Posts tagged ‘Congregação para a Doutrina da Fé’

22 novembro, 2016

​Na mira: a Doutrina da Fé.

Por FratresInUnum.com

As recentes “Dubia” dos quatro cardeais ao Papa Francisco e, para informação, à Congregação para a Doutrina da Fé, ameaçam fortemente o atual establishment na Igreja. Literalmente, eles não têm para onde correr.

Francisco e Stella.

Francisco e Stella (ainda Arcebispo).

Hoje, Papa Bergoglio começa seu movimento de contra-ataque, com a discreta e exclusiva nomeação do Cardeal Beniamino Stella como membro da Congregação para a Doutrina da Fé. Sim, ninguém mais foi nomeado, somente ele.

Para um leitor desatento, essa nomeação parece pouco significativa. Mas, para quem conhece o mistério que paira sobre a sombria figura desse purpurado, é bastante clamorosa a movimentação, tão mais clamorosa quanto silenciosa.

Aliás, o Cardeal Stella nunca aparece na superfície desse pontificado, mas, como publicamos anteriormente, ele é a verdadeira “eminência parda” em exercício, aquele que dá as cartas, aquele que pontifica!

Agora, sua presença na Congregação para a Doutrina da Fé tem a finalidade de encurralar o Cardeal Müller, Prefeito, amigo pessoal de Papa Ratzinger, organizador de sua Opera Omnia, cujas posições contra o “Paradigma Kasper”, que não prevaleceu no Sínodo, mas apenas em “Amoris Laetitia”, são abundantemente conhecidas.

De fato, estamos no governo das sombras! Enquanto o Papa Francisco finge desconhecer as sérias perguntas dos cardeais, reservando aos mesmos apenas indiretas venenosas, não está parado, age! Começa agora o aparelhamento do antigo Santo Ofício! Realmente, a Doutrina da Fé está na mira!

9 junho, 2016

Vaticano apresentará novo documento sobre carisma e hierarquia.

Cidade do Vaticano (RV) – Um novo documento da Congregação para a Doutrina da Fé, a carta “Iuvenescit Ecclesia” aos bispos da Igreja católica, “sobre a relação entre dons hierárquicos e carismáticos na vida e na missão da Igreja”, será publicado terça-feira (14/06) e apresentado em coletiva de imprensa no Vaticano.

Os Cardeais Gerhard Ludwig Mueller, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, e Marc Ouellet, Prefeito da Congregação para os Bispos; Mons. Piero Coda, membro da Comissão Teológica Internacional e Maria del Carmen Aparicio Valls, docente na Faculdade de Teologia da Pontifícia Universidade Gregoriana.

A carta “Iuvenescit Ecclesia” (A Igreja se rejuvenesce) estará sob embargo até 12h da data da apresentação, e será publicada em italiano, francês, inglês, alemão, espanhol e português.

1 abril, 2016

Como o cardeal Müller relê o Papa.

IHU – Ponto a ponto, a exegese que o prefeito da Doutrina da Fé faz das palavras de Francisco que mais serviram a equívocos. Sobre a homossexualidade, comunhão aos divorciados em segunda união, Lutero, sacerdócio feminino, celibato do clero.

A reportagem é de Sandro Magister, publicada por Chiesa.it, 29-03-2016. A tradução é do Cepat.

1zmkw41A expectativa a respeito da exortação apostólica na qual Francisco resumirá o duplo Sínodo sobre a Família é cada vez mais febril. Já estão tomando posição nas respectivas frentes as expectativas que concernem ao documento papal, o que faz prever desde agora as divisões que surgirão após sua publicação.

Por um lado, um triunfante cardeal Walter Kasper, chefe das fileiras dos reformadores, segundo o qual a exortação “será o primeiro passo de uma reforma que fará a Igreja virar a página após um período de 1700 anos” (com uma suposta referência ao Concílio de Niceia, do ano 325, cujo cânon 8, segundo uma atrevida exegese, autorizaria a comunhão aos divorciados em segunda união).

Ao passo que na frente oposta está, por exemplo, o arcebispo Georg Gänswein, prefeito da Casa Pontifícia e secretário do Papa emérito Bento XVI, segundo o qual a exortação dirá “o que sempre disse o magistério da Igreja”, sem desvios na doutrina ou na prática pastoral.

A sensação difundida é que as duas frentes têm suas razões, em razão da invencível ambiguidade que caracteriza as declarações do Papa Francisco. É fácil prever que qualquer um que desejar poderá descobrir nas mais de 200 páginas do documento a passagem que mais gostar e, como consequência, atuar.

O texto prévio da exortação também foi examinado pela Congregação para a Doutrina da Fé que, segundo algumas indiscrições, foi devolvido ao Papa com muitas propostas de modificação. Não se sabe se e em que medida Francisco levou em consideração as observações da Congregação.

No entanto, sabe-se o que pensa a esse respeito o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, cardeal alemão Gerhard L. Müller, que também é um dos treze cardeais que, no início do último sínodo, colocaram em guarda o Papa, com uma carta, acerca do perigo de “resultados predeterminados sobre importantes questões controvertidas”, em ruptura com a tradição, sobretudo no que diz respeito à comunhão aos divorciados em segunda união.

E agora Müller, justamente quando é iminente a publicação da exortação apostólica,  veio novamente à arena pública com um livro-entrevista de amplo alcance, não só a respeito da família, como também sobre outras questões candentes.

O livro saiu há alguns dias, na Espanha, publicado pela Biblioteca de Autores Cristãos, e logo também estará disponível em italiano, inglês, francês e alemão.

O título do livro lembra o do livro-entrevista que o então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Joseph Ratzinger, publicou em 1985 e que teve um imenso eco em todo o mundo: “Informe sobre a fé”. Ratzinger não é somente o mestre de Müller, também o sucedeu no mesmo cargo na Doutrina da Fé e, além disso, é a pessoa a quem o Papa emérito confiou a publicação de toda a sua obra teológica.

Na sequência, cinco passagens do livro a respeito de um número igual de questões controvertidas.

