Posts tagged ‘Cardeal Tarcísio Bertone’

2 março, 2012

Vaticano: a rebelião dos cardeais estrangeiros contra Bertone.

IHU – O papa defende o secretário de Estado: ele tem defeitos, mas vai ficar. A reportagem é de Andrea Tornielli, publicada no sítio Vatican Insider, 01-03-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

“Estes são os documentos que devem ser vistos e apresentados, dos quais me chama a atenção a verdade histórica”. O cardeal Tarcisio Bertone ostenta tranquilidade. Cercado pelos seguranças vaticanos que o acompanham em todos os lugares, recém-chegado à mostra Lux in Arcana sobre os documentos do Arquivo Secreto vaticano, ele respondeu dessa forma às perguntas dos jornalistas que lhe perguntam sobre o clima envenenado levantado pelo “Vatileaks”.

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17 fevereiro, 2012

Culpados pelo vazamento de informações do Vaticano estão nos altos escalões da Secretaria de Estado. Serão enviados por Bertone para o Extremo Oriente e África.

Por Antonino D’Anna, Affaritaliani.it | Tradução: Fratres in Unum.com – “Posso dizer que aqueles que divulgaram os documentos serão os próximos núncios na África e nas ilhas asiáticas, muito longe de Roma, onde eles não podem causar danos. Esta é a punição que receberão pelo vazamento das informações daqui”. Desta vez, a voz da fonte de Affaritaliani.it é muito, muito gélida e seca, mas de fato: no tempo devido, acalmada as águas, o Vatican Information Service, o boletim que informa as notícias da Sala de Imprensa da Santa Sé, poderia anunciar a seus leitores a nomeação de “ao menos dois” ex-membros dos altos escalões da Secretaria de Estado. Os quais estarão de partida para a África e o Extremo Oriente, muito extremo. Na qualidade de núncios apostólicos, ou embaixadores do Papa. ‘Promoveatur ut amoveatur’, em perfeito estilo. Uma remoção sem remissão dos pecados. “Falemos claro”, continua a fonte, “se são enviados como núncios, certamente não são minutanti [ndr: cargo secundário na cúria que se ocupa com a preparação de minutas], ou seja, empregados. Se falamos de próximos núncios, é claro que se tratam de pessoas que trabalham nos níveis superiores, muito altos, enfim, próximos do escritório de Bertone. Bispos, arcebispos, e, de toda forma, gente na carreira”, diz a fonte. Que se expressa: “Desta vez, eles empenharam profundamente a Gendarmerie, lançaram a polícia vaticana com um mandato prioritário: descobrir rapidamente quem fofocava, para conter os vazamentos”. E então os resultados vieram, resultando em punição. “Bertone desta vez perdeu a paciência, o Papa foi informado e a operação foi realizada. Agora a punição será esta: o exílio e o fim de possíveis carreiras promissoras”. Quem são os mandantes? “Não há muito no que pensar. Eram monsenhores muito críticos a Bertone que começaram a distribuir documentos para atingi-lo. Foi um ataque vindo de dentro, não há mandantes neste momento”. E recorda dos Millenari, o famoso (imaginário?) grupo que escreveu o livro-escândalo “Via col vento in Vaticano.

17 fevereiro, 2012

O lobby anti-Bertone e o possível novo secretário de Estado.

IHU – O homem que está pronto para assumir o posto do cardeal Tarcisio Bertone como secretário de Estado tem sua escrivaninha na Praça Pio XII, nº. 3, praticamente em frente à Praça de São Pedro. Ele não move um dedo, não faz complôs. Está ali e se apresenta como um fidelíssimo do Papa Ratzinger, doutrinalmente seguro à prova de bombas e além disso… eficiente. Chama-se Mauro Piacenza (foto), prefeito da Congregação para o Clero.

A reportagem é de Marco Politi, publicada no jornal Il Fatto Quotidiano, 16-02-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

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16 fevereiro, 2012

Vazamento de notícias do Vaticano: identificada a origem.

