Posts tagged ‘Dom Athanasius Schneider’

20 dezembro, 2016

Cardeal Burke defende signatários de ‘dubia’ em entrevista bombástica à EWTN.

Por LifeSiteNews – 16 de dezembro de 2016 | Tradução: FratresInUnum.com: No programa “The World Over with Raymond Arroyo” da última quinta-feira, o Cardeal Raymond Burke respondeu àqueles dentro da Igreja que estão criticando a ele e a outros três cardeais por pedirem esclarecimentos morais sobre Amoris Laetitia. Ele afirmou que os cardeais não estão criando divisão, mas “abordando” a divisão já existente dentro da Igreja. Ele também insiste que ele “nunca” fará parte de um cisma por defender a Fé Católica, e que ataques contra o matrimônio desestabilizam a Igreja e a sociedade.

5022cardinalbur_00000004739

Cardeal Burke e Dom Athanasius Schneider na Marcha pela Vida, em Roma, 8 de maio de 2016.

Burke diretamente respondeu às afirmações feitas pelos colaboradores próximos do Papa, padre Antonio Spadaro e Cardeal Cristoph Schönborn, sobre Amoris Laetitia. Em particular, ele se referiu à declaração de Spadaro de que o Papa Francisco já respondeu ao dúbia dos quatro cardeais ao aprovar as diretrizes lançadas pelos bispos de Buenos Aires, que permitiram a Comunhão a divorciados recasados. Burke também respondeu à afirmação do Papa Francisco de que pessoas que são excessivamente “rígidas” quanto à defesa da doutrina sofrem de um tipo de “condição”.

Respondendo à afirmação de Spadaro de que Burke e os outros três cardeais estão tentando “potencializar” a divisão e tensão na Igreja, Burke disse, “de fato, estamos tentando tratar da divisão que já está muito potencializada, para usar a expressão dele”.

“Somente quando essas questões, que foram apresentadas segundo a maneira tradicional de resolver questões na Igreja, e que têm relação com matérias muito sérias, somente quando essas questões forem adequadamente respondidas a divisão será dissipada”, afirmou Burke. “Porém, como está acontecendo agora, na medida em que isso continuar, a divisão somente crescerá e, é claro, o fruto da divisão é o erro. E aqui estamos falando sobre a salvação das almas, pessoas levadas a erro em matérias que têm a ver com a sua salvação eterna. Então, o padre Spadaro está muitíssimo errado nessa afirmação”.

Burke declarou estar “muitíssimo ofendido” pela recente afirmação de padre Spadaro de que o Papa Francisco não responde a questões “binárias”.

“É o papel do papa, como pastor da Igreja universal, como guardião da unidade dos bispos e de todo o Corpo de Cristo, responder a essas questões”, disse Burke. “Sugerir que fazer essas questões é sinal de falta de sinceridade é profundamente ofensivo. Posso assegurar que, por mim, e conheço os outros cardeais envolvidos, nós nunca levantaríamos questões a menos que tivéssemos a mais profunda e sincera preocupação pela própria Igreja e por cada um dos fiéis”.

O Papa Francisco “deu sua própria opinião” sobre a Comunhão a divorciados recasados, mas “a questão só pode ser respondida em termos do que a Igreja sempre ensinou e praticou”, declarou Burke. “Não é uma questão de… alguma ideia especulativa que eu possa ter sobre como abordar essas questões, mas de como Cristo em sua Igreja trata essas questões?…. até que se dê essa resposta, nós permanecemos em um estado de confusão”.

Burke e Arroyo discutiram as aparentes incompatibilidades de Amoris Laetitia com trechos da exortação Familiaris Consortio do Papa S. João Paulo II e a afirmação de Schönborn de que se trata de uma “evolução” do ensinamento da Igreja.

“Não se pode ter um amadurecimento de um ensinamento que é uma ruptura com o próprio ensinamento, que é um rompimento com esse ensinamento”, disse Burke. “As afirmações do Cardeal Schönborn a esse respeito não refletem o que se chama de desenvolvimento doutrinal – em outras palavras, através da reflexão da Igreja ela aprofunda sua apreciação de um ensinamento e ajuda os fiéis a praticar esse ensinamento. Neste caso, trata-se de uma completa ruptura com o ensinamento da Igreja, um completo distanciamento em relação ao que a Igreja sempre ensinou e praticou. Um amadurecimento é algo orgânico, onde se vê que aquilo que a Igreja vem ensinando sobre o matrimônio agora é expresso com maior plenitude”.

Burke denunciou a “politização da Igreja” que ocorreu com os ataques aos quatro cardeais, através dos meios de comunicação, realizados pelos defensores de um relaxamento na prática da Igreja. Essa “politização” é “muito aumentada por todas essas formas de intervenção midiática, é muito prejudicial e estão causando um grande dano ao bem comum na Igreja”, afirmou.

“Eu percebo que um espírito mundano, um espírito terreno entrou na Igreja, que divide seus membros em vários campos: liberais e conservadores”, disse Burke, sendo esses últimos “os ‘fundamentalistas’, como alguns adoram aqueles de nós que estamos lutando para defender o ensinamento constante da Igreja”.

Burke também respondeu à recente entrevista de Dom Athanasius Schneider na qual ele explicou a “estranha forma de cisma” que se dá hoje na Igreja. Schneider enfatizou como “muitos eclesiásticos guardam uma unidade formal com o Papa, por vezes, para o bem de suas próprias carreiras e por uma espécie de papolatria”, mas, “ao mesmo tempo, romperam os laços com Cristo, a Verdade, e com Cristo, a verdadeira cabeça da Igreja”. Fizeram-no ao negar a verdade do matrimônio e ao aderir “a um evangelho da liberdade sexual” que rompe com o sexto mandamento, afirmou.

Burke falou do assunto na mesma linha de Schneider, explicando que os que defendem o ensinamento perene da Igreja são o contrário dos cismáticos.

“De minha parte, nunca serei parte de um cisma”, disse Burke. “Sou Católico Romano e defender a Fé Católica Romana não é a causa de me separar da Igreja. E, então, eu simplesmente pretendo continuar a defender a Fé por amor a Nosso Senhor e por seu Corpo Místico, por meus irmãos e irmãs na Igreja, e creio que os outros cardeais têm o mesmo espírito”.

Quando Arroyo questionou Burke sobre as afirmações do Papa Francisco de que pessoas que estão “meio que presas em sua ‘rigidez’ quanto a doutrina e, por outro lado…, sofrem de uma compulsão ou condição”, o Cardeal afirmou que os dúbia “não são reações de pessoas que sofrem de desordens emocionais”.

