Archive for ‘Modernismo’

12 julho, 2010

Os defensores da tradição reivindicam a Igreja infalível.

Suplicam ao Papa que condene “ex cathedra” os erros do Concílio Vaticano II. Um novo livro de Romano Amerio voltará a dar força a seu pedido. Mas Bento XVI não está de acordo.

por Sandro Magister

ROMA, 12 de julho de 2010 – Há alguns dias está nas livrarias italianas um novo volume de Romano Amerio, o terceiro da “opera omnia” deste autor, publicado pelas Edições Lindau.

Amerio, falecido em 1997 em Lugano (Suíça) aos 92 anos de idade, foi um dos maiores intelectuais cristãos do século XX.

Filólogo e filósofo de primeiro nível, Amerio tornou-se conhecido no mundo por conta de seu ensaio, publicado pela primeira vez em 1985 e traduzido para muitos idiomas, intitulado: “Iota unum. Estudo das variações da Igreja Católica no século XX”.

Mas esse mesmo ensaio, justamente pela tese que contém, fez Amerio ganhar o ostracismo da quase totalidade do mundo católico. Um ostracismo que apenas perdeu vigor há pouco tempo, também graças à reedição de “Iota unum”.

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15 abril, 2010

Discurso do Santo Padre aos bispos brasileiros do Regional Norte II em visita ‘Ad limina Apostolorum’.

Senhores bispos de mãozinhas dadas em missa - Assembléia Geral da CNBBUma menor atenção que por vezes é prestada ao culto do Santíssimo Sacramento é indício e causa de escurecimento do sentido cristão do mistério, como sucede quando na Santa Missa já não aparece como proeminente e operante Jesus, mas uma comunidade atarefada com muitas coisas em vez de estar recolhida e deixar-se atrair para o Único necessário: o seu Senhor. Ora, a atitude primária e essencial do fiel cristão que participa na celebração litúrgica não é fazer, mas escutar, abrir-se, receber… É óbvio que, neste caso, receber não significa ficar passivo ou desinteressar-se do que lá acontece, mas cooperar – porque tornados capazes de o fazer pela graça de Deus – segundo «a autêntica natureza da verdadeira Igreja, que é simultaneamente humana e divina, visível e dotada de elementos invisíveis, empenhada na ação e dada à contemplação, presente no mundo e, todavia, peregrina, mas de forma que o que nela é humano se deve ordenar e subordinar ao divino, o visível ao invisível, a ação à contemplação, e o presente à cidade futura que buscamos» (Const. Sacrosanctum Concilium, 2). Se na liturgia não emergisse a figura de Cristo, que está no seu princípio e está realmente presente para a tornar válida, já não teríamos a liturgia cristã, toda dependente do Senhor e toda suspensa da sua presença criadora.

Como estão distantes de tudo isto quantos, em nome da inculturação, decaem no sincretismo introduzindo ritos tomados de outras religiões ou particularismos culturais na celebração da Santa Missa (cf. Redemptionis Sacramentum, 79)! O mistério eucarístico é um «dom demasiado grande – escrevia o meu venerável predecessor o Papa João Paulo II – para suportar ambigüidades e reduções», particularmente quando, «despojado do seu valor sacrificial, é vivido como se em nada ultrapassasse o sentido e o valor de um encontro fraterno ao redor da mesa» (Enc. Ecclesia de Eucharistia, 10). Subjacente a várias das motivações aduzidas, está uma mentalidade incapaz de aceitar a possibilidade duma real intervenção divina neste mundo em socorro do homem. Este, porém, «descobre-se incapaz de repelir por si mesmo as arremetidas do inimigo: cada um sente-se como que preso com cadeias» (Const. Gaudium et spes, 13). A confissão duma intervenção redentora de Deus para mudar esta situação de alienação e de pecado é vista por quantos partilham a visão deísta como integralista, e o mesmo juízo é feito a propósito de um sinal sacramental que torna presente o sacrifício redentor. Mais aceitável, a seus olhos, seria a celebração de um sinal que corresponda a um vago sentimento de comunidade.

Mas o culto não pode nascer da nossa fantasia; seria um grito na escuridão ou uma simples auto-afirmação. A verdadeira liturgia supõe que Deus responda e nos mostre como podemos adorá-Lo. « A Igreja pode celebrar e adorar o mistério de Cristo presente na Eucaristia, precisamente porque o próprio Cristo Se deu primeiro a ela no sacrifício da Cruz» (Exort. ap. Sacramentum caritatis, 14). A Igreja vive desta presença e tem como razão de ser e existir ampliar esta presença ao mundo inteiro.

Discurso do Santo Padre, o Papa Bento XVI, aos bispos brasileiros do Regional Norte II da CNBB em visita ‘ad limina apostolorum’ – 15 de abril de 2010.

26 janeiro, 2010

O antipapa Martini lança nova promoção ao espírito do Concílio. Com o apoio da Rádio Vaticano.

Os cardeais jesuítas e modernistas, Carlo Maria Martini e Roberto Tucci,  acabam de lançar um portal na Internet intitulado «Viva il Concilio ». Os dois senis bispos, com outros companheiros de alcatéia,  pretendem relançar o chamado de Paulo VI de ‹‹ “fidelidade ao Concílio”, pois que, tratando-se de um evento que envolve a responsabilidade apostólica, primeiro, “devemos compreendê-lo”, depois “devemos segui-lo” ›› .

