Archive for ‘Igreja’

4 dezembro, 2021

Padre ortodoxo em protesto incomoda Papa em visita à Grécia.

Por The Independent: O papa Francisco foi interpelado por um padre ortodoxo grego idoso no sábado ao chegar para um encontro com o chefe da Igreja Ortodoxa do país, evidência da desconfiança persistente entre alguns ortodoxos e católicos 1.200 anos depois que o cristianismo foi dividido ao meio.

“Papa, você é um herege!” o padre gritou três vezes quando Francisco chegou à residência do arcebispo Ieronymos na capital grega de Atenas. O manifestante caiu no chão quando a polícia o levou embora, e Francisco pareceu não notar quando ele entrou na residência para seu encontro privado com o Líder ortodoxo.

O incidente ocorreu após pequenos protestos contra o papa em sua parada anterior, a ilha de Chipre, que também é predominantemente cristã ortodoxa.

Durante a viagem de Francisco, os líderes de duas igrejas renovaram a promessa de superar séculos de desconfiança e competição por influência. Em contraste com o padre solitário e intrometido, Ieronymos acolheu Francisco “com um sentimento de honra e fraternidade”.

A visita de Estado de Francisco à Grécia ocorre 20 anos depois de São João Paulo II ter feito a primeira visita desse tipo desde o Grande Cisma, e aproveitou a ocasião para se desculpar pelos pecados “por ação ou omissão” cometidos pelos católicos contra os ortodoxos ao longo dos séculos.

Francisco renovou o pedido de desculpas no sábado diante de Ieronymos e outros prelados ortodoxos, dizendo que estava envergonhado pelas ações dos católicos que, por causa de uma “sede de vantagem e poder, debilitaram gravemente nossa comunhão”.

Católicos e ortodoxos se dividem por causa de uma série de questões, incluindo a primazia do papa.

Ieronymos, por sua vez, disse a Francisco no sábado que compartilhava a visão do papa de criar laços fortes para enfrentar os desafios globais como a crise migratória e as mudanças climáticas.

25 novembro, 2021

Considerações sobre o Rorate Caeli.

Por Padre Antônio Mariano – FratresInUnum.com, 25 de novembro de 2021: Aproxima-se o Advento, e no interior de nossas almas já é possível escutar as notas suaves do Rorate.

Rorate Caeli desúper et nubes plúant justum.

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Embora comece com esse imperativo aos céus e às nuvens, o primeiro movimento que o Rorate produz em nós é essa elevação dos olhos para o céu. Nunca foi tão necessário para o católico olhar para os céus. Numa pequena crise, poderíamos até esperar uma resolução da parte dos homens. Mas, diante de tudo o que vemos acontecer na Santa Igreja, não temos mais esperança humana; necessitamos e aguardamos uma intervenção direta do Céu e olhamos para ele, esperando algum movimento que possa confortar-nos em nossas angústias.

Ne irascáris Dómine, ne ultra memíneris iniquitátis
Ecce cívitas Sancti facta est desérta
Sion desérta facta est, Jerúsalem desoláta est.
Domus sanctificatiónis tuae et gloriae tuae
Ubi laudavérunt Te patres nostri.


A primeira estrofe começa com a causa de todos os males: as nossas iniquidades, os nossos pecados. Os pecados que durante séculos lançamos na face de Deus, agora fazem cair sobre nós a ira do Senhor. Só nos resta pedir que o Senhor os esqueça, que não se irrite conosco.

Mas, merecemos nós esse esquecimento de Deus? Foram tão pouca coisa nossos crimes a ponto de que Deus os esqueça?

Não. 

Por isso, pedimos que Deus olhe para a sua cidade, para a cidade de seu Santuário, cidade desertificada, cidade desolada. A Igreja está deserta. Ainda que aqui ou ali ainda se encontre número de pessoas dentro do templo, quem lá conhece verdadeiramente o catecismo, quem realmente proclama a fé da Igreja de sempre?

Quem ali renega o liberalismo? Quem, realmente, está disposto a morrer pelo sagrado vínculo do matrimônio? Quantos sacerdotes realmente crêem na Presença de Nosso Senhor na Hóstia Consagrada?

Sião ficou deserta, Jerusalém está desolada.

A desolação de Jerusalém é porque tudo que nela resplandecia de santidade foi roubado – não há outra palavra. Roubaram de Jerusalém, isto é, da Igreja, a doutrina, a liturgia, a oração e a moral. Jerusalém é uma cidade decorada pelos corpos dos combatentes, às vezes já em agonia. Arrancaram de Jerusalém o seu estandarte que contém uma só palavra: Credo.

E ainda mais, está desolada, porque foi lhe posta no Santo dos Santos a abominação da desolação que impregna com seu fedor herético, liberal e sacrílego o que antes só emanava os suavíssimos odores do incenso da disposição a qualquer sacrifício para agradar somente a Deus.

Ah…. a casa da tua santificação e da tua glória, onde te louvavam nossos pais… Não queremos nada de novo! O vinho velho é o melhor! Não queremos uma Igreja nova, em saída (que se tornou um “de saída”…), sinodal e sucursal da ONU. Queremos a Igreja em que te louvaram nossos pais, talvez não nossos pais da terra, que muitas vezes não nos entendem por amarmos o que lhes foi ensinado a desprezar, mas aqueles, em sentido lato, pais e mães que a Igreja dá às nossas almas: S. Francisco, S. Domingos, S. Bruno, S. João da Cruz, S. Teresa, S. Catarina, S. Inácio, S. João Bosco… É na Igreja que eles te louvaram, Senhor, que nós queremos louvar também.

Se um dia o povo brasileiro pediu o seu Brasil de volta, com tanto maior força, nós católicos precisamos por todos os meios, pedir, exigir a nossa Igreja de volta.

Peccávimus et facti sumus tamquam immúndus nos,
Et cecídimus quasi fólium univérsi
Et iniquitátes nostrae quasi ventus abstulérunt nos
Abscondísti fáciem tuam a nobis
Et allisísti nos in mánu iniquitátis nostrae.

Todo pecado é uma mácula, uma mancha, uma sujeira. Mas há um pecado que é imundície, a impureza, os pecados contra o sexto e o nono mandamentos. Quantas vezes não soubemos guardar a nossa vista, nossos pensamentos, nossos corpos. Quanta licenciosidade nas conversas entre católicos, como se a masculinidade fosse sinônimo de animalidade?

Quantas imodéstias e desejos sedutores nas vestes em que tantas mulheres vão à Missa?
Quantos pais que defenderiam seus filhos de um assassino, mas expõe diante de seus olhos toda iniquidade oriunda da TV, as músicas imorais com as danças que sequer cabem no corpo de uma criança!

E isso tudo, não entre os pagãos, mas entre aqueles que dizem venerar a Sempre Virgem Maria! Esquecem-se que nada é mais oposto à Nossa Senhora do que a impureza!

E o clero? Já não advertiu em várias aparições reconhecidas pela Igreja, como Rue du Bac e La Sallete, a impureza das almas consagradas? Impureza em ações, em leituras, em apegos desordenados, em visitas desnecessárias…

Sim, esses pecados arrastaram a Igreja para o chão como folhas secas que o vento leva.

Se são os puros de coração que verão a Deus, não causa espanto que o Senhor esconda de nós a sua face. E como o pecado contra a pureza tem um poder particularmente insaciável e dominador, é por essas mesmas iniquidades que a mão justíssima do Senhor, o Santo Amor, como dizia S. Francisco de Assis, nos esmaga.

Víde, Dómine, afflictiónem pópuli tui
Et mitte quem missúrus es
Emítte Agnum dominatórem terrae
De pétra desérti ad montem fíliae Sion
Ut áuferat ipse jugum captivitátis nostrae.

Não há esperança. Nesse estado das coisas, os prudentes estarão aflitos e os insensatos se porão simplesmente a negar tudo e tentar semear um otimismo que não consiste no fato de que nosso auxílio esteja (somente) no nome do Senhor. Então, varridos pelas baixezas de nossas vilanias, pedimos ao Senhor que olhe.

Não podemos pedir-Lhe mais nada!

Que mérito temos para pedir que venha em socorro dos males que nós mesmos criamos? Pedimos, com certa astúcia, que Ele olhe. Porque a Ele será impossível olhar e não agir. Por mais que não mereçamos, será por seu Nome que Ele agirá, será pelas lágrimas da Santa Igreja que Ele agirá.

E a sua ação será o cumprimento dos anelos proféticos: “Ah, se rompêsseis os céus e descêsseis…” Sim, Ele enviará o que deve vir, aquele que é ao mesmo tempo Cordeiro de um Sacrifício e Dominador de todo o mundo. Ele não apenas tirará o jugo que nos pesa, mas o tomará sobre si. Em troca, nos oferecerá um outro, novo, suave e leve, nos proporcionará uma vassalagem que na verdade é um Reinar com Ele. E Ele virá para isso, para redimir e, redimindo, reinar.

