16 julho, 2016

Reflexões sobre temas da Sagrada Escritura: Amor confiante (V).

“O Filho do Homem veio salvar o que se tinha perdido” (Mt 18, 11).
“Sou Eu, não temais” (Lc 24, 36).

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

Continuação da Conferência do P. Mateo Crawley-Boevey

“Precisamente porque justo, o Senhor deve ser muito mais Pai e Mãe e não Juiz tremendo. Justamente porque sabe quem sou, porque sabe onde termina minha malícia e onde começa minha debilidade e ignorância. Por isso dizia Teresinha: “Eu me confio tanto à justiça de Deus, e espero tanto dela quanto de sua Misericórdia”. E é eminentemente teológico. Creio tanto mais na misericórdia que prego, quanto mais firmemente creio na Justiça e equidade do Rei da Glória.

Jesus flageladoJustiça não quer dizer sempre e ainda menos exclusivamente “rigor e castigo”, e sim equidade.  Deus, porque é justo, deve dar-me às vezes ternura e compaixão, e outras vezes, castigo. Mas de fato, em virtude da ordem estabelecida por um Deus Crucificado, Ele é neste desterro muito mais paternal e compassivo que Juiz inclemente.

Quereis disto um prova simples e eloquente? Se o leitor destas linhas cometeu, por suposição, um só pecado mortal em sua vida, – e se cá embaixo, Deus fosse inexoravelmente severo e rigoroso – por que sua alma não está já no inferno, tão justamente merecido?

Por que saboreia agora o pão de mel, o pão de fortaleza desta doutrina salvadora, por que? Ah! Será diferente quando, cerrando os olhos, cairmos na outra margem da eternidade, diante do Tribunal Supremo…

Lá em cima, consumada a obra de misericórdia, ser-nos-á feita a justiça a frio. Mas por enquanto, aqui embaixo, “onde abundou o pecado, superabundou a graça” (Rom 5, 20) e a misericórdia. Eis aqui uma lindíssima história ou lenda, sobre um Crucifixo milagroso. Aos seus pés, chora, confessando-se, um pecador sinceramente arrependido. Eram tantos os seus pecados, que o confessor vacila por um momento, em dar-lhe a absolvição. Mas, vencido pelas lágrimas, “Absolvo-te, lhe diz, mas cuidado em não recair!”

Passado bastante tempo, volta o penitente.

– Lutei com vontade, mas tive um momento de vertigem, de fraqueza, recaí…” Confundido, volta imediatamente a reconciliar com Deus.
– Não, lhe diz o confessor, desta vez não posso absolver-te!”
– Mas, Padre, tenha pena de mim! Pensa que sou apenas um convalescente de grave e demorada enfermidade… Por piedade, sou sincero!”

A muito custo, e depois de severas recriminações, tornou a dar-lhe a absolvição. O penitente estava deveras arrependido, mas o hábito de tantos anos de pecado, a natureza toda comprometida, envenenada pelo vício, dá por terra uma terceira vez com os seus propósitos, depois de longo tempo de perseverança. Procura com simplicidade e confiança o confessor, quer reabilitar-se.

– “Não posso”, diz o sacerdote, e levanta-se para sair, procurando desvencilhar-se do penitente que o segura com ambas as mãos. Neste momento, ouve-se um gemido de imenso amor e compaixão imensa… Levantaram, os dois, os olhos ao mesmo tempo e, que vêem? O peito do Crucificado erguido por um soluço de emoção, os olhos cheios de lágrimas e ainda, – ó prodígio! – a mão direita solta. E ouvem Sua voz suavíssima, que diz em soluços trançando a cruz: “Eu, sim, perdoo-te, que me custaste meu sangue!”

Não me detenho em averiguar se o fato é histórico em lendário, que pouco me importa. O que me encanta é a lição, a doutrina. O Senhor é suave e bom, compassivo e terno, é misericordioso num grau que não imaginamos, “porque a esse Jesus, custamos os Seu Sangue!” Fora, portanto, fora coma as aberrações do jansenismo, gás asfixiante, deletério, que, apesar dos anátemas, continua fazendo estragos em casas religiosas e nas alma mais puras e delicadas! Lembrai-vos sempre de que o grande respeito é o grande amor. E o amor, quando é profundo e grande, traz infalivelmente consigo imensa confiança.

Vivemos sob o império da graça, por felicidade imerecida. Por favor do céu, não somos judeus de espírito. Nascemos do lado de cá do Calvário. A falta de confiança é uma grande ingratidão, e falta de simplicidade e abandono. Sede mais crianças com vosso Pai que está nos céus. Reconhecei vossos defeitos, mas não vos deixeis sufocar ou desanimar por eles. Ao contrário, fazei como o Senhor, tirai partido da doença e da miséria, para Sua glória e vosso bem. Que santo, com exceção da Imaculado, não teve defeitos? Arrojai-os ao braseiro do Coração de Jesus… e queimai-vos, vós também, depois deles.

Conheceis aquela conversa de Jesus com S. Jerônimo?

– Jerônimo, diz o Senhor, queres me dar um presente?
– Mas, Senhor, responde o Santo, já não vos dei tudo? Minha vida, meus bens, minhas energias, meus sofrimentos, minha felicidade, minha alma, tudo é vosso, e só vosso.
– Jerônimo, dá-me mais uma coisa.
– O que, Senhor, o quê? Haverá sequer uma fibra do meu coração que não vos pertença?
– Jerônimo, Jerônimo, dá-me uma coisa que ainda não é minha. Guardas ainda, para ti, algo que devia ser meu…
– Falai, Senhor, pedi. De que se trata?
– Jerônimo, dá-me os teus pecados!

Dai-os, confiai-os a Ele, como pó, como lepra, que Ele parece procurar com afã de Médico e de Salvador. “Levai-os, dizei-Lhe, levai-os todos, com as raízes, e para sempre! Creio em vosso Amor, abandono-me ao Vosso Coração. Venha a nós o Vosso Reino!”

E ficai sabendo que falando desta forma, não pretendo camuflar ridiculamente vossos defeitos, dissimulara fealdade e o número deles, não! A humildade deve ser a verdade. (A conferência continua e terminará no próximo artigo).

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15 julho, 2016

O epílogo do entreguismo.

Por José Carlos Sepúlveda – 14 de Julho: a data simbólica do início da Revolução Francesa, a tomada da Bastilha! Um evento cheio de mistificações revolucionárias, que deu origem ao processo que destruiria o Trono e o Altar, sob a lâmina implacável da guilhotina… tudo em nome da Liberdade e da Fraternidade.

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227 anos depois, a França das liberdades sofre mais um atentado devastador. Enquanto muitos comemoravam, com fogos de artifício, a tomada da Bastilha, o assassino, o terrorista islâmico veio covardemente espalhar o caos e a morte.

Mas, a França e o Ocidente, dirigido por líderes cúmplices, alimentado por uma mídia “multicultural” e embalado, infelizmente, por tantas vozes eclesiásticas mornas, acha que só o entreguismo festivo, por meio de “silêncios prudentes” e de “concessões oportunas”, vencerá este, como outros inimigos.

