Archive for ‘Igreja’

11 abril, 2019

Bento XVI rompe o silêncio sobre a crise de abusos sexuais na Igreja Católica.

Em ensaio redigido em língua alemã, publicado na quinta-feira, o papa emérito oferece um caminho a seguir.

Por Edward Pentin, 10 de abril de 2019 | Tradução: FratresInUnum.com – Em seu pronunciamento mais significativo desde que renunciou ao papado, em 2013, o Papa Emérito Bento XVI escreveu um longo ensaio sobre os abusos sexuais cometidos por clérigos, no qual explica a sua visão das causas da crise, os efeitos que ela tem exercido sobre o sacerdócio, e qual seria a melhor reação por parte da Igreja.

Pope Benedict in 2010

Discorrendo com mais de 6.000 palavras e a ser publicado em 11 de abril no Klerusblatt, uma publicação mensal de pequena circulação da Bavária, Bento XVI atribui a culpa predominantemente à revolução sexual e ao colapso da teologia moral católica desde o Concílio Vaticano Segundo. Ele alega que esses fatos resultaram em um “colapso” na formação dos seminários anterior ao Concílio.

Bento critica o direito canônico por inicialmente ser insuficiente para tratar do flagelo, explica as reformas que introduziu para lidar com os casos de abusos e afirma que “somente a obediência e o amor a nosso Senhor Jesus Cristo” podem tirar a Igreja da crise.

O papa emérito inicia o seu ensaio, intitulado “A Igreja e o Escândalo de Abusos Sexuais,” observando que a “extensão e a gravidade” da crise de abusos têm “entristecido profundamente” sacerdotes e leigos e “levado não poucos a questionarem a própria fé da Igreja.”

Relembrando o encontro nos dias 21 a 24 de fevereiro, no Vaticano, para tratar da proteção de menores na Igreja, ele diz que foi “necessário” enviar uma “mensagem forte” e buscar um “novo início”, para que a Igreja pudesse novamente se tornar “verdadeiramente credível.”

Bento escreve que compilou notas dos documentos e relatórios daquele encontro que culminaram nesse texto, que ele afirma ter mostrado ao Papa Francisco e ao Cardeal Pietro Parolin, o secretário de estado do Vaticano.

Este ensaio esta dividido em três partes. A primeira consiste em um exame do “contexto social mais amplo” da crise, na qual ele diz que tenta mostrar que um “evento egrégio” ocorreu nos anos 60 “em uma escala sem precedentes na História.”

Uma segunda seção trata dos efeitos desses fatos na “formação dos sacerdotes e nas vidas dos sacerdotes.”

E em uma terceira parte ele desenvolve “algumas perspectivas para uma resposta apropriada por parte da Igreja.”

‘Revolução de 1968’

Para dar uma ideia do contexto social mais amplo, o papa emérito relembra a “liberdade sexual total” que se seguiu à “Revolução de 1968”. Ele diz que de 1960 a 1980 os “padrões relacionados à sexualidade desmoronaram inteiramente,” resultando na “falta de regras”, que, a despeito das “tentativas trabalhosas,” não foi interrompida.

Citando basicamente exemplos dos países europeus de língua alemã, ele se recorda da educação sexual com imagens gráficas patrocinada pelo Estado, anúncios lascivos e “filmes de sexo e pornografia” que se tornaram uma “ocorrência comum” após 1968. Segundo ele, isso, por sua vez, levou à violência e agressão, e a pedofilia foi “diagnosticada como permitida e apropriada.”

Ele pensou naquele tempo como os jovens se aproximavam do sacerdócio nesse ambiente e diz que o colapso das vocações e o “número altíssimo de laicizações” foram consequência de todos esses processos.”

Ao mesmo tempo, a teologia moral católica também “sofreu um colapso,” ele diz, tornando a Igreja “indefesa contra essas mudanças na sociedade.”

Ele explica que, até o Concílio Vaticano Segundo, a teologia moral fundava-se em grande parte na lei natural, mas a “luta por uma nova compreensão da Revelação”, fez com que a “lei natural fosse amplamente abandonada, exigindo-se que a teologia moral fosse baseada inteiramente na Bíblia.

Consequentemente, diz Bento, nada mais poderia ser “constituído um bem absoluto”, mas apenas o “relativo” poderia ser “melhor, dependendo do momento e das circunstâncias”.

Essa perspectiva relativista alcançou “proporções dramáticas” ao final dos anos 80 e 90, quando surgiram documentos como a Declaração de Colônia,” de 1989, que discordou do ensinamento do Papa São João Paulo II, causando um “clamor contra o Magistério da Igreja”. Ele lembra como João Paulo II tentou conter a crise da teologia moral através de sua encíclica Veritatis Splendor , de 1993, e a criação do Catecismo.

Todavia, os teólogos dissidentes começaram a aplicar a infalibilidade somente a questões de fé e não de moral, ainda que, Bento escreve, o ensinamento moral da Igreja esteja profundamente relacionado à fé. Aqueles que negam essa realidade, ele continua, forçam a Igreja a permanecer em silêncio “precisamente onde a fronteira entre a verdade e a mentira está em jogo.”

Colapso de Formação

Voltando-se para a segunda parte do ensaio, Bento diz que esse “processo contínuo – preparado há muito tempo – de dissolução do conceito cristão de moralidade” levou a um “colapso de longo alcance” na formação sacerdotal.

Ele observa como “diversos clubes homossexuais de seminários” exerceram um impacto significativo sobre os seminários, resultando, ao menos nos EUA, em duas visitas apostólicas que tiveram poucos frutos.

Mas ele também salienta como as mudanças para a nomeação de bispos após o Vaticano II enfatiza a ‘conciliaridade”, levando a uma “atitude negativa” em relação à tradição – tanto é assim que Bento diz que até mesmo seus próprios livros foram “escondidos”, considerados como má literatura, e somente lidos debaixo da mesa.”

A pedofilia só se tornou “aguda” ao final dos anos 80, mas o direito canônico da época “não parecia suficiente” para lidar com o crime. Roma acreditava que a “suspensão temporária” era suficiente para “purificar e esclarecer”, mas os bispos americanos que lidavam com a crise de abusos do clero americano emergente não aceitava isso, porque os supostos abusadores ainda estavam “diretamente associados” aos seus bispos. Uma “renovação e aprofundamento” da “lei penal deliberadamente interpretada de maneira vaga” do Código de Direito Canônico de 1983 então começou a ocorrer “lentamente”.

Bento também salientou outro problema canônico: a percepção da Igreja do direito penal, que garantiu plenamente os direitos do réu de que “qualquer condenação” fosse “efetivamente excluída” – algo que ele descreve como “garantismo”.

Mas Bento argumenta que uma “lei canônica formada de maneira apropriada” deve conter uma “garantia dupla” – proteções legais tanto para o acusado quanto para o “bem em jogo”, que ele define como proteger o depósito de fé. A fé “não parece mais” ser um bem que “precisa de proteção”, acrescentando que esta é uma “situação alarmante” que os pastores devem levar “a sério”.

Para auxiliar a superar esse “garantismo”, Bento decidiu, com João Paulo II, transferir os casos de abuso da Congregação para o Clero para a Congregação para a Doutrina do Fé (CDF) – um movimento, segundo ele, que era crucialmente importante para a Igreja, uma vez que essa má conduta “em última análise, prejudica a fé” e isso possibilitou que “a pena máxima” fosse imposta.

Todavia, ele acrescenta que um aspecto do garantismo permaneceu em vigor, a saber, a necessidade de “prova clara do crime”. Para assegurar que as penalidades fossem legalmente impostas, Bento diz que a Santa Sé iria assumir as investigações dos casos se as dioceses estivessem “sobrecarregados” pela necessidade de um “processo penal genuíno”. A possibilidade de recurso também foi oferecida.

Mas tudo isso estava “além das capacidades” da CDF na época, levando a atrasos. Bento observa que o “Papa Francisco empreendeu reformas adicionais”.

 O que precisa ser feito

Voltando-se para o que precisa ser feito, Bento argumenta que a tentativa de “criar outra Igreja” já “fracassou” e prossegue dando uma catequese sobre como o “poder do mal surge da nossa recusa em amar a Deus”.

Ele ensina que um mundo sem Deus “só pode ser um mundo sem sentido”, sem padrões de “bem ou mal”, onde “o poder é o único princípio” e “a verdade não conta”. Uma sociedade sem Deus “significa o fim da liberdade”, continua ele, e a sociedade ocidental é aquela em que “Deus está ausente” e não resta nada para oferecer “.

“Em aspectos individuais torna-se subitamente evidente que aquilo que é ruim e destrói o homem tornou-se uma coisa óbvia”, escreve Bento. “Esse é o caso da pedofilia. Ela foi teorizada somente há pouco tempo como bastante legítima, mas tem se disseminado cada vez mais. E agora percebemos com surpresa que estão acontecendo coisas com nossos filhos e jovens que ameaçam destruí-los. O fato de que isso também poderia se espalhar na Igreja e dentre os sacerdotes deveria nos perturbar de maneira particular”.

Ele diz que a pedofilia atingiu essas proporções por causa da “ausência de Deus”, e observa como cristãos e sacerdotes “preferem não falar sobre Deus”, e que Ele “tornou-se assunto privado de uma minoria”.

Portanto, a “tarefa primordial” é colocar Deus novamente no “centro de nossos pensamentos, palavras e ações”, para sermos “renovados e dominados pela fé”, em vez de sermos “mestres de fé”.

Ele diz que o Concílio Vaticano Segundo “acertadamente” concentrou-se em trazer de volta a presença real de Cristo ao centro da vida cristã, mas, hoje em dia “prevalece uma atitude muito diferente”, que destrói a “grandeza do Mistério”. Isso resultou em uma participação reduzida na missa dominical, na desvalorização da Eucaristia como “gesto cerimonial” e na recepção da Sagrada Comunhão como simplesmente “algo natural”.

“O que é necessário primeiro e acima de tudo é a renovação da Fé na Realidade de Jesus Cristo, que nos foi dado no Santíssimo Sacramento”, diz Bento. “Em conversas com vítimas de pedofilia fiquei ciente dessa realidade.”

A Santa Igreja Indestrutível

Ele observa também que a Igreja hoje em dia é “amplamente considerada como apenas algum tipo de aparato político,” dito em “categorias políticas” como algo que precisamos “agora tomar em nossas próprias mãos e redefinir.” Porém, uma “Igreja feita por si mesma não pode constituir esperança,” ele diz.

Observando que a Igreja é atualmente e sempre foi constituída de trigo e ervas daninhas, de “peixes ruins” e “bons peixes,” ele diz que proclamar ambos “não é uma forma falsa de apologética, mas um serviço necessário à Verdade.”

Segundo ele, o demônio é identificado no livro do Apocalipse como “o acusador que acusa nossos irmãos diante de Deus dia e noite”, porque ele “quer provar que não há pessoas justas”. Hoje, a acusação contra Deus significa “acima de tudo depreciar a Sua Igreja como ruim em sua totalidade e, dessa forma, dissuadindo-nos dela”.

Todavia, ele enfatiza que, também hoje, uma Igreja é “não apenas constituída de peixes e ervas daninhas ruins”, mas continua a ser o “próprio instrumento” através do qual Deus nos salva.

“É muito importante opor-se às mentiras e meias verdades do demônio com a verdade integral”, diz Bento. “Sim, há pecado na Igreja e o mal. Porém, mesmo hoje em dia há a Santa Igreja, que é indestrutível “.

E ele lembra que “muitas pessoas que humildemente acreditam, sofrem e amam, nas quais o Deus real, o Deus amoroso, Se revela a nós,” bem como “Suas testemunhas (mártires) no mundo.”

“Precisamos apenas estar vigilantes para vê-los e ouvi-los,” ele diz, acrescentando que uma “inércia do coração” nos leva a “não desejar reconhecê-los” — mas reconhecê-los é fundamental para a evangelização, ele diz.

Bento encerra agradecendo ao Papa Francisco “por tudo que ele faz para nos mostrar, repetidas vezes, a luz de Deus, que não desapareceu, até mesmo hoje em dia. Obrigado, Santo Padre!”

* * *

A seguir, divulgamos a íntegra do texto de Bento XVI.

read more »

Tags: ,
9 abril, 2019

Descobrindo a Tradição: Crise de Consciência de um Sacerdote.

Por Peter Kwasniewski, OnePeterFive, 27 de março de 2019 | Tradução: José Antonio Ureta

A carta a seguir e minha resposta são uma troca real de correspondência. O sacerdote gentilmente permitiu a publicação de uma versão na qual seus detalhes pessoais foram removidos. Acreditamos que atualmente há muitos sacerdotes em uma situação de consciência semelhante ou até idêntica à que é descrito aqui e que a leitura do texto pode ajudá-los a alcançar maior clareza sobre as medidas a tomar.

