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12 abril, 2020

Dom Schneider fala sobre a conduta da Igreja em face do coronavírus.

Por Diane Montagna, The Remnant, 27 de março de 2020 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.com – À medida que o coronavírus continua a se espalhar, Dom Athanasius Schneider exorta os padres a imitar Jesus, o Bom Pastor, e, pelo bem das almas, até a desobedecer às ordens injustas dos bispos que, segundo ele, agora estão se comportando mais como “burocratas civis” do que como “pastores”.

Dom Athanasius em entrevista a Fratres in Unum.

Fevereiro de 2015 – Dom Schneider concede entrevista a Fratres in Unum em São Paulo.

Em uma nova entrevista sobre a conduta da Igreja em face da pandemia de coronavírus (ver o texto completo abaixo), o bispo auxiliar de Santa Maria em Astana, no Cazaquistão, disse acreditar que a maioria dos bispos católicos reagiu “precipitadamente e movidos pelo pânico ao proibir todas as missas públicas”. “A decisão de fechar as igrejas é ainda mais incompreensível” afirmou.

“Enquanto os supermercados estiverem abertos e acessíveis, e as pessoas tiverem acesso ao transporte público, não se vê razão plausível para proibir as pessoas de assistir à Santa Missa em uma igreja”, disse Dom Schneider. “Pode-se garantir nas igrejas as mesmas e melhores medidas de proteção higiênica”.

Ele disse que a conduta da Igreja em face da epidemia de coronavírus revelou uma “perda de visão sobrenatural”, particularmente entre os membros da hierarquia alguns dos quais, apesar da vigilância para combater o COVID-19, “permitiram tranquilamente que o vírus venenoso dos ensinamentos e práticas heréticos se espalhasse entre o seu rebanho”, observou.

Dom Schneider exortou os padres a se lembrarem de que são “o primeiro e mais importante pastor de almas imortais”, chamados por sua vocação sacerdotal a dar a vida pelas ovelhas. Em meio à pandemia de coronavírus, ele disse que os padres devem “observar todas as precauções de saúde necessárias”, mas também “ser extremamente criativos” para encontrar maneiras de celebrar a Santa Missa e fornecer os sacramentos, mesmo para um pequeno grupo de fiéis. “Esse era o comportamento pastoral de todos os sacerdotes que foram confessores e mártires por ocasião das perseguições”, disse o bispo, cujos primeiros anos foram passados na Igreja Católica subterrânea soviética.

Segundo ele, o cuidado das almas pode exigir em alguns casos que um padre desobedeça à ordem injusta de seu bispo. “Se um sacerdote é proibido por uma autoridade eclesial de visitar os doentes e moribundos, ele não pode obedecer. Essa proibição é um abuso de poder. Cristo não deu ao bispo o poder de proibir a visita de doentes e moribundos.”

Recordando o exemplo heroico do Cardeal arcebispo de Milão do século XVI, São Carlos Borromeo (1538-1584), que enfrentou com destemor uma praga a fim de servir às necessidades espirituais de suas vítimas, Dom Schneider disse que “um verdadeiro padre fará tudo o que puder para visitar uma pessoa que está morrendo”.

Perguntado se acredita que a pandemia de coronavírus é uma forma de retribuição divina pelos eventos da Pachamama realizados no Vaticano durante o Sínodo Amazônico de outubro de 2019, Dom Schneider disse que, embora não tenha “certeza” de que esses eventos estejam relacionados, a ideia “não é exagerada”.

“A veneração ritual do ídolo pagão da Pachamama dentro do Vaticano, com a aprovação do Papa, foi seguramente um grande pecado de infidelidade ao Primeiro Mandamento do Decálogo, foi uma abominação”, afirmou. E acrescentou que “esses atos de idolatria foram o culminar de uma série de outros atos de infidelidade à salvaguarda do depósito divino da fé por muitos membros de alto escalão da hierarquia da Igreja nas últimas décadas”.

Recordando a ameaça de punição e o chamado ao arrependimento do Senhor, dirigidos aos bispos no Livro do Apocalipse (cf. 2: 14-16), Dom Schneider disse estar convencido de que “Cristo repetiria as mesmas palavras ao Papa Francisco e aos outros bispos” que permitiram a veneração da Pachamama no Vaticano e que “aprovaram implicitamente relações sexuais fora de um casamento válido” ao permitir que católicos “divorciados e casados ​​novamente”, sexualmente ativos, recebam a Sagrada Comunhão.

Na entrevista sobre a resposta da Igreja ao coronavírus, Dom Schneider afirmou também que a singularidade e a severidade da proibição de missas públicas e da comunhão sacramental fazem com que os católicos considerem seu “significado mais profundo”.

Por mais de cinquenta anos observou , a presença eucarística de Jesus Cristo foi “banalizada” e até “profanada” através da prática da Comunhão na mão e da introdução de “elementos protestantes” na liturgia romana. “Agora o Senhor interveio e privou quase todos os fiéis de assistir à Santa Missa e receber sacramentalmente a Sagrada Comunhão. Os inocentes e os culpados estão suportando essa tribulação juntos, pois no mistério da Igreja todos estão mutuamente unidos como membros” acrescentou.

Para reparar a Deus, Dom Schneider disse que o Papa e os bispos quando a pandemia de coronavírus estiver controlada deveriam fazer urgentemente um ato público de reparação em Roma “pelos pecados contra a Sagrada Eucaristia”. Disse também que o Papa deveria emitir normas concretas convidando toda a Igreja a “se voltar para o Senhor” na liturgia e “proibir a prática da Comunhão na mão”.

E concluiu: “A Igreja não pode continuar tratando impunemente o Santo dos Santos na pequena Hóstia sagrada de uma maneira tão minimalista e insegura”.

Eis a nossa entrevista com Dom Athanasius Schneider

Diane Montagna: Excelência, qual é a sua impressão geral sobre o modo como a Igreja está lidando com a epidemia do coronavírus?

Dom Schneider: Minha impressão geral é de que a maioria predominante dos bispos reagiu precipitadamente e em pânico ao proibir todas as missas públicas e o que é ainda mais incompreensível – ao fechar as igrejas. Tais bispos reagiram mais como burocratas civis do que pastores. Ao se concentrarem exclusivamente em todas as medidas de proteção higiênicas, eles perderam uma visão sobrenatural e abandonaram a primazia do bem eterno das almas.

A Diocese de Roma suspendeu rapidamente todas as missas públicas para cumprir as diretrizes do governo. Os bispos de todo o mundo adotaram medidas semelhantes. Os bispos poloneses, por outro lado, pediram que mais missas fossem celebradas, a fim de que a concentração de fiéis fosse menor. Qual a sua opinião sobre a decisão de suspender as missas públicas para impedir a disseminação do coronavírus?

Enquanto os supermercados estiverem abertos e acessíveis e as pessoas tiverem acesso ao transporte público, não se vê uma razão plausível para proibir as pessoas de assistir à Santa Missa em uma igreja. Podem-se garantir nas igrejas as mesmas e ainda melhores medidas de proteção higiênica. Por exemplo, antes de cada missa, seria possível desinfetar os bancos e as portas, e todo mundo que entrasse na igreja poderia desinfetar as mãos. Outras medidas semelhantes também poderiam ser tomadas. Pode-se limitar o número de participantes e aumentar a frequência da celebração da missa. Temos um exemplo inspirador de visão sobrenatural em tempos de epidemia no Presidente da Tanzânia, John Magufuli. Católico praticante, no domingo 22 de março de 2020 (domingo de Laetare), na Catedral de São Paulo, na capital tanzaniana de Dodoma, ele declarou: “Insisto com vocês, meus irmãos cristãos e até muçulmanos: não tenham medo, não parem de se reunir para glorificar a Deus e louvá-Lo. Por isso, como governo, não fechamos igrejas ou mesquitas. Em vez disso, elas devem estar sempre abertas para o povo buscar refúgio em Deus. As igrejas são lugares onde as pessoas podem buscar a verdadeira cura, porque ali reside o Deus verdadeiro. Não tenham medo de louvar e buscar o rosto de Deus na igreja”.

Referindo-se à Sagrada Eucaristia, o presidente Magufuli também falou estas palavras encorajadoras: “O coronavírus não pode sobreviver no Corpo eucarístico de Cristo; em breve será queimado. Foi exatamente por isso que não entrei em pânico ao receber a Sagrada Comunhão, porque sabia que com Jesus na Eucaristia eu estou seguro. Este é o momento de construirmos nossa fé em Deus”.

Vossa Excelência julga ser atitude responsável um sacerdote celebrar uma missa particular com alguns fiéis leigos presentes, tomando as devidas precauções de saúde?

É responsável, e também meritório, e seria um autêntico ato pastoral, desde que o sacerdote tome as precauções de saúde necessárias.

Os padres estão em uma posição difícil nessa situação. Alguns bons padres estão sendo criticados por obedecerem às diretrizes de seu bispo para suspender as missas públicas (enquanto continuam a celebrar uma missa particular). Outros estão procurando maneiras criativas de ouvir confissões enquanto procuram proteger a saúde das pessoas. Que conselho V. Exa. daria aos padres para viverem sua vocação nesses tempos?

Os padres devem se recordar que são antes e acima de tudo pastores de almas imortais. Eles devem imitar a Cristo, que disse: “Eu sou o bom-pastor. O bom-pastor expõe a sua vida pelas ovelhas. O mercenário, porém, que não é pastor, a quem as ovelhas não pertencem, quando vê que o lobo vem vindo, abandona as ovelhas e foge; o lobo rouba e dispersa as ovelhas. O mercenário, porém, foge, porque é mercenário e não se importa com as ovelhas. Eu sou o bom-pastor. Conheço as minhas ovelhas e as minhas ovelhas conhecem a mim” (Jo 10, 11-14). Se um sacerdote toma de maneira razoável todas as precauções de saúde necessárias e usa discrição, ele não deve obedecer às diretrizes de seu bispo ou do governo para suspender a missa pelos fiéis. Tais diretrizes constituem uma mera lei humana; no entanto, a lei suprema da Igreja é a salvação das almas. Os padres em tal situação precisam ser extremamente criativos para prover aos fiéis, mesmo para um pequeno grupo, a celebração da Santa Missa e a recepção dos sacramentos. Tal era o comportamento pastoral de todos os sacerdotes que foram confessores e mártires por ocasião das perseguições.

O desafio à autoridade, particularmente à autoridade eclesial, pelos padres é sempre legítimo (por exemplo, se um padre for instruído a não visitar os doentes e moribundos)?

Se um sacerdote for proibido por uma autoridade eclesiástica de visitar os doentes e moribundos, ele não pode obedecer. Essa proibição é um abuso de poder. Cristo não deu ao bispo o poder de proibir a visita aos doentes e moribundos. Um verdadeiro padre fará todo o possível para visitar uma pessoa que está morrendo. Muitos padres o fizeram mesmo quando isso significava colocar suas vidas em perigo, seja no caso de perseguição ou no caso de epidemia. Temos muitos exemplos desses padres na história da Igreja. São Carlos Borromeo, por exemplo, dava a Sagrada Comunhão com as próprias mãos na língua dos moribundos infectados pela praga. Em nossos dias, temos o exemplo emocionante e edificante de padres, especialmente da região de Bérgamo, no norte da Itália, que foram infectados e morreram porque cuidavam de pacientes com coronavírus que estavam morrendo. Um padre de 72 anos com coronavírus morreu há alguns dias na Itália após desistir do ventilador, do qual precisava para sobreviver, permitindo que o mesmo fosse disponibilizado a um paciente mais jovem. Não visitar os doentes e moribundos é comportamento mais de um mercenário do que de um bom pastor.

Seus primeiros anos foram gastos na igreja subterrânea soviética. Que luzes ou perspectivas Vossa Excelência gostaria de compartilhar com os fiéis leigos que não podem assistir à missa e, em alguns casos, nem sequer podem passar um tempo antes do abençoado Sacramento, porque todas as igrejas em sua diocese foram fechadas?

Eu encorajaria os fiéis a fazerem frequentes atos de comunhão espiritual. Eles poderiam ler e meditar as leituras diárias e todo o ordinário da Missa. Eles poderiam enviar seu santo Anjo da Guarda para adorar Jesus Cristo no tabernáculo em seu nome. Eles poderiam se unir espiritualmente com todos os cristãos que estão na prisão por causa de sua fé, com todos os cristãos que estão doentes e acamados, com todos os cristãos moribundos que estão privados dos sacramentos. Deus preencherá este tempo de privação temporal da Santa Missa e do Santíssimo Sacramento com muitas graças.

O Vaticano anunciou recentemente que as liturgias da Páscoa serão celebradas sem os fiéis presentes. Mais tarde, especificou que está estudando “formas de implementação e participação que respeitem as medidas de segurança adotadas para impedir a disseminação do coronavírus”. Qual é a sua opinião sobre essa decisão?

Dada a estrita proibição de reuniões em grupo pelas autoridades governamentais italianas, pode-se entender que o Papa não possa celebrar as liturgias da Semana Santa com a presença de um grande número de fiéis. Penso que as liturgias da Semana Santa poderiam ser celebradas pelo Papa com toda a dignidade e sem simplificações, por exemplo, na Capela Sistina – como era costume dos papas antes do Concílio Vaticano II –, com a participação do clero (cardeais, padres) e de um grupo selecionado de fiéis, aos quais s seriam aplicadas previamente medidas de proteção higiênica. Não se vê a lógica em proibir o acendimento do fogo, a bênção da água e o batismo na Vigília Pascal, como se essas ações litúrgicas disseminassem um vírus. Um medo quase patológico superou o bom senso e a visão sobrenatural.

Excelência, o que o manejo da epidemia do coronavírus pela Igreja revela do estado da Igreja e particularmente da hierarquia?

Está revelando a perda da visão sobrenatural. Nas últimas décadas, muitos membros da hierarquia da Igreja se imergiram predominantemente em assuntos seculares, mundanos e temporais e, portanto, ficaram cegos para as realidades sobrenaturais e eternas. Seus olhos foram preenchidos com o pó das ocupações terrenas, como disse São Gregório Magno (ver Regula pastoralis II, 7). A reação deles ao lidar com a epidemia do coronavírus revelou que dão mais importância ao corpo mortal do que à alma imortal dos homens, esquecendo as palavras de nosso Senhor: “Do que adianta ao homem ganhar o mundo inteiro se ele vier a perder sua alma? ”(Marcos 8:36). Os mesmos bispos que agora tentam proteger às vezes com medidas desproporcionais os corpos de seus fiéis da contaminação por um vírus material, permitiram tranquilamente que o vírus venenoso dos ensinamentos e práticas heréticos se espalhasse entre seus rebanhos.

O cardeal Vincent Nichols disse recentemente que teremos uma nova fome pela Eucaristia após o término da epidemia do coronavírus. Vossa Excelência concorda?

Espero que essas palavras venham a ser verdadeiras para muitos católicos. É uma experiência humana comum que a privação prolongada de uma realidade importante inflama os corações das pessoas com um desejo por ela. Isso se aplica, é claro, àqueles que realmente acreditam e amam a Eucaristia. Essa experiência também ajuda a refletir mais profundamente sobre o significado e o valor da Sagrada Eucaristia. Talvez aqueles católicos que estavam tão acostumados com o Santo dos Santos a ponto de considerá-Lo algo comum tenham uma conversão espiritual e passem a compreender e tratar a Sagrada Eucaristia como extraordinária e sublime.

No domingo, 15 de março, o Papa Francisco foi rezar diante da imagem do Salus Populo Romani em Santa Maria Maggiore e diante do milagroso crucifixo instalado na igreja de San Marcelo al Corso. Vossa Excelência julga importante que bispos e cardeais realizem atos semelhantes de oração pública pelo fim do coronavírus?

O exemplo do Papa Francisco pode encorajar muitos bispos a atos semelhantes de testemunho público de fé e oração e a sinais concretos de penitência implorando a Deus para que acabe com a epidemia. Pode-se recomendar aos bispos e padres a percorrerem regularmente suas cidades, vilas e aldeias com o Santíssimo Sacramento no ostensório acompanhado por um pequeno número de clérigos ou fiéis um, dois, ou três, dependendo dos regulamentos do governo. Tais procissões com Jesus Eucarístico transmitirão aos fiéis e aos cidadãos o consolo e a alegria de não estarem sozinhos em tempos de tribulação, de que o Senhor está verdadeiramente com eles, de que a Igreja é uma Mãe que não esqueceu nem abandonou seus filhos. Poder-se-ia lançar pelas ruas deste mundo uma cadeia mundial de ostensórios com Jesus Eucarístico. Tais pequenas procissões eucarísticas, mesmo que realizadas apenas por um bispo ou sacerdote, implorariam graças de cura e conversão física e espiritual.

O coronavírus eclodiu na China pouco depois do Sínodo da Amazônia. Alguns meios de comunicação acreditam firmemente que essa é uma retribuição divina pelos eventos de Pachamama no Vaticano? Outros acreditam tratar-se de um castigo divino para o acordo Vaticano-China? Vossa Excelência julga válida alguma dessas posições?

A epidemia de coronavírus, em minha opinião, é sem dúvida uma intervenção divina para castigar e purificar o mundo pecaminoso e também a Igreja. Não devemos esquecer que Nosso Senhor Jesus Cristo considerou as catástrofes físicas como castigos divinos. Lemos, por exemplo: “Neste mesmo tempo, alguns contavam o que tinha acontecido a certos galileus, cujo sangue Pilatos misturara com os seus sacrifícios. Jesus toma a palavra e lhes pergunta: ‘Pensais vós que esses galileus foram maiores pecadores do que todos os outros galileus, por terem sido tratados desse modo? Não, digo-vos. Mas se não vos arrependerdes, perecereis todos do mesmo modo. Ou cuidais que aqueles dezoito homens, sobre os quais caiu a torre de Siloé e os matou, foram mais culpados do que todos os demais habitantes de Jerusalém? Não, digo-vos. Mas se não vos arrependerdes, perecereis todos do mesmo modo” (Lc 13, 1-5).

A adoração ritual ao ídolo pagão da Pachamama dentro do Vaticano com a aprovação do Papa foi certamente um grande pecado de infidelidade ao Primeiro Mandamento do Decálogo, foi uma abominação. Toda tentativa de minimizar esse ato de veneração não conseguiu resistir à enxurrada de evidências e razões óbvias. Penso que esses atos de idolatria foram o culminar de uma série de outros atos de infidelidade à salvaguarda do depósito divino da fé por muitos membros do alto escalão da hierarquia da Igreja nas últimas décadas. Não tenho certeza absoluta de que o surto de coronavírus seja um castigo divino pelos eventos de Pachamama no Vaticano, mas considerar tal possibilidade não seria exagero. Já no começo da Igreja, Cristo repreendeu os bispos (“anjos”) das igrejas de Pérgamo e Tiatira por causa de sua conivência com a idolatria e o adultério. A figura de “Jezabel”, que seduziu a igreja de Tiatira à idolatria e ao adultério (ver Ap 2:20), também pode ser entendida como um símbolo do mundo atual, com o qual muitos com cargo de responsabilidade na Igreja estão hoje flertando.

As seguintes palavras de Cristo também permanecem válidas para o nosso tempo: “Desta vez a lançarei num leito, e com ela os cúmplices de seus adultérios para aí sofrerem muito, se não se arrependerem das suas obras. Farei perecer pela peste os seus filhos, e todas as igrejas hão de saber que Eu sou aquele que sonda os rins e os corações, porque darei a cada um de vós segundo as vossas obras” (Ap 2, 22-23). Cristo ameaçou com o castigo e chamou as igrejas à penitência: “Tenho alguma coisa contra ti: é que tens aí sequazes da doutrina [de que é lícito] comer carne imolada aos ídolos e praticar a fornicação. (…) Arrepende-te, pois; senão virei em breve a ti e combaterei contra eles com a espada da minha boca” (Ap 2, 14 e 16). Estou convencido de que Cristo repetiria as mesmas palavras ao Papa Francisco e aos outros bispos que consentiram na veneração idólatra da Pachamama e aprovaram implicitamente relações sexuais fora de um casamento válido, permitindo que os chamados “divorciados em segunda união” sexualmente ativos possam receber a Sagrada Comunhão.

Vossa Excelência apontou para os evangelhos e o livro do Apocalipse. A maneira de Deus lidar com o povo eleito no Antigo Testamento nos dá alguma ideia da situação atual?