A Fé à luz do Vaticano II.

Em completa miopia, na contramão do atual momento histórico e em oposição ao magistério de Bento XVI, os cardeais pretendem ‹‹ estimular o povo de Deus a ler e interpretar “no cone de luz do Concílio” (Paulo VI) o agir e o testemunho eclesial no hoje da história ›› .

Alvo: os jovens.

« Este site tem por objetivo promover o Concílio Vaticano II, em particular entre as gerações mais jovens, no momento em que alguns querem colocá-lo em cheque », disse o Padre Gilles Routhier, da Universidade de Laval. Sim, aos jovens, cada vez em maior número, que hoje rejeitam os frutos pós-conciliares para se vincular ao patrimônio da Igreja que estes mesmos promotores do “espírito” do Concílio pretendem destruir. Mais obtusos, impossível.

“Rompeu com quatro séculos de Igreja tridentina”.

Para o serviço brasileiro da Rádio Vaticano, da qual o Cardeal Roberto Tucci é Presidente emérito, o Concílio Vaticano II “foi um concílio ecumênico que superou todas as expectativas, já que rompeu com quatro séculos de Igreja tridentina e mudou suas relações com a sociedade e com as outras religiões”. Ele “reformou a liturgia, cuja mudança mais visível foi a adaptação da liturgia às línguas vernáculas […], relegando o latim a um segundo plano”. Através da Gaudium et Spes “se passava de uma Igreja fechada em si mesma a uma Igreja livre, sem teocracia, que se sentia parte do mundo, que se abria a seus problemas”.

Apoio cardinalício.

O sítio “Viva il Concilio” é apoiado por um comitê, que, dentre seus membros, conta com quatro cardeais: Roger Etchegaray, Presidente emérito do Conselho Pontifício Justiça e Paz, Silvano Piovanelli, Arcebispo emérito de Florença, Achille Silvestrini, Prefeito emérito da Congregação para as Igrejas Orientais e Dionigi Tettamanzi, Arcebispo de Milão, bem como Monsenhor Piero Coda, popular nos meios romanos.

5 janeiro, 2010

Thiberville: bispo demite padre tradicional e fiéis se enfurecem.

La Revue Item

Thiberville, França: domingo, 3 de janeiro de 2010.

O senhor bispo, de "paramentos arco-íris", anuncia a demissão do cura tradicional de Thiberville. Foto: Dominique Bro - Le Forum Catholique

O senhor bispo, de "paramentos arco-íris", anuncia a demissão do cura de Thiberville. Foto: Dominique Bro, Forum Catholique

Hoje, todos tinham os olhos fixos sobre este caso exemplar de uma comunidade paroquial campestre local que quer aplicar as decisões do papa e cujo bispo quer dizimar.

O espetáculo excedeu tudo o que se podia imaginar: uma comunidade unânime que grita (fisicamente) sua cólera contra a sua condenação à morte  pelo “pastor”, o bispo local.

Monsenhor Nourrichard, bispo de Évreux, um dos prelados mais progressistas da França, chegou nesta manhã à Thiberville às 9:30h, com seu vigário-geral, cura de Bernay, Pe. Vivien, para anunciar a demissão de um padre muito papista para o seu gosto. Ele se enfurnou na igreja e, a princípio, se escondeu na sacristia. Todos os paroquianos locais do Padre Michel estavam lá. A igreja estava abarrotada, a nave, o coro, o próprio púlpito, uma parte dos paroquianos não pôde sequer entrar. Na primeira fila estava presente o presidente da câmara municipal e o conselheiro geral com todo o conselho municipal; no coro, a confraria de caridade com suas vestes solenes.

O padre Michel então sai da sacristia para os últimos preparativos da missa do bispo: ele é acolhido por uma ovação interminável, como quando o Papa entra em São Pedro, Roma.

Em seguida, entra o bispo de Évreux. Ele está tão perturbado pelo ambiente alvoroçado que explica, por um lapso infeliz, que veio à Thiberville celebrar o “dia de todos os Santos”. Zombaria geral. Em seguida, quando quis anunciar a demissão injusta do Padre Michel, a piedosa revolta dos camponeses, semelhante às que sofreram certos padres constitucionais da Revolução, tomou uma proporção máxima (uma paroquiana foi vista lançando velas da parte superior do púlpito). De certa forma, uma “preparação litúrgica penitencial” improvisada.

Padre Michel celebra missa no rito tradicional; diz que permanece cura da região e que Roma não hesitará em confirmá-lo no cargo.

Padre Michel celebra missa no rito latino-gregoriano; diz que permanece cura da região e que Roma não hesitará em confirmá-lo no cargo. Foto: Dominique Bro, Forum Catholique

O bispo, então, continua a missa. Os pais se levantam e vão buscar as suas crianças que servem à missa. Os políticos locais se levantam e saem. O bispo, que não sabe mais onde está, interpela os fiéis, dando ciência aos que não estão de acordo a ordem de sair. O que todos fazem, exceto 21 pessoas, das quais apenas 3 são de Thiberville.