Consolámini, consolámini, pópule meus
Cito véniet salus tua
Quare moeróre consúmeris, quia innovávit te dolor?
Salvábo te, noli timére
Ego énim sum Dóminus Deus túus Sánctus Israël, Redémptor túus.

E essa é a consolação que abranda as angústias do povo do Senhor: Ele não demora. Para nós o relógio corre, para Ele mil anos e um dia são a mesma coisa. Não estamos barganhando com um soberano de outro país para que venha em nosso auxílio. Não! “Eu sou o Senhor, teu Deus, Santo de Israel, teu Redentor”. Ó, quanta fortaleza, quanta confiança nos inspiram essas palavras. São como se Ele dissesse: “Eu te salvarei, tu és meu. A tristeza e as dores fazem parte da tua vida, não são a tua vida, Mas Eu, Eu sim, sou o teu Deus, a tua vida.” O Senhor diz à Igreja: “Nunca mais te chamarão abandonada, nem se dirá de tua terra rejeitada”. “Eu sou teu Senhor. E em breve virá a tua salvação.”

18 novembro, 2021

“Devo dar testemunho dos ritos sagrados da Igreja”.

A seguinte carta aberta ao Papa Francisco foi redigida pelo pe. Wojciech Gołaski OP e publicada originalmente em polonês. A seguir, publicamos a tradução de FratresInUnum.com a partir da versão de Rorate Caeli.

Jamna, Polônia, 17 de agosto de 2021
                                                                        A Sua Santidade Papa Francisco
                                                                        Domus Sanctae Marthae
                                                                        Santa Sé
                                                                        Cidade do Vaticano
Para a atenção de:
Rev. Mestre Geral da Ordem, Gerard Francisco Timoner III OP
Pe. Provincial da Província da Polônia, Paweł Kozacki OP
S.E. Bispo da Diocese de Tarnów, Andrzej Jeż
Rev. Superior da Casa de Jamna, Andrzej Chlewicki OP
Irmãos e Irmãs da Ordem
Rev. Superior do Distrito Polonês da Fraternidade São Pio X, Karl Stehlin FSSPX
Omnes quos res tangit
Beatíssimo Padre,

Pe. Wojciech Gołaski O.P.

Nasci há 57 anos e entrei para a Ordem Dominicana há 35 anos. Fiz meus votos perpétuos há 29 anos e sou sacerdote há 28 anos. Eu tinha apenas vagas lembranças da minha infância da Santa Missa em sua forma anterior às reformas de 1970. Dezesseis anos após minha ordenação, dois amigos leigos (desconhecidos um do outro) me incentivaram a aprender como celebrar a Santa Missa em sua forma tradicional Formato. Eu os escutei.

Foi um choque para mim. Eu descobri que a Santa Missa em sua forma clássica:

– direciona toda a atenção do sacerdote e dos fiéis para o Mistério,

– expressa, com grande precisão de palavras e gestos, a Fé da Igreja no que se passa aqui e agora no altar,
– reforça, com uma força igual à sua precisão, a fé do celebrante e do povo,
– não leva o sacerdote nem o fiel a nenhuma invenção ou criatividade própria durante a liturgia,
– coloca-os, pelo contrário, num caminho de silêncio e contemplação,
– oferece, pela quantidade e natureza de seus gestos, a possibilidade de atos incessantes de piedade e amor para com Deus,
– une o sacerdote e os fiéis, colocando-os do mesmo lado do altar e voltando-os na mesma direção:  versus Crucem, versus Deum .
Disse a mim mesmo: isso sim é a Santa Missa! E eu, um padre por 16 anos, não o sabia! Foi um poderoso eureka , uma descoberta, após o qual minha ideia da missa não poderia permanecer a mesma.
 
Desde o início me ocorreu que esse rito é o oposto do estereótipo. Em vez de formalismo, expressão livre da alma diante de Deus. Em vez de frigidez, o fervor do culto divino. Em vez de distância, proximidade. Em vez de estranheza, intimidade. Em vez de indiferença, segurança. Em vez da passividade dos leigos, sua conexão profunda e viva com o mistério (foi através dos leigos, afinal, que fui conduzido à missa tradicional). Em vez de um abismo entre o sacerdote e os fiéis, uma estreita união espiritual entre todos os presentes, protegida e expressa pelo silêncio do Cânon. Ao fazer esta descoberta, tornou-se claro para mim: esta mesma forma é a nossa ponte para as gerações que viveram antes de nós e nos transmitiram a Fé. Foi enorme a minha alegria nesta unidade eclesial que transcende todos os tempos.
Desde o início, experimentei a poderosa força de atração espiritual da Missa em sua forma tradicional. Não foram os sinais em si que me atraíram, mas o seu significado, que a alma sabe ler. O próprio pensamento da próxima celebração me enchia de alegria. Buscava todas as oportunidades de celebrar com entusiasmo e ansiedade. Muito em breve uma certeza completa amadureceu dentro de mim, que, se eu celebrasse a Missa (assim como todos os sacramentos e cerimônias) apenas em sua forma tradicional até o fim dos meus dias, não sentiria a menor falta da forma pós-conciliar.
Se alguém tivesse me pedido para expressar com uma única palavra meus sentimentos sobre a celebração tradicional no contexto do rito reformado, eu teria respondido “alívio”. Pois foi realmente um alívio, de profundidade indescritível. Era como quem, tendo caminhado a vida toda calçado com uma pedrinha que esfrega e irrita os pés, mas que não tem outra experiência de caminhada, lhe é oferecido, 16 anos depois, um par de sapatos sem pedrinha e as palavras: “Aqui”, “Coloque-os”, “experimente!” 
Não só redescobri a Santa Missa, mas também a surpreendente diferença entre as duas formas: a que estava em uso há séculos e a pós-conciliar. Eu não sabia dessa diferença porque não conhecia a forma anterior. Não posso comparar meu encontro com a liturgia tradicional a um encontro com alguém que me adotou e se tornou meu pai adotivo. Foi um encontro com uma Mãe que sempre foi minha Mãe, embora eu não a tivesse conhecido.
Em tudo isso, fui acompanhado pela bênção dos Sumos Pontífices. Eles haviam ensinado que o missal de 1962 “nunca fora legalmente ab-rogado e permaneceu, portanto, em princípio, sempre permitido”, acrescentando que “o que havia sido sagrado para as gerações anteriores permanece sagrado e grande também para nós, e não poderia de repente se tornar completamente proibido nem mesmo considerado prejudicial. Cabe a todos nós preservar as riquezas que se desenvolveram pela Fé e a oração da Igreja e dar-lhes o seu devido lugar ”(Bento XVI, Carta aos Bispos, 2007). Aos fiéis também foi ensinado: “Por seu uso venerável e antigo, a forma extraordinaria deve ser mantida com a honra que lhe é devida”; foi descrito como “um tesouro precioso a ser preservado” (Instrução Universae Ecclesiae, 2011). Estas palavras seguiram documentos anteriores que possibilitaram aos fiéis o uso da liturgia tradicional após as reformas de 1970, sendo o primeiro Quattuor abhinc annos de 1984. O fundamento e a fonte de todos esses documentos continua sendo a Bula de São Pio V, Quo primum tempore (1570).
Santo Padre, se, sem esquecer o documento solene do Papa Pio V, levarmos em consideração o lapso de tempo que abrange as declarações de seus predecessores imediatos, temos uma duração de 37 anos, de 1984 a 2021, durante os quais a Igreja disse aos fiéis, no que diz respeito à liturgia tradicional, e cada vez mais fortemente: “Existe tal caminho. Você pode caminhar por eele.”
Portanto, tomei o caminho que a Igreja me ofereceu.
Quem percorre este caminho – quem quer que este rito, que é o vaso da divina Presença e da divina Oblação, dê fruto na sua própria vida – deve abrir-se inteiramente para se entregar a si e aos outros a Deus, presente e agindo em nós através do vaso deste rito sagrado. Fiz isso com total confiança.
Então veio o dia 16 de julho de 2021.
Pelos seus documentos, Santo Padre, soube que o caminho que percorri durante 12 anos deixou de existir.
Temos afirmações de dois papas. Sua Santidade Bento XVI havia dito que o Missal Romano promulgado por São Pio V “deve ser considerado a expressão extraordinária da lex orandi da Igreja Católica de Rito Romano”. No entanto, Sua Santidade o Papa Francisco diz que “os livros litúrgicos promulgados pelos Papas São Paulo VI e São João Paulo II (…) são a única expressão da lex orandi do Rito Romano.” A afirmação do sucessor, portanto, nega a de seu predecessor ainda vivo.
Pode uma certa forma de celebrar a Missa, confirmada por uma Tradição centenária e imemorial, reconhecida por cada Papa, incluindo o senhor, Santo Padre, até 16 de julho de 2021, e santificada por sua prática ao longo de tantos séculos, de repente deixar de ser a lex orandi do Rito Romano? Se assim fosse, significaria que tal característica não é intrínseca ao rito, mas é um atributo externo, sujeito às decisões de quem ocupa cargos de alta autoridade. Na realidade, a liturgia tradicional exprime a lex orandi do rito romano por cada gesto e por cada frase e pelo conjunto que eles compõem. É garantido também expressar esta lex orandi, como a Igreja sempre defendeu, por conta do seu uso ininterrupto, desde tempos imemoriais. Devemos concluir que a primeira afirmação papal [de Bento] tem bases sólidas e é verdadeira e que a segunda [de Francisco] é infundada e falsa. Mas apesar de ser falso, ainda assim é dado poder de lei. Isso tem consequências sobre as quais escreverei a seguir.

