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31 maio, 2017

Geo-estrategista italiano alimenta debate sobre a renúncia do Papa Bento XVI.

Por Maike Hickson – OnePeterFive, 23 de maio de 2017 | Tradução: FratresInUnum.com: Um artigo publicado recentemente por um geo-estrategista e professor universitário italiano voltou a levantar questões sobre os motivos da surpreendente renúncia do Papa Bento XVI em 2013. Professor Germano Dottori, que é um professor do Instituto de Estudos Estratégicos da Universidade LUISS-Guido Carli, em Roma, escreveu um artigo no número 4/2017 do Limes, um jornal geo-estratégico, e que mais tarde foi usado pelo jornalista italiano Alessandro Rico, pelo comentarista e autor italiano Antonio Socci, bem como por Giuseppe Nardi, da Katholisches.de, na Alemanha.

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Ao discutir o papel da Igreja Católica em relação a considerações geo-estratégicas mais amplas – como a grande imigração para a Itália e os vínculos aparentemente crescentes com a Igreja Ortodoxa em Moscou – Dottori faz os seguintes comentários impressionantes e bem fundamentados (tradução gentilmente fornecida Por Andrew Guernsey):

Os conflitos entre a Igreja e os Estados Unidos não se tornaram menores, mesmo depois da morte de João Paulo II. Em vez disso, continuaram durante o pontificado do Papa Ratzinger, no decurso do qual, o que fez com que se tornassem exacerbados não foi apenas o investimento [político e estratégico] feito por Barack Obama e Hillary Clinton no islamismo político da Irmandade Muçulmana durante a chamada Primavera Árabe, mas também o firme desejo de Bento XVI de buscar uma reconciliação histórica com o Patriarcado de Moscou [sob o Patriarca Kirill], o que seria uma verdadeira coroação religiosa de um projeto geopolítico de integração euro-russa, que estava em suas intenções e era fortemente apoiado pela Alemanha e também pela Itália de Silvio Berlusconi – mas não por essa mais filo-americana [Itália], reconhecida por Giorgio Napolitano [Presidente italiano, 2006-2015].

A forma como isso terminou é bem conhecida por todos. Os governos Italiano e Papal foram simultaneamente atingidos por uma campanha escandalosa, coordenada e inusitadamente violenta e sem precedentes, envolvendo até mesmo manobras mais ou menos nubulosas no campo financeiro, com o efeito final sendo atingido em novembro de 2011 com a saída de Berlusconi do Palazzo Chigi e, em 10 de fevereiro [sic-11], 2013, com a abdicação de Ratzinger. No auge da crise, a Itália viu progressivamente seu acesso aos mercados financeiros internacionais fechados, enquanto o Instituto de Obras Religiosas (IOR) [Banco do Vaticano] foi temporariamente desligado do circuito Swift 4.

Apesar das consideráveis mudanças feitas tanto na política Italiana como no Vaticano, as dificuldades, no entanto, continuaram a persistir. Um fato que confirma a sua natureza estrutural e não permite na nossa previsão, nenhuma simplificação a curto ou médio prazo do contexto do qual nosso Governo terá que assumir no futuro as decisões mais importantes no campo de sua política externa.

Aqui, um especialista italiano em estudos geo-estratégicos afirma que tanto o governo Italiano sob Berlusconi quanto o papado de Bento XVI foram derrubados devido a manobras financeiras que colocaram os dois Estados em perigo. Alessandro Rico publicou, em 17 de maio, um artigo intitulado “Ratzinger costretto ad abdicare dal ricatto di Obama” (“Ratzinger forçado a abdicar devido à chantagem de Obama”), no jornal italiano La Verità – uma publicação que não tem nenhuma inclinação para o Catolicismo tradicional, mas, que, ao contrário, critica os católicos tradicionais e conservadores na mesma edição de 17 de maio (como observa Giuseppe Nardi). O próprio Rico coloca a declaração de Dottori em paralelo com a Carta Aberta de 20 de janeiro de 2017 ao Presidente Trump, publicada pelo jornal tradicionalista The Remnant, que pediu uma investigação sobre uma possível intervenção dos EUA contra o Papa Bento XVI. Como Rico aponta, o Papa Bento XVI, na época, se posicionou em oposição à colaboração do presidente Obama com a Irmandade Muçulmana, especialmente com o discurso do Papa em Regensburg, no qual criticou o fundamentalismo islâmico. Os Estados Unidos, como Rico juntamente com Dottori explicam, não eram favoráveis a uma aproximação papal com o Patriarcado de Moscou, o que poderia apoiar ainda mais uma aproximação européia com a Rússia. Uma base parcial para essa desejada aproximação poderia ser também uma rejeição do relativismo moral do Ocidente.

Ao falar sobre a pressão financeira que foi feita sobre o Vaticano em 2013, ao excluir o Estado Papal do sistema SWIFT – e que interrompeu as operações com cartão de crédito na Cidade do Vaticano e, portanto, nos museus do Vaticano – Rico também lembra: “Estranhamente, esta função [SWIFT] foi restabelecida imediatamente após a renúncia de Bento XVI”.

Recordamos, também, que, bem recentemente, em março de 2017, várias vozes influentes da Igreja Católica – entre elas o Arcebispo Luigi Negri e Ettore Gotti Tedeschi (ex-chefe do Banco do Vaticano) apoiaram o pedido e a suspeita do jornal The Remnant. Meu marido, o Dr. Robert Hickson, professor aposentado do Joint Military Intelligence College e da Joint Special Operations University, também aponta para a “importância da guerra financeira, especialmente no mundo cibernético, como parte da guerra fractal, em que uma pequena mudança (um “delta”) pode levar a um grande e desproporcional efeito”.

Antonio Socci, em sua própria publicação sobre esta nova revelação de Dottori, nos remete para outra entrevista que Dottori já havia dado à Zenit, em 13 de novembro de 2016. Dottori respondeu, então, quando perguntado sobre o recente escândalo do Wikileaks envolvendo a equipe de Hilary Clinton e sua influência sobre a Igreja Católica, como se segue (e, novamente, gentilmente traduzida por Andrew Guernsey):

Apareceram documentos dos quais emerge uma forte intenção da parte equipe de Hillary de provocar uma revolta no interior da Igreja para enfraquecer sua hierarquia. Eles usaram grupos de pressão e movimentos de base, seguindo um consolidado esquema usado pelas experientes revoluções das minorias. Ainda não chegamos na arma do crime, mas estamos perto. Embora eu não tenha provas, sempre pensei que Bento XVI foi levado à abdicação por um complô complexo, ordenado por aqueles que tinham interesse em bloquear a reconciliação com os Ortodoxos Russos, o pilar religioso de um projeto de convergência progressiva entre a Europa Continental e Moscou. Por razões semelhantes, acredito que a candidatura do Cardeal [Angelo] Scola para a sucessão de Bento XVI também foi interrompida, pois como o Patriarca de Veneza, ele havia conduzido as negociações com Moscou. Para ter certeza, no entanto, teremos que obter mais evidências. Através do Wikileaks também nos tornamos conscientes das operações de condicionamento psicológico recentemente exercidas contra o Papa Francisco. Mas ali também eles falharam miseravelmente, pois Bergoglio está renovando a Igreja, para fortalecê-la e, certamente, não para enfraquecê-la, como alguns queriam, e ele assinou um verdadeiro e próprio armistício com Kirill [de Moscou], em meio a tantas divisões tanto dentro das recíprocas esferas de influência. Logo abaixo da costa dos Estados Unidos, em Cuba [onde papa Francisco e o Patriarca Kirill assinaram um documento].

