Archive for ‘O grande plano de Bento XVI’

25 agosto, 2008

Mons. Ranjith fala: Coragem para corrigir o percurso

Do The New Liturgical Movement:

Die Tagespost: A Ásia é considerada na Europa como um continente de contemplação, misticismo e de profundidade espiritual. O que a Igreja Universal pode aprender da Igreja na Ásia?

Msgr. Ranjith: A Igreja Universal pode aprender muito da Igreja na Ásia. O pré-requisito para isso é a inculturação correntamente entendida, que é a bem sucedida integração de certas partes da cultura da Ásia na Cristianismo vivo. Estou falando aqui especificamente da inculturação propriamente entendida, porque a inculturação foi de certa forma completamente mal compreendida na Ásia, por ninguém menos que aqueles que falam de inculturação. Nós devemos, portanto, não nos enganar sobre o que é realmente Asiático. Com relação a ideologias ocidentais, escolas de pensamentos e influência do secularismo e perspectivas horizontais que não libertam o homem verdadeiramente, não pode existir nenhum diálogo sobre espiritualidade da Ásia ou valores Asiáticos. Apenas se voltarmos às raízes e falarmos autenticamente sobre os valores Asiáticos e do modo Asiático de viver nós poderemos contribuir com a Igreja Universal. Qualquer outra coisa não seria nada além de distorção da realidade. A fim de evitar uma visão superficial de inculturação, devemos distingüir entre o que é verdadeiramente Asiático e o que pertence às religiões Asiáticas. Muitas práticas religiosas se desenvolveram da vida cotidiana. Confundir os dois seria apenas o lançamento de bases para uma teologia sincretista e para uma destruição do modo Católico Romano de viver. Portanto, devemos primeiro efetuar uma espécie de desmitificação e ver o que está por detrás dos vários atos religiosos. Apenas então se pode discernir o que é verdadeiramente Asiático.

DT: Onde você vê exemplos de inculturação Cristã na Ásia mal sucedida?

Mons. Ranjith - Ordenação sacerdotal em Wigratzbad

MR: É, por exemplo, inteiramente Asiático o respeito aos símbolos religiosos, por exemplo o traje sacerdotal e o hábito religioso. Em nenhum templo budista você encontrará monges sem o hábito. Os hindús têm seus sinais de identidade, que os distingüe dos outros em seu templo ou no caminho. Essa atitude não é tipicamente budista ou hindú, mas Asiática. Os Asiáticos querem indicar com esses símbolos a realidade por detrás da realidade visível exteriormente. Eles consideram, por exemplo, o hábito sacerdotal ou religioso como uma distinção que faz a pessoa concernida se sobressair da massa por causa de seu ideal pessoal. Se os padres e religiosos aparecem em roupas civis ocidentais e não revelam seu estado, então não se tem nada a ver com inculturação, mas com uma aparência pseudo-Asiática, que é, de fato, mais Européia. Portanto, é lamentável que padres e religiosos em muitos países de Ásia não mais vistam roupas correspondentes a seu estado. Uma das congregações mundialmente conhecida que de forma bem sucedida modelou um hábito religioso conforme o estilo local de se vestir é a Congregação das Missionárias da Caridade (as irmãs de Madre Teresa). Elas são um exemplo de inculturação Cristã bem sucedida, pois toda criança na rua pode imediatamente identificá-las.

DT: Que bases aplicar para uma bem sucedida inculturação?

