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17 setembro, 2009

O debate sobre o Vaticano II

Após o encerramento do Concílio, foi necessário esperar mais de quarenta anos para que fosse oficialmente admitido em princípio que existe um problema, que este problema é doutrinal, e que é necessário que se fale dele. O debate foi mesmo, antes do tempo, institucionalizado: terá lugar entre os bispos da FSSPX e a Santa Sé.

O problema está na existência persistente de objeções ao que provém do Concílio. Os pareceres são compartilhados em cada caso sobre o ponto de saber se as anomalias procedentes do Vaticano II provêm de uma má interpretação (e aplicação) dos textos conciliares, ou melhor, de alguns desses próprios textos. Este debate não é sem interesse, mas é secundário, cremos nós, ao lado das realidades resultantes, com ou sem razão, mas procedentes de fato do Concílio. Elas marcam profundamente a vida da Igreja e a sua crise há quase meio século.

Exemplo. A nova missa é resultante do Concílio. Com ou sem razão: qual seja, o essencial é examinar as objeções doutrinais que ela levanta em si mesma.

Encontrar-se-á a chave da situação atual no livro de Louis Salleron: La nouvelle messe (NEL 1970, segunda edição expandida: 1976). Não é um livro da FSSPX. Mas é o livro que, quando de seu interrogatório em Roma, em 11 de janeiro de 1979, Mons. Lefebvre depositou nas mãos dos cardeais inquisidores, como resposta decisiva à questão que lhe interrogava suas razões de recusar a missa de Paulo VI. Neste livro, como em La querelle de la nouvelle messe (DMM 1973), Louis Salleron afirmou claramente: “É impossível isolar o problema da missa de todos os outros problemas”. É porque aí se encontra o essencial das objeções doutrinais que se pode fazer ao Concílio e àquilo que dele é resultante.

Durante cerca de quarenta anos os bispos franceses, com um ar astuto, garantiram que viam efetivamente que por detrás do caso da missa os tradicionalistas escondiam uma oposição doutrinal ao Vaticano II. O livro de Salleron prova que, desde o começo, é o Concílio que era posto em causa, muito abertamente, muito visivelmente. Aliás, três anos antes da nova missa, já em 1966, os bispos franceses tinham condenado a revista Itinéraires por sua oposição ao “espírito de renovação iniciado”, noutros termos: “o espírito do Concílio”.

Ao contrário do que se pôde supor muito apressadamente, o problema da missa, onde se reúnem para o essencial os outros problemas conciliares, não está, todavia, resolvido. A nova missa, evolutiva e incerta, ainda está instalada com prioridade, ou mesmo com exclusividade, na maior parte das dioceses, sempre apresentada como o mais belo êxito do espírito do Concílio. O imenso e corajoso favor de Bento XVI foi repudiar a proibição da missa tradicional, — proibição que havia sido arbitrariamente confirmada por Paulo VI em nome explicitamente invocado da “autoridade suprema que [lhe] vem de Cristo Jesus” (24 de maio de 1976). Há na matéria relevantes estudos teológicos que, parece, não viram ainda a luz do dia; mas que são inevitáveis.

A questão que se coloca neste momento não é formular as objeções doutrinais dadas pelo Concílio e sua aplicação. A questão é sair da recusa de debater que foi oposta desde o início às objeções formuladas. Certamente aquelas de Mons. Lefebvre e da FSSPX.  Cronologicamente, primeiramente aquelas do abbé Georges de Nantes. Em seguida, as que têm seu enunciado global em La nouvelle messe de Louis Salleron, que põe em causa “a idéia que preside todas as mudanças atuais”: a idéia de evolução. Ou seja, de um evolucionismo revolucionário, mais ou menos conscientemente marcado por um sopro de dialética marxista. O catolicismo banido do temporal como resultado da Segunda Guerra mundial (sem mais nenhum grande Estado que seja católico), o clero e sua hierarquia se encontram então expostos a todos os contágios.

JEAN MADIRAN

Artigo extraído do nº 6898 de Présent, 7 de agosto de 2009

Fonte: Le Forum Catholique