Posts tagged ‘Cardeal Robert Sarah’

24 outubro, 2017

A “Correctio paternalis” do Papa ao Cardeal Sarah – íntegra da carta.

Leia antes: Editorial: Francisco humilha Sarah. O apogeu da Babel litúrgica.

* * *

Por Ricardo Cascioli, La Nuova Bussola Quotidiana, 22 de outubro de 2017 | Tradução: FratresInUnum.com – A interpretação que o Cardeal Robert Sarah fez do Motu Proprio “Magnum Principium” não é a correta. O espírito do documento papal é exatamente conceder às Conferências Episcopais ampla autonomia e confiança na execução  das traduções litúrgicas, algo que o Cardeal Sarah queria limitar.  E quem o diz é o próprio Papa Francisco em uma carta de próprio punho endereçada ao prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos – ou seja, o Cardeal Sarah – que aqui publicamos na íntegra a pedido explícito do próprio Pontífice. Na verdade, foi exatamente a Nuova Bussola Quotidiana que  publicou, no dia 12 de outubro, a nota do cardeal Sarah, que levando em conta algumas das reações já manifestadas, propunha uma interpretação correta do Motu Proprio (clique aqui).

O Papa é quem pede que a Nova Bússola Quotidiana publique sua carta, logo após termos publicado a nota do Cardeal Sarah: é, por assim dizer, um gesto sem precedentes do Papa Francisco. E além das questões de mérito que acenamos, sentimo-nos honrados e gratos por essa atenção do Santo Padre que objetivamente confere à NBQ autoridade para sediar um debate sobre temas fundamentais para a vida da Igreja, que o vê como protagonista junto a alguns cardeais.

Mas, vamos nos ater ao tema da controvérsia: o assunto é a tradução dos textos litúrgicos do seu original em latim, que estão em uso em diversos países. As traduções (versões e eventuais adaptações) são preparadas pelas diversas Conferências episcopais, as quais logo depois solicitam a aprovação da Santa Sé. O exame da Santa Sé ocorre através de dois instrumentos: a confirmação (confirmatio) e o reconhecimento (recognitio), e é isso que o Motu proprio quer redefinir.  Nesse ponto, eis que surgem diferentes interpretações. Segundo o Cardeal Sarah, Confirmatio e Recognitio são diferentes para o efeito produzido: confirmação apenas para a tradução da edição típica em latim e reconhecimento para a adição de novos textos e modificações rituais que obviamente não sejam substanciais, portanto dois atos idênticos do ponto de vista da responsabilidade da Santa Sé. Assim, em ambos os casos é possível e se requer uma análise detalhada de tudo: novos textos, modificações rituais, traduções do original em latim.

 A preocupação do Cardeal Sarah como prefeito da Congregação para o Culto Divino é evidente: manter a unidade da Igreja também na liturgia, respeitando ao mesmo tempo a autonomia dos bispos de diversos países na elaboração da liturgia local.

O Papa, no entanto, agora vem a público e declara que não é essa a mensagem do Motu Proprio, cuja perspectiva é uma verdadeira “devolução” litúrgica. Ele deixa claro que os dois procedimentos – confirmação e reconhecimento – não são idênticos e que no exercício dessas duas ações ocorre uma responsabilidade “diferente”, tanto da parte da  Santa Sé como das Conferências Episcopais:

a) A Recognitio “significa apenas a verificação e a salvaguarda da conformidade com o direito e a comunhão da Igreja”. É uma frase um pouco hermética, mas que deveria provavelmente ser interpretada de acordo com as palavras do comentário de Monsenhor Artur Roche, secretário da Congregação para o Culto Divino, e que acompanhou a publicação do Motu Proprio Magnum Principium: “A Recognitio (…) envolve o processo reconhecimento da parte da Sé Apostólica das legítimas adaptações litúrgicas, incluindo aquelas ‘mais profundas’ que as conferências episcopais podem estabelecer e aprovar para seus territórios, dentro dos limites permitidos. Sobre esse terreno de encontro entre liturgia e cultura, a Sé Apostólica é, portanto, chamada a reconhecer, isto é, a rever e avaliar tais adaptações, visando salvaguardar a unidade substancial do rito romano”.

b) A Confirmatio é o ato sobre o qual a carta papal concentra mais atenção. Ali fica claramente dito que o julgamento sobre a fidelidade das traduções ao seu original em latim é competência das Conferências Episcopais, “ainda que em diálogo com a Santa Sé”. O que significa que a Santa Sé, ao conceder a confirmação, não realizará mais “um exame detalhado palavra por palavra”, exceto nos casos óbvios de fórmulas relevantes, como orações eucarísticas ou fórmulas sacramentais. Em suma, há muito mais liberdade para as Conferências Episcopais.

Na carta ao Cardeal Sarah , o Papa, em seguida, explica que algumas partes de Liturgiam Authenticam (2001),  o documento normativo para as traduções atualmente em vigor, estão suprimidas ou revogadas. “Passam cuidadosamente por uma releitura ” os nn. 79-84, relativos à aprovação da tradução e reconhecimento da Sede Apostólica; “e caem em desuso”, por sua vez, os nn. 76 e 80. Este último se concentra na recognitio e, obviamente, foi reformulado, enquanto o n. 76 requeria que a Congregação “examinasse mais de perto o trabalho de preparação de traduções nos principais idiomas”.

Uma outra passagem da carta do Papa que chama a atenção. Ele diz que Magnum Principium já não mais sustenta que as traduções devem se adequar em todos os pontos às regras da Liturgiam Authenticam, como foi feito no passado. Tal afirmação unida à outra, segundo a qual uma tradução litúrgica “fiel” implica numa fidelidade tríplice – ao texto original, ao idioma da tradução e à compreensão dos destinatários – dá a entender que Magnum Principium é apenas o início de um processo que pode ir muito longe.

E aqui está a importância desta controvérsia que vê o Papa desautorizando o cardeal Sarah, um Cardeal que nada mais faz senão que seguir a linha traçada por Bento XVI. Não há dúvida de que, com o “espírito” do Magnum Principium, esclarecido e acentuado pela carta papal que aqui publicamos, a tendência será a de avançar para diferentes missais nacionais cada vez mais diferentes entre si  e para um “espírito litúrgico” cada vez menos compartilhado.

A questão vai muito além do aspecto meramente litúrgico, como argumentou repetidamente o cardeal Joseph Ratzinger e mais tarde Papa BentoXVI, a respeito do conceito de Igreja e do entendimento que a Igreja tem de si mesma. Em jogo está principalmente o papel e o poder das Conferências Episcopais para as quais o Papa Francisco pretende transferir “até mesmo uma certa autêntica autoridade doutrinal ” (cfr. Evangelii Gaudium no. 32).

Pelo contrário, já no livro-entrevista com Vittorio Messori intitulado  “O Relatório sobre a Fé” (1985) – O Cardeal Ratzinger, então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, comentando positivamente sobre a valorização do “papel de responsabilidade do bispo” desejada pelo Concílio, lamentou a deriva pós-Vaticano II: “o relançamento do papel do bispo foi realmente amortecido ou corre o risco de ser sufocado pela inserção dos bispos em conferências episcopais cada vez mais organizadas e com estruturas burocráticas, muitas vezes pesadas. No entanto, não devemos esquecer que as conferências episcopais não possuem base teológica, não fazem parte da estrutura ineliminável da Igreja, como ela é desejada por Cristo: elas só têm uma função prática e concreta”. O coletivo não substitui a pessoa do bispo. Este é um ponto decisivo, “porque – disse o Cardeal Ratzinger – se trata de salvaguardar a própria natureza da Igreja Católica que se baseia em uma estrutura episcopal, não em algum tipo de federação de igrejas nacionais. O nível nacional não é uma dimensão eclesial. É necessário que fique claro mais uma vez, que em cada diocese não há mais do que um só pastor e mestre da fé, em comunhão com os outros pastores e mestres e com o Vigário de Cristo”.

* * *

Publicamos a seguir a tradução da carta do Papa Francisco ao Cardeal Robert Sarah [destaques nossos]:

 

Cidade do Vaticano, 15 outubro 2017

À Sua Eminência Reverendíssima

Sr. Card. Robert SARAH

Prefeito da Congregação para o Culto Divino

e a Disciplina dos Sacramentos

Cidade do Vaticano

Eminência,

Recebi sua carta de 30 de setembro u.s., com o qual o senhor quis expressar gentilmente sua gratidão pela publicação do Motu Proprio Magnum Principium e transmitir-me uma nota elaborada, “Commentaire”, sobre o mesmo, visando uma melhor compreensão do texto.

Ao agradecê-lo sinceramente por seu empenho e contribuição, tomo a liberdade de expressar-me de modo simples e espero claramente, algumas observações sobre a referida nota que considero particularmente importante para a aplicação e a justa compreensão do Motu Proprio e para evitar qualquer mal-entendido.

