Archive for ‘Igreja’

3 agosto, 2021

Novus aut vetus. Como “Traditionis Custodes” afeta a Missa Nova.

Por FratresInUnum.com, 3 de agosto de 2021 – No artigo de ontem, mostramos como um novo conceito de “Tradição” está subjacente ao Motu Proprio de Bergoglio e como, em sua mente, este conceito é incompatível com a ideia tradicional de Tradição (valha a redundância), em que a objetividade da doutrina sobressai à subjetividade do sujeito-Igreja.

Ora, Francisco leva esta contradição ao seu ápice, reconduzindo-a ao terreno onde ela se mostrou mais sensível ao longo das últimas décadas, ou seja, à liturgia.

Os tradicionalistas, desde Ottaviani e Bacci, sempre pretenderam mostraram como uma nova doutrina estava subentendida no rito de Bugnini e como tal ruptura não estava explicitamente justificada pelo Concílio, apesar das bombas-relógio plantadas (os padres conciliares, aliás, foram todos formados na mentalidade tridentina), nem pela grande tradição da Igreja, devidamente fixada no dogma católico. Tal proposição era constantemente rechaçada por Paulo VI, “autor” do novo rito, e por seus sucessores. Agora, é o próprio Francisco que lhe dá suporte, em favor dos modernistas.

A aposta dos conservadores foi sempre a de “celebrar o Novus Ordo com a mentalidade do antigo”, ou seja, pressupondo a doutrina antiga e importando elementos gestuais e até orações silenciosas do Vetus Ordo. O Motu Proprio Traditionis Custodes, portanto, atinge de cheio a esta pretensão e a invalida de plano: a equívoca Missa Nova é a única lex orandi para o rito romano e, portanto, precisa não apenas resetar toda e qualquer “intromissão” tridentina, mas precisa fazer exatamente o contrário, precisa intrometer-se na então “forma extraordinária”, alterando-a internamente.

Bento XVI pretendia uma “reforma da reforma” em que os dois ritos se enriquecessem mutuamente. Francisco arrestou completamente essa ideia e a inverteu em um único sentido obrigatório: é o rito novo que precisa mudar o rito antigo, libertando-o de sua fixidez, em nome da fluidez da nova ideia da “tradição”, da qual ele e os bispos modernos proclamam-se custódios.

Traditionis Custodes”, portanto, afeta a Missa Nova, também, e coloca o rito moderno numa instabilidade ainda mais intensa do que aquela em que jazia. Isto significa que a penúltima frase da carta que o acompanha precisa ser lida nos dois sentidos que ela tem em si mesma: “ao mesmo tempo, peço-vos que vigiem para que toda liturgia seja celebrada com decoro e fidelidade aos livros litúrgicos promulgados depois do Concílio Vaticano II, sem excentricidades que se degeneram facilmente em abusos”.

Em outras palavras, essas “excentricidades incialmente podiam ser interpretadas no sentido dos abusos litúrgicos à la esquerda, arquiconhecidos por qualquer católico, como as Missas gaúchas com churrasco e chimarrão ou as Missas afro com invocações de entidades do candomblé ou as Missas com coisas extravagantes, como danças e coreografias. Bem… Neste sentido, o passado do papa argentino o condena. Foi ele que celebrou a Missa em que houve um casal que dançou tango, uma dança sensualíssima, ou aquela Missa com crianças (vídeo abaixo), com todas as coreografias e esquisitices possíveis. Seria meio difícil entender que ele queira esconjurar as atrocidades que ele mesmo já subscreveu, inclusive com sua prática.

Contudo, parece muito mais que, por excentricidades, entende-se os usos da Missa tradicional que estejam em desconformidade com o “espírito” (ghost) da reforma: paramentos tradicionais em geral, casulas romanas, rendas, barretes, manípulos, véus, luvas, tunicellas, enfim, qualquer coisa que se ancore na tradição litúrgica anterior. O bispo de Mayagüez, Porto Rico, D. Ángel Rios Matos fez exatamente isso, e através de um decreto, medida possivelmente exagerada na perspectiva de Bergoglio (talvez ele não quisesse ir tão rápido, assim), mas que está em completa sintonia com o seu Motu Proprio, em nosso entender.

O argumento conservador de se celebrar a missa nova com o espírito da antiga fica completamente liquidado por essa medida disciplinar. Para os papólatras conservadores, portanto, um duro golpe, o qual sequer eles conseguiram assimilar, dada a sua pressa servilista de bajular a autoridade e justificá-la de antemão.

Entretanto, é evidente que todo este golpe de Bergoglio, além de ser absurdo até na verbalidade do texto, quanto mais em sua inaceitável intenção, é inviável do ponto de vista mais concreto possível. Diga-se o que se quiser dizer contra Ratzinger, mas é inevitável reconhecer que ele iniciou um novo movimento litúrgico e o fez não apenas por decreto, mas dando princípios teológicos muito profundos, mesmo que possam ser questionáveis desde a perspectiva tradicionalista. Ele não estava brincando de liturgia, ele realmente tem uma paixão litúrgica e deu start num revisionismo que se tornou, em termos de princípios, totalmente popular e, por isso, irreversível, mesmo que os professores do Ateneu Santo Anselmo esperneiem e vociferem.

O diagnóstico de Ottaviani e Bacci sobre a Missa nova  “Distancia-se, de modo impressionante, no todo, como no detalhe, da teologia católica da Santa Missa” — foi escancarado até o ponto de se tornar inegáveis reflexões teológicas, não por parte apenas de tradicionalistas, mas inclusive por parte daqueles que aderiram à reforma litúrgica, como o próprio Ratzinger. Diante do peso dessas reflexões, as provocações de Bergoglio não passam de meros ruídos, que não conseguem minimamente arranhar aquilo que já está dito, explicado e justificado pelo pontífice alemão.

Francisco pode ter o poder canônico, mas não consegue formar mentes, não tem teologia para isso, não consegue formar o imaginário, não tem liturgia para isso; Bento XVI fascinou os jovens que Francisco persegue, inspirou os padres que ele não tolera, formou o clero que ele não suporta. Com todos os seus limites, Ratzinger formou e Francisco apenas tentou deformar, mas os seus próprios seguidores, em matéria litúrgica, preferem o seu predecessor. Isto são fatos e, contra fatos, não há argumentos.

“Traditionis custodes” propõe uma disjuntiva: novus aut vetus, o novo ou o velho, e esta já se mostrou desgastada pela própria história e não justificada de nenhum modo. O que passa disso é apenas utopia esquerdista, alucinação de autoritarismo, delírio revolucionário e, em última análise, choradeira, o velho e ultrapassado jus sperniandis.

2 agosto, 2021

Revolutionis Custodes?

Por FratresInUnum.com, 2 de agosto de 2021 – O nome irônico do Motu Proprio com que Francisco tenta liquidar a Missa de sempre já foi explorado em verso e prosa, especialmente pelo seu requinte sádico. De fato, pelo título, esperar-se-ia um verdadeiro retorno à grande tradição da Igreja, mas, ao contrário, o que ele faz é desprender-se dela para atirar-se na completa descontinuidade do pós-concílio.

PapasIVSubjaz a essa forjatura conceitual uma noção problemática de Tradição. Como magnificamente explanou o Pe. Jean-Michel Gleize, da Fraternidade São Pio X, em seu histórico artigo, fundamentalmente, o conceito de “tradição” padeceu um deslocamento entre o Magistério da Igreja anterior e posterior ao Concílio Vaticano II.

