Archive for ‘Modernismo’

3 setembro, 2011

A atitude pessoal de São Pio X para com os modernistas.

Na festa de São Pio X, pedimos a intercessão de tão insígne Pontífice para que imitemos o seu exemplo de caridade e zelo.

Desde sua primeira encíclica, Pio X urgia por caridade mesmo para com “aqueles que se nos opõem e perseguem, vistos, talvez, como piores do que realmente são”. Esta caridade não era um sinal de fraqueza, mas estava fundamentada na esperança: “a esperança”, escreveu o Papa, “de que a chama da caridade Cristã, paciente e afável, dissipará as trevas de suas almas e trará a luz e a paz de Deus”.

Pio X também tinha sua esperança – de ver os adversários da Igreja emendando seus caminhos e renunciando seus erros – no que diz respeito aos modernistas.

Os testemunhos que citaremos o provarão de maneira incontestável. Mas Pio X fez mais: discretamente  deu assistência financeira a alguns deles ou lhes arranjou outros ofícios; em outros casos, mostrou-se prudente antes de condená-los. Era esta generosidade, nada excepcional, incompatível com sua determinação na luta contra o modernismo? Como pode o mesmo homem que impõe sanções, depõe clérigos, excomunga, simultaneamente mostrar-se caridoso e contido? Durante o processo de beatificação, o Promotor da Fé apresentou uma série de objeções; uma delas era: “Sejamos francos: a questão, a única questão que, a meu ver, parece se levantar neste grande inquérito, é saber se Pio X, em sua luta contra o modernismo, ultrapassou as fronteiras da prudência e da justiça, particularmente em seus últimos anos…” [Novae Animadversiones, citado em Conduite de s. Pie X, p. 14] A isso, o Postulador da Causa respondeu com um volumoso dossiê de mais de 300 páginas no qual mostrava que Pio X era “firme em seus princípios, correto em suas intenções e paciente e afável com aqueles com quem lidava, mesmo se tivesse razões justas para expressar sua angústia por causa deles”. [Ibid., p. 20]

Voltamo-nos a esta questão da atitude pessoal de Pio X para com os modernistas e citaremos vários casos. Os contemporâneos de Pio X talvez desconhecessem esses gestos de caridade e justiça da parte do Pontífice. No dia seguinte à morte do Papa, Mons. Mignot, que era próximo dos modernistas, repreendeu o falecido nos seguintes termos: “Pio X era um santo, com um desinteresse raro para um italiano, mas suas idéias absolutas paralisavam seu coração… Ele esmagou muitas almas, a quem um pouco de ternura teria mantido no caminho correto”. [Carta de Mons. Mignot a Hügel, 9 de setembro de 1914, citado por Poulat, Histoire, dogma et critique, p. 480] Os historiadores do modernismo não mencionam os gestos de caridade ou justiça de Pio X, ou o fazem apenas de passagem. O número e a consistência destes atos mostram, todavia, que não foram resultados de decisões excepcionais de sua parte, mas manifestavam uma disposição intelectual e uma atitude espiritual. Na luta contra o fenômeno do modernismo, todos os métodos eram usados, e sem piedade, pois Pio X considerava que a fé dos fiéis estava em perigo e que o futuro da Igreja estava em jogo; por outro lado, quando se tratava da sorte dos modernistas, Pio X, sabendo-o, fazia grande esforço para ser o mais justo, prudente e caridoso possível.

Um exame das relações de Pio X com Loisy, o mais famoso dos modernistas, dá-nos uma boa idéia de seus profundos sentimentos. Como já vimos, quando Loisy manifestou sua disposição de se submeter, Pio X exigia, insistia que o exegeta francês devesse fazer uma completa e sincera submissão “com seu coração”. Loisy, que persistiu em seus erros após a Pascendi, acabou excomungado. Viveu em retiro em Ceffonds, Haute-Marne, e logo seria eleito para o Collège de France. No entanto, Pio X não o via como um filho perdido da Igreja. Em 1908, recebendo o novo bispo de Châlons, Dom Sevin, Pio X recomendou-lhe Loisy (a quem ele havia excomungado há pouco tempo). As palavras do Papa foram relatadas pelo próprio Loisy: “O senhor será o bispo do Pe. Loisy. Se tiver a oportunidade, trate-o com gentileza; e se ele der um passo em sua direção, dê dois na direção dele”. [Loisy, Mémoires, vol. III, p. 27. Pe. Lagrange dá outra versão destas palavras, versão que ouviu da boca de Dom Sevin; quando o bispo de Châlons perguntara ao Papa que atitude deveria adotar com relação a Loisy se este demonstrasse arrependimento, o Papa respondeu: Recebei-o de braços abertos. Digo ao senhor que ele, meu filho, irá voltar” (Lagrange, M. Loisy et le modernisme, p. 138)]

Outro caso é o do Pe. Murri. Como veremos, a Liga Nacional Democrática que fundara foi condenada pelo Papa. Ele tinha conhecidos laços com modernistas. Em abril de 1907, no despertar de uma série de artigos nos quais Murri amargamente criticava a política do Vaticano na França, Pio X enviou uma carta ao bispo da diocese deste líder democrático, instruindo-o a informar a este último que estava suspenso a divinis. Quando, alguns meses depois, a Encíclica Pascendi estava prestes a ser publicada, havia uma certa expectativa de que Murri fosse imediatamente excomungado, dado que estava absolutamente claro que o turbulento líder democrata cristão se oporia à Encíclica. O problema foi colocado a Pio X, que preferiu ser paciente. Em 25 de agosto de 1907, escreveu à Congregação do Santo Ofício: “Se tudo estiver em ordem com o celebret do Pe. Romolo Murri, ele não pode, sem grave injustiça, ser proibido de rezar Missa, na medida em que não realizou qualquer ato condenado pela Encíclica”. [Citado por Dal-Gal, Pie X, p. 404] Murri, contudo, persistiu publicamente em suas posições e foi, ao fim, excomungado em 1909. Posteriormente, ele experimentou graves dificuldades financeiras; Pio X soube disso e pagou-lhe uma pensão mensal.[Depoimento do Cardeal Merry del Val, Summarium, p. 195]

[…]

Pio X tinha de levar muitas coisas em consideração: a salvaguarda da fé e do bem da Igreja, a necessidade e a legitimidade de estudos em matérias de religião, o bem pessoal e a boa fé das pessoas envolvidas, assim como as manobras, as ambições e o zelo das partes. Enquanto Papa, seu dever eram aqueles primeiros; como cristão, estava obrigado a seguir a caridade, prudência e justiça. […] Pio X sentia como seu dever, enquanto guardião da fé, combater o modernismo, e fazê-lo usando os mais variados métodos e sem fraqueza, pois, como via, a própria existência da Igreja estava ameaçada. Ao mesmo tempo, sem fazer qualquer concessão ao erro, esforçava-se por ajudar os culpados ou suspeitos, e tomava grande cuidado em limitar os excessos dos anti-modernistas. Uma de suas máximas favoritas era: “devemos combater o erro sem ferir as pessoas envolvidas”.

Saint Pius X, Restorer of the Church – Yves Chiron, Angelus Press, 2002, pp. 236-237;241-242. Tradução: Fratres in Unum.com.

18 dezembro, 2010

Dom Schneider pede ao Papa um novo Syllabus.

Por Osservatore Vaticano – Vini Ganimara

Ciclo de conferências sobre o Vaticano II organizado pelos Franciscanos da Imaculada, em Roma, reúne expoentes da crítica ao Concílio. Dentre eles, Mons. Gherardini e Prof. Roberto de Mattei.

Ciclo de conferências sobre o Vaticano II organizado pelos Franciscanos da Imaculada, em Roma, reúne expoentes da crítica ao Concílio. Dentre eles, Mons. Gherardini e Prof. Roberto de Mattei.

Um verdadeiro furacão passou ontem, 17 de Dezembro de 2010, por Roma, a dois passos da basílica de São Pedro: um bispo propôs, nada mais nada menos, que… recolocar em prática o magistério infalível da Igreja.