Antes de tudo, é importante destacar a importância da nítida diferença que o novo Motu Proprio estabelece entre recognitio e confirmatio, bem sancionada nos §§ 2 e 3 do canon 838, para revogar a prática adotada pelo Dicastério seguindo a Liturgiam Authenticam (LA) e que o novo Motu Proprio decidiu modificar. Não se pode dizer, portanto, que recognitio e confirmatio são “estritamente sinônimos (ou) são intercambiáveis” ou mesmo que “são intercambiáveis ao nível de responsabilidade da Santa Sé”.

Na verdade, o novo canon 838, através da distinção entre recognitio e confirmatio, estabelece as diferentes responsabilidades da Sé Apostólica no exercício dessas duas ações, bem como a das Conferências Episcopais. Magnum Principium não sustenta mais que as traduções devem estar em tudo de acordo com as regras da Liturgiam Authenticam, como foi feito no passado. Por isso, cada um dos números da Liturgiam Authenticam devem ser relidos atentamente, incluindo os números. 79-84, a fim de distinguir o que é pedido pelo código para a tradução e o que é necessário para as legítimas adaptações.  Fica, portanto, claro que alguns números da LA foram revogados ou caíram em desuso, nos termos em que eles foram reformulados pelo novo canon do Motu Proprio (por ex. N. 76 e também o n. 80).

Sobre a responsabilidade das Conferências Episcopais de traduzir “fideliter”, é necessário deixar claro que o julgamento sobre a fidelidade ao original em latim e as eventuais correções necessárias, era tarefa do Dicastério, enquanto que agora a norma concede às Conferências Episcopais a faculdade de julgar a bondade e a coerência de um e de outro termo nas traduções do original, ainda que em diálogo com a Santa Sé. Portanto, a confirmatio não supõe mais um exame detalhado feito palavra por palavra, exceto em casos óbvios que podem ser fatos apresentados aos Bispos para a sua posterior reflexão. Isto aplica-se em particular às fórmulas relevantes, como para as Orações Eucarísticas, especialmente as fórmulas sacramentais aprovadas pelo Santo Padre. A confirmatio também leva em conta a integridade do livro, ou seja, verifica se todas as partes que compõem a edição típica foram traduzidas [1].

Aqui se pode acrescentar que, à luz do MP, o “fideliter” do § 3 do cânon, implica uma tríplice lealdade: ao texto original, em primeiro lugar; ao idioma particular no qual for traduzido e finalmente à compreensão do texto por parte dos destinatários (cf. Institutio Generalis Missalis Romani nos. 391-392)

Neste sentido, a recognitio indica apenas a verificação e salvaguarda da conformidade ao direito e à comunhão da Igreja. O processo de tradução dos textos litúrgicos relevantes (e as fórmulas sacramentais, o Credo, o Pai Nosso.) para um determinado idioma – a partir do qual são consideradas traduções autênticas – não deveria conduzir a um espírito de “imposição” às Conferências Episcopais de uma determinada tradução feita pelo Dicastério, pois isso poria em causa o direito dos bispos sancionado no cânon, e mesmo antes da SC 36 § 4. De resto, leve em conta a analogia com o canon 825 § 1 sobre a versão da Sagrada Escritura que não requer confirmatio por parte da Sé Apostólica.

Conclui-se, assim, que não é correto atribuir à confirmatio a finalidade da recognitio (ou seja, “verificar e salvaguardar a conformidade com o direito”). Certamente, a confirmatio não é um ato puramente formal, mas necessário para a edição do livro litúrgico “traduzido”, pois é concedida depois que a versão tiver sido submetida à Sé Apostólica para a ratificação da aprovação dada pelos Bispos, em um espírito de diálogo e ajuda à reflexão se e quando necessário, respeitando os direitos e deveres, considerando a legalidade do processo seguido e suas modalidades [2].

Finalmente, Eminência, reitero a minha gratidão fraterna por seu empenho e observando que a nota “Commentaire” foi publicada por alguns sites da internet e erroneamente atribuída à sua pessoa, eu peço gentilmente que o senhor providencie para que essa minha resposta seja divulgada nos mesmos sites, além de enviar a mesma à todas as Conferências Episcopais, aos membros e consultores do Dicastério.

Fraternalmente

Francisco

23 outubro, 2017

Editorial: Francisco humilha Sarah. O apogeu da Babel litúrgica.

Por FratresInUnum.com – 23 de outubro de 2017

Tirânico. Não há outro adjetivo que se empregue para o vexame ao qual o pontífice reinante submeteu ontem o Cardeal Robert Sarah, Prefeito da Congregação para o Culto Divino.

Totalmente sem precedentes, o ato despótico perpetrado pelo Papa que assumiu o nome do “pobrezinho de Assis”, Francisco, nada tem de franciscano; é totalmente contrastante com a humildade que vive propagandeando de si mesmo.

francisco sarahA velocidade com a qual este papa protagoniza o desmonte de sua própria Igreja é tão alucinante que chega a ser difícil documentar.

Recentemente, ele publicou o Motu Proprio Magnum Principium em que confere às Conferências Episcopais a faculdade de aprovar a tradução dos textos litúrgicos, reservando à Santa Sé apenas o direito de “confirmar” os mesmos.

O Cardeal Sarah, competente em matéria porque Prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, sequer foi consultado. A apresentação do texto pontifício foi realizada pelo Secretário do mencionado Dicastério, o arcebispo progressista Arthur Roche.

Na sequência, o Cardeal Sarah tornou público um texto intitulado “Humilde contribuição para uma melhor e justa compreensão do Motu Proprio Magnum Principium” em que interpretava o citado texto em continuidade com o Motu Proprio Liturgiam Authenticam do Papa João Paulo II. Na prática, Sarah defendia a ideia de que “reconhecimento” e “confirmação” seriam sinônimos na aplicação do Motu Proprio de Francisco. Tentava fazer uma hermenêutica da continuidade e, ao mesmo tempo, salvar a competência de sua Congregação.

Ontem, porém — exato dia da festa litúrgica de João Paulo II, canonizado por Francisco — o site italiano La Nuova Bussola Quotidiana publicou a carta com a qual o Papa Bergoglio corrige publicamente o cardeal africano, deixando claríssimo: doravante, e até disposição em contrário, a “aprovação” da tradução dos textos litúrgicos não fica a cargo da Sé Apostólica, mas das Conferências Episcopais, cuja “confirmação”, em clima de diálogo, deverá ser dada pela Congregação para o Culto Divino.

À Congregação de Sarah não competirá realizar mais o que, por determinação de Liturgiam Authenticam, fazia — e guerreou duramente contra Conferências Episcopais do mundo todo para isso –, isto é, um “exame detalhado palavra por palavra”, nas palavras de Francisco, mas apenas garantir “a integridade do livro, ou seja, verificar se todas as partes que compõem a edição típica foram traduzidas”. Esvazia-se praticamente, assim, toda a competência do dicastério de Sarah sobre o assunto.

A carta do Papa Bergoglio começa e termina com um agradecimento elogioso à contribuição de Sarah. O paralelo com o elogio dos discípulos dos fariseus e dos herodianos a Nosso Senhor, recolhido no Evangelho deste domingo do Missal de Paulo VI, é inevitável. Ainda mais porque ele solicita ao cardeal que ele mesmo faça publicar a sua “correção” nos sites que divulgaram anteriormente o seu texto, bem como a todas as Conferências Episcopais, e aos membros e consultores da Congregação da qual ele é Prefeito. Maior humilhação, neste caso, impossível!

Esta não é a primeira vez que Francisco constrange o Cardeal Sarah com uma retratação. Em 2016, quando o mesmo proferiu uma conferência em que sugeria que os sacerdotes celebrassem a missa ad orientem a partir do advento seguinte, a Sala de Imprensa da Santa Sé lançou um Comunicado de esclarecimento em que desmentia as declarações do cardeal.

Note-se, porém, que Francisco teria motivos para ter desmentido diversas vezes o Cardeal Müller ou mesmo o Cardeal Burke, que chegaram a fazer declarações muito mais contundentes acerca de seu confuso magistério, e, no entanto, nunca o fez de forma tão brusca. Por quê?

Será que Papa Francisco teria, a exemplo seu glorificado amigo e teólogo Walter Kasper, algum preconceito contra negros, especialmente contra africanos? A propósito, todos sabemos da resistência dos bispos africanos nos sínodos da família, resistência capitaneada pelo Cardeal Sarah e resistência desprezada solenemente por Francisco numa referência indireta em seu discurso de encerramento do Sínodo de 2015: “aquilo que parece normal para um bispo de um continente, pode resultar estranho, quase um escândalo – quase! –, para o bispo doutro continente”.