É preciso, isto sim, que, nas hostes dos homens que têm Fé, ressurja o espírito da cavalaria em seus melhores aspectos, o idealismo excelso, a coragem leonina, o menosprezo dos pequenos cálculos de oportunidade.

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14 julho, 2016

Quando toda a Europa viu-se excomungada.

Por Roberto de Mattei, Corrispondenza Romana, 13-07-2016 | Tradução: FratresInUnum.com – Houve uma época em que toda a Europa cristã ficou excomungada, sem que ninguém fosse herege. Tudo começou em 27 de março de 1378 quando, quatorze meses após seu regresso de Avinhão, o Papa Gregório XI veio a falecer em Roma. No conclave,  que se desenrolou pela primeira vez no Vaticano depois de 75 anos, participaram dezesseis dos vinte e três cardeais então existentes na Cristandade, a grande maioria dos quais franceses, consequência do longo período avinhonês.

grande_scisma_1378-361x278No dia 8 de abril,  o Sacro Colégio elegeu para o sólio pontifício o Arcebispo de Bari, Bartolomeo Prignano, douto canonista de costumes austeros,  que não era cardeal e por isso estivera ausente do conclave. Naquele mesmo dia o povo irrompe no conclave, para reclamar a eleição de um Papa romano, mas os cardeais não ousaram anunciar a eleição já ocorrida, fazendo crer que o eleito havia sido o velho cardeal Francesco Tiabldeschi,  natural de Roma. Contudo, no dia seguinte, Bartolomeo Prignano foi entronizado, assumindo o nome de Urbano VI (1378-1389), e em 18 de abril era coroado regularmente em São Pedro.

Aconteceu, contudo, de se reunirem no mês de julho, na cidade de Anagni, doze cardeais franceses e o aragonês Pedro de Luna, que deram a lume em 2 de agosto uma declaratio na qual a Sé romana era definida como vacante, e a eleição de Urbano VI como inválida, porque extorquida pelo povo romano mediante rebelião e tumulto. Em 20 de setembro, na catedral de Fondi, foi eleito como novo Papa o cardeal Roberto de Genebra,  que tomou o nome de Clemente VII (1378-1394). Este último, após uma vã tentativa de ocupar Roma, sediou-se novamente em Avinhão, dando início ao “Grande Cisma do Ocidente”.

A diferença entre o Cisma do Ocidente e o Cisma do Oriente que em 1054 dividiu a Cristandade, é que este último foi um cisma no sentido verdadeiro e estrito do termo, uma vez que os ortodoxos se negavam e se negam reconhecer o Primado do Papa,  Bispo de Roma e Pastor da Igreja universal. O Cisma do Ocidente, pelo contrário, foi um cisma material, mas não formal, porquanto não houve da parte de nenhuma das duas facções vontade de negar o Primado pontifício. Urbano VI e Clemente VII, e posteriormente seus sucessores, estavam convictos da legitimidade de sua eleição canônica e em nenhuma das partes  em  conflito havia erros doutrinários. Hoje a Igreja assegura que os Papas legítimos foram Urbano VI e seus sucessores, mas não era então fácil discernir o legítimo Vigário de Cristo.

Em 1378, a Cristandade se divide assim em duas “obediências”. Enquanto a França, a Escócia, Castela, Portugal, Saboia, Aragão e Navarra reconheceram Clemente VII,  a Itália setentrional e central, o Império, a Inglaterra, a Irlanda, a Boêmia, a Polônia e a Hungria permaneceram fiéis a Urbano VI. Durante mais de quarenta anos os católicos europeus viveram um drama cotidiano. Não somente havia dois Papas e dois colégios cardinalícios, mas com frequência dois bispos numa mesma diocese, dois abades num mosteiro e dois párocos numa paróquia. E como ambos os Papas se excomungaram reciprocamente e aos respectivos seguidores,  todo fiel na Cristandade achava-se excomungado por um deles

Até os santos se dividiram. No lado oposto a Santa Catarina de Siena e a Santa Catarina da Suécia, filha de Santa Brígida, que sustentavam Urbano VI, estavam São Vicente Férrer, o bem-aventurado Pedro de Luxemburgo e Santa Coleta de Corbie, que aderiram à obediência de Avinhão.  A situação era confusa como nunca e não se podia encontrar uma saída.

Quando em 16 de setembro de 1394 morreu repentinamente Clemente VII, Papa de Avinhão, pareceu ter chegado o momento de desatar o nó. Bastaria que os cardeais franceses não procedessem à eleição de um novo Pontífice e que o Papa de Roma, Bonifácio IX (1389-1404), que sucedeu a Urbano VI, se demitisse. Em vez disso, os cardeais elegeram um novo Papa em Avinhão, Pedro de Luna, homem austero, mas obstinado, que reivindicou com força os seus direitos e reinou durante 22 anos com o nome de Bento XIII (1394-1422). Por sua vez, a Bonifácio IX sucederam os Papas “romanos” Inocêncio VII (1404-1406) e Gregório XII (1406-1415).

As discussões, entretanto, continuavam a se desenvolver entre os teólogos. O ponto de partida foi a famosa passagem do decreto de Graciano, que dizia: “O Papa tem o direito de julgar a todos, mas não pode ser julgado por ninguém, a menos que não se afaste da fé” (A nemine est judicandus, nisi deprehenditur a fide devius – Dist. 400, c. 6). A regra de que ninguém pode julgar o Papa (Prima sedes non judicabitur) admitia, e admite, uma só exceção: o pecado de heresia. Tratava-se de uma máxima sobre a qual todos estavam de acordo e que podia ser aplicada não só ao Papa herético, mas também ao Papa cismático. Mas quem era o culpado do cisma?

Muitos, para resolver o problema, caíram num erro grave e perigoso: a doutrina da conciliarismo, segundo a qual um Papa herege ou cismático pode ser deposto por um Concílio, porque a assembléia dos bispos é superior ao Papa. Os principais expoentes desta doutrina foram o chanceler da Universidade de Paris, Pierre d’Ailly (1350-1420), mais tarde cardeal de Avinhão, e o teólogo Jean Charlier de Gerson (1363-1429), que também foi reitor e professor da Universidade de Paris.

Essa falsa tese eclesiológica levou alguns cardeais das duas obediências a procurar a solução em um Concílio geral inaugurado em Pisa no dia 25 de março de 1409 com a finalidade de convidar os dois Papas a abdicar, e de depô-los caso se recusassem. Assim aconteceu. O Concílio de Pisa,  que se declarou ecumênico e representante de toda a Igreja universal, depôs os dois Papas rivais como “cismáticos e hereges”, e declarou vacante a Sé romana. Em 26 de junho, o Colégio dos Cardeais elegeu um terceiro Papa, Pietro Filargo, Arcebispo de Milão, que tomou o nome de Alexandre V (1409-1410) e foi sucedido no ano seguinte por Balthazar Cossa, que adotou o nome de João XXIII (1410-1415). O verdadeiro Papa só podia ser um, mas naquele momento não estava claro quem fosse, nem para os teólogos, nem para os fiéis.