MR: O texto sinodal “Ecclesia in Asia” expressamente afirma que Cristo era Asiático. As raízes da culturas cristã e judaíca, que Jesus encontrou em Jerusalém, eram Asiáticas. É claro, o Cristianismo espalhou-se no Ocidente através do pensamento greco-romano. São Paulo e outros eram uma espécie de abridores de portas nisso. Infelizmente, as vicissitudes da história tornaram impossível uma difusão imediata do Cristianismo na Ásia. Simplesmente não existia “intensidade” suficiente dentro do modo Asiático de pensar. Na Ásia, com relação ao Cristianismo, a imagem de uma religião importada por colonizadores ainda predomina. Mas isso não é verdade. O Cristianismo veio à Ásia muito antes dos poderes coloniais. Na Índia, por exemplo, temos a forte tradição dos Cristãos de São Tomé. Quem quer transferir o Cristianismo para o modo Asiático de viver deve mostrar humildade diante do mistério de Deus. Apenas um crente pode ser bem sucedido. Essa não é uma questão de competência teológica ou filosófica. O homem simples e devoto na rua pode freqüentemente estar em vantagem, porque ele se aproxima do mistério de Deus sem preconceitos e está completamente impregnado da mensagem Cristã. A vox populi tem um papel importante para a inculturação. Apenas com pessoas profundamente religiosas, que rezam, a inculturação bem sucedida é possível. Os teólogos comumente se esquecem que podemos descobrir o verdadeiro valor da mensagem de Jesus apenas em nossos joelhos. Vemos isso na maneira que Paulo evangelizava. Ele era um homem de Deus, que amava a Deus e dedicava sua vida totalmente a Cristo e vivia em constante contato com Ele. Apenas pessoas assim podem ter o modelo para a inculturação Cristã. De outra forma, o Cristianismo não sairá da capa dos livros. E infelizmente tem que se dizer que não há atualmente nenhum pensamento teológico sério na Ásia. Nós temos um grande pot-pourri de idéias: um pouco de teologia da libertação da América Latina, um pouco de teologia Ocidental, algumas das correntes filosóficas das universidades Ocidentais — tudo é tentado impetuosamente. Então, há uma espécie de isolamento, pois cada uma não está mais aberta ao mistério dos caminhos de Deus. A teologia é considerada meramente como um tipo de evento humano. A abertura à luz de Deus está em falta. O sentido da profunda união mística com Deus está faltando, assim como a habilidade de entender a fé do povo comum. Mas são precisamente essas características que um teólogo necessita.

DT: Da Ásia também se ouve vozes que dizem que o debate sobre a liturgia Tridentina é tipicamente Europeu e não tem nada que ver com as preocupações das pessoas nas áreas de missão. Como você vê isso?

MR: Bem, existem opiniões individuais que não podem ser generalizadas na Igreja Católica. Que a Ásia inteira deve rejeitar a Missa Tridentina é inconcebível. Deve-se também acautelar-se para generalizações como “a missa antiga não serve para a Ásia”. É precisamente a liturgia do rito extraordinário que reflete alguns valores Asiáticos em toda sua profundidade. Acima de tudo o aspecto da Redenção e a perspectiva vertical da vida humana, o relacionamento profundamente pessoal entre Deus e o sacerdote e entre Deus e a comunidade são mais claramente expressos na antiga liturgia do que no Novus Ordo. O Novus Ordo por contrastre enfatiza mais a perspectiva horizontal. Isso não significa que o Novus Ordo por si mesmo coloca-se para uma perspectiva horizontal, mas antes sua interpretação por diferentes escolas litúrgicas, que vêem a missa mais como uma experiência comunitária. Se formas estabelecidas de pensar são colocadas em questão, entretanto, algumas reagem de maneira desconfiada. A Santa Missa não é apenas o memorial da última ceia, mas também o Sacrifício de Cristo e o Mistério de nossa Salvação. Sem a Sexta-feira Santa, a última ceia não tem sentido. A Cruz é o maravilhoso sinal do amor de Deus, e apenas em relação à Cruz é possível a verdadeira comunidade. Aqui está o verdadeiro ponto inicial da evangelização da Ásia.

DT: De que forma a reforma pós-conciliar tem contribuído para uma renovação espiritual?

MR: O uso do vernáculo permitiu que muitas pessoas entendessem o mistério da Eucaristia mais profundamente e procurou uma mais intensa relação com os textos das Escrituras. A participação ativa dos fiéis foi encorajada. Entretanto, isso não deve significar que a Missa deve ser inteiramente orientada para o diálogo. A Missa deve ter momentos de silêncio, de introspecção e oração pessoal. Onde há um falar incessante, o homem não pode ser profundamente penetrado pelo mistério. Não devemos falar ininterruptamente diante de Deus, mas também deixá-Lo falar. A renovação litúrgica foi afetada, entretanto, pela arbitrariedade experimental com a qual a Missa hoje está sendo livremente realizada como “faça você mesmo”. O espírito da liturgia tem sido, num modo de dizer, raptado. O que ocorreu não pode mais ser desfeito agora. O fato é que nossas igrejas se esvaziaram. Obviamente que existem também outros fatores: o desenfreado comportamento consumista, secularismo, uma excessiva imagem do homem. Nós devemos tomar coragem para corrigir o percurso, pois nem tudo o que ocorreu depois da reforma da liturgia foi conforme a intenção do Concílio. Por que deveríamos carregar com dificuldade aquilo que o Concílio não quis?

