Archive for ‘Igreja’

6 agosto, 2021

Uma questão de maioria.

Por FratresInUnum.com, 6 de agosto de 2021 – Logo após a publicação de Traditionis Custodes, o cardeal Walter Kasper, uma das maiores eminências pardas deste pontificado, afirmou num comunicado:

“Fala-se um número crescente de fiéis que desejam o ‘rito antigo’, mas, em minha experiência, a esmagadora maioria dos fiéis é firmemente contra ele. Sei que muitas pessoas ficam escandalizadas quando vão à Basílica de São Pedro em Roma de manhã cedo e veem que em muitos altares os padres celebram a ‘missa antiga’ sem acólitos e sem a participação dos fiéis. Eles se voltam para a basílica vazia e dizem: ‘Dominus vobiscum’, ‘Orate fratres’ etc. Alguns jovens padres vêm e querem celebrar a ‘missa em latim’, mas não sabem latim, enquanto a grande maioria de seus paroquianos prefere ter a missa em sua língua vernácula, então isso traz divisão e brigas na paróquia e as pessoas vão embora”.

A peregrinação anual do “Populus Summorum Pontificum”, que reúne fieis do mundo todo ligados à Missa Tradicional, foi confirmada o próximo mês de outubro.

Bem… A natureza germânica deste pontificado argentino é uma das absurdidades mais desorientadoras jamais vista, inclusive porque Francisco sucede justamente um pontífice alemão, que era muito mais livre e muito menos subserviente à agenda progressista teutônica do que ele. Desde a “comunhão dos recasados”, passando pela ordenação dos viri probati, até a bênção de duplas homossexuais e a abolição da chamada forma extraordinária do rito romano, tudo isso obedece esquematicamente aos interesses daquela decadente igreja. É impressionante.

Contudo, na afirmação do Cardeal Kasper há algo de simultaneamente verdadeiro e mentiroso que pode desbaratar o leitor. De um lado, ele tem razão quando diz que a maioria dos católicos não é adepto da Missa tradicional. Trata-se efetivamente de grupos minoritários, os quais têm crescido, especialmente em países como os Estados Unidos, a França e a Alemanha, mas cuja representatividade e força ameaça vivamente o legado progressista dos teólogos do Concílio. Ademais, estes grupos não são formados por católicos de estatísticas, mas propriamente por católicos militantes, fervorosos, convictos e combativos, cuja capacidade de persuasão ultrapassa de longe qualitativamente o ganho quantitativo do grupo que Kasper apresenta como antagonista.

Em termos superficiais, chega a ser incompreensível o porquê de Bergoglio ter-se indisposto de tal modo com uma fração tão aguerrida da Igreja. Apenas quando se percebe o nível de desmoralização a que são expostos os impostores do Concílio é que se entende a importância que tem para eles a completa extinção destes católicos autênticos.

Todavia, Kasper erra rotundamente quando diz que a maior parte dos católicos é contra a Missa tradicional. Na verdade, isso simplesmente não lhes importa, ainda mais num país como a Alemanha, cujos índices de frequência à Missa não param de despencar desde o Concílio, queda vertiginosa que se agrava, e não apenas lá, especialmente após a presente pandemia.

Neste sentido, é muito mais realista a observação do cardeal Zen, arcebispo emérito de Hong Kong:

“O problema não é ‘que rito as pessoas preferem?’, mas sim ‘por que não vão mais à missa?’ Algumas pesquisas mostram que metade da população cristã na Europa já não acredita na presença real de Jesus na Eucaristia, já não acredita na vida eterna! Certamente não culpamos a reforma litúrgica, mas só queremos dizer que o problema é muito mais profundo. Não podemos evitar a pergunta: ‘Não será que faltou, talvez, formação na fé? Porventura, não será que o grande trabalho do Concílio foi desperdiçado? Parte do Motu Proprio parece esperar claramente a morte dos grupos dedicados à forma extraordinária da missa. Mas, mesmo com isso, será que os homens anti-Ratzinger do Vaticano não podiam esperar pacientemente que a missa tridentina morresse junto com a morte de Bento XVI, em vez de humilhar o venerável papa emérito desta maneira?”.

São palavras de fogo! Palavras que vão ao cerne da questão!

A preocupação de Traditionis Custodes de frear a “forma extraordinária” do rito romano é consideravelmente mais escandalosa quando considerada a apostasia generalizada em que se está mergulhando a maior parte da civilização ocidental, que já não se importa mais com missa alguma, muito menos depois da secularização da liturgia após o Vaticano II. Será uma mera coincidência que multidões e multidões de fieis tenham abandonado a Eucaristia justamente depois da reforma litúrgica?

Como conta Antoine Burckhardt em seu forte testemunho, muitos fieis descobriram na chamada Missa de São Pio V “um oásis de sacralidade neste deserto de desencanto que é o Ocidente” e, como ele, que aos 23 anos “ia desertar do culto dominical, docemente, na ponta dos pés”, encontraram ali justamente o maravilhamento de que necessitava a sua fé.

A maioria de que fala Kasper não é contra a Missa Tridentina, apenas não crê mais, abandonou o cristianismo, perdeu completamente qualquer inclinação sobrenatural, não vai à Igreja, deixou para sempre de frequentar o culto divino. É tudo só isso. E justamente quando o catolicismo passa por tão aguda crise, Francisco se dá o direito de hostilizar parte dos seus fieis, talvez a parte menor e, por isso, mais indefesa.

Como dizia Burckhardt, sobre Traditionis Custodes,

“O desejo de controlar, punir, humilhar realmente parece inspirar todas as suas linhas. Por que esse catálogo de decisões cruéis que transformam os ‘tradis’ em párias? Como o Soberano Pontífice afirma que este texto é motivado por um desejo de reconciliação, quando tudo indica que muitos padres fiéis e humilhados não terão outra escolha a não ser responder a este texto indo engrossar as fileiras dos lefebvristas? Agindo desta forma, este papa mesquinho, sectário e voluntariamente manipulador, infelizmente, apenas confirma o que muitos católicos já pensam dele… Francisco é para a Roma dos Papas, o que Nero foi para a Roma dos Césares: um tirano e uma vergonha”.

Talvez boa parte da hierarquia, formada com a mentalidade juspositivista de obedecer cegamente tudo o que manda a autoridade, precisará de muito tempo para se dar conta do erro cometido com este impiedoso documento. Até lá, a crise de fé apenas se acentuará e a maioria já não estará mais aqui para ouvir o sino tocar novamente e a voz do sacerdote dizer: “Introibo ad altare Dei, ad Deum qui laetificat juventutem meam”.

5 agosto, 2021

Deletou! Dom Joaquim Mol apaga a postagem contra o Cura d’Ars.