Ou será que o Papa argentino considera verdadeira a análise de Sandro Magister, segundo a qual Sarah seria um candidato de força no próximo conclave e, consequentemente, sendo este de linha conservadora, oposta à sua, está querendo desprestigiá-lo e eliminar uma eventual concorrência?

Por trás de toda esta reação desproporcional de Francisco está, também, um discreto silenciamento do Papa Emérito. De fato, no prefácio da edição russa do tomo de suas Obras Completas dedicado à Liturgia, lançado no início deste mês de outubro, escreve Bento XVI: “a causa mais profunda da crise que tem sacudido a Igreja está no escurecimento da prioridade de Deus na Liturgia. Tudo isto me levou a dedicar-me ao tema da Liturgia mais que no passado porque sabia que a verdadeira renovação da Liturgia é uma condição fundamental para a renovação da Igreja”.

Aliás, recentemente, Bento XVI prefaciou o livro sobre liturgia do Cardeal Sarah [outro prefácio de Ratzinger, em 2015, a livro anterior de Sarah simplesmente desapareceu] e o chamou de “mestre espiritual”, afirmando que a liturgia da Igreja estava em boas mãos.

Em todo caso, se a Missa de Paulo VI já tinha se tornado uma espécie de ideia platônica, nunca concretizada de modo perfeito nem celebrada em lugar algum do planeta, mas apenas reproduzida das maneiras mais diferentes e contraditórias possíveis, agora, com o Motu Proprio Magnum Principium, o Papa Francisco deu-lhe o pior golpe desde a sua promulgação, em 1969.

O Novus Ordo se tornará ainda mais incerto e tão diversificado, de lugar em lugar, de país em país, que o ato de Bergoglio, em si, quase significa a completa abolição de uma “missa do Concílio Vaticano II” que nunca chegou a existir verdadeiramente.

Nem falemos das incertezas que terão os fieis, sem conseguirem discernir em que lugar se celebra uma missa válida, visto que os padres, sempre dados à criatividade, passarão a improvisar dos modos ainda mais estapafúrdios do que aqueles que já temos presenciado. Além do que, em países como o Brasil, não é de se duvidar que a Conferência Episcopal se arrogue o direito de ter vários missais regionalizados. O caos!

É o fim da Missa Nova! É a Babel litúrgica de Francisco! Babel iniciada pela reforma litúrgica liderada pelo bispo Aníbal Bugnini, maçom, a mandos expressos da maçonaria: “comunicamos o encargo que o Conselho dos Irmãos estabeleceu para ti, de acordo com o Grão-Mestre e os Príncipes Assistentes ao Trono, e te obrigamos (…) a difundir a descristianização mediante a confusão dos ritos e das línguas e de colocar padres, bispos e cardeais uns contra os outros. A Babel linguística e ritual será a nossa vitória, como a unidade linguística e ritual foi a força da Igreja (…) Tudo deve acontecer no prazo de dez anos”.

Qual poderá ser o resultado de tamanha confusão? Desorientados, os fieis acorrerão à missa tradicional, apreciarão ainda mais a liturgia não reformada da missa de sempre.

Francisco, definitivamente, não tem cheiro de ovelhas. Ele está caminhando em sentido oposto ao de seus fieis. Estes querem ordem, ele quer impor a sua bagunça.

Resta-nos o dever de permanecer fieis: aos sacerdotes tradicionais, a fortaleza de permanecerem firmes, porque toda esta desordem é auto-aniquilatória; aos fieis leigos, a perseverança de continuarem com sua luta pela liturgia tradicional, mesmo contra todas as oposições dos bispos e do clero, em geral.

É tão óbvio o fracasso desse tipo de “reforma”, é tudo tão previsível, que necessitamos apenas de coragem para preservar o legado dos santos, a tradição ininterrupta da fé católica, celebrada de modo excelente na liturgia perene da Igreja.

Não desanimemos, pois “esta é a vitória que vence o mundo: a nossa fé” (1 Jo 5,4).

19 setembro, 2017

Cardeal Sarah: “Vocês não são tradicionalistas: vocês são Católicos”.

A resposta do Cardeal Sarah a quem considera o uso da missa tridentina como algo do passado ou saudosista: “A quem nutre algumas dúvidas em relação a isso, eu diria: visitem estas comunidades e procurem conhecê-las, especialmente os jovens que fazem parte delas. Abram seus corações a mentes a estes nossos jovens irmãos e irmãs, e vejam o bem que eles fazem. Não são saudosistas nem amargurados, nem oprimidos pelas lutas eclesiásticas das décadas atuais; eles são cheios da alegria de viver a vida de Cristo em meio aos desafios do mundo moderno”

Por Andrea Zambrano, La Nuova Bussola Quotidiana, 15 de setembro de 2017 | Tradução: FratresInUnum.com

Sarah aos grupos estáveis de fiéis ligados à Missa Tradicional: “Não sejam tradicionalistas, sejam católicos. Saiam do gueto”.

“Não sejam tradicionalistas, sejam católicos, tanto quanto eu e o Papa” As palavras do cardeal Robert Sarah, Prefeito da Congregação para o Culto Divino, chegam pontuadas quase ao término da conferência dada pelo purpurado no Congresso de dez anos do [motu proprio] Summorum Pontificum de Bento XVI. E parecem pôr fim a uma longa travessia no deserto realizada por grupos estáveis e por tantos monges e religiosos (lá no Angelicum de Roma, estavam ontem sobretudo franceses e italianos) que nestes anos experimentaram os benefícios da forma extraordinária do rito romano.

wp-20170914-10-07-43-pro-large

Peregrinação Summorum Pontificum 2017 – Cardeais Burke, Muller e Sarah na primeira fila.

É a assim chamada missa em latim ou missa tridentina. Um clichê linguístico usado para controlar e enquadrar um fenômeno nascido na surdina, mas que hoje cresceu a tal ponto que o termo tradicionalista parece muito estreito e em certas situações é já insuficiente, visto que a maior parte dos fiéis que têm esta sensibilidade são jovens e não são saudosistas de nada. Para dar plena cidadania à forma extraordinária do rito romano vem também o atual Prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, que aproveitou a ocasião de sua lectio magistralis de ontem para esclarecer também algumas de suas expressões, que haviam desencadeado as suspeitas de alguns guardiões da revolução: a Missa ad orientem, em primeiro lugar, e a Reforma da Reforma, secundariamente.

Não antes de recordar que o motu proprio foi um “sinal de reconciliação na Igreja e que trouxe muito fruto e, neste sentido, foi realizado também pelo Papa Francisco”. Partindo de Ratzinger, o cardeal recordou que o “esquecimento de Deus é o perigo mais urgente do nosso tempo”. “Se a Igreja de hoje é menos zelosa e eficaz em levar as pessoas a Cristo — disse ele à plateia do Angelicum –, uma das causas pode ser a nossa falta de participação na Sagrada Liturgia de um modo autêntico e eficaz. E isto talvez seja devido, por sua vez, à falta de uma adequada formação litúrgica — com a qual talvez esteja preocupado também o nosso Santo Padre, o Papa Francisco, quando diz que “uma liturgia que estivesse desligada do culto espiritual arriscaria de esvaziar-se”.

Para Sarah “isto pode ser também devido ao fato de que, muito frequentemente, a liturgia, tal como vem sendo celebrada, não é fiel e não corresponde plenamente a como é entendida pela Igreja, mas depaupera-se ou priva-se daquele encontro com Cristo na Igreja, que é um direito de todos os batizados”. Tanto que “muitas liturgias não são realmente nada mais que ‘antropocêntricas’, um teatro, um divertimento mundano, com muito barulho, danças e movimentos corporais, que se assemelham às nossas manifestações folclóricas”. Ao contrário, a liturgia é o momento de um encontro pessoal e íntimo com Deus e, aqui, o cardeal exortou a África, a Ásia e a América Latina a refletir “sobre as suas ambições humanas de inculturar a liturgia, de modo a evitar a superficialidade, o folclore e a auto-celebração cultural”.

Mas o que isso tem a ver com a Missa tridentina? Tem a ver porque no assim chamado usus antiquor estes riscos são notavelmente despotencializados. Como o de perder uma orientação litúrgica que, longe de ser uma questão meramente formal, representa, ao contrário, um detalhe fundamental para falar com Deus. Detalhe. Sarah repete-o, recordando já o ter mencionado e como, nos últimos anos, o retorno ao “voltar-se ad Deum ou ad orientem durante a liturgia eucarística seja uma gestualidade quase universalmente assumida nas celebrações do usus antiquor“.