DT: Na Alemanha é cada vez mais freqüente a substituição da Santa Missa por celebrações da Palavra de Deus feita por leigos, apesar de padres suficientes estarem disponíveis. Em troca, em muitos lugares, padres, com as fusões de paróquias, têm que concelebrar mais freqüentemente, de forma que até mesmo menos Missas são celebradas. A Igreja tem que repensar a prática da concelebração?

MR: Essa é menos uma questão de concelebração do que uma questão de compreensão da Missa e da imagem do padre. O padre alcança na Eucaristia o que os outros não podem fazer. Como alter Christus, ele não é a pessoa principal, mas o Senhor. Concelebrações devem se restringir a ocasiões especiais. Uma concelebração que sustenta a favor de uma despersonificação da celebração da Missa é então tão errada como a noção de que se pode obrigar um padre a concelebrar regularmente, ou fechar igrejas em várias cidades e concentrar a Missa em um único lugar, apesar de padres suficientes estarem disponíveis.

22 agosto, 2008

“Estou nas mãos de Deus, quem sabe…”

É o que responde Dom Ranjith ao ser questionado por Bruno Volpe se permanecerá no seu atual cargo, secretário da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos.

Esperamos que ele deixe o cargo não para retornar ao Sri-Lanka, como diziam boatos antigos, mas para assumir a Prefeitura da Congregação, já que o Cardeal Francis Arinze será logo substituído por motivo de idade.

15 agosto, 2008

Na festa da Assunção da Santíssima Virgem – Dom Ranjith

Dom Ranjith em Maria Vesperbild - 2008

Dom Ranjith em Maria Vesperbild - 2008

Queridos irmãos e irmãs, hoje muitos discípulos de Jesus em todos os estados e vocações da Igreja estão faltando com a reverência e alegria que vêm da verdadeira, contínua presença de Jesus entre nós, especialmente no Santíssimo Sacramento do Altar. Então, hoje nós devemos rezar mais do que nunca à Santa Mãe de Deus e pedir a ela que possa nos abrir aos tesouros de seu Imaculado Coração: sua fé e seu amor por Jesus em sua missão Eucarística. Não infreqüentemente nós ouvimos hoje de padres que, revelando uma falta de fé e de entendimento, celebram os Sagrados Mistérios da Eucaristia de uma maneira que é indigna de sua celestial magnificência. Também muitos fiéis perderam o sentido para o sagrado do Sacríficio da Missa. O convite de Jesus de se tornar completamente um com Ele e de receber a vida Dele, vida que corre de Seu tremendo Sacrifício do Gólgota, e de ser parte de Sua celestial assembléia do novo povo de Deus, — como o Senhor diz: Enquanto o Pai vivo me enviou, e eu vivo pelo Pai; assim aquele que me come, também viverá por mim. — esse convite maravilhoso está sendo degradado por uma visão puramente intra-mundana e horizontal da Santa Eucaristia, na qual não se vê mais que apenas o pão terreno. Nós não podemos honrar Maria se nós não podemos honrar Jesus Eucarístico! Nós devemos rezar para uma verdadeira renovação da Igreja, como quer o Santo Padre, acima de tudo na e através da Santa Missa e na veneração da Santa Eucaristia, através de uma fé aprofundada, uma digna celebração e um corajoso testemunho. Hoje, mais do que noutros tempos, nós precisamos amar e conhecer Maria para que nós amemos mais e conheçamos melhor Jesus, e O honremos mais.

(Dom Albert Malcolm Ranjith Patabendige Don, Secretário da Cong. para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos – missa na véspera da festa da Assunção da Santíssima Virgem em 2008, Maria Vesperbild, Bavaria)
 
13 agosto, 2008

Cong. para o Culto Divino às Conferências Episcopais: reverência para com o Santo Nome de Deus

Para que a Palavra de Deus, escrita nos textos sagrados, possa ser conservada e transmitida numa maneira integral e fiel, toda tradução moderna dos livros da Bíblia objetiva ser uma fiel e acurada transposição dos textos originais. Tal esforço literário requer que o texto original seja traduzido com máxima integridade e exatidão, sem omissões e adições com relação a conteúdo e sem introduzir notas explanatórias ou paráfrases que não pertencem ao próprio texto sagrado.

[…]

Além de um motivo de ordem puramente filológica, existe também aquele de se manter fiel à tradição da Igreja, desde o início, de que o sagrado Tetragrammaton nunca era pronunciado no contexto Cristão nem traduzido para qualquer das línguas nas quais a Bíblia foi traduzida.