Com efeito, desde 16 de dezembro, realiza-se em Roma um importante colóquio intitulado “Concílio Vaticano II, um concílio pastoral – Análise histórica, filosófica e teológica”. Organizado pelos corajosos Franciscanos da Imaculada, este colóquio se realiza nas salas de conferência de Santa Maria Bambina, atrás da colunata de Bernini, próximo ao Palácio do Santo Ofício, num quase silêncio midiático, apesar da atualidade do tema com relação ao pontificado de Bento XVI e da qualidade dos intervenientes.

Duas intervenções esperadas marcaram o primeiro dia: a de Mons. Gherardini, autor do livro Concilio Vaticano II, un discorso da fare, e a do professor Roberto de Mattei, historiador italiano, autor de um recente livro sobre o concílio, intitulado Il Concilio Vaticano II. Una storia mai scritta (disponível por ora apenas em italiano, edições Lindau). Ambos responderam às críticas que os seus trabalhos levantaram, aliás, muito paradoxalmente, do meio conservador, em cujo seio há alguns raros defensores da infalibilidade do Concílio.

Ontem, 17 de dezembro, Dom Schneider, bispo auxiliar de Karaganda, causou alvoroço com sua conferência sobre o tema do culto a Deus como fundamento teológico da pastoral conciliar. Propondo um longa coletânea de citações, teologicamente muito ortodoxas, extraídas dos textos conciliares, apresentou à assistência textos escolhidos de um Vaticano II, de certo modo, “mais ortodoxo que Trento”. A captatio benevolentiae foi particularmente eficaz: a assistência esperava o que estava por vir, suspenso nos lábios do bispo.

Dom Athanasius Schneider, bispo auxiliar de Karaganda, Cazaquistão.

Dom Athanasius Schneider, bispo auxiliar de Karaganda, Cazaquistão.

É então que, denunciando a interpretação errônea deste concílio no período pós-conciliar, o bispo conclui a sua intervenção sugerindo… a redação de um Syllabus que condene infalivelmente “os erros de interpretação do Concílio Vaticano II”.

Pois, segundo Dom Schneider, só o magistério supremo da Igreja (do Papa ou de um novo concílio ecumênico) pode corrigir os abusos e os erros nascidos do Concílio e retificar sua compreensão e sua recepção à luz da tradição católica. Respondendo um pedido de esclarecimento, fez a sua douta assistência cair no riso ao considerar que não era possível reunir um concílio em menos de 500 anos. Cabe, portanto, ao magistério supremo do Papa. Daí seu pedido por um novo Syllabus, onde figurariam face à face os erros condenados e a sua interpretação ortodoxa.

Como tantos e tantos outros há 40 anos, é, pois, ao juízo infalível do Papa “reformulando” o Vaticano II que se está apelando. Com exceção de que, desde a “liberação da palavra” operada por Bento XVI, são doravante os personagens oficiais que interpõe o pedido.

Tradução: Fratres in Unum.com

16 outubro, 2010

Nova entrevista de Dom Bernard Fellay: vivemos como que “uma dessas incursões dos exploradores que entrevêem a terra prometida, sem que as circunstâncias lhes permitam adentrá-la”.

Dom Bernard Fellay : “Em um ponto de inflexão” – 16 de outubro de 2010

Entrevista com Dom Bernard Fellay – Nouvelles de Chrétienté set.-out. 2010 – Fonte: DICI

A Fraternidade Sacerdotal São Pio X celebra seus 40 anos. É o fim da travessia pela deserto, como para os hebreus nos tempos de Moisés?

Creio que o que vivemos se parece mais com uma dessas incursões dos exploradores que entrevêem a terra prometida, sem que as circunstâncias lhes permitam adentrá-la.

Para evitar alguma falsa interpretação da imagem utilizada, quero precisar que continuamos afirmando sempre e firmemente que somos católicos e que, com a ajuda de Deus, queremos permanecer como tais. No entanto, para a Igreja toda, esta crise se parece muito com a travessia pelo deserto, com a diferença de que o maná é muito mais difícil de ser encontrado. Há sinais alentadores, sobretudo da parte de Roma, mas infelizmente estão juntos de outros sinais bem preocupantes. Algumas fiapos de grama no deserto…

Apesar de tudo, como se desenvolve a Fraternidade Sacerdotal São Pio X em todo o mundo?

Com efeito, a Fraternidade se desenvolve um pouco por toda parte. Algumas regiões tem um impulso maior que outras, penso, por exemplo, nos Estados Unidos, mas o grande obstáculo que encontramos é a falta de sacerdotes. Falta-nos desesperadamente sacerdotes para responder como deveríamos aos pedidos de auxílio que nos chegam de todas as partes. A cada nomeação fazemos uma escolha que deixa sem resposta um ou vários grupos de fiéis. Por um lado, é antes um bom sinal, pois mostra claramente o desenvolvimento de nossa obra, mas também é muito doloroso. Pensem nos países de missão, em particular na África ou no Brasil. Se pudéssemos enviar para lá uns cinqüenta sacerdotes seria um grande alívio. A Ásia também espera…

Dom Lefebvre dizia que para as autoridades romanas as cifras deste crescimento eram mais eloqüentes que os argumentos teológicos? Continua sendo assim?

Não sei se devemos dizer as “cifras” ou os “feitos”. De todo modo, ambos pertencem à mesma ordem de coisas. Segundo um velho adágio, contra factum non fit argumentum, contra fatos, não há discussão possível; isto conserva toda a sua força. E a afirmação de Dom Lefebvre é muito correta. Destaquemos que não é tanto o número o que impressiona Roma, pois continuamos a ser uma quantidade insignificante no conjunto do Corpo Místico. Esses frutos magníficos, que certamente são, segundo as próprias palavras de um alto prelado romano, a obra do Espírito Santo, são o que move as autoridades romanas ao voltar seus olhares para nós. Tanto mais quanto se trata de frutos frescos que crescem no meio do deserto.

Neste mês de setembro, os relatórios sobre a aplicação do Motu Proprio com referência à missa tradicional devem ser enviados à Santa Sé. São poucos os bispos que aplicaram generosamente as diretrizes romanas. Como o senhor explica esta reticência, ou melhor, esta resistência?

Do mesmo modo que a nova missa expressa um certo espírito novo que é o do Vaticano II, assim também a missa tradicional expressa o espírito católico. Os que se agarram com unhas e dentes ao Vaticano II por verem nele um novo ponto de partida da Igreja, ou os que consideram que com o Vaticano II uma página da história da Igreja foi deixada para trás definitivamente, são quem simplesmente não podem aceitar a co-existência de uma missa que recorda exatamente tudo o que pensavam ter deixado eternamente para trás. Há dois espíritos diferentes encarnados em duas missas. É um fato! E os dois não caminham juntos! Encontra-se no católico moderno um ódio semelhante para com o rosário, por exemplo. E tudo se relaciona. Vemos na questão da missa um exemplo muito bom da complexidade da crise que sacode a Igreja.

O senhor quer dizer que hoje, na Igreja, por detrás de uma fachada de unidade, esconderiam-se fraturas não só entre os episcopados locais e Roma, mas mesmo Roma entre diversas tendências opostas? O senhor tem provas?

Oh ! Sim, lamentavelmente estamos nos tempos anunciados em que se verão Cardeal contra Cardeal, Bispo contra Bispo. Este tipo de disputa é geralmente muito discreto e escapa à vista dos fiéis. Mas nesses últimos tempos, em diversas ocasiões, converteu-se em algo público e notório, como no ataque gratuito do Cardeal Schönborn contra o Cardeal Sodano. Isso se pareceu muito com um acerto de contas. Mas não é segredo que tendências opostas se chocam mesmo em Roma. Conhecemos vários fatos, mas não creio que seja útil para os fiéis que essas coisas sejam reveladas.

Em uma recente conferência no seminário da Fraternidade São Pedro (1), Mons. Guido Pozzo, secretário da Comissão Ecclesia Dei, esforça-se em dar uma prova de continuidade doutrinal entre Vaticano II e a Tradição. Cita, com este fim, a questão do subsistit in e a do ecumenismo. Esses exemplos lhe parecem convincentes?

