23 julho, 2021

Os fiéis têm pleno direito de se defender de uma agressão litúrgica – mesmo quando esta provém do Papa.

Por José Antonio Ureta

Com um golpe de caneta, o Papa Francisco tomou medidas concretas para abolir na prática o rito latino da Santa Missa, que vigorou substancialmente desde São Dâmaso, no fim do século IV — com acréscimos de São Gregório Magno no fim do século VI —, até o missal de 1962, promulgado por João XXIII. A intenção de restringir gradualmente, até a sua extinção, o uso desse rito imemorial, patenteia-se na carta que acompanha o motu próprio Traditionis Custodes, na qual o pontífice reinante insta os bispos do mundo inteiro a “atuar para que se regresse a uma forma celebrativa unitária” com os missais de Paulo VI e João Paulo II, que passam a ser “a única expressão da lex orandi do Rito Romano”. Sua consequência prática é que os sacerdotes de rito latino não têm mais o direito de celebrar a missa tradicional, só podendo fazê-lo com permissão do bispo — e da Santa Sé, para os que forem doravante ordenados!

A pergunta óbvia que surge diante dessa drástica medida é a seguinte: Tem um Papa poder para derrogar um rito que vigorou na Igreja por 1400 anos e cujos elementos essenciais provêm dos tempos apostólicos? Porque, se de um lado o Vigário de Cristo tem a plena et suprema potestas nas matérias atinentes “à disciplina e ao governo da Igreja difundida pelo orbe”, conforme ensina o Concilio Vaticano I , de outro lado ele deve respeitar os costumes universais da Igreja em matéria litúrgica.

A resposta é dada de maneira peremptória no parágrafo n°1125 do Catecismo da Igreja Católica promulgado por João Paulo II: “Nenhum rito sacramental pode ser modificado ou manipulado ao arbítrio do ministro ou da comunidade. Nem mesmo a autoridade suprema da Igreja pode mudar a liturgia a seu bel-prazer, mas somente na obediência da fé e no respeito religioso do mistério da liturgia”.

Comentando esse texto, o então Cardeal Joseph Ratzinger escreveu: “Parece-me muito importante que o Catecismo, ao mencionar os limites do poder da suprema autoridade da Igreja com relação à reforma, chame a atenção para aquela que é a essência do primado, tal como é sublinhado pelos Concílios Vaticanos I e II: o papa não é um monarca absoluto cuja vontade é lei, mas o guardião da autêntica Tradição e, por isso, o primeiro a garantir a obediência. Ele não pode fazer o que quiser e, justamente por isso, pode se opor àqueles que pretendem fazer tudo o que querem. A lei a que deve se ater não é a ação ad libitum, mas a obediência à fé. Por isso, diante da liturgia, tem a função de um jardineiro e não a de um técnico que constrói máquinas novas e joga as velhas fora. O ‘rito’, ou seja, a forma de celebração e de oração que amadurece na fé e na vida da Igreja, é forma condensada da Tradição viva, na qual a esfera do rito expressa o conjunto de sua fé e de sua oração, tornando assim experimentáveis, ao mesmo tempo, a comunhão entre as gerações e a comunhão com aqueles que rezam antes de nós e depois de nós. Assim, o rito é como um dom concedido à Igreja, uma forma viva de parádosis.” [Termo grego usado 13 vezes na Bíblia, o qual pode ser traduzido por tradição, instrução, transmissão.]

 Na sua excelente obra A Reforma da Liturgia Romana, Mons. Klaus Gamber — considerado pelo Cardeal Joseph Ratzinger como um dos maiores liturgistas do século XX — desenvolve esse pensamento. Parte ele da constatação de que os ritos da Igreja Católica, tomada a expressão no sentido de formas obrigatórias de culto, remontam em definitivo a Nosso Senhor Jesus Cristo, mas foram se desenvolvendo e se diferenciando gradualmente a partir do costume geral, sendo depois corroborados pela autoridade eclesiástica.

Dessa realidade, o ilustre liturgista alemão tira as seguintes conclusões:

  1. “Se o rito nasceu do costume geral — e sobre isto não há dúvida para o conhecedor da história da liturgia —, não pode ser recriado na sua totalidade”. Nem no começo da Igreja isso aconteceu, pois “as formas litúrgicas das jovens comunidades cristãs também se separaram progressivamente do ritual judaico”.
  2. “Como o rito foi se desenvolvendo no transcurso dos tempos, poderá continuar fazendo o mesmo no futuro. Mas esse desenvolvimento deverá ter em conta a atemporalidade de cada rito e efetuá-lo de maneira orgânica (…) sem ruptura com a tradição e sem uma intervenção dirigista das autoridades eclesiásticas. Estas não tinham outra preocupação nos concílios plenários ou provinciais senão de evitar irregularidades no exercício do rito”.
  3. “Existem na Igreja vários ritos independentes. No Ocidente, além do rito romano, existem os ritos galicano (já desaparecido), ambrosiano e moçárabe; no Oriente, entre outros, os ritos bizantinos, armênio, siríaco e copta. Cada um desses ritos percorreu uma evolução autônoma, no transcurso da qual suas particularidades específicas foram formadas. Este é o motivo pelo qual não se pode simplesmente intercambiar entre eles elementos desses ritos diferentes”.
  4. “Cada rito constitui uma unidade homogênea. Portanto, a modificação de qualquer de seus componentes essenciais significa a destruição de todo o rito. Exatamente isto é o que ocorreu pela primeira vez nos tempos da Reforma, quando Martinho Lutero fez desaparecer o cânon da missa e uniu o relato da Instituição diretamente com a distribuição da comunhão”.
  5. “O regresso a formas primitivas não significa, em casos isolados, que se modificou o rito, e de fato este regresso é possível dentro de certos limites. Desta forma, não houve ruptura com o rito romano tradicional quando o Papa São Pio X voltou a estabelecer o canto gregoriano em sua primitiva forma”.

O ilustre fundador do Instituto Teológico de Regensburg prossegue comentando que “enquanto a revisão de 1965 havia deixado intacto o rito tradicional (…), com o ‘ordo’ de 1969 se criava um novo rito”, que ele chama de ritus modernus, já que “não basta, para falar de uma continuidade do rito romano, que no novo missal tenham sido conservadas certas partes do anterior”. 

Para comprová-lo do ponto de vista estritamente litúrgico — dado que os graves erros teológicos, como o rebaixamento do caráter sacrificial e propiciatório da missa, mereceriam artigo à parte —, basta citar o que disse sucintamente o Prof. Roberto de Mattei a respeito dessa verdadeira devastação litúrgica: 

“Durante a Reforma, introduziu-se gradualmente toda uma série de novidades e variantes, algumas delas não previstas nem pelo Concílio nem pela constituição Missale Romanum de Paulo VI. O quid novum não pode se limitar à substituição do latim pelas línguas vulgares. Consiste também no desejo de conceber o altar como uma ‘mesa’, para enfatizar o aspecto do banquete em vez do sacrifício; na celebratio versus populum, em substituição daquela versus Deum, tendo como consequência o abandono da celebração para o Oriente, isto é, para Cristo simbolizado pelo sol nascente; na ausência de silêncio e meditação durante a cerimônia e na teatralidade da celebração, muitas vezes acompanhada de cantos que tendem a profanar uma Missa na qual o sacerdote é frequentemente reduzido ao papel de ‘presidente da assembleia’; na hipertrofia da Liturgia da Palavra em relação à Liturgia Eucarística; no ‘sinal’ da paz, que substitui as genuflexões do sacerdote e dos fiéis, como ação simbólica da passagem da dimensão vertical à horizontal da ação litúrgica; na Sagrada Comunhão, recebida pelos fiéis em pé e na mão; no acesso das mulheres ao altar; na concelebração, tendendo à ‘coletivização’ do rito. Consiste, sobretudo e finalmente, na mudança e substituição das orações do Ofertório e do Cânon. A eliminação em particular das palavras mysterium fidei da fórmula eucarística pode ser considerada, como o Cardeal Stickler observa, como o símbolo da desmistificação e, portanto, da humanização do núcleo central da Santa Missa”.