[…]

Nas celebrações litúrgicas, hinos e orações, o nome de Deus na forma do tetragrammaton YHWH não é para ser usado ou pronunciado.

No país da Cristoteca e do Barzinho de Jesus, onde o nome de Deus é cotidianamente tomado em vão, eis que mais uma diretriz da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos, salvo alguma intervenção divina, tem destino quase certo: as gavetas empoeiradas onde se joga tudo que parte de Roma. Que nossas orações revertam esse quadro.

Imagem do The New Liturgical Movement:

Download do documento aqui.

1 agosto, 2008

Entrevista de Dom Ranjith ao La Repubblica – Papa Ratzinger tem um plano e Dom Ranjith o leva com eficácia

O Padre Zuhlsdorf publicou em seu blog uma entrevista de Dom Malcolm Ranjith, secretário da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos, ao jornal italiano La Repubblica, cuja tradução apresentamos.

“Porque Ratzinger está recuperando o sagrado”

Marco Politi

O sinal era claro. Primeiro Corpus Christi em Roma, depois visto ao vivo por todo o mundo em Sidney. Bento XVI está demandando que, diante dele, a Comunhão seja recebida de joelhos. É uma das muitas reclamações desse pontificado: latim, a Missa “Tridentina”, celebração de costas para o povo.

Papa Ratzinger tem um plano e o [Arcebispo] do Sri Lanka Malcolm Ranjith, quem o Pontífice quis consigo no Vaticano como Secretário da Congregação para o Culto Divino, o leva com eficácia.

Atenção à liturgia, ele explica, tem por objetivo uma “abertura ao transcendente”. A pedido do Papa, Ranjith adianta, a Congregação para o Culto Divino está preparando um Compendium sobre a Eucaristia para ajudar padres a “prepararem-se bem para a celebração e adoração Eucarística”.

A comunhão de joelhos aponta nessa direção?

“Na liturgia sente-se a necessidade de recuperar o sentido do sagrado, acima de tudo na celebração Eucarística. Já que cremos que o que ocorre no altar vai muito além do que nós podemos humanamente imaginar. E então, a fé da Igreja na Presença Real de Cristo nas espécies Eucarísticas é expressa através de gestos e comportamentos adequados diferentes daqueles da vida diária.”

Indicando uma descontinuidade?

“Nós não estamos diante de uma figura política ou de um personagem da sociedade moderna, mas diante de Deus. Quando a presença do Deus eterno desce no altar nós devemos nos colocar numa postura mais apta para adorá-Lo. Na minha cultura, no Sri Lanka, nós devemos nos prostar com a cabeça no chão como os budistas e os muçulmanos fazem em oração.”

Colocar a hóstia na mão diminui o sentido de transcendência da Eucaristia?

“Sim, num certo sentido. Arrisca-se que o comungante a sinta como um pão normal. O Santo Padre fala freqüentemente da necessidade de salvaguardar o sentido do “outro” na liturgia em todas as suas expressões. O gesto de tomar a Sagrada Hóstia e colocá-la nós mesmos na boca e não recebê-la reduz o significado profundo da Comunhão”.

Existe um desejo de se opor a tendências que banalizam a Missa?

“Em alguns lugares o sentido do eterno, sagrado ou celestial foi perdido. Existia uma tendência de colocar o homem no centro da celebração, e não o Senhor. Mas o Concílio Vaticano Segundo fala claramente sobre a liturgia como actio Dei, actio Christi. Ao invés, em certos círculos litúrgicos, seja por ideologia ou um certo intelectualismo, como preferir, a idéia espalha uma liturgia adaptável a várias situações, na qual tinha que se deixar espaço à criatividade para que ela fosse acessível e aceitável por todos. Então, particularmente, existiram aqueles que introduziram inovações sem ao menos respeitar o sensus fidei e os sentimentos espirituais dos fiéis.”

Às vezes até mesmos bispos pegam o microfone e vão a seus ouvintes com perguntas e respostas.

“O perigo moderno é que o padre pense que ele está no centro da ação. Dessa forma o rito pode tomar um aspecto de teatro ou de uma perfomance numa rede de televisão. O celebrante vê o povo que o vê como o ponto de referência e existe o risco de , para ter o maior sucesso possível com o público, ele fazer gestos e expressões como se ele fosse a figura principal.”

