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26 março, 2018

Longe de continuidade, há um abismo. A verdadeira história dos onze opúsculos.

Por Sandro Magister, Settimo Cielo, 26 de março de 2018 | Tradução: FratresInUnum.com – Conforme passam os dias, é cada vez mais evidente que Francisco não demitiu nem castigou, absolutamente, a Mons. Dario Edoardo Viganò, por conta da maneira com que utilizou o que lhe escreveu Bento XVI.

libretti1Pelo contrário, confirmou e inclusive reforçou seus poderes, renovando-lhe, explicitamente, a determinação de concluir a consolidação de todos os meios de comunicação do Vaticano, inclusive “L’Osservatore Romano”, em um “único sistema comunicativo” totalmente controlado por ele, em linha direta com o Papa e destinado a cuidar da imagem de pastor exemplar e também de teólogo culto.

De fato, a operação em que se instrumentalizou a carta de Bento é parte deste desenho geral.

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A origem da operação se remete ao outono passado, quando Viganò colocou à frente da Libreria Editrice Vaticana um novo diretor, Giuliu Cesareo, de 39 anos, franciscano, com estudos teológicos em Friburgo e docente de teologia moral.

Em 12 de outubro de 2017, dia da nomeação, os dois estiveram em Frankfurt, na Feira do Livro que se celebra anualmente. Viganò declarou que a mudança de diretor da Libreria Editrice Vaticana “configura um novo reforço importante no processo de reforma pedido pelo Santo Padre”. E ambos anunciaram que a nova linha editorial seria inaugurada com uma coleção de onze opúsculos de diversos autores, que objetivava “mostrar a profundidade das raízes teológicas do pensamento, dos gestos e do ministério do Papa Francisco”.

Nos dias do Natal, a coleção chegou às livrarias de Roma. E entre os autores aparecem importantes nomes do campo teológico progressista, ou totalmente partidários da “mudança de paradigma” colocada em movimento por Francisco, como os argentinos Carlos Galli e Juan Carlos Scannone, os alemães Peter Hünermann e Jürgen Werbick, os italianos Aristide Fumagalli, Piero Coda, Marinella Perroni e Roberto Repole, o jesuíta esloveno Marko Ivan Rupnik, este último mais apreciado como artista do que como teólogo, e já há algum tempo diretor espiritual do próprio Viganò.

Na escolha destes autores, é significativa, particularmente, a de Hünermann. Dois anos mais novo que Joseph Ratzinger, foi-lhe um adversário irredutível durante toda a sua vida, sustentando, entre outros pontos, uma tese sobre a natureza do Concílio Vaticano II que o próprio Ratzinger, uma vez Papa Bento XVI, sentiu-se obrigado a citar e refutar em seu célebre discurso de 22 de dezembro daquele mesmo ano, sobre a reta interpretação do Concílio.

Disse Bento, com uma referência implícita a Hünermann, que não passou despercebida pelos entendedores:

“[Para alguns] o Concílio é considerado como uma espécie de Assembleia Constituinte, que elimina uma Constituição antiga e cria uma nova. Porém, a Assembleia Constituinte precisa de uma autoridade que lhe confira o mandado e, depois, uma confirmação por parte dessa assembleia, isto é, do povo ao qual a Constituição deve servir. Os padres não tinham mandado e ninguém lhes deu; ademais, ninguém lhes poderia dar, porque a Constituição essencial da Igreja provém do Senhor”.

Quanto a Jorge Mario Bergoglio, Hünermann o conhece desde o longínquo 1968, quando permaneceu em Buenos Aires para um período de estudo, no colégio dos jesuítas. E, uma vez Papa, teve com ele uma longa conversa em Santa Marta, em maio de 2015, no intervalo entre os dois sínodos sobre o matrimônio e divórcio.

Hünermann deu a conhecer os detalhes dessa conversa em uma longa entrevista publicada em  “Commonweal“, em 22 de setembro de 2016.

A pedido de amigos latino-americanos de Bergoglio, Hünermann enviou ao Papa um informe escrito, no qual argumentava que na teologia católica anterior ao Concílio de Trento, especialmente em Santo Tomás de Aquino e São Boaventura, a indissolubiidade do matrimônio não era um absoluto, mas admitia a ruptura. E o mesmo ocorria com a absolvição sacramental do adultério, também admitida apesar da continuidade da relação.

Na conversa posterior com o Papa Francisco, os dois falaram disso, em espanhol, durante uma hora. E depois, no ano seguinte, veio a exortação “Amoris Laetitia”, a qual, segundo Hünermann, levou em conta esta sua contribuição.