Dentro e fora da igreja, o bispo de Évreux pôde medir a cólera do Povo de Deus, cada um, os mais velhos mas não menos engajados, se aproximam dele para lhe dizer umas boas verdades [sobre o que pensam do bispo] e lhe aconselhar a rever o seu catecismo. Ao que ele opõe um despeito total a estes camponeses normandos que decididamente nada compreenderam do Concílio.

Padre Michel então anunciou que iria celebrar uma missa em Bournainville-Favrolles, às 11:15h. Os políticos e os paroquianos o seguiram em tão grande multidão que a igreja não pôde comportar a todos. Missa “reforma da reforma” voltada para Deus. O bispo furioso perseguiu sua vítima friamente, mas não pôde adentrar a nave [da igreja]. Nesse ínterim, o Padre Michel anunciava que permanecia cura do local, que uma decisão romana certamente não deixará de confirmá-lo, assim que um recurso for impetrado contra o decreto do bispo.

Último ato da peça do dia, esta noite, às 17:00, em Thiberville, onde o padre Michel celebrará, como todos os domingos, uma missa de forma extraordinária. O bispo, que não cede, anunciou que estaria lá…

Em frente, a televisão e os jornalistas locais. Também presentes os jornalistas parisienses, que não se pode taxar de tradicionalismo, estavam particularmente estupefatos e concluíam que o bispo, que teria se mostrado totalmente incapaz de gerir uma situação que ele tinha provocado, deveria logicamente se demitir.

2 janeiro, 2010

Sobre o Ecumenismo. Monsenhor Brunero Gherardini, Concilio Ecumenico Vaticano II: Un discorso da fare.

Sim, verdadeiramente, perguntemos uma vez mais o que o é Protestantismo de Unitatis Redintegratio.

Abandonada a esta incerteza, a Igreja pós-conciliar não poupou sua atenção a ninguém, aceitando a inclinação de todos pelo mundo, como se este fosse um “princípio e fundamento” (conf. Exercícios Espirituais de Santo Inácio) de um novo tipo. Ela se encarregou das alegrias e esperanças do mundo, assim como de suas contradições, e esqueceu a advertência do Apóstolo: “Se quisesse ainda agradar aos homens, não seria servo de Cristo” (Gal. 1:10).

Mostraram-se os resultados obtidos conseqüentemente a este acordo com o mundo, que, se não são necessariamente uma traição a Cristo, são sempre, ao fim das contas, uma ruptura com a venerável Tradição. Volumes da Enchiridion œcumenicum foram recheados destas rupturas, sem nenhuma preocupação com o escândalo, ou ao menos com a estupefação, que estes fatos levantaram nas mentes de qualquer católico sério.

Apenas um único exemplo, e “ab uno disce omnes” (Virgílio, Eneida, II, 65): a assombrosa declaração conjunta acerca da doutrina luterana da “justificação”. Qualquer um que possua o mínimo de informação sabe que esta doutrina trata do pecado original, de seus efeitos devastadores na natureza humana e sua remissão exclusiva pela graça, independentemente de qualquer contribuição por parte do livre arbítrio do homem. Admite apenas uma aplicação puramente exterior dos méritos de Cristo, que supostamente cobririam os pecados, com a conseqüência de que a pessoa justificada permaneceria ao mesmo tempo tanto santificado e pecador, “simul iustus et peccator”.

Recordei acima que Lutero precisamente (em 1537) se disporia a qualquer espécie de concessão ao “papismo”; mas uma única coisa não poderia ser questionada: a doutrina da justificação apenas pela fé.

Levou cinco séculos, mas ele alcançou seu contentamento: a Igreja pós-conciliar finalmente lhe deu razão, e conduziu sua doutrina à ante-sala da Fé.

Monsenhor Brunero Gherardini – Concilio Ecumenico Vaticano II: Un discorso da fare. Excertos do capítulo 8 – “Ecumenismo ou sincretismo”. Fonte: DICI

1 janeiro, 2010

Acerca da Liberdade Religiosa. Monsenhor Brunero Gherardini, Concilio Ecumenico Vaticano II: Un discorso da fare.

Então, é possível inscrever a Dignitatis Humanae dentro da hermenêutica da continuidade? Se nos contentarmos com uma proclamação abstrata, certamente sim; mas no plano da pertinência histórica, não consigo ver como.

E a razão se reduz ao afirmar o óbvio: a liberdade proclamada no decreto Dignitatis Humanae, que não diz respeito a um aspecto da pessoa humana, mas à sua própria essência e, junto, todas as suas atividades indivíduais e públicas, dado que ela é livre de qualquer condicionamento político e religioso, tem muito pouco em comum com, por exemplo, Mirari vos de Gregório XVI, Quanta Curta e o Syllabus anexo do Beato Pio IX, Immortale Dei de Leão XIII (especialmente no que diz respeito às relações entre a autoridade civil e o governo da Igreja), Pascendi dominici gregis de São Pio X e o Decreto Lamentabili publicado pouco depois pelo Santo Ofício, ou com Humani generis de Pio XII.

