Posts tagged ‘Bento XVI’

23 junho, 2020

A pequena “viagem apostólica” de Bento XVI.

Por FratresInUnum.com, 23 de junho de 2020 — Chega a ser impressionante como Bento XVI, sem dizer uma única palavra, já cansado, ancião, em cadeira de rodas, consegue ofuscar o seu sucessor! A viagem do pontífice à Alemanha foi um acontecimento retumbante e provou, mais uma vez, que o pontificado de Francisco não passa de um artificial fenômeno de mídia.

Bento resolveu sair de casa e visitar seu irmão de 96 anos. Queria despedir-se e dar-lhe os sacramentos. Em plena crise da pandemia, sem máscara nem luvas, aquele que enfrentou de peito aberto os piores teólogos do século XX, não temeu enfrentar o vírus chinês: foi e pronto!

Embora a razão da viagem tenha sido manifesta desde o início, não faltaram especulações interessantes. O próprio site ultra-bergogliano Vatican Insider chegou a reverberar em manchete uma notícia de um jornal alemão que sustentou a hipótese de que “Ratzinger poderia não voltar para Roma”. Curioso…

O Vatican Insider tem suficientes fontes — seu outrora editor, Andrea Tornielli, hoje chefia o editorial do Dicastério para a Comunicação do Vaticano —  para não precisar dar um tiro no escuro, para não fazer um mero chute jornalístico. Desde o início, aliás, o próprio porta-voz da Santa Sé dizia meio misteriosamente que Bento XVI “ficaria lá o tempo necessário”.

É um fato notório, porém, que a saída de Bento causou impacto e chamou muito a atenção. As pessoas queriam vê-lo, desejavam estar com o Santo Padre, tinham um desejo devoto de saudar o Papa. E talvez o seu discreto aparecimento tenha incomodado mais do que o previsto…

Para um papa como Francisco, que gosta de chamar a atenção, que telefona para jornalistas oferecendo-se para ser entrevistado, que ama jogar frases de efeito para ser reverberado pela imprensa, ser eclipsado por aquele que Meirelles em sua ficção “Os dois papas” apresentou como um papa antipático deve ser realmente uma tortura. Mas, seria uma tamanha vaidade a ponto de fazer um idoso ir e voltar de outro país, em menos de uma semana, em meio a uma pandemia?

No final das contas, sofrer o antagonismo de Ratzinger seria um golpe duro para Francisco e, por isso, parece ser bastante interessante manter um predecessor controlado, silencioso, devidamente trancado em seu mosteirinho, aquela pequenina Baviera vaticana em que ele resolveu sepultar-se vivo. É mais conveniente garantir o silêncio de Bento que permitir-lhe falar, ainda que aos sussurros, que deixar-lhe articular-se, ainda que mansamente.

O estrondo do livro de Bento XVI-Sarah em defesa do celibato foi enorme e adiou a agenda da ordenação dos viri probati. E tudo sob aquela velha diplomacia vaticana, em que olhares e sorrisos têm o peso de um touché. Imaginem o que seria Ratzinger livre…

Francisco disse certa vez que o “Papa emérito” é uma instituição. Isso quer dizer que, no fundo, o “experimento Bento” está sendo muito útil para que vejam o quanto pode ser incômodo conviver com um predecessor resignatário e, pior ainda, o quanto pode ser ruim ser este predecessor.

No fundo, a resposta para a questão que todos temos na cabeça – Bento XVI voltou porque quis ou porque foi forçado, digamos, pelas circunstâncias… – nos será dada pelo próprio Francisco daqui a alguns anos: terá ele coragem de renunciar ao pontificado e enfrentar o ostracismo da emeritude? Beberá ele do cálice que fizeram beber Ratzinger? Quem viver, verá!

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18 junho, 2020

Profético?

Bento XVI vai à Alemanha visitar seu irmão.

Bento XVI vai à Alemanha visitar seu irmão.

“Era uma noite escura. Os homens não podiam mais discernir qual fosse o caminho para retornar a suas aldeias, quando apareceu no céu uma luz esplendorosíssima que esclarecia os passos dos viajantes como se fosse meio-dia. Naquele momento, foi vista uma multidão de homens, de mulheres, de velhos, de crianças, de monges, freiras e Sacerdotes, tendo à frente o Pontífice, sair do Vaticano enfileirando-se em forma de procissão. Mas eis um furioso temporal escurecendo um tanto aquela luz. Parecia engajar-se uma batalha entre a luz e as trevas. Chegou-se a uma pequena praça coberta de mortos e de feridos, dos quais vários pediam conforto em altas vozes.

As fileiras da procissão se tornaram bastante ralas. Depois de ter caminhado por um espaço de duzentos levantares do sol, cada um percebeu que não estava mais em Roma. O espanto invadiu os ânimos de todos, e cada um se recolheu em torno do Pontífice para guardar a sua pessoa e assisti-lo em suas necessidades. Naquele momento, foram vistos dois anjos que portavam um estandarte e o foram apresentar ao Pontífice dizendo: ‘Recebe o vexilo d’Aquela que combate e dispersa os mais fortes exércitos da terra. Os teus inimigos desapareceram, os teus filhos, com lágrimas e com suspiros, invocam o teu retorno’. Levantando, depois, o olhar para o estandarte, se via escrito nele, de um lado: ‘Regina sine labe originale concepta ( Rainha concebida sem pecado original)’; e do outro lado: ‘Auxillium Christianorum (Auxílio dos Cristãos)’. O Pontífice tomou o estandarte com alegria, mas tornando a olhar o pequeno número daqueles que haviam permanecido em torno de si, ficou aflitíssimo. Os dois anjos acrescentaram: ‘Vai depressa consolar os teus filhos. Escreve a teus irmãos dispersos nas várias partes do mundo que é preciso uma reforma nos costumes e nos homens. Isto só se poderá obter repartindo aos povos o pão da Divina Palavra. Catequizai as crianças, pregai o desapego das coisas da terra’. ‘Chegou o tempo’, concluíram os dois anjos, ‘que os pobres serão os evangelizadores dos povos. Os Levitas serão buscados entre a enxada, a pá e o martelo, a fim de que se cumpram as palavras de Davi: Deus levantou o pobre da terra para colocá-lo sobre o trono dos príncipes do teu povo.’