Pois bem, em 12 de janeiro deste ano, somente passadas as festas de Natal, Viganò envia a Bento XVI os onze opúsculos reunidos em um estojo, juntamente com uma carta em que pede que escreva uma apresentação deles, elogiando o conteúdo e recomendando sua leitura.

Não se conhece o texto da carta de Viganò. Porém, a substância do que está escrito nela se pode depreender da carta de resposta de Bento XVI, datada de 7 de fevereiro, esta sim posteriormente conhecida.

É evidente a intenção do pedido dirigido por Viganò ao Papa emérito: arrancar do grande teólogo Bento XVI a sua aprovação pública do “novo paradigma” de seu sucessor, tal como ilustrado nos opúsculos por uma fila de teólogos recrutados entre os apologetas do novo programa.

Vendo o conteúdo e os autores dos opúsculos, o atrevimento do pedido feito por Viganò a Bento XVI deixa boquiabertos a muitos.

É totalmente negativa, de fato, a resposta de Bento na carta “pessoal reservada” enviada por ele a Viganò, em 7 de fevereiro.

O Papa emérito se nega a escrever “a breve e densa página teológica”, que lhe foi pedida,  sobre os opúsculos. Diz que não os leu nem os lerá futuramente. Expressa sua “surpresa” ao ver, entre os autores escolhidos, o “professor Hünermann, quem, durante meu pontificado, colocou-se em evidência por encabeçar iniciativas anti papais”.

Ademais, ao responder a Viganò, Bento se sente na obrigação de rechaçar por si mesmo o “tolo preconceito” segundo o qual ele teria sido “apenas um teórico da teologia que pouco compreendera da vida concreta do cristão atual”.

Assim como seria injusto, escreve, pensar que “o Papa Francisco seria somente um homem prático privado de particular formação teológica ou filosófica”. Porque, certamente, insiste ele, “é um homem de uma profunda formação teológica e filosófica”.

Se se quer reconhecer uma “continuidade” entre seu pontificado e o de Francisco, Bento XVI especifica que ela deve ser considerada “interior”.

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O que se seguiu já é conhecido. Na tarde de 12 de março, na véspera do quinto aniversário de eleição do Papa Francisco e por ocasião do lançamento, com toda pompa, no Vaticano — com o primeiro expositor sendo o Cardeal Walter Kasper — dos onze opúsculos, Viganò distribui um comunicado de imprensa no qual cita da carta de Bento XVI somente as poucas linhas referidas sobre “a profunda formação teológica” de Bergoglio e a continuidade entre os pontificados.

Inicialmente, Viganò obtém plenamente o que se propõe, isto é, um compacto coro de louvor nos meios de comunicação, sobretudo os italianos, pela suposta adesão pública de Bento XVI ao novo programa empreendido pelo papa Francisco.

Exceto que, no dia seguinte, 13 de março, Settimo Cielo publica também o outro parágrafo da carta de Bento XVI que contém sua recusa a ler e escrever qualquer coisa sobre os livretos, parágrafo também precipitadamente lido em público por Viganò na tarde anterior, porém, totalmente ignorado pelas dúzias de jornalistas presentes.

Então se desencadeou a tempestade. Pois, desde os meios de comunicação do mundo todo, recai agora sobre Viganò a acusação de ter construído e difundido uma “fake news” de gravidade inaudita, não só com o comunicado de imprensa, mas também com a foto oficial da carta de Bento XVI,  borrada em suas linhas mais incômodas.

A tempestade chega a seu ápice na manhã de 17 de março, quando, novamente, Settimo Cielo antecipa o último parágrafo da carta, que faz referência a Hünermann.

No entardecer do mesmo dia, Viganò é então obrigado a publicar o texto integral da carta de Bento XVI.

Dois dias depois, em 19 de março, ele pede por escrito ao Papa Francisco que aceite sua renúncia como prefeito da Secretaria para a Comunicação.

E, em 21 de março, Francisco a aceita, mas, também escreve, “não sem certo pesar”.

As duas cartas, na realidade, ambas publicadas no meio dia de 21 de março, não fazem a mínima alusão de arrependimento pela inédita maquinação realizada em desfavor de Bento XVI, que sequer é nomeado.

Em sua carta ao Papa, Viganò lamenta unicamente as “muitas polêmicas em torno do que foi feito por mim, que, para além das intenções, desestabilizam o complexo e grande trabalho de reforma que o senhor me confiou”.

E Francisco, em sua carta de resposta, precedida por conversas e encontros pessoais entre os dois, não faz outra coisa senão encher Viganò de elogios pelo trabalho de reforma realizado por ele até então, e volta a confirmar a ordem de concluí-lo, no novo papel de “assessor” criado deliberadamente para ele na Secretaria para a Comunicação.