João XXIII, com o apoio do imperador alemão Sigismund (1410-1437), tomou a iniciativa de um novo Concílio, que se abriu na cidade imperial de Constança no dia 5 de novembro 1414. O prelado tinha como objetivo ser reconhecido como o único Papa, confirmando o Concílio de Pisa, do qual extraía a sua legitimidade. Para este fim, ele havia criado muitos purpurados italianos, que o apoiavam. A fim de poderem vencer a maioria italiana, os franceses e os britânicos conseguiram fazer com que o voto fosse expresso não por capita singulorum, ou seja, por cabeça, mas por nationes, por grupos nacionais. Foi reconhecido direito de voto à França, à Alemanha, à Inglaterra, à Itália e, mais tarde, à Espanha, as cinco maiores nações europeias desse tempo.

Tratou-se de um princípio profundamente revolucionário. Em primeiro lugar, as nações ou os partidos políticos entraram, de fato, vigorosamente na vida da Igreja, subvertendo a relação de dependência que sempre tiveram com Ela nas questões religiosas. Em segundo lugar e sobretudo, ao se pretender atribuir decisões deliberativas ao voto dos Padres conciliares, foi minado o princípio de que o Papa é o árbitro supremo, moderador e juiz do Concílio.

Ao perceber João XXIII que o Concílio não queria confirmá-lo como Papa, fugiu de Constança na noite de 20 para 21 de março de 1415, mas foi recapturado, deposto como simoníaco e pecador público, e excluído, juntamente com os outros dois Papas, da futura eleição.

Em 6 de abril de 1415 a Assembléia emitiu um decreto, conhecido como Haec Sancta, declarando solenemente que o Concílio, assistido pelo Espírito Santo, representava toda a Igreja militante e hauria seu poder diretamente de Deus; por isso todos os cristãos, inclusive o Papa, eram obrigados a obedecer-lhe. Completou-o em nível disciplinar o decreto Frequens, de 9 de outubro de 1417, pelo qual os Concílios Ecumênicos deviam permanecer uma instituição eclesiástica estável e, em consequência, como escreve o historiador Hubert Jedin, “uma espécie de instância de controle sobre o papado”.

Haec Sancta é um dos documentos mais revolucionários da história da Igreja, porque nega o primado do Romano Pontífice sobre o Concílio. Este texto, reconhecido inicialmente como autêntico e legítimo, só mais tarde foi rejeitado pelo Magistério Pontifício.

Nessa situação caótica, o Papa romano Gregório XII concordou em abdicar. Foi a última renúncia ao trono papal anterior à de Bento XVI. Gregório XII perdeu todas as prerrogativas pontifícias, como sucede ao Papa que, por razões excepcionais, deixa o governo da Igreja. O Concílio reconheceu-o como cardeal e nomeou-o bispo de Porto e legado estável na Marca de Ancona, mas Gregório, antes que o novo Papa fosse eleito, morreu aos 90 anos em Recanati, em 18 de outubro 1417. Bento XIII, o Papa de Avinhão, permaneceu inflexível, mas foi abandonado até mesmo pelos países da sua obediência, deposto como perjúrio, cismático e herético em 26 de julho de 1417.

Os cardeais das duas obediências reunidos elegeram finalmente, em 11 de novembro 1417, o novo Papa, Oddone Colonna, romano, que tomou o nome de Martinho V (1417-1431) em honra do santo que se festejava no dia da eleição. O Grande Cisma do Ocidente terminava e a paz parecia ter atingido a Igreja, mas o pós-Concílio reservava surpresas amargas ao sucessor de Martinho V. (Roberto de Mattei)

13 julho, 2016

A aposentadoria de Lombardi.

Papa nomeia ex-correspondente da Fox News como porta-voz do Vaticano. Greg Burke irá assumir o cargo juntamente com Paloma Garcia Ovejero, como vice-responsável por uma revisão geral da operação de comunicações.

Por The Guardian | Tradução: FratresInUnum.com: O Vaticano nomeou um ex-jornalista da Fox News e membro do controverso grupo Opus Dei como seu principal porta-voz, enquanto uma jornalista espanhola atuará como vice.

 

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Pe. Lombardi e Greg Burke.

A nomeação de Greg Burke, 56, foi anunciada seguindo a renúncia de Federico Lombardi, padre jesuíta que atuou como porta-voz do papa Francisco e de seu predecessor, Bento XVI.

Burke trabalhou mais de uma década como correspondente da Fox News em Roma antes de ser contratado pelo Vaticano, em 2012, como assessor de comunicação. Em dezembro, o americano foi instalado como vice-diretor do escritório de imprensa.

Embora Burke não seja membro do clero, o Vaticano ressaltou, na segunda-feira, que o nativo da cidade americana de St. Louis é proveniente de uma família católica tradicional. Como estudante na Universidade de Columbia em Nova York, ele se tornou um membro do Opus Dei, uma organização católica conservadora que tem enfrentado críticas por causa de sigilo e de seus métodos de recrutamento.

Em outra mudança considerada dramática para a Santa Sé, a espanhola Paloma García Ovejero foi contratada como o vice-diretora da Sala de Imprensa. Em seu papel como porta-voz para a mídia do mundo, García Ovejero, 40 anos, natural de Madrid, em breve se tornará uma das mulheres mais proeminentes na hierarquia do Vaticano.

García Ovejero, desde 2012, atua como correspondente no Vaticano para mídia espanhola e também possui experiência americana, tendo estudado na Universidade de Nova Iorque.

A nomeação de dois estrangeiros marca uma mudança significativa na administração do Vaticano, conhecida como a Cúria Romana, que por séculos foi dominada pelos italianos. Ambos são poliglotas e falam o idioma do pontífice argentino, o espanhol, enquanto García Ovejero, segundo dizem, também tem conhecimento da lingua chinesa, uma habilidade notável, já que Francisco manifestou o desejo de visitar a China.

Elogios foram derramados sobre Lombardi. O porta-voz de 73 anos, que se encontra de saída, vinha diminuindo sua carga de trabalho e em fevereiro deixou o cargo de diretor-geral da Rádio Vaticano.

Thomas Rosica, assistente da assessoria de imprensa de língua inglesa, disse que ele tinha compartilhado “experiências eclesiais profundamente comoventes” com Lombardi nos últimos anos. “Eu aprendi muito com sua maneira suave, calma, o seu sensus Ecclesiae, o seu humor e sua capacidade de versatilidade com tanta serenidade,” Rosica escreveu no Facebook.

O padre jesuíta James Martin, editor da revista America, agradeceu Lombardi por seu ministério “incansável”. “Amável, trabalhador, orante: um modelo de jesuíta”, escreveu Martin no Twitter.

13 julho, 2016

Cardeal Christoph Schönborn e o convite explícito ao sacrilégio.

O arcebispo de Viena, entrevistado pelo Padre Spadaro, remove qualquer ilusão das “belas almas”:”Amoris Laetitia é “magistério”. E como! Ele ainda acrescenta: em “certos casos” quem está numa situação objetiva de pecado pode receber os sacramentos. E isso é chamado, gostem ou não,  passe livre para o sacrilégio.