Por FratresInUnum.com, 5 de julho de 2021 — Após apenas alguns minutos depois da nossa última notícia, o bispo auxiliar de BH, Dom Joaquim Mol, deletou o post em que tecia uma crítica a São João Maria Vianney e sugeria que a sua teologia não corresponde mais à doutrina sobre o sacerdócio no pós-Concilio. Nosso blog printou o texto de Dom Mol, assim como os heróicos e católicos comentários do povo, e os publicou um pouco antes de que ele os apagasse — bendito seja o print!

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Sem nenhum pedido de desculpas ou algum esclarecimento, diante dos protestos do povo nos comentários e da divulgação das manifestações clamorosas dos fiéis, ele simplesmente apagou a postagem e não prestou qualquer tipo de explicação.

A verdade da fé e o sensus fidei fidelium não podem ser silenciados jamais. Viva Cristo Rei!

5 agosto, 2021

Os fieis reagem: Dom Joaquim Mól é massacrado no Facebook.

Por FratresInUnum.com, 5 de julho de 2021 – Dom Joaquim Giovanni Mol Guimarães, sim, ele mesmo, aquele da “menina moça” no carro da CUT, fez hoje uma postagem um tanto crítica a ninguém menos que… São João Maria Vianney!

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Na sequência, os fieis começaram a descer a lenha, com comentários imperdíveis. Alguns dos quais transcreveremos e outros colocaremos o print.

Lucas Lagasse Corrêa: “Então realmente existe uma igreja pré-conciliar e outra pós-conciliar, Excelência Reverendíssima? Uma é oposta a outra?”

 

Joice Silva: “Um Santo, intercessor de todos os Padres, sendo menosprezado por qualquer pessoa, que ‘ainda’ não alcançou a santidade é lamentável. Mas Jesus também foi menosprezado por Judas. Lamento!”

 

Padre Jerônimo Pereira: “Precisamos de pastores preocupados com a salvação das almas. Dedicados com amor ao serviço de conduzir o povo ao coração de Jesus, quiséramos que tivéssemos tantos São João Maria Vianney. A teologia que vossa excelência conhece do Vaticano II, ressalta o centro da espiritualidade e vida do presbítero. Triste da parte de um sucessor dos apóstolos a defesa ideológica, seletista, classista e partidária. Sou um simples padre de periferia. Sem o estudo dos doutos na teologia e filosofia, mas aprendi que povo deseja que padre seja padre. Celebre com dignidade os sacramentos, escute-os e tenho como centro de sua espiritualidade a Eucaristia, como fez de modo estupendo o São Cura d’Ars. ‘Como ministros das coisas sagradas, é sobretudo no sacrifício da missa que os presbíteros dum modo especial fazem as vezes de Cristo, que se entregou como vítima para a santificação dos homens. Por isso, são convidados a imitar aquilo que tratam, enquanto, celebrando o mistério da morte do Senhor, procuram mortificar os seus membros de todos os seus vícios e concupiscências (13). No mistério do sacrifício eucarístico, em que os sacerdotes realizam a sua função principal, exerce-se continuamente a obra da nossa Redenção (14). Por isso, com instância se recomenda a sua celebração quotidiana, porque, mesmo que não possa ter a presença dos fiéis, é acto de Cristo e da Igreja (15). Assim, enquanto que os presbíteros se unem com a própria acção de Cristo sacerdote, oferecem-se todos os dias totalmente para Deus, e, alimentando-se do Corpo do Senhor, participam amorosamente na caridade d’Aquele que se dá como alimento aos fiéis. De igual modo, na administração dos sacramentos unem-se à intenção e caridade de Cristo, o que se dá especialmente quando se mostram sempre totalmente dispostos a administrar o sacramento da Penitência todas às vezes que os fiéis racionalmente o pedirem. Na recitação do ofício divino, emprestam à Igreja a sua voz, que persevera na oração, em nome de todo o género humano, unida a Cristo, ‘sempre vivo a interceder por nós’ (Hebr. 7,25).’ É das partes mais profundas do documento PRESBYTERORUM ORDINIS. O discurso materialista e como se a vida encerra-se aqui, prejudica de modo perigoso a vida e missão da Igreja. Os pastores esqueceram da vida eterna. Sim, Vianney continua sendo o modelo de sacerdotes para todos nós. O padre não pode ser endeusado, concordo, mas também, não esqueçamos: “Em verdade, todo pontífice é escolhido entre os homens e constituído a favor dos homens como mediador nas coisas que dizem respeito a Deus, para oferecer dons e sacrifícios pelos pecados” (Hb 5,1). Tenho profundo respeito a todos os bispos e não entenda com um afrontamento, mas um simples comentário e apresentação de ponto de vista contrário. Desejo com muito humildade que redescubramos o valor da fé, sem relativismo, o amor a Igreja e principalmente: A configuração diária a Cristo. Um abraço filial!!”

 

Nathan Inácio: Senhor bispo, com todo respeito, mas o senhor é uma vergonha. A Igreja que vocês dizem existir, não existe, é uma igreja sustentada por uma teologia morta, carrega tudo, ideais políticos, militância, menos o principal que é Deus. Vocês não convencem nem a si mesmos. Bispos como o senhor só vão entender o mal que fazem, ou melhor, parar de fingir que não sabem, quando doer no bolso de vocês… Algo que não deve demorar, viu? O povo tá cansado de ouvir tudo na Igreja, menos o evangelho de Jesus. Vocês a cada dia tem espantado cada vez mais fiéis, depois fazem cara de paisagem acusando outros movimentos que não seguem as cartilhas ideológicas de vocês. A sua ideologia já nasceu morta, não existe ligação com o sagrado e muito menos a realidade. E sabe porque digo que só vão aprender quando doer no Bolso? Porquê hoje em dia os jovens crescem e se formam como pessoas em um mundo cada vez mais sem Deus, não tem tempo para missas, já que não se fala mais de inferno, nem do poder do demônio, eles acabam deixando de lado sua conversão e intimidade com Jesus por causa de exemplos péssimos como o do senhor. Sendo assim, os mais velhos que pagam dízimo estão morrendo, seus filhos vão ficando mais descrentes e longe da Igreja, e por consequência seus netos nem sequer aprendem o significado dessa contribuição e vivência. O que vocês vem plantando já começou a colheita. Contudo, não há motivos para pânico, já que Jesus escolhendo 12 ainda encontrou um infiel e traidor, sendo assim suas atitudes e de alguns bispos mais não assustam. Mas se lembre da sagrada escritura que é bem clara quando diz: a quem muito é dado, muito será cobrado. E pra finalizar, bispos como o senhor são a maior prova, o maior milagre que a Igreja Católica é de fato a Igreja de Cristo, pois com tantos contratestemunhos, vocês não a destroem. As portas do inferno não irão prevalecer… Que o senhor possa se converter e ver melhor o que acontece debaixo de seu próprio nariz.

5 agosto, 2021

Sã reação de indignação.