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Mas, voltando à carta de Bento XVI de 7 de fevereiro, é útil examinar mais de perto a sua referência a Hünermann.

Recorda que ele “participou de forma relevante do lançamento da “Kölner Erklärung” [Declaração de Colonia], que, em relação à encíclica “Veritatis Splendor”, atacou de forma virulenta a autoridade magisterial do Papa, especialmente em questões de teologia moral”.

Com efeito, a “Declaração de Colônia” foi um ataque frontal lançado em 1989 por diversos teólogos, em sua maioria alemães, contra o ensinamento de João Paulo II e de seu prefeito da doutrina da Fé, Joseph Ratzinger, sobretudo em matéria de teologia moral.

O que fez explodir o protesto foi a nomeação, como arcebispo de Colônia, do cardeal Joachim Meisner, o mesmo que, em 2016, foi um dos signatários dos “dubia” apresentados ao Papa Francisco acerca de Amoris Laetitia e sobre quem, em 2017, em seu dia de sepultamento, Bento XVI escreveu palavras profundas e impactantes.

Entre os signatários da “Declaração de Colônia” estava a nata do progressismo teológico, desde Hans Küng a Bernhard Häring, desde Edward Schillebeeckx a Johann Baptist Metz.  E estiveram também dois dos autores dos atuais onze opúsculos sobre a teologia do papa Francisco: Hünermann e Werbick.

À tese da “Declaração de Colônia”, João Paulo II reagiu, em 1993, com a encíclica “Veritatis Splendor” — que não foi citada uma única vez por Francisco em “Amoris Laetitia”. Enquanto que, por sua vez, nos parágrafos 303-305, “Amoris Laetitia” retoma e faz suas algumas das teses da “Declaração de Colônia”, especialmente ali onde, em seu terceiro e último ponto, atribui-se à consciência e à responsabilidade individual o juízo em decisões morais.

Neste mesmíssimo terceiro ponto da “Declaração de Colônia” ataca-se frontalmente a encíclica de Paulo VI “Humanae vitae“, reinvidicando a licitude dos anticoncepcionais. E também sobre este ponto o pontificado de Bergoglio está se movimento na mesma direção.

Pelo contrário, no texto quiçá mais amplo e meditado até agora publicado por Bento XVI desde sua renúncia, em um volume de 2014 de diversos autores sobre João Paulo II, o Papa emérito não duvida em indicar precisamente “Veritatis splendor” como a encíclica mais crucial desse pontificado para o tempo atual. “Estudar e assimilar esta encíclica — conclui — continua sendo um grande e importante dever”.

Não por acaso que três dos cinco “dubia” apresentados a Francisco por alguns cardeais em 2016 têm como tema justamente o risco de abandonar os fundamentos da doutrina moral confirmados em “Veritatis Splendor”.

E nem sequer é casualidade que Ratzinger tenha recordado, em sua carta a Viganò, precisamente a contestação aos princípios de “Veritatis Splendor” por parte dos teólogos da “Declaração de Colônia”, hoje no auge e clamorosamente citados por Francisco.

Um Papa cuja “continuidade” com seu predecessor pode ser realmente, neste ponto, única e totalmente “interior”.

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POST SCRIPTUM – Em 25 de março, na homilia da Missa de Domingo de Ramos, o Papa Francisco deu esta lição a quem elabora uma notícia falsa “quando se passa dos fatos para uma versão dos fatos”:

“É a voz de quem manipula a realidade e cria um relato conforma a sua conveniência e não tem problema em “manchar” a outros para se sair bem. É o grito de quem não tem problema em buscar os meios de se fazer mais forte e silenciar as vozes dissonantes. É o grito que nasce do “girar” a realidade”.

O Papa disse isso sem se ruborizar, como que esquecido do que se fez poucos dias antes em sua casa, com a carta de Bento XVI.

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15 fevereiro, 2018

Georg Ratzinger fala das condições de saúde de Bento XVI.

Apesar do desmentido oficial por parte da Santa Sé, cremos ser de interesse de nossos leitores a divulgação da matéria abaixo.

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“Meu irmão Joseph tem uma doença paralisante”.

Georg Ratzinger, entrevistado pelo “Neue Post”, afirmou que o papa emérito está doente: “O que preocupa é que a paralisia possa chegar ao coração”

Por Andrea Tornielli, Vatican Insider, 14 de fevereiro de 2017 |  Tradução: Marcos Fleurer -: Georg Ratzinger, de 94 anos é irmão do “nonagenário” Papa Emérito; entrevistado recentemente, afirmou que uma “doença paralisante” estaria afetando Bento XVI. Não é a primeira vez que o monsenhor bávaro, diretor emérito do coro dos Domspatzen, faz afirmações um pouco alarmistas sobre seu familiar, como aquela entrevista, um dia após a eleição do pontífice alemão, treze anos atrás, quando ele disse que Joseph era “Muito velho” e que ele estava “muito doente” para ser Papa.