Qual seria a atitude correta?

“Quando o padre sabe que não é ele no centro, mas Cristo. No serviço humilde ao Senhor e à Igreja respeitando a liturgia e suas regras, como algo a ser recebido e não a ser inventado, significa deixar maior espaço para o Senhor, pois através do padre como o instrumento Ele pode despertar a atenção dos fiéis”.

Os sermões por leigos são também desvios?

“Sim. Pois o sermão, como diz o Santo Padre, é a forma na qual a Revelação e a grande Tradição da Igreja são explicadas, para que a Palavra de Deus possa inspirar a vida dos fiéis em suas escolhas diárias e fazer a celebração litúrgica rica de frutos espirituais. A tradição litúrgica da Igreja reserva o sermão ao celebrante. Aos bispos, padres e diáconos. Mas não aos leigos.”

Absolutamente não?

“Não porque eles não são capazes de fazer uma boa refelxão, mas porque na liturgia as funções devem ser respeitadas. Existe, como disse o Concílio, uma diferença “em essencial e não apenas em grau” entre o sacerdócio comum dos fiéis de todos os batizados e aquele dos padres”

Algum tempo atrás o Cardeal Ratzinger estava lamentando uma perda do sentido de mistério nos ritos.

“Freqüentemente a reforma conciliar foi interpretada ou considerada numa forma não inteiramente em conformidade com a mente do Vaticano II. O Santo Padre define essa tendência como o “anti-espírito” do Concílio.”

Um anós após a plena reintrodução da Missa Tridentina, qual é a avaliação?

“A Missa Tridentina tem seu profundíssimo valor interno que reflete toda a tradição da Igreja. Existe mais respeito pelo sagrado através de gestos, genuflexões, os períodos de silêncio. Existe maior espaço reservado à reflexão sobre a ação do Senhor e também para o senso de devoção pessoal do celebrante, que oferece o sacríficio não apenas para os fiéis mas também por seus próprios pecados e por sua própria salvação. Alguns elementos importantes do antigo rito podem ajudar também numa reflexão sobre a maneira de celebrar o Novus Ordo. Nós estamos no meio de uma jornada.”

Algum dia no futuro está previsto um rito que toma o melhor do antigo e do novo?

“Poderia ser,… mas talvez eu não vejo isso. Penso que nas próximas décadas nós iremos em direção a uma avaliação compreensiva tanto do antigo como do novo rito, salvaguardando o que for eterno e sobrenatural acontecendo no altar e reduzindo todo desejo de estar nos holofotes afim de deixar espaço para o contato efetivo entre os fiéis e o Senhor através da figura, mas não predominantemente, do sacerdote”.

Com posições alternativas do celebrante? Quando o padre se viraria para o abside?

“Você poderia considerar o ofertório, quando as oferendas são trazidas ao sacerdote, e dali em diante todo o caminho para a oração Eucarística, que representa o momento culminante da “transsubstantiatio” e “communio”.

O padre que volta suas costas desorienta o povo.

“É um erro falar dessa forma. Pelo contrário, ele está voltado para o Senhor junto com o povo. O Santo Padre, em seu livro O espírito do Concílio [ntd: creio ser um erro de digitação do pe. Zuhlsdorf. O livro do Cardeal Ratzinger chama-se O Espírito da Liturgia] explicou que quando o povo está sentado olhando cada um para si mesmo, um circulo fechado está formado. Mas quando o padre e os fiéis olham juntos ao Leste, em direção ao Senhor que vem, essa é uma forma de se abrir para o eterno”.

Nessa visão você coloca também a reabilitação (recupero) do Latin?

Eu não gosto da palavra ‘reabilitação’. Nós estamos implementando o Concílio Vaticano Segundo que explicitamente afirmou que o uso da língua Latina, exceto em caso de direito particular, era para ser preservado nos ritos Latinos. Então, se foi deixado também espaço para a introdução das línguas vernáculas, o Latim não era para ser completamente abandonado. O uso de uma língua sagrada é uma tradição em todo o mundo. No Hinduísmo a língua de oração é o sânscrito, que não está mais em uso. No Budismo o Pali [?] é usado, uma lingua que apenas os monges budistas estudam. No Islã o Árabe do Corão é usado. O uso da língua sagrada nos ajuda a viver uma experiência do “outro”.

O Latim como a língua sagrada da Igreja?