IHU – A investigação da Gendarmeria: descobertos os escritórios de onde vazaram as cartas secretas. Sanções à vista para os responsáveis. A reportagem é de Marco Ansaldo, publicada no jornal La Repubblica, 15-02-2012. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

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14 fevereiro, 2012

Encarando a verdade nua e crua da confusão no Vaticano.

Por John L Allen Jr, Roma, 13 de fevereiro de 2012 | Tradução: Fratres in Unum.com

Fevereiro de 2012: inverno gelado no Vaticano.

Fevereiro de 2012: inverno gelado no Vaticano.

Um consistório, evento no qual o Papa cria novos cardeais, deveria ter um ar festivo. Os novos cardeais trazem a família, amigos e benfeitores a Roma, para ver os pontos turísticos e aproveitar a companhia uns dos outros. A tarde do consistório é o único momento em que as portas do Palácio Apostólico estão escancaradas ao público em geral, dando ao lugar um ambiente de confraternização.

Nesta semana, entretanto, será difícil simplesmente deixar as coisas boas acontecerem, pois o Vaticano, recebendo os 22 novos cardeais que Bento XVI criará no sábado, mais uma vez se parece com a turma que não pode agir honestamente.

Vejamos as manchetes que dominaram a imprensa italiana, que ecoa por todo o mundo, só nas últimas 72 horas:

“Complô contra o Papa: morto em 12 meses”
“O Papa está isolado no meio da guerra no Vaticano”
“Lavagem de dinheiro, padres investigados: o silêncio do Vaticano”
“Gays, escândalos e até maçonaria: a Igreja teme garganta profunda”

Desde 2009, em uma controvérsia criada pela decisão do Papa de levantar as excomunhões de quatro bispos tradicionalistas, incluindo um negador do holocausto, o Vaticano não era apanhado por uma onda de escândalo tão intensa — unido ao inevitável apontar de dedo, tanto pública como privada, sobre quem culpar.

Antes de prosseguir, vamos esclarecer dois pontos.

Primeiro, um pouco disso é o habitual melodrama italiano, que não deve necessariamente ser levado a sério. A especulação sobre tramas maquiavélicas é um esporte caseiro favorito na Itália, em qualquer estilo de vida. Vai desde política, negócios, até esportes, e nos últimos dias tem sido apenas a vez do Vaticano.

Segundo, há pouca atmosfera de crise dentro do próprio Vaticano. Quando você anda pelos escritórios do Vaticano, encontra pessoas indo tranquilamente para os seus afazeres. Estão cientes da tempestade se formando sobre eles, e muitos estão preocupados sobre o que tudo isso significa, mas não é como se houvesse pânico no ar.

Dito isso, a confusão atual simplesmente não pode ser descartada por uma razão chave: debaixo de tudo isso estão documentos verdadeiros do Vaticano, vazados por pessoas de dentro que sabiam muito bem que influência teriam. Esta “guerra de fotocópias”, como batizou um comentarista italiano, é então o último sinal de que tudo não está bem no governo interno do Vaticano.

Vamos brevemente rever os acontecimentos recentes.

Primeiro veio a revelação de cartas privadas escritas em 2011 pelo arcebispo italiano Carlo Maria Viganò ao Papa Bento XVI e ao Secretário de Estado, Cardeal Tarcisio Bertone. Nelas, Viganò se queixava da corrupção e camaradagem nas finanças do Vaticano, e de uma campanha interna de difamação contra ele e suas reformas.

Hoje núncio, ou embaixador, papal nos Estados Unidos, Viganò era, então, o oficial número dois no Governo do Estado da Cidade do Vaticano.

Enfaticamente, Viganò dá nomes, nessas correspondências, dos que supostamente o perseguiam. Seus vilões incluíam Monsenhor Paolo Nicolini, nos museus do Vaticano, e um bem articulado consultor leigo chamado Marco Simeon, que, conforme o relatado, é próximo de Bertone. O tom das cartas é no mínimo explosivo; Viganò, por exemplo, acusou Nicolini de “vulgaridade de comportamento e linguagem” nos museus do Vaticano, junto com “arrogância e presunção para com seus colegas de trabalho”, para não citar várias transações financeiras obscuras.