Enquanto Antonio Socci cita algumas dessas palavras do professor Dottori, ele explica que isso não significa que a súbita demissão do papa Bento XVI foi forçada. Aos olhos de Socci, o que nos mostra é que existe um “mistério colossal” que, em meio a muitas pressões, envolve a decisão do Papa Bento XVI, de finalmente, renunciar.

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19 maio, 2017

Bombástico: Bento XVI entra em campo para frear a deriva litúrgica e apoiar o Cardeal Sarah.

Em 2014, Bento XVI apoiou publicamente aqueles a quem chamou de “grandes cardeais”, em mensagem lida publicamente em Missa no Rito Tradicional celebrada na Basílica de São Pedro pelo Cardeal Burke, que, à época, perdia todos os postos que ocupava. Agora, sai novamente em defesa de outro Cardeal que perdeu completamente seu prestígio em Roma e viu sua Congregação ser sitiada por membros de orientação progressista, após algumas mínimas tentativas de restaurar certa dignidade na liturgia.

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Por Riccardo Cascioli, La Nuova Bussola Quotidiana, 18 de maio de 2017 | Tradução: FratresInUnum.com – “Com o Cardeal Sarah a liturgia está em boas mãos.” Assinado: Bento XVI. O que à primeira vista pode parecer um simples gesto de respeito, é, na realidade, uma verdadeira bomba. Isso significa, de fato, que o Papa Emérito – apesar de seu estilo discreto – saiu diretamente em campo na defesa do Cardeal Robert Sarah, como prefeito da Congregação para o Culto Divino, que agora se encontra isolado e marginalizado pelos novos nomeados pelo Papa Francisco, e publicamente desautorizado em seu discurso pelo próprio Papa.

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O gesto dramático de Bento XVI chegou sob a forma de um prefácio de um livro do Cardeal Sarah, “La Force du silence” (O Poder do Silêncio), ainda não traduzido em italiano. O texto de Bento XVI deverá ser publicado nas próximas edições do livro, mas já foi divulgado ontem pelo site americano First Things.

Nele, Bento XVI elogiou muito o livro do Cardeal Sarah e o próprio Sarah, definindo-o como “mestre espiritual, que fala das profundezas do silêncio com o Senhor, expressão de sua união íntima com Ele, e que por isso tem algo a dizer para cada um de nós” .

E no final da mensagem ele se diz grato ao Papa Francisco  por “ter nomeado um tal mestre espiritual à frente da Congregação para a celebração da liturgia na Igreja”. É uma nota que seria mais uma armadura do que gratidão real. Não é segredo o fato de que ao longo do último ano, o Cardeal Sarah foi gradualmente deposto de fato, primeiramente com a nomeação dos membros da congregação que tiveram o êxito de cercar Sarah com elementos progressistas abertamente hostis à “reforma da reforma” pedida por Bento XVI e que o cardeal guineense tentava colocar em ação. Em seguida, a desautorização aberta da parte do papa a respeito da posição do altar; e depois, a nova tradução dos textos litúrgicos que seria resultado de estudos de uma comissão criada sem o conhecimento e contra o Cardeal Sarah. Finalmente, os movimentos para estudar a criação de uma missa “ecumênica” ignorando a própria Congregação.

Trata-se de uma deriva que atinge o coração do pontificado de Bento XVI, o qual colocava a liturgia no centro da vida da Igreja. E no documento agora publicado, o Papa Emérito relança um aviso sério: “Assim como para a interpretação da Sagrada Escritura,  também para a liturgia é verdade que se faz necessário um conhecimento específico. Mas também é verdade para a liturgia que na especialização pode faltar o essencial se esta não estiver enraizada em uma profunda união interior com o Igreja orante, que sempre está aprendendo novamente com o Senhor o que vem a ser a verdadeira adoração”.  Daí a declaração final que soa como um aviso: “Com o Cardeal Sarah, mestre do silêncio e da oração interior, a liturgia está em boas mãos.”

Esta intervenção de Bento XVI, que tenta blindar o Cardeal Sarah e legitimá-lo efetivamente como chefe da Congregação para a Liturgia, não tem precedentes. E embora a forma é a de um comentário “inofensivo” em um livro, ninguém pode fugir do significado eclesial deste movimento, que indica a preocupação do Papa Emérito pelo que está acontecendo no coração da Igreja.

Bento XVI intervém agora sobre algo que talvez melhor tenha caracterizado o seu pontificado: “A crise da Igreja é uma crise da liturgia”, ele foi capaz de falar, e tal julgamento foi relançado pelo Cardeal Sarah. Mas não devemos esquecer o que Monsenhor Georg Geinswein disse em uma entrevista recente, de modo aparentemente inocente, ao responder a uma pergunta sobre a confusão que existe na Igreja e as divisões que surgiram. Ele disse que Bento  XVI acompanha atentamente a tudo o que acontece na Igreja. E agora vemos que, no silêncio, começa a dar alguns passos.

5 dezembro, 2016

Sofrendo e rezando.

Estou bem consciente de que este ministério, pela sua essência espiritual, deve ser cumprido não só com as obras e com as palavras, mas também e igualmente sofrendo e rezando.

Declaração de abdicação do Papa Bento XVI – 10 de fevereiro de 2013.

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Imagens do encontro privado que Monsenhor Antonio Luiz Catelan teve com o Papa Bento XVI anteontem, sábado, 3 de dezembro de 2016.

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4 outubro, 2016

“Bento XVI está semicego há mais de 20 anos”, revela Georg Gänswein.

O arcebispo alemão Georg Gänswein, prefeito da Casa Pontifícia e secretário particular de Bento XVI, em artigo publicado no jornal Corriere della Sera, 02-10-2016, comenta o recente livro-entrevista do papa emérito, Ultime conversazioni[Últimas conversas], acrescentando outras revelações sobre o papa emérito.

A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

IHU – Gostaria de iniciar com um esclarecimento que, talvez, ainda poderá ser muito útil. Estas“últimas conversas” não são um “hard talk” beligerante, como o famoso programa de televisão da BBC, e Peter Seewald não tentou absolutamente colocar Bento XVI“contra as grades”.

O livro contém, ao contrário, o registro de uma série de encontros “coração a coração”, ocorridos antes e depois da renúncia do papa, entre duas almas muito diferentes entre si, mas bávaras até a medula (isso eu posso dizer, não sendo bávaro e vindo da Floresta Negra), que, interrogando intensamente a memória, entram em confidência. As respostas do papa emérito surpreendem aqui por uma intimidade totalmente particular e nova, em que o livro envolve o leitor, e por uma linguagem direta. Ficamos sabendo, por exemplo, da boca do papa, depois da renúncia, que o seu opositor Hans Küng “falava demais”.

“Ele não chorou no helicóptero”

Comove ler de modo igualmente repentino, na página 49, entre parênteses: “O papa chora” antes que o idoso pontífice fale daquele 28 de fevereiro de 2013, quando, ao cair da noite, ele pairou no céu de Roma a bordo de um helicóptero branco ao som de todos os sinos da cidade, dirigindo-se a Castel Gandolfo, ao encontro da noite da sua vida.

“Eu estava muito comovido”, diz. “Enquanto eu pairava lá em cima e ouvia o som dos sinos de Roma, eu sabia que podia agradecer e que o estado de ânimo de fundo era a gratidão.” Enquanto o helicóptero decolava, eu me sentei ao seu lado, profundamente abalado, como sabe quem acompanhou essa despedida pela tela da TV. E eu sei que, ao contrário de mim, ele não chorou na época, se me é possível revelar isso aqui, e eu também tenho ainda nos meus ouvidos o som dos sinos de Roma debaixo de nós, naquele voo que marcou um destino.

