Posts tagged ‘Cardeal Robert Sarah’

19 maio, 2017

Bombástico: Bento XVI entra em campo para frear a deriva litúrgica e apoiar o Cardeal Sarah.

Em 2014, Bento XVI apoiou publicamente aqueles a quem chamou de “grandes cardeais”, em mensagem lida publicamente em Missa no Rito Tradicional celebrada na Basílica de São Pedro pelo Cardeal Burke, que, à época, perdia todos os postos que ocupava. Agora, sai novamente em defesa de outro Cardeal que perdeu completamente seu prestígio em Roma e viu sua Congregação ser sitiada por membros de orientação progressista, após algumas mínimas tentativas de restaurar certa dignidade na liturgia.

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Por Riccardo Cascioli, La Nuova Bussola Quotidiana, 18 de maio de 2017 | Tradução: FratresInUnum.com – “Com o Cardeal Sarah a liturgia está em boas mãos.” Assinado: Bento XVI. O que à primeira vista pode parecer um simples gesto de respeito, é, na realidade, uma verdadeira bomba. Isso significa, de fato, que o Papa Emérito – apesar de seu estilo discreto – saiu diretamente em campo na defesa do Cardeal Robert Sarah, como prefeito da Congregação para o Culto Divino, que agora se encontra isolado e marginalizado pelos novos nomeados pelo Papa Francisco, e publicamente desautorizado em seu discurso pelo próprio Papa.

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O gesto dramático de Bento XVI chegou sob a forma de um prefácio de um livro do Cardeal Sarah, “La Force du silence” (O Poder do Silêncio), ainda não traduzido em italiano. O texto de Bento XVI deverá ser publicado nas próximas edições do livro, mas já foi divulgado ontem pelo site americano First Things.

Nele, Bento XVI elogiou muito o livro do Cardeal Sarah e o próprio Sarah, definindo-o como “mestre espiritual, que fala das profundezas do silêncio com o Senhor, expressão de sua união íntima com Ele, e que por isso tem algo a dizer para cada um de nós” .

E no final da mensagem ele se diz grato ao Papa Francisco  por “ter nomeado um tal mestre espiritual à frente da Congregação para a celebração da liturgia na Igreja”. É uma nota que seria mais uma armadura do que gratidão real. Não é segredo o fato de que ao longo do último ano, o Cardeal Sarah foi gradualmente deposto de fato, primeiramente com a nomeação dos membros da congregação que tiveram o êxito de cercar Sarah com elementos progressistas abertamente hostis à “reforma da reforma” pedida por Bento XVI e que o cardeal guineense tentava colocar em ação. Em seguida, a desautorização aberta da parte do papa a respeito da posição do altar; e depois, a nova tradução dos textos litúrgicos que seria resultado de estudos de uma comissão criada sem o conhecimento e contra o Cardeal Sarah. Finalmente, os movimentos para estudar a criação de uma missa “ecumênica” ignorando a própria Congregação.

Trata-se de uma deriva que atinge o coração do pontificado de Bento XVI, o qual colocava a liturgia no centro da vida da Igreja. E no documento agora publicado, o Papa Emérito relança um aviso sério: “Assim como para a interpretação da Sagrada Escritura,  também para a liturgia é verdade que se faz necessário um conhecimento específico. Mas também é verdade para a liturgia que na especialização pode faltar o essencial se esta não estiver enraizada em uma profunda união interior com o Igreja orante, que sempre está aprendendo novamente com o Senhor o que vem a ser a verdadeira adoração”.  Daí a declaração final que soa como um aviso: “Com o Cardeal Sarah, mestre do silêncio e da oração interior, a liturgia está em boas mãos.”

Esta intervenção de Bento XVI, que tenta blindar o Cardeal Sarah e legitimá-lo efetivamente como chefe da Congregação para a Liturgia, não tem precedentes. E embora a forma é a de um comentário “inofensivo” em um livro, ninguém pode fugir do significado eclesial deste movimento, que indica a preocupação do Papa Emérito pelo que está acontecendo no coração da Igreja.

Bento XVI intervém agora sobre algo que talvez melhor tenha caracterizado o seu pontificado: “A crise da Igreja é uma crise da liturgia”, ele foi capaz de falar, e tal julgamento foi relançado pelo Cardeal Sarah. Mas não devemos esquecer o que Monsenhor Georg Geinswein disse em uma entrevista recente, de modo aparentemente inocente, ao responder a uma pergunta sobre a confusão que existe na Igreja e as divisões que surgiram. Ele disse que Bento  XVI acompanha atentamente a tudo o que acontece na Igreja. E agora vemos que, no silêncio, começa a dar alguns passos.

2 maio, 2017

Cardeal Sarah: Igreja enfrenta sério risco de cisma sobre assuntos morais.

Por LifeSiteNews, Nova York, 24 de abril de 2017 | Tradução: FratresInUnum.com: O Cardeal Robert Sarah advertiu que a unidade da Igreja está sendo ameaçada por líderes influentes que, de dentro dela, “insistem” na ideia de que igrejas nacionais têm a “capacidade de decidir por si mesmas”  sobre questões morais e doutrinais.

“Sem uma fé comum, a Igreja é ameaçada pela confusão e então, progressivamente, pode acabar deslizando para a dispersão e o cisma”, disse ele.

sarah“Hoje existe um sério risco de fragmentação da Igreja, de se dividir o Corpo Místico de Cristo ao insistir na identidade nacional das igrejas e, portanto, na sua capacidade de decidir por si mesmas, sobretudo no domínio tão crucial da doutrina e da moral”, acrescentou.

Católicos professam todos os domingos no Credo Niceno que a Igreja é “Una, Santa, Católica e Apostólica.” Estas são as quatro “marcas” assim chamadas da una e verdadeira Igreja.

Sarah, que vem de Guiné, fez os comentários quando foi perguntado em uma entrevista, no dia 18 de abril, pela organização “Ajuda à Igreja que Sofre” sobre a relação entre a “Igreja Africana” e a “Igreja Universal”.

O cardeal, que é o Prefeito da Congregação para o Culto Divino, afirmou que, estritamente falando, não existe tal realidade como  “Igreja Africana.”

“A Igreja Universal não é uma espécie de federação de igrejas locais”, disse. “A Igreja Universal está simbolizada e representada pela Igreja de Roma, com o Papa como sua cabeça, o sucessor de São Pedro e o chefe do colégio Apostólico, portanto, é ela que deu à luz a todas as igrejas locais e é ela que as sustenta na unidade da fé e do amor”.

