Posts tagged ‘Cardeal Ottaviani’

3 agosto, 2011

Um dos últimos Romanos…

Fonte: Rorate-Caeli | Tradução: Fratres in Unum.com

Em 3 de agosto de 1979, morria o Cardeal Alfredo Ottaviani na colina do Vaticano, na mesmíssima cidade em que ele havia nascido, o centro físico e espiritual do nosso mundo católico. Embora repetidamente envolvido em armadilhas, enganado, humilhado antes, durante e depois do Concílio, ele foi um agente poderoso de Deus para impedir o pior – e basta simplesmente ler os documentos do Concílio (e, certamente, todos os relatos escritos daqueles dias decisivos, por todos “os lados”) para perceber quão pior poderia ter sido.

Dois queridos padres leitores nos enviaram recordações da morte deste, um dos últimos grandes Romanos – o último Secretário do Santo Ofício e primeiro Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé -, incluindo algumas recordações pessoais:

Sobre o falecido grande Cardeal Ottaviani, tive o privilégio de assistir duas vezes a sua Missa privada na capela de seu apartamento no Santo Ofício. Em ambas as ocasiões, tomamos o café da manhã com Sua Eminência após a Missa. Na segunda visita, ele me presenteou com o seu livro, que ele autografou, “Il Baluardo“. Ele apontou para si mesmo e disse: “Io sono Il Baluardo della Chiesa“, (“Sou um vigia da Igreja”), e já disseram que ele teria dito em algum outro lugar: “Sou um vigia da Igreja, mesmo sendo cego”. O Cardeal sofria de diabetes, e tinha visão bastante limitada. Porém, ele era bastante orgulhoso de seu papel como Prefeito para a Congregação do Santo Ofício, porque sabia que naquele momento vigiar a Fé era algo crucial.

Sua Eminência era muito dedicado a um orfanato que havia estabelecido para órfãos de Trastevere, seu setor nativo de Roma. Creio que ele estava sob o patrocínio de Santa Agnes. Todo domingo, ele era levado ao orfanato para passar a tarde com os seus queridos órfãos. Aqui estava o mais poderoso e ocupado Príncipe da Igreja que tinha a humildade e o amor para se voltar aos pequeninos de Cristo.

Outro querido padre envia-nos esta lição do Cardeal a todos os sacerdotes:

O que eu gostaria de mencionar de maneira especial, embora, seja algo que o padre X me contou. Ele disse que antes da Missa, quando o cardeal rezava a Formula Intentionis, elevava sua voz um pouco ao pronunciar as palavras “Et pro felici statu Sanctae Romanae Ecclesiae” [“e pelo bom estado da Santa Igreja Romana “]. Parece-me que se –todos– os padres dissessem toda a Formula Intentionis antes de cada Missa, as coisas indubitavelmente seriam melhores. Não posso crer que estaríamos no atual estado ou permaneceríamos nele se todos os padres rezassem essa oração fielmente.

Ego volo celebráre Missam, et confícere Corpus et Sánguinem Dómini nostri Iesu Christi, iuxta ritum sanctæ Románæ Ecclésiæ, ad laudem omnipoténtis Dei totiúsque Cúriæ triumphántis, ad utilitátem meam totiúsque Cúriæ militántis, pro ómnibus qui se commendavérunt oratiónibus meis in génere et in spécie, et pro felíci statu sanctæ Románæ Ecclésiæ. Amen.

Gáudium cum pace, emendatiónem vitæ, spátium veræ pæniténtiæ, grátiam et consolatiónem Sancti Spíritus, perseverántiam in bonis opéribus tríbuat nobis omnípotens et miséricors Dóminus. Amen.

Que ele descanse em paz. [Imagem: Cardeal Ottaviani celebra Missa em 10 de dezembro de 1963, na igreja de Santa Maria di Loreto, Roma – fonte: Biblioteche di Roma – Cinecittà Luce archives.]

* * *

É oportuno recordar ainda o relato do Pe. Ralph Wiltgen:

No dia 30 de outubro, dia seguinte a seu 72º aniversário, o Cardeal Ottaviani interveio para protestar contra as modificações radicais a que se estava propondo submeter a Missa. “Estamos procurando suscitar o espanto, até o escândalo no povo cristão, introduzindo modificações em um rito tão venerável que foi aprovado através de tantos séculos e que continua sendo tão familiar? Não está certo tratar o rito da Santa Missa como se fosse um pedaço de pano que se submete à moda, segundo a fantasia de cada geração.” Falando sem ler, em razão de sua cegueira parcial, ele ultrapassou os dez minutos a que se tinha pedido que todos se limitassem. O Cardeal Tisserant, decano dos Presidentes do Concílio, mostrou seu relógio ao Cardeal Alfrink, que presidiu a sessão. Quando o Cardeal completou quinze minutos com a palavra, o Cardeal Alfrink tocou a sineta. Mas o orador estava tão empolgado com o assunto que não a escutou – a não ser que a tenha deliberadamente ignorado. A um sinal do Cardeal Alfrink, um técnico desligou o microfone. O Cardeal Ottaviani verificou o fato apalpando seu microfone, e humilhado teve que voltar ao seu lugar. O mais poderoso Cardeal da Cúria tinha sido reduzido ao silêncio e os Padres Conciliares aplaudiram com alegria.” (“O Reno se Lança no Tribre”, Pe. Ralph Wiltgen, página 34 – Editora Permanência, 2007.)

21 agosto, 2008

Ainda o Irmão Roger Schutz

O Padre de Tanouarn publicou em seu blog um comentário à biografia do Irmão Roger Scthutz, escrita por Yves Chiron. Vale a pena ler o artigo inteiro, do qual traduzimos esse seleto trecho:

Frère Roger, Le Fondateur de Taizé - Yves Chiron

Frère Roger, Le Fondateur de Taizé Yves Chiron

Pode-se dizer que antes de ser católico, Irmão Roger é fascinado pelo gênio do catolicismo. Encontra Pio XII duas vezes, recebe do Cardeal Ottaviani, velho traditionalista da Cúria, a autorização de organizar os primeiros diálogos ecumênicos entre pastores e bispos… A Igreja de Pio XII é mais livre que se fala geralmente. Roger gostou da Igreja de Pio XII, ainda que tenha tomado distância ostensiva no momento da promulgação do dogma da Assunção da Virgem Maria, deixando o seu camarada Max Thurian falar em bom protestante “de papismo” a esse respeito.

Em seguida vem a eleição de João XXIII. Imediatamente são recebidos os dois. O novo papa tem tudo para lhes seduzir. E no entanto, surpresa: Irmão Roger confidenciará ao Padre Congar: Este papa não está longe de ser “suficiente para ser formalmente herético”. O que lhe censura? Ter declarado durante a entrevista que tiveram que a Igreja não possuia toda a verdade e que era necessário “procurar juntos”.

Curioso episódio. Estamos em 1959. Reencontra-se esse espírito “de investigação da verdade”, por exemplo, no parágrafo 3º de Dignitatis Humanae…