Caro Dr. Kwasniewski,

Hoje lhe escrevo por uma razão pessoal: sinto que estou em uma batalha por minha própria alma, o que, por ser sacerdote, é sinônimo de uma batalha ferozmente travada pela própria alma da Igreja no “ponto crítico” que mais conta: o altar de Deus e a celebração dos Sagrados Mistérios.

discovering-tradition-church

Sou padre há pouco mais de cinco anos e celebrei minha primeira missa no usus antiquior logo após a ordenação. Como membro de uma comunidade religiosa, fui ficando progressivamente consciente de muitas questões – a respeito de toda a gama de “questões” às quais somos confrontados hoje na Igreja, mas centrando-se na Sagrada Liturgia – que, embora até um certo ponto “tolerável” para mim enquanto religioso, tornou-se in-tolerável para mim enquanto sacerdote de Jesus Cristo. Meu afastamento da minha comunidade de origem não foi apenas uma questão de afastar-me daquilo que é prejudicial e/ou “falsifica” a fé, mas também uma esperança de aproximar-me de aquilo que oferece maior verdade e beleza. Eu digo isso não com qualquer animosidade ou raiva, mas simplesmente como uma questão de fato.

A mudança em minha alma após a recepção do sacramento da ordem sacerdotal trouxe consigo uma clareza quase instantânea de visão e um aperfeiçoamento da consciência em relação à Santa Missa e a tudo o que flui dela. Existem, simplesmente, coisas que, uma vez que você as conhece, você não pode não conhecer. Esta é a história da minha vida sacerdotal, pois quanto mais eu descubro sobre o desenvolvimento da doutrina e da práxis (particularmente na Igreja moderna ou “pós-conciliar”), mais eu me sinto impelido pela Igreja, minha Noiva, a “fazer algo” em toda a medida de que sou capaz, ainda que aceitando o meu papel limitado no Corpo Místico. Em duas palavras, posso dizer que uma vez que comecei a descobrir a Missa Tradicional e o modo de vida e a “cultura” que fluem organicamente dela e levam a ela, nunca consegui realmente “voltar”. Isso teve um alto custo.

Servi em duas paróquias “típicas”; em nenhuma delas a Missa Tradicional fazia parte do meu ministério público, pois eu estava tentando manter um “perfil baixo”. No entanto, eu celebrava o Novus Ordo de maneira muito tradicional, pregando sobre todos os tópicos importantes de nossa fé, e dedicando muito tempo e empenho à preparação do matrimônio, com um foco particular na virtude da castidade e da vida sacramental. O “povo fiel” gostava de mim, mas fui rapidamente desprezado pelos clérigos em posições de mando e que levavam vidas sacerdotais muito diferentes daquela que eu tentava seguir. Eu experimentei, em primeira mão, o jeito não-sacerdotal e claramente descaridoso com o qual os pastores da “nova misericórdia” tratam os sacerdotes favoráveis ​​e fiéis à “tradição”.

Fiquei algum tempo longe do ministério paroquial a fim de recuperar-me e para tentar entender o abuso espiritual que sofri nas mãos de pastores cuja missão é de promover a vida sacerdotal e não de destruí-la. Meu período sabático teve lugar em uma comunidade religiosa dedicada à chamada “reforma da reforma”.

Embora a nossa Missa conventual e o Ofício Divino fossem “tradicionais”, todos os membros da comunidade, sem exceção, “devem” engajar-se de alguma forma na participação no Novus Ordo Missae. Só isso já trouxe para mim uma forte dor de coração e um problema de consciência, pois o meu tempo aqui, separado da realidade cotidiana do business as usual nas paroquiais, me fez relembrar o que é precisamente aquilo em que eu creio no que concerne a Santa Missa e a cura pastoral das almas; no que eu creio sobre o mistério da Igreja e as “Núpcias do Cordeiro”; e como estou sendo atraído por Nosso Senhor para representar sua Pessoa, como noivo, na relação íntima com a Igreja, minha Noiva, particularmente na celebração da Santa Missa. As “duas formas” são apresentadas [nesta comunidade] como realidades igualmente aceitáveis, quase como um Café Litúrgico no qual se pode escolher o que se quer. Essa posição é baseada em certos escritos do Cardeal Sarah, assim como no documento Con Grande Fiducia do Papa Bento XVI, a carta pastoral que acompanha Summorum Pontificum, a qual, embora eu tenha subscrito plenamente no passado (e ainda considero ter sido uma de suas mais belas e paternas mercês como Pastor Supremo da Igreja universal), hoje não posso mais considerar adequada à magnitude do problema.

De tudo isso decorre muita ambiguidade, resultante de visões litúrgicas divergentes. Meus irmãos e eu compartilhamos o desejo de uma vida litúrgica “bela”, mas, para mim, essa beleza não é uma questão meramente estética. É algo mais profundo, mais filosófico, até mesmo ontológico: têm a ver com o que há – o não há – nos ritos da Igreja. Meus irmãos de comunidade compartilham laços de boa vontade e agradeço a Deus por isso… mas sem um padrão objetivo ao qual estejamos sujeitos, como uma comunidade pode crescer de forma ordenada? Essa, Dr. Kwasniewski, é minha dor, não só pela minha comunidade, mas também pela nossa Igreja, bela e doente.

Estou às voltas com uma aguda “questão crítica” sobre se posso ou não, em boa consciência, continuar a celebrar o Novus Ordo Missae. Essa crise não é “nova”, nem chegou a esse ponto por acaso. Foi emergindo, devagar mas possantemente, cada vez que celebrava a Missa num rito vácuo, que eu sei que representa um afastamento significativo e até mesmo prejudicial da tradição orgânica da Igreja e, portanto, de sua integridade; assim como do zelo pastoral pelas almas imortais, das quais eu, como sacerdote, sou um guardião.

Em minha vida sacerdotal antiga, eu era “entusiasta” pela “Reforma da Reforma” e acreditava que era, para a Igreja, “o caminho a seguir”. Eu simplesmente não acredito mais nisso. Uma das coisas que contribuíram de modo significativo para minha mudança de opinião e de atitude foi o fato de tantas vezes ter ficado ainda mais frustrado por esforçar-me em “embelezar” a Nova Missa em vez de simplesmente celebrar a Missa Tradicional (!). É como se o Novus Ordo tivesse sido construído para a desconstrução e a autodestruição. Como diz Martin Mosebach no prefácio de seu livro Noble Beauty, Transcendent Holiness [Nobre beleza, santidade transcendente], “a Liturgia é a Igreja”. Isso vale para qualquer Missa que seja celebrada, pois “a Igreja” ritualmente incorporada nela é “feita presente” através do ars celebrandi do verdadeiro ritus et preces de que é tecido toda missa, de qualquer rito que seja. Eu me pergunto, e ainda mais agora, com grande dor de coração: Como posso continuar a contribuir com (e a perpetuar) aquilo que eu percebo como uma mentira – a mentira do equívoco, da artificialidade, do crime espiritual de incúria e de “desnutrição” dos fiéis – tendo plena consciência de que estou “desfigurando” a Igreja pela celebração de uma Missa “desfigurada”?

Eu tenho maturado e desenvolvido meu pensamento sobre este assunto por muito tempo, com estudo e experiência, e com o desgosto de ver por todas partes o abismo enorme e a lacuna sem fundo que se abriram e estão almas em perdição por causa do Novus Ordo (mesmo quando “celebrado reverentemente”) e de tudo o que vai junto. Esta última frase é fundamental para mim: “tudo o que vai junto”. Pois, embora o problema se concentre na Missa, não é “apenas” sobre a Missa. Trata-se da Igreja, minha Noiva, em sua integridade e coerência vital. Eu estou em uma “batalha pela minha alma”, o que é sinônimo da batalha pela própria alma da Igreja.

Será muito bem-vinda sua opinião e seu “senso” do que eu manifestei – até mesmo o seu “corretivo” de qualquer coisa que eu tenha dito e que possa estar fora de lugar ou ser exagerado, míope, “extremo” ou algo desse naipe.

Com profunda gratidão pelo sua atenção e prometendo minhas orações pelo Sr. e sua família,

Pe. N.

* * *

A seguir, a resposta:

Caro Padre N.

Obrigado por suas palavras de agradecimento e por confiar-me a história de suas provações. Agradeço todos os dias pelo que o Senhor está fazendo na Sua Igreja, pois Ele leva muitas almas a enxergar verdades difíceis, mas libertadoras. Ele está fazendo uso desta crise inegável pela qual estamos passando como um alarme colossal para abrir os olhos as pessoas para as causas mais profundas de nosso mal-estar.

Tudo o que o Sr. descreveu sobre o seu caminho do Novus Ordo para a liturgia romana tradicional reflete exatamente minhas próprias experiências, pensamentos e sentimentos. Como o Sr. talvez tenha lido em meu livros Resurgent in the Midst of Crisis [Ressurgente em meio a Crise ] e Noble Beauty, Transcendent Holiness, eu fui responsável por quase trinta anos de fornecer música para ambas as “formas” da liturgia romana, de dirigir coros e scholas nos dois ritos, pelo que fiquei intimamente familiarizado com os textos, rubricas, cerimônias e música de cada um deles. Ao mesmo, estudei a História da Liturgia e a Teologia da Liturgia. Lentamente, cresceu em mim a convicção de que a reforma litúrgica foi um desastre para a Igreja.

Eu passei por todas as fases habituais. A primeira foi a fase “ingênua”, ou seja, que o problema não foi a reforma em si, mas como ela foi implementada. A segunda fase foi a da “crítica esperançosa”, ou seja, que a reforma tem problemas, mas que eles podem ser mitigados por celebrações bem feitas e, eventualmente, reformados de cima. A terceira fase, a “realista”, é que a reforma é falha em seus princípios fundamentais; não pode ser resgatada, mas deve ser rejeitada em favor do rito romano clássico.

O Sr. conhece o assunto tão bem quanto eu, mas leva tempo para entender a magnitude do problema – tempo, muita leitura, muita experiência, muita oração e uma certa intuição, que dificilmente ouso chamar de mística, mas que, entretanto, parece ser dada de cima: uma convicção imediata e incontestável da retidão da tradição e do errôneo de sua substituição moderna. Como o Sr. diz, chega-se a um ponto em que não se pode não saber, e não sentir nas profundezas da alma e dos ossos que algo está seriamente errado no Novus Ordo, e seriamente correto no culto tradicional da Igreja Católica.

O Novus Ordo não veio à existência do modo como os seres vivos são concebidos, nascem, maduram e alcançam seu apogeu; apareceu como são construídas as máquinas na era da indústria e da tecnologia. Isso ajuda a explicar por que um rito pré-fabricado tem grande dificuldade em inspirar o misticismo e oferece pouca nutrição para a vida contemplativa. Apenas alimentos e bebidas naturais podem saciar nossa fome e sede, e podem desenvolver olhos, pele, carne e ossos saudáveis. O Senhor, em sua Providência divina, não deu à sua Igreja acesso à graça sacramental à margem dos sinais sacramentais; Ele não nos deu sinais separados dos ritos que os fixam; Ele não nos deu ritos dissociados de orações, lições, música e cerimônias. Tudo isso é necessário para uma dieta saudável, e não apenas “a forma e a matéria do sacramento”, como o reducionismo neoescolástico professaria. Pode-se também trocar uma refeição de vários pratos por proteína em pó e comprimidos vitamínicos…

Os leitores às vezes têm dificuldades com a tolerância com o Novus Ordo que se encontra, eu o admito, no par de livros acima mencionados. Mas essa tolerância benigna já é coisa do passado. É exatamente como o Sr. diz em relação a Con Grande Fiducia e o Summorum Pontificum: em vista do dogma extraoficial de nunca questionar o Concílio ou qualquer coisa feita em seu nome, estes documentos foram divisores de água para um lugar e tempo determinados, mas eles estão seriamente lesados pela alegação construtivista e patentemente falsa de que não há ruptura [entre os dois ritos], assim como pelo relativismo litúrgico de aceitar múltiplas formas de um único rito, o que espelha o relativismo doutrinal e moral característico de nossos tempos.

Mas agora estou pregando para convertidos, ou pelo menos para um deles. O que eu pretendia dizer é que alguns leitores acharam a minha atitude em relação ao Novus Ordo preocupante, porque eles, mais rápidos do que eu (como São João foi mais célere em chegar ao túmulo do que São Pedro), já tinham, possivelmente há muito tempo, chegado à conclusão de que os novos ritos não poderiam ser endossados ​​e deviam ser evitados. Um professor de filosofia da Europa me escreveu o seguinte:

“O Sr. expõe as falhas do Novus Ordo de uma maneira muito convincente. A coisa toda foi um desastre e priva muitas almas do bem que com certeza receberiam se fossem familiarizadas com a Missa tradicional. Mas eu estava pensando: como é que o Sr. ainda pode trabalhar (segundo escreve em Noble Beauty) para o Novus Ordo, dirigindo cantos e música, quando afirma repetidamente – e com razão – que toda a invenção de Bugnini deve desaparecer? Eu entendo a ideia da paz litúrgica e de dar às pessoas que assistem à Missa Nova  a possibilidade de ter um vislumbre da verdadeira música sacra e assim por diante. Mas o Sr. não acha que isso contribui para a sobrevivência do que seria melhor estar morto e enterrado de uma vez por todas?”

