Santa Cruz do Sul: um colchão para a ordenação diaconal.

FratresInUnum.com, 2 de maio de 2022: Na diocese de Santa Cruz do Sul, RS, Dom Aloísio Alberto Dilli ordenou um diácono há cerca de uma semana. A partir dos 41 minutos do vídeo abaixo, uma cena patética: um colchão é trazido para a prostração do ordenando.

Um leitor comenta:

“Se esta é a liturgia moderna que se espera de um bispo que está a frente da reformulação do Novo Missal Romano do Brasil? No qual o candidato às ordens se prostra sobre um colchão! Os vídeos de alguns padres que extrapolam momentos sacratissimos usando de criatividade circiense, estes tornam-se uma simples ponta de iceberg diante do que os criativos sucessores dos Apóstolos são capazes de achar modernismo litúrgico. A Igreja necessita, com urgência, voltar aos 12 primeiros.

Não escravos, mas filhos.

Por Padre Jerônimo Brow, FratresInUnum.com, 22 de março de 2022: Ontem, dia 21 de março celebramos a Festa do Trânsito de S. Bento, isto é, o dia em que sua bendita alma passou deste mundo para a glória. São Bento, qual árvore frondosa, morre de pé, com os braços elevados, sustentado por seus discípulos, após receber a Santa Comunhão.

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Quanto ao Glorioso Patriarca teremos duas fontes principais: a Santa Regra e a sua vida descrita no II Livro dos Diálogos de S. Gregório Magno. Hoje, onde tudo que outrora era seguro é questionável, chegamos a ter, mesmo entre monges beneditinos, quem questione se a Regra é realmente de S. Bento e, pasmem, se o próprio S. Bento não foi uma história piedosa inventada por S. Gregório.

Deixando esses erros para trás, gostaria de considerar um pouco dois aspectos da Santa Regra que, diante de certos fenômenos contemporâneos, ganham ainda mais importância.

Primeiro é o fato de que S. Bento apresente sua Regra como um caminho para iniciantes e não deixe de apresentar imediatamente outros mestres que deverão ser os guias daqueles mais avançados na vida espiritual.

Ou seja, S. Bento não tem a pretensão de ser um mestre perpétuo, o que é justamente a razão que o torna exatamente isso. Sua humildade considera os preceitos da Regra a base de uma vida espiritual que deverá em sua maturidade ser conduzida por outros autores espirituais, sempre sob a direção do Abade do mosteiro.

E aqui entra o segundo aspecto.

S. Bento traça, para as questões de vida espiritual, conselhos absolutamente perenes e cuja execução são, por natureza, inquestionáveis. Mas também deixa uma grande quantidade de coisas a serem decididas pelo Abade, conforme este julgar mais oportuno. Assim, S. Bento distingue os princípios essenciais dos elementos acidentais e, ao invés de querer propor uma só coisa para todos os que quiserem ser seus discípulos, deixa ao critério dos Abades até mesmo alterar um ou outro ponto da Regra.

Qual a relevância desses dois aspectos para o que vivemos hoje? Simples: São Bento conta com a maturidade dos monges. Essa maturidade não é apenas etária, uma vez que determina que até os mais novos sejam ouvidos. Mas S. Bento inclina a Regra para que o próprio monge seja capaz de saber e de buscar saber o que mais lhe convém.

Uma grande ferida atual é a absoluta falta de maturidade.

Cada vez menos as pessoas apresentam o mínimo de maturidade que a sua própria idade nos faria esperar. Se há alguns séculos um homem de 18 anos, com a força de seu trabalho sustentava dignamente sua esposa e filhos, hoje encontramos homens de 40 anos comprando a espada do Lion, do Thundercats.

Há uma adolescência prolongada (ou uma infância retardada) que gera uma dependência de coisas e pessoas, uma carência doentia. Daí, por exemplo, que certos casais se comportem como coleguinhas de creche, onde a resposta para uma crise é: “Foi você que começou!”

A destruição da família e de sua constituição, tal como desejada por Deus, ainda potencializa essa carência particularmente em torno da figura paterna. Não são poucos os que transferem a figura paterna para um sacerdote ou para um leigo mais experiente.

Sim, o padre é um pai. E também um leigo bem formado poderia, em certo sentido, exercer uma saudável paternidade. Mas, o pai não é o “papai”, nem a tia da creche. A paternidade autêntica (tanto do pai de família, como de um pai espiritual) está em conduzir os filhos para uma sadia autonomia. Fixando neles os princípios, dando-lhes bons exemplos e deixar que voem do ninho.

Tal como um pai de família deve incentivar os filhos a terem a sua independência, a seguirem a sua vida, dentro dos valores cristãos que ele incrustou em suas almas, os pais e mestres espirituais só o serão verdadeiramente na medida em que fizerem os seus filhos/alunos perceberem a necessidade de caminharem com os próprios pés.

Porém, o que temos a lamentar é que, diante da destruição da família e da auto-demolição da própria Santa Igreja, aqueles clérigos ou leigos que assumem um papel importante na vida de muitos fiéis, geralmente no início de suas conversões, acabam criando uma dependência teológica-espiritual-afetiva-psicológica que mais cedo ou mais tarde provoca um caos na alma do fiel.

E isso se deve igualmente à preguiça mental dos alunos desses mestres.

Um exemplo: o Papa promulgou Traditionis Custodes.

E os alunos necessitam que o padre ou professor faça uma live comentando se o documento deve ou não ser obedecido. Ou algo mais, eu preciso saber se o professor assiste ou se o padre celebra missas que não estejam de acordo com o motu próprio para decidir o que eu devo fazer.

Ora, isso é dependência e preguiça mental.

É preguiça de ler o documento do Papa, compará-lo com os anteriores, particularmente com a Bula Quo Primum Tempore de S. Pio V, e chegar à única conclusão que qualquer ser racional poderia chegar.

É claro que é saudável que alguém comente, analise, dê os princípios, aponte contradições menos evidentes. Esse é o papel do autêntico professor.

Mas quem diz o que eu devo fazer não é o professor, é o oráculo, o guru. E isso nunca foi saudável.

Quando um professor (padre ou leigo) se torna um guru, quando ele é visto como alguém absolutamente necessário à minha vida e a quem devo recorrer a cada decisão (particularmente aquelas que simplesmente conhecer os mandamentos já seria o suficiente para saber decidir), a absoluta e crescente imaturidade levará inexoravelmente ao culto da personalidade.

Critica-se o papel (quase) divino que certos grupos razoavelmente recentes dão a seus fundadores, mas cai-se exatamente no mesmo erro, mesmo que (por enquanto) num grau menor.

O bom mestre, mais do que ensinar, exige que o discípulo aprofunde o estudo, conheça mais a verdade, chegue às suas próprias conclusões, em outras palavras, que amadureça.

S. Paulo, que reconhecia a autêntica paternidade que exercia sobre os fiéis que evangelizava, instava-os a crescer, dando como exemplo o leite que a criança recém nascida recebe, mas que deve evoluir para o alimento sólido.

Hoje, muitos mestres e discípulos estão morrendo afogados no leite.

O Modernismo, não o ultramontanismo, é a “síntese de todas as heresias”!

Por José Antonio Ureta

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Sessão de abertura do Concílio Vaticano I, Gravura de 1870, BNE, La Ilustración Española y Americana (Manuel M. V., CC BY 2.0).

               Está se tornando moda nos círculos tradicionais americanos culpar o “ultramontanismo” pelos males que afetam o catolicismo hoje. Supõe-se que o Papa Francisco possa impor uma agenda revolucionária à Igreja devido às ações dos ultramontanos durante o Concílio Vaticano I. Os detratores deste último admitem que eles conseguiram que o ensino tradicional da Igreja sobre a infalibilidade e a jurisdição universal do Romano Pontífice fosse proclamado como dogma, mas alegam que os ultramontanos corromperam a obediência dos fiéis ao Papa por uma exagerada consideração para com ele, envolvendo sua pessoa em uma aura de venerabilidade. Este desenvolvimento teria favorecido a centralização e o consequente abuso de poder na Igreja. Para evitar a “papolatria” supostamente alimentada pelos ultramontanos, alguns autores sugerem repensar o Papado nos termos do primeiro milênio, antes de São Gregório VII, no que diz respeito à nomeação de bispos e ao exercício do poder magistral do Papa [1].