Por Paolo Deotto – Riscossa Cristiana | Tradução: FratresInUnum.comO argumento “astuto” com o qual as “belas almas” (vamos chamá-las assim, por delicadeza …) até agora tentaram justificar as declarações incríveis contidas na Amoris Laetitia eram as seguintes: A. L. não é magistério, é a “opinião” do Pontífice sobre a família.

zschAfirmação grotesca, é claro, e em todo caso contraditória, porque é muito estranho que um Papa possa ter uma “opinião” pessoal sobre argumentos de fé e doutrina. Temos então o caso singular de um Papa que em alguns casos pode ser o Doutor Jekyll e, em outros, Mr. Hyde [ndt: referência ao filme “O médico e o monstro“, . Quando ele sai em viagem, dá uma de Mr. Hyde, disparando tranquilamente afirmações heréticas por todos os lados.

 

De resto, cabe às “belas almas” resignarem-se. Algumas, por um mal entendido dever de ofício (“afinal, o chefe tem sempre razão”), outras por servilismo, outras ainda pela incapacidade congênita de raciocínio,  mas, no entanto, todos sem exceção tentando dar nó em goteira pra fazer do círculo um quadrado.

 

O jornal Corriere publicou um trecho da entrevista em que o cardeal Christoph Schönborn, Arcebispo de Viena, concedeu ao Padre Antonio Spadaro, diretor da revista dos jesuítas, Civilta Cattolica. Bem, o entrevistado, e é bom que seja lembrado (…), o qual foi de fato nomeado como o intérprete autêntico da  A. L. , já foi removendo imediatamente todas as ilusões. O que faz com que os argumentos dos caçadores de desculpas desmoronem desastrosamente:  

 

“É claro que este é um ato do Magistério! É uma exortação apostólica. É claro que aqui o Papa exerce o seu papel de pastor, mestre e doutor da fé, depois de ter-se beneficiado da consulta dos dois sínodos. Eu acho que, sem dúvida, deveríamos falar de um documento papal de alta qualidade, uma autêntica lição de doutrina sagrada, que nos reconduz à atualidade da Palavra de Deus. Amoris Laetitia é um ato de magistério que torna atual no tempo presente o ensinamento da Igreja”.

 

Mais claro do que isso…

 

Não tenho a pretensão de fazer aqui uma análise em profundidade da entrevista. No entanto, sinto que é apropriado concentrar-se em algumas palavras, porque elas nos mostram, com ousada clareza, como o relativismo passou agora a dominar uma certa “teologia”. Depois disso, é ótimo que A. L. seja, sem dúvida, um ato do Magistério. De “qual” magistério, é uma história bem diferente.

 

Parece ser útil ler com atenção a seguinte passagem:

 

Pergunta: O Papa afirma que “em certos casos”, quando se encontra diante de uma situação objetiva de pecado – mas sem ser subjetivamente culpado ou sem sê-lo inteiramente – é possível viver na graça de Deus. Existe uma ruptura com o que foi afirmado no passado?

 

Resposta: O Papa nos convida a não olhar apenas para as condições exteriores, que têm sua própria importância, mas a nos perguntarmos se temos sede do perdão misericordioso, a fim de melhor respondermos ao dinamismo da graça santificante. A passagem entre a regra geral e os “certos casos” não pode ser feita apenas considerando situações formais. Por conseguinte, é possível que, em certos casos, o que é uma situação objetiva de pecado possa receber a ajuda dos sacramentos. 

 

Eis aqui oficializadas as novas e interessantes categorias: a “situação objetiva do pecado”, em que, no entanto, não se pode ser “subjetivamente culpado”, ou sê-lo mas “não inteiramente.” Ao caos certamente não casual da pergunta, segue-se o caos, certamente não casual, da resposta.

 

E assim aprendemos que se pode estar em pecado, mas não estar, ou estar em pecado, mas não completamente em pecado, uma vez que se faça uma curiosa distinção entre a situação “objetiva ” e “subjetiva” de pecado. E quem é culpado, “sem sê-lo completamente”, o que deveria fazer? Um arrependimento, mas só percentual? De qualquer forma, em “certos casos” (quais? Não sabemos!) quem está numa situação objetiva de pecado (não se especifica se é subjetivamente culpado ou apenas parcialmente) pode receber “a ajuda dos sacramentos”.

 

Mas a única “ajuda” que o pecador pode receber não é a absolvição, precedida da confissão? E essa confissão envolve arrependimento sincero e o propósito de não continuar no pecado.

 

Não, aqui se fala  de “sacramentos”, no plural, e desde que há muito tempo se cogitava, perdão, debatiam, sobre a comunhão para divorciados novamente casados, aqui descobrimos que praticamente todos podem receber a comunhão, porque o caos aparente das situações “objetivas”,”subjetivas”, não é totalmente objetivo, em última análise inclui tudo e todos. A imprecisão de “certos casos”, obviamente, deixa a porta aberta para diferentes interpretações.

 

Resta, no entanto, o fato é incontestável, de que “quem come o pão e bebe o cálice do Senhor indignamente, come e bebe a própria condenação”. Mas, parece que isso não é mais motivo de preocupação. Evidentemente, a salvação eterna não entra mais nos interesses desta particular “neo-igreja” que expressa um novo magistério. Tanto é assim que, com as afirmações acima registradas, erga omnes, dá-se um passe livre para o sacrilégio.

 

E para fechar, eu me limito a sublinhar uma única coisa: essa bagunça (e o resto você pode ler no Corriere.it) não vem de um palhaço qualquer, na onda de estranhezas para-teológicas. Ela vem do Cardeal Christoph Schönborn, arcebispo de Viena, indicado pela autoridade máxima(…) como o melhor intérprete da A. L.

 

É tudo tão terrivelmente claro. Deus nos salve.

11 julho, 2016

Reforma de um mínimo suspiro de tentativa de reforma da reforma. 

Nota do Fratres: Nada mais do que o esperado por parte da Sala de Imprensa da Santa Sé. O demissionário padre Lombardi — descanse em paz –, desmentidor oficial do Vaticano, rápido em rechaçar qualquer vestígio de ortodoxia e sonolentíssimo em fustigar enganos, não fez mais do que o seu papel. Nada havia a ser esclarecido. O bom cardeal Sarah foi claríssimo quando apenas sugeriu uma mudança, sem valor oficial. Mas, é fundamental, imperioso, defender as reformas pós-conciliares contra o menor sussurro dos restauracionistas.

Cardeal Sarah

Cardeal Sarah

Não se deve esquecer que, há pouco mais de um ano, o Papa Francisco, comemorando o aniversário da primeira missa em italiano celebrada por Paulo VI, disse, referindo-se aos que defendem uma “reforma da reforma”:

Vamos agradecer ao Senhor pelo que Ele tem feito na sua Igreja nestes 50 anos de reforma litúrgica. Foi realmente um gesto corajoso para a Igreja se aproximar do povo de Deus para que eles pudessem entender o que estavam fazendo. Isso é importante para nós, seguir a missa dessa forma. Não é possível voltar atrás. Devemos sempre ir adiante. Sempre adiante! E aqueles que querem voltar atrás estão enganados. Sigamos adiante neste caminho.