Eu lhe respondi:

“Eu me tenho digladiado com essa questão há décadas. Até recentemente, minhas responsabilidades incluíam dirigir música tanto no usus antiquior quanto no usus recentior, mas eu me pegava amando o primeiro mais e mais, e odiando o último; servindo a um, e desprezando o outro. Na verdade, tornou-se uma tortura psicológica o participar do Novus Ordo. Eu sabia que o deveria deixar para trás para sempre. Agora estou participando exclusivamente da missa antiga e estou “no céu” – pelo menos no espelho litúrgico do céu. Para mim, meu trabalho com o Novus Ordo sempre foi prático ou de natureza pragmática: era parte da minha profissão e eu queria fazer o melhor que pudesse (pelo meu próprio bem, não apenas pelo bem dos assistentes: o canto gregoriano tornava a Missa de Paulo VI suportável para minha psique e minha sensibilidade, ainda que não para meu intelecto). Mas eu concordo com o seu ponto central, que seria melhor deixar perecer este “produto banal feito na hora”, e colocar toda a energia da pessoa em adorar ao Senhor da maneira mais digna d’Ele e mais perfeita para nós. É o que estou fazendo hoje e meus futuros livros demonstrarão meu próprio itinerário sobre esse assunto”.

A única diferença substantiva entre o seu caminho, Pe. N, e o meu é que o Sr. passou a ver todas essas coisas através da graça da ordenação e da cadeia diária de deveres sacerdotais, enquanto eu os vi como músico, oblato [beneditino] e teólogo litúrgico que não podia evitar de perceber “uma coisa após a outra…”

Assim, eu não acho que o Sr. seja “louco”, “extremista”, “obcecado”, ou qualquer que seja o rótulo que seus inimigos (ou seus próprios medos) possam colocar no Sr. Em vez disso, o Sr. tem seguido seriamente o instinto da fé, o impulso de caridade, as obrigações de piedade, as exigências da virtude da religião – a necessidade de uma coerência total entre a lex orandi, a lex credendi e a lex vivendi. A exposição contínua dos fiéis à liturgia tradicional com tudo aquilo que a acompanha, como o Sr. acertadamente acrescenta, associada com a disposição de absorver e ponderar suas lições, necessariamente mostrará a falência do ersatz de liturgia fabricada por racionalistas adeptos do Sínodo de Pistoia, simpatizantes comunistas, e provavelmente ​​maçons, assim como de todo o projeto de “neo-catolicismo” (como alguns o chamam, enfaticamente, mas com acerto). É um despertar difícil, mas salutar. Alguns escritores tradicionalistas usam o cliché “pílula vermelha” para descrever esse processo das escamas caindo dos olhos.

(Apresso-me a acrescentar que alguns tradicionalistas não têm a suficiente educação filosófica e teológica que lhes permitiria fazer distinções e extrair apenas as conclusões que são exigidas pelas evidências. Por exemplo, vendo sérios defeitos na liturgia reformada, eles tiram falsas conclusões sobre sua validez; vendo o abuso repetido do ofício papal, eles tiram conclusões falsas sobre a vacância da Sé; à vista de elementos modernistas em João Paulo II, eles tiram a falsa conclusão de que a obra de toda a sua vida deve ser jogada fora. Poderíamos multiplicar tais exemplos indefinidamente.)

Sabemos que Deus pode tirar o bem do mal, e é por isso que Ele pode santificar as almas, e realmente as santifica, até com os instrumentos de uma reforma não santa, pois mesmo de pedras sem vida, Ele pode criar filhos de Abraão. No entanto, seu modus operandi habitual é criar os filhos pelos pais, não por pedras; e da mesma forma, Ele cria a Igreja a partir de sua tradição patrilinear, nas mãos de sacerdotes que são verdadeiramente pais no sulco dessa tradição, os quais transmitem o nome de família, o sangue e a herança.

Muitos sacerdotes, religiosos e leigos me escreveram ao longo dos anos, dizendo, em essência: “Esta nova empresa é oca e prejudicial, e eu não posso mais fingir que a apoio; Eu não quero fornecer-lhe a menor credibilidade, nem sequer embrenhar-me contra ela”. Eles se perguntam que diabos fazer: “Será que eu ainda posso ir à missa na minha paróquia?” “A qual congregação religiosa devo ingressar?” “Posso voltar a celebrar a Missa nova?”

O Senhor nos dá intuições e convicções tão poderosas a fim de nos levar a tomar medidas adequadas para a glorificação de Deus, para a nossa própria santificação e para a edificação de todo o Corpo de Cristo. Nesse sentido, “surfar a onda”, “ter jogo de cintura”, “resignar-se”, parecem ser opções autodestrutivas. A menos que alguém se sinta confortável correndo o risco de esquizofrenia espiritual, de estresse nervoso ou de violar a própria consciência afastando-se das inspirações de Deus, num dado momento uma decisão tem que ser tomada a favor ou contra o catolicismo tradicional.

Tais decisões estão cheias de perigos e de angústia. Um sacerdote escreveu-me dizendo que havia sido transferido várias vezes porque continuava se recusando a distribuir a Sagrada Comunhão na mão ou a usar ministros extraordinários da Eucaristia. Vários sacerdotes que conheço foram suspensos por pregar contra a homossexualidade (isso acontecerá mais e mais). Um sacerdote que redescobriu a Fé através do movimento carismático ingressou numa nova ordem religiosa e teve que abandoná-la quando aprendeu a celebrar a missa antiga e viu, como que pela primeira vez, a essência da Missa enquanto sacrifício propiciatório, como humilde homenagem, como ardente súplica à Santíssima Trindade, como a soberana oração tanto pública quanto pessoal. Um sacerdote diocesano me escreveu em agonia porque sua alma anseia por celebrar a missa tradicional, mas ele está celebrando uma missa no rito ordinário, versus populum e em língua vernácula, para um grupo de pessoas que não acredita em quase nada. Há até alguns bispos a respeito dos quais se poderiam dizer as mesmas coisas.

Você percebeu com precisão o âmago da crise eclesial, que é a crise da liturgia e, portanto, também do sacerdócio. Permaneceremos nessa crise enquanto a liturgia tradicional não for totalmente restaurada e enquanto a liturgia experimental moderna não seja repudiada.

Não se pode ser ao mesmo tempo tradicional e moderno na liturgia, pois os princípios são contraditórios. Não se pode acreditar que o Espírito Santo guiou a Igreja através dos séculos, e depois abraçar uma liturgia cuja premissa fundamental é que, há muitos anos, faltavam à liturgia muitas características que indispensáveis e que estava repleta de corrupções que deviam ter sido removidas. Não se pode louvar a espiritualidade dos grandes santos, a partir dos Padres do Deserto até os beneditinos, os místicos medievais, os carmelitas, os Doutores, etc. e ao mesmo tempo contradizê-los de fato nas práticas litúrgicas e devocionais.

O que deve ser feito? Parece-me que o único caminho a seguir é unir-se a uma comunidade religiosa ou sociedade de vida apostólica que seja assaz previdente e corajosa para celebrar unicamente a liturgia tradicional, seja no Rito Romano ou num uso específico de alguma ordem. Ao longo deste caminho encontra-se paz de consciência e conforto da alma, luz para a mente e calor para a vontade. Ao longo deste caminho está o mais exigente e recompensador exercício do dom do sacerdócio [a Santa Missa], juntamente com o fruto mais abundante para os católicos fiéis que procuram a Deus nos sublimes mistérios do seu amor.

O Sr. conhece o livro In Sinu Jesu: When Heart Speaks to Heart — The Journal of a Priest at Prayer [In Sinu Jesu: Quando o Coração Fala ao Coração – Diário de um Sacerdote em Oração]? Eis três passagens que eu gostaria de compartilhar com o Sr., nas quais Nosso Senhor fala:

“Eu não vou abandonar-te ou desamparar-te. Eu sou fiel. Eu te escolhi e tu és meu. Por que duvidas do meu amor por ti? Não te dei sinais do meu favor? Não te mostrei que Minha misericórdia preparou para ti um futuro cheio de esperança? Não te prometi anos de felicidade, de santidade e de paz? Minha benção está sobre ti e os desígnios do Meu Coração estão prestes a se desdobrar sobre ti. Tu só tens que confiar em mim. Acredita que te guardarei como a menina dos meus olhos. Tu estás seguro sob o manto da minha mãe. Eu te abraço perto do meu coração ferido. Confie que Eu cumprirei tudo o que te prometi”.

“Avança na simplicidade, livre do medo e confiando na Minha misericordiosa providência para preparar todas as coisas para um futuro cheio de esperança. Deixa a preparação do futuro inteiramente em minhas mãos. A tua parte é permanecer fiel à adoração que te pedi”.

“Oferece-me o presente e eu cuidarei de consertar teu passado e de preparar teu futuro”.

Elevarei orações pelo Sr. ao Pai das Luzes, pedindo a Ele, pela intercessão de Nossa Santíssima Senhora, de São José, de São João Vianney e de seu santo anjo da guarda, que lhe envie a luz de que o Sr. precisa para conhecer seus próximos passos e a força para perseverar apesar de todos os obstáculos. A Igreja está passando por uma crise que pode ser superada apenas pela fé heroica. Pessoas boas serão agredidas e chacoalhadas, mas com isso o joio será retirado e miolo do trigo preparado como sacrifício ao Senhor. Esta também será uma das obras de Nossa Senhora, através da qual Ela trará à luz um clero purificado e uma Igreja purificada.

Seu irmão em Cristo

Peter Kwasniewski

Tags:
7 abril, 2019

Foto da semana.

Fellay

“Eu vos darei pastores segundo o meu coração, os quais vos apascentarão com inteligência e sabedoria.” (Jeremias, 3, 15) 

Tags:
6 abril, 2019

Coluna do Padre Élcio – Distinção ardilosa: combater o comunismo, não, porém, os comunistas.

CARTA PASTORAL prevenindo os diocesanos contra os ardis da seita comunista. Escrita em 13 de maio de 1961 pelo então Bispo da Diocese de Campos, D. Antônio de Castro Mayer, de saudosa memória (continuação).

Por Padre Élcio Murucci – FratresInUnum.com, 6 de abril de 2019.

Passemos a considerar outros ardis que o inimigo semeia em nosso caminho.

Há uma distinção que não raro ilude a boa fé dos não comunistas. É a que se costuma fazer entre comunismo e comunistas. Todos os ódios se voltariam contra aquele, e para estes só haveria tolerância e compaixão. Distinção semelhante se faz com frequência entre o erro e os que erram, segundo a frase atribuída a Santo Agostinho: “Interficite errores, diligite errantes”. Sem nos determos no verdadeiro pensamento do Doutor da Graça  –  bastante inteligente para perceber que o erro não tem existência senão por alguém que o professa, e por isso mesmo só desaparece com a conversão ou com o desaparecimento desse alguém  –  sem nos determos, portanto, na consideração do verdadeiro sentido do axioma atribuído a Santo Agostinho, observamos que, aplicado ao comunismo, ele é sempre perigoso.

Pio XI

Com efeito, em outras heresias há a possibilidade de se encontrarem pessoas de boa fé, que, tendo se enganado na busca da verdade, aceitam todavia os primeiros princípios da razão, e cuja conversão, portanto, pode ser eficazmente auxiliada por uma elucidação ideológica. Não assim no comunismo. Este, negando o princípio da contradição, torna impossível uma discussão de ordem intelectual. Por isso mesmo, Pio XI, a “Divini Redemptoris”, praticamente não distingue entre o comunismo e os comunistas. Assim, menciona os princípios do comunismo como aparecem nas instituições e métodos dos bolchevistas (cf. A. A. S., vol. 29, p. 69); a doutrina dos comunistas (p. 75); os preceitos que
estes difundem (p. 69); os erros e meios violentos dos bolchevistas (p. 76); do mesmo modo, quando atribui aos comunistas o princípio da tirania da coletividade (p. 71); refere-se outrossim ao evangelho que os comunistas, bolchevistas e ateus anunciam (p. 72); ao poder político como meio de que os comunistas se apoderam para conseguir seu fim (p. 72); e em geral, onde normalmente se falaria de comunismo (como aliás se vê em várias traduções da “Divini Redemptoris”), o Papa não usa o termo abstrato para indicar a doutrina, mas o concreto que aponta as pessoas dos comunistas, aos quais ele diretamente acusa (p. 77).

De onde é lícito deduzir um especial cuidado do Santo Padre em prevenir os fiéis contra a pessoa dos sequazes de Marx, apontando-lhes o engodo que representa essa distinção entre comunismo e comunistas. Podemos, pois, concluir, e na conclusão fazer uma paterna advertência aos Nossos amados filhos em Jesus Cristo. Os verdadeiros comunistas rejeitam os primeiros princípios da lógica e os próprios fundamentos da ordem moral; são pessoas por cuja conversão se deve rezar, sem dúvida, e muito, mas em quem não se pode, de maneira nenhuma, confiar, e cuja ação se deve temer e combater.