A maior revolução litúrgica ocorreu de fato no Ofertório e no Cânon. O Ofertório tradicional, que preparava e prefigurava a imolação incruenta da Consagração, foi substituído pelas Beràkhôth do Kiddush, ou seja, pelas bênçãos da ceia pascal dos Judeus. O Pe. Pierre Jounel, do Centro de Pastoral litúrgica e do Instituto Superior de Liturgia de Paris, um dos especialistas do Consilium que preparou a reforma litúrgica, descreveu no jornal La Croix o elemento fundamental da reforma da Liturgia da Eucaristia: “A criação de três Orações Eucarísticas novas quando até então não existia senão uma, a Oração Eucarística I, fixada no Canon Romano desde o século IV. A Segunda foi retomada da Oração Eucarística de [São] Hipólito (século III) tal como foi descoberta numa versão etíope no fim do século XIX. A Terceira se inspirou do esquema das liturgias orientais. A Quarta foi elaborada numa noite, por uma pequena equipe em torno do Pe. Gelineau”.

O referido Pe. Joseph Gelineau, S.J. não estava enganado quando saudava entusiasmado a reforma, declarando: “Na verdade, é uma outra liturgia da Missa. É preciso dizê-lo sem rodeios: o rito romano tal como nós o conhecíamos não existe mais, ele foi destruído”.

Como, então, pretende o Papa Francisco afirmar, em sua recente carta aos bispos, que “quem queira celebrar com devoção segundo a anterior forma litúrgica não terá dificuldade em encontrar no Missal Romano reformado segundo a mente do II Concílio do Vaticano todos os elementos do Rito Romano, em particular o cânone romano, que constitui um dos seus elementos mais caracterizantes”? Parece uma ironia tão amarga quanto o título do motu próprio Custódios da Tradição

Se o Novus Ordo Missae não é uma mera reforma e implica uma tal ruptura com o rito tradicional, a celebração deste último não pode ser proibida, pois, como reitera Mons. Klaus Gamber, “não existe um só documento, nem sequer o Codex Iuris canonici, que diga expressamente que o Papa, enquanto Pastor supremo da Igreja, tenha o direito de abolir o rito tradicional. Tampouco se fala em alguma parte que tenha o direito de modificar os costumes litúrgicos particulares. No caso presente, este silêncio é de grande significado. Os limites da plena et suprema potestas do Papa têm sido claramente determinados. É indiscutível que, para as questões dogmáticas, o Papa deve se ater à tradição da Igreja universal e, por conseguinte, segundo São Vicente de Lérins, ao que se tem crido sempre, em todas as partes e por todos (quod semper, quod ubique, quod ab omnibus). Vários autores expressamente adiantam que, em consequência, não compete ao poder discricionário do Papa abolir o rito tradicional”.

Mais ainda, caso o fizesse, incorreria no risco de separar-se da Igreja. Mons. Gamber escreve, de fato, que “o célebre teólogo Suárez (+ l6l7), referindo-se a autores mais antigos como Caetano (+ 1534), pensa que o Papa seria cismático se não quisesse, como é seu dever, manter a unidade e o laço com o corpo completo da Igreja, como por exemplo, se excomungasse toda a Igreja ou se quisesse modificar todos os ritos confirmados pela tradição apostólica”.

Foi provavelmente para evitar esse risco que oito dos nove cardeais — da Comissão nomeada por João Paulo II em 1986 para estudar a aplicação do Indulto de 1984 — declararam que Paulo VI não tinha realmente proibido a Missa antiga. Mais ainda, à pergunta: “- Pode um bispo proibir hoje a um sacerdote em situação regular de celebrar uma missa tridentina?”, o Cardeal Stickler afirmou que “os nove cardeais foram unânimes em dizer que nenhum bispo tinha o direito de proibir um padre católico de celebrar a missa tridentina. Não há nenhuma proibição oficial, e eu penso que o Papa não decretará nenhuma proibição oficial”.

O Papa Francisco, porém, no motu próprio Traditionis Custodes, autorizou de fato aos bispos a proibir dita celebração. Tanto é assim que a Conferência Episcopal da Costa Rica se apressou em decretar coletivamente que “não se autoriza a o uso do Missale Romanum de 1962 nem de nenhuma das expressões da liturgia anterior a 1970”, pelo que “nenhum presbítero tem autorização para continuar celebrando segundo a liturgia antiga”.

Por todo o anterior, subscrevemos plenamente as conclusões tiradas pelo Pbro. Francisco José Delgado: “Acho que a coisa mais inteligente a fazer agora é defender com muita calma a verdade sobre as leis perversas. O Papa não pode mudar a Tradição por decreto ou dizer que a liturgia pós-Vaticano II é a única expressão da lex orandi no Rito Romano. Como isso é falso, a legislação que brota desse princípio é inválida e, segundo a moral católica, não deve ser observada, o que não implica em desobediência.”

Não é preciso possuir um conhecimento especializado de eclesiologia para compreender que a autoridade e a infalibilidade papais têm limites e que o dever de obediência não é absoluto. São numerosos os tratadistas do melhor quilate que reconhecem explicitamente a legitimidade da resistência pública às decisões ou ensinamentos errados dos pastores, inclusive do Soberano Pontífice. Eles foram amplamente citados no estudo de Arnaldo Xavier da Silveira intitulado “Resistência pública a decisões da autoridade eclesiástica”, publicado pela revista Catolicismo em agosto de 1969.

No caso atual, é lícito não apenas “não observar” o motu próprio do Papa Francisco, mas até resistir à sua aplicação, segundo o modelo ensinado por São Paulo (Gal 2, 11). Não se trata de pôr em discussão a autoridade pontifícia, pela qual devem sempre crescer nosso amor e nossa veneração. É o próprio amor ao Papado que nos deve levar a denunciar Traditionis Custodes, por pretender eliminar ditatorialmente o rito mais antigo e venerável do culto católico, no qual todos os fiéis têm o direito de abeberar-se.

Observa o ilustre teólogo Francisco de Vitoria (1483-1486): “Por direito natural, é lícito repelir a violência pela violência. Ora, com tais ordens e dispensas, o Papa exerce violência, porque age contra o Direito, conforme ficou acima provado. Logo, é lícito resistir-lhe. Como observa Caetano, não afirmamos tudo isto no sentido de que cabe a alguém ser juiz do Papa ou ter autoridade sobre ele, mas no sentido de que é lícito defender-se. A qualquer um, com efeito, assiste o direito de resistir a um ato injusto, de procurar impedi-lo e de se defender”.

