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4 novembro, 2011

Sermão do Reverendíssimo Padre Anderson Batista da Silva por ocasião da Peregrinação de Cristo Rei.

Temos a satisfação de publicar o vídeo e a transcrição do sermão proferido pelo Reverendíssimo Padre Anderson Batista da Silva, da Arquidiocese de Niterói, por ocasião da Peregrinação de Cristo Rei, no último dia 30 de outubro.

Vídeo: Anthony Tannus Wright| Transcrição: Fratres in Unum.com

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Meus irmãos e irmãs, neste domingo, 30 de outubro, aos pés do Cristo Redentor, no alto desta colina, aqui estamos participando deste momento mais sagrado que há na face da Terra, a celebração da Santa Missa, a renovação incruenta do Sacrifício do Calvário pelo qual o Senhor nos resgatou. O que estamos a fazer aqui? Estamos aqui para adorar a Deus e proclamar ao mundo nossa Fé em Nosso Senhor Jesus Cristo,  nossa Fé em Nosso Senhor Jesus Cristo Rei e Redentor. Nossa Fé no Reinado Social de Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele é Rei e deve reinar.

No Santo Evangelho, Pilatos pergunta a Nosso Senhor: Tu és Rei? Esta é a pergunta que muitos ainda fazem e nós devemos agora anunciar publicamente: nós acreditamos no reinado de Cristo. Como é óbvio, acreditamos que este reinado não pertence só às almas individualmente tomadas, mas a todo o conjunto das almas e à sociedade inteira.

A Nosso Senhor vimos também aqui pedir a paz. Se queremos a paz no mundo, devemos recorrer ao Príncipe da Paz. É a ele que deve ser pedida a paz, em seu nome está a paz, no sangue derramado na Cruz está a paz: a verdadeira e única paz. Para que os povos do mundo encontrem a paz, necessitam encontrar Nosso Senhor Jesus Cristo. Por isso, também proclamamos que para que o mundo veja a paz, o mundo necessita converter-se a Nosso Senhor Jesus Cristo. Ele é rei, e como rei tem direito de reinar nas almas individualmente tomadas. O seu reino, obviamente, é um reino espiritual. Não é um reino deste mundo, mas não significa que não deva reinar neste mundo. É um reino espiritual porque sua origem não vem desta terra. Seu poder e o direito de reinar vêm do Padre Eterno. Ele deve reinar nas almas, quando as almas convertidas (…) a Ele encontram-se com a Verdadeira doutrina – A Verdadeira Doutrina – e são batizadas. Quando as almas recebem a graça do Santo Batismo, passam a pertencer ao reino da paz, passam a pertencer ao Rei de Paz.

Diariamente o Senhor e Rei da Paz é imolado incruentamente nos altares do mundo. Por isso, amamos também a Santa Missa. Para estender o reinado da paz, o reinado de Nosso Senhor Jesus Cristo, a missa – esta Missa que está sendo celebrada – deve estender-se cada vez mais aos altares do mundo inteiro, aos antigos altares de tantas e belas igrejas que se tornaram porta-flores e guarda-pó. Estes altares, para que o mundo tenha paz, devem ser ressuscitados e restaurados. Ali o Senhor deve novamente ser imolado. E em todas as outras igrejas no mundo esta missa deve ser estendida. Aos pés do Cristo Redentor, imploramos do Senhor que esta missa – A Missa, A Missa… – se estenda cada vez mais nos altares do Brasil e do mundo. Que os sacerdotes queiram celebrá-la. Que os fiéis a amem, implorando, se for necessário, que os sacerdotes a celebrem.

Nosso Senhor quer reinar na alma, nas almas, e reina quando uma alma pecadora ajoelhada implora o perdão ao sacerdote, e ali, pela voz e pelas mãos do sacerdote, que diz + Ego te absolvo, volta a reinar a paz na alma. Não pode haver paz longe de Nosso Senhor Jesus Cristo. Não pode haver paz no pecado. Por isso, o anúncio da paz, e a petição da paz, deve ser o anúncio da conversão. “Convertei-vos e crede no Evangelho”.