               A mais recente formulação dessa acusação apareceu em um artigo de Stuart Chessman intitulado “Ultramontanism: His Life and Death”. Segundo o autor, um certo “espírito do Vaticano I” levou as pessoas a interpretar as definições dogmáticas daquele Concílio muito além dos limites impostos pelo texto. Isso teria inaugurado um “regime ultramontano” no qual “toda a autoridade em matéria de fé, organização e liturgia foi centralizada no Vaticano” e “a obediência à autoridade eclesiástica foi elevada a uma posição central na fé católica” com uma correspondente diminuição da autoridade episcopal. Um bispo da corrente minoritária anti-infalibilista comentou ironicamente: “Entrei [no Vaticano I] como bispo e saí como sacristão”.

               O Tratado de Latrão e a criação do Estado da Cidade do Vaticano, bem como as novas tecnologias de comunicação, teriam aumentado a importância deste elemento “ultramontano” na vida da Igreja. Tudo isso teve algumas vantagens — “uma grande uniformidade de crença e prática foi alcançada” —, mas também graves inconvenientes, em primeiro lugar a burocratização da Igreja e sua consequência inevitável: bispos gestores medíocres que deixaram de ser “líderes espirituais” capazes de converter o mundo. Esta “estratégia defensiva”, “visando a unidade do bloco, controle centralizado e subordinação absoluta aos superiores”, resultou em “um renascimento do catolicismo progressista”. Este último nasceria “como [sentimento de] frustração com a tímida natureza ‘burguesa’ do testemunho católico ultramontano e a excessiva conformidade da Igreja com este mundo”, bem como uma reação às “restrições ao discurso católico”.

De acordo com a narrativa de Chessman, o “ultramontanismo” se aliou mais tarde às “forças progressistas internas” que se materializaram no Vaticano II. Ele chega a afirmar que: “A gestão do Concílio e sua posterior implementação foram realmente o maior triunfo do ultramontanismo”. As mudanças revolucionárias impostas por Paulo VI encontraram pouca resistência porque “os costumes e tradições da Igreja provavelmente perderam sua força de atração em grande parte do mundo católico por causa da forma ultramontana de entender a obediência à autoridade e pela adesão à ideia de que as regras legais são a fonte da legitimidade de tais tradições”.

Devido ao crescimento da corrente progressista —  continua a narrativa —,  os ultramontanos não conseguiram restabelecer a autoridade do Romano Pontífice após o Vaticano II e, em particular, após a rejeição da encíclica Humanae Vitae. No entanto, João Paulo II embarcou em um “renascimento neo-ultramontano” que enfatizou a infalibilidade papal e transformou o Papa em uma “espécie de líder espiritual do mundo”. Internamente, porém, em particular sob Bento XVI, “o Vaticano funcionava cada vez mais como um mero centro administrativo”, levando ainda mais longe a burocratização da Igreja e transformando-a em uma “cloaca de carreirismo, incompetência e corrupção financeira”.

               A eleição do Papa Francisco teria acarretado “um retorno à agenda progressista da década de 1960, juntamente com um renascimento radical do autoritarismo ultramontano”. Usando “a linguagem e as técnicas do ultramontanismo”, o Papa argentino “estabelece a unidade da Igreja e a inviolabilidade do Concílio como valores absolutos” para silenciar e oprimir os tradicionalistas. Portanto, “verdadeiramente o regime de Francisco pode ser chamado de ultramontanismo totalitário!”.

               Em suma, para esses círculos tradicionalistas anti-ultramontanos, todos os males de que a Igreja agora padece derivam dos ultramontanos, cujo grande erro teria sido o de ter tentado “alcançar objetivos espirituais através da aplicação de técnicas organizacionais”. Paradoxalmente, o ultramontanismo acabaria por atingir o oposto do que havia almejado: “Um conjunto de políticas que deveriam ter protegido a doutrina da Igreja contra seus inimigos internos e preservado sua independência do controle secular facilitaram a maior crise de fé na história da Igreja, juntamente com sua submissão mais abjeta ao ‘poder temporal’ – não o dos monarcas como no passado, mas da mídia, bancos, ONGs, universidades e, cada vez mais, governos ‘democráticos’ (incluindo a China!)”.

            Do exposto, quase se poderia dizer que o “misterioso processo de autodemolição” da Igreja, fruto da infiltração da “fumaça de Satanás”, de que falava Paulo VI, nasceu, se desenvolveu e atingiu seu clímax graças ao ultramontanismo, a nova síntese de todos os males! Qual poderia ser a solução para esta crise? O autor diz que “a saída do impasse ultramontano/progressista” exige um tradicionalismo anti-ultramontano que não se baseia “na autoridade do clero”, mas “no compromisso individual dos leigos” com a “plenitude da tradição católica”, no respeito da “liberdade de consciência de cada fiel”.

A construção intelectual do Sr. Chessman padece de duas falhas. Primeiro, ele atribui a origem da atual crise da Fé a fatores puramente naturais – a forma como o poder papal é estruturado e exercido. A verdade é que essa decorre de uma crise moral e religiosa que se agravou em todo o Ocidente desde o Renascimento e o Protestantismo, como o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira analisou com acuidade em Revolução e Contra-revolução [2]. Em segundo lugar, a teoria do Sr. Chessman não corresponde com a verdade histórica.

Em artigos recentes, tratei brevemente do erro consistente em atribuir à corrente ultramontana e ao suposto “espírito do Vaticano I” a extensão da autoridade magisterial e disciplinar do Papa para além dos limites estabelecidos pela constituição dogmática Pastor Aeternus.

               No primeiro artigo [3]  mostrei como o maior representante do ultramontanismo, o cardeal Louis-Edouard Pie, tinha uma concepção perfeitamente equilibrada e não absolutista da monarquia papal e era um grande defensor dos concílios provinciais e plenários.

            No segundo artigo [4] mostrei que o Papa Leão XIII —  ortodoxo na doutrina, mas liberal na política —  foi quem começou a exigir que os leigos católicos aderissem incondicionalmente à sua política de “Ralliement”, ou seja, de convergência em torno do regime republicano e maçônico da França. Quem aplaudiu tal imposição de uma obediência incondicional em assuntos políticos foram os representantes da corrente liberal que se tinham oposto às definições dogmáticas do Vaticano I. Um desses prelados liberais, o cardeal Lavigerie, chegou a afirmar: “A única regra de salvação e de vida na Igreja é estar com o Papa, com o Papa vivo. Quem quer que seja”. Demonstrei também que os representantes do ultramontanismo foram os que resistiram àquela extensão abusiva da autoridade e da obediência papal para além dos limites definidos. Estavam tão cientes dessas limitações que, ainda no século XIX, um deles levantou a espinhosa questão da possibilidade teológica de um papa herege.

São Pio X foi um Papa ultramontano e grande admirador do cardeal Pie. Os escritos do prelado francês o inspiraram a escolher “instaurare omnia in Christo” como lema de seu pontificado. É claro que Pio X exigia total obediência em matéria de fé e era firme em denunciar e reprimir a heresia. Ele excomungou os líderes modernistas e impôs o juramento antimodernista. No entanto, não abusou da autoridade papal nem tentou impor um pensamento uniforme em assuntos em que os católicos têm o direito de formar uma opinião pessoal. Ele até desculpou os irmãos Scotton, donos de um jornal antimodernista, por seu zelo em se opor ao cardeal Ferrari, arcebispo de Milão, dizendo que usaram linguagem excessiva porque “para se defenderem, usaram as mesmas armas com as quais foram golpeados” [5].