É importante ressaltar que a fala do cardeal guineense, pela clareza que incomoda a atual hierarquia, mobilizou, numa velocidade insólita, todo o aparato modernista-eclesiástico de apologetas do “espírito do Concílio”. Primeiro, foi Dom Vincent Nichols, o ultra-progressista arcebispo de Westminster, sede do encontro em que discursou Sarah, a escrever imediatamente a seus padres, instando-os ao não seguir o pedido do prefeito da liturgia. Um gesto nada elegante de “comunhão episcopal” nada fraterna.

Até no Brasil, o Cardeal Arcebispo de São Paulo, privadamente, demonstrou ceticismo e minimizou as notícias acerca do discurso de Sarah, afirmando ser um gosto particular do prefeito e não um ato oficial do Vaticano, e que uma tal mudança significaria rever o estabelecido pelo Vaticano II — da nossa parte, é inacreditável que um Cardeal ignore que o Vaticano II, em sua Constituição sobre a Sagrada Liturgia Sacrosanctum Concilium, nada tenha disposto sobre a posição do altar.

Por fim, a reunião de Francisco e Sarah logo após a conferência do purpurado em Londres já estava na agenda? Ou foi um chamado à ordem? Esperamos que a primeira alternativa seja a verdadeira. No entanto, alguns analistas associaram o duro discurso de Francisco, chamando de “hereges e não católicos” os que afirmam “‘é isso ou nada’”, ao livro “Deus ou nada”, do Cardeal Robert Sarah (cujo prefácio de Bento XVI desapareceu misteriosamente).

* * *

Celebração da Missa, nenhuma mudança dos altares

O cardeal Sarah, durante uma conferência em Londres havia convidado os sacerdotes a celebrar voltados ao Oriente, de costas para o povo. Após um esclarecimento com o Papa, a nota de Lombardi.

Por Andrea Tornielli – La Stampa | Tradução: FratresInUnum.com: Parecia mais que um convite, porque a falar sobre isso, se bem que durante uma conferência e não como um ato oficial, foi o cardeal Robert Sarah, Prefeito da Congregação para o Culto Divino. O cardeal Africano, há uma semana, em Londres, na abertura da conferência Sacra Liturgia, havia lançado uma espécie de apelo a todos os sacerdotes do mundo, convidando-os a começarem, no primeiro domingo do Advento, em novembro, a celebrar a missa “versus Orientem”, isto é, com o altar voltado para o leste, de costas para o povo, como se usava antes da reforma conciliar. “É muito importante que voltemos, o mais rápido possível para uma direção comum, sacerdotes e fiéis voltados na mesma direção, para o oriente, ou pelo menos para a abside, para o Senhor que vem”, disse ele, acrescentando: “Peço-vos aplicar esta prática sempre que possível “.

As palavras de Sarah reverberaram em todo o mundo, encontrando apoio entusiástico nos sites e nos assim chamados blogs tradicionalistas, mesmo porque o cardeal tinha acrescentado que iria começar, de acordo com o Papa, um estudo para se chegar a uma “reforma da reforma” litúrgica, visando melhorar a sacralidade do rito. Um dia após a conferência de Sarah, o cardeal arcebispo de Westminster, Vincent Nichols, escreveu uma carta a seus sacerdotes, instando-os a não celebrar a Missa voltada para o Oriente, tal como solicitado pelo prefeito do Culto Divino, também por causa da legislação em vigor sobre esse assunto.

Nos últimos dias, o Cardeal Sarah se encontrou novamente em audiência com Francisco. E na tarde de segunda-feira, 11 julho, padre Federico Lombardi, no mesmo dia em que foi anunciada a nomeação do seu sucessor, emitiu uma declaração, evidentemente em concordância com o Pontífice e o cardeal, que desmonta a validade do convite de Sarah e põe fim à expressão “reforma da reforma”, já há tempos abandonada até mesmo por Bento XVI.

“É oportuno um esclarecimento – afirma o porta-voz do Vaticano – na sequência de relatos da mídia que circularam após uma conferência realizada em Londres pelo Cardeal Sarah, prefeito da Congregação para o Culto Divino, poucos dias atrás. O Cardeal Sarah sempre esteve preocupado justamente com a dignidade da celebração da missa, de modo que seja expressa adequadamente a atitude de respeito e adoração do mistério eucarístico. Algumas de suas expressões foram, no entanto, mal interpretadas”, como se anunciassem novas indicações diferentes daquelas até agora promulgadas nas normas litúrgicas e nas palavras do Papa sobre a celebração voltada para o povo e sobre o rito ordinário da Missa.

“Portanto é bom lembrar – continua Lombardi – que a Institutio Generalis Missalis Romani (Instrução Geral do Missal Romano), que contém as normas relativas à celebração eucarística e que ainda está em pleno vigor, no nº 299, diz:”  “Altare extruatur a pariete seiunctum, ut facile circumiri et in eo celebratio versus populum peragi possit, quod expedit ubicumque possibile sit. Altare eum autem occupet locum , ut revera centrum sit ad quod totius congregationis fidelium attentio sponte convertatur”(isto é :” O altar deve ser construído destacado da parede, para que se possa facilmente circular em volta e celebrar voltado para o povo, o que é conveniente que seja realizado sempre que possível. O altar seja pois posicionado de modo a estar verdadeiramente no centro para que a atenção do fiel se volte naturalmente para a sua direção.”)

“Por sua parte, o Papa Francisco – afirma ainda o porta-voz do Vaticano – por ocasião da sua visita à Congregação para o Culto Divino, recordou expressamente que a forma” ordinária” da celebração da Missa é a prevista pelo Missal promulgado por Paulo VI, enquanto a forma “extraordinária”, que foi autorizada pelo Papa Bento XVI para as finalidades e com as modalidades por ele explicadas no motu proprio Summorum Pontificum, não deve tomar o lugar do “ordinário”.

“Não são, portanto, previstas novas orientações litúrgicas a partir do próximo Advento – esclarece Lombardi – como alguns erroneamente deduziram a partir de algumas palavras do Cardeal Sarah, e é melhor evitar o uso da expressão ‘reforma da reforma’, referindo-se à liturgia, dado que às vezes ela tem sido fonte de equívocos. Tudo isso foi expresso em concordância durante o curso de uma audiência recente concedida pelo Papa ao mesmo Cardeal Prefeito da Congregação para o Culto Divino”.

11 julho, 2016

Dom Aldo: “Pedi para conversar com o próprio papa. Mas isso não me foi concedido. Essa resposta nem veio”.

O padrão do Vaticano de Francisco se repete: um bispo tido por “conservador” e “divisivo”, que fere a “comunhão”, acusado de imoralidades por uma quadrilha eclesiástica de imorais, é instado a renunciar. O bispo tenta dialogar, clama por ser ouvido, mas não consegue sequer trocar meias palavras com o Papa da Misericórdia. 