Nosso Senhor quer reinar nas almas, mas não tomadas somente individualmente. Ele quer reinar nas famílias. As famílias necessitam de Nosso Senhor… as famílias necessitam de Nosso Senhor para educar seus filhos na Fé; para manterem-se fiéis os esposos; para não cederem facilmente à tentação do adultério e do divórcio, esta praga que destruindo os lares, também vai destruindo (…) muitos dos nossos adolescentes e jovens.

Mas Nosso Senhor, como é rei, deve reinar também nos estados, na sociedade inteira. O Papa Pio XI, quando proclamou a festa de Cristo Rei com a sua encíclica Quas Primas… Ah, encíclica Quas Primas… como deveria ser ela novamente lida, meditada, retomada, ensinada e acreditada nos dias de hoje. Nosso Senhor deve reinar também na sociedade. As leis das nações devem obedecer a Nosso Senhor Jesus Cristo.

Outrora, 80 anos atrás, católicos fiéis, acreditando no reinado de Nosso Senhor Jesus Cristo também na sociedade, ergueram este magnífico monumento, que é uma proclamação de Fé para o mundo inteiro de que Jesus Cristo é rei e deve reinar. Hoje, querem tirar os crucifixos dos ambientes públicos… hoje, querem arrancar qualquer vestígio da presença e do reinado de Nosso Senhor na sociedade.

Os parlamentos das nações, como diz o Salmo 2º, orquestram coisas contra Deus e o Seu Cristo. As leis que destroem as famílias, as leis que destroem a juventude, embebida de um liberalismo, de uma naturalismo tal que infectou as fileiras católicas. O liberalismo, que coloca a liberdade individual acima da verdade; o naturalismo que esquece a graça de Deus e a luta que o inferno trava contra o céu para arrancar as almas, e os discursos, mesmo daqueles que deveriam guiar as almas, é sempre, ou quase sempre, um discurso liberal e naturalista. Não se fala do pecado, não se fala da graça, não se fala do reinado de Cristo nas almas; se fala de pluralismo, de sociedade plural, de liberdade… de liberdade religiosa. Nós aqui professamos a Fé em Cristo Rei, que deve reinar na sociedade. É possível e é real.

Enquanto muitos trabalham pela descristianização da sociedade, cada um dos que estamos aqui, professando a Fé em Deus e em Nosso Senhor Jesus Cristo, devemos trabalhar pela re-cristianização da sociedade, como dizia o Papa São Pio X – o grande São Pio X – em sua encíclica Notre Charge Apostolique, quando condenando o movimento Sillon, que havia sido primeiramente aprovado pela Igreja e havia feito inicialmente um bem aparente pela Igreja, demonstrou que ia por caminhos opostos ao reinado social. Queria uma paz quimérica na sociedade, uma paz no mundo onde fosse possível, acreditava e acreditam muitos hoje, conviver a cidade de Deus e a cidade dos homens, como se existisse uma cidade neutral. Não há possibilidade de neutralidade: ou a cidade, entenda-se a sociedade, a civilização, é cristã, ou a sociedade pertence a Deus, ou pertencerá ao demônio. Ele reinará na sociedade, como já está fazendo nas almas.

São Pio X dizia que não há de se buscar uma nova civilização, uma nova cultura do pluralismo, não. A cidade que Deus quis já existiu e existe: é a civilização cristã, é a cidade Católica. A nossa missão é reconstruí-la das ruínas que se encontra nos dias de hoje. Reconstruí-la, reedificá-la com Deus, em Deus e para Deus.  A sociedade deve voltar a Deus.