Com os aplausos da corrente liberal, posteriores Papas não ultramontanos também pediram aos fiéis que obedecessem estritamente à sua respectiva agenda de pacificação com os poderes políticos revolucionários. Isso começou com Bento XV. Em sua primeira encíclica (Ad Beatissimi Apostolorum), silenciou aqueles que defendiam a adesão irrestrita aos ensinamentos da Igreja e sua aplicação na sociedade, rotulando-os de “integristas”. Ele o fez “para reprimir as dissensões e lutas de qualquer tipo entre os católicos e impedir que surgissem novas, para que assim todos estejam unidos em pensamento e ação”.

Para isso, todos tinham que se alinhar com a Santa Sé: “Se a autoridade legítima dá alguma ordem, ninguém pode transgredi-la porque não gosta; mas cada um deve submeter sua opinião à autoridade daquele a quem está sujeito e lhe obedece por dever de consciência. Da mesma forma, que nenhum particular, seja publicando livros ou jornais, seja realizando discursos públicos, se comporte como um mestre na Igreja. Todos sabem a quem o Magistério da Igreja foi confiado por Deus; portanto, seja-lhe deixado o campo livre, para que possa falar quando e como achar conveniente. O dever dos outros é de escutá-lo com reverência e obedecer à sua palavra.” [6].

Opiniões divergentes eram admisíveis em matérias diversas da fé e da moral, como a ação política dos leigos católica ou a abordagem jornalística a ser adotada em relação ao modernismo, mas unicamente se o Papa não tivesse dado a sua própria linha: “Quanto às questões onde, sem prejuízo da fé ou da disciplina, se podem discutir os prós e os contras, porque a Santa Sé ainda não decidiu nada, não é vedado a ninguém emitir sua opinião e defendê-la” [7]. Uma aplicação prática desta restrição ao debate foi submeter o jornal dos irmãos Scotton ao estrito controle do bispo de Vicenza, invertendo a liberdade de opinião que São Pio X lhes havia garantido [8].

               O sucessor de Bento XV, Pio XI —  que pertencia à mesma corrente não ultramontana —,  chegou a excomungar os assinantes do jornal monárquico Action Française devido às opiniões agnósticas de seu editor Charles Maurras [9]. (Seria como se o Papa Francisco excomungasse os leitores da Breitbart ou da Fox News por apoiarem políticas anti-imigração.) Ele até retirou o chapéu de cardeal do jesuíta Louis Billot, um dos maiores teólogos do século XX, por ter manifestado oposição a essa disposição [10]. […]

O mesmo não ultramontano Pio XI aprovou o Acordo entre os bispos liberais do México e o governo maçônico, negociado pelo embaixador dos EUA, e pressionou os Cristeros a deporem as armas. Como se sabe, o governo não honrou o Acordo, executou milhares de combatentes católicos e manteve a maioria de suas leis anticlericais.

Dentro da Igreja, Pio XI centralizou o apostolado leigo em todo o mundo na Ação Católica, uma organização infiltrada por tendências liberais e laicistas. Ele lhe deu preeminência sobre todos os movimentos tradicionais e autônomos de apostolado leigo, como as Ordens Terceiras, as Congregações Marianas e o Apostolado da Oração.

O Papa Pio XII foi uma figura cheia de contrastes. Antes de fazer do Padre Augustin Bea, S.J. (posteriormente criado cardeal) seu confessor, adotou uma posição tradicional próxima à dos herdeiros do ultramontanismo e condenou os erros progressistas emergentes, particularmente na Liturgia. Mais tarde, inspirado pelo Pe. Bea e auxiliado pelo então Pe. Bugnini, o mesmo Pio XII revolucionou os ritos litúrgicos da Semana Santa e permitiu o uso do método histórico-crítico (de origem protestante) para os estudos bíblicos.

Quem alertou para o perigo de uma “instrumentalização” do Magistério não foi um liberal anti-ultramontano, mas uma figura de destaque da Escola Romana (o reduto do que restava do ultramontanismo no mundo acadêmico). Em um artigo publicado no L’Osservatore Romano de 10 de fevereiro de 1942, Dom Pietro Parente denunciou “a estranha identificação da Tradição (fonte da Revelação) com o Magistério vivo da Igreja (guardião e intérprete da Palavra divina)” [11].  Se a Tradição e o Magistério são a mesma coisa, então a Tradição deixa de ser o depósito imutável da Fé e passa a variar de acordo com o ensinamento do Papa reinante.

Tudo isso mostra que culpar o ultramontanismo pelo erro de identificar a Tradição com o Magistério vivo e querer impor um pensamento uniforme em questões não dogmáticas é historicamente falso. Foi a corrente liberal-progressista quem o fez. Ao contrário do que afirma o Sr. Chessman, os herdeiros do ultramontanismo foram aqueles que resistiram, durante todo esse período, às tentativas de forçá-los a aceitar a política dos Papas, de mão estendida ao mundo.

O centralismo e o autoritarismo agora atribuídos ao ultramontanismo não foram fruto do Vaticano I ou de seu suposto “espírito”, mas do liberalismo infiltrado na Igreja. Como explica Plinio Corrêa de Oliveira: “O liberalismo pouco se importa com a liberdade para o bem. Só lhe interessa a liberdade para o mal. Quando no poder, ele facilmente, e até alegremente, tolhe ao bem a liberdade, em toda a medida do possível. Mas protege, favorece, prestigia, de muitas maneiras, a liberdade para o mal” [12]. Assim como os liberais denunciaram “as Bastilhas” antes da Revolução Francesa, mas depois impuseram o Terror uma vez no poder, os liberais e modernistas católicos denunciaram o suposto autoritarismo do Beato Pio IX e de São Pio X. No entanto, tão logo assumiram as mais altas posições na Igreja, impuseram uma estrita obediência ao seu programa de abraçar o mundo, mesmo em assuntos estritamente políticos que não diziam respeito a questões de Fé e Moral.

               Outra imprecisão histórica do Sr. Chessman é a suposta aliança entre ultramontanismo e progressismo no Concílio Vaticano II. Giuseppe Angelo Roncalli não era ultramontano, mas, em sua juventude, ele foi um simpatizante do modernismo. Abrindo a assembleia conciliar, João XXIII ridicularizou os “profetas da perdição”, referindo-se precisamente aos ultramontanos. Todos os historiadores daquele concílio acreditam que houve um confronto entre as minorias progressista e conservadora, com a primeira conseguindo, aos poucos, puxar para o seu lado a grande maioria moderada. O punhado de prelados de espírito ultramontano, reunidos no Coetus Internationalis Patrum, foram os que mais trabalharam para incluir verdades tradicionais opostas às inovações modernistas nos textos conciliares. O Beato Pio IX deve ter-se revirado no túmulo enquanto o Vaticano II aprovava a introdução de uma “dupla” autoridade suprema na Igreja, implícita na teoria da colegialidade. Como é possível, então, afirmar que “a gestão do Concílio e sua posterior implementação foram realmente o maior triunfo do ultramontanismo”?

Não há dúvida de que o pontificado de João Paulo II foi uma primeira tentativa de dar às novidades do Concílio uma interpretação moderada nos moldes do que mais tarde foi definido como a “hermenêutica da continuidade”. Seus partidários defendiam essa posição moderada apelando principalmente para a imagem midiática de celebridade mundial de Karol Wojtila (o Pe. Chad Ripperger chamou essa atitude de “magisterialismo” [13]). No entanto, não faz sentido caracterizar essa ofensiva moderada como um “renascimento ultramontano”. João Paulo II é o autor de Ut Unum Sint. Esta encíclica pretendia “encontrar uma forma de exercício do primado que, sem renunciar de modo algum ao essencial da sua missão, se abria a uma nova situação”, procurando satisfazer “a aspiração ecumênica da maior parte das Comunidades cristãs” [14]. Essa aspiração era exatamente o oposto do que os ultramontanos haviam obtido no Concílio Vaticano I: a proclamação do dogma do primado da jurisdição do Papa — que as comunidades cristãs heréticas e cismáticas rejeitam.