O modelo de resistência firme, mas impregnada de veneração e respeito pelo Sumo Pontífice, através da qual os católicos podem hoje pautar a sua própria reação, é a Declaração de Resistência à Ostpolitik do Papa Paulo VI, redigida pelo saudoso Prof. Plinio Corrêa de Oliveira com o título “A política de distensão do Vaticano com os governos comunistas – Para a TFP: omitir-se? ou resistir?”. Dizia ela, no seu parágrafo crucial:

“O vínculo da obediência ao Sucessor de Pedro, que jamais romperemos, que amamos com o mais profundo de nossa alma, ao qual tributamos o melhor de nosso amor, esse vínculo nós o osculamos no momento mesmo em que, triturados pela dor, afirmamos a nossa posição. E de joelhos, fitando com veneração a figura de S.S. o Papa Paulo VI, nós lhe manifestamos toda a nossa fidelidade.

“Neste ato filial, dizemos ao Pastor dos Pastores: Nossa alma é Vossa, nossa vida é Vossa. Mandai-nos o que quiserdes. Só não nos mandeis que cruzemos os braços diante do lobo vermelho que investe. A isto nossa consciência se opõe.”

23 julho, 2021

Extra omnes!

Continuamos nossas análises ao motu proprio Traditionis Custodes. Toda a série pode ser encontrada aqui.

Por FratresInUnum.com, 23 de julho de 2021 — No início do conclave, quando solenemente os cardeais entram na Capela Sistina para o primeiro escrutínio, o cerimoniário papal dirige-se à porta, que será fechada com chave (cum clave) e diz aquelas famosas palavras cerimoniais: “extra omnes”, “todos fora”.

The City and the World: Extra omnes.

O rito se refere não apenas à despedida de todos aqueles que não pertencem ao colégio dos cardeais eleitores do próximo romano pontífice, mas de algum modo é uma reminiscência daquela outra despedida que acontece durante o período catecumenal, em que os candidatos ao Santo Batismo eram despedidos para as suas casas antes que se iniciasse a chamada Missa dos Fiéis, que começava com o ofertório – a parte anterior era chamada de ante-missa ou missa dos catecúmenos, justamente porque era até o Credo que eles podiam participar.

Em seu Motu Proprio Traditionis Custodes, o Papa Francisco realiza a degradação das degradações: expulsa da missa não apenas os catecúmenos, mas inclusive os fiéis.

No art. 3 § 2 do documento, ele afirma:

“O bispo, nas dioceses nas quais até agora existe a presença de um ou mais grupos que celebram segundo o Missal antecedente à reforma de 1970: indique um ou mais lugares onde os fiéis que adiram a estes grupos possam reunir-se para a celebração eucarística (porém, não nas Igrejas paroquiais e sem erigir novas paróquias pessoais)”.

Em outras palavras, Francisco expulsa das paróquias não apenas os fiéis tradicionais, mas especialmente a própria missa tradicional, que teria de ser, segundo o seu texto, relegada a lugares secundários de culto (capelas ou oratórios públicos ou semi-públicos), muitas vezes não adaptados para a celebração segundo o Vetus Ordo.

A medida não é ingênua. É bastante calculada.

Talvez o leitor desconheça um dado interessante: em 2007, quem foi o primeiro a erigir um oratório para a Missa na forma extraordinária, em obediência a Summorum Pontificum? Ninguém menos que o Cardeal Bergoglio. Contudo, não sem um “porém”: a missa, proibida de se celebrar em uma paróquia, foi destinada ora a uma capelinha de bairro,  ora à cripta de outra igreja, com uma mesa descolada do retábulo do altar, com leigos (homens e mulheres) fazendo as leituras de um lecionário pós-conciliar… Diante da queixa dos fiéis, o padre encarregado da celebração, que era tudo, menos tradicionalista, escusava-se dizendo que não havia um lugar mais apropriado, que era pequeno, mas que não era para atrair muita gente, que os jovens não deveriam participar, pois se tratava de uma celebração mais para pessoas velhas, que era pouco acessível, mas que estava tudo bem, etc. etc. E que tudo era ordem do Cardeal Bergoglio! Naturalmente, os fiéis desapareceram, pois não queriam uma missa híbrida e, consequentemente, a celebração foi interrompida [leia aqui nosso post de 2013].

Em outras palavras, Bergoglio agora está “provendo” a Missa tradicional segundo os modos traiçoeiros com que ele a proveu em Buenos Aires. Ele simplesmente quer tornar impossível a celebração na forma extraordinária.

Pior: ele proíbe os bispos de erigirem novas paróquias pessoais, justamente para dificultar ao máximo não apenas a recorrência a estes lugares de culto, mas para sobretudo tornar pura e simplesmente inviável a celebração. Note-se que ele escreve que o bispo deve indicar “um ou mais lugares”, sem dizer se são sacros ou profanos. Em tese, pode ser debaixo de uma árvore, na garagem de uma família, no salão de uma obra social, em suma, qualquer lugar que demande uma completa reconfiguração de todo o espaço cada vez que se célebre a Missa tradicional.

Se ele está perseguindo a criação de paróquias pessoais, o que dizer de administrações apostólicas pessoais ou de padres deste tipo de circunscrição zanzando pelas dioceses para celebrar a Missa tradicional? Será necessário uma bola de cristal para prever que os próximos alvos serão justamente essas instituições e pessoas? Não adianta Dom Rifan e o Mons. Jonas dizerem que não é com eles, que este é um problema de progressistas e tradicionalistas, etc. O clima mudou: agora, trata-se de erradicar a própria celebração da missa tradicional e torná-la inacessível. E de, no máximo, dar tempo para que os rígidos sejam reeducados para adotarem o novo missal. Não se sabe por que ainda a Administração Apostólica não deu esse sinal de filial obediência ao desejo agora explícito do Papa.

Em outras palavras, Francisco, dizendo que os bispos são a autoridade exclusiva sobre a liturgia de suas dioceses no que tange ao rito romano (sic!), trata-os imediatamente como seus coroinhas e os obriga a não disporem de suas paróquias (territoriais) nem de seus fiéis (paróquias pessoais) ao proverem a missa tradicional, a qual, no mesmo ato, ele mesmo está boicotando e obrigando-os a boicotarem por todos os meios possíveis (territoriais e pessoais).

Em síntese, mais uma vez ele manda o impossível e, deste modo, invalida o seu próprio comando. O texto deste Motu Proprio é uma sucessão de contradições. Revela apenas o maquiavelismo do seu autor e o desespero em querer, de qualquer modo, aproveitar o tempo que lhe resta para espezinhar aqueles que ele escolheu como inimigos.

22 julho, 2021

Contradictio Custodis.

Prosseguimos nossa série de análises ao motu proprio Traditionis Custodes.

Por FratresInUnum.com, 22 de julho de 2021 – Depois de usar ditatorialmente a sua autoridade pontifícia e de dizer placidamente que os bispos são as únicas autoridades para regular o uso do Missal de 1962 em suas dioceses, Francisco passa a dizer como precisa ser essa regulação, contradizendo-se mais uma vez. É como se tirasse a autoridade dos bispos depois de dá-la.

No art. 3, § 1, ele diz que “o bispo, nas dioceses nas quais até agora existe a presença de um ou mais grupos que celebram segundo o Missal antecedente à reforma de 1970: certifique-se que tais grupos não excluam a validade e a legitimidade da reforma litúrgica, dos ditames do Concílio Vaticano II e do Magistério dos Sumos Pontífices”.

Francisco supõe que, para solicitar a Missa no Vetus Ordo, é necessário não excluir a validade e a legitimidade da “reforma litúrgica” (sic!)… Que linguagem é essa? Estaria ele querendo dizer que não se pode negar a “validade” e a “legitimidade” dos sacramentos celebrados segundo os novos ritos? Fala ele do hipotético Novus Ordo ideal, que até hoje ninguém sabe e ninguém viu? Ou daquilo que é praticado em incontáveis formas, das menos às mais aberrantes, nas paróquias mundo afora?