‘Quando você mexe no bolso, vêm as reações’, diz bispo acusado de proteger padres pedófilos

Aldo di Cillo Pagotto diz que foi vítima de retaliação por investigar desvios de dinheiro na Igreja, fala da ‘infiltração’ gay no seminário e diz ter sido pressionado pelo Vaticano a renunciar

Dom Aldo Pagotto, arcebispo da Paraíba.

Dom Aldo Pagotto, arcebispo emérito da Paraíba.

Por Veja – Na última quarta-feira, o Vaticano anunciou que o papa Francisco aceitou a renúncia do arcebispo da Paraíba, dom Aldo di Cillo Pagotto. Oficialmente, dom Aldo deixou o posto por “motivos de saúde”. Mas só oficialmente. Por trás da decisão, há muito mais. Há pelo menos quatro anos, o arcebispo era investigado pelo próprio Vaticano sob suspeita de acobertar padres pedófilos. Dom Aldo também era acusado de promover orgias e de ter mantido relacionamento com um jovem de 18 anos – o que ele nega. Foi o primeiro caso, no Brasil, de um arcebispo que deixa o posto no curso de uma investigação sobre envolvimento em escândalos sexuais.

Na mesma quarta-feira, dom Aldo falou por quase duas horas a VEJA. O resultado da conversa é revelador dos bastidores da Igreja – e de segredos que, na grande maioria das vezes, graças à hierarquia e à disciplina dos religiosos, são mantidos distantes dos olhos e ouvidos do distinto público. Na entrevista, o bispo deixa evidente que, na verdade, foi obrigado a renunciar. Ele conta que, no início de junho, foi chamado a Brasília para uma conversa com o núncio apostólico, o representante do papa no Brasil. E que, naquele mesmo dia, o núncio — em nome do papa — o fez redigir a carta de renúncia.

O arcebispo se diz alvo de uma grande injustiça cometida pelo papado de Francisco e atribui a sua situação a uma disputa que tem como pano de fundo acusações de corrupção, homossexualismo, pedofilia e, quase sempre, disputa por poder.

A seguir, os principais trechos da entrevista.

Desvio de dinheiro

Dom Aldo diz que foi vítima de uma orquestração maquinada por um grupo de padres que se opunham a medidas que ele adotou desde que assumiu a Arquidiocese da Paraíba. Ao falar desses padres, cujos nomes ele se esforça para não revelar, o religioso escancara o ambiente interno conflagrado no clero – algo que a Igreja, quase sempre, consegue manter em segredo. Ele acusa os adversários de estarem envolvidos em desvios de dinheiro e de serem, eles próprios, personagens de escândalos sexuais. Na origem de tudo, diz ele, está a disputa pelo controle das finanças.

“Tudo começou porque eu tenho uma visão mais moderna. A questão administrativa e patrimonial da Arquidiocese estava bastante comprometida. Então começamos a colocar as coisas em ordem, com prestação de contas. Isso mexeu na posição de uns privilegiados. Havia coisas não muito bem resolvidas.”

“Quando você mexe no bolso, que é a parte mais delicada do corpo da pessoa, vêm as reações, que não são tão diretas no começo. Aí começam com outras acusações. Diziam que eu era financista, materialista, e que a Igreja não é só isso.”

“Essa reação partia de um grupo pequeno, mas muito bem articulado, formado por cinco padres. Passaram a acusar que o clero no estado estaria dividido, e outras coisas morais. Diziam que eu era ditador. Depois foram para os ataques pessoais de ordem afetiva e sexual. Aí foram para a baixaria mesmo, com acusações horrendas à minha pessoa e a outros padres também.”

“Esses padres têm poder financeiro. E a reação vinha justamente daí. Tudo parte de quando você quer mexer nas finanças.”

Mas esses padres estavam envolvidos com corrupção?, perguntou VEJA.

A resposta: “Havia um colégio aqui, o Pio XII, que eu tive que fechar quando cheguei porque havia uma coisa não resolvida ali. Era um colégio tradicional, de mais de 80 anos. Pedimos uma auditoria e fizeram de tudo para não fazer essa auditoria. Sempre me era aconselhado: ‘Não é bom mexer com isso’”.

Dom Aldo diz que, só nas contas da escola, havia um rombo de 1,8 milhão de reais. E quem são esses padres?

“Eu sei quem são. Alguns nomes eu levei para a Santa Sé. Pelo menos o nome de dois, entre eles o que capitaneia, eu informei à Santa Sé. São padres muito bem posicionados aqui, veteranos.”

O segredo do processo e o silêncio do papa

Alvo de denúncias cada vez mais constantes, e de uma série de dossiês enviados a Roma, dom Aldo Pagotto passou a ser formalmente investigado pelo Vaticano. O rol de acusações contra ele era extenso: além de ser acusado de proteger padres pedófilos, diziam as denúncias, teria relaxado os critérios para a aceitação de novos seminaristas. Além disso, era apontado como personagem central de um grupo de religiosos que se esbaldavam em festas e promoviam orgias sexuais. Em janeiro de 2015, já em consequência das investigações, o Vaticano impediu o arcebispo de ordenar novos padres.

“Em junho do ano passado fui ao Vaticano tirar a história limpo. Falei com o cardeal Stella (Beniamino Stella, prefeito da Congregação para o Clero — uma espécie de ministro do Vaticano). O cardeal me tratou muito bem, me escutou durante uma hora, mas disse que a resposta viria só depois de agosto e setembro e que o desfecho dependia também da Congregação para os Bispos. Comecei a cobrar e não vinha nada.”

“Em maio eu pedi para conversar com o próprio papa. Mas isso não me foi concedido. Essa resposta nem veio. Dois ou três dias depois de redigir a carta de renúncia, fiz outra carta ao papa reforçando esse pedido. Escrevi ao papa dizendo que gostaria muito de falar com ele. Ali eu ainda tinha esperança (de que a investigação pudesse ter outro desfecho). Nada.”

O chamado para renunciar

Dom Aldo revela que a renúncia não foi um ato de vontade própria. Foi uma determinação do Vaticano – uma determinação que a disciplina religiosa e o respeito à hierarquia da Igreja o obrigavam a aceitar. A renúncia era uma forma de evitar mais desgastes. A explicação oficial que viria na sequência – “motivos de saúde”— ajudaria

“Fiquei lá (na Nunciatura Apostólica, em Brasília) uma manhã inteira. A conversa com o núncio foi de pelo menos uma hora. A sós, no gabinete dele. Ele recordou todos os fatos. Eu pedi, de novo, para ter acesso ao que eu era acusado, ao relatório ou ao dossiê. Ele disse: não se pode mostrar. Então, se é assim… Ele também não disse quem acusava. Ele aconselha. Eu também tirei minhas dúvidas. Ele disse: ‘O papa está muito preocupado com você. É para o seu bem. Para o seu bem e para o bem da Igreja. Então, para o bem da Igreja e para o seu bem, você pense’. Eu cheguei a dizer: está bem, está muito certo, entendi tudo. Eu mesmo me choquei.”