Como mencionado acima, um dos erros do artigo do Sr. Chessman é atribuir a origem da atual crise da Fé a um fator puramente natural: o exercício burocrático e centralizado da autoridade papal. A crescente centralização do poder papal nas mãos de papas não ultramontanos e até anti-ultramontanos (Leão XIII, Bento XV, Pio XI e os papas conciliares) não é a razão pela qual a crise da fé se agravou no final do século XIX e ao longo do século XX. A crise resultou e foi agravada pela penetração dos putrefatos miasmas liberais do mundo na Igreja Católica. A mentalidade da Modernidade nasceu da Revolução anticristã e passou a dominar a vida cultural, intelectual e política do Ocidente a partir do Renascimento. A Igreja foi pressionada para se adaptar ao novo mundo emergente, especialmente a partir do século XIX. “Não se trata de escolher entre os princípios de 1789 e os dogmas da religião católica”, exclamou o duque Albert de Broglie, um dos líderes do bloco católico liberal, “mas de purificar os princípios com os dogmas e fazê-los caminhar lado a lado. Não se trata de confrontar-se em duelo, mas de fazer as pazes” [15].

Essa infiltração de erros revolucionários na Igreja atingiu seu ápice com o Modernismo, o qual professa que os dogmas da Fé devem se adaptar à evolução da experiência religiosa da humanidade e que o culto deve evoluir de acordo com os usos e costumes de cada época. Pio IX e Pio X emitiram condenações explícitas contra qualquer tentativa de reconciliar a Igreja com os erros modernos. Exortaram os católicos a enfrentar com coragem o que São Pio X chamou de “a síntese de todas as heresias”. Essa oposição fez deles modelos de um papado ultramontano. No entanto, seus sucessores foram menos enérgicos e até conciliadores. Com João XXIII e a abertura do Concílio Vaticano II, a posição ultramontana e antiliberal de luta contra a Modernidade e seus erros foi oficialmente abandonada e substituída por uma atitude de diálogo benevolente e de submissão ao mundo moderno.

Como os modernistas do século XX, o Papa Francisco procura abertamente adaptar a Igreja às “mudanças antropológicas e culturais”. Segundo ele, o impulso divino presente no progresso da humanidade justifica as mudanças atuais. Ele atribui esses impulsos e a nova dinâmica da ação humana à ação divina: “Deus Se manifesta numa revelação histórica, no tempo. […] Deus Se manifesta no tempo e está presente nos processos da História.” [16],  afirma. Eugenio Scalfari, o fundador ateu do La Repubblica, estava certo quando intitulou seu artigo sobre a Laudato Si’: “Francisco, Papa-Profeta que encontra a Modernidade” [17]. Os aplausos dos líderes hodiernos às declarações e iniciativas do atual Papa confirmam esta avaliação.

O atual Papa e alguns de seus predecessores abusaram da autoridade papal para avançar na agenda modernista de reconciliar a Igreja com o mundo revolucionário. Isso não os torna Papas ultramontanos. Os prelados carreiristas que dirigiram suas dioceses como funcionários públicos medíocres, ignorando a infiltração de erros modernistas entre os fiéis — erros pelos quais tinham simpatia —  também não eram ultramontanos. Clérigos e fiéis que adotaram os erros modernistas não o fizeram por um falso conceito de obediência, mas porque estavam imbuídos do espírito liberal e revolucionário do mundo.

Durante esta longa apostasia da Fé, uma pequena minoria ultramontana de clérigos e leigos se esforçou para combater a infiltração da heresia e defender os ensinamentos tradicionais da Igreja. Se alguns deles não fizeram mais ou até se encolheram na luta, foi por covardia, não por uma reverência ultramontana excessiva pelo papado.

Culpar o ultramontanismo pela atual crise da Igreja e ignorar o papel central do Modernismo em sua gestação e na sua marcha para o paroxismo equivale a acusar da inundação a barragem, por não ter conseguido resistir à avalanche, liberando as águas agitadas que transbordaram da represa.

A corrente ultramontana sempre foi admiradora e respeitosa da ordem hierárquica no universo, na sociedade e na Igreja, especialmente no Papado, sede da mais alta autoridade da terra. Mas esse mesmo amor pela ordem hierárquica a levou a venerar e obedecer acima de tudo ao Criador e soberano Senhor do mundo e ao divino Fundador da Igreja. E, portanto, a rejeitar qualquer erro e qualquer transgressão da lei divina, porque é preciso “obedecer a Deus antes que aos homens”. Por causa desse amor ordenado ao princípio de autoridade, quem mais ama o Papado tem condições melhores para ser mais firme na resistência respeitosa aos seus desvios: Ninguém teve um amor mais ardente ao Papado do que São Paulo, que “subiu a Jerusalem para conhecer Cefas” (Gal. 1, 18) e voltou lá quatorze anos mais tarde para expor o Evangelho que pregava aos pagãos “a fim de não correr em vão” (Gal. 2,2); porém, ninguém foi mais firme do que ele ao “resistir em face” ao mesmo Cefas, “porque era censurável” (Gal. 2, 11).

A proposta de redimensionar o Papado para evitar abusos da autoridade papal pode tornar menos agudos, a curto prazo, os problemas de consciência criados pela série de papas que têm promovido a autodemolição da Igreja. Porém, contribui a longo prazo para ajudar os promotores da autodemolição da Igreja, um de cujos aspectos cruciais é a demolição, ou pelo menos o enfraquecimento da Rocha encima da qual Ela foi edificada. Não deixa de ser paradoxal que os ultraprogressistas e os “tradicionalistas anti-ultramontanos” coincidam na proposta de deixar de chamar o Papa “Vigário de Cristo”, como fez o diretor de Crisis, sob o pretexto de que esse título leva a uma veneração excessiva se aplicada somente a ele, quando na realidade poderia também ser aplicada a todos os bispos.

Não é menos paradoxal que um artigo que denuncia o “totalitarismo ultramontano” apareça originalmente num blog que leva o nome de Santo Hugo de Cluny, o grande conselheiro dos papas São Leão IX, Nicolau II e sobretudo de seu confrade cluniasence, o grande São Gregório VII, os quais elevaram a autoridade da Sé de Pedro ao seu apogeu, tanto na disciplina interna imposta pela reforma gregoriana quanto pela afirmação vitoriosa da primazia do Papa em relação ao imperador. Santo Hugo estava junto a São Gregório VII no famoso episódio de Canossa, considerado pelos historiadores revolucionários como o ponto de partida do ultramontanismo.

Neste período de eclipse do Papado —  provavelmente o maior e mais dramático eclipse na história bimilenar da Igreja —  é preciso aumentar ainda mais nosso amor pela mais sagrada instituição da Terra, fundada pelo próprio Jesus Cristo como principal pedra de sustentação de todo o edifício, dotada do maior e mais sagrado poder que une o Céu e a Terra.

Alguns desatinos do legado de São Leão IX irritaram os gregos e favoreceram o Cisma do Oriente. Os escândalos dos papas da Renascença irritaram os alemães e favoreceram a heresia de Lutero. Sejamos extremamente prudentes na avaliação da situação, para que os desatinos, os escândalos e os ensinamentos claramente errôneos do Papa Francisco não provoquem, entre suas vítimas, uma irritação temperamental que favoreça uma atitude de reserva, não apenas em relação ao ocupante do trono de Pedro, mas em relação ao próprio Papado.

Imitemos os monarquistas franceses do período da Restauração que, apesar da política liberal de Luís XVIII, que favorecia os bonapartistas e os republicanos e perseguia os defensores do trono, gritavam: Vive le roi, quand même !, apesar de tudo, viva o Rei!

NOTAS

[1] Eric Sammons, Rethinking the Papacy, Crisis Magazine, 28 de setembro de 2021.

[2] Plinio Corrêa de Oliveira, Revolução e Contra-Revolução, terceira edição. (Spring Grove, Penn.: A Sociedade Americana para a Defesa da Tradição, Família e Propriedade, 1993).

[3] José Antonio Ureta, Understanding True Ultramontanism, OnePeterFive, 12 de outubro de 2021.

[4] José Antonio Ureta, Leão XIII: o primeiro papa liberal que foi além de sua autoridade, OnePeterFive, 19 de outubro de 2021.