Há comunistas e comunistas

Uma distinção melhor caberia entre comunistas e comunistas. Pois, de fato, nem todos os que se encontram sob o jugo soviético na Rússia e satélites podem ser considerados comunistas. Há, nessas infelizes nações, um número enorme de indivíduos, a maioria, que gemem debaixo do domínio cruel a que os comunistas os submeteram pela força. Esses tais só com uma grave injustiça se poderiam chamar de comunistas. Eles detestam o regime que sofrem em silêncio porque não lhes é facultado externar seu pensamento. Além desses, quer nos países de atrás da cortina de ferro, quer nos do chamado mundo livre, não são poucos os que aderiram ao partido comunista sem lhe conhecer toda a perversa doutrina e iludidos por enganosas esperanças. Deles, muitos o abandonaram já (na França, de um milhão de aderentes que contava o comunismo em 1945-1946, não restam hoje mais do que duzentos mil), outros ainda não se animaram a esse passo decisivo. De verdadeiros comunistas sobra uma pequena minoria (4 % da população na Rússia, porém ativa a audaz, que poderosamente coadjuvada pela boa fé de muitos não comunistas, e intencionalmente por não poucos dos chamados cristãos progressistas, cuja mentalidade só na aparência difere da  marxista, constitui o maior perigo atual para a civilização cristã (cf. Enc. “Divini Redemptoris”, ibid., pp. 66 e 76).

Tenhamos, pois, compaixão dos que sofrem sob o despotismo vermelho, bem como daqueles que a seita iludiu. Ao mesmo tempo, estejamos sempre em guarda contra os manejos e ardis dos comunistas. À vigilância juntemos a oração para que Deus nos proteja e os converta. Todos sejam abraçados pela caridade de nossa alma, traduzida em preces, sacrifícios e boas obras.

Dupla vantagem em expor a tática comunista

Quisemos, com a exposição da tática e dos ardis dos marxistas, proporcionar-vos, amados filhos, duas vantagens: de um lado, esclarecer-vos sobre o modo de combater o terrível inimigo; de outro, prevenir-vos a respeito do triste papel desempenhado a favor dele por aqueles que se dizem, muitas vezes, seus adversários. Cumpre ainda pôr em relevo a malícia do comunismo, considerado em si mesmo, e não mais em seus ardis e suas táticas.

Tags:
4 abril, 2019

A escandalosa entrevista de Francisco (mais uma) à TV Espanhola.

Por FratresInUnum.com, 4 de abril de 2019, com informações de InfoVaticana.com – Talvez tenha passado desapercebido para o público brasileiro um dos últimos grandes escândalos de Papa Francisco: sua entrevista à ultra-comunista TV espanhola La Sexta, ao jornalista catalão ultra-esquerdista Jordi Érvole. A entrevista, em si, por ser dada a um veículo ideologicamente socialista, é já um escândalo, mas as declarações do papa argentino conseguem ainda piorar a situação.

entrevista francisco espanha

É deprimente ouvir um papa que não fala como pontífice da Igreja Católica e nem mesmo como um sacerdote ou um cristão, mas sim como um mero comentarista ordinário, fazendo elucubrações nas quais reverbera os cacoetes mentais da esquerda, aqueles mesmos jargões que aparecem na boca de atrizes da Globo ou de militantes do MST.

Critica Trump, alivia retoricamente para a prostituição e o homossexualismo, defende apaixonadamente a política multiculturalista da imigração… Quando perguntando porque avança tão lentamente na agenda de “transformação” da Igreja, ele simplesmente diz que faz tudo com calma, que dorme bem e que age movido pela “oração”, ou seja, não nega que seu objeto seja exatamente o de destruir o catolicismo tal como o conhecemos.

Em suma, através de sua entrevista, Francisco tenta influenciar a política espanhola e deter o avanço da direita emergente naquele país. Dias depois, na entrevista aérea para Marrocos, ele disse que “gostaria de ir à Espanha, mas quando houver paz”, entenda-se: quando o partido VOX, que aglutina os clamores populares e direitistas, perder as eleições. Com ironia, um analista espanhol rebateu afirmando que se os comunistas tivessem vencido a Guerra Civil Espanhola, Francisco já teria visitado o país.

A entrevista de Francisco a Jordi Évoli não passa senão de uma conversa interna do movimento socialista, uma conversa entre o seu autoproclamado líder internacional, Bergoglio, e um dos principais jornalistas esquerdistas da Espanha.

Ademais, a entrevista revela a frieza com a qual o pontífice usa a Igreja para favorecer o avanço da esquerda e para conter não o partido contrário, mas a reação espontânea do povo. Esta instrumentalização da estrutura eclesiástica é ainda mais grave porque Francisco se serve dela para neutralizar toda a ala conservadora da hierarquia e o povo fiel, que fica, assim, sem meios de ação e é obrigado a assistir, passivamente, o desmonte de sua religião e a sujeição dela ao seu mais visceral inimigo: a esquerda internacional.

Emudecendo toda resistência e a amordaçando institucionalmente, Bergoglio monopoliza o microfone eclesial, alistando-se devotamente nas fileiras da revolução cultural gramsciana e adotando o mesmo discurso socialista que relativiza toda a moral cristã e todo o patrimônio da civilização ocidental, servindo-se da própria Igreja como canal privilegiado para a sua autodestruição e anestesiamento cultural. Deixa, assim, o caminho aberto para o islã, para os secularistas e para todos aqueles que sempre sonharam com a derrocada do catolicismo.

Não estranha que, neste contexto, o Papa Francisco tenha afirmado em Marrocos que a missão da Igreja não é converter ninguém, não é fazer proselitismo, que ser cristão não é aderir a uma doutrina, mas é apenas um encontro… Em resumo, a Igreja está sendo impelida a abandonar a evangelização, a esvaziar o cristianismo da fé e a dissolvê-lo numa ética concebida apenas em termos socialistas, privada totalmente de princípios morais e infeccionada de todos esses “valores” que impulsionam as bandeiras da esquerda (ecologia, feminismo, multiculturalismo migratório, movimento trabalhista, reforma agrária etc).

Francisco é o papa que veio para neutralizar o catolicismo e imobilizá-lo completamente, na tentativa desesperada de reorganizar a esquerda no mundo. E ele está apressado para conseguir alcançar os seus objetivos. O Sínodo da Amazônia está chegando!

Acontece, porém, que ele não está obtendo o sucesso que esperava, mesmo com o favor de toda a mídia internacional e de toda a elite econômica que o ovaciona. O povo está caminhando na direção oposta, elegendo e apoiando seus adversários (Trump nos EUA, Bolsonaro no Brasil, Salvini na Itália, Orban na Hungria), com a esquerda se desmantelando na América Latina inteira e, na Espanha, VOX ganha cada vez mais o apoio popular…

Enquanto todo mundo já percebeu o ridículo da trapaça esquerdista, a liderança da Igreja é a única que ainda o leva à sério. No fim das contas, Francisco se consagrará nas páginas da história como o mais estrondoso e irrefutável vexame do qual a Igreja se envergonhará até os seus últimos dias de sua existência.

Tags:
2 abril, 2019

A Igreja está “cega pelo mistério da iniquidade”, afirma Cardeal Sarah em novo livro.

Por LifeSiteNews, 19 de março de 2019 | Tradução: FratresInUnum.comEm seu último livro,  Le soir approche et déjà le soir baisse (“Já é tarde e a noite vem chegando”, citação do episódio dos peregrinos de Emaus, no Evangelho de São Lucas), o Cardeal Robert Sarah decidiu “se manifestar” para os “católicos desorientados” atingidos pela profunda crise pela qual passa a Igreja.

Sarah

“Não consigo mais ficar em silêncio. Eu não posso mais ficar em silêncio”, escreveu o Cardeal Sarah em seu parágrafo inicial. Ele fez uma análise ampla da “noite escura” da Igreja e de que ela “está envolvida e cega pelo mistério da iniquidade”.

Diante antes da publicação do livro na França, em 20 de março, uma introdução foi publicada online, dando o aperitivo de um texto verdadeiramente arrebatador que aborda os problemas atuais de frente: abusos sexuais, mas também relativismo doutrinal, ativismo social e falta de oração, falsas acusações de homossexualidade e hipocrisia generalizadas, e as dúvidas dos fiéis que vêem os inimigos da Igreja em seu próprio meio.

O Cardeal Sarah, Prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, não oferece estratégias, diz ele. Pelo contrário, ele anuncia as respostas atemporais sem as quais todos os esforços são inúteis — uma vida profundamente arraigada de oração, fidelidade ao ensinamento transmitido pela Igreja, ao invés de subestimar a doutrina católica como “muitos pastores” estão fazendo, caridade fraterna e amor a Pedro.

Mas as suas palavras não são, de forma alguma, do suplício pelo qual a Igreja está passando.

O Cardeal Sarah não hesita em falar — nas palavras de Paulo VI — da “fumaça de Satanás” que invadiu a Igreja, apontando abertamente os “traidores” que, como Judas Iscariotes, tornaram-se “agentes do Mal”. “Eles buscaram profanar as puras almas dos pequeninos. Humilharam a imagem de Cristo presente em cada criança”, ao mesmo tempo em que humilharam e traíram a tantos padres fiéis, escreveu.

“A Igreja está passando pelo mistério da flagelação” pelas mãos daqueles que “deveriam amá-la e protege-lá”, advertiu o Cardeal.

Mas a causa do escândalo dos abusos sexuais, ele acrescentou, só pode ser encontrada em traições anteriores: “A crise pela qual o clero, a Igreja e o mundo estão passando é radicalmente uma crise espiritual, uma crise de fé”.

O cardeal africano recorda que o “mistério de Judas” — palavras tomadas do Papa Francisco — reside em se distanciar do ensinamento de Jesus, e pode, portanto, ser comparado ao mistério do mal em nosso tempo.

“Jesus o chamou tal como os outros apóstolos. Jesus o amava! Ele o enviou para anunciar a Boa Nova. Mas, pouco a pouco, o coração de Judas foi sendo tomado pelas dúvidas. Sem perceber, ele começou a julgar o ensinamento de Jesus. Ele disse a si mesmo: esse Jesus é muito exigente, e não eficiente o bastante. Judas queria fazer o reino de Deus vir à terra imediatamente, por meios humanos e de acordo com seus planos pessoais”. Ele deixou de rezar com Jesus e “buscou refúgio nas coisas do mundo, provavelmente murmurando em seu coração ‘não servirei’ quando Jesus lavou seus pés na última ceia”, escreveu o Cardeal Sarah.

“Ele recebeu a comunhão quando seus planos já estavam completos. Foi a primeira comunhão sacrílega da história. E ele traiu”.

Segundo o Cardeal Sarah, as mesmas faltas, as mesmas traições, são cometidas hoje: “Nós abandonamos a oração. O mal do ativismo eficiente se infiltrou em todo lugar. Nós buscamos imitar a organização das grandes empresas. Esquecemo-nos que só a oração é o sangue que irriga o coração da Igreja… Aquele que não reza já traiu. Já está preparado para toda concessão ao mundo. Ele segue os passos de Judas”.

O cardeal tem palavras duras quanto ao abandono da doutrina católica. Eis onde ele vê a causa dos atuais escândalos de abusos sexuais:

“Nós toleramos qualquer questionamento. A doutrina católica é desafiada e, em nome de posturas pretensamente intelectuais, teólogos sentem prazer em desconstruir o dogma e em esvaziar a moral de seu conteúdo profundo. O relativismo é a máscara de Judas disfarçada de intelectual. Como podemos nos surpreender de que tantos padres rompem os seus compromissos? Nós depreciamos o significado do celibato, nós exigimos o direito a uma vida privada, o que é oposto à missão sacerdotal. Alguns vão tão longe, a ponto de reivindicar o direito ao ato homossexual. Um escândalo segue o outro, envolvendo padres e bispos”.

O Cardeal Sarah prossegue, advertindo seus irmãos padres de que todos serão prejudicados por acusações que são verdadeiras apenas para uma minoria. Mas “não se inquiete os seus corações”, acrescentou, recordando que o próprio Cristo foi atingido pelas palavras “Crucifica-O!” e pede-lhes que não se inquietem por “investigações tendenciosas” que apresenta os pastores no topo da Igreja como “clérigos irresponsáveis com uma vida interior anêmica”.

“Padres, bispos e cardeais sem moral não vão, de maneira alguma, manchar o testemunho luminoso de mais de 400 mil padres no mundo que, todos os dias, leal, alegre e santamente servem ao Senhor. Apesar da violência dos ataques que ela suporta, a Igreja não morrerá. Esta é a promessa do Senhor, e Sua palavra é infalível”.

Dirigindo-se especificamente aos católicos que são levados à duvidas, ele falou do “sutil veneno de Judas” da traição. O demônio “quer nos ver (a Igreja) como uma organização humana em crise” quando ela é “Cristo perpetuando-Se”. Satanás leva os fiéis à divisão e ao cisma “ao nos fazer crer que a Igreja traiu”. “Mas a Igreja não trai. A Igreja, cheia de pecadores, é, ela mesma, sem pecado. Sempre haverá luz suficiente nela para aqueles que buscam a Deus”.

O Cardeal Sarah advertiu os fiéis católicos contra a tentação de “resolver as coisas com nossas próprias mãos” — uma tentação que levaria à divisão através da crítica e divisão. “Não hesitemos (…) em denunciar o pecado, a começar pelos nossos próprios”.

“Eu tremo com a ideia de que a túnica inconsútil de Cristo possa uma vez mais ser despedaçada. Jesus sofreu a agonia ao ver antecipadamente as divisões dos cristãos. Não O crucifiquemos novamente”, implorou o cardeal.