Mas também a prática do orientamento “é perfeitamente apropriada — e eu o insisto — e pastoralmente vantajosa, na forma mais moderna do rito romano”. O cardeal é consciente de que isto lhe poderia ser motivo de acusação por ser atento aos detalhes: “Sim — prosseguiu –, porque como todo marido e mulher sabem, em cada relação de amor, os mais pequenos detalhes são importantes, porque é nestes e através destes que o amor se exprime e se vive dia-a-dia. As ‘pequenas coisas’, na vida matrimonial, exprimem e protegem as realidades maiores, tanto que o matrimônio inicia a romper-se quando estes detalhes são descuidados. Assim, também na liturgia: quando os seus pequenos rituais se tornam routine e não são mais atos de culto que exprimem as realidades do meu coração e da minha alma, quando não cuido mais dos detalhes, então aí está um grande perigo de que o meu amor ao Deus Onipotente se esfrie”.

O mesmo argumento para o silêncio, que é o único que “pode edificar aquilo que sustentará a sagrada celebração, porque o barulho assassina a liturgia, mata a oração, nos destrói e nos exila distantes de Deus”. Chega-se, assim, no coração da solene celebração da Santa Missa no usus antiquor que “é um ótimo paradigma disso, porque, com os seus níveis de rico conteúdo e de diversos pontos de coligação com a ação de Cristo, permite-nos alcançar tal silêncio. Tudo isso é certamente um tesouro com o qual possam ser enriquecidas algumas celebrações do usus recentior, às vezes horizontais demais e barulhentas”.

As reflexões de Sarah, porém, têm como protagonista a missa em geral e não apenas a da forma extraordinária. De fato, o cardeal convidou “a não rezar o breviário com o próprio telefone ou o iPad” porque “não é digno, dessacraliza a oração. Este aparelho não é um instrumento consagrado e reservado a Deus”. Mas também tirar fotografias durante a Santa Missa por parte de presbíteros não é digno.

Sobre os grupos estáveis de fiéis ligados à Missa Tradicional, Sarah expressou toda a sua gratidão, testemunhando “a sinceridade e a devoção destes jovens, homens e mulheres, sacerdotes e leigos, e das boas vocações ao sacerdócio e à vida religiosa que nasceram nas comunidades que celebram o usus antiquor. É a melhor resposta a quem considera o uso da missa tridentina como algo do passado ou saudosista: “A quem nutre algumas dúvidas em relação a isso, eu diria: visitem estas comunidades e procurem conhecê-las, especialmente os jovens que fazem parte delas. Abram seus corações a mentes a estes nossos jovens irmãos e irmãs, e vejam o bem que eles fazem. Não são saudosistas nem amargurados, nem oprimidos pelas lutas eclesiásticas das décadas atuais; eles são cheios da alegria de viver a vida de Cristo em meio aos desafios do mundo moderno“. Um apelo estendido também “aos meus irmãos bispos: estes fiéis, estas comunidades têm uma grande necessidade de cuidado paterno. Não devemos deixar que as nossas preferências pessoais ou as incompreensões do passado mantenham distantes os fiéis que aderem à forma extraordinária do rito romano“.

Porque — é o sentido das palavras de Sarah — o usus antiquor deveria ser considerado como uma parte normal da vida da Igreja do século XXI. “Estatísticamente, isso pode representar uma bem pequena parte da vida da Igreja, como previa o Papa Bento XVI, mas não por isso é uma via inferior de ‘segunda classe’. Não deveria haver concorrência entre a forma ordinária e a extraordinária do único Rito Romano: a celebração de todas as duas formas deveria ser um elemento natural da vida da Igreja nos nossos dias”.

Enfim, uma palavra “paterna” a todos aqueles que estão associados à forma mais antiga do Rito Romano. “Alguns chamam vocês de ‘tradicionalistas’ e, às vezes, até vocês mesmos se chamam assim. Por favor, não façam mais isso. Vocês não estão fechados em uma caixa num compartimento de uma livraria ou num museu de curiosidades. Vocês não são tradicionalistas: vocês são católicos do Rito Romano, tanto quanto eu e como o Santo Padre. Vocês não são de segunda classe ou membros particulares da Igreja Católica por causa do seu culto ou de suas práticas espirituais, que foram as de inumeráveis santos. Vocês são chamados por Deus, como todos os batizados, a tomar o seu lugar na vida e na missão da Igreja no mundo de hoje, ao qual também vocês são enviados”.

E ainda: “Se vocês não deixaram ainda os limites do ‘gueto tradicionalista’, por favor, façam isso hoje. O Deus Onipotente chama vocês a isso. Ninguém lhes roubará o usus antiquor, mas muitos serão beneficiados, nesta vida e na vida futura, pelo seu fiel testemunho cristão que terá tanto a oferecer, considerando a profunda formação na fé que os antigos ritos e o ambiente espiritual e doutrinal relacionados a eles deram a vocês, porque ‘não se acende uma luz para colocá-la debaixo do alqueire, mas sobre uma lanterna para que ilumine a todos aqueles que estão na casa’. Esta é a sua verdadeira vocação, a missão para a qual lhes chama a Providência divina, quando suscitou no tempo oportuno o Motu Proprio Summorum Pontificum“.

1 setembro, 2017

Liturgia. O contra-relatório do cardeal Sarah.

IHU – Claramente não é obra sua. Fazemos referência ao discurso que o Papa Francisco leu, no dia 25 de agosto, aos participantes da semana anual do Centro de Ação Litúrgica italiano. Um discurso cheio de referências históricas, de citações doutas com suas correspondentes notas, sobre uma matéria que ele nunca dominou.

sarahA reportagem é de Sandro Magister, publicada por Settimo Cielo, 29-08-2017. A tradução é do Cepat.

No entanto, é possível captar silêncios e palavras que refletem muito bem seu pensamento. O que mais deu o que falar foi esta declaração solene que fez a propósito da reforma litúrgica posta em marcha pelo Concílio Vaticano II: “Podemos afirmar com segurança e autoridade magisterial que a reforma litúrgica é irreversível”.

Tal declaração foi interpretada pela maioria como uma ordem do Papa Francisco para deter o suposto retrocesso iniciado por Bento XVI, com o motu proprio Summorum pontificum, de 2007, que restituía plena cidadania à forma pré-conciliar da missa em rito romano, permitindo sua livre celebração como segunda forma “extraordinária” do mesmo rito.

Efetivamente, no longo discurso lido pelo Papa Francisco, são citados em abundância Pio XPio XII e Paulo VI. Mas, ao contrário, nenhuma só referência a Bento XVI, grande estudioso da liturgia, ou a seu motu proprio, apesar de neste verão ter se completado, precisamente, o décimo aniversário de sua publicação.

Muito marginal é também a referência às enormes degenerações na qual caiu, infelizmente, a reforma litúrgica pós-conciliar, superficialmente denunciadas como “recepções parciais e práxis que a desfiguram”.

Silêncio total também sobre o cardeal Robert Sarah, prefeito da Congregação para o Culto Divino, e sobretudo a respeito de suas boicotadas batalhas em favor de uma “reforma da reforma”, que restitua à liturgia latina sua autêntica natureza.

Na sequência, o que publicamos é, de fato, o contra-relatório acerca do estado da liturgia na Igreja, que o cardeal Sarah publicou neste mesmo verão, alguns dias antes do discurso do Papa Francisco. Um contra-relatório centrado justamente em Bento XVIe no motu proprio Summorum pontificum.

Seu texto na íntegra pode ser lido em francês, no número de julho-agosto da publicação mensal católica La Nef.

Na continuidade, reproduzimos a tradução de algumas passagens.

Nela, o cardeal emite um objetivo futuro de grande importância: um rito romano unificado que una o melhor dos dois ritos pré-conciliar e pós-conciliar.

Naturalmente, não faltam referências a temas particularmente sensíveis para o cardeal Sarah: o silêncio e a oração dirigida ad orientem.

Contudo, também aborda o tema do abandono da fórmula “reforma da reforma”, rejeitada pelo próprio Papa Francisco e que se converteu em inservível. Em seu lugar, o cardeal Sarah prefere falar de “reconciliação litúrgica”, no sentido de uma liturgia reconciliada “consigo mesma, com seu ser profundo”.

Uma liturgia que saiba, efetivamente, acumular as “duas formas do mesmo rito” autorizadas pelo Papa Bento, “em um enriquecimento recíproco”.

Eis as reflexões do cardeal Robert Sarah

Por uma reconciliação litúrgica

“A liturgia da Igreja foi a atividade central de minha vida, converteu-se no centro de meu trabalho teológico”, afirma Bento XVI. Suas homilias continuarão sendo documentos insuperáveis, durante gerações. Contudo, é necessário também sublinhar a grande importância do motu proprio Summorum pontificum. Longe de se referir somente à questão jurídica do estatuto do antigo missal romano, o motu proprio delineia a questão da própria essência da liturgia e seu lugar na Igreja.