Os comentários de Sarah serão vistos por alguns como uma oposição ao impulso que o Papa Francisco está dando às conferências episcopais de cada país, garantindo-lhes mais poder, até mesmo para resolver disputas doutrinais e morais.

Em sua exortação Evangelii Gaudium de 2013, o Papa Francisco pediu uma “conversão do papado”, que iria ajudá-lo  no “exercício” do ministério petrino.  Ele criticou no mesmo documento  a “centralização excessiva” do poder no ofício de Pedro, sugerindo que as conferências episcopais devem ser “empoderadas” com “autoridade doutrinária genuína.”

Francisco também escreveu sobre uma Igreja descentralizada em sua Exortação Amoris Laetitia de 2016: “Gostaria de deixar claro que nem todas as discussões sobre assuntos doutrinais, pastorais e  morais precisam ser resolvidas por intervenções do Magistério… Cada país ou região,  além disso, podem procurar soluções mais adequadas à sua cultura e sensíveis às suas tradições e as necessidades locais. “

Segundo o Arcebispo Stanislaw Gadecki, presidente da Conferência dos bispos da Polônia, o papa disse aos bispos poloneses no ano passado, que uma Igreja descentralizada seria capaz de interpretar encíclicas papais e resolver questões controversas, como dar a comunhão aos católicos divorciados e recasados civilmente.

Na entrevista à Ajuda à Igreja que Sofre, o Cardeal Sarah disse que a Igreja só vai crescer em todo o mundo se estiver unida pela “nossa fé em comum e nossa fidelidade a Cristo e ao seu Evangelho, em união com o Papa.”

“Como o Papa Bento XVI nos diz: ‘É claro que a Igreja não cresce ao tornar-se individualizada, separando-se a nível nacional, encerrando-se fora do contexto ou dentro de um contexto culturalmente específico, ou se outorgando um papel inteiramente cultural ou nacional. Em vez disso, a Igreja precisa ter unidade de fé, unidade de doutrina, unidade de ensino moral. Ela precisa do primado do Papa e de sua missão de confirmar na fé seus irmãos”, disse ele.

Mais adiante na entrevista, Sarah disse que a Igreja estaria “gravemente equivocada” se pensasse que questões de justiça social como a luta contra a pobreza e ajudar os migrantes são sua verdadeira missão.

“A Igreja está gravemente equivocada quanto à natureza da crise real, se ela acha que sua missão essencial é oferecer soluções para todos os problemas políticos relacionados com a justiça, a paz, a pobreza, a recepção de migrantes, etc… enquanto negligencia a Evangelização”, disse.

O cardeal disse que enquanto a Igreja “não conseguir dissociar-se dos problemas humanos”, ela acabará por “falhar em sua missão”, se ela se esquecer de seu verdadeiro propósito. Sarah, em seguida, baseou-se em Yahya Pallavicini, uma ex-católica italiana que se converteu ao Islã, para conduzir seu argumento: “Se a Igreja, com a obsessão que tem hoje com os valores da justiça, dos direitos sociais e da luta contra a pobreza, acabar, como resultado, por esquecer sua alma contemplativa, ela irá falhar em sua missão e será abandonada por muitos de seus fiéis, devido ao fato de que eles não mais reconhecerão nela o que constitui sua missão específica. “

25 julho, 2016

Falando com as paredes.

Enquanto um cardeal profere toda uma conferência para fundamentar seu pedido de retorno à posição “ad orientem” como um regresso à centralidade de Deus, outro purpurado limita-se, em sua tacanhez cnbbística,  a dizer que, nessa posição, o sacerdote celebra “voltado para a parede”…

Reforma da Liturgia. De novo?

Dias atrás, falou-se na imprensa e em alguns ambientes eclesiais de uma eventual nova reforma da Liturgia na Igreja. Propagou-se que os sacerdotes deveriam celebrar novamente a Missa voltados “ad Orientem” (para o Oriente), que significa que deveriam celebrar voltados para a parede, em vez de voltados para o povo, como se fazia antes da reforma do Concílio Vaticano II. Além disso, a santa Comunhão deveria ser recebida ajoelhados e diretamente sobre a língua.

A questão surgiu depois de uma recomendação, aos sacerdotes, do cardeal Roberto Sarah, Prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplinados Sacramentos, na abertura de um encontro sobre Liturgia, em Londres. Não se tratou de um ato oficial da Santa Sé, mas de um desejo do Cardeal,preocupado com o significado da liturgia do Advento; por ser ele o encarregado do Papa para a Liturgia em toda a Igreja, sua palavra foi tomada poralguns como se já fosse uma decisão da Santa Sé, com o aval do Papa.

Missa de Dom Odilo na Catedral da Sé em São Paulo.

Uma missa de Dom Odilo na Catedral da Sé em São Paulo. “A reforma promovida pelo Concílio não autoriza nem avaliza cometer abusos na liturgia”.

Sem demora, acaloradas discussões sobre uma suposta “reforma da reforma litúrgica” tomaram conta de alguns setores eclesiais; para alguns, seria necessário rever a reforma litúrgica promovida pelo Concílio, nas diretrizes da Constituição Sacrosanctum Concilium (1963). Isso significaria, na prática, voltar à maneira de celebrar a Liturgia antes do Concílio Vaticano II; motivos para tal revisão seriam a “intocabilidade” das normas litúrgicas anteriores ao Concílio, os abusos e a “dessacralização” das celebrações litúrgicas, supostamente causados pelas reformas conciliares.

Depressa, porém, a questão foi esclarecida durante uma audiência do cardeal Sarah com o Papa Francisco; e, no dia 11 de julho, o Padre Lombardi, porta-voz da Santa Sé, emitiu um Comunicado oficial, com “alguns esclarecimentos sobre a celebração da Missa”. Com suas palavras, o cardeal Sarah não estava anunciando orientações diversas daquelas atualmente vigentes nas normas litúrgicas e nas palavras do próprio Papa sobre a celebração “de frente para o povo” e sobre o rito ordinário da Missa.

O Comunicado recorda as normas da Instrução Geral do Missal Romano, relativas à celebração eucarística: “O altar-mor seja erigido separado da parede, para ser facilmente circundável e para que nele se possa celebrar de frente para o povo, como convém fazer em toda parte onde isso for possível. O altar ocupe um lugar que seja, de fato, o centro para onde se volte espontaneamente a atenção de toda a assembleia dos fiéis. Normalmente, seja fixo e dedicado” (nº 299).