Por FratresInUnum.com, 5 de julho de 2021 – A decisão autoritária de Francisco contra a Missa de Sempre mexeu até com quem não era adepto. Muitas pessoas que frequentam apenas o rito moderno ficaram profundamente chocadas e contrariadas com a medida ditatorial. E isso por alguns motivos.

Lille, França, 1976: Mons. Lefebvre celebra missa em um ginásio para milhares de fiéis, um mês após ter sofrido suspensão a divinis.

Em primeiro lugar, porque tudo está baseado sobre uma mentira. Como muito bem afirmou o Pe. Francisco José Delgado, é simplesmente falso que um Papa possa cancelar uma liturgia multissecular e impor um rito de cinco décadas como única alternativa, ainda mais utilizando a expressão lex orandi como instrumento de uma imposição arbitrária.

“Como isto é falso, a legislação que brota deste princípio é inválida e, de acordo com a moral católica, não deve ser observada, o que não implica desobediência. Bastaria simplesmente ignorá-la. Mas creio que, neste caso, isso não seria suficiente. Creio que é nosso dever como sacerdotes fieis exercer a obrigação moral de defender a verdade, pública e notoriamente, enfrentando as possíveis consequências. E, assim, convido todos os meus irmãos fieis a que o façam. Até hoje, não senti a necessidade de celebrar a Missa Tradicional. Sim, assisti e rezei o breviário anterior à reforma, mas por causa dos meus trabalhos paroquiais não me parecia imprescindível fazê-lo. Porém, graças a Francisco, isso muda hoje. Proponho-me a começar celebrar o quanto antes de forma privada a Missa Tradicional. Obviamente, não a posso impor aos meus fieis, mas posso fazê-lo quando não interferir em minhas obrigações paroquiais. Ademais, considero que é necessário tornar público este ato de alguma maneira. Estou fazendo-o aqui, mas me parece que seria muito conveniente que se organizasse algum tipo de iniciativa que desse notoriedade aos que fizéssemos este gesto”.

Límpido como um cristal. Esta lei é iníqua e, consequentemente, não é lei; logo, não ocorre obediência. O padre vai além. Ele diz que é necessário tornar pública essa resistência, deixando muito claro não se tratar de rebeldia, justamente porque se não está desobedecendo a lei alguma nem a um legítimo exercício de autoridade. Tal atitude seria impensável antes de Traditionis custodes. A agressão de Bergoglio provocou-a, fortalecendo, deste modo, colateralmente, a reação católica.

O exemplo do Pe. Delgado é emblemático. Ele não é tradicionalista, não se sentia ligado à “forma extraordinária”, não é um adepto da liturgia tridentina… Ele simplesmente acordou para a verdade da questão porque foi provocado pela violência institucional do Papa argentino. Quantos outros haverá que se terão comportado do mesmo jeito?

Na prática, quem já celebrava na forma tradicional continuará celebrando, pública, privada ou clandestinamente. Os bispos tolerantes continuarão tolerando, os intolerantes continuarão perseguindo e tendo de tolerar que se lhes ignore. Simple as that!

O outro motivo que nos parece mais do que necessário para produzir nos fieis uma sã reação de indignação é justamente o fato de Francisco penalizar os católicos que procuram honrar a Deus com um digno culto ortodoxo enquanto a Igreja está incendiada por todos os lados com blasfemadores, sacrílegos, hereges, pervertidos, tarados, bandidos, corruptos e todo tipo de gente desgraçada que se possa imaginar, e bem debaixo do nariz dele.

Diante do escândalo do caminho sinodal alemão, com suas bênçãos em duplas homossexuais e outras barbaridades, qual é o sentido de se punir católicos que não cometeram delito algum com a privação de sua liturgia? Se o próprio magistério, inclusive citado por ele, reconhece como legítimas as reinvindicações dos fieis pela forma tradicional do rito romano, por que ele os trata como renegados, sonegando-lhes o bem mais estimado, que é a Santa Missa de Sempre?

A desproporção é evidente demais e não se pode ficar indiferente diante dela, pois trata-se de uma injustiça de fato: reprime-se um bem excelente enquanto não se diz nada na presença de males absurdos, que deveriam ser perseguidos com o rigor da disciplina apostólica. Bergoglio está operando um verdadeiro favorecimento de tudo que é mal e destrutivo para a Igreja, enquanto tiraniza os bons e os amordaça numa posição insuportável.

O Pe. Delgado, compartilhando a sua experiência, com a coragem que lhe é peculiar, diz que:

“Até agora não tive necessidade ou ocasião de celebrar a Missa Tradicional. Simplesmente foi incompatível com a vida pastoral que até agora eu tive. Tinha pensado em, no futuro, aproveitar que costumo deixar-me um “dia livre” em que não há Missa com o povo na paróquia para ir celebrando algumas vezes a Missa na forma extraordinária. No entanto, fiz o propósito de não deixar passar mais tempo: a partir de agosto começarei a fazê-lo com regularidade. Digo-o aqui e o comunicarei oportunamente ao meu bispo, não para pedir permissão, porque entendo que não lha devo pedir, mas porque me parece que a tomada de posição deve ser pública, aconteça o que acontecer. Não que eu pretenda fazer uma luta encarniçada pela Missa Tradicional, como disse um querido amigo sacerdote galego (difamado comigo nos comentários de um blog alojado nesta web) – seguramente o mais inteligente e inclusive divertido seria voltar à clandestinidade que havia antes de Bento XVI –, mas o que não penso aceitar é que me façam engolir uma contradição à força de decreto. Se se deve desembainhar a espada para afirmar que a forma extraordinária do Rito Romano é expressão válida da lex orandi deste, ainda que seja apenas para fazer uma espécie de ‘haraquiri’ eclesial, que assim seja”.

Pois bem, Bergoglio mexeu num vespeiro e terá de arcar com as consequências de ter dado uma lei inválida. Todos perceberam isso e agora só lhe resta continuar fingindo enquanto a vida segue o seu rumo. A parte mais prejudicada somos sempre nós, os leigos, que teremos de esmolar assistir uma Missa escondida. Que haja mais exemplos audazes como o do Pe. Delgado, os quais certamente atrairão mais e mais graças sobre a Igreja e anteciparão o momento da intervenção divina.

4 agosto, 2021

A herança da divisão.

Por FratresInUnum.com, 4 de agosto de 2021 – Alguém jamais terá visto algum ditador agir contra a unidade? Por definição, ditadura é a imposição de um determinado tipo de unidade a um corpo social, contra o consenso ou a vontade dos seus membros, contra o bem comum de todos eles. Contudo, para quem tem ideias fixas ou ideologias fanatizantes, tal imposição será entendida como único bem necessário, nem que seja sob os altos custos de conflitos e divisões subsequentes.

Em, “O Papa Ditador”, Macantonio Colonna (Henry Sire) conta que, na época da nomeação episcopal de Jorge Mario Bergoglio, o prepósito Geral da Companhia de Jesus, Pe. Peter Hans Kolvenbach, teria vivamente desaconselhado a Santa Sé a promovê-lo.