“Nossa apresentação de cinco perguntas é feita com grande serenidade e respeito”, disse. “Estarmos profundamente preocupados com a verdade da doutrina da Fé e sua integridade não é sinal de enfermidade”.

13 dezembro, 2016

Dom Athanasius Schneider – palavra final sobre ‘Amoris Laetitia’.

A seguinte palestra foi proferida por Sua Excelência Reverendíssima Dom Athanasius Schneider, Bispo Auxiliar de Astana, Cazaquistão, na Fundação Lepanto, em 5 de dezembro, e traduzida por Matthew Cullinan Hoffman de LifeSiteNews – tradução para o português de Rafael Ribeiro de Faria especialmente para FratresInUnum.com.

Dom Athanasius Schneider, bispo auxiliar de Karaganda, Cazaquistão.

Dom Athanasius Schneider,..

ROMA, Itália, 9 de dezembro de 2016 — Quando Nosso Senhor Jesus Cristo pregou a verdade eterna dois mil anos atrás, a cultura, isto é, o espírito reinante daquele tempo, estava radicalmente oposto a Ele. Especificamente, havia o sincretismo religioso, o gnosticismo das elites intelectuais e a permissividade moral das massas, especialmente no que diz respeito à instituição do matrimônio. “Estava no mundo e o mundo foi feito por Ele, e o mundo não o reconheceu.” (João 1:10.)

A maioria do povo de Israel, em particular os sumos sacerdotes, os escribas e os Fariseus, rejeitaram o Magistério da divina revelação de Cristo e também a proclamação da indissolubilidade absoluta do matrimônio. “Veio para o que era seu, mas os seus não o receberam”. (João 1:11). Toda a missão do Filho de Deus na Terra consistiu na revelação da Verdade: “É para dar testemunho da verdade que nasci e vim ao mundo”. (João 18:37).

8 maio, 2016

Foto da semana.

Belíssimas imagens da Santa Missa celebrada por Sua Excelência Reverendíssima Dom Athanasius Schneider, bispo auxiliar de Santa Maria em Astana, Cazaquistão, por ocasião de sua visita a Inglaterra, no Santuário de Santa Maria, em Warrington, no último mês de fevereiro.

28 abril, 2016

A “Veritatis Laetitia” de Dom Athanasius Schneider.

Segue abaixo a tradução do blog Pela Fé Católica da resposta escrita por Sua Excelência Athanasius Schneider, Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Santa Maria em Astana, Cazaquistão. Essa é a resposta oficial à Exortação Apostólica Amoris Lætitia [vinda] do bom Bispo. Ele deseja que ela seja lida por todos, então, por favor, reposte e passe para a frente.

O texto original encontra-se aqui.

* * *

Amoris lætitia: a necessidade de esclarecimento para evitar uma confusão generalizada

O paradoxo de interpretações contraditórias de “Amoris lætitia

A recentemente publicada Exortação Apostólica Amoris lætitia (AL), que contém a pletora de riquezas espirituais e pastorais que dizem respeito à vida no Matrimônio e na família Cristã em nossos tempos, infelizmente, em um curto período de tempo, levou a interpretações muito contraditórias mesmo entre o episcopado.

Dom Athanasius em entrevista a Fratres in Unum.

Dom Schneider em entrevista a Fratres in Unum.

Há bispos e sacerdotes que, pública e abertamente, declararam que a AL representa uma abertura muito clara à comunhão para divorciados e recasados, sem a necessidade de eles praticarem continência. Em suas opiniões, é este aspecto da prática sacramental que, de acordo com eles, irá agora passar por uma mudança significativa, que dá à AL seu verdadeiro caráter revolucionário. Interpretando a AL quanto aos casais irregulares, um presidente de uma Conferência episcopal atestou, em um texto publicado no site dessa mesma Conferência: “Essa é uma disposição da misericórdia, uma abertura de coração e de espírito que não precisa de lei, não espera orientação, nem aguarda para seguir em frente. Ela pode e deve acontecer imediatamente”.

13 novembro, 2015

Homilia de Dom Athanasius Schneider na Missa pelo 20º aniversário de morte de Plinio Corrêa de Oliveira.

Como oportunamente informamos, Dom Athanasius Schneider, bispo auxiliar de Santa Maria em Astana, Cazaquistão, celebrou, no dia 3 de outubro deste ano, uma Missa Pontifical no Mosteiro de São Bento, em São Paulo, pelo 20º aniversário de falecimento de Plinio Corrêa de Oliveira. Sua Excelência gentilmente forneceu ao Fratres In Unum a íntegra de sua homilia, que divulgamos abaixo com exclusividade.

A homilia de Dom Athanasius Schneider

Queridos irmãos em nosso Senhor Jesus Cristo!

Segundo o calendário da liturgia Romana tradicional celebra-se hoje a festa de Santa Teresa do Menino Jesus e a Providência Divina fez que este dia fosse o dia do nascimento para a vida eterna de prof. Plínio Corrêa de Oliveira. Santa Teresinha era um profeta dos tempos modernos, lembrando-nos a graça da infância espiritual como o meio mais eficaz no caminho da santidade pessoal e no combate contra os espíritos malignos e os inimigos da Igreja. Santa Teresinha era por assim dizer uma grande enamorada da Igreja e já que a Mãe da Igreja é Maria, ela era uma alma inteiramente mariana. Ser autêntico filho da Igreja significa ao mesmo tempo ser uma alma mariana. Santa Teresinha afirmou: No Coração da Igreja Minha Mãe, eu serei o Amor, assim serei tudo, assim o meu sonho será realizado.

Dom Athanasius Schneider celebra Missa Pontifical no Mosteiro de São Bento. A seu lado, os padres brasileiros Vilmar Pavesi (esquerda na foto) e Bruno Costa, OSB (direita na foto).

Dom Athanasius Schneider celebra Missa Pontifical no Mosteiro de São Bento. A seu lado, os padres brasileiros Vilmar Pavesi (esquerda na foto) e Bruno Costa, OSB (direita na foto).

Estas palavras de fogo ressoam como um eco no seguinte testemunho pessoal que prof. Plínio proferiu em 1978 no aniversário do seu batismo: “Esta é a atitude de minha alma em todos os dias, em todos os minutos, em todos os instantes: procurar com os olhos a Igreja Católica e estar imbuído do espírito d’Ela, tê-lA dentro de minha alma, ter-me inteiro dentro d’Ela. E se [a Igreja] for abandonada por todos os homens, na medida em que isto fosse possível sem que Ela deixasse de existir, tê-lA inteira dentro de mim. Viver só para Ela, de tal maneira que eu possa dizer, ao morrer: ‘Realmente, eu fui um varão católico e todo apostólico, romano, romano e romano!’ ” (Reunião semanal de análise de noticias selecionadas de jornais e revistas, 6 de junho de 1978).