As palavras de Georg Ratzinger foram publicadas na revista “Neue Post”, e também apareceu nas páginas alemãs do site oficial da Santa Sé “Vatican News”. O irmão do Pontífice referiu-se a uma doença paralisante que obriga Joseph a “recorrer a uma cadeira de rodas”. O que mais preocupa é que a paralisia pode atingir seu coração, e então ele poderia terminar tudo subitamente “. Ele acrescentou: “Rezo todos os dias para pedir a Deus a graça de uma boa morte, em um bom tempo, para mim e para o meu irmão. Nós dois temos esse grande desejo ».

Georg Ratzinger também disse que ele fala diariamente pelo telefone com seu irmão e, como de costume, planeja visitá-lo no Vaticano para o próximo aniversário (91 primaveras), no dia 16 de abril. Mas, acrescentou, “falta muito tempo. Quem sabe o que acontecerá até então … ».

Como se recordará, há poucos dias o papa emérito escreveu uma carta ao jornalista Massimo Franco, no qual ele disse que era “um peregrino a caminho de Casa” e referiu-se ao cansaço de “este último trecho da estrada”.

Nos últimos dois anos, a fragilidade física do papa emérito tem sido evidente para todos, inclusive como pode ser visto com as fotos e “selfies” que os que o visitam costumam tirar. No entanto, Bento XVI continua lúcido, ainda sai do mosteiro onde vive, ainda se encontra com pessoas, apesar de ter algumas dificuldades locomotoras.

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10 dezembro, 2017

Foto da semana.

Sarah

Imagem publicada nesta semana por Sua Eminência Reverendíssima, Cardeal Robert Sarah, Prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina do Sacramento, em visita ao Papa emérito Bento XVI.

9 novembro, 2017

A “perspectiva protestante” das “teologias da libertação”, como “parte da teologia moderna”.

Por Hermes Rodrigues Nery – FratresInUnum.com, 9 de novembro de 2017

Tanto na Mensagem de Natal à Cúria romana (2005), quanto à exposição que fez ao clero romano (em 14 de fevereiro de 2013), Bento XVI permaneceu convicto de que as incompreensões do Concílio Vaticano II se deram pelo modo como os mass media estimularam e se simpatizaram por “uma hermenêutica da descontinuidade e da ruptura”1, causando confusão, “e também de uma parte da teologia moderna”2.

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Talvez esteja aqui, nessa colocação, o que aproxima e o que distancia Joseph Ratzinger do grupo que elegeu Jorge Mário Bergoglio, em 2013. Isso porque certos tradicionalistas dizem que tanto Ratzinger, quanto Bergoglio estão em sintonia com a mesma visão modernista de Igreja, a diferença está apenas no grau, sendo que Bergoglio mostrou-se disposto, desde o início a pisar no acelerador, por uma revolução sem precedentes, como um novo João XXIII.

Mas Bento XVI há muito havia colocado a mão no breque, aí talvez começou a se distinguir. Na sua exposição ao clero romano, Bento XVI associou a “hermenêutica da descontinuidade e da ruptura”3 estimulada pelos mass media e também por “uma parte da teologia moderna”4.

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29 outubro, 2017

Foto da semana.

Bento foto da semana

Por Felipe Menegat – O Papa Emérito Bento XVI recebeu, no último dia 26, a visita do Monsenhor Stefan Oster, e do seu biógrafo oficial, Peter Seewald, que lhe trouxeram um novo livro, intitulado “Bento XVI – o papa alemão”. Infelizmente, como vocês podem ver pelas fotos, o papa emérito tem um olho roxo por causa de uma queda na última semana.

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21 julho, 2017

Bento XVI rompe novamente o silêncio e retoma a imagem da barca em meio a tempestade.