Eu não diria convincentes, mas surpreendentes. Esta conferência é a aplicação muito lógica dos princípios enunciados em dezembro de 2005 por Bento XVI. E nos oferece uma apresentação do ecumenismo bastante diferente do que temos escutado durante quarenta anos…, uma apresentação mesclada com os princípios eternos sobre a unidade da Igreja e sua perfeição única, sobre a exclusividade da salvação. Claramente se vê uma tentativa de salvar o ensinamento de sempre e, ao mesmo tempo, um Concílio reconsiderado sob uma luz tradicional. A mescla, ainda que interessante, deixa ainda abertas questões de lógica sobre o papel que desempenham as outras confissões cristãs… chamadas, inclusive por Pio XII, de “falsas religiões”. Eles se atreverão, em algum momento, a utilizar novamente este termo?

 

Peregrinação da Fraternidade São Pio X a Roma para o Jubileu do ano 2000.

Peregrinação da Fraternidade São Pio X a Roma por ocasião do Jubileu do ano 2000.

 

Mons. Pozzo propõe em sua extensa conclusão um Concílio Vaticano II revisado – se não corrigido –, denunciando o relativismo, um certo “pastoralismo”, uma espécie de “dialoguismo” excessivo… O senhor pensa que esta apresentação é capaz de chegar à unanimidade em Roma e nas dioceses? Como o senhor julga esta versão revisada do Concílio?

É interessante no sentido de que se nos apresenta um novo Vaticano II, um Concílio do qual, de fato, nunca tivemos conhecimento, e que se distingue daquele que nos tem sido apresentado nos últimos quarenta anos. Uma espécie de nova pele! É interessante, sobretudo, porque a tendência ultra-moderna é condenada muito fortemente. Nos é apresentado uma espécie de Concílio moderado ou “acalmado”. Permanece, no entanto, a questão da recepção desta fórmula nova, certamente julgada como muito tradicional pelos modernos e não suficientemente tradicional por nós. Digamos que uma boa parte de nossos ataques se vê justificada, uma boa parte do que condenamos é condenado. Mas se certas coisas são condenadas, a divergência permanece sendo grande sobre as causas. Já que, enfim, se foi possível semelhante desorientação acerca do Concílio, e em tal escala, e com tal amplitude… é necessária uma causa proporcional! Se comprovam semelhante divergência de interpretação a propósito dos textos do Concílio, há de se concluir algum dia que as deficiências dos textos têm sua parte de culpa.

Alguns no seio da Tradição pensam que a crise deveria terminar instantaneamente, realizando a passagem desta crise até sua solução de uma só vez. Em sua opinião, trata-se de um sinal de confiança sobrenatural ou de impaciência demasiadamente humana? Em uma solução gradual da crise, quais são as etapas positivas já verificadas? Quais são as que o senhor desejaria ver no futuro?

A solução instantânea da crise, como alguns imaginam, não pode provir senão de um milagre ou de uma grande violência. Se não ocorre assim, permanece então a solução gradual. Mesmo que, em potência absoluta, não se pode excluir que Deus possa fazer tal milagre, todavia, de maneira habitual, Deus governa sua Igreja de outra maneira, por uma cooperação mais normal das criaturas e de seus santos. Em geral, a reabsorção de ma crise dura ao menos tanto tempo como sua ativação, inclusive mais. O caminho da reconstrução é longo, o trabalho é imenso. Mas, acima de tudo, a escolha dos homens será determinante. Se a política de nomeações dos bispos finalmente mudar, podemos ter esperança.  Na mesma ordem, seria necessária uma profunda reforma do ensinamento das universidades pontifícias, da formação dos sacerdotes nos seminários. Trata-se de trabalhos de longo prazo que, por ora, são ainda sonhos, mas que em um período de dez anos poderiam já tomar forma concreta. Tudo depende primeiramente do Papa. No momento, o positivo é o reconhecimento de que muitas coisas vão mal…  Aceita-se dizer que há uma enfermidade, uma grande crise na Igreja. Eles irão muito mais longe do que isso? Veremos…

Com o que a Fraternidade Sacerdotal São Pio X pode contribuir, concretamente, para a solução desta crise sem precedentes? Que papel podem ter os fiéis da Tradição nesta obra de restauração? O que o senhor espera da jovem geração que hoje tem 20 anos e que terão 60… dentro de 40 anos?

Recordar que a Igreja tem um passado que ainda hoje permanece completamente válido. Um novo olhar, não empoeirado, sobre a Tradição da Igreja é uma contribuição decisiva para a solução da crise. A isso devemos acrescentar o chamar a atenção sobre o poder da Missa Tradicional, da missão e do papel do sacerdote tal como quer Nosso Senhor, segundo sua imagem e segundo seu Espírito. Quando perguntamos aos sacerdotes que se aproximam da Fraternidade o que esperam de nós, eles nos respondem primeiro que esperam a doutrina. E isso mesmo antes da Missa. É surpreendente, mas ao mesmo tempo é um bom sinal. Os fiéis têm o importante papel do testemunho, de mostrar que a vida cristã como sempre foi entendida, com suas exigências e o respeito à lei de Deus, é perfeitamente possível no mundo moderno. A vida cristã levada à prática é um exemplo muito concreto do que tem necessidade o homem da rua. E quanto à geração dos que hoje têm 20 anos, vejo que ela está à espera, pronta para a aventura da Tradição, sabendo bem que lhes é oferecido fora dela é pura aparência. Estamos em um ponto de inflexão para a reconstrução do futuro, e mesmo que isso ainda não seja visto claramente, creio que tudo é possível.

(1)    Conferência dada por Mons. Guido Pozzo, em 2 de julho de 2010, no seminário de Wigratzbad, intitulada, “Aspectos da eclesiologia católica na recepção do Vaticano II” [tradução do Fratres in Unum aqui] . Ver nosso comentário em DICI n. 220 de 7 de agosto de 2010, Vaticano II,um debate entre Romano Amerio, Mons. Gherardini e Mons. Pozzo”. [tradução do Fratres in Unum aqui].

12 outubro, 2010

O “alto clero” na corte da comendadora Dilma.

Por Padre João Batista de Almeida Prado Ferraz Costa

Um dos jargões mais batidos da esquerda católica foi sempre acusar a Igreja de antes do VII [Vaticano II] de ter sido aliada dos poderosos, defensora das classes privilegiadas, distante dos pobres e omissa na luta pela dignidade dos oprimidos. Dizem até que a Igreja demorou a abandonar o discurso legitimista na esperança de um dia ver restaurados os tronos e as cortes européias onde o alto clero vivia, ao lado da nobreza palaciana, de forma parasitária.

Essa é a caricatura que eu mesmo tive várias vezes a oportunidade de ouvir da boca dos demagogos da esquerda festiva ligados à Igreja pós-conciliar. Lembro-me de uma abade premonstratense  que teve a petulância de assacar essa acusação contra mons. Lefèbvre, o santo bispo que passou a maior parte da sua vida tão sacrificada como missionário entre os pobres deserdados do continente africano.

Que tenha havido clérigos áulicos, ninguém nega. Que tenha havido  homens da Igreja oportunistas e maquiavélicos querendo estar sempre de bem com os poderosos é fato histórico. Mas daí a dizer que essa seja a nota predominante e característica da Igreja de antes do VII vai uma grande diferença.

Quem lê os sermões do padre Vieira, articulador maior da restauração do trono português em 1640 e amigo próximo do rei dom João IV, logo se admira da liberdade e franqueza do notável pregador em denunciar mazelas e injustiças da parte dos grandes. Quem lê os Discursos sobre a História Universal de Bossuet também logo se convence da retidão do célebre prelado do Antigo Regime. Aqui poderíamos multiplicar os exemplos, sem falar da coragem dos papas de antes do Vaticano II em combater o perigo comunista que ameaçava todo Ocidente, sem medo de represália, sem nenhuma tentação de um acordo indigno com o inimigo. Isso só ocorreu durante o malfadado VII.

Mas agora vemos um clero oportunista e velhaco vendendo-se para a Dona Dilma. Ignomínia maior é impossível imaginar.  Agora vemos religiosos prepotentes punindo o padre José Augusto, um sacerdote humilde e nobilíssimo, por ter alertado os católicos quanto à gravidade do momento político que vivemos.

