Posts tagged ‘Cardeal Walter Kasper’

9 outubro, 2015

Crônicas do Sínodo – O fator Kasper.

Por Hermes Rodrigues Nery | correspondente de FratresInUnum.com em Roma – Na terça-feira, 6 de outubro, chegando à Praça de São Pedro e dirigindo-me à Porta S. Ufficio, que dá acesso à sala Paulo VI, onde ocorre o Sínodo da Família, enquanto caminhava pelas colunas, observei a movimentação de um bispo, que conversava com uma equipe da imprensa televisiva, dando entrevistas.

Conversando com o meu professor de Bioetica, o Cardeal Mons. Elio Sgreccia, e Walter Kasper, ao fundo, à esquerda.

Conversando com o meu professor de Bioetica, o Cardeal Mons. Elio Sgreccia, e Walter Kasper, ao fundo, à esquerda.

Estava sozinho, sem nenhum padre ou assessor por perto, muito menos qualquer cardeal. Com loquacidade, gesticulava dando explicações ao jornalista, estando muito bem a vontade para expor o que pensava naquele momento. Procurei saber quem era, mas, de imediato, não me veio à memória o nome do prelado. Passei então pela guarda suíça na entrada da Porta S. Ufficio, e depois de passar pela Congregação da Doutrina da Fé, fiquei próximo de outros jornalistas e assessores no saguão de entrada, por onde entravam e saiam os bispos e cardeais.

Era pouco antes do almoço, quando começaram a transitar pelo saguão várias autoridades episcopais, dentre eles, muito ativo, veio Walter Kasper, que ficou por ali um bom tempo, conversando com um, cumprimentando outro, chamando alguém para mais perto, sorrindo, dando coordenadas para outro e fazendo articulações. Quando aproximou-se dele aquele bispo que eu havia visto dando entrevistas nas colunas da Praça, demonstrando muita familiaridade com os jornalistas.

franciscoEnquanto eu estava ali muito próximo deles, conversando Cardeal Elio Sgreccia (que foi meu professor de Bioética), ia observando Kasper confabulando ininterruptamente com o bispo, em meio a sorrisos incontáveis. Dava a impressão de que o prelado relatava-lhe o sucesso da manhã, de que tudo estava sob controle, de que havia guarnecido a imprensa das informações convenientes. E enquanto conversavam muito alegremente, o papa Francisco apareceu no saguão, conversando em particular com um bispo, que o tomou pelo braço e caminhou tranquilamente com ele, descendo a pequena rampa à esquerda, em direção à Casa de Santa Marta. Somente ele e o bispo seguiram pela via.

Outros bispos e cardeais se aglomeram em volta de Kasper, no saguão, todos  contentes, enquanto pareciam ouvir dele novas recomendações. Naquele momento, ficou claro de que Kasper pontificava, e tinha em torno de si um bom número de apoiadores, que o cumprimentava como se fosse um anfitrião do evento, alguém a quem eles faziam questão de partilhar alguma opinião e, em seguida, entravam em suas vans e foram para o almoço. Era evidente que Kasper estava feliz da vida com o andamento das coisas, principalmente depois que aquele bispo veio lhe contar as novidades, o mesmo que vi aparecer, à noite, em jornal televisivo italiano, enquanto jantávamos no ristorante Il Pozzo.

O fato é que não se pode subestimar o poder de influência de Kasper, pelas reviravoltas que ele já deu em sua vida, e do papel decisivo que desempenhou no conclave que elegeu o papa Francisco. Conta o vaticanista Andreas Englisch que Walter Kasper havia completado “oitenta anos  em 5 de março de 2013”, e que “segundo a Constituição papal (Romano Pontifici eligendo), do papa Paulo VI, de 1975, os cardeais que já completaram oitenta anos ficam excluídos da eleição papal. Com isso Kasper não poderia participar”. Mas, Kasper encontrou a justificativa pela qual garantiu a sua participação no conclave: “a data limite, contudo, não é o dia do início do conclave, mas sim o dia do início da sé vacante, o momento a partir do qual o trono está vazio. E Bento XVI havia determinado que a sé vacante teria início a partir de 28 de fevereiro, às 20h. Àquela altura, Kasper tinha 79 anos”.

Kasper havia trabalhado muito para reverter a sua situação e assumir uma posição de influência, para advogar sua tese que hoje busca fazer prevalecer no Sínodo, desde 1993, como lembra Englisch, quando ele havia feito “uma declaração a respeito dos divorciados que se casam novamente.” Junto com Karl Lehman, “ambos questionaram a regra da Igreja que proíbe a essas pessoas os sacramentos católicos, portanto, não permite outro matrimônio.” Ratzinger que, na época, era o Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, “então ordenou que os dois se abstivessem de fazer declarações e ainda aos obrigou a retirar tudo o que tinham dito na frente do púlpito”. Kasper e Lehman foram então “dois ferrenhos opositores de Ratzinger, mesmo que não tivessem admitido essa oposição publicamente”. E muitos dos problemas que Bento XVI teve em seu pontificado, foi por conta também da dura oposição de Kasper, Lehman, Godfried Danneels e outros que queriam intensificar um aggionamento acalentado por tantos desde o Vaticano II. E quando Ratzinger se tornou papa, Kasper se somou aos demais que agiram para isolá-lo cada vez mais, até o extenuamento que o levou à abdicação, como descreve Englisch:

“Eu presenciei como o Papa Bento XVI foi sendo cada vez mais segregado. Fui testemunha de seu enfraquecimento orquestrado. Ele se rebelou, chegou a ser o primeiro papa da história a escrever uma carta pessoal aos bispos, na qual perguntava como a Igreja tinha chegado àquele ‘morder e devorar’ e questionava por que eles o haviam atacado com tanta violência”.

E então, uma semana depois de completar 80 anos, os cardeais entraram para o conclave, cuja atuação de Kasper foi decisiva para a eleição de Francisco, tanto que o novo bispo de Roma veio a público, no seu primeiro Angelus, mencionar que estava lendo com muito proveito um livro de Walter Kasper sobre o tema da misericórdia, o que demonstrou o quanto Kasper tinha o seu respaldo para retomar à sua tese de 1993. Só que agora, vigorado na idade octogenária, pontificando no Sínodo da Família.

7 abril, 2015

A revolução eclesiástica e cultural do cardeal Walter Kasper.

Por Mathias von Gersdorff* – ABIM

Agencia Boa ImprensaEm resposta ao artigo “O evangelho da família – O discurso diante do Consistório”, no qual o cardeal Kasper propõe um amolecimento da doutrina e da prática da Igreja quanto à recepção dos Sacramentos por divorciados recasados, apareceram dois livros importantes.

O primeiro deles, Permanecer na verdade de Cristo: Matrimônio e Comunhão na Igreja Católica, [foto acima] foi publicado por Roberto Dodaro com contribuições dos cardeais Gerhard Ludwig Müller, Carlo Caffarra, Walter Brandmüller, Raymond Leo Burke e Velasio de Paolis, além de outros teólogos.

O segundo livro intitula-se O verdadeiro Evangelho da família. A indissolubilidade do matrimônio: Justiça e Misericórdia, [foto abaixo] de autoria de Juan José Pérez-Sobra e Stephan Kampowski, professores no Instituto Pontifício João Paulo II. As duas obras se complementam e oferecem no seu conjunto um apanhado bastante completo sobre o tema.