O amor pelas caminhadas

Devo confessar sinceramente que, hoje, lendo o livro, umedecem-me ainda mais os olhos nas passagens em que o idoso papa recorda como antigamente ele gostava de caminhar e de fazer passeios. “Eu sempre fui bom em caminhar”, diz ele em um ponto. “Todos os dias eu dava a minha passeada”, diz em outro, enquanto hoje eu tenho diante dos olhos como aquele caminhante apaixonado consegue dar, dia após dia, apenas passos cada vez mais curtos. Por isso, há muitos meses, ninguém me deve mais demonstrar o bom senso da sua renúncia de um ministério extremamente pesado.

“Nada de fuga”

O papa emérito continua esclarecendo: não se tratou de uma fuga, Roma não ardia, não havia lobos uivando debaixo da sua janela, e a sua casa estava em ordem quando entregou o bastão nas mãos do “caríssimos irmãos” do Colégio Cardinalício. O médico tinha lhe dito que ele não podia mais atravessar o Atlântico. Mas a Jornada Mundial da Juventude posterior, que deveria ocorrer em 2014, tinha sido antecipada para 2013, por causa da Copa do Mundo. Caso contrário, ele teria tentado resistir até 2014.

“Mas assim, ao contrário, eu sabia que não conseguiria.” Arrependeu-se, mesmo que por um minuto, de ter renunciado? “Não. Não, não. Vejo todos os dias que era a coisa certa a fazer.”

O papel depois da renúncia

Seewald quer saber sobre as muitas teorias da conspiração das quais se continua falando sobre a sua renúncia. Chantagem? Complô? “São todos absurdos”, corta o papa emérito. Na verdade, ainda há algo a aprender com o seu passo, uma novidade a ser valorizada: “O papa não é um super-homem. Se ele renuncia, mantém a responsabilidade que assumiu em um sentido interior, mas não na função. Por isso, o ministério papal não é diminuído, embora, talvez, se ressalte mais claramente a sua humanidade”.

A relação com Bergoglio

O que a opinião pública fica sabendo sobre a relação do papa emérito com Francisco? Primeiro: ele não esperava Bergoglio. O arcebispo de Buenos Aires foi para ele “uma grande surpresa”. Ele não tinha ideia de quem podia ser o seu sucessor. Mas, depois da eleição, assim que viu – na televisão, em Castel Gandolfo – como o novo papa “falava, de um lado, com Deus, de outro, com os homens, fiquei realmente contente. E feliz”. E até este momento está satisfeito com o ministério do Papa Francisco? Sem meias palavras, responde: “Sim. Há um novo frescor no seio da Igreja, uma nova alegria, um novo carisma que se dirige aos homens, já é uma coisa bonita. Muitos estão agradecidos porque agora o novo papa tem um novo estilo. O papa é o papa, não importa quem seja.”

O seu modo de agir não lhe criar problemas, “ao contrário. Eu gosto”. Ele não vê uma ruptura com o seu pontificado: “Talvez, coloque-se a ênfase em outros aspectos, mas não há nenhuma contraposição”.

As imitações e a “pennichella”

“Eu gostaria de ser professor por toda a vida”: ele foi e continua sendo até hoje um professor universitário, que gosta de fazer imitações das vozes, por exemplo do suíço-alemão Hans Urs von Balthasar, e que escreveu até o fim, a lápis, discursos e obras, inúmeros, em uma estenografia criada por ele mesmo para acompanhar a velocidade dos seus pensamentos. E que, mesmo nos períodos de crise, nunca renunciava às sete ou oito horas de sono de que precisa todas as noites, nem à pennichella [sesta], à qual havia se acostumado desde 1963, desde os anos do Concílio passados em Roma.

Os problemas de visão

Em setembro de 1991, ele, que nunca foi fumante nem bebedor, teve uma hemorragia cerebral. “Agora, eu realmente não posso mais”, anunciou ele depois a João Paulo II, que, no entanto, recusou categoricamente a sua renúncia. “Os anos de 1991 a 1993 foram cansativos”, comenta, lacônico.

Em 1994, teve uma embolia e, depois, uma maculopatia. Desde então, portanto, ainda anos antes da sua eleição a sucessor de Pedro, ele vê muito mal com o olho esquerdo. Isso nunca o fez pesar. O papa semicego! Quem imaginaria?!

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21 setembro, 2016

Quando Bergoglio filo-islâmico atacava Ratzinger.

Por Fausto Carioti, Libero Quotidiano, 22 de agosto de 2014 | Tradução: FratresInUnum.com: Uma história de oito anos atrás, ocorrida em Buenos Aires, que ajuda a compreender a posição assumida pelo Papa Francisco sobre o Isis, o “Estado islâmico”, que iniciou uma caçada implacável aos cristãos. Evitando como sempre nomear o Islã e os fanáticos islâmicos, Jorge Mario Bergoglio pediu para “parar o agressor injusto”, mas não “com bombardeios” ou “fazendo a guerra”. Uma escolha que não parece deixar salvação para as vítimas e que é julgada como estéril por muitos: os crentes (incluindo, nestas colunas, Antonio Socci) e os não crentes (como no caso de Massimo Cacciari).

Na verdade, esta intervenção está perfeitamente em linha com as ideias que Bergoglio expressou por muitos anos: sempre pronto para o apaziguamento, para a acomodação aos que, já como papa, recentemente, chamou de “nossos irmãos muçulmanos”. O incidente mais clamoroso remonta precisamente a 2006, imediatamente após o discurso proferido por Joseph Ratzinger, no auditório da Universidade de Regensburg, em 12 de setembro. Naquela ocasião, o papa alemão havia citado uma frase do imperador bizantino Manuel II: “Mostre-me apenas o que Maomé trouxe de novo, e você encontrará somente coisas más e desumanas, como sua ordem de difundir pela espada a fé que ele pregava”. Palavras que, como então Ratzinger explicou, serviam para “evidenciar a relação essencial entre fé e razão”, e que não implicavam em uma idêntica condenação do Islã pelo papa. Mas essa sutileza acadêmica e teológica não foi bem acolhida pelo mundo islâmico, que se jogou em peso contra Ratzinger, o qual também foi ameaçado de morte.

Mas no ataque contra o pontífice estavam, sobretudo, as acusações que lhes lançaram alguns expoentes da Igreja. Entre estes, o então arcebispo de Buenos Aires. O futuro papa evitou falar em primeira pessoa. Quem interveio foi Padre Guillermo Marcó, porta-voz de Bergoglio. Em declarações à edição argentina da revista Newsweek, ele usou de tons duríssimos: ele disse que a declaração de Ratzinger tinha sido muito “infeliz”. E ainda: “As palavras do Papa não me representam, eu nunca teria feito essa citação”. Concluindo: “Se o Papa não reconhece os valores do Islã e tudo permanece assim, em vinte segundos teremos destruído tudo o que foi construído em vinte anos”.

Marcó era quem falava, mas todos sabiam que essas palavras representavam o pensamento do seu superior. Assim, enquanto o papa Bento XVI defendia seu caso perante o mundo islâmico, uma das vozes mais influentes da Igreja latino-americana, de fato, se posicionava do lado dos muçulmanos. Palavras “inéditas”, aquelas do porta-voz de Bergoglio, tanto que dentro dos muros leoninos “por um longo tempo não se falava de outra coisa”, disse um monsenhor ao Clarín, um dos principais jornais argentinos. Ao se ver diante do escândalo, o padre Marcó afirmou ter dito aquelas coisas não como secretário de imprensa de Bergoglio, mas como presidente do Instituto para o Diálogo Interreligoso, outra posição que ocupava. Uma justificativa nada convincente, tanto que partiu de Roma a pressão sobre o arcebispo para que ele o desmentisse. “Como é possível que seu porta-voz faça declarações semelhantes e Bergoglio não se sinta obrigado a negá-lo e removê-lo imediatamente?”, perguntou ao Clarín uma fonte do Vaticano. O padre, no entanto, permaneceu em seus postos. Foi substituído alguns meses mais tarde, quando quem pediu sua cabeça e por outras razões, foi o ministro do Interior da Argentina, obviamente considerado mais importante do que Bento XVI.