Sarah não está procurando popularidade ou sucesso, ele insistiu. “Este livro é um pranto de minha alma! Um pranto de amor a Deus e a meus irmãos. Eu devo a vós, cristãos, a única verdade que salva. A Igreja está morrendo porque os pastores têm medo de falar com toda a verdade e clareza. Estamos com medo da mídia, da opinião pública, de nossos próprios irmãos. O bom pastor dá a vida por suas ovelhas”.

Aos católicos confusos a quem se dirige, o Cardeal Sarah exorta, especialmente aos padres, à oração: “Quem não reza se condena”, escreveu, citando Santo Afonso. “Não é uma questão de acumular devoções. É uma questão de guardar silêncio e adorar, de estar de joelhos, de entrar com temor e respeito na liturgia. É a obra de Deus, não um teatro”.

E ele prossegue sua meditação: “Caros amigos, querem colocar a Igreja em seu devido lugar? Caiam de joelhos! É o único caminho! Se fizer diferente, o que fizer não será de Deus (…) Se não encostarmos nossas cabeças, como São João, no Coração de Cristo, não teremos forças para segui-lO até a Cruz. Se não tivermos tempo de ouvir as batidas do Coração de nosso Deus, nós O abandonaremos, nós O trairemos como os apóstolos fizeram”.

Junto com as orações, na atual crise, é necessária a fidelidade à doutrina. O Cardeal Sarah está claramente consciente das razões da confusão dos dias de hoje. “Como podemos aceitar que conferências episcopais contradigam uma a outra? Onde reina a confusão, Deus não está!, escreveu.

“A unidade de fé supõe a unidade do magistério no espaço e no tempo. Quando um novo ensinamento nos é dado, deve ser sempre interpretado em coerência com o ensinamento que o precedeu. Se nós introduzimos rupturas e revoluções, rompemos a unidade que governa a Santa Igreja pelos séculos”, insistiu. “Aqueles que bradam em voz alta a mudança e ruptura são falsos profetas. Eles não procuram o bem do rebanho”.

Fidelidade à verdade significa aceitar a Cruz, escreveu o Cardeal Sarah, acrescentando que Cristo exige aquela fidelidade mais uma vez.

“Ele nos olha diretamente nos olhos e pergunta a cada um de nós: você me abandonará? Você renunciará o ensinamento da fé em toda sua plenitude? Terá coragem de pregar minha presença real na Eucaristia? Terá coragem de convidar os jovens à vida consagrada? Quando você terá força para dizer que sem a confissão frequente, a comunhão sacramental corre o risco de perder seu sentido? Você terá a audácia de recordar a verdade sobre a indissolubilidade do matrimônio? Terá a caridade de fazer o mesmo àqueles que ameaçam culpá-lo por isso? Você prefere o sucesso ou me seguirá? Queira Deus que respondamos com São Pedro, cheios de amor a humildade, ‘Senhor, a quem iremos? Só vós tendes palavras de vida eterna’. (João 6:68).”

Tudo isso exige “amor a Pedro”, escreveu o Cardeal Sarah. “O mistério de Pedro é um mistério de fé. Jesus escolheu confiar sua Igreja a um homem. Não nos esqueçamos, Ele permitiu a este homem trair três vezes à frente de todos, antes de lhe entregar as chaves de Sua Igreja. Nós sabemos que a barca da Igreja não foi confiada a um homem por causa de suas habilidades extraordinárias. Mas sabemos que este homem seria sempre assistido pelo Divino Pastor, a fim de guardar a regra da fé”.

Essa é a razão pela qual não devemos ter medo, acrescentou, falando do “fio de ouro das definições infalíveis dos pontífices, sucessores de Pedro” em oposição ao “fio negro dos atos humanos e imperfeitos dos Papas, sucessores de Simão”, nos quais ainda “sentimos a pequena agulha guiada pela mão invisível de Deus”.

Na mesma direção de sua introdução, Sarah deixou claro que não se espera que os católicos sejam cegos:

“Queridos amigos, os seus pastores estão cobertos de faltas e imperfeições. Mas não é desprezando esse fato que se construirá a unidade da Igreja. Não tenham medo de pedir a eles a fé católica, os sacramentos da vida divina. Lembrem-se das palavras de Santo Agostinho: ‘Quando Pedro batiza, é Jesus que batiza. Quando Judas batiza, ainda é Jesus que batiza!”.

E prosseguiu: “Se você pensa que seus padres e bispos não são santos, seja santo por eles. Faça penitência, jejum para reparar as faltas e covardia. É a única maneira de carregar o fardo do outro”.

A quarta exortação do cardeal é sobre a “caridade fraterna”, refletindo sobre a Igreja como mãe que abre seus braços a nós: “Em seu seio, nada pode nos ameaçar. Cristo abriu Seus braços de uma vez por todas na Cruz para que a Igreja pudesse abrir os seus a fim de nos reconciliar com ela, com Deus e conosco mesmo”, um chamado contra a divisão que “persegue a Jesus”.

Em resumo, o Cardeal Sarah está chamando os fiéis a reconhecer “a grandeza e a transcendência de Deus”, a quem devemos amar até a morte — a única condição que pode nos permitir ouvir as palavras ditas por São Francisco de Assis: “Vai e reconstrói a minha Igreja”. Ainda afirmou o Cardeal: “Vai, reconstrói pela sua fé, esperança e caridade. Vai e reconstrói pela sua o oração e fidelidade. Graças a você, minha Igreja novamente se tornará minha casa”.

Essas palavras foram assinadas em 22 de fevereiro, durante o encontro sobre abusos sexuais no Vaticano, no momento em que acusações horríveis começaram a se acumular contra a Igreja, especialmente contra aqueles membros mais fiéis a seu ensinamento perene.

31 março, 2019

Foto da semana.

destaque-585247-papa-francisco

Loreto, 25 de março de 2019: O Papa Francisco retira, repetidamente, as mãos dos fieis que tentavam oscular o anel do Sucessor de Pedro.

“O papa me disse que a razão pela qual ele não permitiu que beijassem o anel em Loreto era a higiene, para evitar a disseminação de germes entre as pessoas que faziam fila”, afirmou Alessandro Gisotti, diretor do gabinete de imprensa do Vaticano, nesta quinta-feira (28).

Nossas sugestões para complementar a iniciativa pontifícia: abolir a Comunhão na Mão, especialmente após os fiéis todos tocarem em dinheiro, completamente cheio de germes, ao darem suas ofertas; eliminar o abraço da paz; eliminar as mãos dadas no Pai Nosso; eliminar o hábito de “Ministros” passarem o Cálice uns aos outros; eliminar as grandes aglomerações de pessoas, por exemplo, nas audiências pontifícias na Sala Paulo VI, etc.

 

Tags:
30 março, 2019

Coluna do Padre Élcio: O desvirtuamento dos documentos pontifícios aproveita aos comunistas.

CARTA PASTORAL prevenindo os diocesanos contra os ardis da seita comunista. Escrita em 13 de maio de 1961 pelo então Bispo da Diocese de Campos, D. Antônio de Castro Mayer, de saudosa memória (continuação).

Por Padre Élcio Murucci – FratresInUnum.com, 30 de março de 2019.

Leão XIII

Leão XIII, o Papa da Rerum Novarum.

Ainda neste assunto, queremos fazer uma última advertência aos Nossos amados filhos, pondo-os de sobreaviso com relação à maneira como, por vezes, se interpretam os ensinamentos pontifícios que tratam das questões sociais.

Como é sabido, os Papas, especialmente Leão XIII e Pio XI, se ocuparam dessas questões, em documentos solenes, entre os quais as famosas Encíclicas “Rerum Novarum” e “Quadragesimo Anno”. Neles, a par das obrigações registram-se e defendem-se também os direitos dos operários. Por este lado, podem os comunistas e comunizantes abusar dos próprios documentos eclesiásticos. É preciso, pois, ao fazer deles uso, cuidar que nossa atitude não venha a favorecer a consecução de objetivos socialistas e comunistas. Cautela tanto mais oportuna, quanto é requente em certos movimentos sociais salientar-se apenas a parte econômica desses ensinamentos pontifícios, deixando-se em segundo plano, ou inteiramente no esquecimento, a insistência dos Papas sobre o indispensável revigoramento da Fé, a imprescindível reforma dos costumes, e outros meios de ordem espiritual necessários para que se elimine a inquietação provocada pela economia laica moderna. Além disso, mesmo na parte econômica, é comum apegarem-se muitos ao que é acidental e até marginal nas Encíclicas, como se fora o núcleo central, o objetivo primeiro delas.

Exemplo: o alarido em torno da co-gestão e da participação nos lucros. É o que se dá, por exemplo, com a participação dos operários nos lucros das empresas, preconizada na “Quadragesimo Anno” (cf. A. A. S., vol. 23, p. 199). Fala o Papa de modo opinativo  –  “Julgamos que dentro do possível”  –  e incidentemente, pois que se pode tirar todo o trecho, sem que se mude em nada o sentido da Encíclica. E, não obstante, faz-se tanto alarido em torno desse ponto  –  erigido até em programa de partidos políticos que pretendem ser cristãos  –  como se constituísse a grande lição da “Quadragesimo Anno”. Não forçamos a expressão. Mais ou menos por toda parte, como que sob uma palavra de ordem, difundiu-se essa opinião. Tanto assim que Pio XII se sentiu na obrigação de dar ao trecho em questão o seu justo valor dentro da Encíclica e da doutrina de seu Predecessor. Fê-lo em várias oportunidades. Citemos uma: a alocução que dirigiu em 3 de janeiro de 192 ao Conselho Nacional da União Cristã dos Diretores de Empresa. Advertiu então o Pontífice: “Fala–se hoje muito de uma reforma de estrutura da empresa, e os que a promovem pensam em primeiro lugar em modificações jurídicas entre os que dela são membros, sejam os empresários, ou os dependentes incorporados na empresa em virtude do contrato de trabalho.

À Nossa consideração não podiam escapar as tendências que se infiltram em tais movimentos, as quais não aplicam  –  como se aduz  –  as incontestáveis normas do direito natural às condições mudadas do tempo, mas simplesmente as excluem. Por isso, em Nosso discurso de 7 de maio de 1949 à União Internacional das Associações Patronais Católicas, e no de 3 de junho de 1950 ao Congresso Internacional de Estudos Sociais, Nos opusemos a tais tendências, não tanto, na verdade, para favorecer os interesses materiais de um grupo antes que os de um outro, mas para assegurar a sinceridade e a tranquilidade de consciência de todos aqueles a quem se referem estes problemas. Nem Podíamos ignorar as alterações com as quais se deturpavam as palavras de alta sabedoria de Nosso glorioso Predecessor Pio XI, atribuindo o peso e a importância de um programa social da Igreja, em nosso tempo, a uma observação totalmente acessória sobre as eventuais modificações jurídicas nas relações entre os trabalhadores sujeitos ao
contrato de trabalho e a outra parte contratante” (“Discorsi e Radiomessaggi”, vol. 13, p. 465).

Mais tarde, em 14 de setembro do mesmo ano de 1952, na já citada radiomensagem aos católicos austríacos, torna o Papa a dizer que a Igreja se recusa terminantemente a deduzir do contrato de trabalho qualquer direito do empregado à co-direção ou à co-propriedade  da empresa (cf. “Discorsi e Radiomessaggi”, vol. 14,. p. 313). Pretender, pois, impor tais participações, como se constituíssem exigência da doutrina da Igreja, é um erro que favorece o ambiente de agitação e antagonismo de classes propício à consecução dos objetivos comunistas. É, ainda que inconscientemente, colaborar com o maior inimigo da civilização cristã.

Ao estudo e à difusão das Encíclicas aplica-se o axioma dos escolásticos: “Bonum ex integra causa, malum ex quocumque defectu”. Assim, a doutrina delas é doutrina de salvação quando tomada na sua integridade harmoniosa, e pode produzir péssimos frutos quando mutilada pela consideração de uma só parte isolada do todo. Nas relações com patrões e operários, não nos esqueçamos do exemplo do Filho de Deus. Jesus amou os pobres, deles Se compadeceu, aliviou-lhes as misérias. Nem por isso desprezou os ricos, que ele também veio salvar. Assim, dedicou profunda amizade à família rica e principesca de Lázaro, Marta e Maria, em cuja casa gostava de repousar das labutas do apostolado.

Tags:
28 março, 2019

Sobre a questão de um papa herege.

Por Dom Athanasius Schneider | Tradução: José Antonio Ureta

Em toda a tradição católica, a questão de como se comportar com um papa herético ainda não foi tratada, em termos concretos, de modo a obter algo que se assemelhe a um verdadeiro consenso geral. Até agora, nem um papa nem um concílio ecumênico formularam declarações doutrinárias relevantes ou emitiram normas canônicas vinculantes sobre como lidar com um papa herético durante o período de seu mandato.

Pope_Francis_meets_Bishop_Athanasius_Schneider_810_500_75_s_c1

Dom Anthanasius Scheider e Papa Francisco.

Não há nenhum caso histórico de perda de um pontificado por um papa durante seu mandato devido à heresia ou suposta heresia. O Papa Honório I (625-638) foi excomungado postumamente por três concílios ecumênicos (o Terceiro Concílio de Constantinopla de 681, o Segundo Concílio de Nicéia de 787 e o Quarto Concílio de Constantinopla de 870) porque apoiou a doutrina herética daqueles que promoveram o Monotelismo, contribuindo assim para espalhar esta heresia. Na carta com a qual ele confirmou os decretos do Terceiro Concílio de Constantinopla, o Papa São Leão II (682-683) lançou o anátema sobre o Papa Honório (” anathematizamus Honorium”), afirmando que seu predecessor “não esclareceu esta Igreja apostólica com a doutrina da tradição apostólica, mas procurou subverter a fé imaculada com uma traição ímpia” (Denzinger-Schönmetzer, 563).