23 março, 2015

Ações do Sínodo. Cai Kasper, sobe Caffarra.

Também o Papa Francisco se distancia do primeiro e se aproxima do segundo. E mantém-se próximo ao Cardeal Muller. E promove o africano Sarah. Todos eles intransigentes defensores da doutrina católica sobre o matrimônio. 

Por Sandro Magister, 20 de março de 2015 | Tradução: Fratres in Unum.com – “Com isso não se soluciona nada”, disse o Papa Francisco sobre a idéia de administrar a Comunhão aos divorciados que voltaram a se casar [civilmente]. E muito menos se eles a “querem”, reivindicam-na. Pois a comunhão não é “uma insígnia, uma honraria. Não”.

Em sua última grande entrevista, Jorge Mario Bergoglio esfriou as expectativas de mudança substancial na doutrina e na praxe do matrimônio católico que ele mesmo havia, indiretamente, alimentado:

> Los primeros dos años de la “Era Francisco” en entrevista a Televisa

Francisco e Caffarra.

“Expectativas descomedidas”, definiu ele. E já não mencionou as teses inovadoras do Cardeal Walter Kasper, que ele havia engrandecido em várias ocasiões, mas das quais parece ter se distanciado.

Vice-versa, já há algum tempo o Papa Francisco olha com crescente atenção e estima a outro cardeal teólogo, que sobre o “Evangelho do matrimônio” sustenta teses perfeitamente alinhadas à tradição: o italiano Carlo Caffarra, arcebispo de Bolonha.

Como professor de teologia moral, Caffarra era especialista em matrimônio, família e procriação. E, por esta razão, João Paulo II o quis como presidente do Pontifício Instituto para Estudos sobre o Matrimônio e a Família criado por ele em 1981, na Universidade Lateranense, após o sínodo de 1980 dedicado precisamente a esses temas.

Portanto, causou impressão a exclusão, em outubro passado, de todo expoente de tal instituto — que neste ínterim se estendeu por todo o mundo — na primeira sessão do sínodo sobre a família.

Porém, agora este vazio foi preenchido: em 14 de março último, o Papa Francisco nomeou o professor José Granados, vice-presidente exatamente do Pontifício Instituto João Paulo II para Estudos sobre o Matrimônio e a Família, como um dos consultores da secretaria geral da segunda e última sessão do sínodo, programada para outubro deste ano.

Quanto a Caffarra, se no próximo mês de maio não for eleito pela conferência episcopal como um de seus quatro delegados para o sínodo, seguramente será o Papa quem lhe incluirá entre os padres sinodais, como fez na sessão precedente.

O arcebispo de Bolonha é um dos cinco cardeais anti-Kasper que reuniram suas teses no livro “Permanecendo na verdade de Cristo”, publicado na Itália pela editora Cantagalli às vésperas do sínodo passado e traduzido atualmente em dez idiomas.

E foi, em seguida, um dos críticos mais decididos e melhor articulados do informe bomba lido por Kasper no consistório de fevereiro de 2014:

> El cardenal Caffarra: ningún Papa puede romper el vínculo matrimonial

Nesta ampla entrevista a “Il Folgio, de 15 de março de 2014, Caffarra disse, entre outras coisas, o que segue sobre a comunhão aos divorciados recasados:

“Quem admite esta hipótese não respondeu a uma pergunta muito simple: o que ocorre com o primeiro matrimônio rato e consumado? A solução apresentada leva a pensar que permanece o primeiro matrimônio, mas que também há uma segunda forma de convivência que a Igreja legitima. Por conseguinte, há um exercício da sexualidade humana extra-conjugal que a Igreja consideraria legítimo. Porém, com isso se nega o pilar da doutrina da Igreja sobre a sexualidade. Então, alguém poderia se perguntar: e por que não se aprovam as livres convivências? E por que não as relações entre homossexuais? Não é só questão de praxis, isso diz respeito à doutrina. Inevitavelmente. Também é possível dizer que não se faz, mas que se faz. E não só. Introduz-se um costume que a longo prazo determina esta idéia no povo, não só cristão: não existe nenhum matrimônio absolutamente indissolúvel. E isso, certamente, é contrário à vontade do Senhor”.

Abaixo, segue o texto integral do último posicionamento de Caffarra sobre o matrimônio e a família: uma conferência que proferiu no último 12 março na Pontifícia Universidade da Santa Cruz [ndr: o Fratres não teve condições de traduzir o texto; se algum leitor puder fazê-lo, publicaremos de bom grado].

Mas, antes, é útil recordar outros fatos que evidenciam a crescente aproximação do Papa Francisco do grupo dos críticos de Kasper.

O Papa continua mantendo à cabeça da congregação para a Doutrina da Fé, o Cardeal Gerhard L. Müller, o mais prestigioso dos cinco purpurados do livro anti-Kasper, muito firme em advertir sobre essa “sutil heresia cristológica” que consiste em separar a doutrina da praxis pastoral, na ilusão de que se possa mudar a segunda sem minar a primeira e, portanto, abençoar as segundas núpcias mantendo firme a indissolubilidade do matrimônio:

> Introduzione ai lavori della commissione teologica internazionale, 1 dicembre 2014

Em segundo lugar, o Papa Francisco, em uma das poucas nomeações importantes que fez recentemente na cúria, colocou na chefia da Congregação para o Culto Divino o Cardeal guineano Robert Sarah, autor de um livro entrevista  “Dieu ou rien. Entretien sur la foi”, publicado na França pela editora Fayard, no qual rejeita na raiz a idéia de dar a Comunhão aos divorciados recasados, que a seu juízo é “a obsessão de certas igrejas ocidentais que querem impor soluções que qualificam de ‘teologicamente responsáveis e pastoralmente apropriadas’ e que contradizem radicalmente o ensinamento de Jesus e do magistério da Igreja”.

Dando plena razão a Müller, o Cardeal Sarah diz ainda:

“A idéia que consistiria em pôr o magistério dentro de um belo cofre, separando-o da prática pastoral, que poderia evoluir segundo as circunstâncias, modas e paixões, é uma forma de heresia, uma perigosa patologia esquizofrênica”.

E depois de ter constatado que a questão dos divorciados recasados “não é um desafio urgente para as Igrejas da África e Ásia”, declara:

“Portanto, afirmo solenemente que a Igreja da África se oporá firmemente a toda rebelião contra o ensinamento de Jesus e do magistério”.

Efetivamente, os cardeais e bispos africanos eleitos até agora como representantes no próximo sínodo pelas respectivas igrejas nacionais, situam-se todos na posição intransigente de Sarah, com única exceção para o arcebispo de Accra, Charles Palmer-Buckle, que não só declarou ser favorável à comunhão aos divorciados recasados, mas também — em hipótese — ao divórcio, graças aos poderes do Papa de “unir e dissolver” qualquer coisa sobre a terra.

> African Archbishop Lays Down “Daring” Challenge for Synod on the Family

Há de se acrescentar que nesta posição intransigente também se alinharam os bispos da Europa Oriental, com os poloneses à frente:

> Konferencji Episkopatu Polski. Komunikat

> In English

E os quatro padres sinodais eleitos pela conferência episcopal dos Estados Unidos: Joseph Kurtz, Charles Chaput, Daniel DiNardo, José H. Gómez.