Realmente, causa nojo ver o sr. Gabriel Chalita, pseudo-intelectual católico que não passa de um mascate da auto-ajuda pentecostal, defendendo o PT; na verdade, querendo engabelar os pobres carismáticos com a idéia de que é boato o fato incontestável de que o referido partido é anticristão por prever em seu programa a legalização do aborto e da união civil entre homossexuais. E tudo isso sob a égide da cúpula da Canção Nova e da CNBB.

Estou convencido de que a Canção Nova hoje adota os mesmos métodos da Rede Globo e do falecido Roberto Marinho no tempo da ditadura militar.

Esses homens, sim, áulicos e impostores. Meu Deus! Que falta nos faz um Dom Gastão Liberal Pinto! Um prelado digno sob todos os aspectos que por muito menos não se curvou diante do ditador Getúlio Vargas que queria tripudiar sobre a terra dos bandeirantes!

Esses homens, sim, são uns venais, porque, em troca de uns favores do governo Lula, renegam princípios sagrados. Não tolerei ver aquele bispo que, para formular uma pergunta à comendadora Dilma sobre o que previa o seu projeto de governo para as crianças, teceu primeiro rasgados elogios ao governo Lula pelo que teria feito em favor da infância. O governo Lula distribui camisinha nas escolas e esses homens têm coragem de prestigiá-lo!

Como estamos longe do tempo em que um padre do interior de São Paulo recusou-se a receber o imperador Pedro II no átrio da igreja por haver o monarca sido conivente com a injustiça cometida contra Dom Vital e Dom Macedo Costa, os heróicos bispos que combateram a  maçonaria. Indagando do motivo da atitude do sacerdote, o imperador admirou-se da sua altivez e dirigiu-se à sacristia para saudá-lo.

Hoje, tudo ao contrário. Salvo raras e honrosas exceções, parece que no Brasil muitos bispos reencarnam aqueles inquisidores que condenaram Joana D’ Arc por estarem vendidos ao inimigo da pátria. Agora estão vendidos para a Venezuela, para Cuba, quem sabe, para as Farcs! Suprema humilhação!

Tudo porque querem ter em Brasília uma corte. Querem ser áulicos da Dona Dilma Rousseff, a quem vão talvez condecorar com a comenda da Ordem de Dom Helder Câmara, o bispo vermelho, se é que não vão obrigar a própria Santa Sé a conferir-lhe uma honraria pontifícia.

Realmente, só falta o circo pegar fogo. Só falta chover enxofre sobre a Sodoma da América do Sul.

3 setembro, 2010

Na festa de São Pio X.

São Pio X, rogai por nós!

São Pio X, rogai por nós!

O padre deve realizar todas as suas ações, todos seus passos, todos seus hábitos em harmonia com a sublimidade de sua vocação. O padre que no altar celebra os mistérios eternos, assume, como fosse, uma forma divina; assim,  não deve ceder quando desce do Alto Monte e sai do Templo do Senhor. Onde quer que esteja, ou em qualquer trabalho que realize, nunca deve deixar de ser padre, acompanhado pela dignidade, sobriedade e decoro de um padre.  Deve, portanto, ser santo; deve ser sagrado, de forma que suas palavras e trabalhos expressem seu amor, enfatizem sua autoridade e imponham respeito. A dignidade exterior é mais poderosa do que eloqüentes palavras… Por outro lado, se ele esquece a dignidade de seu caráter, se não mostra em seu comportamento exterior mais sobriedade do que os leigos, incorre no descontentamento daquelas próprias pessoas que aplaudem sua frivolidade mas não demoram em desprezar tanto a ele como aquilo que representa.

Giuseppe Melchiorre Sarto, bispo de Mántua – futuro São Pio X

* * *

Em 1º de setembro de 1910, Sua Santidade, o Papa São Pio X, através do motu proprio Sacrorum Antistitum, promulgou o famoso Juramento Anti-modernista, a ser proferido obrigatoriamente por todos os padres, bispos, catequistas e seminaristas;  juramento este abolido por Paulo VI, em 1967 :

Eu, N., firmemente aceito e creio em todas e em cada uma das verdades definidas, afirmadas e declaradas pelo magistério infalível da Igreja, sobretudo aqueles princípios doutrinais que contradizem diretamente os erros do tempo presente.

Primeiro: creio que Deus, princípio e fim de todas as coisas, pode ser conhecido com certeza e pode também ser demonstrado, com as luzes da razão natural, nas obras por Ele realizadas (Cf. Rm I 20), isto é, nas criaturas visíveis, como [se conhece] a causa pelos seus efeitos.

Segundo: admito e reconheço as provas exteriores da revelação, isto é, as intervenções divinas, e sobretudo os milagres e as profecias, como sinais certíssimos da origem sobrenatural da razão cristã, e as considero perfeitamente adequadas a todos os homens de todos os tempos, inclusive aquele no qual vivemos.

Terceiro: com a mesma firme fé creio que a Igreja, guardiã e mestra da palavra revelada, foi instituída imediatamente e diretamente pelo próprio Cristo verdadeiro e histórico, enquanto vivia entre nós, e que foi edificada sobre Pedro, chefe da hierarquia eclesiástica, e sobre os seus sucessores através dos séculos.

Quarto: acolho sinceramente a doutrina da fé transmitida a nós pelos apóstolos através dos padres ortodoxos, sempre com o mesmo sentido e igual conteúdo, e rejeito totalmente a fantasiosa heresia da evolução dos dogmas de um significado a outro, diferente daquele que a Igreja professava primeiro; condeno semelhantemente todo erro que pretenda substituir o depósito divino confiado por Cristo à Igreja, para que o guardasse fielmente, por uma hipótese filosófica ou uma criação da consciência que se tivesse ido formando lentamente mediante esforços humanos e contínuo aperfeiçoamento, com um progresso indefinido.

Quinto: estou absolutamente convencido e sinceramente declaro que a fé não é um cego sentimento religioso que emerge da obscuridade do subconsciente por impulso do coração e inclinação da vontade moralmente educada, mas um verdadeiro assentimento do intelecto a uma verdade recebida de fora pela pregação, pelo qual, confiantes na sua autoridade supremamente veraz, nós cremos tudo aquilo que, pessoalmente, Deus, criador e senhor nosso, disse, atestou e revelou.

Submeto-me também com o devido respeito, e de todo o coração adiro a todas as condenações, declarações e prescrições da encíclina Pascendi e do decreto Lamentabili, particularmente acerca da dita história dos dogmas.

Reprovo outrossim o erro de quem sustenta que a fé proposta pela Igreja pode ser contrária à história, e que os dogmas católicos, no sentido que hoje lhes é atribuído, são inconciliáveis com as reais origens da razão cristã.

Desaprovo também e rejeito a opinião de quem pensa que o homem cristão mais instruído se reveste da dupla personalidade do crente e do histórico, como se ao histórico fosse lícito defender teses que contradizem a fé o crente ou fixar premissas das quais se conclui que os dogmas são falsos ou dúbios, desde que não sejam positivamente negados.

Condeno igualmente aquele sistema de julgar e de interpretar a sagrada Escritura que, desdenhando a tradição da Igreja, a analogia da fé e as nosmas da Sé apostólica, recorre ao método dos racionalistas e com desenvoltura não menos que audácia, aplica a crítica textual como regra única e suprema.

Refuto ainda a sentença de quem sustenta que o ensinamento de disciplinas histórico-teológicas ou quem delas trata por escrito deve inicialmente prescindir de qualquer idéia pré-concebida, seja quanto à origem sobrenatural da tradição católica, seja quanto à ajuda prometida por Deus para a perene salvaguarda de cada uma das verdades reveladas, e então interpretar os textos patrísticos somente sobre as bases científicas, expulsando toda autoridade religiosa, e com a mesma autonomia crítica admitida para o exame de qualquer outro documento profano.

Declaro-me enfim totalmente alheio a todos os erros dos modernistas, segundo os quais na sagrada tradição não há nada de divino ou, pior ainda, admitem-no, mas em sentido panteísta, reduzindo-o a um evento pura e simplesmente análogo àqueles ocorridos na história, pelos quais os homens com o próprio empenho, habilidade e engenho prolongam nas eras posteriores a escola inaugurada por Cristo e pelos apóstolos.