Mas muitos, também na Igreja, nos últimos cinqüenta anos especialmente, acreditam ser possível construir uma cidade, dizem, vitalmente cristã, sem que seja oficialmente cristã. Dizem que não é mais necessário que a sociedade seja confessional, que publicamente a civilização dê culto a Deus; basta que as almas sejam cristãs e a sociedade será cristã. É bonito, mas utópico. Como podemos esperar que uma sociedade seja vitalmente cristã se nossas crianças, adolescentes e jovens, já são metidos numa sociedade brutalmente anti-cristã na escola, em casa, com os programas de televisão, etc, etc…?

Como é possível acreditar numa sociedade vitalmente cristã, onde os símbolos religiosos serão arrancados da sociedade? Já sabiam disso os revolucionários franceses quando criaram a escola pública, a escola laica. Diziam eles: criemos uma escola onde as crianças entrem aqui e passem o dia inteiro, o tempo todo, aprendendo tudo o que é importante para a vida: a língua, matemática, ciências, geografia, história, cultura… mas que nunca se fale de Deus e que eles nunca vejam símbolos religiosos. E não necessitaremos mais fazer discursos ateus, anti e contra de Deus, porque eles verão que tudo é importante, menos Deus.

Esta é a sociedade em que estamos vivendo. Por isso, nós devemos levantar bem alto a Cruz de Nosso Senhor para plantá-la como os primeiros evangelizadores nesta terra aqui fizeram. Como os católicos que ergueram este magnífico monumento, que não será destruído por graça de Deus, para manifestar ao Brasil e ao mundo que o Brasil pertence a Deus e que nós somos de Deus.

Lutam, se digladiam duas posturas: o laicismo visceral e maçônico, que quer arrancar Deus completamente da sociedade, e a resposta que pretende-se dar ao laicismo é a chamada laicidade. Eles só reclamam da violência contra a religião, mas acreditam que pode haver na sociedade um pluralismo tal que não seja anti-religioso e que convivamos todos muito bem e todos juntos… algo utópico que não conseguiu nem nos países mais católicos, vide Itália, Espanha e Portugal, proibir o aborto, por exemplo.

Nós aqui manifestamos nossa Fé em Cristo Rei e por isso afirmamos: nem laicismo, nem laicidade. Acreditamos no reinado social de Nosso Senhor Jesus Cristo nas almas e na sociedade. A sociedade também deve prostrar-se diante de Cristo Rei. O Brasil como um todo deve reconhecer que Cristo é Rei do Brasil. O Brasil foi batizado católico, seu nome para o céu será sempre a Terra de Santa Cruz. Nesta Terra de Santa Cruz manifestamos com ardor nosso amor a Nosso Senhor Jesus Cristo e a Nossa Senhora Rainha do Brasil. Ela também quis ser a padroeira, protetora e soberana desta nação, quando quis ser encontrada naquela primeira imagem no fundo do Rio Paraíba. Que Ela reine em nossas almas também, nas nossas famílias e na nossa nação. Que a partir de hoje o grito de “Viva Cristo Rei”, que fez muitos mártires, volte a estar nos lábios dos católicos brasileiros. Que nós lutemos, rezemos e trabalhemos pelo reinado de Nosso Senhor Jesus Cristo nas almas e na sociedade por inteiro, cada um na vocação a que foi chamado, lutando, sem descansar, para que Cristo reine. Mesmo que víssemos diante de nós o Anti-Cristo surgir com seu reino diante do mundo inteiro, nós não dobraríamos nosso joelho diante dele e proclamaríamos até o fim que Cristo é rei e deve reinar, ainda que sucumbam pastores, ainda que sucumbam aqueles que devem governar e ensinar ao povo o caminho correto, nós todos não sucumbiremos se formos fiéis e implorarmos a Deus esta graça.

Que esta peregrinação não seja a única, mas a primeira de muitas, para proclamar ao Brasil e ao mundo que Nosso Senhor é Rei. Que do alto desta colina do Corcovado o Brasil inteiro volte a redescobrir sua missão. O Brasil nasceu católico, é católico e só fielmente será aquilo que Deus quer que ele seja para o mundo inteiro se permanecer fiel à sua vocação batismal e ser de Deus e para Deus.