Ouvindo isto, o Pontífice se moveu e as filas da procissão começaram a engrossar. Quando, afinal, ele colocou o pé na cidade santa, ele começou a chorar por causa da desolação em que estavam os cidadãos, dos quais muitos não existiam mais. Entrando novamente em Roma, ele entoou o Te Deum, que foi respondido por um coro de anjos, cantando: ‘Gloria in excelsis Deo, et pax in terris hominibus bonae voluntatis’. Terminado o canto, cessou de fato toda escuridão e se manifestou um sol fulgidíssimo As cidades, as aldeias, os campos tinham a população muito diminuída, a terra estava pisada como por um furacão, por um temporal e pelo granizo, e as pessoas iam umas para as outras dizendo com ânimo comovido: ‘Há um Deus em Israel’. Do começo do exílio até o canto do Te Deum, o sol se levantou duzentas vezes. Todo o tempo que transcorreu para se cumprirem estas coisas corresponde a quatrocentos levantares de sol.”

S. João Bosco – Sonho da procissão

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20 maio, 2020

Com luva de pelica.

Por FratresInUnum.com, 20 de maio de 2020  – A revanche da elegância é simplesmente deliciosa! Bento XVI, como todo monarca realmente investido de personalidade refinada e aristocrática, sabe dar o seu “touché” sem descer ao nível desqualificado dos barraqueiros… A carta que ele escreveu sobre o centenário do nascimento de João Paulo II foi, para todos os efeitos, aquela alfinetada pontiaguda que dói na medula. – Ah, e como dever ter doído!

Bento

Assim como se percebe melhor a feiura em contraste com a beleza, Bento XVI, traçando um retrato de João Paulo II, deixa ver a quem quiser a face de Francisco. Aquilo que ele enfatiza mostra exatamente o que considera virtuoso no pontificado do papa polonês. O delicado tapa consiste, justamente, no fato de que são aspectos totalmente inexistentes no pontificado de Francisco. A carta de Bento sobre João Paulo II conduz, portanto, a um juízo sobre o atual governo do bispo de Roma.

A personalidade de Joseph Ratzinger poderia ser resumida também numa breve alcunha: “a humildade da verdade”. Sem gritar, sem tripudiar, sem se impor, com sua bondade e gentileza inigualáveis, ele é sinal desta Igreja hoje oprimida.

Com toda a discrição, Bento XVI mais uma vez brindou a Igreja com um retrato minuciosamente descrito, em contraste com o qual ficam devidamente denunciadas as deformidades deste pontificado. Foi uma bela provocação, a do bávaro papa demissionário, tão sutil quanto eloquente: um verdadeiro “tapa com luva de pelica”.

Ele começa fazendo um breve resumo da biografia do papa polonês. Oriundo de um cenário épico – guerras, ditaduras nazista e comunista, desgraças familiares –, mesmo assim, ele se dedicou ao estudo e foi um renomado professor universitário. Nada mais diferente de Francisco, que não foi qualificado para estudos superiores e viveu a vida inteira respaldando autoridades, mesmo quando isso trazia prejuízos para os seus colegas jesuítas.

Em seguida, Bento XVI mostra como Wojtyla foi eleito pontífice na mais profunda crise da Igreja pós-conciliar, que estava, segundo suas palavras, “em uma situação desesperada”, com uma fé falsa, em meio à balbúrdia litúrgica e em que tudo, inclusive a própria Igreja, era posto sob escrutínio. Será que existe alguma semelhança entre aquele período de confusão e o deste pontificado?… E que diferença de perspectiva em relação àquela que considera que a “Igreja nunca esteve tão bem”, não é mesmo?

Em outras palavras, embora se mostre vanguardista, Francisco nada mais é que um representante da requentada e ressentida ideologia progressista dos anos 70-80, que tanto dano causou à Igreja Católica e que já estava superada pela interpretação dos pontificados posteriores. Em poucas palavras, Francisco é démodé, retrógrado e, sobretudo, inapto para o cargo.

A diferença, segundo Ratzinger, é que Wojtyla adveio da Polônia, que, diferentemente da Argentina e do Brasil, é um país que recepcionou bem o Concílio, em continuidade com a tradição anterior.

João Paulo II, continua Bento XVI, teria devolvido o entusiasmo à Igreja, cenário realmente oposto ao completo vazio do pontificado atual, que, apesar de se pretender tão populista, encerrou-se no completo autoritarismo, refém de suas próprias ideologias, isolado na frieza, distante do povo, incapaz de se comunicar com o católico comum.

João Paulo II fez mais de cem viagens pastorais e encheu o mundo de alegria, criando uma relação afetuosa com os fiéis. O papa atual, por sua vez, assusta as almas tanto quanto seus gestos de falta de piedade.

Ainda segundo Bento XVI, João Paulo II expôs a moral da Igreja e suscitou oposição no ocidente. Impossível não ver o contraste com Bergoglio, que trata como obsessão e legalismo a defesa dos “valores inegociáveis”, suscitando apoio das esquerdas internacionais.

Para Ratzinger, João Paulo II era humilde e escutava os seus conselheiros, abrindo mão de suas ideias. Como não compará-lo a Francisco, temido e chamado nos corredores de ditador, que não escuta ninguém e avança como um trem, investindo contra a tradição e os fieis católicos?

João Paulo II tinha como centro de seu pontificado a Misericórdia Divina, diz Bento. Que paralelo se pode fazer com Bergoglio e o centro de seu pontificado, a misericórdia humana, conivente com o pecado e cúmplice da iniquidade?

João Paulo II gritou, na abertura do seu pontificado, “não tenhais medo, abri as portas para Cristo”. Hoje, Bergoglio compactua com que se feche as portas das igrejas, minando sozinho, contra a “comunhão”, a atuação conjunta do episcopado italiano que pleiteava a retomada das atividades religiosas junto ao governo italiano.