Mantenho, portanto, e até o último suspiro manterei a fé dos pais no carisma certo da verdade, que esteve, está e sempre estará na sucessão do episcopado aos apóstolos¹, não para que se assuma aquilo que pareça melhor e mais consoante à cultura própria e particular de cada época, mas para que a veradde absoluta e imutável, pregada no princípio pelos apóstolos, não seja jamais crida de modo diferente nem entendida de outro modo².

Empenho-me em observar tudo isso fielmente, integralmente e sinceramente, e em guardá-lo inviolavelmente, sem jamais disso me separar nem no ensinamento nem em gênero algum de discursos ou de escritos. Assim prometo, assim juro, assim me ajudem Deus e esses santos Evangelhos de Deus.

25 agosto, 2010

A “pastoral” modernista contra a clareza católica: bispo de El Paso desautoriza Padre Michael Rodriguez.

Bispo Armando X. Ochoa: A Igreja Católica defende a compaixão

Por Dom Armando X. Ochoa \ colunista convidado – El Paso Times

Dom Armando X. Ochoa, bispo de El Paso.

Dom Armando X. Ochoa, bispo de El Paso.

Como Bispo da Diocese de El Paso e principal educador da nossa igreja local, gostaria de compartilhar algumas reflexões pastorais sobre determinadas questões que são importantes para o bem-estar de todo o povo de Deus.

Em primeiro lugar, gostaria de afirmar que os artigos anteriores que diziam falar em nome da Doutrina Católica [ndr: referência aos artigos do pe. Michael Rodriguez: este, este e este]  eram opiniões pessoais de indivíduos e não necessariamente expressam a opinião da Igreja Católica.

Continuo rezando pela paz ao longo da nossa região e apresentando as minhas condolências às famílias de ambos os lados da fronteira que perderam seus entes queridos em razão da agitação constante. Preocupo-me também com as famílias que tiveram de deixar tudo para trás a fim de fugir da violência em Ciudad Juárez. Rezo constantemente para que as nossas duas cidades fronteiriças possam trabalhar mais de perto a fim de construir uma comunidade mais repleta de paz.

A Igreja tem sido inequívoca sobre a sua consistente defesa do feto. Ele continua convocando todos os católicos e pessoas de boa vontade para compreender o ensinamento da Igreja sobre a pena de morte e outras questões de fim-de-vida. Toda criança tem direito à vida.

Da mesma forma, a Igreja defende a santidade do matrimônio entre um homem e uma mulher. Esses ensinamentos vêm de uma tradição que pretende promover o bem da sociedade. A minha preocupação em escrever esta reflexão não é para alterar esses ensinamentos, mas para oferecer uma compreensão mais pastoral em como lidar com eles.

Quando falamos sobre o aborto e o homossexualismo, estamos falando de seres humanos lidando com todos os tipos de preocupações e desafios por resolver. Nossa Igreja não quer simplesmente julgar e condenar, mas, primeiramente, oferecer o amor e a compaixão de Cristo. A primeira e principal lei de Deus é o amor e como o amor dos outros é ao mesmo tempo o nosso amor por Deus.

Como Igreja queremos caminhar com todos, enquanto buscam o sentido de suas vidas. Acreditamos que Cristo oferece este significado. O uso de palavras duras de condenação não é a abordagem que Cristo nos convida a ter uns para com os outros. A intolerância fecha a porta à aprendizagem e à compreensão mais profunda de cada um.

Além disso, ela leva a divisões dentro do corpo de Cristo. É hora de aprender a lidar uns com os outros, mesmo quando e se discordarmos. Muitas pessoas têm sofrido por causa de uma profunda falta de compaixão e percepção de uma intolerância arrogante.

Recentemente, em nossas leituras das Escrituras, vimos que quando os israelitas entraram na terra prometida depois do êxodo, eles encontraram os cananeus, que consideravam ser uma raça pecadora que devia ser exterminada. Esta mentalidade persistiu até a época de Cristo.

Com a sua chegada, ele indicou que essa perspectiva não devia mais a ser adotada por seus seguidores. A própria resposta de Jesus aos marginalizados sempre foi a do amor. Ele sempre pregou que o amor não é exclusivamente para aqueles que são caros para nós. Ele proclamou que devemos amar nossos inimigos e orar pelos nossos perseguidores.

O nosso amor pelos outros deve ser como o dele, com tudo incluído. Cada pessoa é feita à imagem e semelhança de Deus e por isso todos merecem ser tratados com dignidade e respeito.

Deus é o juiz das nossas vidas, e nós somos chamados a espalhar seu Evangelho da compaixão e da justiça.

Embora seja importante oferecer um ensinamento sobre a sexualidade humana que não pode ser popular na sociedade moderna, a Igreja, no entanto, defende que cada pessoa seja tratada com dignidade e respeito.

Exorto todos os nossos agentes de pastoral que ajudem as pessoas com orientação homossexual e suas famílias, com compaixão. Isso pode ser feito sem de forma alguma comprometer o ensinamento da Igreja, porque a nossa pastoral não exige menos de nós.

Reverendo Armando X. Ochoa, DD, é bispo da Diocese de El Paso.

9 agosto, 2010

Vaticano II, um debate entre Romano Amerio, Monsenhor Gherardini e Monsenhor Pozzo.

DICIEm 2 de julho, Monsenhor Guido Pozzo (à direita na foto), secretário da Comissão Pontifícia Ecclesia Dei, proferiu uma conferência no seminário da Fraternidade São Pedro, em Wigratzbad, intitulada “Aspectos da eclesiologia católica na recepção do Vaticano II”. Nela, ele afirmou que “se o  Santo Padre fala de duas interpretações ou chaves de leitura divergentes, uma da descontinuidade ou ruptura com a Tradição Católica, e a outro da renovação na continuidade (em seu discurso de 22 de dezembro de 2005 à Cúria Romana, ndr), significa que a questão crucial da fonte, ou o ponto realmente determinante do trabalho de desorientação e de confusão que caracterizou e ainda caracteriza a nossa época, não provém do Concílio Vaticano II enquanto tal e não é o ensino objetivo contido em seus documentos, mas a interpretação deste ensino” (sublinhado no texto, como todas as passagens em negrito que seguem, ndr).

A análise de Monsenhor Pozzo sobre a influência do para-concílio.

Monsenhor Pozzo pretende provar que, sobre dois pontos controversos (o primeiro, a unidade e a unicidade da Igreja Católica, com a questão do subsistit in em Lumen Gentium 8, e o outro, o das relações entre a Igreja Católica e outras religiões, com o diálogo ecumênico e inter-religioso), “o anúncio autêntico da Igreja, no que diz respeito a sua reivindicação de plenitude, não foi modificado substancialmente desde o ensinamento do Vaticano II”.

Portanto, não resta senão perguntar por que os documentos conciliares, aos olhos de Monsenhor Pozzo tão claramente conformes à Tradição, deram lugar a uma interpretação de tal maneira oposta. O prelado romano se pergunta e responde: “Qual é a origem da interpretação da descontinuidade, ou da ruptura com a tradição? É que podemos chamar a ideologia conciliar, ou, mais exatamente, para-conciliar, que tomou conta do Concílio desde o início, se sobrepondo a ele. Com esta expressão, não se pretende nada que diga respeito aos textos do Concílio, nem à intenção dos autores, mas ao quadro geral de interpretação no qual o Concílio foi colocado e que age como uma espécie de acondicionamento interno da leitura sucessiva dos fatos e dos documentos. O Concílio não é a ideologia para-conciliar, mas na história do acontecimento eclesial e dos meios de comunicação de massa, se executou largamente a  mistificação do Concílio, que é precisamente a ideologia para-conciliar. Para que todas as conseqüências da ideologia para-conciliar fossem manifestadas como um acontecimento histórico, seria necessário considerar a revolução de 68, que toma como princípio a ruptura com o passado e a mudança radical da história. Na ideologia para-conciliar, o movimento de 68 significa uma nova figura da Igreja em ruptura com o passado”.

E Monsenhor Pozzo conclui que é necessário utilizar “a hermenêutica da reforma na continuidade”, preconizada por Bento XVI, “para enfrentar as questões controversas, liberando, por assim dizer, o Concílio do para-concílio que se misturou com ele, e conservando o princípio da integridade da doutrina católica e da plena fidelidade ao Depósito da Fé transmitido pela Tradição e interpretado pelo Magistério da Igreja”.

