Search Results for “oliveri”

14 janeiro, 2012

Casamento. Até que a Rota Romana os separe.

IHU – Casamentos declarados nulos pelo tribunal da Rota Romana, popularmente conhecido como “Sacra Rota”, um privilégio só para ricos? Hoje, não é mais assim. A prática, que permite que os cônjuges “anulem” o seu matrimônio e se casem novamente na Igreja, tornou-se tão difundida que, há muito tempo, obrigou o Papa Bento XVI a uma advertência formal aos juízes eclesiásticos: foi no dia 29 de janeiro do ano passado quando Joseph Ratzinger dirigiu um apelo para evitar declarações judiciais de nulidade “fáceis”.

A reportagem é de Giacomo Galeazzi, publicada no sítio Vatican Insider, 08-01-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Os números testemunham que as causas estão aumentando: nos últimos 14 anos, elas cresceram exponencialmente, chegando a cerca de 3.000 por ano. Nisso, influenciou muito a escolha da Igreja de destinar parte dos 8 por mil [porcentagem da arrecadação total do imposto de renda italiano que é repassada às diversas confissões religiosas] para o funcionamento dos tribunais eclesiásticos, abatendo os seus custos.

Mas quais são os efeitos da anulação? A possibilidade de poder se casar novamente na Igreja não é a única vantagem. O cônjuge que obtém a anulação, diferentemente do divorciado, não é mais obrigado a pagar pensão à sua ex-esposa [ndr: na Itália]. Uma diferença de muita importância nestes tempos de crise.

Considerando-se que os motivos para pedir que se invalide um casamento são muitas vezes dificilmente comprováveis, o risco de que um matrimônio declarado nulo, por estar viciado por um erro de origem, se transforme em “divórcio mascarado” é alto. Os exemplos de causas de nulidade que envolveram personagens públicos são inúmeros, assim como os casos célebres.

Joseph Kennedy, casado há 12 anos com Sheilla Rauch, com dois filhos, obteve a nulidade do matrimônio pela diocese de Boston, por uma suposta e obscura “falta de devida discrição”. Outra célebre anulação foi o que desfez as núpcias do Duque Amedeo d’Aosta. A condessa Alberica Filo della Torre também pediu e obteve a anulação do seu casamento. Assim como, antes ainda, o inventor e físico italiano Guglielmo Marconi.

Mas quais são os motivos que tornam nulo um matrimônio? A impotência “copulativa” é um deles, contanto que se consiga demonstrar que ela seja anterior ao casamento e perpétua. Seguem-se a incapacidade por causa de um uso insuficiente da razão, incapacidade por defeito de discrição de juízo, incapacidade por causa de natureza psíquica, ignorância, erro, dolo, simulação, condição e temor; e, enfim, o sacerdote que não tenha os requisitos formais de delegação para participar do casamento pode levar a uma causa de nulidade por defeito de forma canônica.

Quanto aos tempos, “a partir do momento em que inicia a causa de nulidade até a recepção da sentença pelo Estado italiano, calcula-se uma média de cinco a seis anos”, explica o advogado rotal Angelo Coccìa. Uma vez obtida a declaração de nulidade, isto é, depois da sentença do tribunal eclesiástico regional e capaz de apelo junto à Rota Romana, a sentença é recebida pelo ordenamento italiano através de um procedimento chamado de deliberação, válido graças à Concordata.

Recentemente, no entanto, a Suprema Corte tentou dar um freio à recepção automática das causas de nulidade: com a sentença 1.343 do dia 20 de janeiro de 2011, estabeleceu que os matrimônios de longa duração anulados pela Igreja não são anuláveis automaticamente pelo Estado. Nesse caso, explica o advogado Coccìa, “os cônjuges são livres para se casar somente em sede canônica, mas o matrimônio não é reconhecido nulo pelo Estado civil”.

Mas em nível psicológico, quais são os efeitos da nulidade do matrimônio? É realmente possível se convencer de que ele nunca existiu? “É bem sabido que há uma lacuna entre as coisas que se afirmam no tribunal e a realidade psicológica”, explica Anna Oliverio Ferraris, professora de psicologia do desenvolvimento da Universidade La Sapienza de Roma. “Ao contrário, é preciso se perguntar por que, a todo o custo, se quer anular um casamento. A nulidade pode criar nos ex-cônjuges a ilusão de ter limpado o seu passado, mas o passado não pode ser apagado”.

É melhor se resignar, portanto: divórcio ou anulação, o passado não pode ser apagado.

22 dezembro, 2011

A displicente e arrogante resposta do grande liturgo de Uberaba.

Após publicarmos o artigo “Quem vai rezar em Latim”, de Dom Aloísio Roque Opperman, solicitamos aos nossos leitores que explicassem ao senhor arcebispo de Uberaba suas razões para amar a Santa Missa Tradicional. Em aproximadamente 48 horas, recebemos mais de 50 comentários – a esmagadora maioria de pessoas com menos de 40 anos de idade –, relatando problemas de consciência em relação à liturgia moderna e seu vínculo muito bem fundamentado à liturgia tradicional da Santa Igreja.

Pois bem: o Fratres in Unum enviou, na manhã da última terça-feira (20), esses comentários a Dom Aloísio Roque Opperman, pedindo-lhe que os respondesse com a mesma disponibilidade e sinceridade com que os fiéis se dirigiram a ele.

E eis que, duas horas mais tarde, chega-nos uma resposta completamente displicente do Arcebispo de Uberaba:

Os caros amigos mostram que não entenderam o que escrevi. Espero que procurem ler de novo. Depois disso me disponho a responder, se necessário. Saudações. + Roque scj

Ao que interrogamos de imediato:

Excelência, dessa forma o senhor responde a 54 pessoas que respeitosamente escreveram esses longos comentários? Que pena! Rezamos para que o Menino Jesus quebre a dureza de seu coração.

E então a displicência deu lugar à arrogância. Poucas horas mais tarde, provavelmente movido por esta nossa última mensagem, Dom Aloísio decide “aprofundar” a questão em novo artigo veiculado pelo site da Arquidiocese de Uberaba, que publicamos abaixo (os destaques são nossos):

AINDA SOBRE A MISSA TRIDENTINA

Bento XVI teve um gesto ousado ao lançar uma ponte de amizade  para os católicos tradicionalistas.  Ao abrir, oficialmente, a possibilidade de celebrar a missa no rito de João XXIII (que foi uma adaptação do rito tridentino para 1962), o intento foi diminuir a distância entre esses tradicionalistas e a Igreja de Roma. Uma vez que esse rito litúrgico foi aberto para todos os católicos, resta-nos buscar – através do bom senso – as regras mínimas de uma sadia adesão  a essa possibilidade celebrativa.

Antes de tudo, para quem quiser legitimamente, fazer uso desse rito agora facultado, deve aceitar o valor do Concílio Vaticano II. Os Bispos Católicos, estiveram reunidos nesse magno congraçamento, para analisar a situação da Igreja, e dar as orientações pastorais para os novos tempos. Isso equivale a dizer que, além da missa tridentina, se reconhece a autenticidade da Missa do rito de Paulo VI, oriundo desse Concílio.

Quem quiser fazer uso da celebração eucarística no rito tridentino, deve reconhecer que o rito normal da Liturgia deve ser aquele proposto pelo Concílio, e aprovado por Paulo VI. Esse  rito teve uma evolução longa, a partir do início do século XX, através do Movimento Litúrgico. O Vaticano II incorporou suas reflexões, e tornou oficial uma Liturgia que respeitou todos os séculos da história eclesiástica, e a adaptou para os tempos modernos. Portanto, durante o uso normal dessa liturgia não se devem  impor os costumes e símbolos vinculados com o rito de 1962. Devem vigorar os costumes relacionados ao rito de Paulo VI.