Antes do Concílio, havia uma noção objetiva da Tradição, ou seja, esta era entendida como a continuidade lógica entre os enunciados doutrinais, sem nenhum tipo de incoerência ou ambiguidade; durante e após o Vaticano II, pretendeu-se deslocar esta noção para uma espécie de subjetivismo eclesiológico: não se trata mais do mesmo corpo doutrinal que progride coerentemente, mas do mesmo sujeito-igreja que se auto-interpreta na história de acordo com as demandas do momento.

Neste segundo sentido, tradição já não é mais a sintonia entre a fé dos apóstolos e aquilo que a Igreja sempre creu ao longo de dois milênios, em sentido lógico, como explicava de maneira precisa São Vicente de Lérins em seu Comonitório; ao contrário, por tradição se entende o mesmo sujeito que se expande através do tempo mutando a depender das suas circunstâncias e que se reinterpreta, inclusive em seu passado. Neste caso, tanto Francisco quanto Bento XVI estão fundamentalmente de acordo, ambos aderem a uma espécie de hegelianismo eclesiológico, com a diferença de que a dialética é mais acentuada em um que em outro.

Este é o único modo pelo qual seria possível conciliar as contradições entre os textos magisteriais anteriores e os textos posteriores ao Vaticano II. O princípio pelo qual ambos seriam lidos estaria, por assim dizer, acima dos próprios textos, neste sujeito espiritual que se ressignifica ao longo da história ao qual chamaríamos de Igreja.

A diferença entre Bento XVI e Francisco está no fato de que essa auto-interpretação que a Igreja se dá seguiria um princípio, a tal “reforma na continuidade” (faça-se acento sobre a continuidade), princípio que Bergoglio joga no lixo, ensejando a ideia de que essa reinvenção da Igreja já não se dá senão em função do presente e do futuro: este é o núcleo mesmo da psicologia progressista.

Em outras palavras, se para Bento XVI tradição é um processo dinâmico de continuidade, para Francisco é um processo dinâmico abertamente dialético, de contradição intrínseca e permanente. Esta contradição é a tradição em si mesma, tradição da qual eles, os bispos, são os custódios.

Se para a doutrina católica a continuidade da tradição não é apenas subjetiva, mas também objetiva (vale dizer, lógica e textual); para Bento XVI não é necessariamente objetiva, mas seguramente subjetiva; e, para Bergoglio, é necessariamente não objetiva, pois este sujeito precisa redefinir-se enquanto caminha, na marcha mesma do processo histórico com todas as suas incongruências. Isto significa que os modernistas que assumiram o controle da Igreja agora fundaram um novo conceito de tradição, conceito inteiramente revolucionário, dialético, historicista, materialista (e – por que não dizê-lo? – marxista), do qual somente eles podem ser os legítimos custódios.

Com esta compreensão, Francisco não apenas deu um “cala a boca” em todos os tradicionalistas, insinuando que são os bispos, não eles, os guardas da tradição; mas deu um “cala a boca” no próprio conceito católico de tradição, violando inclusive aquele arranjo teológico que tentou elegantemente construir Bento XVI, mas que não resistiu a uma simples canetada do seu sucessor.

É óbvio que aqui também subjaz a acusação de imobilismo, direcionada aos tradicionalistas, como se estes defendessem uma rígida fixidez idealista, a qual não teria jamais existido, visto inclusive que o próprio rito romano passou por pequenos ajustes e melhorias. A acusação é simplesmente retórica e vazia, pois ninguém realmente sustenta tal posição: o dilema não é entre mobilismo e imobilismo, mas é sobre qual tipo de mobilidade pode ser suportada pela natureza da Igreja, pois nenhum ente pode performar indefinidamente, sem jamais romper a sua unidade ontológica.

Mas é esta indefinição permanente o horizonte para o qual se orienta a senda progressista. O importante é não parar jamais a marcha, nunca “voltar pra trás”. Eles realmente têm a angústia de precisarem “avançar” rumo ao que consideram ser a direção da história, sempre mais e mais libertária. A fidelidade ao próprio ser é, para eles, um vício limitante, uma espécie de delírio que precisa ser superado.

Este é, portanto, o significado do título “Traditionis Custodes”, a partir de um novo significado de tradição, que poderia ser tranquilamente redefinido como “Revolutionis Custodes”.

1 agosto, 2021

O grito de quem perdeu.

Por FratresInUnum.com, 1 de agosto de 2021 – A carta que acompanha o Motu Proprio de Francisco, direcionada aos bispos de todo o mundo, é bastante melhor escrita que o próprio documento. Ali, o pontífice mostra as suas razões, os seus medos: no fundo, o grande problema é que os fieis que aderem à liturgia antiga questionam o Concílio Vaticano II, coisa para ele inadmissível, pois “duvidar do Concílio significa duvidar das intenções mesmas dos Padres, os quais exerceram a sua potestade colegial de modo solene cum Petro et sub Petro no Concílio Ecumênico, e, em última análise, duvidar do próprio Espírito Santo que guia a Igreja”.

papa3O problema é espinhoso e realmente muito delicado, especialmente porque agravado não pela parte conservadora da Igreja, mas por aquela parte que Francisco oportunisticamente invisibiliza: os hermeneutas da ruptura e da descontinuidade.

Bergoglio lança sobre os ombros dos fieis tradicionalistas o peso de questionarem um Concílio que desde o primeiro instante foi instrumentalizado e profanado pelos teólogos ativistas da Nouvelle Théologie, os quais se serviram dele como desculpa para todas as suas aberrações, não apenas em âmbito litúrgico, mas sobretudo dogmático e moral. Agora, com a sua decisão, ao invés de atenuar a divisão, ele a aumenta.

Aumenta-a porque ele mesmo apresenta o Novus Ordo como única lex orandi, coisa em si mesmo absurda, como demonstramos em artigo anterior, mas que é suficiente para documentar aquela ruptura que Bento XVI tentou sanar com a sua hermenêutica da reforma na continuidade, hermenêutica não apenas doutrinal, mas também pastoral e litúrgica, selada pela paix liturgique que agora Francisco não hesita nem um segundo romper.

Em outras palavras, se a lex orandi precedente (mais uma vez, os termos são absurdos, mas damos-lhe a licença retórica de dizê-lo apenas para extrair daí as conclusões lógicas) já não vale mais, é porque o Concílio a alterou, ou seja, está criada e institucionalizada a ruptura oficial, a qual Bergoglio pretende enfiar nos fieis goela abaixo, apelando apenas para o argumento de autoridade (a autoridade do Concílio). De fato, ele o diz expressamente quando afirma que a escolha de Bento XVI estava baseada na ideia de que “tal providência não teria posto em dúvida uma das decisões essenciais do Concílio Vaticano II, danificando, deste modo, a sua autoridade”.

Ora, é justamente a autoridade do Concílio e a sua credibilidade que Bergoglio está justamente atacando quando admite que as duas formas do rito romano não podem coexistir em razão de incompatíveis “leis da oração”. Em outros termos, ele está endossando a tese de que o Concílio não suporta uma interpretação em harmonia com o magistério anterior e, assim, reforça os protestos contra o mesmo.