As concessões relativas ao uso do Missal de 1962 agora têm um caráter diferente das anteriores. Não se trata mais de responder ao amor com que os fiéis aderem à forma tradicional, mas de dar tempo aos fiéis – quanto tempo, não nos é dito – para “voltar” à liturgia reformada. As palavras do Motu Proprio e da sua Carta aos Bispos deixam perfeitamente claro que foi tomada, e já está a ser implementada, a decisão de retirar a liturgia tradicional da vida da Igreja e lançá-la no abismo do esquecimento: não pode ser usado nas igrejas paroquiais, novos grupos não devem ser formados, Roma deve ser consultada para que novos padres a rezem. Os bispos devem agora ser Traditionis Custodes, “Guardiães da Tradição”, mas não no sentido de guardiões que a protegem, mas sim no sentido de guardiões de uma prisão.

Permita-me expressar minha convicção de que isso não acontecerá e que a operação irá falhar. Quais são os motivos desta convicção? Uma análise cuidadosa de ambas as Cartas de 16 de julho expõe quatro componentes: hegelianismo, nominalismo, crença na onipotência do Papa e responsabilidade coletiva. Cada um é um componente essencial de sua mensagem e nenhum deles pode ser conciliado com o depósito da Fé católica. Visto que não podem ser reconciliados com a Fé, não serão integrados a ela nem na teoria nem na prática. Vamos examinar cada um deles por vez.

1) HegelianismoO termo é convencional: não significa literalmente o sistema do filósofo alemão Hegel, mas algo que deriva desse sistema, ou seja, a compreensão da história como um processo bom, racional e inevitável de mudanças contínuas. Essa forma de pensar tem uma longa história, de Heráclito e Plotino, a Joaquim de Fiore, até Hegel, Marx e seus herdeiros modernos. A característica dessa abordagem é dividir a história em fases, de forma que o início de cada nova fase se junte ao final da anterior. As tentativas de “batizar” o hegelianismo nada mais são do que tentativas de dotar essas supostas fases históricas da autoridade do Espírito Santo. Presume-se que o Espírito Santo comunica à próxima geração algo que Ele não falou para a anterior, ou mesmo que Ele comunica algo que contradiz o que Ele disse antes. No último caso, devemos aceitar uma das três coisas: ou em certas fases a Igreja falhou em obedecer ao Espírito Santo, ou o Espírito Santo está sujeito a mudanças, ou Ele carrega contradições dentro de si.

Outra consequência dessa visão de mundo é uma mudança na forma como entendemos a Igreja e a Tradição. A Igreja já não é vista como uma comunidade que une os fiéis e transcende o tempo, como afirma a Fé católica, mas como um conjunto de grupos pertencentes às várias fases. Esses grupos não têm mais uma linguagem comum: nossos ancestrais não tinham acesso ao que o Espírito Santo nos diz hoje. A própria Tradição não é mais uma mensagem continuamente estudada; consiste antes em receber continuamente coisas novas do Espírito Santo. Em vez disso, passamos a ouvir, como em sua Carta aos Bispos, Santo Padre, da“dinâmica da Tradição”, muitas vezes com uma aplicação a eventos específicos. Um exemplo disso é quando o senhor escreve que a “última etapa desta dinâmica é o Concílio Vaticano II, durante o qual os bispos católicos se reuniram para ouvir e discernir o caminho mostrado à Igreja pelo Espírito Santo”. Esta linha de raciocínio implica que uma nova fase requer novas formas litúrgicas, porque as anteriores eram adequadas à fase anterior, que acabou. Uma vez que essa sequência de estágios é sancionada pelo Espírito Santo, por meio do Concílio, aqueles que se apegam às formas antigas, apesar de terem acesso às novas, se opõem ao Espírito Santo.

Essas opiniões, no entanto, são contrárias à Fé. A Sagrada Escritura, norma da Fé católica, não fornece nenhuma base para tal compreensão da história.Em vez disso, ensina-nos uma compreensão totalmente diferente. O Rei Josias, tendo sabido da descoberta do antigo livro da Lei, ordenou que a celebração da Páscoa fosse conduzida de acordo com ela, apesar de uma interrupção de meio século (2 Rs 22-23). Da mesma forma, Esdras e Neemias no retorno do cativeiro babilônico celebraram a Festa dos Tabernáculos com todo o povo, estritamente de acordo com os antigos registros da Lei, apesar de muitas décadas terem se passado desde a celebração anterior (Ne 8). Em cada caso, os antigos documentos da lei foram usados ​​para renovar o culto divino após um período de turbulência. Ninguém exigiu uma mudança no ritual com o fundamento de que novos tempos haviam chegado.

2) Nominalismo. Enquanto o hegelianismo influencia a compreensão da história, o nominalismo afeta a compreensão da unidade. O nominalismo implica que introduzir unidade externa (por meio de uma decisão administrativa de cima para baixo) é equivalente a alcançar a unidade real. Isso ocorre porque o nominalismo abole a realidade espiritual, procurando apreendê-la e regulá-la com medidas materiais. O senhor escreve, Santo Padre, que: “É para defender a unidade do Corpo de Cristo que sou forçado a retirar a faculdade concedida pelos meus predecessores”. Mas para alcançar esse objetivo, a verdadeira unidade, seus antecessores tomaram a decisão oposta, e não sem razão. Quando se compreende que a verdadeira unidade inclui algo espiritual e interno e, portanto, difere da mera unidade externa, não se busca mais simplesmente a uniformidade dos signos externos. Não obtemos verdadeira unidade desta forma.

A unidade não resulta da retirada de faculdades, da revogação do consentimento e da imposição de limitações. O rei Roboão, de Judá, antes de decidir como tratar os israelitas, que desejava que ele melhorasse sua sorte, consultou dois grupos de conselheiros. Os mais velhos recomendavam clemência e redução dos fardos das pessoas: a idade, na Sagrada Escritura, muitas vezes simboliza a maturidade. Os jovens, que eram contemporâneos do rei, recomendavam o aumento de seus fardos e o uso de palavras duras: juventude, nas Escrituras, muitas vezes simboliza imaturidade. O rei seguiu o conselho dos jovens. E falhou em trazer unidade entre Judá e Israel. Ao contrário, deu início à divisão do país em dois reinos (1Rs 12). Nosso Senhor curou essa divisão por meio da brandura, sabendo que a falta dessa virtude havia causado a divisão.

Antes do Pentecostes, os apóstolos avaliavam a unidade por critérios externos. Esta abordagem foi corrigida pelo próprio Salvador, que, em resposta às palavras de São João: “Mestre, vimos um homem expulsar os espíritos malignos em teu nome e não o deixamos fazê-lo, porque ele não era um de nós ”, respondeu“ Deixe-o, porque quem não é contra vós está convosco ”(Lc 9,49-50, cf. Mt 9,38-41). Santo Padre, o senhor teve muitas centenas de milhares de fiéis que “não eram contra” o senhor. E fez muito para tornar as coisas difíceis para eles! Não teria sido melhor seguir as palavras do Salvador indicando um fundamento espiritual de unidade mais profundo? O hegelianismo e o nominalismo freqüentemente tornam-se aliados, pois a compreensão materialista da história leva à convicção de que cada etapa deve terminar irrevogavelmente.

3) Crença na onipotência do Papa. Quando o Papa Bento XVI concedeu maior liberdade para o uso da forma clássica da liturgia, ele se referiu a um costume e séculos de uso. Isso forneceu uma base sólida para sua decisão. A decisão de Vossa Santidade não se baseia em tais fundamentos. Pelo contrário, revoga algo que existe e dura há muito tempo.  O senhor escreve, Santo Padre, que encontra apoio nas decisões de São Pio V, mas ele aplicou critérios exatamente opostos aos seus. Segundo ele, o que existiu e durou séculos continuaria sem ser perturbado; apenas o que era mais recente foi revogado. A única base que resta para sua decisão é, portanto, a vontade de uma pessoa dotada de autoridade papal. Pode esta autoridade, embora, por maior que seja, impedir que os antigos costumes litúrgicos sejam uma expressão da lex orandi da Igreja Romana? Santo Tomás de Aquino se pergunta se Deus pode fazer com que algo que existiu nunca tenha existido. A resposta é não, porque a contradição não faz parte da onipotência de Deus (Summa Theologiae , p. I, qu. 25, art. 4). Da mesma forma, a autoridade papal não pode fazer com que rituais tradicionais que tenham expressado a Fé da Igreja ( lex credendi ) por séculos, de repente, um dia, não mais expressem a lei da oração da mesma Igreja ( lex orandi ). O Papa pode tomar decisões, mas não aquelas que violam uma unidade que se estende ao passado e ao futuro, muito além da duração de seu pontificado. O Papa está ao serviço de uma unidade maior do que a sua autoridade. Pois é uma unidade dada por Deus e não de origem humana. Portanto, é a unidade que tem precedência sobre a autoridade, e não a autoridade sobre a unidade.