É desnecessário dizer que o Papa manda mais do que o Bispo Diocesano. Mas os interessados no rito antigo devem reconhecer que o Bispo Diocesano é o grande liturgo de sua Diocese. Portanto, devem ser evitados os confrontos inúteis com a autoridade diocesana, e trabalhar em união com ele. O rito tridentino não é nenhuma atividade clandestina, mas também deve estar em sintonia fina com o Bispo da Diocese.

Dom Aloísio Roque Oppermann scj – Arcebispo de Uberaba, MG

* * *

Vendo seus argumentos iniciais serem reduzidos a pó pelos comentários dos leitores de Fratres in Unum, Dom Roque decide então dar sua última cartada, seu último suspiro.

Missa Tridentina, algo próprio de saudosistas? Bem, a quase totalidade de comentários de leitores provém de jovens… Celebrações “incompreensíveis e secas”? Os relatos mostram fiéis que, pelo contrário, não compreendem a aridez doutrinal e espiritual do Missal de Paulo VI.

Bem… Melhor nem tocar mais nesses assuntos, não é mesmo, Dom Roque?

Restou-lhe apenas apelar para o que muitos “interpretam como se fosse o super dogma”, mesmo tendo “um nível muito mais modesto” (Cardeal Joseph Ratzinger, Discurso aos Bispos do Chile, 13 de Julho de 1988): o Concílio Pastoral.

Comentemos, então, os argumentos de Sua Excelência Reverendíssima Dom Aloísio Roque Opperman:

“Uma vez que esse rito litúrgico foi aberto para todos os católicos, resta-nos buscar – através do bom senso – as regras mínimas de uma sadia adesão  a essa possibilidade celebrativa”.

As regras mínimas, Dom Aloísio, são aquelas dispostas no Motu Proprio Summorum Pontificum e esclarecidas pela Instrução Universae Ecclesiae. E elas, comparadas às normas impostas pelos bispos do Brasil, parecem verdadeiramente mínimas. Portanto, o “bom senso” está em seguir as regras e não em criar outras. Até porque o episcopado brasileiro, do qual o senhor liturgo de Uberaba faz parte, não tem bom senso.

“Antes de tudo, para quem quiser legitimamente, fazer uso desse rito agora facultado, deve aceitar o valor do Concílio Vaticano II. Os Bispos Católicos estiveram reunidos nesse magno congraçamento…”

Dom Roque quer que os católicos aceitem o valor do Vaticano II. Mas que valor, Excelência? Aceitar este valor é usar meramente expressões aduladoras como “magno congraçamento”, “mega acontecimento”, tal como faziam os fariseus quando buscavam “surpreender Jesus nas suas palavras”, declarando de maneira dissimulada saber “que és verdadeiro e ensinas o caminho de Deus em toda a verdade” (Mt, 22, 16)?

Veremos adiante como a atitude de Dom Roque se assemelha a essa postura farisaica.

“Quem quiser fazer uso da celebração eucarística no rito tridentino, deve reconhecer que o rito normal da Liturgia deve ser aquele proposto pelo Concílio, e aprovado por Paulo VI”.

Dentre as normas emanadas por Roma, e não pelo “bom senso” de Dom Roque, não há nenhuma previsão de que os fiéis devem “reconhecer que o rito normal da Liturgia deve ser aquele proposto pelo Concílio”, no sentido de uma superioridade, preferência, predomínio de um rito sobre outro. Afinal, diz o mega, magno, ultra acontecimento Vaticano II:

“O sagrado Concílio, guarda fiel da tradição, declara que a santa mãe Igreja considera iguais em direito e honra todos os ritos legitimamente reconhecidos, quer que se mantenham e sejam por todos os meios promovidos” (Concílio Vaticano II – Sacrosanctum Concilium, Constituição sobre a Sagrada Liturgia, nº 4).

Antes, é o próprio Dom Roque quem deveria dar provas de honestidade e demonstrar sua aceitação do valor (seja ele qual for) do Vaticano II, sendo aberto à forma litúrgica celebrada ao longo das sessões conciliares.

Dom Roque, o senhor aceita o “valor do Concílio”? Como, então, em obediência ao Concílio, o senhor considera “igual em direito e honra” um rito cujas celebrações julga “incompreensíveis e secas”?

O próprio Santo Padre declara, na carta aos bispos que acompanha o Motu Proprio — que não deve ter chegado a Uberaba — que a Missa Tridentina permanece como forma extraordinária “não só porque o diz a normativa jurídica”, fruto, evidentemente, de acordos políticos; “mas também por causa da situação real em que se encontram as comunidades de fiéis”, já que, na opinião de Bento XVI, o rito tradicional “pressupõe um certo grau de formação litúrgica”. Dessa forma, uma das razões, se não a mais importante, de a Missa Tridentina ser tida como “forma extraordinária” é a precariedade da “formação litúrgica” dos fiéis (e ainda mais dos “grandes liturgos” do Brasil!). Curioso: a formação dos fiéis não foi aperfeiçoada, aprofundada, desenvolvida pelo “magno congraçamento”?…

* * *

Não pretendemos esmiuçar os erros grotescos de Dom Roque sobre a “evolução longa” do rito de Paulo VI, “uma Liturgia que respeitou todos os séculos da história eclesiástica”. Há teólogos muito mais capacitados, entre eles o próprio Joseph Ratzinger, que não pensam assim.

Mas suspeitamos que “aceitar o valor do Concílio” seja, para Dom Roque, aceitar as suas próprias impressões e mitos; ele, membro de uma ordem religiosa que gerou para a Igreja do Brasil pérolas de sabedoria teológica como Padres Zezinho e Fábio de Melo…

Passemos, então, adiante.

“Durante o uso normal dessa liturgia [de Paulo VI] não se devem impor os costumes e símbolos vinculados com o rito de 1962”.

Dom Roque estaria condenando as próprias liturgias do Santo Padre? Pois é ele, Bento XVI, aquele que “manda mais que o bispo”, quem está restaurando “costumes e símbolos vinculados com o rito de 1962” e absolutamente abandonados nas últimas décadas!

Foi Bento XVI quem ampliou ou mesmo resgatou o latim nas liturgias pontifícias; ele quem restabeleceu a posição versus Deum e o uso dos sete castiçais e do crucifixo no centro do altar nas missas papais; ele quem restabeleceu a comunhão de joelhos e na boca; enfim, ele o Pontífice que vem implementando, na perspectiva de um “enriquecimento” do novo missal com elementos do antigo [1], “costumes e símbolos vinculados com o rito de 1962”!

E depois vem falar de “distância entre esses tradicionalistas e a Igreja de Roma”! Ainda mais distante está Uberaba! Quanta incoerência!

“É desnecessário dizer que o Papa manda mais do que o Bispo Diocesano. Mas os interessados no rito antigo devem reconhecer que o Bispo Diocesano é o grande liturgo de sua Diocese. Portanto, devem ser evitados os confrontos inúteis com a autoridade diocesana…”

Uma enorme quantidade de pessoas expressa respeitosamente seus dramas a um arcebispo católico. Este, por sua vez, responde com displicência e arrogância. Quem, afinal, cria “confrontos inúteis”?

Ó, grande liturgo de Uberaba, reconhecei o vosso papel de agente garantidor da Missa Tridentina, como prevê o motu proprio, caso os fiéis não a obtenham por alguma impossibilidade do pároco; reconhecei o Magistério da Igreja, que declara que a medida papal em favor da Missa Tridentina “deve ser interpretada em sentido favorável aos fiéis, que são os seus principais destinatários” (Instrução Universae Ecclesiae, 7, b); reconhecei efetivamente, e não só da boca para fora, o princípio recordado pelo Santo Padre no Motu Proprio segundo o qual “cada Igreja particular [inclusive a de Uberaba] deve concordar com a Igreja universal, não só quanto à doutrina da fé e aos sinais sacramentais, mas também em respeito aos usos universalmente aceitos da ininterrupta tradição apostólica”; reconhecei, grande liturgo de Uberaba, que “a ordenação da sagrada Liturgia é da competência exclusiva da autoridade eclesiástica; esta reside na Sé apostólica e, na medida que determine a lei, no Bispo” (Redemptionis Sacramentum 14). Reconhecei, pois, que na matéria que aqui tratamos, a lei não vos concedeu competência alguma. Excelência, reconhecei, pois, a vossa incompetência.