Enquanto isso, o Vaticano havia tirado um dos homens de Bergoglio, o jesuíta Joaquín Piña, do cargo de arcebispo de Puerto Iguazú: Piña tinha divulgado na imprensa opiniões semelhantes às de Marco. O jornal britânico The Telegraph, reconstruindo a história, diz que de Roma alertaram a Bergoglio que ele também seria removido se continuasse a deslegitimar Ratzinger. E Bergoglio reagiu cancelando a viagem que o levaria ao sínodo convocado pelo Papa. O assunto não terminou aí. No dia 22 de fevereiro de 2011, o Núncio Apostólico na Argentina, Dom Adriano Bernardini, lá mesmo em Buenos Aires, fez um sermão de fogo contra os inimigos de Ratzinger. O Santo Padre, disse ele, é vítima de  uma “perseguição”, foi “abandonado por aqueles que se opõem à verdade, mas acima de tudo por alguns sacerdotes e religiosos, não só pelos bispos”. Muitos dos que ele se referia estavam lá, na igreja, bem na frente dele. Bernardini, agora é núncio na Itália e não está listado entre as simpatias do Papa Bergoglio.

14 setembro, 2016

“Quam pulchri super montes pedes adnuntiantis et prædicantis pacem”.

É providencial que este ato tenha lugar precisamente no dia da Festa da Exaltação da Santa Cruz?, cuja celebração nasceu no Oriente em 335, na sequência da Dedicação da Basílica da Ressurreição sobre o Gólgota e o sepulcro de Nosso Senhor construída pelo imperador Constantino, o Grande, que venerais como santo. Dentro de um mês, celebrar-se-ão os 1700 anos da aparição que lhe fez ver, na noite simbólica da sua incredulidade, o monograma cintilante de Cristo enquanto uma voz lhe dizia: «Por este sinal, vencerás!».

"Como são belos sobre os montes os pés do mensageiro que anuncia a paz".

“Como são belos sobre os montes os pés do mensageiro que anuncia a paz”.

Mais tarde, Constantino assinou o Édito de Milão e deu o seu nome a Constantinopla. Parece-me que a Exortação pós-sinodal pode ser lida e interpretada à luz da festa da Exaltação da Santa Cruz e, de forma particular, à luz do monograma de Cristo, o X (ghi) e o P (ro), as duas primeiras letras da palavra Χριστός. Tal leitura leva a uma descoberta autêntica da identidade do batizado e da Igreja e, ao mesmo tempo, constitui como que um apelo ao testemunho na comunhão e pela comunhão.

[…] «Não temas, pequenino rebanho» (Lc 12, 32) e lembra-te da promessa feita a Constantino: «Por este sinal, vencerás!». Igrejas presentes no Médio Oriente, não temais, porque o Senhor está verdadeiramente convosco até ao fim do mundo. Não temais, porque a Igreja universal vos acompanha com a sua solidariedade humana e espiritual. É com estes sentimentos de esperança e encorajamento a ser protagonistas ativos da fé através da comunhão e do testemunho que, no domingo, entregarei a Exortação pós-sinodal Ecclesia in Medio Oriente aos meus venerados Irmãos Patriarcas, Arcebispos e Bispos, a todos os presbíteros, aos diáconos, aos religiosos e religiosas, aos seminaristas e aos fiéis-leigos. «Tende confiança!» (Jo 16, 33).

Palavras do Santo Padre, o Papa Bento XVI, durante a visita à basílica de São Paulo em Harissa, Líbano, para assinatura da Exortação Apostólica Pós-Sinodal ‘Ecclesiae in Medio Oriente’.

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14 setembro, 2016

Bento XVI, último Papa? “Tudo é possível”, diz ele. O que não contaram sobre o livro de Ratzinger.

Por Antonio Socci, 10 de setembro de 2016 | Tradução: FratresInUnum.com: Mas quem agora é o Papa e precisamente quantos são eles? A confusão reina soberana e a nova publicação de Bento XVI – o livro-entrevista “Últimas Conversações” – em vez disissipar as dúvidas, multiplica-as.

Eu começo a partir do detalhe mais curioso.

Bento XVI, ainda Pontífice reinante, em Castel Gandolfo.

Bento XVI, ainda Pontífice reinante, em Castel Gandolfo.

Pergunta Peter Seewald a Bento XVI: “O senhor conhece a profecia de Malaquias, que na Idade Média, compilou uma lista de futuros pontífices, prevendo também o fim do mundo ou pelo menos o fim da Igreja. De acordo com esta lista, o papado terminaria com o seu pontificado. E se o senhor fosse, efetivamente, o último a representar a figura do Papa como conhecemos até agora”?

A resposta de Ratzinger é surpreendente: “Tudo é possível”.

E então ele chega mesmo a acrescentar: “Provavelmente esta profecia nasceu nos círculos em torno de São Filipe Neri” (isto é, ele a chama “profecia” e a reconduz a um grande santo e místico da Igreja). Ele conclui então com uma piada para descontrair, mas aquela foi a sua resposta.

Então, Bento XVI sustenta que ele foi o último papa (pelo menos até o fim do mundo ou o fim da Igreja)? Provavelmente não. Então, considera – pelo menos de acordo com a versão do entrevistador – que ele foi o último a ter exercido o papado como o conhecemos há dois mil anos? Talvez sim.

E mesmo esta segunda possibilidade nos deixa sobressaltados, porque é sabido que o papado – é uma instituição divina – para a Igreja não pode ser alterada por vontade humana.

Além disso, qual é a mudança? Há uma ruptura na tradição ininterrupta  da Igreja?

Um outro “flash” do livro nos leva nessa direção: “o senhor se vê como o último papa do velho mundo”?  pergunta Seewald, “ou como o primeiro do novo?”. Resposta: “Eu diria que ambos”.

Mas o que ele quer dizer com isso? O “velho” e “novo”, especialmente para alguém como Bento XVI, que sempre combateu a interpretação do Concílio como uma “ruptura” com a tradição e sempre afirmou a necessária continuidade, sem intervalos, na história da Igreja?

Na página 31, Seewald afirma (e o texto foi revisto e aprovado pelo próprio Bento XVI) que Ratzinger cumpriu um “ato revolucionário”, que “mudou o papado como nenhum outro Papa dos tempos modernos”.

Esta tese – que faz alusão evidente à instituição do “papa emérito” – teria alguma ligação com as coisas que diz Ratzinger neste livro? Sim, na página 39.

O MISTÉRIO

Antes de resumir o que o Papa Bento XVI disse aqui, devo recordar, no entanto, que a figura do “papa emérito” jamais existiu na história da Igreja e os canonistas sempre afirmaram que ela não pode existir, uma vez que o “papado” não é um sacramento, mas sim uma ordenação episcopal. Na verdade, em dois mil anos, todos aqueles que renunciaram ao papado retornaram ao seu estado precedente, enquanto os bispos permanecem bispos, mesmo quando eles já não têm a jurisdição sobre uma diocese.

No entanto, Bento XVI, nos últimos dias de seu pontificado, indo contra tudo o que canonistas sempre sustentaram, anunciou que ele se tornaria então “papa emérito”.