O mais “moderado” dos quatro, Kurtz, tampouco deixou de enfatizar — seguindo os passos do cardeal Müller — que “é muito importante que não haja nenhuma fissura entre o modo com que rezamos e cremos e o modo como exercemos a atenção pastoral. Há uma justa preocupação de permanecermos fiéis ao verdadeiro magistério da Igreja e esta é a atitude que adotarei no sínodo”:

> On Synod, Archbishop Kurtz Calls for Unity Between Catholic Beliefs and Pastoral Practice

 

23 fevereiro, 2015

Cardeal Kasper diz que Lutero faz parte da «grande tradição» da Igreja na qual se inclui o Papa Francisco.

O L’Osservatore Romano publicou vários extratos do novo livro do cardeal Kasper dedicado ao papa Francisco. O Papa, segundo o purpurado alemão, é um radical no sentido de colocar ênfase nas raízes da mensagem do Evangelho e na alegria que o acompanha. O Santo Padre, assegura, «não defende uma postura liberal, mas radical» e não é «tradicionalista nem progressista». Kasper situa o atual pontífice numa lista de santos e doutores da Igreja entre os quais inclui ao heresiarca alemão Martinho Lutero.

Por CatholicCulture/InfoCatólica – Tradução: Marcos Fleurer – Fratres in Unum.comCitando Nietzsche, Sartre, Heidegger e outros escritores dos séculos XIX e XX, o cardeal Kasper assegura que o homem moderno necessita de alegria. A mensagem do Evangelho traz renovação e alegria, é a fonte da qual brota «toda doutrina cristã e a disciplina moral».

LuteroAssim como o Evangelho é a fonte da doutrina, a caridade é a fonte da vida moral, indicou o purpurado. A ênfase do Papa sobre as raízes do Evangelho e da caridade, contudo, não «elimina a assim chamada verdade secundária ou incômoda,» nem muitas verdades «descartadas como menos obrigatórias».

O cardeal Kasper acrescenta que a ênfase do Papa na centralidade da proclamação da mensagem do Evangelho e da vida da caridade, situam-no dentro de uma «grande tradição» que inclui, de diversas maneiras, SantoAgostinho, São Francisco, São Domingo, Santo Tomás de Aquino, Martinho Lutero e o Concílio Vaticano II.

Opinião de Lutero sobre o Concílio de Trento

Martinho Lutero disse o seguinte sobre o Concílio de Trento, que ratificou a doutrina católica que os protestantes negavam:

“Haveria que fazer prisioneiro ao Papa, aos cardeais e a todos estes canalhas que o idolatram e o santificam; prendê-los por blasfêmias e logo arrancar-lhes a língua e colocá-los todos na fila da forca… Então se poderia permitir que celebrassem o concílio os que quisessem desde a forca, ou no inferno com os diabos”.

Tomado de “Lutero e a unidade das Igrejas (Card. Joseph Ratzinger)”

 

5 dezembro, 2014

Bento XVI desautoriza Kasper.

Sua Santidade Bento XVI, papa emérito, redigiu novamente as conclusões de um artigo que escreveu em 1972 e que o cardeal Kasper havia citado em apoio a suas próprias teses sobre a comunhão dos divorciados recasados. Dessa maneira, desautoriza ao cardeal alemão que pretendia usar sua figura para sustentar uma postura contrária ao magistério da Igreja, que Joseph Ratzinger defendeu como cardeal e como Papa.

Por Sandro Magister/Chiesa.espresso/InfoCatólica | Tradução: Airton Vieira de Souza – Fratres in Unum.com: Na Opera Omnia, Ratzinger está voltando a publicar – com a ajuda do prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Gerhard Ludwig Müller – todos seus escritos teológicos, agrupados por tema. No último dos nove volumes publicados até agora em alemão, de quase 1000 páginas e intitulado «Introdução ao cristianismo. Profissão, batismo, seguimento» encontra-se um artigo de 1972 sobre a questão da indissolubilidade do matrimônio, publicado esse ano na Alemanha em um livro escrito por vários autores sobre matrimônio e divórcio.

Esse artigo de Ratzinger de 1972 foi desempoeirado no mês de fevereiro passado pelo cardeal Walter Kasper no informe com o que introduziu o consistório dos cardeais convocado pelo papa Francisco para debater sobre o tema da família, em vista do sínodo dos bispos programado para outubro.

Apoiando a admissão à comunhão eucarística dos divorciados que se recasam, Kasper disse:

«A Igreja das origens nos dá uma indicação que pode servir, à que já fez menção o professor Joseph Ratzinger em 1972. […] Ratzinger sugeriu retomar de maneira nova a posição de Basílio. Pareceria uma solução apropriada, que está também na base de minhas reflexões». Efetivamente, nesse artigo de 1972, o então professor de teologia de Ratisbona, que contava quarenta e cinco anos de idade, sustentava que dar a comunhão aos divorciados recasados, em condições particulares, parecia estar «plenamente em linha com a tradição da Igreja» e em particular com «esse tipo de indulgência que surge em Basílio onde, depois de um período contínuo de penitência, ao ‘bigamus’ (isto é, a quem vive em um segundo matrimônio) se lhe concede a comunhão sem a anulação do segundo matrimônio: com a confiança na misericórdia de Deus, que não deixa sem resposta a penitência».

Defendeu a fé da Igreja como cardeal e Papa

Nesse artigo de 1972 foi a primeira e a última vez que Ratzinger se «abriu» à comunhão aos divorciados e recasados. De fato, seguidamente não só aderiu plenamente à posição de proibição da comunhão, reafirmada pelo magistério da Igreja durante o pontificado de são João Paulo II, senão que contribuiu de maneira determinante, como Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, também à argumentação de dita proibição.

Contribuiu sobretudo assinando a carta aos bispos em 14 de setembro de 1994, com a qual a Santa Sé rejeitava as teses favoráveis à comunhão aos divorciados recasados sustentadas nos anos precedentes por alguns bispos alemães, entre eles Kasper.

E, seguidamente, com un texto de 1998 publicado pela Congregação para a Doutrina da Fé e tornado a publicar pelo «L’Osservatore Romano» em 30 de novembro de 2011: A pastoral do matrimônio deve fundar-se na verdade.

Sem contar que sucessivamente, como Papa, tornou a confirmar e motivou várias vezes a proibição da comunhão no marco da pastoral para os divorciados recasados.

Desautorização ao cardeal Kasper

Por conseguinte, não é causa de assombro que Ratzinger tenha considerado inapropiada a citação que de seu artigo de 1972 fez em fevereiro passado o cardeal Kasper para apoiar suas teses, como se nada houvesse sucedido depois desse ano.

Daí a decisão tomada por Ratzinger, ao tornar a publicar seu artigo de 1972 na Opera Omnia, de reescrever e ampliar a parte final do mesmo, alinhando-a com seu pensamento sucessivo e atual.

Abaixo, pode-se ler a tradução da nova parte final do artigo, tal como aparece no volume da Opera Omnia, há pouco nas livrarias, entregue à imprensa pelo Papa emérito Bento XVI em março de 2014. Na reedição de 2014, precisa-se que «a contribuição foi totalmente revisada pelo autor».

