Cardeal Joseph Ratzinger: “Devemos mencionar os perigos que, nas últimas décadas, infelizmente, não permaneceram apenas como fantasias de tradicionalistas inimigos da reforma”.

“Parece-me muito importante que o Catecismo, ao mencionar os limites do poder da suprema autoridade da Igreja acerca da reforma, chame a atenção sobre qual é a essência do primado, assim como é enfatizado pelos Concílios Vaticano I e II: o papa não é um monarca absoluto cuja vontade é lei, mas sim o guardião da autêntica Tradição e, por isso, o primeiro fiador da obediência. Ele não pode fazer o que quiser, e justamente por isso pode se opor àqueles que pretendem fazer o que querem”.

A liturgia entre reformistas radicais e intransigentes

IHU – Foi publicado na Itália o livro de Alcuin Reid Lo sviluppo organico della liturgia. I principi della riforma liturgica e il loro rapporto con il Movimento liturgico del XX secolo prima del Concilio Vaticano II [O desenvolvimento orgânico da liturgia. Os princípios da reforma litúrgica e a sua relação com o Movimento Litúrgico do século XX antes do Concílio Vaticano II] (Cantagalli, 432 páginas). O livro tem um prefácio do então cardeal Joseph Ratzinger, futuro Bento XVI, que aqui publicamos.

O artigo foi publicado no sítio Vatican Insider, 26-06-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Nas últimas décadas, a questão da correta celebração da liturgia tornou-se cada vez mais um dos pontos centrais da controvérsia em torno do Concílio Vaticano II, ou seja, de como ele deve ser avaliado e acolhido na vida da Igreja.

Há os estrênuos defensores da reforma, para os quais é uma culpa intolerável que, sob certas condições, tenha sido readmitida a celebração da Santa Eucaristia segundo a última edição do Missal antes do Concílio, a de 1962. Ao mesmo tempo, porém, a liturgia é considerada como “semper reformanda”, de modo que, no fim, é a “comunidade” individual que faz a sua “própria” liturgia, na qual ela mesma se expressa. Um Liturgisches Kompendium [compêndio litúrgico] protestante (editado por Christian Grethlein e Günter Ruddat, Göttingen, 2003) apresentou recentemente o culto como “projeto de reforma” (pp. 13-41), refletindo também o modo de pensar de muitos liturgistas católicos . Por outro lado, há também os críticos ferozes da reforma litúrgica, que não só criticam a sua aplicação prática, mas também as suas bases conciliares. Estes veem a salvação somente na rejeição total da reforma.

Entre esses dois grupos, os reformistas radicais e os seus adversários intransigentes, muitas vezes se perde a voz daqueles que consideram a liturgia como algo vivo, algo que cresce e se renova no seu ser recebida e no seu atuar-se. Estes últimos, no entanto, com base na mesma lógica, também insistem no fato de que o crescimento só é possível se for preservada a identidade da liturgia e ressaltam que um desenvolvimento adequado só é possível prestando atenção às leis que, do interior, sustentam esse “organismo”. Como um jardineiro acompanha uma planta durante o seu crescimento com a devida atenção às suas energias vitais e às suas leis, assim também a Igreja deve acompanhar respeitosamente o caminho da liturgia através dos tempos, distinguindo o que ajuda e cura, daquilo que violenta e destrói.

Se é assim, então devemos tentar definir qual é a estrutura interna de um rito, bem como as suas leis vitais, de modo a encontrar os caminhos certos para preservar a sua energia vital na mudança dos tempos para incrementá-la e renová-la. O livro do padre Alcuin Reid se coloca nesta linha. Percorrendo a história do Rito Romano (missa e breviário), desde as origens até as vésperas do Concílio Vaticano II, ele tenta estabelecer quais são os princípios do seu desenvolvimento litúrgico, obtendo, assim, da história, com os seus altos e baixos, os critérios sobre os quais toda reforma deve se basear.

O livro está dividido em três partes. A primeira, muito breve, analisa a história da reforma do Rito Romano desde as suas origens no fim do século XIX. A segunda parte é dedicada ao movimento litúrgico até 1948. A terceiro – de longe a mais extensa – trata da reforma litúrgica sob Pio XII até as vésperas do Concílio Vaticano II. Esta parte se revela muito útil, justamente porque tal fase da reforma litúrgica não é mais muito lembrada, apesar de que justamente nela – assim como na história do movimento litúrgico, evidentemente – se encontram todas as questões acerca das modalidades corretas para uma reformas, fazendo com que seja possível adquirir também critérios de julgamento.

A decisão do autor de se deter no limiar do Concílio Vaticano II é muito sábia. Ele evita, assim, entrar na controvérsia ligada à interpretação e à recepção do Concílio, ilustrando o momento histórico e a estrutura das várias tendências, o que é determinante para a questão acerca dos critérios da reforma.

No fim do seu livro, o autor elenca os princípios para uma correta reforma: ela deve ser igualmente aberta ao desenvolvimento e à continuidade com a Tradição; deve saber-se ligada a uma tradição litúrgica objetiva e fazer com que a continuidade substancial seja salvaguardada.

O autor, depois, de acordo com o Catecismo da Igreja Católica, sublinha que “mesmo a suprema autoridade da Igreja não deve modificar a liturgia arbitrariamente, mas somente em obediência à fé e com respeito religioso pelo mistério da liturgia” (CC, n. 1.125). Como critérios adicionais encontramos, enfim, a legitimidade das tradições litúrgicas locais e o interesse pela eficácia pastoral.

Eu gostaria de ressaltar ainda, do meu ponto de vista pessoal, alguns dos critérios já brevemente indicados da renovação litúrgica. Vou começar com os dois últimos critérios fundamentais. Parece-me muito importante que o Catecismo, ao mencionar os limites do poder da suprema autoridade da Igreja acerca da reforma, chame a atenção sobre qual é a essência do primado, assim como é enfatizado pelos Concílios Vaticano I e II: o papa não é um monarca absoluto cuja vontade é lei, mas sim o guardião da autêntica Tradição e, por isso, o primeiro fiador da obediência. Ele não pode fazer o que quiser, e justamente por isso pode se opor àqueles que pretendem fazer o que querem.