Ele não explicou o seu perfil teológico, porém em seu último discurso, ele afirmou: “a minha decisão de desistir do exercício ativo do ministério, não o revoga todavia”

Bento acompanhava tais palavras com a decisão de permanecer no Vaticano, de continuar a se vestir com a batina e o solidéu branco, de conservar o brasão papal de armas com as chaves de Pedro e o título de “Sua Santidade Bento XVI”.

Tudo isso era o bastante para se perguntar o que estava acontecendo e se ele estava realmente renunciando ao papado. E foi o que eu fiz nestas colunas, porque nesse meio tempo, o canonista Stefano Violi havia estudado a “Declaração Final” de renúncia e tinha chegado a estas conclusões: “(Bento XVI) renuncia ao Ministerium. Não ao Papado, de acordo com o texto da regra de Bonifácio VIII;  não ao munus de acordo com os ditames do cânon 332 § 2, mas ao ministerium, ou, como ele veio especificar em sua última audiência, ao exercício ativo do ministério“.

Logo em seguida aos meus artigos, o vaticanista Andrea Tornielli, que é muito próximo ao Papa Francisco, em fevereiro de 2014, correu para perguntar a Bento XVI porque ele havia permanecido como papa emérito e a resposta dada foi a seguinte: “a manutenção do hábito branco e do nome de Bento é simplesmente uma coisa prática. No momento da renúncia não haviam outras roupas disponíveis”.

O vaticanista em questão saiu alardeando aos quatro ventos a resposta, que qualquer um que fizer uma observação séria, verá que se trata de uma piada elegante e bem humorada (pois será que não haviam batinas pretas sobrando no Vaticano?) para escapar de uma questão da qual Bento XVI, obviamente, naquele tempo não podia falar.

E, na verdade, ele fala hoje, depois de três anos, explicando as razões daquela escolha que, obviamente, não têm nada a ver com questões de alfaiataria.

SEMPRE PADRE, SEMPRE PAPA

Assim, o livro recentemente publicado pelo Papa Ratzinger parte da reflexão sobre os bispos. Quando se tratou de decidir sobre a demissão deles aos 75 anos de idade, instituiu-se a figura do “bispo emérito” porque – disseram – “Eu sou padre e como tal por toda a eternidade”.

Bento XVI observa que, mesmo quando “um pai deixa de atuar como um pai”, porque os filhos já estão grandes, ele não deixa de ser pai, mas deixa as responsabilidades concretas. “Continua a ser um pai em um sentido mais profundo, mais íntimo”.

Por analogia Papa Ratzinger faz o mesmo raciocínio sobre o Papa: “se ele renuncia, conserva a responsabilidade que assumiu em um sentido interior, mas não na função”.

Este raciocínio poético, no entanto, é explosivo no plano teológico, porque isso significa que ele é Papa.

Para entender o quadro teológico por trás da página revolucionária de Ratzinger é preciso reler o texto surpreendente da conferência que o seu secretário, Mons. Georg Gaenswein, realizou no dia 21 de maio passado na Pontifícia Universidade Gregoriana.

SURPREENDENTE

Naquele discurso – “censurado” pela mídia, mas que caiu na Cúria como uma bomba atômica – Dom Georg disse que “a partir de 11 de fevereiro de 2013, o ministério papal não é mais o mesmo de antes. Ele é e continua a ser o fundamento da Igreja Católica; mas, todavia, é um fundamento que Bento XVI aprofundou e o transformou de forma duradoura em seu pontificado de exceção”.

O seu passo foi um “o passo bem ponderado de porte histórico milenar “, “um passo que até agora jamais havia sido dado”. Porque Bento XVI “não abandonou o Ofício Petrino, mas, ao invés, o renovou”.

De fato, “ele integrou o ofício pessoal com uma dimensão colegial e sinodal, quase um ministério em comum” e “entende a sua função como a participação em tal ministério petrino… não há, portanto, dois papas, mas de fato um ministério expandido –  com um membro ativo e um membro contemplativo”.

Até aquele discurso do dia 21 de maio, Bergoglio – que deve ter escutado essas coisas de Bento XVI (mas sem entendê-las bem) – explicava o papado emérito na mesma linha: ele dizia que o que Bento tinha feito era um “ato de governo”, que ele só havia renunciado ao exercício ativo e fazia analogia com os bispos eméritos.

Mas após o discurso de maio do secretário Gaenswein, a corte bergogliana percebeu imediatamente a dimensão do problema e o alarme foi disparado. Assim, em junho, ao retornar da  Armênia, Bergoglio tratou logo de negar a  idéia de um ministério papal “compartilhado”.

TORPEDO CONTRA BENTO

Depois disso, em meados de agosto, no “Vatican Insider” (que é o termômetro da Cúria), saiu uma entrevista de Tornielli com um canonista importante, que também é eclesiástico da Cúria, onde ele deslegitima por completo a figura do “papa emérito”, porque “a unicidade da sucessão petrina não admite no seu interior nenhuma posterior distinção ou duplicação de ofícios ou uma denominação de natureza meramente ‘honorária’ ou ‘nominalista’. Além disso não existe qualquer sub-distinção entre o múnus e seu exercício”.

Mas Bento XVI, na plenitude de seus poderes, decidiu permanecer como papa, renunciando somente ao exercício ativo do ministério. Se essa sua decisão é inadmissível e nada significa, será que nada significa também a sua renúncia?

Antonio Socci

“Libero”, 10 de setembro de 2016

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18 julho, 2016

Joseph Ratzinger, 65 anos depois.

“E assim caiu a fúria da crítica protestante sobre o sacerdócio católico”. No aniversário da ordenação sacerdotal do futuro Bento XVI, o cardeal Müller narra a sua resistência indomável contra a ofensiva dos seguidores de Lutero

Por Sandro Magister | Tradução: FratresInUnum.comROMA, 28 de junho de 2016 – “No momento em que o idoso arcebispo impôs suas mãos sobre mim, um pequeno pássaro – talvez um pardal – voou por detrás do altar-mor da catedral e entoou um canto alegre. Para mim. foi como se uma voz do alto me dissesse: está tudo bem, você está no caminho certo”.

jpg_1351331Na autobiografia de Joseph Ratzinger, há também essa recordação de sua ordenação sacerdotal, ocorrida há 65 anos, 29 de junho de 1951, festa de São Pedro e São Paulo, na catedral de Freising, pelas mãos do cardeal Michael von Faulhaber.

Para comemorar o aniversário com o Papa Emérito, na Sala Clementina, estava também o atual Papa Francisco.

Na ocasião, foi oferecido a Ratzinger um volume que recolhe 43 de suas homilias, com um prefácio escrito pelo próprio Francisco, que já havia sido antecipado há poucos dias pelos jornais  “La Repubblica” e “L’Osservatore Romano”:

> “Toda vez que eu leio as obras de Joseph Ratzinger …”

O volume, intitulado “Ensinar e aprender o amor de Deus”, foi publicado simultaneamente em seis idiomas: em italiano pela Cantagalli, nos EUA pela Ignatius Press, na Alemanha pela Herder, na França pela Parole et Silence, na Espanha pela Biblioteca de Autores Cristianos, e na Polônia pela Universidade Católica de Lublin.

O trecho que segue é retirado da introdução ao livro, escrito pelo cardeal Gerhard L. Müller, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé e curador da obra completa de Ratzinger.

No aniversário da ordenação sacerdotal do futuro Bento XVI, o cardeal narra sua indomável resistência contra a ofensiva dos seguidores de Lutero.

Sacerdócio Católico e tentação protestante

Gerhard L. Müller

O Concílio Vaticano II tentou reabrir um novo caminho para a compreensão da verdadeira identidade do sacerdócio. Por que então chegamos agora, no pós Concílio, a uma crise de identidade que historicamente só é comparável com as consequências da Reforma Protestante do século XVI?