A epidemia do coronavírus causou dentro da Igreja uma situação que, ao meu conhecimento, é única, ou seja, uma proibição quase mundial de todas as missas públicas. Isso é parcialmente análogo à proibição do culto cristão em quase todo o Império Romano nos três primeiros séculos. A situação atual é sem precedentes. No entanto, por que no nosso caso a proibição do culto público foi emitida pelos bispos católicos antes mesmo dos mandatos governamentais respectivos?

De alguma forma, a situação atual também pode ser comparada à cessação do culto sacrificial do Templo de Jerusalém, durante o cativeiro babilônico do Povo Eleito. Na Bíblia, o castigo divino era considerado uma graça, por exemplo. “Bem-aventurado o homem a quem Deus corrige! Não desprezes a lição do Todo-poderoso. Pois ele fere e cuida; se golpeia, sua mão cura” (Jó 5, 17-18), e “Eu repreendo e castigo aqueles que amo. Reanima, pois, o teu zelo e arrepende-te” (Ap 3, 19). A única reação adequada às tribulações, catástrofes e epidemias e situações semelhantes – que são instrumentos da mão da Divina Providência para despertar as pessoas do sono do pecado e da indiferença aos mandamentos de Deus e à vida eterna – é a penitência e a conversão sincera a Deus. Na oração a seguir, o profeta Daniel dá aos fiéis de todos os tempos um exemplo da verdadeira mentalidade que eles devem ter e de como devem se comportar e orar em tempos de tribulação: “Todo o Israel transgrediu vossa Lei e se desviou, a fim de não obedecer à vossa voz” (…) Ó meu Deus, ficai atento para ouvir-nos; abri os olhos para ver nossa ruína e a cidade que ostenta um nome vindo de vós. Não é em nome dos nossos atos de justiça que depositamos a vossos pés nossas súplicas, mas em nome de vossa grande misericórdia. Senhor, escutai! Senhor, perdoai! Senhor, ficai atento! Agi! Por vosso próprio amor, ó meu Deus, não demoreis, pois vosso nome foi dado à vossa cidade e a vosso povo!”(Dan 9, 11,18-19).

São Roberto Belarmino escreveu: “Sinais seguros da vinda do Anticristo [serão] a maior e última perseguição, e também a completa interrupção do sacrifício público (da Missa)” (A Profecia de Daniel, páginas 37-38). ) Vossa Excelência acha que o que ele se refere aqui ao que estamos testemunhando agora? É o começo do grande castigo profetizado no Livro do Apocalipse?

A situação atual fornece motivos suficientemente razoáveis ​​para se pensar que estamos no início de um tempo apocalíptico, que inclui castigos divinos. Nosso Senhor se referiu à profecia de Daniel: “Quando virdes estabelecida no lugar santo a abominação da desolação que foi predita pelo profeta Daniel  – o leitor entenda bem” (Mt 24, 15). O Livro do Apocalipse diz que a Igreja deverá fugir por um tempo para o deserto (ver Ap 12,14). A atual cessação quase geral da celebração pública da Missa poderia ser interpretada como uma fuga para um deserto espiritual. O que é lamentável em nossa situação é o fato de muitos membros da hierarquia da Igreja não verem a situação atual como uma tribulação, como um castigo divino, ou seja, como uma “visita divina” no sentido bíblico. Estas palavras do Senhor também se aplicam a muitos clérigos no meio da atual epidemia física e espiritual: “No conheceste o tempo em que foste visitada” (Lc 19, 44). A situação atual desse “fogo da provação” (ver 1 Pd 4, 12) deve ser tomada a sério pelo Papa e pelos bispos, a fim de levar a uma profunda conversão de toda a Igreja. Se isso não ocorrer, aplicar-se-á também à nossa situação atual a seguinte mensagem de Soren Kierkegaard: “Um incêndio eclodiu nos bastidores de um teatro. O palhaço saiu para avisar o público, que pensou que era uma piada e aplaudiu. Ele repetiu, mas a aclamação foi ainda maior. Eu acho que é assim que o mundo chegará ao fim: no meio dos aplausos gerais dos espertalhões que acreditarem tratar-se de uma piada”.

Excelência, qual é o significado mais profundo por trás de tudo isso?

A situação da cessação pública da Santa Missa e da Sagrada Comunhão sacramental é tão única e séria que se pode descobrir por trás de tudo isso um significado mais profundo. Isso ocorreu quase cinquenta anos após a introdução da Comunhão na mão (em 1969) e uma reforma radical no rito da Missa (em 1969/1970) com seus elementos protestantes (orações do ofertório) e seu estilo de celebração horizontal e instrutiva (momentos de estilo livre, celebração em círculo fechado e em direção ao povo). A práxis da Comunhão na mão durante os cinquenta anos levou rapidamente a uma profanação intencional e não intencional do Corpo Eucarístico de Cristo em uma escala sem precedentes. Por mais de cinquenta anos, o Corpo de Cristo foi (principalmente sem querer) pisoteado pelo clero e os leigos nas igrejas católicas em todo o mundo. O roubo de hóstias consagradas também tem aumentado a um ritmo alarmante. A prática de receber a Sagrada Comunhão diretamente com as próprias mãos e os dedos se assemelha cada vez mais ao gesto de comer comida comum. Em não poucos católicos a prática de receber a Comunhão na mão enfraqueceu a fé na Presença Real, na transubstanciação e no caráter divino e sublime da Sagrada Hóstia. Com o tempo, a presença eucarística de Cristo tornou-se inconscientemente para esses fiéis uma espécie de pão ou símbolo sagrado. Agora, o Senhor interveio e privou quase todos os fiéis de assistir à Santa Missa e de receber sacramentalmente a Sagrada Comunhão.

Os inocentes e os culpados estão suportando esta tribulação juntos, pois no mistério da Igreja todos estão mutuamente unidos como membros: “Se um membro sofre, todos os membros padecem com ele” (1 Cor 12, 26). A atual cessação da Santa Missa e da Comunhão públicas poderia ser entendida pelo Papa e pelos bispos como uma repreensão divina pelos últimos cinquenta anos de profanações e banalizações eucarísticas e, ao mesmo tempo, como um apelo misericordioso para uma autêntica conversão eucarística da Igreja. Da Igreja inteira. Que o Espírito Santo toque o coração do Papa e dos bispos e leve-os a emitir normas litúrgicas concretas, a fim de que o culto eucarístico de toda a Igreja seja purificado e orientado novamente para o Senhor [ou seja, celebrando ad orientem e não versus populum].

Pode-se sugerir ao Papa que realize juntamente com cardeais e bispos um ato público de reparação em Roma pelos pecados contra a Sagrada Eucaristia, bem como pelo pecado dos atos de culto religioso às estátuas da Pachamama. Uma vez terminada a atual tribulação, o Papa deveria emitir normas litúrgicas concretas, nas quais convidasse toda a Igreja a se voltar novamente para o Senhor na forma de celebração, ou seja, com o celebrante e os fiéis voltados para a mesma direção durante a oração eucarística. O Papa também deveria proibir a prática da Comunhão na mão, pois a Igreja não pode continuar tratando impunemente, de maneira tão minimalista e insegura, o Santo dos Santos na pequena Hóstia consagrada.

A seguinte oração de Azarias na fornalha ardente, que todo sacerdote diz durante o ritual do ofertório da Missa, poderia inspirar o Papa e os bispos a ações concretas de reparação e restauração da glória do sacrifício eucarístico e do Corpo Eucarístico do Senhor: “Que a contrição de nosso coração e a humilhação de nosso espírito nos permita achar bom acolhimento junto a Vós, Senhor, como se nós nos apresentássemos com um holocausto de carneiros, de touros e milhares de gordos cordeiros! Que assim possa ser hoje o nosso sacrifício em vossa presença! Que possa reconciliar-nos convosco, porque nenhuma confusão existe para aqueles que põem em Vós sua confiança. É de todo nosso coração que agora Vos seguimos, Vos reverenciamos, buscamos a vossa face. Não nos confundais; tratai-nos com vossa habitual doçura e com todas as riquezas de vossa misericórdia. Ponde vossos prodígios em execução para nos salvar, Senhor, e cobri vosso nome de glória” (Dan 3: 39-43).

23 março, 2020

“Nós nos gloriamos nas tribulações”. Como viver a fé quando o culto público é proibido.

“Nós nos gloriamos nas tribulações” (Rom. 5:3) 

Por  Dom Athanasius Schneider , 19 de março de 2020 | Tradução: Hélio Dias Viana – FratresInUnum.com: Milhões de católicos no chamado mundo livre ocidental – nas próximas semanas ou até meses, especialmente durante a Semana Santa e a Páscoa, ponto culminante de todo o ano litúrgico – serão privados de quaisquer atos públicos de culto, devido à reação civil e eclesiástica ao surto do coronavírus (COVID-19). O mais doloroso e angustiante para eles é a privação da Santa Missa e da Sagrada Comunhão sacramental.

A atual atmosfera de um pânico quase planetário é continuamente alimentada pelo “dogma” universalmente proclamado da nova pandemia de coronavírus. As medidas de segurança drásticas e desproporcionais, com a negação dos direitos humanos fundamentais de liberdade de movimento, liberdade de reunião e liberdade de opinião, aparecem quase globalmente, orquestradas segundo um plano preciso. Assim, toda a humanidade se torna uma espécie de prisioneira de uma “ditadura sanitária” mundial que, por sua vez, também se revela como uma ditadura política.

Um efeito colateral importante dessa nova “ditadura sanitária” que está se disseminando por todo o mundo é a crescente e intransigente proibição de todas as formas de culto público. A partir de 16 de março de 2020, o governo alemão proibiu todas as formas de reuniões religiosas públicas para todos os credos. Uma medida tão drástica como essa teria sido inimaginável mesmo durante o Terceiro Reich.

Antes de tais medidas serem tomadas na Alemanha, uma proibição de qualquer culto público foi ordenada pelo governo italiano e aplicada em Roma, coração do catolicismo e do cristianismo, bem como em toda a Itália. A presente situação de proibição do culto público em Roma coloca a Igreja de volta ao tempo de análoga proibição feita pelos imperadores romanos pagãos nos primeiros séculos.

Clérigos que ousarem celebrar a Santa Missa na presença dos fiéis, nas atuais circunstâncias poderão ser punidos ou presos. A “ditadura sanitária” mundial criou uma situação que respira o ar das catacumbas, de uma Igreja perseguida, de uma Igreja subterrânea, especialmente em Roma.

O Papa Francisco – que no dia 15 de março caminhou com passos solitários e trêmulos pelas ruas desertas de Roma, em sua peregrinação desde o ícone da “Salus Populi Romani”, na igreja de Santa Maria Maggiore, até a Cruz Milagrosa na igreja de San Marcello – transmitiu uma imagem apocalíptica. Era uma reminiscência da seguinte descrição da terceira parte do Segredo de Fátima, feita pela Irmã Lúcia em sua “Quarta Memória”, em 1944: “O Santo Padre atravessou uma grande cidade meio em ruínas, e meio trêmulo com andar vacilante, acabrunhado de dor e pena”.

Como os católicos devem reagir e se comportar em tal situação? Devemos aceitá-la como oriunda das mãos da Divina Providência, como uma provação, a qual nos trará um benefício espiritual maior do que se não a tivéssemos experimentado. Pode-se entender essa situação como uma intervenção divina na atual crise sem precedentes da Igreja. Deus se utiliza agora do mundo impiedoso da “ditadura sanitária” para purificar a Igreja, para despertar os responsáveis ​​na Igreja – em primeiro lugar o Papa e o Episcopado – da ilusão de um belo mundo moderno, da tentação de flertar com o mundo, da imersão nas coisas temporais e terrenas. Os poderes deste mundo agora separaram à força os fiéis de seus pastores, que são obrigados por seus governos a celebrar a liturgia sem o povo.

Essa intervenção divina purificadora tem o poder de mostrar a todos nós o que é verdadeiramente essencial na Igreja: o Sacrifício Eucarístico de Cristo com seu Corpo e Sangue, e a salvação eterna de almas imortais. Possam aqueles que se viram inesperada e subitamente privados do que é central na Igreja, começar a ver e apreciar mais profundamente o seu valor.

Apesar da dolorosa situação de se virem privados da Santa Missa e da Santa Comunhão, os católicos não devem ceder à frustração ou à melancolia. Eles devem aceitar essa provação como uma ocasião de graças abundantes, que a Providência Divina preparou para eles. Muitos católicos têm agora, de alguma forma, a ocasião de experimentar a situação das catacumbas, da Igreja subterrânea. É de se esperar que tal situação produza novos frutos espirituais de santidade e de confessores da fé.

Essa situação força as famílias católicas a viver literalmente o significado de uma igreja doméstica. Na impossibilidade de assistir à Santa Missa, mesmo aos domingos, os pais católicos deveriam reunir suas famílias em suas casas, onde poderiam assistir a uma Santa Missa transmitida pela televisão ou pela Internet, ou, se isso não for possível, dedicar uma hora santa de orações para santificar o Dia do Senhor e se unir espiritualmente às Missas Sagradas celebradas por padres a portas fechadas, em suas próprias cidades ou nas proximidades. Tal hora santa dominical de uma igreja doméstica poderia ser realizada, por exemplo, da seguinte maneira:

Recitação do Rosário, leitura do Evangelho dominical, Ato de Contrição, ato de Comunhão Espiritual, Ladainha, oração por todos os que sofrem e morrem, por todos os que são perseguidos, oração pelo Papa e pelos sacerdotes, oração pelo fim da atual epidemia física e espiritual. A família católica deveria também rezar as estações da Via Sacra às sextas-feiras da Quaresma. Além disso, aos domingos, os pais poderiam reunir seus filhos à tarde ou à noite para ler para eles as Vidas dos Santos, especialmente as histórias extraídas dos tempos de perseguição à Igreja. Tive o privilégio de ter vivido tal experiência na minha infância, e isso me deu o fundamento da fé católica por toda a minha vida.

Os católicos que estão privados de – por um curto período de semanas ou de meses, ainda não se sabe bem – assistir à Santa Missa e receber sacramentalmente a Comunhão, poderiam pensar naqueles tempos de perseguição, quando por anos a fio os fiéis não podiam assistir à Santa Missa nem receber outros sacramentos, como foi o caso, por exemplo, durante a perseguição comunista em muitos lugares do império soviético.

Que as seguintes palavras de Deus fortaleçam todos os católicos que atualmente sofrem por serem privados da Santa Missa e da Sagrada Comunhão:

 “Não vos perturbeis no fogo da provação, como se vos acontecesse alguma coisa extraordinária. Pelo contrário, alegrai-vos em ser participantes dos sofrimentos de Cristo, para que possais vos alegrar e exultar no dia em que for manifestada sua glória.” (1 Pedro 4: 12–13)

 “O Pai das misericórdias e Deus de toda a consolação, que nos consola em todas as nossas aflições, para que também possamos consolar os que estiverem em alguma atribulação com a mesma consolação com que somos consolados por Deus.” (2 Cor. 1: 3-4)

“Para que a provação da vossa fé, muito mais preciosa do que o ouro perecível, ainda que provada pelo fogo, redunde em louvor, honra e glória na revelação de Jesus Cristo” (1 Pedro 1: 6–7) .

No tempo de uma cruel perseguição à Igreja, São Cipriano de Cartago (+258) deu os seguintes ensinamentos edificantes sobre o valor da paciência:

 “É a paciência que fortalece firmemente os fundamentos da nossa fé. É ela que eleva ao alto o aumento da nossa esperança. É ela que direciona nossas ações para que possamos nos apegar ao caminho de Cristo enquanto andamos pela sua paciência. Quão grande é o Senhor Jesus e quão grande é sua paciência, para que Aquele que é adorado no Céu ainda não seja vingado na Terra! Amados irmãos, consideremos sua paciência em nossas perseguições e sofrimentos; demos uma obediência cheia de expectativa ao seu advento.” (De Patientia, 20; 24)

Queremos rezar com toda confiança na Mãe da Igreja, invocando o poder intercessor de seu Imaculado Coração, para que a atual situação de privação da Santa Missa redunde em abundantes frutos espirituais para uma verdadeira renovação da Igreja, após décadas da noite de perseguição aos verdadeiros católicos, clérigos e fiéis, que ocorreu dentro da Igreja. Ouçamos as seguintes e inspiradoras palavras de São Cipriano:

 “Se se reconhece a causa do desastre, logo se encontra um remédio para a ferida. O Senhor desejou que sua família fosse provada; e porque uma longa paz corrompeu a disciplina que nos foi divinamente entregue, a repreensão celestial despertou nossa fé, que estava cedendo, e eu quase disse, em letargo: apesar de merecermos mais por nossos pecados, o misericordiosíssimo Senhor de tal maneira moderou tudo, que aquilo que aconteceu parece ter sido mais uma provação do que uma perseguição.” (De lapsis, 5)

Queira Deus que esta breve prova de privação do culto público e da Santa Missa sirva para instilar no coração do Papa e dos bispos um novo zelo apostólico pelos tesouros espirituais perenes que lhes foram divinamente confiados, isto é: o zelo pela glória e honra de Deus; pela unicidade de Jesus Cristo e de seu sacrifício redentor; pela centralidade da Eucaristia e seu modo sagrado e sublime de celebração; pela maior glória do Corpo Eucarístico de Cristo; pela salvação das almas imortais; por um clero casto e apostólico. Ouçamos estas encorajadoras palavras de São Cipriano:

“Louvores sejam dados a Deus, cujos benefícios e dons devem ser celebrados com ações de graças, embora nossa voz não tenha cessado de agradecer nem em tempos de perseguição. Pois nenhum inimigo tem o suficiente poder para nos impedir, a nós que amamos o Senhor de todo o coração, vida e força, de declarar com glória suas bênçãos e louvores sempre e em toda parte. Chegou o dia sinceramente desejado pelas orações de todos; e após as trevas terríveis e perniciosas de uma longa noite, brilhou o mundo, irradiado pela luz do Senhor.” (De lapsis, 1)

19 de março de 2020

+ Athanasius Schneider, Bispo auxiliar da Arquidiocese de Santa Maria em Astana, Cazaquistão.

5 março, 2020

Querida Amazonia: um vislumbre de esperança em meio à confusão em curso.

Por Dom Athanasius Schneider, Corrispondenza Romana | Tradução: Hélio Dias Viana, FratresInUnum.com – A maioria dos observadores concorda que a publicação da Exortação Apostólica Querida Amazonia [Nota do tradutor: Amazônia vai sem o acento circunflexo para manter o título original do documento, em espanhol] causou um terremoto espiritual. Nela o Papa Francisco não abriu a porta para a ordenação de homens casados, os chamados viri probati, e também rejeitou a proposta – aprovada com maioria de votos no Sínodo Pan-Amazônico – de ordenação sacramental de mulheres ao diaconato permanente. Tanto a grande mídia anticristã quanto a poderosa rede de cardeais, bispos, teólogos e burocratas leigos bem pagos, cujas mentes foram moldadas segundo o espírito agnóstico e relativista do mundo, ficaram inicialmente chocadas e boquiabertas. Mas depois manifestaram uma frustração declarada ou reprimida.

Em seu programa de notícias diárias Tagesthemen, de 13 de fevereiro de 2020, a emissora alemã do serviço público ARD permitiu que seu apresentador oficial criticasse o Papa Francisco com estas palavras: “O Papa Francisco nos surpreendeu com sua decisão de interpretar o celibato num sentido estrito. O mundo estava aparentemente preparado e ao seu lado. Não é mais segredo que o argentino defende pessoalmente o relaxamento da lei católica de continência para o clero. Para muitos fiéis, teria sido um passo lógico relaxar cautelosamente a lei do celibato como um primeiro passo, como foi proposto pelo Sínodo da Amazônia. Pior ainda do que o seu ‘não’ ao relaxamento do celibato é a decisão do Chefe da Igreja a respeito do papel das mulheres. Às mulheres continua a ser amplamente negada a possibilidade de fazer carreira na Igreja.”

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28 fevereiro, 2020

Dom Athanasius Schneider: O rito da Sagrada Comunhão em tempos de pandemia.

A proibição da Comunhão na boca é infundada em comparação com os grandes riscos à saúde da Comunhão nas mãos em época de uma pandemia. Essa proibição constitui um abuso de autoridade.