Por outro lado, uma reforma litúrgica deve ser considerada, em si, incriticável, dogmática? Ora, mas não é justamente o que eles fizeram com a missa tradicional? Criticaram-na, atacaram-na, substituíram-na, apesar de São Pio V, na Bula Quo Primum Tempore, tê-la restaurado e fixado de modo definitivo e inalterável…

Em outras palavras, Francisco proíbe de fazer justamente aquilo que ele mesmo está impondo como única alternativa, autorizando a existência da Missa Tradicional apenas enquanto excepcional expressão de sentimentos, de um apego caprichoso que ele pretende erradicar e impedir o quanto antes.

Do mesmo modo, ele diz que esses grupos não podem excluir a validade e a legitimidade dos ditames do Concílio Vaticano II. Tal é a hipocrisia modernista!

Os mesmos que ignoraram solenemente o Motu Proprio Summorum Pontificum e sonegaram o direito de cidadania dos tradicionalistas no seio da Igreja Católica, agora aclamam o novo Motu Proprio Traditione Custodes e o querem impor em nome da santa obediência.

Com a condição de sempre fazerem a sua própria vontade, os progressistas sempre interpretam o Magistério de modo seletivo, pinçando aquilo que lhes convém para impô-lo de modo autoritário. O mesmo acontece com o Concílio Vaticano II.

A Constituição Sacrosanctum Concilium decretou que o ordinário da Missa fosse reformado apenas para os domingos (n. 49), que o latim fosse conservado como língua litúrgica (n. 36), que o instrumento litúrgico é o órgão de tubos (n. 120), que o canto gregoriano é o canto próprio da liturgia latina (n. 116), que os fiéis aprendessem a responder a missa em latim (n. 54), entre outras determinações. Quais desses ditames têm sido obedecidos por aqueles que celebram a Missa Nova? Se o mesmo critério lhes fosse aplicado, a Missa Nova deveria ser proibida justamente por desobedecer o Concílio, cuja obediência total preceitua Bergoglio para os fiéis da missa tradicional.

Ele afirma ainda que estes grupos não podem excluir a validade e a legitimidade Magistério dos Sumos Pontífices? Ele se refere também a Pio IX, a São Pio X, a Pio XI, a Pio XII e a todos os papas anteriores ao Concílio Vaticano II? Como ele pode exigir obediência cega aos papas enquanto ele mesmo cancela Bento XVI e o seu recentíssimo Motu Proprio sem a mínima vergonha. Pior, enquanto ele mesmo ainda vive? Pode existir alguma exigência mais contraditória do que esta?

Os fiéis tradicionalistas seguem a doutrina da Igreja na total harmonia e coerência da Tradição Católica, sem rupturas. O Motu Proprio de Francisco ostenta orgulhosamente a sua escandalosa hermenêutica de ruptura, afirmando que a “lex orandi” da Igreja mudou e é incompatível com a anterior. A “Paix Liturgique”, a “Paz Litúrgica” estatuída por Summorum Pontificum fundamentava-se justamente no fato de que não pode existir uma ruptura entre aquilo que a Igreja acreditava e aquilo em que ela crê. Bergoglio afirma o contrário disso e pretende ser obedecido.

É muito fácil Francisco impor hoje, irresponsavelmente, sobre toda a Igreja, uma censura tão severa, tomando como lugar de fala a continuidade das autoridades do passado. Afinal de contas, os mortos estão mortos… Mas, e se nós tivéssemos a oportunidade de perguntar aos papas do passado o que eles pensariam de Francisco e da sua pretensão? Será que estes papas celebrariam a Missa nova? E se nós tomássemos as suas teologias, os seus documentos, as suas doutrinas e os deixássemos falar agora? Acaso eles subscreveriam as palavras e ações de Jorge Mário Bergoglio? Não precisamos apelar para Bento XIV ou Gregório XVI… Será que sequer João Paulo II o aprovaria?

Mais uma vez, porém, são as próprias palavras de “Traditionis Custodes” que se contradizem e mostram as incongruências disso que, antes de ser uma lei, precisaria ter lógica; e, justamente para ser obedecido, precisaria ser compreensível.

21 julho, 2021

A síndrome do pato manco, ou o isolamento do Papa.

Por Benoit et Moi | Tradução: FratresInUnum.com * – Na política, existe uma expressão ouvida com frequência e muito temida pelos governantes: o pato manco, que designa um pato incapaz de seguir o grupo e que se torna, portanto, o alvo dos predadores.

Esse apelido também é conferido a um dirigente que, por diversas razões, especialmente porque está chegando ao fim do mandato, perdeu o poder. E o modo mais claro de identificar um pato manco é ver a reação de seus amigos: quando o deixam sozinho, quando o grupo o abandona, há um sinal indiscutível de que o pobre palmípede está nas últimas[1].

Parece que é o que está acontecendo com o papa Francisco: sua claudicação não é somente o efeito de uma ciática, é também o efeito da perda de poder devido à gestão catastrófica de seu pontificado, e aos sinais nítidos de que seu fim se aproxima. O fato de que nada menos que Andrea Riccardi, figura de proa da Comunidade de Santo Egídio, tenha publicado um livro intitulado La Chiesa bruccia (A Igreja queima) é extremamente sintomático. Parece que a peronização provocada por um papa peronista tenha também seus lados obscuros, pois, diz-se que os peronistas acompanham seus colegas até a porta do cemitério, mas não entram, e é precisamente o que está acontecendo.

O papa está sozinho

Um dos erros mais graves que um dirigente que sofre da síndrome do pato manco pode cometer é dar ordens universais muito severas, pois ele corre o risco de ser desobedecido e revelar, assim, sua fraqueza. E é exatamente o que parece acontecer com o papa Francisco após a publicação do motu proprio Traditionis custodes. Por ora, a única adesão clara e universalmente conhecida que ocorreu é a de Dom Ángel Luis Ríos Matos, bispo de Mayaguez, em Porto Rico, que publicou um decreto hilariante no qual ele anuncia que, ainda que não seja celebrada a missa tradicional em sua diocese, ele a proíbe mesmo assim, e, aproveitando o embalo, ele também aproveita para proibir o uso da casula romana, das toalhas de linho e do véu umeral.

Similar disposição foi tomada pelos bispos da Costa Rica. Os tiranos engendram tiranias patéticas, e Bergoglio engendrou incontáveis bispos medíocres que povoarão tristemente os Prados de Asfódelos[2] (é curioso que nas fotos que se encontra facilmente na internet, Dom Ríos Matos apareça sempre vestido com todos os ornamentos episcopais possíveis). E, não sei o porquê, mas tudo isso me lembra o romance de Evelyn Waugh, Black Mischie[3].

O site Rorate Coeli faz uma lista das missas proibidas pelos bispos. Veremos o que acontecerá, mas, até agora, as reações foram aquelas que havíamos predito neste blog há alguns dias, ainda que, devo admitir, tenha sido surpreendido pela rapidez e clareza com as quais os bispos franceses, ingleses e americanos reagiram.

A Conferência episcopal francesa, com estas circunlocuções tipicamente gaulesas, tirou a bola de campo. Para eles, não se trata de discutir sobre a lex orandi ou a lex credendi da igreja do Papa Francisco, mas, de fato, de que o motu proprio os convida a refletir sobre a importância da Eucaristia na vida da Igreja, e que, em setembro, após as férias, eles se reunirão sobre isso.