Eu penso na crise da doutrina do sacerdócio ocorrida durante a Reforma Protestante, uma crise de caráter dogmático, na qual o sacerdote foi reduzido a um mero representante da comunidade, mediante uma eliminação da diferença essencial entre o sacerdócio ordenado e aquele comum de todos os fiéis. E depois na crise existencial e espiritual, ocorrida na segunda metade do século XX, e que explodiu cronologicamente depois do Concílio Vaticano II -, mas certamente não por causa do Concílio – e cujas consequências hoje ainda sofremos.

Joseph Ratzinger destaca com grande perspicácia que onde é menosprezado o fundamento dogmático do sacerdócio católico, não apenas se esgota a fonte de onde se pode efetivamente beber da vida que nutre os que seguem a Cristo, mas desaparece também a motivação que introduz tanto uma compreensão razoável da renúncia ao casamento pelo reino dos céus (cfr. Mt 19, 12), como do celibato como um sinal escatológico do mundo de Deus que virá,  um sinal para ser vivido com a força do Espírito Santo, na alegria e na certeza.

Se a relação simbólica que pertence à natureza do sacramento é obscurecida, o celibato sacerdotal torna-se o resquício de um passado hostil ao corpo e começa a ser acusado e combatido como a única causa da escassez de sacerdotes. Não menos importante, desaparece, em seguida, também as evidências no ensino e na prática da Igreja, de que o sacramento da Ordem deve ser administrado somente aos homens. Um ofício concebido em termos funcionais na Igreja é exposto à suspeita de legitimar um domínio, que, ao invés, deveria ser baseado e limitado ao sentido democrático.

A crise do sacerdócio no mundo ocidental, nas últimas décadas, é também o resultado de uma desorientação da identidade cristã perante uma filosofia que transfere para o interior do mundo o sentido mais profundo e o fim último da história de cada existência humana, privando-o assim do horizonte da transcendência e da perspectiva escatológica.

Esperar tudo de Deus e fundamentar toda a sua vida a Deus, que em Cristo nos doou tudo: esta e só esta pode ser a lógica de uma escolha de vida que, no completo dom de si, põe-se a caminho no seguimento de Jesus, participando de sua missão de Salvador do mundo, a missão que Ele cumpre no sofrimento e na cruz, e que Ele inevitavelmente revelou através de sua Ressurreição dentre os mortos.

Mas, na raiz desta crise do sacerdócio, é necessário também levar em contra os fatores intra-eclesiais. Como mostrado em seus primeiros discursos, Joseph Ratzinger possui desde o início uma sensibilidade aguçada para perceber imediatamente o choque com o qual se anunciava o terremoto: e isso especialmente na abertura, por parte de muitos católicos, à exegese protestante em voga nos anos cinquenta e sessenta do século passado.

Muitas vezes, do lado católico, não se percebeu as visões preconceituosas das exegese nascidas da Reforma. E assim sobre a Igreja Católica (e ortodoxa), caiu a fúria das críticas ao sacerdócio ministerial, na presunção de que ele não tem um fundamento bíblico.

O sacerdócio sacramental, tudo que se refere ao Sacrifício Eucarístico -, assim como tinha sido afirmado pelo Concílio de Trento – à primeira vista não parecia ser baseado na Bíblia, tanto do ponto de vista terminológico, tanto no que diz respeito às prerrogativas particulares do sacerdote sobre aos leigos, especialmente no que tange ao poder de consagrar. A crítica radical ao culto – e com ela a superação, que visava um sacerdócio que se limitaria à pretensão de mediação – parecia perder terreno para uma mediação sacerdotal na Igreja.

A Reforma atacou o sacerdócio sacramental, porque argumentava-se que ele colocava em questão a unicidade do sumo sacerdócio de Cristo (de acordo com a Carta aos Hebreus) e marginalizava o sacerdócio universal de todos os fiéis (de acordo com 1 Pedro 2: 5). A esta crítica, finalmente, juntou-se a idéia moderna da autonomia do sujeito, com a praxis individualista que dela resulta, a qual vê com desconfiança qualquer exercício de autoridade.

Que visão teológica se seguiu?

Por um lado, observou-se que Jesus, de um ponto sociológico-religioso, não era um sacerdote com funções de culto e portanto, – para usar uma formulação anacrônica – era um leigo.

Do outro, com base no fato de que no Novo Testamento, para os serviços e ministérios, não foi adotada qualquer terminologia sacral,  mas denominações consideradas profanas, parecia que se poderia considerar como inadequada a transformação – na Igreja das origens, a partir do III século – daqueles que desenvolviam meras “funções” dentro da comunidade, em detentores impróprios de um novo sacerdócio do culto.

Joseph Ratzinger apresenta, por sua vez, um exame crítico detalhado, uma crítica histórica à teologia protestante e o faz distinguindo os preconceitos filosóficos e teológicos do uso do método histórico. Ao fazer isso, ele consegue mostrar que com as aquisições da moderna exegese bíblica e uma análise precisa do desenvolvimento histórico-dogmático, podemos chegar de modo bem fundamentado às afirmações dogmáticas produzidas sobretudo no Concílio de Florença, Trento e do Vaticano II.

O que Jesus significa para o relacionamento de todos os homens e de toda a criação com Deus – portanto, o reconhecimento de Cristo como o Redentor e Mediador universal de salvação, desenvolvido na Carta aos Hebreus através da categoria de “Sumo Sacerdote” (Archiereus) – nunca dependeu, como condição, da sua participação no sacerdócio levítico.

O fundamento do ser e da missão de Jesus reside muito mais na sua proveniência do Pai, daquela casa e daquele templo onde vive e deve ficar (cfr. Lc 2, 49). É a divindade do Verbo que faz de Jesus, na natureza que Ele assumiu, o único e verdadeiro Mestre, Pastor, Sacerdote, Mediador e Redentor.

Ele nos torna partícipes desta sua consagração e missão por meio do chamada dos Doze. A partir deles, surge o círculo dos Apóstolos que fundaram a missão da Igreja na história como dimensão essencial da natureza eclesial. Eles transmitem o seu poder aos chefes e pastores da Igreja universal e particular, os quais operam a nível local e supra-local.

5 julho, 2016

A renúncia a Bento XVI e a sombra de Carl Schmitt.

Por Guido Ferro Canale | Tradução: FratresInUnum.com: A recente intervenção de Dom Georg Gänswein sobre a renúncia de Bento XVI ao pontificado provocou alvoroço e reflexões,  sobretudo porque parecia oferecer um suporte à teoria dos “dois papas.” Sem entrar no debate sobre este aspecto, ou a distinção problemática entre exercício ativo e passivo do ministério petrino, gostaria de chamar a atenção para um ponto diferente no texto, cujas implicações me parecem dignas de aprofundamento.

papiPermitam-me começar por salientar, em primeiro lugar, o título escolhido pelo ilustre autor: “Bento XVI, o fim do velho, o início do novo”. Ele o justifica, inicialmente, afirmando que Ratzinger “encarnou a riqueza da tradição católica como nenhum outro; e – ao mesmo tempo – foi tão ousado a ponto de abrir a porta para uma nova fase, para aquela viragem histórica que ninguém, cinco anos atrás, poderia ter imaginado”. Em outras palavras: o “início do novo” não se reconhece por qualquer um dos muitos atos de governo ou de magistério, mas justamente pela renúncia e a situação inédita que ela cria.

Situação que ele não só descreve nos termos da dicotomia no exercício do ministério, mas também emprega – embora de modo menos evidente –  uma outra categoria, o estado de exceção.