O que está em discussão é o lugar de Deus, o primado de Deus. Como ressalta o “Papa da liturgia”: “A verdadeira renovação da liturgia é a condição fundamental para a renovação da Igreja”. O motu proprio é um documento magisterial capital acerca do significado profundo da liturgia e, em consequência, de toda a vida da Igreja. Dez anos após sua publicação, é necessário fazer um balanço: realizamos estes ensinamentos? Nós os compreendemos em profundidade?

Estou intimamente convencido que ainda não foram descobertas todas as implicações práticas deste ensinamento… Quero apresentar, aqui, algumas de suas consequências.

Para um novo rito comum

Dado que há uma continuidade e unidade profundas entre as duas formas de rito romano, então, necessariamente as duas formas devem se iluminar e se enriquecer reciprocamente. É prioritário que, com a ajuda do Espírito Santo, examinemos, na oração e no estudo, como voltar a um rito comum reformado, sempre com a finalidade de uma reconciliação dentro da Igreja.

Seria belo que aqueles que utilizam o missal antigo observem os critérios essenciais da constituição sobre a sagrada liturgia do Concílio. É indispensável que estas celebrações integrem uma justa concepção da participatio actuosa dos fiéis presentes (SC 30). A proclamação da leitura deve poder ser compreendida pelo povo (SC 36). Do mesmo modo, os fiéis devem poder responder ao celebrante e não se limitar a ser espectadores alheios e mudos (SC 48). Por último, o Concílio faz uma convocação a uma nobre simplicidade do cerimonial, sem repetições inúteis (SC 50).

Caberá à comissão pontifícia Ecclesia Dei proceder em tal questão com prudência e de maneira orgânica. Pode-se desejar, ali onde for possível, e se as comunidades requererem, uma harmonização dos calendários litúrgicos. É necessário estudar os caminhos para uma convergência dos lecionários.

O primado de Deus

As duas formas litúrgicas fazem parte da mesma lex orandi. O que é esta lei fundamental da liturgia? Permitam-me citar, novamente, ao Papa Bento: “A má interpretação da reforma litúrgica que foi difundida durante muito tempo no seio da Igreja católicainduziu, cada vez mais, a colocar em primeiro lugar o aspecto da instrução, e o de nossa atividade e criatividade. O ‘fazer’ do homem provocou quase o esquecimento da presença de Deus. A existência da Igreja toma vida da celebração correta da liturgia. A Igrejaestá em perigo quando o primado de Deus já não aparece na liturgia e, como consequência, na vida. A causa mais profunda da crise que tem perturbado a Igreja, encontramos na obscuridade da prioridade de Deus na liturgia”.

Eis aqui, portanto, o que a forma ordinária deve voltar a aprender em primeiro lugar: o primado de Deus.

Permitam-me expressar humildemente meu temor: a liturgia da forma ordinária pode nos fazer correr o risco de nos distanciarmos de Deus por causa da presença massiva e central do sacerdote. Este está constantemente diante de seu microfone e tem, sem interrupção, a visão e a atenção dirigidas ao povo. É como uma tela opaca entre Deus e o homem. Quando celebrarmos a missa, coloquemos sobre o altar uma grande cruz, uma cruz bem visível, como ponto de referência para todos: para o sacerdote e para os fiéis. Assim teremos nosso Oriente, porque, em definitivo, o Oriente cristão, diz Bento XVI, é o Crucifixo.

Ad orientem

Estou convencido que a liturgia pode se enriquecer das atitudes sagradas que caracterizam a forma extraordinária, todos esses gestos que manifestam nossa adoração da santa eucaristia: juntar as mãos após a consagração, fazer a genuflexão antes da elevação e após o Per ipsum, comungar de joelhos, receber a comunhão nos lábios se deixando nutrir como uma criança, como Deus mesmo nos disse: “Eu sou o Senhor seu Deus. Abre sua boca, e eu a encherei” (Salmo 81, 11).

“Quando a visão sobre Deus não é determinante, todo o restante perde sua orientação”, disse-nos Bento XVI. Também o oposto é verdade: quando se perde a orientação do coração e do corpo para Deus, deixa-se de se determinar em relação a ele, perde-se o sentido da liturgia. Orientar-se para Deus é, antes de tudo, um fato interior, uma conversação de nossa alma para o Deus único. A liturgia deve operar em nós esta conversão para o Senhor que é o Caminho, a Verdade e a Vida. Por isso, essa utiliza sinais, meios simples. A celebração “ad orientem” é um deles. É um tesouro do povo cristão que nos permite manter vivo o espírito da liturgia. A celebração orientada não deve se converter na expressão de uma atitude facciosa e polêmica. Ao contrário, deve continuar sendo a expressão do movimento mais íntimo e essencial de toda liturgia: dirigir-nos ao Senhor que vem.

O silêncio litúrgico

Tive a oportunidade de ressaltar a importância do silêncio litúrgico. Em seu livro O espírito da liturgia, o cardeal Ratzinger escrevia: “Todo aquele que faça a experiência de uma comunidade unida na oração silenciosa do Canon, sabe que isto representa um silêncio autêntico. Aqui, o silêncio é, ao mesmo tempo, um grito poderoso, penetrante, lançado para Deus, e uma comunhão de oração repleta do Espírito”. Em seu momento, já havia afirmado com firmeza que recitar em voz alta toda a oração eucarística não era o único meio para obter a participação de todos. Temos que trabalhar para alcançar uma solução equilibrada e abrir espaços de silêncio neste âmbito.

A verdadeira “reforma da reforma”

Faço um chamado de todo o meu coração para que se coloque em andamento a reconciliação litúrgica ensinada pelo Papa Bento, no espírito pastoral do Papa Francisco! A liturgia nunca deve se tornar a bandeira de um partido. Para alguns, a expressão “reforma da reforma” se tornou sinônimo de domínio de um partido sobre o outro. Portanto, esta expressão corre o risco de se tornar uma expressão inoportuna. Prefiro, por conseguinte, falar de reconciliação litúrgica. Na Igreja, o cristão não tem adversários!

Como escrevia o cardeal Ratzinger: “Temos que voltar a encontrar o sentido do sagrado, o valor de distinguir o que é cristão do que não é. Não para levantar barricadas, mas para transformar, para sermos verdadeiramente dinâmicos”. Mais que “reforma da reforma”, trata-se de uma reforma dos corações! Trata-se de uma reconciliação das duas formas do mesmo rito, em um enriquecimento recíproco. A liturgia deve sempre se reconciliar consigo mesma, com seu ser profundo!

Iluminados pelo ensinamento do motu proprio de Bento XVI, confortados pela audácia do Papa Francisco, é o momento de chegar ao fundo deste processo de reconciliação da liturgia consigo mesma. Seria um sinal magnífico se pudéssemos, em uma próxima edição do missal romano reformado, incluir no apêndice as orações ao pé do altar da forma extraordinária, talvez em uma versão simplificada e adaptada, e as orações do ofertório que contêm uma epiclese tão bela que completa o Canon romano. Deste modo, ficaria manifestado que as duas formas litúrgicas se iluminam reciprocamente, em continuidade e sem oposição!

19 maio, 2017

Bombástico: Bento XVI entra em campo para frear a deriva litúrgica e apoiar o Cardeal Sarah.

Em 2014, Bento XVI apoiou publicamente aqueles a quem chamou de “grandes cardeais”, em mensagem lida publicamente em Missa no Rito Tradicional celebrada na Basílica de São Pedro pelo Cardeal Burke, que, à época, perdia todos os postos que ocupava. Agora, sai novamente em defesa de outro Cardeal que perdeu completamente seu prestígio em Roma e viu sua Congregação ser sitiada por membros de orientação progressista, após algumas mínimas tentativas de restaurar certa dignidade na liturgia.

* * *

Por Riccardo Cascioli, La Nuova Bussola Quotidiana, 18 de maio de 2017 | Tradução: FratresInUnum.com – “Com o Cardeal Sarah a liturgia está em boas mãos.” Assinado: Bento XVI. O que à primeira vista pode parecer um simples gesto de respeito, é, na realidade, uma verdadeira bomba. Isso significa, de fato, que o Papa Emérito – apesar de seu estilo discreto – saiu diretamente em campo na defesa do Cardeal Robert Sarah, como prefeito da Congregação para o Culto Divino, que agora se encontra isolado e marginalizado pelos novos nomeados pelo Papa Francisco, e publicamente desautorizado em seu discurso pelo próprio Papa.

483x309

O gesto dramático de Bento XVI chegou sob a forma de um prefácio de um livro do Cardeal Sarah, “La Force du silence” (O Poder do Silêncio), ainda não traduzido em italiano. O texto de Bento XVI deverá ser publicado nas próximas edições do livro, mas já foi divulgado ontem pelo site americano First Things.