Ele reclama daqueles que aderem ao usus antiquor dizendo que a opção por este está ligada “à rejeição da Igreja e das suas instituições em nome daquela que eles julgam a ‘verdadeira Igreja’”. E, em seguida, não apresenta um argumento teológico, mas apenas faz um apelo à comunhão, ou seja, à uniformidade com os reformadores: “trata-se de um comportamento que contradiz a comunhão, alimentando aquele impulso à divisão”.

Ora, aqueles que pretendem perseverar na mesma tradição de séculos são acusados de divisão enquanto os inovadores são anistiados com uma infalibilidade acima das Escrituras, da Tradição e do próprio Magistério. A unidade pretendida por Francisco não é orgânica, é despótica, ditatorial, forçada e, por isso, não vai dar certo!

Ele não pode governar a Igreja como se ela fosse um corpo militar, em que todos os membros se comportam de maneira uniforme. A Igreja não é assim. Bem como não é possível pretender a solução de um problema pelo seu agravamento. Isto é contraditório. Nas idas e vindas de proibições e permissões da Missa tradicional, esta só cresceu, enquanto o Novus Ordo só perdeu autoridade… Como dissemos anteriormente, o caos introduzido pela reforma criou tal desorientação que não se pode mais falar com precisão de um rito romano a não ser nos marcos da forma extraordinária; fora isso, só existe a desorientação e o desencontro.

O nível do contrassenso da carta de Francisco chega ao absurdo de ele afirmar: “conforta-me nessa decisão (de ab-rogar todas as normas, as instruções, as concessões e os costumes precedentes ao presente Motu Proprio) o fato de que, depois do Concílio de Trento, também São Pio V ab-rogou todos os ritos que não pudessem apresentar uma comprovada antiguidade, estabelecendo para toda a Igreja latina um único Missal Romano”. Ora, mas ele está ab-rogando justamente um rito de comprovada antiguidade em favor de um ritual escrito numa salinha há cinquenta anos, fazendo o exato contrário do papa dominicano, e ainda se diz confortado por ele?… Será que ninguém percebe que estamos diante de um homem inconsequente, que não sabe o que faz nem o que escreve?

Esta carta é a documentação de que Bergoglio simplesmente perdeu os rumos e se guia tão somente pelo desespero. O desespero do progressismo que não consegue mais puxar a sua revolução suficientemente, diante do corpo mole dos católicos; que já perdeu toda a sua autoridade e precisa, por isso, apelar para o autoritarismo; que não consegue mais adeptos, mas está sabotado de todos os lados, pelo aparecimento de jovens tradicionais que desenterram aquelas relíquias que eles viveram por décadas a sepultar; que já está desmascarado pela verdade da fé, exposta com clareza e sem tergiversações pelas vozes mais alternativas. O teatro acabou e agora só lhes resta um grito: o grito de quem perdeu.

31 julho, 2021

Quia me dereliquisti?

Por FratresInUnum.com, 31 de julho de 2021 – Santo Inácio de Loyola, cuja festa celebramos hoje, é o fundador da Ordem da qual procede Jorge Mario Bergoglio, a Companhia de Jesus. Não podemos figurar a “desglória” acidental que este seu filho possa lhe dar no céu, já que justo o primeiro jesuíta a chegar ao pontificado é a completa antítese do seu fundador, o qual viveu para edificar a Igreja numa contrarrevolução decidida contra os hereges protestantes e para a conversão, sim, o proselitismo, e a expansão da civilização cristã pelo Novo Mundo. Por sua vez, seu descendente, além de entronizar no Vaticano a imagem de Lutero, tenta expropriar os fieis daquele bem que o heresiarca alemão mais odiou: a Missa de Sempre!

“Em vida fui tua peste; morto, serei tua morte, ó papa” – Martinho Lutero.

Lutero ab-rogou a Missa em sua seita e a chamava de “a maior blasfêmia do romanismo”. A oração que ele mais execrava na liturgia era justamente aquela que encerrava o ofertório, o “Suscipe, Sancta Trinitas” — abolida no Novus Ordo Missae de Paulo VI –, a qual ele chamava de blasfema porque ousava oferecer a Deus algo, coisa sumamente reprovável para quem considerava todas as obras humanas corrompidas e que não cria na existência de obras meritórias.

O protestantismo acabou com os sacramentos e os reduziu a ordenanças, destruiu as bênçãos, pois considerava-as blasfemas, sinais de que existiria um sacerdócio ministerial, ao qual eles rejeitam. E, por isso, à destruição da Santa Missa, seguiu-se o cortejo de destruições dos sacramentos e sacramentais, cujos ritos foram minimamente reduzidos a invocações ou orações a serem presididas por qualquer um.

O Motu Proprio “Traditionis Custodes” – o nome não poderia ser mais irônico, ainda mais neste contexto – não poderia encerrar-se sem um atentado similar. Não adianta apenas agredir a Missa, é preciso agredir a tudo aquilo que lhe corteja. Por isso, diz Francisco no art. 8: “as normas, instruções, concessões e costumes precedentes, que não estejam conformes ao que é disposto pelo presente Motu Proprio, são ab-rogadas”.

Com este artigo, sem sequer mencioná-lo expressamente, Francisco parece vedar a utilização do Breviário, do Ritual Romano e do Pontifical para todos os fieis. Nenhuma concessão é permitida, nem sequer nenhum “costume”! A lei, em geral, cristaliza alguns costumes, mas ab-rogá-los, e simplesmente por uma determinação legislativa, é qualquer coisa de inconcebível. É a este nível de imposição a que chegou Bergoglio.

Isso significa, por exemplo, que o texto do Motu Proprio – não sabemos até que ponto o mesmo será efetivamente aplicado – não permitiria mais o rito das ordenações segundo o Pontifical precedente, o que implica a abolição de todas as possibilidades de outorga das ordens menores e a obrigatoriedade do Novus Ordo para as ordenações nos Institutos ligados ao Usus Antiquor.

Do mesmo modo, ficaria proibida a possibilidade de benzer os objetos segundo o ritual tradicional, que valoriza o sacerdócio ministerial, e tornar-se-ia obrigatória a utilização do novo ritual. Por exemplo, a bênção da água na forma tradicional “eu te exorcizo, água”, “eu te abençoo, água”, ficaria sumariamente substituída pela forma nova, agora imposta: “bendito sois, Senhor”, uma berakah judaica na qual não se benze nada, mas apenas se bendiz a Deus como se aquilo já estivesse bento.

Na prática, os padres nunca seguiram este novo ritual de bênçãos. Será que alguém já solicitou uma bênção e o padre lhe pediu para esperar porque iria à sacristia pegar o ritual de bênçãos?

O próprio Dom Isnard, na Apresentação do Ritual de Bênçãos, afirmou que “não há mais bênção com um simples sinal da cruz”… Coisa jamais seguida por nenhum padre do mundo! Todos benzem apenas traçando uma cruz sobre o objeto. Além disso, continuou ele, afirmando que outra novidade são “as bênçãos presididas por leigos, homens e mulheres, em virtude de seu sacerdócio batismal. É extremamente louvável esse reconhecimento da dignidade sacerdotal (sacerdócio comum e não ministerial) do leigo”. Ora, alguém já viu uma senhora dizendo: “Dona Maria, benze esta água pra mim?” É evidente que toda a reforma litúrgica no que diz respeito aos sacramentais foi a coisa mais mal sucedida!

Portanto, por detrás dessas palavras tão lacônicas de Bergoglio se esconde uma imensa bomba contra todos os ritos que se seguem à Santa Missa tradicional e ao sacerdócio católico.