Mas que Vaticano II Dom Roque quer que os fiéis aceitem? Antes, que Vaticano II ele mesmo aceita? Restrinjamos a questão apenas ao nível litúrgico:

Promovam-se com empenho, sobretudo, nas igrejas catedrais, as «Scholae cantorum». Procurem os Bispos e demais pastores de almas que os fiéis participem ativamente nas funções sagradas que se celebram com canto, na medida em que lhes compete e segundo os artigos 28 e 30″ (Concílio Vaticano II – Sacrosanctum Concilium, Constituição sobre a Sagrada Liturgia, nº 114)

Gostaríamos de saber se Dom Aloísio Roque Opperman exerce seu papel de liturgo da arquidiocese de Uberaba na implementação das Scholae cantorum, para a promoção do canto gregoriano. Os uberabenses poderão nos esclarecer na caixa de comentários.

Estaria o Concílio ultrapassado, Excelência? Ou ele é simplesmente um mitológico “magno congraçamento”, um “mega acontecimento” fictício com o qual inescrupulosos brincam à vontade a fim de corroborar suas próprias idéias?

Exatamente quando a discussão sobre os próprios textos conciliares toma corpo em Roma, o “grande liturgo” de Uberaba pretende impor a sua versão particular do Concílio, que nada mais é que a versão de “ruptura” com o passado da Igreja, rechaçada pelo Santo Padre e rejeitada por qualquer católico de bom senso.

Dom Aloísio, como bom bispo brasileiro e fazendo jus às raízes (ou à falta delas) intelectuais dehonianas, provavelmente se insere entre os que desconhecem as discussões teológicas entre a Santa Sé e a Fraternidade São Pio X, os livros de Monsenhor Gherardini, o congresso dos Franciscanos da Imaculada em Roma sobre o Concílio, os trabalhos de Roberto de Mattei, Cristina Sicardi, Romano Amerio, Enrico Radaelli, bem como todos os agentes contemporâneos que querem lançar na Igreja um sadio debate sobre certos textos conciliares verdadeiramente discutíveis e que são causa da confusão doutrinária, litúrgica e moral que acomete a Igreja desde o “magno congraçamento”.

Ignoram, mas temem o mínimo questionamento daquilo que eles mesmos transformaram em dogma. E querem salvar, a todo custo, o mito pelo qual se apaixonaram. Porém, eles passam, atingem a idade limite para renunciar a seus postos (Dom Aloísio mesmo já deve ter apresentado sua renúncia ao Papa), deixando um rastro de destruição e desolação em suas dioceses. Mas eles têm de se remoer com um fato: a Tradição gera frutos; ela atrai os jovens. Et portae inferi non praevalebunt!

* * *

Mas…  “Quem vai rezar em latim?”. Permanece sem resposta a questão que intitula o primeiro artigo do liturgo de Uberaba.

Tomem-se providências para que os fiéis possam rezar ou cantar, mesmo em latim, as partes do Ordinário da missa que lhes competem”. (Concílio Vaticano II – Sacrosanctum Concilium, Constituição sobre a Sagrada Liturgia, nº 54)

Seja conservado o uso da Língua Latina nos Ritos Latinos”. (Concílio Vaticano II – Sacrosanctum Concilium, Constituição sobre a Sagrada Liturgia, nº 36)

Os fiéis, Dom Roque, os fiéis!… Reconhecei plenamente, sem restrições, o valor do “magno” Vaticano II!

——

[1] “O antigo Missal é um ponto de referência, um critério – disse [o Prof. Spaemann] um semáforo. […] O Professor Spaemann tem razão: “a reforma da reforma” refere-se naturalmente ao Missal reformado [de Paulo VI] e não ao Missal precedente. […] Portanto, a “reforma da reforma” é uma questão concernente ao Missal de Paulo VI… (Conferência conclusiva do Cardeal Ratzinger às jornadas litúrgicas de Fontgombault, 24 de julho de 2001)

[Atualização – 22 de dezembro de 2011]: Excluímos a expressão “colocado contra a parede”, pela qual nos desculpamos, tendo em vista que nós, leigos, não temos o direito de colocar um Sucessor dos Apóstolos contra a parede. Sustentamos e exercemos o direito de arguir e solicitar que ele seja obediente ao mandado de guardar íntegra a Fé que recebeu, nosso único objetivo com este post.

2 dezembro, 2011

Recordando Gherardini: caminhar para além das afirmações retóricas.

Livro de Mons. Gherardini Para o bem da Igreja – e mais especificamente para a atuação da “salus animarum” que é a primeira e “suprema lex” – depois de décadas de livre criatividade exegética, teológica, litúrgica, historiográfica e “pastoral” em nome do Concílio Ecumênico Vaticano II, parece-me urgente que se faça um pouco de clareza, respondendo oficialmente à pergunta sobre a continuidade do mesmo – não declamada, mas demonstrada – com os outros Concílios e sua fidelidade à Tradição desde sempre em vigor na Igreja. […] Parece, de fato, difícil, se não impossível, colocar as mãos na esperada hermenêutica da continuidade, a menos que se proceda a uma análise cuidadosa e científica de cada um dos documentos, deles conjutamente e de todos os seus argumentos, suas fontes imediatas e remotas, e se continua, pelo contrário, a falar deles apenas repetindo o seu conteúdo ou apresentando-o como uma novidade absoluta. Esse pensamento há tempos nasceu em minha mente – que ouso ora apresentar à Sua Santidade –, de uma grande e possivelmente definitiva purificação sobre o último Concílio em todos os seus aspectos e conteúdo. Parece, de fato, lógico e adequado que todos os aspectos e conteúdos sejam estudados em si e em conjunto com todos os outros, com os olhos fixos em todas as fontes, e sob o ângulo específico do Magistério eclesiástico precedente, solene e ordinário. A partir desse amplo e irrepreensível trabalho científico, comparado com os resultados seguros da atenção crítica ao secular Magistério da Igreja, será então possível elaborar um argumento para uma avaliação segura e objetiva do Concílio Vaticano II […] Mas se a conclusão científica do exame levar à hermenêutica da continuidade como a única devida e possível, será portanto necessário provar – para além de toda afirmação retórica – que a continuidade é real, e tal se manifesta apenas na identidade dogmática de fundo. […] [Se] não resultar cientificamente provado, seria necessário dizê-lo com serenidade e franqueza, em resposta à exigência de clareza sentida e esperada por quase meio século.

Do livro de Monsenhor Brunero Gherardini, Concilio Ecumenico Vaticano II. Un discorso da fare, editado pela Casa Mariana Editrice di Frigento, fundada e dirigida pelos Franciscanos da Imaculada,  com prefácio de Dom Mario Oliveri, bispo de Albenga e Imperia, e apresentação de Dom Albert Malcom Cardeal Ranjith, Arcebispo de Colombo e antigo secretário da Congregação para o Culto Divino.

8 abril, 2011

Os grandes desiludidos pelo Papa Bento XVI.

São alguns dos maiores pensadores tradicionalistas. Haviam apostado nele e agora se sentem traídos. As últimas decepções: o Pátio dos Gentios e o encontro de Assis. A acusação que fazem contra Ratzinger é a mesma que fazem ao Concílio: ter substituído o anátema pelo diálogo.

por Sandro Magister | Tradução: Fratres in Unum.com

ROMA, 8 de abril de 2011 – A Santa Sé confirmou oficialmente que no próximo dia 27 de outubro, em Assis, Bento XVI presidirá uma jornada de “reflexão, diálogo e oração” junto a cristãos de outras confissões, expoentes de outras religiões e “homens de boa vontade”.