Vir totus catholicus et apostolicus plene romanus. Esta inscrição, que se lê no túmulo de Plinio Corrêa de Oliveira, no cemitério da Consolação de São Paulo, revela e resume toda a vida espiritual de prof. Plínio e de sua missão que Deus lhe deu a cumprir. Ser católico, apostólico e romano significa ser inflamado pelo amor à Igreja, e a Igreja aqui na terra é Cristo no Seu Corpo Místico, a Igreja é o reino de Cristo por meio de Maria: “regnum Christi per Mariam”, “adveniat regnum Tuum per Mariam!”. A chegada da mais plena realização do reino de Cristo na Igreja por meio de Maria –  este foi o lema e o cerne da doutrina e do apostolado de São Luis Maria Grignion de Montfort. Difundir sempre mais nas almas e na sociedade humana o reino de Cristo por meio de Maria, que se pode dizer também o reino de Maria, foi também o cerne e o coração de toda a vida e da obra de Prof. Plínio.  

Um dos meios espirituais mais eficazes para promover o reino de Cristo por meio de Maria é a consagração total à Maria na santa escravidão. A santa escravidão tornou-se a via espiritual de muitos santos, que se fizeram escravos de Maria Santíssima, e na escola de seu Imaculado Coração aprenderam a amar a Deus e fazer sua santa vontade. Santos como: São João Maria Vianney, São João Bosco, São Domingos Sávio, Santa Terezinha, Santa Gema Galgani, São Pio X, São Pio de Pietrelcina e tantos outros santos do nosso tempo, viram, na total consagração a Santíssima Virgem não uma “devoção qualquer” ou “mais uma devoção”, mas uma Devoção Perfeita, aquela devoção querida por Jesus ao fazer de cada um de nós filhos de sua Mãe Santíssima. O prof. Plínio não somente viveu com fidelidade esta santa escravidão, mas tornou-se um verdadeiro apóstolo desta consagração total a Maria.

A expressão íntima da consagração total a Maria, da escravidão santa, exprime-se no desejo da total e incondicionada entrega da própria vida como holocausto para difundir o reino de Cristo e repelir o reino anticristão. A voz interior da graça que falava à alma do prof. Plínio “o impelia a abraçar a luta contra-revolucionária. Era como se um clarão profético atravessasse as nuvens do seu futuro: não devia morrer, mas viver para combater. Mesmo nesta luta contra o reino anticristão, prof. Plínio deixou-se guiar pelo espírito de santa Teresinha, da entrega a Deus como holocausto, que a pequena Santa fez” (Roberto de Mattei, Plinio Corrêa de Oliveira. Profeta do reino de Maria, São Paulo 2015, p. 295).

Na hesitação de seguir ou o caminho escondido expiatório de Santa Teresinha que ele admirava ou o caminho da luta contra-revolucionária, o prof. Plínio resolveu o seguinte como ele mesmo relata: “Entrar por uma [parte da] via ensinada por Santa Teresinha [que consiste em] nunca pedir nada e nunca negar nada a Deus Nosso Senhor. Tudo que acontecesse aceitar, sem [fazer] o pedido divino: ‘Si fieri potest transeat a me calix iste’–‘Não tem fieri potest, não tem transite calix, beba o cálice logo que se apresentar e beba até o fim, consumando o seu sacrifício’. Eu cessei de pedir a Nosso Senhor e a Nossa Senhora qualquer coisa. Não pedia nada” (Conversas em sua residência, com um círculo reduzido de amigos, aos sábados após o jantar, 16 de julho de 1994).

Todas as fibras da alma de prof. Plinio anelavam pela luta em defesa da Igreja e da civilização cristã. Esta luta não excluía a possibilidade da morte. Ele ficaria feliz em morrer combatendo, mas a sua alma repugnava uma morte que tivesse excluído a luta: “Morrer, é belo. Os mártires morreram, as vítimas da Revolução Francesa morreram. Oferecer-se como vítima é lindo! Um doente na cama pode oferecer-se como vítima: Santa Teresinha do Menino Jesus ofereceu-se como vítima expiatória. Mas lutar tem uma beleza especial!” (Reunião semanal com os cooperadores mais jovens, aos sábados após o jantar, sobre temas de interesse para a juventude, 3 de agosto de 1974). “O bonito não é dizer o seguinte: eu gostaria tanto de minha vocação se ela não exigisse a luta. Mas é dizer o contrário: nunca a minha vocação é tão bela como quando eu luto! Aí é que a luta aparece com toda a sua grandeza, porque tem o caráter de uma afirmação do absoluto e Deus visita a alma de quem luta. Aquele que luta, [por assim dizer,] sente o absoluto de Deus tocar na sua própria alma e é nisso que ele é um herói, ainda que ele tenha que morrer esmagado” (Reunião semanal de análise de notícias selecionadas de jornais e revistas, 23 de setembro de 1974.).

Não se tratava da luta física e cruenta que enfrentaram, por exemplo, os cruzados, mas da luta cultural e moral contra os inimigos da Igreja, característica da época em que vivia. O prof. Plínio dizia: “Eu não estou oferecendo o meu sangue, mas eu estou oferecendo a minha vida. Porque são horas e horas de atenção, de esforço, de aplicação, de empenho – esta é a vida de um homem! – que eu estou sacrificando para que, em concreto, [em cada] lance a causa da Contra-Revolução tenha uma vantagem grande. Eu faço isso com o ímpeto de alma com que um cruzado avançaria na batalha. E [este ímpeto] é que me dá a coragem de fazer [esses sacrifícios], porque eu não vejo nisso um papelzinho complicado, difícil [de cumprir], não vejo uma coisinha [a mais] da vida [quotidiana]. Eu vejo a vida de todos os dias sobrenaturalizada, projetada para uma atmosfera muito mais alta, muito mais bela e ali vejo a beleza do que eu estou fazendo” (Reuniões ou conversas eventuais com algum grupo de discípulos, 11 de outubro de 1990). “Se me fosse dado escolher, eu gostaria de morrer glorificando especialmente a Nossa Senhora e, apesar de minha idade, combatendo – em pleno combate, defendendo, por exemplo, uma imagem dEla. Como também gostaria que os meus restos mortais fossem sepultados numa igreja junto a um altar, de maneira que quando o padre celebrasse a missa estivesse pisando sobre o meu corpo!” (Reuniões ou conversas eventuais com algum grupo de discípulos, 21 de agosto de 1992).