Na mesma linha, o bispo de Versalhes, onde estão instaladas importantes comunidades tradicionalistas, já fez saber por escrito que, em sua diocese, as coisas continuarão como estavam, e o mesmo foi dito, logo após a publicação do documento, pelo arcebispo de São Francisco, seguido por numerosos outros bispos americanos – por exemplo, o de Cincinatti – que, mais discretamente, informaram aos padres e fiéis próximos do rito tradicional que eles não promoverão nenhuma mudança, apesar das ordens pontifícias.

Na Inglaterra, a maioria dos bispos fizeram a mesma coisa: logo após a publicação do motu proprio, eles mesmos anunciaram, de modo oficial e selado, que, em suas dioceses, não haveria nenhuma mudança em relação à missa tradicional. E o curioso é que, em sua maioria, quer sejam franceses, americanos ou ingleses, não são bispos com simpatias tradicionalistas particulares, mas bispos com tendências claramente liberais. Logo, por que essa reação tão rápida, tão clara e tão contrária aos desejos pontifícios evidentes?

Pode-se apenas conjecturar sobre a resposta, mas podemos propor algumas. Uma coisa que fica clara é que os bispos não temem mais as “misericórdias pontifícias”, o que teria acontecido, sem dúvida, outrora. E isso é um sinal evidente da síndrome do pato manco: Francisco poderia demitir Salvatore Cordileone de sua sé arcebispal? Ele não tem mais força para fazer isso. O episcopado americano está muito furioso com o papa, e a ameaça de uma “misericórdia” em razão da não aplicação do motu proprio seria combatida pela Conferência dos bispos. A declaração dos bispos franceses, ainda que para alguns ela dê a impressão de eles estão lavando as mãos, é um tipo de blindagem: aqui a gente vai refletir sobre a Eucaristia, dizem eles, e, quanto às proibições, cada bispo verá o que fará. E já vimos o que eles fazem: eles não proíbem nada.

Este é precisamente o nó do problema: os bispos dos dois lados do Atlântico não querem iniciar uma guerra inútil. Em suas dioceses, graças ao Summorum Pontificum, a pax liturgica foi concretizada. As coisas funcionam, e funcionam bem: as ideologias, salvo em casos raros, desapareceram. E o crescimento constante das comunidades, dos padres e das vocações tradicionalistas já era considerado como uma bênção, e não um perigo, ou seja, precisamente a visão oposta àquela apresentada por Bergoglio em seu documento.

Localmente, nas dioceses, os únicos que funcionam mais ou menos bem são os grupos litúrgicos tradicionais. Na Europa, exterminar a missa tradicional significaria importar diretamente da África curas de misa y olla[4].

Se todo documento jurídico deve ser interpretado conforme o espírito do legislador, o que sobressai do motu proprio é que o papa Francisco quer evitar quebrar a unidade sobre as questões litúrgicas. Assim, com toda legitimidade e com toda tranquilidade de espírito, os bispos que julgam que, em suas dioceses, a diversidade litúrgica do rito romano não gera problema e não fere a unidade, podem ignorar a norma. Mais honestamente, a maioria dos bispos não tem vontade de entrar em uma guerra que não existe senão na mente de Bergoglio e de seus ideólogos de serviço, desta vez, Andrea Grillo. Como escreveu justamente Tim Stanley em The Spectatorparecemos viver nos anos de Leonid Brejnev, na União soviética: um governo de gerentes, ligados a uma velha fotografia desgastada que retrata a situação de um país que não existe mais.

É inconcebível que a Igreja latina tenha caído ao longo dos dois últimos séculos em um hiperpapalismo tão extremo que permita manifestações tais como Traditionis custodes, na qual o papa de Roma se intromete a tal ponto em cada dioceses, que ele indique ao bispo quais paróquias ele pode ou não erigir. É um contrassenso impensável na Igreja medieval e impensável na igreja oriental. Como disse o cardeal Müller, em sua carta de leitura indispensável, os bispos são colocados enquanto pastores e “não simples representantes de um escritório central, com possibilidades de promoção”.

A carta do cardeal Müller desmonta, além do mais, os artifícios teológicos sobre os quais Bergoglio tentou construir seu motu proprio, explicando, por exemplo, o que significa e o que não significa a lex orandi – lex credendi, e mostrando os absurdos bergoglianos. Trata-se de um fato histórico: em 1646, o papa Inocêncio X, sob instigação dos jesuítas, suprimiu (o termo utilizado era redução) a florescente congregação dos educadores fundada por São José Calasanz – os piaristas – por meio do breve Ea quae pro felici. Assim que ficou conhecido, espalharam-se críticas. Ingoli, secretário da Propaganda fidei, ao ver o documento impresso, disse: “Em outro pontificado, eles poderiam utilizá-lo como tampa para os potes”, e o padre Orsini, internúncio da Polônia, escreveu: “É um Breve feito com um machado… Não tenha dúvidas… que, em outro pontificado, será anulado”. E, com efeito, foi o que aconteceu.

Em resumo, Bergoglio sofre da síndrome do pato manco. Com a publicação de Traditionis custodes, ele ficou amplamente desacreditado e acelerou o declínio e o fim de seu pontificado catastrófico.

* Nosso agradecimento a um caro leitor pela gentileza da tradução fornecida.

Nota: a dureza e a ironia da carta do cardeal Müller se juntam a expressões de repúdio de Bergoglio provenientes de outros meios. Michel Onfray, o popular ateu e filósofo progressista francês, escreveu no Le Figaro que a missa em latim é um patrimônio universal ao qual não se pode tocar e desqualifica Bergoglio, classificando-o de “jesuíta e peronista” cuja formação é a de um “químico”. José Manuel de Prada, em ABC, declarou que ele tira o chapéu para entrar na igreja, mas não levanta a cabeça, o que pede o motu proprio franciscano.

[1] No mundo político anglo-saxão, um lame duck designa um eleito cujo mandado chega ao fim, e, mais particularmente, um eleito ainda no cargo, enquanto seu sucessor, já eleito, ainda não ocupa o cargo.

[2] Um lugar dos Infernos na mitologia grega.

[3] Em francês “Diablerie”, 1932: caricatura dos esforços de Hailé Sélassié Iº para modernizar a Abissínia. Narração irônica, cínica e convincente de um fracasso retumbante.

[4] Em linguagem familiar designa padres que possuem uma baixa formação e pouca autoridade.

21 julho, 2021

O avesso do avesso ou “Confusionis custodes”.

Prosseguimos nossa série de análises ao motu proprio Traditionis Custodes.

Por FratresInUnum.com, 21 de julho de 2021 – No art. 2º de “Traditionis Custodes”, Francisco diz que “cabe ao bispo diocesano, como moderador, promotor e custódio de toda a vida litúrgica na Igreja particular a ele confiada, regular as celebrações litúrgicas na própria diocese. Portanto, é de sua exclusiva competência autorizar o uso do Missale Romanum de 1962 na diocese, seguindo as orientações da Sé Apostólica”.

Francisco em Lampedusa – Altar Barco na única Lex Orandi da Igreja Latina.

No art. 1º, ele havia afirmado que o Missal de Paulo VI é a única “lex orandi” do Rito Romano, não apenas como um ato ditatorial, mas sobretudo como não significante de coisa alguma, pois vimos ontem que a locução “lex orandi” não são os ritos em vigência, mas é a relação do rito com a Tradição da Igreja — relação que a Missa Nova tem apenas há 50 anos: grande tradição!