* * *

Novo final do artigo de 1972, redigido novamente por Joseph Ratzinger em 2014

A Igreja é A Igreja da Nova Aliança, mas vive em um mundo no qual segue existindo imutável essa «dureza do […] coração» (Mt 19, 8) que empurrou a Moisés a legislar. Portanto, que pode fazer concretamente, sobretudo em um tempo em que a fé se dilui sempre mais, até o interior da Igreja, e no que as «coisas das que se preocupam os pagãos», contra as quais o Senhor alerta aos discípulos (cfr. Mt 6, 32), ameaçam com converter-se cada vez mais na norma?

Primeiro de tudo, e essencialmente, deve anunciar de maneira convincente e compreensível a mensagem da fé, tentando abrir espaços onde possa ser vivida verdadeiramente. A cura da «dureza do coração» só pode chegar da fé e só onde ela está viva é possível viver o que o Criador havia destinado ao homem antes do pecado. Por isso, o principal e verdadeiramente fundamental é que a Igreja faça que a fé seja viva e forte.

Ao mesmo tempo, a Igreja deve seguir tentando sondar os confins e a amplitude das palavras de Jesus. Deve permanecer fiel ao mandato do Senhor e tampouco pode ampliá-lo demais. Parece-me que as denominadas «cláusulas da fornicação» que Mateus acrescentou às palavras do Senhor transmitidas por Marcos refletem já dito esforço. Se menciona um caso que as palavras de Jesus não tocam.

Este esforço há continuado no arco de toda a história. A Igreja do Ocidente, sob a guia do sucessor de Pedro, não há podido seguir o caminho da Igreja do império bizantino, que se há acercado cada vez mais ao direito temporal, debilitando assim a especificidade da vida na fé. Não obstante, a sua maneira há sacado à luz os confins da pertinência das palavras do Senhor, definindo assim de maneira mais concreta seu alcance. Hão surgido, sobretudo, dois âmbitos que estão abertos a uma solução particular por parte da autoridade eclesiástica.

  1. Em 1 Cor 7, 12-16, São Paulo – como indicação pessoal que não provém do Senhor, mas a que sabe estar autorizado – diz aos Coríntios, e através deles à Igreja de todos os tempos, que no caso de matrimônio entre um cristão e um não cristão este pode ser dissolvido sempre que o não cristão obstaculize ao cristão em sua fé. Disso a Igreja há derivado o denominado «privilegium paulinum», que continua sendo interpretado em sua tradição jurídica (cfr. CIC, can. 1143-1150).

Das palavras de São Paulo a tradição da Igreja há deduzido que só o matrimônio entre dois batizados é um sacramento autêntico e, por conseguinte, absolutamente indissolúvel. Os matrimônios entre um não cristão e um cristão sim que são matrimônios segundo a ordem da criação e, portanto, definitivos de por si. Não obstante, podem ser dissolvidos em favor da fé e de um matrimônio sacramental.

Ao final, a tradição há ampliado este «privilégio paulino», convertendo-o em «privilegium petrinum». Isto significa que o sucessor de Pedro tem o mandato de decidir, no âmbito dos matrimônios não sacramentais, quando está justificada a separação. Entretanto, este denominado «privilégio petrino» não há sido acolhido no novo Código, como era em câmbio a intenção inicial.

O motivo há sido o dissenso entre dois grupos de expertos. O primeiro há sublinhado que o fim de todo o direito da Igreja, seu metro interior, é a salvação das almas. Disso se deduz que a Igreja pode e está autorizada a fazer o que serve para conseguir este fim. O outro grupo, ao contrário, defende a ideia de que os mandatos do ministério petrino não devem ampliar-se demais e que é necessário permanecer dentro dos limites reconhecidos pela fé da Igreja.

Devido à falta de acordo entre estes dois grupos, o Papa João Paulo II decidiu não acolher no Código esta parte dos costumes jurídicos da Igreja e seguiu confiando-a à congregação para a doutrina da fé que, junto com a práxis concreta, deve examinar continuamente as bases e los limites do mandato da Igreja neste âmbito.

  1. No tempo se há desenvolvido de maneira cada vez mais clara a consciência de que um matrimônio contraído aparentemente de maneira válida, a causa de vícios jurídicos ou efetivos pode não haver-se concretizado realmente e, portanto, pode ser nulo. Na medida em que a Igreja há desenvolvido o próprio direito matrimonial, ela há elaborado também de maneira detalhada as condições para a validez e os motivos de (uma) possível nulidade.

A nulidade do matrimônio pode derivar de erros na forma jurídica, mas também, e, sobretudo de uma insuficiente consciência. Com respeito à realidade do matrimônio, a Igreja mui pronto reconheceu que o matrimônio se constitui como tal mediante o consentimento dos dois cônjuges, que deve expressar-se também publicamente em uma forma definida pelo direito (CIC, can. 1057 § 1). O conteúdo desta decisão comum é o dom recíproco através de um vínculo irrevogável (CIC, can. 1057 § 2; can. 1096 § 1). O direito canônico pressupõe que as pessoas adultas saibam elas somente, partindo de sua natureza, que é o matrimônio e, por conseguinte, que saibam também que é definitivo; o contrário deveria ser demonstrado expressamente (CIC, can. 1096 § 1 e § 2).

Sobre este ponto, nos últimos decênios hão nascido novos interrogantes. Se pode presumir hoje que as pessoas saibam «por natureza» sobre o definitivo e a indissolubilidade do matrimônio, assentindo com seu sim? Ou acaso não se há verificado na sociedade atual, ao menos nos países ocidentais, um câmbio na consciência que faz presumir mais bem o contrário? Se pode dar por descontada a vontade do sim definitivo ou não se deve mais bem esperar o contrário, isto é, que já desde antes se está predisposto ao divórcio? Ali onde o aspecto definitivo seja excluído conscientemente não se levaria a cabo realmente o matrimônio no sentido da vontade do Criador e da interpretação de Cristo. Disto se percebe a importância que tem hoje uma correta preparação ao sacramento.

A Igreja não conhece o divórcio. Não obstante, depois do apenas indicado, ela não pode excluir a possibilidade de matrimônios nulos. Os processos de anulação devem ser levados em duas direções e com grande atenção: não devem converter-se em um divórcio camuflado. Seria desonesto e contrário à seriedade do sacramento. Por outra parte, devem examinar com a necessária retidão as problemáticas da possível nulidade e, ali onde haja motivos justos em favor da anulação, expressar a sentença correspondente, abrindo assim a estas pessoas uma nova porta.

