disse ela. Soros está  “usando o cabeça da Igreja Católica para influenciar esse bloco-chave de votação”, com o “púlpito forte do papado” para garantir a eleição de Hilary Clinton.

Yore sublinhou que “esta não é a primeira vez que a aliança profana entre Soros e o Vaticano colaboram com sucesso em um projeto político.” Em 2015, ela recordou, “os agentes de Soros, inflitrados no Vaticano, dirigiram a Agenda Ambiental do Papa Francisco, e conseguiram para Soros e para as Nações Unidas uma Exortação Apostólica sobre mudanças climáticas [ndt: na verdade, trata-se da encíclica Laudato Si], um premiado endosso papal dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável das Nações Unidas bem como a benção apostólica do Papa para o Tratado do Clima de Paris”.

Em termos dos objetivos de Soros de mudar as prioridades da Igreja Católica para bem longe dos absolutos morais, dois bispos dos Estados Unidos se destacam como campeões do movimento. O Bispo de San Diego Robert McElroy,  que tem repetidamente enfatizado a mudança de prioridades da Igreja e que tem todo o apoio do “filho predileto” do Papa Francisco, o Arcebispo de Chicago Dom Blase Cupich [ndt: nomeado recentemente por Francisco como membro da Congregação para os Bispos, o que tornará o arcebispo de Chicago pessoa chave na nomeação de todos os bispos dos Estados Unidos]. McElroy criou furor na reunião da Conferência Episcopal Americana em novembro passado por sua tentativa de alterar um documento instruindo os católicos sobre como votar.

McElroy argumentou que o documento estava fora de sintonia com as prioridades Papa Francisco – especificamente, por colocar muita ênfase no aborto e a eutanásia, e não o suficientemente sobre a pobreza e o meio ambiente. Cupich depois louvou a intervenção de McElroy como um “momento realmente elevado” para a Conferência e apoiou o movimento para colocar a degradação do meio ambiente e a pobreza global no mesmo nível do aborto e da eutanásia.

Concluindo seu relatório final e refletindo sobre o sucesso do financiamento para influenciar a visita papal, o grupo de Soros se mostrou muito satisfeito com os resultados. Olhando para o futuro, eles estão muito animados de que o objetivo de a longo prazo mudar as prioridades dos Bispos Católicos dos Estados Unidos já “está em andamento.”

23 agosto, 2016

Papa escreve a Dilma Rousseff.

Da matéria de Francesco Peloso, de 20 de agosto de 2016, para o La Stampa – Tradução de FratresInUnum.com:  O Papa Francisco escreveu uma carta privada para a presidente do Brasil, Dilma Rousseff, submetida a processo de impeachment. Assim confirmou ela mesma, recentemente, especificando: “O Papa Francisco me escreveu uma carta, porém, não divulgarei o conteúdo. Só posso dizer que não era uma carta oficial”. Não se trata, portanto, de uma mensagem da Santa Sé dirigida a Rousseff. Ela quis manter uma atitude reservada, fundada e correta: uma intervenção “pública” por parte do Papa poderia ser interpretada — sobretudo em uma fase de viva polêmica política — como uma espécie de interferência vaticana em assuntos internos do Brasil, em um momento delicado da vida institucional do grande país latino-americano.

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A notícia de uma missiva de Bergoglio a Dilma se difundiu no início de agosto graças também a um tweet de Leonardo Boff, ex-frei franciscano pertencente à Teologia da Libertação. Em geral, os meios internacionais e brasileiros interpretaram o fato como um sinal de solidariedade ou proximidade do Papa para com a presidente do Brasil – suspensa de suas funções desde o último mês de maio – cujo processo de impeachment poderia concluir com sua destituição.

* * *

Assim a esquerda enxerga o gesto de Francisco: “Apesar do texto da correspondência se manter reservado, qualquer um compreende que se trata de um apoio. […] Bendita por Francisco. O golpe que se gesta contra Dilma Rousseff não caiu nas graças do Papa, uma desconformidade que, nos últimos meses, ele vem insinuando através de uma série de gestos discretos, pontifícios. Possivelmente, o mais eloquente tenha sido a correspondência que enviou à presidenta que está a ponto de ser destituída”.

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20 agosto, 2016

Foto da semana.

Belém do Pará, 18 de agosto de 2016, XVII Congresso Eucarístico Nacional, Missa de ação de graças pelos catorze anos de sagração episcopal de Dom Fernando Arêas Rifan (Campos do Goytacazes-RJ, 2002).