4) Responsabilidade coletiva. Indicando os motivos da sua decisão, Santo Padre, o senhor faz várias e graves acusações contra aqueles que exercem as faculdades reconhecidas pelo Papa Bento XVI. Não é especificado, entretanto, quem comete esses abusos, nem onde, nem em que número. Existem apenas as palavras “frequentemente” e “muitos”. Nem sabemos se é maioria. Provavelmente não. Ainda que não a maioria, mas todos aqueles que fazem uso das faculdades acima mencionadas, foram afetados por uma sanção penal draconiana. Eles foram privados de seu caminho espiritual, imediatamente ou em algum momento futuro não especificado. Certamente há pessoas que fazem mau uso de facas. Deve a produção e distribuição de facas, portanto, ser proibida? Sua decisão, Santo Padre, é muito mais grave do que seria o hipotético absurdo de uma proibição universal de fazer facas.

Santo Padre: por que está fazendo isso? Por que  atacou a sagrada prática da antiga forma de celebrar o Santíssimo Sacrifício de Nosso Senhor? Os abusos cometidos sob outras formas, por mais difundidos ou universais que sejam, não conduzem a nada além de palavras, a declarações expressas em termos gerais. Mas como se pode ensinar com autoridade que “o desaparecimento de uma cultura pode ser tão grave, ou até mais grave, do que o desaparecimento de uma espécie de planta ou animal” ( Laudato si  145), e alguns anos depois, com um único ato, destinar à extinção grande parte do patrimônio espiritual e cultural da própria Igreja? Por que as regras de “ecologia profunda” formuladas pelo senhor não se aplicam neste caso?Em vez disso, por que não perguntou se o número cada vez maior de fiéis que assistem à liturgia tradicional poderia ser um sinal do Espírito Santo? O senhor não seguiu o conselho de Gamaliel (Atos 5). Em vez disso, o senhor os atingiu com uma proibição que nem mesmo tinha vacatio legis .

O Senhor Deus, modelo para os governantes terrenos e, em primeiro lugar, para as autoridades da Igreja, não usa Seu poder dessa forma. A Sagrada Escritura fala assim a Deus: “Porque o teu poder é o princípio da justiça: e porque tu és o Senhor de todos, te fazes misericordioso para com todos (…) Mas tu, sendo dono do poder, julgas, e com grande favor, livra-nos de nós : porque o teu poder está perto quando a tua vontade ”(Sb 12, 16-18). O verdadeiro poder não precisa se provar com aspereza. E a severidade não é um atributo de qualquer autoridade que segue o modelo divino. O próprio Salvador nos deixou um ensinamento preciso e confiável sobre isso (Mt 20,24-28). Não apenas o tapete foi puxado, por assim dizer, debaixo dos pés das pessoas que caminhavam em direção a Deus; foi feita uma tentativa de privá-los do próprio terreno em que pisam. Esta tentativa não terá sucesso. Nada que esteja em conflito com o catolicismo será aceito na Igreja de Deus.

Santo Padre, é impossível experimentar o solo sob os pés por 12 anos e de repente afirmar que ele não está mais lá. É impossível concluir que minha própria mãe, encontrada depois de muitos anos, não é minha mãe. A autoridade papal é imensa. Mas mesmo esta autoridade não pode fazer minha mãe deixar de ser minha mãe! Uma única vida não pode suportar duas rupturas mutuamente exclusivas, uma das quais abre um tesouro, enquanto a outra afirma que esse tesouro deve ser abandonado porque o seu valor expirou. Se eu aceitasse essas contradições, não poderia mais ter nenhuma vida intelectual, nem, portanto, nenhuma vida espiritual. A partir de duas declarações contraditórias, qualquer afirmação, verdadeira ou falsa, pode ser feita a seguir. Isso significa o fim do pensamento racional, o fim de qualquer noção de realidade, o fim da comunicação efetiva de qualquer coisa a qualquer pessoa. Mas todas essas coisas são componentes básicos da vida humana em geral e da vida dominicana em particular.

Não tenho dúvidas sobre minha vocação. Estou firmemente decidido a continuar minha vida e serviço dentro da Ordem de São Domingos. Mas, para fazer isso, devo ser capaz de raciocinar correta e logicamente. Depois de 16 de julho de 2021, isso não é mais possível para mim dentro das estruturas existentes. Vejo com toda a clareza que o tesouro dos santos ritos da Igreja, o solo sob os pés de quem os pratica e a mãe da sua piedade, continua a existir. Tornou-se igualmente claro para mim que devo testemunhar isso.

Não me resta escolha senão voltar-me para aqueles que, desde o início das mudanças radicais (mudanças, note-se, que vão muito além da vontade do Concílio Vaticano II), defenderam a Tradição da Igreja, juntos com o respeito da Igreja pelas exigências da razão e que continuam a transmitir aos fiéis o depósito imutável da Fé católica: a Fraternidade Sacerdotal São Pio X. A FSSPX mostrou-se disposta a aceitar-me, respeitando plenamente a minha identidade dominicana. Proporciona-me não só uma vida de serviço a Deus e à Igreja, um serviço não impedido por contradições, mas também a oportunidade de me opor às contradições que são inimigas da Verdade e que atacaram a Igreja com tanto vigor.

Existe uma situação de controvérsia entre a FSSPX e as estruturas oficiais da Igreja. É uma disputa interna da Igreja e diz respeito a assuntos de grande importância. Os documentos e as decisões de 16 de julho fizeram com que minha posição sobre este assunto convergisse com a da FSSPX. Como no caso de qualquer disputa importante, esta também deve ser resolvida. Estou determinado a dedicar meus esforços para esse fim. Pretendo que esta carta seja parte desse esforço. Os meios usados ​​só podem ser um humilde respeito pela Verdade e gentileza, ambos provenientes de uma fonte sobrenatural. Assim, podemos esperar a solução da controvérsia e a reconstrução de uma unidade que abrangerá não apenas os que vivem agora, mas também todas as gerações, passadas e futuras.

Agradeço-lhe a atenção que dispensou às minhas palavras e rogo, Santíssimo Padre, a sua bênção apostólica.

Com devoção filial em Cristo,
Fr. Wojciech Gołaski, OP
29 outubro, 2021

As verdadeiras intenções por detrás do Sínodo.

Por FratresInUnum.com, 29 de outubro de 2021 – O objetivo da presente análise é apresentar ao leitor uma chave de leitura adequada para que possa compreender o significado do atual Sínodo sobre a sinodalidade, transcendendo o nível das superficialidades institucionalistas, por detrás das quais se escondem as verdadeiras intencionalidades.

Uma palestra importante

Diocese de Ponta Grossa se prepara para o Sínodo 2023 | Correio dos Campos  - Notícias dos Campos GeraisNo último dia 14 de outubro, a Diocese de Palmas-Francisco Beltrão promoveu uma noite de formação com todos os seus agentes de pastoral, sobre o Sínodo dos bispos. O convidado foi o Pe. Agenor Brighenti, conhecido teólogo ultra-progressista e adepto declarado da teologia da libertação.

Ele é uma importante referência, acima de qualquer suspeita de direitismo ou conservadorismo, e também goza do benefício da oficialidade, já que recentemente foi nomeado como membro da Comissão Teológica do sínodo e, portanto, não pode ser acusado de “estar por fora”.

A palestra de Brighenti é a melhor exposição que encontramos até agora das pretensões do Sínodo dos Bispos sobre a sinodalidade. Vamos resumir as suas ideias principais.

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25 outubro, 2021

Papa, Papado, Papismo.

Por Padre Antonio Mariano – FratresInUnum.com, 25 de outubro de 2021: Diante de uma crise cada vez maior na Santa Igreja, e uma crise que parece abalar um dos seus pilares que é o Papado, creio que talvez possa ajudar com alguma reflexão.

Eu sei que pode parecer frase de para-choque de caminhão, mas tempos difíceis não favorecem respostas fáceis. Diante da crise na Igreja, particularmente orbitada em torno da figura de Francisco, há, em minha opinião, duas respostas fáceis: o papismo e o sedevacantismo. Realmente os extremos se tocam.

O Papismo, que vemos seguido cegamente por todos aqueles que conseguiram algum status canônico na Igreja, justamente para o conservar, leva a considerar cada espirro de Francisco como um sopro do Espírito Santo para a Igreja. Francisco se torna a regra da fé.

Dentro da posição que chamo de Papista, podemos ainda encontrar grupos completamente opostos, que ou farão algum malabarismo silogístico para forçar todas as declarações de Francisco como verdadeiramente católicas, e acabarão se parecendo como aquela personagem de um programa humorístico que, por ser surda, dizia algo completamente diferente do que realmente foi dito. E também estão os papistas que nasceram no dia da eleição de Francisco, e que sempre se opondo aos Papas anteriores quando reafirmavam as coisas mais óbvias da fé, tornaram-se o mais fiel eco do novo Pontífice.