No Comunicado, ficou claro que não está em andamento nenhuma “reforma da reforma da Liturgia”. E até se recomendou que seja evitado o emprego da expressão “reforma da reforma litúrgica”, que pode induzir a equívocos sobre a validade da disciplina litúrgica vigente na Igreja.

Resolvida a questão, vale lembrar, no entanto, que a reforma promovida pelo Concílio não autoriza nem avaliza cometer abusos na Liturgia. A disciplina litúrgica é regulada pelo Magistério da Igreja; e, sem prejuízo da criatividade, das liberdades e alternativas previstas nos ritos, ninguémestá autorizado, por iniciativa própria, a mudar a forma das celebrações e as normas litúrgicas prescritas. Mas a reforma do Concílio também supõe e requer uma contínua e adequada formação litúrgica do povo de Deus.

O critério fundamental da reforma litúrgica do Concílio é que “todos os fiéis sejam levados àquela plena, cônscia e ativa participação das celebrações litúrgicas, que a própria natureza da Liturgia exige e à qual, por força do Batismo, o povo cristão (…) tem direito e obrigação” (SC 14). A atenção e fidelidade criteriosa às normas litúrgicas deve sempre ter em vista essa “participação plena, consciente e ativa” dos fiéis nas celebrações da Liturgia, para que possam receber os abundantes frutos dos sagrados Mistérios celebrados.

Quanto à maneira de comungar, os fiéis têm a liberdade de receber a sagrada Comunhão na mão ou, diretamente, na boca; também podem recebê-la de joelhos, ou em pé. O que importa, mais que tudo, é que a recebam com fé, a fé da Igreja no Sacramento da Eucaristia, e com aquela dignidade interior e devoção exterior que convém à Eucaristia.

Cardeal Odilo Pedro Scherer

Arcebispo metropolitano de São Paulo

Publicado no Jornal O SÃO PAULO  edição 3111 – De 20 a 27 de julho de 2016.

24 julho, 2016

Foto da semana.

Oratório de Londres, 6 de julho de 2016 – Dando o exemplo: o Cardeal Robert Sarah, Prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina do Sacramento, celebra a Missa de Paulo VI “versus Deum”, por ocasião da conferência Sacra Liturgia, na qual apelou aos bispos e sacerdotes para que retomassem esta posição em suas celebrações.

11 julho, 2016

Reforma de um mínimo suspiro de tentativa de reforma da reforma. 

Nota do Fratres: Nada mais do que o esperado por parte da Sala de Imprensa da Santa Sé. O demissionário padre Lombardi — descanse em paz –, desmentidor oficial do Vaticano, rápido em rechaçar qualquer vestígio de ortodoxia e sonolentíssimo em fustigar enganos, não fez mais do que o seu papel. Nada havia a ser esclarecido. O bom cardeal Sarah foi claríssimo quando apenas sugeriu uma mudança, sem valor oficial. Mas, é fundamental, imperioso, defender as reformas pós-conciliares contra o menor sussurro dos restauracionistas.

Cardeal Sarah

Cardeal Sarah

Não se deve esquecer que, há pouco mais de um ano, o Papa Francisco, comemorando o aniversário da primeira missa em italiano celebrada por Paulo VI, disse, referindo-se aos que defendem uma “reforma da reforma”:

Vamos agradecer ao Senhor pelo que Ele tem feito na sua Igreja nestes 50 anos de reforma litúrgica. Foi realmente um gesto corajoso para a Igreja se aproximar do povo de Deus para que eles pudessem entender o que estavam fazendo. Isso é importante para nós, seguir a missa dessa forma. Não é possível voltar atrás. Devemos sempre ir adiante. Sempre adiante! E aqueles que querem voltar atrás estão enganados. Sigamos adiante neste caminho.

É importante ressaltar que a fala do cardeal guineense, pela clareza que incomoda a atual hierarquia, mobilizou, numa velocidade insólita, todo o aparato modernista-eclesiástico de apologetas do “espírito do Concílio”. Primeiro, foi Dom Vincent Nichols, o ultra-progressista arcebispo de Westminster, sede do encontro em que discursou Sarah, a escrever imediatamente a seus padres, instando-os ao não seguir o pedido do prefeito da liturgia. Um gesto nada elegante de “comunhão episcopal” nada fraterna.

Até no Brasil, o Cardeal Arcebispo de São Paulo, privadamente, demonstrou ceticismo e minimizou as notícias acerca do discurso de Sarah, afirmando ser um gosto particular do prefeito e não um ato oficial do Vaticano, e que uma tal mudança significaria rever o estabelecido pelo Vaticano II — da nossa parte, é inacreditável que um Cardeal ignore que o Vaticano II, em sua Constituição sobre a Sagrada Liturgia Sacrosanctum Concilium, nada tenha disposto sobre a posição do altar.

Por fim, a reunião de Francisco e Sarah logo após a conferência do purpurado em Londres já estava na agenda? Ou foi um chamado à ordem? Esperamos que a primeira alternativa seja a verdadeira. No entanto, alguns analistas associaram o duro discurso de Francisco, chamando de “hereges e não católicos” os que afirmam “‘é isso ou nada’”, ao livro “Deus ou nada”, do Cardeal Robert Sarah (cujo prefácio de Bento XVI desapareceu misteriosamente).

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Celebração da Missa, nenhuma mudança dos altares

O cardeal Sarah, durante uma conferência em Londres havia convidado os sacerdotes a celebrar voltados ao Oriente, de costas para o povo. Após um esclarecimento com o Papa, a nota de Lombardi.

Por Andrea Tornielli – La Stampa | Tradução: FratresInUnum.com: Parecia mais que um convite, porque a falar sobre isso, se bem que durante uma conferência e não como um ato oficial, foi o cardeal Robert Sarah, Prefeito da Congregação para o Culto Divino. O cardeal Africano, há uma semana, em Londres, na abertura da conferência Sacra Liturgia, havia lançado uma espécie de apelo a todos os sacerdotes do mundo, convidando-os a começarem, no primeiro domingo do Advento, em novembro, a celebrar a missa “versus Orientem”, isto é, com o altar voltado para o leste, de costas para o povo, como se usava antes da reforma conciliar. “É muito importante que voltemos, o mais rápido possível para uma direção comum, sacerdotes e fiéis voltados na mesma direção, para o oriente, ou pelo menos para a abside, para o Senhor que vem”, disse ele, acrescentando: “Peço-vos aplicar esta prática sempre que possível “.