A quem tem dúvida se é isso tudo mesmo, como disse o Padre Barth, é melhor nem perguntar a Roma, pois a resposta pode ser ainda pior.

Trata-se da imposição do novo e inglório ritual que ninguém usa e da tentativa de completa extinção dos ritos dos sacramentos segundo a forma tradicional.

Como alguém pode dar um golpe desses de modo tão sorrateiro? No Concílio, ao menos, houve certa formalidade para a substituição dos ritos! Como é possível que se crie uma lei tão abrangente por detrás de palavras tão indiretas, mas ao mesmo tempo tão letais, a ponto de extinguir até os “costumes”?

Este artifício legislativo é apenas uma armadilha verbal. Do mesmo modo como antes, os padres vão continuar usando as bênçãos sérias do Ritual Romano anterior, inclusive com traduções aprovadas anteriormente, seguirão exorcizando e benzendo água, sal e óleo, darão a bênção nas velas e nos terços, nas imagens e nas medalhas, e não se incomodarão nem um pouco com tais restrições.

A Liturgia das Horas nova quase não é rezada por nenhum padre, mesmo. Os padres tradicionais continuarão rezando o seu Breviário antigo, enquanto os modernos nem saberão em que semana do saltério eles estão.

Mais difícil será a situação das ordenações. Os institutos anteriormente ligados à Comissão Ecclesia Dei terão a difícil missão de contornar a situação, mas, se conseguirem, mostrarão que esta lei não passa de um artifício de palavras… Tomara que consigam!

O que fica claro, por detrás disso tudo, é o gesto mais anti-inaciano jamais tomado por um Papa, ainda mais grave por se tratar de um “filho” do fundador da Companhia: o triunfo de Lutero e de seu ódio à Missa católica, aos sacramentos católicos e ao sacerdócio católico. Diante de tamanho descalabro, não é difícil imaginar a inquietação do glorioso soldado de Cristo perguntando a este seu “discípulo”: “fili mi, quare me dereliquisti?”, “filho meu, por que me abandonaste?”

30 julho, 2021

Tamquam leo rugiens.

Por FratresInUnum.com, 30 de julho de 2021 – Os papas ditos conservadores sempre foram muito zelosos em dizer as coisas certas, mas sem estabelecer uma vigilância que oportunizasse a imposições de sanções para os desobedientes e contestatários.

Apesar das claras e firmes condenações ao modernismo, e do tão execrado Sodalitium Pianum, o próprio São Pio X excomungou somente dois hereges, os modernistas Alfred Loisy e George Tyrrell.

De volta aos anos 60: até Elvis Presley avacalhou a Missa Tradicional.

Já Pio XII escreveu uma Encíclica excepcional, a Humani generis, em que condena da Nouvelle Théologie, mas sem criar nenhum dispositivo para a punição dos seus autores. Resultado: os teólogos heterodoxos foram inibidos durante um tempo, mas depois vieram com toda a força durante e depois do Concílio Vaticano II, invertendo completamente a situação.

João Paulo II foi ainda pior. Mandou a Congregação para a Doutrina da Fé promulgar um documento contra a Teologia da Libertação, a Instrução Libertatis nuntius, mas, diante do protesto e das ameaças de cisma oriundos do Brasil, acabou por retroceder e mandar escrever a Instrução Libertatis conscientiae, em que afirma a possibilidade de existência de uma ortodoxa teologia da libertação, algo mais ou menos tão possível quanto um triângulo quadrado.

Na época em que o livro de Leonardo Boff, Igreja: carisma e poder, foi censurado, ele mesmo recebeu apenas o silêncio obsequioso de um ano, coisa mais ou menos equivalente a um pito, mas que foi suficiente para deixar toda a esquerda possessa de ódio, a ponto de mobilizar centros de defesa dos direitos humanos contra o Papa.

Em Traditionis custodes, Francisco faz exatamente o contrário. Após dizer coisas inconsistentes com a obstinada intenção de tornar impossível não apenas a celebração da Missa Tradicional, mas até a vida daquelas instituições erigidas pela Igreja para conservá-la, ele determina as instituições que exercerão o papel policial de perseguição e penalização dos desobedientes, com a mesma intolerância com que a esquerda sempre atuou contra os seus opositores.

No art. 7, ele escreve que “a Congregação para o Culto divino e a Disciplina dos Sacramentos e a Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, para as matérias da sua competência, exercerão a autoridade da Santa Sé, vigiando a respeito da observância destas disposições”.

A novidade deste artigo não está no fato de que as Congregações exerçam autoridade em nome da Santa Sé, pois isso é o que constitui a essência de um dicastério — do grego, dikastes, juiz, pois julgam em nome do Romano Pontífice — e nem que o façam nas matérias em que são competentes.

As novidades deste artigo são duas. A primeira é que, extinta completamente a Comissão Ecclesia Dei, o rito tradicional passa a ser de competência da Congregação para o Culto Divino, do qual o prefeito recém nomeado é histórico inimigo, e, como dissemos ontem, os Institutos tradicionais passam a depender da Congregação para os religiosos, cujo prefeito é alérgico a qualquer coisa que relembre a Tradição.

A segunda novidade é que essas Congregações devem exercer vigilância para que o Motu Proprio seja devidamente observado. Em outras palavras, Francisco está dizendo que isso aqui não ficará apenas no papel: haverá censura, haverá perseguição, haverá silenciamento, haverá supressão, haverá sanção canônica, haverá desaparecimento. Em outras palavras, estamos já sob o regime de uma ditadura tão férrea quanto a da União Soviética ou da China. Os organismos da Igreja estão com as armas direcionadas para a nossa cabeça. Os tradicionalistas estão sob o alvo dos modernistas. Agora é a hora do ataque.

Eles não têm pressa. Não se trata de uma questão que precise ser resolvida de modo imediato. O aparato institucional já foi criado e, agora, basta ir calmamente aplicando as meditas de intervenção, na expectativa de que os mais covardes desistam de antemão da resistência.

Do ponto de vista da liturgia, a Congregação para o Culto Divino pode facilmente emitir decretos, por exemplo, autorizando a Comunhão na mão nas Missas Tridentinas ou alterando o calendário litúrgico para que se adapte ao novo; se o próprio Francisco já tentou enfiar o lecionário novo no missal antigo, o que lhes impede de mudar rubricas e impor novas orações? Não é de se descartar que, dentro de pouco tempo, haja padres celebrando a Missa tradicional com túnica morcegão e estola de crochê, que se introduzam cânticos carismáticos no lugar do graduale e do kyriale e que se imponha ministros leigos da comunhão e até leitores e leitoras. É para isso que o rito tradicional enquanto tal mudou de competência. A hora é de anarquizar.

Em todo caso, a vigilância é o que se quer impor, mais do que qualquer mudança imediata. Quer-se introduzir o medo, a mentalidade de controle. Não existe tolerância por parte de modernistas e aos conservadores é necessário ter ciência disso! Trata-se da imposição pura e simples. Aí não há diálogo, sinodalidade, comunhão, pluralidade, igualdade; há somente supremacia e destruição! É disso que se trata. Da parte do bom clero católico, resta apenas a resistência sóbria e corajosa, pois “o vosso adversário, o diabo, vos rodeia como um leão a rugir – tamquam leo rugiens –, procurando a quem tragar” (1Pd 5,8).

29 julho, 2021

A fronte praecipitium, a tergo lupi.