Isso não é por acaso.

Por exemplo: Francisco diz que os divorciados recasados devem ser acompanhados sacramentalmente. E isso é absolutamente verdadeiro. Mas também completamente dúbio.

É verdadeiro, porque o fato de que uma pessoa tenha se divorciado e se casado novamente não significa que ela não possa ter a decisão correta de, ao tomar consciência de seu estado de adultério, privar-se das intimidades conjugais, permanecendo, porém, sob o mesmo teto por alguma causa grave. Essa pessoa deve ser acompanhada sacramentalmente.

Mas os novos papistas dirão: “comunhão para todo mundo!”

Na primeira interpretação, veremos os ditos “conservadores” e, na segunda, os “progressistas”.

Seria louvável o esforço dos conservadores em espremer as declarações de Francisco na esperança de encontrar uma gota de ortodoxia se não caíssem, muitas vezes, em uma verdadeira desonestidade intelectual.

Parece termos diante de nós duas aves: um avestruz e um papagaio. Um mergulha a cabeça no buraco para não ver e o outro não se cansa de repetir os mantras do atual pontificado.

Diante do caos, surge então a outra resposta fácil: Francisco não é Papa.

A resposta é razoavelmente fácil, porque sendo assim, estamos diante de um antipapa que usurpou o trono de S. Pedro e que só merece o desprezo dos fiéis. Nessa questão, é necessário também considerar quando a Sé ficou vacante. Desde Pio XII? Desde João XXIII? Com o encontro de Assis feito por João Paulo II? Quando Bento XVI entrou numa mesquita? Ou na eleição de Francisco?

Essa resposta é razoavelmente fácil, mas traz conseqüências desastrosas porque, no final das contas, quem seria o verdadeiro clero? Qual missa seria lícita? Porque, se não há Papa e se nomeia um Papa no Cânon, isso seria um pecado… E, como se restabeleceria a ordem na Igreja se todos os Bispos e Padres não foram ordenados licitamente, ou mesmo validamente, nem receberam alguma real jurisdição? Isso sem falar no Colégio Cardinalício…

O sedevacantismo, em certo sentido, apazigua a consciência, mas cria muitos mais problemas que soluções.

Na atual circunstância, penso que manteremos nossa posição católica recorrendo à instituição do Papado, que é divina, e considerando em segundo lugar aquele que é o Papa.

O amor intelectual ao Papado deve ser maior que o amor sentimental ao Papa. Nesse sentido, consideraremos com a devida serenidade a situação de S. Vicente Ferrer e S. Catarina de Sena que chegaram a apoiar dois Papas diferentes (portanto um seria o antipapa, no caso, o de S. Vicente Ferrer) ou a exortação de S. João Bosco de que seus jovens não dissessem “Viva Pio IX!”, mas “Viva o Papa!”.

Os sedevacantistas geralmente assim se tornam porque, tal como os papistas, absolutizam o dogma da infalibilidade, que está estabelecido em circunstâncias bem peculiares. Não se trata de uma mágica ou de uma “possessão de algum espírito”, como já chegaram a afirmar os sedevacantistas, mas, sim, as ocasiões em que um Papa gozaria da infalibilidade seriam realmente bem raras.

É por isso que o amor ao Papado e a caridade para com o Pontífice levariam a resistir-lhe quando suas ações ou palavras não correspondessem à Fé da Igreja.

Penso no sermão que Dom Lefebvre proferiu nas sagrações episcopais, em Ecône, em 1988, no qual ele diz que “apesar de desejar, não poderia se submeter às autoridades romanas”. Creio que essa frase manifesta o ponto de equilíbrio e de justiça na atual situação.

Querer se submeter às autoridades romanas. A posição de Dom Lefebvre não parte de uma negação de que não exista mais autoridade, ao contrário, ele reconhece as autoridades e quer estar submetido a elas.

Porém, o que essas autoridades lhe pedem vai contra o que os antecessores dessas mesmas autoridades estabeleceram. Diante disso, a atitude que se toma é resistir a essas autoridades, crendo que um dia o Bom Deus trará essas autoridades à verdadeira fé.

Isso é muito difícil.

Pense num filho cujo pai é alcoólatra.

Ele ama seu pai, no entanto (e justamente por isso) deve reprovar suas atitudes e não compactuar jamais com seu vício, e ao mesmo tempo “desobedecer” as ordens iníquas que seu pai eventualmente lhe der.

Esse filho, ama e conhece a paternidade, sabe que é um dom de Deus e que ele, como filho, deveria se submeter. Porém, isso não é possível, porque aquele que ocupa esse lugar faz mal uso. Portanto, cabe ao filho, por amor a Deus, por amor à paternidade e por amor ao pai, resistir.

Que angústia não sente esse filho.

Que angústia sentimos nós.

Aquele que se alegra por não se submeter ao Papa não é católico.

Mas hoje, o Senhor nos convida, no passo da Paixão em que está a Santa Igreja, a bebermos do cálice da angústia e comer do pão das lágrimas.

Bebamos até a última gota, recolhamos cada migalha desse pão. Crendo que, não por acaso, o salmo com o qual começamos a Santa Missa seja um apelo de uma alma angustiada, injustiçada, perseguida, cuja única esperança é esperar no Senhor.

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23 outubro, 2021

Vox Populi = Vox Dei? (A voz do Povo é a voz de Deus?)

“A escuta na 1° Assembleia Eclesial para a América Latina”, um resumo.

Por Que no te la cuenten, 19 de outubro de 2021 | Tradução: FratresInUnum.com – No último 21 de setembro, publicou-se a “Síntese narrativa: a escuta na 1° Assembleia eclesial para a América Latina e o Caribe – CELAM” (224 páginas que lemos antecipando seu advento), conclusão “NÃO OFICIAL” segundo seus apresentadores (p. 2) de cinco meses de “escuta ao povo de Deus” através de respostas e contribuições por meio da página da “Assembleia sinodal” do CELAM.

Como habitualmente sucede nestes casos, as “propostas” não somente parecem ter sido elaboradas por certos grupos ideológicos minoritários, encravados nas estruturas de poder eclesial, como também selecionadas com uma finalidade muito precisa: “o processo de conversão da Igreja” (p. 1).

A técnica não é nova (algo parecido já ocorreu no Congresso Americano Missionário na Bolívia e no Sínodo dos Jovens de 2018): trata-se da repetição constante com a finalidade de tentar impor “desde baixo” os novos “paradigmas eclesiais” como o das diaconisas, o “sacerdócio feminino”, a “abertura à homossexualidade na Igreja” e a teologia do povo e da libertação, entre outras coisas.

Com o objetivo de expor que “o povo levantou” é que oferecemos, aqui, algumas pérolas extraídas deste documento que, mais do que uma síntese, acaba por ser um “copia-e-cola” de propostas individuais, teologicamente desordenadas, sem muito método nem lógica que, apesar disto, “conecta-se com o Sínodo da Igreja Universal sobe Sinodalidade, no qual estaremos compartilhando os diversos frutos desta experiência como Assembleia Eclesial que segue o seu caminho” (p. 2)

Vejamos alguns dos textos propostos como parte do “povo santo de Deus”, “que é infalível in credendo” (Mensagem de abertura da 1° Assembleia Eclesial da ALyC do CELAM (p. 1), vários deles intitulados (sic) como “pérolas” das “vozes do povo de Deus”.

As seguintes são algumas citações textuais (o documento completo pode ser consultado aqui):

Teologia da Libertação

“Promover uma teologia da libertação, libertadora, que nos permita conectar-nos efetivamente ao projeto libertador de Jesus, que nos permita reconhecer as estruturas de poder e opressão, que facilite o encontro, o diálogo e que promova os gestos e atitudes de esperança para viver um ministério eclesial vivo. Voltar às fontes, como nos convida o Papa Francisco, e retomar seu compromisso inicial de deixar tudo para servir e fazer Jesus conhecido. Que tenha preferência pelos pobres e vulneráveis de nosso continente. Voltar à mensagem de Aparecida e retomar a Teologia da Libertação sem medo de censuras, mas com a certeza de ir pelo caminho correto” (p. 25). “Hoje contamos com a imagem de uma Igreja sem voz, cinza, que não atualiza a mensagem do Concílio Vaticano II, que não projeta a mensagem libertadora de Aparecida, nem as exigências da Teologia da Libertação” (p. 26)

Educação global e marxista

“Vozes do povo de Deus. Pérolas (sic): sigamos sonhando com o pacto global pela educação porque a educação é a porta de entrada a dias melhores na sociedade. Cremos firmemente que o acesso à educação é um direito, por isso a necessidade de um “Pacto Global pela Educação… liberar a educação, como defende Paulo Freire (e outros) é o caminho para uma sociedade em que cada cidadão está sujeito (cidadania ativa)” (p. 48)