Nele, Bento XVI elogiou muito o livro do Cardeal Sarah e o próprio Sarah, definindo-o como “mestre espiritual, que fala das profundezas do silêncio com o Senhor, expressão de sua união íntima com Ele, e que por isso tem algo a dizer para cada um de nós” .

E no final da mensagem ele se diz grato ao Papa Francisco  por “ter nomeado um tal mestre espiritual à frente da Congregação para a celebração da liturgia na Igreja”. É uma nota que seria mais uma armadura do que gratidão real. Não é segredo o fato de que ao longo do último ano, o Cardeal Sarah foi gradualmente deposto de fato, primeiramente com a nomeação dos membros da congregação que tiveram o êxito de cercar Sarah com elementos progressistas abertamente hostis à “reforma da reforma” pedida por Bento XVI e que o cardeal guineense tentava colocar em ação. Em seguida, a desautorização aberta da parte do papa a respeito da posição do altar; e depois, a nova tradução dos textos litúrgicos que seria resultado de estudos de uma comissão criada sem o conhecimento e contra o Cardeal Sarah. Finalmente, os movimentos para estudar a criação de uma missa “ecumênica” ignorando a própria Congregação.

Trata-se de uma deriva que atinge o coração do pontificado de Bento XVI, o qual colocava a liturgia no centro da vida da Igreja. E no documento agora publicado, o Papa Emérito relança um aviso sério: “Assim como para a interpretação da Sagrada Escritura,  também para a liturgia é verdade que se faz necessário um conhecimento específico. Mas também é verdade para a liturgia que na especialização pode faltar o essencial se esta não estiver enraizada em uma profunda união interior com o Igreja orante, que sempre está aprendendo novamente com o Senhor o que vem a ser a verdadeira adoração”.  Daí a declaração final que soa como um aviso: “Com o Cardeal Sarah, mestre do silêncio e da oração interior, a liturgia está em boas mãos.”

Esta intervenção de Bento XVI, que tenta blindar o Cardeal Sarah e legitimá-lo efetivamente como chefe da Congregação para a Liturgia, não tem precedentes. E embora a forma é a de um comentário “inofensivo” em um livro, ninguém pode fugir do significado eclesial deste movimento, que indica a preocupação do Papa Emérito pelo que está acontecendo no coração da Igreja.

Bento XVI intervém agora sobre algo que talvez melhor tenha caracterizado o seu pontificado: “A crise da Igreja é uma crise da liturgia”, ele foi capaz de falar, e tal julgamento foi relançado pelo Cardeal Sarah. Mas não devemos esquecer o que Monsenhor Georg Geinswein disse em uma entrevista recente, de modo aparentemente inocente, ao responder a uma pergunta sobre a confusão que existe na Igreja e as divisões que surgiram. Ele disse que Bento  XVI acompanha atentamente a tudo o que acontece na Igreja. E agora vemos que, no silêncio, começa a dar alguns passos.

2 maio, 2017

Cardeal Sarah: Igreja enfrenta sério risco de cisma sobre assuntos morais.

Por LifeSiteNews, Nova York, 24 de abril de 2017 | Tradução: FratresInUnum.com: O Cardeal Robert Sarah advertiu que a unidade da Igreja está sendo ameaçada por líderes influentes que, de dentro dela, “insistem” na ideia de que igrejas nacionais têm a “capacidade de decidir por si mesmas”  sobre questões morais e doutrinais.

“Sem uma fé comum, a Igreja é ameaçada pela confusão e então, progressivamente, pode acabar deslizando para a dispersão e o cisma”, disse ele.

sarah“Hoje existe um sério risco de fragmentação da Igreja, de se dividir o Corpo Místico de Cristo ao insistir na identidade nacional das igrejas e, portanto, na sua capacidade de decidir por si mesmas, sobretudo no domínio tão crucial da doutrina e da moral”, acrescentou.

Católicos professam todos os domingos no Credo Niceno que a Igreja é “Una, Santa, Católica e Apostólica.” Estas são as quatro “marcas” assim chamadas da una e verdadeira Igreja.

Sarah, que vem de Guiné, fez os comentários quando foi perguntado em uma entrevista, no dia 18 de abril, pela organização “Ajuda à Igreja que Sofre” sobre a relação entre a “Igreja Africana” e a “Igreja Universal”.

O cardeal, que é o Prefeito da Congregação para o Culto Divino, afirmou que, estritamente falando, não existe tal realidade como  “Igreja Africana.”

“A Igreja Universal não é uma espécie de federação de igrejas locais”, disse. “A Igreja Universal está simbolizada e representada pela Igreja de Roma, com o Papa como sua cabeça, o sucessor de São Pedro e o chefe do colégio Apostólico, portanto, é ela que deu à luz a todas as igrejas locais e é ela que as sustenta na unidade da fé e do amor”.

Os comentários de Sarah serão vistos por alguns como uma oposição ao impulso que o Papa Francisco está dando às conferências episcopais de cada país, garantindo-lhes mais poder, até mesmo para resolver disputas doutrinais e morais.

Em sua exortação Evangelii Gaudium de 2013, o Papa Francisco pediu uma “conversão do papado”, que iria ajudá-lo  no “exercício” do ministério petrino.  Ele criticou no mesmo documento  a “centralização excessiva” do poder no ofício de Pedro, sugerindo que as conferências episcopais devem ser “empoderadas” com “autoridade doutrinária genuína.”

Francisco também escreveu sobre uma Igreja descentralizada em sua Exortação Amoris Laetitia de 2016: “Gostaria de deixar claro que nem todas as discussões sobre assuntos doutrinais, pastorais e  morais precisam ser resolvidas por intervenções do Magistério… Cada país ou região,  além disso, podem procurar soluções mais adequadas à sua cultura e sensíveis às suas tradições e as necessidades locais. “

Segundo o Arcebispo Stanislaw Gadecki, presidente da Conferência dos bispos da Polônia, o papa disse aos bispos poloneses no ano passado, que uma Igreja descentralizada seria capaz de interpretar encíclicas papais e resolver questões controversas, como dar a comunhão aos católicos divorciados e recasados civilmente.

Na entrevista à Ajuda à Igreja que Sofre, o Cardeal Sarah disse que a Igreja só vai crescer em todo o mundo se estiver unida pela “nossa fé em comum e nossa fidelidade a Cristo e ao seu Evangelho, em união com o Papa.”

“Como o Papa Bento XVI nos diz: ‘É claro que a Igreja não cresce ao tornar-se individualizada, separando-se a nível nacional, encerrando-se fora do contexto ou dentro de um contexto culturalmente específico, ou se outorgando um papel inteiramente cultural ou nacional. Em vez disso, a Igreja precisa ter unidade de fé, unidade de doutrina, unidade de ensino moral. Ela precisa do primado do Papa e de sua missão de confirmar na fé seus irmãos”, disse ele.

Mais adiante na entrevista, Sarah disse que a Igreja estaria “gravemente equivocada” se pensasse que questões de justiça social como a luta contra a pobreza e ajudar os migrantes são sua verdadeira missão.

“A Igreja está gravemente equivocada quanto à natureza da crise real, se ela acha que sua missão essencial é oferecer soluções para todos os problemas políticos relacionados com a justiça, a paz, a pobreza, a recepção de migrantes, etc… enquanto negligencia a Evangelização”, disse.

O cardeal disse que enquanto a Igreja “não conseguir dissociar-se dos problemas humanos”, ela acabará por “falhar em sua missão”, se ela se esquecer de seu verdadeiro propósito. Sarah, em seguida, baseou-se em Yahya Pallavicini, uma ex-católica italiana que se converteu ao Islã, para conduzir seu argumento: “Se a Igreja, com a obsessão que tem hoje com os valores da justiça, dos direitos sociais e da luta contra a pobreza, acabar, como resultado, por esquecer sua alma contemplativa, ela irá falhar em sua missão e será abandonada por muitos de seus fiéis, devido ao fato de que eles não mais reconhecerão nela o que constitui sua missão específica. “

25 julho, 2016

Falando com as paredes.

Enquanto um cardeal profere toda uma conferência para fundamentar seu pedido de retorno à posição “ad orientem” como um regresso à centralidade de Deus, outro purpurado limita-se, em sua tacanhez cnbbística,  a dizer que, nessa posição, o sacerdote celebra “voltado para a parede”…

Reforma da Liturgia. De novo?

Dias atrás, falou-se na imprensa e em alguns ambientes eclesiais de uma eventual nova reforma da Liturgia na Igreja. Propagou-se que os sacerdotes deveriam celebrar novamente a Missa voltados “ad Orientem” (para o Oriente), que significa que deveriam celebrar voltados para a parede, em vez de voltados para o povo, como se fazia antes da reforma do Concílio Vaticano II. Além disso, a santa Comunhão deveria ser recebida ajoelhados e diretamente sobre a língua.