Por FratresInUnum.com, 29 de julho de 2021 – O fim de toda lei é o bem comum. Ausente tal princípio, não há lei, mas apenas um simulacro. Como já abundantemente demonstramos em nossas análises anteriores de “Traditionis Custodes”, este é o seu caso. A autoridade pontifícia está empenhada num puro e simples ato de violência, de agressão ao corpo eclesial, e, portanto, pode e deve ser resistida.

Cardeal João Braz de Avis, o representante brasileiro no consistório de hoje.

Cardeal João Braz de Avis.

O art. 6 do documento diz que “os institutos de vida consagrada e as Sociedades de vida apostólica, ao seu tempo erigidos pela Pontifícia Comissão Ecclesia Dei passam à competência da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica”.

Ora, tal ato não é senão o decreto de uma pena de morte às Congregações tradicionalistas. Coisa, aliás, que vem muito a calhar com todo o teor do Motu Proprio. Se os grupos tradicionais precisam ser restringidos até desaparecerem, para que se fundarão seminários a fim de se continuar ensinando a liturgia antiga? Nada mais coerente que extingui-los por completo.

Contudo, Bergoglio não é homem de palavras, mas de ações. Ele jamais declararia tal coisa, prefere agir sem dizê-lo ou, que é lhe é melhor ainda, agir sem agir, deixando outro sujar as mãos em seu lugar: no caso, o eminentíssimo Prefeito da Congregação, ninguém menos que o cardeal brasileiro João Braz de Aviz.

Para quem Francisco está entregando os institutos tradicionalistas?

Para aquele que disse em uma entrevista:

“Estamos trabalhando muito para a transformação da formação. Devemos pensar em formação desde o ventre até o último alento […]. Tudo conta na formação, não se pode dizer que uma coisa é formação e a outra não é […] é necessário mudar muito […] Muitas coisas da tradição, muitas das quais pertencem à cultura de um tempo passado, não funcionam mais. […] Temos formas de vida que estão ligadas aos nossos fundadores mas que não são essenciais. Uma certa maneira de rezar, uma certa maneira de se vestir, dando mais importância a certas coisas que não são tão importantes e dando pouca a outras que são importantes. Essa visão global do conjunto, nós não a tínhamos antes, mas agora temos”.

Dom João Braz de Aviz não tolera nada de outros tempos, eliminando implacavelmente até os seus cabelos brancos.

Muitas congregações foram comissariadas no tempo de Braz de Aviz. Por exemplo, Pequenas Irmãs de Maria, Mãe do Redentor na qual se dizia que não iriam tocar em seu carisma, mas apenas no modo e vivê-lo. As irmãs eram criticadas por rezar demais (sic!). Resultado: quase todas abandoram o instituto.

O Secretário da Congregação, Mons. Carballo, disse em entrevista que “para consagrados, o Concílio (Vaticano II) é um ponto que não pode ser negociado. E afirmou que aqueles que buscam nas reformas do Vaticano II todos os males da vida religiosa ‘negam a presença do Espírito Santo na Igreja’. Explicou que na Congregação para a Vida Consagrada estão ‘especialmente preocupados’ com este tema: estamos vendo verdadeiros desvios. Sobretudo porque ‘não poucos institutos dão não só uma formação pré-conciliar, mas também anti-conciliar. Isso não é admissível, é se colocar fora da história. É algo que nos preocupa muito na Congregação’”.

Foi justamente esta Congregação que misericordiosamente comissariou os Franciscanos da Imaculada, acusando-os de “rezar em latim, viver a pobreza, não aderirem à ‘teologia de gênero’ (seja lá o que for isso) e por fazerem um voto a Nossa Senhora”. O resultado do comissariamento foi a decaptação da Congregação, com a expulsão do fundador e o seu isolamento numa clausura forçada, e a dissipação dos seus membros, de modo que o fulgurante Instituto praticamente acabou.

Em entrevista posterior, o Cardeal Aviz resumiu o problema dos Franciscanos da Imaculada: “O problema é a ‘negação do Concílio’ escondida por detrás da ‘referência ao rito extraordinário’”.

Estes são apenas dois exemplos de muitos outros que se poderiam dar.

Recentemente, o Cardeal Braz de Aviz disse que que “o seguimento de Cristo é a nossa regra suprema. Hoje estivemos com o Santo Padre, e o Papa está preocupado por algumas posições tradicionalistas, também no seio da vida religiosa”. Segundo ele, em entrevista à Revista Veja, o Papa lhe teria confidenciado: “Peço a Deus a graça de viver o suficiente para que as reformas na Igreja sejam irreversíveis”.

Ah, Francisco! Ah, Francisco! A Igreja não é sua, mas Dele!

Em resumo, o art. 6 não significa apenas uma mudança de competência, mas é uma claríssima sentença de morte para os Institutos que estavam ligados à Comissão Ecclesia Dei. Os motivos para comissariamentos e supressões se encontrarão depois, são apenas desculpas a serem inventadas. O fato é que não se pretende o bem de tais institutos. Francisco realiza o seu perfeito encurralamento, segundo o antigo adágio latino: “pela frente, o precipício, por trás, os lobos” – “a fonte praecipitium, a tergo lupi”.

28 julho, 2021

Vetus melius est.

Por FratresInUnum.com, 28 de julho de 2021 – É impossível suprimir da memória uma experiência maravilhosa. Não há como desfazer-se de algo bom que se viveu nem como desviver o melhor que tenha acontecido. É assim que boa parte do clero experimentou a redescoberta da Missa tradicional.

Missa Pontifical de Dom Guido Pozzo - Basílica de São Pedro, 16 de setembro de 2017

Missa Pontifical de Dom Guido Pozzo – Basílica de São Pedro, 16 de setembro de 2017

Sonegaram-lhes o latim, a batina, a tradição; não lhes informaram sobre nada, foram eles vítimas dos laboratórios mais esdrúxulos jamais excogitados sequer pelo Dr. Pavlov, tornou-se-lhes inacessível o caminho para o tesouro do catolicismo. E, ainda mais, encheram-lhes a cabeça com lixo revolucionário, teologia da libertação, missas inculturadas, músicas engajadas, pastorais ativistas… Isolaram-se-lhes numa ilha em que as notícias sobre a Missa antiga chegavam-lhes apenas por resquícios mínimos, praticamente pela poeira do tempo.

De repente, reeditam-se missais, divulgam-se vídeos explicativos, fazem-se cursos de latim, disponibiliza-se o acesso à liturgia de sempre… Os padres recomeçam a viver, encontram na liturgia antiga o perfeito encaixe para a doutrina imperecível. Começa o tempo Summorum Pontificum! Florescem comunidades tradicionais por todos os lados e os padres encontram na Missa de Sempre a perfeita reverberação para o seu sacerdócio.

Agora, não basta Francisco proibir os novos padres de celebrarem a missa antiga, ele também tenta limitar a faculdade dos próprios padres que já a celebravam de a continuarem celebrando. Ele diz o art. 5: “os presbíteros que já celebram segundo o Missale Romanum de 1962, (sic!) pedirão ao Bispo diocesano a autorização para continuar a valer-se da faculdade”.

Em termos jurídicos, esta simples linha de Francisco contém absurdidades quase inacessíveis ao leitor comum: no mesmo tempo em que ele implicitamente reconhece que os padres tenham a faculdade de celebrar segundo o usus antiquor, ele condiciona esta faculdade a que eles peçam a autorização do bispo para valerem-se dela. Ele faz mais um jogo de palavras unicamente porque não pode negar que os padres têm já esta faculdade e que esta não lhes pode ser retirada sem uma justa razão ou por uma pena eclesiástica.