Por Dom Athanasius Schneider, Rorate-Caeli, 28 de fevereiro de 2020 | Tradução: FratresInUnum.com – Ninguém pode nos forçar a receber o Corpo de Cristo de uma maneira que represente o risco de perda dos fragmentos e diminuição da reverência, como ocorre com o modo de receber a Comunhão na mão. Embora seja verdade que se possa receber a Comunhão em um pequeno lenço branco e limpo (como um purificador, um pequeno corporal) diretamente na boca, nem sempre é possível praticá-lo e até mesmo recusado por alguns padres.

Nesses casos, é melhor fazer uma Comunhão Espiritual, que enche a alma de graças especiais. Em tempos de perseguição, muitos católicos foram incapazes de receber a Comunhão de maneira sacramental por longos períodos de tempo, mas fizeram uma Comunhão Espiritual com muito benefício espiritual.

A Comunhão na mão não é mais higiênica que a Comunhão na boca. De fato, pode ser perigoso para o contágio. Do ponto de vista higiênico, a mão carrega uma enorme quantidade de bactérias. Muitos patógenos são transmitidos pelas mãos. Seja apertando as mãos de outras pessoas ou tocando objetos com frequência, como maçanetas ou corrimãos e barras de apoio no transporte público, os germes podem passar rapidamente de mão em mão; e com essas mãos e dedos não higiênicos, as pessoas tocam frequentemente o nariz e a boca. Além disso, os germes às vezes podem sobreviver na superfície dos objetos tocados por dias. De acordo com um estudo de 2006, publicado na revista “BMC Infectious Diseases”, vírus da gripe e vírus semelhantes podem persistir em superfícies inanimadas, como por exemplo maçaneta, corrimão ou barras de apoio em transportes, e prédios públicos por alguns dias.

Muitas pessoas que vão à igreja e depois recebem a Sagrada Comunhão em suas mãos tocaram antes maçanetas ou corrimãos e barras de transporte público ou outros edifícios. Assim, os vírus são impressos na palma e nos dedos das mãos. E então, durante a Santa Missa, com essas mãos e dedos, às vezes tocam o nariz ou a boca. Com essas mãos e dedos, eles tocam a hóstia consagrada, levando o vírus também à hóstia, transportando os vírus através da hóstia para a boca.

A Comunhão na boca é certamente menos perigosa e mais higiênica em comparação com a Comunhão na mão. De fato, a palma da mão e os dedos da mão, sem lavagem intensa, inegavelmente contêm um acúmulo de vírus.

A proibição da Comunhão na boca é infundada em comparação com os grandes riscos à saúde da Comunhão nas mãos no tempo de uma pandemia. Essa proibição constitui um abuso de autoridade. Além disso, parece que algumas autoridades da Igreja estão usando a situação de uma epidemia como pretexto. Parece também que alguns deles têm uma espécie de alegria cínica por difundir cada vez mais o processo de banalização e dessacralização do Santíssimo e Divino Corpo de Cristo no Sacramento Eucarístico, expondo o próprio Corpo do Senhor ao verdadeiro perigo de irreverência (perda de fragmentos) e sacrilégios (roubo de hóstias consagradas).

Há também o fato de que, durante os 2.000 anos de história da Igreja, não houve casos comprovados de contágio devido à recepção da Sagrada Comunhão. Na igreja bizantina, o padre dá a Comunhão aos fiéis com uma colher, a mesma colher para todos. E então, o padre ou diácono bebe o vinho e a água com a qual purificou a colher, que às vezes foi tocada com a língua de um fiel durante a recepção da Santa Comunhão. Muitos fiéis das igrejas orientais ficam escandalizados quando veem a falta de fé dos bispos e padres do rito latino, ao introduzir a proibição de receber a comunhão na boca, uma proibição feita em última instância por falta de fé no sagrado e divino caráter do Corpo e Sangue do Cristo Eucarístico.

Se a Igreja em nossos dias não se esforçar novamente com o máximo zelo para aumentar as medidas de fé, reverência e segurança para o Corpo de Cristo, todas as medidas de segurança para os seres humanos serão em vão. Se a Igreja em nossos dias não se converter e se voltar para Cristo, dando primazia a Jesus, e nomeadamente a Jesus Eucarístico, Deus mostrará a verdade de Sua Palavra, que diz: “A menos que o Senhor edifique a casa, eles edificam em vão. A menos que o Senhor guarde a cidade, eles em vão a  vigiam” (Salmo 126: 1-2).

Recomenda-se a seguinte oração para fazer uma Comunhão Espiritual:

“Aos teus pés, ó meu Jesus, eu me prostro e ofereço-te o arrependimento do meu coração contrito, que é humilhado no meu nada e na tua santa presença. Eu Te adoro no Sacramento do Teu amor, a Eucaristia inefável. Desejo te receber na pobre habitação que meu coração te oferece. Enquanto espero a felicidade da Comunhão sacramental, desejo Te possuir em espírito. Vinde a mim, ó meu Jesus, já que eu, da minha parte, venho a Ti! O amor abraça todo o meu ser na vida e na morte. Eu acredito em Ti, espero em Ti, eu Te amo. Amém”

+ Athanasius Schneider, bispo auxiliar da arquidiocese de Santa Maria em Astana

9 novembro, 2019

Dom Athanasius Schneider: Oração de reparação pelos atos idolátricos praticados por ocasião do recente Sínodo para a Amazônia.

Por Dom Athanasius Schneider

cruz

Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, recebei do nosso coração contrito, pelas mãos da Imaculada Mãe de Deus, a sempre-Virgem Maria, este sincero ato de reparação pelos atos de veneração de ídolos e símbolos de madeira que ocorreram em Roma, Cidade Eterna e coração do mundo católico. Derramai o Vosso Espírito no coração do nosso Santo Padre, o Papa Francisco, dos Cardeais, dos Bispos, dos sacerdotes e dos fiéis leigos; possa Ele expulsar as trevas das mentes, para que assim reconheçam a impiedade de tais atos, que ofenderam a Vossa divina majestade, e Vos ofereçam enfim atos públicos e privados de reparação.

Derramai em todos os membros da Igreja a luz da plenitude e da beleza da fé católica. Acendei neles o ardente zelo de levar a fé de Jesus Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro homem, único Salvador, a todos os homens, especialmente às pessoas da região amazônica que ainda são escravizadas pelo serviço a fracas e perecíveis coisas materiais, como o são os surdos e mudos símbolos e ídolos da “mãe terra”. Acendei a luz da fé naquelas pessoas, sobretudo nas pessoas das tribos da Amazônia, que ainda não têm a liberdade dos filhos de Deus e que não têm a felicidade indescritível de conhecer Jesus Cristo e participar por Ele na vida da Vossa natureza Divina.

Santíssima Trindade, Pai, Filho e Espírito Santo, Vós sois o único verdadeiro Deus, e além de Vós não há outro deus ou salvação, tende piedade da Vossa Igreja. Olhai especialmente para as lágrimas e os suspiros contritos e humildes dos pequeninos na Igreja. Olhai para as lágrimas e súplicas das crianças, dos jovens, dos pais e mães de família, e ainda as dos verdadeiros heróis cristãos, que movidos pelo zelo da Vossa glória e pelo amor da Santa Madre Igreja, arrojaram na água os símbolos da abominação que a poluíam. Tende piedade Poupai-nos, Senhor, parce Domine, parce Domine! Tende piedade de nós: Kyrie eleison! Amém.

24 setembro, 2019

Cardeal Burke e Dom Athanasius: Um esclarecimento sobre o significado da fidelidade ao Sumo Pontífice.

Agradecemos aos reverendíssimos Cardeal Burke e Dom Athanasius a honra da publicação em FratresInUnum.com, com exclusividade em língua portuguesa.

Por Cardeal Raymond Leo Burke e Dom Athanasius Schneider

FratresInUnum.com, 24 de setembro de 2019 – Nenhuma pessoa honesta pode mais negar a confusão doutrinária quase geral que reina hoje em dia na vida da Igreja em nossos dias. Isto deve-se, em particular, às ambiguidades acerca da indissolubilidade do matrimónio, que tem vindo a ser  relativizada pela prática da admissão à Santa Comunhão de pessoas que coabitam em uniões irregulares, deve-se à crescente aprovação de atos homossexuais, intrinsecamente contrários à natureza e à vontade revelada de Deus, deve-se a erros a respeito do caráter único de Nosso Senhor Jesus Cristo e da Sua obra redentora, que vem sendo relativizado através de afirmações errôneas sobre a diversidade das religiões, e, em especial,  deve-se ao reconhecimento de diversas formas de paganismo e das respetivas práticas rituais em virtude do Instrumentum Laboris para a próxima Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a região Pan-Amazônica.

Cardinal Raymond Burke and Bishop Athanasius Schneider.

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6 setembro, 2019

Dom Athanasius Schneider: o Vaticano está traindo ‘Jesus Cristo como o único Salvador da humanidade’.

Por LifeSiteNews, Roma, 26 de agosto de 2019 | Tradução: Hélio Dias Vian – FratresInUnum.com – A decisão do Vaticano de implementar um documento afirmando que a “diversidade de religiões” é “desejada por Deus”, sem corrigir esta declaração, equivale a “promover a negligência do primeiro mandamento” e a uma “traição ao Evangelho”, disse Dom Athanasius Schneider.

Bishop Athanasius Schneider

Em entrevista exclusiva ao LifeSiteNews sobre uma iniciativa apoiada pelo Vaticano para promover o “Documento sobre Fraternidade Humana pela Paz Mundial e Viver Juntos”, o  Bispo-auxiliar de Astana, no Cazaquistão, disse que “por mais nobres que possam ser os objetivos de ‘fraternidade humana’ e ‘paz mundial’, elas não podem ser promovidas à custa de relativizar a verdade da unicidade de Jesus Cristo e Sua Igreja”.

A divulgação desse documento nesta forma incorreta “paralisará a missão ad gentes da Igreja” e “sufocará seu zelo ardente de evangelizar todos os homens”, disse Dom Schneider. E acrescentou: “As tentativas de paz estão fadadas ao fracasso se não forem propostas em nome de Jesus Cristo”.

Um “Comitê Superior”

Na semana passada, o Vaticano anunciou que havia sido estabelecido nos Emirados Árabes Unidos um “Comitê Superior” de várias religiões para implementar o “Documento sobre Fraternidade Humana pela Paz Mundial e Viver Juntos”, assinado pelo Papa Francisco em 4 de fevereiro de 2019, em Abu Dhabi, juntamente com Ahmad el-Tayeb, grão-imã al-Azhar, durante uma visita apostólica de três dias à Península Arábica.

Os membros da comissão de sete membros (católicos e muçulmanos) incluem o secretário pessoal do Papa Francisco, Pe. Yoannis Lahzi Gaid, e o presidente do Conselho Pontifício para o Diálogo Interreligioso, arcebispo Miguel Angel Ayuso Giuxot.

Em comunicado divulgado na segunda-feira, 26 de agosto, o porta-voz do Vaticano, Matteo Bruni, disse que o Papa Francisco “encoraja os esforços do Comitê para difundir o conhecimento do Documento; agradece aos Emirados Árabes Unidos pelo compromisso concreto demonstrado em nome da fraternidade humana e expressa a esperança de que iniciativas semelhantes possam surgir em todo o mundo”.

Documento controvertido

O documento de Abu Dhabi gerou polêmica ao afirmar que “o pluralismo e a diversidade” de religiões são “desejados por Deus”.

A passagem que suscita controvérsia diz:

“A liberdade é um direito de toda pessoa: todo indivíduo desfruta da liberdade de crença, pensamento, expressão e ação. O pluralismo e a diversidade de religiões, cor, sexo, raça e linguagem são desejados por Deus em Sua sabedoria, através da qual Ele criou seres humanos. Essa sabedoria divina é a fonte da qual deriva o direito à liberdade de crença e a liberdade de ser diferente. Portanto, o fato de as pessoas serem forçadas a aderir a uma determinada religião ou cultura deve ser rejeitado, assim como a imposição de um modo de vida cultural que outras pessoas não aceitam.”

Em 1º de março de 2019, durante uma visita ad limina dos bispos da Ásia Central a Roma, Dom Schneider, cuja diocese está localizada em uma nação predominantemente muçulmana, expressou preocupação com essa formulação ao Papa Francisco. O Papa disse que a frase em questão sobre a “diversidade de religiões” significava “a vontade permissiva de Deus”, e deu permissão explícita a Dom Schneider e aos outros bispos presentes para citar suas palavras.

Dom Schneider, por sua vez, pediu ao Papa que esclarecesse a declaração de maneira oficial.

O Papa Francisco apareceu para oferecer um esclarecimento informal em sua audiência geral de quarta-feira, 3 de abril de 2019, mas nenhum esclarecimento ou correção oficial ao texto foi dado até o momento.

Nesta entrevista exclusiva, Dom Schneider revela novos detalhes sobre sua interlocução direta com o Santo Padre na reunião de 1º de março. Ele também discute suas opiniões sobre o esclarecimento informal do Papa na audiência geral de 3 de abril e a gravidade do estabelecimento de um “Comitê Superior” para implementar o documento de Abu Dhabi na ausência de uma correção oficial da passagem controversa.

Segundo Dom Schneider, ao impulsionar o documento de Abu Dhabi sem corrigir sua afirmação errônea sobre a diversidade das religiões, “os homens da Igreja não apenas traem Jesus Cristo como o único Salvador da humanidade e a necessidade de Sua Igreja para a salvação eterna, mas também cometem uma grande injustiça e pecam contra o amor ao próximo”.

Aqui está nossa entrevista completa com o bispo Athanasius Schneider.

Excelência, o esclarecimento do Papa Francisco sobre o documento de Abu Dhabi na audiência geral de na quarta-feira, 3 de abril de 2019, foi suficiente na sua opinião? E quais são seus pensamentos sobre os comentários dele?

– Na audiência geral de quarta-feira, 3 de abril de 2019, o Papa Francisco falou estas palavras: “Por que Deus permite muitas religiões? Deus queria permitir isso: os teólogos escolásticos costumavam se referir às voluntas permissiva [vontade permissiva] de Deus. Ele queria permitir esta realidade: existem muitas religiões.”

Infelizmente, o Papa não fez nenhuma referência à frase objetivamente errônea do documento de Abu Dhabi, que diz: “O pluralismo e a diversidade de religiões, cor, sexo, raça e linguagem são desejados por Deus em sua sabedoria.” Essa frase é errônea e contradiz a Revelação Divina, já que Deus nos revelou que Ele não deseja diversas religiões, mas apenas a religião ordenada por Ele no Primeiro Mandamento do Decálogo: “Eu sou o Senhor, teu Deus, que te trouxe para fora da terra do Egito, da casa da escravidão. Não terás outros deuses diante de mim. Não deves fazer para ti uma imagem esculpida, ou qualquer semelhança de qualquer coisa que esteja acima no céu, ou que esteja abaixo na terra, ou que esteja na água debaixo da terra. Não deves curvar-te a eles ou servi-los” (Êx 20: 2-5). Nosso Senhor Jesus Cristo confirmou a validade perene desse mandamento, dizendo: “Está escrito: ‘Adorarás o Senhor teu Deus, e servirás somente a Ele’ (Mt 4:10). As palavras “Senhor” e “Deus”, expressas no primeiro mandamento, significam a Santíssima Trindade, que é o único Senhor e o único Deus. Portanto, o que Deus deseja positivamente é que todos os homens devam cultuar e adorar somente a Deus, o Pai, o Filho e o Espírito Santo, o único Senhor e Deus. O Catecismo da Igreja Católica ensina: “Como eles expressam os deveres fundamentais do homem em relação a Deus e ao próximo, os Dez Mandamentos revelam, em seu conteúdo primordial, graves obrigações. Eles são fundamentalmente imutáveis ​​e obrigam sempre e em qualquer lugar. Ninguém pode dispensar deles” (n.  2072).

As declarações do Papa Francisco na audiência geral de quarta-feira, 3 de abril de 2019, são um pequeno passo na direção de um esclarecimento da frase errônea encontrada no documento de Abu Dhabi. No entanto, permanecem insuficientes, porquanto não se referem diretamente ao documento e porque o católico comum e quase todos os não católicos nem conhecem ou compreendem o significado da expressão teologicamente técnica “vontade permissiva de Deus”.

Do ponto de vista pastoral, é altamente irresponsável deixar os fiéis de toda a Igreja em incerteza numa questão tão vital como a validade do primeiro Mandamento do Decálogo e a obrigação divina de todos os homens de acreditar e adorar, com seu livre arbítrio, em Jesus Cristo como o único Salvador da humanidade. Quando Deus ordenou a todos os homens “Este é o meu Filho amado, com quem me comprazo; ouça-o!” (Mt 17: 5) e quando, consequentemente, em Seu julgamento, Ele “infligirá vingança àqueles que não obedecem ao evangelho de Nosso Senhor Jesus” (2 Ts 1: 8), como pode Ele ao mesmo tempo considerar positivamente a diversidade das religiões? As palavras inequívocas reveladas por Deus são inconciliáveis com a frase contida no documento de Abu Dhabi. Afirmar o contrário significaria formar um círculo ou adotar a mentalidade do gnosticismo ou do hegelianismo.

Não se pode justificar a teoria de que a diversidade de religiões seja positivamente desejada por Deus acrescentando a verdade do depósito da fé em relação ao livre arbítrio como um presente de Deus, o Criador. Deus concedeu o livre arbítrio ao homem precisamente para que ele possa adorar somente a Deus, que é o Deus Trino. Deus não deu ao homem o livre arbítrio para adorar ídolos, ou negar ou blasfemar Seu Filho Encarnado Jesus Cristo, que disse: “Quem não crê já está condenado, porque não crê no nome do único Filho de Deus” (Jo 3:18).

Após a sua interlocução com o Papa Francisco em 1º de março, durante a visita ad limina a Roma, Vossa Excelência teve mais alguma comunicação com ele sobre suas preocupações? Em caso afirmativo, foi antes ou depois da audiência geral de na quarta-feira, 3 de abril de 2019?

– Durante a audiência de 1º de março de 2019, por ocasião da visita ad limina, dirigi-me ao Papa Francisco, na presença dos bispos de nosso grupo, com estas palavras:

 “Santíssimo Padre, na presença de Deus, imploro a Vossa Santidade em nome de Jesus Cristo que nos julgará, a retratar-se dessa declaração do documento inter-religioso de Abu Dhabi, que relativiza a singularidade da fé em Jesus Cristo. Caso contrário, a Igreja em nossos dias não será objetiva sobre a verdade do Evangelho, como o apóstolo Paulo disse a Pedro em Antioquia (ver Gálatas 2:14). ”

O Santo Padre respondeu imediatamente, dizendo que é preciso explicar a frase no documento de Abu Dhabi referente à diversidade das religiões no sentido da “vontade permissiva de Deus”. Ao que respondi: “Visto que essa frase enumera indiscriminadamente os objetos da vontade sábia de Deus, colocando-os logicamente no mesmo nível, a diversidade dos sexos masculino e feminino deve também ser desejada pela vontade permissiva de Deus, o que significa que Ele tolera essa diversidade, assim como pode tolerar a diversidade de religiões.”

O Papa Francisco admitiu então que a frase poderia ser mal interpretada e disse: “Mas você pode dizer às pessoas que a diversidade de religiões corresponde à vontade permissiva de Deus.” Ao que respondi: “Santo Padre, por favor, diga isso a toda a Igreja.” Deixei meu pedido verbal com o Papa também na forma escrita.

O Papa Francisco respondeu-me gentilmente com uma carta datada de 5 de março de 2019, na qual repetiu suas palavras da audiência de 1º de março de 2019. Ele disse que é preciso entender a frase aplicando o princípio da vontade permissiva de Deus. Também observou que o documento de Abu Dhabi não pretende igualar a vontade de Deus em criar diferenças de cor e sexo com as diferenças de religião.

Com uma carta datada de 25 de março de 2019, respondi à carta do Papa Francisco de 5 de março de 2019, agradecendo-lhe por sua gentileza e pedindo-lhe com franqueza fraterna que publicasse, pessoalmente ou através de um Dicastério da Santa Sé, uma nota de esclarecimento repetindo a substância do que ele disse na audiência de 1º de março de 2019 e em sua carta de 5 de março de 2019. Adicionei estas palavras: “Publicando tais palavras, Vossa Santidade terá a ocasião auspiciosa e abençoada, em um momento histórico difícil da humanidade e da Igreja, de confessar Cristo, o Filho de Deus.”