Claro. O próprio Santo Padre fala em sua Exortação Apostólica Sacramentum Caritatis no parágrafo 62: “Afim de expressar mais claramente a unidade e a universalidade da Igreja, desejo endossar a proposta feita pelo Sínodo dos Bispos, em harmonia com as diretrizes do Concílio Vaticano Segundo, que, com exceção das leituras, homília e oração dos fiéis, é adequado que tais liturgias sejam celebradas em Latim”. Claro, “durante encontros internacionais”.

O que Bento XVI quer atingir dando nova força para a liturgia?

“O Papa quer oferecer a possibilidade de chegar à maravilha da vida em Cristo, uma vida que já na vida aqui na terra já nos leva a um sentido de liberdade e eternidade próprio dos filhos de Deus. E esse tipo de experiência é vivida poderosamente através de uma renovação autêntica da fé que pressupõe um antegozo da realidade celestial na liturgia em que se crê, se celebra e se vive. A Igreja é, e deve tornar-se, o poderoso instrumento e os meios para essa experiência litúrgica libertadora. E é sua liturgia que faz possível despertar tal experiência em seus fiéis”

24 julho, 2008

Ironia pós-conciliar: Sociedade de Paulo VI

De The Hermeneutic of continuity.


Um antigo amigo dos meus dias de Roma, Pe. Shaun Middleton, pároco de São Francisco de Assis, Pottery Lany, escreveu um pequeno artigo no the Tablet propondo a formação da Sociedade de Paulo VI para preservar as traduções do ICEL de 1974, a comunhão na mão, a abolição das mesas de comunhão, etc. Quando pela primeira vez eu ouvi sobre o artigo, eu pensei que poderia ser uma ironia, já que eu conheço o bom senso de humor do Pe. Shaun. Parece, entretanto, que ele fala sério, expressando suas preocupações sobre a “reforma da reforma” do Papa Bento.

Talvez em alguns anos nós possamos ver a formação de tal sociedade. Eu gostaria de ser magnânimo. A Latin Mass Society e outros grupos tradicionalistas lutaram durante váriás décadas de opróbrio e suspeitas. Vamos então, pelo contrário, acolher a Sociedade de Paulo VI e oferecer uma ampla e generosa aplicação das normas permitindo a Missa com todas as inovações litúrgicas em vigor até o reinado do Papa Bento.

A Missa poderia ser agendada uma vez ao mês, às 4 horas da tarde de domingo em paróquias diferentes a cada semana. (Seria melhor não fazer publicidade caso de exista qualquer perigo de discórdia com relação às reformas do Papa Bento.) Em alguns lugares, poderia-se erigir uma paróquai pessoal para o rito de 1970, mas apenas se o Conselho de Padres estiver em plena concordância.

A SSPVI necessitaria trazer seus próprios cálices de cerâmica, hóstias-pizzas, paramentos de poliester, violões e livros com os hinos para as celebrações. Eles também precisariam de uma tábua de passar roupas para colocar dois castiçais para a missa de frente para o povo. O Padre que estiver pregando deveria, claro, ter em sua honra não dizer nada contra a Missa Latina Tradicional.

7 julho, 2008

Summorum Pontificum, um ano depois: O dever do Católico.

Michael Davies e Cardeal Ratzinger
Michael Davies e o então Cardeal Ratzinger

A doutrina da indefectibilidade não nos protege do dano causado por fraqueza, julgamentos infelizes ou falta de sensibilidade litúrgica por parte de um Papa. Na presente crise nós podemos ver que o Espírito Santo fez o suficiente para evitar que a Igreja falhasse em sua constituição divina, e nada mais. Isso deve tanto confortar e fortalecer a fé dos Católicos tradicionais como inspirá-los a tomar sua plena parte como membros do Corpo Místico para restaurar àquele Corpo a completa saúde novamente. O primeiro requisito para se alcançar isso deve ser obter o máximo de celebrações da Missa tradicional possível. O número de tais celebrações está crescendo diariamente. O segundo é trabalhar respeitosamente, como expressa Mons. Gamber, para a eventual restauração do Missal de 1962 como “a forma litúrgica principal para a celebração da Missa”.

Dietrich von Hildebrand, descrito pelo Papa Pio XII como o doutor da Igreja do século vinte, nos lembra que:

 

Os fiéis não estão obrigados a ter todas as ordens como boas e desejáveis. Eles podem lamentá-las e rezar para que elas sejam revogadas; realmente, eles podem trabalhar, com todo respeito devido ao Papa, para sua eliminação.