Ora, no artigo imediatamente seguinte, o já citado art. 2, ele finge que o rito não é romano e transfere aos bispos a autoridade exclusiva de regulá-lo, apenas “seguindo as orientações da Sé Apostólica”. Vejam a diferença disso com o texto da Instrução Redemptionis Sacramentum:

“Compete à Sé apostólica ordenar a sagrada Liturgia da Igreja universal, editar os livros litúrgicos, revisar suas traduções a línguas vernáculas e vigiar para que as normas litúrgicas, especialmente aquelas que regulam a celebração do santo Sacrifício da Missa, se cumpram fielmente em todas partes (Cf. CIC, c. 838 § 2)” (Instrução Redemptionis Sacramentum, n. 16).

Alguns números abaixo, a mesma Instrução se refere ao papel dos bispos diocesanos, citando o Código de Direito Canônico:

“Com efeito, ‘ao Bispo diocesano, na Igreja a ele confiada e dentro dos limites de sua competência, corresponde-lhe dar normas obrigatórias para todos, sobre a matéria litúrgica’ (CIC, c. 838 § 4)” (Instrução Redemptionis Sacramentum, n. 21.

Em outras palavras, justamente porque existe uma relação intrínseca entre a liturgia e a unidade da fé, compete à Santa Sé regular a liturgia da Igreja e, ao bispo, apenas o dever de moderar, tendo em vista o bem dos fiéis:

“O povo cristão, por sua parte, tem direito a que o Bispo diocesano vigie para que não se introduzam abusos na disciplina eclesiástica, especialmente no ministério da palavra, na celebração dos sacramentos e sacramentais, no culto a Deus e aos santos” (Instrução Redemptionis Sacramentum, n. 24).

O que Francisco faz é criar uma gigantesca confusão, arrogando para si o direito de cancelar um rito e de impor outro como única “lex orandi”, ao mesmo tempo em que diz que aos bispos cabe a prerrogativa exclusiva de regular o rito que ele acaba de dizer que está cancelado. De um lado, ele se reserva uma competência que, depois, diz ser exclusiva dos bispos; e, por outro, reafirma a existência de um rito que ele mesmo acaba de cancelar.

Isto não é nem pode ser uma lei. É um saco de gatos. Não há coerência textual alguma. Como dissemos ontem, não se trata de obedecer ou não, mas de que não há aí uma única linha que possa ser compreendida, que não se contradiga. Ele transfere aos bispos não o encargo de serem “custódios da tradição”, mas, sim, “custódios da confusão”, “Confusionis Custodes”.

Portanto, o art. 2 desmente e invalida o art. 1, e o faz no espectro de uma anarquização absurda, como se a Igreja Católica fosse constituída de uma multidão de seitas diocesanas, sobre as quais imperasse um déspota cujo único sentido da autoridade é sectarizá-las e caotizá-las ainda mais. Ou seja, quando o assunto é banir o missal de 1962, unem-se todas as autoridades, as de cima e as de baixo, contanto que se garanta que a Igreja será tudo, menos católica. Quando, por outro lado, o assunto é “desromanizar” o rito romano, vamos desde proposta de criação de rito amazônico até a transferência da competência pela tradução dos livros litúrgicos às conferênciais episcopais.

Por outro lado, em que consistiria, positivamente, impor o rito de Paulo VI como o único rito obrigatório na Igreja Católica? O problema da Missa Nova é que ela nunca foi rezada e não se sabe o que ela é em si: há tantos ritos do Novus Ordo quanto o número de vezes em que ele foi rezado. Cada padre, uma missa; cada lugar, uma missa; cada vez, uma missa. Não há unidade ritual nem identidade clara. O problema da nova liturgia não é a antiga, é ela mesma. É isso que Francisco e sua corte não entendem.

A norma que ele está pretendendo impor é simplesmente inaplicável. Não é possível executar o que ele tenta mandar, quer porque ele manda e desmanda no mesmo texto, quer porque o que ele propõe não é executável (já o sabemos há 50 anos).

Como Papa de Roma, Bergoglio daria um ótimo Primaz de Canterbury. Ele se esqueceu do que é a Igreja Católica e está querendo impor a criação de uma Igreja Anglicana na estrutura do catolicismo, e ainda quer que funcione. Aí já é demais!

20 julho, 2021

O abuso não tolhe o uso.

Por Sidnei Silveira

Ainda que demônios em pessoa freqüentassem a Missa Tridentina**, um católico romano não amá-la e não defendê-la, quando atacada, é fazer-se diabolicamente um apátrida espiritual, um errante, um pródigo; é não amar a sua própria tradição e – o que é pior – ser conivente com quem demole a casa que abrigou a sua família desde tempos imemoriais.

O católico romano que louva ritos orientais*** e, ao mesmo tempo, é indiferente à avacalhação estética, teológica e litúrgica do seu próprio rito é como quem despreza os pais, o que não se faz sem grave culpa.

O católico romano que não ama a sua magnífica liturgia, a qual foi reabilitada como “rito extraordinário”, para não ferir as revolucionárias susceptibilidades dos que, na prática, a proscreveram, é Esaú no ato de vender a Jacó a sua primogenitura por um mísero prato de comida.

Que futuro pode ter esse católico romano que dá de ombros ao seu passado, senão louvar a grama do vizinho e viver sem identidade própria?

** É óbvio que a Missa Tridentina não nasceu no Concílio de Trento, mas passou a ser assim chamada por referência à sua solene elevação à condição de forma litúrgica perfeita no referido Concílio. É uma analogia!

*** Um católico romano que, neste grave momento, elogia a postura dos orientais está apenas jogando a sua covardia para debaixo do tapete. Como esse pobre-diabo acha que os orientais reagiriam se tocassem na sua liturgia?

20 julho, 2021

A falácia da única “lex orandi”.

Por FratresInUnum.com, 20 de julho de 2021 – A pedra fundamental de todo o Motu Proprio sadicamente intitulado de Traditioni Custodes é a afirmação de que “os livros litúrgicos promulgados pelos santos Pontífices Paulo VI e João Paulo II, em conformidade com os decretos do Concílio Vaticano II, são a única expressão da lex orandi do Rito Romano” (art. 1).

Pachamama e Francisco. Em “Querida Amazônia”, o Papa cita benevolamente a proposta de se criar um Rito Amazônico. Fará ele parte da única Lex Orandi da Igreja dos pobres?

Esta pretensão de Francisco é simplesmente uma aberração teológica com aparências de sapiente e, em si mesma, tal afirmação não exprime coisa alguma, mas apenas vacuidade.

De um lado, o significado do axioma “lex orandi, lex credendi” é precisamente o de indicar a tradição litúrgica da Igreja como fonte da fé teologal da mesma: ou seja, o acervo de textos da longa tradição litúrgica da Igreja é um grande monumento da ortodoxia da fé católica e, por isso, fonte mesma para a sua elaboração teológica.

Neste sentido, a liturgia romana tradicional é em si mesma, independentemente do que diga quem quer que seja, exímia expressão da “lex orandi” e da “lex credendi”, pois é um colosso de ortodoxia que organicamente se foi desenvolvendo ao longo dos séculos, numa continuidade comovente, que remete, em última análise, à Fé apostólica.

No referido Motu Proprio, Francisco demonstra ignorar o significado preciso dessa terminologia teológica, entendendo por “lex orandi” aquilo que o Papa determinar segundo o seu arbítrio, aleatoriamente, autoritariamente. “Lex orandi”, na cabeça do papa argentino, são as normas litúrgicas tais quais expressas no direito positivo.