Em nosso tempo hão surgido novos aspectos do problema da validez. Já hei indicado antes que a consciência natural sobre a indissolubilidade do matrimônio é agora problemática e que disso derivam novas tarefas para o procedimento processual. Quisera indicar brevemente outros dois novos elementos:

  1. O can. 1095 n. 3 há inscrito a problemática moderna no direito canônico ali donde diz que não são capazes de contrair matrimônio as pessoas que «não podem assumir as obrigações essenciais do matrimônio por causas de natureza psíquica». Hoje, os problemas psíquicos das pessoas, precisamente ante uma realidade tão grande como o matrimônio, se percebem mais claramente que no passado. Não obstante, é bom pôr em guarda sobre edificar a nulidade, de maneira imprudente, a partir dos problemas psíquicos; fazendo isto se estaria pronunciando facilmente um divórcio sob a aparência da nulidade.
  2. Hoje se impõe, com grande seriedade, outra pergunta. Atualmente há cada vez mais pagãos batizados, ou seja, pessoas que se convertem em cristãs por meio do batismo, mas que não creem e que nunca hão conhecido a fé. Trata-se de uma situação paradoxal: o batismo faz que a pessoa seja cristã, mas sem fé esta é só, apesar de tudo, um pagão batizado. O can. 1055 § 2 diz que «entre batizados, não pode haver contrato matrimonial válido que não seja por isso mesmo sacramento». Mas, que sucede se um batizado não crente não conhece para nada o sacramento? Poderia também ter a vontade da indissolubilidade, mas não vê a novidade da fé cristã. O aspecto trágico desta situação se faz evidente, sobretudo quando batizados pagãos se convertem à fé e iniciam uma vida totalmente nova. Surgem aqui perguntas para as quais não temos, todavia uma resposta. É, portanto, mais urgente ainda aprofundar sobre elas.
  3. De quanto dito até agora surge que a Igreja do Ocidente – A Igreja católica –, sob a guia do sucessor de Pedro, por um lado sabe que está estreitamente vinculada à palavra do Senhor sobre a indissolubilidade do matrimônio; não obstante, por outro há tentado também reconhecer os limites desta indicação para não impor às pessoas mais do que é necessário.

Assim, partindo da sugestão do apóstolo Paulo e apoiando-se ao mesmo tempo na autoridade do ministério petrino, para os matrimônios não sacramentais há elaborado ulteriormente a possibilidade do divórcio em favor da fé. Da mesma maneira, há examinado em todos os aspectos a nulidade de um matrimônio.

A exortação apostólica «Famíliaris consortio» de João Paulo II, de 1981, há levado a cabo um passo ulterior. No número 84 está escrito: «Em união com o Sínodo exorto vivamente aos pastores e a toda a comunidade dos fiéis para que ajudem aos divorciados, procurando com solícita caridade que não se considerem separados da Igreja […]. A Igreja reze por eles, os anime, se apresente como mãe misericordiosa e assim os sustente na fé e na esperança».

Com isto, à pastoral se lhe confia uma tarefa importante, que talvez não há sido suficientemente transposta na vida cotidiana da Igreja. Alguns detalhes estão indicados na própria exortação. Diz-se que estas pessoas, enquanto batizadas, podem participar na vida da Igreja, que inclusive devem fazê-lo. Enumeram-se as atividades cristãs que para eles são possíveis e necessárias. Entretanto, talvez fosse necessário sublinhar com maior claridade que podem fazer os pastores e os irmãos na fé para que elas possam sentir de verdade o amor da Igreja. Penso que seria necessário reconhecer-le a possibilidade de comprometer-se nas associações eclesiais e também que aceitem ser padrinhos ou madrinhas, algo que por agora não está previsto pelo direito.

Há outro ponto de vista que se difunde. A impossibilidade de receber a santa eucaristia é percebida de uma maneira tão dolorosa, sobretudo porque, atualmente, quase todos os que participam na missa se acercam também à mesa do Senhor. Assim, as pessoas afetadas aparecem também publicamente desqualificadas como cristãs.

Considero que a advertência de São Paulo a auto-examinar-se e à reflexão sobre o fato de que se trata do Corpo do Senhor deveria tomar-se outra vez a sério: «Examine-se, pois, cada qual, e coma assim o pão e beba da copa. Pois quem come e bebe sem discernir o Corpo, come e bebe seu próprio castigo» (1 Cor 11, 28 s.) Um exame sério de si mesmo, que pode também levar a renunciar à comunhão, nos faria ademais sentir de maneira nova a grandeza do dom da eucaristia e, por acréscimo, representaria uma forma de solidariedade com as pessoas divorciadas que se casam novamente.

Quisera acrescentar outra sugestão prática. Em muitos países se há convertido em um costume que as pessoas que não podem comungar (por exemplo, as pessoas pertencentes a outras confissões) se acerquem ao altar, mas mantenham as mãos sobre o peito, fazendo entender deste modo que não recebem o Santíssimo Sacramento, mas que pedem uma benção, que se lhes dá como sinal do amor de Cristo e da Igreja. Esta forma certamente poderia ser eleita também pelas pessoas que vivem em um segundo matrimônio e que por isso não estão admitidas à mesa do Senhor. O fato que isto faça possível uma comunhão espiritual intensa com o Senhor, com todo seu Corpo, com a Igreja, poderia ser para eles uma experiência espiritual que lhes reforce e lhes ajude.

15 outubro, 2014

Voice of the Family: relatório é uma “traição”. Kasper deveria se desculpar por comentários desdenhosos sobre bispos africanos.

Católicos Pró-família rejeitam o relatório preliminar do Sínodo, chamando-o de “traição”

Voice of the Family, uma coalizão de 15 grupos internacionais pró-família, emitiu um comunicado na segunda-feira de manhã. 

Por LifeSiteNews | Tradução: Teresa Maria Freixinho – Fratres in Unum.com – O relatório preliminar do Sínodo Extraordinário sobre a Família não passa de uma “traição” aos valores católicos e familiares, disse um influente grupo pró-vida.

Falando com todas as letras, o porta-voz britânico do Voice of the Family, John Smeaton, disse que “aqueles que estão controlando o Sínodo traíram os pais católicos. O relatório preliminar do Sínodo é um dos piores documentos oficiais elaborados na história da Igreja.”

“Felizmente,” disse Smeaton, “o relatório é preliminar para fins de discussão, ao invés de uma proposta definitiva.”

Da mesma forma, o representante irlandês Patrick Buckley disse que o relatório “representa um ataque ao matrimônio e à família” ao “efetivamente dar uma aprovação tácita às relações adúlteras.” Além disso, “o relatório enfraquece o ensinamento definitivo da Igreja contra a contracepção e deixa de reconhecer que a inclinação homossexual é objetivamente desordenada,” disse Buckley.

Patrick Craine, porta-voz americano do Voice of the Family, disse que o relatório “não constitui uma representação fiel das discussões sinodais. Muitos padres sinodais têm defendido bravamente o ensinamento da Igreja dentro e fora da Sala do Sínodo, ainda que a posição deles dificilmente esteja refletida no documento.”

“O relatório está certo ao pedir solicitude pastoral,” disse Craine, “porém, conforme enfatizava o Cardeal Ratzinger, solicitude só pode ser realizada na verdade. Da maneira como está redigido, o documento enfraquece o zelo pastoral autêntico e só pode causar danos graves, neste mundo e no que há de vir, àqueles a quem pretende ajudar.”

“Dar a Sagrada Comunhão a pessoas que não se arrependem de pecados sexuais mortais seria uma falsa misericórdia,” disse a coordenadora do Voice of the Family, Maria Madise, que afirmou que o relatório enfraquece as famílias católicas. “Será que os pais católicos serão forçados a dizer falsamente aos seus filhos que pecados mortais como o uso da contracepção, coabitação com parceiros ou vivência de estilos de vida homossexuais têm atributos positivos?”

“A misericórdia real consiste em oferecer às pessoas uma consciência limpa através do Sacramento da Penitência e, assim, a união com Deus,” concluiu Madise.

“É essencial que as vozes dos fiéis leigos que sinceramente vivem o ensinamento católico também sejam levadas em consideração,” disse Smeaton. “O Voice of the Family recomenda que os católicos não sejam complacentes ou cedam a um falso sentido de obediência em face dos ataques aos princípios fundamentais da lei natural no Sínodo.”