A lei à qual deve se ater não é o agir ad libitum, mas sim a obediência da fé. Razão pela qual, com relação à liturgia, ele tem a tarefa de um jardineiro e não de um técnico que constrói máquinas novas e joga fora as velhas. O “rito”, ou seja, a forma de celebração e de oração que amadurece na fé e na vida da Igreja, é forma condensada da Tradição viva, na qual a esfera do rito expressa o conjunto da sua fé e da sua oração, tornando assim experimentável, ao mesmo tempo, a comunhão entre as gerações, a comunhão com aqueles que rezam antes de nós e depois de nós. Assim, o rito é como um dom feito à Igreja, uma forma viva de parádosis.

É importante, a esse respeito, interpretar corretamente a “continuidade substancial”. O autor nos adverte expressamente com relação ao caminho equivocado no qual podemos ser conduzidos por uma teologia sacramental neoescolástica separado da forma viva da liturgia. Partindo dela, se poderia reduzir a “substância” à matéria e à forma do sacramento e dizer: o pão e o vinho são a matéria do sacramento, as palavras da instituição são a sua forma; somente essas duas coisas são necessárias, todo o resto pode até mudar. Sobre esse ponto, modernistas e tradicionalistas se encontram de acordo. Basta que haja a matéria e que sejam pronunciadas as palavras da instituição: todo o resto é “à vontade”. Infelizmente muitos sacerdotes hoje agem com base nesse esquema, e até as teorias de muitos liturgistas, infortunadamente, se movem nessa direção.

Eles querem superar o rito como algo rígido e constroem produtos da sua imaginação, considerada pastoral, em torno desse núcleo residual, que é, assim, relegado ao reino da magia, ou privado totalmente do seu significado. O movimento litúrgico tinha tentado superar esse reducionismo, produto de uma teologia sacramental abstrata, e nos ensinar a considerar a liturgia como o conjunto vivo da Tradição que se fez forma, que não pode ser rasgado em pequenos pedaços, mas que deve ser visto e vivido na sua totalidade viva.

Quem, como eu, na fase do movimento litúrgico às vésperas do Concílio Vaticano II, ficou impressionado com essa concepção só pode constatar com profunda dor a destruição daquilo que estava em seu coração.

Eu gostaria de comentar brevemente outras duas intuições que aparecem no livro do padre Alcuin Reid. O arqueologismo e o pragmatismo pastoral – este último, no entanto, é muitas vezes um racionalismo pastoral – são ambos incorretos. Poderiam ser descritos como um par de gêmeos profanos. Os liturgistas da primeira geração eram, em sua maioria, historiadores e, consequentemente, propensos ao arqueologismo.

Eles queriam desenterrar as formas mais antigas na sua pureza original; viam os livros litúrgicos em uso, com os seus ritos, como expressão de proliferações históricas, fruto de mal-entendidos e ignorância passados. Tentava-se reconstruir a mais antiga Liturgia romana e limpá-la de todos os acréscimos posteriores. Não era algo totalmente equivocado; mas a reforma litúrgica é, contudo, algo diferente de uma escavação arqueológica, e nem todos os desenvolvimentos de algo vivo devem seguir a lógica de um critério racionalista/historicista.

Essa é também a razão pela qual – como o autor observa com razão – na reforma litúrgica a última palavra não deve ser deixada aos especialistas. Especialistas e pastores têm, cada um, o seu próprio papel (assim como, na política, os técnicos e aqueles que são chamados a decidir representam dois níveis diferentes). Os conhecimentos dos estudiosos são importantes, mas não podem ser imediatamente transformados em decisões dos pastores, que têm a responsabilidade de ouvir os fiéis na implementação com inteligência junto com eles do que hoje ajuda a celebrar os Sacramentos com fé ou não.

Uma das debilidades da primeira fase da reforma depois do Concílio foi que quase somente os especialistas tinham voz no capítulo. Teria sido desejável uma maior autonomia por parte dos pastores. Porque, muitas vezes, obviamente, é impossível elevar o conhecimento histórico ao posto de nova norma litúrgica, esta “arqueologismo” se vinculou muito facilmente ao pragmatismo pastoral. Decidiu-se, em primeiro lugar, eliminar tudo o que não era reconhecido como original e, consequentemente, como “substancial”, para depois integrar a “escavação arqueológica” – quando ainda parecesse insuficiente – com o “ponto de vista pastoral”.

Mas o que é “pastoral”? Os julgamentos intelectualistas dos professores sobre essas questões eram muitas vezes determinados pelas suas considerações racionais e não levavam em conta o que realmente sustenta a vida dos fiéis. De modo que, hoje, após a vasta racionalização da liturgia na primeira fase da reforma, estamos novamente em busca de formas de solenidade, de atmosferas “místicas” e de uma certa sacralidade.

Mas uma vez que existem – necessariamente e cada vez mais evidentes – julgamentos largamente divergentes sobre o que é pastoralmente eficaz, o aspecto “pastoral” tornou-se uma fenda para a irrupção da “criatividade”, que dissolve a unidade da liturgia e nos coloca muitas vezes diante de uma deplorável banalidade. Com isso, não queremos dizer que a liturgia eucarística, assim como a liturgia da Palavra, não sejam muitas vezes celebradas a partir da fé, de modo respeitoso e “bonito”, no melhor sentido da palavra.

Mas, como estamos buscando os critérios da reforma, também devemos mencionar os perigos que, nas últimas décadas, infelizmente, não permaneceram apenas como fantasias de tradicionalistas inimigos da reforma. Gostaria de me deter ainda sobre o fato de que, naquele compêndio litúrgico acima mencionado, o culto foi apresentado como “projeto de reforma”, isto é, como um canteiro de obras onde sempre há muito a fazer. Semelhante, embora um pouco diferente, é a sugestão, por parte de alguns liturgistas católicos, de adaptar a reforma litúrgica à mudança antropológica da modernidade e de construí-la de modo antropocêntrico.

Se a liturgia aparece sobretudo como o canteiro de obras do nosso agir, então isso significa que esquecemos do essencial: Deus. Porque, na liturgia, não se trata de nós, mas sim de Deus. O esquecimento de Deus é o perigo mais iminente do nosso tempo. A essa tendência, a liturgia deveria opor a presença de Deus. Mas o que acontece se o esquecimento de Deus entra até mesmo na liturgia, se na liturgia pensamos apenas em nós mesmos?