Que a Virgem Santíssima, Nossa Senhora Aparecida, Rainha e Padroeira do Brasil, proteja cada um de nós contra os ataques infernais que não querem que Nosso Senhor reine e que querem confundir as almas com tantas doutrinas novas e sedutoras como o canto da sereia. Mas nós queremos ficar com a doutrina tradicional de Cristo Rei, com a Missa Tradicional, o Sacrifício do Senhor. Amém.

30 maio, 2009

Na festa de Santa Joana d’Arc.

Santa Joana Darc

Infelizmente, os admiradores de Joana, fascinados pelo extraordinário éclat de sua vida ativa, enfatizaram tanto, quase que exclusivamente, o aspecto militar de sua missão, vendo nela uma espécie de menina-levada santa. Seu lado mais profundo, vislumbrado em suas longas horas de oração, seus jejuns, seus milagres, sua caridade para com os pobres e suas copiosas lágrimas, sempre prontas, raramente vêm à luz. Pouco ou nenhum conhecimento é tirado de suas profecias. O fato de se ter demorado 500 anos para canonizá-la deve nos levar a suspeitar, entretanto, que ela possa ser uma santa reservada de alguma maneira especial aos nossos últimos dias. Quando ela foi queimada na fogueira em Rouen, sua missão pode ter apenas começado. Talvez por outra razão, Joana-com-roupas-de-homem estava para mostrar ao mundo, o mais graficamente possível, exatamente o que significava ser uma mulher. Montando seu cavalo branco de guerra, toda coberta por armaduras, ela poderia ser a resposta final ao feminismo – uma heresia que começou com Eva e que está agora destruindo a sociedade ao desvirtuar a família para além do irreconhecível. […] “Não estaria ela, que recebeu do céu a virgindade como seu próprio nome, através disso destinada a uma missão de primeira ordem?” Pergunta o Cardeal Pie. Tomando a linguagem de Santo Agostinho, ele registrou: “Deus estava vindo a nós novamente através de um caminho virginal. Ele veio em Joana e por Joana, não mais, é claro, para nos dar o Salvador, mas para nos dizer o que o Divino Salvador deve ser entre nós: o Rei dos reis e o Senhor dos senhores… A Santa Pucelle, vinda à Terra para restaurar a noção da realeza do Filho de Maria, o Filho de Deus, teve de morrer, teve de oferecer o sacrifício de sua vida para assegurar a aparência dessa noção no pleno esplendor de sua verdade, na hora marcada pela Divina Providência, pois assim ela poderia se gravar nas mentes e penetrar dentro de toda a sociedade.

A Virgem Joana, Mãe do Estado Cristão – E flagelo das feministas!

26 outubro, 2008

A todos os homens se estende o domínio de nosso Redentor.

Por outra parte, erraria gravemente quem negasse a Cristo-Homem o poder sobre todas as coisas humanas e temporais, posto que o Pai conferiu-Lhe um direito absolutíssimo sobre as coisas criadas, de tal sorte que todas estão submetidas a Seu arbítrio. Apesar disso, enquanto viveu sobre a terra se absteve inteiramente de exercitar esse poder, e assim como então desprezou a posse e o cuidado das coisas humanas, assim também permitiu, e segue permitindo, que os possuidores delas se utilizem.

Acerca do qual diz bem aquela frase: Não retira os reinos mortais Aquele que dá os celestiais. Portanto, a todos os homens se estende o domínio de nosso Redentor, como afirmam as palavras de nosso predecessor, de feliz memória, Leão XIII, que fazemos, com gosto, nossas: “O império de Cristo se estende não só sobre os povos católicos ou sobre aqueles que tendo recebido o batismo pertencem de direito à Igreja, ainda que o erro os tenha extraviado ou o cisma os separe da caridade, mas compreende também aqueles que não participam da fé cristã, de modo que sob a potestade de Jesus se encontra todo o gênero humano“.