Sobre o Voice of the Family:

O Voice of the Family é uma coalizão leiga internacional formada pelas principais organizações pró-vida e pró-família para oferecer conhecimentos especializados e recursos aos líderes da Igreja, à mídia, a ONGs e governos antes, durante e depois do Sínodo sobre a Família da Igreja Católica. Essa coalizão inclui 18 influentes grupos pró-vida e pró-família em todo o mundo. Seus princípios estão concentrados na mudança da Cultura da Morte através do matrimônio sacramental, oposição à contracepção e ao aborto, bem como na capacitação dos pais.

O Voice of the Family consiste de 18 organizações associadas provenientes de 18 nações nos cinco continentes. Seus membros são: Alfa Szövetség/Alpha Alliance, Campagne Québec-Vie, Campaign Life Catholics, Campaign Life Coalition Canada, Catholic Democrats, Catholic Voice, CENAP, Culture of Life Africa, European Life Network, Famiglia Domani, Family Life International NZ, Hnutí Pro život ČR, Human Life International (HLI), Liga pár páru ČR, LifeSiteNews.com, National Association of Catholic Families (NACF), Profesionales por la Ética e Society for the Protection of Unborn Children (SPUC).

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Cardeal Kasper deveria se desculpar por comentários desdenhosos sobre bispos africanos, diz coalizão pró-família.

Por The Voice of the Family | Tradução: Fratres in Unum.com – O Cardeal Walter Kasper deveria se desculpar por comentários desdenhosos feitos em uma entrevista, publicada hoje, sobre os bispos africanos e seu papel no Sínodo sobre a Família.

O Cardeal afirmou que os bispos africanos “não deveriam nos dizer muito o que devemos fazer” (Ver a nota dos editores abaixo). Kasper falava sobre a oposição dos bispos africanos à agenda homossexual. Esta agenda foi inserida no relatório preliminar do sínodo, publicado na segunda-feira para ampla perplexidade.

Maria Madise, coordenadora do Voice of the Family afirmou: “O Cardeal Kasper deveria pedir desculpas por seus comentários desdenhosos sobre os bispos africanos. Eles são condescendentes e discriminatórios. Os comentários de Kasper são similares aos que ele fez em 2010, quando disse que “quando você desembarca no aeroporto de Heathrow [em Londres], você às vezes pensa que desembarcou em um país de Terceiro Mundo”. (Ver “Pope aide pulls out of trip after Third World jibe“, BBC, 15 de setembro de 2010)

A Sra. Madise acrescentou: “Os bispos africanos têm o mesmo status no sínodo e têm todo direito de dizer que a Igreja universal deve manter sua oposição à agenda homossexual”.

Em junho, John Smeaton, co-fundador do Voice of the Family, foi aplaudido de pé pelos bispos da Nigéria por um discurso no qual ele os louvava, bem como a seus países, por sua cultura pro-família. O Sr. Smeaton declarou: “Os bispos de todo o mundo deveriam seguir a liderança e o discurso claro dos bispos nigerianos por políticas firmes contra a subversão da verdade e do significado da sexualidade humana”.

Nota dos Editores:

Da entrevista com o Cardeal Walter Kasper, por Edward Pentin, Zenit, 15 de outubro de 2014:

[Kasper]: O problema, também, é que há diferentes problemas de diferentes continentes e diferentes culturas. A África é totalmente diferente do Ocidente. Também os países asiáticos e muçulmanos são muito diferentes, especialmente sobre os gays. Não se pode falar sobre isso com africanos ou pessoas de países muçulmanos. Não é possível, é um tabu. Para nós, nós dizemos que não se deve discriminar, nós não queremos discriminar a certos respeitos.

[Pentin]: Mas os participantes africanos são ouvidos a este respeito [no sínodo]?

[Kasper]: Não, a maioria deles [que defende essas posições não falarão sobre elas].

[Pentin]: Não são ouvidos?

[Kasper]: Na África, claro que sim, onde isso é um tabu.

[Pentin]: Para o senhor, o que mudou a respeito da metodologia desse sínodo?

[Kasper]: Creio que, ao fim, deve haver uma linha geral na Igreja, um critério geral, mas as questões da África nós não podemos resolver. Deve haver espaço também para as conferências episcopais locais resolverem seus problemas, mas eu diria que com a África é impossível [para nós resolvermos]. Mas eles não deveriam nos dizer muito o que devemos fazer.

1 outubro, 2014

“O Papa não tem laringite”.

O Cardeal Burke, prefeito da Assinatura Apostólica, critica duramente o cardeal Kasper. Usa adjetivos como “ultrajante” e “enganador” para definir as declarações de seu colega. “Acho engraçado que o Cardeal Kasper afirme falar em nome do Papa. O Papa não tem laringite”

Por Marco Tosatti – La Stampa | Tradução: Fratres in Unum.com – O Prefeito da Assinatura Apostólica, o mais alto tribunal da Igreja, o Cardeal norte-americano Raymond Leo Burke, chamou de “ultrajante” que o Cardeal Kasper insinue que a crítica às suas propostas (de Kasper) sobre a comunhão para divorciados recasados seriam direcionadas ao Papa.

Burke e Bento.

Burke e Bento.

Burke, homem sem papas na língua, falou em uma conferência organizada pela Ignatius Press, grande editora americana religiosa, que hoje lançará no mercado vários livros em vista do Sínodo dos Bispos sobre a família, que será aberto em Roma na manhã de domingo.

“Acho engraçado que o Cardeal Kasper afirme falar em nome do Papa. O Papa não tem laringite”, disse Burke, falando do livro assinado por ele e por outros cardeais e especialistas no assunto para se opor à proposta de Kasper de dar a comunhão para divorciados recasados. Burke disse que Kasper “estava errado”, porque a indissolubilidade do matrimônio “é baseada nas palavras claras de Jesus Cristo e não pode ser mudada”.

Padre Joseph Fessio, jesuíta e responsável pela Ignatius Press, se perguntou se o Papa não havia encorajado a discussão sobre a proposta de Kasper, de modo a chamar a atenção para o problema e, por fim, reafirmar o ensinamento da Igreja. Questionou se “o Santo Padre astutamente não procurou mexer num cacho de abelha” em vista do Sínodo.

Em resposta a uma declaração de Kasper, segundo a qual a sua proposta prevê uma mudança na disciplina, e não a doutrina da Igreja, Burke argumenta que é um “argumento muito enganador”. “Não pode haver uma disciplina na Igreja que não esteja a serviço da doutrina”.

20 maio, 2014

O cruel surrealismo do Cardeal Kasper

Por Padre Nuno Serras Pereira – Há muitos pontos por onde pegar, para a refutar, no que diz respeito à proposta surrealista do cardeal W. Kasper de admitir à Comunhão Sacramental os casados validamente pela Igreja que se divorciaram pelo civil e se voltaram a “casar” civilmente e que vivem, não como irmãos, mas sim mantendo comércio carnal, isto é, fornicando adulteramente um com o outro.

O cardeal mostra , em primeiro lugar, uma concepção mágica da realidade. De facto, afirma que a sua proposta não muda em nada a Doutrina da Igreja e, para o provar, afirma em entrevista a validade do primeiro casamento mas recusa terminantemente, contrariando a Palavra expressa de Jesus Cristo, que a convivência posterior seja adulterina. Na sua parca, ou delirante?, imaginação basta mudar o nome a uma coisa para ela deixar de ser o que é e transformar-se em qualquer outra coisa que ele decidir.