Bento, então, sustenta que João Paulo II não é um rígido moralista, como continuamente esbraveja Bergoglio contra aqueles que sustentaram a luta doutrinal daquele pontificado — desmantelando sem dó o Instituto que leva o nome do papa polonês e perseguindo os seus mais fiéis seguidores — , mas o verdadeiro papa da misericórdia, contra a tirania de um absolutista socialista.

A carta de Ratzinger termina com uma mensagem de esperança: “neste tempo em que a Igreja sofre a aflição do mal”, contra todo otimismo e paixão pelo mundo da corte bergogliana, o poder e a bondade de Deus prevalecerão e, assim como depois de Paulo VI surgiu um papa que devolveu à Igreja o orgulho de ser católica, não podemos duvidar de que o mesmo poderá suceder no futuro, caso ainda não estejamos nos tempos finais.

Longa vida ao Papa Ratzinger!

7 maio, 2020

Bento XVI: Renunciei, mas mantive a ‘dimensão espiritual’ do Papado.

Em uma nova biografia, o Papa Bento XVI fala sobre a ‘dimensão espiritual’ do papado ‘, que, ‘sozinha, ainda é o meu mandato’.

Por Maike Hickson, LifeSiteNews, 6 de maio de 2020 | Tradução: FratresInUnum.com: Em uma nova biografia, publicada em 4 de maio, o papa Bento XVI faz algumas declarações que destacam seu próprio entendimento acerca de sua renúncia ao papado. Ele fala no livro sobre a “dimensão espiritual… que, somente ela, ainda é o meu mandato”. Ele mostra uma compreensão de sua resignação ao papado, segundo a qual renunciou a quaisquer “poderes legais concretos” e a todo papel de governo, mas, ao mesmo tempo, manteve um “mandato espiritual”.

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O papa Bento XVI respondeu, no outono de 2018, a várias perguntas escritas por seu biógrafo Peter Seewald, que foram incluídas na biografia, com mais de 1.000 páginas, intitulada Bento XVI: Uma Vida . Este livro foi lançado hoje em alemão e será publicado em inglês em 17 de novembro.

Parte dessas perguntas estava relacionada ao fato de ele ter renunciado em 11 de fevereiro de 2013, depois de quase sete anos sendo o papa. Peter Seewald aponta para Bento que existem historiadores da Igreja que criticam o fato de ele se chamar “Papa emérito”, uma vez que esse título “não existe, também porque não há dois papas”. Depois de dizer, primeiramente, que ele próprio não entende por que um historiador da Igreja deveria saber mais sobre esses assuntos do que qualquer outra pessoa – afinal eles “estão estudando a história da Igreja” -, Bento XVI cita o fato de que “até o final do Concílio Vaticano II também não havia renúncia por parte dos bispos”.

Após a introdução da figura do bispo emérito, prosseguiu o Papa emérito, surgiu o problema de que “só se pode ser bispo vinculado a uma diocese específica”, ou seja, cada “consagração é sempre relativa” e “vinculada a uma sede episcopal”. Para os bispos auxiliares, por exemplo, a Igreja escolheu “sedes fictícias”, como as de países anteriormente católicos no norte da África. Com o crescente número de bispos eméritos, essas sedes fictícias estavam sendo ocupadas rapidamente, e um bispo alemão – Simon Landersdorfer, da diocese de Passau – acabou por decidir que se tornaria simplesmente o bispo ‘emérito de Passau’”.

É aqui que o Papa Bento XVI faz uma comparação com o papado. Pois, como um bispo aposentado, ele acrescenta, “não tem mais uma sé episcopal ativamente, mas ainda possui um relacionamento especial de ex-bispo com a sua sede”. Esse bispo aposentado, no entanto, “não se torna um segundo bispo de sua diocese”, explica Bento. Tal bispo “abdicou completamente de seu cargo, mas a conexão espiritual com sua antiga sede estava agora sendo reconhecida, também como uma qualidade legal”. Esse “novo relacionamento com a sede” é “dado como realidade, mas está fora da substância legal concreta do múnus episcopal”. Ao mesmo tempo, acrescenta o papa emérito, o “vínculo espiritual” é considerado uma “realidade”.

“Assim”, continua, “não há dois bispos, mas um com mandato espiritual, cuja essência é servir sua antiga diocese desde dentro, a partir do Senhor, estando presente e disponível em oração”.

“Não é concebível que esse conceito jurídico também não deva ser aplicado ao bispo de Roma”, afirma o Papa Bento explicitamente, deixando claro que, de acordo com suas próprias idéias, ele renunciou completamente ao múnus papal, mantendo uma “dimensão espiritual” de seu ofício papal.

Posteriormente na entrevista, ao final da nova biografia de Seewald, Bento volta a falar sobre o fato de que não deseja comentar a questão dos dubia apresentados pelo cardeal Raymond Burke e seus irmãos cardeais acerca de Amoris Laetitia, uma vez que isso  o “levaria muito à área concreta do governo da Igreja e, assim, deixaria a dimensão espiritual que por si só ainda é meu mandato”.

O papa Bento lamenta que qualquer de suas declarações como papa emérito – como sua famosa observação de 2017 sobre o barco naufragado que representa a Igreja – esteja sendo usada por seus críticos como meio de encontrar “uma confirmação para a sua calúnia”.

“A alegação de que eu constantemente intervenho em debates públicos”, também afirma ele, “é uma distorção maligna da realidade”. Aqueles que estão usando palavras, como as sobre o naufrágio de uma barca – que provém de São Gregório Magno -, a fim de constatar “uma intervenção perigosa no governo da Igreja”, são, aos olhos de Bento XVI, “participantes de uma campanha contra mim que não tem nada a ver com a verdade”. Em outro contexto, o papa menciona especialmente a “teologia alemã”, que interpretou suas palavras de uma “maneira estúpida e maligna”, de modo que “é melhor não falar sobre isso”.

“Prefiro não analisar as reais razões pelas quais alguém deseja silenciar minha voz”, conclui Bento XVI.