[…]

Julgamos peste de nossos tempos o chamado laicismo com seus erros e abomináveis intenções; e vós sabeis, veneráveis irmãos, que tal impiedade não amadureceu em um só dia, que se incubava desde muito antes nas entranhas da sociedade. Começou-se por negar o império de Cristo sobre todas as gentes; se negou à Igreja o direito, fundado no direito do mesmo Cristo, de ensinar ao gênero humano, isto é, de dar leis e dirigir os povos para conduzí-los à felicidade eterna. Depois, pouco a pouco, a religião cristã foi nivelada às demais religiões falsas e rebaixada indecorosamente ao nível destas. A submeteram logo ao poder civil e à arbitraria permissão dos governantes e magistrados. E se avançou mais: houve alguns destes que imaginaram substituir a religião de Cristo com certa religião natural, com certos sentimentos puramente humanos. Não faltaram Estados que creram poder passar sem Deus, e puseram sua religião na impiedade e no desprezo de Deus.

[…]

Ademais, para condenar e reparar de alguma maneira esta apostasia pública pelo laicismo, com tanto dano à sociedade, não parece que deve ajudar grandemente a celebração anual da festa de Cristo Rei entre todos os povos? Em verdade: quanto mais se oprime com indigno silêncio o suave nome de nosso Redentor, nas reuniões internacionais ou nos parlamentos, tanto mais alto há de se gritá-lo e com maior publicidade há se de afirmar os direitos de sua real dignidade e potestade.  […] A celebração desta festa, que se renovará a cada ano, ensinará também às nações que o dever de adorar publicamente e obedecer a Jesus Cristo não só obriga aos particulares, mas também aos magistrados e governantes. A estes trará à memória o pensamento do juízo final, quando Cristo, não só por ter sido retirado do governo do Estado, mas também por ter sido ignorado ou menosprezado, vingará terrivelmente todas estas injúrias; pois sua dignidade real exige que a sociedade inteira se ajuste aos mandamentos divinos e aos princípios cristãos, seja ao estabelecer as leis, seja ao administrar justiça, seja finalmente ao formar as almas dos jovens na sã doutrina e na retidão dos costumes.

Pio XI, Carta Encíclica Quas Primas, sobre a Festa de Cristo Rei, de 11 de dezembro de 1925.

17 agosto, 2008

A Virgem Joana, Mãe do Estado Cristão – E flagelo das feministas!

Apresentamos a tradução do artigo “The Virgin Joan, Mother of the Christian State (and scourge of feminists!)” de Solange Hertz, publicado em The Remnant.

Joana Darc cortou seu cabelo bem curto e vestia roupas de homem. Ela particularmente imaginava belas armaduras e bons cavalos, que montava escarranchada e era admirada por sua proeza com a lança. Liderava tropas em batalha, mantendo-se na armadura por seis dias seguidos se necessário, e nunca vacilava em seu objetivo mesmo depois do inimigo capturá-la. Eles a examinaram e executaram, não por crimes de guerra, mas por ser uma feiticeira.

Poderíamos esperar vê-la comemorada num selo postal ou numa moeda de dólar junto de outras intrépidas mulheres que lutaram pelos direitos femininos ou que de outra forma batem os homens em seu próprio jogo. Mas as feministas vêem Joana com desconfiança, como que  não confiassem absolutamente nela. De toda forma, elas não a mencionam com freqüência, ao menos em público, e certamente não carregam sua bandeira em manifestações. Isso mostra um grau de perspicácia política de sua parte, pois fossem chamar atenção a ela, logo ficaria dolorosamente claro que não ligava nada para direitos iguais, seja para homens ou mulheres.