Dictator Pope“O texto do relatório nunca foi tornado público, mas o relato foi feito por um sacerdote que teve acesso a ele antes que desaparecesse do arquivo dos jesuítas. O padre Kolvenbach acusava Bergoglio de uma série de defeitos, que vão do uso habitual de linguagem vulgar à duplicidade, à desobediência escondida sob uma máscara de humildade e à falta de equilíbrio psicológico. Na ótica da sua idoneidade como futuro bispo, o relatório enfatizou que, como provincial, ele havia sido uma pessoa que trouxera divisão à sua ordem”.

A existência de pesados atritos entre o jesuíta Bergoglio e a sua ordem são muito conhecidos e, inclusive, são publicamente assumidos pelos seus mais devotos biógrafos, inclusive aqueles cujos textos foram revisados pessoalmente por ele mesmo. Conta-se abertamente, por exemplo, sobre o seu “exílio” em Córdoba e sobre o seu frustrado doutorado na Alemanha, assim como o próprio Francisco relata em entrevista à Civiltà Cattolica:

“Na minha experiência de superior na Companhia, para dizer a verdade, nem sempre me comportei assim, ou seja, fazendo as necessárias consultas. E isso não foi uma boa coisa. O meu governo como jesuíta no início tinha muitos defeitos. Estávamos num tempo difícil para a Companhia: tinha desaparecido uma inteira geração de jesuítas. Por isto, vi-me nomeado Provincial ainda muito jovem. Tinha 36 anos: uma loucura. Era preciso enfrentar situações difíceis e eu tomava as decisões de modo brusco e individualista. Sim, devo acrescentar, no entanto, uma coisa: quando entrego uma coisa a uma pessoa, confio totalmente nessa pessoa. Terá que cometer um erro verdadeiramente grande para que eu a repreenda. Mas, apesar disto, as pessoas acabam por se cansar do autoritarismo. O meu modo autoritário e rápido de tomar decisões levou-me a ter sérios problemas e a ser acusado de ser ultraconservador. Vivi um tempo de grande crise interior quando estava em Córdoba. Claro, não, não sou certamente como a Beata Imelda, mas nunca fui de direita. Foi o meu modo autoritário de tomar decisões que criou problemas”.

Estes problemas não foram senão a divisão política da Companhia na Argentina em duas alas antagônicas: peronistas contra gorilas (anti-peronistas). No final dos anos 80 a situação era tão grave que, segundo Austen Iverigh, um dos seus biógrafos oficiais, “nos dois anos seguintes (89-90), a província se dividiu cada vez mais profundamente e Bergoglio foi acusado de forma cada vez mais insistente de fomentar essa dissidência”. Ele cita um registro verbal das reuniões dos consultores provinciais: “Em todos os encontros, falávamos dele. Era uma preocupação constante decidir o que devíamos fazer com esse homem”.

Bergoglio foi completamente isolado na Companhia até que o arcebispo de Buenos Aires, o cardeal Quarracino, conseguiu que ele fosse nomeado seu bispo auxiliar. Após a sua nomeação, ele foi expulso da casa dos jesuítas com o endosso do superior geral da Ordem.

Em seu recente e agudíssimo artigo, “Una hipótesis sobre Traditionis Custodes”, Antonio Caponnetto mostra como a motivação deste documento não é senão ideológico-peronista: “O que tratamos de dizer é que Bergoglio não encara esta batalha (contra a Missa tradicional) pelo zelo teológico, eclesiológico ou litúrgico. Encara-a como mais uma fase da luta de classes. Eis aqui a tragédia, o drama, a comoção fatal: quem ocupa o sólio de Pedro é um agente da insurreição classista, variável chave na Revolução Mundial Anticristã”.

Em outras palavras, embora ele alegue em sua carta aos bispos o zelo pela unidade da Igreja, na verdade o que ele está fazendo é puxar a tensão dialética ainda mais para a esquerda, para aumentar a divisão entre os católicos e favorecer a ruptura interna.

A história está se repetindo. Agora, ele não deixará apenas a Província argentina dos jesuítas dividida, ele deixará a Igreja nesta confusão e, do mesmo modo como não saiu da Cúria da Companhia a não ser com uma ordem escrita do provincial e endossada pelo Padre Geral, agora ele não renunciará, pois quer favorecer exatamente esta divisão, a qual ele mesmo considera como o seu próprio triunfo. Como ele mesmo declarou, segundo as palavras do Der Spiegel: “Não excluí a hipótese de que eu seja lembrado como o Papa que, na história da Igreja Católica, a dividiu”.

3 agosto, 2021

Novus aut vetus. Como “Traditionis Custodes” afeta a Missa Nova.

Por FratresInUnum.com, 3 de agosto de 2021 – No artigo de ontem, mostramos como um novo conceito de “Tradição” está subjacente ao Motu Proprio de Bergoglio e como, em sua mente, este conceito é incompatível com a ideia tradicional de Tradição (valha a redundância), em que a objetividade da doutrina sobressai à subjetividade do sujeito-Igreja.

Ora, Francisco leva esta contradição ao seu ápice, reconduzindo-a ao terreno onde ela se mostrou mais sensível ao longo das últimas décadas, ou seja, à liturgia.

Os tradicionalistas, desde Ottaviani e Bacci, sempre pretenderam mostraram como uma nova doutrina estava subentendida no rito de Bugnini e como tal ruptura não estava explicitamente justificada pelo Concílio, apesar das bombas-relógio plantadas (os padres conciliares, aliás, foram todos formados na mentalidade tridentina), nem pela grande tradição da Igreja, devidamente fixada no dogma católico. Tal proposição era constantemente rechaçada por Paulo VI, “autor” do novo rito, e por seus sucessores. Agora, é o próprio Francisco que lhe dá suporte, em favor dos modernistas.

A aposta dos conservadores foi sempre a de “celebrar o Novus Ordo com a mentalidade do antigo”, ou seja, pressupondo a doutrina antiga e importando elementos gestuais e até orações silenciosas do Vetus Ordo. O Motu Proprio Traditionis Custodes, portanto, atinge de cheio a esta pretensão e a invalida de plano: a equívoca Missa Nova é a única lex orandi para o rito romano e, portanto, precisa não apenas resetar toda e qualquer “intromissão” tridentina, mas precisa fazer exatamente o contrário, precisa intrometer-se na então “forma extraordinária”, alterando-a internamente.

Bento XVI pretendia uma “reforma da reforma” em que os dois ritos se enriquecessem mutuamente. Francisco arrestou completamente essa ideia e a inverteu em um único sentido obrigatório: é o rito novo que precisa mudar o rito antigo, libertando-o de sua fixidez, em nome da fluidez da nova ideia da “tradição”, da qual ele e os bispos modernos proclamam-se custódios.