Uma interrogação permanece ao fim desta exposição: o para-concílio denunciado pelo secretário da Comissão Ecclesia Dei se identifica com o pós-concílio? Somos tentados a responder afirmativamente se considerarmos que esse para-concílio teria se esforçado em fazer coincidir os documentos redigidos entre 1962 e 1965 com o espírito da revolução de maio de 68. Mas também é dito que “a ideologia conciliar, ou, mais exatamente, para-conciliar, (…) tomou conta do Concílio desde o início, se sobrepondo a ele”. Esta sobreposição “desde o início” não teve nenhuma influência sobre a redação dos textos conciliares? Monsenhor Pozzo considera que a ideologia para-conciliar não afeta nem os textos do Concílio, nem a intenção dos autores, mas fornece somente “o quadro geral de interpretação no qual o Concílio foi colocado e que age como uma espécie de acondicionamento interno da leitura sucessiva dos fatos e dos documentos”. A ideologia para-conciliar seria, por conseguinte, um quadro externo que condiciona do interior a leitura dos documentos! Parece mais simples ver uma influência estranha à Tradição se exercer diretamente sobre a sua redação.

O testemunho de Dom Lefebvre

Dom Lefebvre

Dom Lefebvre

É que declarava francamente Dom Marcel Lefebvre em Ils l’ont décournné [“Eles O destronaram”]: “É certo que, com os 250 padres conciliares do Coetus (Coetus Internationalis Patrum, grupo de bispos conservadores fundado por Dom Lefebvre, Dom Carli e Dom Proença-Sigaud, ndr), tentamos, por todos os meios colocados a nossa disposição, impedir os erros liberais de se exprimirem nos textos do Concílio; o que fez com que nós pudéssemos como que limitar os danos, alterar tais frases inexatas ou tendenciosas, acrescentar tal frase para retificar uma proposta tendenciosa, uma expressão ambígua.

“Mas devo confessar que não tivemos êxito em purificar o Concílio do espírito liberal e modernista que impregnava a maior parte dos esquemas. Os editores, com efeito, eram exatamente os peritos e os Padres manchados por esse espírito. Ora, o que querer quando um documento é, em todo o seu conjunto, redigido com um espírito falso?  É praticamente impossível purificá-lo deste espírito; seria necessário recompô-lo completamente para lhe dar um espírito católico.

“O que pudemos fazer, é, pelos modi que apresentamos, fazer acrescentar incisos nos esquemas, e isso se vê muito bem: basta comparar o primeiro esquema da liberdade religiosa com o quinto que foi redigido — pois este documento foi cinco vezes rejeitado e retornou cinco vezes à tona — para ver que houve, de todo modo, êxito em atenuar o subjetivismo que infectava as primeiras redações. O mesmo para a Gaudium et Spes, se vê muito bem os parágrafos que foram acrescentados a nosso pedido, e que estão lá, diria eu, como retalhos devolvidos a uma velha roupa: ele não cola nem junta; ele não tem mais a lógica da redação primitiva; as adições feitas para atenuar ou contrabalançar as afirmações liberais permanecem lá como corpos estranhos (…)

“Mas, o fastidioso é que os próprios liberais praticaram este sistema no texto dos esquemas: a afirmação de um erro ou de uma ambigüidade ou de uma orientação perigosa, e, imediatamente antes ou depois, a afirmação em sentido contrário, destinada a tranqüilizar os padres conciliares conservadores.” (Ils l’ont découronné, Clovis, pp. 193-194, pode-se obter a obra aqui).

Romano Amerio e o seu discípulo Enrico Maria Radaelli denunciam “uma abissal ruptura de continuidade”

Romano Amerio

Romano Amerio

É possível encontrar um eco do testemunho de Monsenhor Lefebvre no terceiro volume das obras completas de Romano Amerio, publicado nos últimos dias na Itália pelas edições Lindau, sob o título Zibaldone, retomando o título de uma obra do poeta Giacomo Leopardi que significa uma mistura que reúne, sem ordem, “curtos pensamentos, aforismos, relatos, citações de autores clássicos, diálogos morais, comentários de acontecimentos do cotidiano”, como escreveu em 12 de julho o vaticanista Sandro Magister em o seu sítio chiesa.espressonline (tradução portuguesa publicada no Fratres in Unum). Magister assim apresenta a obra de Amerio: “Dessa sua análise fortemente crítica, que ele aplicava também ao Concílio Vaticano II, Amerio extraiu o que Enrico Maria Radaelli, seu fiel discípulo e editor da publicação das obras do mestre, chama de “grande dilema subjacente ao fundo do cristianismo atual”. Este dilema é o de saber se há continuidade ou ruptura entre o magistério da Igreja de antes e depois do Vaticano II.

“(…) a juízo de Amerio e Radaelli, esta é justamente a causa da crise da Igreja conciliar e pós-conciliar, uma crise que levou o mais próximo da perdição, ‘impossível mas também quase alcançada’, como é o ter desejado renunciar a um magistério imperativo, com definições dogmáticas “inequívocas na linguagem, certas no conteúdo, vinculantes na forma, como se espera ser ao menos os ensinamentos de um Concílio”.

“A conseqüência, segundo Amerio e Radaelli, é que o Concílio Vaticano II está cheio de asserções vagas, interpretáveis de modos diferentes, das quais algumas estão também em aberto contraste com o magistério anterior da Igreja (destaques nossos). Essa linguagem pastoral ambígua é o que havia aberto o caminho a uma Igreja hoje “percorrida por milhares de doutrinas e centenas de milhares de costumes nefastos”, inclusive na arte, música e liturgia.

“O que fazer para remediar essa calamidade? A proposta que faz Radaelli vai mais além daquela feita recentemente — a partir de juízos críticos tão duros quanto — por outro defensor apaixonado pela tradição católica, o teólogo tomista Brunero Gherardini, de 85 anos de idade, cônego da basílica de São Pedro, professor emérito da Pontifícia Universidade Lateranense e diretor da revista ‘Divinitas’”.

“Monsenhor Gherardini antecipou sua proposta num livro publicado em Roma, no ano passado, com o título: ‘Concilio Ecumenico Vaticano II. Um discorso da fare’. O livro conclui com uma ‘Súplica ao Santo Padre’, a quem se pede que submeta a um novo exame os documentos do Concílio, para esclarecer, de uma vez por todas, ‘se, em que sentido e até que ponto’ o Vaticano II está ou não em continuidade com o magistério anterior da Igreja. (…)

“Pois bem, em seu epílogo a ‘Zibaldone’ de Romano Amerio, o professor Radaelli recolhe a proposta de Monsenhor Gherardini, mas ‘apenas como uma primeira instância para purificar o ambiente de muitos, muitos mal entendidos’. Com efeito, segundo Radaelli, não é suficiente esclarecer o sentido dos documentos conciliares, se tal esclarecimento é oferecido depois à Igreja com o mesmo estilo ineficaz de ensinamento ‘pastoral’ que se tornou costume com o Concílio, propositivo mais que impositivo.

“Se o abandono do princípio de autoridade e o ‘discussionismo’ são a enfermidade da Igreja conciliar e pós-conciliar, para sair dela — afirma Radaelli — é necessário trabalhar de forma contrária. A máxima hierarquia da Igreja deve fechar a discussão com um pronunciamento dogmático ‘ex cathedra’, infalível e vinculante. Deve atingir com o anátema os que não obedeçam e deve bendizer os que obedecem.

“O que Radaelli espera que a cátedra suprema da Igreja decrete? Assim como Amerio, ele está convencido de que ao menos em três casos se deu ‘uma ruptura abismal da continuidade’ entre o Vaticano II e o magistério anterior: onde a Concílio afirma que a Igreja de Cristo ‘subsiste na’ Igreja Católica, em vez de dizer que ‘é’ a Igreja Católica; onde assevera que ‘os cristãos adoram o mesmo Deus adorado pelos judeus e muçulmanos’; e na Declaração ‘Dignitatis Humanae’ sobre a liberdade religiosa.

A hermenêutica da reforma na continuidade é um remédio suficiente?