O que a preocupava eram os direitos de Deus. Sua única consideração era o direito supremo de Cristo Rei sobre a sociedade civil. Esses ela assegurava através de um imperturbável uso da força, colocando o legítimo sucessor do trono francês onde era seu lugar como substituto  designado de Cristo. A bandeira que carregava era branca, decorada com uma flor-de-lis. Ostentava a figura de Cristo Rei sentado na glória segurando o globo em Sua mão, rodeado por dois anjos e os nomes de Jesus e Maria. Joana a fez por mandato, através de um pintor Escocês chamado Hamish Power, por um modelo trazido a ela do céu por Santa Margareth e Santa Catarina.

Joana se apresentou ao rei como Jehanne la Pucelle. Comumente traduzido como “moça” em inglês, a palavra francesa medieval pucelle era então a palavra ordinária para virgem. Sob esse título, Joana o informou que tinha ordens do alto de expulsar os ingleses da França e coroá-lo em Reims. Ela tinha apenas dezessete anos, dificilmente cinco pés de altura (ndt: aproximadamente 1,52 m) e iletrada. Até então ela estava vestindo roupa masculina a pedido dos Céus, não apenas porque estava ocupada em liderar tropas na batalha, mas principalmente porque teria que preservar sua virgindade em meio aos soldados no campo. O rei teve a precaução de requerer à sua sogra Yolanda, Rainha da Sicília, e suas senhoras, que verificassem tanto o sexo de Joana como sua integridade física.

O resto é história. Infelizmente, os admiradores de Joana, fascinados pelo extraordinário éclat de sua vida ativa, enfatizaram tanto, quase que exclusivamente, o aspecto militar de sua missão, vendo nela uma espécie de santa menina-levada. Seu lado mais profundo, vislumbrado em suas longas horas de oração, seus jejuns, seus milagres, sua caridade para com os pobres e suas copiosas lágrimas, sempre prontas, raramente vêm à luz. Pouco ou nenhum conhecimento é tirado de suas profecias. O fato de se ter demorado 500 anos para canonizá-la deve nos levar a suspeitar, entretanto, que ela possa ser uma santa reservada de alguma maneira especial aos nossos últimos dias. Quando ela foi queimada na fogueira em Rouen, sua missão pode ter apenas começado.

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Talvez por outra razão, Joana-com-roupas-de-homem estava para mostrar ao mundo, o mais graficamente possível, exatamente o que significava ser uma mulher. Montando seu cavalo branco de guerra, toda coberta por armaduras, ela poderia ser a resposta final ao feminismo – uma heresia que começou com Eva e que está agora destruindo a sociedade ao desvirtuar a família para além do irreconhecível.

Nós temos a palavra da Rainha Yolanda de que Joana era realmente uma mulher. Sua alegre elegância, sua doce voz feminina e modéstia são tratados longamente numa famosa carta que um contemporâneo senhor francês escreveu ao Duque de Milão. Volumes de depoimentos no seu julgamento e na sua reabilitação formal depois de sua morte testemunham que ela era feminina de todas as formas e o era atraentemente. Há ainda evidências que uma mau-sucedida ação para quebra de promessa [de virgindade] foi trazida a ela por um desapontado pretendente que seus pais escolheram para ela.

Durante sua curta carreira deixou claro que preferia estar tecendo em casa em Domremy que liderando homens no combate, mas ela tinha que fazer a vontade de Deus. Era seu lema que Ele deveria ser servido primeiro. Realmente, uma senhora em seu julgamento lembrou-se dela dizendo: “sua impaciência era tão urgente que o tempo parecia para ela tão longo como a uma mulher grávida”. Mesmo antes de encontrar o Rei, Joana foi ademais ouvida profetizar que seria mãe de um Papa, de um Imperador e de um Rei. O que queria dizer com esse discurso obscuro apenas agora está sendo conjeturado. Quando ela foi inquirida por uma explicação, ela respondeu que o tempo ainda não chegara, mas que o Espírito Santo cuidaria disso.