Em toda reforma litúrgica e em toda celebração litúrgica, o primado de Deus deveria sempre ocupar o primeiríssimo lugar. Com isso, foi muito além do livro do padre Alcuin. Mas acredito que, no entanto, tenha ficado claro que este livro, com a riqueza das suas ideias, nos ensina critérios e nos convida a uma reflexão posterior. Por isso eu recomendo a sua leitura.

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Atenção: blog em recesso ao longo de todo o mês de agosto.

Francisco: “Paulo VI amou a Igreja e se gastou por ela sem reservas”

IHU – Cerca de 5 mil peregrinos da diocese de Bréscia chegaram ontem a Roma para celebrar o 50º aniversário da eleição do venerável servo de Deus o Papa Paulo VI. Nesta manhã, às 11 horas, recordando aquele evento, Mons. Luciano Monari, bispo de Bréscia, celebrou a Santa Missa no altar da Confissão da Basílica de São Pedro.

A reportagem é de Jesús Bastante e publicada por Religión Digital, 22-06-2013. A tradução é de Benno Dischinger.

Junto a ele concelebraram outros 3 bispos e uma centena de sacerdotes. Também estava presente o cardeal Giovanni Battista Re. Passado o meio-dia, o Santo Padre Francisco, calorosamente recebido, entrou na Basílica para saudar os peregrinos e dirigir-lhes um discurso.

O Bispo de Roma agradeceu a oportunidade de poder compartilhar a memória do Venerável Servo de Deus Paulo VI com a diocese de Bréscia, da qual era oriundo o Papa Montini, diocese que peregrina a Roma no Ano da Fé. “Teria tantas coisas que dizer e recordar deste grande Pontífice”, disse o Papa Francisco. E limitou-se a destacar três aspectos fundamentais que nos deixou o testemunho petrino de Paulo VI: o amor a Cristo, o amor à Igreja e seu amor à pessoa humana.

Paulo VI soube dar testemunho, em anos difíceis, da fé em Jesus Cristo. Ainda ressoa, mais viva que nunca, sua invocação: “Tu és necessário, ó Cristo!” Sim, Jesus é mais necessário que nunca ao homem de hoje, ao mundo de hoje, porque nos “desertos” da cidade secular Ele nos fala de Deus, nos revela sua face. O amor total a Cristo emerge durante toda a vida de Montini, inclusive na eleição do nome como Papa, que ele justificava com estas palavras: Paulo é o Apóstolo “que amou a Cristo de maneira suprema, quem acima de tudo quis e tratou de levar o Evangelho de Cristo a todas as gentes, quem por amor de Cristo ofereceu sua vida”.

Paulo VI, sublinhou o Papa Francisco, tinha “um profundo amor a Cristo, não para possuí-lo, senão para anunciá-lo”.

“Cristo! Sim, eu sinto a necessidade de anunciá-lo, não posso guardar silêncio!… Ele é o revelador do Deus invisível, é o patrimônio de toda criatura, é o fundamento de todas as coisas. Ele é o Mestre da humanidade, é o Redentor… Ele é o centro da história e do mundo. Ele é quem nos conhece e nos ama, e Ele é o companheiro e amigo de nossa vida. Ele é o homem da dor e da esperança, é ele que há de vir, e que deve ser algum dia o juiz e, nós o esperamos, a plenitude eterna de nossa existência, nossa felicidade.”

Também foi apaixonado o amor do Papa Montini pela Igreja: “um amor de toda uma vida: alegre e doloroso”, recordou o Santo Padre. “Um amor que expressou desde sua primeira encíclica Ecclesiam suam”. Paulo VI viveu de cheio as vicissitudes da Igreja depois do Concílio Vaticano II, “suas luzes, suas esperanças, suas tensões”. Ele amou a Igreja e se gastou por ela sem reservas.

“Um verdadeiro pastor cristão que tinha uma visão muito clara de que a Igreja é uma mãe que leva dentro de si a Cristo e conduz a Cristo”. Porque, como o próprio Papa Montini dizia: “A Igreja está verdadeiramente nos corações do mundo, porém ao mesmo tempo é suficientemente livre e independente para interpelar o mundo”.

Finalmente, o Papa Francisco aludiu ao último aspecto do amor de Paulo VI:

O terceiro elemento: foi o amor pela pessoa humana. Também isto está relacionado com Cristo: é a paixão de Deus que nos impele a encontrar o homem, a respeitá-lo, a reconhecê-lo, a servi-lo. Na última sessão do Concílio Vaticano II, o Papa Paulo VI pronunciou um discurso que surpreende cada vez que o relemos. Em particular, quando se fala da atenção do Concílio pelo homem contemporâneo. Disse assim: “O humanismo secular profano apareceu finalmente em sua terrível estatura e, num certo sentido, desafiou o Concílio. A religião do Deus que se fez homem se encontrou com a religião do homem que se faz Deus. O que sucedeu? Uma luta, uma batalha, uma condenação? Podia ter sido assim, mas não sucedeu. A antiga história do samaritano foi o paradigma da espiritualidade do Concílio. Um sentimento de simpatia sem limites impregnou tudo. A descoberta das necessidades humanas… dêem crédito a isto, ao menos vocês, humanistas modernos, renunciatórios à transcendência das coisas supremas, e reconheçam nosso novo humanismo: também nós, nós, sobretudo, amamos o homem”.

E, com uma visão integral do labor do Vaticano II, observou o Papa Francisco sobre seu predecessor, Paulo VI dizia que toda a “riqueza doutrinal do Concílio se dirige em uma direção: servir a pessoa humana. A pessoa humana, em todas as condições, em cada uma de suas enfermidades e necessidades. A Igreja quase se declarou servidora da humanidade”.

Um concílio ainda em caminho.

Interpretação e recepção do Vaticano II.  A alegria de Deus suscitou-se em nós: não deixemos que se perca.

Por Cardeal Walter Kasper

L’Osservatore Romano, 12 de abril de 2013 | Fratres in Unum.com – Era a época da guerra fria. Um ano antes do início do Concílio, tinha-se construído o Muro de Berlim e, durante o período da primeira sessão, o mundo se viu à beira do abismo da guerra atômica por causa da crise de Cuba. Hoje, cinquenta anos depois, vivemos num mundo globalizado, completamente diferente e em rápida transformação, com novas questões e novos desafios. A fé otimista no progresso e o espírito de se encaminhar em direção a novos horizontes esfumaram-se há muito tempo. Para a maior parte dos católicos, os desenvolvimentos postos em marcha pelo Concílio fazem parte da vida cotidiana da Igreja. Todavia, o que experimentam não é o grande avanço, não é a primavera da Igreja, que então esperávamos, mas sim, na verdade, uma Igreja com aspecto de inverno, que mostra claros sinais de crise.