A Providência Divina juntou duas almas que brotaram do jardim espiritual do Carmelo, Santa Teresinha e prof. Plínio, que na sua juventude foi membro da Ordem Terceira do Carmelo e que em toda a sua vida guardou na sua alma o verdadeiro espírito carmelitano. Estas almas eram tão diferentes pela sua missão externa que receberam e desempenhavam, mas no mesmo eram tão próximas na vida interior. Uma alma era a pequena flor primaveril de Lisieux, a padroeira principal das missões, a outra alma era a do prof. Plínio Corrêa de Oliveira, um excepcional miles Christi, autêntico cavaleiro de Cristo dos nossos tempos. Só Deus podia juntar uma pequena flor primaveril e um destemido cavaleiro. Estas almas uniam o ardente amor para com a Igreja, para com a Santíssima Virgem Maria que significa no fundo o amor incondicional de holocausto para com Nosso Senhor Jesus Cristo e para que o crescimento, a defesa e a glória do Seu reino nesta terra e Cristo reine por meio de Maria: “per Mariam ad Jesum!.

A chave para poder levar tal intensa vida espiritual e um tal heroico zelo pelo reino de Cristo é a mediação de Maria. A ambos, à Teresinha e a Plínio, Nossa Senhora sorria já na terna idade e os escolheu para serem instrumentos humildes a fim de confundir os potentes deste mundo e o reino do mal. Neste dia da festa de Santa Teresinha e do 20 aniversário do falecimento de prof. Plínio, deixemos ressoar estas palavras da Santa Teresinha, que ela escreveu alguns meses antes da sua morte e nas quais se reflete também a alma mariana de prof. Plínio: “Quisera cantar, Maria, porque te amo, porque teu nome tão doce me faz estremecer o coração. Em breve, ouvirei esta doce harmonia, em breve, no belo Céu, hei de te ver. Tu que vieste me sorrir na manhã de minha vida, vem sorrir-me de novo, Mãe, eis que o dia já declina. Já não temo o esplendor de tua sublime glória. Contigo sofri e combati e quero agora cantar no teu regaço, Maria, porque te amo, e repetir para sempre que sou tua filha, sou teu filho” (Poesia “Por que te amo, oh Maria!” de Maio de 1897). Amém.

Fotos: IPCO

6 novembro, 2015

O brado de Dom Athanasius Schneider sobre o Sínodo: “Non possumus!”

O Relatório Final do Sínodo abre a porta dos fundos a uma prática neomosaica

Dom Athanasius Schneider

“Rorate Coeli”, 3-11-2015

A XIV Assembleia Geral do Sínodo dos Bispos (4 a 25 de outubro de 2015), a qual foi dedicada ao tema “A vocação e a missão da família na Igreja e no mundo contemporâneo”, emitiu um Relatório Final com algumas propostas pastorais submetidas ao discernimento do Papa. O documento em si é apenas de natureza consultiva e não possui um valor magisterial formal.

Dom Athanasius Schneider em Missa celebrada, em 03 de outubro de 2015, no Mosteiro de São Bento, em São Paulo.

Entretanto, durante o Sínodo apareceram os verdadeiros novos fariseus e discípulos de Moisés, que nos números 84 a 86 do Relatório Final montaram uma bomba-relógio pela abertura da porta dos fundos para a admissão de divorciados recasados à Sagrada Comunhão. Ao mesmo tempo, aqueles bispos que defenderam intrepidamente “a Igreja [que] professa a própria fidelidade a Cristo e à sua verdade” (Papa João Paulo II, Exortação Apostólica Familiaris Consortio, 84) foram injustamente rotulados de fariseus por algumas notas da imprensa.

Durante as duas últimas Assembleias do Sínodo (2014 e 2015), os novos fariseus discípulos de Moisés mascararam a sua negação prática e “caso-por-caso” da indissolubilidade do casamento e do Sexto Mandamento sob o pretexto do conceito da misericórdia, utilizando expressões como “caminho de discernimento”, “acompanhamento”, “orientações do bispo”, “diálogo com o padre”, “foro interno”, “uma integração mais plena na vida da Igreja” e a eventual supressão da imputabilidade quanto à coabitação nas uniões irregulares (cf. Relatório Final, números 84-86).

Essa parte do Relatório Final contém de fato vestígios de uma prática neomosaica do divórcio, embora os redatores tenham hábil e solertemente evitado qualquer mudança direta da doutrina da Igreja. Portanto, todas os setores, tanto os promotores da assim chamada “agenda Kasper” quanto seus adversários, parecem satisfeitos, afirmando: “Tudo está okay. O Sínodo não mudou a doutrina”. No entanto, tal percepção é muito ingênua, porque ignora a abertura da porta dos fundos e a bomba-relógio montada na referida secção do documento, que ficam patentes pelo exame cuidadoso do texto segundo seus critérios interpretativos internos.

É verdade que ao falar de um “caminho de discernimento”, o documento faz uma referência ao “arrependimento” (Relatório Final, nº 85). Permanece, contudo, uma enorme ambiguidade. Com efeito, de acordo com as reiteradas afirmações do cardeal Kasper e clérigos afins, tal arrependimento dos divorciados recasados diz respeito aos pecados passados contra o cônjuge do primeiro casamento válido e podem, de fato, não incluir os atos pecaminosos de coabitação conjugal com o novo parceiro civil.

A prescrição dos números 85 e 86 do Relatório Final de que tal discernimento deve ser feito de acordo com o ensinamento da Igreja e segundo um julgamento reto, permanece, porém, ambígua. De fato, o cardeal Kasper e os clérigos que pensam como ele, enfática e repetidamente garantem que a admissão à Sagrada Comunhão dos divorciados recasados civilmente respeita o dogma da indissolubilidade e da sacramentalidade do casamento, mas afirmam contraditoriamente que, no caso deles, um exame de consciência deve ser considerado correto mesmo quando os divorciados recasados continuam a coabitar maritalmente, e que não se lhes pode exigir de viver em completa continência como irmão e irmã.

Ao citar o conhecido número 84 da Exortação Apostólica Familiaris Consortio do Papa João Paulo II, os redatores censuraram o texto no número 85 do seu Relatório Final, cortando a seguinte formulação decisiva: “A reconciliação pelo sacramento da penitência – a  que abriria o caminho ao sacramento eucarístico – pode ser concedida só àqueles que … assumem a obrigação de viver em plena continência, isto é, de abster-se dos atos próprios dos cônjuges”.