No momento, os jornais italianos estão cheios de pistas de que Viganò poderia voltar a Roma, pronto para expor todo tipo de outras roupas sujas do Vaticano. (Esta é a referência a “gays, escândalos e maçonaria” na manchete citada acima.)

Logo após, veio uma série de acusações dirigidas ao Instituto para as Obras da Religião (IOR), o chamado “Banco Vaticano”.

Um programa de televisão italiano chamado “Os Intocáveis” lançou matérias sensacionalistas acusando o IOR de recentemente transferir milhões de euros para bancos no exterior, para evadir os controles italianos, e de se negar a cooperar com vários inquéritos italianos, inclusive uma investigação sobre a morte, em 1982, do financista Roberto Calvi, conhecido como “banqueiro de Deus” por suas próximas ligações com o Vaticano. Citou também um memorando interno do Vaticano que sugere que uma nova lei anti-lavagem de dinheiro decretada por Bento XVI contém uma enorme brecha, tornando suspeitas as transações anteriores a abril de 2011 isentas de exames.

O Vaticano tem negado sismaticamente essas acusações, mas naturalmente incoerências enterraram as suspeitas.

Mais recentemente, um jornal italiano deflagrou outro terremoto ao publicar uma carta anônima, escrita em alemão, que citava o Cardeal italiano Paolo Romeo, de Palermo, sobre um suposto complô para matar Bento XVI dentro de doze meses, e para substitui-lo pelo Cardeal Angelo Scola, de Milão. A carta foi transmitida ao Papa pelo Cardeal colombiano aposentado Darío Castillón Hoyos.

Um porta-voz do Vaticano rechaçou a matéria como “loucura”.

Ainda para constar, os documentos em todos os casos são autênticos. Por ora, o Vaticano reconheceu que as cartas de Viganò, o memorando sobre lavagem de dinheiro, e a carta anônima sobre um complô anti-papal são todos verdadeiros — embora insista que em cada caso os conteúdos são exagerados ou errôneos.

Noutras palavras, o Vaticano está vazando como uma peneira.

Há um intenso debate sobre quem está por trás desses vazamentos, com os jornais italianos apontando para um “espião” dentro do Vaticano.

Parece haver grande consenso sobre a quem culpar pelo estado geral das coisas: o Cardeal italiano Tarcisio Bertone, Secretário de Estado, que seria o “Primeiro Ministro” do Vaticano, a pessoa responsável em fazer os trens chegarem na hora.

Como colocou o comentarista italiano Sandro Magister, a bagunça faz Bertone, 77, parecer “o Primeiro Ministro de um governo que não funciona”.

Na sexta-feira, todos os membros do Colégio de Cardeais se reunirão com o Papa Bento XVI para um “dia de oração e reflexão” antes do consistório. Resta ainda ver se os cardeais aproveitarão a ocasião para enfrentar a verdade nua e crua, pressionando Bento XVI, gentil e respeitosamente, a tomar o controle da situação.

Há três razões pelas quais eles poderiam querer fazê-lo — o que não é, claro, prever que eles o farão.

Primeiro, alguns desses cardeais têm coisas a fazer em casa, e a atual piti no Vaticano não está ajudando. Timothy Dolan, de Nova Iorque, está atualmente envolvido em um cabo de guerra de alto risco com a administração de Obama sobre o seguro de saúde obrigatório. Seria bom se um embaixador papal poderoso e bem articulado estivesse em cena em Washington para ajudar governar essas tensões, mas este, obviamente, não é o caso.

Segundo, a percepção de intrigas obscureceu o que deveria ser um punhado de boas notícias para o Vaticano. Na semana passada, o Vaticano co-patrocinou um encontro sobre a crise de abusos sexuais, chamando a uma resposta global proativa e comprometendo-se com reformas.