O Liber Diurnus Romanorum Pontificum, uma coleção heterogênea de formas usadas na chancelaria papal até o século 11, contém o texto do juramento papal, segundo o qual todo novo papa, ao tomar posse, tinha que jurar que “reconhece o Sexto Concílio Ecumênico que golpeou com eterno anátema os criadores da heresia (monotelita), Sérgio, Pirro etc., juntamente com Honório” (PL 105, 40-44).

Em alguns Breviários até o século XVI e XVIII, o Papa Honório foi mencionado como  herege nas lições das Matinas do 28 de junho, festa de São Leão II: “In synodo Constantinopolitano condemnati sunt Sergius, Ciro, Honório, Pirro, Paulus e Petrus nec non et Macarius, cum discipulo seu Stephano, sed et Polychronius et Simon, qui unam voluntatem et operationem in Domino Jesu Christo dixerunt vel praedicaverunt”. A presença desta leitura em alguns Breviários ao longo de muitos séculos mostra que muitas gerações de católicos não consideraram escandaloso que um papa em particular, e em um caso muito raro, tenha sido considerado culpado de heresia ou de favorecer a heresia. Naqueles tempos, os fiéis e a hierarquia da Igreja distinguiam claramente entre a indestrutibilidade da fé católica divinamente garantida pelo Magistério da Sé de Pedro e a infidelidade e traição de um único papa no exercício concreto de seu ofício magistral.

Dom John Chapman, em seu livro “A Condenação do Papa Honório” (Londres, 1907), explica que o Terceiro Concílio Ecumênico de Constantinopla, que lançou o anátema sobre o Papa Honório, determinou uma clara distinção entre o erro de um único papa e a inerrância na fé da Sé Apostólica como tal. Na carta ao papa Agatão (678-681) pedindo-lhe para aprovar as decisões conciliares, os Padres do Terceiro Concílio Ecumênico de Constantinopla afirmam que Roma tem uma fé infalível, promulgada com autoridade para toda a Igreja pelos bispos da Sé Apostólica, os sucessores de Pedro. Pode-se perguntar: como foi possível o Terceiro Concílio Ecumênico de Constantinopla afirmar isso e, ao mesmo tempo, condenar um papa como herege? A resposta é bem clara. Papa Honório era falível, ele estava errado, ele era um herege, precisamente porque não reafirmou com autoridade, como devia, a tradição petrina da Igreja Romana. Ele não apelou para essa tradição, mas simplesmente aprovou e espalhou uma doutrina incorreta. Mas, uma vez desaprovadas por seus sucessores, as palavras do Papa Honório I tornaram-se inofensivas para a inerrância na fé da Sé Apostólica. Elas foram reduzidas ao seu verdadeiro valor, ou melhor, à mera expressão de sua opinião pessoal.

O papa Santo Agatão não se deixou confundir e nem abalar pelo comportamento deplorável de seu predecessor Honório I, que contribuiu para espalhar a heresia, mas manteve sua visão sobrenatural na inerrância da Sé de Pedro ao ensinar a fé, como escreveu aos imperadores em Constantinopla: “Esta é a regra da verdadeira fé, que esta mãe espiritual do seu pacífico império, a Igreja Apostólica de Cristo (a Sé de Roma) sempre manteve e defendeu com energia tanto na prosperidade como na adversidade; que, pela graça do Deus Todo-Poderoso, como será demonstrado, ela nunca se desviou do caminho da tradição apostólica, nem foi ela adulterada cedendo a inovações heréticas, mas desde o princípio recebeu a fé cristã de seus fundadores, os príncipes dos Apóstolos de Cristo, e permanecerá inalterada até o final, de acordo com a promessa divina do mesmo Senhor Salvador, que anunciou nos Santos Evangelhos ao príncipe dos seus discípulos, dizendo: “Simão, Simão, eis que Satanás vos reclamou para vos peneirar como o trigo; mas eu roguei por ti, para que a tua confiança não desfaleça; e tu, por tua vez, confirma os teus irmãos.” (Ep. “Considerando mihi” ad Imperatores ).

Dom Prosper Guéranger deu uma breve e lúcida explicação teológica e espiritual deste caso concreto de um papa herege, dizendo: “Que aplausos nos abismos quando, um dia, o representante d’Aquele que é a luz apareceu como cúmplice do poder das trevas para trazer a noite! Uma nuvem pareceu interpor-se entre o céu e os montes onde reside Deus no seu vigário; sem dúvida, o aporte social da intercessão não tinha sido como que devia” (L’Année liturgique, Paris 1911, vol. 3, p. 403)..

Há também o fato de que por dois mil anos nunca houve um caso em que um papa foi declarado deposto por causa do crime de heresia durante seu pontificado. O papa Honório I foi anatematizado somente após sua morte. O último caso de um papa herege ou quase herético foi o do Papa João XXII (1316-1334), quando ensinou a teoria segundo a qual os santos desfrutariam da visão beatífica somente após o Julgamento Universal, na segunda vinda de Cristo. O caso foi abordado da seguinte maneira: houve admoestações públicas (da Universidade de Paris e do rei Filipe VI da França), uma refutação das teorias papais por meio de várias publicações teológicas e uma correção fraterna do cardeal Jacques Fournier, que mais tarde sucedeu João XXII com o nome de Bento XII (1334-1342).

A Igreja, nos raros casos concretos de um pontífice que incorre em sérios erros teológicos ou heresias, certamente pode continuar a viver. A prática da Igreja até agora tem sido deixar o julgamento final sobre um papa herético reinante para seus sucessores ou para um futuro concílio ecumênico, como no caso do papa Honório I. O mesmo provavelmente teria acontecido com o papa João XXII, se ele não tivesse se retratado de seu erro.

Os pontífices foram depostos várias vezes por poderes seculares ou por grupos criminosos. Isso aconteceu especialmente durante o “saeculum obscurum”, o chamado século escuro (século X e XI), quando os imperadores alemães depuseram vários papas indignos, não por causa de heresia, mas por causa de sua escandalosa vida imoral e seus abusos de poder. No entanto, eles nunca foram depostos por meio de um procedimento canônico, sendo isso impossível por causa da estrutura divina da Igreja. O papa recebe sua autoridade diretamente de Deus e não da Igreja; portanto, a Igreja não pode depô-lo, por qualquer motivo que seja.

É um dogma de fé que o papa não pode proclamar uma heresia quando ensina ex cathedra. Esta é a garantia divina de que as portas do inferno não prevalecerão contra a cátedra veritatis, que é a Sé Apostólica do Apóstolo São Pedro. Dom John Chapman, especialista na história da condenação do Papa Honório I, escreve: “A infalibilidade é, por assim dizer, o vértice de uma pirâmide. Quanto mais solenes os pronunciamentos da Sé Apostólica, mais podemos ter certeza da sua verdade. Quando eles atingem o máximo da solenidade, ou seja, quando eles são ex cathedra em senso estrito, a possibilidade de erro é completamente eliminada. A autoridade de um papa, mesmo nas ocasiões em que não é realmente infalível, deve ser obedecida e reverenciada. Que possa estar do lado errado é uma contingência que a história e a fé mostram como possível “(The Condenation of Pope Honourius, Londres, 1907, p. 109).

Se um papa espalha erros doutrinários ou heresias, a estrutura divina da Igreja já fornece um antídoto: a suplência ministerial dos representantes do episcopado e do indefectível sensus fidei dos fiéis. Nesta matéria, o fator numérico não é decisivo. Basta ter apenas um par de bispos que proclamam a integridade da fé e, assim, corrigem os erros de um papa herege. É suficiente que os bispos instruam e protejam seu rebanho dos erros de um papa herege e que seus sacerdotes e os pais de famílias católicas façam o mesmo. Além disso, como a Igreja é também uma realidade sobrenatural, um mistério, um único organismo sobrenatural, o Corpo Místico de Cristo, os bispos, padres e fiéis leigos – além de correções, apelos, profissões de fé e resistência pública – devem necessariamente realizar atos de reparação e de expiação à Divina Majestade pelas heresias do Papa. De acordo com a constituição dogmática Lumen gentium (cf. n° 12) do Concílio Vaticano II, todo o corpo de fiéis não pode errar na fé, quando desde os bispos até os últimos fiéis leigos compartilham um consenso universal numa matéria de fé e moral. Mesmo que um papa esteja espalhando erros teológicos e heresias, a Fé da Igreja como um todo permanecerá intacta por causa da promessa de Cristo sobre a assistência especial e a presença permanente do Espírito Santo, o Espírito da verdade, em sua Igreja (cf. Jo 14,17; 1 Jo 2,27).

Quando, por uma permissão inescrutável de Deus, em um determinado momento da história e em um caso muito raro, um papa espalha erros e heresias através de seu magistério ordinário e quotidiano não infalível, a Providência divina desperta ao mesmo tempo o testemunho de alguns membros do colégio episcopal e também os fiéis, para compensar as falhas temporárias do Magistério Pontifício. Deve ser dito que tal situação é muito rara, mas não impossível, como mostra a história da Igreja. A Igreja é verdadeiramente um único corpo orgânico, e quando há uma enfermidade ou falha na cabeça (o papa), o resto do corpo (os fiéis) ou partes eminentes dele (os bispos) compensam os erros papais temporários. Um dos exemplos mais famosos e trágicos de tal situação ocorreu durante a crise ariana do século quarto, quando a pureza da fé foi mantida não tanto pela ecclesia docens (papa e episcopado), mas pela ecclesia docta (os fiéis), como afirmou o Bem-aventurado John Henry Newman.

A teoria ou opinião da perda do ministério papal por deposição ou por declaração da perda ipso facto, identifica implicitamente o papa com toda a Igreja ou manifesta a atitude doentia de um “centrismo papal”, em última análise, de papolatria. Os defensores dessa opinião (especialmente alguns santos) manifestaram um ultramontanismo exagerado ou “centrimo papal”, fazendo do pontífice uma espécie de semi-deus, que não pode cometer erros, mesmo em assuntos fora do objeto da infalibilidade papal. Assim, um papa que comete erros doutrinários – o que teórica e logicamente inclui também a possibilidade de cometer o mais grave erro doutrinário, isto é a heresia – é insuportável ou impensável para os seguidores dessa opinião (ou seja, a deposição de um papa e a perda de seu ofício por causa da heresia), mesmo se o papa incorre nesses erros em questões alheias ao objeto da infalibilidade papal.

A teoria ou opinião teológica de que um papa herege pode ser deposto ou vir a perder o cargo era desconhecida no primeiro milênio. Originou-se apenas no início da Idade Média, numa época em que o papo-centrismo atingia o seu auge, quando o papa foi inconscientemente identificado com a Igreja inteira. Isto já prefigurava, em sua raiz, a atitude mundana de um príncipe absolutista segundo o lema: “L’État, c’est moi!” Ou, em termos eclesiásticos: “Eu sou a Igreja!”.

A opinião de que um papa herege perde seu ofício ipso facto tornou-se comum entre os teólogos desde o início da Idade Média até o século XX. Continua, porém, sendo uma mera opinião teológica e não um ensinamento da Igreja e, portanto, não pode reivindicar o título de um verdadeiro ensinamento constante e perene da Igreja, uma vez que nenhum concílio ecumênico e nenhum papa apoiaram explicitamente essa opinião. De fato, a Igreja condenou um papa herético, mas somente após sua morte e não durante seu pontificado. Mesmo que alguns doutores sagrados da Igreja (por exemplo, S. Roberto Bellarmino e S. Francisco de Sales) apoiem tal opinião, isso não prova sua certeza ou um consenso doutrinário universal. Até os doutores da Igreja incorreram em erros; foi, por exemplo, o caso de São Tomás de Aquino sobre a questão da Imaculada Conceição, da matéria do sacramento da Ordem ou o caráter sacramental da ordenação episcopal.

Houve um período na Igreja em que, por exemplo, prevaleceu uma opinião teológica comum, objetivamente errada, segundo a qual a entrega dos instrumentos era a matéria do sacramento da Ordem; uma opinião, no entanto, que não podia invocar antiguidade ou universalidade, mesmo que tivesse sido apoiada por um papa (pelo decreto de Eugênio IV) por um tempo limitado ou por livros litúrgicos (também por um curto período). Essa opinião comum foi, no entanto, corrigida por Pio XII em 1947.

A teoria da deposição de um papa herético ou da perda de seu cargo ipso facto devido à heresia é apenas uma opinião teológica, que não satisfaz as categorias teológicas necessárias de antiguidade, universalidade e consenso (semper, ubique, ab omnibus ). Não houve declarações do Magistério universal ordinário ou do Magistério pontifício em apoio às teorias da deposição de um papa herege ou da perda de seu ofício ipso facto por causa da heresia. Segundo uma tradição canônica medieval, posteriormente coletada no Corpus Juris Canonici (a lei canônica válida na Igreja latina até 1918), um papa poderia ser julgado em caso de heresia: “Papa a nemine est iudicandus, nisi deprehendatur a fide devius”, quer dizer, que “o papa não pode ser julgado por ninguém, a menos que seja flagrado desviando-se da fé “(Decretum Graciano, Prima Pars, dist. 40, c. 6, 3. pars). O Código de Direito Canônico de 1917, no entanto, eliminou a norma do Corpus Juris Canonici, que falava de um papa herético. O Código de Direito Canônico de 1983 também não prevê essa regra.