Esta prática da Igreja baseia-se na Revelação divina da Palavra de Deus, tanto aquela contida nas Sagradas Escrituras quanto a transmitida através Tradição. Esta prática da Igreja é, de fato, uma expressão da Tradição ininterrupta desde os Apóstolos, permanecendo, portanto, imutável para todo e sempre. Já Santo Agostinho afirmava: “Quem repudia sua esposa adúltera e se casa com outra mulher enquanto sua primeira esposa ainda vive, permanece perpetuamente em estado de adultério. A penitência de tal homem não será eficaz enquanto ele se recusar a abandonar a nova esposa. Se ele for um catecúmeno, não poderá ser admitido ao batismo, porque a sua vontade continua enraizada no mal. Se ele for um penitente (batizado), não poderá receber a reconciliação (eclesiástica) enquanto não mudar seu mau comportamento” (De adulteriis coniugiis, 2, 16). Numa sã hermenêutica, a censura propositada do ensino da Familaris Consortio nº 85 do Relatório Final, acima mencionada, representa, na realidade, a chave interpretativa  para a correta compreensão da secção do texto sobre os divorciados recasados (números 84-86).

Em nossos dias há uma pressão ideológica permanente e onipresente, exercida por meios de comunicação coniventes com o “pensamento único” imposto pelos poderes mundiais anticristãos com o objetivo de abolir a verdade sobre a indissolubilidade do casamento, banalizando o sagrado caráter desta instituição divina pela disseminação de uma anti-cultura do divórcio e do concubinato. Já 50 anos atrás, o Concílio Vaticano II declarou que os tempos modernos estão infectados com a praga do divórcio (cf. Gaudium et Spes, 47). O mesmo Concílio adverte que o casamento indissolúvel, “sancionado pelo sacramento de Cristo … exclui, por isso, toda e qualquer espécie de adultério e divórcio” (Gaudium et Spes, 49).

A profanação do “grande sacramento” (Ef 5, 32) do matrimônio pelo adultério e  pelo divórcio assumiu proporções gigantescas num ritmo alarmante, não apenas na sociedade civil, mas também entre os católicos. Quando por meio do divórcio e do adultério, tais católicos repudiam teoricamente e na prática a vontade de Deus expressa no Sexto Mandamento, eles se colocam espiritualmente em sério perigo de perder a sua salvação eterna.

O ato mais misericordioso dos Pastores da Igreja seria o de chamar-lhes a atenção para esse perigo através de uma clara – e ao mesmo tempo afetuosa – advertência sobre a necessidade de uma completa aceitação do Sexto Mandamento de Deus. Eles devem chamar as coisas pelo seu verdadeiro nome, admoestando: “divórcio é divórcio”, “adultério é adultério”, e “quem comete livre e conscientemente pecados graves contra os Mandamentos de Deus – e, neste caso, contra o sexto mandamento – e morre sem se arrepender, receberá a condenação eterna, sendo excluído para sempre do reino de Deus”.

Tal advertência e exortação é obra do próprio Espírito Santo, como Cristo ensinou: “Ele convencerá o mundo a respeito do pecado, da justiça e do juízo” (João 16: 8). Explicando o trabalho do Espírito Santo em “convencer sobre o pecado”, disse o Papa João Paulo II: “Todos os pecados que se cometeram, em qualquer lugar e em qualquer momento, são referidos à Cruz de Cristo, incluindo indiretamente, portanto, também o pecado dos que ‘não acreditaram n’Ele’, condenando o mesmo Jesus Cristo à morte de Cruz” (Encíclica Dominum et vivificantem, 29). Aqueles que levam uma vida conjugal com um parceiro que não é o seu cônjuge legítimo – como é o caso dos divorciados civilmente recasados – rejeitam a vontade de Deus. Convencer essas pessoas a respeito desse pecado é um trabalho inspirado pelo Espírito Santo e ordenado por Jesus Cristo e, portanto, uma obra eminentemente pastoral e misericordiosa.

O Relatório Final do Sínodo infelizmente se omite em convencer os divorciados recasados acerca de seu pecado concreto. Pelo contrário, sob o pretexto de misericórdia e de uma falsa pastoralidade, os padres sinodais que votaram a favor das formulações nos números 84-86 doRelatório tentaram acobertar o danoso estado espiritual dos divorciados recasados.

De fato, eles lhes dizem que seu pecado de adultério não é pecado porque de jeito nenhum é adultério, ou pelo menos não é um pecado grave, e que não correm nenhum perigo espiritual no seu estado de vida. O comportamento desses pastores é diretamente contrário à obra do Espírito Santo, sendo, portanto, antipastoral e obra de falsos profetas, aos quais se poderiam aplicar as seguintes palavras da Sagrada Escritura: “Ai daqueles que ao mal chamam bem, e ao bem, mal, que mudam as trevas em luz e a luz em trevas, que tornam doce o que é amargo, e amargo o que é doce!” (Is 5:20) e: “Os teus profetas tinham visões apenas extravagantes e balofas. Não manifestaram tua malícia, o que teria poupado teu exílio. Os oráculos que te davam eram apenas mentiras e enganos.” (Lam 2: 14). Para tais bispos, o apóstolo Paulo diria hoje sem dúvida estas palavras: “Esses tais são falsos apóstolos, operários desonestos, que se disfarçam em apóstolos de Cristo” (2 Coríntios 11:13).

O texto do Relatório Final do Sínodo não somente se omite em convencer sem ambiguidade os divorciados civilmente recasados sobre o caráter adúltero e, portanto, gravemente pecaminoso de seu estilo de vida; ele justifica indiretamente tal estilo de vida ao confinar a questão no campo da consciência individual através de uma aplicação inadequada do princípio moral da atenuação da imputabilidade ao caso da coabitação dos divorciados recasados. Na verdade, é inadequado e enganoso aplicar o princípio da redução da imputabilidade a uma vida estável, permanente e pública de adultério.

A diminuição da responsabilidade subjetiva dá-se apenas no caso em que os parceiros têm a firme intenção de viver em plena continência e fazem sinceros esforços nesse sentido. Enquanto os parceiros persistirem voluntariamente em continuar uma vida de pecado, não pode haver suspensão de imputabilidade. O Relatório Final dá a impressão de pleitear que um estilo de vida pública em adultério – como é o caso dos recasados civilmente – não estaria violando o vínculo sacramental indissolúvel do primeiro casamento, ou que isso não representa um pecado mortal ou grave, e que esse problema é, além disso, uma questão de consciência privada. Pode-se assim constatar uma deriva crescente rumo ao princípio protestante do livre exame subjetivo sobre questões de fé e de disciplina, bem como uma proximidade intelectual com a teoria errônea da “opção fundamental”, já condenada pelo Magistério (cf. João Paulo II, Encíclica Veritatis Splendor, 65-70).