Agora mesmo, o pessoal do Vaticano está movendo o céu e a terra para trazer a instituição a uma conformidade com os padrões internacionais de transparência financeira; provavelmente em nenhum outro período da história o Vaticano se comprometeu tão plenamente a cooperar com órgãos reguladores seculares externos. Em um ciclo normal de notícias, estes temas poderiam redefinir as impressões do Vaticano e da Igreja em um tom positivo; no momento, eles estão competindo com, e basicamente perdendo para, histórias de escândalos.

Terceiro, o estrago feito pelos infortúnios do Vaticano é sentido em todo o mundo católico. Quando uma verdadeira bomba explode, o estrago é mais intenso perto da zona da explosão. Quando uma bomba explode em Roma, todavia, aqueles próximos à cena frequentemente não a sentem, mas os católicos de muito longe podem ficar fortemente cicatrizados. Os veteranos do Vaticano frequentemente se movem numa bolha, cercados por subordinados e simpatizantes, isolando-se dos efeitos das impressões públicas negativas. Os católicos que sobrevivem no mundo real não têm tanta sorte. Eles têm de encarar os efeitos colaterais na mídia, entre seus amigos, no cafézinho do trabalho. Colocar as coisas em ordem, portanto, não se trata exclusivamente, ou mesmo principalmente, de ajudar o Papa ou a Santa Sé.

Trata-se de não colocar obstáculos desnecessários no caminho do cidadão comum, que só quer viver sua fé e, talvez, dividi-la com outros.

Na sexta-feira, espera-se que os cardeais falem sobre a “nova evangelização”. Talvez, dar uma olhada mais atenta na confusão do Vaticano poderia ser um ponto de partida.

13 fevereiro, 2012

Complô no Vaticano: Bertone enfurecido pelo enésimo vazamento de informação, cardeais contrangidos. E para alguns o conclave já começou.

Por Ignazio Ingrao, Panorama.it | Tradução: Fratres in Unum.com

Romeo, Castrillon e Scola.

Romeo, Castrillón e Scola.

O Cardeal Tarcisio Bertone está furioso com o enésimo vazamento de informações e documentos dos Sagrados Palácios. Em 28 de janeiro passado, na reunião de chefes de dicastérios, na presença do Papa, o Secretário de Estado havia recomendado aos bispos e cardeais que mantivessem a máxima reserva sobre os documentos que circulam na Cúria e que controlassem os seus próprios colaboradores. O memorando reservado que o Cardeal Dario Castrillón Hoyos fez chegar ao Papa no mês de janeiro, conforme relatado pelo Il Fatto Quotidiano, circulou por dias nos Sagrados Palácios. Assim como era conhecido o caso da viagem do Cardeal Paolo Romeo à China. Uma coisa é certa: não foi o Cardeal Castrillón, que também conhece bem o alemão, quem redigiu a nota, mas ela lhe foi passada já escrita por círculos da Igreja alemã com que o cardeal colombiano tem contato. Questionado por Panorama, Castrillón não quis revelar a identidade de quem lhe passou o texto. Quanto ao Cardeal Romeo, há muito embaraço na Cúria de Palermo. O ex-núncio [da Itália], arcebispo na capital da Sicília há cinco anos, viajou para a China como afirmou o documento, mas não tinha nenhum mandato da parte da Santa Sé. É difícil imaginar que um diplomata experiente como Romeo tenha se permitido lançar declarações como as que constam do documento entregue ao Vaticano. Pelo contrário, pesa nesta questão a antiga inimizade entre Romeo e Castrillón. O arcebispo de Palermo, de fato, nunca escondeu sua desconfiança em relação aos tradicionalistas, dos quais, por sua vez, Castrillón é muito próximo. Por ocasião da visita do Papa a Palermo em 2010, Romeo fez a Digos [ndr: departamento da polícia italiana de combate a subversões e terrorismo] retirar uma faixa de católicos tradicionalistas dirigida ao Papa. De sua parte, o Cardeal Castrillón foi colocado um pouco de lado após o caso Williamson, o bispo lefebvriano negacionista ao qual, por sua sugestão, o Papa levantou a excomunhão. É provável, então, que quem fabricou a nota do complô decidiu aproveitar a discórdia entre Romeo e Castrillón e tenha contado com a vontade do cardeal colombiano de voltar às “graças” do Papa levando a ele tal documento. No Vaticano, não dão qualquer peso à ameaça da trama anunciada no texto. Mas para alguns, evidentemente, as manobras em vista do conclave já começaram. E o arcebispo de Milão, Angelo Scola, já é considerado um concorrente “formidável” para o sólio de Pedro.