A Igreja sempre ensinou que até mesmo uma pessoa herética, automaticamente excomungada por causa de heresia formal, pode validamente administrar os sacramentos e que, em um caso extremo, um padre herege ou excomungado também pode exercer um ato de jurisdição dando a um penitente a absolvição sacramental. As regras eleitorais papais, válidas até Paulo VI, ele incluído, admitiam que mesmo um cardeal excomungado podia participar da eleição e ser eleito papa: “Nenhum cardeal eleitor pode ser excluído da eleição, ativa e passiva, do Sumo Pontífice, por causa ou com o pretexto de excomunhão, suspensão, interdito ou qualquer outro impedimento eclesiástico; estas censuras devem ser consideradas suspensas, mas apenas para os fins dessa eleição” (Paulo VI, Constituição Apostólica Romano Pontifice eligendo , 35). Esse princípio teológico também deve ser aplicado ao caso de um bispo herege ou de um papa herege, que, apesar de suas heresias, pode validamente realizar atos de jurisdição eclesiástica e, portanto, não perde o cargo ipso facto devido à heresia.

A teoria teológica ou opinião que permite a deposição de um papa herege ou a perda de seu ofício ipso facto devido à heresia é praticamente impraticável. Se fosse aplicada na prática, criaria uma situação semelhante à do Grande Cisma, que a Igreja já experimentou desastrosamente no final do século XIV e início do século XV. Na verdade, sempre haverá uma parte do Colégio Cardinalício e uma parte considerável do episcopado mundial e também dos fiéis que não vai concordar em considerar um erro material (ou erros materiais) do papa como heresia formal (heresias formais), e, portanto, continuará a considerar o papa reinante como o único papa legítimo.

Um cisma formal, com dois ou mais pretendentes ao trono papal – que também será uma consequência inevitável da deposição canônica de um papa – necessariamente causará mais danos à Igreja como um todo do que um período relativamente curto e muito raro em que um papa espalhe erros doutrinais ou heresias. A situação de um papa herege será sempre relativamente curta, se comparada aos dois mil anos de existência da Igreja. Neste caso raro e delicado, devemos deixar margem para uma intervenção da Divina Providência.

A tentativa de depor um papa herege a qualquer custo é sinal de um comportamento demasiadamente humano, o que eventualmente reflete uma relutância em suportar a cruz temporária de um pontífice herético. Talvez reflita também o sentimento por demais humano da raiva. Em todo caso, oferecerá uma solução excessivamente humana e, como tal, semelhante ao comportamento na política. A Igreja e o Papado são realidades que não são puramente humanas, mas também divinas. A cruz de um papa herege – mesmo quando de duração limitada – é a maior cruz imaginável para toda a Igreja.

Outro erro na intenção ou tentativa de destituir um papa herético consiste na identificação indireta ou subconsciente da Igreja com o Papa ou em fazer do Papa o ponto focal da vida cotidiana da Igreja. Isso, em última instância, significa ceder subconscientemente a um ultramontanismo doentio, ao papo-centrismo e à papolatria, isto é, ao culto à personalidade papal.

Na verdade, houve períodos na história da Igreja quando, por um tempo considerável, a Sé de Pedro permaneceu vacante. Por exemplo, de 29 de novembro de 1268 a 1° de setembro de 1271, não houve papa nem antipapa. Portanto, os católicos não devem fazer do pontífice, de suas palavras e de suas ações, o foco diário de sua atenção.

Os filhos de uma família podem ser deserdados. No entanto, o pai de uma família não pode ser deserdado, não importa quão culposamente ou monstruosamente ele se comporte. Esta é a lei da hierarquia que Deus estabeleceu até na criação. O mesmo se aplica ao papa, que durante o seu mandato é o pai espiritual de toda a família de Cristo na terra. No caso de um pai criminoso ou monstruoso, as crianças devem retirar-se dele ou evitar o contato. No entanto, eles não podem dizer: “elegeremos um novo e bom pai para nossa família”. Seria contrário ao senso comum e à natureza. O mesmo princípio deve, portanto, ser aplicável à questão da deposição de um papa herege. O papa não pode ser deposto por ninguém; só Deus pode intervir e irá fazê-lo em seu tempo, já que Ele não comete erros em sua providência (“Deus in sua dispositione non fallitur”). Durante o Concílio Vaticano I, Dom Zinelli, Relator da deputação da Fé, falou nestes termos da possibilidade de um papa herege: “Se Deus permite um mal tão grande (isto é, um papa herético), não vão faltar os meios para remediar a esta situação “(Mansi 52, 1109).

A deposição de um pontífice herético acabaria por favorecer a heresia do conciliarismo, do sedevacantismo e de uma atitude mental semelhante à de uma comunidade puramente humana ou política. Também promoveria uma mentalidade semelhante ao separatismo no mundo protestante ou ao autocefalismo no conjunto das igrejas ortodoxas.

A teoria ou opinião que permite a deposição ou a perda do ofício revela-se também em suas raízes mais profundas – ainda que de modo inconsciente – uma espécie de “donatismo” aplicado ao ministério papal. A teoria donatista identificava os ministros sagrados (sacerdotes e bispos) quase com a santidade moral do próprio Cristo, exigindo, portanto, para a validade de seu ofício, a ausência de erros morais ou de má conduta em sua vida pública. De maneira similar, a teoria supracitada exclui a possibilidade de um papa cometer erros doutrinários, isto é, heresias, declarando seu cargo inválido ou vacante por este fato, assim como faziam os donatistas, que declaravam inválido ou vacante o ofício sacerdotal ou episcopal devido a erros na vida moral.

Pode-se imaginar que no futuro a autoridade suprema da Igreja (o Papa ou o Concílio Ecumênico) poderia estabelecer as seguintes normas canônicas ou vinculantes para o caso de um papa herético ou manifestamente heterodoxo:

  • Um papa não pode ser deposto de qualquer forma ou por qualquer razão, nem mesmo por razões de heresia.
  • Todo novo papa eleito que toma posse de seu ofício é obrigado, em virtude de seu ministério como Mestre supremo da Igreja, a fazer o juramento de proteger todo o rebanho de Cristo dos perigos das heresias e de evitar aparência de heresia, respeitando sua obrigação de fortalecer todos os pastores e fiéis na fé.
  • Um papa que espalhe erros teológicos óbvios ou heresias ou que contribua para sua difusão com suas ações e omissões deve ser devidamente corrigido de forma fraternal e privada pelo Decano do Colégio dos Cardeais.
  • Depois de correções privadas sem sucesso, o Decano do Colégio dos Cardeais é obrigado a tornar pública sua correção.

Juntamente com a correção pública, o decano do Colégio dos Cardeais deve fazer um apelo a rezar pelo Papa, para que ele possa recuperar a força para confirmar inequivocamente toda a Igreja na Fé.

  • Ao mesmo tempo, o Decano do Colégio Cardinalício deveria publicar uma fórmula de Profissão de Fé, na qual os erros teológicos que o Papa ensina ou tolera (sem necessariamente nomear o Papa) fossem rejeitados.
  • Se o decano do Colégio dos Cardeais omitir a correção, o apelo à oração e a publicação de uma Profissão de Fé, todo cardeal, bispo ou grupo de bispos deve fazê-lo; e se cardeais e bispos também deixarem de fazê-lo, qualquer membro dos fiéis católicos ou qualquer grupo de fiéis católicos deve fazê-lo.
  • O Decano do Colégio dos Cardeais ou um cardeal, ou um bispo ou um grupo de bispos, ou um fiel católico ou um grupo de fiéis católicos que fizerem a correção, pedirem orações e publicarem uma Profissão de Fé não podem ser submetidos a sanções canônicas ou acusados de falta de respeito pelo Papa por este motivo.

No caso extremamente raro de um papa herege, a situação espiritual da Igreja pode ser descrita com as palavras usadas pelo papa São Gregório Magno (590-604), que falou da Igreja de seu tempo como “um velho navio todo quebrado, que faz água por todos os lados, e cujas tábuas podres, na grande tempestade que o sacode todos os dias, fazem rangidos de naufrágio” (Registrum I, 4, Ep. Ioannem episcopum Constantinopolitanum ).

Os episódios evangélicos em que Nosso Senhor acalma o mar tempestuoso e salva Pedro que estava afundando na água nos ensinam que mesmo na situação mais dramática e humanamente desesperada de um papa herege, todos os Pastores da Igreja e os fiéis devem acreditar e confiar que Deus, em Sua Providência, intervirá, e que Cristo acalmará a furiosa tempestade e devolverá a força aos sucessores de Pedro, seus Vigários na terra, para confirmar todos os Pastores e fiéis na Fé Católica e Apostólica.

O Papa Santo Agatão (678-681), que teve a difícil tarefa de limitar os danos causados pelo Papa Honório I à integridade da Fé, deixou palavras vivas num apelo ardente a cada sucessor de Pedro, que deve estar sempre ciente de seu grave dever de preservar intacta a pureza virginal do Depósito da Fé: “Ai de mim se eu negligenciar a pregar a verdade do meu Senhor, que eles [os antecessores] pregaram sinceramente. Ai de mim, se eu cobrir pelo silêncio a verdade que sou obrigado a dar ao meu rebanho, isto é, ensinar e convencer o povo cristão. O que direi no futuro julgamento do próprio Cristo, se eu envergonhar-me – Deus me livre! – de pregar agora a verdade de suas palavras? Que satisfação posso dar por mim, pelas almas que me foram confiadas, quando Ele pedirá estrita conta do ofício que recebi?” (Ep.”Considerando mihi ”ad Imperatores ).

Quando o primeiro Papa, São Pedro estava fisicamente acorrentado, toda a Igreja implorou pela sua libertação: “Pedro estava assim encerrado na prisão, mas a Igreja orava sem cessar por ele a Deus” (Atos 12: 5). Quando um papa espalha erros ou mesmo heresias, ele está em cadeias espirituais ou em uma prisão espiritual. Portanto, toda a Igreja deve orar incessantemente por sua libertação desta prisão espiritual. Toda a Igreja deve ter uma perseverança sobrenatural em tal oração e uma confiança sobrenatural no fato de que, no fim das constas, é Deus e não o Papa quem governa Sua Igreja.

Quando o Papa Honório I (625-638) adotou uma atitude ambígua a respeito da propagação da nova heresia do Monotelismo, São Sofrônio, Patriarca de Jerusalém, enviou um bispo da Palestina a Roma, dizendo-lhe: “Vá à Sé Apostólica, onde estão as bases da doutrina sagrada e não deixe de rezar até que a Sé Apostólica condene a nova heresia”.

Ao tratar do trágico caso de um pontífice herege, todos os membros da Igreja, começando pelos bispos, até os simples fiéis, devem usar todos os meios legítimos, como as correções privadas e públicas ao papa errante, orações constantes e ardentes e profissões públicas da verdade, para que a Sé Apostólica volte a professar claramente as verdades divinas que o Senhor confiou a Pedro e a todos os seus sucessores. “O Espírito Santo foi prometido aos sucessores de Pedro, não de maneira que eles pudessem, por revelação sua, dar a conhecer alguma nova doutrina, mas que, por assistência sua, pudessem guardar santamente e expor fielmente a revelação transmitida pelos Apóstolos, isto é, o depósito da fé” (Concílio Vaticano I, Constituição Dogmática Pastor aeternus ,cap. 4).

Cada Papa e todos os membros da Igreja devem lembrar as palavras sábias e atemporais que o Concílio Ecumênico de Constança (1414-1418) pronunciou sobre o Papa, considerado como a primeira pessoa na Igreja a ser vinculada pela Fé, cuja integridade ele deve guardar cuidadosamente: “Visto que o Romano Pontífice exerce um poder tão grande entre os mortais, é adequado que ele esteja cada vez mais ligado aos laços incontrovertíveis da fé e aos ritos que devem ser observados com respeito aos sacramentos da Igreja. Por isso decretamos e ordenamos, para que a plenitude da fé possa brilhar num futuro Pontífice Romano com um esplendor singular desde o primeiro momento de tornar-se papa, que a partir daquele momento em que será eleito Romano Pontífice faça a seguinte confissão e profissão pública” (Trigésima Nona Sessão de 9 de outubro de 1417.

Na mesma sessão, o Concílio de Constança decretou que todo novo papa eleito deveria fazer um juramento de fé, propondo a seguinte fórmula, da qual citamos as passagens mais cruciais:

“Eu, N., eleito Papa, com o coração e os lábios confesso e professo ao Deus todo-poderoso, que confessarei firmemente e preservarei a fé católica de acordo com as tradições dos Apóstolos, dos Concílios Gerais e dos outros Santos Padres. Que manterei esta fé inalterada até o último iota e que a confirmarei, defenderei e pregarei até a morte e o derramamento de meu sangue, e da mesma maneira que seguirei e observarei de todas as maneiras o rito transmitido dos sacramentos eclesiásticos da Igreja Católica”.