Do “Informe sobre a esperança”, por Gerhard L. Müller

“Quem sou eu para julgar”

Justamente aqueles que até agora não mostraram nenhum respeito pela doutrina da Igreja, no momento, servem-se de uma frase solta do Santo Padre, “Quem sou eu para julgar?”, retirada do contexto, para apresentar ideias desviadas sobre a moral sexual sob uma suposta interpretação do “autêntico” pensamento do Papa.

A questão homossexual que abriu margem à pergunta realizada ao Santo Padre, já aparece na Bíblia, tanto no Antigo Testamento (cf. Gn 19; Dt 23, 18s; Lv 18, 22; 20, 13; Sb 13-15), como nas cartas Paulinas (cf. Rm 1, 26s; 1Co 6, 9s), tratada como um assunto teológico (com os condicionamentos próprios que comporta a historicidade da Revelação).

Da Sagrada Escritura se deriva a intrínseca desordem dos atos homossexuais, por não proceder de uma verdadeira complementaridade afetiva e sexual. Trata-se de uma questão muito complexa em razão das muitas implicações que emergiram fortemente nos últimos anos. De qualquer modo, a concepção antropológica que é derivada da Bíblia comporta algumas inescapáveis exigências morais e, por sua vez, um escrupuloso respeito à pessoa homossexual. Tal pessoa, chamada à castidade e à perfeição cristã mediante o domínio de si mesmo e, às vezes, com o apoio de uma amizade desinteressada, vive “uma autêntica prova, devendo ser acolhida com respeito, compaixão e delicadeza, evitando-se qualquer sinal de discriminação injusta” (Catecismo da Igreja Católica, n. 2357-2359).

No entanto, para além do problema suscitado com a descontextualização da mencionada frase do Papa Francisco, pronunciada como um sinal de respeito à dignidade da pessoa, parece-me evidente que a Igreja, com seu Magistério, está capacitada para julgar a moralidade de determinadas situações. Esta é uma verdade indiscutível: Deus é o único Juiz que nos julgará no final dos tempos e o Papa e os bispos têm a obrigação de apresentar os critérios revelados para este Juízo Final, que agora já se antecipa em nossa consciência moral.

A Igreja sempre diz “isto é verdadeiro, isto é falso” e ninguém pode interpretar de modo subjetivista os Mandamentos de Deus, as Bem-aventuranças, os Concílios, segundo seus próprios critérios, seu interesse ou inclusive segundo suas necessidades, como se Deus fosse apenas um fundo para a sua autonomia. A relação entre a consciência pessoal e Deus é concreta e real, iluminada pelo Magistério da Igreja. A Igreja goza do direito e da obrigação de declarar que uma doutrina é falsa, exatamente porque essa doutrina desvia as pessoas simples do caminho que conduz a Deus.

Desde a Revolução Francesa, dos sucessivos regimes liberais e dos sistemas totalitários do século XX, o objeto dos principais ataques sempre foi a concepção cristã da existência humana e seu destino.

Quando não se pôde vencer sua resistência, permitiu-se a manutenção de alguns de seus elementos, mas não do cristianismo em sua substância, sendo que este deixou de ser o critério de toda a realidade e foram favorecidas as mencionadas posições subjetivistas. Estas se originam em uma nova antropologia não cristã relativista que prescinde do conceito de verdade: o homem de hoje se vê obrigado a viver perenemente na dúvida. Mais ainda: a afirmação de que a Igreja não pode julgar situações pessoais se assenta sobre uma falsa soteriologia, ou seja, que o homem é seu próprio salvador e redentor.

Submetendo a antropologia cristã a este reducionismo brutal, a hermenêutica da realidade que dela deriva só adota aqueles elementos que interessam ou convêm ao indivíduo: alguns elementos das parábolas, certos gestos bondosos de Cristo ou aquelas passagens que o apresentariam como um simples profeta do social ou um mestre em humanidade.

Por outro lado, censura-se o Senhor da história, ao Filho de Deus que chama à conversão ou ao Filho do Homem que virá para julgar os vivos e mortos. Na realidade, este cristianismo simplesmente tolerado fica vazio de sua mensagem, esquecendo que a relação com Cristo, sem a conversão pessoal, é impossível.

Quem pode receber a Eucaristia

O Papa Francisco diz na “Evangelii Gaudium” (n. 47) que a Eucaristia “não é um prêmio para os perfeitos, mas, sim, um generoso remédio e um alimento para os fracos”. Vale a pena analisar esta frase com profundidade, para não confundir o seu sentido.

Em primeiro lugar, é preciso destacar que esta afirmação expressa a primazia da graça: a conversão não é um ato autônomo do homem, mas, ao contrário, em si, é uma ação da graça. Porém, disso não se pode deduzir que a conversão seja uma resposta externa de agradecimento pelo que Deus fez em mim, ainda que por sua conta, sem mim. Tampouco posso concluir que qualquer um pode se aproximar para receber a Eucaristia, mesmo que não esteja em graça e não tenha as devidas disposições, só porque é um alimento para os fracos.

Antes de tudo, deveríamos nos perguntar, o que é a conversão? É um ato livre do homem e, ao mesmo tempo, é um ato motivado pela graça de Deus que sempre prevê os atos do homem. É por isso um ato integral, incompreensível se a ação de Deus se separa da ação do homem. […].

No sacramento da penitência, por exemplo, observa-se com toda clareza a necessidade de uma resposta livre por parte do penitente, expressada em sua contrição do coração, seu propósito de reparação, sua confissão dos pecados, sua satisfação. Por isso, a teologia católica nega que Deus faça tudo e que o homem seja puro recipiente das graças divinas. A conversão é a nova vida que nos é dada pela graça e também, ao mesmo tempo, é uma tarefa que nos é oferecida a modo de condição da perseverança na graça. […].

Só há dois sacramentos que constituem o estado da graça: o Batismo e o sacramento da Reconciliação. Quando se perdeu a graça santificante, necessita-se do sacramento da Reconciliação para recuperar esse estado, não como mérito próprio, mas como presente, como um dom que Deus oferece na forma sacramental. O acesso à comunhão eucarística pressupõe certamente a vida de graça, pressupõe a comunhão no corpo eclesial, pressupõe também uma vida ordenada conforme o corpo eclesial para poder dizer “Amém”. São Paulo insiste em que aquele que come o pão e bebe o vinho do Senhor indignamente, será réu do corpo e sangue do Senhor (1Co 11, 27).