A foto desta semana não poderia ser outra senão esta, que simboliza a pacificação entre o IBP-Montfort e a Administração Apostólica São João Maria Vianney, fato histórico em meio à série de pendengas e de intrigas que grassam no meio tradicionalista brasileiro.

Nela aparece o neossacerdote José Luiz de Oliveira Zucchi, filho do atual presidente da Montfort, Alberto Zucchi, unindo-se ao seu confrade de instituto também presente, Padre Tomás Parra, filho da atual vice-presidente da Montfort, Duclerc Parra, na comemoração dos 14 anos de ordenação episcopal de Dom Fernando Rifan.

15 agosto, 2016

Homilia sobre a Dormição da Santíssima Mãe de Deus.

São João Damasceno

Quem ama ardentemente alguma coisa costuma trazer seu nome nos lábios e nela pensar noite e dia. Não se me censure, pois, se pronuncio este terceiro panegírico da Mãe de meu Deus, como oferenda em honra de sua partida. Isso não será favor para ela mas servirá a mim mesmo e a vós, aqui presentes – divina e santa assembléia – como um manjar salutar que, nesta noite sagrada, satisfaça nosso gosto espiritual.

unnamed (15)Estamos sofrendo, como sabeis, de penúria de alimentos. Assim, improviso a refeição; se não é suntuosa nem digna daquilo que no-la inspira, possa ao menos acalmar-nos a fome. Sim, não é Maria que precisa de elogios, nós é que precisamos de sua glória. Um ser glorificado, que glória pode receber ainda? A fonte da luz, como será iluminada ainda? É pois para nós mesmos que fazemos a coroa. “Vivo eu, diz o Senhor, e glorificarei os que me glorificam” . (2Sm 2, 30)

O vinho agrada sem dúvida, é deliciosa bebida, e o pão alimento nutritivo: um alegra, o outro fortifica o coração do homem (Sl 104, 15). Mas que existe de mais suave do que a Mãe de meu Deus? Ela cativou meu espírito, ela reina sobre minha palavra, dia e noite sua imagem me é presente. Mãe do Verbo, dá-me de que falar! Filha de mãe estéril, torna fecundas as almas estéreis! Eis aquela cuja festa celebramos hoje em sua santa e divina Assunção.

Acorrei, pois, e subamos a montanha mística. Ultrapassando as imagens da vida presente e da matéria, penetrando na treva divina e incompreensível, ingressando na luz de Deus, celebremos o seu infinito poder. Aquele que, de sua transcendência superessencial e imaterial, desceu ao seio virgíneo para ser concebido e se encarnar, sem deixar o seio do Pai; aquele que através da Paixão marchou voluntariamente para a morte, conquistando pela morte a imortalidade e voltando ao Pai; como não pôde ele atrair ao Pai sua Mãe segundo a carne? como não elevaria da terra ao céu aquela que fora um verdadeiro céu sobre a terra?

Hoje a escada espiritual e viva, pela qual o Altíssimo desceu, se fez visível e conversou entre os homens (Baruc 3, 38), ei-la que sobe, pelos degraus da morte, da terra ao céu.

Hoje a mesa terrestre que, sem núpcias, trouxera o pão celeste da vida e a brasa da divindade, foi levada da terra aos céus, e para a Porta oriental, para a Porta de Deus, se ergueram as portas do céu.

Hoje, da Jerusalém terrestre, a Cidade viva de Deus foi conduzida à Jerusalém do alto; aquela que concebera como seu primogênito e unigênito o Primogênito de te da criatura e o Unigênito do Pai, vem habitar na Igreja das primícias (Hb 12, 23); a arca do Senhor, viva e racional, é transportada ao repouso de seu Filho (Sl 132, 8).

As portas do paraíso se abrem para acolher a terra portadora de Deus, onde germinou a árvore da vida eterna, redentora da desobediência de Eva e da morte infligida a Adão. É o Cristo, causa da vida universal, quem recebe a gruta escondida, a montanha não trabalhada, donde se destacou, sem intervenção humana, a pedra que enche a terra.

Aquela que foi o leito nupcial onde se deu a divina encarnação do Verbo, veio repousar em túmulo glorioso, como em tálamo nupcial, para de lá se elevar até a câmara das núpcias celestes, onde reina em plena luz com seu Filho e seu Deus, deixando-nos também como lugar de núpcias seu túmulo sobre a terra. Lugar de núpcias, esse túmulo? Sim, e o mais esplendoroso de todos, a refulgir não por revérberos de ouro, de prata ou de gemas, porém pela divina luz, irradiação de Espírito Santo. Proporciona, não uma união conjugal aos esposes da terra, mas a vida santa às almas que se prendem pelos laços do Espírito, proporciona uma condição junto de Deus, melhor e mais suave que outra qualquer.