Para quem conhece a história dos vinte concílios reconhecidos como ecumênicos, isso não constituirá uma surpresa. Os tempos pós-conciliares foram quase sempre turbulentos. O Vaticano II, porém, representa um caso particular. Diferentemente dos concílios precedentes, não foi convocado para excluir doutrinas heréticas nem para recompor um cisma, não proclamou dogma formal algum, nem sequer assumiu deliberações disciplinares formais. João XXIII tinha uma perspectiva mais ampla. Viu que se perfilava uma nova época, a cujo encontro foi com otimismo, na inamovível confiança em Deus. Falou de um objetivo pastoral do Concílio, tendo em vista uma posta ao dia (“aggiornamento”), um “tornar-se hoje” da Igreja. Não se queria uma adaptação banal ao espírito dos tempos, mas o apelo a fazer com que a fé transmitida no hoje falasse.

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Kasper admite ambiguidade intencional.

Por Unam Sanctam Catholicam | Tradução: Fratres in Unum.com – O Cardeal Walter Kasper fez uma declaração impressionante nas páginas do L’Osservatore Romano na última sexta-feira. Ao apresentar algumas reflexões sobre os desafios enfrentados pela Igreja e o problema (perpétuo) contínuo da “verdadeira interpretação do Vaticano II”, Kasper, falando sobre os documentos do Concílio, afirmou:

Em muitos lugares, [os Padres Conciliares] tiveram que encontrar fórmulas de concessões, em que, frequentemente, as posições da maioria estão localizadas imediatamente próximas àquelas da minoria, projetadas para limitá-las. Assim, os textos conciliares em si têm um enorme potencial de conflito, sendo uma porta aberta à recepção seletiva em uma ou outra direção.” (Cardeal Walter Kasper, L’Osservatore Romano, 12 de abril de 2013)

Nas declarações do Cardeal, temos basicamente uma afirmação de uma tese fundamental de Michael Davies e da maioria dos tradicionalistas: de que os próprios documentos conciliares têm ambiguidades em si e estão sujeitos a uma multiplicidade de interpretações. Este conceito de ambiguidade conciliar tem sido negado por muitos apologistas conservadores/populares, que insistem em dizer que os documentos conciliares são claros como o dia e que somente a malícia dos dissidentes é que está impelindo uma falsa interpretação que é responsável pela nossa atual confusão.

Entretanto, os tradicionalistas e,  ironicamente, também Kasper, têm insistido que a destruição que seguiu o Concílio pode ser remetida aos próprios documentos. Mesmo se os Padres Conciliares não planejaram o desastre que se seguiu ao Concílio (e a maioria concorda que não o fizeram), os próprios documentos foram construídos de tal modo a permitir interpretações progressistas ao serem colocados em mãos de teólogos e bispos progressistas. Contra o mantra conservador de “documentos perfeitos – implementação imperfeita”, Kasper sustenta a crítica tradicionalista de que “documentos imperfeitos levam à implementação imperfeita.” Bento XVI tinha apresentado o mesmo argumento. Existe uma relação íntima entre os documentos e sua implementação. Porém, Kasper faz mais do que apenas admitir que “os textos conciliares em si têm um enorme potencial de conflito”; ele chega ao ponto de afirmar que essas ambiguidades, esses conflitos em potencial, foram parte de um programai intencional. Ele não diz simplesmente que os textos suportarão diversas interpretações, mas que essas passagens ambíguas foram “fórmulas de concessões” produzidas para aplacar dois lados opostos, de tal modo que elas podem ser interpretadas de uma maneira ortodoxa, porém, podem ser facilmente distorcidas pelos progressistas para apoiar a sua malícia.

Essas são o que o finado Michael Davis chamou de “bombas-relógio” nos textos conciliares. Davies escreveu, “Essas ‘bombas-relógio’ foram passagens ambíguas inseridas nos documentos oficiais pelos periti ou peritos liberais – passagens que seriam interpretadas em um sentido não tradicional, progressista após o encerramento do Concílio” (Michael Davies, Liturgical Timebombs, Rockford, Ill: Tan Books, 2004, página 23). Davies tomou emprestado a expressão “bombas-relógio” do livro do Arcebispo Lefebvre, Um bispo fala, que basicamente havia apresentado o mesmo argumento. Na entrevista de Kasper, não temos nada menos do que uma admissão de que não havia apenas bombas-relógio, mas que elas foram colocadas lá intencionalmente, e nesse ponto ele e Lefebvre estão de acordo. Esta é uma admissão impressionante. Kasper fez muitas outras afirmações interessantes que minam outros aspectos da narrativa conservadora do Concílio. Por exemplo:

Para muitos católicos, os desenvolvimentos colocados em movimento pelo concílio fazem parte da vida diária da Igreja. Porém, o que eles estão experimentando não é o novo grande começo nem a primavera da Igreja, que foram esperados naquela época, mas sim uma Igreja que tem uma aparência invernal e mostra sinais claros de crise.

Isso contraria o mantra prevalecente da era João Paulo II de que estamos experimentando uma “nova primavera” e uma admissão cândida de que existe efetivamente uma crise, a despeito do fato de que alguns, como, por exemplo, o Cardeal Timothy Dolan, continuem negando essa verdade clara. Esta simples admissão de fato, de que a Igreja está em crise e não está experimentando a prometida primavera pós-conciliar, é de importância considerável para avançarmos. E seja lá o que possamos pensar mais de Kasper, gosto de sua sinceridade neste caso.

Falando da confusão que surgiu depois do Concílio, Kasper disse: “Para aqueles que conhecem a história dos vinte concílios reconhecidos como ecumênicos , este [estado de confusão] não será uma surpresa. Os tempos pós-conciliares foram quase sempre turbulentos. O Vaticano [Segundo], entretanto, é um caso especial.

Esta admissão importante, que também afirmei em outro lugar, realmente desmascara o chavão de católicos conservadores de que aquilo que estamos experimentando na Igreja moderna é normal, uma vez que há sempre confusão após um Concílio. Isso pode ser verdadeiro, mas Kasper observa que a confusão que se seguiu ao Vaticano II é “um caso especial”, diferente da turbulência dos períodos anteriores. Esse também é um argumento frequentemente apresentado pelos tradicionalistas, que enxergam no Concílio Vaticano Segundo não apenas outro evento eclesial com o nível padrão de confusão após a sua realização, mas sim um novo tipo de evento eclesial que não pode ser facilmente classificado ao lado dos Concílios do passado. O Cardeal Kasper afirma as posições de Michael Davies, Lefebvre e dos tradicionalistas? Esses são tempos estranhos, sem dúvida.

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Nota do Fratres: Ainda não há uma tradução portuguesa do artigo, que se encontra aqui, na página 4. Se algum leitor puder traduzi-lo, publicaremos com muito gosto.

A Igreja não é uma ONG assistencial.

Por Arnaldo Xavier da Silveira

1] A Igreja não é uma ONG assistencial. Esse ensinamento singelo do Papa Francisco em seu primeiro dia como Sumo Pontífice evoca doutrinas riquíssimas sobre a Igreja, negadas pelos progressistas, mal interpretadas ou esquecidas por muitos católicos.

A Igreja, sociedade visível e perfeita

2] A Igreja militante é visível porque não é uma entidade meramente espiritual, pneumática, secreta, não é um mero agrupamento de pessoas que pensam do mesmo modo, nem um movimento unicamente de ideias, ou uma comunidade privada, mas existe visivelmente neste mundo, constituindo sociedade verdadeira.

3] E, como sociedade, a Igreja não é visível apenas no sentido físico, ótico, como entendem alguns. Com efeito, é verdade que ela existirá sempre nesta Terra, segundo as promessas de Nosso Senhor, ainda que com número reduzido de fieis, como no Cenáculo e, afirmam bons exegetas, no fim do mundo (Luc. 18, 8). Mas é visível também num sentido mais profundo, institucional, dado que tem estrutura jurídica, membros que a constituem, hierarquia formada por homens vivos, um chefe de todos conhecido, como as demais sociedades humanas.

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O Concílio Vaticano II, uma história nunca escrita (V): A gênese do Missal de Paulo VI nas aulas conciliares.

Lançado em 2011 na Itália, a prestigiosa obra do Professor Roberto de Mattei, intitulada “O Concílio Vaticano II – Uma história nunca escrita”, chega ao público lusófono. A Editora Caminhos Romanos, detentora dos direitos sobre a versão portuguesa do laureado livro — Prêmio Acqui Storia 2011 e finalista do Pen Club Italia — , concedeu ao Fratres in Unum a exclusiva honra de divulgar alguns excertos deste trabalho –  um verdadeiro marco na historiografia do Concílio Vaticano II.

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Uma Missa ecumênica?

Quando, a 5 de Novembro [ndr: na primeira sessão do Concílio], foram retomados os debates conciliares, um dos vinte e quatro oradores que tomaram a palavra foi Mons. Duschak[1], bispo titular de Abida e vigário apostólico de Calapan, nas Filipinas, mas alemão de nascimento, que defendeu a necessidade de uma “Missa ecumênica” decalcada na Última Ceia[2].

Missa Solene Coram Episcopo celebrada (versus populum) durante a Oitava Semana Litúrgica Nacional em Portland,1947.
Missa Solene Coram Episcopo celebrada (versus populum) durante a Oitava Semana Litúrgica Nacional em Portland, EUA, 1947.

Cristo celebrou a primeira Missa diante dos Apóstolos — voltado para o povo, seguindo o costume então vigente durante as ceias. Cristo  falou em voz alta, de maneira que todos, por assim dizer, ouvissem o Cânone desta primeira Missa. Cristo serviu-se da língua falada, para que todos O compreendessem sem qualquer dificuldade, a Ele e às palavras que disse. Nas palavras “fazei isto”, de acordo com o seu significado completo, parece estar contido o preceito de celebrar a Missa como uma ceia, de frente, ou pelo menos em voz alta, e numa língua que os comensais compreendam.”

Mons. Duschak convidava pois:

a uma colaboração entre os especialistas de todos os ritos e das Igrejas que conservam a fé na eucaristia; para se compor uma Missa que se possa chamar verdadeiramente ecumênica ou “Missa do mundo”, e com ela a tão desejada unidade, pelo menos na memória eucarística do Senhor. O povo de Deus gozaria assim da participação perfeita e íntima de que gozaram os Apostolos na Última Ceia.”[3]

À tarde, Mons. Duschak explicou a sua intervenção aos jornalistas, salientando que a sua ideia consistia em “introduzir uma Missa ecumênica, despojada, na medida do possível, das superestruturas históricas, baseadas na essência do Santo Sacrifício e firmemente radicada na Sagrada Escritura”[4]. O Prelado chegava ao ponto de pretender alterar as palavras tradicionais do Cânone: “Se os homens dos séculos passados puderam escolher e inventar os ritos da Missa, por que não pode o maior de todos os concílios  fazer a mesma coisa? Por que não havemos de decretar a elaboração de uma fórmula da Missa, adaptada ao homem moderno, para corresponder, com toda a reverência, aos desejos deste?”[5] Toda a Missa, insistia Duschak, devia ser celebrada em voz alta, em língua vernácula, e voltada para o povo. Estas propostas, que na altura pareceram radicais, seriam postas em prática ainda antes do encerramento do Concílio.

Mas as réplicas não faltaram. Ao Cardeal Döpfner, que tinha afirmado que era necessário introduzir as línguas vernáculas também porque os candidatos ao sacerdócio, formados nas escolas públicas, já não sabiam latim, respondeu Mons. Carli salientando que os referidos candidatos também não conheciam a filosofia e a teologia cristã e ninguém se lembrava de os ordenar antes de terem completado os seus estudos nestas matérias[6].

Estava-se em presença de um confronto entre a Cúria Romana e algumas conferências episcopais, sobretudo a francesa e a alemã, apoiadas por determinados bispos dos países do Terceiro Mundo, como Mons. D’Souza que, nas suas intervenções de 27 de Outubro e 7 de Novembro de 1962[7], solicitou que se atribuísse às conferências episcopais o direito de escolherem a língua em que queriam fazer o rito, mas também o direito “de adaptarem a liturgia dos Sacramentos”[8]; e Mons. Bekkers[9], que afirmou que apenas “o núcleo sacramental fundamental de todos os sacramentos” tinha de ser “universal”, “mas que, para uma celebração mais evoluída e mais ampla deste núcleo sacramental, seja concedida uma amplíssima liberdade, de cujos limites apenas a conferência de bispos de cada povo pode julgar adequada, contanto que os actos sejam aprovados pela Santa Sé”[10].

Para o partido anti-romano, o latim era o instrumento de que a Cúria se servia para exercer o seu poder. Enquanto o latim fosse a única língua da Igreja, Roma teria competência para controlar e verificar os ritos; se, porém, se introduzissem na liturgia centenas de línguas e costumes e línguas locais, a Cúria perderia automaticamente as suas prerrogativas e as conferências episcopais passariam a ser os juízes desta matéria. “Era precisamente neste ponto que insistia a maioria que começava a perfilar-se, e que pretendia que as conferências episcopais fossem autorizadas a tomar determinadas decisões importantes em matéria de usos litúrgicos”, sublinha Wiltgen[11].

A aliança progressista recebeu na aula o apoio de um numeroso grupo de bispos da América Latina, chefiados pelo Cardeal Silva Henriquez, arcebispo de Santiago do Chile; estes Padres, recorda ainda Wiltgen, manifestavam o seu reconhecimento pelas importantes ajudas financeiras que tinham recebido durante os últimos anos do Cardeal Frings de Colônia, através das Associações Misereor e Adveniat: “Um número significativo daqueles aproveitaram a ocasião do Concílio para fazer uma visita ao Cardeal Frings, e agradecer-lhe pessoalmente, vieram a encontrar-se envolvidos na aliança.”[12]

O Concílio Vaticano II – Uma história nunca escrita, Roberto de Mattei, Ed. Caminhos Romanos, 2012, p. 214-216.

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[1] Wilhelm Josef Duschak (1903-1997), alemão, da Sociedade do Verbo Divino, ordenado em 1930, bispo de Abida (1951) e vigário apostólico em Calapan (Filipinas) entre 1951 e 1973.

[2] AS, I/1, pp. 109-112.

[3] Ibid, pp. 111-112.

[4] WILTGEN, P. 37.

[5] Ibid, p. 38.

[6]  AS, I/2, PP. 398-399.

[7] AS I/2, pp. 497-499 e AS, I/2, pp. 317-319.

[8] AS I/2, p. 318. “Seria óptimo que o poder se alargasse a todo o rito e ao uso da língua falada. É isto que esperamos do Concílio porque é realmente necessário a sua actuação” (ibid.).

[9] Wilhelm Marinus Bekkers (1908-1966), holandês, ordenado em 1933, bispo coadjutor em 1956 e depois bispo de Bois-le-Duc até a morte. O seu funeral foi uma espécie de manifestação pública da corrente ultraprogressista holandesa (Actes et Acteurs, p. 372).

[10] AS I/1, pp. 313-314.

[11] WILTGEN, p. 42.

[12] Ibid., p. 53

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Roberto de Mattei nasceu em Roma, em 1948. Formou-se em Ciências Políticas na Universidade La Sapienza. Atualmente, leciona História da Igreja e do Cristianismo na Universidade Europeia de Roma, no seu departamento de Ciências Históricas, de que é o director. Até 2011, foi vice-presidente do Conselho Nacional de Investigação de Itália, e entre 2002 e 2006, foi conselheiro do Governo italiano para questões internacionais. É membro dos Conselhos Diretivos do Instituto Histórico Italiana para a Idade Moderna e Contemporânea e da Sociedade Geográfica Italiana. É presidente da Fundação Lepanto, com sede em Roma, e dirige as revistas Radici Cristiane e Nova Historica e colabora com o Pontifício Comitê de Ciências Históricas. Em 2008, foi agraciado pelo Papa com a comenda da Ordem de São Gregório Magno, em reconhecimento pelos relevantes serviços prestados à Igreja.

Onde encontrar:

Em Portugal – Nas maiores livrarias do país. Em Lisboa, nas livrarias Fnac e Férin (próxima ao Chiado, centro histórico). Em Porto, pelos telefones 936364150 e 911984862.

No Brasil –– Nas livrarias Loyola, da rua Barão de Itapetininga, no centro de São Paulo, e Lumen Christi, do Mosteiro de São Bento, Rio de Janeiro. Pela internet, na Livraria Petrus e Editora Ecclesiae.

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Artigos da série: 

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O blog está em recesso até a Semana Santa. A moderação dos comentários pode demorar mais do que o habitual. Notícias urgentes podem ser postadas a qualquer momento.

O Concílio da mídia e o Concílio real.

Apresentamos nossa tradução de um excerto (via transcrição realizada pela Rádio Vaticano – sessão inglesa) do discurso proferido ontem,  pelo Papa Bento XVI, ao clero da diocese de Roma. Lamentamos não ter condições de traduzir outras partes do discurso e deixamos nosso espaço aberto à generosa contribuição dos leitores que possam fazê-lo.

73435_569767783034830_1185709360_nEu gostaria agora de acrescentar um terceiro ponto: houve o Concílio dos Padres — o verdadeiro Concílio –, mas houve também o Concílio da mídia. Foi quase um Concílio em si, e o mundo percebeu o Concílio por ela, pela mídia. Assim, o Concílio que chegou ao povo, imediata e eficientemente, foi aquele da mídia, e não o dos Padres. E enquanto o Concílio dos Padres se realizava dentro da fé, foi um Concílio da fé que buscava o intelecto, que buscava compreender e tentar compreender os sinais de Deus naquele momento, que tentava encontrar o desafio de Deus naquele tempo para encontrar as palavras para hoje e amanhã. Então, enquanto todo o Concílio — como disse — se movia na fé, já que fides quaerens intellectum, o Concílio dos jornalistas não ocorreu, naturalmente, dentro do mundo da fé, mas dentro das categorias da mídia de hoje, isto é, fora da fé, com diferentes hermenêuticas. Era a hermenêutica da política. A mídia via o Concílio como uma batalha política, uma batalha pelo poder entre diferentes correntes dentro da Igreja. Era óbvio que a mídia ficaria do lado de qualquer facção que mais se adequasse ao seu mundo. Havia aqueles que buscavam uma descentralização da Igreja, poder para os bispos e então, pela expressão “Povo de Deus”, o poder ao povo, ao leigo. Havia esta tripla questão: o poder do Papa, então transferido ao poder dos bispos e, então, ao poder de todos… soberania popular. Naturalmente, eles viam isso como a parte a ser aprovada, promulgada, favorecida.

Este foi o caso da liturgia: não havia interesse na liturgia enquanto um ato de fé, mas em algo a se tornar compreensível, similar a uma atividade comunitária, algo profano. E nós sabemos que havia uma tendência, também baseada historicamente, que dizia: “A sacralidade é algo pagão, possivelmente mesmo do Antigo Testamento. No Novo Testamento, a única coisa importante é que Cristo morreu fora: isto é, fora dos portões, ou seja, no mundo profano”. Acabando a sacralidade, profanidade até no culto: o culto não é culto, mas um ato que reúne as pessoas, a participação comum e, logo, a participação como atividade. E essas traduções, banalizando a idéia do Concílio, foram virulentas nas práticas de implementação da reforma litúrgica, nascidas de uma visão do Concílio fora de sua própria chave, a da fé. E o mesmo ocorreu no problema da Escritura: a Escritura é um livro, histórico, a ser tratado historicamente e nada mais, e assim por diante.

E nós sabemos que o Concílio da mídia era acessível a todos. Assim, dominante e mais eficiente, esse Concílio criou muitas calamidades, muitíssimos problemas, tanta miséria, na realidade: seminários fecharam, conventos fecharam, a liturgia foi banalizada… e o verdadeiro Concílio batalhou para se materializar, para ser realizado: o Concílio virtual foi mais forte que o Concílio real. Mas a verdadeira força do Concílio estava presente e lentamente emergiu, e está se tornando a verdadeira força que é também uma verdadeira reforma, verdadeira renovação da Igreja. Parece-me que, após 50 anos do Concílio, vemos como este Concílio virtual se rompe, se perde, e o verdadeiro Concílio está emergindo com toda a sua força espiritual. E é nosso dever, neste Ano da Fé, a começar por este Ano da Fé, trabalhar a fim de que o verdadeiro Concílio, com o poder do Espírito Santo, seja realizado e a Igreja seja verdadeiramente renovada. Nós esperamos que o Senhor nos ajude. Eu, retirado em oração, estarei sempre convosco, e juntos caminharemos adiante com o Senhor, na certeza: o Senhor é vitorioso. Obrigado.

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Mais informações sobre este encontro no portal de notícias da Santa Sé. A versão oficial da transcrição acaba de ser divulgada pela Sala de Imprensa.

Dom Di Noia: retomar o carisma de Dom Lefebvre para superar impasse atual.

O colunista do Le Figaro, Jean-Marie Guénois, traz mais detalhes sobre a carta enviada por Dom Joseph Augustine Di Noia, vice-presidente da Pontifícia Comissão Ecclesia Dei, aos sacerdotes da Fraternidade São Pio X. Apresentamos nossa tradução do trecho mais importante do artigo:

Dom Di Noia e o Papa Bento XVI.

O que diz este documento de oito páginas traduzido do inglês para o francês? Três elementos essenciais: o estado atual das relações, o espírito dessas relações e o método para retomar o diálogo.

A questão do Concílio

O estado atual das relações entre Roma e Ecône é descrito sem retoques por Dom Di Noia. Estas relações permanecem “abertas” e “cheias de esperança”, mesmo se declarações recentes em diferentes níveis da Fraternidade, nos últimos meses, possam colocar isso em dúvida [ndr: é inacreditável, a quem pede um exame de consciência mútuo, a falta de referência às mais desastrosas palavras para esta conturbada relação, que são simplesmente as do novo Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé].

Quanto aos esforços realizados desde o início do pontificado de Bento XVI para uma reconciliação, eles não mudaram nada, avalia Dom Di Noia por causa do desacordo fundamental que permanece sobre a questão do Concílio. Este americano, um diplomata fino, mas realista, estabelece pela primeira vez a este nível a constatação de um “impasse”, no sentido de que o desacordo fundamental não evoluiu um milímetro.

A segunda parte do documento trata do espírito das relações. Para o autor da carta, é importante transformá-lo, caso contrário, o intercâmbio “amigável” entre as duas entidades pode ser “sem saída”. Como? Inspirado pelos sábios conselhos de Santo Tomás de Aquino, quando se trata de preservar a unidade da Igreja. Evitando o “orgulho, a cólera, a impaciência”. O “desacordo sobre questões fundamentais” não deve excluir o falar das questões disputadas, portanto, com um “espírito de abertura”.

A última parte da carta propõe duas linhas para sair do impasse atual, pois a FSSPX não tem futuro na “autonomia”. Reconhecer, em primeiro lugar – e aqui Roma o faz como nunca havia feito – o “carisma” próprio de Dom Lefebvre e da obra que ele fundou, que é a “formação sacerdotal” e não a “retórica áspera e contraproducente” ou “a de se arrogar a missão de julgar e corrigir a teologia”, ou ainda “de corrigir publicamente os outros na Igreja”. E, a segunda linha — completamente nova, pois recorre a um documento, Donum Veritatis, publicado em 1990 para enquadrar a dissidência de teólogos progressistas!: considerar que é legítimo, na Igreja Católica, ter “divergências” teológicas, mas que essas “objeções” teológicas devem ser expressas internamente, e não em praça pública, para “estimular o magistério” a formular melhor o seu ensino. E não sob a forma de um “magistério paralelo”.

O Concílio Vaticano II, uma história nunca escrita (IV): Dissolvendo Roma. Com Roma.

Lançado em 2011 na Itália, a prestigiosa obra do Professor Roberto de Mattei, intitulada “O Concílio Vaticano II – Uma história nunca escrita”, chega agora ao público lusófono. A Editora Caminhos Romanos, detentora dos direitos sobre a versão portuguesa do laureado livro — Prêmio Acqui Storia 2011 e finalista do Pen Club Italia — , concedeu ao Fratres in Unum a exclusiva honra de divulgar alguns excertos deste trabalho —  um verdadeiro marco na historiografia do Concílio Vaticano II.

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Ernesto Buonaiuti, modernista excomungado em 1925, foi companheiro de seminário de Angelo Roncalli, tendo, inclusive, a honra de ser seu "padrinho", ao ser convidado para acompanhar o futuro Papa João XXIII na concelebração durante sua ordenação sacerdotal.
Ernesto Buonaiuti foi companheiro de seminário de Angelo Roncalli, tendo, inclusive, a honra de ser seu “padrinho”, ao ser convidado pelo futuro Papa João XXIII para acompanhá-lo na concelebração durante sua ordenação sacerdotal. Mesmo excomungado por modernismo em 1925, Buonaiuti declarou-se até a morte um “filho da Igreja”.

Em face da condenação da Pascendi, a atitude dos modernistas foi análoga à dos jansenistas na sequência da condenação das proposições de Jansénio e da bula Unigenitus, de 1713: negaram reconhecer-se nas proposições condenadas, afirmando que o modernismo condenado na encíclica era uma quimera [1].

Um testemunho “de dentro” é o do ex-beneditino francês Albert Houtin, que relata que o plano do modernismo previa que os inovadores não saíssem da Igreja, nem sequer no caso de perderem a fé, mas nela permanecessem o mais tempo possível a fim de propagarem as suas ideias [2]. “Era neste sentido que em 1903 se concordava em dizer, e que ainda em 1911 se escrevia,  que um modernista a sério, fosse leigo ou sacerdote, não podia abandonar a Igreja ou a batina, porque se o fizesse deixaria de ser modernista no sentido mais elevado do termo [3]”; “A par da Delenda Carthago, pretendia-se praticar a Dissovenda [4]”.

Até hoje”, explicava, por sua vez, Ernesto Buonaiuti, “pretendeu-se reformar Roma sem Roma ou talvez até contra Roma. Ora, é necessário reformar Roma com Roma; fazer com que a reforma passe pelas mãos daqueles que têm de ser reformados. É este o método verdadeiro e infalível; mas é difícil. Hic opus, hic labor [5]”. O modernismo propunha-se, pois, transformar o catolicismo a partir de dentro, deixando intacto, nos limites do possível, o invólucro exterior da Igreja. Prossegue Buonaiuti: “O culto exterior permanecerá para sempre, tal como a hierarquia; mas a Igreja, enquanto mestra dos sacramentos e da respectiva ordem, modificará a hierarquia e o culto de acordo com os tempos: aquela tornar-se-á mais simples, mais liberal, e este tornar-se-á mais espiritual. Por sua via, a Igreja transformar-se-á num protestantismo, mas será um protestantismo ortodoxo e gradual, e já não um protestantismo violento, agressivo, revolucionário, insubordinado; será um protestantismo que não destruirá a continuidade apostólica do ministério eclesiástico, nem a própria essência do culto.”

O Concílio Vaticano II – Uma história nunca escrita, Roberto de Mattei, Ed. Caminhos Romanos, 2012, p. 67.


[1] Buonaiuti aceita o paralelo e fala de “uma certa correspondência íntima que, num exame objetivo, faz aparecer estes dois movimentos como mais idealmente coligados do que poderia parecer à primeira vista” (E. Buonaiuti, Storia del cristianesimo, Dall’ Oglio, Milão, 1943, vol. III, p. 617).

[2] Cf. Albert Houstin (1867-1926), Historie du Modernisme catholique, in proprio, Paris, 1913, PP. 116-117.

[3] Ibid, p. 122

[4] Ibid, p. 116

[5] Cf. E. Buonaiuti, Il modernismo cattolico, Guanda, Modena, p 128.

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Roberto de Mattei nasceu em Roma, em 1948. Formou-se em Ciências Políticas na Universidade La Sapienza. Atualmente, leciona História da Igreja e do Cristianismo na Universidade Europeia de Roma, no seu departamento de Ciências Históricas, de que é o director. Até 2011, foi vice-presidente do Conselho Nacional de Investigação de Itália, e entre 2002 e 2006, foi conselheiro do Governo italiano para questões internacionais. É membro dos Conselhos Diretivos do Instituto Histórico Italiana para a Idade Moderna e Contemporânea e da Sociedade Geográfica Italiana. É presidente da Fundação Lepanto, com sede em Roma, e dirige as revistas Radici Cristiane e Nova Historica e colabora com o Pontifício Comitê de Ciências Históricas. Em 2008, foi agraciado pelo Papa com a comenda da Ordem de São Gregório Magno, em reconhecimento pelos relevantes serviços prestados à Igreja.

Onde encontrar:

Em Portugal – Nas maiores livrarias do país. Em Lisboa, nas livrarias Fnac e Férin (próxima ao Chiado, centro histórico). Em Porto, pelos telefones 936364150 e 911984862.

No Brasil –– Nas livrarias Loyola, da rua Barão de Itapetininga, no centro de São Paulo, e Lumen Christi, do Mosteiro de São Bento, Rio de Janeiro. Pela internet, na Livraria Petrus e Editora Ecclesiae.

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Artigos da série:

Concílio Vaticano II é tema da segunda pregação do Advento para o Papa.

Cidade do Vaticano (RV) – O Papa Bento XVI participou esta manhã [de sexta-feira, 14], na Capela Redemptoris Mater, no Vaticano, da segunda pregação do Advento, feita pelo Pregador da Casa Pontifícia, Fr. Raniero Cantalamessa.

O tema desta segunda pregação foi dedicada aos 50 anos do Concílio Vaticano II: a hermenêutica da ruptura e da continuidade.
Diante das inúmeras avaliações feitas após o final do Concílio, a chave de leitura para todas elas é o Espírito Santo, com o qual podemos falar de novidade na continuidade, de permanência na mudança.

“O Espírito Santo não fala palavras novas, não cria novos sacramentos, novas intituições, mas renova e vivifica perenemente as palavras, os sacramentos e as instituições criadas por Jesus. Não faz coisas novas, mas faz novas todas as coisas!”

Para o Fr. Cantalamessa, a insuficiente atenção ao papel do Espírito Santo explica muitas das dificuldades surgidas na recepção do Concílio Vaticano II. “Depois de 50 anos, não podemos deixar de constatar o cumprimento da promessa feita por Deus à Igreja, pela boca de seu humilde servo, o Beato João XXIII. Se nos parecer exagerado falar de um novo Pentecostes, diante de todos os problemas e conflitos que surgiram na Igreja depois e por causa do concílio, o que temos a fazer é reler os Atos dos Apóstolos e observar que os problemas e disputas já ocorreram após o primeiro Pentecostes. E não menos acalorados que os de hoje!”, concluiu Fr. Raniero Cantalamessa.