Traditionis Custodes”, portanto, afeta a Missa Nova, também, e coloca o rito moderno numa instabilidade ainda mais intensa do que aquela em que jazia. Isto significa que a penúltima frase da carta que o acompanha precisa ser lida nos dois sentidos que ela tem em si mesma: “ao mesmo tempo, peço-vos que vigiem para que toda liturgia seja celebrada com decoro e fidelidade aos livros litúrgicos promulgados depois do Concílio Vaticano II, sem excentricidades que se degeneram facilmente em abusos”.

Em outras palavras, essas “excentricidades incialmente podiam ser interpretadas no sentido dos abusos litúrgicos à la esquerda, arquiconhecidos por qualquer católico, como as Missas gaúchas com churrasco e chimarrão ou as Missas afro com invocações de entidades do candomblé ou as Missas com coisas extravagantes, como danças e coreografias. Bem… Neste sentido, o passado do papa argentino o condena. Foi ele que celebrou a Missa em que houve um casal que dançou tango, uma dança sensualíssima, ou aquela Missa com crianças (vídeo abaixo), com todas as coreografias e esquisitices possíveis. Seria meio difícil entender que ele queira esconjurar as atrocidades que ele mesmo já subscreveu, inclusive com sua prática.

Contudo, parece muito mais que, por excentricidades, entende-se os usos da Missa tradicional que estejam em desconformidade com o “espírito” (ghost) da reforma: paramentos tradicionais em geral, casulas romanas, rendas, barretes, manípulos, véus, luvas, tunicellas, enfim, qualquer coisa que se ancore na tradição litúrgica anterior. O bispo de Mayagüez, Porto Rico, D. Ángel Rios Matos fez exatamente isso, e através de um decreto, medida possivelmente exagerada na perspectiva de Bergoglio (talvez ele não quisesse ir tão rápido, assim), mas que está em completa sintonia com o seu Motu Proprio, em nosso entender.

O argumento conservador de se celebrar a missa nova com o espírito da antiga fica completamente liquidado por essa medida disciplinar. Para os papólatras conservadores, portanto, um duro golpe, o qual sequer eles conseguiram assimilar, dada a sua pressa servilista de bajular a autoridade e justificá-la de antemão.

Entretanto, é evidente que todo este golpe de Bergoglio, além de ser absurdo até na verbalidade do texto, quanto mais em sua inaceitável intenção, é inviável do ponto de vista mais concreto possível. Diga-se o que se quiser dizer contra Ratzinger, mas é inevitável reconhecer que ele iniciou um novo movimento litúrgico e o fez não apenas por decreto, mas dando princípios teológicos muito profundos, mesmo que possam ser questionáveis desde a perspectiva tradicionalista. Ele não estava brincando de liturgia, ele realmente tem uma paixão litúrgica e deu start num revisionismo que se tornou, em termos de princípios, totalmente popular e, por isso, irreversível, mesmo que os professores do Ateneu Santo Anselmo esperneiem e vociferem.

O diagnóstico de Ottaviani e Bacci sobre a Missa nova  “Distancia-se, de modo impressionante, no todo, como no detalhe, da teologia católica da Santa Missa” — foi escancarado até o ponto de se tornar inegáveis reflexões teológicas, não por parte apenas de tradicionalistas, mas inclusive por parte daqueles que aderiram à reforma litúrgica, como o próprio Ratzinger. Diante do peso dessas reflexões, as provocações de Bergoglio não passam de meros ruídos, que não conseguem minimamente arranhar aquilo que já está dito, explicado e justificado pelo pontífice alemão.

Francisco pode ter o poder canônico, mas não consegue formar mentes, não tem teologia para isso, não consegue formar o imaginário, não tem liturgia para isso; Bento XVI fascinou os jovens que Francisco persegue, inspirou os padres que ele não tolera, formou o clero que ele não suporta. Com todos os seus limites, Ratzinger formou e Francisco apenas tentou deformar, mas os seus próprios seguidores, em matéria litúrgica, preferem o seu predecessor. Isto são fatos e, contra fatos, não há argumentos.

“Traditionis custodes” propõe uma disjuntiva: novus aut vetus, o novo ou o velho, e esta já se mostrou desgastada pela própria história e não justificada de nenhum modo. O que passa disso é apenas utopia esquerdista, alucinação de autoritarismo, delírio revolucionário e, em última análise, choradeira, o velho e ultrapassado jus sperniandis.

2 agosto, 2021

Revolutionis Custodes?

Por FratresInUnum.com, 2 de agosto de 2021 – O nome irônico do Motu Proprio com que Francisco tenta liquidar a Missa de sempre já foi explorado em verso e prosa, especialmente pelo seu requinte sádico. De fato, pelo título, esperar-se-ia um verdadeiro retorno à grande tradição da Igreja, mas, ao contrário, o que ele faz é desprender-se dela para atirar-se na completa descontinuidade do pós-concílio.

PapasIVSubjaz a essa forjatura conceitual uma noção problemática de Tradição. Como magnificamente explanou o Pe. Jean-Michel Gleize, da Fraternidade São Pio X, em seu histórico artigo, fundamentalmente, o conceito de “tradição” padeceu um deslocamento entre o Magistério da Igreja anterior e posterior ao Concílio Vaticano II.

Antes do Concílio, havia uma noção objetiva da Tradição, ou seja, esta era entendida como a continuidade lógica entre os enunciados doutrinais, sem nenhum tipo de incoerência ou ambiguidade; durante e após o Vaticano II, pretendeu-se deslocar esta noção para uma espécie de subjetivismo eclesiológico: não se trata mais do mesmo corpo doutrinal que progride coerentemente, mas do mesmo sujeito-igreja que se auto-interpreta na história de acordo com as demandas do momento.

Neste segundo sentido, tradição já não é mais a sintonia entre a fé dos apóstolos e aquilo que a Igreja sempre creu ao longo de dois milênios, em sentido lógico, como explicava de maneira precisa São Vicente de Lérins em seu Comonitório; ao contrário, por tradição se entende o mesmo sujeito que se expande através do tempo mutando a depender das suas circunstâncias e que se reinterpreta, inclusive em seu passado. Neste caso, tanto Francisco quanto Bento XVI estão fundamentalmente de acordo, ambos aderem a uma espécie de hegelianismo eclesiológico, com a diferença de que a dialética é mais acentuada em um que em outro.

Este é o único modo pelo qual seria possível conciliar as contradições entre os textos magisteriais anteriores e os textos posteriores ao Vaticano II. O princípio pelo qual ambos seriam lidos estaria, por assim dizer, acima dos próprios textos, neste sujeito espiritual que se ressignifica ao longo da história ao qual chamaríamos de Igreja.