O encontro se dará vinte e cinco anos depois daquele primeiro que se tornou célebre, desejado por João Paulo II. Joseph Ratzinger, na época cardeal, não participou dele. E já deu a entender que, com ele como Papa, o próximo encontro de Assis será revisado e corrigido, purificado de toda sombra de assimilação da Igreja Católica às outras confissões de fé.

Mas, da mesma forma, os tradicionalistas não o perdoaram. Alguns deles assinaram um apelo crítico. O “espírito de Assis”, segundo eles, é parte da confusão mais geral que está desintegrando a doutrina católica e que teve origem a partir do Concílio Vaticano II.

Uma confusão contra a qual Bento XVI não reagiu como deveria.

* * *

Nestes últimos tempos, no campo tradicionalista, as críticas contra o Papa Ratzinger não diminuíram, mas antes cresceram em intensidade. Refletem uma crescente desilusão com relação às esperanças inicialmente renovadas na ação restauradora do atual pontificado.

As críticas de alguns tradicionalistas se concentram, em particular, no modo com que Bento XVI interpreta o Concílio Vaticano II e o pós-concílio.

Segundo eles, o Papa se equivoca quando limita sua crítica às deteriorações do pós-concílio. Com efeito, o Vaticano II – sempre segundo o juízo deles – não foi apenas mal-interpretado e aplicado: ele mesmo foi portador de erros, o primeiro dos quais a renúncia das autoridades da Igreja a exercer, quando necessário, um magistério de definição e de condenação: isto é, a renúncia ao anátema para privilegiar o diálogo.

No plano histórico, tende a convalidar esta tese o volume recentemente publicado pelo Professor Roberto de Mattei: “Il Concilio Vaticano II. Una storia mai scritta” [O Concílio Vaticano II. Uma história nunca escrita]. Segundo de Mattei, não se pode isolar os documentos conciliares dos homens e das vicissitudes que os produziram: desses homens e dessas manobras, cuja intenção deliberada — muito bem sucedida —  era romper com a doutrina tradicionalista da Igreja Católica, nos pontos mais essenciais.

No plano teológico, um conhecido crítico tradicionalista de Bento XVI é Brunero Gherardini, com 85 anos vigorosamente vividos, cônego da basílica de São Pedro, professor emérito da Pontifícia Universidade Lateranense e diretor da revista de teologia tomista “Divinitas”.

No ano de 2009, Gherardini publicou um volume intitulado: “Concilio Vaticano II. Un discorso da fare” [Concílio Vaticano II. Um debate a se realizar], que concluía com uma “Súplica ao Santo Padre”, na qual pedia que se submetesse a um exame os documentos do Concílio e se esclarecesse, de forma definitória e definitiva, “se, em que sentido e até que ponto” o Vaticano II esteve ou não em continuidade com o magistério anterior da Igreja.

Agora, dois anos depois desse livro, Gherardini lança um novo, intitulado: “Concilio Vaticano II. Il discorso mancato” [Concílio Vaticano II. O debate ausente], no qual lamenta o silêncio com que as autoridades da Igreja responderam a sua publicação anterior. E leva sua crítica mais a fundo.

Escreve Gherardini:

“Se desejam continuar culpando apenas o pós-concílio, podem, de fato, fazê-lo, porque, efetivamente, ele não é absolutamente isento de culpa. Mas seria necessário também não se esquecer que ele é o filho natural do Concílio, e extraiu do Concílio esses princípios sobre os quais, exasperando-os, basearam seus conteúdos mais devastadores”.

Na visão de Gherardini, pelo contrário, predomina nos altos poderes da Igreja uma cega exaltação do Concílio, que “corta as asas da análise crítica” e “impede de ver o Concílio com um olhar mais agudo e menos ofuscado”.

E os primeiros responsáveis por esta exaltação acrítica seriam justamente os últimos Papas: desde João XXIII, passando por Paulo VI até João Paulo II. Quanto ao pontífice reinante – observa Gherardini –, “até agora não corrigiu nem um ponto nem uma vírgula dessa ‘Vulgata’ que foi patrocinada pelos predecessores”: ele, que também “como outros poucos oficiais católicos rugiram realmente contra as deformações do pós-concílio, jamais deixou nem de entoar o hosana ao Concílio nem de afirmar a continuidade com todo o magistério anterior a ele”.

* * *

Outro grande decepcionado com Bento XVI é Enrico Maria Radaelli, filósofo e teológo, discípulo do maior pensador tradicionalista do século XX, Romano Amerio.

A principal obra de Radaelli é o ensaio “Ingresso alla bellezza”, de 2007, tendo nestes dias publicado a edição – no momento “pro manuscripto” e impressa em pouquíssimas cópias – de um segundo ensaio, também notável, intitulado: “La bellezza che ci salva”.

O subtítulo do novo ensaio de Radaelli sintetiza assim o conteúdo:

“A força do ‘Imago’, o segundo nome do Unigênito de Deus, que com o ‘Logos’ pode dar vida a uma nova civilização, fundada na beleza”.

E, com efeito, é este o coração do ensaio, como enfatiza no prefácio Antonio Livi, sacerdote do Opus Dei e filósofo metafísico de primeiro nível, docente na Pontifícia Universidade Lateranense.

Porém, nas cultas e vibrantes páginas de seu novo livro, Radaelli não deixa de submeter à crítica, em sua quase totalidade, a atual hierarquia da Igreja Católica, inclusive o Papa.

As decepções pelas ações de Bento XVI deriva – para Radaelli como para outros tradicionalistas – não só por ter convocado um novo encontro interreligioso em Assis, ou por ter dado vida ao “Pátio dos Gentios”, ambas iniciativas julgadas como fonte de confusão.

A maior culpa apontada ao Papa Ratzinger é a de ter renunciado a ensinar com “a força de um cetro que governa”. Em vez de definir a verdade e condenar os erros, “colocou-se dramaticamente disponível a ser também criticado, não pretendendo nenhuma infalibilidade”, como escreveu ele mesmo no prefácio de seus livros sobre Jesus.

Conseqüentemente, Bento XVI teria também ele se dobrado ao erro capital do Vaticano II: a renúncia às definições dogmáticas, em prol de uma linguagem “pastoral” e, portanto, inevitavelmente equívoca.

* * *

De Mattei, Gherardini e Radaelli não estão sós.

O livro de Gherardini, de 2007, tem o prefácio do Arcebispo de Colombo, hoje Cardeal, Albert Malcolm Ranjith. E outro bispo, Mario Oliveri, de Albenga-Imperia, escreveu que teve de se unir “toto corde” à súplica ao Papa, com a qual termina o volume, para reexaminar os documentos do Vaticano II.

Radaelli escreve em “L’Osservatore Romano”. E tanto Gherardini como de Mattei tomaram a palavra, em dezembro passado, em um congresso, a poucos passos da basílica de São Pedro, “para uma justa hermenêutica do Concílio à luz da Tradição da Igreja”.

Neste congresso discursaram também o Cardeal Velasio de Paolis, o bispo Luigi Negri, de San Marino e Montefeltro, e Monsenhor Florian Kolfhaus, da Secretaria de Estado vaticana.

E outro bispo muito estimado, o auxiliar de Astana, no Cazaquistão, Athanasius Schneider, concluiu sua intervenção com a proposta ao Papa de elaborar um “Syllabus” contra os erros doutrinais de interpretação do Concílio Vaticano II.

Mas Dom Schneider, assim como quase todos os participantes do congresso de dezembro, organizado pelos Franciscanos da Imaculada, não considera que nos documentos do Vaticano II haja efetivos pontos de ruptura com a grande tradição da Igreja.

A hermenêutica com a qual [Dom Scheneider] interpreta os documentos do Concílio é a definida por Bento XVI em seu memorável discurso à cúria romana de 22 de dezembro de 2005: “a hermenêutica da reforma, da renovação na continuidade do único sujeito-Igreja”.

É uma hermenêutica seguramente compatível com o apego à tradição da Igreja. E é também a única capaz de vencer a contrariedade de alguns tradicionalistas acerca das “novidades” do Concílio Vaticano II, como Francesco Arzillo mostra na seguinte nota [leia a nota em espanhol aqui].