O mundo protestante

“Vozes do povo de Deus. Pérolas (sic): “A Igreja Católica não considera as igrejas PROTESTANTES como perigo para a fé, ao contrário, são formas distintas de crer em Deus (…). “Os pastores e fiéis PROTESTANTES são mais entusiastas, ativos e ‘em saída’” (p. 86)

“O crescimento constante das IGREJAS EVANGÉLICAS e pentecostais em nossa comunidade em troca de receber bens materiais para melhorar sua qualidade de vida” (idem)

Sacerdócio e diaconato feminino

Presença e participação sem voz da mulher na Igreja: Reconhece-se sua presença e a participação… mas, muitas vezes, de forma passiva, submissa e sem voz nas instâncias de decisão eclesial. Ministerialidade da mulher: é necessário a formação e o reconhecimento da Ministerialidade da mulher em uma Igreja em saída, incluindo o diaconato feminino (…). Respeito e igualdade de opões que os sacerdotes e bispos têm dentro das comunidades eclesiais (p. 95)… “Pedir mudanças no direito canônico e na estrutura eclesial para que as mulheres assumam ministérios eclesiais / refletir seriamente e abrir-se à possibilidade de ministérios ordenados (Diaconato, ministério presbiteral)” (p. 97)

“A Igreja não pode permanecer estagnada, mas se requer uma adoção de medidas transformadores, reconhecer que se cometeram e se cometem injustiças especialmente com a mulher dentro da Igreja. Desmistificar o templo, tirar a Eucaristia dos templos e trazê-la à vida comum. Combater o clericalismo e optar por uma igreja sinodal (caminhando com todos/todas sem exclusão de ninguém), com a construção de estruturas fraternas” (p. 100)

“(Vozes do povo de Deus. Pérolas). Falta valorizar o trabalho pastoral e a missão de evangelização da mulher. Criar o diaconato da mulher” (p. 188).

“Não há somente a necessidade de mulheres diaconisas, mas são uma realidade. Uma igreja sinodal merece mulheres diaconisas” (p. 189)

Sacerdotes casados e celibato opcional

“Que se promova um departamento de ação pastoral nas conferências episcopais e no CELAM para o acompanhamento, atenção e diálogo constante com os sacerdotes casados”.

“Que se promova, a nível profissional, desde a dimensão humana, psicológica, filosófica e teológica uma comissão de estudo que forneça luzes sobre o celibato opcional, que apresente uma nova dimensão do ministério sacerdotal condizente à realidade atual”.

“Analisar a necessidade do celibato opcional como uma resposta às problemáticas que se apresentam na vida sacerdotal”.
“Que se considere a experiência dos sacerdotes casados na vida cristã como igreja doméstica, pastoral, sacerdotal, profissional, empresarial, laboral, educativa para que contribua com o crescimento da vida diocesana e paroquial” (p. 123)

Aceitação da homossexualidade

“A homossexualidade no clero tem silenciosamente disfarçado o cumprimento do celibato… a Igreja já não representa uma espiritualidade viva. A redução do cristianismo a alguns eventos sacramentais administrados pela casta clerical condenou a imensa maioria de fiéis a um papel passivo… por exemplo, os discursos de moral sexual da parte da Igreja já não têm nenhuma relação com a vida dos fiéis” (p. 124)

O que dói: “Dor pela indiferença da Igreja frente ao tema da Diversidade Sexual. É a dor das pessoas LGBTIQ+ ao sentirem-se rechaçadas pela Igreja, frente a sua orientação sexual… constatar que em alguns púlpitos há presbíteros que repetem e reiteram o rechaço à diversidade sexual. Dor e decepção daqueles colégios católicos que não acolhem com respeito, tolerância ativa e inclusão a orientação sexual de filhos e filhas. Preocupação que depois de cinco anos de Amoris Laetitia não avançou em praticamente nada, especialmente no que se refere à educação do clero e da hierarquia face à diversidade sexual.

“Algumas novas instâncias eclesiais que apareceram estes últimos anos que promovem a participação laical e o respeito à diversidade sexual. Da esperança à participação cidadã e movimentos sociais (incluindo o LGBTQI+) que propiciam novas possibilidades de diálogo, mais centradas na pessoa e no bem comum, questionando o modelo atual” (p. 198).

Evangelização a partir da base

(Vozes do povo de Deus. Pérolas): “DEIXAR-SE EVANGELIZAR PELOS POVOS onde se encontram as sementes o Reino que se constrói na terra, em um tempo e espaço determinados” (p. 118)… “A Igreja precisa escutar à sabedoria ancestral, reconhecer os valores presentes no estilo de vida das Comunidades Originárias” (p. 119)

* * *

Estas e muitas outras coisas são as que alguns, abrogando-se da representação do “Santo Povo de Deus” (assim, com maiúscula), desejam impor com certa pressa, como se lhes faltasse pouco tempo.

Que no te la cuenten…

Pe. Javier Olivera Ravasi, SE

19 outubro, 2021

CNBB, o teatro e a mordaça.

Por FratresInUnum.com, 19 de outubro de 2021 – Ontem, o Deputado Frederico D’Ávila (PSL-SP) publicou uma carta aberta em que pede desculpas pelo excesso de suas afirmações contra Dom Orlando Brandes, a CNBB e o Papa Francisco. Ele diz: “meu pronunciamento, que admito ter sido inapropriado e exagerado pelo calor do momento, se deu em resposta a alguns líderes religiosos que ultrapassam os limites da propagação da fé e da espiritualidade para fazer proselitismo político. Reitero que desculpo-me pelas palavras e exagero”.

Mesmo assim, a CNBB está resolvida a fazer pressão sobre a  Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (ALESP) pedindo a cabeça do deputado. Não, não há misericórdia para ele. Eles pediram uma “correção exemplar” para Frederico d’Ávila. Dom Pedro Luiz Stringhini, presidente do regional Sul 1 da CNBB, foi pessoalmente para uma conversa com o presidente Carlão Pignatari, juntamente com dois padres (um dos quais, incardinado e em exercício de ministério na diocese de Taubaté, deputado estadual pelo PV, Afonso Lobato) e os deputados Reinaldo Alguz (PV), André do Prado (PL) e Emídio de Souza (PT).

Numa medida desproporcional e espetaculosa, a CNBB está mobilizando todos os seus esforços para dar a impressão de uma indignação nacional. Contudo, o método utilizado foi muito bem exemplificado pelo bispo de Itapeva, Dom Arnaldo Neto.

Num ato de desagravo (!!!) ao Papa, a Dom Orlando Brandes e à CNBB, ele expulsa da Igreja e pede para nunca mais voltar todo fiel que critica a CNBB, o Papa e a Campanha da Fraternidade (!!!). E ameaça: “com Deus não se brinca!”. No final, conclui: “Peço à PASCOM que faça em todos os lugares um texto em desagravo a Dom Orlando Brandes”.

Em outras palavras, o que está acontecendo desde o último domingo é um teatro calculado para causar uma impressão em si mesma falsa: a impressão de que há uma indignação por parte do povo católico, indignação que não existe. A metodologia é simples: a CNBB publica uma carta aberta, as dioceses e os bispos replicam; membros de dezenas de organismos minúsculos ou de instituições da Igreja começam a fazer notas a pedido de leigos engajados — no caso de Itapeva, do bispo mesmo!; na sequência, organismos mais discretos aderem por bom-mocismo ou medo; cria-se um alvoroço infernal que, no fundo, não tem nada de susbtancioso… O bom povo católico permanece frio e indiferente, torcendo mesmo é pela briga!

Quando a gente deixa a superfície e vai ao fundo da polêmica, percebe que ela não passa de uma grande bolha de sabão, produzida artificialmente por estes mesmos organismos que vivem acusando o presidente da república de ter uma rede de fakenews. Tudo não passa de uma articulação de fachada para criar nos parlamentares paulistas, desacostumados com pressões desta natureza, o pânico de se verem pressionados a fim de lhes proporcionar o enforcamento de um Judas neste “sábado de aleluia” fora de época.

A primeira finalidade dessa representação grotesca é criar um precedente político e jurídico que iniba as críticas à CNBB oriundas da população em geral. O povo já não tem mais respeito algum por essa entidade e isso pode ser facilmente comprovado nos comentários das pessoas normais nas próprias mídias sociais da instituição. Não é necessário fazer grandes especulações. Basta olhar em redor e perceber que as pessoas não estão dando a mínima atenção para este problema.

A segunda é fazer politicagem, como é praxe da CNBB: preparar o terreno para as eleições de 2022, em que ela poderá se dizer vítima da tal “violência da direita” alardeada pelo mesmo Dom Orlando Brandes, a fim de minar o espaço para candidatos conservadores entre os fieis.

O desespero por transformar a fala do deputado numa perseguição sanguinolenta digna de um Nero chegou ao ponto de pedirem uma nota ao CELAM – mais um ato deste teatro fake, sob medida, para dar a este episódio provinciano as dimensões de uma guerra mundial –, coisa bem adequada a Dom Odilo, que é membro do Conselho Diretivo, e assina a missiva. Dizendo-o doutro modo, são sempre os mesmos personagens, em posições diferentes, para dar a impressão de algo grandioso.