Dizendo-o de outro modo: os padres têm a faculdade mas, para usar a faculdade que eles já têm, precisam pedir para que o bispo lhas permita usar. Portanto, a faculdade não é concedida pelo bispo, porque os padres já a têm na mesma extensão em que podem celebrar a Missa, mas seria o bispo que lhes autorizaria a usar, embora eles já a possuam.

Com este malabarismo verbal, Francisco consegue apenas criar algumas impressões: a de que os padres estão proibidos de usar a faculdade sem a autorização do bispo; a de que o bispo outorga a faculdade, sem a qual os padres não poderiam celebrar, e, portanto, que o poder do bispo aumenta; e, especialmente, que nem privadamente o padre poderia fazer uso da faculdade que ele já tem sem antes solicitar a autorização do seu bispo.

Embora Bergoglio derrogue todas as disposições em contrário, como é de praxe se fazer num Motu Proprio, é um princípio legal que um privilégio ou faculdade só possam ser revogados de maneira explícita, além do fato de que, dada a natureza da Missa Tradicional (restaurada por S. Pio V, por ele fixada e nunca ab-rogada) e da relação da Missa com o sacerdócio, há aí qualquer coisa de irrevogável. Vale lembrar que o indulto de 1984 previa aquilo que Paulo VI também já reconhecia em seu tempo, isto é, que os sacerdotes têm o direito de privadamente celebrarem a Missa com um Missal nunca ab-rogado e que, ademais, podem admitir alguma assistência, visto que o mais adequado é que não celebrem de modo totalmente solitário, se possível.

É verdade que há alguns bispos conservadores que já se apressaram a exigir, inclusive, que os padres lhes peçam licença por escrito para celebrarem segundo a forma extraordinária, ao invés de simplesmente dizerem que, em sua diocese, eles estão simplesmente autorizados a fazê-lo, segundo a norma do direito. Isso, em rigor, nem precisa ser de modo escrito, valeria, para tanto, uma simples declaração verbal, caso não existisse tanto zelo em mostrar subserviência a Bergoglio.

Entretanto, fato é que os padres não estão minimamente vinculados a um pedido do bispo para celebrarem privadamente de acordo com o Missal de São Pio V. Motivos jurídicos para isto não faltam e o art. 5 do Motu Proprio de Francisco não passa de um truque de palavras que, ao fim e ao cabo, nada significam.

Fato é que os padres não vão parar de celebrar o rito tradicional. Os documentos anteriores estão muito bem calçados juridicamente e não é uma norma artificial que os vai anular. Há razões objetivas para que mantenham a sua plena vigência e, mais cedo ou mais tarde, a nova norma será completamente impugnada. É incontestável, porém, que, como tais, as palavras de Francisco são tão imprecisas que não vinculam a ninguém!

Bergoglio entende tanto de leis quanto de teologia tomista; isto é, nada. Ele não sabe que não existe como coibir um costume com papel e caneta. Não se trata apenas de uma disposição legal, trata-se de um poder real, poder que a Missa tradicional tem diretamente sobre a vontade dos que a celebram e ele, como papa, não possui, pois ele não pode forçar materialmente ninguém, nem sequer debaixo do seu teto.

O fascínio exercido pela liturgia católica sobre os sacerdotes não é apenas estético, é realmente sacramental: ou seja, a Missa de Sempre explica para o próprio sacerdote em que consiste o seu sacerdócio, pois “sacerdos pro Hostia”, o sacerdote existe para o sacrifício, para imolar a vítima. Não há como simplesmente deixar de fazê-lo. Os inovadores perderam! Esta é a verdade! Já não é mais possível esconder a lâmpada debaixo do alqueire.

Os padres antigos deixaram a Missa tradicional por pura obediência. Eles foram educados a serem dóceis aos seus superiores e acataram todas as disposições do Concílio, ainda que sofrendo (foram milhares que simplesmente largaram a batina). O movimento contrário, porém, é de outra natureza: os padres que trocaram a Missa nova pela Missa tradicional o fizeram não por uma motivação extrínseca, mas intrínseca, convencidos pela própria inteligência e pela própria vontade. E este caminho não tem volta. Nosso Senhor mesmo disse no Evangelho que “ninguém que bebeu do vinho velho quer já do novo, porque diz: ‘O vinho velho é melhor’ – ‘vetus melius est’” (Lc 5,39).

27 julho, 2021

Non poteritis dissolvere!

Continuamos nossas análises ao motu proprio Traditionis Custodes.

Por FratresInUnum.com, 27 de julho de 2021 – A este ponto da leitura de “Traditionis Custodes”, o leitor terá percebido a total incoerência das palavras de Francisco. Se, de um lado, ele aclama os bispos como única autoridade para a permissão da celebração segundo o Usus Antiquor em suas dioceses, de outro, amarra-lhes as mãos com exigências impossíveis de serem cumpridas, além de descabidas e abusivas.

FB_IMG_1627399618886Uma primeira peregrinação reuniu mais de 600 jovens ligados à Missa Tridentina ocorreu na Espanha poucos dias após o documento, solenemente ignorado, do Papa Francisco.

O apogeu deste autoritarismo está no art. 4 do Motu Proprio: “os presbíteros ordenados depois da publicação do presente Motu Proprio, que pretendem celebrar com o Missale Romanum de 1962, devem apresentar uma requisição formal ao bispo diocesano, o qual, antes de conceder a autorização, consultará a Sé Apostólica”.

O jogo de palavras chega a ser alucinante. Ele diz que os bispos devem “consultar a Sé Apostólica” antes de “conceder a autorização”. Por que, se ele disse anteriormente que os bispos são a única autoridade a permitir que o Missal de João XXIII seja usado em suas Dioceses? Mais uma vez, um artigo anula o outro.

Contudo, esta contradição mostra a intenção que ele tem de que o Vaticano exerça uma fiscalização sobre as Dioceses e sobre os padres que celebram segundo a outrora “forma extraordinária”, de modo a ter o controle total sobre quem celebra, onde celebra, quando celebra, a fim de impedir a “proliferação” do catolicismo tradicional.

Nem as piores máfias, os mais controladores ditadores, as mais execráveis sociedades secretas exerceram tal poder policial. Bergoglio não tem pudor quando o assunto é reafirmar o seu despotismo. Ele não se importa nem em maquiá-lo sob aparências de liberdade. Ele impõe a mordaça e ainda se orgulha disso.

Entretanto, essa posição ditatorial demonstra muito bem que, no fundo, a apelação para tal autoridade controladora é sinal de que os progressistas sabem que estão perdendo. Eles são vítimas da dialética que eles tantos defendem: o rito novo é coisa de padre velho e os padres novos preferem a missa antiga. É simples assim!

Para a surpresa de ninguém, a liturgia reformada é um repelente de qualquer um que queira algo solene e sério. O espetáculo de grosserias e cafonices, de abusos e de invencionismos é tão constrangedor quanto uma vovó de minissaia. E o fingimento de que a reforma litúrgica funcionou, de que estamos numa primavera eclesial, de que é tudo lindo e maravilhoso depois do Vaticano II já não engana mais ninguém. Os jovens não querem fazer parte desta impostura, eles têm saudades daquilo que eles nunca viram.