Com efeito, a linguagem “pastoral” do Vaticano II, precisamente por sua natureza não definitória, exige, com maior razão, ser compreendida à luz da tradição da Igreja, tal como o fez o próprio Bento XVI no discurso supracitado, a respeito de uma das “novidades” conciliares mais impopulares para muitos tradicionalistas, a da liberdade de religião.

12 julho, 2010

Os defensores da tradição reivindicam a Igreja infalível.

Suplicam ao Papa que condene “ex cathedra” os erros do Concílio Vaticano II. Um novo livro de Romano Amerio voltará a dar força a seu pedido. Mas Bento XVI não está de acordo.

por Sandro Magister

ROMA, 12 de julho de 2010 – Há alguns dias está nas livrarias italianas um novo volume de Romano Amerio, o terceiro da “opera omnia” deste autor, publicado pelas Edições Lindau.

Amerio, falecido em 1997 em Lugano (Suíça) aos 92 anos de idade, foi um dos maiores intelectuais cristãos do século XX.

Filólogo e filósofo de primeiro nível, Amerio tornou-se conhecido no mundo por conta de seu ensaio, publicado pela primeira vez em 1985 e traduzido para muitos idiomas, intitulado: “Iota unum. Estudo das variações da Igreja Católica no século XX”.

Mas esse mesmo ensaio, justamente pela tese que contém, fez Amerio ganhar o ostracismo da quase totalidade do mundo católico. Um ostracismo que apenas perdeu vigor há pouco tempo, também graças à reedição de “Iota unum”.

read more »

15 julho, 2009

Grandes retornos. “Iota unum” e “Stat veritas” de Romano Amerio.

Link para o original.Retornam às livrarias duas obras capitais da cultura católica e cai definitivamente o tabu sobre um dos maiores intelectuais cristãos do século XX. A questão enfatizada por ele é a mesma que está no centro do pontificado de Bento XVI: quando e de que modo pôde a Igreja mudar?

por Sandro Magister

ROMA, 15 de julho de 2009 – A partir de amanhã retornam às livrarias italianas, editados por Lindau, dois volumes situados entre os clássicos da cultura católica, cujo conteúdo está em impressionante sintonia com o título e com o fundamento da terceira encíclica de Bento XVI: “Caritas in veritate”.

Os dois volumes têm por autor Romano Amerio, literato, filósofo e teólogo suíço, falecido no ano de 1997 aos 92 anos de idade. Alguém que o estimava muito, o teólogo e místico don Divo Barsotti, sintetizou assim o conteúdo dos dois volumes:

Roma Amerio - Moribus antiquis stat res romana virisque (Ennius)

“Amerio diz em substância que os males mais graves presentes hoje no pensamento ocidental, inclusive no pensamento católico, se devem principalmente a uma desordem mental geral pela qual se põe a ‘caritas’ a frente da ‘veritas’, sem pensar que esta desordem subverte também a reta concepção que devemos ter da Santíssima Trindade”.

Com efeito, Amerio vê precisamente neste desmoronamento do primado do Logos sobre o amor – ou seja, na caridade desvinculada da verdade – a raiz de muitas “variações da Igreja católica no século XX”: as variações que ele descreveu e submeteu à crítica no primeiro e mais imponente dos dois volumes citados: “Iota unum”, escrito entre 1935 e 1985; as variações que o levaram a lançar a questão se com elas a Igreja não se converteu em algo diferente de si mesma.

Muitas das variações analisadas em “Iota unum” – mas bastaria uma só, um “iota” que está em Mateus 5, 18 e que dá o título ao livro – impulsionariam o leitor a pensar que na Igreja se produziu uma mutação da essência. Mas Amerio analisa, não julga. Melhor dizendo, como cristão íntegro que é, deixa o juízo para Deus, e recorda que “portae inferi non praevalebunt”, as portas do inferno não prevalecerão, isto é, para a fé é impossível pensar que a Igreja possa perder a si mesma. Sempre haverá uma continuidade com a Tradição, também dentro das turbulências que a obscurecem e fazem pensar o contrário.

Há um estreito vínculo entre as questões lançadas em “Iota unum” e o discurso de Bento XVI de 22 de dezembro de 2005 à cúria romana, discurso capital, já que remete à interpretação do Concílio Vaticano II e sua relação com a Tradição…

Isso não muda o fato de que o estado da Igreja descrito por Amerio de maneira alguma seja pacífico.

No discurso de 22 de dezembro de 2005, Bento XVI comparou a babel da Igreja contemporânea com o marasmo que no século IV seguiu o Concílio de Nicéia, descrito por São Basílio, testemunha da época, como “uma batalha naval na escuridão da uma tempestade”

No epílogo que Enrico Maria Radaelli, fiel discípulo de Amerio, publica no final desta edição de “Iota unum”, a situação atual é, por sua vez, comparada com o cisma do Ocidente, ou seja, com os quarenta anos transcorridos entre os séculos XIV e XV que precederam o Concílio de Constança, com a cristandade sem guia e sem uma “regra da fé” segura, dividida contemporaneamente entre dois ou até três Papas.

Em todo caso, reeditado hoje depois de vários anos, “Iota unum” se confirma como um livro não só extraordinariamente atual, mas “construtivamente católico”, em harmonia com o magistério da Igreja. No epílogo, Radaelli o mostra de forma irrefutável. A conclusão do epílogo está reproduzida logo abaixo.

Quanto ao segundo livro, “Stat veritas”, publicado por Amerio em 1985, está em continuidade linear com o anterior. Nele compara a doutrina da Tradição católica com as “variações” que o autor reconhece em dois textos do magistério de João Paulo II: a carta apostólica “Tertio millennio adveniente”, de 10 de novembro de 1994, e o discurso ao Collegium Leoninum de Paderborn, de 24 de junho de 1996.

O retorno de “Iota unum” e “Stat veritas” às livrarias faz justiça tanto a seu autor como à censura de fato que se abateu durante longos anos entre ambos livros capitais do autor. Na Itália, a primeira edição de “Iota unum” foi reimpressa três vezes, com uma tiragem total de sete mil exemplares, apesar de suas quase setecentas páginas que obrigam uma leitura atenta. Logo foi traduzido para o francês, inglês, espanhol, português [nota do Fratres in Unum: não é de nosso conhecimento nenhuma tradução portuguesa de Iota Unum], alemão e holandês. Reuniu dezenas de milhares de leitores em todo o mundo. Mas era tabu para os órgãos católicos oficiais e para a autoridade da Igreja, assim como naturalmente era para os adversários. Caso mais único que raro, este livro foi um “long seller” clandestino. Continuou sendo pedido mesmo quando se esgotou nas livrarias.

O rompimento do tabu é recente, em congressos, comentários e revisões. “La Civiltà Cattolica” e “L’Osservatore Romano” também despertaram. No começo do ano de 2009 apareceu na Itália uma primeira reedição de “Iota unum”, junto aos textos clássicos de “Fè & Cultura”. Mas esta nova edição do livro, a cargo de Lindau, junto à de “Stat veritas”, tem além disso o valor do cuidado filológico por parte de Radaelli, o máximo conhecedor e herdeiro intelectual de Amerio. Seus dois vastos epílogos são verdadeira e realmente ensaios, indispensáveis para compreender não apenas o sentido profundo dos dois livros, mas também sua permanente atualidade. Lindau, com Radaelli a cargo da obra, tem a intenção de publicar nos próximos anos a imponente “opera omnia” de Amerio.

A seguir, apresentamos uma brevíssima degustação do epílogo a “Iota unum”: as considerações finais.

Toda a Igreja é um “iota”.

por Enrico Maria Radaelli

[…] A conclusão é que Romano Amerio se revela como o pensador mais atual e estimulante do momento. Com a elegância intelectual que distinguiu todos os seus escritos, com “Iota unum” ele oferece um pensamento muito construtivamente católico, preenchendo um espaço filosófico e teológico de outra forma incerto a respeito de questões sérias.