A diferença entre Bento XVI e Francisco está no fato de que essa auto-interpretação que a Igreja se dá seguiria um princípio, a tal “reforma na continuidade” (faça-se acento sobre a continuidade), princípio que Bergoglio joga no lixo, ensejando a ideia de que essa reinvenção da Igreja já não se dá senão em função do presente e do futuro: este é o núcleo mesmo da psicologia progressista.

Em outras palavras, se para Bento XVI tradição é um processo dinâmico de continuidade, para Francisco é um processo dinâmico abertamente dialético, de contradição intrínseca e permanente. Esta contradição é a tradição em si mesma, tradição da qual eles, os bispos, são os custódios.

Se para a doutrina católica a continuidade da tradição não é apenas subjetiva, mas também objetiva (vale dizer, lógica e textual); para Bento XVI não é necessariamente objetiva, mas seguramente subjetiva; e, para Bergoglio, é necessariamente não objetiva, pois este sujeito precisa redefinir-se enquanto caminha, na marcha mesma do processo histórico com todas as suas incongruências. Isto significa que os modernistas que assumiram o controle da Igreja agora fundaram um novo conceito de tradição, conceito inteiramente revolucionário, dialético, historicista, materialista (e – por que não dizê-lo? – marxista), do qual somente eles podem ser os legítimos custódios.

Com esta compreensão, Francisco não apenas deu um “cala a boca” em todos os tradicionalistas, insinuando que são os bispos, não eles, os guardas da tradição; mas deu um “cala a boca” no próprio conceito católico de tradição, violando inclusive aquele arranjo teológico que tentou elegantemente construir Bento XVI, mas que não resistiu a uma simples canetada do seu sucessor.

É óbvio que aqui também subjaz a acusação de imobilismo, direcionada aos tradicionalistas, como se estes defendessem uma rígida fixidez idealista, a qual não teria jamais existido, visto inclusive que o próprio rito romano passou por pequenos ajustes e melhorias. A acusação é simplesmente retórica e vazia, pois ninguém realmente sustenta tal posição: o dilema não é entre mobilismo e imobilismo, mas é sobre qual tipo de mobilidade pode ser suportada pela natureza da Igreja, pois nenhum ente pode performar indefinidamente, sem jamais romper a sua unidade ontológica.

Mas é esta indefinição permanente o horizonte para o qual se orienta a senda progressista. O importante é não parar jamais a marcha, nunca “voltar pra trás”. Eles realmente têm a angústia de precisarem “avançar” rumo ao que consideram ser a direção da história, sempre mais e mais libertária. A fidelidade ao próprio ser é, para eles, um vício limitante, uma espécie de delírio que precisa ser superado.

Este é, portanto, o significado do título “Traditionis Custodes”, a partir de um novo significado de tradição, que poderia ser tranquilamente redefinido como “Revolutionis Custodes”.

1 agosto, 2021

O grito de quem perdeu.

Por FratresInUnum.com, 1 de agosto de 2021 – A carta que acompanha o Motu Proprio de Francisco, direcionada aos bispos de todo o mundo, é bastante melhor escrita que o próprio documento. Ali, o pontífice mostra as suas razões, os seus medos: no fundo, o grande problema é que os fieis que aderem à liturgia antiga questionam o Concílio Vaticano II, coisa para ele inadmissível, pois “duvidar do Concílio significa duvidar das intenções mesmas dos Padres, os quais exerceram a sua potestade colegial de modo solene cum Petro et sub Petro no Concílio Ecumênico, e, em última análise, duvidar do próprio Espírito Santo que guia a Igreja”.

papa3O problema é espinhoso e realmente muito delicado, especialmente porque agravado não pela parte conservadora da Igreja, mas por aquela parte que Francisco oportunisticamente invisibiliza: os hermeneutas da ruptura e da descontinuidade.

Bergoglio lança sobre os ombros dos fieis tradicionalistas o peso de questionarem um Concílio que desde o primeiro instante foi instrumentalizado e profanado pelos teólogos ativistas da Nouvelle Théologie, os quais se serviram dele como desculpa para todas as suas aberrações, não apenas em âmbito litúrgico, mas sobretudo dogmático e moral. Agora, com a sua decisão, ao invés de atenuar a divisão, ele a aumenta.

Aumenta-a porque ele mesmo apresenta o Novus Ordo como única lex orandi, coisa em si mesmo absurda, como demonstramos em artigo anterior, mas que é suficiente para documentar aquela ruptura que Bento XVI tentou sanar com a sua hermenêutica da reforma na continuidade, hermenêutica não apenas doutrinal, mas também pastoral e litúrgica, selada pela paix liturgique que agora Francisco não hesita nem um segundo romper.

Em outras palavras, se a lex orandi precedente (mais uma vez, os termos são absurdos, mas damos-lhe a licença retórica de dizê-lo apenas para extrair daí as conclusões lógicas) já não vale mais, é porque o Concílio a alterou, ou seja, está criada e institucionalizada a ruptura oficial, a qual Bergoglio pretende enfiar nos fieis goela abaixo, apelando apenas para o argumento de autoridade (a autoridade do Concílio). De fato, ele o diz expressamente quando afirma que a escolha de Bento XVI estava baseada na ideia de que “tal providência não teria posto em dúvida uma das decisões essenciais do Concílio Vaticano II, danificando, deste modo, a sua autoridade”.

Ora, é justamente a autoridade do Concílio e a sua credibilidade que Bergoglio está justamente atacando quando admite que as duas formas do rito romano não podem coexistir em razão de incompatíveis “leis da oração”. Em outros termos, ele está endossando a tese de que o Concílio não suporta uma interpretação em harmonia com o magistério anterior e, assim, reforça os protestos contra o mesmo.

Ele reclama daqueles que aderem ao usus antiquor dizendo que a opção por este está ligada “à rejeição da Igreja e das suas instituições em nome daquela que eles julgam a ‘verdadeira Igreja’”. E, em seguida, não apresenta um argumento teológico, mas apenas faz um apelo à comunhão, ou seja, à uniformidade com os reformadores: “trata-se de um comportamento que contradiz a comunhão, alimentando aquele impulso à divisão”.

Ora, aqueles que pretendem perseverar na mesma tradição de séculos são acusados de divisão enquanto os inovadores são anistiados com uma infalibilidade acima das Escrituras, da Tradição e do próprio Magistério. A unidade pretendida por Francisco não é orgânica, é despótica, ditatorial, forçada e, por isso, não vai dar certo!

Ele não pode governar a Igreja como se ela fosse um corpo militar, em que todos os membros se comportam de maneira uniforme. A Igreja não é assim. Bem como não é possível pretender a solução de um problema pelo seu agravamento. Isto é contraditório. Nas idas e vindas de proibições e permissões da Missa tradicional, esta só cresceu, enquanto o Novus Ordo só perdeu autoridade… Como dissemos anteriormente, o caos introduzido pela reforma criou tal desorientação que não se pode mais falar com precisão de um rito romano a não ser nos marcos da forma extraordinária; fora isso, só existe a desorientação e o desencontro.