Na realidade, não é um caso de diferente linguagem. A diversidade é substancial e portanto irredutível. Os respectivos conteúdos são diferentes.

O conteúdo do Magistério precedente não encontra nem continudade nem desenvolvimento naquele da Dignitatis Humanae.

Então, há dois Magistérios?

A questão não deveria sequer ser feita porque, por sua própria natureza, o Magistério da Igreja é um e indivisível: é aquele criado por Nosso Senhor Jesus Cristo.

Muitos são os que — dado o clima da presente época — enquanto reafirmam sua unidade e indivisibilidade, absolutamente não distinguem o perigo desta divisão em dois. A idéia de que o Magistério aplica hoje, por respeito às atuais circustâncias alteradas, um princípio diferentemente ou mesmo contrário ao aplicado ontem, não os assusta.

Eu poderia também me declarar de acordo, contato que a condição indispensável e inquestionável do “eodem sensu, eademque sententia” seja sempre assegurada.

Infelizmente, todos claramente parecem seguir seu próprio caminho e isso pode muito bem dar a impressão de um Magistério dividido em dois.

Monsenhor Brunero Gherardini – Concilio Ecumenico Vaticano II: Un discorso da fare.
Excertos do capítulo 7 – “O grande problema da Liberdade Religiosa”. Fonte: DICI

29 dezembro, 2009

Sobre a noção de “Tradição Viva”. Monsenhor Brunero Gherardini, Concilio Ecumenico Vaticano II: Un discorso da fare.

Até o Vaticano II, para esclarecer este ponto, o teólogo tinha a seu dispor uma elaboração bastante precisa do conceito de Tradição, da qual ele poderia extrair um argumento para avaliar adequadamente seu julgamento.

Já fiz alusão a esta elaboração na primeira parte do presente capítulo, considerando a Tradição a partir de vários pontos de vista, e qualificando-a de acordo com suas funções em apostólica, divino-apostólica, humano-apostólica, inerente, declarativa e constitutiva.

Agora, o Vaticano II, que fez uma exceção para a Tradição Apostólica – embora sem nunca apresentá-la com o significado doravante considerado como “tradicional” desta qualificação – sistematicamente ignorou todas as outras. Por outro lado, encontramos no Concílio uma qualificação diferente: Tradição viva, que discutirei posteriormente.

Somos confrontados com uma maneira de expressar que, ao procurar simplificar a mensagem, acaba tornando-a mais complicada por conta de uma linguagem muito genérica, seu emprego anfibológico e sua falta de especificidade. E não estou falando sobre o fato de que “viva” possa abrir as portas a todos os tipos de inovações que poderiam surgir ou germinar da velha planta.

[…]

Faço uma última observação acerca da assim chamada Tradição viva da Igreja. Aparentemente, é uma expressão irrepreensível, embora seja, de fato, ambígua. É irrepreensível porque a Igreja é uma realidade viva e a Tradição é sua própria vida. É ambígua porque permite a introdução de qualquer novidade na Igreja, mesmo as mais contra-indicadas, como expressão de sua vida.

Dei Verbum fala do Evangelho vivo¸ do Magistério vivo e da Tradição viva. Já esta enorme gama de usos não advoga em favor da univocidade do conceito.

No número 7, por exemplo, é dito que “para que o Evangelho fosse perenemente conservado íntegro e vivo na Igreja, os Apóstolos deixaram os Bispos como seus sucessores”.

No número 8, lemos que: “ o Espírito Santo – por quem ressoa a voz viva do Evangelho na Igreja e, pela Igreja, no mundo, introduz os crentes na verdade plena”.

Em seguida, encontramos no número 10 a seguinte afirmação: “o encargo de interpretar autenticamente a palavra de Deus escrita ou contida na Tradição, foi confiado só ao magistério vivo (destaques meus) da Igreja”.

Pouco depois, no número 12, é recomendado como um dever que “não menos atenção se deve dar, na investigação do reto sentido dos textos sagrados, ao contexto e à unidade de toda a Escritura”, “tendo em conta a Tradição viva (destaques meus) de toda a Igreja”.

De todas estas afirmações nós vagamente percebemos uma certa analogia no uso do adjetivo “vivo”, mas seguramente não o seu verdadeiro significado, nem a razão de seu uso.

O que garante a vitalidade do Evangelho – sabemos bem – é o Evangelho: através dele ressoa a Palavra do Deus vivo, que é a própria Pessoa de Deus falando, e, portanto, a expressão de Sua própria vida. Que há também um Magistério é uma verdade de nossa fé, no sentido de que qualquer um na encargo do Magistério continua, graças à sucessão apostólica, a transmissão ininterrupta dos ensinamentos de Cristo e de Seus Apóstolos.

De fato, esta sucessão faz o ensinamento de Cristo e de Seus Apóstolos alcançar a Igreja em todo período de tempo, porque é um elemento vivo e vital da própria existência da Igreja. Por outro lado, o conceito de “Tradição viva” é mais nebuloso.

O texto conciliar não obriga a se ater apenas a ele, mas também à analogia da fé, i.e., o elo que liga numa recíproca interdependência cada uma das verdades reveladas e as torna uma unidade inseparável.