7 fevereiro, 2012

Ocaso sem glória para o Cardeal Bertone.

O vazamento de cartas acusatórias. A malsucedida operação do San Raffaele. O Secretário de Estado está cada vez mais solitário, na cúria que não governa e com um Papa a quem não ajuda.

por Sandro Magister, L’Espresso nº 6 de 2012 | Tradução: Fratres in Unum.com

Roma, 2 de fevereiro de 2012 – No Vaticano não marcham os “indignados”, mas se combate a golpes de documentos. No sábado, 28 de janeiro, o conselho de ministros da cúria romana, na presença do Papa, dedicou uma parte de sua reunião a estudar como colocar uma barreira ao vazamento de documentos. Haviam passado somente três dias desde a última e clamorosa fuga: um maço de cartas confidenciais escritas a Bento XVI e ao Cardeal Secretário de Estado, Tarcisio Bertone, pelo então secretário do Governatorato da Cidade do Vaticano, hoje núncio em Washington, o arcebispo Carlo Maria Viganò.

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6 fevereiro, 2012

O misterioso anúncio da não criação cardinalícia de Padre Karl Becker, SJ, no próximo consistório.

A última atuação estupefaciente da Secretaria de Estado é de ontem mesmo [sexta-feira, 3] e veio no “Bollettino“: o anúncio de que o Cardeal designado Becker [ndr: Pe. Karl Becker, jesuíta de 83 anos, o mais alinhado ao pensamento do Papa Bento XVI dentre os designados para o consistório do próximo dia 18, tendo sido, inclusive, perito da Santa Sé nas discussões teológicas com a FSSPX] sai de cena por razões de saúde e não será feito cardeal no próximo dia 18, mas numa cerimônia privada posterior. Vários sites especializados comentam que o anúncio é problemático: não fica claro se o jesuíta Becker será feito [cardeal] “in absentia” e não receberá, por isso, o título ou diaconia, ou se, em que pese o anúncio de sua criação, não será feito e publicado cardeal. Nem se, em caso de criação posterior, se realizará em consistório, ordinário ou extraordinário, ou por ato privado, o que seria incomum. Pelo visto, na Secretaria de Estado a história foi esquecida. A ausência jamais impediu a criação cardinalícia. A história está cheia de casos de cardeais que nunca quiseram ir a Roma (como Richelieu, cardeal em 1622, falecido em 1642 sem título porque nunca foi a Roma) e nem por isso deixaram de ser cardeais em plenitude. Que impedimento há para que o Pe. Becker seja um caso a mais — como há dezenas de cardeais sem título — para que seja feito e publicado cardeal, ainda que não possa estar presente para receber título ou diaconia? Mistério. De qualquer forma, se não for criado, seu capelo dependerá de sua saúde (ou, tendo que esperar um futuro cardeal, da do Papa), com o perigo de que ao fim tudo termine num caso raríssimo de um quase-cardeal anunciado e logo apagado da lista.

Comentário de “Don Antonio Lasierra” publicado no blog La Cigüeña de la Torre.

26 janeiro, 2012

Santa Sé: Nota de imprensa sobre o programa de televisão “Os intocáveis”.