Mas deixemos isso e infinitas outras coisas que se poderiam dizer acerca do que ele avança e atendamos somente às invocadas responsabilidades morais respeitantes aos filhos que resultaram da cumplicidade adulterina, as quais obrigariam, sob pena de impotência Divina, a uma suposta misericórdia de Deus que não poderia deixar de compactuar e selar o facto consumado.

Recorrendo a esta mesma lógica teríamos de concluir que um pai ou uma mãe ou ambos, que fossem ameaçados de morte caso não negassem a Fé em Cristo não só poderiam como porventura deveriam renunciá-la, para não faltar às responsabilidades para com os filhos.

(Também no caso de um pai ou de uma mãe que cometessem crimes, talvez terroristas, cujas penas incluiriam prisão efetiva, talvez perpétua, a Igreja deveria proclamar a imoralidade de tal coação por parte do estado, uma vez que inibiam os pais de cumprir as suas responsabilidades para com os filhos. Pela mesma lógica, uma mobilização geral em tempos de emergência nacional prolongada e com risco de vida colocaria de fora qualquer pai. E não seria mesmo de excluir que os viúvos ou viúvas com filhos fossem moralmente obrigados pela Igreja a contrair um novo enlace matrimonial de modo a realizar melhor as suas responsabilidades paternais.)

Recomendar e admitir à Sagrada Comunhão quem vive em estado de pecado mortal é induzir as pessoas, como ensina S. Paulo a condenarem-se, convencendo-as que o mal é bem, que o errado é certo, que a pecaminosidade é santidade, é estorvar-lhes a conversão a Jesus Cristo. Todas estas coisas, aprendi no Catecismo e ao longo de toda a minha vida, são manhas do Demónio, que tem como fim a perdição das almas, a sua condenação eterna. E importa muito não esquecer que S. Pedro, o fundamento visível do Papado, ensina que a finalidade da nossa Fé é a salvação das almas.

À honra de Cristo e de Sua Mãe. Ámen.

Créditos: Lavras Resiste!

7 maio, 2014

Cardeal Walter Kasper relata palavras do Papa Francisco sobre críticas a seu livro: “Isso entra por um ouvido e sai pelo outro”.

Cardeal Kasper, o “teólogo do Papa”, suaviza as críticas do Vaticano às religiosas americanas

IHU – O cardeal alemão que vem sendo chamado “o teólogo do papa” disse que a crítica aberta do Vaticano às religiosas americanas é típica da visão “mais estreita” que funcionários da Cúria Romana tendem a ter, e falou que as católicas estadunidenses não devem se preocupar excessivamente com o caso.

Cardeal Walter Kasper

Cardeal Walter Kasper

“Eu também sou considerado suspeito”, disse o cardeal Walter Kasper com uma risada durante evento ocorrido segunda-feira na Universidade de Fordham, EUA. “E não posso ajudá-las”, acrescentou, referindo-se aos críticos das irmãs em Roma.

A reportagem é de David Gibson, publicada por Religion News Service, 06-05-2014. A tradução é de Isaque Gomes Correa.

Kasper, de 81 anos, atuou como o líder ecumênico do Vaticano sob os papas João Paulo II e Bento XVI. É considerado um aliado próximo do Papa Francisco. Quando este convocou os bispos para uma cúpula de dois dias a fim de tratar alguns temas relacionados com a família em fevereiro passado, pediu a Kasper para fazer uma fala de abertura dando o tom ao encontro.

Kasper pode refletir melhor a visão do atual papa do que as medidas duras aplicadas às religiosas americanas pelo escritório doutrinal. Assim como Francisco suavizou o foco dado às regras e a questões polêmicas num esforço para ampliar o apelo da Igreja, também Kasper sublinhou a importância da flexibilidade pastoral e do realismo para com os membros da Igreja, em suas vidas imperfeitas.

Kasper encontra-se nos Estados Unidos para divulgar seu livro intitulado “Mercy: The Essence of the Gospel and the Key to Christian Life” [Misericórdia: A essência do Evangelho e a chave para a vida cristã]. Nele há um pequeno texto escrito pelo Papa Francisco, quem fez da misericórdia a pedra angular de seu ministério desde que foi eleito no ano passado.

Na segunda-feira, Kasper disse ao público que após Francisco tê-lo enaltecido poucos dias depois de sua eleição [ndr: e o fez também no consistório, após um discurso polêmico de Kasper sobre a comunhão a “recasados”, a despeito da oposição de grande número de cardeais], “um experiente cardeal se aproximou dele [do papa] e falou: ‘Santo Padre, o senhor não pode fazer isso! Há heresias neste livro’”.

Quando Francisco contou a história ao próprio Kasper, declarou ele, o pontífice sorriu e acrescentou: “Isso entra por um ouvido e sai pelo outro”.

Esta foi a forma de Kasper contextualizar a notícia de que o czar doutrinal do Vaticano, o cardeal Gerhard Müller, tinha criticado duramente as líderes de mais de 40 mil irmãs americanas por desobediência a Roma e por “erros fundamentais” em suas crenças.

A Congregação para a Doutrina da Fé liderada por Müller vem tentando controlar as irmãs americanas há dois anos. Acreditava-se que as conversações estavam indo bem, sobretudo após a eleição do Papa Francisco. Mas as críticas de Müller e a dura advertência de que elas precisam levar em conta suas exigências pareceram constituir um grande revés às esperanças.

Kasper disse ter esperanças de que o confronto entre o Vaticano e a Conferência de Liderança das Religiosas (Leadership Conference for Women Religious – LCWR) seja superado.

“Se tivermos algum problema com a liderança das ordens femininas, então teremos que ter uma conversa com elas. Precisamos dialogar com elas, ter uma troca de ideias”, disse. “Talvez elas precisem mudar alguma coisa. Talvez também a Congregação (para a Doutrina da Fé) precise mudar um pouco a sua maneira de ver as coisas. Esta é a maneira normal de se fazer as coisas na Igreja. Estou aqui para o diálogo. O diálogo pressupõe posições diferentes. A Igreja não é uma unidade monolítica”.

“Devemos estar em comunhão”, continuou Kasper, “o que também significa [estar] em diálogo com o outro. Espero que toda esta controvérsia termine com um bom, pacífico e significativo diálogo”.

Censurada pela Conferência Episcopal dos EUA, Johnson, teóloga, foi premiada pela LCWR e louvada por Kasper.

Censurada pela Conferência Episcopal dos EUA, Johnson, teóloga, foi premiada pela LCWR e louvada por Kasper.

Na Universidade de Fordham, Kasper também elogiou uma teóloga feminista americana, a Irmã Elizabeth Johnson, que deverá ser homenageada pelas irmãs americanas e a quem Müller escolheu para criticar.

Müller chamou a atenção da LCWR por decidir homenagear Johnson sem, antes, buscar a aprovação de Roma. Johnson, famosa teóloga que leciona na Fordham, foi repreendida pela comissão doutrinal dos bispos americanos em 2011 devido aos debates que ela propôs em seu livro para o público geral intitulado “Quest for the Living God” [A busca pelo Deus Vivo].