A má vontade de Bergoglio para com os “rígidos” conservadores é tamanha que ele, durante toda a vida, ignorou as lições do Papa alemão, dentre as quais:

“O Papa não é monarca absoluto, cuja vontade é lei; antes, ele é guardião da Tradição autêntica e, portanto, o primeiro garantidor da obediência. Ele não pode agir como bem entende e, por isso, ele pode se opor àqueles que, por sua vez, querem fazer o que lhes vem à cabeça. A sua lei não é a do poder arbitrário, mas da obediência na fé. É por isso que, no que diz respeito à Liturgia, ele tem o papel de jardineiro, e não de técnico que constrói novas máquinas e joga as antigas no ferro velho” (Cardeal Joseph Ratzinger, prefácio a “O Desenvolvimento Orgânico da Liturgia”, 2005).

Na carta aos bispos que acompanha o motu proprio, Francisco chega ao primarismo de dizer que está fazendo o mesmo que São Pio V, isto é, abolindo os livros litúrgicos precedentes. Ora, São Pio V jamais quis criar uma nova missa em seu tempo. Seguindo exatamente o critério teológico “lex orandi, lex credendi”, restaurou a liturgia romana como em sua tradição e retirou alguns usos recentes, de menos de 200 anos, garantindo então uma desintoxicação protestante e estabelecendo os novos livros como obrigatórios, justamente porque mais antigos e não porque mais novos.

O Novus Ordo, ao contrário, foi produção de laboratório, criado por um time que incluía protestantes e maçons em sua redação — certamente de participação menos relevante e perigosa que a dos próprios modernistas titulares da equipe. Nunca se inventou uma nova liturgia do dia para a noite na Igreja e, aliás, não foi isso que o Concílio Vaticano II pediu que se fizesse. Os reformadores foram muito além do que solicitado pelo Concílio e, neste caso, nem a autoridade do Papa pode mudar os fatos: diferentemente da missa tradicional, a missa nova não foi uma produção orgânica, mas um experimento laboratorial imposto sobre todos os fiéis.

“A reforma litúrgica, na sua realização concreta, distanciou-se a si mesma ainda mais da sua origem. O resultado tem sido não uma reanimação, mas uma devastação. Em vez da liturgia, fruto dum desenvolvimento contínuo, puseram uma liturgia fabricada. Esvaziaram um processo vital de crescimento para o substituir por uma fabricação. Não quiseram continuar o desenvolvimento, a maturação orgânica de algo vivo através dos séculos, e substituíram-na, à maneira da produção técnica, por uma fabricação, um produto banal do momento”. (Cardeal Joseph Ratzinger, Revue Theologisches, Vol. 20, Fev. 1990, pgs. 103-104)

Obviamente, pressupõe-se que, havendo matéria, forma e intenção, a Missa Nova é válida, mas isso não significa que ela esteja liturgicamente numa continuidade intrínseca com a “lex orandi” objetiva da Igreja e muito menos que não possa e até não deva ser corrigida em seus defeitos e melhorada (aquilo que Bento XVI chamava de “reforma da reforma”).

Em todo caso, é absurdo, ridículo, fruto de ignorância, tentar definir de maneira propriamente legalista qual é a “lex orandi” da Igreja mediante um decreto. Isso não é apenas atropelar os fatos e impor despoticamente uma opinião infantil, mas é sobretudo ignorância acerca da própria natureza da coisa e dos próprios limites em que existe a autoridade pontifícia.

Há muita leviandade que se diz atualmente, inclusive com boa intenção. Uma delas é a ideia de que, se o Papa alterou, temos que obedecer; que ele tem autoridade para mudar ritos na Igreja, etc.

O que essas almas bem intencionadas não entendem é que isso aqui não se trata de uma mudança de rito (aliás, estamos falando sempre do Rito Romano, o qual sofreu não uma reforma, mas uma recriação na chamada reforma litúrgica – precisamos dar o nome correto para as coisas!), mas uma simultaneamente ignorante e abusiva nova interpretação do que significa “lex orandi”, como se um papa pudesse criá-la ex nihilo, ao invés de identificá-la e determiná-la em sua fidelidade intrínseca e objetiva.

Assim como a Sagrada Escritura é uma das fontes da Teologia, a “lex orandi” é uma das fontes da Tradição. Não se trata de uma regra canônica, de uma lei eclesiástica positiva, a qual se possa mudar de qualquer modo. O conceito teológico de “lex orandi” é muito mais rico e preciso e dizer que, a partir de agora, os novos livros litúrgicos são a sua única expressão para o Rito Romano é simplesmente ridículo. Não é algo que se possa levar à sério.

Portanto, aqui não é o caso de se obedecer ou não. É que o que está escrito não tem sentido, mesmo. É como querer mudar as leis da física ou da lógica por decreto, é extrapolar os limites de uma autoridade e da própria realidade. Isso, Francisco não pode fazer. Assim como ele não pode mudar os dogmas, alterar as Sagradas Escrituras ou o conteúdo mesmo da Tradição. Ele é um Papa, não é um Deus.

19 julho, 2021

Cardeal Müller: “Em vez de apreciar o cheiro de ovelha, o pastor aqui as golpeia duramente com seu cajado”.

Ninguém pode fechar os olhos para o fato de que até aqueles padres e leigos que celebram a Missa segundo o Missal de São Paulo VI estão sendo agora amplamente condenados como tradicionalistas. Os ensinamentos do Vaticano II sobre a unicidade da redenção de Cristo, a plena realização da Igreja de Cristo na Igreja Católica, a essência da liturgia Católica enquanto adoração a Deus e mediação da graça, a Revelação e sua presença na Escritura e Tradição Apostólica, a infabilidade do magistério, o primado do papa, a sacramentalidade da Igreja, a dignidade do sacerdócio, a santidade e indissolubilidade do matrimônio — tudo isso está sendo hereticamente negado em franca contradição ao Vaticano II pela maioria dos bispos e leigos alemães (mesmo que disfarçadamente sob expressões pastorais).

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Cardeal Gerhard Müller

Apesar de todo o aparente entusiasmo que eles expressam pelo papa Francisco, eles negam categoricamente a autoridade conferida a ele por Cristo como sucessor de Pedro. O documento da Congregação para a Doutrina da Fé sobre a impossibilidade de se legitimar atos sexuais do mesmo sexo ou extra-conjugais por meio de uma benção é ridicularizado pelos bispos, padres e teólogos alemães (e não só alemães), como uma mera opinião de sub-qualificados oficiais da cúria. Aqui nós temos uma ameaça à unidade da Igreja na Fé revelada, que evoca a dimensão da separação protestante de Roma no século dezesseis. Dada a desproporção entre a relativamente modesta resposta aos ataques massivos à unidade da Igreja pelo “Caminho Sinodal” alemão (assim como em outras pseudo reformas) e a severa disciplina sobre a minoria do rito antigo, a imagem de um caminhão de bombeiros desorientado vem à mente — ao invés de salvar a casa em chamas, primeiro ele salva o pequeno paiol próximo a ela. 

Sem a menor empatia, ignora-se os sentimentos religiosos dos (frequentemente jovens) participantes das Missas segundo o missal de João XXIII (1962). Em vez de apreciar o cheiro de ovelha, o pastor aqui as golpeia duramente com seu cajado. Também parece injusto abolir as celebrações no rito “antigo” simplesmente porque elas atraem gente problemática: abusus non tollit usum.  

Palavras do Cardeal Gerhard Müller ao site The Catholic Thing sobre o motu proprio Traditionis Custodes.