Por Vatican Information Service | Tradução: Fratres in Unum.com

Cidade do Vaticano, 26 de janeiro de 2012 – Foi publicada, ao meio-dia de hoje, uma nota do Padre Federico Lombardi, S.I., diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé, a respeito do programa de televisão “Os intocáveis”, transmitido ontem à noite pela rede italiana “La7”. O Pe. Lombardi manifesta a “tristeza pela difusão de documentos reservados”, e assinala os “métodos jornalísticos discutíveis” com que foi realizado o programa,  que frequentemente fazem parte de um “estilo de informação agitador em relação ao Vaticano e à Igreja Católica”.

Da mesma forma, o diretor da Sala de Imprensa da Santa Sé realiza duas considerações “que não tiveram espaço no debate”. Em primeiro lugar, “o trabalho levado a cabo por Mons. Viganò como Secretário-geral do Governo [do Estado da Cidade do Vaticano] teve, certamente, aspectos muito positivos, contribuindo a uma gestão caracterizada pela busca do rigor administrativo, da economia e da correção de uma situação econômica ao todo difícil. (…) Uma avaliação mais adequada requereria, todavia, ter em conta o andamento dos mercados e dos critérios das aplicações no curso dos últimos anos, assim como recordar também outras circunstâncias importantes. (…)

“Algumas acusações – inclusive muito graves – feitas durante o programa, em particular as relativas a membros do comitê de Finanças e Gestão do Governo e da Secretaria de Estado, comprometem a própria Secretaria de Estado e o Governatorato, que seguirão todas as vias oportunas, inclusive as legais, se necessário, para garantir a honra das pessoas moralmente íntegras e de reconhecido profissionalismo, que servem lealmente à Igreja, ao Papa e ao bem comum. Em todo caso, os critérios positivos e claros da correta e sã administração e de transparência nos quais se inspirou Mons. Viganò seguem sendo, certamente, os que guiam também os atuais responsáveis do Governatorato. (…) E isso é coerente com a linha de crescente transparência, confiabilidade e atento controle das atividades econômicas com que a Santa Sé está claramente comprometida”.

Em segundo lugar, “um procedimento de discernimento difícil sobre os diversos aspectos do exercício do governo em uma instituição complexa e articulada como o Governatorato – e que não se limitam ao justo rigor administrativo —  foi, entretanto, apresentado de modo parcial e banal, exaltando evidentemente os aspectos negativos, com o fácil resultado de apresentar as estruturas do governo da Igreja não tanto como afetadas pela fragilidade humana – o que seria facilmente compreensível – mas como caracterizadas profundamente por disputas, divisões e jogo de interesses. (…) Tanta desinformação certamente não pode ocultar o sereno trabalho diário em vista a uma transparência cada vez maior de todas as instituições vaticanas”. (…)

“Desta perspectiva, é necessário reafirmar decididamente que a nomeação ao encargo de Núncio nos Estados Unidos de Mons. Viganò, uma das tarefas de maior relevo de toda a diplomacia vaticana, dada a importância do país e da Igreja Católica nos Estados Unidos, é uma prova indubitável de estima e confiança por parte do Papa”.

26 janeiro, 2012

Grandes funerais na corte!

Por Francesco Colafemmina | Tradução: Fratres in Unum.com

Bertone comenta partida de futebol para televisão italiana.

Bertone comenta partida de futebol para televisão italiana.

Muitos de vocês viram na noite passada o programa de TV “Os Intocáveis”, comandado na La7 por Gianluigi Nuzzi. Tema da transmissão: a remoção de Monsenhor Carlo Maria Viganó, ex-secretário do Governatorato do Estado da Cidade do Vaticano, pelo Cardeal Bertone e seus acolitos. Infelizmente para o Cardeal, e, ah!, para o Santo Padre, para defender a Santa Sé da acusação de ser uma espécie de pequena corte de mistérios, cheia de falsidades, inveja e chantagens, foi convidado ao estúdio o inculpável Professor Vian [ndr: editor chefe do L’Osservatore Romano]. Um homem de cultura, equilibrado, um professor e um jornalista do mais alto perfil que, no entanto, não tem uma grande familiaridade com o meio televisivo. Resultado: o escândalo não pode ser contido. Então podemos muito bem falar sobre isso. Comecemos de trás para frente…

No início de setembro de 2011, surgiu a notícia publicada inicialmente em Panorama sobre um “corvo no Vaticano”. Um misterioso autor anônimo de uma missiva cáustica contra o Cardeal Bertone. A carta começa com uma citação de São João Bosco: “Grandes funerais na corte!”. A citação dizia respeito a um “sonho ameaçador” do santo, que previu, em 1854, enquanto se discutia a abolição das ordens religiosas, mortes na família de Vittorio Emanuele II.