A verdade é que o deputado Frederico d’Ávila cometeu um destempero, pelo qual ele já se desculpou, mas deu voz às queixas de milhares de fieis tanto contra a fala de Dom Brandes quanto contra as posturas esquerdistas habituais da CNBB. Não há nenhum escândalo verdadeiro por parte dos fieis, mas apenas um fingimento histérico, calculado para ser usado politicamente como mordaça pela CNBB contra os seus críticos. Estão todos estes bispos e padres dando uma carteirada clerical para usar a ALESP e o poder judiciário como arma contra os seus desafetos. É tudo só isso!

Se os deputados da ALESP vão cair nesta comédia, não sabemos, mas, se o bom senso prevalecer, toda essa pirotecnia terminará no vazio.

18 outubro, 2021

O ruim e o pior. A fala do Deputado e a reação da CNBB.

Por FratresInUnum.com, 18 de outubro de 2021 – Na Solenidade de Nossa Senhora Aparecida, o arcebispo Dom Orlando Brandes fez, em seu sermão, uma afirmação politizada que despertou a cólera dos católicos: “Para ser pátria amada não pode ser pátria armada”. A retórica politiqueira é recorrente na boca de Dom Brandes na festa da padroeira. A tentação de transformar o altar em palanque é, para ele, irresistível demais. Não faltaram reações de crítica, muitas delas bastante contundentes, tanto por parte dos fiéis, quanto por parte dos jornalistas. O povo, em geral, desaprovou a “indireta” do arcebispo e o criticou duramente pelas redes sociais.

A Postagem | Padres contra o fascismo: Leia a carta assinada por 400 padres  contra Bolsonaro.Pois bem, dois dias depois, no dia 14 de outubro, o Deputado Estadual Frederico D’Ávila (PSL-SP) fez um veemente pronunciamento na Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (ALESP), em que xinga Dom Orlando Brandes, a CNBB e o Papa Francisco. Houve destempero em sua fala, o que o faz perder muito de sua razão.

Ontem, a CNBB lançou uma forte carta ao presidente da ALESP praticamente pedindo a cabeça do deputado e dizendo que vão usar a força judicial contra ele. Em todos estes anos, talvez a missiva de ontem tenha sido o escrito mais agressivo da CNBB; nada de diálogo nem de misericórdia.

Na sequência, numerosos bispos, padres e leigos replicaram a nota em suas redes sociais, na mais rasgada demonstração de corporativismo, que é, no final das contas, a única religião do clero e do laicato engajado. Não existe mais a Fé católica nem os valores morais cristãos, não existe mais a honra de Deus nem a defesa da nossa santa religião, a única coisa que restou é a replicação das posições institucionais e a defesa dessas mesmas instituições; em suma, o bom-mocismo característico de uma sociedade hierárquica que já não tem mais convicções profundas.

Quiséramos ver tal demonstração de zelo quando a imagem de Nossa Senhora Aparecida foi profanada num muro da cidade de São Paulo. Ali, Dom Odilo Scherer não fez nenhuma live de execração; mas ontem ele a fez para defender a CNBB. Em outras palavras, para ele e para os demais, a CNBB está acima de Nossa Senhora e merece defesa mais do que Ela. É isso que ele está confessando com os seus atos, ainda que de maneira insconsciente, pois esta cegado pelo bom-mocismo institucionalista.

Do mesmo modo, não param de acontecer profanações, blasfêmias e até sacrilégios por todo o país. Deus tem sido continuamente ofendido, até escolas de samba agridem a Cristo de forma proposital, enquanto o clero católico permanece imobilizado e mudo, como cães que não sabem ladrar.

Contudo, a verdadeira razão que está por traz de tão cenográfico chilique é evidentemente, aliás, como sempre, de natureza política. O parlamentar ousou atacar a teologia da libertação e colocou o dedo na ferida: o clero progressista é apenas panfletário do petismo mais rançoso que existe, daquele esquerdismo que abençoa invasões de terra e subscreve as ações da Via Campesina. Além do mais, foi eleito pelo PSL, partido que elegeu o presidente Bolsonaro. Eles se sentiram instigados em seu brio, o veneno da jararaca gritou feito demônio, foi impossível conter a manifestação de ódio e de rixa.

Com tamanha efervescência de instintos tão animais, quem na CNBB seria capaz do bom senso de perceber que o deputado se excedeu, mas deu voz à revolta de milhares de fiéis? Quem tem a sapiência de tirar a conclusão de que a Igreja está por demais politizada num país dividido e que ela, a CNBB, é culpada por parte desta divisão, da qual se tornou vítima? Quem tem a lucidez de perceber que o cenário que se abre para 2022 requer do clero muito comedimento, porque a situação será profundamente mais agressiva que em 2018?

A resposta é simples: praticamente ninguém, pois os poucos sensatos jamais serão ouvidos por bispos que foram treinados para serem cabos eleitorais fanáticos de um partido político dos mais vergonhosos que jamais existiram neste país. Eles são os petistas mais fanáticos e pretendem mais uma vez usar a máquina eclesial como ferramenta de campanha para o Lula em 2022.

Dito de outro modo, tudo se resume a isto: a campanha eleitoral já começou e quase ninguém ainda se deu conta!

A declaração do deputado foi ruim, mas a reação da CNBB e asseclas foi pior. Não há nada para ser louvado em todo esse evento, a não ser a sensatez do povo, que manifestou o seu repúdio sem perder o respeito pela Igreja, como de praxe em todo fiel católico brasileiro, que há décadas tem de aguentar a apostasia esquerdista dos seus pastores sem perder a linha nem a reverência pela sua santa religião.

E, para a CNBB um recadinho bem à moda do povo: “quem fala o que quer, escuta o que não quer”. E ainda mais: “aceita, que dói menos”. Dom Orlando quis usar o monopólio do microfone para soltar indiretas contra o presidente sem lhe dar direito de resposta, mas a resposta veio. E veio amarga. Agora, aguente!

17 outubro, 2021

Profanações.

Por Padre Antônio Mariano – FratresInUnum.com, 17 de outubro de 2021: Nos últimos dias, chegaram várias notícias cujo pano de fundo é o mesmo: a profanação.

A Catedral de Toledo, uma Igreja Paroquial em Manaus, uma Basílica Romana… E esses foram os que se tornaram públicos. 

A picture of corals as part of art projection featuring images of humanity and climate change of Artistic rendering by Obscura Digital is projected onto the faade of St. Peter's Basilica at the Vatican

E não foram poucos os que manifestaram perplexidade diante desses eventos, que, num olhar atento, desgraçadamente não são tão raros.

A que ponto chegamos? Ver nossas Igrejas cedidas para clipes que incentivam o pecado, particularmente o pecado contra a natureza que brada ao céu, ou ver uma paródia sacrílega da Pietà composta por dois homens nús, onde recordamos de um dos pecados contra o Imaculado Coração de Maria que é a falta de respeito para com suas sagradas imagens!

Cada vez mais somos obrigados a reconhecer um espírito profético em certos homens que compreenderam para onde se dirigia a Igreja com as inovações do Concílio Vaticano II, um deles chegou a afirmar que ao começar a celebrar a missa em mesas seria a vitória de Lutero.

E é exatamente isso.

Tudo começa na dessacralização do Santo Sacrifício da Missa.

Se fizéssemos uma entrevista com a maioria dos que vão à Missa atual, perguntando qual a razão de irem à Missa, ou se reconhecem na Santa Missa um autêntico sacrifício as respostas fariam chorar os anjos.

O altar tornado mesa de copa, o sacrário relegado a um canto obscuro, as imagens inexistentes, o sacerdote que outrora era um sacrificador anônimo e que tornou-se um animador de auditório, o templo tornado espaço celebrativo… vitória de Lutero.

Recordo-me de uma vez em que fui venerar algumas relíquias de S. João Bosco que estavam encerradas numa belíssima imagem jacente e enquanto rezava, um padre celebrava a missa e explicando o que era “aquele boneco” contou a história do Rei Midas…

Dessacralização.

As coisas sagradas perderam completamente o valor para essas pessoas. Não há transcendência. Não há sagrado.

E se não há, qual o valor de uma Missa, ou de uma imagem, ou de uma Igreja?

Porque não ceder para outros usos? Uma reunião sindical? Um museu? Um expositório de obras bizarras? Um clipe gay? Qual o problema de fazer um barquinho e pôr ali a Pacha Mama e atravessar a nave da Basílica Vaticana com essa abominação?

Se – como já acontece em não poucos lugares – um grupo quisesse destruir uma Igreja, ou um monumento católico, como o Cristo Redentor, talvez houvesse alguma reação dos católicos. Mas mostrar o Cristo de máscara, refletir animais na Basílica Vaticana não parecem tão agressivos, afinal devemos ser uma Igreja em diálogo…

Vitória de Lutero.

Mas o Senhor não disse: “Ide e dialogai”, mas “Ide e ensinai”. Mais ainda, diz o Espírito Santo, “aquele que destruir o templo de Deus, Deus o destruirá”.