Por Hermes Rodrigues Nery

FratresInUnum.com, 21 de julho de 2017 – Três acontecimentos recentes nos levaram a refletir novamente sobre o impacto da renúncia de Bento XVI, sua catequese e seu testemunho nos tempos convulsivos da atualidade. O primeiro foi o fato de que a página no Facebook dedicada ao secretário pessoal de Bento XVI, Dom Georg Ganswein, página que afirma ser por ele chancelada, não ter postado fotos da visita de Francisco a Bento XVI, por ocasião da comemoração do seu 90º aniversário, em abril. O segundo, dois meses depois: o encontro de Francisco e Bento XVI, que ocorreria de novo, amplamente divulgado (com fotos e vídeos), onde Bento XVI – muito frágil – afirmara aos cinco novos cardeais que o visitavam: “Sigamos com a Cruz, porém, ao fim, é o Senhor quem vence”. Enquanto alguns se indagavam sobre o significado daquela afirmação, naquele contexto, então ocorreu o terceiro fato que fez Bento XVI voltar a sair do silêncio, pouco mais de quinze dias depois: a morte do Cardeal alemão Joachim Meisner (um dos autores do Dubia), que fezBento XVI enviar uma mensagem especial para ser lida por Ganswein, nas exéquias de Meisner, onde destacou: “O Senhor não abandona a sua Igreja, mesmo se, às vezes, a barca esteja quase repleta a ponto de soçobrar.”

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17 julho, 2017

Bento XVI: “O Senhor não abandona a sua Igreja, mesmo se, às vezes, a barca esteja quase repleta a ponto de soçobrar”.

Uma palavra de saudação de Bento XVI, Papa Emérito, por ocasião da missa de requiem do Cardeal Joachim Meisner, no dia 15 de julho de 2017.

Fonte: Rorate-Caeli | Tradução: FratresInUnum.com

Retirado da homenagem escrita de 2 páginas (original em alemão) pelo Papa Emérito Bento:

Neste momento, quando a Igreja de Colônia e os fiéis mais distantes se despedem do Cardeal Joachim Meisner, estou junto deles em meu coração e pensamentos e tenho a satisfação de atender ao desejo do Cardeal Woelki e dirigir-lhes uma palavra de reflexão.

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Bento XVI e o Cardeal Joachim Meisner.

Quando, na quarta-feira passada, fui informado, por telefone, sobre a morte do Cardeal Meissner, a princípio, não consegui acreditar. Havíamos conversado no dia anterior. Pela maneira de falar, ele estava grato por agora estar descansando, depois de ter participado no domingo anterior (25 de junho) da beatificação do bispo Teofilius Maturlionis, em Vilnius. Seu amor pelas Igrejas vizinhas do Oriente, que sofreram perseguição sob o Comunismo, bem como a gratidão pela resistência no sofrimento durante esse tempo deixaram uma marca indelével no Cardeal. Portanto, certamente não foi por acaso que a última visita de sua vida foi a um confessor da fé.

O que me impressionava de modo particular nas últimas conversas que tive com o Cardeal, agora de volta à casa do Pai, era a alegria natural, a paz interior e a tranquilidade que ele havia encontrado. Sabemos que foi difícil para ele, um apaixonado pastor de almas, deixar seu cargo, e isso precisamente no momento em que a Igreja tinha necessidade urgente de pastores que se oporiam à ditadura do zeitgeist [espírito do tempo], totalmente decididos a agir e pensar da perspectiva da fé. No entanto, fiquei ainda mais impressionado porque, nesse último período de sua vida, ele aprendeu a relaxar e viver cada vez mais da convicção de que o Senhor não abandona a sua Igreja, mesmo se, às vezes, a barca esteja quase repleta a ponto de soçobrar.

Havia duas coisas que nesse período final lhe permitiram ficar cada vez mais feliz e tranquilo:

– A primeira foi que ele sempre me contava que o que o enchia de profunda alegria era experimentar, no Sacramento da Penitência, como os mais jovens, acima de todos os jovens, passaram a experimentar a misericórdia do perdão, o dom de efetivamente  descobrir a vida, que só Deus pode lhes dar.

    – A segunda, que sempre lhe comovia e deixava feliz, foi o aumento perceptível da adoração Eucarística. Para ele esse foi o tema central na Jornada Mundial da Juventude em Colônia – o fato de que havia Adoração, um silêncio, em que o Senhor sozinho fala aos corações.

Algumas autoridades pastorais e litúrgicas consideravam que não seria possível conseguir esse silêncio na contemplação do Senhor com um número tão grande de pessoas. Alguns também pensavam que a adoração Eucarística, como tal, foi ultrapassada, porque o Senhor queria ser recebido no pão Eucarístico, em vez de ser contemplado. No entanto, o fato de que uma pessoa não pode comer esse pão apenas como uma espécie de alimento, e que “receber” o Senhor no Sacramento Eucarístico inclui todas as dimensões da nossa existência – receber tem que ser adoração, algo que entrementes tornou-se cada vez mais claro. Assim, o período de adoração Eucarística na Jornada Mundial da Juventude de Colônia tornou-se um evento interior que permanece inesquecível, e não apenas ao Cardeal. Posteriormente, esse momento esteve sempre presente em seu coração e lhe deu grandes luzes.