Discutindo ainda mais o assunto de um “papa emérito” com Peter Seewald, Bento faz uma comparação com a “mudança das gerações”, em que o pai de uma família renuncia a “seu status legal”, mantendo sua “importância humano-espiritual”, que permanece “até a morte”. Ou seja, o aspecto “funcional” da paternidade pode mudar, não sua parte “ontológica”.

Aqui, o ex-Papa se refere às famílias de agricultores da Baviera, onde o pai de uma família, em um determinado momento de sua vida, entrega a maior casa de fazenda a seu filho, enquanto fica em uma cabana menor na mesma terra. O filho então se torna responsável por prover ao pai suas necessidades materiais, como alimentos. “Assim”, argumenta Bento XVI, “é dada sua independência material, assim como a transição dos direitos concretos ao filho. Isso significa: o lado espiritual da paternidade permanece, enquanto a situação muda em relação aos direitos e deveres concretos”.

Em maio de 2016, o arcebispo Georg Gänswein proferiu um discurso no qual falou sobre o Papa Bento XVI e um “Ministério Petrino expandido”, uma formulação que provocou debate, pois poderia indicar que Bento XVI não renunciou a todas as diferentes partes do papado. Mais tarde, ele corrigiu essa afirmação e, desde então, insistiu que há apenas um papa. Gänswein disse à LifeSite em 2019: “Eu já esclareci o ‘mal-entendido’ várias vezes”. “Não faz nenhum sentido, não, e mais ainda, é contraproducente insistir nesse ‘mal-entendido’ e me citar repetidamente. Isso é absurdo e leva à auto-mutilação [Selbstzerfleischung]. Eu disse claramente que há apenas um papa, um papa legitimamente eleito e em exercício, e este é Francisco. ”

Já em 2013, ao explicar sua renúncia ao público, o Papa Bento XVI havia declarado que “não pode mais haver retorno à esfera privada. Minha decisão de renunciar ao exercício ativo do ministério não revoga isso. Não volto à vida privada, a uma vida de viagens, reuniões, recepções, conferências e assim por diante. Não estou abandonando a cruz, mas permanecendo de uma nova maneira ao lado do Senhor crucificado. Não tenho mais o poder de exercer o governo da Igreja, mas no serviço da oração permaneço, por assim dizer, no recinto de São Pedro. São Bento, cujo nome levo como Papa, será um grande exemplo para mim. Ele nos mostrou o caminho para uma vida que, ativa ou passiva, é completamente entregue à obra de Deus”.

O LifeSite procurou Monsenhor Nicola Bux, teólogo do Vaticano e ex-colaborador do Papa Bento XVI como consultor da Congregação para a Doutrina da Fé, pois ele havia feito no passado algumas observações sobre a “validade jurídica da renúncia do Papa Bento XVI . ”

Depois que o LifeSite resumiu para ele a nova declaração do Papa Bento XVI, como pode ser encontrada nesta nova biografia papal, Monsenhor Bux respondeu, dizendo:

“Na minha opinião, um dos aspectos mais problemáticos seria a idéia implícita no ato do papa Ratzinger de que o papado não é um cargo único e indivisível, mas, pelo contrário, um cargo divisível que pode ser ‘descompactado’, com a sensação de que um papa pode optar por renunciar a algumas funções, mantendo para si outras, que não seriam repassadas a seu sucessor. Uma ideia claramente errada”.

Em outras conversas com monsenhor Bux, o teólogo italiano acrescentou os seguintes pensamentos:

“A comparação do ofício papal com o ofício episcopal no que diz respeito à renúncia do múnus papal não está correta. O múnus episcopal é conferido pela ordenação ou sagração episcopal, imprimindo um caráter indelével na alma do bispo. Assim, embora possa ser dispensado de uma responsabilidade pastoral específica, ele permanece sempre um bispo. O múnus papal é conferido pela aceitação da eleição na Sé de Pedro, ou seja, por um ato da vontade da pessoa eleita, aceitando o chamado de ser Vigário de Cristo na terra. Desde o momento em que a pessoa eleita consente, ele tem toda a jurisdição de pontífice romano”.

Se a pessoa eleita não é um bispo, continuou Monsenhor Bux, deve ser imediatamente ordenado bispo, porque o papado implica o exercício do múnus episcopal, mas ele é  papa desde o momento em que concorda com a eleição. Se a mesma pessoa, em um determinado momento, declara que não pode mais cumprir o chamado de ser Vigário de Cristo na Terra, perde o ofício papal e volta à condição em que estava antes de dar o consentimento para ser o Vigário de Cristo na terra”.

Aqui, o teólogo italiano explicou o princípio fundamental de que “o papado não é conferido pela graça sacramental. Não imprime um caráter indelével na alma. A quem consentir em ser papa e perseverar no consentimento, a graça é dada, como Nosso Senhor prometeu, para ser ‘a fonte perpétua e visível e o fundamento da unidade dos bispos e de toda multidão dos fiéis’. (Lumen Gentium , n. 23). Tal graça, por sua própria definição, é dada a apenas uma pessoa em um determinado momento”.

Em conclusão, Monsenhor Bux escreve: “Nosso Senhor deu a Pedro um mandato único – legal e espiritual ao mesmo tempo – e pediu aos apóstolos que o ajudassem através da comunhão, cum et sub Petro (com e sob Pedro). São Paulo explica como: ‘sollicitudo omnium ecclesiarum’ (cuidado de todas as igrejas). Portanto, não há primazia petrina a compartilhar, mas dois princípios indissolúveis em permanente comunhão entre si: a primazia petrina e o trabalho conjunto episcopal (colegialidade)”.

Como fica claro, a discussão acadêmica sobre o conceito de renúncia do papa Bento XVI ainda não está encerrada.

 

 

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2 maio, 2020

Bento XVI relaciona a imposição do aborto e do casamento homossexual ao poder espiritual do Anticristo.

Na nova biografia de Peter Seewald sobre Bento XVI, o papa emérito vincula a imposição do “casamento homossexual” e do “aborto” no mundo moderno — de tal forma que se castiga aquele que divergir com a excomunhão social — ao “poder espiritual do Anticristo”. 