Seu túmulo é mais gracioso do que o Éden: neste, sem querermos repetir tudo o que lá se passou, houve a sedução do inimigo, sua mentira apresentada como conselho amigo, a fraqueza de Eva, sua credulidade, o engodo – doce e amargo – ao qual seu espírito se deixou prender e pelo qual em seguida aliciou o marido; a desobediência, a expulsão, a morte, mas – para não trazermos com tais lembranças assunto de tristeza à nossa festa – houve o túmulo que elevou ao céu o corpo de um mortal, ao contrário daquele primeiro jardim, que derrubou do céu nosso primeiro pai. Pois não foi ali que o homem, feito à imagem divina, ouviu a sentença: “tu és terra e em terra te hás de tornar”? (Gn 3, 19).

O túmulo de Maria, mais precioso que o antigo tabernáculo, encerrou o candelabro espiritual e vivo, brilhante de divina luz, a mesa portadora de vida, que recebeu, não os pães da proposição, mas o pão celeste, não o fogo material mas o fogo imaterial da divindade.

Esse túmulo é mais feliz que a arca mosaica, pois teve por partilha a verdade, já não as sombras e as figuras; acolheu a urna áurea do maná celeste, a mesa viva do Verbo encarnado por obra do Espírito Santo, dedo onipotente de Deus, Verbo subsistente; acolheu o altar dos perfumes, a brasa divina que aromatizou toda a Criação.

Fujam portanto os demônios, gemam os míseros nestorianos – como outrora os egípcios – com seu chefe, o novo faraó, o cruel flagelo, o tirano, pois foram engolidos pelo abismo da blasfêmia. Nós, porém, salvos, que atravessamos a pé enxuto o mar da impiedade, cantemos à Mãe de Deus o canto do Êxodo. Miriam, que é a Igreja, tome nas mãos o tamborim e entoe o hino de festa; saiam as jovens do Israel espiritual com tamborins e coros (Ex 15, 20), exultando de alegria! Que os reis da terra, os juízes e os príncipes, os jovens e as virgens, os velhos e as crianças, celebrem a Mãe de Deus! Que reuniões e discursos de toda espécie, raças e povos na diversidade de suas línguas, componham um cântico novo! Que o ar ressoe de flautas e trombetas espirituais, inaugurando com brilho de fogos o dia da salvação! Alegrai-vos, ó céus, e vós, nuvens, fazei chover a alegria! Saltai, novilhos do rebanho eleito, apóstolos divinos que, como montanhas altas e sublimes, aspirais às mais altas contemplações; e vós, também, ó cordeiros de Deus, povo santo, filhos da Igreja, que pelo desejo vos alçais como colinas até as altas montanhas!

Mas então? Morreu a fonte da vida, a Mãe de meu Senhor? Sim, era preciso que o ser formado da terra à terra voltasse, para dali subir ao céu, recebendo o dom da vida perfeita e pura a partir da terra, após ter-lhe entregue seu corpo. Era preciso que, como o ouro no crisol, a carne rejeitasse o peso da mortalidade e se tornasse, pela morte, incorruptível, pura, e assim ressuscitasse do túmulo.

Começa hoje para Maria uma segunda existência, recebida daquele que a fez nascer para a primeira, como também ela mesma dera uma segunda existência – a vida corpórea – àquele, cuja primeira existência, a eterna, não teve começo no tempo, embora principiada no Pai como em sua divina causa.

Alegra-te, Sião, montanha divina e santa, onde habitou a outra montanha divina, a montanha vivente, a nova Betel, ungida na pedra, a natureza humana ungida pela divindade. De ti, como de um jardim de oliveiras, e Filho se elevou às celestes alturas. Que uma nuvem se componha, universal e cósmica, e que as asas dos ventos tragam os apóstolos dos confins da terra até Sião!1 Quem são aqueles que, como nuvens e águias, voam para o corpo – fonte de toda ressurreição, a fim de cultuar a Mãe de Deus? Quem é a que sobe, na flor de sua alvura, toda bela, brilhante como o sol? Que cantem as cítaras do Espírito, isto é, as línguas dos apóstolos! Que ressoem os címbalos, isto é, os arautos eminentes da palavra de Deus! Que esse vaso de eleição, Hieroteu 2, santificado pelo Espírito Santo e pela união divina capacitado a sofrer as realidades divinas, seja arrebatado do corpo, e em transportes de fervor entoe seus hinos! Que todas as nações aplaudam e celebrem a Mãe de Deus! Que os anjos prestem culto ao corpo mortal!