As palavras de Sarah reverberaram em todo o mundo, encontrando apoio entusiástico nos sites e nos assim chamados blogs tradicionalistas, mesmo porque o cardeal tinha acrescentado que iria começar, de acordo com o Papa, um estudo para se chegar a uma “reforma da reforma” litúrgica, visando melhorar a sacralidade do rito. Um dia após a conferência de Sarah, o cardeal arcebispo de Westminster, Vincent Nichols, escreveu uma carta a seus sacerdotes, instando-os a não celebrar a Missa voltada para o Oriente, tal como solicitado pelo prefeito do Culto Divino, também por causa da legislação em vigor sobre esse assunto.

Nos últimos dias, o Cardeal Sarah se encontrou novamente em audiência com Francisco. E na tarde de segunda-feira, 11 julho, padre Federico Lombardi, no mesmo dia em que foi anunciada a nomeação do seu sucessor, emitiu uma declaração, evidentemente em concordância com o Pontífice e o cardeal, que desmonta a validade do convite de Sarah e põe fim à expressão “reforma da reforma”, já há tempos abandonada até mesmo por Bento XVI.

“É oportuno um esclarecimento – afirma o porta-voz do Vaticano – na sequência de relatos da mídia que circularam após uma conferência realizada em Londres pelo Cardeal Sarah, prefeito da Congregação para o Culto Divino, poucos dias atrás. O Cardeal Sarah sempre esteve preocupado justamente com a dignidade da celebração da missa, de modo que seja expressa adequadamente a atitude de respeito e adoração do mistério eucarístico. Algumas de suas expressões foram, no entanto, mal interpretadas”, como se anunciassem novas indicações diferentes daquelas até agora promulgadas nas normas litúrgicas e nas palavras do Papa sobre a celebração voltada para o povo e sobre o rito ordinário da Missa.

“Portanto é bom lembrar – continua Lombardi – que a Institutio Generalis Missalis Romani (Instrução Geral do Missal Romano), que contém as normas relativas à celebração eucarística e que ainda está em pleno vigor, no nº 299, diz:”  “Altare extruatur a pariete seiunctum, ut facile circumiri et in eo celebratio versus populum peragi possit, quod expedit ubicumque possibile sit. Altare eum autem occupet locum , ut revera centrum sit ad quod totius congregationis fidelium attentio sponte convertatur”(isto é :” O altar deve ser construído destacado da parede, para que se possa facilmente circular em volta e celebrar voltado para o povo, o que é conveniente que seja realizado sempre que possível. O altar seja pois posicionado de modo a estar verdadeiramente no centro para que a atenção do fiel se volte naturalmente para a sua direção.”)

“Por sua parte, o Papa Francisco – afirma ainda o porta-voz do Vaticano – por ocasião da sua visita à Congregação para o Culto Divino, recordou expressamente que a forma” ordinária” da celebração da Missa é a prevista pelo Missal promulgado por Paulo VI, enquanto a forma “extraordinária”, que foi autorizada pelo Papa Bento XVI para as finalidades e com as modalidades por ele explicadas no motu proprio Summorum Pontificum, não deve tomar o lugar do “ordinário”.

“Não são, portanto, previstas novas orientações litúrgicas a partir do próximo Advento – esclarece Lombardi – como alguns erroneamente deduziram a partir de algumas palavras do Cardeal Sarah, e é melhor evitar o uso da expressão ‘reforma da reforma’, referindo-se à liturgia, dado que às vezes ela tem sido fonte de equívocos. Tudo isso foi expresso em concordância durante o curso de uma audiência recente concedida pelo Papa ao mesmo Cardeal Prefeito da Congregação para o Culto Divino”.

7 julho, 2016

Prefeito da Congregação para o Culto Divino: Sacerdotes, a partir de novembro, celebrem ad orientem! “Ouçamos novamente o lamento de Deus proclamado pelo profeta Jeremias: ‘eles voltaram as costas para mim’ (2:27) . Voltemo-nos novamente para o Senhor!”

Por Messa in Latino | Tradução: FratresInUnum.com: O Cardeal Sarah lança um apelo solene aos sacerdotes para que celebrem ad orientem a partir do primeiro domingo do Advento em 2016!

Isso acontece em Londres, na abertura da Conferência Sacra Liturgia 2016. E o Bispo de Fréjus-Toulon, Mons. Rey, respondeu imediatamente que assim o fará na sua diocese, depois de ter enviado uma carta a todos os seus sacerdotes.

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Cardeal Sarah apela a todos os sacerdotes para que celebrem a missa ad orientem.

Por Edward Pentin – National Catholic Register | Tradução: FratresInUnum.com: O Cardeal Robert Sarah, prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, pediu a todos os sacerdotes para que retornem “tão logo seja possível” a celebrar a missa ad orientem, ou seja, voltados para o oriente ao invés de frente para a congregação.

O cardeal, ao fazer o que muitos consideram ser um anúncio histórico na Conferência Sacra Liturgia deste ano em Londres,  ontem à noite, disse que é “muito importante” que esta prática seja universalmente reintroduzida e sugeriu o período do Advento deste ano como um bom momento para fazê-lo.

Ele pediu aos sacerdotes para “implementar esta prática sempre que for possível, com prudência e com a catequese necessária”, mas também com a “confiança de que isso é algo bom para a Igreja, algo de bom para o nosso povo.”

Até antes das mudanças litúrgicas que se seguiram ao Concílio Vaticano II, os sacerdotes do rito latino só celebravam a missa ad orientem.

Cardeal Sarah também revelou em seu discurso que o Papa Francisco pediu-lhe, em abril, para começar um estudo sobre a reforma da reforma litúrgica que se seguiu ao Concílio, e para pesquisar  as possibilidades de enriquecimento mútuo entre as formas mais antigas e mais recentes do rito romano, como foi mencionado anteriormente pelo Papa Bento XVI.

“Este será um trabalho delicado e peço a sua paciência e orações”, disse o cardeal Sarah. “Mas se queremos implementar o Sacrosanctum Concilium mais fielmente, se desejamos alcançar o que foi almejado pelo Concílio, esta é uma questão séria que deve ser cuidadosamente estudada e agilizada com a necessária clareza e prudência”.