Devo também dizer que o Papa Francisco enviou-me um cartão, datado de 7 de abril de 2019. Ele anexou uma cópia de seu discurso na audiência geral de quarta-feira, 3 de abril de 2019, e sublinhou a seção referente à vontade permissiva de Deus. É claro que sou grato ao Santo Padre por esta amável atenção.

O Documento sobre “Fraternidade Humana pela Paz Mundial e Viver Juntos” não foi oficialmente emendado ou corrigido, e ainda assim foi estabelecido um “Comitê Superior” para implementá-lo. Na segunda-feira, 26 de agosto de 2019, a Sala de Imprensa da Santa Sé divulgou uma declaração informando que o Papa Francisco ficou satisfeito ao saber da formação de um “Comitê Superior” para alcançar as metas contidas no documento. De acordo com a declaração, o Papa Francisco disse a seu respeito: “Embora, infelizmente, o mal, o ódio e a divisão façam notícia, há um mar oculto de bondade que está crescendo e nos leva à esperança no diálogo, no conhecimento recíproco e na possibilidade de construir, junto com os seguidores de outras religiões e todos os homens e mulheres de boa vontade, um mundo de fraternidade e paz.” Excelência, qual é a gravidade deste problema?

O problema é da maior gravidade, porque, sob a frase retoricamente bela e intelectualmente sedutora de “fraternidade humana”, os homens da Igreja estão de fato promovendo hoje a negligência do primeiro Mandamento do Decálogo e a traição do âmago do Evangelho. Por mais nobres que sejam os objetivos de “fraternidade humana” e “paz mundial”, eles não podem ser promovidos à custa de relativizar a verdade da singularidade de Jesus Cristo e de Sua Igreja e de minar o primeiro Mandamento do Decálogo.

O documento de Abu Dhabi sobre “Fraternidade Humana pela Paz Mundial e Viver Juntos” e o “Comitê Superior” encarregado de implementá-lo são como um bolo lindamente decorado que contém uma substância nociva. Cedo ou tarde, quase sem perceber, enfraquecerá o sistema imunológico do corpo.

O estabelecimento do “Comitê Superior” acima mencionado, encarregado de implementar em todos os níveis, entre outros bons objetivos o princípio supostamente divinamente desejado da “diversidade de religiões”, na verdade paralisa a missão ad gentes da Igreja, sufoca o zelo ardente de evangelizar todos os homens – é claro que com amor e respeito –, e dá a impressão de que a Igreja hoje está dizendo: “Tenho vergonha do Evangelho”; “Tenho vergonha de evangelizar”; “Tenho vergonha de trazer a luz do Evangelho a todos que ainda não creem em Cristo”. É o contrário do que disse São Paulo, Apóstolo dos gentios. Ele, pelo contrário, declarou: “Não tenho vergonha do Evangelho” (Rom 1:16) e “Ai de mim se não pregar o Evangelho!” (1 Cor 9:16).

O Documento de Abu Dhabi e os objetivos do “Comitê Superior” também enfraquecem consideravelmente uma das características e tarefas essenciais da Igreja, ou seja, ser missionário e cuidar principalmente da salvação eterna dos homens. Ele reduz as principais aspirações da humanidade aos valores temporais e imanentes da fraternidade, da paz e da convivência. De fato, as tentativas de paz estão destinadas ao fracasso se não forem propostas em nome de Jesus Cristo. Esta verdade profeticamente recorda-nos o Papa Pio XI, que disse que as principais causas das dificuldades sob as quais a humanidade está trabalhando “eram devidas ao fato de a maioria dos homens expulsar Jesus Cristo e sua santa Lei de suas vidas. Pio XI prosseguiu dizendo que,  “enquanto indivíduos e Estados se recusassem a se submeter ao governo de nosso Salvador, não haveria nenhuma perspectiva esperançosa de uma paz duradoura entre nações” (Encíclica Quas Primas, 1). O mesmo Papa ensinou que os católicos “se tornam grandes fatores para a paz mundial porque trabalham para a restauração e a expansão do Reino de Cristo” (Encíclica Ubi arcano, 58).

Uma paz que é uma realidade do mundo interior e puramente humana falhará. Pois, de acordo com Pio XI, “a paz de Cristo não se nutre nas coisas da Terra, mas nas do Céu. Tampouco poderia ser de outro modo, já que é Jesus Cristo quem revelou ao mundo a existência de valores espirituais e obteve para eles a devida apreciação. Ele disse: ‘Pois que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se ele vier a perder sua alma?’  (Mt 16:26) Ele também nos ensinou uma lição divina de coragem e constância quando disse: ‘Não temas os que matam o corpo e não são capazes de matar a alma; antes, tema o que pode destruir a alma e o corpo no inferno’ (Mt 10:28; Lucas 12:14) ”(Encíclica Ubi arcano 36).

Deus criou os homens para o Céu. Deus criou todos os homens para conhecerem Jesus Cristo, terem vida sobrenatural n’Ele e alcançarem a vida eterna. Levar todos os homens a Jesus Cristo e à vida eterna é, portanto, a missão mais importante da Igreja. O Concílio Vaticano II nos forneceu uma bela e adequada explicação para esta missão: “A atividade missionária deriva sua razão da vontade de Deus, ‘que deseja que todos os homens sejam salvos e cheguem ao conhecimento da verdade. Pois existe um Deus e um mediador entre Deus e os homens, ele próprio um homem, Jesus Cristo, que se deu como resgate por todos’ ‘(1 Tim 2:45), ‘nem há salvação em nenhum outro’ (Atos 4 : 12). Portanto, todos devem ser convertidos a Ele, tornados conhecidos pela pregação da Igreja, e todos devem ser incorporados a Ele pelo batismo e à Igreja que é Seu corpo. Porque o próprio Cristo, ‘enfatizando em linguagem expressa a necessidade de fé e batismo (cf. Mc 16, 16; Jo 3, 5), confirmou ao mesmo tempo a necessidade da Igreja, na qual os homens entram pelo batismo, como por um porta. Portanto, embora Deus, por caminhos conhecidos por Ele, possa conduzir esses homens ignorantes não culposos do Evangelho a encontrar aquela fé sem a qual é impossível agradá-Lo não podem ser salvos, que, embora cientes de que Deus, por meio de Jesus Cristo, fundou a Igreja como algo necessário, ainda não deseja entrar nela, nem perseverar nela. ” (Cf. Decreto “Treinamento sacerdotal”, 4, 8, 9.) Portanto, embora Deus, de maneiras conhecidas de Si mesmo, possa levar os inculpáveis ​​ignorantes do Evangelho a encontrar aquela fé sem a qual é impossível agradá-Lo (Heb 11: 6), há ainda para a Igreja uma necessidade (1 Cor 9:16), e ao mesmo tempo um dever sagrado, de pregar o Evangelho. E, portanto, a atividade missionária hoje, como sempre, conserva seu poder e necessidade ”(Ad Gentes, 7).

Quero enfatizar estas últimas palavras: “A atividade missionária da Igreja hoje conserva a sua necessidade!”

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Em sua audiência geral de quarta-feira de 3 de abril de 2019, o Papa Francisco também disse o seguinte sobre a diversidade das religiões: “Existem muitas religiões. Alguns nascem da cultura, mas sempre olham para o céu; elas olham para Deus.”

Estas palavras contradizem de alguma forma a seguinte declaração luminosa e clara do Papa Paulo VI: “Nossa religião cristã efetivamente estabelece com Deus um relacionamento autêntico e vivo que as outras religiões não conseguem fazer, mesmo tendo, por assim dizer, seus braços estendidos para o céu” (Encíclica Evangelii Nuntiandi, 52). Quão oportunas são também as palavras do Papa Leão XIII: “A visão de que todas as religiões são iguais é calculada para causar a ruína de todas as formas de religião, e especialmente da religião católica, que, por ser a única verdadeira, não pode, sem grande injustiça, ser considerada meramente igual a outras religiões” (Encíclica Humanum genus, 16).

Também são adequadas as seguintes palavras do Papa Paulo VI:

“É com alegria e consolo que, no final da grande Assembleia de 1974, ouvimos estas palavras esclarecedoras: ‘Desejamos confirmar mais uma vez que a tarefa de evangelizar todas as pessoas constitui a missão essencial da Igreja’. É uma tarefa e missão que as vastas e profundas mudanças da sociedade atual tornam ainda mais urgente. Evangelizar é de fato a graça e a vocação própria da Igreja, sua identidade mais profunda. Ela existe para evangelizar, ou seja, para pregar e ensinar, ser o canal do dom da graça, reconciliar pecadores com Deus e perpetuar o sacrifício de Cristo na Missa, que é o memorial de Sua morte e ressurreição gloriosa” (Encíclica Evangelii Nuntiandi, 14).

Portanto, como ensina o Catecismo da Igreja Católica, “o objetivo último da missão não é outro senão o de fazer os homens compartilharem a comunhão entre o Pai e o Filho em seu Espírito de amor” (n. 850).

Ao reconhecer direta ou indiretamente a igualdade de todas as religiões – através da divulgação e implementação do documento de Abu Dhabi (de 4 de fevereiro de 2019), sem corrigir sua afirmação errônea sobre a diversidade de religiões –, os homens na Igreja hoje não apenas traem Jesus Cristo como o único Salvador da humanidade e a necessidade de Sua Igreja para a salvação eterna, mas também cometem uma grande injustiça e pecam contra o amor ao próximo. Em 1542, São Francisco Xavier escreveu das Índias a seu pai espiritual Santo Inácio de Loyola: “Muitas pessoas nesses lugares não são cristãs simplesmente porque não há ninguém para torná-las tais. Muitas vezes sinto o desejo de viajar para as universidades da Europa, especialmente Paris, e gritar por toda parte, como um louco, para impulsionar aqueles que têm mais conhecimento do que caridade com estas palavras: ‘Ai, quantas almas, por causa de sua preguiça, são privadas do Céu e terminam no inferno!’”.

Possam essas palavras inflamadas do patrono celestial das missões e primeiro grande missionário jesuíta tocar a mente e o coração de todos os católicos, e especialmente o do primeiro Papa jesuíta, para que, com coragem evangélica e apostólica, ele possa retratar-se da declaração errônea sobre a diversidade de religiões contidas no documento de Abu Dhabi. Por tal ato, ele pode muito bem perder a amizade e a estima dos poderosos deste mundo, mas certamente não a amizade e a estima de Jesus Cristo, de acordo com Suas palavras: “Todo aquele que me confessar diante dos homens, Eu também o confessarei diante de meu Pai, que está nos céus ”(Mt 10:32).

26 de agosto de 2019

 + Athanasius Schneider

22 julho, 2019

Dom Athanasius Schneider responde ao Bispo Kräutler e ao Instrumentum Laboris sobre o Sínodo da Amazônia.

Por Corrispondenza Romana, 19 de julho de 2019 | Tradução: Gercione Lima – FratresInUnum.com – Apresentamos nossa tradução de uma declaração publicada no dia 17 de julho no site de notícias austríaco Kath.net e distribuída em vários idiomas. Nesta declaração, Dom Athanasius Schneider, Bispo Auxiliar da arquidiocese de Santa Maria em Astana, Cazaquistão, responde ao Bispo Erwin Kräutler e critica fortemente o Instrumentum laboris sobre o Sínodo da Amazônia.

Em sua entrevista do dia 14 de julho à ORF [uma emissora nacional austríaca de serviço público], o Bispo Erwin Kräutler afirmou ser “quase um escândalo” o fato de que em muitas paróquias na Amazônia a Sagrada Eucaristia raramente seja celebrada. Este modo de falar é em si obscuro e decididamente tendencioso. Ninguém tem um direito à Sagrada Eucaristia. O sacramento da Eucaristia é o mais elevado dom de Deus: pode-se falar, ao invés, de escândalo quando nas paróquias católicas a fé é negada e não praticada, quando Deus é insultado pelo desprezo de seus mandamentos, pelos pecados graves contra a caridade, pela idolatria, xamanismo e assim por diante. Pode-se falar de escândalo em uma paróquia católica quando as pessoas não rezam o bastante. Isso sim seria um verdadeiro escândalo.

Deveríamos, antes, falar de escândalo quando consideramos que durante as últimas décadas não foram promovidas na Amazônia iniciativas pastorais intensivas para promover vocações. Iniciativas que estariam de acordo com a experiência de dois mil anos da Igreja: orações constantes, sacrifícios espirituais e um estilo de vida exemplar e santo adotado pelos próprios missionários. De fato, para se promover efetivamente sólidas vocações sacerdotais é indispensável que até na Amazônia existam missionários que levem uma vida de verdadeiros homens de oração, de verdadeiros apóstolos, isto é, uma vida de amor e sacrifício totalmente dedicada a Cristo e à salvação das almas imortais.

O que Dom Kräutler e muitos de seus companheiros de viagem do clero estão querendo promover são caricaturas de sacerdotes, que têm como modelo agentes humanitários, funcionários de ONGs, sindicalistas socialistas e ecologistas. Mas esta não é a missão de Jesus Cristo, do Deus encarnado, que deu a Sua vida na Cruz para redimir a humanidade do maior mal que é o pecado, para que todos os homens possam ter em abundância a vida divina e sobrenatural (veja João 10.10).

Não é necessário recorrer ao truque de dramatizar a “fome eucarística” ou a falta de celebrações eucarísticas, porque para salvar a si mesmo não é necessário a recepção da Sagrada Eucaristia, mas sim a Fé, a oração e uma vida conforme os mandamentos de Deus.

Se por um longo período de tempo e por causa da falta de sacerdotes os católicos não puderam receber a Sagrada Comunhão, então deveriam ser ensinados a praticar a comunhão espiritual, que tem grande força e um grande efeito espiritual. Os Padres do Deserto, por exemplo, viveram durante anos sem a Eucaristia e alcançaram uma grande união com Cristo. Durante anos, eu mesmo e meus pais não conseguimos receber a Sagrada Comunhão na União Soviética. Mas sempre fazíamos a comunhão espiritual, que nos deu muita força e consolo. Então, quando aparecia um padre e podíamos confessar, participar do Santo Sacrifício da Missa e receber a Sagrada Comunhão sacramentalmente, era uma verdadeira festa e experimentávamos de maneira muito profunda e jubilosa o quão precioso é o dom do sacerdócio e o dom da Eucaristia.

Na Amazônia deveria haver uma maneira de garantir que os padres missionários itinerantes possam se dirigir a lugares afastados – ainda que poucas vezes ao ano – para organizar uma festa verdadeiramente espiritual, com boas confissões e com as Santas Missas celebradas com dignidade. Poderiam até deixar Jesus nos tabernáculos para que os católicos pudessem adorá-Lo e os fiéis pudessem ser ensinados sobre como fazer a adoração eucarística e como rezar o terço para pedir bons sacerdotes indígenas solteiros e boas famílias cristãs. Então, sem dúvida, Deus concederia essa graça. Sim, dever-se-ia fazer um apelo a nível mundial convidando padres para irem para a Amazônia, a fim de socorrer pastoralmente a população local. Finalmente, poderiam ordenar os diáconos casados ou, em casos excepcionais, delegar a função a acólitos ou a mulheres católicas para que pudessem expor o Santíssimo Sacramento e conduzir orações.

Há um exemplo na história da Igreja: o dos católicos japoneses que, mesmo sem sacerdotes, mantiveram a fé católica por mais de duzentos anos. Hoje, o Japão tem um número suficiente de padres nativos que, naturalmente, são celibatários. Ainda que naquela época a cultura pagã do Japão rejeitava o sacerdócio celibatário, os católicos japoneses tinham-no em tão alta estima, que se tornou seu sinal de identificação. Portanto, quando no século XIX chegaram os primeiros missionários protestantes, que eram casados, eles os rejeitaram exatamente por esse motivo. Mas, quando os sacerdotes católicos voltaram, uma vez que se certificaram de que eram solteiros, os fiéis japoneses os receberam como sacerdotes da verdadeira Igreja de Jesus Cristo. Portanto, a Igreja no século XIX poderia ter apresentado os mesmos argumentos que estão sendo usados ​​hoje no Sínodo Amazônico em favor da ordenação de sacerdotes indígenas casados, já que naquela época muitas paróquias em algumas regiões missionárias contavam com a visita de um sacerdote raríssimas vezes durante o ano.

O casamento de padres foi legalizado na Igreja Oriental no século VII, mas não por causa da falta de sacerdotes, dado que, na época, havia uma superabundância de sacerdotes, especialmente em Constantinopla. Foi feito, antes, pela indulgência para com a fraqueza humana, porque aqueles que no ofício episcopal e sacerdotal imitavam Jesus Cristo – o Sacerdote  Eterno da Nova Aliança – agindo na pessoa de Cristo, o Cabeça, haviam se afastado da regra apostólica de uma vida celibatária. Naquela época, na Igreja Grega, tratou-se de uma solução regional para uma Igreja local, mas que os Romanos Pontífices não reconheciam e nem aceitavam. Foi um desvio e deslealdade à exigente imitação de Cristo; imitação que os apóstolos viveram na completa continência sexual, até a morte, como Pedro claramente testifica quando diz: “Deixamos tudo para te seguir” (Mt 19,27), até esposas e filhos.

Todos os Padres da Igreja viviam o sacerdócio na continência sexual. Embora alguns tenham sido casados ​​(por exemplo, Santo Hilário), foi demonstrado que, a partir da ordenação, começaram a praticar a continência e não tiveram mais filhos, porque conheciam e respeitavam a regra apostólica da continência sexual sacerdotal e episcopal.

A Igreja Romana transmitiu fielmente essa norma apostólica e sempre a defendeu até hoje, com a única exceção concedida às Igrejas Orientais, feita no contexto das negociações de unificação durante os Concílios de Lyon e Florença. Neste caso, foi dispensado o celibato dos sacerdotes Orientais visando o benefício da unidade.

A introdução do clero “uxorado” na Amazônia não produziria verdadeiros apóstolos, mas sim uma nova categoria de sacerdotes, uma espécie de dinastia. Ao mesmo tempo, deve-se ter em mente que a cultura indígena dos povos amazônicos ainda não alcançou a maturidade confiável e comprovada de gerações cristãs inteiras, completamente permeada pelo espírito do Evangelho.

Após a evangelização inicial e sistemática de São Bonifácio, por exemplo, as tribos germânicas levaram vários séculos até conseguirem produzir numerosos e confiáveis ​​padres nativos celibatários.

No século II, Santo Irineu já era uma testemunha da unidade da fé e da disciplina na Igreja, que era tão grande entre todos os povos, embora naquela época os católicos convertidos eram provenientes de culturas muito diferentes e em parte até contraditórias:

 “A Igreja, embora dispersa pelo mundo afora, todavia – como se habitasse em uma só casa – preserva cuidadosamente a Fé dos Apóstolos. Ela também crê que essas verdades têm uma só alma e o mesmo coração e as proclama, ensina e as oferece em perfeita união, como se tivesse uma só boca. Embora as línguas do mundo sejam diferentes, a mensagem da Tradição é uma só e a mesma. Portanto, as Igrejas na Alemanha não crêem e transmitem nada diferente, nem as da Espanha, nem as da Gália, nem as do Oriente, nem as do Egito, nem as da Líbia, nem as das regiões centrais da mundo”(Adversus haereses 1,10, 2).

Mesmo muitas das paróquias católicas recém-convertidas entre as tribos germânicas durante a Era da Migração (do século IV-VI) tiveram talvez apenas algumas vezes a oportunidade de assistir a Santa Missa e receber a Sagrada Comunhão. Depois de algumas gerações, todavia, gerações de padres celibatários e geralmente exemplares nasceram dessas paróquias alemãs.

A verdade é que aqueles que defendem um clero amazônico casado, usando como estratagema o lema elegante “homens provados” (“viri probati”), consideram os povos amazônicos inferiores, porque pressupõem desde o início que eles não têm a capacidade de dar à Igreja sacerdotes celibatários gerados em seu próprio meio. Ao longo de 2000 anos, todos os povos e até mesmo os bárbaros foram capazes de criar seus próprios filhos, com a ajuda da graça de Cristo, com um sacerdócio celibatário segundo o exemplo de Jesus Cristo. Os pedidos de padres casados ​​para os povos da Amazônia – vindos  exatamente de eclesiásticos de ascendência européia – contêm um racismo oculto. Para resumir, poderíamos simplificar desse modo: “Nós europeus, nós que somos brancos, somos realmente capazes de gerar padres celibatários. Mas para vocês da Amazônia, isso seria pedir demais!”