O autor a introduz de maneira oblíqua, como referindo-se a uma opinião de outros: “Muitos continuam a perceber ainda hoje esta nova situação como uma espécie de estado de exceção querida pelo Céu”. No entanto, em seguida, faz com que apropria-se dela, estendendo-a a todo o pontificado de Ratzinger: “desde 11 de fevereiro de 2013, o ministério papal não é mais o mesmo de antes. Ele é e continua a ser o fundamento da Igreja Católica; mas, todavia, é uma fundação que Bento XVI aprofundou e transformou de modo duradouro em seu pontificado de exceção (Ausnahmepontifikat), sobre o qual o sóbrio Cardeal Sodano, reagindo de forma simples e direta após a declaração surpreendente de renúncia, profundamente comovido e quase pego de surpresa, exclamou que aquela notícia ecoou entre os cardeais reunidos ‘como um raio em céu sereno'”.

A leitura parece bastante clara: o Pontificado de Bento XVI torna-se um “pontificado de exceção” em virtude da renúncia e no momento da renúncia.

Mas, por que a expressão também é registrada em alemão como “Ausnahmepontifikat“?

Em italiano, “Pontificado de Exceção” simplesmente soa como “fora do comum “. Mas, a referência à sua língua materna deixa claro que Dom Gänswein não tem em mente uma símile banalidade, mas sim a “categoria do estado de exceção”. (Ausnahmezustand).

Uma categoria que qualquer alemão de cultura média imediatamente associa à figura e ao pensamento de Carl Schmitt.

“Soberano é quem decide sobre o estado de exceção. […] Aqui com estado de exceção se entende um conceito geral da doutrina do Estado, e não qualquer decreto de emergência ou estado de sítio. […] Na verdade, nem toda competência incomum, nem todas as medidas ou ordem de emergência policial são uma situação de exceção: a esta pertence muito mais uma competência ilimitada em via de princípio, isto é, a suspensão de todo o sistema de direito. Se essa situação é verificada, então, é claro que o Estado continua a existir, enquanto o direito falha”(C. Schmitt, “Teologia Política”, em Id., “As categorias políticas “, Bolonha, 1972, pp. 34 e 38-9).

Aus-nahme“: literalmente, “fora da lei”. Um estado de coisas que não podem ser reguladas e, em seguida, se ocorrer, obriga a suspender toda a ordem jurídica.

Um “Ausnahmepontifikat“, então, seria de alguma forma uma pontificado que suspende as regras ordinárias de funcionamento do ofício petrino ou, como disse Dom Gänswein, “renovam” o próprio ofício.

E, se a analogia procede, essa suspensão seria justificada, ou melhor, imposta por uma emergência impossível de ser enfrentada de outra maneira.

Em um outro texto intitulado “O guardião da Constituição”, Schmitt analisa o poder de decidir sobre o caso de exceção do presidente da República de Weimar e o retém como funcional para salvaguardar a Constituição. Talvez esse aspecto do pensamento de Schmitt não seja pertinente, mas, certamente, dá uma ideia da gravidade da crise exigida para um estado de exceção.

É possível, então, que um conceito com implicações semelhantes tenha sido empregado [por D. Gänswein] levianamente, de modo impreciso, talvez apenas para aludir às dificuldades de enquadrar a situação criada com a renúncia segundo as regras e conceitos ordinários?

Parece-me impossível, por três razões:

1) A  impropriedade da linguagem não se justifica, mesmo porque se trata de um dos conceitos mais conhecidos por um estudioso que, pelo menos na Alemanha, é conhecido “Lippis et tonsoribus”.

2) A ênfase, evidente a partir do título, sobre os efeitos e o âmbito da renúncia, o que certamente não é considerado uma possibilidade de ocorrência rara, mas, facilmente prevista pelo Código de Direito Canônico (se considera que ela é definida, entre outras coisas como, “bem ponderado passo de peso milenar”);

3) As possíveis referências à situação crítica concreta que me parecem entrevistas na intervenção de Dom Gänswein.

Se consideramos tudo o que ele diz sobre a eleição de Bento XVI  “como o resultado de uma luta dramática”: “foi certamente também o resultado de um confronto, cuja chave de compreensão havia sido fornecida pelo próprio Ratzinger como cardeal decano, na homilia histórica de 18 de Abril 2005, em São Pedro; e precisamente ali, diante de “uma ditadura do relativismo que não reconhece nada como definitivo, e que deixa como última medida apenas o próprio eu e as suas vontades”, ele havia contraposto outra medida: “o Filho de Deus e verdadeiro homem como a medida do verdadeiro humanismo “.

Um confronto onde, senão no conclave, no coração da Igreja?

Aqui também ele indica os protagonistas. E não é mais nenhum mistério para ninguém que o grupo “San Gallo” entrou novamente em ação em 2013.

Grande parte da dificuldade do pontificado de Bento XVI poderia ser explicada precisamente por esse confronto, talvez subterrâneo, mas incessante, entre aqueles que permanecem fiéis à imagem evangélica do “sal da terra” e os que querem prostituir a Noiva do Cordeiro com a ditadura do relativismo? Este confronto, que não é apenas uma luta pelo poder, mas sim uma batalha sobrenatural pelas almas, é a principal razão pela qual alguns amaram Bento XVI, enquanto outros o odiaram.

E prosseguimos com a leitura.

“Durante a eleição, então, na Capela Sistina, fui testemunha de que ele [Ratzinger] viveu a eleição como um ‘verdadeiro choque’ e ‘perturbação’, e que a sentiu ‘como uma vertigem’ assim que percebeu que a decisão da eleição cairia sobre ele. Não estou a revelar nenhum segredo aqui, porque foi o próprio Bento XVI a confessar isso publicamente na primeira audiência concedida aos peregrinos que vieram da Alemanha. E por isso também não é nenhuma surpresa que Bento XVI foi o primeiro Papa que, imediatamente após a sua eleição, convidou os fiéis a orar por ele. Um fato que mais uma vez este livro [de Roberto Regoli] nos recorda”.

Mas, muito além do “acima de tudo, confio-me às suas orações” pronunciado imediatamente após a eleição, talvez não lembremos do convite dramático da Missa do início do ministério petrino: “Orem por mim, para que eu não fuja, por medo do lobos”. Na parábola do Evangelho, o mau pastor não foge por medo. Ele foge porque “é um mercenário, e não se importa com as ovelhas”.

Creio, portanto, que Bento XVI estava confessando um medo concreto. E que pensava em lobos muito reais. Creio que isso também explica o seu choque, confusão e vertigens.

E talvez uma outra referência pode ser encontrada na menção a uma crítica bastante frequente: “Regoli não deixa de mencionar a acusação de falta de conhecimento dos homens que frequentemente  dirigida ao teólogo brilhante em vestes de Pescador; alguém que era capaz de avaliar de modo genial textos e livros difíceis, e que, no entanto, em 2010, confidenciou com franqueza a Peter Seewald, o quanto achava difícil decidir sobre pessoas já que ‘ninguém pode ler o coração do outro’. Como é verdade!”.

Quando os lobos estão disfarçados de cordeiros ou pastores; quando seus pensamentos não são impressos em papel e passíveis de refinada análise teológica; como desmascará-los? Como descobrir em quem confiar e a quem confiar parte da autoridade sobre o rebanho do Senhor?

Por isso, parece-me que até a frase “Bento XVI estava ciente de que faltava-lhe a força necessária para o pesadíssimo ofício” adquire um sentido menos anódino e talvez muito mais sinistro. Seria pesadíssimo o ofício, não por causa da multiplicidade de compromissos externos, definitivamente cansativos, mas por causa da extenuante luta interna. Tão extenuante que ele não se sentia mais capaz de suportá-la …

Talvez eu esteja lendo demais as minúcias desse texto. Talvez Dom Gänswein ame as imagens coloridas ou frases de efeito. Certamente, não faltará quem o diga. E eu sou o primeiro a admitir que meu gosto pela análise acaba por me deixar levar.