É porque não se reza mais nas Igrejas que essas profanações acontecem. É porque não se visita mais o Santíssimo Sacramento como o Divino Prisioneiro que chegamos a esse ponto!

É preciso resistir!

É preciso lutar! Queremos nossas Igrejas de volta! Queremos nossos monumentos católicos respeitados, mais ainda, venerados! Queremos a Missa Católica!

Mas não conseguiremos isso se ficarmos parados. Será que não percebemos que estamos em guerra como nos recordou o Apóstolo na Epístola de hoje?

Católicos, levantem-se! Levantem-se pela glória de Deus, pela santidade de seu templo! Levantem-se gritando o nome de Maria que sozinha vence todas as heresias. Façam do Credo o seu estandarte de batalha. Do Santo Sacrifício da Missa a jóia engastada em seus corações. Lutem.

Vitória de Deus.

* * *

Pe. Antonio Mariano está recebendo intenções para o Dia de Finados. Envie para profidelibusdefunctis@gmail.com.

15 outubro, 2021

Os guardiães da Tradição.

Por Dr. Augusto Mendes 

FratresInUnum.com, 15 de outubro de 2021 – O Brasil presencia um sólido movimento editorial católico, algo que impressiona qualquer observador um pouco mais vivido. Em 2005, ou mesmo em 2010, dificilmente poderíamos imaginar que alguns anos depois veríamos o surgimento de novas casas editoriais, uma avalanche de novas publicações, o resgate de obras consagradas e até mesmo o surgimento de importantes autores nacionais.

In illo tempore, apesar das grandes editoras nominalmente católicas do país, encontrar livros verdadeiramente católicos nem sempre era fácil. Em muitos casos, era um desafio insuperável. É verdade que certos clássicos das letras católicas nunca deixaram as prateleiras, como é o caso da Imitação de Cristo, da Filotéia, do Tratado da Verdadeira Devoção e da História de uma Alma, mas é igualmente verdade que as ausências eram muito mais amplas e notáveis.

Pensemos, por exemplo, no doutor comum do Igreja, Santo Tomás de Aquino, um mestre para todas as gerações e, portanto, um autor que deveria ser publicado e republicado initerruptamente em todo e qualquer país católico. Se é verdade que sua Suma Teológica estava disponível em uma tradução de qualidade já no início do século XXI, todos seus outros livros – e são tantos! – só eram encontrados em sebos, e mesmo assim com bastante dificuldade e por um alto preço. Os tomistas amargavam um esquecimento ainda pior. Garrigou-Lagrange, Cornelio Fabro, Sertillanges, Grabmann e outros mestres ou nunca haviam sido apresentados ao leitor brasileiro ou o foram há uma ou duas gerações. Mesmo um Nicolas Derise, que podemos considerar como nosso contemporâneo, ou um brasileiro como o Padre Maurílio Teixeira-Leite Penido, eram sumamente desconhecidos ou marginalizados.

Não podemos pensar que o problema era a falta de leitores interessados, pois mesmo autores que haviam granjeado fama no passado recente padeciam no limbo editorial esperando rever a luz. Há pouco mais de uma década, Chesterton estava apenas dando seus primeiros passos entre nossas estantes, Bernanos, que havia escolhido nosso país como sua pátria, era solenemente ignorado pelas últimas duas gerações de brasileiros; mesmo os naturais da terra, católicos genuinamente brasileiros, nascidos em uma pátria genuinamente católica, como o Padre Leonel Franca ou João Camilo de Oliveira Torres, foram tratados, até outro dia, como se fossem alienígenas, como se nunca tivessem pisado nessa terra. Eram representantes de um passado que muitos buscavam ativamente enterrar. Na faculdade tive uma professora que havia sido aluna do citado João Camilo. Quando falava dele era somente para criticar seus livros e explicar que tudo o que ele escreveu tinha pouco valor, era enviesado, porque ele era – na sua expressão inesquecível – “muito catolicão”.

Se pensarmos não mais nas pessoas, mas nos temas, veremos que a carestia de então era enorme. Sobre temas tão relevantes como Psicologia, Direito, História, Literatura, Economia, Filosofia e Teologia, nos seus diversos ramos e desdobramentos, não havia – e ainda hoje não há na medida adequada – obras escritas de uma perspectiva católica em circulação no mercado brasileiro.

Outra marcante ausência editorial era de obras ligadas ao movimento tradicionalista. Lembro-me de que a primeira vez que tive em mãos “Do Liberalismo à Apostasia” de Dom Marcel Lefebvre foi em uma cópia xerográfica feita por um amigo que havia viajado até o Rio de Janeiro e lá, graças ao contato direto com um tradicionalista “das antigas”, tinha conseguido copiar a velha edição, praticamente amadora, da Permanência, que mais se parecia com um caderno datilografado. Obras que só eram encontradas em língua estrangeira e adquiridas após bastante pesquisa e a um alto preço – Iota Unum ou a biografia de Dom Lefebvre – são hoje compradas com um clique do mouse e por um preço bastante razoável.

Todas essas lacunas editoriais são graves, mas não tanto quanto a que agora será sanada. Os doutores da Igreja, os grandes escolásticos, os apologetas, os catequistas, missionários, sermonistas, todos aqueles que exercem alguma atividade na Igreja, bebem, necessariamente, da mesma fonte: o magistério papal. O magistério pontifício, farol da verdade divina no ápice da Igreja, aquele que ilumina todos os católicos, em todas as épocas, que desfaz os erros, vence as heresias e guia a todos nos caminhos da verdade e vida. Era exatamente esse magistério que andava ausente das editoras católicas. É verdade que algumas encíclicas, especialmente dos Papas do século XIX e XX ainda são publicadas, é certo que temos compilações bem vastas de documentos pontifícios, como é o caso do Denzinger, mas também é verdade que não há nada tão amplo quanto o que está sendo preparado agora. A coleção Guardiões da Tradição englobará 250 documentos pontifícios (Bulas, Encíclicas e Alocuções) criteriosamente selecionadas para representar o ensinamento dos Papas ao longo dos dois milênios da história cristã nos seus pontos mais relevantes.

Os documentos serão publicados na sua integralidade – e não em seus trechos selecionados, como no Denzinger – e, sempre que necessário, acompanhados de notas explicativas. Haverá para cada documento uma breve introdução explicitando seu conteúdo e as razões de sua publicação. Os 250 documentos serão organizados cronologicamente, indo do Papa Cornélio (251-253) até Pio XI (1922-1939), e cada Pontífice receberá uma substanciosa apresentação, de forma que o livro poderá ser visto, também, como uma Enciclopédia dos principais Papas. Detalhados índices onomásticos e temáticos farão da coleção uma obra de consulta incontornável para todo católico que pretenda conhecer melhor a doutrina da Igreja nas suas fontes mais seguras.

Os temas abordados são os bem variados, indo das mais altas questões teológicas aos mais simples problemas sociais. Aquilo que os papas ensinaram sobre a Santíssima Trindade, as naturezas de Cristo e sua ação salvífica, as qualidades especialíssimas da Virgem Maria, a natureza da Igreja, a economia da salvação, a graça santificante, o papel da oração e as mais diversas questões litúrgicas terão destaque. O surgimento das ordens religiosas, a criação das faculdades na Idade Média, a canonização de determinados santos, as condenações das diversas heresias, a convocação para as cruzadas e a instituição da Inquisição serão apresentadas nos seus documentos originais. Questões políticas e sociais também terão lugar nesse vasto repertório: a liberdade da Igreja e de seus fiéis frente o Estado, os deveres dos governantes para com a Igreja, a verdadeira educação católica, os direitos dos trabalhadores, a moral católica aplicada à vida matrimonial e familiar, bem como a materialização da fé nas diversas formas de encontrarão o devido tratamento pela mão de mestre dos Papas. As mais controversas questões científicas, filosóficas, históricas e exegéticas também serão contempladas por essa ampla compilação de documentos pontifícios, apresentando aos leitores a solução para muitos problemas de ordem especulativa, ou, pelo menos, estabelecendo os pontos fundamentais que permitirão investigações seguras e intelectualmente frutuosas.

Dada a profusão de documentos pontifícios, estima-se que a coleção terá cinco volumes com cerca de 600 páginas cada um. Parte considerável desses documentos não se encontra publicada no Brasil e nem mesmo acessível em língua portuguesa na internet. A maior parte será vertida do original latino e, quando não for possível, as traduções mais confiáveis serão usadas para se chegar ao texto em português.

Além do óbvio interesse teológico dessa publicação, os cultores da Filosofia e da História também irão se beneficiar do estudo desses documentos, pois muitos deles inserem-se nos pontos fulcrais não só da histórica eclesiástica como também da história política e do pensamento.

No momento em que a doutrina católica tradicional se torna cada vez menos conhecida e seus tesouros são cada vez mais depauperados por aqueles mesmos que deveriam ser seus fiéis defensores, cabe a nós nos voltarmos àqueles antigos e fiéis Guardiões da Tradições que agora serão apresentados ao leitor brasileiro.

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