Os defensores de um clero amazônico casado são quase todos europeus e não de origem indígena, e no final não estão interessados ​​no verdadeiro bem espiritual dos fiéis da Amazônia, mas na implementação de sua própria agenda ideológica, que visa posteriormente um clero casado também na Europa e depois em toda a Igreja Latina. Porque todos sabem que após a introdução de um clero casado regionalmente limitado à Amazônia, iria surgir, com a ajuda do efeito dominó e depois de um breve período de tempo, um clero regular casado no próprio rito romano em outras partes do mundo. Deste modo, o legado apostólico de um sacerdócio celibatário, segundo o modelo de Jesus Cristo e seus apóstolos, seria efetivamente destruído em toda a Igreja.

Alguns católicos – aqueles que certamente não representam a maioria dos verdadeiros fiéis, mas que são funcionários de uma rica burocracia eclesiástica e que alcançaram posições clericais de poder na Igreja – querem atrair as pessoas mundanas com a idéia de um sacerdócio casado, sem sacrifícios, sem doação completa de si e sem um amor ardente e sobrenatural por Deus.

O próprio Senhor nos ensinou o que a Igreja deveria fazer para que os fiéis possam ter sacerdotes: “Peça ao Senhor da messe que envie trabalhadores para a sua vinha” (Mateus 9:38). Não há remédio melhor ou mais eficaz do que esse. E se houvesse outro, Nosso Senhor nos teria dito.

Para se obter candidatos casados para ordenação sacerdotal, não há necessidade de iniciativas especiais de oração. Sempre haverá poucos operários na vinha do Senhor até o fim dos tempos. Numa época em que haviam muitos sacerdotes, o papa São Gregório Magno pronunciou essas palavras memoráveis: “Veja, o mundo está cheio de sacerdotes, mas poucos são os operários na vinha do Senhor” (Em Ev. Hom., 34). Deus sempre realiza Sua obra de graça e salvação de almas para a vida eterna com a ajuda de sacrifícios e, freqüentemente, apenas de algumas pessoas, e não com a ajuda de grandes multidões. Nesse sentido, São Gregório Nazianzeno disse que Deus não se compraz com números (ver Or. 42.7).

O bispo Erwin Kräutler pergunta então na entrevista: “O que então podemos fazer como Igreja para que essas pessoas possam celebrar a Eucaristia?” A vida paroquial, acrescenta ele, é bela, “mas está faltando o centro”. A resposta a esta pergunta é a seguinte: o centro é Cristo, a verdade ensinada por Ele, o exemplo dado por Ele. O tabernáculo é o verdadeiro centro da Igreja aqui na terra e o centro de toda paróquia local. Se uma comunidade católica local na Amazônia tem o tabernáculo – e muitas delas o têm – então eles têm o centro, e no final nada está faltando, porque eles têm Deus no meio deles, Deus em Carne e Sangue está presente no meio deles!

É necessário reunir os católicos da Amazônia em torno do tabernáculo para que eles tenham seus próprios sacerdotes e, se possível, numerosos sacerdotes. Ali, mães e crianças católicas deveriam dirigir suas orações íntimas a Deus, o dispensador de todos os dons, com a intenção de obter bons e únicos sacerdotes indígenas e com um espírito apostólico. Uma rede de adorações eucarísticas deve ser iniciada em toda a Amazônia. Esta corrente eucarística de adorações por parte dos simples fiéis, juntamente com os seus bispos e os seus sacerdotes – mesmo que sejam apenas uns poucos – poderão, sem sombra de dúvida – no momento escolhido por Deus -, trazer para o povo da Amazônia aqueles sacerdotes que são de acordo com o coração de Jesus. Não é preciso abusar dos povos amazônicos com o interesse de promover suas próprias ideologias decadentes e heresias teológicas que foram fabricadas na Europa.

Amplas partes do documento de trabalho (Instrumentum laboris) do Sínodo sobre a Amazônia e os pedidos desses sacerdotes enfeitam a imagem de Cristo Rei com pérolas e jargões como “varões provados”, “fome eucarística”, “empatia feminina”. Deste modo, eles desejam implementar o fim do celibato sacerdotal e a ordenação feminina de maneira mais sutil. Os verdadeiros católicos da Amazônia e de outras partes do mundo, entretanto, reconhecerão nela a imagem do engano e não acreditarão que é a imagem de Jesus Cristo, o Rei. Grandes partes do Instrumentum laboris e das exigências revolucionárias do Bispo Erwin Kräutler e seus companheiros de viagem clericais, realmente retratam uma atitude intelectual muito semelhante à Gnose e ao Naturalismo que queriam introduzir na Igreja desde o início, a partir do segundo século, como Santo Irineu de Lyon afirma:

“Tal então é o método deles, que nem os profetas anunciaram, nem o Senhor ensinou, nem os apóstolos transmitiram, mas do qual eles se orgulham de ter um conhecimento perfeito, muito além de todos os outros. Eles recolhem suas opiniões de outras fontes que não são as Escrituras; e, para usar um provérbio comum, eles se esforçam para tecer cordas de areia, lutando para adaptar as parábolas do Senhor, as palavras dos profetas e as palavras dos Apóstolos às suas afirmações particulares, dando-lhes uma aparência de veracidade, de modo que seu esquema não pareça totalmente privado de apoio. Ao fazê-lo, porém, eles ignoram a ordem e conexão das Escrituras e, na medida em que as vão encontrando, desmembram-nas e destroem a verdade, transferindo passagens, vestindo-as novamente e trocando uma coisa por outra. Assim, conseguem enganar muitos, graças à sua destreza perversa que conforma os oráculos do Senhor às suas próprias opiniões. Seu modo de agir é como se alguém – depois que uma bela imagem de um rei fosse fielmente esculpida por um artista habilidoso, com jóias preciosas – então resolvesse reduzir o retrato daquele homem aos pedaços, para depois reorganizar as gemas e recompor tudo novamente dando-lhes a forma de um cachorro ou uma raposa, e tudo isto mal executado. E mais, depois de tudo, ainda tivesse a coragem de declarar que esta sim é a verdadeira imagem do rei que o artista original esculpiu, apontando para as gemas que foram retiradas da obra anterior como prova de que aquela é a imagem do rei, apesar do resultado medíocre, mesmo depois de ter usado o mesmo material para fazer a imagem de um cachorro ou de uma raposa. E sempre apontando para as gemas para enganar os ignorantes que não têm a menor idéia de como era antes a imagem do rei. Persuadindo-os de que aquele decadente retrato de raposa seja, de fato, a verdadeira imagem do rei. Da mesma forma, essas pessoas remendam velhas lendas de comadres e depois se apropriam – afastando-se violentamente de seu contexto, de palavras, expressões e parábolas encontradas – para adaptar os oráculos de Deus às suas ficções infundadas ”( Adversus haereses 1, 8, 1).

É óbvio que o conteúdo de amplas partes do Instrumentum laboris e as exigências do Bispo Erwin Kräutler e seus companheiros de viagem clericais buscam realmente uma nova confissão cristã, que talvez venha a ser chamada de “Igreja Católica Amazônica”, mas que eventualmente se tornará uma seita em comparação com a verdadeira Igreja Una, Santa, Católica e Apostólica. Esta última navegou e continua a navegar, com segurança e em todos os tempos, sempre com a mesma lealdade incondicional à pureza da fé e ao legado imutável dos apóstolos na liturgia e na disciplina da Igreja. Os católicos do nosso tempo reagirão com vigor a uma seita “católica amazônica” que pratica a adoração da natureza e que terá um sacerdócio feminino – com as palavras de Santo Agostinho aos membros da seita dos donatistas: “A Igreja em todo o mundo é segura em seus juízos da verdade!” (Securus iudicat orbis terrarum: Contra epistolam Parmeniani 3, 3).

O sucessor de Pedro, o Papa, tem o dever preciso, conferido por Deus, como titular da Cátedra da Verdade (cathedra veritatis), de preservar em sua pureza e integridade, a verdade da Fé Católica, a Constituição Divina da Igreja, a ordem sacramental estabelecida por Cristo e a herança apostólica do celibato sacerdotal, para transmiti-las ao seu sucessor e às gerações futuras. Ele não pode apoiar nem um pouco – com seu silêncio ou com uma conduta ambígua – o conteúdo claramente gnóstico e naturalista de partes do Instrumentum laboris, como também a abolição do dever apostólico do celibato sacerdotal (que seria primeiro regional, e então naturalmente se tornaria, passo a passo, universal). Se o papa fizesse isso no próximo Sínodo amazônico, violaria seriamente seu dever de Sucessor de Pedro e Representante de Cristo, causando assim um eclipse espiritual intermitente na Igreja. Mas Cristo, o invencível Sol da Verdade, varrerá este breve eclipse enviando novamente para a Sua santa Igreja papas corajosos e fiéis, para que as portas do inferno não sejam capazes de derrotar a rocha de Pedro (cf. Mateus 16, 18). A oração de Cristo por Pedro e seus sucessores é infalível. Isto significa que após a conversão, eles confirmarão novamente seus irmãos na fé (cf. Lc 22,32).

A verdade, como foi formulada por Santo Irineu, permanecerá em pé mesmo em um momento de intermitente eclipse espiritual na Igreja – como é o caso da atemporal, por insondável permissão de Deus: “Para que, na Igreja Romana, a Tradição Apostólica seja sempre preservada pelos fiéis que estão em toda parte”(Adversus haereses 3, 3, 2).

+ Athanasius Schneider, Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Santa Maria em Astana

11 junho, 2019

Um novo Syllabus ante a letargia espiritual no exercício do Magistério. A Declaração dos Cardeais Burke, Pujats e bispos do Cazaquistão.

Por FratresInUnum.com, 11 de junho de 2019

Temos a honra de apresentar, com exclusividade, a versão portuguesa da Declaração lançada por Dom Raymond Cardeal Leo Burke, Dom Janis Cardeal Pujats, Dom Tomash Peta, Dom Jan Pawel Lenga e Dom Athanasius Schneider.

Nota explicativa à Declaração de verdades relacionadas com alguns dos erros mais comuns na vida da Igreja do nosso tempo

A Igreja atual sofre uma das maiores epidemias espirituais de sempre. Uma confusão e desorientação doutrinais de alcance quase universal. Este fenômeno representa um sério perigo de contágio para a saúde espiritual e a salvação eterna de numerosas almas. Ao mesmo tempo, é preciso reconhecer uma letargia espiritual generalizada no exercício do Magistério a diversos níveis da hierarquia da Igreja de hoje. Em grande parte, isso se deve ao facto que não ter sido observado o dever apostólico – como tem sido afirmado também pelo Concílio Vaticano II – de que os bispos devem «solicitamente afastar os erros que ameaçam o seu rebanho» (Lumen gentium, 25).

declaracao

Os signatários, da esquerda para a direita: Cardeal Burke, Cardeal Pujats, Dom Tomash Peta, Dom Jan Pawel Lenga e Dom Athanasius Schneider

Os tempos em que vivemos se caracterizam por uma aguda fome espiritual dos fiéis católicos de todo o mundo para que se reafirmem as verdades que foram obscurecidas, minadas e negadas por alguns dos mais perigosos erros da nossa época. Os fiéis que padecem desta fome espiritual se sentem abandonados e se encontram, por isso, numa espécie de periferia existencial. Esta situação requer com urgência um remédio concreto. Não admite mais demora uma Declaração pública das verdades que se opõem aos erros mencionados. Temos, portanto, presentes as seguintes palavras do Papa São Gregório Magno, válidas para todos os tempos: «Não se canse nossa língua para exortar e, tendo assumido o cargo de bispo, não nos condene nosso silêncio ante o tribunal do justo Juiz. (…) O rebanho que nos foi encomendado abandona Deus, e nós nos calamos. Vive no pecado, e não estendemos a mão para corrigi-lo» (Hom. In ev., 17, 3.14).

Estamos conscientes da grave responsabilidade que temos como bispos católicos, conforme a admoestação de São Paulo, que ensina que Deus deu à sua Igreja «pastores e doutores com o propósito de aperfeiçoar os santos para a obra do ministério, para que o Corpo de Cristo seja edificado, até que todos alcancemos a unidade da fé e do conhecimento do Filho de Deus e cheguemos à maturidade, atingindo a medida da estatura da plenitude de Cristo. O objetivo é que não sejamos mais como crianças, levados de um lado para o outro pelas ondas teológicas, nem jogados para cá e para lá por todo vento de doutrina e pela malícia de certas pessoas que induzem os incautos ao erro. Longe disso, seguindo a verdade em amor, cresçamos em tudo naquele que é a cabeça, Cristo. É a partir dele que todo o Corpo inteiro, bem ajustado e unido, por meio de todas as articulações que o sustentam, segundo uma força à medida de cada uma das partes, realiza o seu crescimento como Corpo, para se construir a si próprio no amor» (Ef. 4, 12-16).

Com o espírito de caridade fraterna, publicamos a presente Declaração de verdades como modo de ajuda espiritual concreta para que bispos, sacerdotes, paróquias, comunidades religiosas, associações de fiéis leigos e pessoas privadas tenham a oportunidade de confessar privada e publicamente as verdades que mais se negam ou desfiguram em nossos tempos. A seguinte exortação do apóstolo São Paulo deve entender-se como dirigida a cada bispo e fiel leigo de hoje: «Combate a boa batalha da fé. Toma posse da vida eterna, para a qual foste convocado, tendo já realizado boa confissão diante de muitas testemunhas. Na presença de Deus, que a tudo dá vida, e de Cristo Jesus, que perante Pôncio Pilatos fez o perfeito testemunho, eu te exorto Guarda este mandamento imaculado e irrepreensível até a manifestação de nosso Senhor Jesus Cristo» (1 Tim. 6,12-14).

Diante dos olhos do Divino Juiz e da própria consciência, cada bispo, sacerdote e fiel leigo tem o dever moral de dar testemunho inequívoco das verdades que hoje em dia se obscurecem, minam e negam. Declarando estas verdades mediante actos públicos e privados podia iniciar-se um movimento de confissão da verdade, da defesa e da reparação pelos pecados generalizados contra a fé e pelos pecados secretos e públicos de apostasia, dissimulada ou manifesta, de não poucos clérigos e leigos. É necessário ter presente que o que importa num tal movimento não é o número, mas a verdade, como afirmou São Gregório Nazianzeno diante da confusão doutrinal generalizada da crise ariana, quando declarou que Deus não se compraz nos números (cfr. Or. 42,7).

Ao dar testemunho da perene fé católica, o clero e os fiéis recordarão a verdade de que «a totalidade dos fiéis que receberam a unção do Santo (cfr. Jo. 2, 20 e 27), não pode enganar-se na fé; e esta sua propriedade peculiar manifesta-se por meio do sentir sobrenatural da fé do povo todo, quando este, «desde os Bispos até ao último dos leigos fiéis», manifesta consenso universal em matéria de fé e costumes.» (Concílio Vaticano II, Lumen gentium, 12).

Os santos e grandes bispos que viveram em tempos de crises doutrinais podem interceder por nós e guiar-nos mediante seu ensinamento, como o fazem as seguintes palavras de Santo Agostinho dirigidas ao Papa São Bonifácio I: «Dado que todos os que exercemos o episcopado compartilhamos uma mesma vigilância pastoral (embora tu vigies desde uma altura superior), faço o que posso com respeito à minha pequena porção de rebanho na  medida em que o Senhor se digna conceder-me mediante as tuas orações» (Contra ep. pel., 1,2).

A voz unânime dos pastores e dos fiéis numa precisa Declaração de verdades será indubitavelmente um meio eficaz de ajuda fraterna e filial ao Sumo Pontífice na extraordinária situação atual de confusão doutrinal generalizada e de desorientação que reina na Igreja.

Fazemos esta Declaração com espírito de caridade cristã, que se manifesta velando pela saúde espiritual dos pastores e dos fiéis; quer dizer, de todos os membros do Corpo de Cristo, que é a Igreja, tendo presentes as seguintes palavras de São Paulo na sua Primeira Epístola aos Coríntios: «Para que não haja divisão no corpo, mas que os membros tenham igual cuidado uns dos outros. De maneira que, se um membro padece, todos os membros padecem com ele; e, se um membro é honrado, todos os membros se regozijam com ele.» (1 Cor.12, 25-27), e na carta aos Romanos: «Pois assim como em um corpo temos muitos membros, e nem todos os membros têm a mesma função, assim nós, embora muitos, somos um só corpo em Cristo, e individualmente uns dos outros. De modo que, tendo diferentes dons segundo a graça que nos foi dada, se é profecia, seja ela segundo a medida da fé; se é ministério, seja em ministrar; se é ensinar, haja dedicação ao ensino; ou que exorta, use esse dom em exortar. (…) Aborrecei o mal e apegai-vos ao bem. Amai-vos cordialmente uns aos outros com amor fraternal, preferindo-vos em honra uns aos outros; não sejais vagarosos no cuidado; sede fervorosos no espírito, servindo ao Senhor» (Rm. 12, 4-11).

Os cardeais e bispos signatários desta “Declaração de verdades” a encomendam ao Coração Imaculado da Mãe de Deus sob a invocação “Salus populi Romani”, considerando o privilegiado significado espiritual que este ícone tem para a Igreja Romana. Que toda a Igreja Católica possa, sob a proteção da Virgem Imaculada e Mãe de Deus, “lutar intrepidamente a boa batalha da fé, perseverar firmemente na doutrina dos apóstolos e proceder seguramente entre as tempestades do mundo até chegar à cidade celestial” (Prefácio da Missa em honra da Bem-aventurada Virgem Maria “Salvação do povo Romano”).