Por Infocatólica, 2 de maio de 2020 | Tradução: FratresInUnum.com – “Há cem anos”, disse Bento na biografia de Peter Seewald, “todo o mundo teria considerado absurdo falar de um casamento homossexual. Hoje em dia, excomunga-se da sociedade quem se opõe a ele”. O mesmo se aplica ao “aborto e à criação de seres humanos em laboratório”, acrescenta o pontífice alemão.

“A sociedade moderna está em meio à formulação de um credo anti-cristão, e se alguém se opõe a isso, é castigado pela sociedade com a excomunhão. O medo deste poder espiritual do Anticristo é, então, mais que natural, e realmente é necessária a ajuda das orações de toda uma diocese e da Igreja Universal para resistir”.

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12 fevereiro, 2020

O silêncio de Francisco, as lágrimas de Ratzinger e sua declaração nunca publicada.

Por Sandro Magister, 12 de fevereiro de 2020 | Tradução: FratresInUnum.com – O que mais chama a atenção na exortação apostólica pós-sinonal “Querida Amazonia”, publicada hoje, 12 de fevereiro de 2020, é seu silêncio total sobre a questão mais esperada e controversa: a ordenação de homens casados.

Nem sequer aparece a palavra “celibato”. O Papa Francisco espera que “a ministerialidade se configure de tal forma que esteja a serviço de uma maior frequência da celebração da Eucaristia, mesmo nas comunidades mais remotas e escondidas (n. 86). Mas, reafirma (no n. 88) que somente o sacerdote ordenado pode celebrar a Eucaristia, absolver os pecados e administrar a Unção dos enfermos (porque também está “intimamente ligada ao perdão dos pecados”, nota 129). E não diz nada sobre a extensão da ordenação aos “viri probati”.

Nenhuma novidade, nem sequer para os ministérios femininos. “Se lhes desse acesso à ordem sagrada”, escreve Francisco no n. 100, “esta visão nos orientaria a clerizalizar as mulheres” e a “reduzir nossa compreensão da Igreja à estruturas funcionais”.

A curiosidade que surge imediatamente da leitura de “Querida Amazonia” é, então, compreender em que medida o livro bomba escrito pelo Papa emérito Bento XVI e pelo Cardeal Robert Sarah, em defesa do celibato do clero, publicado em meados de janeiro, influenciou sobre a exortação e, em particular, seu silêncio acerca da ordenação de homens casados.

A esta questão, deve se acrescentar mais informações do que já se conhece sobre o que aconteceu nos dias quentes após a publicação do livro.

A sequência conhecida já conhecida dos fatos foi documentação oportunamente por Settimo Cieli em três “Post Scriptum”, que estão no final do artigo publicado em 13 de janeiro:

> Ancora sul libro bomba di Ratzinger e Sarah. Con il resoconto di un nuovo incontro tra i due

Mas Settimo Cielo teve notícias posteriores, de ao menos outras quatro fontes, independentes entre si, de relevante importância.

*

A primeira aconteceu na manhã de quarta-feira, 15 de janeiro.

Ao longo de toda a jornada de terça-feira, 14, o ataque realizado pelas correntes radicais contra Ratzinger e Sarah havia tido um crescimento devastador, alimentado de fato pelos reiterados desmentidos do Prefeito da Casa Pontifícia, o arcebispo Georg Gänswein, de uma corresponsabilidade do Papa emérito na redação e na publicação do livro, até chegar a pedir que se retirasse sua assinatura, inutilmente confrontada pela precisa e documentada reconstrução, tornada pública pelo cardeal Sarah, da gênese do próprio livro por ação combinada de seus dois co-autores.

Pois bem, na manhã de quinta-feira, 15 de janeiro, enquanto o Papa Francisco estava celebrando sua audiência semanal e Gänswein estava sentado, tal como estabelecido pelo protocolado, a seu lado na sala Paulo VI, longes, portanto, do mosteiro Mater Ecclesiae, que é a residência do Papa emérito, de quem ele é secretário, Bento XVI tomou pessoalmente o telefone e chamou Sarah, primeiramente em sua casa, onde não o encontrou, e depois em seu escritório, onde o cardeal atendeu.

Bento XVI expressou cordialmente a Sarah a sua solidariedade. Confiou-lhe que não compreendia as razões de uma agressão tão violenta e injusta. E chorou. Também chorou Sarah. A chamada telefônica concluiu com os dois em lágrimas.

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O segundo fato, que se dá a conhecer aqui, pela primeira vez, aconteceu durante o encontro entre Sarah e Ratzinger, na casa deste, na tarde de sexta-feira, 17 de janeiro.

Nesta mesma tarde, o cardeal se referiu ao ocorrido em três tweets, nos quais confirmava o pleno acordo entre ele e o Papa emérito na publicação do livro.

Mas, não disse que durante este mesmo encontro — na realidade, ocorrido em dois momentos distintos, o primeiro às 17 horas e o segundo às 19 horas — Bento XVI havia escrito um comunicado conciso que pretendia publicar com a assinatura somente do Papa emérito, para testemunhar a consonância plena entre os dois co-autores do livro e pedir o fim de toda polêmica.

Para publicação, Gänswein entregou a declaração — da qual Settimo Cielo está em posse e na qual o traço pessoal, inclusive autobiográfico, de Ratzinger transparece de forma evidente — ao substituto secretário de Estado, Edgar Peña Parra. E é razoável supor que ele informou a respeito dela tanto o seu superior direto, o Cardeal Pietro Parolin, como o próprio Papa Francisco.

*

É um fato — a terceira notícia até aqui inédita — que esta declaração do Papa emérito nunca veio à luz. Mas, é verossímil que estava na origem da decisão de Francisco de exonerar de ali em diante toda presença visível, a seu próprio lado, do prefeito da Casa Pontifícia, Georg Gänswein.

A última dessas aparições públicas se deu na manhã daquela mesma sexta-feira, 17 de janeiro, por ocasião da visita ao Vaticano do presidente da República Democrática do Congo. Depois dela, Gänswein não apareceu mais junto ao Papa, nem nas audiências gerais das quartas-feiras, nem nas visitas oficiais do vice-presidente norte-americano Mike Pence, do presidente iraquiano Barham Salih e do argentino Alberto Fernández.