Santo Agostinho afirma que “aquele que te criou sem ti, não te salvará sem ti” (Sermão 169). Deus pede minha colaboração. Uma colaboração que é também presente seu, mas que implica a minha acolhida desse dom.

Se as coisas fossem de outra forma, poderíamos cair na tentação de conceber a vida cristã ao estilo das realidades automáticas. O perdão, por exemplo, seria convertido em algo mecânico, quase em uma exigência, não em um pedido que também depende de mim, pois eu o devo fazer. Eu iria, então, à comunhão sem o estado de graça requerido e sem me aproximar do sacramento da Reconciliação. Inclusive, daria por certo, sem nenhuma evidência para isso a partir da Palavra de Deus, que este me concede privadamente o perdão de meus pecados para essa mesma comunhão. Este é um conceito falso de Deus, é tentar a Deus. Acarreta também um conceito falso de homem, ao desvalorizar o que Deuspode suscitar nele.

Protestantização da Igreja

Estritamente falando, nós, católicos, não temos nenhum motivo para celebrar o dia 31 de outubro de 1517, data que se considera o início da Reforma que conduz à ruptura da cristandade ocidental.

Se estamos convencidos de que a Revelação se conservou íntegra e inalterada através da Escritura e da tradição na doutrina da Fé, nos Sacramentos, na constituição hierárquica da Igreja por direito divino, fundada sobre o sacramento da Ordem sagrado, não podemos aceitar que existam motivos suficientes para se separar da Igreja.

Os membros das comunidades eclesiais protestantes consideram este acontecimento a partir de outra ótica, pois pensam que é a oportunidade adequada para celebrar a redescoberta da “palavra pura de Deus”, supostamente desfigurada através da história por tradições meramente humanas. Os Reformadores protestantes concluíram, há quinhentos anos, que alguns hierarcas da Igreja não só eram moralmente corruptos, como também haviam distorcido o Evangelho e, como consequência, haviam bloqueado o caminho de Salvação dos crentes para Jesus Cristo. Para justificar a separação, acusaram o Papa, supostamente a cabeça deste sistema, de ser o Anticristo.

Como progredir hoje, com realismo, no diálogo ecumênico com as comunidades evangélicas? O teólogo Karl-Heinz Menke está certo quando afirma que a relativização da verdade e a adoção acrítica das ideologias modernas são o principal obstáculo para a unidade na verdade.

Neste sentido, uma protestantização da Igreja Católica a partir de um pensamento secular sem referência à transcendência não nos pode reconciliar com os protestantes, nem sequer pode permitir um encontro com o Mistério de Cristo, pois Nele somos depositários de uma Revelação sobrenatural a qual todos nós devemos, desde a completa obediência do intelecto e da vontade (cf. “Dei Verbum”, 5).

Acredito que os princípios católicos do ecumenismo, tal como foram propostos e desenvolvidos pelo decreto doConcílio Vaticano II, continuam sendo plenamente válidos (cf. “Unitatis Redintegratio”, 2-4). Por outra parte, o documento da Congregação para a Doutrina da Fé “Dominus Iesus”, do Ano Santo de 2000, incompreendido por muitos e injustamente rejeitado por outros, acredito que é, sem nenhum gênero de dúvidas, a carta magna contra o relativismo cristológico e eclesiológico deste momento de tanta confusão.

Sacerdócio Feminino

A pergunta se o sacerdócio feminino é uma questão disciplinar que a Igreja poderia simplesmente mudar não é procedente, porque toca em um tema já decidido.

O Papa Francisco também deixou isto claro, assim como seus predecessores. A esse respeito, recordo que São João Paulo II, no n. 4 da Exortação Apostólica “Ordinatio Sacerdotalis”, de 1994, reforçou com o plural majestático (“declaramus”), no único documento em que este Papa usa esta forma verbal, que é doutrina definitiva ensinada infalivelmente pelo magistério ordinário universal (can. 750 § 2 CIC) que a Igreja não tem a autoridade para admitir as mulheres no sacerdócio.

É competência do Magistério decidir se uma questão é dogmática ou disciplinar. Neste caso, a Igreja já decidiu que esta proposta é dogmática e que, sendo de direito divino, não pode ser mudada, nem sequer pode ser revisada. Poderia ser justificada com muitas razões, como a fidelidade ao exemplo do Senhor ou o caráter normativo da práxis multissecular da Igreja, mas não acredito que este tema deva ser profundamente tratado aqui, pois os documentos que o mencionam expõem suficientemente os motivos para rejeitar esta possibilidade.

Não gostaria de deixar de destacar que há uma igualdade essencial entre o varão e a mulher no plano da natureza e também na relação com Deus pela graça (cf. Gl 3, 28). No entanto, o sacerdócio implica uma simbolização sacramental da relação de Cristo, cabeça ou esposo, com a Igreja, corpo ou esposa. As mulheres podem exercer cargos na Igrejasem mais, sem problema algum. A este respeito, sempre que posso torno público meu agradecimento ao numeroso grupo de mulheres leigas e religiosas, algumas delas com qualificada titulação universitária, que prestam sua indispensável colaboração à Congregação para a Doutrina da Fé.

Contudo, por outro lado, não seria sério realizar propostas a partir de simples cálculos humanos, dizendo, por exemplo, “se abrirmos o sacerdócio às mulheres, superaremos o problema vocacional” ou “se aceitássemos o sacerdócio feminino, apresentaríamos uma imagem mais moderna ao mundo”.

Acredito que esta maneira de conceber o debate é muito superficial, ideológica e, sobretudo, antieclesial, pois é óbvio que se trata de uma questão dogmática já definida por quem tem a responsabilidade por isto e não de um tema meramente disciplinar.

Celibato Sacerdotal

O celibato sacerdotal, tão contestado em certos ambientes eclesiásticos atuais, encontra sua raiz nos Evangelhos como conselho evangélico, mas também tem uma relação intrínseca com o ministério do sacerdote.