[5] Romana beatificationis et canonizationis servi Dei Papae Pii X disquisitio circa quasdam obiectiones modum agendi servi Dei respicientes in modernismi debellationem, Typis poliglottis Vaticanis 1950 (editado pelo Cardeal Ferdinando Antonelli), 178, in Roberto de Mattei, “Modernismo e antimodernismo na época de Pio X”, em Dom Orione nos anos do modernismo, 60.

[6] Bento XV, encíclica Ad Beatissimi Apostolorum, 1 de novembro de 1914, n° 22.

[7] Ibid., Nº 23.

[8] Giovanni Vian, Modernismo durante o pontificado de Bento XV, entre a reabilitação e as condenações.

[9] Domar a ação — II O decreto, Rorate Caeli, 21 de janeiro de 2012.

[10] Ver Peter J. Bernardi, S.J., Louis Cardinal Billot, S.J. (1846-1931): tomista, anti-modernista, integralista, Journal of Jesuit Studies, 8, 4 (2021): 585-616.

[11] Pietro Parente, Supr. S. Congr. S. Officii Decretum 4 febr. 1942 – Annotationes, Periodica de Re Morali, Canonica, Liturgica 31 (fevereiro de 1942): 187 [o original foi publicado como “Novas tendências teológicas”, L’Osservatore Romano, 9-10 de fevereiro de 1942].

[12] Corrêa de Oliveira, Revolução e Contra-Revolução, 52.

[13] Chad Ripperger, Operative Points of View, Christian Order (março de 2001).

[14] João Paulo II, encíclica Ut Unum Sint (25 de maio de 1995), n° 95.

[15] Albert de Broglie, Questions de religion et d’histoire, (Paris: Michel Lévy Frères, 1860), 2: 199.

[16] Antonio Spadaro, S.J., Um grande coração aberto a Deus: uma entrevista com o Papa Francisco, América, 30 de setembro de 2013.

[17] Eugenio Scalfari, Francesco, papa profeta que encontra a modernidade, La Repubblica, 1 de julho de 2015.

Foto di copertina: Pio IX apre in Concilio Vaticano I. I grandi Pontefici. Èdition de la Chocolaterie d’Aiguebelle Drôme).

Foto da capa: Pio IX abre os grandes Pontífices no Concílio Vaticano I. Edition de la Chocolaterie d’Aigubelle Drôme).

Esto vir, Pater!

Por Padre Antônio Mariano — FratresInUnum.com, 8 de fevereiro de 2022: 
Uma das grandes armas para a destruição da Igreja é o fato de que cada vez menos recebam as Sagradas Ordens homens realmente másculos, fortes, viris.

Batina

Quando faltam os trejeitos exteriores, muitas vezes há as disposições interiores, a covardia, o medo, o pavor de ser chamado a atenção, o desejo de ser reconhecido, elogiado, valorizado.

Perde-se, em alguns casos, entre os membros do clero aquela imagem vigorosa de um S. Leão Magno que vai ao encontro de Átila, de um Santo Antonio que prega contra a usura no meio de usurários e contra a heresia no meio dos hereges…

Não é tão estranho que se cogite a ordenação de mulheres quando entre os ordenados já estão sujeitos cuja sexualidade é um enigma. E que se escondem por trás de sua suposta autoridade para promover a mesma agenda dos movimentos revolucionários, particularmente os chamados “de gênero”. Clérigos fracos, moles, instáveis… aos quais falta a coragem de uma Santa Inês ou a determinada determinação de uma Santa Teresa.

Boa parte da crise pela qual a Igreja passa hoje se deve à falta de verdadeiros homens à sua frente. Não homens para os quais os paramentos são modas e as insígnias são bijuterias.

Se o senhor clérigo que me lê se sente ofendido, responda-me, ataque-me. Seja homem!

Não se esconda por baixo de um cargo, de uma mitra, de uma estola.

Honre a sua batina. Ou pelo menos a sua calça.

Veneno e antídoto.

Por Padre Antônio Mariano – FratresInUnum.com, 23 de dezembro de 2021: Contam uma historinha de um homem que tinha um grande laranjal e que constantemente garotos pulavam os muros e comiam muitas laranjas. Achando-se esperto, o homem teve uma ideia. Pôs veneno numa laranja e afixou uma placa na entrada do laranjal com os dizeres: Cuidado! Uma laranja está envenenada. Os garotos, porém, com raiva, fizeram o mesmo que o homem e rasuraram a placa que ele tinha posto, trocando “uma” por “duas”.

SWITZERLAND-RELIGION-CATHOLICS-VATICAN-FUNDAMENTALISM

Tradidi quod et accepi.

O que aconteceu? Todas as laranjas se perderam, porque se os garotos não podiam comer, por não saberem qual a envenenada, também o dono perde tudo por não saber qual os garotos tinham envenenado.

E nenhuma pessoa ajuizada aceitaria uma laranja, nem de graça, pois, ainda que fossem mil, quem poderia garantir que não era aquela a envenenada?

Assim, diante de um risco desnecessário, uma pessoa prudente escolhe outra opção, sem riscos, segura, certa.

Isso que todos concordariam, não foi o que aconteceu com a Igreja desde a década de 60 do século passado.

Mesmo os defensores mais ardentes do Concílio Vaticano II concordam que certas partes do Concílio são no mínimo dúbias, sendo sempre (ou quase sempre) possível, porém, uma interpretação correta à luz da Tradição da Igreja. E que o Concílio tem coisas boas, trouxe avanços… algumas pessoas de má fé (por acaso, alguns dos que escreveram muitos dos documentos conciliares) é que interpretaram mal os textos do Concílio. Oh, malvados.

Desde o início, o Concílio Vaticano II foi considerado pastoral (expressão semelhante ao “café com leite” das brincadeiras de infância do meu tempo), porém, quando a Igreja foi mais pastoral: quando separou verdade e erro, expôs isso aos fiéis e zelava para que nenhum erro fosse publicado, ensinado etc; ou quando permite que verdade e erro convivam juntas devendo o próprio fiel perceber por si mesmo o que é bom e o que é mau?

É pastoral o pastor que leva as ovelhas para um campo onde estejam presentes, ainda que em pequenas quantidades, ervas venenosas que as ovelhas deverão ter o discernimento de não ingerir? É maternal a mãe que deixa junto aos brinquedos de seu filho um escorpião, porque a criança deverá ter maturidade de não se deixar picar por ele? Não devem o pastor e a mãe proteger não apenas dos males, mas do risco dos males?

O mesmo se aplica à Missa.

Quando se compara a Missa de Paulo VI com a chamada Missa de Pio V não se percebe que elas são no mínimo diferentes? E que a Missa de S. Pio V expressa de forma claríssima verdades que na Missa de Paulo VI não são (tão) expressas? Que a Missa de S. Pio V conduz à uma piedade e devoção que é, ainda que remotamente possível, difícil haurir na Missa de Paulo VI?

Então, uma pergunta simples é: que nome costumamos dar a quem, tendo à disposição o mais fácil, sempre opta pelo mais difícil?

Deixo que você mesmo responda.

Toda essa introdução, caros amigos, é para que percebamos com mais facilidade que o grande erro (deixando o conhecimento das intenções unicamente para Deus) de boa parte da hierarquia católica durante e após o Vaticano II foi de considerar que a solução dos males que se abateram sobre a Igreja era algo tão mau quanto os próprios males e que deveria ser tão ou mais combatido que os males.

A ideia de que se deveria buscar um ponto de equilíbrio entre a observância da Tradição Católica e os “exageros e má interpretação do Concílio” fez o efeito que todos conhecemos: a criminalização da Tradição.

Vale aqui a história daquela pessoa que viu-se sobre um muro. Nosso Senhor, Nossa Senhora, os Santos pediam para a pessoa pular para o lado deles. Os demônios simplesmente observavam. A pessoa então pergunta aos demônios por que não insistiam para que pulasse para o lado do inferno; ao que os demônios respondem que o muro já tinha sido feito por eles.

O eventual equilíbrio da Igreja seria rejeitar a Tradição, mas seguir algumas coisas dela, não permitindo os avanços do modernismo e suas consequências, mas adaptando-se ao mundo moderno e à mentalidade sempre mutável das pessoas.