Aqui abaixo estão as palavras de discurso do Cardeal Sarah a respeito de seu desejo de que todos os sacerdotes voltem a celebrar ad orientem:

“Quero fazer um apelo a todos os sacerdotes. Os senhores talvez puderam ler meu artigo no L’Osservatore Romano, há um ano (12 de Junho de 2015), ou a minha entrevista para a revista Família Cristã, em maio deste ano. Em ambas as ocasiões, eu disse que creio que é muito importante retornar o mais rapidamente possível a uma orientação comum, tanto os sacerdotes como os fiéis voltados juntos para a mesma direção –  ou pelo menos para a abside -, para o Senhor que vem naquelas partes dos ritos litúrgicos quando estamos nos dirigindo a Deus. Esta prática é permitida pela legislação litúrgica atual. É perfeitamente legítima no rito moderno. Na verdade, creio que é um passo muito importante assegurar que em nossas celebrações o Senhor esteja verdadeiramente no centro.

E então, caros Padres, peço-lhes que implementem esta prática onde for possível, com prudência e com a necessária catequese, certamente, mas também com a confiança de pastor  de que trata-se de algo bom para a Igreja, bom para o nosso povo. O seu próprio juízo pastoral determinará como e quando isso será possível, mas, talvez, começá-lo no primeiro Domingo do Advento deste ano, quando esperamos ‘o Senhor que vem’ e que ‘não tardará’ (ver: Introito da Missa de quarta-feira da primeira semana do Advento) pode ser um boníssimo tempo para tal. Caros padres, ouçamos novamente o lamento de Deus proclamado pelo profeta Jeremias: “eles voltaram as costas para mim” (2:27) . Voltemo-nos novamente para o Senhor”.

… Desejo apelar também aos meus irmãos bispos: por favor, voltem os seus padres e seu povo ao Senhor dessa forma, particularmente em grandes celebrações em suas dioceses e em sua catedral. Por favor, formem os seus seminaristas na verdade de que não somos chamados ao sacerdócio para estarmos nós mesmos no centro da liturgia, mas para levar os fiéis de Cristo a Ele como irmãos adoradores. Por favor, facilitem essa simples, porém profunda reforma em suas diocese, catedrais, paróquias e seminários”.

Para mais excertos do discurso do Cardeal Sarah, veja a página do facebook da Conferência Sacra Liturgia aqui.

24 abril, 2016

Foto da semana.

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Cardeal Robert Sarah, prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, visita o então adoecido Irmão Vicente Maria da Ressurreição, religioso da ordem dos Cônegos Regulares da Mãe de Deus — ordem dedicada à celebração da Missa no rito tridentino.

O purpurado dedicou ao religioso o seu último livro “Deus ou nada”. O jovem irmão lutava contra uma esclerose múltipla e faleceu, aos 39 anos de idade, no último dia 10 de abril, Domingo do Bom Pastor no calendário litúrgico do rito tradicional. Ele estava acamado já há 3 anos e, em seus meses finais, não podia falar. De acordo com o blog Rorate Caeli, ele era “um exemplo de perpétua oração e alegre abandono nas mãos do Senhor e nunca se ouviu dele qualquer reclamação. O Cardeal Sarah confiou às orações do religioso algumas intenções muito particulares da vida da Igreja”.

O funeral do Irmão Vicente ocorreu na Abadia de Santa Maria de Lagrasse no sábado, 16 de abril. O Cardeal Sarah assistiu à Missa Solene e celebrou o rito de absolvição e sepultamento.

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Informações de Rorate-Caeli.

16 março, 2016

Cardeal Sarah: Os padres não estão obrigados a lavar pés de mulheres na Quinta-Feira Santa.

IHU – Os padres não estão obrigados a lavar os pés de mulheres durante a missa da Santa Ceia do Senhor na Quinta-Feira Santa, confirmou o Cardeal Sarah.

A reportagem é de Diane Montagna, publicada por Aleteia, 15-03-2016. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

O prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos disse aos repórteres em Roma, no dia 26 de fevereiro, que os bispos e padres “têm de decidir de acordo com a consciência de cada um, e de acordo com a finalidade para a qual o Senhor instituiu esta festa”.

Este esclarecimento vem em resposta a uma disparidade aparente entre o decreto de 6 de janeiro, In Missa in Cena Domini, e a nota explicativa escrita pelo secretário para a Congregação para o Culto Divino, Dom Arthur Roche.

O decreto afirma que “esse pequeno grupo de fiéis deverá representar a variedade e a unidade de cada porção do povo de Deus” e que “tais pequenos grupos podem ser formados por homens e mulheres”.

No entanto, na nota explicativa, Roche parece sugerir uma obrigação de escolher um grupo representativo de todo o Povo de Deus, sem especificidades quanto ao sexo. Ele escreve: “Compete aos pastores escolher um pequeno grupo de pessoas diversas representativas do inteiro povo de Deus – leigos, ministros ordenados, cônjuges, celibatários, religiosos, sãos e doentes, crianças, jovens e idosos – e não de uma só categoria ou condição”.

O esclarecimento do Cardeal Sarah vem depois que bispos e padres manifestaram inquietações sobre a nova rubrica, que permite o lava-pés de mulheres durante a Missa da Santa Ceia. Antes de o “mandatum” do lava-pés ser alterado por Pio XII e ser inserido na Missa de Quinta-Feira Santa, os pés das mulheres “poderiam” ser lavados, mas “somente” por outras mulheres e a cerimônia aconteceria do lado de fora da missa.

Em uma entrevista no dia 2 de fevereiro de 2016, Dom Athanasius Schneider, bispo auxiliar de Astana, no Cazaquistão, disse que, segundo a sua consciência, ele não poderia incluir as mulheres na cerimônia de lava-pés durante a Quinta-Feira Santa. Schneider reconheceu que o mandatum revisto não é vinculante, dizendo: “Graças sejam dadas a Deus que nenhum bispo ou padre está obrigado a lavar publicamente os pés de mulheres na Quinta-Feira Santa, pois não há nenhuma norma vinculativa para isso, e o próprio lava-pés é somente facultativo”.

Joseph Fessio, padre jesuíta e fundador da casa editorial Ignatius Press, também comentou o assunto sugerindo, com ceticismo, que as permissões são frequentemente incompreendidas como exigências: “É evidente que é preciso deixar claro que esta é uma permissão, não uma exigência”, disse ele. “Mas mesmo um esclarecimento assim não mudaria o que, de fato, acontece”.