Quando na última manhã o Cardeal Meisner não apareceu para a Missa, ele foi encontrado morto em seu quarto. O breviário havia escorregado de suas mãos: ele morreu enquanto rezava, seu rosto estava voltado para o Senhor, em conversa com o Senhor. A arte de morrer, que lhe foi dada, demonstrou novamente como ele havia vivido: com a face voltada para o Senhor e conversando com ele. Assim, podemos confiar sua alma à bondade de Deus. Senhor, agradecemos o testemunho desse seu servo, Joachim. Deixai-o agora interceder pela Igreja de Colônia e pelo mundo inteiro! Descanse em paz!

[Nota: Traduzido por Dom Michael G Campbell OSA, Bispo de Lancaster, Reino Unido, e publicado no site da Diocese de Lancaster como um arquivo PDF.]

 

31 maio, 2017

Geo-estrategista italiano alimenta debate sobre a renúncia do Papa Bento XVI.

Por Maike Hickson – OnePeterFive, 23 de maio de 2017 | Tradução: FratresInUnum.com: Um artigo publicado recentemente por um geo-estrategista e professor universitário italiano voltou a levantar questões sobre os motivos da surpreendente renúncia do Papa Bento XVI em 2013. Professor Germano Dottori, que é um professor do Instituto de Estudos Estratégicos da Universidade LUISS-Guido Carli, em Roma, escreveu um artigo no número 4/2017 do Limes, um jornal geo-estratégico, e que mais tarde foi usado pelo jornalista italiano Alessandro Rico, pelo comentarista e autor italiano Antonio Socci, bem como por Giuseppe Nardi, da Katholisches.de, na Alemanha.

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Ao discutir o papel da Igreja Católica em relação a considerações geo-estratégicas mais amplas – como a grande imigração para a Itália e os vínculos aparentemente crescentes com a Igreja Ortodoxa em Moscou – Dottori faz os seguintes comentários impressionantes e bem fundamentados (tradução gentilmente fornecida Por Andrew Guernsey):

Os conflitos entre a Igreja e os Estados Unidos não se tornaram menores, mesmo depois da morte de João Paulo II. Em vez disso, continuaram durante o pontificado do Papa Ratzinger, no decurso do qual, o que fez com que se tornassem exacerbados não foi apenas o investimento [político e estratégico] feito por Barack Obama e Hillary Clinton no islamismo político da Irmandade Muçulmana durante a chamada Primavera Árabe, mas também o firme desejo de Bento XVI de buscar uma reconciliação histórica com o Patriarcado de Moscou [sob o Patriarca Kirill], o que seria uma verdadeira coroação religiosa de um projeto geopolítico de integração euro-russa, que estava em suas intenções e era fortemente apoiado pela Alemanha e também pela Itália de Silvio Berlusconi – mas não por essa mais filo-americana [Itália], reconhecida por Giorgio Napolitano [Presidente italiano, 2006-2015].

A forma como isso terminou é bem conhecida por todos. Os governos Italiano e Papal foram simultaneamente atingidos por uma campanha escandalosa, coordenada e inusitadamente violenta e sem precedentes, envolvendo até mesmo manobras mais ou menos nubulosas no campo financeiro, com o efeito final sendo atingido em novembro de 2011 com a saída de Berlusconi do Palazzo Chigi e, em 10 de fevereiro [sic-11], 2013, com a abdicação de Ratzinger. No auge da crise, a Itália viu progressivamente seu acesso aos mercados financeiros internacionais fechados, enquanto o Instituto de Obras Religiosas (IOR) [Banco do Vaticano] foi temporariamente desligado do circuito Swift 4.

Apesar das consideráveis mudanças feitas tanto na política Italiana como no Vaticano, as dificuldades, no entanto, continuaram a persistir. Um fato que confirma a sua natureza estrutural e não permite na nossa previsão, nenhuma simplificação a curto ou médio prazo do contexto do qual nosso Governo terá que assumir no futuro as decisões mais importantes no campo de sua política externa.