Sim. Isso é essencialmente contraditório e impraticável. Mas foi isso que pediu-se dos católicos desde o Concílio Vaticano II.

Não sendo possível servir a dois senhores, acabou-se por servir ao mundo. E nessa subserviência ao mundo, a hierarquia da Igreja fez com que a Igreja eterna se tornasse absurdamente mutável, em sua liturgia, em sua moral, em sua fé.

Não poucas vezes os Papas tentaram corrigir certos “avanços imoderados”, mas que nada mais eram que a adequação da Igreja ao mundo que eles mesmos incentivavam.

Se tudo na Igreja deve estar adaptado ao homem contemporâneo, se o que ele encontra na liturgia, por exemplo, é praticamente igual ao que ele encontra no mundo (a língua, os cantos, as vestes…), como frear a consequência lógica de que a moral da Igreja também não deve adaptar-se ao homem moderno? Se a Liturgia, que é o mais importante da Igreja, já se adequa às modas, por que não a moral?

Aqueles padres que eram na década de 70 favoráveis à pílula, na de 90 à camisinha e nos tempos atuais à ideologia de gênero, eram chamados em certos círculos ditos conservadores de heterodoxos, ou até de hereges, mas, lamentavelmente eram apenas coerentes até o fio de cabelo com o aggiornamento proposto pela hierarquia.

A mentalidade de que a Igreja é um carro em que o Papa e os Bispos num momento aceleram e no outro freiam não é possível sem fazer da Igreja um carro desgovernado.

Como dizer a um jovem que frequenta uma liturgia mundanizada que ele não deve ser mundano? As chamadas “aberturas” da Igreja só serviram para que a fumaça de Satanás nela entrasse.

Mas, qual era a solução desses males?

Buscar os pontos positivos do Concílio?

Fazer o malabarismo mental de interpretar o Concílio à “luz da Tradição”, mas sem se render à essa Tradição, fazendo dela um uso seletivo?

Fazer com que a Missa de Paulo VI seja mais próxima da Missa de S. Pio V, mas desprezar a Missa de S. Pio V como algo de um tempo da Igreja?

São essas posturas de encarar o remédio como veneno que nos conduziram exatamente onde estamos. É por isso que até hoje os dubia sobre Amoris Laetitia não foram respondidos, mas os de Traditionis Custodes já.

É absolutamente consequente a ideia que subjaz em Traditionis Custodes e na última Responsa sobre ele de que não apenas a Missa de S. Pio V deve deixar de existir, mas de que ela é como uma praga contagiosa que deve ser afastada para longe das Igrejas Paroquiais e que macula tanto um sacerdote que a celebre que ele pode celebrar no mesmo dia 4 missas de Paulo VI, mas só uma de S. Pio V.

Esse documento tem sua origem na pertinaz negação de reconhecer que só há um remédio para os desvios que se abateram sobre a Igreja: a Tradição. A Tradição autêntica. A Tradição pura. E não a Tradição como um “modo interpretativo”, ou como um pedal de freio.

Traditionis Custodes abre a temporada de caça à Tradição. Essa caça já acontecia, mas num campo menos evidente. Agora essa guilhotina cai sobre qualquer coisa que remeta à Tradição, porque a Tradição da Igreja diz aos fiéis as mesmas palavras de Nosso Senhor: “quem não está comigo está contra mim; quem não recolhe comigo, dispersa”. A Tradição recorda ao fiel que ou se é Católico ou não se é.

E o modo mais próximo dos fiéis se aproximarem da Igreja é a Liturgia, particularmente a Missa. É necessário que um golpe seja desferido sobre a Missa de Sempre para favorecer o golpe contra a Igreja de Sempre.

E as palavras “comunhão” e “unidade” serão (indevidamente) usadas para justificar a destruição da comunhão e da unidade. Essas palavras serão uma espécie de passaporte sanitário na Igreja que provavelmente servindo-se da concelebração na Missa Crismal, mostrará os “vacinados” e “não vacinados”. A questão é, obrigando a concelebrar a Missa de Paulo VI, legitimar plenamente o Concílio e a missa subsequente, de modo que o uso da Missa de Pio V seja uma mera questão de gosto. E, se é um gosto, por que não sacrificar “heroicamente” sobre o altar da unidade e comunhão?

Mas a questão avança não apenas sobre o que é Tradicional, mas também sobre o que parecer tradicional.

Então o Bispo chama um padre e pede que em nome da obediência e comunhão ele não celebre mais a Missa de Pio V, e o padre obedece. Mas passa a celebrar a Missa de Paulo VI em latim. O Bispo então chama o padre, e em nome da comunhão e da obediência pede que, uma vez que ele é o único que celebra em latim, não o faça mais, e o padre obedece. Mas passa a celebrar a Missa de Paulo VI em português, sem acrescentar nem retirar nada. O Bispo então chama o padre, e em nome da comunhão e da obediência pede que ele acrescente na Missa a Campanha da Fraternidade, porque ele era o único padre que não a acrescentava, e o padre obedece. O Bispo então chama o padre, e em nome da comunhão e da obediência, pede que, já que ele agora fala da Campanha da Fraternidade, pare de usar músicas antigas na Missa e use o hinário da CNBB, e o padre obedece. Depois o Bispo chama o padre e diz que é ele é o único que usa batina na sua região, então em nome da comunhão com os demais padres, ele evite usar a batina, e o padre obedece e passa andar de camisa clerical. O Bispo então chama o padre e diz que devido ao calor, a maioria dos padres não usa camisa clerical, e que por isso em nome da unidade…

E assim se destrói o que ainda tenha restado de católico sobre o mundo.

Desse modo, a questão já não é mais se um bom padre vai ter que declarar em consciência que não pode obedecer a essas normas injustas, mas quando ele vai fazer isso.

É claro que para quem cresceu amando a Igreja e desejando morrer por Ela, ser punido pela “Igreja” é o pior pesadelo jamais sonhado.

Mas será esse, salvo uma intervenção direta do céu, o fim dos padres e fiéis que quiserem morrer católicos.

Igreja politizada num país polarizado e o assassinato de reputação dos bons pastores.

Por FratresInUnum.com, 21 de dezembro de 2021 – A campanha eleitoral de 2022 já começou dentro da Igreja. Uma fonte murmurante nos revelou que teria acontecido uma reunião de bispos com o Lula e que, deste modo, as alianças para o recrutamento das CEBs para a sua campanha presidencial já estariam garantidas. Externamente, o mesmo presidenciável fez uma corrida internacional para garantir o apoio dos representantes do capital estrangeiro: desde as bênçãos do Papa até os hosanas de Macron, tudo está direcionado para impulsionar a eleição do Lula.

francisco lula
Francisco: “A Luiz Inácio Lula da Silva, com minha benção”.

Já nas eleições de 2018, todos perceberam a importância do voto religioso. A ascensão de Bolsonaro à presidência não teria acontecido sem a expansão das comunidades pentecostais e a adesão de parte significativa do eleitorado católico, farto do progressismo da teologia da libertação. A esquerda percebeu isso e agora vai tentar neutralizar.

Há meses padres conservadores têm sido observados pela ala progressista da Igreja através das mídias sociais, especialmente quando fazem observações de ordem política. Recortes de vídeos e áudios, fotografias, postagens, tudo é minimamente analisado para operar-se uma perseguição que, na aparência, tem natureza moral, mas, na verdade, é de ordem política. Movem-se os aparelhos do jornalismo engajado para criar-se uma narrativa escandalosa como justificativa para o assassinato de reputação de alguém suspeito do imperdoável delito de direitismo.

A prova disso é que há alguns meses circularam vídeos e fotografias de um importante padre esquerdista, queridinho da mídia nacional e dos partidos socialistas, alguém que se promove às custas do assistencialismo e que se beneficia dele inclusive sexualmente, e o resultado foi uma operação de escrupuloso abafamento: a polícia não quis investigar, os meios de comunicação não quiserem noticiar, as autoridades da Igreja não quiseram comentar… Tudo morreu! As fotos existem, os vídeos existem, tudo foi publicado, havia envolvimento de um menor de idade (ao menos as imagens em questão demonstravam isso), mas nada se fez.