O que é se sabe de sua observação é que ela conhecia sua vocação de ser uma mulher e não um homem. Apesar de seu gênio militar, Joana não era uma amazona, nem uma sufragista, e certamente nenhuma inimiga-de-homem. Seu objetivo, sobretudo, era colocar um homem no trono da França. Ao fazê-lo, ela vingava plenamente a antiga lei que concedia direitos de sucessão real apenas para a linha masculina. Seu propósito principal era expulsar os ingleses que, por aproximadamente cem anos, ocuparam a França reivindicando o trono através do ramo feminino.

Não que deva existir qualquer confusão sobre o papel da mulher no mundo. Deus o definiu claramente quando criou o gênero humano em homem e mulher, e isso nunca mudou. Declarando que “não é bom que o homem esteja só”, o Criador fez para Adão “um auxílio que lhe seja adequado” (Gen. 2:18). Toda a vocação da mulher está em ser a ajuda de Deus para o homem, a quem ela está unida indissoluvelmente numa única natureza humana. Sua raison d’etre é primeiro e antes de tudo a maternidade, de um tipo ou de outro, dando a luz seja fisicamente ou espiritualmente às crianças que o homem gera. É um dever que se estende por todos os seus trabalhos.

Imagem do Espírito Santo, a mulher é no nível humano o paráclito par excellence, que nunca age independentemente, mas aperfeiçoa as ações de pais e filhos. Quando o homem vacila ou desaparece, por sua própria natureza ela corre atrás da ruptura. Nossos últimos dias têm testemunhado significantes intervenções da parte da Mãe de Deus, a quem São Maximiliano Kolbe chamou da coisa mais próxima de uma encarnação do Espírito Santo. Um de seus títulos é “Auxílio dos Cristãos”. No Gênesis nós recebemos a promessa de que ela finalmente esmagaria a cabeça de Satanás, então podemos crer que, em si mesmo, a própria guerra não é incompatível com a vocação da mulher. Foi prerrogativa de Joana apresentá-la a nós nos mais simples termos, plenamente armada e com uma lança em mãos!

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O homem herdou um defeito inato de seu pai Adão, que no princípio falhou em afirmar sua própria autoridade sobre Eva. Quando, fazendo o que vem naturalmente, ela se apresentou para ajudá-lo na instigação da serpente, Adão a permitiu usurpar seu papel e através disso precipitou a humanidade na miséria e na morte. O mesmo ocorre numa sociedade onde existe um colapso de autoridade, que pela lei natural é intrinsecamente masculina. A mulher automaticamente se apresenta para ajudar. Se ela não está motivada sobrenaturalmente, ela toma o comando como Eva fez. A sociedade se torna matriarcal ou pior. Quando as mulheres são corrompidas, os homens são despojados de seu auxílio temporal mais próximo vindo de Deus e a sociedade cai em ruína.

Uma mulher estimulada sobrenaturalmente realiza exatamente o oposto. Joana sustentou um rei vacilante, derrotou seus inimigos e o colocou em seu trono. Ao restabelecer a autoridade masculina  salvou todo um povo, suas leis e mesmo sua fé. Teve de ser mulher, pois uma nação foi literalmente renascida nela. Certamente não foi a primeira mulher inspirada a apresentar-se num tempo de crise. O Velho Testamento propõe para nossa admiração a juíza Deborah, a bela viúva Judite, a Rainha Esther, Jael e muitas outras como a mulher desconhecida que golpeou o malvado Abimelec com uma pedra de moinho em Siquém.