O objetivo desta dupla obrigação tende a transpassar os limites da palavra escrita, esta palavra vinda da Palavra viva, que constitui o início da Tradição eclesiástica.

Mas por que se diz viva? O Concílio não o diz, ou ao menos não com a clareza necessária. Provavelmente por causa da unidade – ao menos substancial (portanto, a continuidade) – entre o primeiro estágio da Tradição que é apostólico, os estágios seguintes, a começar com aquele que foi imediatamente pós-apostólico, descendo aos outros, relacionados com os grandes períodos históricos da Igreja, e finalmente até o presente estágio.

É provavelmente isso o que significa. Mas o silêncio sobre esta continuidade, infelizmente, também implica na ausência de qualquer certeza sobre a questão. “Vivo” podia certamente indicar uma ligação entre os vários estágios e evitar mais ou menos rupturas sérias, assim garantindo a continuidade viva e vital da Tradição. Mas o texto permanece calado sobre o assunto. Meramente afirma que a Tradição é viva.

Agora, não é suficiente declará-la viva para que ela realmente seja. A comunicação vital entre suas várias fases não deve apenas ser proclamada, deve primeiramente e antes de tudo ser provada, e de tal maneira que a prova coincida com a continuidade – ao mesmo substancial – de seus conteúdos com os das fases precedentes.

A Tradição é viva não quando se torna integrada a alguma novidade, mas quando descobrimos nela, ou deduzimos dela, algum novo aspecto que anteriormente escapava da atenção; ou quando alguma nova compreensão de seus conteúdos originais enriquece a vida presente da Igreja.

Esta vida não progride por solavancos ou saltos desconectados uns dos outros, mas pela linha principal do “quod semper, quod ubique, quod ab omnibus creditum est,” que o Vaticano I, seguindo os passos de Trento, expressou ao referir-se ao significado “quem tenuit ac tenet sancta Mater Ecclesia” (DS 1507 and 3007).

O “sempre”, o “em todo lugar” e o “por todos” não estão relacionados com uma identidade de palavras e portanto da afirmação como um todo, mas verdadeiramente com o significado que a Igreja, por meio de seu Magistério solene e ordinário, sempre sustentou, e ainda sustenta agora em suas declarações teológicas e dogmáticas.

O princípio da “Tradição viva” não foi objeto de qualquer discussão. Todavia, é suscetível de abrir o caminho a uma falsificação do depósito sagrado das verdades contidas na Tradição.

Numa atmosfera como esta que prevaleceu durante e depois do Vaticano II, quando apenas o que era novo parecia ser verdade, e quando esta novidade se apresentava sob os traços da cultura imanentista e fundamentalmente ateísta de nosso tempo, a doutrina de sempre não constituía mais que um vasto cemitério.

A Tradição permaneceu mortalmente ferida e agoniza ainda hoje (ao menos que já esteja morta) por causa das posições tomadas que eram radicalmente irreconciliáveis com seu passado. Então, não é suficiente defini-la como viva, se já não há mais nada de vivo nela.

A verdade é (e isso é grave) que falamos de Tradição viva apenas para endossar toda inovação apresentada como desenvolvimento natural das verdades oficialmente transmitidas e recebidas, mesmo que a inovação não tenha nada em comum com tais verdades e esteja bem longe de ser um novo germe do velho tronco.

Em verdade, a Tradição é viva apenas na medida em que é e continua a ser a mesma Tradição apostólica, que se reapresenta – inalterada – na e através da Tradição eclesiástica.

A primeira, antes, carrega consigo um significado passivo: é o que foi transmitido, igual a si mesma, inclusive em sua transmissão, porque o depósito deve ser mantido inalterado.

A última, pelo contrário, mostra um significado mais ativo enquanto órgão oficial que assegura a transmissão fiel do depósito e encontra, em seu fim, a justificativa para o adjetivo “vivo”.

Portanto, um dado que não tivesse suas raízes nos conteúdos transmitidos não seria um dado da Tradição viva, mesmo no caso – em si mesmo e per se­ – absurdo, em que este dado fosse oficialmente proposto.

Um exemplo grosseiro: nunca será possível que a teologia transcedental de Rahner seja declarada um elemento da Tradição viva, porque ela é, na realidade, sua tumba.

Algumas coisas no Concílio, e muitas coisas na era pós-concílio contribuíram para cavar esta sepultura.

A legitimidade do adjetivo “vivo” com respeito ao progresso no conhecimento que podemos ter da Tradição é inquestionável, como já dissemos. Neste caso, pertence ao campo do “progresso dogmático”.

Na verdade, o dever do Magistério da Igreja não é apenas reapresentar a Tradição Apostólica, mas também estudá-la a fundo, analisá-la, explicá-la.

O caráter vivo da Tradição é, portanto, manifestado não por avaliar o conteúdo apostólico em comparação com o nível e com os conteúdos da cultura desse ou daquele período histórico, mas pelo fato de que ele inicia uma transição de uma implícita para uma explícita afirmação dos conteúdos.

Em todo caso, a atual chamado para a Tradição viva pode ser resumido como um verdadeiro perigo para a fé de cada cristão e de cada comunidade cristã como um todo.