31 de maio de 2019

Cardeal Raymond Leo Burke, Patrono da Soberana e Militar Ordem de Malta

Cardinal Janis Pujats, Arcebispo emérito de Riga

Tomash Peta, Arcebispo da arquidiocese de Maria Santíssima em Astana

Jan Pawel Lenga, Arcebispo-Bispo emérito de Karaganda

Athanasius Schneider, Bispo Auxiliar da arquidiocese de Maria Santíssima em Astana

* * *

«A Igreja do Deus vivo, coluna e fundamento da verdade» (1 Tim 3,15)

Declaração de verdades relacionadas com alguns dos erros mais comuns

na vida da Igreja de nosso tempo

Fundamentos da fé

  1. O sentido correto das expressões tradição viva, Magistério vivo, hermenêutica da continuidade e desenvolvimento da doutrina contém a verdade que, cada vez que se aprofunde o entendimento do depósito da fé, o conteúdo duma doutrina católica não pode ser contrário ao sentido que a Igreja sempre havia exposto na mesma doutrina, no mesmo sentido e no mesmo entendimento (cf. Concílio Vaticano I, Dei Filius, 3, c. 4: «in eodem dogmate, eodem sensu, eademque sententia»).
  1. «O próprio sentido das fórmulas dogmáticas permanece na Igreja sempre verdadeiro e coerente, mesmo quando se torna mais esclarecido e melhor compreendido. Devem os fiéis, portanto, rejeitar a opinião segundo a qual aquelas fórmulas dogmáticas (ou pelo menos algumas categorias das mesmas) não poderiam expressar a verdade determinadamente, mas apenas aproximações mutáveis da mesma, que no fundo, seriam, de algum modo, deformações ou adulterações da própria verdade; assim — sempre segundo tal opinião — dado que as mesmas fórmulas dogmáticas expressam apenas de modo indefinido a verdade, deveria esta ser continuamente procurada, através das tais « aproximações ». Os que abraçam semelhante opinião não conseguem fugir ao relativismo dogmático e falsificam o conceito de infalibilidade da Igreja, relativo à verdade que há-de ser ensinada e aceite de maneira explícita» (Sagrada Congregação pela Doutrina da fé, Declaração sobre a doutrina católica acerca da doutrina católica sobre a Igreja para a defender de alguns erros hodiernos, 5)

Credo

  1. «O Reino de Deus, começado aqui na terra na Igreja de Cristo, “não é deste mundo” (cf. Jo18, 36), “cuja figura passa” (cf. 1 Cor 7, 31), e também que o seu crescimento próprio não pode ser confundido com o progresso da cultura humana ou das ciências e artes técnicas; mas consiste em conhecer, cada vez mais profundamente, as riquezas insondáveis de Cristo, em esperar sempre com maior firmeza os bens eternos, em responder mais ardentemente ao amor de Deus, enfim em difundir-se cada vez mais largamente a graça e a santidade entre os homens. Mas com o mesmo amor, a Igreja é impelida a interessar-se continuamente pelo verdadeiro bem temporal dos homens. Pois, não cessando de advertir a todos os seus filhos que eles “não possuem aqui na terra uma morada permanente” (cf. Hb 13, 14), estimula-os também a que contribuam, segundo as condições e os recursos de cada um, para o desenvolvimento da própria sociedade humana; promovam a justiça, a paz e a união fraterna entre os homens; e prestem ajuda a seus irmãos, sobretudo aos mais pobres e mais infelizes. Destarte, a grande solicitude com que a Igreja, Esposa de Cristo, acompanha as necessidades dos homens, isto é, suas alegrias e esperanças, dores e trabalhos, não é outra coisa senão o ardente desejo que a impele com força a estar presente junto deles, tencionando iluminá-los com a luz de Cristo, congregar e unir a todos Naquele que é o seu único Salvador. Tal solicitude entretanto, jamais se deve interpretar como se a Igreja se acomodasse às coisas deste mundo, ou se tivesse resfriado no fervor com que ela mesma espera seu Senhor e o Reino eterno» (Paulo VI, Constituição apostólica Solemni hac liturgia,Credo do  povo de Deus”, 27). É, portanto, errado afirmar que o que mais glorifica a Deus é o progresso das condições terrenas e temporais da humanidade.
  1. Depois da instituição da Nova e Eterna Aliança em Cristo Jesus, ninguém pode salvar-se obedecendo apenas à lei de Moisés sem fé em Cristo como Deus verdadeiro e único Salvador da humanidade e (cf. Rm. 3,28; Gál. 2,16).
  1. Nem os muçulmanos nem outros que não têm fé em Jesus Cristo, Deus e homem, mesmo que sejam monoteístas, podem render a Deus o mesmo culto de adoração que os cristãos; quer dizer, a adoração sobrenatural em Espírito e em Verdade (cf. Jn. 4,24; Ef. 2,8) por parte dos que receberam o Espírito da filiação (cf. Rm. 8,15).
  1. As formas de espiritualidade e religiões que promovem alguma forma de idolatria ou panteísmo não podem considerar-se sementes nem frutos do Verbo, pois são enganos que impedem a evangelização e a eterna salvação de seus sequazes, como ensina a Sagrada Escritura: «O deus, desta presente era perversa, cegou o entendimento dos descrentes, a fim de que não vejam a luz do Evangelho da glória de Cristo, que é a imagem de Deus» (2 Cor. 4,4).
  1. O verdadeiro ecumenismo tem por objetivo que os não-católicos se integrem à unidade que a Igreja Católica possui de modo inquebrantável em virtude da oração de Cristo, sempre atendida pelo Pai: «para que sejam um» (Jn. 17,11), a unidade, que a Igreja professa no Símbolo da fé: «Creio na Igreja uma». Por conseguinte, o ecumenismo não pode ter como finalidade legítima a fundação de uma Igreja que ainda não existe.
  1. O inferno existe, e os que estão condenados a ele por causa de algum pecado mortal do qual não se arrependeram, são castigados aí pela justiça divina (cf. Mt. 25,46). Conforme ao ensinamento da Sagrada Escritura, não só se condenam por toda a eternidade os anjos caídos, mas também as almas humanas (cf. 2 Tes.1,9; 2 Pe.3,7). Ademais, os seres humanos condenados por toda a eternidade não serão exterminados porque, segundo o ensinamento infalível da Igreja, suas almas são imortais (cf. V Concílio de Laterão, sessão 8).
  1. A religião nascida da fé em Jesus Cristo, Filho encarnado de Deus e único Salvador da humanidade, é a única religião positivamente querida por Deus. Portanto, é errada a opinião que diz que do mesmo modo que Deus quis que haja diversidade de sexos e de nações, assim também Ele quer que houvesse diversidade de religiões.
  1. «A nossa religião [cristã] instaura efetivamente uma relação autêntica e viva com Deus, que as outras religiões não conseguem estabelecer, se bem que elas tenham, por assim dizer, os seus braços estendidos para o céu» (Paulo VI, Exortação apostólica Evangelii nuntiandi,53).
  1. O dom do livre arbítrio com que Deus Criador dotou a pessoa humana concede ao homem o direito natural de escolher unicamente o bem e o verdadeiro. Nenhum ser humano tem, portanto, o direito de ofender a Deus escolhendo o mal moral do pecado ou o erro religioso da idolatria, da blasfêmia ou de uma religião falsa.

A lei de Deus

  1. Mediante a graça de Deus, a pessoa justificada possui a força necessária para cumprir as exigências objetivas da lei divina, dado que para os justificados é possível cumprir todos os mandamentos de Deus. Quando a graça de Deus justifica o pecador, pela sua própria natureza leva à conversão de todo o pecado grave (cf. Concílio de Trento, sessão 6, Decreto sobre a justificação, 11 e 13).
  1. «Os fiéis hão de reconhecer e respeitar os preceitos morais específicos, declarados e ensinados pela Igreja em nome de Deus, Criador e Senhor. O amor de Deus e o amor do próximo são inseparáveis da observância dos mandamentos da Aliança, renovada no sangue de Jesus Cristo e no dom do Espírito.» (João Paulo II, Encíclica Veritatis splendor,76). De acordo com o ensinamento da mesma encíclica, é errada a opinião dos que «crêem poder justificar, como moralmente boas, escolhas deliberadas de comportamentos contrários aos mandamentos da lei divina e natural». Por isso, «estas teorias não podem apelar à tradição moral católica» (ibid.).
  1. Todos os mandamentos da lei de Deus são igualmente justos e misericordiosos. É, portanto, errada a opinião que diz que obedecendo a uma proibição divina – como por exemplo ao sexto mandamento, de não cometer adultério – uma pessoa pode, em razão dessa obediência, pecar contra Deus, prejudicar-se a si mesma moralmente ou pecar contra outros.
  1. “Nenhuma circunstância, nenhum fim, nenhuma lei no mundo poderá jamais tornar lícito um ato que é intrinsecamente ilícito, porque contrário à Lei de Deus, inscrita no coração de cada homem, reconhecível pela própria razão, e proclamada pela Igreja” (João Paulo II, Encíclica Evangelium vitae, 62). A revelação divina e a lei natural contêm princípios morais que incluem proibições negativas que proíbem terminantemente certas ações, porquanto estas são sempre gravemente ilícitas por causa do seu objeto. Por conseguinte, é errada a opinião de que uma boa intenção ou uma boa consequência podem ser suficientes para justificar a execução de tais ações (cf. Concilio de Trento, sess. 6, de iustificatione, c. 15; João Paulo II, Exhortação Apostólica, Reconciliatio et Paenitentia, 17; Encíclica Veritatis splendor,80).
  1. A lei natural e a lei Divina proíbem a mulher que concebeu uma criança de matar a vida que porta em seu ventre, seja que o faça ela mesma ou com a ajuda de outros, direta ou indiretamente (cf. João Paulo II, Encíclica Evangelium vitae,62).
  1. As técnicas de reprodução «são moralmente inaceitáveis, porquanto separam a procriação do contexto integralmente humano do ato conjugal» (João Paulo II, Encíclica Evangelium vitae, 14).
  1. Nenhum ser humano pode estar jamais moralmente justificado nem se lhe pode permitir desde o ponto de vista moral matar a si mesmo ou fazer-se matar por outros com o fim de escapar ao sofrimento. «A eutanásia é uma violação grave da Lei de Deus, enquanto morte deliberada moralmente inaceitável de uma pessoa humana. Tal doutrina está fundada sobre a lei natural e sobre a Palavra de Deus escrita, é transmitida pela Tradição da Igreja e ensinada pelo Magistério ordinário e universal» (João Paulo II, Encíclica Evangelium vitae, 65).
  1. Por mandado divino e pela lei natural, o matrimônio é a união indissolúvel de um homem e uma mulher (cf. Gn. 2,24; Mc.10,7-9; Ef. 5,31-32). “Por sua própria índole, a instituição matrimonial e o amor conjugal estão ordenados para a procriação e educação da prole, que constituem como que a sua coroa” (Concílio Vaticano II, Gaudium et spes, 48).
  1. Segundo o direito natural e divino, todo o ser humano que faz uso voluntário de suas faculdades sexuais fora do matrimônio legítimo peca. Portanto, é contrário à Sagrada Escritura e à Tradição afirmar que a consciência é capaz de determinar legitimamente e com acerto que os atos sexuais entre pessoas que contraíram matrimônio civil podem em alguns casos ser moralmente bons ou até ser pedidos ou inclusivamente ordenados por Deus, ainda que uma delas ou ambas sejam casadas sacramentalmente com outra pessoa (1 Cor. 7. 11; João Paulo II, Exortação Apostólica Familiaris consortio, 84).
  1. A lei natural e Divina exclui “toda a ação que, ou em previsão do ato conjugal, ou durante a sua realização, ou também durante o desenvolvimento das suas consequências naturais, se proponha, como fim ou como meio, tornar impossível a procriação” (Paulo VI, Encíclica Humanae vitae, 14).
  1. Todo o marido ou esposa que se divorciou do cônjuge com quem estava validamente casado e que contraiu depois um matrimônio civil com outra pessoa enquanto ainda está vivo o seu cônjuge legítimo, coabitando maritalmente com o parceiro civil, e que opta por viver neste estado com pleno conhecimento da natureza deste ato e pleno consentimento da vontade a este ato, está em pecado mortal e não pode, portanto, receber a graça santificante nem crescer na caridade. Por conseguinte, a não ser que tais cristãos convivam como irmão e irmã, não podem receber a Sagrada Comunhão (cf. João Paulo II, Exortação apostólica Familiaris consortio, 84).
  1. Duas pessoas do mesmo sexo pecam gravemente quando se procuram prazer venéreo mútuo (cf. Lev. 18,22; 20,13; Rm.1,24-28; 1 Cor.6,9-10; 1 Tim.1,10; Judas 7). Atos de homossexualidade “não podem, em caso algum, ser aprovados” (Catecismo da Igreja Católica, 2357). Assim pois, é contrária à lei natural e à Revelação Divina a opinião que afirma que do mesmo modo que o Deus Criador tem dado a alguns seres humanos a inclinação natural de sentir desejo sexual para pessoas do outro sexo, assim também Ele tem dado a outros a inclinação de desejar sexualmente pessoas do mesmo sexo, e que é a vontade do Criador que em determinadas circunstâncias essa tendência seja efeituada.

  1. Nem as leis dos homens, nem alguma autoridade humana podem outorgar a duas pessoas do mesmo sexo o direito de casar-se, nem as declarar casadas, já que isso é contrário ao direito natural e à lei de Deus. “No plano do Criador, a complementaridade dos sexos e a fecundidade pertencem, portanto, à própria natureza da instituição do matrimônio” (Congregação para a Doutrina da Fé, Considerações sobre os projetos de reconhecimento legal das uniões entre pessoas homossexuais, 3).

  1. Aquelas uniões que recebem o nome de matrimônio sem a realidade do mesmo, não podem obter a bênção da Igreja, por serem contrárias à lei natural e divina.

  1. As autoridades civis não podem reconhecer uniões civis ou legais entre duas pessoas do mesmo sexo que claramente imitam a união matrimonial, ainda que estas uniões não recebam o nome de matrimônio, porque fomentariam pecados graves entre os seus participantes e seriam motivo de grave escândalo (cf. Congregação para a Doutrina da fé, Considerações acerca dos projetos de reconhecimento legal das uniões entre pessoas homossexuais,3 de junho de 2003, 11).

  1. Os sexos masculino e feminino, homem e mulher, são realidades biológicas, criadas pela sábia vontade de Deus (cf. Gen. 1, 27; Catecismo da Igreja Católica, 369). É, portanto, uma rebelião contra a lei natural e Divina e um pecado grave que um homem tente converter-se em mulher mutilando-se, ou simplesmente declarar-se mulher, ou que uma mulher tente converter-se em homem, ou afirmar que as autoridades civis tenham o dever ou o direito de proceder como se tais coisas fossem ou pudessem ser possíveis e legítimas (Catecismo da Igreja Católica, 2297).

  1. Em conformidade com a Sagrada Escritura e com a constante tradição do Magistério ordinário e universal, a Igreja não errou ao ensinar que as autoridades civis podem aplicar legitimamente a pena capital aos malfeitores quando seja verdadeiramente necessário para preservar a existência ou manter a ordem justa na sociedade (cf. Gn.9,6; Jn.19,11; Rm.13,1-7; Inocêncio III, Professio fidei Waldensibus praescripta; Catecismo Romano do Concílio de Trento, p. III, 5, n. 4; Pio XII, Discurso aos juristas católicos de 5 de dezembro de 1954).

  1. Toda a autoridade na terra e no céu pertence a Jesus Cristo; por isso as sociedades civis e qualquer outra associação de homens estão sujeitas à Sua realeza, pois «o dever de render a Deus um culto autêntico corresponde ao homem individual e socialmente considerado» (Catecismo da Igreja Católica, 2105; cf. Pio XI, Encíclica Quas primas, 18-19; 32).

Os sacramentos

  1. No santíssimo Sacramento da Eucaristia realiza-se uma maravilhosa transformação de toda a substância do pão no Corpo de Cristo e de toda a substância do vinho no Seu Sangue, uma transformação que a Igreja Católica chama muito apropriadamente transubstanciação (cf. IV Concílio de Laterão, cap.1; Concílio de Trento, sessão 13, c.4). «Qualquer interpretação de teólogos, buscando alguma inteligência deste mistério, para que concorde com a fé católica, deve colocar bem a salvo que na própria natureza das coisas, isto é, independentemente do nosso espírito, o pão e o vinho deixaram de existir depois da consagração, de sorte que o Corpo adorável e o Sangue do Senhor Jesus estão na verdade diante de nós, debaixo das espécies sacramentais do pão e do vinho» (Paulo VI, Carta apostólica Solemni hac liturgia, “Credo do povo de Deus”, 25).
  1. As palavras com as quais o Concílio de Trento expressou a fé da Igreja na Sagrada Eucaristia são idôneas para os homens de todos os tempos e lugares, já que são «doutrina sempre válida» da Igreja (João Paulo II, Encíclica Ecclesia de Eucharistia,15).
  1. Na Santa Missa é oferecido à Santíssima Trindade um sacrifício verdadeiro e próprio, e este sacrifício tem um valor propiciatório tanto para os homens que vivem na terra como para as almas do purgatório. É, portanto, errada a opinião segundo a qual o Sacrifício da Missa consistiria simplesmente no facto de o povo oferecer um sacrifício espiritual de oração e louvor, assim como a opinião que a Missa pode ou deve definir-se somente como a entrega que Cristo faz de Si mesmo aos fiéis como alimento espiritual para eles (cf. Concílio de Trento, sessão 22, c. 2).
  1. «A Missa, celebrada pelo sacerdote, que representa a pessoa de Cristo, em virtude do poder recebido no sacramento da Ordem, e oferecida por ele em nome de Cristo e dos membros do seu Corpo Místico, é realmente o Sacrifício do Calvário, que se torna sacramentalmente presente em nossos altares. Cremos que, como o Pão e o Vinho consagrados pelo Senhor, na última ceia, se converteram no seu Corpo e Sangue, que depois iriam ser oferecidos por nós na Cruz; assim também o Pão e o Vinho consagrados pelo sacerdote se convertem no Corpo e Sangue de Cristo que assiste gloriosamente no céu. Cremos ainda que a misteriosa presença do Senhor, debaixo daquelas espécies que continuam aparecendo aos nossos sentidos do mesmo modo que antes, é uma presença verdadeira, real e substancial» (Paulo VI, Carta Apostólica Solemni hac liturgia, “Credo do povo de Deus”,24).
  1. «A imolação incruenta por meio da qual, depois de pronunciadas as palavras da consagração, Cristo está presente no altar no estado de vítima é realizada só pelo sacerdote enquanto representa a pessoa de Cristo e não enquanto representa a pessoa dos fiéis. (…) Que os fiéis oferecem o sacrifício por meio do sacerdote, é claro, pois o ministro do altar age na pessoa de Cristo enquanto Cabeça, que oferece em nome de todos os membros; pelo que, em bom direito, se diz que toda a Igreja, por meio de Cristo, realiza a oblação da vítima. Quando, pois, se diz que o povo oferece juntamente com o sacerdote, não se afirma que os membros da Igreja de maneira idêntica à do próprio sacerdote realizam o rito litúrgico visível – o que pertence somente ao ministro de Deus para isso designado – mas sim que une os seus votos de louvor, de impetração, de expiação e a sua ação de graças à intenção do sacerdote, aliás do próprio sumo pontífice, a fim de que sejam apresentados a Deus Pai na própria oblação da vítima, embora com o rito externo do sacerdote.” (Pio XII, Encíclica Mediator Dei,83).
  1. O sacramento da penitência é o único meio ordinário pelo qual se podem absolver os pecados graves cometidos depois do batismo. Segundo o direito divino todos estes pecados devem confessar-se segundo sua espécie e seu número (cf. Concílio de Trento, sessão 14, cân. 7).
  1. O direito divino proíbe ao confessor de violar o sigilo do sacramento da penitência seja por que motivo for. Nenhuma autoridade eclesiástica tem o poder para dispensá-lo do segredo do sacramento da penitência, e tão-pouco as autoridades civis estão facultadas para obrigá-lo a isso (cf. Código do Direito Canônico 1983, can. 1388 § 1; Catecismo da Igreja Católica 1467).
  1. Segundo a vontade de Cristo e a tradição imutável da Igreja, não se pode administrar o sacramento da Sagrada Eucaristia a quem está objetivamente em estado de pecado grave público, e tão-pouco se deve dar a absolvição sacramental a quem manifesta não estar disposto a ajustar-se à lei de Deus, ainda que esta falta de disposição corresponda a uma só matéria grave (cf. Concílio de Trento, sess. 14, c. 4; João Paulo II, Mensagem ao Cardeal William W. Baum,  22 de março de 1996).
  1. Conforme a tradição constante da Igreja, não se pode administrar o sacramento da Sagrada Eucaristia a quem nega alguma verdade da fé católica professando formalmente sua adesão a uma comunidade cristã herética ou oficialmente cismática (cf. Código do Direito Canônico 1983, can. 915; 1364).
  1. A lei que obriga os sacerdotes a observar a perfeita continência mediante o celibato tem sua origem no exemplo de Jesus Cristo e pertence à uma tradição imemorial e apostólica segundo o testemunho constante dos Padres da Igreja e dos Romanos Pontífices. Por esta razão, não se deve abolir esta lei na Igreja Romana por meio da inovação dum suposto celibato opcional dos sacerdotes, seja ao nível regional ou universal. O testemunho válido e perene da Igreja afirma que a lei da continência sacerdotal «não impõe nenhum preceito novo, e que estes preceitos devem observar-se, porque alguns os descuidaram por ignorância e preguiça. Contudo, os mencionados preceitos remontam aos apóstolos e foram estabelecidos pelos Padres, como está escrito: “Assim, irmãos, permanecei firmes e conservai as tradições que vos foram ensinadas, tanto de viva voz, quanto por meio das nossas cartas” (2 Tes. 2,15). De facto, muitos, desconhecendo os estatutos dos nossos predecessores, violaram com sua presunção a castidade da Igreja e deixaram-se guiar pela vontade do povo sem temer os castigos divinos» (Papa Sirício, decretal Cum in unum do ano 386).
  1. Pela vontade de Cristo e pela constituição divina da Igreja, apenas varões batizados podem receber o sacramento da Ordem, seja para o episcopado, o sacerdócio ou o diaconado (cf. Carta apostólica de João Paulo II Ordinatio sacerdotalis,4). Ademais, a afirmação de que apenas um Concílio ecuménico pode dirimir esta questão é errada, dado que a autoridade dum Concílio ecuménico não é maior do que a do Romano Pontífice (cf. V Concílio de Laterão, sessão 11; Concílio Vaticano I, sessão 4, c. 3).