Mas, se eu posso estar errado na reconstrução da emergência concreta, não creio que seja possível libertar a renúncia da sombra que cobre aquela expressão pesada como uma pedra: “Ausnahme“. Não evoquei a sombra de Carl Schmitt: limitei-me a indicar o ponto em que Dom Gänswein a tornou visível, ouso dizer, palpável..

Resta, no entanto, uma questão em aberto: de que modo e sob que circunstâncias a renúncia, com a introdução de “papa emérito”, seria uma resposta adequada a uma situação de emergência?

Pode-se pensar na força espiritual do desapego do poder ou mais simplesmente no fato de que o exército de Cristo teria um novo comandante, ainda não desgastado pela luta em questão e capaz de conduzi-lo melhor. Mas, essas razões são válidas para a renúncia e não para o “emeritato”.

Talvez um sinal possa surgir da afirmação que  que Bento XVI “enriqueceu” o papado “com a ‘centralidade’ de sua oração e sua compaixão colocadas nos jardins do Vaticano”.

A compaixão, destes tempos, seria o caso de recordá-lo, não é a misericórdia. Na teologia ascética ou mística, compaixão é unir-se aos sofrimentos de Cristo crucificado, oferecendo-se a si mesmo para a santificação do próximo.

Um serviço de com-paixão da parte do Papa se torna necessário – na minha opinião – só quando a Igreja parece viver em primeira pessoa a Sexta-Feira Santa. Quando devem ecoar as palavras amargas: “Haec est hora vestra et potestas Tenebrarum”.

Bem entendido, com isso eu não denuncio conspirações e nem formulo acusações: o estado de exceção pode muito bem ser “querido pelo céu”, dado que as trevas não teriam poder algum sem a permissão divina. E nós sabemos que existe também uma necessidade misteriosa do “mysterium iniquitatis”: é necessário que seja afastado aquele que o detém. Por uma razão maior, portanto, entrarão no plano de Deus os anticristos menores e as horas das trevas.

Eu não possuo e nem posso fornecer respostas definitivas sobre as causas concretas da renúncia de Bento XVI, nem sobre as razões teológicas ou pessoais que possam tê-lo induzido a definir-se como “papa emérito”, e menos ainda sobre os planos sobrenaturais da Providência. Mas, que hoje os anticristos estão desencadeados – e principalmente aqueles que deveriam apascentar o rebanho do Senhor – me parece incontestável.

Então, de qualquer modo, chegamos definitivamente no tempo da com-paixão.

Tempo de colocar a esperança cristã acima da “impostura religiosa que oferece aos homens uma solução aparente para os seus problemas ao preço da apostasia da verdade”, o “pseudo-messianismo pelo qual o homem glorifica a si mesmo no lugar de Deus e do seu Messias que veio em carne “(Catecismo da Igreja Católica, 675).

Tempo para se apressar com o sofrimento cristão, a arma espiritual mais poderosa que nos foi dado empregar no momento em que Deus vai intervir de um modo conhecido apenas por Ele “ab aeterno” para restabelecer a verdade, o direito e justiça.

Kyrie eleison!

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28 junho, 2016

Papa Francisco: Bento XVI continua servindo a Igreja com vigor e sabedoria.

Cidade do Vaticano (Rádio Vaticano) – O Papa Francisco conduziu nesta terça-feira (28/06), na Sala Clementina do Vaticano, a celebração solene de comemoração dos 65 anos de Ordenação sacerdotal do Papa emérito Bento XVI.

“Hoje, festejamos a história de um chamado iniciado há 65 anos com a sua Ordenação sacerdotal ocorrida na Catedral de Frisinga em 29 de junho de 1951”, disse Francisco a Bento XVI.

“Em uma das mais belas páginas que o senhor dedica ao sacerdócio, sublinha como, na hora do chamado definitivo de Simão, Jesus, olhando para ele, no fundo pergunta-lhe somente uma coisa: ‘Me amas?’. Como é bonito e verdadeiro isto! Porque é aqui, o senhor nos diz, é neste “me amas” que o Senhor funda o apascentar, porque somente se existe amor pelo Senhor Ele pode apascentar por meio de nós”, frisou ainda o Pontífice.

“É esta a nota que domina uma vida inteira dedicada ao serviço sacerdotal e à teologia que o senhor não por acaso definiu como a ‘busca do amado’; é isto que o senhor sempre testemunhou e testemunha ainda hoje: que a coisa decisiva nos nossos dias – de sol ou de chuva – a única com a qual vem também todo o resto, é que o Senhor esteja realmente presente, que o desejemos, que interiormente sejamos próximos a ele, que o amemos, que realmente acreditemos profundamente nele e acreditando o amemos verdadeiramente. É este amar que realmente nos preenche o coração, este acreditar é aquilo que nos faz caminhar seguros e tranquilos sobre as águas, mesmo em meio à tempestade, precisamente como acontece a Pedro; este amar e este acreditar é o que nos permite de olhar ao futuro não com medo ou nostalgia, mas com alegria, também nos anos já avançados de nossa vida.”

Testemunho

“E assim, precisamente vivendo e testemunhando hoje em modo tão intenso e luminoso esta única coisa realmente decisiva – tendo o olhar e o coração voltado a Deus – o senhor, Santidade, continua servindo a Igreja, não deixa de contribuir realmente com o vigor e a sabedoria para o crescimento dela”, disse Francisco que acrescentou:

“E o faz daquele pequeno Mosteiro Mater Ecclesiae no Vaticano, que se revela desta forma ser bem outra coisa do que um daqueles cantinhos esquecidos nos quais a cultura do descarte de hoje tende a relegar as pessoas quando, com a idade, as suas forças começam a faltar. É bem ao contrário; e isto permite que o diga com força o seu Sucessor que escolheu chamar-se Francisco!”.

“Porque o caminho espiritual de São Francisco iniciou em São Damião, mas o verdadeiro lugar amado, o coração pulsante da ordem, lá onde o fundou e onde no final rendeu sua vida a Deus foi a Porciúncula, a ‘pequena porção’, o cantinho junto à Mãe da Igreja; junto a Maria que, pela sua fé tão firme e pelo seu viver tão inteiramente do amor e no amor com o Senhor, todas as gerações chamarão bem-aventurada. Assim, a Providência quis que o senhor, caro irmão, chegasse a um lugar por assim dizer propriamente ‘franciscano’ do qual emana uma tranquilidade, uma paz, uma força, uma confiança, uma maturidade, uma fé, uma dedicação e uma fidelidade que me fazem tão bem e dão força para mim e para toda a Igreja”.

Palavras de Bento XVI

E o Papa Francisco concluiu: “Que o senhor, Santidade, possa continuar sentido a mão do Deus misericordioso que o sustenta, que possa experimentar e nos testemunhar o amor de Deus; que, com Pedro e Paulo, possa continuar exultando de alegria enquanto caminha rumo à meta da fé.”

A seguir, o Papa emérito Bento XVI, em um breve discurso improvisado de agradecimento, recordou que sua vida sacerdotal foi marcada desde o início pela palavra grega “Eucharistomen” e suas tantas dimensões.

“Ao final, queremos nos incluir neste obrigado do Senhor e, assim, receber realmente a novidade da vida e ajudar a transubstanciação do mundo, que seja um mundo não de morte, mas de vida – um mundo no qual o amor venceu a morte.”

(JE/MJ/RB)

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