“Vejamos uma situação parecida em que já podemos ver os resultados: quando se permitiu que as mulherestrabalhassem como coroinhas, esta era apenas uma permissão concedida aos bispos, não diretamente aos padres, ou seja: se um bispo assim escolhia fazer, ele poderia permitir a prática na diocese. No decreto estava claro que não era uma exigência que os padres tivessem meninas coroinhas, mesmo se o bispo tivesse permitido. Como isso foi tratado? Muitos bispos insistiam que o uso regular de coroinhas mulheres fosse normativo para todas as missas. Portanto, essa nova permissão vai ser (e já está sendo) tratada como uma exigência”.

E Fessio vai mais longe, acrescentando que “o rito do lava-pés não é obrigatório, nem nunca foi”.

“É claro, na qualidade de legislador supremo, o papa pode (em teoria) mudar a lei para a forma como desejar”, reconheceu o padre jesuíta. “Mas o protótipo é, evidentemente, a Última Ceia onde Jesus lava os pés, não os dos discípulos, não das pessoas escolhidas aleatoriamente entre a multidão, mas dos Apóstolos, e diz a eles que deveriam lavar os pés ‘uns dos outros’. Quer dizer, os ministros ordenados deveriam seguir este exemplo entre eles, motivo por que provavelmente, no século XI, o papa lavava os pés dos subdiáconos, embora as provas para este rito na Igreja primitiva sejam escassas. Certamente, desde a época do Concílio de Trento (século XVI) até 1955, o rito não fazia parte da missa”.

“Uma coisa é certa”, disse Fessio. “Existe uma ‘dissonância simbólica’, uma desconexão. A humildade e o serviço do qual Jesus dá o exemplo é algo que cada cristão deve a cada um (e a cada uma). Não obstante, a origem histórica do exemplo é o lavar dos pés dos 12 Apóstolos. Tentar fazer deste gesto algo mais ‘inclusivo’ do que o próprio Jesus fez embaralha simplesmente a imagem histórica”.

19 junho, 2015

Sínodo. A hora da África.

Por Sandro Magister | Tradução: Marcos Fleurer – FratresInUnum.com – Cinco cardeais e quarenta e cinco bispos de vários países africanos se reuniram em Accra, a capital de Gana, do dia 8 a 11 de junho. Todos à luz do sol, não quase às escondidas como alguns de seus colegas da Alemanha, França e Suíça, que haviam se encontrado poucos dias antes na Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Em ambos os casos, o motivo era o mesmo: preparar a próxima seção do sínodo sobre a família.

Enquanto na Gregoriana o objetivo era a mudança na doutrina da Igreja sobre o divórcio e a homossexualidade, em Accra a orientação era a oposta.

A linha de atuação indicou o cardeal guineano Robert Sarah, Prefeito da Congregação para o Culto Divino, com as primeiras frases por ele pronunciadas:

  • «Não ter medo de confirmar o ensinamento de Cristo sobre o matrimônio»;
  • «Falar no sínodo com clareza e a uma só voz, com amor filial para com a Igreja».
  • «Proteger a família de todas as ideologias que querem destruí-la e, por tanto, também das políticas nacionais e internacionais que impedem promover seus valores positivos».

Sobre essas ideias o consenso foi total. Também o único bispo da África subsaariana que nos meses passados se havia expressado a favor de «aberturas» ao divórcio, foi Gabriel Charles Palmer-Buckle, de Accra, eleito pelos bispos de Gana como seu delegado no sínodo, acabou ficando de acordo com todos os assistentes na defesa da doutrina católica sobre a família.

Além de Sarah, os outros cardeais africanos presentes eram Christian Tumi, de Camarões, John Njue do, Quênia, Polycarp Pengo, da Tanzânia, e Berhaneyesus Souraphiel, da Etiópia, este último criado cardeal pelo Papa Francisco no último consistório.

Organizado pelo Simposium das conferências episcopais de África e Madagascar, o encontro tinha o título: «A família na África”. Que experiências e contribuições devemos aportar a XIV assembleia ordinária do sínodo dos bispos?».

Grupos de trabalho

Para responder à pergunta do título, no primeiro dia os assistentes discutiram tendo como base quatro introduções temáticas, dividindo-se depois em grupos de trabalho. No dia seguinte, fizeram-no a partir de outras cinco linhas de discussão.

Uma destas, como título «As expectativas do sínodo», foi lida aos presentes pelo teólogo e antropólogo Edouard Ade, secretário geral da Universidade Católica da África Ocidental, com sede em Cotonou, Benin, e em Abidjan, Costa de Marfim.

Inimigo do gênero humano

A conferência do professor Ade se deteve sobre o que ele definiu «a estratégia do Inimigo do gênero humano».

Visto que os objetivos máximos seriam a permissão de casamentos de pessoas divorciadas e de casais homossexuais, o que parece estar fora de alcance, tal «estratégia» consistiria em abrir caminhos que logo se ampliariam, obviamente afirmando com palavras que não se quer mudar em nada a doutrina.

Esses caminhos seriam, por exemplo, os «casos particulares» ilustrados pelos inovadores, bem sabendo que não seriam em absoluto casos isolados.

Outra astúcia seria a de apresentar as mudanças como uma solução «de equilíbrio» entre a impaciência, por um lado, de quem desejaria o divórcio e os casamentos homossexuais e, por outro, o do rigorismo sem misericórdia da disciplina da Igreja Católica sobre o matrimônio.

Outro caminho seria dar a comunhão aos divorciados que se voltaram a casar e a todos os casais fora do matrimônio – algo que já se faz em muitos lugares -, sem sequer esperar qualquer decisão em matéria por parte do sínodo e do Papa.

Cavalos de Tróia

Além disso, o professor Ade colocou em evidência os «cavalos de Tróia» adotados pelos inovadores, como o de atribuir um valor sempre positivo a todas as relações de vida comum fora do matrimônio, ou bem considerar a indissolubilidade como um «ideal» que nem todos podem alcançar ou o uso de novas linguagens que acabam mudando a realidade.

O discurso de Ade foi muito apreciado pelos bispos e cardeais presentes, até o ponto de que se pode ver “suas pegadas” no comunicado final onde se lê «que se deve partir da fé, reafirmá-la e vivê-la a fim de evangelizar em profundidade as culturas», cuidando de não adotar nem legitimar «a linguagem dos movimentos que militam para destruir a família».