31 de maio de 2019

Cardeal Raymond Leo Burke, Patrono da Soberana e Militar Ordem de Malta

Cardeal Janis Pujats, Arcebispo emérito de Riga

Tomash Peta, Arcebispo da arquidiocese de Maria Santíssima em Astana

Jan Pawel Lenga, Arcebispo-Bispo emérito de Karaganda

Athanasius Schneider, Bispo Auxiliar da arquidiocese de Maria Santíssima em Astana

28 março, 2019

Sobre a questão de um papa herege.

Por Dom Athanasius Schneider | Tradução: José Antonio Ureta

Em toda a tradição católica, a questão de como se comportar com um papa herético ainda não foi tratada, em termos concretos, de modo a obter algo que se assemelhe a um verdadeiro consenso geral. Até agora, nem um papa nem um concílio ecumênico formularam declarações doutrinárias relevantes ou emitiram normas canônicas vinculantes sobre como lidar com um papa herético durante o período de seu mandato.

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Dom Anthanasius Scheider e Papa Francisco.

Não há nenhum caso histórico de perda de um pontificado por um papa durante seu mandato devido à heresia ou suposta heresia. O Papa Honório I (625-638) foi excomungado postumamente por três concílios ecumênicos (o Terceiro Concílio de Constantinopla de 681, o Segundo Concílio de Nicéia de 787 e o Quarto Concílio de Constantinopla de 870) porque apoiou a doutrina herética daqueles que promoveram o Monotelismo, contribuindo assim para espalhar esta heresia. Na carta com a qual ele confirmou os decretos do Terceiro Concílio de Constantinopla, o Papa São Leão II (682-683) lançou o anátema sobre o Papa Honório (” anathematizamus Honorium”), afirmando que seu predecessor “não esclareceu esta Igreja apostólica com a doutrina da tradição apostólica, mas procurou subverter a fé imaculada com uma traição ímpia” (Denzinger-Schönmetzer, 563).

O Liber Diurnus Romanorum Pontificum, uma coleção heterogênea de formas usadas na chancelaria papal até o século 11, contém o texto do juramento papal, segundo o qual todo novo papa, ao tomar posse, tinha que jurar que “reconhece o Sexto Concílio Ecumênico que golpeou com eterno anátema os criadores da heresia (monotelita), Sérgio, Pirro etc., juntamente com Honório” (PL 105, 40-44).

Em alguns Breviários até o século XVI e XVIII, o Papa Honório foi mencionado como  herege nas lições das Matinas do 28 de junho, festa de São Leão II: “In synodo Constantinopolitano condemnati sunt Sergius, Ciro, Honório, Pirro, Paulus e Petrus nec non et Macarius, cum discipulo seu Stephano, sed et Polychronius et Simon, qui unam voluntatem et operationem in Domino Jesu Christo dixerunt vel praedicaverunt”. A presença desta leitura em alguns Breviários ao longo de muitos séculos mostra que muitas gerações de católicos não consideraram escandaloso que um papa em particular, e em um caso muito raro, tenha sido considerado culpado de heresia ou de favorecer a heresia. Naqueles tempos, os fiéis e a hierarquia da Igreja distinguiam claramente entre a indestrutibilidade da fé católica divinamente garantida pelo Magistério da Sé de Pedro e a infidelidade e traição de um único papa no exercício concreto de seu ofício magistral.

Dom John Chapman, em seu livro “A Condenação do Papa Honório” (Londres, 1907), explica que o Terceiro Concílio Ecumênico de Constantinopla, que lançou o anátema sobre o Papa Honório, determinou uma clara distinção entre o erro de um único papa e a inerrância na fé da Sé Apostólica como tal. Na carta ao papa Agatão (678-681) pedindo-lhe para aprovar as decisões conciliares, os Padres do Terceiro Concílio Ecumênico de Constantinopla afirmam que Roma tem uma fé infalível, promulgada com autoridade para toda a Igreja pelos bispos da Sé Apostólica, os sucessores de Pedro. Pode-se perguntar: como foi possível o Terceiro Concílio Ecumênico de Constantinopla afirmar isso e, ao mesmo tempo, condenar um papa como herege? A resposta é bem clara. Papa Honório era falível, ele estava errado, ele era um herege, precisamente porque não reafirmou com autoridade, como devia, a tradição petrina da Igreja Romana. Ele não apelou para essa tradição, mas simplesmente aprovou e espalhou uma doutrina incorreta. Mas, uma vez desaprovadas por seus sucessores, as palavras do Papa Honório I tornaram-se inofensivas para a inerrância na fé da Sé Apostólica. Elas foram reduzidas ao seu verdadeiro valor, ou melhor, à mera expressão de sua opinião pessoal.

O papa Santo Agatão não se deixou confundir e nem abalar pelo comportamento deplorável de seu predecessor Honório I, que contribuiu para espalhar a heresia, mas manteve sua visão sobrenatural na inerrância da Sé de Pedro ao ensinar a fé, como escreveu aos imperadores em Constantinopla: “Esta é a regra da verdadeira fé, que esta mãe espiritual do seu pacífico império, a Igreja Apostólica de Cristo (a Sé de Roma) sempre manteve e defendeu com energia tanto na prosperidade como na adversidade; que, pela graça do Deus Todo-Poderoso, como será demonstrado, ela nunca se desviou do caminho da tradição apostólica, nem foi ela adulterada cedendo a inovações heréticas, mas desde o princípio recebeu a fé cristã de seus fundadores, os príncipes dos Apóstolos de Cristo, e permanecerá inalterada até o final, de acordo com a promessa divina do mesmo Senhor Salvador, que anunciou nos Santos Evangelhos ao príncipe dos seus discípulos, dizendo: “Simão, Simão, eis que Satanás vos reclamou para vos peneirar como o trigo; mas eu roguei por ti, para que a tua confiança não desfaleça; e tu, por tua vez, confirma os teus irmãos.” (Ep. “Considerando mihi” ad Imperatores ).

Dom Prosper Guéranger deu uma breve e lúcida explicação teológica e espiritual deste caso concreto de um papa herege, dizendo: “Que aplausos nos abismos quando, um dia, o representante d’Aquele que é a luz apareceu como cúmplice do poder das trevas para trazer a noite! Uma nuvem pareceu interpor-se entre o céu e os montes onde reside Deus no seu vigário; sem dúvida, o aporte social da intercessão não tinha sido como que devia” (L’Année liturgique, Paris 1911, vol. 3, p. 403)..

Há também o fato de que por dois mil anos nunca houve um caso em que um papa foi declarado deposto por causa do crime de heresia durante seu pontificado. O papa Honório I foi anatematizado somente após sua morte. O último caso de um papa herege ou quase herético foi o do Papa João XXII (1316-1334), quando ensinou a teoria segundo a qual os santos desfrutariam da visão beatífica somente após o Julgamento Universal, na segunda vinda de Cristo. O caso foi abordado da seguinte maneira: houve admoestações públicas (da Universidade de Paris e do rei Filipe VI da França), uma refutação das teorias papais por meio de várias publicações teológicas e uma correção fraterna do cardeal Jacques Fournier, que mais tarde sucedeu João XXII com o nome de Bento XII (1334-1342).

A Igreja, nos raros casos concretos de um pontífice que incorre em sérios erros teológicos ou heresias, certamente pode continuar a viver. A prática da Igreja até agora tem sido deixar o julgamento final sobre um papa herético reinante para seus sucessores ou para um futuro concílio ecumênico, como no caso do papa Honório I. O mesmo provavelmente teria acontecido com o papa João XXII, se ele não tivesse se retratado de seu erro.

Os pontífices foram depostos várias vezes por poderes seculares ou por grupos criminosos. Isso aconteceu especialmente durante o “saeculum obscurum”, o chamado século escuro (século X e XI), quando os imperadores alemães depuseram vários papas indignos, não por causa de heresia, mas por causa de sua escandalosa vida imoral e seus abusos de poder. No entanto, eles nunca foram depostos por meio de um procedimento canônico, sendo isso impossível por causa da estrutura divina da Igreja. O papa recebe sua autoridade diretamente de Deus e não da Igreja; portanto, a Igreja não pode depô-lo, por qualquer motivo que seja.

É um dogma de fé que o papa não pode proclamar uma heresia quando ensina ex cathedra. Esta é a garantia divina de que as portas do inferno não prevalecerão contra a cátedra veritatis, que é a Sé Apostólica do Apóstolo São Pedro. Dom John Chapman, especialista na história da condenação do Papa Honório I, escreve: “A infalibilidade é, por assim dizer, o vértice de uma pirâmide. Quanto mais solenes os pronunciamentos da Sé Apostólica, mais podemos ter certeza da sua verdade. Quando eles atingem o máximo da solenidade, ou seja, quando eles são ex cathedra em senso estrito, a possibilidade de erro é completamente eliminada. A autoridade de um papa, mesmo nas ocasiões em que não é realmente infalível, deve ser obedecida e reverenciada. Que possa estar do lado errado é uma contingência que a história e a fé mostram como possível “(The Condenation of Pope Honourius, Londres, 1907, p. 109).

Se um papa espalha erros doutrinários ou heresias, a estrutura divina da Igreja já fornece um antídoto: a suplência ministerial dos representantes do episcopado e do indefectível sensus fidei dos fiéis. Nesta matéria, o fator numérico não é decisivo. Basta ter apenas um par de bispos que proclamam a integridade da fé e, assim, corrigem os erros de um papa herege. É suficiente que os bispos instruam e protejam seu rebanho dos erros de um papa herege e que seus sacerdotes e os pais de famílias católicas façam o mesmo. Além disso, como a Igreja é também uma realidade sobrenatural, um mistério, um único organismo sobrenatural, o Corpo Místico de Cristo, os bispos, padres e fiéis leigos – além de correções, apelos, profissões de fé e resistência pública – devem necessariamente realizar atos de reparação e de expiação à Divina Majestade pelas heresias do Papa. De acordo com a constituição dogmática Lumen gentium (cf. n° 12) do Concílio Vaticano II, todo o corpo de fiéis não pode errar na fé, quando desde os bispos até os últimos fiéis leigos compartilham um consenso universal numa matéria de fé e moral. Mesmo que um papa esteja espalhando erros teológicos e heresias, a Fé da Igreja como um todo permanecerá intacta por causa da promessa de Cristo sobre a assistência especial e a presença permanente do Espírito Santo, o Espírito da verdade, em sua Igreja (cf. Jo 14,17; 1 Jo 2,27).

Quando, por uma permissão inescrutável de Deus, em um determinado momento da história e em um caso muito raro, um papa espalha erros e heresias através de seu magistério ordinário e quotidiano não infalível, a Providência divina desperta ao mesmo tempo o testemunho de alguns membros do colégio episcopal e também os fiéis, para compensar as falhas temporárias do Magistério Pontifício. Deve ser dito que tal situação é muito rara, mas não impossível, como mostra a história da Igreja. A Igreja é verdadeiramente um único corpo orgânico, e quando há uma enfermidade ou falha na cabeça (o papa), o resto do corpo (os fiéis) ou partes eminentes dele (os bispos) compensam os erros papais temporários. Um dos exemplos mais famosos e trágicos de tal situação ocorreu durante a crise ariana do século quarto, quando a pureza da fé foi mantida não tanto pela ecclesia docens (papa e episcopado), mas pela ecclesia docta (os fiéis), como afirmou o Bem-aventurado John Henry Newman.

A teoria ou opinião da perda do ministério papal por deposição ou por declaração da perda ipso facto, identifica implicitamente o papa com toda a Igreja ou manifesta a atitude doentia de um “centrismo papal”, em última análise, de papolatria. Os defensores dessa opinião (especialmente alguns santos) manifestaram um ultramontanismo exagerado ou “centrimo papal”, fazendo do pontífice uma espécie de semi-deus, que não pode cometer erros, mesmo em assuntos fora do objeto da infalibilidade papal. Assim, um papa que comete erros doutrinários – o que teórica e logicamente inclui também a possibilidade de cometer o mais grave erro doutrinário, isto é a heresia – é insuportável ou impensável para os seguidores dessa opinião (ou seja, a deposição de um papa e a perda de seu ofício por causa da heresia), mesmo se o papa incorre nesses erros em questões alheias ao objeto da infalibilidade papal.

A teoria ou opinião teológica de que um papa herege pode ser deposto ou vir a perder o cargo era desconhecida no primeiro milênio. Originou-se apenas no início da Idade Média, numa época em que o papo-centrismo atingia o seu auge, quando o papa foi inconscientemente identificado com a Igreja inteira. Isto já prefigurava, em sua raiz, a atitude mundana de um príncipe absolutista segundo o lema: “L’État, c’est moi!” Ou, em termos eclesiásticos: “Eu sou a Igreja!”.

A opinião de que um papa herege perde seu ofício ipso facto tornou-se comum entre os teólogos desde o início da Idade Média até o século XX. Continua, porém, sendo uma mera opinião teológica e não um ensinamento da Igreja e, portanto, não pode reivindicar o título de um verdadeiro ensinamento constante e perene da Igreja, uma vez que nenhum concílio ecumênico e nenhum papa apoiaram explicitamente essa opinião. De fato, a Igreja condenou um papa herético, mas somente após sua morte e não durante seu pontificado. Mesmo que alguns doutores sagrados da Igreja (por exemplo, S. Roberto Bellarmino e S. Francisco de Sales) apoiem tal opinião, isso não prova sua certeza ou um consenso doutrinário universal. Até os doutores da Igreja incorreram em erros; foi, por exemplo, o caso de São Tomás de Aquino sobre a questão da Imaculada Conceição, da matéria do sacramento da Ordem ou o caráter sacramental da ordenação episcopal.

Houve um período na Igreja em que, por exemplo, prevaleceu uma opinião teológica comum, objetivamente errada, segundo a qual a entrega dos instrumentos era a matéria do sacramento da Ordem; uma opinião, no entanto, que não podia invocar antiguidade ou universalidade, mesmo que tivesse sido apoiada por um papa (pelo decreto de Eugênio IV) por um tempo limitado ou por livros litúrgicos (também por um curto período). Essa opinião comum foi, no entanto, corrigida por Pio XII em 1947.

A teoria da deposição de um papa herético ou da perda de seu cargo ipso facto devido à heresia é apenas uma opinião teológica, que não satisfaz as categorias teológicas necessárias de antiguidade, universalidade e consenso (semper, ubique, ab omnibus ). Não houve declarações do Magistério universal ordinário ou do Magistério pontifício em apoio às teorias da deposição de um papa herege ou da perda de seu ofício ipso facto por causa da heresia. Segundo uma tradição canônica medieval, posteriormente coletada no Corpus Juris Canonici (a lei canônica válida na Igreja latina até 1918), um papa poderia ser julgado em caso de heresia: “Papa a nemine est iudicandus, nisi deprehendatur a fide devius”, quer dizer, que “o papa não pode ser julgado por ninguém, a menos que seja flagrado desviando-se da fé “(Decretum Graciano, Prima Pars, dist. 40, c. 6, 3. pars). O Código de Direito Canônico de 1917, no entanto, eliminou a norma do Corpus Juris Canonici, que falava de um papa herético. O Código de Direito Canônico de 1983 também não prevê essa regra.

A Igreja sempre ensinou que até mesmo uma pessoa herética, automaticamente excomungada por causa de heresia formal, pode validamente administrar os sacramentos e que, em um caso extremo, um padre herege ou excomungado também pode exercer um ato de jurisdição dando a um penitente a absolvição sacramental. As regras eleitorais papais, válidas até Paulo VI, ele incluído, admitiam que mesmo um cardeal excomungado podia participar da eleição e ser eleito papa: “Nenhum cardeal eleitor pode ser excluído da eleição, ativa e passiva, do Sumo Pontífice, por causa ou com o pretexto de excomunhão, suspensão, interdito ou qualquer outro impedimento eclesiástico; estas censuras devem ser consideradas suspensas, mas apenas para os fins dessa eleição” (Paulo VI, Constituição Apostólica Romano Pontifice eligendo , 35). Esse princípio teológico também deve ser aplicado ao caso de um bispo herege ou de um papa herege, que, apesar de suas heresias, pode validamente realizar atos de jurisdição eclesiástica e, portanto, não perde o cargo ipso facto devido à heresia.

A teoria teológica ou opinião que permite a deposição de um papa herege ou a perda de seu ofício ipso facto devido à heresia é praticamente impraticável. Se fosse aplicada na prática, criaria uma situação semelhante à do Grande Cisma, que a Igreja já experimentou desastrosamente no final do século XIV e início do século XV. Na verdade, sempre haverá uma parte do Colégio Cardinalício e uma parte considerável do episcopado mundial e também dos fiéis que não vai concordar em considerar um erro material (ou erros materiais) do papa como heresia formal (heresias formais), e, portanto, continuará a considerar o papa reinante como o único papa legítimo.

Um cisma formal, com dois ou mais pretendentes ao trono papal – que também será uma consequência inevitável da deposição canônica de um papa – necessariamente causará mais danos à Igreja como um todo do que um período relativamente curto e muito raro em que um papa espalhe erros doutrinais ou heresias. A situação de um papa herege será sempre relativamente curta, se comparada aos dois mil anos de existência da Igreja. Neste caso raro e delicado, devemos deixar margem para uma intervenção da Divina Providência.

A tentativa de depor um papa herege a qualquer custo é sinal de um comportamento demasiadamente humano, o que eventualmente reflete uma relutância em suportar a cruz temporária de um pontífice herético. Talvez reflita também o sentimento por demais humano da raiva. Em todo caso, oferecerá uma solução excessivamente humana e, como tal, semelhante ao comportamento na política. A Igreja e o Papado são realidades que não são puramente humanas, mas também divinas. A cruz de um papa herege – mesmo quando de duração limitada – é a maior cruz imaginável para toda a Igreja.

Outro erro na intenção ou tentativa de destituir um papa herético consiste na identificação indireta ou subconsciente da Igreja com o Papa ou em fazer do Papa o ponto focal da vida cotidiana da Igreja. Isso, em última instância, significa ceder subconscientemente a um ultramontanismo doentio, ao papo-centrismo e à papolatria, isto é, ao culto à personalidade papal.

Na verdade, houve períodos na história da Igreja quando, por um tempo considerável, a Sé de Pedro permaneceu vacante. Por exemplo, de 29 de novembro de 1268 a 1° de setembro de 1271, não houve papa nem antipapa. Portanto, os católicos não devem fazer do pontífice, de suas palavras e de suas ações, o foco diário de sua atenção.

Os filhos de uma família podem ser deserdados. No entanto, o pai de uma família não pode ser deserdado, não importa quão culposamente ou monstruosamente ele se comporte. Esta é a lei da hierarquia que Deus estabeleceu até na criação. O mesmo se aplica ao papa, que durante o seu mandato é o pai espiritual de toda a família de Cristo na terra. No caso de um pai criminoso ou monstruoso, as crianças devem retirar-se dele ou evitar o contato. No entanto, eles não podem dizer: “elegeremos um novo e bom pai para nossa família”. Seria contrário ao senso comum e à natureza. O mesmo princípio deve, portanto, ser aplicável à questão da deposição de um papa herege. O papa não pode ser deposto por ninguém; só Deus pode intervir e irá fazê-lo em seu tempo, já que Ele não comete erros em sua providência (“Deus in sua dispositione non fallitur”). Durante o Concílio Vaticano I, Dom Zinelli, Relator da deputação da Fé, falou nestes termos da possibilidade de um papa herege: “Se Deus permite um mal tão grande (isto é, um papa herético), não vão faltar os meios para remediar a esta situação “(Mansi 52, 1109).

A deposição de um pontífice herético acabaria por favorecer a heresia do conciliarismo, do sedevacantismo e de uma atitude mental semelhante à de uma comunidade puramente humana ou política. Também promoveria uma mentalidade semelhante ao separatismo no mundo protestante ou ao autocefalismo no conjunto das igrejas ortodoxas.

A teoria ou opinião que permite a deposição ou a perda do ofício revela-se também em suas raízes mais profundas – ainda que de modo inconsciente – uma espécie de “donatismo” aplicado ao ministério papal. A teoria donatista identificava os ministros sagrados (sacerdotes e bispos) quase com a santidade moral do próprio Cristo, exigindo, portanto, para a validade de seu ofício, a ausência de erros morais ou de má conduta em sua vida pública. De maneira similar, a teoria supracitada exclui a possibilidade de um papa cometer erros doutrinários, isto é, heresias, declarando seu cargo inválido ou vacante por este fato, assim como faziam os donatistas, que declaravam inválido ou vacante o ofício sacerdotal ou episcopal devido a erros na vida moral.