Aos olhos do Papa Francisco, a declaração de Bento XVI havia efetivamente comprovado a não confiabilidade das repetidas negações feitas por Gänswein acerca da corresponsabilidade do Papa emérito na redação do livro.

Noutras palavras, a oposição do Papa emérito a que seu sucessor cedesse às correntes radicais a respeito do celibato do clero se estavaca plenamente neste ponto, sem mais nenhuma atenuação.

E tudo isso a poucos dias da publicação da exortação pós-sinodal, na qual muitos, em todo o mundo, esperava ver uma abertura de Francisco à ordenação de homens casados.

*

Como corolário de tudo isso, deu-se a conhecer também o papel que desempenhou Parolin nestes acontecimentos.

Quando efetivamente na quarta-feira, 22 de janeiro, a editora Cantagalli publicou um comunicado a respeito da iminente publicação do livro na Itália, com pouquíssimas e secundárias variações com relação ao original em francês, não se disse que esse comunicado havia sido anteriormente visto e analisado, linha a linha, pelo secretário de Estado, que havia, ao fim, encorajado vivamente a publicação.

Um comunicado no qual o livro de Ratzinger e Sarah é definido como “um volume de elevado valor teológico, bíblico, espiritual e humano, garantido pelo peso dos autores e por sua vontade de colocar à disposição de todos o fruto de suas respectivas reflexões, manifestando seu amor pela Igreja, por sua Santidade, o Papa Francisco, e por toda a humanidade”.

17 janeiro, 2020

Eis o homem.

Por FratresInUnum.com, 17 de janeiro de 2020 – Desde que Francisco subiu ao pontificado, a atitude dos cardeais e bispos é de uma adulação superlativa, como se a obediência ao Papa supusesse a subserviência a um suserano absoluto. Mas, não o é!

Cardeal Robert Sarah. Foto: Stefano Spaziani

Assim como a Igreja pós-conciliar tem apenas um dogma, “o Concílio” (como se não houvesse 20 outros antes dele), a Igreja bergogliana tem um só dogma, “Francisco”, como se nunca tivesse existido um único Papa fora ele. Ele é a premissa maior de todos os raciocínios e um argumento de autoridade que apele para ele se impõe ipso facto. Não é apenas o abandono da Fé, mas também da razão.

Como mulheres submissas a um marido tirano, os hierarcas da Igreja Católica se comportam como coroinhas complacentes, como freiras apavoradas diante de sua Madre superiora. O Papa ditador se mostra como tal não apenas por seus atos, mas pela atitude geral que predomina na Igreja: como um tirano, todos têm medo de enfrentá-lo, pois a polícia que o assiste pode puni-los a qualquer momento. Coisa inédita! Todos os papas sempre foram criticados justamente pelos que hoje se mostram como zelosos papistas. Basta lembrar de toda a oposição que sofreu Paulo VI, João Paulo II e o próprio Bento XVI.

O livro recém-publicado pelo Cardeal Robert Sarah e por um outro sob censura está explodindo em vendas e já pode se tornar um best-seller. Há que se agradecer ao Vaticano por toda a propaganda! Mas não só…

A popularidade de Sarah subiu justamente porque ele teve a atitude que todos os católicos esperam de algum cardeal ou bispo: seja homem! Reaja! Mostre de algum modo o absurdo daquilo que Francisco está fazendo.

Sarah não apenas desmentiu Dom Gänswein, mas provou o que disse e continua mantendo-se firme e sereno em todos os desdobramentos que a publicação da obra trouxe para ele. Com a dignidade de alguém que não quer dividir a Igreja, não teve para com Francisco ou Bento XVI nenhum ato de rebeldia, mas, sim, de uma resistência eclesiástica que é, em todos os seus contornos, paradigmática.

Àqueles que pretendem de algum modo diminuir o gesto do cardeal, imponham-se os fatos. O livro de Sarah causou mais reboliço que todas as manifestações anteriores e, isto, por um motivo muito claro: ele fez o que todos deveriam fazer! Ele não recuou, mas agiu como um homem de Igreja e foi protagonista daquilo que poderíamos definir como enfrentamento humilde.

Quando Nosso Senhor desmascarou os fariseus que lhe queriam encurralar com uma pergunta capciosa, se era obrigatório ou não pagar o imposto a César, Ele não os xingou, não se rebelou, não criou uma confusão: apenas foi ao fatos e pediu uma moeda. De um jeito humilde, Cristo flagrou a malícia deles referindo-se aos fatos. E foi isto que fez o Cardeal Sarah!

Francisco sabe que não o pode atingir sem ser acusado de racismo, sem flagrar a sua vingança, o seu totalitarismo. Ao mesmo tempo, o livro de Sarah é irrespondível. Francisco está desmascarado.

Enquanto os progressistas estrebucham feito endemoninhados diante da Cruz, o Cardeal Sarah vende milhares de exemplares em poucas horas e os católicos do mundo dão, assim, a esses vândalos que querem destruir a sua Igreja, aquela resposta que estava entalada em suas gargantas.

Agora, resta saber se o único homem na ativa do colégio cardinalício continuará sendo o Cardeal Sarah (exceção feita aos cardeais dos dubia, que, ou já morreram, ou não possuem cargos) ou se outros cardeais se juntarão a ele!

15 janeiro, 2020

A Carta de Hummes sobre o Sínodo da Pachamamma e a novela do livro Ratzinger-Sarah.

Por FratresInUnum.com, 15 de janeiro de 2020 – Já está tudo pronto. Em cerca de um mês, entre fins de janeiro e começos de fevereiro, Francisco promulgará a Exortação apostólica sobre o Sínodo da Amazônia. Vazou a carta secreta de Dom Cláudio Hummes aos bispos participantes do Sínodo! Por esta, ele não esperava.

Sala Paulo VI, audiência geral de hoje: Papa Francisco e Dom Gaiswein.