O sacerdote é mais que um funcionário religioso ao qual se atribui uma missão independente de sua vida. Sua vida tem a ver com sua missão apostólica e, por isso, claramente, na reflexão paulina e também nos mesmos evangelhos, o conselho evangélico aparece relacionado à figura dos ministros eleitos por Jesus. Os apóstolos, por seguir a Cristo, deixaram todas as seguranças humanas para trás e, em particular, sua esposa. A este respeito, São Paulo nos fala de sua própria experiência em 1Co 7, 7, onde parece considerar o celibato como um carisma singular que ele recebeu.

Atualmente, o vínculo entre celibato e sacerdócio como dom peculiar de Deus mediante o qual os ministros sagrados podem se unir mais facilmente a Cristo, com um coração inteiro (can. 277 & 1 CIC; “Pastores dabo vobis”, 29), acontece em toda a Igreja aniversal, ainda que de forma diversa. Na Igreja oriental, como sabemos, atinge apenas o sacerdócio dos bispos, mas o próprio fato de que se exija destes nos indica que tal Igreja não o concebe como uma disciplina externa.

No antes mencionado ambiente de contestação ao celibato, está muito difundida a seguinte analogia: há alguns anos, teria sido inimaginável que uma mulher pudesse ser soldada e hoje, ao contrário, os exércitos modernos contam com muitas mulheres soldada, plenamente capacitadas para um trabalho considerado tradicionalmente como exclusivamente masculino. Não acontecerá o mesmo com o celibato? Não será um inveterado costume do passado que é necessário revisar?

No entanto, a substância do ofício militar, independentemente de algumas questões de tipo prático, não reivindica um determinado sexo em quem o exercita, enquanto que o sacerdócio está em íntima conexão com o celibato.

O Concílio Vaticano II e outros documentos magisteriais mais recentes ensinam uma conformidade ou adequação interna entre celibato e sacerdócio tal, que a Igreja de rito latino não se sente capacitada para mudar tal doutrina com uma decisão arbitrária que rompa com um desenvolvimento progressivo da regulação canônica que durou longos séculos, a partir de um reconhecimento de tal vínculo interno que é anterior a tal legislação. Nós não podemos romper unilateralmente com toda uma série de declarações de papas e concílios e com a firme e continuada adesão da Igreja Católica à imagem do sacerdote celibatário.

As crises do celibato na Igreja Católica latina foi um tema recorrente em momentos especialmente difíceis na Igreja. Para citar um exemplo, podemos evocar os tempos da Reforma Protestante, os da Revolução Francesa e, mais recentemente, os anos da Revolução Sexual, nos anos 1960 e 1970 do século passado. Porém, se algo podemos aprender do estudo da história da Igreja e de suas instituições é que tais crises sempre demonstraram e consolidaram a bondade da doutrina sobre o celibato.

22 maio, 2014

Roma excomunga responsável por movimento “Nós somos a Igreja”.

Por La Vie | Tradução: Fratres in Unum.com – Esse é o epílogo de um longo impasse entre o movimento Wir sind Kirche (“Nós somos a Igreja”) e o Vaticano. Segundo as informações do Tiroler Tageszeitung (em alemão), Martha Heizer, a responsável austríaca pelo movimento leigo muito crítica em relação a Roma, acaba de ser excomungada pelo Papa Francisco. Seu marido, Gert Heizer, foi igualmente atingido pela medida. De acordo com o diário alemão Die Welt (em alemão), a informação é confirmada “por círculos católicos”.

Martha Heizer

O bispo de Innsbruck, Dom Manfred Scheuer, “apresentou pessoalmente o decreto ao casal na quarta-feira, 21 de maio, à noite”, afirmou a rádio ORF Tirol (em alemão). O bispo leu o conteúdo do decreto aos dois envolvidos, que, em seguida, recusaram o documento. “Nós não aceitamos porque questionamos a integridade de todo o processo”, disse Martha Heizer à rádio austríaca.

Nesta manhã de quinta-feira, ela declara, em um comunicado (em alemão), estar “profundamente chocada ao se encontrar na mesma categoria que os padres pedófilos”. Na sua opinião, “esse procedimento mostra como a que ponto a Igreja Católica precisa de renovação”.

Eucaristias privadas

O motivo das duas excomunhões? Missas privadas celebradas sem padre na residência do casal. Há vários anos, Martha Heizer não esconde que ela e seu marido acolhem em sua casa essas celebrações, às quais alguns fiéis participam regularmente. Simulações de missas que constituem “delicta graviora” (delitos graves) aos olhos da Igreja Católica.

“O caso causou polêmica em 2011”, explica o Tiroler Tageszeitung, com a intervenção do bispo local. A Congregação para a Doutrina da Fé, em seguida, anunciou a criação de uma comissão.

Martha Heizer encabeça o movimento reformista desde 7 de abril passado — um movimento fundado na Áustria em 1995, da qual é uma das fundadoras. Aos 67 anos, Martha Heizer é conhecida por suas posições favoráveis à ordenação de mulheres e a “uma renovação da Igreja através dos leigos”, diz o Die Welt. Desde 2012, ela dirige o International Movement We Are Church (IMWAC), “Movimento Internacional Nós Somos Igreja”.

Com esta decisão, Dom Gerhard Ludwig Müller, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, mantém-se fiel à sua posição anterior: em 2009, então chefe da diocese de Regensburg, o prelado alemão havia suspendido Paul Winckler, o responsável alemão da Wir sind Kirche .

17 maio, 2014

Michael Amaladoss, teólogo jesuíta, é censurado pelo Vaticano. Jesuítas minimizam fato.

Michael Amaladoss, teólogo jesuíta, é censurado pelo Vaticano

IHU – O Vaticano está investigando um teólogo jesuíta da Índia por supostamente defender crenças heterodoxas, o que levanta novas questões sobre se o Papa Francisco – o primeiro papa jesuíta – de fato está movendo a Igreja Católica para uma nova direção.