Monsenhor Brunero Gherardini – Concilio Ecumenico Vaticano II: Un discorso da fare.
Excertos do capítulo 5 – “Tradição no Concílio Vaticano II”. Fonte: DICI

17 dezembro, 2009

Papa nomeia novo bispo na Espanha e clero da diocese se revolta.

77% do clero de Guipúzcoa, Espanha, rejeita novo bispo, considerado conservador, em nome do espírito do Concílio Vaticano II. Abaixo, a declaração:

Sacerdotes e Religiosos com cargo pastoral da Diocese de Guipúzcoa.

Jornal El Mundo noticia fato. Link para matéria.

Por motivo da nomeação do novo bispo de nossa Diocese e, desde nossa condição de sacerdotes e religiosos da Igreja de Gipuzkoa, movidos pela responsabilidade que temos ante nossa Igreja local, queremos expressar o seguinte:

• Recebemos com dor e profunda inquietudo a designação de D. José Ignacio Munilla para presidir e dirigir a Igreja de Guipúzcoa, designação que foi percebida por nós como uma clara desautorização da vida eclesial de nossa Diocese e também como uma iniciativa destionada a mudar seu rumo.

• Manifestamos nossa desconformidade e desaprovação com a intencionalidade e o procendimento seguidos na nomeação de D. José Ignacio Munilla como bispo de nossa Diocese. Lamentamos e deploramos que em uma questão tão transcedental como está, não se tenha tido em conta nem respeitado o sentir de nossa Igreja Diocesana e seus organismos pastorais.

• Conhecemos de perto a trajetória pastoral de D. José Ignacio Munilla como presbítero, profundamenta marcada pela falta de afeto e comunhão com as linhas diocesanas. Consideramos que de modo algum se trata de pessoa idônea para desempenhar o cargo de Bispo e Pastor de nossa Diocese.

• Manifestamos nosso apoio e adesão à linha pastoral e ao estilo eclesial que se vem formando em nossa Diocese em fidelidade ao espírito do Concílio Vaticano II e com o alento e direção pastoral de nossos bispos.

• Por isso mesmo, desde a fidelidade ao evangelho de Jesus Cristo, nosso amor à Igreja e serviço a nosso povo, queremos reiterar ante nossas comunidades cristãs nossa vontade e compromisso de seguir caminhando em coerência com as opções pastorais que temos mantido ao longo de todos estes anos.

• Estamos convencidos de que não nos faltará o alento do Espírito nem a colaboração de tantos e tantos crentes, que nestes momentos de incertezas seguirão acrescentando o melhor de sua experência cristã.

En Gipuzkoa, 14 de dezembro de 2009.

Fonte: Secretum Meum Mihi

7 dezembro, 2009

Bento XVI: pôr “fim à tribulação da querida Igreja que peregrina nas Terras da Santa Cruz”.

Apraz-me tributar aqui a mais viva gratidão eclesial às diversas congregações religiosas que entre vós fundaram e suportam renomadas universidades, lembrando-lhes, porém, que estas não são uma propriedade de quem as fundou ou de quem as freqüenta, mas expressão da Igreja e do seu patrimônio de fé.

Neste sentido, amados Irmãos, vale a pena lembrar que em agosto passado, completou 25 anos a Instrução Libertatis nuntius da Congregação da Doutrina da Fé, sobre alguns aspectos da teologia da libertação, nela sublinhando o perigo que comportava a assunção acrítica, feita por alguns teólogos de teses e metodologias provenientes do marxismo. As suas seqüelas mais ou menos visíveis feitas de rebelião, divisão, dissenso, ofensa, anarquia fazem-se sentir ainda, criando nas vossas comunidades diocesanas grande sofrimento e grave perda de forças vivas. Suplico a quantos de algum modo se sentiram atraídos, envolvidos e atingidos no seu íntimo por certos princípios enganadores da teologia da libertação, que se confrontem novamente com a referida Instrução, acolhendo a luz benigna que a mesma oferece de mão estendida; a todos recordo que «a regra suprema da fé [da Igreja] provém efetivamente da unidade que o Espírito estabeleceu entre a Sagrada Tradição, a Sagrada Escritura e o Magistério da Igreja, numa reciprocidade tal que os três não podem subsistir de maneira independente» (João Paulo II, Enc. Fides et ratio, 55). Que, no âmbito dos entes e comunidades eclesiais, o perdão oferecido e acolhido em nome e por amor da Santíssima Trindade, que adoramos em nossos corações, ponha fim à tribulação da querida Igreja que peregrina nas Terras de Santa Cruz.

Discurso do Santo Padre, o Papa Bento XVI, aos Bispos brasileiros do Grupo V em visita “ad limina” – 05 de dezembro de 2009.

30 novembro, 2009

Dois aniversários, uma profissão de fé.

Há exatos 40 anos, no dia 30 de novembro de 1969, entrava em vigor o Novus Ordo Missae de Paulo VI. Ele, cuja adoção não fora “deixada certamente ao arbítrio dos padres ou os fiéis”, viria de maneira avassaladora “substituir o antigo [ordo], após madura deliberação, depois das instâncias do Concílio Vaticano II” (Paulo VI, alocução ao consistório para nomeação de vinte cardeais, 24 de maio de 1976).