Mas, afinal de contas, será que isto tem algo a ver com a novela do livro de Sarah-Ratzinger? A resposta parece ser bastante evidente, sobretudo se tivermos ciência das últimas informações relativas ao fato.

Antonio Socci, em seu perfil oficial, relatou uma versão vasada dos últimos acontecimentos. Segundo o jornalista, o livro teria explodido no Vaticano como uma bomba atômica. Papa Bergoglio, furioso, teria chamado pessoalmente o secretário de Bento XVI e Chefe da Casa Pontifícia, Dom Gänswein, com ordens de que o nome de Bento XVI fosse retirado do livro. O que pretendia, ao que parece, o papa argentino era uma desmentida total por parte de Ratzinger, a sua retirada completa da obra. Mas não foi o que aconteceu.

Ratzinger teve de enfrentar um dilema: faltar com a verdade (o que as provas apresentadas por Sarah impossibilitaram por completo), prejudicar o cardeal africano e obedecer a ordem do ditador para salvar o seu secretário, ou manter a versão íntegra dos fatos, com prejuízo de todos. Bento, então, adotou uma solução “salomônica”: doravante, o livro aparecerá “com a colaboração de Bento XVI”, ao invés de numa co-autoria — se as editoras aceitarem, pois a própria Ignatius Press, responsável pela tradução inglesa, teria se negado a alterar a capa, alegando ter recebido autorização (se tácita ou expressa, não sabemos) do próprio Gänswein! Que novela!

Consequentemente, aquilo que a corte Bergogliana tem apresentado é rigorosamente mentira: Bento XVI não retirou sua assinatura do livro. Ademais, Gänswein exagerou em seu “esclarecimento” e foi frontalmente contraposto pelo corajoso Cardeal Sarah, que não arredou o pé: poderia ter se suicidado publicamente em nome de uma suposta obediência — que seria subserviência aduladora, isso sim — ao Papa, mas foi digno.

A carta de Dom Claudio integralmente vazada mostra que a iminência da promulgação da próxima Exortação Apostólica pode ter sido o motivo principal da preocupação exasperada de Ratzinger-Sarah. A propósito, no Summit sobre a pedofilia no clero, Bento fez a mesma coisa: um texto dando o seu diagnóstico, à margem daquilo que foi dito na cúpula de representantes das Conferências Episcopais. Todavia, naquela ocasião, ele submetera sua versão à Secretaria de Estado e ao próprio Papa Francisco. Desta vez, porém, não submeteu… Por quê?

A carta de Dom Claudio mostra que a coisa é muito mais grave e que estão absolutamente conscientes do impacto que o documento causará contra eles mesmos: é toda uma preparação secreta, coletivas de imprensa a serem preparadas pelos bispos com a presença de índios, toda um mise-en-scène para causar a impressão de unidade e comunhão, um teatro calculado para paralisar a resistência católica diante de um atentado contra a sua religião.

O que está por vir na Exortação Apostólica que moveu Ratzinger-Sarah a uma cartada tão arriscada?

Precisamos nos preparar para a Exortação Apostólica e reavivar a nossa rejeição completa a tudo que significou este sínodo, o Sínodo da Pachamama.

Toda a operação midiática em torno do livro de Ratzinger-Sarah não passa de uma cortina de fumaça instrumentalizada em favor da secreta preparação para o engano do povo católico em relação ao Sínodo.

O que fazer? Precisamos alertar o maior número de pessoas sobre a iminente publicação de um documento que pretende ser o projeto piloto da invenção de um novo catolicismo: tribalista, ecologista, com um novo clero casado, com novos ministérios para as mulheres, com uma nova liturgia, enfim, uma nova religião fundada pelo papa argentino e sua corte. Não é possível ficar dormindo diante de tão absoluto perigo. É hora de reagir!

Converse com as pessoas que você puder, alerte sua família e seus amigos, a apostasia está adiantada demais. “Os filhos das trevas são mais espertos que os filhos da luz”, eles trabalham no segredo e na escuridão. Precisamos gritar com toda a nossa voz. Não! Desta vez eles não conseguirão nos enganar!

14 janeiro, 2020

Confusão dos diabos.

Por FratresInUnum.com, 14 de janeiro de 2020 – Daqui a cem anos, os historiadores encherão volumes e volumes na tentativa descrever o esdrúxulo capítulo da história da Igreja que estamos vivendo. Os nossos bisnetos ficarão perplexos em como fomos tão enganados. De fato, a renúncia de Bento XVI e o pontificado sucessivo, com seus impasses e tensões, com suas maquinações estranhas, com seus fluxos e refluxos, são uma realidade que superou as ficções mais misteriosas, os suspenses mais intrincados…

Qual é o mistério que está por trás de tanta história mal contada?

Qual o trunfo capaz de coagir um Papa (emérito) a ir e vir,  a dizer e desdizer? Afinal, o que nos escondem?

O livro bombástico de Ratzinger-Sarah causou um estrondo sem precedentes no Vaticano e, como consequência, os progressistas estão estrebuchando até agora, em ataques de chilique a cada segundo mais histéricos. Enquanto Bergoglio faz silêncio, os bergoglianos gritam a valer. Vamos reconstruir os fatos:

À notícia da publicação do livro, o establishment Vaticano não apenas confirmou a veracidade do fato, mas corroborou a tese do livro, isentando Francisco de qualquer tentativa de flexibilização da disciplina do celibato e blindando-o completamente como um defensor intransigente de que os padres não venham a ganhar uma sogra.

Enquanto isso, progressistas do mundo inteiro lançavam a narrativa de que Bento XVI está praticamente caduco e que a movimentação era uma tentativa de contra-golpe do entourage ratzingeriano. Os ataques ao papa alemão começaram multiplicar-se de maneira alucinante.