A questão surgiu depois de uma recomendação, aos sacerdotes, do cardeal Roberto Sarah, Prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplinados Sacramentos, na abertura de um encontro sobre Liturgia, em Londres. Não se tratou de um ato oficial da Santa Sé, mas de um desejo do Cardeal,preocupado com o significado da liturgia do Advento; por ser ele o encarregado do Papa para a Liturgia em toda a Igreja, sua palavra foi tomada poralguns como se já fosse uma decisão da Santa Sé, com o aval do Papa.

Missa de Dom Odilo na Catedral da Sé em São Paulo.

Uma missa de Dom Odilo na Catedral da Sé em São Paulo. “A reforma promovida pelo Concílio não autoriza nem avaliza cometer abusos na liturgia”.

Sem demora, acaloradas discussões sobre uma suposta “reforma da reforma litúrgica” tomaram conta de alguns setores eclesiais; para alguns, seria necessário rever a reforma litúrgica promovida pelo Concílio, nas diretrizes da Constituição Sacrosanctum Concilium (1963). Isso significaria, na prática, voltar à maneira de celebrar a Liturgia antes do Concílio Vaticano II; motivos para tal revisão seriam a “intocabilidade” das normas litúrgicas anteriores ao Concílio, os abusos e a “dessacralização” das celebrações litúrgicas, supostamente causados pelas reformas conciliares.

Depressa, porém, a questão foi esclarecida durante uma audiência do cardeal Sarah com o Papa Francisco; e, no dia 11 de julho, o Padre Lombardi, porta-voz da Santa Sé, emitiu um Comunicado oficial, com “alguns esclarecimentos sobre a celebração da Missa”. Com suas palavras, o cardeal Sarah não estava anunciando orientações diversas daquelas atualmente vigentes nas normas litúrgicas e nas palavras do próprio Papa sobre a celebração “de frente para o povo” e sobre o rito ordinário da Missa.

O Comunicado recorda as normas da Instrução Geral do Missal Romano, relativas à celebração eucarística: “O altar-mor seja erigido separado da parede, para ser facilmente circundável e para que nele se possa celebrar de frente para o povo, como convém fazer em toda parte onde isso for possível. O altar ocupe um lugar que seja, de fato, o centro para onde se volte espontaneamente a atenção de toda a assembleia dos fiéis. Normalmente, seja fixo e dedicado” (nº 299).

No Comunicado, ficou claro que não está em andamento nenhuma “reforma da reforma da Liturgia”. E até se recomendou que seja evitado o emprego da expressão “reforma da reforma litúrgica”, que pode induzir a equívocos sobre a validade da disciplina litúrgica vigente na Igreja.

Resolvida a questão, vale lembrar, no entanto, que a reforma promovida pelo Concílio não autoriza nem avaliza cometer abusos na Liturgia. A disciplina litúrgica é regulada pelo Magistério da Igreja; e, sem prejuízo da criatividade, das liberdades e alternativas previstas nos ritos, ninguémestá autorizado, por iniciativa própria, a mudar a forma das celebrações e as normas litúrgicas prescritas. Mas a reforma do Concílio também supõe e requer uma contínua e adequada formação litúrgica do povo de Deus.

O critério fundamental da reforma litúrgica do Concílio é que “todos os fiéis sejam levados àquela plena, cônscia e ativa participação das celebrações litúrgicas, que a própria natureza da Liturgia exige e à qual, por força do Batismo, o povo cristão (…) tem direito e obrigação” (SC 14). A atenção e fidelidade criteriosa às normas litúrgicas deve sempre ter em vista essa “participação plena, consciente e ativa” dos fiéis nas celebrações da Liturgia, para que possam receber os abundantes frutos dos sagrados Mistérios celebrados.

Quanto à maneira de comungar, os fiéis têm a liberdade de receber a sagrada Comunhão na mão ou, diretamente, na boca; também podem recebê-la de joelhos, ou em pé. O que importa, mais que tudo, é que a recebam com fé, a fé da Igreja no Sacramento da Eucaristia, e com aquela dignidade interior e devoção exterior que convém à Eucaristia.

Cardeal Odilo Pedro Scherer

Arcebispo metropolitano de São Paulo

Publicado no Jornal O SÃO PAULO  edição 3111 – De 20 a 27 de julho de 2016.

24 julho, 2016

Foto da semana.

Oratório de Londres, 6 de julho de 2016 – Dando o exemplo: o Cardeal Robert Sarah, Prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina do Sacramento, celebra a Missa de Paulo VI “versus Deum”, por ocasião da conferência Sacra Liturgia, na qual apelou aos bispos e sacerdotes para que retomassem esta posição em suas celebrações.

11 julho, 2016

Reforma de um mínimo suspiro de tentativa de reforma da reforma. 

Nota do Fratres: Nada mais do que o esperado por parte da Sala de Imprensa da Santa Sé. O demissionário padre Lombardi — descanse em paz –, desmentidor oficial do Vaticano, rápido em rechaçar qualquer vestígio de ortodoxia e sonolentíssimo em fustigar enganos, não fez mais do que o seu papel. Nada havia a ser esclarecido. O bom cardeal Sarah foi claríssimo quando apenas sugeriu uma mudança, sem valor oficial. Mas, é fundamental, imperioso, defender as reformas pós-conciliares contra o menor sussurro dos restauracionistas.

Cardeal Sarah

Cardeal Sarah

Não se deve esquecer que, há pouco mais de um ano, o Papa Francisco, comemorando o aniversário da primeira missa em italiano celebrada por Paulo VI, disse, referindo-se aos que defendem uma “reforma da reforma”:

Vamos agradecer ao Senhor pelo que Ele tem feito na sua Igreja nestes 50 anos de reforma litúrgica. Foi realmente um gesto corajoso para a Igreja se aproximar do povo de Deus para que eles pudessem entender o que estavam fazendo. Isso é importante para nós, seguir a missa dessa forma. Não é possível voltar atrás. Devemos sempre ir adiante. Sempre adiante! E aqueles que querem voltar atrás estão enganados. Sigamos adiante neste caminho.

É importante ressaltar que a fala do cardeal guineense, pela clareza que incomoda a atual hierarquia, mobilizou, numa velocidade insólita, todo o aparato modernista-eclesiástico de apologetas do “espírito do Concílio”. Primeiro, foi Dom Vincent Nichols, o ultra-progressista arcebispo de Westminster, sede do encontro em que discursou Sarah, a escrever imediatamente a seus padres, instando-os ao não seguir o pedido do prefeito da liturgia. Um gesto nada elegante de “comunhão episcopal” nada fraterna.

Até no Brasil, o Cardeal Arcebispo de São Paulo, privadamente, demonstrou ceticismo e minimizou as notícias acerca do discurso de Sarah, afirmando ser um gosto particular do prefeito e não um ato oficial do Vaticano, e que uma tal mudança significaria rever o estabelecido pelo Vaticano II — da nossa parte, é inacreditável que um Cardeal ignore que o Vaticano II, em sua Constituição sobre a Sagrada Liturgia Sacrosanctum Concilium, nada tenha disposto sobre a posição do altar.

Por fim, a reunião de Francisco e Sarah logo após a conferência do purpurado em Londres já estava na agenda? Ou foi um chamado à ordem? Esperamos que a primeira alternativa seja a verdadeira. No entanto, alguns analistas associaram o duro discurso de Francisco, chamando de “hereges e não católicos” os que afirmam “‘é isso ou nada’”, ao livro “Deus ou nada”, do Cardeal Robert Sarah (cujo prefácio de Bento XVI desapareceu misteriosamente).

* * *

Celebração da Missa, nenhuma mudança dos altares

O cardeal Sarah, durante uma conferência em Londres havia convidado os sacerdotes a celebrar voltados ao Oriente, de costas para o povo. Após um esclarecimento com o Papa, a nota de Lombardi.

Por Andrea Tornielli – La Stampa | Tradução: FratresInUnum.com: Parecia mais que um convite, porque a falar sobre isso, se bem que durante uma conferência e não como um ato oficial, foi o cardeal Robert Sarah, Prefeito da Congregação para o Culto Divino. O cardeal Africano, há uma semana, em Londres, na abertura da conferência Sacra Liturgia, havia lançado uma espécie de apelo a todos os sacerdotes do mundo, convidando-os a começarem, no primeiro domingo do Advento, em novembro, a celebrar a missa “versus Orientem”, isto é, com o altar voltado para o leste, de costas para o povo, como se usava antes da reforma conciliar. “É muito importante que voltemos, o mais rápido possível para uma direção comum, sacerdotes e fiéis voltados na mesma direção, para o oriente, ou pelo menos para a abside, para o Senhor que vem”, disse ele, acrescentando: “Peço-vos aplicar esta prática sempre que possível “.