Santa Catarina de Siena lembrou Papas de seus deveres e remediou o Grande Cisma. Santa Teresa reformou a Ordem Carmelita. Ambas foram Doutoras da Igreja, fazendo o que a mulher faz de melhor ao ajudar o homem a fazer o que deve. As duas virgens santas mandadas pelo céu para instruir Joana em sua missão foram, na vida terrena, similarmente engajadas em colocar o homem em seu lugar. Santa Catarina de Alexandria possivelmente foi martirizada na conhecida Roda de Santa Catarina por superar os filósofos pagãos do Imperador Bizantino em debate aberto. A Romana Santa Margaret era uma popular padroeira dos nascimentos.

Quando elas apareceram a Joana, nunca se referiam a ela de outra maneira a não ser Jehanne la Pucelle, literamente, Joana a Virgem. Começada sua vida pública, a própria Joana nunca usou outro nome. Era então dessa forma que todas as suas cartas eram assinadas. Seus piores inimigos na Universidade de Paris escreveram “aquela mulher la Pucelle”. Até mesmo o Bispo Cauchon, o juiz que a condenou à morte, a citou no júri como “uma mulher de nome Joana, comumente conhecida como la Pucelle.”

Isso põe Joana numa classe por si mesma, pois até que ela tivesse entrado na história, ninguém a não ser a Beatíssima Virgem havia consentido tal título em seu próprio nome. A Imaculada Virgem Maria, como Mãe do Filho de Deus e de Seu Corpo Místico, ocupa uma posição incomparável além da de mera santa. Apenas ela é a Virgem – Mãe da Igreja e de todos os eleitos na ordem sobrenatural. Ainda, o Ofertório da missa de Joana aplica a ela um texto ordinariamente reservado à Beatíssima Virgem: “Vós sois a glória de Jerusalém, vós sois a alegria de Israel, vós sois a honra de nosso povo”.

Longe de ser uma freira, Joana não tinha vocação religiosa no sentido estrito. Guardada as devidas proporções, se seu único título era seu por direito, e se o fato de ser realmente “a Virgem” é verdadeiramente sua prerrogativa, o era estritamente na ordem temporal. Pareceria que Joana está destinada a trazer doravante, certamente não a Igreja, mas a renovada sociedade civil de Cristo Rei, a sociedade que Ele prometeu a Santa Margarida Maria. Ele reinaria no tempo devido como supremo Senhor, apesar de todos os Seus inimigos. À mão direita da Virgem Maria, a incomparável Theotokos, pode então ser encontrada sua fiel criada, a virgem Joana, a Politokos, virgem-mãe do estado Cristão.

Não estaria ela, que recebeu do céu a virgindade como seu próprio nome, através disso destinada a uma missão de primeira ordem?” Pergunta o Cardeal Pie. Tomando a linguagem de Santo Agostinho, ele registrou:

Deus estava vindo a nós novamente através de um caminho virginal. Ele veio em Joana e por Joana, não mais, é claro, para nos dar o Salvador, mas para nos dizer o que o Divino Salvador deve ser entre nós: o Rei dos reis e o Senhor dos senhores… A Santa Pucelle, vinda à Terra para restaurar a noção da realeza do Filho de Maria, o Filho de Deus, teve de morrer, teve de oferecer o sacrifício de sua vida para assegurar a aparência dessa noção no pleno esplendor de sua verdade, na hora marcada pela Divina Providência, pois assim ela poderia se gravar nas mentes e penetrar dentro de toda a sociedade.

A Epístola da Missa de Joana, tomada do livro da Sabedoria, fecha com as palavras: “Governarei povos e as nações ser-me-ão submissas. Príncipes temíveis estarão cheios de medo ao ouvirem falar de mim; mostrar-me-ei bom para com o povo e valoroso no combate.” No tempo Pascal, canta o Aleluia Fecisti viriliter!”, tomado do livro de Judite: “Agistes virilmente, então agora rogai por nós, pois sois uma santa mulher e temeis a Deus”.

Não é esse o trabalho da mulher? Por acaso teria ela que agir como um homem para fazer isso, tendo sido feita uma “ajuda para ele”? Bem ou mal, gostem ou não, as mulheres são as mães da sociedade civil.