A reportagem é de David Gibson, publicada no sítio Religion News Service, 12-05-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

A notícia da ameaça de censura ao padre Michael Amaladoss, cujo livro mais conhecido é Jesus, o profeta do Oriente (Ed. Pensamento), segue o rastro de um contundente aviso sobre ortodoxia e obediência que o guardião doutrinal do Vaticano, o cardeal Gerhard Müller, entregou a um grupo de religiosas que representam a maioria das irmãs norte-americanas.

O discurso de Müller, no dia 30 de abril, às irmãs da Leadership Conference of Women Religious (LCWR) foi visto como um revés inesperado nas negociações em torno de uma investigação vaticana sobre as freiras que começou um ano antes de Francisco ser eleito. A linha dura de Müller também parecia estar fora de sintonia com o novo estilo de abertura e flexibilidade que tem marcado o jovem papado de Francisco.

Fontes da Igreja dizem que Amaladoss, um especialista altamente renomado em diálogo inter-religioso e cristologia, passou a ser vigiado pelo escritório de Müller pela primeira vez há um ano. Elas disseram que Amaladoss acreditava que as suas respostas iniciais às questões sobre os seus pontos de vista sobre a unicidade de Jesus e a Igreja Católica haviam respondido às objeções vaticanas.

Mas em janeiro o escritório de Müller voltou à tona com uma demanda para que Amaladoss escrevesse um artigo endossando publicamente as opiniões vaticanas, ou enfrentaria o silenciamento. Durante décadas, esse nível de grave sanção foi uma característica marcante do tratamento linha-dura dado aos teólogos sob o cardeal Joseph Ratzinger, que mais tarde se tornaria o Papa Bento XVI.

No início de abril, Amaladoss se encontrou com Müller e outras autoridades da Congregação para a Doutrina da Fé ” e concordou em refazer (…) essas questões à luz do diálogo”, disse o padre Edward Mudavassery, que supervisiona os jesuítas na Índia.

“Eu entendo que foi um encontro aberto e honesto, na tentativa de esclarecer questões objecionáveis”, disse Mudavassery. “Todos sabemos que o Papa Francisco é um homem de diálogo. Parece-me que a Congregação para a Doutrina da Fé também pode seguir esse caminho para resolver as diferenças, porque esses homens sob escrutínio são genuínos e leais à Igreja e aos ensinamentos de Jesus”.

Francisco saberia da investigação, mas não parece muito preocupado que ela irá acabar na punição de Amaladoss, de acordo com jesuítas familiarizados com o caso.

Francisco conhece Amaladoss por causa da sua longa e distinta carreira como jesuíta, tanto como teólogo e autor de centenas de livros e artigos, quanto também como antigo assistente do Padre Geral da Companhia de Jesus. Nessa função, ele viveu vários anos em Roma, na Cúria Geral dos jesuítas.

Amaladoss está viajando ao exterior, disse Mudavassery, e o teólogo não respondeu aos e-mails enviados a ele no Instituto de Diálogo com as Culturas e as Religiões que ele dirige em Chennai.

Mudavassery disse que não sabia de quaisquer restrições impostas a Amaladoss. Mas Amaladoss cancelou todos os compromissos de conferências e textos, enquanto tenta lidar com as preocupações do Vaticano. Fontes jesuítas disseram que Amaladoss disse à sua editora nos EUA, Orbis Books, que interrompessem os trabalhos de uma coleção planejada dos seus escritos. Os responsáveis da Orbis não quiseram comentar o status de qualquer projeto com Amaladoss.

O padre também cancelou uma conferência no Union Theological Seminary, em Nova York, marcada para o dia 8 de abril, intitulada “A teologia na Índia é realmente diferente da teologia no Ocidente?”. Uma nota no site do seminário diz: “A Congregação para a Doutrina da Fé do Vaticano proibiu o Dr. Amaladoss de falar e publicar até que um processo de exame do seu pensamento se conclua com sucesso” (ver reprodução abaixo).

“Amaladoss nos pediu para não comentar sobre as razões específicas desse cancelamento, e nós respeitamos a sua vontade”, acrescentou o porta-voz do seminário, Jeff Bridges.

As investigações da Congregação para a Doutrina da Fé são conduzidas em segredo, e os teólogos visados muitas vezes não sabem que estão sob escrutínio até que a investigação esteja em andamento. Eles geralmente também não sabem quem apresenta as queixas ou quem na Congregação está conduzindo a investigação.

Há muito os teólogos se queixam de que tal sigilo e as oportunidades limitadas que eles têm para responder pessoalmente às acusações têm levado a um sistema coercitivo que reflete negativamente sobre a hierarquia católica.

Durante o quarto de século que Ratzinger dirigiu o escritório sob o Papa João Paulo II, os jesuítas frequentemente eram alvos das sondagens da Congregação para a Doutrina da Fé, em parte porque os jesuítas têm um foco missionário e procuram traduzir as crenças tradicionais para os crentes modernos e para outras culturas religiosas.

O processo de engajamento com as culturas está particularmente avançado na Ásia, onde o cristianismo é uma minoria e onde os jesuítas estabeleceram um porto seguro para o catolicismo. Mas isso também significa que os teólogos que lá trabalham costumam usar formulações não tradicionais para tentar comunicar a fé aos públicos hindus ou budistas que têm pouca compreensão dos pontos de vista ocidentais sobre Deus e Jesus.

O próprio mestre de Amaladoss, o jesuíta belga Jacques Dupuis, enfrentou uma longa e cansativa investigação por parte da Congregação para a Doutrina da Fé sobre os seus pontos de vista sobre o pluralismo religioso. Seus colegas dizem que o estresse provocado pela sondagem, liderada por Ratzinger, contribuiu para a morte de Dupuis em 2004.

* * *

Jesuítas indianos minimizam censura vaticana a Michael Amaladoss

IHU – O provincial jesuíta do sul da Ásia, o padre Edward Mudavassery, minimizou os relatos generalizados de que o Vaticano lançou uma investigação sobre os escritos do padre Michael Amaladoss (foto), um proeminente teólogo jesuíta indiano.

A reportagem é de Christopher Joseph, publicada pela agência UCA News, 14-05-2014. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

“Até onde eu sei, não há nenhuma investigação, e ele não foi impedido de escrever e de lecionar”, disse o padre Mudavassery nessa terça-feira.