Apenas os fantasiosos leitores de Dan Brown poderiam imaginar, em setembro último, que por trás da citação havia uma atemorizante ameaça de morte ao Secretário de Estado. Na verdade, alguém preparava uma vingança e a explosão da “gangue” bertoniana no Vaticano.

Este alguém era próximo de Carlo Maria Viganò, Monsenhor do ferro, nomeado em julho de 2009 secretário do Governatorado e, posteriormente, “deposto” com uma carta de Bertone, de 13 de agosto de 2011, para Washington (EUA), como núncio apostólico.

Mas já havia sinais desta deposição desde, ao menos, o início de 2011. Em 5 de fevereiro, apareceu em “Il Giornale” um artigo praticamente anônimo que falava do desejo de Viganò de substituir o serviço de inteligência do Vaticano “interna”, confiado a “uma pessoa decente”, por um serviço a ser confiado a uma empresa externa. A pessoa decente seria o aretino Domenico Giani, e o Arcebispo vilão, Mons. Viganò: “Se teme pela segurança, pela confidencialidade; não agradam as iniciativas de quem está interessado em mudar um sistema que por anos tem funcionado e servido fielmente aqueles a quem, exclusivamente, deve responder. A inteligência do Vaticano é cuidada por um homem decente, que sabe muito bem quem são os seus superiores, mas a pressão exercida por um arcebispo para substituir o trabalho interno por  uma central de segurança de uma empresa externa está se tornando insustentável. Quem é este arcebispo de olhar sinistro, que lança a perturbação no santo condomínio? O nome é coberto pelo sigilo. Quem será?”.

O nome é o de Viganò, censurado pela acusação de ser um nepotista, por causa da presença no Vaticano de seu sobrinho, Carlo Maria Polvani. O artigo concluía: “O fato é que alguém do Palácio Apostólico, apaixonado por futebol, em algum momento intervirá para chamar o jogador com as palavras de um famoso treinador. É de se imaginar que o aviso será: ‘zeru tituli’ [ndr: “nenhum título”, referência à provocação feita por José Mourinho em 2009, então técnico da Internazionale de Milão, aos rivais Milan e Juventus. A frase ficou famosa pelo erro de pronúncia do técnico português; o correto seria zero titoli]. Em suma, mesmo no Vaticano, vale ainda a competência, princípio imperativo, especialmente em um ambiente em que o sigilo construiu a própria inviolabilidade”.

Eis que chega, então, o esportivo Bertone, que alerta Viganò e o manda embora… Mas quando a carta do “Corvo” chega em setembro, quem é chamado para investigar? Exatamente Domenico Giani, então ex-oficial da Sisde [ndr: Servizio per le Informazioni e la Sicurezza Democratica – o serviço de inteligência italiano]. Toda essa história nos mostra, então, um sistema feito de chantagens indiretas, de “dossiês”, de informações reservadas e cartas anônimas, que ameaça implodir. E o problema é que esse sistema coincide com o centro espiritual do catolicismo.

Sigamos em frente. No programa de ontem, foram mostradas inquietantes cartas escritas por Mons. Viganò ao Pontífice e ao Secretário de Estado. Espalhar estas cartas através da mídia certamente não é um método ortodoxo para comunicar seu desconforto. Assemelha-se mais a um  “acerto de contas”, mas não se diz que por trás do acerto de contas há um benefício em potencial para a Santa Sé e para o catolicismo. Porque é evidente que estas cartas foram difundidas hoje, há poucas semanas do anúncio do Consistório blindado pelo Cardeal Bertone. Constituem, assim, a abertura de uma verdadeira e própria guerra para o próximo conclave, na qual fica claro quem poderia sucumbir, mas não a face do potencial vencedor.