Cardeal Sarah, coluna firme na defesa da fé católica

Em uma ampla entrevista de seis páginas publicada nos mesmos dias na França, no semanal «FamilleChrétienne», o cardeal Sarah disse entre outras coisas:

«No sínodo do próximo outubro afrontaremos, espero, a questão do matrimônio de maneira totalmente positiva, buscando promover a família e seus valores. “Os bispos africanos intervirão para sustentar o que Deus pede ao homem sobre a família e proteger o que a Igreja sempre ensinou».

E prossegue:

«Por que se deve pensar que só a visão ocidental do homem, do mundo, da sociedade, é a boa, a justa, a universal? A Igreja deve batalhar para dizer que ‘não’ a esta nova colonização».

Assim reza o título da entrevista, tal como aparece na publicação nas bancas:

Le cardinal Sarah: «Qu’on nous écoute ou pas, nous parlerons»

«Que nos escutem ou não, nós falaremos».

O encontro de Accra é a prova de que o bloco dos bispos africanos será um protagonista seguro no sínodo, como nunca foi no passado.

15 junho, 2015

A ação silenciosa do coração.

“É absolutamente apropriado que, durante o ato penitencial, o canto do Glória, as orações e Oração Eucarística, todos – o sacerdote e os fiéis –  voltem-se juntos à direção “ad orientem”, expressando a sua vontade de participar da obra de adoração e redenção realizada por Cristo”.

Por Cardeal Robert Sarah – L’Osservatore Romano, 12 de junho de 2015 | Tradução: Vitor Picanço – Cinquenta anos após a sua promulgação pelo Papa Paulo VI, a Constituição sobre a Sagrada Liturgia do Concílio Vaticano II será lida? “Sacrosanctum Concilium” não é, de fato, um simples “livro de receitas” da reforma, mas uma verdadeira “Carta Magna” de toda a ação litúrgica.

Cardeal Sarah

Cardeal Sarah

Com ela, o concílio ecumênico nos dá uma lição magisterial. Na verdade, longe de estar contente com uma abordagem multidisciplinar e exterior, o concílio quer fazer-nos refletir sobre o que a liturgia é em sua essência. A prática da Igreja sempre vem do que Ela recebe e contempla no Apocalipse. O cuidado pastoral não pode ser desligado da doutrina.

Na Igreja, “a ação é ordenada à contemplação” (cfr. N. 2). A Constituição do concílio convida-nos a redescobrir a origem trinitária da ação litúrgica. Com efeito, o concílio estabelece a continuidade entre a missão do Cristo Redentor e a missão litúrgica da Igreja. “Assim como Cristo foi enviado pelo Pai, assim também Ele enviou os Apóstolos” para que “mediante o sacrifício e os sacramentos, à volta dos quais gira toda a vida litúrgica” eles realizem “a obra da salvação”. (N.6).

Operar a liturgia é, portanto, nada mais do que a operação da obra de Cristo. A liturgia em sua essência é “actio Christi”. [É] a obra de Cristo, o Senhor, da “redenção dos homens e da glorificação perfeita de Deus.” (N.5) É Ele quem é o eminente Sacerdote, o verdadeiro sujeito, o verdadeiro protagonista na liturgia (n.7 ). Se este princípio essencial não é aceito, existe o risco de transformar a liturgia em uma obra humana, uma auto-celebração da comunidade.

Em contrapartida, o verdadeiro trabalho da Igreja consiste em inserir-se na ação de Cristo, em unir-se a essa obra que Ele recebeu como uma missão do Pai. Assim, “nos deu a plenitude do culto divino”, pois “sua humanidade foi, na unidade da pessoa do Verbo, o instrumento da nossa salvação” (n.5). A Igreja, Corpo de Cristo, deve, portanto, tornar-se por sua vez um instrumento nas mãos do Verbo.

Este é o sentido último do conceito-chave da Constituição Conciliar: “participatio actuosa”. Tal participação da Igreja consiste em tornar-se o instrumento de Cristo – O Sacerdote, com o objetivo de partilhar de Sua missão trinitária. A Igreja participa ativamente da ação litúrgica de Cristo, na medida em que Ela é seu instrumento. Neste sentido, falar de “uma comunidade celebrante” “não é desprovido de ambiguidade e exige prudência. (Instrução “Redemptoris sacramentum”, n. 42). A “Participatio actuosa” não deve, então, ser concebida como a necessidade de fazer alguma coisa. Sobre este ponto, a doutrina do concílio tem sido frequentemente deformada. Antes, trata-se de permitir que Cristo nos tome e nos ligue ao Seu Sacrifício.

A “Participatio” litúrgica deve, portanto, ser concebida como uma graça de Cristo, que “associa sempre a si a Igreja.” (SC n. 7) Ele é quem tem a iniciativa e a primazia. A Igreja “invoca o seu Senhor e por meio dele rende culto ao Eterno Pai” (n.7).

O sacerdote deve tornar-se, assim, este instrumento que permite que Cristo transpareça. Assim como nosso Papa Francisco nos lembrou, recentemente, que o celebrante não é apresentador de um espetáculo; ele não deve visar a popularidade, colocando-se diante dos fiéis como seu principal interlocutor. Entrar no espírito do concílio significa, pelo contrário, fazer-se desaparecer – abandonando o centro do palco.

Ao contrário do que às vezes tem sido sustentado, e em conformidade com a Constituição conciliar, é absolutamente apropriado que, durante o ato penitencial, o canto do Glória, as orações e Oração Eucarística, todos – o sacerdote e os fiéis — voltem-se juntos à direção “ad orientem”, expressando a sua vontade de participar da obra de adoração e redenção realizada por Cristo. Esta maneira de agir poderia ser convenientemente realizada nas catedrais onde a vida litúrgica deve ser exemplar (n. 4).

Para ser muito claro, há outras partes da Missa, onde o padre, agindo “in persona Christi Capitis” entra em diálogo com a congregação. Mas este cara-a-cara não tem outro objetivo senão levá-los a um tête-à-tête com Deus, que, através da graça do Espírito Santo, irá torná-lo ‘coração-à-coração”. O concílio oferece outros meios para favorecer a participação: “as aclamações dos fiéis, as respostas, a salmodia, as antífonas, os cânticos, bem como as ações, gestos e atitudes corporais” (n. 30).