Filhas de Jerusalém, feitas cortejo da Rainha, e virgens suas companheiras, ide com ela até o Esposo, levai-a à direita do Senhor! Desce, ó Soberano, vem pagar à tua Mãe a dívida que ela merece por te haver nutrido! Abre tuas mãos divinas e acolhe a alma de tua mãe, tu que sobre a cruz entregaste o espírito às mãos do Pai! Dirige-lhe um suave apelo: vem, ó formosa, ó bem-amada, mais resplandecente pela virgindade do que o sol, tu me partilhaste teus bens, vem agora gozar junto de mim o que te pertence!

Aproxima-te, ó Mãe, de teu Filhe, aproxima-te e participa do poder régio daquele que, nascido de ti, contigo viveu na pobreza! Ascende, ó Soberana, ascende! Já não vale a ordem dada a Moisés: “Sobe e morre…” (Dn 31, 48) Morre, sim, mas eleva-te pela própria morte!

Entrega tua alma às mãos de teu Filho e devolve à terra o que é da terra, pois mesmo isso será carregado por ti.

Erguei vossos olhos, Povo de Deus, alçai vosso olhar! Eis em Sião a arca do Senhor Deus dos exércitos, à qual vieram pessoalmente prestar assistência os apóstolos, tributando seu derradeiro culto ao corpo que foi princípio de vida e receptáculo de Deus. Imaterialmente e invisivelmente os anjos o cercam com respeito, como servidores da Mãe de seu Senhor. O próprio Senhor lá está, onipresente, ele que tudo enche e abraça, que na verdade não está em lugar algum porque nele tudo está como na causa que tudo criou e tudo encerra.

Eis a Virgem, filha de Adão e Mãe de Deus: por causa de Adão entrega seu corpo à terra, mas por causa de seu Filho eleva a alma aos tabernáculos celestes! Santificada seja a Cidade santa, que acolhe mais essa bênção eterna! Que os anjos precedam a passagem da divina morada e preparem seu túmulo, que o fulgor do Espírito a decore! Preparai aromas para embalsamar o corpo imaculado e repleto de delicioso perfume! Desça uma onda pura a fim de haurir a bênção da fonte imaculada da bênção! Alegre-se a terra de receber o corpo e exulte o espaço pela ascensão do espírito! Soprem as brisas, suaves como o orvalho e cheias de graça! Que toda a criação celebre a subida da Mãe de Deus: os grupos de jovens em sua alegria, a boca dos oradores em seus panegíricos, o coração dos sábios em suas dissertações sobre essa maravilha, os velhos de veneráveis cãs em suas contemplações. Que todas as criaturas se associem nessa homenagem, que ainda assim não seria suficiente. Todos, pois, deixemos em espírito este mundo com aquela que dele parte. Sim, todos, pelo fervor do coração, desçamos com a que desce à sepultura e ali nos coloquemos. Cantemos hinos sacros e nossas melodias se inspirem nas palavras: “Ave, cheia de graça, o Senhor é contigo!” Permanece na alegria, tu que foste predestinada a ser Mãe de Deus. Permanece na alegria, tu que foste eleita antes dos séculos por um desígnio de Deus, germe divino da terra, habitação do fogo celeste, obra-prima do Espírito Santo, fonte de água viva, paraíso da árvore da vida, ramo vivo que portas o divino fruto, donde fluem o néctar e a ambrosia, rio de aromas do Espírito, terra produtora da divina espiga, rosa resplandecente da virgindade, donde emana o perfume da graça, lírio da veste real, ovelha que geras o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo, instrumento de nossa salvação, superior às potências angélicas, serva e Mãe!

Vinde, enfileiremo-nos em torno ao túmulo imaculado para dali sorvermos a divina graça! Vinde, abracemos em espírito o corpo virginal. Entremos no sepulcro e morramos nele, rejeitando as paixões da carne, vivendo uma vida sem concupiscência e sem mácula. Escutemos os hinos divinos, cantados imaterialmente pelos anjos. Entremos para adorar, aprendamos a conhecer o mistério inaudito: como esse corpo foi elevado às alturas, arrebatado ao céu, como a Virgem foi posta junto de seu Filho acima dos coros angélicos, de sorte que nada se interpusesse entre Mãe e Filho.