Ele acrescentou que a Congregação para a Doutrina da Fé do Vaticano convidou o Pe. Amaladoss a Roma na primeira semana de abril para um “diálogo” sobre evangelização, mas insistiu que as conversas com as autoridades da Congregação ocorreram de “forma amigável”.

O Pe. Amaladoss, 77 anos, conhecido mundialmente pelos seus ensinamentos sobre cultura e diálogo inter-religioso na Ásia, estaria atualmente na Europa, em uma visita pessoal, e não pôde ser contatado para mais detalhes.

O teólogo, que pertence à província de Madurai dos jesuítas, trabalhou em Roma de 1983 a 1995 como assistente-geral do superior jesuíta da época, Peter-Hans Kolvenbach, com responsabilidades especiais para as questões de evangelização, inculturação e diálogo inter-religioso.

Uma importante autoridade da província de Madurai, que pediu para não ser identificada, confirmou ao sítio UCANews.com que a correspondência entre a Congregação para a Doutrina da Fé e o Pe. Amaladoss “tem ocorrido há algum tempo, ao menos há dois a três anos”.

As questões que estão sendo discutidas não se referem a “nenhum livro dele em particular, mas sim a como proclamar Jesus a um público asiático”, disse a autoridade.

Desde o Concílio Vaticano II, os teólogos asiáticos – especialmente indianos – têm trabalhado para interpretar a Bíblia e a liturgia nos termos das filosofias e das culturas orientais, a fim de ajudar os asiáticos a compreendê-las.

Não é desconhecido para alguns desses teólogos o fato de estarem sob investigação vaticana, seguida de reprimendas e até mesmo de excomunhão por expressarem opiniões heterodoxas.

Dentre eles, o mais proeminente foi o teólogo Tissa Balasuriya, do Sri Lanka, que foi excomungado em 1997, quando o cardeal Joseph Ratzinger, que mais tarde se tornou o Papa Bento XVI, chefiava a Congregação para a Doutrina da Fé. A excomunhão foi levantada um ano mais tarde, depois que Balasuriya assinou uma profissão de fé. Ele morreu no ano passado, aos 89 anos.

12 maio, 2014

Papa Francisco e Dom Fellay, o encontro. Mais detalhes.

Andrea Tornielli traz mais detalhes sobre o encontro entre o Papa Francisco e Dom Bernard Fellay, superior geral da Fraternidade Sacerdotal São Pio X.

“O encontro teria ocorrido nas primeiras semanas de 2014. Dom Fellay fora convidado para jantar em Santa Marta pelo bispo Guido Pozzo, secretário da Pontíficia Comissão “Ecclesia Dei” e pelo arcebispo Augustin Di Noia, vice-presidente da mesma comissão. Junto ao prelado tradicionalista estiveram presentes o padre Niklaus Pfluger e o padre Marc Nely (primeiro e segundo assistente do superior geral, que naquele dia assistiram à Missa celebrada pelo Papa em Santa Marta [mas não concelebraram], de acordo com o que noticiou a agência IMedia).

O Papa estava à mesa de costume no refeitório da Casa Santa Marta; Fellay, com seus dois assistentes, Pozzo e Di Noia, estavam numa outra mesa. Quando Francisco se levantou ao fim do jantar, o superior da Fraternidade São Pio X fez o mesmo e caminhou em direção ao Papa, ajoelhando-se para pedir uma benção. O encontro foi, portanto, breve, não se tratou de nenhum audiência, nem de um longo colóquio face a face. Viver em Santa Marta permite e facilita ao Papa Bergoglio esse tipo de contato, mais ou menos casul.

Com o retorno, no último mês de agosto, de Dom Pozzo à “Ecclesia Dei, depois de um parêntese de alguns meses na Esmolaria Apostólica, era esperado que se pudesse reatar o diálogo entre a Santa Sé e a Fraternidade São Pio X. Na Congregação para a Doutrina da Fé há, todavia, aqueles que reivindicam– depois de anos de diálogo e depois da não aceitação do preâmbulo doutrinal — um novo ato formal contra os lefebvrianos. No momento, parece, porém, prevalecer a linha de espera.

O jantar com Di Noia e Pozzo, e a benção papal, é um episódio certamente emblemático de acolhimento por Francisco. Seria, no entanto, um erro lhe atribuir excessiva importância em relação a eventuais desenvolvimentos sobre a posição dos lefebvrianos.

[Atualização – 12 de maio de 2014, às 12:35] A página oficial do Distrito da França da FSSPX faz o seguinte esclarecimento – tradução de Fratres in Unum.com:

Os Padres Pfluger e Nély nunca assistiram à missa privada do Papa e os jornalistas que o afirmam teriam muita dificuldade em indicar o dia dessa suposta assistência. Eis os fatos:

Em 13 de dezembro de 2013, Dom Fellay e seus assistentes foram a Roma, a pedido da Comissão Ecclesia Dei, para um encontro informal. Ao fim dessa reunião, Dom Guido Pozzo, Secretário da Comissão, convidou seus interlocutores para almoçar no refeitório da Casa Santa Marta, onde a eles se juntou Dom Augustin Di Noia, secretário adjunto da Congregação para a Doutrina da Fé. É nesse amplo refeitório que o Papa faz suas refeições diárias, afastado de outros comensais.

Dom Pozzo apresentou Dom Fellay ao Papa no momento em que ele deixava o refeitório. Houve uma breve conversa onde Francisco disse a Dom Fellay, de acordo com a fórmula usual de polidez, “Estou muito feliz em conhecê-lo”; ao que Dom Fellay disse que rezava muito, e o papa lhe pediu para rezar por ele. Este foi o “encontro” que durou alguns segundos.

Na entrevista que concedeu a Rocher (abril-maio de 2014), Dom Fellay havia respondido à seguinte questão: Houve alguma aproximação oficial de Roma para retomar contato desde a eleição do Papa Francisco?  – “Houve uma aproximação ‘não-oficial’ de Roma para retomar contato conosco, mas nada mais e eu não solicitei uma audiência como eu pude fazer após a eleição de Bento XVI. Para mim, atualmente, as coisas são muito simples: nós permanecemos onde estamos. Alguns concluíram dos contatos realizados em 2012, que eu coloquei como princípio supremo a necessidade de um reconhecimento canônico. A preservação da fé e a nossa identidade católica tradicional é primordial e continua sendo nosso primeiro princípio”.