Em certo sentido, a proibição de Francisco fará com que a liturgia antiga seja ainda muito mais atrativa. Os padres que se ordenarem já sabem do que se trata: as múmias conciliares tentaram sepultar milênios de tradição e, agora, para o seu completo desespero, tudo voltou, aquilo que parecia ter morrido ressuscitou dos mortos. E eles não estavam preparados para isso, assim como os sumos sacerdotes dos judeus não estavam.

Ressuscitou. Não dá pra matar a liturgia tradicional rediviva. Não há decreto que a controle. A proibição apenas aumentará o heroísmo e o desejo de voltar à “paz litúrgica”.

A própria proibição de que os neo-sacerdotes celebrem a Missa Tradicional mostra que a missa nova não tem futuro e que a tentativa de garantir-lhe uma sobrevida mediante a imposição é somente um paliativo num processo em si mesmo irreversível. A medida de Francisco é, em si mesma, uma confissão de morte e decrepitude.

Mas a situação para eles é ainda pior, pois, mesmo controlado todos os seminários, todas as faculdades de teologia, todas as conferências de congregações religiosas, todas as conferências episcopais, todos os organismos da Igreja e até o papado, mesmo assim, os jovens preferem a missa tradicional do que garantir uma carreira bajulando-os. De onde vem isso? Os seminaristas, de fato, não são formados segundo a mentalidade antiga. O natural, seria que preferissem a missa nova…

Isso vem, portanto, da graça divina. E não adianta tentar proibir Deus. É isso que Bergoglio não entende. Ele não tem a sabedoria de Gamaliel, que disse ao Sinédrio: “eu vos aconselho: não vos metais com estes homens. Deixai-os! Se o seu projeto ou a sua obra provém de homens, por si mesma se destruirá; mas, se provier de Deus, não podereis desfazê-la – non poteritis dissolvere. Vós vos arriscaríeis a entrar em luta contra o próprio Deus” (At 5,38-39).

Francisco prefere pagar pra ver, mas não vai adiantar. Ninguém entra para um seminário e se priva dos regalos da vida para se entregar a um teatro; os jovens querem ser católicos de verdade. Assim como uma massa cresce mais quando é bem sovada, os golpes deferidos contra a Missa Tradicional só a farão crescer, inclusive entre os padres novos, ainda que de maneira escondida, ainda que na clandestinidade. Se a geração anterior nunca tinha visto uma missa tradicional e conseguiu resgatá-la, quanto mais agora… Ninguém detém o braço de Deus!

26 julho, 2021

“A liturgia não é um brinquedo dos Papas; é a herança da Igreja”. Fortíssima declaração de Dom Rob Mutsaerts (bispo auxiliar de Den Bosch, Holanda).

Um mau decreto do Papa Francisco

Por Dom Rob Mutsaerts, bispo auxiliar de ‘s-Hertogenbosch, Holanda, 22 de julho de 2021

Tradução de FratresInUnum.com por meio de versão inglesa de Rorate-Caeli

O Papa Francisco promove a sinodalidade: todos devem ser capazes de falar, todos devem ser ouvidos. Esse dificilmente foi o caso com seu motu proprio Traditionis Custodes recentemente publicado, um ukase [edito imperial] que deve encerrar imediatamente a missa tradicional em latim. Ao fazê-lo, Francisco coloca uma grande tarja em Summorum Pontificum, o motu proprio do Papa Bento XVI que deu amplo alcance à missa antiga.

O fato de Francisco usar aqui a palavra de poder sem nenhuma consulta indica que ele está perdendo autoridade. Isso já ficou evidente antes, quando a Conferência dos Bispos Alemães não tomou conhecimento do conselho do Papa sobre o processo de sinodalidade. O mesmo ocorreu nos Estados Unidos, quando o Papa Francisco pediu à Conferência Episcopal que não preparasse um documento sobre a dignidade da Comunhão. O Papa deve ter pensado, agora que estamos falando sobre a missa tradicional, que seria melhor [neste caso] não dar mais conselhos, mas sim uma ordem de execução!

A linguagem usada se parece muito com uma declaração de guerra. Todos os papas desde Paulo VI sempre deixaram aberturas para a missa antiga. Se alguma mudança foi feita [naquela abertura], foram pequenas revisões – veja, por exemplo, os indultos de 1984 e 1989. João Paulo II acreditava firmemente que os bispos deveriam ser generosos em permitir a Missa Tridentina. Bento XVI abriu as portas com Summorum Pontificum: “O que no passado era sagrado continua sagrado agora”. Francisco bate a porta com força através dos Traditionis Custodes. Parece uma traição e é um tapa na cara de seus antecessores.

A propósito, a Igreja nunca aboliu as liturgias. Nem mesmo Trento [o fez]. Francisco rompe totalmente com essa tradição. O motu proprio contém, de forma breve e firme, algumas proposições e ordens. As coisas são explicadas com mais detalhes por meio de uma carta mais longa que o acompanha. Esta declaração contém alguns erros factuais. Uma delas é a afirmação de que o que Paulo VI fez depois do Vaticano II é o mesmo que Pio V fez depois de Trento. Isso está completamente longe da verdade. Lembre-se de que antes daquela época [de Trento] havia vários manuscritos  em circulação e liturgias locais surgiram aqui e ali. A situação era uma bagunça.

Trento queria restaurar as liturgias, remover imprecisões e garantir a ortodoxia. Trento não estava preocupado em reescrever a liturgia, nem com novos acréscimos, novas orações eucarísticas, um novo lecionário ou um novo calendário. O objetivo era garantir a continuidade orgânica ininterrupta. O missal de 1570 remonta ao missal de 1474 e assim sucessivamente ao século IV. Houve continuidade a partir do século IV. Após o século XV, existem mais quatro séculos de continuidade. Vez ou outra ocorriam no máximo algumas pequenas alterações – um acréscimo de uma festa, comemoração ou rubrica.

No documento conciliar Sacrosanctum Concilium, o Vaticano II pediu por reforma litúrgica. Considerando todos os pontos, foi um documento conservador. O latim foi mantido, o canto gregoriano manteve seu legítimo lugar na liturgia. No entanto, os desenvolvimentos que se seguiram após o Vaticano II estão muito distantes dos documentos do concílio. O infame “espírito do concílio” não pode ser encontrado nos próprios textos conciliares. Apenas 17% das orações do antigo missal de Trento podem ser encontradas [intactas] no novo missal de Paulo VI. Mal se pode falar de continuidade, de um desenvolvimento orgânico. Bento XVI reconheceu isso e por isso deu amplo espaço à Missa antiga. Chegou a dizer que ninguém precisava de sua permissão (“o que era sagrado então ainda é sagrado agora”).

O Papa Francisco pretende agora que seu motu proprio faça parte do desenvolvimento orgânico da Igreja, o que contradiz totalmente a realidade. Ao tornar a missa em latim praticamente impossível, ele finalmente rompe com a antiga tradição litúrgica da Igreja Católica Romana. A liturgia não é um brinquedo dos papas; é a herança da Igreja. A Missa antiga não é sobre nostalgia ou gosto. O Papa deve ser o guardião da Tradição; o Papa é um jardineiro, não um fabricante. O direito canônico não é apenas uma questão de direito positivo; existe também a lei natural e a lei divina e, além disso, existe algo chamado Tradição que não pode ser simplesmente deixado de lado.

O que o Papa Francisco está fazendo aqui não tem nada a ver com evangelização e muito menos a ver com misericórdia. Tem a ver mais com ideologia.