Tal é, depois de outros dois, o terceiro discurso que compus acerca de tua partida, ó Mãe de Deus, em honra e amor da Trindade, cuja cooperadora foste, por benevolência do Pai e por virtude do Espírito, quando recebeste o Verbo sem princípio, a Sabedoria onipotente, a Força de Deus. Aceita, pois, minha boa vontade, maior do que minha capacidade, e dá-me a salvação, a libertação das paixões da alma, o alívio das doenças dos corpos, a salvação das dificuldades, a vida de paz, a luz do Espírito. Inflama nosso amor por teu Filho, regula nossa conduta sobre o que lhe apraz, a fim de que, na posse da bem-aventurança do alto, e vendo-te refulgir com a glória de teu Filho, façamos ressoar hinos sagrados, na eterna alegria, na assembléia dos que celebram, em festa digna do Espírito, aquele que por ti opera nossa salvação, o Cristo Filho de Deus e nosso Deus, a quem pertence a glória e o poder, com o Pai sem princípio e o Espírito Santo e vivificador, agora e sempre pelos séculos. Amém.

FONTE: GOMES, Folch, Antologia dos Santos Padres. São Paulo: Paulinas, 1979

12 agosto, 2016

Blog em recesso.

Caros amigos, Ave Maria Puríssima! Nosso blog entra em um pequeno recesso até o começo do mês de setembro. A liberação de comentários demorará mais do que o habitual e alguns posts estão programados. Notícias importantes podem ser publicadas a qualquer momento. Até breve!

 

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11 agosto, 2016

Cardeal Caffarra sobre Casamento, Família, Amoris Laetitia, e confusão na Igreja.

Por Maike Hickson, One Peter Five, 11 de julho de 2016 | Tradução: FratresInUnum.com: Apresentamos uma entrevista exclusiva com o Cardeal Carlo Caffarra, conduzida pelo Dr. Maike Hickson de OnePeterFive. O Cardeal Caffarra é Arcebispo Emérito de Bolonha e ex-membro do Pontifício Conselho para a Família. Foi em uma carta para o Cardeal Caffarra que a Irmã Lúcia de Fátima revelou que “a batalha final entre o Senhor e o reino de Satanás será sobre o casamento e a família.”

Maike Hickson (MH): O senhor falou, em uma entrevista recente, sobre a exortação papal Amoris Laetitia, e o senhor disse que especialmente o capítulo 8 não é claro e já tem causado confusão mesmo entre os bispos. Se o senhor tivesse a oportunidade de falar com o Papa Francisco sobre essa matéria, o que o senhor diria a ele? Qual seria sua recomendação sobre o que o Papa Francisco poderia e deveria fazer agora, dado que há tanta confusão?

Cardeal Caffarra

Cardeal Caffarra

Cardeal Caffarra (CC): Na Amoris Laetitia [308] o Santo Padre Francisco escreve: “Eu entendo aqueles que preferem um cuidado pastoral mais rigoroso que não deixa espaço para confusão.” Eu concluo dessas palavras que Sua Santidade percebe que os ensinamentos da Exortação levantariam confusão à Igreja. Pessoalmente, desejo – e que é como tantos dos meus irmãos em Cristo (cardeais, bispos, e os fiéis leigos igualmente) também pensam – que a confusão deveria ser removida, não porque eu prefiro um cuidado pastoral mais rigoroso, mas porque, em vez disso, eu simplesmente prefiro um cuidado pastoral mais claro e menos ambíguo. Isso dito –  com todo o devido respeito, afeição e devoção que sinto a necessidade de manter para com o Santo Padre –  eu diria a ele: “Santidade, por favor esclareça estes pontos. a) Quanto do que Vossa Santidade disse na nota de rodapé 351, do parágrafo 305, também é aplicável aos casais divorciados e recasados que desejam ainda de alguma maneira continuar a viver como marido e mulher; e assim quanto do que foi ensinado pela Familiaris Consortio No. 84, pela Reconciliatio Poenitentia No. 34, pela Sacramenttum unitatis No. 29, pelo Catecismo da Igreja Católica No. 1650, e pela doutrina teológica comum, deve ser considerado agora abrogado? b) O constante ensinamento da Igreja – como foi também recentemente reiterado na Veritatis splendor, No. 79 – é que há normas de moral negativa que não permitem exceções, porque elas proíbem atos que são intrinsecamente desonrosos e desonestos – tais como, por exemplo, o adultério. Esse ensinamento tradicional ainda se acredita ser verdadeiro, mesmo após a Amoris Laetitia?” Isso é o que eu diria ao Santo Padre.  