Há 35 anos, em 21 de novembro de 1974, Dom Marcel Lefebvre publicava uma declaração que muitos à época chamariam de “auto-condenação”. Nela, o arcebispo fazia sua profissão de fé católica e denunciava as novidades que “contribuíram, e continuam contribuindo, para a demolição da Igreja”.

* * *

‹‹ Neste dia de aniversário, é bom se recordar da declaração de Mons. Lefebvre de 21 de novembro de 1974, para a reler. Apesar de pressões diversas de amigos, professores, de seu próprio corpo docente de Ecône, apesar da incrível pressão em Roma dos Cardeais Tabéra, Wright, Garonne, apesar da pressão de Mons. Bennelli, substituto da Secretaria de Estado, apesar da pressão do Cardeal Villot, Secretário de Estado, apesar do risco de supressão da sua Fraternidade, que foi realizada por Mons. Mamis, bispo de Friburgo, sucessor de Mons. Charrière, Mons. Lefebvre jamais mudou um ïota. Bela força de alma! Bela convicção! Belo amor à verdade! Deve-se sacrificar tudo por ela!

Ela [a declaração] é sempre a minha “carta”, ainda que eu constate com alegria que Roma dá, pouco a pouco, sob o pontificado de Bento XVI, “um franco golpe em favor” de sua Tradição ›› .

Pe. Paul Aulagnier, La Revue Item

* * *

Nós aderimos, de todo o coração…

Nós aderimos de todo o coração e com toda a nossa alma à Roma católica, guardiã da fé católica e das tradições necessárias para a manutenção dessa fé, à Roma eterna, mestra de sabedoria e de verdade.

Pelo contrário, negamo-nos e sempre nos temos negado a seguir a Roma de tendência neomodernista e neoprotestante que se manifestou claramente no Concílio Vaticano II, e depois do Concílio em todas as reformas que dele surgiram.

Todas estas reformas, com efeito, contribuíram, e continuam contribuindo, para a demolição da Igreja, a ruína do sacerdócio, a destruição do Sacrifício e dos Sacramentos, a desaparição da vida religiosa, e a implantação de um ensino naturalista e teilhardiano nas universidades, nos seminários e na catequese, um ensino surgido do liberalismo e do protestantismo, condenados múltiplas vezes pelo magistério solene da Igreja.

Nenhuma autoridade, nem sequer a mais alta na hierarquia, pode obrigar-nos a abandonar ou a diminuir a nossa fé católica, claramente expressa e professada pelo magistério da Igreja há dezenove séculos.

‘Se ocorresse – disse São Paulo – que eu mesmo ou um anjo do céu vos ensinasse outra coisa distinta do que eu vos ensinei, seja anátema’ (Gal. 1, 8).

Não é isto o que nos repete hoje o Santo Padre? E se se manifesta uma certa contradição nas suas palavras e nos seus atos, assim como nos atos dos dicastérios, então elegeremos o que sempre foi ensinado e seremos surdos ante as novidades destruidoras da Igreja.

Não se pode modificar profundamente a lex orandi (lei da oração, liturgia) sem modificar a lex credendi (lei da Fé, doutrina, magistério). À Missa nova corresponde catecismo novo, sacerdócio novo, seminários novos, universidades novas, uma Igreja carismática e pentecostalista, coisas todas opostas à ortodoxia e ao magistério de sempre.

Esta Reforma, por ter surgido do liberalismo e do modernismo, está completamente empeçonhada, surge da heresia e acaba na heresia, ainda que todos os seus atos não sejam formalmente heréticos. É, pois, impossível para todo o católico consciente e fiel adotar esta reforma e submeter-se a ela de qualquer modo que seja.

A única atitude de fidelidade à Igreja e à doutrina católica, para bem da nossa salvação, é uma negativa categórica à aceitação da Reforma.

E por isso, sem nenhuma rebelião, sem amargura alguma e sem nenhum ressentimento, prosseguimos a nossa obra de formação sacerdotal à luz do magistério de sempre, convencidos de que não podemos prestar maior serviço à Santa Igreja Católica, ao Soberano Pontífice e às gerações futuras.

Por isso, cingimo-nos com firmeza a tudo o que foi crido e praticado na fé, costumes, culto, ensino do catecismo, formação do sacerdote e instituição da Igreja, pela Igreja de sempre, e codificado nos livros publicados antes da influência modernista do Concílio, à espera de que a verdadeira luz da Tradição dissipe as trevas que obscurecem o céu da Roma eterna.

Fazendo assim, com a graça de Deus, o socorro da Virgem Maria, de São José e de São Pio X, estamos convictos de permanecer fiéis à Igreja Católica e Romana e a todos os sucessores de Pedro, e de ser os ‘fideles dispensatores mysteriorum Domini Nostri Jesu Christi in Spiritu Sancto’. Amem. (cf. I Cor. 4, 1 e ss.)”

+ Marcel Lefebvre

21 de novembro de 1974

Fonte: FSSPX – Brasil

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História.

Em 26 de março de 1974, um encontro foi realizado em Roma para discutir a Fraternidade Sacerdotal São Pio X e sua principal fundação, o seminário em Ecône.