Esta guerra, no entanto, se estendeu por uma frente muito mais ampla do que podemos imaginar. E esta frente atinge o poder laico da Maçonaria, o poder das finanças, o poder da política (na verdade, muito reduzida em comparação com o passado). Monsenhor Viganò cita entre os artífices da conspiração para desacreditá-lo primeiro e, em seguida, destitui-lo, um tal de Marco Simeon. Menino prodígio ligado a Bertone e elevado às honras das manchetes em 2011 por seus contatos com o suposto chefe da [loja maçônica] P4, Luigi Bisignani. Simeon chamaria  Bisignani ao telefone de  “coach” (treinador). Mas já em 2010, como parte de outras escutas telefônicas para a gestão de contratos do G8 em La Maddalena, essa figura do “coach” aparece em uma comunicação entre Simeon e um terceiro. O objeto da discussão entre Simeon e Bisignani era um artigo do Espresso dedicado ao tráfego relacionado ao G8. E todos recordam que pelo escândalo dos contratos do G8 foi preso Angelo Balducci, então cavaleiro de Sua Santidade  e visitador frequente de Mons. Camaldo, cerimoniário do Papa, mais conhecido por um apelido irreverente que traz à mente o filme “Uma cilada para Roger Rabbit”. Camaldo, como apurou há alguns anos o procurador Woodcock,  estava envolvido em uma transação financeira para a compra de uma casa que pertenceu a Sophia Loren com o objetivo de torná-la a sede de uma associação maçônica. Camaldo está ainda entre os cerimoniários do do Papa.

Desses fatos surge a imagem de um Vaticano que não se ocupa em nada de religião, que não promove a fé, mas vive de chantagens, ludíbrios, corrupção e, às vezes, depravação. Surge a imagem de um Papa que não governa ou é colocado em condições de não governar. Surge a imagem de um Secretário de Estado onipotente que alimenta carreirismos e assuntos privados à sombra da cúpula. Esta é a imagem de uma hierarquia repugnante. E não importa se hoje quase nenhum jornal, mesmo aqueles online, falam do assunto, só porque foi dado o toque de recolher. Seria preferível se perguntar por que os jornais italianos, sempre prontos a falar mal da Igreja, hoje não estão interessados em um escândalo tão descarado. Saber que o Vaticano organiza um presépio na Praça de São Pedro pelo custo exorbitante de 550 mil euros é uma notícia fantástica! Da mesma forma como saber que o Vaticano, em 2009, perdeu 2 milhões e meio de dólares em uma única transação financeira equivocada… E estes dados estão contidos na carta do Monsenhor Viganò ao Papa.

Seria perverso e inútil defender o indefensável. Lançar o coro habitual sobre padres que são antes de tudo homens. A fumaça de Satanás realmente tem se infiltrado no Vaticano e, embora ainda existam muitos padres, bispos e cardeais dignos e talvez santos, eles estão sobrecarregados pela lamacenta crosta de interesses e privilégios que sufoca qualquer vislumbre de espiritualidade. Neste ponto, como simples católico, só posso esperar que os grandes funerais metafóricos se tornem reais. Que o escândalos façam uma faxina nos laços entre Igreja e poderes maçônicos. Muitos se escandalizarão, alguns perderão a fé, mas se não forem cortados os ramos secos e doentes, toda a planta acabará morrendo.

“Vi uma igreja estranha que era construída contra todas as regras… Não havia anjos para cuidar das operações de construção. Naquea igreja não havia nada que viesse do alto… Havia apenas divisão e caos. Trata-se provavelmente de uma igreja de criação humana, que segue a última moda, assim como a nova igreja heterodoxa de Roma, que parece do mesmo tipo…”.

(Profecia da Beata Anna Catarina Emmerich – 12 de setembro de 1820)