“Ele me falou: ‘Olha, você faça essa carta’. É assim mesmo. Ele é o representante do papa.”

A certa altura, o arcebispo percebe que estava falando demais. E tenta se corrigir:

O senhor, então foi instado a renunciar?

“Não é bem assim…. Eu me aconselhei também. E eu aqui já dizia para alguns padres da minha insatisfação, do meu estado de saúde. Não é que recebi uma ordem: faça. Não é bem assim. A gente é livre. Eu disse a ele (ao núncio): é até interessante que eu faça (a carta), e fiz.”

O senhor acha justo o desfecho do caso?

“Não acho. Eu tenho muita dificuldade de aceitar uma coisa dessas. É muito ruim, muito ruim.”

‘Tive que limpar o seminário’

Dom Aldo Pagotto admite que havia “problemas” na Arquidiocese. Entre eles problemas, ele cita o fato de ter aceitado, como candidatos a padre, jovens homossexuais que já haviam sido rejeitados em outros seminários por “conduta inadequada”. Ele diz, porém, que fez o que tinha de ser feito: “limpou” o seminário.

“Nós tivemos problemas no seminário. Eu tive que limpar o seminário de pessoas suspeitas de comportamento não adequado.”

Em que sentido? Sexual?

“É, exatamente.”

E o que é “limpar”?

“Limpar quer dizer convidar a sair. Isso foi em 2012. Em um seminário sempre há entrada e saída de pessoas. Seminário onde só entram pessoas e ninguém sai não é bom. Tem pessoas com determinada tendência que vêm procurar seminário e você sabe que a intenção pode ser outra. Eu não posso ser julgado por isso. Na verdade, os papas todos tiveram problemas assim. O João Paulo teve problemas imensos. Depois veio Bento 16, que estatuiu normas muito caridosas, mas muito objetivas. E, agora, Francisco da mesa forma. No caso daqui, houve problemas, eu não posso negar. Mas eu fiz relatórios disso, desde o outro núncio apostólico, como estava o seminário, que tinha havido infiltração (de gays). Eu relatei a infiltração. Não escondi.”

A “infiltração” gay

“No seminário, o problema era homossexualismo. Falando abertamente, é isso. Tivemos alguns casos. O relato é de que houve infiltração, romance, defesa de comportamentos que não são admitidos pela Igreja. Naquele momento, entre 2011 e 2012, isso envolveu cinco ou seis pessoas. Faziam defesa desse comportamento lá dentro. Também havia comportamentos estranhos. Colegas estranharam, pessoas da comunidade também. Diziam: ‘Olha, esse rapaz aqui parece que é…’. Havia toda uma preocupação para evitar a reprodução desses escândalos que estamos vendo.”

Pedofilia na Arquidiocese

“Eu digo que por misericórdia eu aceitei alguns padres em crise. Aceitei seminaristas egressos (que já haviam sido expulsos de outros seminários), mas eu não sabia desse comportamento. Por indicação de alguém, por pedidos para que eu desse chance. Esses pedidos vinham de bispos, de superiores de alguma congregação. Enfim, eu fui misericordioso. Aceitei e me dei mal. Esses seminaristas foram ordenados por mim e depois tive que afastá-los. Eu afastei seis. Eram acusados de envolvimento de pedofilia. Um foi inocentado.”

“Era aquela questão com meninos, coroinhas. Dentro da igreja. Eram casos na região metropolitana de João Pessoa e no interior. Do interior eram três, e três da capital. As denúncias foram feitas por familiares dos meninos. Comecei a receber essas denúncias de 2012 para 2013, tudo de uma vez, uma atrás da outra. Os padres foram afastados imediatamente. Um deles morreu. Nunca foi ouvido em juízo e morreu de muita depressão, coitadinho.”

A acusação de relacionamento homossexual

“Deus me livre, isso não existe. É mentira. Não tem como.”

E com base em que o acusam de ser homossexual?

“Respondo com uma frase: ‘Acusemo-lo daquilo que nós somos’.”

Isso existe entre os religiosos que o acusam?

“Claro que existe. Acuse-o daquilo que a gente é.”

A acusação de organizar festas e orgias

“Mas que festas? Deus me livre, eu não tenho tempo para pecar. A minha única diversão é nadar na piscina de um colégio aqui perto. Não vou ao cinema. Minha vida é trabalho. Não existe isso aí.”

 

10 julho, 2016

Foto da semana.

Jovens brasileiros ordenados nesta semana para o Instituto Cristo Rei e Sumo Sacerdote. Fotos: Jorge Maciel e Populus Summorum Pontificum.

9 julho, 2016

Reflexões sobre temas da Sagrada Escritura: Amor confiante (IV).

“O Filho do Homem veio salvar o que se tinha perdido” (Mt 18, 11).
“Sou Eu, não temais” (Lc 24, 36).

Por Padre Élcio Murucci | FratresInUnum.com

Continuação da Conferência do Pe. Mateo Crawlei-Boevey SS. CC.

Já vos disse antes: para conhecer-vos deveras, mirai-vos no espelho divino dos olhos de Jesus. O sol do Seu Coração (Guarda-te de mirar-te, ainda que por uma vez, fora de meu Coração – Vida y Obras, t. I, p. 93) mostrar-vos-á o que sois e ao mesmo tempo vos animará com a visão das suas misericórdias.

sagrado coração 2Lendo com atenção o Evangelho, acaba-se por compreender que Nosso Senhor vivia sedento das misérias humanas. Leiamos refletindo as passagens do Bom Pastor, do Samaritano, as cenas da Madalena e da mulher adúltera, as refeições com os publicanos e onde quer que encontremos as palpitações violentas da Coração misericordioso de Jesus.

Os publicanos não só existiram, mas continuam a existir, somos nós mesmos. E Jesus se apressa a buscar-nos, justamente porque somos publicanos.

Compreendamos portanto, uma vez por todas, que a única maneira de ficarmos quites com o Médico divino é dar-Lhe o coração, cheio de confiança. Jamais conseguiremos que ela seja bastante grande, dizia Teresinha, jamais!

Quantos não fizeram do Coração de Jesus uma novidade e uma devoçãozinha poética, nascida em Paray-le-Monial! Mas não é verdade. O Coração de Jesus autêntico, inteiro, maravilhoso, doutrina substanciosa, vida e misericórdia, centro dos corações, eu o encontro no Evangelho.

Creio – pois claro! – nas grandes revelações feitas a Santa Margarida Maria, justamente porém, o que mais comove nelas e o que mais me convence – depois da autoridade da Igreja – é a concordância perfeita entre o Evangelho e os manuscritos de Margarida Maria. Nem ela, nem coisa nenhuma me são indispensáveis ao conhecimento daquele Coração que se revelou a nós de maneira maravilhosa em Belém, Nazaré, no Calvário e que prossegue revelando-se no Tabernáculo. Paray lançou forte luz e é deveras uma revelação, seus pedidos e promessas são marcos divinos que dão relevo à doutrina. Esta, porém, encontra-se a cada linha do Evangelho, suprema e definitiva revelação do Coração de Jesus.