Ele identifica e indica que na Igreja há uma crise, uma crise que parece dominar a Igreja, embora mostre que não a dominou; que parece derrubá-la, embora não tenha derrubado.

Identifica logo e indica com clareza a causa primeira desta crise numa variação antropológica, e sobretudo, metafísica.

Identifica e indica por último os instrumentos lógicos (inscritos no Logos) necessários e suficientes (heroicamente suficientes, mas suficientes) para superá-la.

Amerio faz tudo isso desenvolvendo um “modelo de continuidade” com a Tradição, de ordenada e por isso perfeita obediência ao Papa, de íntima adesão à regra próxima da fé, que pareceria ilustrar totalmente como se compreende esta “hermenêutica da continuidade” pedida pelo Papa Bento XVI no discurso à cúria romana, de 22 de dezembro de 2005, para manter-se seguro no caminho da razão, o que significa dizer sobre o caminho da salvação, isto é, sobre o caminho da Igreja para alcançar a vida.

Romano Amerio: crítico sim, mas jamais descontinuador. Este “modelo de continuidade” totalmente ameriano espera hoje ser finalmente reconhecido, e por isso finalmente apreciado. Quem sabe, quiçá, também seguido, para o bem comum (teórico e prático, filosófico e ético, doutrinal e litúrgico) da Cidade de Deus, com a simplicidade e valores necessários.

Se com o uso da ambigüidade a da contradição se chegou a concluir uma revolução antropológica a favor das fantasias mais vãs, quanto mais se poderá concluir, a com menos esforço, uma ainda mais sã revolução antropológica a favor da Realidade, já que é mais fácil ser simples que complicado.

__________

Os livros:

Romano Amerio, “Iota unum. Studio delle variazioni della Chiesa cattolica nel secolo XX”, a cura di Enrico Maria Radaelli, prefazione del card. Darío Castrillón Hoyos, Lindau, Torino, 2009.

Romano Amerio, “Stat veritas. Séguito a Iota unum”, a cura di Enrico Maria Radaelli, Lindau, Torino, 2009.

Além da italiana, está disponível também a versão inglesa de “Iota unum”:

Romano Amerio, “Iota unum. A Study of Changes in the Catholic Church in the Twentieth Century”, Sarto House, Kansas City, MO, 1996.

__________

Os serviços anteriores de http://www.chiesa sobre Romano Amerio:

> Grandes retornos: Romano Amerio y las variaciones de la Iglesia católica
(15.11.2007)

> “La Civiltà Cattolica” rompe el silencio. Sobre Romano Amerio (23.4.2007)

> Fine di un tabù: anche Romano Amerio è “un vero cristiano”
(6.2.2006)

> Un filosofo, un mistico, un teologo suonano l’allarme alla Chiesa (7.2.2005)

__________

Sobre Enrico Maria Radaelli, discípulo de Amerio, e sobre seu livro “Ingresso alla bellezza”:

> Todos a ver el “sagrado teatro celestial”. Un teólogo hace de guía (15.2.2008)

__________

Recentemente apareceram na Itália outros dois livros que afronta desde o ponto de vista tradicionalista a questão das “variações” da Igreja católica durante o Concílio Vaticano II e depois deste.

O primeiro é uma tradução de um volume publicado nos Estados Unidos, escrito por um renomado filósofo católico da escola tomista, professor na Universidade de Notre Dame e membro da Pontifícia Academia Santo Tomás de Aquino:


Ralph McInerny, “Vaticano II. Che cosa è andato storto?”, Fede & Cultura, Verona, 2009.

O segundo tem por autor Monsenhor Brunero Gherardini, de 84 anos de idade, ex decano da Faculdade de Teologia da Pontifícia Universidade Lateranense e diretor da revista “Divinitas”. Este livro é aberto com dois prefácios de caráter elogioso: um escrito pelo bispo de Albenga, Mario Oliveri, e o outro pelo arcebispo de Colombo, Sri Lanka, Albert Malcolm Ranjith, até poucos meses secretário da Congregação vaticana para o Culto Divino.

O autor sustenta que nos documentos – não infalíveis – do Concílio Vaticano II se produziu aqui e acolá rupturas efetivas com a Tradição. E conclui com uma súplica a Bento XVI para que restaure a doutrina autêntica:

Brunero Gherardini, “Concilio Ecumenico Vaticano II. Un discorso da fare”, Casa Mariana Editrice, Frigento (Avellino), 2009.

9 junho, 2009

Curtas da semana.

Dom Fellay na Congregação para a Doutrina da Fé.

Dom Bernard Fellay(ReL) Na última sexta-feira voltou a circular em Roma os rumores sobre um possível acordo entre o Vaticano e a Fraternidade de São Pio X, fundada em 1970 pelo arcebispo francês Marcel Lefebvre (1905-1991). Tudo surgiu ao se saber da presença do superior da congregação, monsenhor Bernard Fellay, na Cidade Eterna, que na sexta-feira teria uma audiência na Congregação para a Doutrina da Fé.

Súplica ao Santo Padre: caminhar para além das afirmações retóricas.

Mons. Gherardini Brunero‹‹ Para o bem da Igreja – e mais especificamente para a atuação da “salus animarum” que é a primeira e “suprema lex” – depois de décadas de livre criatividade exegética, teológica, litúrgica, historiográfica e “pastoral” em nome do Concílio Ecumênico Vaticano II, parece-me urgente que se faça um pouco de clareza, respondendo oficialmente à pergunta sobre a continuidade do mesmo – não declamada, mas demonstrada – com os outros Concílios e sua fidelidade à Tradição desde sempre em vigor na Igreja. […] Parece, de fato, difícil, se não impossível, colocar as mãos na esperada hermenêutica da continuidade, a menos que se proceda a uma análise cuidadosa e científica de cada um dos documentos, deles conjutamente e de todos os seus argumentos, suas fontes imediatas e remotas, e se continua em vez de falar apenas repetindo o conteúdo ou apresentando-o como uma novidade absoluta. Esse pensamento há tempos nasceu em minha mente – que ouso ora apresentar à Sua Santidade – de uma grande e Livro de Mons. Gherardini possivelmente definitiva purificação sobre o último Concílio em todos os seus aspectos e conteúdo. Parece, de fato, lógico e adequado que todos os aspectos e conteúdos sejam estudados em si e em conjunto com todos os outros, com os olhos fixos em todas as fontes, e sob o ângulo específico do Magistério eclesiástico precedente, solene e ordinário. A partir desse amplo e irrepreensível trabalho científico, comparado com os resultados seguros da atenção crítica ao secular Magistério da Igreja, será então possível elaborar um argumento para uma avaliação segura e objetiva do Concílio Vaticano II […] Mas se a conclusão científica do exame levar à hermenêutica da continuidade como a única devida e possível, será portanto necessário provar – para além de toda afirmação retórica – que a continuidade é real, e tal se manifesta apenas na identidade dogmática de fundo. […] [Se] não resultar cientificamente provado, seria necessário dizê-lo com serenidade e franqueza, em resposta à exigência de clareza sentida e esperada por quase meio século. ›› Do recém lançado livro de Monsenhor Brunero Gherardini, Concilio Ecumenico Vaticano II. Un discorso da fare, editado pela Casa Mariana Editrice di Frigento, fundada e dirigida pelos Franciscanos da Imaculada, com prefácio de Dom Mario Oliveri, bispo de Albenga e Imperia, e apresentação de Dom Albert Malcom Ranjith, secretário da Congregação para o Culto Divino.

Acordo secreto.