Uma leitura excessivamente rápida e superficial deduziu que os fiéis tinham de ser mantidos constantemente ocupados. A mentalidade ocidental contemporânea, moldada pela tecnologia e enfeitiçada pelos meios de comunicação de massa, queria tornar a liturgia uma obra de pedagogia eficaz e proveitosa. Neste espírito, houve a tentativa de fazer dela um espaço de socialização. Os atores litúrgicos, animados por motivos pastorais, tentam, às vezes, fazer dela uma obra didática, através da introdução de elementos seculares e espetaculares. Não vemos, por acaso, um crescimento de testemunhos, performances e palmas? Eles acreditam que a participação é favorecida desta forma, quando, na realidade, a liturgia está a ser reduzida a uma atividade humana.

“O silêncio não é uma virtude, nem o ruído um pecado, é verdade”, diz Thomas Merton, “mas o tumulto contínuo, confusão e barulho na sociedade moderna ou em certas liturgias eucarísticas africanas são uma expressão da atmosfera de seus pecados mais graves e de sua impiedade e desespero. Um mundo de propaganda e intermináveis argumentações, de inventivas, críticas ou mera tagarelice, é um mundo em que a vida não vale a pena viver. A Missa torna-se um barulho confuso, as orações um ruído exterior ou interior“ (Thomas Merton, “The Sign of Jonah” edição francesa, Albin Michel, Paris, 1955 – 322 p.).

Corremos o risco real de não deixar espaço para Deus em nossas celebrações. Corremos o risco da tentação dos hebreus no deserto. Eles tentaram criar um culto de acordo com sua própria estatura e medida, [mas] não nos esqueçamos que acabaram se prostrando diante do ídolo do Bezerro de Ouro.

É hora de começar a ouvir o concílio. A liturgia é “principalmente culto da majestade divina” (n.33). Isto tem valor pedagógico, na medida em que é totalmente ordenada à glorificação de Deus e ao culto divino. A Liturgia verdadeiramente nos coloca na presença da transcendência divina. A verdadeira participação significa renovar em nós mesmos aquela “maravilha” que São João Paulo II tinha em grande consideração (Ecclesia de Eucharistia n. 6). Esta santa admiração, esta alegre reverência, requer o nosso silêncio diante da Majestade Divina. Frequentemente, esquecemos que o santo silêncio é um dos meios indicados pelo concílio para favorecer a participação.

Se a liturgia é a obra de Cristo, é necessário que o celebrante introduza seus próprios comentários? Devemos lembrar que, quando o Missal autoriza uma intervenção, este não deve se transformar em um discurso secular e humano, um comentário mais ou menos sutil em algo de interesse tópico, nem uma saudação mundana para as pessoas presentes, mas uma breve exortação, como introdução ao Mistério (Apresentação Geral do Missal Romano, n.50). Em relação à homilia, é em si um ato litúrgico, que tem as suas próprias regras.

A “Participatio actuosa” na obra de Cristo pressupõe que deixemos o mundo secular, de modo a entrar na “ação sagrada por excelência” (Sacrosanctum concilium, n.7). De fato, “nós reivindicamos, com uma certa arrogância – participar do divino” (Robert Sarah, “Dieu ou rien”, p 178.).

Em tal sentido, é deplorável que o altar, em nossas igrejas, não seja um lugar estritamente reservada para o Culto Divino, que as roupas seculares sejam usadas nele e que o espaço sagrado não seja claramente definido pela arquitetura. Uma vez que, como ensina o concílio, Cristo está presente na sua Palavra, quando esta for proclamada, é igualmente prejudicial que os leitores não usem roupas adequadas, indicando que eles não estão pronunciando palavras humanas, mas do Verbo Divino.

A liturgia é fundamentalmente mística e contemplativa, e, consequentemente, para além da nossa ação humana; ainda, a “participatio” é uma graça de Deus. Portanto, ela pressupõe da nossa parte uma abertura ao mistério celebrado. Assim, a Constituição recomenda plena compreensão dos ritos (n.34) e ao mesmo tempo estabelece que “os fiéis possam rezar ou cantar, mesmo em latim, as partes do Ordinário da missa que lhes competem “(n.54).

Na realidade, a compreensão dos ritos não é um ato de razão, deixada à sua própria capacidade, que deve aceitar tudo, compreender tudo, dominar tudo. A compreensão dos ritos sagrados é a do “sensus fidei”, que exercita a fé viva através de símbolos e que conhece através da “harmonia”, mais do que pelo conceito. Esse entendimento pressupõe que nos aproximamos do Mistério Divino com humildade.

Mas será que vamos ter a coragem de seguir o concílio até este ponto? Tal leitura, iluminada pela fé, é, no entanto, fundamental para a evangelização. Na verdade, “mostra a Igreja aos que estão fora, como sinal erguido entre as nações, para reunir à sua sombra os filhos de Deus dispersos (6), até que haja um só rebanho e um só pastor ” (n.2). Ela [a leitura da SC] deve deixar de ser um lugar de desobediência às prescrições da Igreja.

Mais especificamente, não pode ser uma ocasião para divisão entre os católicos. As leituras dialéticas da “Sacrosanctum Concilium”, ou seja a hermenêutica da ruptura em um sentido ou outro, não é o fruto de um espírito de fé. O concílio não queria romper com as formas litúrgicas herdados da tradição, mas sim queria aprofundá-las. A Constituição estabelece que “as novas formas como que surjam a partir das já existentes.” (N.23).

Neste sentido, é necessário que aqueles que celebram conforme o “usus antiquior” devam fazê-lo sem qualquer espírito de oposição e, portanto, dentro do espírito da “Sacrosanctum Concilium”. Da mesma forma, seria errado considerar a forma extraordinária do Rito Romano como derivando de outra teologia que não da liturgia reformada. Seria também desejável que o ato penitencial e o Ofertório da “antiquior usus” fosse inserido como um apêndice na próxima edição do Missal [de Paulo VI], com o objetivo de ressaltar que as duas reformas litúrgicas iluminam uma à outra, na continuidade e sem oposição .

Se vivemos com esse espírito, então a liturgia vai deixar de ser um lugar de rivalidade e críticas, em última análise, para nos permitir participar ativamente em na liturgia “celebrada na cidade santa de Jerusalém, para a qual, como peregrinos nos dirigimos e onde Cristo está sentado à direita de Deus, ministro do santuário e do verdadeiro tabernáculo”(n.8).