O acontecimento de Paray reveste-se, antes, de uma outra importância, certamente capital. O Salvador regressa a essa terra-santa, para condenar, reafirmando o que já havia dito na Palestina, a heresia horrenda e fatídica do jansenismo.

Resumindo: o que Nosso Senhor disse em Paray condensamos nesta frase: “Crede em Meu amor, não temais, sou Jesus; amai-Me, dando-Me o vosso coração, e fazei-Me amado, porque sou Jesus”.

Não era isso nenhuma novidade. Nos lábios, porém, de Jesus, e depois, firmado pela Igreja, constituía o anátema de morte contra o jansenismo hipócrita, heresia daquela época. Como os fariseus de Jerusalém, estes mais modernos, não menos repugnantes e venenosos, não aceitaram que um Mestre de Israel, um enviado do Altíssimo, novo Profeta de uma lei bondosa, manifestasse, como o fazia Jesus, tais preferências, fraquezas de ternura, para com aqueles por eles desdenhados como escória moral. E precisamente para recolher, com mãos divinas, “essa escória” e convertê-la em tesouros de glória eterna, vinha Jesus, enviado do Pai, para salvar.

Magnífico e eloquente escândalo! As criaturas chamadas justas, os condutores das almas e conhecedores das Escrituras não concebiam um Deus, um Jesus que, sendo quem é, coma e converse com pecadores e que por eles tenha deixado os anjos do céu. Jansenistas já eram essa turba de fariseus soberbos e hipócritas… E fariseus são também os idênticos orgulhosos, os idênticos sepulcros caiados que não aceitam como autêntica e divina a doutrina do Coração de Jesus: “Quero Misericórdia”, Misericordiam volo  (Mt 9, 13).

Com que veemência maldigo esse jansenismo, que parece haver fomentado, especialmente nas almas mais ricas e generosas, a heresia que, como um vampiro, sorveu-lhes o sangue da nobreza e da generosidade, dissecou-lhes o coração, paralisou-as. Converteu em múmias de terror e aparente austeridade, almas gigantes que, se tivessem amado, se houvessem levantado vôo, se tivessem fixado por horizonte, não suas misérias, mas a Jesus, e muito mais que a obsessão do inferno, o Amor, teriam chagado a maravilhas de santidade.

Jansenismo nocivo, infecto, que se atreveu a converter o Senhor de suma caridade e misericórdia em um Moloch feroz, num Júpiter tonante, cruel e assustador. Quantas e quantas vítimas desse sistema sem luz, sem esperança, sem amor, encontrei em meu caminho! Mas, demos graças a Deus, esses miasmas parecem ceder, depois de combate rude; e à escola jansenista, falta de entranhas, de piedade e de Eucaristia, sucede hoje no governo das almas a escola do Coração de Jesus, radiante de beleza, rica de doutrina, entusiasta pela Eucaristia, saturada de confiança evangélica.

Fazemos agora tremer, sim, mas de amor imenso. Nunca poderei esquecer o que me dizia um jansenista, ilustre advogado, que se julgava católico perfeito: “Não me fale, Padre, de misericórdia; o que eu peço e quero é que me seja feita justiça seca”. Infeliz dele. Se o Sagrado Coração não houvesse sido mil vezes mais compassivo que rigoroso, já saberia o pobre a estas horas o que é justiça inexorável, eterna. Mas, Nosso Senhor vinga-se, sim, à sua maneira, porém. E o tal jansenista morreu abraçando com amor apaixonado uma imagem do Sagrado Coração, e pedindo misericórdia.

Não foram de estilo semelhante os Apóstolos, antes de receberem instrução e educação, quando diziam: “Senhor, queres que digamos que desça fogo do céu e os consuma?” (Lc 9, 54). Não tinham ainda penetrado no espírito e no Coração do Mestre. Quando o Espírito Santo abriu-lhes os olhos e suas almas dilataram-se, fizeram reparação, mandando baixar fogo de Caridade que incendiasse almas e povos no amor de Jesus Cristo. Foi esse o seu apostolado. Há daqueles para os quais, dir-se-ia, não há senão um atributo em Deus: justiça tremenda. É claro que Deus, porque é Deus, há de ser infinitamente justo. Mas, precisamente por isso, aqui embaixo, enquanto percorremos esse caminho escabroso de viajores, conhecendo Ele o barro com que nos formou, deve ser muito mais bondoso que rigoroso, muito mais Salvador e Pai que Juiz inexorável.

Ele veio e ficou na Eucaristia e na Igreja, para salvar … Nós o forçamos, desgraçadamente, a condenar, obrigamo-Lo a ser Juiz severíssimo. Se não houvesse senão justiça, ou se houvesse mais justiça que misericórdia, ou se fosse tanta a justiça quanta a misericórdia, cá embaixo, no governo providencial das almas, para que então o confessionário, o sacerdócio, a Eucaristia, e todo o plano mil e uma vezes prodigioso de redenção misericordiosa?

Para quem tenha um poucochinho de experiência das almas, a aplicação prática e diária desse plano redentor constitui o milagre dos milagres, e milagre permanente.

A Conferência continua no artigo do próximo sábado.

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8 julho, 2016

FSSPX lança nova Cruzada de Rosários.

Fonte: La Porte Latine – Tradução: Dominus Est

Por ocasião das ordenações sacerdotais em Zaitzkofen (Alemanha), no dia 02 de julho de 2016, D. Bernard Fellay, Superior Geral da Fraternidade São Pio X, anunciou o lançamento de uma nova Cruzada de Rosários, a fim de uma boa preparação espiritual para a centenário das aparições de Nossa Senhora em Fátima (Maio à Outubro/1917).

Esta cruzada será realizada de 15 de agosto de 2016 a 22 de Agosto 2017 .

Ela corresponde às intenções indicadas pela própria Virgem Santíssima:

(I) Jesus quer estabelecer no mundo a devoção ao Coração Imaculado de Maria. Para que seja feita, todos os fiéis são convidados a:

  • Recitar diariamente o rosário, sozinho ou em família;
  • Realizar a devoção da Comunhão reparadora nos cinco primeiros sábados do mês, e multiplicar os sacrifícios diários, em espírito de reparação pelos ultrajes cometidos contra Maria;
  • Levar consigo a medalha milagrosa e difundi-la;
  • Consagrar seus lares ao Imaculado coração de Maria .

Além da propagação desta devoção, rezemos também:

(II) para apressar o triunfo do Coração Imaculado; 

(III) Para que seja realizado pelo Papa e todos os bispos do mundo católico a consagração da Rússia ao Coração Imaculado e Doloroso de Maria.

E nós adicionamos (IV) como uma intenção especial, a proteção da Santíssima Virgem à Fraternidade São Pio X e todos os seus membros, bem como as comunidades religiosas da Tradição .

Dom Bernard Fellay fixa como objetivo um buquê de 12 milhões de rosários e 50 milhões de sacrifícios ofertados a Nossa Senhora de Fátima.

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