(Rorate-Caeli) Giacomo Galeazzi faz a resenha da nova biografia de Paulo VI escrita por Andrea Tornielli para o La Stampa e menciona que aquilo que muitos consideravam uma teoria da conspiração era verdade: sem dúvida, houve um acordo secreto, conduzido pelo Cardinal Tisserand, entre a União Soviética e a Santa Sé (sob João XXIII) em 1962 – um acordo que Paulo VI também respeitou, conforme Galeazzi diz:  ‹‹ Em uma nota de 15 de novembro de 1965, Montini, de fato, menciona explicitamente que dentre “os compromissos do Concílio” existe também aquele “de não mencionar o comunismo (1962)”.  A indicação da data do final da frase escrita por Paulo VI refere-se ao acordo secreto, relacionado por Tisserand, entre Roma e Moscou ›› .  E isso explicaria porque o Concílio Vaticano Segundo, que discutiu todo tipo de questões, relevantes e irrelevantes da mesma forma, ignorou a ameaça mais desafiadora de seu tempo: o comunismo.

Desempregado.

Padre Fioraso(Messa in Latino) ‹‹ Uma visitação canônica enviada pela Santa Sé decidiu pela substituição do abade de Santa Croce in Gerusalemme, Padre Simon Fioraso. O vigário de Roma, o Cardeal Agostino Vallini, nomeará em breve um padre da diocese como pároco enquanto a comunidade dos cistercienses não tiver na capital forças suficientes para garantir a cura da paróquia anexa ao Mosteiro. Assim confirmou à Agi Monsenhor Marco Fibbi, diretor do departamento de comunicações Sociais da diocese de Roma ›› .  Conforme o blog Messa in Latino, os motivos para o afastamento do pároco são os abusos na liturgia e na condução da paróquia.

Uma a cada cinco é extraordinária.

(Kreuz.net) No ano de 1966 ocorreram aproximadamente 900 ingressos nos seminários franceses. Em 2007 foram menos de 150, conforme informou a organização francesa ‘Paix Liturgique’ em um comunicado de imprensa de 28 de maio. Atualmente, 756 seminaristas estudam na França. Ao final do Concílio Vaticano II eram mais de 4.500. ‘Paix Liturgique’ ressalta também que hoje em dia na França surge uma nova categoria de seminaristas – aquela dos seminários tradicionalistas. Atualmente, existem no país 160 seminaristas tradicionalistas. Assim, eles já perfazem um quinto da soma total dos candidatos ao sacerdócio. A essa altura, deve-se levar em consideração – diz a ‘Paix Liturgique’ – que a Missa será celebrada regularmente no Rito Antigo em pouco menos de uma a cada cem paróquias francesas* : “Assim, temos que reconhecer a influência “extraordinária” que o Rito Antigo exerce sobre as vocações”. Nesse ínterim, o bispo de Toulon, Mons. Dominique Marie Jean Rey (56), decretou que todos os seus seminaristas devem aprender a celebração do Rito Antigo. Mons. Rey é membro da comunidade carismática ‘Emmanuel’ fundada na França.  * Nota de Tradução: Segundo o Serviço de Informações do Vaticano (Departamento Central de Estatísticas), na França existem 16.553 paróquias para uma população de 61.350.000, dos quais 46.427.000 (75,5 por cento) são católicos.

Progressistas e neo-conservadores, está tudo em casa.

(Kreuz.net). O Professor de Teologia Dogmática de Regensburgo, Wolfgang Beinert (76), emérito em 1998, publicou um livro contra a Fraternidade São Pio X chamado “Der Vatikan und die Pius-Brüder: Anatomie einer Krise“ [O Vaticano e a Fraternidade São Pio X: Anatomia de uma crise]. A obra inclui contribuições de notórios neo-conservadores e liberais inimigos da Tradição católica, dentre eles o Professor de Teologia Dogmática de Tubinga já aposentado, Pe. Peter Hünermann, o Bispo Kurt Koch de Basel, Bispo Gerhard Ludwig Müller de Regensburgo ou o Diretor da “Agência Católica de Notícias” da Alemanha, Ludwig Ring-Eifel.

Fundo do poço.

(Kath) Na Suécia os nascituros podem ser abortados quando a mãe não concorda com o sexo da criança, conforme decisão do Serviço Nacional de Saúde em Estocolmo. Uma mãe com duas filhas de Eskilstuna (ao sul da Suécia) fez dois abortos porque não queria uma terceira filha. Ao ficar grávida novamente ela pediu aos médicos que lhe informassem o sexo da criança. Estes pediram conselho ao Serviço Público. Resposta: os abortos motivados por insatisfação com o sexo não deveriam ser negados. Caso contrário se violaria a legislação em vigor, que permite o aborto até a 18ª semana. Segundo informe do jornal sueco, no momento, existe um turismo de aborto entre a Noruega e a Suécia: o fato de que na Noruega o aborto somente é permitido até a décima segunda semana, assim que ficam sabendo o sexo da criança, as gestantes viajam cada vez mais para o país vizinho. Entre elas estariam especialmente mulheres de outras culturas. “Quando uma mulher já tem três ou quatro meninas e vem da Turquia a pressão é grande para ter um menino” cita um abortista no jornal.

Arquidiocese de Olinda pode levar Dom Fisichella ao Tribunal Eclesiástico.

(Oblatvs) A Arquidiocese de Olinda e Recife distribuiu entre oficiais da Cúria Romana um memorando detalhando as medidas tomadas pela mesma na defesa da menina de 9 anos vítima de estupro. O objetivo do memorando é chegar a uma solução “cristã e amigável” para o impasse criado pelo artigo do Presidente da Pontifícia Academia para a Vida publicado no L’Osservatore Romano. Segundo Monsenhor Ignácio Barreiro, é a coisa certa a ser feita antes de buscar a solução no tribunal. […] O memorando de seis páginas é assinado pelo advogado da arquidiocese pernambucana e foi distribuído para centenas de oficiais da cúria. Ele desmonta a versão apresentada pelo artigo de Dom Fisichella e que repercutiu no mundo inteiro, em razão do autor e do jornal.[…] Dom Cardoso Sobrinho disse recentemente que o L’Osservatore se recusa a publicar sua versão dos fatos. O jornal já havia cometido uma injustiça contra Dom José e agora comete a segunda. Diante dos poderosos bispos americanos a atitude do corajoso editor do jornal foi bem outra.

12 setembro, 2008

“A nossa ligação ao rito tradicional é um casamento de fé e de amor que obriga-nos a uma fidelidade exclusiva”

Os Bénédictins de l’Immaculée formam um nova comunidade de monges que saíram do mosteiro de Sainte-Madeleine du Barroux, após Dom Louis-Marie de Geyer d’Orth, abade que substituiu Dom Gérard, fundador da abadia, implantar uma política bi-ritualista.

Na esplêndida carta que abaixo traduzimos, um dos fundadores da nova comunidade, Dom Jehan de Belleville, explica a Dom Mario Oliveri, bispo da diocese de Albenga-Imperia, os motivos doutrinários que impedem os monges de celebrar o Novus Ordo Missae.

Ressaltamos que nesta carta, publicada em 30 de outubro de 2007, Dom Jehan escrevia ao bispo ainda como monge de Le Barroux, acerca do problema que então dividia a comunidade: a concelebração. Já Dom Mario Oliveri, em 6 de fevereiro deste ano, aprovou a vida “extra-clausura” dos monges em sua diocese por um período “ad experimentum” de um ano; após, poderão ser incardinados na diocese. Quem, especialmente após ler o conteúdo desta carta, poderia imaginar uma aprovação como essa há cinco ou dez anos?

 

+
PAX

A Sua Excelência,

Monsenhor Mario OLIVERI
Bispo de Albenga-Imperia

Excelência e Caro Monsenhor,

Obrigado de todo o coração por ter-me chamado ontem ao telefone e ter-me comunicado muito simplesmente o vosso pensamento sobre o problema das concelebrações que divide a nossa comunidade [nota: quando Dom Jehan enviou esta carta, ele ainda estava no mosteiro do Barroux] . A nossa conversa me sugeriu algumas reflexões das quais gostaria de abrir-me junto de vossa Excelência.