Se o Santo Padre, em seu supremo julgamento, tiver a intenção de intervir publicamente para remover essa confusão, ele tem à sua disposição muitos meios diferentes de fazer isso.

MH: O senhor é um teólogo moral. Qual o seu conselho para os católicos confusos a respeito do ensinamento moral da Igreja Católica sobre o matrimônio e a família? Como deve agir uma consciência magisterialmente (lit. authoritatively) bem formada quando ela se depara com questões como contracepção, divórcio e “recasamento”, bem como a homossexualidade?

CC: A condição na qual o próprio matrimônio se encontra hoje no Ocidente é simplesmente trágica. Leis civis mudaram a definição, porque elas erradicaram a dimensão biológica da pessoa humana. Elas separaram a biologia da geração da genealogia da pessoa. Mas, devo falar sobre isso mais tarde.  Para os fiéis católicos que estão confusos sobre a Doutrina da Fé a respeito do matrimônio, eu simplesmente digo: “Leia e medite sobre o Catecismo da Igreja Católica nn.1601-1666. E quando você ouvir alguém conversar sobre casamento – mesmo se (isso for) feito por padres, bispos, cardeais – e você então verificar que não está em conformidade com o Catecismo, não os ouça. Eles são cegos guiando cegos.”

MH: O senhor poderia nos explicar, nesse contexto, a concepção moral de que nada que é ambíguo vincula a consciência católica, e especialmente então quando está provado ser intencionalmente ambíguo?

CC: A lógica nos ensina que uma proposição é ambígua quando pode ser interpretada em dois significados diferentes e/ou contrários. É óbvio que tal proposição não pode ter nem nosso assentimento teórico nem nosso assentimento prático, porque não tem um significado certo e claro.

MH: Para ajudar os católicos neste tempo de tanto equívoco ambíguo e “reserva mental”, haveria algo que o Papa Pio XII poderia ainda especialmente ensinar-nos, com respeito a questões de matrimônio e divórcio, e sobre a formação das criancinhas para a Vida Eterna, uma vez que se tem escrito tão amplamente sobre essas matérias?

CC: O Magistério de Pio XII sobre o matrimônio e a criação dos filhos era muito rico e freqüente. E com efeito, depois da Sagrada Escritura, ele é o autor mais citado pelo Vaticano II. Parece-me que há dois discursos que são particularmente importantes para responder à sua questão. O primeiro é a “Rádio Mensagem sobre a correta formação de uma consciência cristã na juventude,” 23 de março de 1952, in AAS vol. 44, 270-278. A segunda é a “Allocution to the Fédération Mondiale des Jeunesses Feminines Catholiques,” (n.t. Alocução à Federação Mundial da Juventude Feminina Católica) ibid. 413-419. Essa carta é de grande importância magisterial, pois ela trata de situações éticas.

MH: O jesuíta alemão padre Klaus Mertes, disse em uma entrevista a um jornal alemão que a Igreja Católica “deveria agora ajudar a estabelecer um direito humano à homossexualidade.” Qual deveria ser a resposta adequada da Igreja a tal proposta? Inclusive a sanção disciplinar adequada, bem como a doutrina moral.

CC: Eu honestamente não posso entender como um teólogo católico pode pensar e escrever sobre um direito humano à homossexualidade. No sentido preciso, um direito (individual) é uma faculdade moralmente legítima e legalmente protegida para realizar uma ação. O exercício da homossexualidade é inerentemente irracional e portanto desonesto. Um teólogo católico não pode – não deve – pensar que a Igreja tem de lutar para “estabelecer um direito humano à homossexualidade.”

MH: Mais fundamentalmente, em que medida os homens devem ter um direito humano – p. ex., um clamor por justiça – para fazer o que é errado aos olhos de Deus, tal como, por exemplo, praticar a poligamia?

CC: A questão dos direitos individuais agora mudou substancialmente em seu significado. Ela identifica o direito com seus próprios desejos. Mas, não temos aqui o espaço para abordar essa questão do ponto de vista do legislador humano.