Aqui, um especialista italiano em estudos geo-estratégicos afirma que tanto o governo Italiano sob Berlusconi quanto o papado de Bento XVI foram derrubados devido a manobras financeiras que colocaram os dois Estados em perigo. Alessandro Rico publicou, em 17 de maio, um artigo intitulado “Ratzinger costretto ad abdicare dal ricatto di Obama” (“Ratzinger forçado a abdicar devido à chantagem de Obama”), no jornal italiano La Verità – uma publicação que não tem nenhuma inclinação para o Catolicismo tradicional, mas, que, ao contrário, critica os católicos tradicionais e conservadores na mesma edição de 17 de maio (como observa Giuseppe Nardi). O próprio Rico coloca a declaração de Dottori em paralelo com a Carta Aberta de 20 de janeiro de 2017 ao Presidente Trump, publicada pelo jornal tradicionalista The Remnant, que pediu uma investigação sobre uma possível intervenção dos EUA contra o Papa Bento XVI. Como Rico aponta, o Papa Bento XVI, na época, se posicionou em oposição à colaboração do presidente Obama com a Irmandade Muçulmana, especialmente com o discurso do Papa em Regensburg, no qual criticou o fundamentalismo islâmico. Os Estados Unidos, como Rico juntamente com Dottori explicam, não eram favoráveis a uma aproximação papal com o Patriarcado de Moscou, o que poderia apoiar ainda mais uma aproximação européia com a Rússia. Uma base parcial para essa desejada aproximação poderia ser também uma rejeição do relativismo moral do Ocidente.

Ao falar sobre a pressão financeira que foi feita sobre o Vaticano em 2013, ao excluir o Estado Papal do sistema SWIFT – e que interrompeu as operações com cartão de crédito na Cidade do Vaticano e, portanto, nos museus do Vaticano – Rico também lembra: “Estranhamente, esta função [SWIFT] foi restabelecida imediatamente após a renúncia de Bento XVI”.

Recordamos, também, que, bem recentemente, em março de 2017, várias vozes influentes da Igreja Católica – entre elas o Arcebispo Luigi Negri e Ettore Gotti Tedeschi (ex-chefe do Banco do Vaticano) apoiaram o pedido e a suspeita do jornal The Remnant. Meu marido, o Dr. Robert Hickson, professor aposentado do Joint Military Intelligence College e da Joint Special Operations University, também aponta para a “importância da guerra financeira, especialmente no mundo cibernético, como parte da guerra fractal, em que uma pequena mudança (um “delta”) pode levar a um grande e desproporcional efeito”.

Antonio Socci, em sua própria publicação sobre esta nova revelação de Dottori, nos remete para outra entrevista que Dottori já havia dado à Zenit, em 13 de novembro de 2016. Dottori respondeu, então, quando perguntado sobre o recente escândalo do Wikileaks envolvendo a equipe de Hilary Clinton e sua influência sobre a Igreja Católica, como se segue (e, novamente, gentilmente traduzida por Andrew Guernsey):

Apareceram documentos dos quais emerge uma forte intenção da parte equipe de Hillary de provocar uma revolta no interior da Igreja para enfraquecer sua hierarquia. Eles usaram grupos de pressão e movimentos de base, seguindo um consolidado esquema usado pelas experientes revoluções das minorias. Ainda não chegamos na arma do crime, mas estamos perto. Embora eu não tenha provas, sempre pensei que Bento XVI foi levado à abdicação por um complô complexo, ordenado por aqueles que tinham interesse em bloquear a reconciliação com os Ortodoxos Russos, o pilar religioso de um projeto de convergência progressiva entre a Europa Continental e Moscou. Por razões semelhantes, acredito que a candidatura do Cardeal [Angelo] Scola para a sucessão de Bento XVI também foi interrompida, pois como o Patriarca de Veneza, ele havia conduzido as negociações com Moscou. Para ter certeza, no entanto, teremos que obter mais evidências. Através do Wikileaks também nos tornamos conscientes das operações de condicionamento psicológico recentemente exercidas contra o Papa Francisco. Mas ali também eles falharam miseravelmente, pois Bergoglio está renovando a Igreja, para fortalecê-la e, certamente, não para enfraquecê-la, como alguns queriam, e ele assinou um verdadeiro e próprio armistício com Kirill [de Moscou], em meio a tantas divisões tanto dentro das recíprocas esferas de influência. Logo abaixo da costa dos Estados Unidos, em Cuba [onde papa Francisco e o Patriarca Kirill assinaram um documento].

Enquanto Antonio Socci cita algumas dessas palavras do professor Dottori, ele explica que isso não significa que a súbita demissão do papa Bento XVI foi forçada. Aos olhos de Socci, o que nos mostra é que existe um “mistério colossal” que, em meio a muitas pressões, envolve a decisão do Papa Bento XVI, de finalmente, renunciar.

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19 maio, 2017

Bombástico: Bento XVI entra em campo para frear a deriva litúrgica e apoiar o Cardeal Sarah.

Em 2014, Bento XVI apoiou publicamente aqueles a quem chamou de “grandes cardeais”, em mensagem lida publicamente em Missa no Rito Tradicional celebrada na Basílica de São Pedro pelo Cardeal Burke, que, à época, perdia todos os postos que ocupava. Agora, sai novamente em defesa de outro Cardeal que perdeu completamente seu prestígio em Roma e viu sua Congregação ser sitiada por membros de orientação progressista, após algumas mínimas tentativas de restaurar certa dignidade na liturgia.