[…]

Se se atém à lei canônica, o cânon 902 deixa a entender que a regra geral na Santa Igreja é a celebração individual da missa e que a concelebração é apenas permitida (sacerdotes Eucharistiam concelebrare possunt), que é às vezes mesmo proibida e que, em todos os casos, reside a liberdade para cada um celebrá-la individualmente. Seria, por conseguinte, injusto reprovar um padre e uma comunidade por não concelebrar.

Se a nossa comunidade [ndt: do Barroux] se constituiu em torno exclusivamente do rito tradicional, era, por conseguinte, o seu direito, e a Igreja como tal o reconheceu através das suas Constituições. Após a leitura atenta destas últimas, o meu antigo professor na faculdade de direito do Opus Dei, Monsenhor Stankiewicz, decano atual da Rota, me deu em Junho de 2006 uma plena confirmação. A lei própria (lex propria) dos diversos Institutos não é uma lei territorial, incitando a pensar, por exemplo, que o rito tradicional da missa é obrigatório apenas dentro da abadia. O comentário do Código pela universidade de Salamanca explica, pelo contrário, a propósito do cânon 13, que “certas leis afetam diretamente os seus destinatários, não devido à sua relação com um território, mas por um motivo que os tocam mais pessoalmente, de modo que estas leis seguem as pessoas que são-lhes sujeitas por toda a parte aonde vão”. A nossa lei própria obriga-nos, por conseguinte, mesmo fora do mosteiro.

É evidente que esta escolha comunitária, canonizada pela Igreja, repousa sobre convicções de fé, que a hierarquia nem sempre compreendeu e ainda menos aceitou. Vinculados “colegialmente” às instituições eclesiais em crise, os bispos, frequentemente impregnados em demasia do espírito do mundo e as suas ideologias, não fizeram mais que paralisar a vida sobrenatural nas almas. Após quarenta anos de tal regime, as conseqüências dramáticas estendem-se tristemente sob os nossos olhos. E os que entre eles reconhecem-no e lamentam-no, não chegam sempre a reagir com os meios e a vigor necessários.

A nossa ligação ao rito tradicional é um casamento de fé e de amor que, à imagem da união conjugal, obriga-nos a uma fidelidade exclusiva. Supõe e manifesta uma teologia e uma pastoral que não podem estar de acordo com uma liturgia que volta às costas a Deus em favor do diálogo e do “estarmos juntos”.

“A reforma litúrgica, confessava já o Cardeal Ratzinger, produziu prejuízos extremamente graves para a fé” (La mia vita, éd. San Paolo, Roma, 1997). A denúncia e a condenação pelo próprio Bento XVI do tabu “do conciliarmente correto” ou “o espírito do concílio” liberta pouco a pouco os espíritos, e cada vez mais Pastores e teólogos terminam por reconhecer publicamente as carências e as ambigüidades doutrinais do N.O.M. [ndt: Novus Ordo Missae, isto é, a missa de PauloVI]. Ora, como recordava João Paulo II, “A Eucaristia é um dom muito grande para poder suportar ambigüidades e reduções” (Ecclesia de Eucharistia, n° 10).

Tal é o drama que vive a reação tradicional: querendo ao mesmo tempo conservar a união hierárquica desejada pelo Senhor, recusa vincular-se a um rito ao qual, embora válido e legal, não reconheça o testemunho autêntico de uma fé inequívoca. O Cardeal Ratzinger tinha plenamente consciência quando escrevia na sua autobiografia: “Estou convencido que a crise da Igreja que vivemos hoje em grande parte repousa sobre a desintegração da liturgia”. Não está aí a razão fundamental pela qual o papa mesmo aspira reformar a reforma litúrgica sobre o modelo da missa sempre?

É verdadeiro que esta grave insuficiência da liturgia atual, mesmo quando é celebrada com a dignidade necessária, não é sempre e facilmente perceptível aos espíritos teológicos, porque a linguagem da liturgia não é a da doutrina. Esta se serve de conceitos, aquela de sinais. Uma dirige-se à inteligência, a outro a todo o ser humano, corpo e alma. A liturgia, dizia Péguy, é a teologia estendida. Se a liturgia é a obra da fé dos nossos Pais, é, por conseguinte, a expressão, mas também a guardiã. Tudo o que se choca contra o sentido litúrgico tradicional é pelo menos duvidoso. Por exemplo, o contra-altar voltado para o povo, ao contrário, fere o instinto de piedade litúrgica.

Conheço apenas um só bispo – honra a vós, Monsenhor – que havia pedido aos seus padres que tirassem a mesa posta na frente do altar. A orientação litúrgica significa, com efeito, que o culto que rendemos é primeiro para a honra e glória de Deus e não uma auto-celebração da assembléia que, o diálogo obriga, necessita deslocar o crucifixo para o lado; ao centro seria muito embaraçoso. Esta liturgia que temos recebido de toda a tradição bi-milenar da Igreja é Opus Dei e não opus hominum, uma liturgia que vem de Deus e não uma liturgia “fabricada”, como escreveu o Cardeal Ratzinger.

A mentalidade tradicional, reconhecendo ao mesmo tempo a validade e a legalidade eclesial do N.O.M., não reencontra nele a expressão plena de sua fé. Tal é a razão profunda do seu distanciamento no que diz respeito a ele e a sua recusa instintiva de utilizá-lo. A concelebração, que não é nem uma obrigação jurídica nem mesmo uma necessidade teológica, não se chocaria como tal. À nossa época, onde se prova uma necessidade específica de sentir-se juntos, exprime evidentemente uma relação fraternal entre os padres, que é sinal de comunhão eclesial. O que a mentalidade tradicional rejeita é mais o rito que a própria concelebração. A esta última, contudo, prefere enormemente a maneira mais antiga, com diácono, sub-diácono, os ministros inferiores, que manifesta uma comunhão hierárquica mais expressiva de uma sã eclesiologia que uma comunhão igualitária, influenciada pela mentalidade democrática da sociedade.

Dom Gérard, nosso fundador, animado como um Dom Guéranger pela idéia litúrgica, escrevia em um das suas numerosas obras sobre este assunto: “A Igreja, Esposa e Corpo místico de Cristo, é sociedade mais diversificada, mais estruturada, hierarquizada que existe: de cima até a base, tudo leva nela a marca de uma hierarquia sagrada emanada do seu centro vivificante. Esta Igreja celestial, composta de anjos e eleitos que os nossos pintores primitivos representaram com grandes olhos abertos, as mãos juntas e organizados por ordem em redor do Cordeiro, desde os grandes Serafins até as almas do Purgatório que tomam lugar entre os inumeráveis coros, é ela que é a nossa verdadeira pátria e é vendo-a esboçada sob os nossos olhos que fazemos a aprendizagem da eternidade. ” (La Sainte liturgie, éd. Sainte-Madeleine, p. 59-60, Le Barroux, 1982.)

Perdoai, Monsenhor, a franqueza destes propósitos que requerem certamente matizes; é sobretudo a expressão do desejo de transparência em relação à vossa Excelência. Espero que nossas eventuais e legítimas divergências não constituam um obstáculo, mas que pelo contrário vós me permitais colaborar no vosso sagrado ministério, em união com o Papa e com todo o colégio episcopal, pelo testemunho da obediência filial, da oração e do exemplo. Se por ora for difícil encontrar um lugar onde possa instalar-me sozinho ou com um ou dois companheiros, poderia pelo menos me dar uma aceitação em princípio para receber-me em vossa diocese? Com a ajuda de vários padres, que me manifestaram o seu grande desejo de uma presença monástica entre eles, poderíamos procurar então juntos uma solução prática. Nunca vos agradecerei o bastante por haver me concedido a graça de prosseguir a minha vocação de filho São Bento na paz reencontrada.

Queira, Excelência e caro Monsenhor, abençoar-me e receber a certeza de minha respeitosa e religiosa devoção em Nosso Senhor e Nossa Senhora.

Ir. Jehan, O.S.B.

Mais fotos podem ser vistas aqui.