Mons. Brunero Gherardini

Mons. Brunero Gherardini

No fim de seu artigo, Sandro Magister mostra que a crítica do Concílio por Romano Amerio e Monsenhor Gherardini não é, aos olhos do Papa, admissível: “Tanto Gherardini como Amerio-Radaelli reconhecem em Bento XVI um Papa amigo. Mas há que se descartar que ele assinta a seus pedidos. Mais ainda, tanto no conjunto como em alguns pontos controversos, o Papa Joseph Ratzinger já fez saber que não compartilha em absoluto de suas posições.

“Por exemplo, no verão de 2007, a Congregação para a Doutrina da Fé se manifestou a respeito da continuidade de significado entre as fórmulas ‘é’ e ‘subsiste em’ ao afirmar que ‘o Concílio Ecumênico Vaticano II não quis mudar, nem de fato o fez, a doutrina anterior sobre a Igreja, mas que apenas quis desenvolvê-la, aprofundá-la e expô-la mais amplamente’.

“Quanto à Declaração ‘Dignitatis humanae’ sobre a liberdade religiosa, Bento XVI explicou pessoalmente que, se ela está separada das indicações anteriores ‘contingentes’ do Magistério, fê-lo precisamente para ‘retomar novamente o patrimônio mais profundo da Igreja’.

“O discurso em que Bento XVI defendeu a ortodoxia da “Dignitatis humanae” é o que dirigiu à cúria vaticana na vigília do primeiro Natal de seu pontificado, em 22 de dezembro de 2005, precisamente para sustentar que  entre o Concílio Vaticano II e o magistério anterior da Igreja não há ruptura, mas “reforma na continuidade”.

E Sandro Magister conclui: “O Papa Ratzinger não convenceu até agora aos lefebvristas, que se mantêm em estado de cisma justamente neste ponto crucial (a afirmação de uma descontinuidade ou de uma ruptura em relação à Tradição constitui um cisma? Não seria antes a própria ruptura que pode ser sinônimo de cisma? ndr). Mas não convenceu — de acordo com o que escrevem Radaelli e Gherardini — nem sequer a alguns de seus filhos ‘obedientíssimos em Cristo’”.

De um lado, Monsenhor Pozzo propõe libertar o Concílio do para-concílio, e de outro, Amerio e Radaelli pedem que o Magistério Romano deixe de “pastoralizar” para dogmatizar claramente. Tal é o coração do debate sobre o Vaticano II que Monsenhor Gherardini afirma ser “um debate a se realizar”. Imperativamente. (DICI n°220 de 07/08/10)

29 julho, 2010

A ideologia pára-conciliar e suas conseqüências na Igreja.

La Buhardilla de Jerónimo

Monsenhor Guido Pozzo, secretário da Comissão Pontifícia “Ecclesia Dei”, proferiu recentemente uma conferencia à Fraternidade de São Pedro sobre os “aspectos da eclesiologia católica no acolhimento do Concílio Vaticano II”. Apresentamos a parte conclusiva da referida conferência, particularmente interessante, uma vez que Mons. Pozzo se refere a um assunto de grande atualidade na vida da Igreja: o da interpretação do Concílio Vaticano II em continuidade com a Tradição doutrinal católica (um tema que está incluído entre aqueles que a Fraternidade São Pio X tratará com a Santa Sé nas atuais conversações doutrinais). Com grande clareza e lucidez, Mons. Pozzo denuncia a existência e as conseqüências do que chama “ideologia pára-conciliar”.

* * *

O que está na origem da interpretação da continuidade ou ruptura com a Tradição?

Está o que podemos chamar a ideologia conciliar ou, mais exatamente, pára-conciliar, que se apoderou do Concílio desde o princípio, sobrepondo-se sobre ele. Com esta expressão não se entende algo que diz respeito aos textos do Concílio, nem muito menos à interpretação dos sujeitos, mas sim o marco de interpretação global em que o Concílio foi colocado e que atuou como uma espécie de condicionamento interior na leitura sucessiva dos feitos e dos documentos. O Concílio não é, de fato, a ideologia pára-conciliar, mas na história dos acontecimentos da Igreja e dos meios de comunicação de massa logrou-se em grande medida a mistificação do Concílio, quer dizer, a ideologia pára-conciliar. Para que todas as conseqüências da ideologia pára-conciliar fossem manifestadas como evento histórico, foi necessário verificar a revolução do ano 1968, que assume como princípio a ruptura com o passado e a mudança radical da história. Na ideologia pára-conciliar, o ano de 1968 significa uma nova figura de Igreja em ruptura com o passado, embora as raízes desta ruptura estivessem presentes já desde algum tempo em determinados ambientes católicos.

Este marco de interpretação global, que se sobrepôs de modo extrínseco ao Concílio, pode ser caracterizado principalmente por esses três fatores:

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15 julho, 2010

O juízo de Monsenhor Brunero Gherardini sobre o debate teológico entre Tradição e o Concílio Vaticano II.

DICI – Na edição de maio de 2010 de Courrier de Rome (n°333), Professor Paolo Pasqualucci oferece um comentário esclarecedor sobre o estudo de Monsenhor Brunero Gherardini publicado na revista teológica Divinitas sob o título Quod et tradidi vobis – La tradizione vita e giovinezza della Chiesa (Quod et tradidi vobis.  A tradição, vida e juventude da Igreja), um estudo que também foi republicado em um volume por Casa Mariana Editrice.

Monsenhor Gherardini, autor de Vaticano II: Un discorso da fare, publicado em francês no início desse ano, apresenta em Quod et tradidi vobis uma análise muito pertinente do debate teológico entre a Tradição e o Concílio Vaticano II. Aqui está o amplo extrato que pode ser encontrado em Courrier de Rome, oferecendo uma lista de 9 dificuldades; a esta lista nós acrescentamos os três parágrafos que seguem, onde Monsenhor Gherardini não hesita em transmitir um julgamento pessoalmente muito explícito.

“Em meu esforço em estabelecer uma síntese de posições defendidas por Dom Lefebvre em favor da Tradição, e sem pretender tratar exaustivamente do assunto, parece-me que o conflito se estabelece da seguinte maneira:

  1. Mons. Brunero Gherardini, cônego da Basílica de São Pedro e postulante da causa de canonização do Beato Pio IX, também questinou a aceitação da validade do cânon de Adai e Mari, que omite as palavras da consagração, pela Congregação para a Doutrina da Fé.

    Monsenhor Brunero Gherardini, cônego da Basílica de São Pedro e postulante da causa de canonização do Beato Pio IX, também questinou a aceitação da validade do cânon de Adai e Mari, que omite as palavras da consagração, pela Congregação para a Doutrina da Fé.

    Uma formação sacerdotal que encontrou seus princípios na Tradição eclesiástica e nos valores sobrenaturais da Revelação divina, frente a uma formação sacerdotal aberta ao horizonte flutuante de uma cultura em perpétuo estado de devir.