Presentes neste encontro estiveram o Cardeal Garrone, Prefeito da Congregação para a Educação Católica; o Cardeal Wright, Prefeito da Congregação para o Clero; Mons. Mayer, secretário da Congregação para os Religiosos; Mons. Mamie, Bispo de Lausanne, Genebra e Friburgo — a diocese na qual a Fraternidade primeiro obteve sua autorização canônica; Mons. Adam, bispo de Sion — a diocese na qual Ecône está localizada. Foi decidido que um relatório sobre a Fraternidade e o Seminário deveria ser compilado.

Com surpreendente rapidez o relatório pedido foi despachado em quatro dias, em 30 de março de 1974. Foi redigido por Mons. Perroud, vigário geral da diocese de Lausanne, Genebra e Friburgo. Este relatório, acompanhado por uma carta de Dom Mamie, foi enviado ao Cardeal Garrone.

Em 30 de abril de 1974, Mons. Lefebvre e Mons. Mamie se encontraram em Friburgo.

Em meados de junho de 1974, supostamente o Papa Paulo VI teria convocado uma Comissão ad hoc de Cardeais. Conquanto não seja possível afirmar com certeza que isso é falso, é certo que o documento convocando a Comissão nunca foi feito. Como será demonstrado posteriormente, este documento era um dos ítens que o defensor de Mons. Lefebvre teria solicitado ver não tivesse a apelação do Arcebispo sido barrada. Não seria exagero presumir que uma razão pela qual fora negado ao Arcebispo o devido processo legal tenha sido que um número de sérias irregularidades foram trazidas à luz.  Isso dificilmente pode ser uma coincidência em vista das críticas levantadas pela legalidade duvidosa dos procedimentos contra Mons. Lefebvre, que quando uma Comissão de Cardeal foi convocada para examinar o caso do pe. Louis Coache, um sacerdote tradicionalista que foi removido de sua paróquia por sua defesa da Missa e do catecismo tradicionais, grande cuidado foi tomado para não deixar brechas legais. […]

Em 23 de junho de 1974, a Comissão de Cardeais se reuniu e decidiu por uma visitação canônica ao Seminário.

A Visitação Apostólica do Seminário de Ecône ocorreu de 11 a 13 de novembro de 1974. Os dois visitadores eram belgas: Mons. Descamps, um biblista, e Mons. Onclin, um canonista. A Visitação Apostólica foi conduzida com grande eficácia. Professores e estudantes eram submetidos a questões agudas e detalhadas a respeito de todos os aspectos da vida do seminário. De todo modo, considerável escândalo foi causado pelas opiniões que os dois visitadores romanos expressaram na presença dos estudantes e professores. Pois, conforme Mons. Lefebvre, estes dois visitadores consideravam normal e de fato inevitável que houvesse um clero casado; eles não acreditavam na existência de uma Verdade imutável; também tinham dúvidas sobre o conceito tradicional da Ressurreição de Nosso Senhor.

Em 21 de novembro de 1974, em reação ao escândalo causado por estas opiniões dos Visitadores Apostólicos, Mons. Lefebvre considerou necessário esclarecer onde ele se mantinha em relação àquela Roma representada por esta disposição de idéias. “Essa”, disse ele, “foi a origem de minha Declaração que, é verdade, foi redigida indubitavelmente num espírito de excessiva indignação”.

Nesta Declaração ele rejeitava as posições expressas pelos Visitadores, mesmo se elas eram atualmente aceitáveis àquela Roma que os Visitadores representavam oficialmente.

Nesta Declaração ele afirmava:

…nós negamos… e sempre nos temos negado a seguir a Roma de tendência Neomodernista e Neoprotestante…

Nenhuma autoridade, nem sequer a mais alta na hierarquia, pode obrigar-nos a abandonar ou a diminuir a nossa fé católica, claramente expressa e professada pelo magistério da Igreja há dezenove séculos.

É difícil ver como qualquer Católico ortodoxo possa eventualmente discordar de Mons. Lefebvre a este respeito. É ainda mais significante, então, que a Comissão de Cardeais posteriormente tenha afirmado que a Declaração “parece-nos inaceitável em todos os pontos”.

Também é importante notar que esta Declaração não era pretendida como uma declaração pública, para não se falar numa espécie de Manifesto desafiando a Santa Sé. Se pretendia que fosse uma declaração privada apenas para benefício dos membros da Fraternidade São Pio X.

Contudo, a declaração vazou sem a permissão de Mons. Lefebvre, e porque o texto, ou extratos dele, estavam sendo usados de maneira à qual ele não poderia fechar os olhos, ele autorizou Itinéraires a publicar na íntegra o texto original francês em janeiro de 1975. Uma tradução inglesa desta Declaração foi publicada em Approaches 42-3 e The Remmant de 6 de fevereiro de 1975.

É particularmente significante que a Comissão de Cardeais tenha persitentemente se recusado a ver esta Declaração no contexto de sua origem: como uma reação privada de justa indignação ao escândalo ocasionado pelas posições propagadas pelos dois Visitadores Apostólicos que foram enviados a Ecône pela Comissão de Cardeais.

Apologia Pro Marcel Lefebvre, Michael Davies, vol. I, cap. IV – A campanha contra Ecône.