Os Pastores da Igreja não deveriam de nenhum modo promover entre os fiéis a cultura do divórcio. Até o menor indício de concessão à prática ou à cultura do divórcio deveria ser evitado. A Igreja como um todo deveria dar um testemunho convincente e forte a respeito da indissolubilidade do casamento. O Papa João Paulo II disse que o divórcio é “uma praga que vai, juntamente com as outras, afetando sempre mais largamente mesmo os ambientes católicos” e que “o problema deve ser enfrentado com urgência inadiável” (Familiaris Consortio, 84).

A Igreja deve ajudar os divorciados recasados com amor e paciência a reconhecerem a sua própria condição de pecadores e a se converterem de todo coração a Deus e à obediência a Sua santa vontade, expressa no Sexto Mandamento. Enquanto continuarem dando um contra-testemunho público da indissolubilidade do matrimônio e contribuindo para uma cultura do divórcio, os divorciados recasados não podem exercer na Igreja ministérios litúrgicos, catequéticos e institucionais, os quais exigem, por sua própria natureza, uma vida pública de acordo com os Mandamentos de Deus.

É óbvio que os infratores públicos – por exemplo, do Quinto e do Sétimo Mandamentos, como são, respectivamente, os proprietários de uma clínica de aborto e os cúmplices numa rede de corrupção do erário público –, não só não podem receber a Sagrada Comunhão, como não podem evidentemente ser admitidos em ofícios públicos de caráter litúrgico e catequético. De modo análogo, os violadores públicos do Sexto Mandamento, como são os divorciados recasados, não podem ser admitidos no ofício de leitores, padrinhos ou catequistas. É preciso naturalmente distinguir a gravidade do mal causado pelo estilo de vida dos promotores públicos do aborto e da corrupção financeira, daquele causado pela  vida adúltera das pessoas divorciadas. Não se pode colocá-los num mesmo saco. A promoção da admissão de divorciados recasados às funções de padrinhos e catequistas não visa, na realidade, ao verdadeiro bem espiritual das crianças, mas se trata de uma instrumentalização de tais tarefas para uma agenda ideológica específica. Isto é uma desonestidade e uma burla da instituição dos padrinhos e dos catequistas, que assumem por meio de uma promessa pública o encargo de educadores da fé.

No caso de padrinhos ou catequistas divorciados recasados, suas vidas contradizem continuamente as suas palavras, e por isso eles devem enfrentar a admoestação do Espírito Santo através da boca do Apóstolo São Tiago: “Sede cumpridores da palavra e não apenas ouvintes; isto equivaleria a vos enganardes a vós mesmos” (Tiago 1: 22). Infelizmente, no nº 84, o Relatório Final pleiteia a admissão dos divorciados recasados a ofícios litúrgicos, pastorais e educacionais. Essa proposta representa um apoio indireto à cultura do divórcio e uma negação prática do ensinamento de que se trata de um estilo de vida objetivamente pecaminoso. O Papa João Paulo II, pelo contrário, indicou apenas as seguintes possibilidades de participação na vida da Igreja, as quais, por sua vez, visam a uma verdadeira conversão: “Sejam exortados a ouvir a Palavra de Deus, a frequentar o Sacrifício da Missa, a perseverar na oração, a incrementar as obras de caridade e as iniciativas da comunidade em favor da justiça, a educar os filhos na fé cristã, a cultivar o espírito e as obras de penitência para assim implorarem, dia a dia, a graça de Deus” (Familiaris Consortio, 84).

Deveria permanecer uma área salutar de exclusão (não admissão aos Sacramentos e aos ofícios litúrgicos e catequéticos públicos), a fim de lembrar aos divorciados que seu estado espiritual é realmente grave e perigoso e, ao mesmo tempo, promover em suas almas uma atitude de humildade, obediência e anelo de autêntica conversão. Humildade significa coragem para aceitar a verdade, e somente aqueles que se submetem humildemente a Deus receberão as Suas graças.

Os fiéis que ainda não têm a predisposição e a vontade de interromper a sua vida adúltera devem ser ajudados espiritualmente. Seu estado espiritual asemelha-se a uma espécie de “catecumenado” com vistas ao sacramento da Penitência. Eles somente podem receber o sacramento da Penitência, que foi chamado na Tradição da Igreja de “segundo batismo” ou “segunda penitência”, caso romperem sinceramente com o hábito da coabitação adúltera e evitarem o escândalo público, de maneira análoga ao que fazem os catecúmenos, candidatos ao batismo. O Relatório Final se omite ao não pedir aos divorciados recasados que reconheçam humildemente seu estado objetivamente pecaminoso, porque  omite incentivá-los a aceitar com espírito de fé sua exclusão dos sacramentos e dos ofícios litúrgicos e catequéticos públicos. Sem um tal reconhecimento realista e humilde de seu verdadeiro estado espiritual, não há nenhum progresso efetivo rumo à autêntica conversão cristã, que no caso dos divorciados recasados consiste em uma vida de continência completa, deixando de pecar contra a santidade do sacramento do matrimônio e de desobedecer publicamente o Sexto Mandamento de Deus.

Os Pastores da Igreja, e especialmente os textos públicos de seu Magistério, devem falar da forma mais clara possível, uma vez que esta é a característica essencial da tarefa do ensino oficial. Cristo exigiu de todos os Seus discípulos que falassem de uma forma extremamente clara: “Dizei somente: Sim, se é sim; não, se é não. Tudo o que passa além disto vem do Maligno” (Mat. 5: 37). Isto é ainda mais válido quando os Pastores da Igreja pregam ou quando o Magistério fala em um documento.

O Relatório Final, na sua secção relativa aos números 84-86, representa infelizmente uma transgressão grave dessa ordem divina. Com efeito, nas citadas passagens, ele não advoga diretamente em favor da legitimidade da admissão do divorciado recasado à Sagrada Comunhão, e até mesmo evita a expressão “Sagrada Comunhão” ou “Sacramentos”. Em vez disso, através de táticas de ofuscação, usa expressões ambíguas como “uma participação mais plena na vida da Igreja” e “discernimento e integração”.

Por meio dessas táticas de ofuscação, o Relatório Final coloca de fato bombas-relógio e abre a porta dos fundos para a admissão dos divorciados recasados à Sagrada Comunhão, promovendo com isso uma profanação de dois grandes sacramentos, o do Matrimônio e o da Eucaristia, e contribuindo, pelo menos indiretamente, com a cultura do divórcio – através da difusão da “praga do divórcio” (Concílio Vaticano II, Gaudium et spes, 47).