9 julho, 2013

Dom Müller: “Agora realmente chega”.

Por FSSPX-Alemanha | Tradução: Fratres in Unum.com – Um comunicado de imprensa foi divulgado hoje pelos meios de comunicação: segundo informações da “Focus”, o Vaticano deseja encerrar o diálogo com a Fraternidade São Pio X, iniciado pelo Papa Emérito Bento XVI.

É iminente uma declaração nesse sentido do prefeito alemão para a Congregação da Fé, Gerhard Ludwig Müller, informa a revista, citando fontes do dicastério.

A declaração publicada recentemente pelos três bispos, por ocasião do 25º aniversário da sagração episcopal, teria motivado essa medida.  […]

De acordo com a revista “Focus”, em reação a essas afirmações [contidas na declaração] o Arcebispo Müller teria dito: “Agora realmente chega.” Como pastor supremo de Regensburgo, o Arcebispo Müller já era um opositor declarado da obra do Arcebispo Lefebvre.

* * *

Nota do Fratres: A exemplo do que fez em 2009, pouco depois do levantamento das excomunhões, Dom Müller comunicou à Fraternidade que ela deveria renunciar às ordenações previstas para o dia 29 de junho de 2013. A informação foi divulgada por Dom Bernard Fellay, superior da FSSPX, em Paris, no último dia 20. No passado, ainda como bispo de Regensburg, Müller teria afirmado que as ordenações na Fraternidade seriam inválidas, juízo nunca emitido por nenhum representante da Santa Sé.

23 maio, 2013

“Distinguir uma Teologia da Libertação equivocada e uma correta”.

Da entrevista concedida por D. Gerhard Müller, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, à Zenit:

No ano passado, quando você foi nomeado prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, alguns o acusavam de ser amigo do padre Gustavo Gutiérrez, fundador da Teologia da Libertação. O que nos pode dizer sobre isso?

Dom Müller e Gustavo Gutierrez.

Dom Müller e Gustavo Gutierrez.

É verdade que conheço bem o padre Gutiérrez. Em 1988, me convidaram para participar de um seminário com ele. Fui com alguma reserva porque conhecia as duas declarações da Congregação para a Doutrina da Fé sobre a Teologia da Libertação, publicadas em 1984 e em 1986. Entretanto, pude constatar que é necessário distinguir uma Teologia da Libertação equivocada e uma correta.

Considero que cada teologia é boa se parte de Deus e de seu amor e tem a ver com a liberdade e a glória dos filhos de Deus. Portanto, a teologia cristã que fala da salvação dada por Deus não pode ser misturada com a ideologia marxista que fala de uma autorredenção do homem.

A antropologia marxista é completamente diferente da antropologia cristã, porque trata o homem como um ser privado de liberdade e dignidade. O comunismo fala da ditadura do proletariado e a boa teologia, ao contrário, fala da liberdade e do amor. O comunismo, e também o capitalismo neoliberal, rechaçam a dimensão transcendente da existência e se limitam ao horizonte material da vida. O capitalismo e o comunismo são as duas faces da mesma moeda, a moeda falsa. Ao contrário, para construir o Reino de Deus a verdadeira teologia vem da Bíblia, dos Padres da Igreja e do Concílio Vaticano II.

Em certos ambientes, sua nomeação para prefeito da Congregação que se ocupa da doutrina católica e a recente eleição do arcebispo de Buenos Aires para bispo de Roma foram vistos como uma revanche da Teologia da Libertação, criticada por João Paulo II e pelo cardeal Ratzinger. O que responde a estas vozes?

Em primeiro lugar, queria destacar que não existe nenhuma ruptura entre Bento XVI e o Papa Francisco no que se refere à Teologia da Libertação. Os documentos do então prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé serviram para esclarecer o que era necessário evitar, da maneira de fazer a Teologia da Libertação à autêntica teologia da Igreja. Minha nomeação não significa que se abre um novo capítulo nas relações com esta teologia; pelo contrário, é um sinal de continuidade.

Bento XVI, ao receber em 2009 um grupo de bispos do Brasil em visita ad limina apostolorum, disse que valia a pena recordar que em agosto do ano anterior foram comemorados os 25 anos da Instrução Libertatis Nuntius da Congregação para a Doutrina da Fé, sobre alguns aspectos da Teologia da Libertação. E acrescentou que “suas consequências mais ou menos visíveis feitas de rebelião, divisão, discordância, ofensa, anarquia ainda agora se fazem sentir, criando em nossas comunidades diocesanas grande sofrimento e uma grave perda de forças vivas”. Concorda com esta análise do pontífice sobre as consequências da Teologia da Libertação?

Estes aspectos negativos dos quais fala Bento XVI são o resultado da mal entendida e mal aplicada Teologia da Libertação. Estes fenômenos negativos não teriam acontecido se tivesse sido aplicada a autêntica teologia. As diferenças ideológicas criam divisão na Igreja.

Mas isto acontece também na Europa onde há, por exemplo, os chamados católicos progressistas e conservadores. Isto recorda a situação de Corinto, onde havia quem se referia a Paulo e quem, ao contrário, se referia a Pedro, ao passo que outros se referiam a Cristo. Mas todos nós temos que estar unidos em Cristo, porque Deus une, o mal divide. A teologia que cria as divisões é antes ideologia. A verdadeira teologia tem que levar a Deus, então não se pode criar divisões.

8 maio, 2013

Cardeal Braz de Aviz disse o que disseram que disse. Oficial da Congregação para a Doutrina da Fé: “Isso não se faz”.

Do National Catholic Reporter:

Um cardeal negou alegações do Vaticano de que suas observações feitas ao NCR sobre uma controversa crítica de 2012 às irmãs católicas dos EUA foram mal interpretadas, afirmando considerar a matéria do NCR “muito precisa”.