MH: Uma vez que o Padre Mertes enfatizou em sua entrevista a importância de separar a procriação do matrimônio para tornar o caminho livre para a homossexualidade – o senhor poderia explicar-nos o ensino moral tradicional da Igreja sobre os fins ordenados do matrimônio e o primado da procriação e educação das crianças para o Céu? Por que a procriação é um propósito tão importante do matrimônio? Por que não poderia ser que o amor mútuo e o respeito entre os casais viesse primeiro e tomasse a precedência? O senhor vê as conseqüências práticas se são invertidos os fins do matrimônio – principalmente, se se põe o amor mútuo e o respeito acima da procriação dos filhos para o Céu?

CC: Eu preferiria dar uma resposta sintética às três questões colocadas nessas duas [perguntas anteriores]. Elas de fato tocam em uma grande questão que é de fundamental importância para a vida da Igreja e da sociedade civil. O relacionamento entre os aspectos de amor conjugal de um lado, e da procriação e educação de crianças por outro, é uma correlação, diriam os filósofos. Que quer dizer: é um relacionamento de interdependência entre duas realidades distintas. O amor conjugal que está sendo sexualmente expresso quando os dois esposos se tornam uma só carne no único local eticamente digno para dar vida a uma nova pessoa humana. A capacidade para dar vida a uma nova pessoa humana está inscrita no exercício da sexualidade conjugal, que é a linguagem esponsal de recíproco doar-se através dos esposos. Em resumo: conjugalidade e dom da vida são inseparáveis.

O que aconteceu especialmente após o Concílio? Contra o ensinamento do próprio Concílio, insistiu-se tanto no amor conjugal, que se considerou a procriação meramente sendo a conseqüência colateral do ato de amor conjugal. O Bem-aventurado Paulo VI corrigiu semelhante visão na encíclica Humanae Vitae julgando-a contrária à reta razão e à fé da Igreja. E São João Paulo II, na última parte de sua bela catequese sobre o Amor Humano, mostrou o fundamento antropológico do ensinamento de seu predecessor: principalmente, o ato de contracepção é objetivamente uma mentira dizendo isso com a linguagem do corpo dos esposos. Quais são as conseqüências da rejeição desse ensinamento? A primeira e mais séria conseqüência foi a separação entre sexualidade e procriação. Começou-se com “sexo sem bebês,” e chegou-se a “bebês sem (a intermediação de) sexo”: a separação é completa. A biologia de geração é separada da genealogia da pessoa. Isso leva a “produzir” crianças em laboratório; e à afirmação do (suposto) direito a uma criança. Sem sentido. Não há direito a uma pessoa, mas somente a coisas. Nesse ponto, houve todas as premissas para enobrecer a conduta homossexual, porque não se vê mais sua íntima irracionalidade, e toda a séria e intrínseca desonestidade da união homossexual. E assim chegamos a modificar a definição de casamento porque nós a desenraizamos da biologia da pessoa. Realmente, a Humanae Vitae foi uma grande profecia!

MH: Qual é, em sua essência, o propósito do casamento e da família?

CC: É a legítima união de um único homem e uma única mulher à luz da procriação e da educação das crianças. Se os dois são batizados, essa mesma realidade – não outra – torna-se um símbolo real da união Cristo-Igreja. Isso lhes dá um status na vida pública da Igreja, com um ministério próprio deles: a transmissão da fé às suas crianças.

MH: No contexto da corrente crescente de confusão moral: em que medida o indiferentismo religioso (ex, a afirmação de que se pode ser salvo em qualquer religião) leva ao relativismo moral? Para ser mais específico, se uma religião favorece a poligamia mas é considerada salvífica, não há então a conclusão de que a poligamia não é ilícita, afinal?  

CC: Relativismo é como uma metástase. Se você concorda com seus princípios, cada experiência humana, seja ela pessoal ou social, será ou se tornará corrompida. O ensinamento do Bem-aventurado J. H. Newman tem aqui grande atualidade. Próximo ao fim de sua vida, ele disse que o patógeno que corrompe o senso religioso e a consciência moral é “o princípio liberal,” como ele o chama. Quer dizer, com respeito à adoração que nós devemos a Deus, é irrelevante o que nós pensamos dEle; a crença de que todas as religiões têm o mesmo valor. Newman considera o princípio liberal assim entendido como sendo completamente contrário ao que ele chama “o princípio dogmático,” que é a base da proposição e afirmação cristãs. Do relativismo religioso para o relativismo moral, há só um passo curto. Não há assim nenhum problema no fato de que uma religião justifique a poligamia, e outra a condene. De fato, (para o relativismo) não existe supostamente verdade absoluta sobre o que é bom e o que é mau.