Quão urgente seria pôr em prática o juramento do papa, especialmente em nossos dias! O pontífice não é um monarca absoluto, que pode fazer e dizer o que quiser, que pode mudar a discrição a doutrina ou a liturgia. Infelizmente, nos séculos passados – ao contrário da tradição apostólica dos tempos antigos – o comportamento dos papas como monarcas absolutos ou semi-deuses tornou-se tão habitualmente aceito que chegou a influenciar as concepções teológicas e espirituais da maioria dos bispos e fiéis, e especialmente das pessoas piedosas. O fato de que o Papa deva ser o primeiro na Igreja a evitar as novidades, obedecendo de maneira exemplar à tradição da Fé e da Liturgia, foi às vezes apagado da consciência dos bispos e dos fiéis por uma aceitação cega e piedosa de uma espécie de absolutismo papal.

O juramento papal de Liber diurnus Romanorum Pontificum considerava como a principal exigência e qualidade distintiva de um novo papa a sua fidelidade inabalável a tradição, assim como foi transmitida por todos os seus antecessores: ” Nihil de traditione, quod em probatissimis praedecessoribus Meis servatum reperi, diminu vel vel mutare, aut aliquam novitatem admittere; sed ferventer, e verum discipulus et sequipeda, totis viribus meis conatibusque traído conservar ac venerari“(“Nada mudarei da Tradição que recebi, e nada do que encontrei antes de mim, preservado por meus veneráveis predecessores, nem tocarei, alterarei ou permitirei qualquer inovação nela; de fato, reverenciá-la-ei com ardente afeto como verdadeiro e fiel discípulo, transmitindo-a com toda a minha força e máximo esforço”).

O mesmo juramento papal definia, em termos concretos, a fidelidade à lex credendi (a regra da fé) e à lex orandi (a regra da oração). Quanto à lex credendi (a regra da fé), o texto do juramento diz:

Verae fidei rectitudinem, quam Christo autore tradente, per successori tuos atque discipulos, usque ad exiguitatem meam perlatam, in tua sancta Ecclesia reperi, totis conatibus meis, usico ad animam et sanguinem custodire, temporumque difficultates, cum tuo adjutorio, toleranter sufferre” ( “Prometo manter com todas as minhas forças, até a morte e o derramamento de meu sangue, a integridade da verdadeira fé, cujo autor é Cristo, e que, através de seus sucessores e discípulos, foi transmitida a minha humilde pessoa e que eu encontrei em Sua Igreja. Eu também prometo pacientemente suportar as dificuldades dos tempos”).

Em relação à lex orandi , o juramento do Papa afirma:

Disciplinam et ritum Ecclesiae, sicut inveni, et a sanctis praecessoribus meis traditum reperi, illibatum custodire” (“Prometo manter inviolada a disciplina e a liturgia da Igreja como as encontrei e como elas foram transmitidos por meus santos predecessores”).

Nos últimos cem anos, houve alguns exemplos espetaculares de absolutismo papal. Quando consideramos a lex orandi, as mudanças feitas pelos papas Pio X, Pio XII e Paulo VI foram drásticas e radicais e, no que diz respeito à lex credendi, pelo Papa Francisco.

Pio X tornou-se o primeiro papa na história da Igreja Latina a realizar uma reforma tão radical do Salterio (cursus psalmorum), que levou à construção de um novo tipo de ofício divino no que diz respeito à distribuição dos salmos. Depois, houve o Papa Pio XII, que aprovou para o uso litúrgico uma versão latina radicalmente modificada do texto milenar e melodioso do Vulgate Psalter. A nova tradução latina, o chamado “Saltério Piano”, era um texto fabricado artificialmente pelos acadêmicos e, em seu refinamento, era difícil de pronunciar. Esta nova tradução latina, acertadamente criticada com o ditado “accessit latinitas, recessit pietas”, foi depois rejeitada de fato por toda a Igreja sob o pontificado do papa João XXIII. O Papa Pio XII mudou também a liturgia da Semana Santa, um tesouro litúrgico milenar da Igreja, introduzindo parcialmente rituais inventados ex novo.  Mudanças litúrgicas inauditas foram, porém, levadas a cabo pelo Papa Paulo VI com uma reforma revolucionária do rito da Missa e dos outros sacramentos, uma reforma litúrgica, que nenhum Papa antes ousou realizar com tanta radicalidade.

Uma mudança teologicamente revolucionária foi feita pelo Papa Francisco na medida em que ele aprovou a prática de algumas igrejas locais de admitir à Santa Comunhão “caso por caso” adúlteros sexualmente ativos (aqueles que coabitam nas chamadas “uniões irregulares”). Mesmo que essas normas locais não representem uma norma geral na Igreja, constituem, no entanto, uma negação prática da verdade da absoluta indissolubilidade do matrimónio sacramental rato e consumado. Outra mudança radical nas questões doutrinárias é a modificação da doutrina bíblica e do magistério bimilenar da Igreja quanto ao princípio da legitimidade da pena de morte.

Neste contexto, destaca-se e nos faz refletir um fato impressionante narrado na vida do Papa Pio IX: diante do pedido de um grupo de bispos para introduzir uma pequena mudança no Canon da Missa (inserindo o nome de São José), ele respondeu: “Eu não posso fazer isso . Eu sou apenas o papa!”

A seguinte oração de Dom Prosper Guéranger, na qual ele elogia o papa São Leão II por sua vigorosa defesa da integridade da Fé depois da crise causada pelo Papa Honório I, deve ser rezada assiduamente por cada papa e por todos os fiéis, especialmente em nosso tempo:

“Impedi, ó São Leão, o retorno de situações a tal ponto dolorosas. Mantende o pastor acima da região das névoas malignas que se erguem da terra;  mantende no rebanho aquela oração que deve continuamente subir da Igreja a Deus em favor dele (Atos 12: 5): e Pedro, mesmo se ele estiver sepultado nas mais escuras prisões, não deixará de contemplar o puro esplendor do Sol da justiça; e todo o corpo da santa Igreja estará na luz. O corpo, de fato — diz Jesus – é iluminado pelo olho: se o olho é simples, todo o corpo resplandece (Mt 6,22). Instruídos por vós sobre o valor do benefício que o Senhor concedeu ao mundo quando o estabeleceu sobre o ensinamento infalível dos sucessores de Pedro, agora conhecemos a força da rocha que sustenta a Igreja; sabemos que as portas do inferno não prevalecerão contra ela (ibid. 16, 18). De fato, o esforço desses poderes do abismo nunca foi tão longe como na crise fatal [do Papa Honório] a qual Vós colocastes o termo. ora, seu sucesso, por mais doloroso que tenha sido, não desmentiu as promessas divinas: não é ao silêncio de Pedro, mas ao seu ensino que foi prometida a assistência indefectível do Espírito da verdade ”(Année liturgique, Paris 1911, vol. 3, pp. 403-404).

O caso extremamente raro de um papa herético ou semi-herético deve, eventualmente, ser suportado e sofrido à luz da fé no caráter divino e na indestrutibilidade da Igreja e do ministério petrino. O Papa São Leão Magno formulou essa verdade, dizendo que a dignidade de São Pedro não foi diminuída em seus sucessores, por mais indignos que sejam, “Cuius dignitas etiam in indigno haerede non deficit” ( Serm . 3, 4).

Poderia ocorrer a situação verdadeiramente extravagante de um papa que pratica abuso sexual de menores ou de subordinados no Vaticano. O que a Igreja deve fazer nessa eventualidade? Deveria a Igreja tolerar um predador sexual de menores ou subordinados? Por quanto tempo a Igreja deveria tolerar tal papa? Ele deveria perder o papado ipso facto por causa desses abusos? Nessa situação, poderia surgir uma nova teoria ou opinião canônica ou teológica que permitisse a deposição de um papa e a perda de seu cargo devido a crimes morais monstruosos (por exemplo, o abuso sexual de menores ou subordinados acima mencionado). Tal opinião seria análoga à opinião de que seria possível a deposição de um papa ou a perda de seu cargo devido à heresia. No entanto, essa nova teoria ou opinião (deposição de um papa e a perda de seu cargo devido a crimes sexuais monstruosos) certamente não corresponderia à mente e à prática perenes da Igreja.

A tolerância de um papa herético como uma cruz não significa passividade ou aprovação de sua conduta errônea. Tudo deve ser feito para remediar esta situação. Suportar a cruz de um papa herege, em nenhum caso significa ser passivo ou consentir com suas heresias. Assim como as pessoas têm que suportar, por exemplo, um regime iníquo ou ateu como uma cruz (muitos católicos viveram sob tal regime na União Soviética, suportando essa situação como uma cruz, num espírito de expiação), ou como os pais devem carregar a cruz de um filho adulto que se tornou um descrente ou imoral, ou como os membros de uma família devem carregar como uma cruz um pai alcoólico. Os pais não podem “depor” o filho descarriado de pertencer à família, assim como as crianças não podem “destituir’ o pai transviado de pertencer à família ou do seu título de “pai”.

Não depor um papa herege é mais seguro e está mais de acordo com uma visão sobrenatural da Igreja. Fazer isso, com todas as contramedidas práticas e concretas a serem tomadas, em nenhum caso significa passividade ou colaboração com os erros papais, mas um engajamento muito ativo e uma verdadeira compaixão com a Igreja, que, no tempo de um papa herege ou semi-herege, vive suas horas no Gólgota. Quanto mais um papa dissemina ambiguidades doutrinárias, erros ou mesmo heresias, mais intensamente brilhará na Igreja a fé católica pura dos pequeninos: a Fé de crianças inocentes; de freiras religiosas; em particular a fé das gemas ocultas da Igreja: as monjas de clausura; a fé dos fiéis leigos heroicos e virtuosos de todas as condições sociais; a fé de padres e bispos.  Esta chama pura da fé católica, muitas vezes alimentada por sacrifícios e atos de expiação, brilhará mais do que a covardia, a infidelidade, a rigidez espiritual e a cegueira de um papa herético.

A Igreja tem um caráter tão divino que pode existir e viver por um período limitado de tempo apesar de um papa reinante herege, precisamente por causa da verdade de que o papa não é sinônimo ou idêntico à Igreja. A Igreja tem um caráter tão divino que nem mesmo um papa herege é capaz de destruí-la, apesar de prejudicar muito sua vida; porém, sua ação tem duração limitada. A fé de toda a Igreja é maior e mais forte do que os erros de um papa herege e esta fé não pode ser derrotada. A constância de toda a Igreja é maior e mais duradoura do que o desastre relativamente breve de um papa herege. A verdadeira rocha sobre a qual reside a indestrutibilidade da Fé e a santidade da Igreja é o próprio Cristo, sendo o papa somente seu instrumento, assim como todo sacerdote ou bispo é apenas um instrumento de Cristo Sumo Sacerdote.

A saúde doutrinal e moral da Igreja não depende exclusivamente do Papa, pois, pela lei divina, esta é garantida, na situação extraordinária de um papa herético, pela fidelidade do ensinamento dos bispos e, em última análise, também pela fidelidade de todo o corpo dos fiéis leigos, como foi suficientemente demonstrado pelo beato John Henry Newman e pela história. A saúde doutrinal e moral da Igreja não depende em tal grau dos erros doutrinários de um papa, por um período relativamente curto de tempo, como para tornar a Santa Sé vacante. Assim como a Igreja pode ficar um tempo sem o Papa, como já aconteceu na história por um período de vários anos), assim também a Igreja é tão forte pela sua constituição divina que pode até aturar um papa herege por um curto prazo.

O ato de depor um pontífice ou declarar sua sé vacante devido à perda ipso facto do pontificado por causa de heresia seria uma novidade revolucionária na vida da Igreja a respeito de uma questão muito importante de sua constituição e vida. Em uma matéria tão delicada, mesmo quando ela é de natureza prática e não estritamente doutrinal, é preciso seguir a via mais segura (via tutior), que é aquela do senso perene da Igreja. Apesar de três Conselhos Ecumênicos sucessivos (o Terceiro Concílio de  Constantinopla em 681, o Segundo Concílio de Nicéia em 787 e o Quarto Concílio de Constantinopla em 870) e o Papa São Leão II em 682 terem excomungado o Papa Honório I  por heresia, eles nem sequer implicitamente declararam que Honório havia perdido o papado ipso facto por causa da heresia. De fato, o pontificado do Papa Honório foi considerado válido mesmo depois de ter apoiado a heresia em suas cartas ao Patriarca Sérgio, em 634, enquanto reinou por mais quatro anos até 638. O seguinte princípio, formulado pelo Papa Santo Estêvão I (257), ainda que em outro contexto, deveria ser uma diretriz para lidar com a questão muito delicada e rara de um papa herege: “Nihil innovetur, nisi quod traditum est”, “Não haja nenhuma inovação em relação ao que foi transmitido”.

+ Athanasius Schneider, bispo auxiliar da Arquidiocese de Santa Maria em Astana

25 março, 2019

Pastor com cheiro de ovelha.

Mas não venham com esses beijos clericalistas, hein?!

Papa Francisco hoje, no Santuário de Nossa Senhora do Loreto.

 

Tags: