1 dezembro, 2016

À espera de um milagre.

Por FratresInUnum.com: Esperamos todo um dia, longo e inteiro dia, aguardando um comunicado, uma mísera nota da CNBB se indignando com a decisão abominável do STF da última terça-feira (29). Em vão.

No mesmíssimo dia, a CNBB foi ágil o bastante para lamentar a tragédia do vôo da Colômbia e manifestar seu “veemente repúdio à anistia do caixa dois”.

Abaixo, imagem do site da CNBB neste instante (1 de dezembro de 2016, às 8:04).

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30 novembro, 2016

Audiência com Dom Manuel Parrado Carral, bispo de São Miguel Paulista – trágico retrato da letargia (ou cumplicidade?) episcopal.

Por Daniel Gerreiro Cavalcante da Silva

Especial para FratresInUnum.com

Este é um relato de minha autoria, Daniel Guerreiro Cavalcante da Silva, a respeito da audiência com o bispo da Diocese de São Miguel Paulista, Dom Manuel Parrado Carral, para tratar dos posicionamentos, pronunciamentos e atitudes escandalosas que envolvem, principalmente, o padre Paulo Sérgio Bezerra, da paróquia de Nossa Senhora do Carmo. Faço uma breve narrativa de minhas impressões do encontro e, em caso de possíveis “escândalos” ou “radicalismos” que aqueles espíritos imbuídos de bom mocismo e do politicamente correto possam encontrar, esclarecer-se diretamente com a minha pessoa, sem envolver nenhum destes citados. Como o bispo não permitira o registro em áudio, nem em vídeo, narrarei os fatos através da memória e de aproximações em determinadas ocasiões, acima de tudo, buscando a maior fidelidade possível. Peço a Deus, a Nossa Senhora e a todos os Santos, para que nenhuma injustiça ou distorção se cometa neste relato.

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Pela primeira vez, no dia dezessete do mês de novembro do ano de dois mil e dezesseis do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo (17/11/2016), foi realizado um encontro com o bispo Dom Manuel da Diocese de São Miguel Paulista, para tratar das inúmeras denúncias, divulgadas, principalmente, através das mídias sociais, blogs e grupos católicos, sobre o caso dos sacerdotes-militantes de movimentos LGBT, causas socialistas-marxistas, envolvendo o padre Paulo Sérgio Bezerra e inúmeros outros militantes da esquerda. Inicialmente prevista para ocorrer às 15:00, a audiência iniciara por volta das 15:30, graças a alguns imprevistos no transporte público da cidade de São Paulo.

Compareceram o Prof. Hermes Rodrigues Nery, Coordenador do Movimento Legislação e Vida, Adriano Neiva, o próprio bispo e eu. Após uma breve apresentação a respeito de quem éramos e qual era nosso objetivo ali – ou seja, representar os inúmeros católicos perplexos com os abusos e heresias propagadas naquela Diocese e, através de uma petição, pedir o afastamento dos sacerdotes envolvidos -, Dom Manuel deixou claro que em hipótese alguma, substituiria ou afastaria o padre Paulo Sérgio Bezerra daquela paróquia ou que, publicaria um posicionamento ou nota de repúdio ao que acontecera. Segundo o bispo, o padre fora advertido e uma ocorrência fora enviada à Nunciatura. Nada mais.

Logo no início desta audiência, nosso colega Adriano Neiva fez a seguinte declaração, ao descrever o que vem acontecendo, não só nesta referida Diocese, mas em inúmeras outras: “Estamos aqui, para representar, todos os católicos que estão indignados com a corrupção – ou distorção, se não me falha a memória – da Sagrada Liturgia”. Mal havia terminado a frase, Dom Manuel respondera, em tom de reprovação: “Vamos tomar cuidado com esses termos!”. Ora, pergunto-me o que seria isto então, se não, realmente, uma corrupção e distorção da Liturgia? Padres que modificam folhetos da Santa Missa exaltando o homossexualismo, recriando orações, na justificava de combater as ofensivas “homofóbicas” dos congressistas conservadores e da sociedade “velhaca”. Leigos abençoando um Sacerdote. Rituais umbandistas dentro de igrejas. Abortistas, socialistas e Drag Queens subindo ao púlpito para tratar de questões condenadas pela própria Igreja [1]. O que seria isto então, Dom Manuel? O cumprimento exato da Liturgia?   

Durante dez minutos, Dom Manuel narrou a situação de sua Diocese, como quem pede por compreensão, contextualizando a situação, abordando a história de sua fundação, sendo uma Diocese fragmentada, em 1989, da atual Arquidiocese de São Paulo, em uma das regiões mais caóticas, pobres e “explosivas” da década de 1980-1990 na metrópole. Para Dom Manuel Carral, a Diocese de São Miguel Paulista é carente de uma identidade que, se encontra ainda em processo de formação. Além disso, ressaltou a longa atuação dos antigos seminaristas e sacerdotes, adeptos da Teologia da Libertação, “defensores das minorias” e de causas sociais que atuam na região há muito tempo. O Padre Paulo Sérgio Bezerra, por exemplo, é sacerdote há trinta e  cinco anos, tendo atuado trinta e quatro anos na mesma Paróquia de Nossa Senhora do Carmo, segundo o que consta em suas declarações dadas à uma reportagem do Terra Notícias [2], ou seja, atua nesta referida paróquia desde 1982.

A impressão que tive ao longo desta audiência foi a de certa isenção e, talvez, de justificação, se assim podemos dizer. Dom Manuel Carral disse ter trabalhado muitos anos com Dom Cláudio Hummes, a quem ele muito admira. Apesar de concordar que se tratava de um “absurdo”, referindo-se ao caso do Drag Queen realizar a homilia e levantar o Cálice com o Sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo durante a consagração, chamando a atitude do Padre Paulo Sérgio Bezerra de “extrema” ou “radical”, Dom Manuel não pareceu constranger-se com o fato de Marilena Chauí ter recebido uma homenagem dos jovens em plena Santa Missa, comungado com as próprias mãos e por ser, assumidamente, militante socialista, abortista e defensora de ideologias anticristãs ou, por acaso, esta última não dissera que, os defensores da família não passam de “bestas”? [3] Pelo contrário, Dom Manuel procurou logo encerrar este questionamento através de uma simples resposta: “Não há problema algum com a presença de Marilena Chauí, ademais, ela é católica praticante e frequenta a Missa dominical em seu bairro, o Jardins”. Pergunto-me de onde viera esta informação. Seria da própria Marilena Chauí ao tentar convencer o bispo de sua “catolicidade” e de sua recentíssima conversão, anunciada somente ao Reverendíssimo bispo? Ou seria através de uma informação fornecida pelo próprio Padre Paulo Sérgio Bezerra que, segundo afirmações em um vídeo documentado do YouTube, fora convocado a dar explicações sobre a presença de determinados líderes de esquerda, como Guilherme Boulos do MTST, Chico Alencar do PSOL e a própria Chauí? [4]

Apesar de ter permanecido em silêncio durante quase toda a audiência, enquanto o Prof. Hermes Rodrigues Nery, Adriano Neiva e o bispo abordavam estas questões, cheguei a uma conclusão: não é verdade quando Dom Manuel afirma a respeito da “falta de identidade desta Diocese”, mesmo sendo relativamente nova se comparada a outras. Pelo contrário, este mesmo afirmara que, talvez, São Miguel Paulista fosse uma das dioceses mais difíceis de se trabalhar em todo o país. Ora, não seria isto uma identidade? Ademais, em que consiste esta dificuldade? Na profunda ideologização dos sacerdotes que deveriam ser os pastores da Igreja, mas que tratam da Missa e das paróquias como um palco e instrumento de propaganda socialista, frankfurtiana, gramsciana e de outras inúmeras doutrinas anárquicas e anticristãs? A má formação dos católicos que, induzidos ao erro e ao persistirem no pecado, apenas aprofundam e propagam este, como se não tratasse de um pecado? Ou seria a própria pobreza da região em si? Por fim, creio que, nenhum destes questionamentos – ou afirmações, se preferirem -, se sustentam. Em primeiro lugar, parece que há sim uma identidade na Diocese, pois, muitos têm o conhecimento de que se trata de um dos maiores redutos da Teologia da Libertação, se não do Brasil, pelo menos em São Paulo. Não seria isto uma identidade, criada pelos sacerdotes da Diocese e propagada ao longo de todos esses anos?

Bastam alguns minutos de reflexão para desmantelar estas hipóteses. Partiremos por partes:

1) Se o problema consiste nas ideologias anticristãs, condenadas pela Igreja, como o comunismo, o feminismo, o gayzismo, o abortismo e o relativismo, não bastaria um pronunciamento e censura do bispo para que os problemas cessassem? Por ora, Dom Manuel não parece disposto a agir desta forma. Após questionarmos os posicionamentos do padre Paulo Sérgio Bezerra, o bispo dissera que, apesar da “radicalização nestes últimos anos, o padre tem seus méritos”. Após recitar seu “belíssimo” currículo, como se suas boas ações justificassem as doutrinas anticristãs que este vem propagado, o padre Bezerra, segundo o bispo, teria sido responsável pelo auxílio e assistência das comunidades carentes em Itaquera, pela compra de um terreno para os mais necessitados, além dos mais de trinta anos de atuação na região, fato que resultou em uma espécie de enraizamento paroquial. Tirá-lo de lá, nas palavras de Dom Carral, não resolveria em nada o problema, pois, além de possíveis descontentamentos, dos paroquianos e da comunidade, da carência de outros sacerdotes para a reposição, a situação persistiria para onde quer que o padre Bezerra fosse transferido.

Sendo assim, podemos concluir o seguinte: Dom Manuel não pode controlar um padre dentro de sua própria Diocese. Seria como se o bispo estivesse refém do pároco de Nossa Senhora do Carmo, uma vez que este último, não teme ser punido pelo Sumo Pontífice, quanto mais por seu bispo responsável. Duvidam disto? Basta reler o que o próprio padre Bezerra dissera em uma entrevista publicada no Estadão, no Globo e na Folha: “São poucos os padres com coragem de tocar nesses assuntos. Sempre fui assim, mas, com esse papa, sinto mais tranquilidade de que não serei punido.” [5]

Leram bem? O padre Paulo Sérgio Bezerra disse com todas as palavras que, “SEMPRE FOI ASSIM”, contrariando o que Dom Manuel dissera sobre sua “radicalização nestes últimos anos” e que, sente tranquilidade de que NÃO SERÁ PUNIDO. Mais uma vez afirmo, se este sacerdote não teme ser punido pelo Papa, por que temeria ser punido por seu bispo que, nem ao menos o repreende publicamente, uma vez que estas “radicalizações recentes” têm ocorrido desde 2008. Sim, foram inúmeras as denúncias divulgadas por blogs e páginas católicas, destacando-se o Fratres in Unum.

2) Jamais questionamos as ações caridosas do padre Paulo Sérgio Bezerra, mas, enumerar seus méritos, não justifica a destruição e deturpação da Fé Católica que este tem causado. Se a evasão de católicos é crescente, principalmente na Zona Leste de São Paulo e se os que permanecem são mal formados, de quem seria a culpa, então? Das igrejas protestantes pentecostais? Ou dos próprios padres que, descumprem seus papéis de pastores da Igreja e que já não mais falam dos Milagres, da Vida dos Santos e alteram o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo, acrescentando um teor marxista, materialista, repleto de referências à “justiça social”? O Padre Paulo Sérgio Bezerra jamais abrirá mão de seus posicionamentos, ele não teme nada.

3) Creio que a suposta “pobreza” da região não justifique a propagação da Teologia da Libertação nesta Diocese. Se fosse assim, as regiões mais pobres do Brasil e do mundo, seriam as mais infectadas. Partindo deste princípio, o Vale do Ribeira, região mais pobre do Estado de São Paulo, seria o exportador de “padres” marxistas e, o Maranhão, considerado o mais pobre dos estados da federação, já estaria em condições cismáticas. Não tenho medo de afirmar que a culpa é dos próprios padres e bispos que permitiram a propagação desta ideologia anticristã pelo Brasil afora. Segundo Dom Manuel, são cinco o número de padres que comungam dos mesmos ideais do padre Bezerra em sua Diocese, porém, Eduardo Brasileiro, um dos militantes da causa gayzista de São Miguel Paulista, afirmou que, já são em número de QUINZE, as paróquias da Diocese que partilham destes ideais. [6]

Além disso, o bispo Dom Manuel afirmou que vivíamos em uma “época de extremos”. De um lado, tínhamos estas posturas “demasiado ideológicas” e de outro, posturas “ultraconservadoras”, como se ambas fossem equiparáveis. E querem saber que o bispo chamava de “ultraconservadorismo”? O uso de véus nas igrejas e aqueles que utilizavam correntes e cadeias em seus braços, como escravos de Nossa Senhora. Pois é, escrever um manifesto “apologético-teológico” em defesa do homossexualismo, como aquele que o padre Bezerra escrevera, intitulado “catolicismo e homoafetividade” [7],  é equivalente ao uso de véus durante a Santa Missa. Defender o socialismo, o homossexualismo e sexo livre é mesma coisa que considerar-se escravo de Nossa Senhora. “Ultraconservadores” e os “defensores de minorias” são ambos extremistas para Dom Manuel.  

O Prof. Hermes Nery requereu de Dom Manuel Carral um posicionamento, o afastamento do padre, uma nota, uma atitude firme em relação a isto. O bispo respondera dizendo que as coisas estão muito difíceis na atualidade, que espera logo se aposentar e dissera que muitos padres não querem nem mesmo tornarem-se bispos diante desta realidade. O Prof. Hermes Nery respondeu dizendo que sempre a Igreja Católica, ao longo da história, foi firme no combate às heresias e na defesa da Sã Doutrina, vicejou com grande força e esplendor. Ao que Dom Carral disse: “A Igreja não tem mais força no mundo”. O Prof. Hermes Nery respondera, com ênfase: “Mas Cristo tem força, sim. Ele venceu o mundo”. O bispo então repetiu, afirmando: “Sim, é verdade. Cristo tem força.”

Ao final da audiência, após afirmar inúmeras vezes que as redes sociais estavam tornando a vida das pessoas “um inferno”, Dom Manuel disse-nos que se reproduzíssemos a carta que lhe encaminhamos, na Internet, estaríamos “colocando lenha na fogueira” e “difamando a Igreja”. O bispo afirmou inúmeras vezes que não temia ser punido pelo Santo Padre, pois dedicara toda a sua vida fielmente a Igreja e que estava de “consciência limpa”. Apesar de afirmar que não temia as redes sociais e a Internet, estou longe de crer nisto. Pelo contrário, acho que, publicar a carta e este relato é um dever de todos aqueles que amam a Santa Igreja Católica Apostólica Romana.

O que o Reverendíssimo bispo Dom Manuel Parrado Carral fará para pôr fim a estas heresias? Permanecerá em silêncio, justificará e exaltará as ações caridosas dos sacerdotes do marxismo? Ou condenará publicamente estes abusos e distorções da Verdadeira Fé?

Que Nosso Senhor Jesus Cristo e Nossa Senhora tenham misericórdia de nós.

FONTES:

[1] – http://oglobo.globo.com/sociedade/religiao/folheto-de-igreja-catolica-pede-enfrentamento-ofensiva-homofobica-16540048

[2] – https://noticias.terra.com.br/brasil/padre-de-itaquera-ataca-ofensiva-homofobica-e-uma-velhacaria,7c4ca9c116c02a979d05ff8f05105ea3nsk0RCRD.html

[3] – http://jovempan.uol.com.br/programas/radioatividade/marilena-chaui-afirma-que-quem-defende-familia-e-uma-besta.html

[4] – https://www.youtube.com/watch?v=aGyA4fWtfHU

[5] – http://sao-paulo.estadao.com.br/noticias/geral,igreja-tem-prece-contra-ofensiva-homofobica-,1712942

[6] – https://www.youtube.com/watch?v=R6YoMBg22jA&t=37s

[7] – https://teologialibertacao.wordpress.com/2015/04/13/catolicismo-e-homoafetividade-ensaio-de-aspiracoes-intuitivas-parte-i/

https://teologialibertacao.wordpress.com/2015/04/16/catolicismo-e-homoafetividade-parte-ii/

29 novembro, 2016

Sua Santidade se recusa a responder.

Por , The New York Times, 26 de novembro de 2016 | Tradução: FratresInUnum.com: “Isso não é normal” – assim dizem os críticos de Donald Trump, enquanto ele se prepara para assumir a presidência. Mas, a República Americana é apenas a segunda mais antiga instituição que está enfrentando uma situação distinta e incomum no momento. O lugar de honra vai para a Igreja Católica Romana, que, com menos alarde (talvez porque o papado não tem um arsenal nuclear) também entrou em terra incógnita.

Há duas semanas, quatro cardeais publicaram o chamado dubia – um conjunto de perguntas, endereçadas ao Papa Francisco, pedindo que ele esclareça pontos de sua exortação apostólica sobre a família “Amoris Laetitia”.  Em particular, eles pediram-lhe para esclarecer se a proibição da Igreja em relação à comunhão para católicos divorciados em novos (e, aos olhos da igreja, adúlteros) casamentos civis continua, ou se a tradicional oposição da Igreja à situação ética se “desenvolveu” a ponto de cair no obsoleto.

O dubia começa como uma carta privada, como é habitual em tais pedidos de clareza doutrinal. Francisco não ofereceu nenhuma resposta. Mas, tornou-se pública pouco antes do consistório da semana passada em Roma, quando o Papa se reúne com o colégio cardinalício e apresenta os membros recém-elevados ao cardinalato. O Papa continuou a ignorá-la, mas tomou o passo incomum de cancelar a reunião geral com os cardeais (não poucos deles são silenciosos partidários dos quatro cardeais).

Francisco cancelou porque o dubia tinha deixado-o “fervendo de raiva”, como foi alegado. “Isso não era verdade”, escreveu no twitter seu colaborador próximo, o padre jesuíta Antonio Spadaro, pouco depois de responder aos críticos, comparando-os com o personagem de J.R.R. Tolkien, Grima Wormtongue, num tweet que ele logo em seguida apagou rosnando sua recusa de “trocar palavras distorcidas com um verme estúpido”.

Enquanto isso, um daqueles quatro autores do dubia, o combativo e tradicionalista Cardeal Raymond Burke, deu uma entrevista sugerindo que o silêncio papal pode exigir um “ato formal de correção” por parte dos cardeais – algo sem óbvios precedentes na história Católica (Papas já foram condenados por flertar com heresia, mas só depois de suas mortes). Essa foi uma linguagem forte; mas ainda mais forte foi a resposta do cabeça dos bispos católicos da Grécia, que acusou os autores do dubia de “heresia” e, possivelmente, “apostasia” por terem questionado o papa.

Enquanto isso, ele próprio continua em silêncio. Ou melhor, continuou sua prática de dar entrevistas e sermões lamentando a rigidez, farisaísmo e possíveis problemas psicológicos entre os seus críticos – mas continua se recusando a tomar uma atitude direta de responder às perguntas.

Não que haja qualquer dúvida real sobre onde o pontífice se situa. Durante um período de debate vigoroso entre 2014 e 2015, ele advogou persistentemente uma abertura à comunhão sacramental para pelo menos alguns católicos recasados sem a concessão da nulidade. Mas a resistência conservadora correu forte o suficiente para que o papa parecesse se sentir constrangido. Assim, ele produziu um documento, que ainda carece de esclarecimentos, a “Amoris Laetitia”, onde essencialmente tentou passar por cima da controvérsia, deixando implícitos os vários modos em  que a comunhão pode ser dada caso a caso, mas nunca dizendo isso diretamente.

Esta falta de objetividade é importante, porque dentro do Catolicismo as palavras formais do Papa, suas encíclicas e exortações, têm um peso que sinaliza e implicações que são carentes nas cartas pessoais. Elas são o que se supõe para exigir obediência, o que se supõe ser sobrenaturalmente preservado do erro.

Dessa forma, evitar clareza parece ter a intenção de se evitar um comprometimento. Os liberais então tem permissão pra deslizar para as experimentações, enquanto os conservadores preservam a letra da lei e os bispos do mundo ficam com a tarefa de escolher essencialmente seu próprio ensino sobre o casamento, o adultério e os sacramentos – que na verdade, foi o que muitos fizeram no ano passado, os de inclinação conservadora na Filadélfia e na Polônia, os liberais em Chicago, na Alemanha ou na Argentina, com inevitáveis atritos entre prelados que seguem diferentes interpretações da “Amoris Laetitia”.

Mas o estranho espetáculo em torno do dubia é um lembrete de que isso não pode ser uma solução permanente. A lógica do “Roma falou, o caso está encerrado” está profundamente enraizada nas estruturas do Catolicismo para permitir qualquer outra coisa, senão uma descentralização doutrinária temporária. Enquanto o Papa continuar a ser o Papa, qualquer grande controvérsia inevitavelmente vai subir de volta para o Vaticano.

Francisco deve estar ciente disso. Por enquanto, ele parece estar escolhendo a menor crise, que são bispos rivais e ensinos confusos sobre a maior crise que ainda está por vir (embora quem pode dizer com certeza?) se ele decidir presentear os conservadores da Igreja com suas próprias respostas pessoais para o dubia e simplesmente exigir que eles se submetam. Submissão ou cisma acontecerão eventualmente, é o que ele pode pensar – mas não até que o tempo e a operação do Espírito Santo tenha enfraquecido a posição dos seus críticos na Igreja.

Mas nesse meio tempo, seu silêncio está tendo o efeito de confirmar os conservadores em sua resistência, porque para eles parece que sua recusa em dar respostas definitivas poderia ser por si só obra da Providência. Ou seja, ele pode até achar que está sendo maquiavélico e estratégico, mas na verdade é o Espírito Santo impedindo-o de ensinar o erro.

Esta é uma hipótese teológica rara que pode ser facilmente refutada. O Papa precisa apenas exercer a sua autoridade, responder a seus críticos, e dizer aos fiéis explicitamente o que ele quer que eles acreditem.

Mas até que ele resolva falar, a hipótese está aberta.

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28 novembro, 2016

Católicos pedem a Bispo afastamento de Padre da Diocese de São Miguel Paulista.

Íntegra da carta entregue pessoalmente a Dom Manuel Parrado Carral, bispo diocesano de São Miguel Paulista, SP.

São Paulo, 16 de novembro de 2016

Reverendíssimo Sr.
Dom Manuel Parrado Carral
DD. Bispo da Diocese de São Miguel Paulista

Nós, fiéis católicos, estamos perplexos com as atividades, pronunciamentos e posicionamentos escandalosos que ocorreram na Diocese de São Miguel Paulista, mais precisamente, nas paróquias de Santa Ana que, ao final da Santa Missa (Itaquera), permitiu-se que um Drag Queen subisse ao altar em nome da “comemoração ao dia internacional da Drag Queen”; em Nossa Senhora do Carmo. Tal ato foi promovido e incentivado pelo próprio pároco, o padre Paulo Sérgio Bezerra, no Santuário Nossa Senhora da Paz, e também pelo padre Dimas Martins Carvalho.

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Fiéis se reúnem com bispo de São Miguel Paulista, SP.

A seguir, destacaremos alguns dos fatos promovidos pelos sacerdotes que violam o Magistério da Santa Igreja e a Santa Fé Católica:

1) Ritual pagão-umbandista durante a Santa Missa, promovido pelos padres Paulo Sérgio Bezerra e Dimas Martins Carvalho [1].

2) Promoção do gayzismo e incentivo à militância LGBT aos fiéis da paróquia Nossa Senhora do Carmo. O padre Paulo Sérgio Bezerra permitira que os jovens levassem cartazes “anti-homofóbicos” para a Santa Missa; permitira ainda que um Drag Queen assumido distribua o Corpo de Cristo, e que realize a homilia, tudo ao som de Paula e Bebeto. Chama os defensores da família e os congressistas conservadores de “homofóbicos, retrógrados, velhacos e reacionários”; utiliza os jovens como massa de manobra para a promoção de sua agenda gay; modificou um folheto da Santa Missa com mensagens pró-gayzismo e com ataques diretos aos defensores da Santa Igreja e da Sã Doutrina – apar entemente, o panfleto fora desenvolvido por outro sacerdote da mesma diocese, o jesuíta Luís Lima –, portanto, utilizou a Santa Missa para promover diversas ideologias anti-cristãs, como o comunismo, a ideologia de gênero e a militância gay [2].

3) O referido pároco é adepto da Teologia da Libertação, do comunismo e do PT. Convocara o deputado Chico Alencar (PSOL), Guilherme Boulos (líder do MTST) e a filósofa assumidamente atéia, abortista e petista, Marilena Chauí, para palestrarem durante a Santa Missa, discursou em meio à uma multidão no movimento “Fora Temer” e “Contra o Golpe” em São Paulo [3].

4) Além da própria promoção do “dia internacional da Drag Queen”, os administradores da página oficial da Paróquia Sant’Ana de Itaquera, postaram a seguinte mensagem: “Em comemoração ao Dia Internacional da Drag Queen, nossa Paróquia recebeu nossa grande paroquiana Dindry Buck em celebração do novenário de nossa Padroeira. Foi um momento de muita alegria para nossos paroquianos que amam e respeitam o trabalho que Dindry Buck faz em nossa Paróquia. Dindry falou sobre a importância de lembrar esse dia e a sua missão de levar a alegria para o mundo” [4].

5) O padre Paulo Sérgio Bezerra permitiu que, Marilena Chauí, inimiga assumida da Igreja, da família e da Fé, comungasse com as próprias mãos e recebesse uma homenagem ideológica em plena Missa [5].

6) O padre Paulo Sérgio Bezerra tem conhecimento de suas atitudes, das induções ao erro e da violação à Tradição da Santa Igreja Católica, porém, não teme ser punido pelas autoridades eclesiásticas e nem mesmo, pelo próprio Papa: “Sempre fui assim, mas, com esse papa, sinto mais tranquilidade de que não serei punido” [6].

Não restam dúvidas de que este padre está a serviço da corrosão da Sã Doutrina Católica, da Santa Igreja. Além de induzir seus fiéis ao erro, propagar falsas doutrinas que contradizem a Sã Doutrina Católica e não temer represálias da hierarquia da Igreja Católica Apostólica Romana.

Nós, fiéis católicos, pedimos encarecidamente que Vossa Revendíssima autoridade episcopal, Bispo da Diocese de São Miguel Paulista, Dom Manuel Parrado Carral, que afaste os párocos e lideranças envolvidas nestas profanações da Igreja de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Gratos pela fidelidade à sua missão como pastor da Igreja, no zelo da sã doutrina católica.

Daniel Guerreiro Cavalcante 

Prof. Hermes Rodrigues Nery

Coordenador do Movimento Legislação e Vida

Adriano Neiva

Fontes:

28 novembro, 2016

Nada ambíguo. 

No último dia 10, foi lançado na Itália um novo livro organizado pelo influente jesuíta Antonio Spadaro, coletando principalmente sermões do então arcebispo de Buenos Aires, Jorge Mario Bergoglio. Intitulado “Nei tuoi occhi è la mia parola”  [Em teus olhos está minha palavra”, em tradução livre], a edição contém também uma entrevista com o Papa Francisco. Nela, Spadaro pergunta ao bispo de Roma sobre a “Missa em latim”, ao que recebe como resposta:

[A Missa em Latim] É apenas uma exceção. O papa Bento realizou um próprio e generoso gesto para ir ao encontro de certa mentalidade de alguns grupos e pessoas que tinham nostalgia e que estavam distantes.

Questionado a respeito, na última quinta-feira, o cardeal Raymond Leo Burke respondeu:

Não há exceção. Trata-se da missa da Igreja de todos os tempos e, portanto, não pode ser jogada fora e tem igual dignidade. Quanto ao resto, basta ler o motu proprio do Papa Bento XVI. Que não é nada ambíguo.

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Com informações de Katholisches.

27 novembro, 2016

Foto da Semana

No último final de semana, pelo calendário da Missa Nova, dia de Cristo Rei, o presidente da confederação episcopal da Polônia D. Stanislaw Gadecki (que foi figura de grande importância no Sínodo da Família), com assistência do  Cardeal Stanislaw Dziwisz (ex-secretário do Papa João Paulo II) e outros eminentes bispos poloneses, juntamente do Presidente da Polônia Andrzej Duda, e com assistência também de cerca de 6000 fiéis, reconheceram Nosso Senhor Jesus Cristo como Rei da Polônia, esse ato, como deram conta vários sites de notícias(exemplos aqui e aqui), não é inédito, mas inédita foi a participação do chefe de estado nas cerimônias, acompanhado de sua mãe e outros políticos do alto escalão polonês. As fotos são do Facebook do próprio presidente.

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26 novembro, 2016

Reflexões da Sagrada Escritura: Ainda Santo Tomás Sobre a Maldição

“Nem os maldizentes nem os roubadores hão de possuir o reino de Deus” (1 Cor. VI, 10).

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

ART. III  –  Se amaldiçoar é pecado mortal.

O terceiro artigo discute-se assim.  –  Parece que amaldiçoar não é pecado mortal. Três argumentos que parecem prová-lo:

  1. Pois, Agostinho enumera a maldição entre os pecados leves. Ora, estes são veniais. Logo, a maldição não é pecado mortal, mas, venial.
  2. Demais.  –  Os pecados procedentes de um leve movimento da alma parece que não são mortais. Ora, às vezes, a maldição procede de um leve movimento. Logo, não é pecado mortal.
  3. Demais. – É mais grave malfazer do que amaldiçoar. Ora, malfazer nem sempre é pecado mortal. Logo, muito menos o é amaldiçoar.

Mas, AO CONTRÁRIO (Sed contra).  –  Só o pecado mortal exclui do reino de Deus. Ora, a maldição exclui do reino de Deus, conforme ao Apóstolo em 1ª Coríntios, VI, 10: Nem os maldizentes nem os roubadores hão de possuir o reino de Deus. Logo a maldição é pecado mortal.

Respondo dando a SOLUÇÃO, após explicar os termos: –  A maldição de que agora tratamos é a que nos faz dizer mal de outrem, mandando ou desejando. Ora, querer o mal alheio ou mover a ele, mandando, repugna, em si mesmo, à caridade pela qual amamos o próximo querendo-lhe bem.

E, assim, é genericamente pecado mortal. E tanto mais grave quanto mais estivermos obrigados a amarmos e reverenciar as pessoa a quem amaldiçoamos. Donde o dito da Escritura em Levítico, XX, 9: O que amaldiçoar a seu pai ou a sua mãe, morra de morte. Pode, porém, acontecer que a palavra da maldição proferida seja pecado venial, quer pela parvidade do mal imprecado contra outrem pela maldição; quer também pelo sentimento que nutre quem profere as palavras de maldição, conforme o fizer por um leve movimento, por divertimento ou por movimento de surpresa [no ímpeto, sem pensar].

Pois, os pecados por palavras pesam-se sobretudo pelo seu efeito, como dissemos. Com estas explicações, se deduzem claras as respostas às três objeções apresentadas no início.

ART. IV –  Se a maldição é mais grave pecado que a detração.

Este quarto artigo discute-se assim.  –  Parece que a maldição é pecado mais grave que a detração.

  1. –  Pois, a maldição é considerada blasfêmia, conforme àquilo do Escritura na Epístola de S. Judas Tadeu: Quando o arcanjo Miguel, disputando com o diabo, altercava sobre o corpo de Moisés, não se atreveu a fulminar-lhe a sentença de  blasfemo (maldição). E aí se toma a blasfêmia pela maldição, segunda a Glosa. Ora, a blasfêmia é pecado mais grave que a detração. Logo, a maldição é mais grave que a detração.
  2. Demais.  –  O homicídio é mais grave que a detração, como se disse. Ora, a maldição é um pecado igual ao de homicídio; pois, diz Crisóstomo: “Se disseres  – amaldiçoa-o, destrói-lhe a casa e faze perecerem todos os seus bens, não diferirás em nada do homicida” (Super Math. Hom. XIX). Logo, a maldição é mais grave que a detração.
  3. Demais. A causa tem preeminência sobre o sinal. Ora, quem maldiz causa o mal, pela sua ordem; mas quem detrai só exprime o mal já existente. Logo, peca mias gravemente quem amaldiçoa, do que o detrator.

“SED CONTRA”, mas AO CONTRÁRIO,  a detração não pode ser tomada em bom sentido; ao passo que a maldição o pode, tanto em bom como em mau, como do sobredito se conclui. Logo, mais grave é a detração que a maldição.

Respondo explicando os termos e dando a SOLUÇÃO.  –  Como já estabelecemos na Primeira Parte (q. 28, a. 5), há um duplo mal  –  o da culpa e o da pena. Ora, o mal da culpa é o pior, como aí se demonstrou. Logo, dizer um mal que implica uma culpa é pior que dizer o que implica uma pena, dado que o modo de dizer seja o mesmo. Por onde, é próprio do contumelioso,  do murmurador, do detrator e também do escarnecedor dizer o mal que implica uma culpa; mas, do que maldiz, no sentido de que agora tratamos, é próprio dizer o mal que implica uma pena, e não o que importa em culpa, salvo talvez sob a ideia de pena. Mas, o modo pelo qual uns e outros dizem esse mal não é o mesmo. Pois, dos quatro vícios primeiro referidos, é próprio somente o enunciar o mal da culpa; ao passo que quem amaldiçoa diz um mal que implica uma pena ou pelo causar, a modo de ordem, ou pelo desejar. Ora, o fato mesmo de enunciar a culpa já é pecado, por causar um certo dano ao próximo; mas é mais grave causar do que desejar a outrem um dano, se todas as demais circunstâncias forem iguais. Por onde, a detração, em sentido geral, é pecado mais grave que a maldição que somente exprime um simples desejo. Mas, a maldição pronunciada como um mandato, tendo a natureza de causa, pode ser mais grave que a detração, se causar um dano maior do que o denegrimento do bom nome; ou mais leve, se menor for o dano. E isto é assim considerado levando-se em conta o que pertence à natureza desses dois vícios. Mas, podem-se considerar outras circunstâncias acidentais, que os aumentam ou diminuem.

DONDE A RESPOSTA À PRIMEIRA OBJEÇÃO.  –  A maldição da criatura como tal redunda em maldição de Deus; e então e por acidente tem a natureza de blasfêmia; o que porém não se dá se amaldiçoarmos a criatura por causa de uma culpa. E o mesmo se diga da detração.

RESPOSTA À SEGUNDO OBJEÇÃO:  –  Como já dissemos, a maldição, num dos sentidos assinalados, inclui o desejo do mal. Por onde, se quem amaldiçoou quiser o mal da morte de outrem, não diferirá, pelo seu desejo, do homicida. Mas, dele difere na medida em que o ato externo acrescenta algo à vontade.

RESPOSTA À TERCEIRA OBJEÇÃO:  –  A objeção procede em se tratando da maldição, enquanto implica uma ordem.

25 novembro, 2016

As contradições de um jubileu que se encerra

Por Roberto de Mattei, “Il Tempo”, Roma, 22/11/2016 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.com

 

Entre as chaves de interpretação do pontificado do Papa Francisco há seguramente o seu amor pela contradição. Esta disposição de ânimo torna-se evidente na Carta Apostólica Misericordia et Misera, assinada na conclusão do Jubileu extraordinário da misericórdia. Nela Bergoglio estabelece que aqueles que frequentam as igrejas atendidas pelos sacerdotes da Fraternidade de São Pio X podem válida e licitamente receber deles a absolvição sacramental. O Papa remedeia, portanto, aquilo que era o principal fator de “irregularidade” da Fraternidade fundada por Dom Lefebvre: a validade das confissões. Seria contraditório imaginar que, uma vez aceitas como válidas e lícitas as confissões, não sejam também consideradas lícitas as Missas celebradas pelos padres da Fraternidade, as quais são, em qualquer caso, certamente válidas. A partir de agora, não se entende qual é a necessidade de um acordo entre Roma e a Fraternidade, visto que a posição desses sacerdotes já está realmente regularizada e que, como se sabe,interessam pouco ao Papa os problemas doutrinários ainda em discussão.

Na mesma Carta Apostólica,o Papa Bergoglio concede doravante “a todos os sacerdotes, em virtude de seu ministério, a faculdade de absolver todas as pessoas que incorreram no pecado de aborto”, a fim de que “nenhum obstáculo exista entre o pedido de reconciliação e o perdão de Deus”. De fato, os sacerdotes já tinham o poder de perdoar o pecado do aborto na confissão. No entanto, de acordo com a prática multissecular da Igreja, o aborto está entre os pecados graves punidos automaticamente com a excomunhão. “Quem provoca aborto, seguindo-se o efeito, incorre em excomunhão latae sententiae, lê-se no cânon 1398 Código de Direito Canônico de 1983. Os sacerdotes, portanto, precisavam da permissão de seu bispo para levantar a excomunhão antes de poderem absolver o pecado de aborto. Agora, qualquer sacerdote pode levantar a excomunhão, sem necessidade de recorrer ao seu bispo ou ser delegado por ele. A excomunhão é privada de fato da sua força e o aborto perde a gravidade que o Direito Canônico lhe atribuía.

Em uma entrevista publicada na TV2000em 20 de novembro, o Papa Francisco disse que “o aborto continua um pecado grave”, um “crime horrendo”, porque “põe fim a uma vida inocente”. Pode ele ignorar que sua decisão de afrouxara excomunhão latae sententiae pelo crime de aborto relativiza esse “crime horrendo” e permite aos meios de comunicação de apresentá-lo como um pecado que a Igreja considera hoje menos grave do que no passado e que agora Ela facilmente perdoa?

O Papa afirma em sua Carta Apostólica que “não existe nenhum pecado que a misericórdia de Deus não possa alcançar e destruir, quando encontra um coração arrependido que pede para se reconciliar com o Pai”,mas, como é evidente a partir de suas próprias palavras, a misericórdia é tal porque pressupõe a existência do pecado e, portanto, da justiça ofendida. Por que falar sempre e somente do Deus bom e misericordioso, e nunca do Deus justo, que premia ou castiga segundo os méritos e as culpas do homem? Os Santos, como tem sido observado por muitos autores espirituais, nunca cessaram de exaltar a misericórdia de Deus, inesgotável em dar; e, ao mesmo tempo, de temer a sua justiça, rigorosa em exigir. Seria contraditório um Deus capaz unicamente de amar e recompensar o bem e incapaz de odiar e punir o mal.

Exceto para alguém que acredite na existência da lei divina,mas julgue que ela é abstrata e impraticável, e que a única coisa que realmente conta é a vida concreta do homem, que não pode senão pecar. Nesse caso, o que importa não é a observância da lei, mas a confiança cega no perdão e na misericórdia divina: Pecca fortiter, sed crede fortius. Mas esta é a doutrina de Lutero, não da Igreja Católica.

24 novembro, 2016

Dom Athanasius Schneider em defesa dos Cardeais que escreveram a Francisco.

Uma voz profética de quatro Cardeais da Santa Igreja Romana.

Por Dom Athanasius Schneider | Tradução: FratresInUnum.com

Movidos por uma “profunda preocupação pastoral”, quatro Cardeais da Santa Igreja Católica Apostólica Romana, Sua Eminência Joachim Meisner, Arcebispo Emérito de Colônia (Alemanha), Sua Eminência Carlo Caffarra, Arcebispo Emérito de Bolonha (Itália), Sua Eminência Raymond Leo Burke, Patrono da Soberana Ordem Militar de Malta, e Sua Eminência Walter Brandmüller, Presidente Emérito do Pontifício Comitê para Ciências Históricas, publicaram, em 14 de novembro de 2016, o texto de cinco questões, chamado dubia (em latim, “dúvidas”), que previamente, em 19 de setembro de 2016, eles enviaram ao Santo Padre e ao Cardeal Gerhard Müller, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, juntamente com uma carta.

Dom Athanasius em entrevista a Fratres in Unum.

Fevereiro de 2015 – Dom Schneider concede entrevista a Fratres in Unum.

Os Cardeais pedem ao Papa Francisco para esclarecer a “grave desorientação e grande confusão” acerca da interpretação e aplicação prática, particularmente do capítulo VIII, da Exortação Apostólica Amoris Laetitia e suas passagens relacionadas à admissão de divorciados recasados aos sacramentos e ao ensino moral da Igreja.

Em sua declaração intitulada “Criar clareza: alguns nós por resolver em Amoris Laetitia“, os Cardeais afirmam que para “muitos – bispos, párocos, fiéis –, estes parágrafos fazem alusão, ou ensinam explicitamente, uma mudança da disciplina da Igreja a respeito dos divorciados que vivem numa nova união”. Ao dizê-lo, os Cardeais meramente afirmaram fatos reais na vida da Igreja. Esses fatos são demonstrados pelas orientações pastorais a cargo de diversas Dioceses e por declarações públicas de alguns Bispos e Cardeais, que afirmam que, em alguns casos, católicos divorciados recasados podem ser admitidos à Sagrada Comunhão, embora continuem a gozar dos direitos reservados pela Lei Divina a esposos validamente casados.

Ao publicar um apelo por clareza em uma matéria que toca a verdade e a santidade simultaneamente de três sacramentos, Matrimônio, Confissão e Eucaristia, os quatro Cardeais apenas cumpriram seu dever básico enquanto Bispos e Cardeais, que consiste em contribuir ativamente a fim de que a revelação transmitida pelos Apóstolos possa ser sagradamente guardada e fielmente interpretada. Foi, especialmente, o Concílio Vaticano II que recordou todos os membros do colégio dos bispos, enquanto sucessores dos apóstolos, de sua obrigação, “por instituição e preceito de Cristo, à solicitude sobre toda a Igreja, a qual, embora não se exerça por um acto de jurisdição, concorre, contudo, grandemente para o bem da Igreja universal. Todos os Bispos devem, com efeito, promover e defender a unidade da fé e disciplina comum a toda a Igreja” (Lumen gentium, 23; cf. também Christus Dominus, 5-6).

Ao fazer um apelo público o Papa, Bispos e Cardeais deveriam ser movidos por uma genuína afeição colegial pelo Sucessor de Pedro e Vigário de Cristo na terra, na esteira do ensinamento do Concílio Vaticano II (cf. Lumen gentium, 22); ao fazê-lo, devem render “serviço ao ministério primacial” do Papa (cf. Diretório para o Ministério Pastoral dos Bispos, 13).

Toda a Igreja, em nossos dias, deve refletir sobre o fato de que o Espírito Santo não inspirou em vão São Paulo a escrever na carta aos Gálatas sobre o incidente de sua correção pública a Pedro. Deve-se confiar que o Papa Francisco aceitará esse apelo público de quatro Cardeais no espírito do Apóstolo Pedro, quando São Paulo o corrigiu fraternalmente, para o bem de toda a Igreja. Possam as palavras do grande doutor da Igreja, Santo Tomás de Aquino, iluminar e confortar-nos a todos: “Correndo iminente perigo a fé, os súditos devem advertir os prelados, mesmo publicamente. Por isso, São Paulo, súdito de São Pedro, repreendeu-o em público, por causa de perigo iminente de escândalo para a fé. E, assim, diz a Glosa de Santo Agostinho: ‘O próprio Pedro deu aos maiores o exemplo de se porventura desviarem do caminho reto, não se dedignem ser repreendidos mesmo pelos inferiores’” (Suma Teológica, II-II,  q. 33, ad 2).

O Papa Francisco, frequentemente, clama por um franco e destemido diálogo entre todos os membros da Igreja em matérias relacionadas ao bem espiritual das almas. Na Exortação Apostólica Amoris Laetitia, o Papa fala da “necessidade de continuar a aprofundar, com liberdade, algumas questões doutrinais, morais, espirituais e pastorais. A reflexão dos pastores e teólogos, se for fiel à Igreja, honesta, realista e criativa, ajudar-nos-á a alcançar uma maior clareza” (n. 2). Ademais, o relacionamento em todos os níveis na Igreja deve ser livre de um clima de medo e intimidação, como pediu o Papa Francisco em vários de seus pronunciamentos.

À luz desses pronunciamentos do Papa Francisco e do princípio do diálogo e aceitação da legítima pluralidade de opiniões, promovido pelos documentos do Concílio Vaticano II, as reações incomumente violentas e intolerantes provenientes de alguns Bispos e Cardeais contra o calmo e circunspecto apelo de quatro Cardeais causa enorme perplexidade. Dentre esses reações intolerantes pode-se ler afirmações como: os quatro Cardeais são tolos, ingênuos, cismáticos, heréticos, e mesmo comparáveis aos hereges arianos.

Esses julgamentos claramente sem misericórdia revelam não só intolerância, recusa ao diálogo e ira irracional, mas demonstram também uma capitulação à impossibilidade de dizer a verdade, uma capitulação ao relativismo doutrinal e prático, na fé e na vida. As reações clericais mencionadas contra a voz profética de quatro Cardeais ostentam, em última análise, impotência diante da verdade, que inquieta e importuna a aparentamente pacífica ambiguidade desses críticos do clero.

As reações negativas à declaração pública dos quatro Cardeais assemelha-se à confusão generalizada da crise Ariana no quatro século. É útil citar, na situação de confusão doutrinal de nossos dias, algumas afirmações de Santo Hilário de Poitiers, o “Atanásio do Ocidente”.

“Vós [os bispos da Gália], que ainda permaneceis juntos de mim fiéis a Cristo, não cedais quando ameaçados com a investida da heresia, e agora, ao encontrar essa investida, rompeis toda a sua violência. Sim, irmãos, vós conquistastes, para a abundante alegria daqueles que compartilham vossa fé: e a vossa inalterada constância conquistou a dupla glória de manter uma consciência pura e dar um exemplo de autoridade” (Hil. De Syn., 3).

“Vossa fé invencível mantém a honrosa distinção de cioso valor e, contentada por repudiar a ação astuta, vaga ou hesitante, seguramente obedece em Cristo, preservando a profissão de sua liberdade. Pois, desde que sofremos todos profunda e penosa dor pelas ações dos iníquos contra Deus, apenas dentro de nossas fronteiras pode ser encontrada a comunhão em Cristo, a partir do momento em que a Igreja passou a ser atribulada por perturbações como o exílio dos bispos, a deposição dos padres, a intimidação do povo, a ameaça à fé, e a definição do significado da doutrina de Cristo por força e vontade humana. Vossa resoluta fé não pretende ignorar esses fatos ou professar que se possa tolerá-los, notando que, por um assentimento enganoso, ela se veria diante das grades da consciência” (Hil. De Syn., 4).

“Hei dito o que eu mesmo creio, consciente de que era meu dever como soldado ao serviço da Igreja, segundo o ensinamento do Evangelho, o enviar-lhes por estas cartas a voz do ofício que sustento em Jesus Cristo. Corresponde a vós discutir, prover e atuar, e que possais guardar com corações zelosos a fidelidade inviolável que mantendes, e que continueis sustentando o que sustentais” (Hil de Syn., 92).

As seguintes palavras de São Basílio Magno, dirigidas aos bispos latinos, podem ser aplicadas em certos aspectos à situação daqueles que em nossos dias solicitam clareza doutrinal, incluindo os quatro cardeais: “Um dever que certamente obriga sob severos castigos é o de manter cuidadosamente as tradições de nossos pais na fé. Não estamos sendo atacados por riquezas, glória ou benefícios temporais. Descemos ao campo de batalha para lutar por nossa herança comum, pelo grande tesouro da fé recebido de nossos pais. Aflijam-se conosco todos que amam a seus irmãos, pelo silêncio dos homens da verdadeira religião, pela abertura dos lábios ousados e blasfemos de todos os que pronunciam injustiças contra Deus, e pelos pilares da fé sendo destruídos. Nós, cuja insignificância há permitido que passemos ignorados, e estamos privados de nosso direito de falar livremente” (Ep. 243, 2.4).

Hoje, estes bispos e cardeais que solicitam clareza e que intentam cumprir seu dever guardando santa e fielmente a Revelação Divina transmitida em relação aos sacramentos do Matrimônio e da Eucaristia, já não estão exilados como o estavam os bispos nicenos durante a crise ariana. Ao contrário do tempo da crise ariana, tal como escreveu em 1973 Rudolf Graber, bispo de Ratisbona, hoje o exílio de bispos é substituído por estratégias para silenciá-los e por campanhas de difamação (Cf. Athanasius und die Kirche unserer Zeit, Abensberg 1973, p. 23).

Outro campeão da fé católica durante a crise ariana foi São Gregório Nazianzeno. Ele escreveu a seguinte descrição do comportamento da maioria dos pastores da Igreja daquele tempo. Essas palavras do grande doutor da Igreja deveriam ser uma advertência salutar para os bispos de todos os tempos: “Certamente os pastores agiram como insensatos, porque, salvo um número muito reduzido – que resistiu por sua virtude, mas que foi desprezado por sua insignificância, e que havia de restar como uma semente ou raiz de onde renascesse o novo Israel sob o influxo do Espírito Santo -, todos os outros cederam às circunstâncias, com a única diferença de que uns sucumbiram mais logo e outros mais tarde, uns estiveram na linha de frente dos campeões e chefes da impiedade, e outros se uniram às filas de seus soldados em batalha, vencidos pelo medo, pelo interesse, pela adulação ou, o que é mais inexcusável, por sua própria ignorância” (Orat. 21, 24).

Quando no ano de 357, o papa Libério assinou uma das denominadas fórmulas de Sirmium, na qual descartava deliberadamente a expressão dogmaticamente definida de “homoousios”, e excomungou a Santo Atanásio para ficar em paz e harmonia com os bispos arianos e semi-arianos do leste, alguns fiéis católicos e bispos, especialmente Santo Hilário de Poitiers, escandalizaram-se profundamente. Santo Hilário transmitiu a carta que o papa Libério escreveu aos bispos orientais, anunciando a aceitação da fórmula de Sirmium e a excomunhão de Santo Atanásio. Com grande dor e consternação, Santo Hilário agregou à carta, em uma espécie de desesperação, a frase: “Anathema tibi a me dictum, praevaricator Liberi” (Eu te digo ‘anátema’, prevaricador Libério), cf. Denzinger-Schönmetzer, n. 141. O papa Libério queria paz e harmonia a todo custo, incluso às expensas da verdade divina. Em sua carta aos bispos heterodoxos latinos Ursace, Valêncio e Germinius, anunciando-lhes as decisões acima mencionadas, escreveu que preferia antes paz e harmonia do que o próprio martírio (cf. Denzinger-Schönmetzer, n. 142).

“Em que contraste dramático jazia o comportamento do papa Libério frente à seguinte convicção de Santo Hilário de Poitiers: “Não conseguimos paz às custas da verdade, fazendo concessões para adquirir a fama de tolerantes. Conseguimos paz lutando legitimamente segundo as regras do Espírito Santo. Há um perigo em aliar-se secretamente com a impiedade que se adorna com o formoso nome da paz” (Hil. Ad Const., 2, 6, 2).

O beato John Henry Newman falou sobre esses lamentáveis e inusuais feitos com a seguinte afirmação sábia e equilibrada: “Se bem seja historicamente certo, não é de nenhuma maneira doutrinariamente falso que um papa, como doutor privado, e muito mais os bispos, quando não ensinam formalmente, possam errar, tal como vemos que erraram no século quarto. O papa Libério podia assinar a fórmula Eusebia em Sirmium, e a missa dos bispos em Ariminum ou outro lugar, e apesar desses erros continuar sendo infalível em suas decisões ex cathedra.” (The Arians of the Fourth Century, London, 1876, p. 465).

Os quatro cardeais, com sua voz profética demandando clareza doutrinária e pastoral, têm um grande mérito diante de suas próprias consciências, diante da história, e diante dos inumeráveis fiéis católicos simples de nossos dias, empurrados para a periferia eclesial por sua fidelidade aos ensinamentos de Jesus Cristo sobre a indissolubilidade do Matrimônio. Mas, sobretudo, os quatro cardeais têm um grande mérito aos olhos de Jesus Cristo. Devido à coragem de suas palavras, seus nomes brilharão resplandecentes no dia do Juízo Final. Eles obedeceram à voz de suas consciências, recordando o que dissera São Paulo: “Nada podemos fazer contra a verdade, mas somente a favor desta” (2 Cor 13, 8). Seguramente, no Juízo Final, os já mencionados críticos dos quatro cardeais, em sua maioria clérigos, não terão uma resposta fácil a dar por seu ataque violento ao justo, valioso e meritório ato destes quatro membros do Sagrado Colégio Cardinalício.

As seguintes palavras inspiradas pelo Espírito Santo retêm seu valor profético, especialmente diante da crescente confusão doutrinal e prática a respeito do sacramento do Matrimônio em nossos dias: “Porque virá um tempo em que os homens não suportarão mais a sã doutrina, mas sim, com ânsias de ouvir novidades, se darão mestres que agradem sua concupiscência. Apartarão o ouvido da verdade, para voltá-lo às fábulas. Por tua parte, sê sóbrio em tudo, suporta o adverso, faz obra de evangelista, cumpre bem teu ministério” (2 Tim 4, 3-5).

Que todos aqueles que, em nossos dias, levam a sério seus votos batismais e suas promessas sacerdotais e episcopais, recebam a fortaleza e a graça de Deus para reiterar, junto com Santo Hilário, as palavras: “Que fique eu para sempre no exílio, desde que a verdade comece a pregar-se outra vez!” (De Syn., 78). Desejamos de todo coração essa fortaleza e graça aos quatro cardeais, assim como aos que os criticam.

+ Athanasius Schneider, Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Santa Maria en Astana

23 novembro, 2016

Uma guerra civil está em curso na Igreja.

Por Marco Politi, Il Fatto Quotidiano, 21 de novembro de 2016 | Tradução: FratresInUnum.com: Papa Francisco fechou a Porta Santa, mas a sua mensagem é acompanhada pelo ruído de uma crise subterrânea. Uma guerra civil está em curso na Igreja. Um confronto que toca a autoridade do pontífice e seu programa de reformas. Estão em jogo visões opostas sobre o papel da Igreja, o “pecado”, a salvação das almas. E como em todas as guerras civis, o conflito não contempla concessões.

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Quatro cardeais escolheram estes dias para colocar diretamente sob acusação  a teologia de Francisco e seu documento pós-sinodal Amoris Laetitia (que abre o caminho para a comunhão de divorciados novamente casados). Os cardeais atribuem a Bergoglio ter semeado entre os fiéis “a incerteza, confusão e perplexidade” e pedem para que ele “lance luz” sobre o documento. Na carta, no estilo de disputas teológicas, são anexadas os chamados Dubia: “Perguntas sobre questões controversas”.

Com um gesto que tem o sabor de um desafio, a carta foi enviada “para informação” também ao responsável oficial da ortodoxia, o cardeal Gerhard Müller, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.

Trata-se de um acontecimento absolutamente sem precedentes na história moderna do papado. E a primeira coisa que chama a atenção é o silêncio constrangedor da hierarquia eclesiástica. Nem um cardeal se contrapôs publicamente à sua tese, nem um presidente de Conferência Episcopal, ou um dirigente de uma grande Associação Católica [ndt: posteriormente à divulgação deste artigo, o presidente da Conferência Episcopal da Grécia atacou duramente os cardeais]. E de pensar que, encarando o papel da consciência do qual fala Francisco, os quatro cardeais afirmam que em tal caso, arrisca-se a chegar ao ponto em que se tornam concebíveis “casos de adultério virtuosos, homicídio legal e perjúrio obrigatório”.

Dois dos cardeais são membros da Cúria: o alemão Walter Brandmüller, ex-presidente do Pontifício Comitê de Ciências Históricas, e o norte-americano Raymond Burke, ex-presidente do Tribunal da Assinatura Apostólica. E dois são arcebispos eméritos de dioceses importantes: Carlo Caffara, um dos prediletos de  João Paulo II e Bento XVI, e até 2015 pastor de Bolonha, e Joachim Meisner, um íntimo do Papa Ratzinger, que até 2014 dirigiu a diocese de Colônia.

Liquidar a carta – a qual Francisco respondeu indiretamente em uma entrevista ao Avvenire, denunciando um “certo legalismo que pode ser ideológico – como sendo o lamento de quatro ultra-conservadores é não compreender o confronto subterrâneo que tem se desenvolvido na Igreja Católica nos últimos dois anos. Os quatro são apenas a ponta do iceberg, que está se alargando e se espalhando. Eles também falam por muitos que não se expõem.

Durante anos, os meios de comunicação não entenderam a profundidade do movimento anti-Obama, que provocou em 8 de novembro passado a derrota de sua política. Agora, arriscam repetir o mesmo erro com Francisco. Deslumbrados com o seu carisma e o consenso planetário que goza até mesmo entre os agnósticos e não-crentes, muitos ignoram a escalada sistemática daqueles entre o clero, os bispos, o colégio de cardeais que contestam a teologia da misericórdia do pontífice.

Entre os dois Sínodos houve uma mudança de acento fundamental. Enquanto nas últimas décadas, entre o confronto entre reformistas e conservadores, o pontífice permanecia como “árbitro” para a maioria da hierarquia da Igreja, hoje, ao invés, o Papa tornou-se a parte em causa. Basta ler a última entrevista do Cardeal Burke. A Amoris Laetitia diz ele, “não é o Magistério, pois contém graves ambiguidades que confundem os fiéis e pode induzi-los ao erro e pecado grave. Um documento que apresenta esses defeitos não pode ser ensinamento perene da Igreja“.

Em dois anos, tem havido um crescimento de ações dissidentes. Antes do Sínodo de 2014, cinco cardeais escreveram um livro em defesa da doutrina tradicional sobre o matrimônio. Em seguida, intervieram com outro livro 11 cardeais de todo o mundo, incluindo personalidades importantes, reconhecidas entre o clero e episcopado. Enquanto isso, cerca de 800 mil católicos, incluindo 100 bispos, assinaram uma petição ao Papa pedindo um bloqueio das inovações. No Sínodo de 2015, 13 cardeais escreveram a Bergoglio questionando a direção que estava tomando a assembleia.

Um movimento sistemático de contestação em que o reformador fez frente apenas timidamente. E, de fato – embora muitos desejam esquecer – na votação no Sínodo de 2015 sobre a Família, foram rejeitadas as teses de uma via penitencial que reconhecesse abertamente a possibilidade de comunhão para divorciados novamente casados. A maioria tradicional deste parlamento mundial de bispos disse “não”. Nesse meio tempo surgiu uma rede de cardeais, bispos, sacerdotes, teólogos e leigos empenhados, signatários de uma “declaração de fidelidade ao ensinamento perene da Igreja sobre o casamento.” Posteriormente, 45 teólogos escreveram (anonimamente) ao Colégio dos Cardeais, sugerindo que certas interpretações da Amoris Laetitia poderiam ser “heréticas”.

O movimento anti-Bergoglio trabalha sobre o tempo. Nos Estados Unidos, a escalada silenciosa subestimada contra Obama levou à derrota dos democratas. Na Igreja Católica, o que está em jogo é o futuro conclave. Hoje, o historiador da Igreja Alberto Melloni  fala de “isolamento” do pontífice. E Andrea Riccardi, outro historiador, diz que nunca no século XX um pontífice encontrou tanta oposição entre os bispos e o clero.

Na guerra civil em curso na Igreja, o objetivo é o pós-Francisco: não deverá subir ao trono papal um homem que leve a cabo o desenvolvimento das reformas iniciadas.
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