  2. Uma liturgia que certamente tem um ponto forte na Missa dita tradicional, frente a uma liturgia antropocêntrica e sociológica [a do Novus Ordo da missa], na qual o coletivo prevalece sobre o valor do individual, a oração ignora o aspecto latrêutico, a assembléia torna-se o ator principal e Deus dá lugar ao homem.
  3. Uma liberdade que faz sua “libertação” depender do Decálogo, dos mandamentos da Igreja, das obrigações do dever de estado e do dever de conhecer, amar e servir a Deus, frente a uma liberdade que coloca todas as formas de culto em pé de igualdade, silencia a respeito da lei de Deus, desobriga os indivíduos e a sociedade sobre domínios éticos e religiosos e deixa a solução de todos os problemas exclusivamente à consciência.
  4. Uma teologia que reúne seu conteúodo de fontes específicas (Revelação, Magistério, Patrística, Liturgia), frente a uma teologia que abre bem os seus braços, dia após dia, às emergências culturais do momento, mesmo àquelas que claramente contradizem as fontes recém mencionadas.
  5. Uma soteriologia (nota do editor: estudo da obra da salvação) estreitamente unida à pessoa e à obra redentora do Verbo Encarnado, à ação do Espírito Santo, intimamente ligada à aplicação dos méritos do Redentor, à intervenção sacramental da Igreja e à cooperação dos fiéis batizados, frente a uma soteriologia que considera a unidade do gênero humano como consequência da encarnação do Verbo, em quem (cf GS 22) cada homem encontra sua própria identificação.
  6. Uma eclesiologia que identifica a Igreja com o Corpo Místico de Cristo e reconhece em Sua presença sacramental o segredo vital do ser e do agir eclesial, frente a uma eclesiologia que considera a Igreja Católica como um componente, entre outros, da Igreja de Cristo,  e que, nessa fantasmagórica Igreja de Cristo, adormece o espírito missionário, dialoga mas não evangeliza, e acima de tudo, renuncia o proselitismo como se fosse um pecado mortal.
  7. Um Sacrifício expiatório da Missa, que celebra os mistérios da paixão, morte e ressurreição de Cristo, representando sacramentalmente a redenção satisfatória, frente a uma Missa na qual o padre é apenas um presidente e todos tomam uma parte “ativa” no sacramento, graças ao fato de que a fé não é encontrada em Deus que Se revela, mas numa resposta existencial feita a Deus que nos interpela.
  8. Um Magistério consciente de ter o múnus de guardar o sagrado depósito da Revelação divina com o dever de interpretá-lo e transmiti-lo às gerações futuras, frente a um Magistério Papal que, longe de se sentir a voz da Igreja docente, sujeita a própria Igreja ao colégio dos bispos, dotado dos mesmos direitos e deveres do Romano Pontífice.
  9. Uma religiosidade que compreende a vocação comum ao serviço de Deus e, por amor a Ele, o serviço aos irmãos na humanidade, frente a uma religiosidade que inverte essa ordem natural, faz do homem seu centro e, se não em teoria, ao menos na prática, coloca-o em lugar de Deus.

“Do que acaba de ser dito, pode-se facilmente deduzir como a Fraternidade São Pio X compreende a Tradição. Realmente, a Tradição é exatamente o que a Fraternidade não nega ou se opõe. Diretamente ou nas entrelinhas, a Fraternidade rejeita as inogações dos documentos do Concílio e suas aplicações pós-conciliares, e permanece em oposição ao uso selvagem que tão casualmente foi feito deles.

“É verdade que nos escritos da Fraternidade São Pio X o conceito de Tradição não é freqüentemente explicado, e nós não o encontramos desenvolvido sistematicamente. Mas o que se compreende, assim como o que se conjetura, nunca permanece em sombras. Como fundamento de tudo está “a fé de sempre” para cuja salvaguarda nasceu a Fraternidade”. “Salvaguarda” indica uma oposição a algo presente ou possível, em favor de seu contrário ou de sua substituição. A “fé de sempre” é o valor que Monsenhor Lefebvre quis salvaguardar, um valor que está sendo substituído por todas as atenuações, reinterpretações, reduções e negações do período conciliar e pós-conciliar. A “fé de sempre” é o eco alto e claro do ensinamento agostiniano resumido pelas palavras de São Vicente de Lérins: “Quod semper, quod ubique, quod ab omnibus creditum est”[1]. A própria ereção da Fraternidade, com seu objetivo primeiro que é a formação sacerdotal, obedece a este grande ideal e ao comprometimento de salvaguardá-lo. Salvaguardar a fé e combater o erro.

“Não entrarei em detalhes sobre as relações e dificuldades entre a Santa Sé a Fraternidade São Pio X. Atenho-me ao tema comum da Tradição e observo que “salvaguardar a fé e combater o erro” deveria ser o ideal e o comprometimento tanto da Igreja como de seus filhos. À essa luz, é difícil, para mim, compreender como a acusação de uma “incompleta e contraditória Tradição” formulada por João Paulo II em 1988 [2] poderia ter alguma base verdadeira. O que compreendo é que ela não tem nada a ver com o “espírito de Assis”. [3] (Traduzido do Italiano — DICI n°218, July 10, 2010)

Courrier de Rome – B.P. 10156 – 78001 Versailles Cedex or courrierderome@wanadoo.fr – Assinatura: 20 euros (Exterior: 24 euros)

Msgr. Brunero Gherardini, Ecumenical Council Vatican II: And Open Discussion – disponível em Courrier de Rome: 15 euros + 3 euros frete


[1] St. Vincent de Lérins, Commonitorium, c. 23.

[2] Motu Proprio Ecclesia Dei, July 2, 1988.

[3] Msgr. Gherardini, Quod et tradidi vobisLa tradizione vita e giovinezza della Chiesa, Ed. Casa Mariana Editrice, pp. 241-244.

Nota: a tradução do mesmo artigo a partir de sua versão francesa pode ser encontrada aqui.

14 julho, 2010

Relações Roma-Ecône. Visita do Superior Geral da FSSPX à Bahia.

Por Bruno Luís Santana

Dom Bernard Fellay e fiéis do mosteiro Nossa Senhora da Fé - Candeias, Bahia.

Dom Bernard Fellay e fiéis do mosteiro Nossa Senhora da Fé - Candeias, Bahia.

D. Bernard Fellay, Superior Geral da Fraternidade Sacerdotal São Pio X, visitou a Bahia entre os dias 08 e 09 de Julho de 2010, para conferir o Sacramento da Confirmação aos fiéis católicos frequentadores do Mosteiro Nossa Senhora da Fé (Candeias-BA).

Todos os bispos da Fraternidade, em ocasiões diversas, visitaram a comunidade, exceto D. Fellay, que veio à Bahia pela primeira vez.

Após a cerimônia, o senhor Bispo retornou à Sacristia e cingiu-se com os paramentos, rezando missa simples e posando para as fotos com os fiéis ao final.

Em seguida, iniciou-se uma conferência (em espanhol) com duração de duas horas, em que D. Fellay tratou de temas como as relações da FSSPX com Roma, sob o pontificado atual.

“O Papa é um homem que tem a cabeça progressista, mas é de coração católico, amante da Tradição”, ressaltou.

Citou também a situação desesperadora do clero europeu que entra em extinção de forma acelerada: “Há determinadas dioceses na França, onde um pároco chega a ficar à frente de mais de 60 paróquias. É estarrecedor”, disse.

Quanto aos entraves na Santa Sé, dão-se pela resistência do próprio Santo Padre em tirar as conclusões finais dos resultados do concílio. A tentativa de salvá-lo a todo custo se explica quando o mesmo de alguma maneira relativiza documentos como o Syllabus, que seria magistério, só que circunscrito ao seu período – o século XIX.

Contudo, todos os passos que o Santo Padre dá na direção da Fé Imutável, da Tradição e da Missa Tradicional são feitos num ambiente de extrema pressão, a começar por setores vaticanos como a Secretaria de Estado.

“Os trapistas de Mariawald, embora autorizados pelo Santo Padre a retornar à disciplina tradicional e ao rito de São Pio V, não obtiveram resposta, pois a Secretaria de Estado arquivou a autorização papal, sendo necessário que um novo pedido fosse feito e entregue em mãos ao Santo Padre por um prelado de confiança, que ouviu o Santo Padre dizer que já havia dado a autorização”.

A pressão também é forte nos episcopados mundiais, embora existam alguns bispos e sacerdotes honestos. A Cúria Romana também está mais habitada por prelados idôneos, e se rezam mais ou menos 20 missas tradicionais por dia na Basílica de São Pedro, em geral em momentos discretos, por secretários e outros clérigos próximos ao Santo Padre.

“Mas o motivo de Bento XVI rezar missa tridentina de forma privada em algumas circunstâncias, e o fato não ser tornado público, faz sentido quando me recordo que, numa conferência dada na Itália para 28 sacerdotes diocesanos, um deles me disse que ouviu de seu bispo que bastaria o Papa rezar a Missa Tradicional em público e o mesmo fecharia a Catedral, interditaria a diocese e romperia com a Santa Sé”, disse.

Espera-se também um aumento das perseguições a todo e qualquer movimento restaurador nos próximos anos, pois coincidirá com a saída dos últimos bispos outrora co-participantes do concílio Vaticano II, “e que tudo farão para bloquear ao máximo a onda de restauração que tem cada vez mais invadido a Igreja”.

Finalmente, diante do cenário dramático, fica-se com a Esperança Sobrenatural e a certeza de que, através da Santíssima Virgem, Deus reconduzirá todas as coisas aos seus lugares.