Vá a qualquer paróquia onde a Missa antiga seja celebrada. O que você encontra aí? Pessoas que querem apenas ser católicas. Geralmente, essas pessoas não se envolvem em disputas teológicas, nem são contra o Vaticano II (embora sejam contra a maneira como ele foi implementado). Eles amam a missa em latim por sua sacralidade, sua transcendência, a salvação das almas que é central, a dignidade da liturgia. Você encontra famílias numerosas; as pessoas se sentem bem-vindas. Ela só é celebrada em poucos lugares. Por que o Papa quer negar isso às pessoas? Volto ao que disse antes: é ideologia. Ou é o Vaticano II – incluindo sua implementação, com todas as suas aberrações – ou nada! O número relativamente pequeno de fiéis (um número crescente, aliás, à medida em que o Novus Ordo está entrando em colapso) que se sentem em casa com a missa tradicional deve e será erradicado. Isso é ideologia e maldade.

Se realmente se quer evangelizar, ser verdadeiramente misericordioso, apoiar as famílias católicas, então é necessário garantir honra à Missa Tridentina. A partir da data do motu proprio, a Missa antiga não pode ser celebrada nas igrejas paroquiais (onde então?); é necessária permissão explícita de seu bispo, que a pode permitir apenas em certos dias; para aqueles que serão ordenados no futuro e desejam celebrar a Missa antiga, o bispo deve pedir orientação de Roma. Quão ditatorial, quão impastoral, quão impiedoso se deseja ser!

Francisco, no artigo 1 de seu motu proprio, chama o Novus Ordo (a presente missa) de “a expressão única da Lex Orandi do Rito Romano”. Ele, portanto, não mais distingue entre a forma ordinária (Paulo VI) e a forma extraordinária (Missa tridentina). Sempre foi dito que ambas são expressões da Lex Orandi, não apenas do Novus Ordo. Novamente, a Missa antiga nunca foi abolida! Nunca ouvi de Bergoglio sobre os muitos abusos litúrgicos que existem aqui e ali em inúmeras paróquias. Nas paróquias, tudo é possível – exceto a Missa Tridentina. Todas as armas são lançadas na guerra para erradicar a Missa Antiga.

Por quê? Pelo amor de Deus, por quê? Qual é a obsessão de Francisco de querer erradicar* aquele pequeno grupo de tradicionalistas? O Papa deve ser o guardião da Tradição, não o carcereiro da Tradição. Enquanto Amoris Laetitia se destacou na imprecisão, Traditionis Custodes é uma declaração de guerra perfeitamente clara.

Suspeito que Francisco está atirando no próprio pé com este motu proprio. Para a Fraternidade São Pio X, será uma boa notícia. Eles nunca serão capazes de supor o quanto devem ao Papa Francisco…

[* O bispo aqui usa a palavra alemã carregada ausradieren, que foi usada por Hitler quando ele falava em apagar cidades do mapa: “Wir werden ihre Städte ausradieren.”]

26 julho, 2021

Sententia mortis.

Por FratresInUnum.com, 26 de junho de 2021 – “A mão que balança o berço” é um filme de 1992, que conta a história de uma babá vingativa e psicopata que manipula uma mulher ingênua com a pretensão de roubar a sua família. No começo, Peyton, a babá, aparece como uma cuidadora perfeita, mas, aos poucos, o seu comportamento vai se mostrando estranho e, por fim, demoníaco.

O sucesso do filme se deve ao fato de que ele descreve condutas que vemos com certa frequência na realidade: pessoas maquiavélicas que disfarçam as suas más intenções através de palavras doces e bonitas, travestindo-as com os sentimentos mais cristãos e piedosos, mas que, no fundo, são predatórias, homicidas.

É esta a meiguice do art. 3 §5-6 de “Traditionis custodes”: o bispo, nas dioceses nas quais até agora existe a presença de um ou mais grupos que celebram segundo o Missal antecedente à reforma de 1970: proceda, nas paróquias pessoais canonicamente erigidas em benefício desses fieis, a uma côngrua verificação em ordem à efetiva utilidade para o crescimento espiritual, e avalie se deve mantê-las ou não; terá cuidado de não autorizar a constituição de novos grupos”. 

Ou seja, de um lado, mostra gentilmente a preocupação com o benefício dos fieis tradicionais e, de outro, chega já com a sentença de morte e de não reprodução: acabe-se com as paróquias pessoais e tome-se cuidado para que elas não se multipliquem, para que não haja novos grupos como esses.

Bergoglio quer aplicar aos fieis tradicionalistas uma espécie de eutanásia eclesial. Não basta confiná-los num gueto excêntrico, marginalizá-los como fora da “lex orandi” (ação de todo absurda), violentar o Usus Antiquor para adaptá-lo ao rito moderno, violentar os próprios fieis católicos para que se adequem à nova pastoral ativista e estéril, em suma, infernizá-los para que sejam tudo, menos tradicionais; é necessário também suprimir as suas paróquias e proibir qualquer reprodução. É preciso matá-los.

Isto é violento. Muito violento. Contudo, é mais violento quando acrescido pela violência psicológica de uma gentileza fingida. É macabro! É como alguém lhe enfiar um punhal com um olhar doce e um sorriso meigo: “é tudo para o seu benefício e para o seu crescimento espiritual”.

Como pode existir benefício com a completa supressão? Como pode haver crescimento com a proibição de crescer, de expandir-se, de multiplicar-se?

O texto do Motu Proprio é não apenas contraditório, pois propõe chegar a uma finalidade por meios inidôneos para tanto, mas também é cruel, desumano, maligno, incompatível com a caridade, assim como a eutanásia não pode ser adequada ao amor ao próximo, pois é a sua extinção, o seu completo cancelamento. Bergoglio o sabe e o faz de propósito. A maquinação por detrás dessas formulações textuais o deixa claro e não há como dissuadir-se disso.

Acontece que o desejo de eliminar completamente a oposição é típico dos revolucionários. Como eles se sentem investidos de um messianismo absoluto (não é por nada, mas ele escolheu como nome papal “Francisco”, São Francisco de Assis, “o último depois do único”) e portadores da nova era paradisíaca, sentem-se inteiramente justificados para querer a morte de todos os que pensam diferentemente deles, especialmente dos que são um impedimento para que se alcance aquele maravilhoso futuro de que se autodeclaram representantes. Em nome do paraíso de amanhã, que nunca chegará, não encontram inconvenientes em criar o inferno hoje. É assim que procederam todos os socialistas: mataram os seus opositores e, quando não o puderam fazer fisicamente, fizeram-no jurídica ou moralmente, pelo assassinato das suas reputações e pela impossibilitação de que eles tivessem em suas mãos algum meio de ação.

A eutanásia se apresenta como a mais humana das mortes, a mais gentil, a mais doce e até a mais caridosa. É matar por amor, para acabar com um sofrimento. Hitler também dizia que “devemos ser cruéis com a consciência limpa e destruir de maneira técnico-científica”. Aqui, de maneira canônica, com as luvas do direito para não sujar as mãos de sangue.

Por detrás da gentileza de uma babá, esconde-se a malignidade de uma assassina inescrupulosa; sob a máscara do bem e do cuidado, a sentença de morte, o “requiescat in pace” de quem quer desfazer-se o quanto antes do rival para apoderar-se mais rapidamente de toda a casa e simpaticamente dominar os seus moradores.