O fato de que o Missal Latino do Papa Paulo VI não possa ser descrito como mau, pernicioso ou instrínsecamente corrompido não significa que nós devemos considerá-lo um substituto aceitável para o Missal Tradicional. A crítica devastadora do Missal Latino de 1970 enviada ao Papa Paulo VI pelos Cardeais Ottaviani e Bacci deixa isso muito claro. Em sua carta de apresentação eles explicam ao Papa que:

 

O Novus Ordo Missae – considerando-se os novos elementos amplamente suscetíveis a muitas interpretações diferentes que estão nela implícitos ou são tomados como certos — representa, tanto em seu todo como nos detalhes, um surpreendente afastamento da teologia católica da Missa tal qual formulada na sessão 22 do Concílio de Trento. Os “cânones” do rito definitivamente fixado naquele tempo constituíam uma barreira intransponível contra qualquer tipo de heresia que pudesse atacar a integridade do Mistério.

Mons. Klaus Gamber pôde contemplar apenas uma solução realista para a presente crise na liturgia:

 

Em última análise, isso significa que no futuro o rito tradicional da Missa deve ser mantido na Igreja Católica Romana… como a principal forma litúrgica para a celebração da Missa. Ele deve tornar-se uma vez mais a norma de nossa fé e o símbolo da unidade Católica por todo o mundo, uma rocha de estabilidade num período de reviravoltas e mudanças intermináveis.

Tal dia uma vez virá? Quem pode dizer? Pode muito bem ser que agora estejamos nos últimos dias. O que nós podemos estar certos é que é nosso dever trabalhar por essa restauração por menores que nossas chances de sucesso possam parecer no momento. Nos dias da perseguição Ariana, quando Santo Atanásio era um fugitivo caçado excomungado pelo Papa, quem poderia sequer imaginar que se aproximava o dia quando os verdadeiros católicos que foram forçados a rezar fora de suas paróquias poderiam retornar a elas em triunfo? Nós devemos rezar por um Papa como Paulo IV, São Pio V ou São Pio X, que não recuará ao tomar as medidas necessárias para restaurar a ortodoxia,  sejam quais forem as consequências. Seria realmente preferível ter uma Igreja reduzida a uma fração de seu tamanho atual, mas composta de verdadeiros Católicos, do que uma Igreja composta de centenas de milhões de Católicos com uma larga proporção que não tem direito a esse nome. O Cardeal Newman escreveu:

 

Possa Deus levantar-se e tremer terrivelmente a terra (apesar de ser uma oração terrível) do que homens de dúplo pensamento mintam às ocultas entre nós e as almas se percam pela presente tranqüilidade… Que Ele nos separe, até que o joio seja plenamente removido: de qualquer forma, ao invocá-lo, nós não sabemos o que pedimos e sentindo que o fim em si mesmo é bom, ainda não podemos merecidamente estimar o temor de tal castigo do qual falamos tão livremente.

Qual seja o estado lamentável da Igreja no momento, quais sejam as terríveis provações e tribulações que nós tenhamos que encarar — Nossa Senhora de Fátima nos alertou sobre elas — nós devemos sob todas as circunstâncias permanecer na barca de Pedro que é a única Arca da Salvação. O Papa Leão XIII nos advertiu na Satis Cognitum:

 

A Igreja de Cristo, portanto, é una e a mesma para sempre: aqueles que a deixam afastam-se da vontade e do mandamento de Cristo Senhor. Deixando o caminho da salvação,  entram no caminho da perdição.

(I am with you always, Michael Davies, The Neumann Press, 1997, pp.74-75)

25 junho, 2008

O grande plano de Bento XVI – II: Novo pallium e entrevista de Mons. Guido Marini

Rorate-Caeli noticia o retorno do tradicional Pallium Papal para as celebrações da Festa dos Santos Apóstolos Pedro e Paulo, substituindo o pallium introduzido no pontificado de João Paulo II pelo sedento de novidades Mons. Piero Marini.

Comparem. À esquerda, o substituído pallium de Mons. Piero Marini. À direita, o pallium tradicional restaurado por Bento XVI:

Pallium - Coroação do PapaNovo pallium - Bento XVI

 

Abaixo traduzimos trecho da entrevista de Mons. Guido Marini, cerimoniário do Papa — não confundir com o antigo, o arcebispo Piero Marini — ao L’Osservatore Romano (link permanente do Rorate-Caeli aqui). Também o Pe. Uwe Michael Lang, do Oratório de Londres, escreveu o artigo Quella lana bianca  para o mesmo jornal, que merece ser lido.