Pode-se imaginar que no futuro a autoridade suprema da Igreja (o Papa ou o Concílio Ecumênico) poderia estabelecer as seguintes normas canônicas ou vinculantes para o caso de um papa herético ou manifestamente heterodoxo:

  • Um papa não pode ser deposto de qualquer forma ou por qualquer razão, nem mesmo por razões de heresia.
  • Todo novo papa eleito que toma posse de seu ofício é obrigado, em virtude de seu ministério como Mestre supremo da Igreja, a fazer o juramento de proteger todo o rebanho de Cristo dos perigos das heresias e de evitar aparência de heresia, respeitando sua obrigação de fortalecer todos os pastores e fiéis na fé.
  • Um papa que espalhe erros teológicos óbvios ou heresias ou que contribua para sua difusão com suas ações e omissões deve ser devidamente corrigido de forma fraternal e privada pelo Decano do Colégio dos Cardeais.
  • Depois de correções privadas sem sucesso, o Decano do Colégio dos Cardeais é obrigado a tornar pública sua correção.

Juntamente com a correção pública, o decano do Colégio dos Cardeais deve fazer um apelo a rezar pelo Papa, para que ele possa recuperar a força para confirmar inequivocamente toda a Igreja na Fé.

  • Ao mesmo tempo, o Decano do Colégio Cardinalício deveria publicar uma fórmula de Profissão de Fé, na qual os erros teológicos que o Papa ensina ou tolera (sem necessariamente nomear o Papa) fossem rejeitados.
  • Se o decano do Colégio dos Cardeais omitir a correção, o apelo à oração e a publicação de uma Profissão de Fé, todo cardeal, bispo ou grupo de bispos deve fazê-lo; e se cardeais e bispos também deixarem de fazê-lo, qualquer membro dos fiéis católicos ou qualquer grupo de fiéis católicos deve fazê-lo.
  • O Decano do Colégio dos Cardeais ou um cardeal, ou um bispo ou um grupo de bispos, ou um fiel católico ou um grupo de fiéis católicos que fizerem a correção, pedirem orações e publicarem uma Profissão de Fé não podem ser submetidos a sanções canônicas ou acusados de falta de respeito pelo Papa por este motivo.

No caso extremamente raro de um papa herege, a situação espiritual da Igreja pode ser descrita com as palavras usadas pelo papa São Gregório Magno (590-604), que falou da Igreja de seu tempo como “um velho navio todo quebrado, que faz água por todos os lados, e cujas tábuas podres, na grande tempestade que o sacode todos os dias, fazem rangidos de naufrágio” (Registrum I, 4, Ep. Ioannem episcopum Constantinopolitanum ).

Os episódios evangélicos em que Nosso Senhor acalma o mar tempestuoso e salva Pedro que estava afundando na água nos ensinam que mesmo na situação mais dramática e humanamente desesperada de um papa herege, todos os Pastores da Igreja e os fiéis devem acreditar e confiar que Deus, em Sua Providência, intervirá, e que Cristo acalmará a furiosa tempestade e devolverá a força aos sucessores de Pedro, seus Vigários na terra, para confirmar todos os Pastores e fiéis na Fé Católica e Apostólica.

O Papa Santo Agatão (678-681), que teve a difícil tarefa de limitar os danos causados pelo Papa Honório I à integridade da Fé, deixou palavras vivas num apelo ardente a cada sucessor de Pedro, que deve estar sempre ciente de seu grave dever de preservar intacta a pureza virginal do Depósito da Fé: “Ai de mim se eu negligenciar a pregar a verdade do meu Senhor, que eles [os antecessores] pregaram sinceramente. Ai de mim, se eu cobrir pelo silêncio a verdade que sou obrigado a dar ao meu rebanho, isto é, ensinar e convencer o povo cristão. O que direi no futuro julgamento do próprio Cristo, se eu envergonhar-me – Deus me livre! – de pregar agora a verdade de suas palavras? Que satisfação posso dar por mim, pelas almas que me foram confiadas, quando Ele pedirá estrita conta do ofício que recebi?” (Ep.”Considerando mihi ”ad Imperatores ).

Quando o primeiro Papa, São Pedro estava fisicamente acorrentado, toda a Igreja implorou pela sua libertação: “Pedro estava assim encerrado na prisão, mas a Igreja orava sem cessar por ele a Deus” (Atos 12: 5). Quando um papa espalha erros ou mesmo heresias, ele está em cadeias espirituais ou em uma prisão espiritual. Portanto, toda a Igreja deve orar incessantemente por sua libertação desta prisão espiritual. Toda a Igreja deve ter uma perseverança sobrenatural em tal oração e uma confiança sobrenatural no fato de que, no fim das constas, é Deus e não o Papa quem governa Sua Igreja.

Quando o Papa Honório I (625-638) adotou uma atitude ambígua a respeito da propagação da nova heresia do Monotelismo, São Sofrônio, Patriarca de Jerusalém, enviou um bispo da Palestina a Roma, dizendo-lhe: “Vá à Sé Apostólica, onde estão as bases da doutrina sagrada e não deixe de rezar até que a Sé Apostólica condene a nova heresia”.

Ao tratar do trágico caso de um pontífice herege, todos os membros da Igreja, começando pelos bispos, até os simples fiéis, devem usar todos os meios legítimos, como as correções privadas e públicas ao papa errante, orações constantes e ardentes e profissões públicas da verdade, para que a Sé Apostólica volte a professar claramente as verdades divinas que o Senhor confiou a Pedro e a todos os seus sucessores. “O Espírito Santo foi prometido aos sucessores de Pedro, não de maneira que eles pudessem, por revelação sua, dar a conhecer alguma nova doutrina, mas que, por assistência sua, pudessem guardar santamente e expor fielmente a revelação transmitida pelos Apóstolos, isto é, o depósito da fé” (Concílio Vaticano I, Constituição Dogmática Pastor aeternus ,cap. 4).

Cada Papa e todos os membros da Igreja devem lembrar as palavras sábias e atemporais que o Concílio Ecumênico de Constança (1414-1418) pronunciou sobre o Papa, considerado como a primeira pessoa na Igreja a ser vinculada pela Fé, cuja integridade ele deve guardar cuidadosamente: “Visto que o Romano Pontífice exerce um poder tão grande entre os mortais, é adequado que ele esteja cada vez mais ligado aos laços incontrovertíveis da fé e aos ritos que devem ser observados com respeito aos sacramentos da Igreja. Por isso decretamos e ordenamos, para que a plenitude da fé possa brilhar num futuro Pontífice Romano com um esplendor singular desde o primeiro momento de tornar-se papa, que a partir daquele momento em que será eleito Romano Pontífice faça a seguinte confissão e profissão pública” (Trigésima Nona Sessão de 9 de outubro de 1417.

Na mesma sessão, o Concílio de Constança decretou que todo novo papa eleito deveria fazer um juramento de fé, propondo a seguinte fórmula, da qual citamos as passagens mais cruciais:

“Eu, N., eleito Papa, com o coração e os lábios confesso e professo ao Deus todo-poderoso, que confessarei firmemente e preservarei a fé católica de acordo com as tradições dos Apóstolos, dos Concílios Gerais e dos outros Santos Padres. Que manterei esta fé inalterada até o último iota e que a confirmarei, defenderei e pregarei até a morte e o derramamento de meu sangue, e da mesma maneira que seguirei e observarei de todas as maneiras o rito transmitido dos sacramentos eclesiásticos da Igreja Católica”.

Quão urgente seria pôr em prática o juramento do papa, especialmente em nossos dias! O pontífice não é um monarca absoluto, que pode fazer e dizer o que quiser, que pode mudar a discrição a doutrina ou a liturgia. Infelizmente, nos séculos passados – ao contrário da tradição apostólica dos tempos antigos – o comportamento dos papas como monarcas absolutos ou semi-deuses tornou-se tão habitualmente aceito que chegou a influenciar as concepções teológicas e espirituais da maioria dos bispos e fiéis, e especialmente das pessoas piedosas. O fato de que o Papa deva ser o primeiro na Igreja a evitar as novidades, obedecendo de maneira exemplar à tradição da Fé e da Liturgia, foi às vezes apagado da consciência dos bispos e dos fiéis por uma aceitação cega e piedosa de uma espécie de absolutismo papal.

O juramento papal de Liber diurnus Romanorum Pontificum considerava como a principal exigência e qualidade distintiva de um novo papa a sua fidelidade inabalável a tradição, assim como foi transmitida por todos os seus antecessores: ” Nihil de traditione, quod em probatissimis praedecessoribus Meis servatum reperi, diminu vel vel mutare, aut aliquam novitatem admittere; sed ferventer, e verum discipulus et sequipeda, totis viribus meis conatibusque traído conservar ac venerari“(“Nada mudarei da Tradição que recebi, e nada do que encontrei antes de mim, preservado por meus veneráveis predecessores, nem tocarei, alterarei ou permitirei qualquer inovação nela; de fato, reverenciá-la-ei com ardente afeto como verdadeiro e fiel discípulo, transmitindo-a com toda a minha força e máximo esforço”).

O mesmo juramento papal definia, em termos concretos, a fidelidade à lex credendi (a regra da fé) e à lex orandi (a regra da oração). Quanto à lex credendi (a regra da fé), o texto do juramento diz:

Verae fidei rectitudinem, quam Christo autore tradente, per successori tuos atque discipulos, usque ad exiguitatem meam perlatam, in tua sancta Ecclesia reperi, totis conatibus meis, usico ad animam et sanguinem custodire, temporumque difficultates, cum tuo adjutorio, toleranter sufferre” ( “Prometo manter com todas as minhas forças, até a morte e o derramamento de meu sangue, a integridade da verdadeira fé, cujo autor é Cristo, e que, através de seus sucessores e discípulos, foi transmitida a minha humilde pessoa e que eu encontrei em Sua Igreja. Eu também prometo pacientemente suportar as dificuldades dos tempos”).

Em relação à lex orandi , o juramento do Papa afirma:

Disciplinam et ritum Ecclesiae, sicut inveni, et a sanctis praecessoribus meis traditum reperi, illibatum custodire” (“Prometo manter inviolada a disciplina e a liturgia da Igreja como as encontrei e como elas foram transmitidos por meus santos predecessores”).

Nos últimos cem anos, houve alguns exemplos espetaculares de absolutismo papal. Quando consideramos a lex orandi, as mudanças feitas pelos papas Pio X, Pio XII e Paulo VI foram drásticas e radicais e, no que diz respeito à lex credendi, pelo Papa Francisco.

Pio X tornou-se o primeiro papa na história da Igreja Latina a realizar uma reforma tão radical do Salterio (cursus psalmorum), que levou à construção de um novo tipo de ofício divino no que diz respeito à distribuição dos salmos. Depois, houve o Papa Pio XII, que aprovou para o uso litúrgico uma versão latina radicalmente modificada do texto milenar e melodioso do Vulgate Psalter. A nova tradução latina, o chamado “Saltério Piano”, era um texto fabricado artificialmente pelos acadêmicos e, em seu refinamento, era difícil de pronunciar. Esta nova tradução latina, acertadamente criticada com o ditado “accessit latinitas, recessit pietas”, foi depois rejeitada de fato por toda a Igreja sob o pontificado do papa João XXIII. O Papa Pio XII mudou também a liturgia da Semana Santa, um tesouro litúrgico milenar da Igreja, introduzindo parcialmente rituais inventados ex novo.  Mudanças litúrgicas inauditas foram, porém, levadas a cabo pelo Papa Paulo VI com uma reforma revolucionária do rito da Missa e dos outros sacramentos, uma reforma litúrgica, que nenhum Papa antes ousou realizar com tanta radicalidade.

Uma mudança teologicamente revolucionária foi feita pelo Papa Francisco na medida em que ele aprovou a prática de algumas igrejas locais de admitir à Santa Comunhão “caso por caso” adúlteros sexualmente ativos (aqueles que coabitam nas chamadas “uniões irregulares”). Mesmo que essas normas locais não representem uma norma geral na Igreja, constituem, no entanto, uma negação prática da verdade da absoluta indissolubilidade do matrimónio sacramental rato e consumado. Outra mudança radical nas questões doutrinárias é a modificação da doutrina bíblica e do magistério bimilenar da Igreja quanto ao princípio da legitimidade da pena de morte.

Neste contexto, destaca-se e nos faz refletir um fato impressionante narrado na vida do Papa Pio IX: diante do pedido de um grupo de bispos para introduzir uma pequena mudança no Canon da Missa (inserindo o nome de São José), ele respondeu: “Eu não posso fazer isso . Eu sou apenas o papa!”

A seguinte oração de Dom Prosper Guéranger, na qual ele elogia o papa São Leão II por sua vigorosa defesa da integridade da Fé depois da crise causada pelo Papa Honório I, deve ser rezada assiduamente por cada papa e por todos os fiéis, especialmente em nosso tempo:

“Impedi, ó São Leão, o retorno de situações a tal ponto dolorosas. Mantende o pastor acima da região das névoas malignas que se erguem da terra;  mantende no rebanho aquela oração que deve continuamente subir da Igreja a Deus em favor dele (Atos 12: 5): e Pedro, mesmo se ele estiver sepultado nas mais escuras prisões, não deixará de contemplar o puro esplendor do Sol da justiça; e todo o corpo da santa Igreja estará na luz. O corpo, de fato — diz Jesus – é iluminado pelo olho: se o olho é simples, todo o corpo resplandece (Mt 6,22). Instruídos por vós sobre o valor do benefício que o Senhor concedeu ao mundo quando o estabeleceu sobre o ensinamento infalível dos sucessores de Pedro, agora conhecemos a força da rocha que sustenta a Igreja; sabemos que as portas do inferno não prevalecerão contra ela (ibid. 16, 18). De fato, o esforço desses poderes do abismo nunca foi tão longe como na crise fatal [do Papa Honório] a qual Vós colocastes o termo. ora, seu sucesso, por mais doloroso que tenha sido, não desmentiu as promessas divinas: não é ao silêncio de Pedro, mas ao seu ensino que foi prometida a assistência indefectível do Espírito da verdade ”(Année liturgique, Paris 1911, vol. 3, pp. 403-404).

O caso extremamente raro de um papa herético ou semi-herético deve, eventualmente, ser suportado e sofrido à luz da fé no caráter divino e na indestrutibilidade da Igreja e do ministério petrino. O Papa São Leão Magno formulou essa verdade, dizendo que a dignidade de São Pedro não foi diminuída em seus sucessores, por mais indignos que sejam, “Cuius dignitas etiam in indigno haerede non deficit” ( Serm . 3, 4).

Poderia ocorrer a situação verdadeiramente extravagante de um papa que pratica abuso sexual de menores ou de subordinados no Vaticano. O que a Igreja deve fazer nessa eventualidade? Deveria a Igreja tolerar um predador sexual de menores ou subordinados? Por quanto tempo a Igreja deveria tolerar tal papa? Ele deveria perder o papado ipso facto por causa desses abusos? Nessa situação, poderia surgir uma nova teoria ou opinião canônica ou teológica que permitisse a deposição de um papa e a perda de seu cargo devido a crimes morais monstruosos (por exemplo, o abuso sexual de menores ou subordinados acima mencionado). Tal opinião seria análoga à opinião de que seria possível a deposição de um papa ou a perda de seu cargo devido à heresia. No entanto, essa nova teoria ou opinião (deposição de um papa e a perda de seu cargo devido a crimes sexuais monstruosos) certamente não corresponderia à mente e à prática perenes da Igreja.

A tolerância de um papa herético como uma cruz não significa passividade ou aprovação de sua conduta errônea. Tudo deve ser feito para remediar esta situação. Suportar a cruz de um papa herege, em nenhum caso significa ser passivo ou consentir com suas heresias. Assim como as pessoas têm que suportar, por exemplo, um regime iníquo ou ateu como uma cruz (muitos católicos viveram sob tal regime na União Soviética, suportando essa situação como uma cruz, num espírito de expiação), ou como os pais devem carregar a cruz de um filho adulto que se tornou um descrente ou imoral, ou como os membros de uma família devem carregar como uma cruz um pai alcoólico. Os pais não podem “depor” o filho descarriado de pertencer à família, assim como as crianças não podem “destituir’ o pai transviado de pertencer à família ou do seu título de “pai”.

Não depor um papa herege é mais seguro e está mais de acordo com uma visão sobrenatural da Igreja. Fazer isso, com todas as contramedidas práticas e concretas a serem tomadas, em nenhum caso significa passividade ou colaboração com os erros papais, mas um engajamento muito ativo e uma verdadeira compaixão com a Igreja, que, no tempo de um papa herege ou semi-herege, vive suas horas no Gólgota. Quanto mais um papa dissemina ambiguidades doutrinárias, erros ou mesmo heresias, mais intensamente brilhará na Igreja a fé católica pura dos pequeninos: a Fé de crianças inocentes; de freiras religiosas; em particular a fé das gemas ocultas da Igreja: as monjas de clausura; a fé dos fiéis leigos heroicos e virtuosos de todas as condições sociais; a fé de padres e bispos.  Esta chama pura da fé católica, muitas vezes alimentada por sacrifícios e atos de expiação, brilhará mais do que a covardia, a infidelidade, a rigidez espiritual e a cegueira de um papa herético.

A Igreja tem um caráter tão divino que pode existir e viver por um período limitado de tempo apesar de um papa reinante herege, precisamente por causa da verdade de que o papa não é sinônimo ou idêntico à Igreja. A Igreja tem um caráter tão divino que nem mesmo um papa herege é capaz de destruí-la, apesar de prejudicar muito sua vida; porém, sua ação tem duração limitada. A fé de toda a Igreja é maior e mais forte do que os erros de um papa herege e esta fé não pode ser derrotada. A constância de toda a Igreja é maior e mais duradoura do que o desastre relativamente breve de um papa herege. A verdadeira rocha sobre a qual reside a indestrutibilidade da Fé e a santidade da Igreja é o próprio Cristo, sendo o papa somente seu instrumento, assim como todo sacerdote ou bispo é apenas um instrumento de Cristo Sumo Sacerdote.

A saúde doutrinal e moral da Igreja não depende exclusivamente do Papa, pois, pela lei divina, esta é garantida, na situação extraordinária de um papa herético, pela fidelidade do ensinamento dos bispos e, em última análise, também pela fidelidade de todo o corpo dos fiéis leigos, como foi suficientemente demonstrado pelo beato John Henry Newman e pela história. A saúde doutrinal e moral da Igreja não depende em tal grau dos erros doutrinários de um papa, por um período relativamente curto de tempo, como para tornar a Santa Sé vacante. Assim como a Igreja pode ficar um tempo sem o Papa, como já aconteceu na história por um período de vários anos), assim também a Igreja é tão forte pela sua constituição divina que pode até aturar um papa herege por um curto prazo.

O ato de depor um pontífice ou declarar sua sé vacante devido à perda ipso facto do pontificado por causa de heresia seria uma novidade revolucionária na vida da Igreja a respeito de uma questão muito importante de sua constituição e vida. Em uma matéria tão delicada, mesmo quando ela é de natureza prática e não estritamente doutrinal, é preciso seguir a via mais segura (via tutior), que é aquela do senso perene da Igreja. Apesar de três Conselhos Ecumênicos sucessivos (o Terceiro Concílio de  Constantinopla em 681, o Segundo Concílio de Nicéia em 787 e o Quarto Concílio de Constantinopla em 870) e o Papa São Leão II em 682 terem excomungado o Papa Honório I  por heresia, eles nem sequer implicitamente declararam que Honório havia perdido o papado ipso facto por causa da heresia. De fato, o pontificado do Papa Honório foi considerado válido mesmo depois de ter apoiado a heresia em suas cartas ao Patriarca Sérgio, em 634, enquanto reinou por mais quatro anos até 638. O seguinte princípio, formulado pelo Papa Santo Estêvão I (257), ainda que em outro contexto, deveria ser uma diretriz para lidar com a questão muito delicada e rara de um papa herege: “Nihil innovetur, nisi quod traditum est”, “Não haja nenhuma inovação em relação ao que foi transmitido”.

+ Athanasius Schneider, bispo auxiliar da Arquidiocese de Santa Maria em Astana