O nível do contrassenso da carta de Francisco chega ao absurdo de ele afirmar: “conforta-me nessa decisão (de ab-rogar todas as normas, as instruções, as concessões e os costumes precedentes ao presente Motu Proprio) o fato de que, depois do Concílio de Trento, também São Pio V ab-rogou todos os ritos que não pudessem apresentar uma comprovada antiguidade, estabelecendo para toda a Igreja latina um único Missal Romano”. Ora, mas ele está ab-rogando justamente um rito de comprovada antiguidade em favor de um ritual escrito numa salinha há cinquenta anos, fazendo o exato contrário do papa dominicano, e ainda se diz confortado por ele?… Será que ninguém percebe que estamos diante de um homem inconsequente, que não sabe o que faz nem o que escreve?

Esta carta é a documentação de que Bergoglio simplesmente perdeu os rumos e se guia tão somente pelo desespero. O desespero do progressismo que não consegue mais puxar a sua revolução suficientemente, diante do corpo mole dos católicos; que já perdeu toda a sua autoridade e precisa, por isso, apelar para o autoritarismo; que não consegue mais adeptos, mas está sabotado de todos os lados, pelo aparecimento de jovens tradicionais que desenterram aquelas relíquias que eles viveram por décadas a sepultar; que já está desmascarado pela verdade da fé, exposta com clareza e sem tergiversações pelas vozes mais alternativas. O teatro acabou e agora só lhes resta um grito: o grito de quem perdeu.

31 julho, 2021

Quia me dereliquisti?

Por FratresInUnum.com, 31 de julho de 2021 – Santo Inácio de Loyola, cuja festa celebramos hoje, é o fundador da Ordem da qual procede Jorge Mario Bergoglio, a Companhia de Jesus. Não podemos figurar a “desglória” acidental que este seu filho possa lhe dar no céu, já que justo o primeiro jesuíta a chegar ao pontificado é a completa antítese do seu fundador, o qual viveu para edificar a Igreja numa contrarrevolução decidida contra os hereges protestantes e para a conversão, sim, o proselitismo, e a expansão da civilização cristã pelo Novo Mundo. Por sua vez, seu descendente, além de entronizar no Vaticano a imagem de Lutero, tenta expropriar os fieis daquele bem que o heresiarca alemão mais odiou: a Missa de Sempre!

“Em vida fui tua peste; morto, serei tua morte, ó papa” – Martinho Lutero.

Lutero ab-rogou a Missa em sua seita e a chamava de “a maior blasfêmia do romanismo”. A oração que ele mais execrava na liturgia era justamente aquela que encerrava o ofertório, o “Suscipe, Sancta Trinitas” — abolida no Novus Ordo Missae de Paulo VI –, a qual ele chamava de blasfema porque ousava oferecer a Deus algo, coisa sumamente reprovável para quem considerava todas as obras humanas corrompidas e que não cria na existência de obras meritórias.

O protestantismo acabou com os sacramentos e os reduziu a ordenanças, destruiu as bênçãos, pois considerava-as blasfemas, sinais de que existiria um sacerdócio ministerial, ao qual eles rejeitam. E, por isso, à destruição da Santa Missa, seguiu-se o cortejo de destruições dos sacramentos e sacramentais, cujos ritos foram minimamente reduzidos a invocações ou orações a serem presididas por qualquer um.

O Motu Proprio “Traditionis Custodes” – o nome não poderia ser mais irônico, ainda mais neste contexto – não poderia encerrar-se sem um atentado similar. Não adianta apenas agredir a Missa, é preciso agredir a tudo aquilo que lhe corteja. Por isso, diz Francisco no art. 8: “as normas, instruções, concessões e costumes precedentes, que não estejam conformes ao que é disposto pelo presente Motu Proprio, são ab-rogadas”.

Com este artigo, sem sequer mencioná-lo expressamente, Francisco parece vedar a utilização do Breviário, do Ritual Romano e do Pontifical para todos os fieis. Nenhuma concessão é permitida, nem sequer nenhum “costume”! A lei, em geral, cristaliza alguns costumes, mas ab-rogá-los, e simplesmente por uma determinação legislativa, é qualquer coisa de inconcebível. É a este nível de imposição a que chegou Bergoglio.

Isso significa, por exemplo, que o texto do Motu Proprio – não sabemos até que ponto o mesmo será efetivamente aplicado – não permitiria mais o rito das ordenações segundo o Pontifical precedente, o que implica a abolição de todas as possibilidades de outorga das ordens menores e a obrigatoriedade do Novus Ordo para as ordenações nos Institutos ligados ao Usus Antiquor.

Do mesmo modo, ficaria proibida a possibilidade de benzer os objetos segundo o ritual tradicional, que valoriza o sacerdócio ministerial, e tornar-se-ia obrigatória a utilização do novo ritual. Por exemplo, a bênção da água na forma tradicional “eu te exorcizo, água”, “eu te abençoo, água”, ficaria sumariamente substituída pela forma nova, agora imposta: “bendito sois, Senhor”, uma berakah judaica na qual não se benze nada, mas apenas se bendiz a Deus como se aquilo já estivesse bento.

Na prática, os padres nunca seguiram este novo ritual de bênçãos. Será que alguém já solicitou uma bênção e o padre lhe pediu para esperar porque iria à sacristia pegar o ritual de bênçãos?

O próprio Dom Isnard, na Apresentação do Ritual de Bênçãos, afirmou que “não há mais bênção com um simples sinal da cruz”… Coisa jamais seguida por nenhum padre do mundo! Todos benzem apenas traçando uma cruz sobre o objeto. Além disso, continuou ele, afirmando que outra novidade são “as bênçãos presididas por leigos, homens e mulheres, em virtude de seu sacerdócio batismal. É extremamente louvável esse reconhecimento da dignidade sacerdotal (sacerdócio comum e não ministerial) do leigo”. Ora, alguém já viu uma senhora dizendo: “Dona Maria, benze esta água pra mim?” É evidente que toda a reforma litúrgica no que diz respeito aos sacramentais foi a coisa mais mal sucedida!

Portanto, por detrás dessas palavras tão lacônicas de Bergoglio se esconde uma imensa bomba contra todos os ritos que se seguem à Santa Missa tradicional e ao sacerdócio católico.

A quem tem dúvida se é isso tudo mesmo, como disse o Padre Barth, é melhor nem perguntar a Roma, pois a resposta pode ser ainda pior.

Trata-se da imposição do novo e inglório ritual que ninguém usa e da tentativa de completa extinção dos ritos dos sacramentos segundo a forma tradicional.

Como alguém pode dar um golpe desses de modo tão sorrateiro? No Concílio, ao menos, houve certa formalidade para a substituição dos ritos! Como é possível que se crie uma lei tão abrangente por detrás de palavras tão indiretas, mas ao mesmo tempo tão letais, a ponto de extinguir até os “costumes”?