“Este é o desenvolvimento da forma Latina do pallium usado até João Paulo II”, explica o Mestre de Celebrações Litúrgicas do Papa, Monsenhor Guido Marini, explicando as razões históricas e litúrgicas para a nova insígnia nesta estrevista ao ‘L’Osservatore Romano’.”

Quais são os elementos de continuidade e inovação comparado com o passado?

À luz de cuidadosos estudos a respeito do desenvolvimento do pallium pelos séculos, parece que podemos dizer que o longo pallium cruzado sobre o ombro esquerdo não era vestido no Ociente do século novo em diante. Realmente, a pintura da Sagrada Gruta de Subiaco,  que retorna ao ano de 1219, e representa o Papa Inocente III com esse tipo de pallium, parece ser um “arcaísmo” deliberado. Nesse sentido, o uso do novo pallium quer ir de encontro a duas necessidades: primeiro de tudo, enfatizar mais fortemente o desenvolvimento contínuo [orgânico] que num arco de mais de doze séculos essa veste litúrgica continuou a ter; em segundo lugar, a [necessidade] prática, pois o pallium usado por Bento XVI desde o início de seu pontificado levou a diversos e fastidiosos problemas deste ponto de vista.

Permanecerão diferenças entre o pallium papal e aqueles que o Pontífice irá impor nos arcebispos?

A diferença permanece mesmo no pallium atual. O que será usado por Bento XVI na solenidade de São Pedro e São Paulo em diante tem a forma do pallium usado até João Paulo II, se bem com uma forma mais larga e mais longe, e com as cores vermelhas para as cruzes. A forma diferente do pallium papal com respeito àqueles dos metropolitas [arcebispos] ressalta a diferença de jurisdição que é significada pelo pallium.

Já sobre outras mudanças dentro Do grande plano de Bento XVI, acrescenta dom Guido:


Na recente vis
Mons. Guido Mariniita a Santa Maria di Leuca e Brindisi, o Papa distribuiu a comunhão na boca dos fiéis ajoelhados. Essa é uma prática destinada a se tornar comum nas celebrações papais?

Penso que sim. A esse respeito, não pode ser esquecido que a distribuição da cominhão na mão ainda permanece, do ponto de vista jurídico, como um indulto à lei universal, dado pela Santa Sé àquelas Conferências Episcopais que o requisitou. O modo adotado por Bento XVI tende a sublinhar a força da norma válida para a Igreja toda. Em acréscimo, uma preferência poderia talvez ser vista pelo uso desse modo de distruição, que, sem eliminar nada do outro, põe à luz de melhor maneira a verdade da presença real na Eucaristia, ajuda na devoção dos fiéis, introduz com maior facilidade o sentido de mistério. Aspectos que, em nossa época, pastoralmente falando, é urgente sublinhar e redescobrir.

Ainda hoje, o motu proprio Summorum Pontificum sobre o uso da liturgia Romana anterior à reforma efetuada em 1970 parece dar surgimento a interpretações contrastantes. Celebrações presididas pelo Papa segundo a forma extraordinária, isto é, a antiga, são previsíveis?

É uma questão que eu não sei responder agora. Sobre o mencionado motu proprio, considerando-o com atenção serena e sem visões ideológicas, junto com a carta direcionada pelo Papa aos bispos do mundo todo que o apresenta, um entendimento dúplo preciso é trazido. Primeiro de tudo, aquele de favorecer o alcance de “uma reconciliação no interior da Igreja”; e, nesse sentido, como foi dito, o motu proprio é um belíssimo ato de amor pela unidade da Igreja. Em segundo lugar — e esse é um dado para não ser esquecido — seu propósito é favorecer um recíproco enriquecimento entre ambas as formas do Rito Romano: de tal forma, por exemplo, que em celebrações conforme o Missal de Paulo VI (que é a forma ordinária do Rito Romano) “será possível demonstrar mais fortemente do que foi até aqui a sacralidade que atrai muitas pessoas ao antigo uso”.

18 junho, 2008

O grande plano de Bento XVI – I

Pequenos sinais que valem muito: o retorno do Saturno papal, esse pequeno chapéu vermelho, que havia sido aposentado no pós-Concílio.

O Papa retoma o uso do saturno

Papa Bento XVI em sua audiência geral nesta quarta-feira, 18 de junho de 2.008.

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