19 julho, 2021

O totalitarismo bergogliano, recorrência jesuítica.

Por FratresInUnum.com, 19 de julho de 2021 – Um dos dias mais traumatizantes da história da Igreja foi 21 de julho de 1773, quando o Papa Clemente XIV, com uma canetada, decretou a supressão da Companhia de Jesus pelo Breve Dominus ac Redemptor, um ato autoritário que teve como consequência a prisão do Padre Ricci, prepósito na época, e o imediato despojamento de 23 mil jesuítas. Expulsos de suas casas, os padres foram exilados de vários países, perderam todos os seus bens e cerca de 20% tiveram de abandonar o sacerdócio. Foi o momento mais doloroso na história da Companhia de Jesus e uma página negra da história da Igreja.

Fiéis rezam na Catedral de Buenos Aires após o anúncio da eleição do Papa Francisco.

Fiéis rezam na Catedral de Buenos Aires após o anúncio da eleição do Papa Francisco.

Não é sem certa ironia que, agora, o primeiro papa jesuíta reproduza modos tão similarmente autoritários. Com uma simples canetada, não apenas pretende extinguir a “forma extraordinária do rito romano”, mas restringe o seu acesso a ponto de proibir que seja celebrado em Igrejas paroquiais e de que os padres ordenados doravante precisem de uma autorização de Roma para poder celebrá-la.

Francisco quis desqualificar a “forma extraordinária” pelo fato de dizer que a única lex orandi do rito romano é o novus ordo. Essa imposição é completamente alheia a qualquer pretensão do rito romano, que sempre admitiu várias formas (seja de celebrá-lo, como a forma lida, a forma solene, a forma pontifical, a missa papal, além de uma pluralidade de usos, como os ritos das ordens religiosas ou mesmo as variações do próprio rito romano, como o rito bracarense ou o ambrosiano, por exemplo).

Por detrás de palavras aparentemente sérias, Francisco apenas diz um non sense que esconde o seu senso ditatorial e totalitário — senso há muito conhecido pelos irmãos argentinos, nos tempos do Cardeal Bergoglio enquanto arcebispo de Buenos Aires.

Na carta aos bispos, ele confessa que a sua motivação é censurar todas as críticas ao Vaticano II. Obviamente, censurar as críticas dos tradicionalistas, pois as críticas progressistas, que dizem estar ultrapassado o Concílio, estas ele deixa correr soltas.

Além de plurirritualista, a Igreja sempre teve pluralidade de discussões quando o assunto não é dogmático. Francisco ama chocar, vive lacrando às custas da doutrina da Igreja, mas não admite nenhuma crítica a um concílio que quis ser tudo, menos dogmático. É o Vaticano II como super dogma, expressão do então Cardeal Ratzinger, redivivo.

Estamos vivendo a mais terrível censura jamais vista em nenhuma ditadura, nem sequer nos tempos do nazismo. Francisco não quer discussão, quer calar a boca e retirar os meios de ação dos grupos católicos. Trata-se de um amordaçamento coletivo e da criação de campos de concentração de católicos tradicionais para a sua sumária extinção. Os métodos são nazistas como nazista é a pretensão. Recorda-se Francisco que o Papa não é dono da Igreja, nem que a palavra final é de Nosso Senhor?

Francisco ressuscitou Clemente XIV, colocando-se, como ele, nas mãos dos mais sanguinários revolucionários. Ele está repetindo a história, dessa vez contra os católicos indefesos, sem conseguir esconder o seu ódio, de quem realmente quer eliminar os desafetos.

O título sádico que ele escolheu para o Motu Proprio, “Traditione Custodes”, revela ele mesmo a sua aguda malícia e o seu venenoso escárnio. Isso é um costume da sua crueldade. Não foi ele que chamou de “Como uma Mãe Amorosa” o documento em que ele criminaliza potencialmente os bispos, enquanto se exime de culpa no caso dos abusos sexuais?

Contudo, este sadismo revela também a sua sanha psicopática. Não se trata apenas de ironia diabólica, mas também daquilo que os psicólogos chamam de “estimulação contraditória”, “uma técnica de engenharia social que dispara comandos opostos a indivíduos docilmente dispostos a obedecê-los, desorientando suas defesas psicológicas e fazendo com que sutilmente passem a aceitar qualquer outro comando mesmo que absurdo”.

Esta é a razão pela qual você, querido leitor, talvez tenha se sentido desorientado e perplexo diante do AI-5 promulgado por Francisco na última sexta-feira. Você e a maior parte dos fiéis percebeu que há uma malícia superior à nossa ordinária capacidade de discernimento.

Não estamos lidando com um amador, mas com um verdadeiro ditador, um maquiavélico descontrolado que usa o poder papal dos modos mais agressivos para promover a completa extirpação daqueles que odeia. No caso, o ódio não é apenas doutrinal, mas é objetificado em pessoas, em você e em mim, em nós que somos e queremos continuar sendo simplesmente católicos.

18 julho, 2021

Ela ressurgirá…


Ela ressurgirá,  eu te digo… a Missa ressurgirá, como respondo a muitos que vêm a mim para se lamentar (e eles o fazem, às vezes, chorando); e àquele que me pergunta como eu posso ter tanta certeza disso, eu respondo (como ‘poeta’, se prefere) trazendo-o à beira da janela e mostrando o Sol… Logo virá o entardecer e lá, na igreja de São Domingos, os frades cantarão nas Vésperas:  Iam sol recedit igneus; mas, em poucas horas, estes mesmos dominicanos, meus amigos, cantarão, na Prima: Iam lucis orto sidere – e assim todos os dias.

O Sol, quero dizer, levantar-se-á novamente, brilhará novamente depois da noite, para iluminar a terra desde o céu, por que… porque ele é o Sol, e Deus o estabeleceu para nossa vida e conforto. Então, acrescento eu, assim é e será com a Missa – a Missa que é “nossa”, católica, de sempre e de todos: nosso Sol espiritual, tão bela, tão santa e tão santificante — contra as desilusões dos morcegos, tirados de seu esconderijo pela Reforma [litúrgica], que acreditavam que a sua hora, a hora das trevas, não teria fim. E recordo: nesta minha grande janela nós fomos muitos, nos anos passados, assistindo um total eclipse solar. Eu me lembro, e eu quase posso sentir novamente, o sentimento de frieza, de tristeza, e quase de desilusão ao assistir, em sentir o ar escuro e gelado, pouco a pouco. Recordo o silêncio que se fez na cidade, durante a escuridão… enquanto os pássaros desapareciam, amedrontados, e os repugnantes morcegos apareciam, voando no céu.

Àquele que dizia, quando o Sol estava inteiramente coberto: — “E se não amanhecer nunca mais?” — um pensamento a quem ninguém respondia, quase como não entendendo o gracejo nisso… O Sol apareceu novamente, de fato, o Sol ressurgiu, depois de uma curta noite, tão belo como antes, e como se vê, mais do que antes, enquanto o ar é recheado novamente por pássaros e os morcegos voltam ao seus esconderijos.

Como antes, luminoso e belo, e ainda sendo o mesmo, o Sol parece mais maravilhoso do que era antes, como na […] lição do Evangelho sobre a moeda perdida e achada. Como era antes, e mais do que era antes: assim será com a missa, assim a missa aparecerá a nossos olhos, culpados por não tê-la estimado como merecia, antes do eclipse; nossos corações culpados por não tê-la amado o bastante.

(Tito Casini, La Tunica Stracciata – Nel fumo di Satana. Verso l’ultimo scontro)