Braz de Aviz, falando ao NCR na quarta-feira, no Vaticano, após a audiência papal com as líderes das irmãs católicas de todo o mundo, disse que a matéria do NCR sobre a sua conferência forneceu uma tradução imprecisa da palavra “autoridade” no momento das perguntas e respostas.

No entanto, “tratou-se somente de um pequeno, minúsculo ponto da entrevista”, disse.

NCR reportou o cardeal dizendo no domingo: “Estamos em um momento” onde as idéias de “obediência e autoridade devem ser renovadas, revistas”.

“Autoridade que controla, mata. Obediência que se torna uma cópia do que a outra pessoa diz infantiliza”, escreveu NCR como sendo suas palavras.

Braz de Aviz disse na quarta-feira: “A questão da obediência, esta parte estava ok. Mas a questão da autoridade, a tradução não estava precisa. Eu estava tentando enfatizar que a autoridade não pode ser uma dominação”.

Da matéria de Catholic News Agency (CNA):

Um oficial da Congregação para a Doutrina da Fé disse à CNA, em 7 de maio, sob a condição de anonimato, que a Congregação está “perplexa” com a afirmação do Cardeal João Braz de Aviz de que não se discutiu com ele a decisão de exigir que um grupo americano de superioras religiosas passe por reformas.

“Estamos perplexos porque a matéria é de exclusiva responsabilidade da congregação [para a Doutrina da Fé] e nós não estamos invadindo o terreno de ninguém”, afirmou a fonte no início da tarde de terça-feira.

A decisão foi resultado de uma avaliação de quatro anos que chegou à conclusão de que a Conferência de Superioras Religiosas promovia “temas feministas radicais incompatíveis com a fé católica” e divergia do ensinamento da Igreja em pontos que incluíam o sacerdócio sacramental masculino e a homossexualidade.

[…]

Comentando sobre as afirmações [do Cardeal Braz de Aviz] sobre a congregação doutrinal, a fonte interna declarou: “Isso não se faz. Eu não sei como os seus comentários beneficiam a ele ou a Igreja, e ele faz parecer que se está cometendo uma injustiça”.

“Foi um processo muito lento e objetivo e nossos membros são teólogos e filósofos extremamente profissionais, que consultam o Papa semanalmente”, explicou.

Mas de acordo com a fonte, “há muito orgulho e alguém sempre quer acreditar que está certo”.

“As pessoas estão muito mal informadas teológica, filosófica e academicamente” sobre as posições defendidas pela LCWR, acrescentou.

O oficial da doutrina acredita que “a parte mais importante já aconteceu, isto é, que os católicos foram informados de que essas mulheres estão erradas”.

Ele explicou que a LCWR segue a “ideologia de gênero” e “desenvolveu um feminismo ultra exacerbado que as faz rejeitar todo tipo de autoridade masculina”.

“Elas foram mandadas embora de várias paróquias porque ensinam coisas que provocam grande desconforto nas comunidades”, disse.

[…]

Após tentar obter comentários da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica, CNA foi encaminhada ao Cardeal Braz de Aviz, que não estava disponível.

4 fevereiro, 2013

Dom Müller teria intervindo em favor da antiga PUC-Peru.

IHU – O prefeito para a Congregação da Doutrina da Fé, Gerhard Müller, teria enviado uma carta ao cardeal Juan Luis Cipriani, na qual pede informações sobre sua decisão de não renovar o mandato para que os professores do Departamento de Teologia da Pontifícia Universidade Católica do Peru (PUCP) deem aula.

Dom Müller e o guru-mor da Teologia da Libertação, Gustavo Gutierrez: não, eles não estavam negociando quanto à Fé.

Dom Müller e o guru-mor da Teologia da Libertação, Gustavo Gutierrez.

A reportagem está publicada no sítio espanhol Religión Digital, 01-02-2013. A tradução é do Cepat.

De acordo com a revista peruana Caretas, o encarregado da Doutrina da Fé do Vaticano solicitou ao cardeal Cipriani que lhe enviasse uma cópia do documento no qual decide não renovar o mandato canônico vigente.

Müller lhe teria indicado que enquanto não se resolve o tema no Vaticano, a universidade poderá continuar a oferecer os cursos de Teologia previstos.

A Caretas indica, além disso, que pessoas vinculadas ao cardeal asseguram que este assunto emerge porque os professores da PUCP, aos quais foi cortado o direito de ensinar, enviaram primeiro uma carta a Müller queixando-se de terem sido proibidos por motivos doutrinários.

Todavia, Cipriani disse que não recebeu nenhuma carta até o momento, e afirmou que não renovou a licença porque a PUCP não cumpriu com a ordem de adaptar seus estatutos, conforme exigência do Vaticano.

Além disso, justifica sua decisão e assevera que tomou a decisão com base em suas faculdades como Arcebispo Ordinário de Lima.

Extraoficialmente, soube-se que a carta de Müller já chegou, e foi enviada através da Nunciatura Apostólica ao cardeal. Uma cópia teria sido enviada à Conferência Episcopal, presidida por dom Salvador Piñeiro.

A decisão de Cipriani de proibir os cursos de Teologia na PUCP afeta muitos estudantes desta universidade, pois para terminar os Estudos Gerais Letras é indispensável fazer ao menos uma disciplina de Teologia, assim como egressar da Faculdade de Teologia; ao passo que em Educação, devem fazer duas disciplinas.

* * *

Como noticiamos em julho do ano passado: ‹‹ Em 2008, Dom Gehard Müller, novo Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, recebeu o título de doutor honoris causa outorgado pela mesmíssima universidade. Todos os anos desde 1998, Müller viaja ao Peru para fazer um curso com Gutiérrez na ex-PUC e passa algum tempo vivendo com os agricultores em uma paróquia rural, perto da fronteira com a Bolívia. Quando recebeu o título, Müller declarou sobre Gutierrez: “A teologia de Gustavo Gutiérrez, independentemente de como você olha para ela, é ortodoxa porque é ortoprática”, disse ele. “Ela nos ensina a forma correta de agir de uma forma cristã, já que provém da verdadeira fé” ›› .