Literalmente, os inimigos começaram a atirar pra todos os lados: disseram que Ratzinger censurou tantos teólogos por serem contra o Papa João Paulo II e agora estava ele contra o papa; que ele está inconsciente a maior parte do tempo e que isso só poderia, portanto, ser uma manipulação; que o próprio Ratzinger fora um dia defensor da ordenação dos viri probati

Hoje, o secretário pessoal de Bento XVI, o arcebispo Georg Gänswein, veio surpreendentemente a público dizer que o papa alemão não sabia da co-autoria do livro e que, portanto, solicitou a retirada de seu nome da capa, da introdução e da conclusão da obra. Porém, surpreendentemente, os editores acabam de vir à cena dizer que quem deu o Placet à publicação foi o próprio Gänswein!

Alem disso, hoje, porém, o Cardeal Sarah divulgou as cartas assinadas por Bento XVI que comprovam a sua ciência do fato, bem como publicou uma declaração em que conta detalhes e datas de suas conversas com ele.

Em suma, Sarah comprovou que Bento XVI era ciente do fato e deixou Gänswein numa situação praticamente insustentável, mas que é confortável para o único que tem autoridade para exigi-la e que se beneficiou disso: Jorge Mário Bergoglio.

Por que Bento XVI capitulou? Que elementos de chantagem poderiam ter sido usados contra ele a ponto de obrigá-lo a voltar atrás numa decisão pública? Seriam estes os mesmos motivos que o fizeram renunciar “ao exercício ativo do ministério petrino”? São conjecturas permitidas a qualquer pessoa inteligente, que conecta causa e efeito de maneira racional. O que nos escondem?

O livro de Ratzinger-Sarah não era uma obra de insurreição contra a autoridade de Francisco e nem sequer estava escrito em tônica indignada… Eram apenas conselhos ponderados de dois homens de Igreja. Mas…

A autoridade de Francisco está tão abalada que este ato modesto e eloquente foi suficiente para sacudir as bases do seu pontificado. Daí a revolta! Francisco não se sustenta mais, seu papado está chagado de morte e ele é muito consciente de sua autoridade moral e intelectual nula diante da gigante influência do seu predecessor. Isto é um fato!

Não deixa de ser intrigante, porém, que Gänswein trate como um mal-entendido aquilo que Sarah comprova como tendo sido muito bem entendido e, ademais, como a sua “única versão dos fatos”.

Desde a renúncia de Bento XVI e da eleição de Francisco, os fiéis são tratados como retardados e tudo sempre é explicado como um grande “mal entendido”. A tática retórica já passou dos limites e, mais uma vez, os fiéis católicos sabem que estão sozinhos na resistência contra a revolução bergogliana, embora tenhamos de confessar a admirável firmeza do Cardeal Sarah, que não desertou, apesar de todas as pressões.

O episódio entrará nas crônicas oficiais vaticanas só como um equívoco, um desacerto, uma imprecisão. Passarão os anos e talvez não estejamos mais aqui quando os verdadeiros bastidores deste imbroglio forem devidamente esclarecidos. Os historiadores do futuro ficarão com muita pena de nós, ou talvez pensem que sejamos apenas uns defuntos imbecis, e se admirarão de que tenhamos podido conviver com tamanha obscuridade, com esta insuportável confusão dos diabos.

14 janeiro, 2020

Sarah se pronuncia.

Comunicado do Cardeal Robert Sarah publicado há pouco em seu Twitter. Abaixo, tradução de FratresInUnum.com:

No último dia 5 de setembro, após uma visita ao mosteiro Mater Ecclesiae, onde vive Bento XVI, escrevi ao Papa emérito para lhe pedir se possível que escrevesse um texto sobre o sacerdócio católico, com uma atenção particular a respeito do celibato. Expliquei-lhe que eu mesmo havia começado uma reflexão, em oração. E adicionei: “Imagino que o senhor pensaria que as suas reflexões poderiam não ser oportunas por conta das polêmicas que elas provocariam, talvez nos jornais, mas estou convencido que toda a Igreja tem necessidade deste dom, que poderia ser publicado no Natal ou no início do ano de 2020”

Em 20 de setembro, o Papa emérito me agradeceu, ao me escrever que ele também, por sua vez, antes mesmos de ter recebido a minha carta, havia começado a escrever um texto a este respeito, mas que suas forças não lhe permitiriam mais redigir um texto teológico. Não obstante, minha carta o encorajava a retomar esse longo trabalho. Ele acrescentou que transmitiria o texto a mim assim que a tradução em língua italiana estivesse pronta.

Em 12 de outubro, durante o sínodo dos bispos sobre a Amazônia, o Papa emérito me enviou sob confidencialidade um longo texto, fruto de seu trabalho meses. Ao constatar a amplitude deste escrito, tanto sobre o conteúdo quanto à forma, eu imediatamente considerei que ele não seria de se propor a um jornal ou a uma revista, tanto por seu volume como por sua qualidade. Então, imediatamente propus ao Papa emérito a publicação de um livro que seria um imenso bem para a Igreja, integrando o seu próprio texto e o meu. APós diversos intercâmbios em vista da elaboração do livro, eu, finalmente, enviei, em 19 de novembro, um manuscrito completo ao Papa emérito contendo, como havíamos decidido em comum acordo, a capa, uma introdução e uma conclusão comuns, o texto de Bento XVI e o meu próprio texto. Em 25 de novembro, o Papa emérito exprimiu sua grande satisfação a respeito dos textos redigidos em comum e adicionou isto: “De minha parte, estou de acordo de que o texto seja publicado na forma que o senhor previu”.

Em 3 de dezembro, dirigi-me ao Mosteiro Mater Ecclesiae para agradecer mais uma vez o Papa emérito de me conceder tão grande confiança. Eu lhe expliquei que nosso livro seria impresso durante as férias de Natal, que seria lançado na quarta-feira, 15 de janeiro, e que, consequentemente, eu viria lhe trazer a obra no início de janeiro, após retornar de uma viagem ao meu país natal.

A polêmica que visa há várias horas me manchar, ao insinuar que Bento XVI não fora informado da publicação do livro “Do mais profundo de nossos corações”, é profundamente abjeta. Eu perdoo sinceramente a todos que me caluniam ou que querem me opor ao Papa Francisco. Minha ligação com Bento XVI permanece intacta e minha obediência filial ao Papa Francisco absoluta.

Comunicado Sarah