Quando perguntado sobre Johnson e uma outra teóloga feminista, Elisabeth Schussler Fiorenza, cujas opiniões também foram contestadas pela hierarquia da Igreja, Kasper falou que as conhece há anos e acrescentou: “Eu estimo as duas”.

Kasper – companheiro de confiança de seu colega alemão, o cardeal teólogo Joseph Ratzinger, que depois se tornaria Bento XVI – disse que as críticas fazem parte do discurso acadêmico, porém, acrescentou, a congregação doutrinal “vê, às vezes, algumas coisas de uma forma um pouco estreita”.

Disse que a crítica a Johnson “não é uma tragédia e que iremos superar”. Observou que São Tomás de Aquino, o teólogo da Idade Média hoje considerado um dos maiores pensadores da Igreja, foi condenado pelo seu bispo, tendo que viver à sombra durante anos.

“Então ela está em boa companhia”, Kasper disse a respeito de Johnson.

24 março, 2014

Consistório Secreto: o que aconteceu.

No Consistório secreto em que se discutiu o tema dos divorciados em segunda união e a Eucaristia, “o teorema Kasper” teve pouquíssimo consenso e muita crítica. Aqui vai uma reconstrução de algumas intervenções mais significativas e importantes. “Seria um erro fatal”, disse alguém, querer trilhar o caminho da  pastoralidade, sem fazer referência à doutrina. 

Por Marco Tosatti – La Stampa | Tradução: Gercione Lima – Fratres in Unum.com – O Consistório do dia 22 de fevereiro para discutir a família deveria ter sido secreto. Mas, ao invés, da Cúpula decidiu que seria oportuno tornar pública a longa exposição do Cardeal Walter Kasper sobre o assunto da Eucaristia para divorciados em segunda união. Provavelmente, para dar uma pista sobre o que podemos esperar do Sínodo de outubro sobre a família.

Todavia, uma outra metade do Consistório permaneceu secreta: a que diz respeito à intervenção dos outros Cardeais. E talvez não por acaso, já que depois que Kasper apresentou sua longa exposição, inúmeras vozes se levantaram para criticá-lo. Tanto é assim que lá pela tarde, quando o Papa deu-lhe a tarefa de responder às muitas críticas, o tom do prelado alemão parecia menos eloquente, pra não dizer aborrecido.

A opinião corrente é que o “teorema Kasper” tende a garantir que os divorciados em segunda união possam ser readmitidos à recepção dos Sacramentos sem que o matrimônio anterior tenha sido declarado nulo.

Atualmente isso não ocorre, pois tal doutrina tem como base as palavras de Jesus que são muito severas e explícitas sobre o divórcio. Quem tem uma vida matrimonial completa sem que o primeiro casamento tenha sido considerado inválido pela Igreja, de acordo com a doutrina atual, se encontra em uma situação permanente de pecado.

Nesse sentido, falaram claramente o cardeal de Bolonha, Caffara, bem como o Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, o alemão Mueller. Igualmente explícito foi o Cardeal Walter Brandmuller (“Nem a natureza humana , nem os Mandamentos e nem o Evangelho tem uma data de validade… É preciso coragem para dizer a verdade , mesmo contra o costume atual. Uma coragem que qualquer pessoa que fala em nome da Igreja deve ter, se não quiser falhar em sua vocação… o desejo de obter aprovação e aplauso é sempre uma tentação na disseminação do ensinamento religioso…” e então ele tornou pública suas palavras ).

Até o presidente da Conferência dos bispos italianos, o Cardeal Bagnasco, expressou de forma crítica sua opinião a respeito do “teorema de Kasper”, bem como o Cardeal africano Robert Sarah, “Cor Unum”, que lembrou, em seu discurso de encerramento, como no curso dos séculos não faltaram questões dramáticas, divergências e controvérsias dentro da Igreja, mas que o papel do Papado sempre foi aquele de defender a Doutrina.

O Cardeal Re, um dos cabos eleitorais de Bergoglio, fez um brevíssimo discurso que pode ser resumido assim: “eu vou tomar a palavra por um momento, porque aqui estão os futuros novos Cardeais e talvez alguns deles não tenham a coragem de dizê-lo, então, eu mesmo vou dizer: eu sou totalmente contra essa exposição do Cardeal Kasper”.

O Prefeito da Penitenciária Apostólica, Cardeal Piacenza, também se opôs e mais ou menos disse: “estamos aqui agora e estaremos novamente em outubro para um Sínodo sobre a Família, e então, se queremos fazer um Sínodo positivo, não vejo por que deveríamos tocar na questão da comunhão para divorciados”. E acrescentou: “se queremos fazer um discurso pastoral, me parece que deveríamos encarar esse pan-sexualismo em voga e a agressiva ideologia de gênero que tende a minar a família como sempre a conhecemos. Isso sim seria providencial, se fôssemos ‘lumen gentium’ pra explicar em que situação nos encontramos e o que pode destruir a família”. Concluiu, em seguida, exortando a uma retomada da catequese de João Paulo II sobre o corpo, porque ela contém muitos elementos positivos sobre sexualidade, sobre o ser homem e mulher, procriação e amor.

O Cardeal Tauran, para o Diálogo Inter-Religioso, voltou ao tema do ataque à família, tendo em vista o relacionamento com o Islamismo. E também o Cardeal Scola de Milão, levantou suas preocupações teológicas e doutrinais.

Igualmente crítico foi o Cardeal Camillo Ruini, que acrescentou: “Não sei se eu prestei bem atenção, mas me parece que até agora 85% dos Cardeais se manifestaram contra a imposição desse relatório. Somando-se aqueles que não disseram nada, creio que podemos classificar seu silêncio como um sinal de que ficaram constrangidos ou envergonhados”.

O Cardeal Ruini então citou o Papa Bom, dizendo em essência: quando João XXIII fez o discurso da abertura do Concílio Vaticano II disse que poderíamos fazer um Concílio Pastoral porque felizmente a Doutrina era pacificamente aceita por todos e não havia disputas ou controvérsias nesse sentido, então poderíamos dar uma conotação pastoral sem medo de sermos mal interpretados, uma vez que a doutrina permaneceria muito clara. Se João XXIII estava certo naquele momento, enfatizou o Cardeal, só Deus sabe, pois, aparentemente, em grande parte, talvez até fosse verdade.  Mas hoje, de modo algum podemos repetir o mesmo porque a Doutrina não apenas está sendo minada, mas absolutamente combatida. Seria um erro fatal querer percorrer o caminho da pastoralidade sem fazer referência à doutrina.

Compreensível, portanto, que o Cardeal Kasper parecesse um pouco aborrecido na parte da tarde quando o Papa Bergoglio lhe permitiu responder, embora para evitar que suas contradições ficassem expostas, apenas ele teve direito à voz.

Vale acrescentar que as críticas feitas ao “teorema Kasper” estão só aumentando e, de modo privado, estendendo-se também ao Papa; e de modo público, por parte de outros Cardeais em várias partes do mundo.

Cardeais alemães, que estão familiarizados com Kasper, dizem que desde os anos 70 que ele é apaixonado sobre esse assunto. O problema apontado por vários críticos é que sobre esse assunto o Evangelho é muito explícito. E não levar isso em conta – esse é o temor – o tornaria muito instável, e moldável para qualquer outro ponto de doutrina que tem como base os Evangelhos.