Ao ler cuidadosamente o texto ambíguo da secção “Discernimento e integração” do Relatório Final, tem-se a impressão de uma ambiguidade sofisticada e  habilidosa. Ele nos faz lembrar as seguintes palavras de Santo Irineu em seu Adversus haereses: “Quem mantém inalterável em seu coração a regra da verdade que recebeu por meio do batismo, reconhece sem hesitação os nomes, as expressões e as parábolas extraídas das Escrituras, mas de modo algum reconhece o uso blasfemo que estes homens fazem deles. Pois, embora ele reconheça as pedras [do mosaico que foi adulterado], certamente não considerará a raposa [que foi colocada no lugar] como representando a verdadeira imagem do rei. Mas, uma vez que faltaria um última pincelada a esta exposição para que qualquer um possa discernir a farsa dos hereges até o fim, acresce-se imediatamente mais um argumento que deve derrubá-la; e por isso julgo oportuno ressaltar, em primeiro lugar, a respeito dos próprios pais dessa fábula, que eles diferem entre si, como se fossem inspirados por diferentes espíritos do erro. Este simples fato constitui uma prova inicial de que a verdade anunciada pela Igreja é imutável e que as teorias desses homens não são senão um tecido de falsidades” (I, 9, 4-5).

O Relatório Final parece deixar às autoridades locais da Igreja a solução da questão da admissão dos divorciados recasados à Sagrada Comunhão: “acompanhamento dos sacerdotes” e “orientações do bispo”. Tal questão, no entanto, está ligada essencialmente ao depósito da fé, ou seja, à palavra revelada de Deus. A não admissão de divorciados que estão vivendo em estado de adultério público pertence à verdade imutável da lei da fé católica, e também, consequentemente, à lei da prática litúrgica católica.

O Relatório Final parece inaugurar uma cacofonia doutrinária e disciplinar na Igreja Católica, o que contradiz a própria essência de ser católico. Devemos nos lembrar das palavras de Santo Irineu sobre a configuração autêntica da Igreja Católica em todos os momentos e em todos os lugares:

“Tendo recebido essa pregação e essa fé, a Igreja, mesmo que espalhada por todo o mundo, as preserva com cuidado, como se habitase uma só morada. Ela crê nelas de maneira idêntica,  como se tivesse uma só alma e um só coração, e as proclama, ensina e transmite com voz unânime, como se ela possuísse apenas uma boca. Pois, embora as línguas do mundo sejam diferentes, o conteúdo da Tradição é um e idêntico a si mesmo. Porque as Igrejas que foram plantadas na Alemanha não acreditam ou ensinam nada de diferente, nem aquelas na Espanha, nem aquelas na Gália, nem aquelas no Oriente, nem aquelas no Egito, nem aquelas na Líbia, nem as que foram estabelecidas nas regiões centrais do mundo (Itália). Mas assim como o sol, aquela criatura de Deus, é um só e o mesmo em todo o mundo, assim  também a pregação da verdade brilha em todos os lugares e ilumina todos os homens que ‘queiram chegar ao conhecimento da verdade’. Tampouco qualquer um dos chefes das Igrejas, por mais talentoso que seja em eloquência, dirá algo diferente – porque ninguém é maior do que o Mestre –, nem aquele que é parco em palavras diminuirá esta Tradição. Porque sendo a fé sempre uma e a mesma, nem aquele que é capaz de discorrer longamente a respeito dela possui mais, nem aquele que pode dizer apenas pouco possui menos” (Adversus haereses, I, 10, 2).

Na secção sobre os divorciados recasados, o Relatório Final evita cuidadosamente professar o princípio imutável de toda a tradição católica, segundo o qual aqueles que vivem em uma união civil inválida somente podem ser admitidos à Sagrada Comunhão sob a condição de prometerem viver em plena continência e de evitarem escândalo público. João Paulo II e Bento XVI confirmaram rijamente esse princípio católico. A renúncia deliberada a mencionar e reafirmar esse princípio no texto do Relatório Final pode ser comparada com a abstenção sistemática da expressão “homoousios” [consubstancial] da parte dos adversários do dogma do Concílio de Niceia, no século IV – os arianos formais e os chamados semi-arianos, que inventaram continuamente outras expressões para não confessarem diretamente a consubstancialidade do Filho de Deus com Deus Pai.

No século IV, tal omissão de uma aberta confissão católica por parte da maioria do episcopado causou uma atividade eclesiástica febril, com reuniões sinodais contínuas e uma proliferação de novas fórmulas doutrinárias, que tinham como comum denominador evitar a clareza terminológica, ou seja, a expressão “homoousios”. Analogamente, em nossos dias, os dois últimos Sínodos sobre a família evitaram nomear e confessar claramente o princípio de toda a Tradição católica, segundo o qual aqueles que vivem em uma união civil inválida somente podem ser admitidos à Sagrada Comunhão sob a condição de prometerem viver em completa continência e de evitarem escândalo público.

A ambigüidade do Relatório é comprovada também pela reação inequívoca e imediata dos meios laicistas de comunicação  e dos principais defensores da nova prática não católica de admitir à Sagrada Comunhão os divorciados recasados que levam uma vida de adultério público. O cardeal Kasper, o cardeal Nichols e o arcebispo Forte, por exemplo, afirmaram publicamente que, de acordo com o Relatório Final, pode-se supor que de algum modo uma porta foi aberta à comunhão para os divorciados recasados. Existe também um número considerável de bispos, sacerdotes e leigos que se alegram por causa da chamada “porta aberta” que encontraram no Relatório Final. Em vez de orientar os fiéis com um ensinamento claro e cabalmente inequívoco, o Relatório Finalcausou uma situação de obscurecimento, confusão, subjetivismo (o juízo da consciência do divorciado e o foro interno) e um particularismo doutrinário e disciplinar não católico em uma matéria essencialmente ligada ao depósito da fé transmitida pelos Apóstolos.

Aqueles que em nossos dias defendem corajosamente a santidade dos sacramentos do Matrimônio e da Eucaristia são rotulados de fariseus. No entanto, uma vez que o princípio lógico da não-contradição continua válido e o bom senso ainda funciona,  é o contrário que é verdadeiro.

Os ocultadores da verdade divina no Relatório Final são os que mais se parecem com os fariseus. Porque, a fim de conciliar uma vida de adúltero com a recepção da Sagrada Comunhão, eles inventaram habilmente novas regras, uma nova lei de “discernimento e integração”, introduzindo novas tradições humanas contra o cristalino mandamento de Deus. Aos promotores da chamada “agenda Kasper” dirigem-se estas palavras do Verbo Encarnado: “Anulaste a palavra de Deus por vossa tradição que vós vos transmitistes” (Marcos 7: 13). Os que durante 2.000 anos falaram incansavelmente e com toda clareza sobre a imutabilidade da verdade divina, muitas vezes à custa de sua própria vida, também seriam rotulados em nossos dias de fariseus; assim foi com São João Batista, São Paulo, Santo Irineu, Santo Atanásio, São Basílio, São Thomas More, São João Fisher, São Pio X, só para citar os exemplos mais brilhantes.