Por outro lado, padres e bispos de orientação ortodoxa são inquisitorialmente perseguidos, suas vidas e declarações são revolvidas à extenuação, suas honras são questionadas e a mesma imprensa que encobre abusos dos seus protegidos acusa de silêncio complacente a Igreja que investigou e causou imenso sofrimento nestes homens que nada fizeram senão defender a sua própria vocação e a integridade de suas igrejas e, especialmente, da sua doutrina.

Internamente, o clima de patrulhamento ideológico pela intelligentsia bergogliana tornou mais irrespirável o ar das sacristias que o das mais tiranas ditaduras. Praticamente ninguém mais tem liberdade: todos os padres e bispos não comunistas estão amordaçados e não conseguem mais expressar francamente suas posições sem o medo de serem perseguidos pela longa mão dos seus déspotas hierarcas. Repressão: esta é a realidade da Igreja neste pontificado; repressão que não se inibe nem quando flagrada, repressão que se justifica hipocritamente como isenta, chegando mesmo a dizer, como nas Respostas do último sábado, que não se pretende marginalizar ninguém.

Os fieis precisam estar preparados. Para coibir os católicos e garantir a hegemonia da opinião para o clero esquerdista, o aparelho comunista não poupará esforços e virá contra bispos, padres, movimentos, associações, mosteiros, institutos religiosos, associações, comunidades, com toda a força repressiva, para cancelar completamente não apenas ou seu lugar de fala ou as suas possibilidades de ação, mas até a sua própria existência na Igreja. Eles precisam fazer isso para oportunizarem a recondução de Lula à presidência da república.

Não estranhem se o jornalismo político de esquerda começar a perseguir pessoas da Igreja. Isso já começou e está avançando dia a dia. Precisamos estar atentos!

Tentaram destruir a reputação de Dom Alberto Taveira, arcebispo de Belém. A RCC se levantou e defendeu aquele arcebispo. A crise passou, quando todo o aparato de mídia estava voltado para fuzilar a imagem daquele homem, e hoje sabemos quem são os verdadeiros culpados. Na época, o culpado parecia ser ele; depois, percebeu-se que não. Todavia, o fim dessa história poderia ter sido diferente…

Na hora de defender a fé e condenar os erros modernos, os fieis aplaudem os seus corajosos pastores. Veremos se terão a mesma coragem para defendê-los dos lobos. Numa Igreja politizada e num país polarizado, o assassinato de reputação dos bons pastores, movido internamente pelo clero petista e externamente pelos sequazes do mesmo partido, só pode ser contido pela corajosa defesa do povo. Estejamos atentos e tenhamos os olhos bem abertos!

Padre ortodoxo em protesto incomoda Papa em visita à Grécia.

Por The Independent: O papa Francisco foi interpelado por um padre ortodoxo grego idoso no sábado ao chegar para um encontro com o chefe da Igreja Ortodoxa do país, evidência da desconfiança persistente entre alguns ortodoxos e católicos 1.200 anos depois que o cristianismo foi dividido ao meio.

“Papa, você é um herege!” o padre gritou três vezes quando Francisco chegou à residência do arcebispo Ieronymos na capital grega de Atenas. O manifestante caiu no chão quando a polícia o levou embora, e Francisco pareceu não notar quando ele entrou na residência para seu encontro privado com o Líder ortodoxo.

O incidente ocorreu após pequenos protestos contra o papa em sua parada anterior, a ilha de Chipre, que também é predominantemente cristã ortodoxa.

Durante a viagem de Francisco, os líderes de duas igrejas renovaram a promessa de superar séculos de desconfiança e competição por influência. Em contraste com o padre solitário e intrometido, Ieronymos acolheu Francisco “com um sentimento de honra e fraternidade”.

A visita de Estado de Francisco à Grécia ocorre 20 anos depois de São João Paulo II ter feito a primeira visita desse tipo desde o Grande Cisma, e aproveitou a ocasião para se desculpar pelos pecados “por ação ou omissão” cometidos pelos católicos contra os ortodoxos ao longo dos séculos.

Francisco renovou o pedido de desculpas no sábado diante de Ieronymos e outros prelados ortodoxos, dizendo que estava envergonhado pelas ações dos católicos que, por causa de uma “sede de vantagem e poder, debilitaram gravemente nossa comunhão”.

Católicos e ortodoxos se dividem por causa de uma série de questões, incluindo a primazia do papa.

Ieronymos, por sua vez, disse a Francisco no sábado que compartilhava a visão do papa de criar laços fortes para enfrentar os desafios globais como a crise migratória e as mudanças climáticas.

Profanações.

Por Padre Antônio Mariano – FratresInUnum.com, 17 de outubro de 2021: Nos últimos dias, chegaram várias notícias cujo pano de fundo é o mesmo: a profanação.

A Catedral de Toledo, uma Igreja Paroquial em Manaus, uma Basílica Romana… E esses foram os que se tornaram públicos. 

A picture of corals as part of art projection featuring images of humanity and climate change of Artistic rendering by Obscura Digital is projected onto the faade of St. Peter's Basilica at the Vatican

E não foram poucos os que manifestaram perplexidade diante desses eventos, que, num olhar atento, desgraçadamente não são tão raros.

A que ponto chegamos? Ver nossas Igrejas cedidas para clipes que incentivam o pecado, particularmente o pecado contra a natureza que brada ao céu, ou ver uma paródia sacrílega da Pietà composta por dois homens nús, onde recordamos de um dos pecados contra o Imaculado Coração de Maria que é a falta de respeito para com suas sagradas imagens!

Cada vez mais somos obrigados a reconhecer um espírito profético em certos homens que compreenderam para onde se dirigia a Igreja com as inovações do Concílio Vaticano II, um deles chegou a afirmar que ao começar a celebrar a missa em mesas seria a vitória de Lutero.

E é exatamente isso.

Tudo começa na dessacralização do Santo Sacrifício da Missa.

Se fizéssemos uma entrevista com a maioria dos que vão à Missa atual, perguntando qual a razão de irem à Missa, ou se reconhecem na Santa Missa um autêntico sacrifício as respostas fariam chorar os anjos.

O altar tornado mesa de copa, o sacrário relegado a um canto obscuro, as imagens inexistentes, o sacerdote que outrora era um sacrificador anônimo e que tornou-se um animador de auditório, o templo tornado espaço celebrativo… vitória de Lutero.

Recordo-me de uma vez em que fui venerar algumas relíquias de S. João Bosco que estavam encerradas numa belíssima imagem jacente e enquanto rezava, um padre celebrava a missa e explicando o que era “aquele boneco” contou a história do Rei Midas…

Dessacralização.

As coisas sagradas perderam completamente o valor para essas pessoas. Não há transcendência. Não há sagrado.

E se não há, qual o valor de uma Missa, ou de uma imagem, ou de uma Igreja?

Porque não ceder para outros usos? Uma reunião sindical? Um museu? Um expositório de obras bizarras? Um clipe gay? Qual o problema de fazer um barquinho e pôr ali a Pacha Mama e atravessar a nave da Basílica Vaticana com essa abominação?

Se – como já acontece em não poucos lugares – um grupo quisesse destruir uma Igreja, ou um monumento católico, como o Cristo Redentor, talvez houvesse alguma reação dos católicos. Mas mostrar o Cristo de máscara, refletir animais na Basílica Vaticana não parecem tão agressivos, afinal devemos ser uma Igreja em diálogo…

Vitória de Lutero.

Mas o Senhor não disse: “Ide e dialogai”, mas “Ide e ensinai”. Mais ainda, diz o Espírito Santo, “aquele que destruir o templo de Deus, Deus o destruirá”.

É porque não se reza mais nas Igrejas que essas profanações acontecem. É porque não se visita mais o Santíssimo Sacramento como o Divino Prisioneiro que chegamos a esse ponto!

É preciso resistir!

É preciso lutar! Queremos nossas Igrejas de volta! Queremos nossos monumentos católicos respeitados, mais ainda, venerados! Queremos a Missa Católica!