* * *

Por Riccardo Cascioli, La Nuova Bussola Quotidiana, 18 de maio de 2017 | Tradução: FratresInUnum.com – “Com o Cardeal Sarah a liturgia está em boas mãos.” Assinado: Bento XVI. O que à primeira vista pode parecer um simples gesto de respeito, é, na realidade, uma verdadeira bomba. Isso significa, de fato, que o Papa Emérito – apesar de seu estilo discreto – saiu diretamente em campo na defesa do Cardeal Robert Sarah, como prefeito da Congregação para o Culto Divino, que agora se encontra isolado e marginalizado pelos novos nomeados pelo Papa Francisco, e publicamente desautorizado em seu discurso pelo próprio Papa.

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O gesto dramático de Bento XVI chegou sob a forma de um prefácio de um livro do Cardeal Sarah, “La Force du silence” (O Poder do Silêncio), ainda não traduzido em italiano. O texto de Bento XVI deverá ser publicado nas próximas edições do livro, mas já foi divulgado ontem pelo site americano First Things.

Nele, Bento XVI elogiou muito o livro do Cardeal Sarah e o próprio Sarah, definindo-o como “mestre espiritual, que fala das profundezas do silêncio com o Senhor, expressão de sua união íntima com Ele, e que por isso tem algo a dizer para cada um de nós” .

E no final da mensagem ele se diz grato ao Papa Francisco  por “ter nomeado um tal mestre espiritual à frente da Congregação para a celebração da liturgia na Igreja”. É uma nota que seria mais uma armadura do que gratidão real. Não é segredo o fato de que ao longo do último ano, o Cardeal Sarah foi gradualmente deposto de fato, primeiramente com a nomeação dos membros da congregação que tiveram o êxito de cercar Sarah com elementos progressistas abertamente hostis à “reforma da reforma” pedida por Bento XVI e que o cardeal guineense tentava colocar em ação. Em seguida, a desautorização aberta da parte do papa a respeito da posição do altar; e depois, a nova tradução dos textos litúrgicos que seria resultado de estudos de uma comissão criada sem o conhecimento e contra o Cardeal Sarah. Finalmente, os movimentos para estudar a criação de uma missa “ecumênica” ignorando a própria Congregação.

Trata-se de uma deriva que atinge o coração do pontificado de Bento XVI, o qual colocava a liturgia no centro da vida da Igreja. E no documento agora publicado, o Papa Emérito relança um aviso sério: “Assim como para a interpretação da Sagrada Escritura,  também para a liturgia é verdade que se faz necessário um conhecimento específico. Mas também é verdade para a liturgia que na especialização pode faltar o essencial se esta não estiver enraizada em uma profunda união interior com o Igreja orante, que sempre está aprendendo novamente com o Senhor o que vem a ser a verdadeira adoração”.  Daí a declaração final que soa como um aviso: “Com o Cardeal Sarah, mestre do silêncio e da oração interior, a liturgia está em boas mãos.”

Esta intervenção de Bento XVI, que tenta blindar o Cardeal Sarah e legitimá-lo efetivamente como chefe da Congregação para a Liturgia, não tem precedentes. E embora a forma é a de um comentário “inofensivo” em um livro, ninguém pode fugir do significado eclesial deste movimento, que indica a preocupação do Papa Emérito pelo que está acontecendo no coração da Igreja.

Bento XVI intervém agora sobre algo que talvez melhor tenha caracterizado o seu pontificado: “A crise da Igreja é uma crise da liturgia”, ele foi capaz de falar, e tal julgamento foi relançado pelo Cardeal Sarah. Mas não devemos esquecer o que Monsenhor Georg Geinswein disse em uma entrevista recente, de modo aparentemente inocente, ao responder a uma pergunta sobre a confusão que existe na Igreja e as divisões que surgiram. Ele disse que Bento  XVI acompanha atentamente a tudo o que acontece na Igreja. E agora vemos que, no silêncio, começa a dar alguns passos.

5 dezembro, 2016

Sofrendo e rezando.

Estou bem consciente de que este ministério, pela sua essência espiritual, deve ser cumprido não só com as obras e com as palavras, mas também e igualmente sofrendo e rezando.

Declaração de abdicação do Papa Bento XVI – 10 de fevereiro de 2013.

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Imagens do encontro privado que Monsenhor Antonio Luiz Catelan teve com o Papa Bento XVI anteontem, sábado, 3 de dezembro de 2016.

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