As palavras de Sarah reverberaram em todo o mundo, encontrando apoio entusiástico nos sites e nos assim chamados blogs tradicionalistas, mesmo porque o cardeal tinha acrescentado que iria começar, de acordo com o Papa, um estudo para se chegar a uma “reforma da reforma” litúrgica, visando melhorar a sacralidade do rito. Um dia após a conferência de Sarah, o cardeal arcebispo de Westminster, Vincent Nichols, escreveu uma carta a seus sacerdotes, instando-os a não celebrar a Missa voltada para o Oriente, tal como solicitado pelo prefeito do Culto Divino, também por causa da legislação em vigor sobre esse assunto.

Nos últimos dias, o Cardeal Sarah se encontrou novamente em audiência com Francisco. E na tarde de segunda-feira, 11 julho, padre Federico Lombardi, no mesmo dia em que foi anunciada a nomeação do seu sucessor, emitiu uma declaração, evidentemente em concordância com o Pontífice e o cardeal, que desmonta a validade do convite de Sarah e põe fim à expressão “reforma da reforma”, já há tempos abandonada até mesmo por Bento XVI.

“É oportuno um esclarecimento – afirma o porta-voz do Vaticano – na sequência de relatos da mídia que circularam após uma conferência realizada em Londres pelo Cardeal Sarah, prefeito da Congregação para o Culto Divino, poucos dias atrás. O Cardeal Sarah sempre esteve preocupado justamente com a dignidade da celebração da missa, de modo que seja expressa adequadamente a atitude de respeito e adoração do mistério eucarístico. Algumas de suas expressões foram, no entanto, mal interpretadas”, como se anunciassem novas indicações diferentes daquelas até agora promulgadas nas normas litúrgicas e nas palavras do Papa sobre a celebração voltada para o povo e sobre o rito ordinário da Missa.

“Portanto é bom lembrar – continua Lombardi – que a Institutio Generalis Missalis Romani (Instrução Geral do Missal Romano), que contém as normas relativas à celebração eucarística e que ainda está em pleno vigor, no nº 299, diz:”  “Altare extruatur a pariete seiunctum, ut facile circumiri et in eo celebratio versus populum peragi possit, quod expedit ubicumque possibile sit. Altare eum autem occupet locum , ut revera centrum sit ad quod totius congregationis fidelium attentio sponte convertatur”(isto é :” O altar deve ser construído destacado da parede, para que se possa facilmente circular em volta e celebrar voltado para o povo, o que é conveniente que seja realizado sempre que possível. O altar seja pois posicionado de modo a estar verdadeiramente no centro para que a atenção do fiel se volte naturalmente para a sua direção.”)

“Por sua parte, o Papa Francisco – afirma ainda o porta-voz do Vaticano – por ocasião da sua visita à Congregação para o Culto Divino, recordou expressamente que a forma” ordinária” da celebração da Missa é a prevista pelo Missal promulgado por Paulo VI, enquanto a forma “extraordinária”, que foi autorizada pelo Papa Bento XVI para as finalidades e com as modalidades por ele explicadas no motu proprio Summorum Pontificum, não deve tomar o lugar do “ordinário”.

“Não são, portanto, previstas novas orientações litúrgicas a partir do próximo Advento – esclarece Lombardi – como alguns erroneamente deduziram a partir de algumas palavras do Cardeal Sarah, e é melhor evitar o uso da expressão ‘reforma da reforma’, referindo-se à liturgia, dado que às vezes ela tem sido fonte de equívocos. Tudo isso foi expresso em concordância durante o curso de uma audiência recente concedida pelo Papa ao mesmo Cardeal Prefeito da Congregação para o Culto Divino”.

7 julho, 2016

Prefeito da Congregação para o Culto Divino: Sacerdotes, a partir de novembro, celebrem ad orientem! “Ouçamos novamente o lamento de Deus proclamado pelo profeta Jeremias: ‘eles voltaram as costas para mim’ (2:27) . Voltemo-nos novamente para o Senhor!”

Por Messa in Latino | Tradução: FratresInUnum.com: O Cardeal Sarah lança um apelo solene aos sacerdotes para que celebrem ad orientem a partir do primeiro domingo do Advento em 2016!

Isso acontece em Londres, na abertura da Conferência Sacra Liturgia 2016. E o Bispo de Fréjus-Toulon, Mons. Rey, respondeu imediatamente que assim o fará na sua diocese, depois de ter enviado uma carta a todos os seus sacerdotes.

img_7841_810_500_55_s_c1

 

Cardeal Sarah apela a todos os sacerdotes para que celebrem a missa ad orientem.

Por Edward Pentin – National Catholic Register | Tradução: FratresInUnum.com: O Cardeal Robert Sarah, prefeito da Congregação para o Culto Divino e a Disciplina dos Sacramentos, pediu a todos os sacerdotes para que retornem “tão logo seja possível” a celebrar a missa ad orientem, ou seja, voltados para o oriente ao invés de frente para a congregação.

O cardeal, ao fazer o que muitos consideram ser um anúncio histórico na Conferência Sacra Liturgia deste ano em Londres,  ontem à noite, disse que é “muito importante” que esta prática seja universalmente reintroduzida e sugeriu o período do Advento deste ano como um bom momento para fazê-lo.

Ele pediu aos sacerdotes para “implementar esta prática sempre que for possível, com prudência e com a catequese necessária”, mas também com a “confiança de que isso é algo bom para a Igreja, algo de bom para o nosso povo.”

Até antes das mudanças litúrgicas que se seguiram ao Concílio Vaticano II, os sacerdotes do rito latino só celebravam a missa ad orientem.

Cardeal Sarah também revelou em seu discurso que o Papa Francisco pediu-lhe, em abril, para começar um estudo sobre a reforma da reforma litúrgica que se seguiu ao Concílio, e para pesquisar  as possibilidades de enriquecimento mútuo entre as formas mais antigas e mais recentes do rito romano, como foi mencionado anteriormente pelo Papa Bento XVI.

“Este será um trabalho delicado e peço a sua paciência e orações”, disse o cardeal Sarah. “Mas se queremos implementar o Sacrosanctum Concilium mais fielmente, se desejamos alcançar o que foi almejado pelo Concílio, esta é uma questão séria que deve ser cuidadosamente estudada e agilizada com a necessária clareza e prudência”.

Aqui abaixo estão as palavras de discurso do Cardeal Sarah a respeito de seu desejo de que todos os sacerdotes voltem a celebrar ad orientem:

“Quero fazer um apelo a todos os sacerdotes. Os senhores talvez puderam ler meu artigo no L’Osservatore Romano, há um ano (12 de Junho de 2015), ou a minha entrevista para a revista Família Cristã, em maio deste ano. Em ambas as ocasiões, eu disse que creio que é muito importante retornar o mais rapidamente possível a uma orientação comum, tanto os sacerdotes como os fiéis voltados juntos para a mesma direção –  ou pelo menos para a abside -, para o Senhor que vem naquelas partes dos ritos litúrgicos quando estamos nos dirigindo a Deus. Esta prática é permitida pela legislação litúrgica atual. É perfeitamente legítima no rito moderno. Na verdade, creio que é um passo muito importante assegurar que em nossas celebrações o Senhor esteja verdadeiramente no centro.

E então, caros Padres, peço-lhes que implementem esta prática onde for possível, com prudência e com a necessária catequese, certamente, mas também com a confiança de pastor  de que trata-se de algo bom para a Igreja, bom para o nosso povo. O seu próprio juízo pastoral determinará como e quando isso será possível, mas, talvez, começá-lo no primeiro Domingo do Advento deste ano, quando esperamos ‘o Senhor que vem’ e que ‘não tardará’ (ver: Introito da Missa de quarta-feira da primeira semana do Advento) pode ser um boníssimo tempo para tal. Caros padres, ouçamos novamente o lamento de Deus proclamado pelo profeta Jeremias: “eles voltaram as costas para mim” (2:27) . Voltemo-nos novamente para o Senhor”.

… Desejo apelar também aos meus irmãos bispos: por favor, voltem os seus padres e seu povo ao Senhor dessa forma, particularmente em grandes celebrações em suas dioceses e em sua catedral. Por favor, formem os seus seminaristas na verdade de que não somos chamados ao sacerdócio para estarmos nós mesmos no centro da liturgia, mas para levar os fiéis de Cristo a Ele como irmãos adoradores. Por favor, facilitem essa simples, porém profunda reforma em suas diocese, catedrais, paróquias e seminários”.

Para mais excertos do discurso do Cardeal Sarah, veja a página do facebook da Conferência Sacra Liturgia aqui.