Este artifício legislativo é apenas uma armadilha verbal. Do mesmo modo como antes, os padres vão continuar usando as bênçãos sérias do Ritual Romano anterior, inclusive com traduções aprovadas anteriormente, seguirão exorcizando e benzendo água, sal e óleo, darão a bênção nas velas e nos terços, nas imagens e nas medalhas, e não se incomodarão nem um pouco com tais restrições.

A Liturgia das Horas nova quase não é rezada por nenhum padre, mesmo. Os padres tradicionais continuarão rezando o seu Breviário antigo, enquanto os modernos nem saberão em que semana do saltério eles estão.

Mais difícil será a situação das ordenações. Os institutos anteriormente ligados à Comissão Ecclesia Dei terão a difícil missão de contornar a situação, mas, se conseguirem, mostrarão que esta lei não passa de um artifício de palavras… Tomara que consigam!

O que fica claro, por detrás disso tudo, é o gesto mais anti-inaciano jamais tomado por um Papa, ainda mais grave por se tratar de um “filho” do fundador da Companhia: o triunfo de Lutero e de seu ódio à Missa católica, aos sacramentos católicos e ao sacerdócio católico. Diante de tamanho descalabro, não é difícil imaginar a inquietação do glorioso soldado de Cristo perguntando a este seu “discípulo”: “fili mi, quare me dereliquisti?”, “filho meu, por que me abandonaste?”

30 julho, 2021

Tamquam leo rugiens.

Por FratresInUnum.com, 30 de julho de 2021 – Os papas ditos conservadores sempre foram muito zelosos em dizer as coisas certas, mas sem estabelecer uma vigilância que oportunizasse a imposições de sanções para os desobedientes e contestatários.

Apesar das claras e firmes condenações ao modernismo, e do tão execrado Sodalitium Pianum, o próprio São Pio X excomungou somente dois hereges, os modernistas Alfred Loisy e George Tyrrell.

De volta aos anos 60: até Elvis Presley avacalhou a Missa Tradicional.

Já Pio XII escreveu uma Encíclica excepcional, a Humani generis, em que condena da Nouvelle Théologie, mas sem criar nenhum dispositivo para a punição dos seus autores. Resultado: os teólogos heterodoxos foram inibidos durante um tempo, mas depois vieram com toda a força durante e depois do Concílio Vaticano II, invertendo completamente a situação.

João Paulo II foi ainda pior. Mandou a Congregação para a Doutrina da Fé promulgar um documento contra a Teologia da Libertação, a Instrução Libertatis nuntius, mas, diante do protesto e das ameaças de cisma oriundos do Brasil, acabou por retroceder e mandar escrever a Instrução Libertatis conscientiae, em que afirma a possibilidade de existência de uma ortodoxa teologia da libertação, algo mais ou menos tão possível quanto um triângulo quadrado.

Na época em que o livro de Leonardo Boff, Igreja: carisma e poder, foi censurado, ele mesmo recebeu apenas o silêncio obsequioso de um ano, coisa mais ou menos equivalente a um pito, mas que foi suficiente para deixar toda a esquerda possessa de ódio, a ponto de mobilizar centros de defesa dos direitos humanos contra o Papa.

Em Traditionis custodes, Francisco faz exatamente o contrário. Após dizer coisas inconsistentes com a obstinada intenção de tornar impossível não apenas a celebração da Missa Tradicional, mas até a vida daquelas instituições erigidas pela Igreja para conservá-la, ele determina as instituições que exercerão o papel policial de perseguição e penalização dos desobedientes, com a mesma intolerância com que a esquerda sempre atuou contra os seus opositores.

No art. 7, ele escreve que “a Congregação para o Culto divino e a Disciplina dos Sacramentos e a Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e as Sociedades de Vida Apostólica, para as matérias da sua competência, exercerão a autoridade da Santa Sé, vigiando a respeito da observância destas disposições”.

A novidade deste artigo não está no fato de que as Congregações exerçam autoridade em nome da Santa Sé, pois isso é o que constitui a essência de um dicastério — do grego, dikastes, juiz, pois julgam em nome do Romano Pontífice — e nem que o façam nas matérias em que são competentes.

As novidades deste artigo são duas. A primeira é que, extinta completamente a Comissão Ecclesia Dei, o rito tradicional passa a ser de competência da Congregação para o Culto Divino, do qual o prefeito recém nomeado é histórico inimigo, e, como dissemos ontem, os Institutos tradicionais passam a depender da Congregação para os religiosos, cujo prefeito é alérgico a qualquer coisa que relembre a Tradição.

A segunda novidade é que essas Congregações devem exercer vigilância para que o Motu Proprio seja devidamente observado. Em outras palavras, Francisco está dizendo que isso aqui não ficará apenas no papel: haverá censura, haverá perseguição, haverá silenciamento, haverá supressão, haverá sanção canônica, haverá desaparecimento. Em outras palavras, estamos já sob o regime de uma ditadura tão férrea quanto a da União Soviética ou da China. Os organismos da Igreja estão com as armas direcionadas para a nossa cabeça. Os tradicionalistas estão sob o alvo dos modernistas. Agora é a hora do ataque.

Eles não têm pressa. Não se trata de uma questão que precise ser resolvida de modo imediato. O aparato institucional já foi criado e, agora, basta ir calmamente aplicando as meditas de intervenção, na expectativa de que os mais covardes desistam de antemão da resistência.

Do ponto de vista da liturgia, a Congregação para o Culto Divino pode facilmente emitir decretos, por exemplo, autorizando a Comunhão na mão nas Missas Tridentinas ou alterando o calendário litúrgico para que se adapte ao novo; se o próprio Francisco já tentou enfiar o lecionário novo no missal antigo, o que lhes impede de mudar rubricas e impor novas orações? Não é de se descartar que, dentro de pouco tempo, haja padres celebrando a Missa tradicional com túnica morcegão e estola de crochê, que se introduzam cânticos carismáticos no lugar do graduale e do kyriale e que se imponha ministros leigos da comunhão e até leitores e leitoras. É para isso que o rito tradicional enquanto tal mudou de competência. A hora é de anarquizar.

Em todo caso, a vigilância é o que se quer impor, mais do que qualquer mudança imediata. Quer-se introduzir o medo, a mentalidade de controle. Não existe tolerância por parte de modernistas e aos conservadores é necessário ter ciência disso! Trata-se da imposição pura e simples. Aí não há diálogo, sinodalidade, comunhão, pluralidade, igualdade; há somente supremacia e destruição! É disso que se trata. Da parte do bom clero católico, resta apenas a resistência sóbria e corajosa, pois “o vosso adversário, o diabo, vos rodeia como um leão a rugir – tamquam leo rugiens –, procurando a quem tragar” (1Pd 5,8).

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