Mas não conseguiremos isso se ficarmos parados. Será que não percebemos que estamos em guerra como nos recordou o Apóstolo na Epístola de hoje?

Católicos, levantem-se! Levantem-se pela glória de Deus, pela santidade de seu templo! Levantem-se gritando o nome de Maria que sozinha vence todas as heresias. Façam do Credo o seu estandarte de batalha. Do Santo Sacrifício da Missa a jóia engastada em seus corações. Lutem.

Vitória de Deus.

* * *

Pe. Antonio Mariano está recebendo intenções para o Dia de Finados. Envie para profidelibusdefunctis@gmail.com.

Estatística é estatística. Segundo o Relatório Sauvé: 80% dos abusos sexuais na Igreja foram homossexuais.

Por Que no te la cuenten, 6 de outubro de 2021 | Tradução: FratresInUnum.com – A estatística é a estatística; e quando realizada por meios tão díspares como o The New York Times e a própria Conferência Episcopal Francesa, dificilmente se unem em consenso para mentir.

Ora, surgiu recentemente um novo relatório acerca dos abusos sexuais cometidos pelo clero nas últimas décadas. E o que se diz? O que vimos salietando há anos: que a imensa maioria de abusos foram abusos homossexuais.

2019. Relatório Pensilvânia (EUA): 80% dos abusos sexuais do clero foram abusos homossexuais.

2021 (04 de Outubro). Relatório Sauvé (França): 80% dos abusos sexuais do clero foram abusos homossexuais.

“Mas, padre! Não é porque alguém tem estas tendências que necessariamente será um pederasta!” — dirá alguém.

Sim, é verdade. Porque todos somos chamados à santidade; mesmos os que têm estas tendências.

Mas assim como não convém dar fósforo e combustível a um pirómano, ou ao viciado em jogos dar-lhe entrada gratuita ao cassino, a Igreja ordenou que não ingressassem ao seminário pessoas com tendências homossexuais arraigadas.

Porque estatística é estatística.

São Pedro Damião, ora pro nobis!

Que no te la cuenten…

P. Javier Olivera Ravasi, SE

Libera geral.

Por Jerônimo Lourenço – FratresInUnum.com, 25 de setembro de 2021: Em meados da década de 1990, a apresentadora Xuxa Meneghel reinava absoluta nas tardes de sábado da Rede Globo, com o seu programa homônimo Planeta Xuxa. Auxiliada por suas paquitas, Xuxa animava a plateia alvoroçada ao som de Libera Geral, uma canção bem sugestiva para um programa que foi responsável por introduzir o funk no Brasil.

Quase trinta anos depois, o clima na Igreja Católica se assemelha muito ao das tardes de sábado da Globo daquela época, como se a nave de Xuxa tivesse abduzido o Corpo de Cristo e o levado para o “planeta” dela. De fato, por toda parte, seja no ambão das Missas seja nas pastorais, não se ouve outra coisa senão: “Libera geral”. 

Libera a comunhão para pecadores públicos, libera o celibato, libera o casamento gay, libera o sincretismo, libera o paganismo, libera a camisinha, libera a maconha, libera o aborto, libera a ordenação de mulheres… A lista é exaustiva embora a criatividade não tenha fim. Para justificar tais pedidos, usa-se a chamada “abordagem pastoral positiva e misericordiosa do Vaticano II”. Por isso, quem apresenta objeções a essas patifarias é rotulado de “rígido”, “pervertido” e “obreiro do demônio”.

Acontece que o Povo de Deus não é burro e existe uma coisa chamada sensus fidei fidelium, do qual os leigos participam ativamente. Estes são capazes de reconhecer quando uma pregação destoa dos ensinamentos de Cristo, ainda que não consigam formular a própria perplexidade com a precisão teológica de um doutor. Basta pensar nos muitos leigos da França, por exemplo, que se recusaram, durante a Revolução, a ouvir os sermões de qualquer padre juramentado. Ou, então, para não ir tão longe, nos fiéis que acham esquisito o fato de o sacerdote não mais se ajoelhar diante da Eucaristia. Como advertiu Nosso Senhor, as ovelhas conhecem a voz do seu pastor.

É por isso que, hoje, esse pedido de liberação do pecado chega aos ouvidos do povo com um verniz pastoral sofisticado e falsamente amoroso. Doura-se o veneno para ludibriar a vítima, enquanto os fiéis ao depósito da fé vão sendo sumariamente calados e jogados ao ostracismo como se fossem leprosos. A verdade precisa ser sufocada para a mentira prevalecer.

Dada a situação, podemos até acreditar por algum tempo que a verdadeira Igreja de Cristo desapareceu e em seu lugar colocaram uma imitação barata, à imagem e semelhança daqueles que a projetaram. A nova Igreja é horizontal, é do homem, da mulher, do trans, do não-binário, atendendo ao gosto de todos; ela está aberta a todas as inclinações, de modo que ninguém precisa mais daquele estilo de catolicismo engessado, próprio do passado. Somente uns poucos saudosistas deveriam querer sair do compasso. Mas as coisas precisam seguir seu curso, imaginam, precisam caminhar com o bonde da história, sob pena de pecado contra o Espírito, que dizem ser de Deus.

A natureza humana, no entanto, facilmente se cansa do picadeiro. Naturalmente, as pessoas começam a pedir limites, regras, silêncio, orientação… E não se trata de medo da liberdade ou de renúncia à autonomia, mas de colocar o trem de volta ao trilho. Até para ser livre o homem precisa ser ordenado. 

Essa é a maravilha do fenômeno humano, que tão bem captou Machado de Assis em seu conto A Igreja do Diabo. Na história, Satanás funda a sua própria religião na qual os fiéis são livres para praticar todas as abominações imagináveis. Com isso, o tinhoso acredita que destruirá para sempre a religião do verdadeiro Deus, substituindo as santas virtudes pelos vícios deploráveis, prometendo “aos seus discípulos e fiéis as delícias da terra, todas as glórias, os deleites mais íntimos”. Ele confessa que é o diabo, mas “para retificar a noção que os homens tinham dele e desmentir as histórias que a seu respeito contavam as velhas beatas”.

A princípio, ele tem certo sucesso. Todavia, após alguns anos, o Diabo nota “que muitos dos seus fiéis, às escondidas, praticavam as antigas virtudes”. E essa descoberta o assombra profundamente, ao ponto que ele decide ir tirar satisfações com Deus:

Voou de novo ao céu, trêmulo de raiva, ansioso de conhecer a causa secreta de tão singular fenômeno. Deus ouviu-o com infinita complacência; não o interrompeu, não o repreendeu, não triunfou, sequer, daquela agonia satânica. Pôs os olhos nele, e disse-lhe:

 — Que queres tu, meu pobre Diabo? As capas de algodão têm agora franjas de seda, como as de veludo tiveram franjas de algodão. Que queres tu? É a eterna contradição humana.

Na mosca. O que os inimigos da Cruz não entendem é que, não importa quanto bem-estar haja numa sociedade, os homens sempre terão o coração inquieto em busca do verdadeiro Deus. Por isso, mesmo que seja oferecido a eles qualquer arremedo de religião, qualquer espiritualidade que vise dar alguma sensação de transcendência, eles sempre sentirão o apelo da graça os convidando para a grei do Senhor. Desse modo, enquanto as falsas religiões vão definhando dia após dia, a única Igreja de Cristo permanece intacta ao longo dos séculos, contra todas as hostes infernais. Assim foi com a apostasia de Juliano, com o anglicanismo de Henrique VIII e assim será também com esta nova religião, que querem nos empurrar goela abaixo.

Como saiu do ar o Planeta Xuxa, sem deixar saudades, esta Igreja do Diabo sairá de cena com suas paquitas, enquanto nas catacumbas os fiéis vão praticando, às escondidas, o antigo culto e as antigas virtudes, para delírio de quem pede para “liberar geral”, quando o que o povo quer mesmo é a santa clausura de um lugar piedoso para rezar e adorar ao Bom Deus. Depois disso, que vamos dizer? Se Deus é por nós, quem será contra nós?