MH: O senhor poderia fazer um comentário sobre a recente observação do Cardeal Christoph Schönborn de que a Amoris Laetitia é doutrina vinculante e que os documentos magisteriais anteriores concernentes ao matrimônio e à família têm agora de ser lidos à luz da Amoris Laetitia?

CC: Eu respondo com duas simples observações. A primeira é: não se deve apenas ler o Magistério anterior sobre o casamento à luz da Amoris laetitia (AL), mas deve-se também ler a Amoris laetitia à luz do Magistério anterior. A lógica da Tradição Viva da Igreja é bipolar: ela tem duas direções, não uma. A segunda parte é mais importante. Em sua [recente] entrevista ao Corriere della Sera, meu caro amigo Cardeal Schönborn não leva em consideração o que aconteceu na Igreja desde a publicação da Amoris Laetitia. Bispos e muitos teólogos fiéis à Igreja e ao Magistério argumentam que, especialmente em um ponto específico – mas muito importante – não há uma continuidade, mas, em vez disso, uma oposição entre AL e o Magistério anterior. Além do mais, esses teólogos e filósofos não dizem isso com um espírito degradante ou revoltante para com o próprio Santo Padre. E nesse ponto, como segue: AL diz que, sob algumas circunstâncias, o intercurso sexual entre os divorciados civilmente recasados é moralmente legítimo. Mais ainda, ela diz que, o que o Segundo Concílio do Vaticano disse sobre os esposos – referente à intimidade sexual – também se aplica a eles (aos divorciados civilmente recasados) (ver nota de rodapé 329). Então: quando se diz que um relacionamento sexual fora do casamento é legítimo, isso é então um clamor contrário à doutrina da Igreja sobre a sexualidade; e quando se diz que o adultério não é um ato intrinsecamente desonesto – e que então deve haver circunstâncias que o tornam não-desonesto – isso, também, é uma afirmação contrária à Tradição e Doutrina da Igreja. Em uma tal situação como esta, o Santo Padre, em minha opinião – e como já escrevi – tem então de esclarecer a matéria. Pois, quando eu digo “S é P,” e então digo “S não é P,” a segunda proposição não é um desenvolvimento da primeira proposição, mas, antes sua negação. Quando alguém diz: a doutrina permanece, mas é somente sobre cuidar de alguns poucos casos, eu respondo: a norma moral “Não cometer adultério” é uma norma NEGATIVA ABSOLUTA que não permite exceção alguma. Há muitas maneiras de fazer o bem, mas há somente um caminho para não fazer o mal: não fazer o mal.

MH: Qual é a recomendação geral do senhor, como pastor, para nós fiéis leigos, sobre o que nós devemos fazer agora para preservar a Fé Católica íntegra e inteira para elevar nossas crianças para a vida eterna?

CC: Caffarra: Direi a você francamente que não vejo outro lugar fora da família onde a fé que você tem de acreditar e viver pode ser suficientemente transmitida. Além do mais, na Europa durante o colapso do Império Romano e durante as posteriores invasões bárbaras, o que os monastérios Beneditinos então fizeram pode da mesma maneira ser feito agora pelas famílias crentes, no reino atual de um novo barbarismo espiritual-antropológico. E graças a Deus elas [as famílias fiéis] existem e ainda resistem.

Um pequeno poema escrito por Chesterton me leva a essa reflexão; ele o escreveu no começo do século vinte: A Balada do Cavalo Branco. É uma grande meditação poética sobre um fato histórico. Ele teve lugar no ano 878. O Rei da Inglaterra, Alfredo o Grande, já tinha derrotado o Rei da Dinamarca, Guthrum, que primeiro tinha invadido a Inglaterra. E assim veio um momento de paz e serenidade. Mas durante a noite após a vitória, o Rei Alfredo teve uma terrível visão [no Livro VIII: 281-302]: ele vê a Inglaterra invadida por um outro exército, que é descrito como segue: “… Que embora venham com rolo (de papel) e caneta [um estranho exército, é, de fato, aquele que não tem armas, mas caneta e papel – Cardeal Caffarra], E grave como um escriturário barbeado, Por este sinal devereis conhecê-los, Que eles arruínam e fazem treva; Por todos os homens ligados a Nada….  Conheçais o velho bárbaro, O bárbaro vem de novo.”

As famílias que crêem são as verdadeiras fortalezas. E o futuro está nas mãos de Deus.