Na percepção dos fiéis e da opinião pública secular, o resultado real do Sínodo  foi de que ele focalizou apenas a questão da admissão dos divorciados à Sagrada Comunhão. Em certo sentido, pode-se afirmar que o Sínodo acabou sendo, aos olhos da opinião pública, um Sínodo do adultério, e não o Sínodo da família. Com efeito, todas as belas afirmações do Relatório Final sobre o casamento e a família foram eclipsadas pelas afirmações ambíguas na secção do texto sobre os divorciados recasados, uma questão que já tinha sido resolvida e reafirmada pelo Magistério dos últimos Pontífices Romanos na fidelidade ao ensino e à prática bimilenar da Igreja. É, portanto, um verdadeiro infortúnio que bispos católicos, sucessores dos Apóstolos, tenham utilizado duas assembleias sinodais para atentar contra uma prática constante e imutável da Igreja sobre a indissolubilidade do casamento, ou seja, a não admissão aos Sacramentos dos divorciados que vivem em uma união adúltera.

Em sua carta ao Papa Dâmaso, São Basílio traçou um panorama realista da confusão doutrinária causada pelos clérigos que, em sua época, buscavam um compromisso ôco e uma adaptação ao espírito do mundo: “As tradições são aviltadas; os dispositivos dos inovadores estão em voga nas Igrejas; agora os homens são antes inovadores de sistemas astutos que teólogos; a sabedoria deste mundo ganha os maiores prêmios e rejeitou a glória da cruz. Os anciãos lamentam-se quando comparam o presente com o passado. Os mais jovens devem ser ainda mais dignos de compaixão, pois nem sabem do que foram privados” (Ep. 90, 2).

Em uma carta ao Papa Dâmaso e aos Bispos ocidentais, São Basílio descreve da seguinte forma a situação confusa no interior da Igreja: “As leis da Igreja estão em total confusão. A ambição dos homens, que não têm medo de Deus, corre em busca de altos postos, e funções de destaque agora são conhecidas publicamente como recompensa da impiedade. O resultado é que, quanto mais um homem blasfema, pensa-se que ele é o mais adequado para ser bispo. A dignidade clerical é coisa do passado. Não há conhecimento preciso dos cânones. Existe uma imunidade completa em matéria de pecado; porque quando os homens foram colocados em cargos pelo favor dos homens, eles são obrigados a devolver o favor demostrando continuamente indulgência para com os infratores. Julgamento justo é coisa do passado; e todo mundo anda de acordo com o desejo de seu coração. Homens constituídos em autoridade têm medo de falar, porque aqueles que alcançaram o poder por interesse humano são escravos daqueles a quem devem o seu progresso. E agora a própria defesa da ortodoxia é encarada por alguns como uma oportunidade para o ataque mútuo; e os homens dissimulam a sua má vontade privada e fingem que sua hostilidade é toda por causa da verdade. Os incrédulos riem durante todo o tempo; os homens de pouca fé ficam abalados; a fé é incerta; as almas estão encharcadas de ignorância, porque os falsificadores da palavra imitam a verdade. Os melhores entre os leigos evitam as igrejas como escolas de impiedade e levantam as mãos nos desertos com suspiros e lágrimas ao seu Senhor no céu. A fé dos Padres que recebemos; aquela fé que sabemos que está estampada com as marcas dos Apóstolos; com aquela fé concordamos, e com tudo quanto no passado foi canonicamente e legalmente promulgado” (Ep. 92, 2).

Cada período de confusão durante a história da Igreja é ao mesmo tempo uma oportunidade para se receber muitas graças de força e coragem e uma ocasião para demonstrar o amor a Cristo, a Verdade Encarnada. Para Ele, cada batizado, cada sacerdote e bispo prometeu fidelidade inviolável, cada um de acordo com o seu próprio estado: através dos votos do batismo, através das promessas sacerdotais, através da promessa solene na ordenação episcopal. Deveras, todos os candidatos ao episcopado prometeram: “Manterei puro e íntegro o depósito da fé de acordo com a Tradição que foi sempre e em toda parte preservada na Igreja”. A ambiguidade encontrada na secção sobre os divorciados recasados do Relatório Final contradiz o supracitado voto episcopal solene. Apesar disso, todos na Igreja – desde os simples fiéis até os titulares do Magistério – devem dizer:

“Non possumus!” Não aceitarei um ensinamento ofuscado nem uma abertura habilmente disfarçada da porta dos fundos para que por ela passe uma profanação dos Sacramentos do Matrimônio e da Eucaristia. Da mesma forma, não aceitarei uma burla do Sexto Mandamento de Deus. Prefiro ser ridicularizado e perseguido a ter que aceitar textos ambíguos e métodos insinceros. Prefiro a cristalina “imagem de Cristo, a Verdade, ao invés da imagem da raposa ornamentada com pedras preciosas” (Santo Irineu), porque “Sei em quem pus minha confiança”, “ Scio, Cui credidi!” (2 Tim 1: 12 ).

2 de novembro de 2015

+ Athanasius Schneider

Bispo auxiliar da Arquidiocese de Santa Maria em Astana, Cazaquistão.

Créditos e tradução: IPCO, que aderiu formalmente à declaração do bispo.

10 agosto, 2015

Dom Athanasius Schneider: “Não há razões de peso para negar aos sacerdotes e fiéis da FSSPX um reconhecimento canônico oficial”.

A Santa Sé me pediu que visitasse os seminários da Fraternidade São Pio X com o objetivo de apoiar um debate sobre um tema teológico concreto com um grupo de teólogos da fraternidade e com Sua Excelência Dom Fellay. Isso me demonstra que para a Santa Sé a FSSPX não é uma realidade eclesial negligenciável, que é preciso levá-la a sério.

Dom Athanasius Schneider, bispo auxiliar de Karaganda, Cazaquistão.

Dom Athanasius Schneider, bispo auxiliar de Santa Maria em Astana, Cazaquistão.

Guardo muito boa impressão de minhas visitas. O espírito do “sentire cum ecclesia” da FSSPX ficou claro quando me receberam como enviado da Santa Sá com verdadeiro respeito e muita cordialidade. Ainda, em ambos os seminários me alegrou ver na entrada a foto do Papa Francisco, o pontífice atualmente reinante. Nas sacristias havia placas com o nome de S.S. Francisco e do ordinário da diocese. Comoveu-me o cântico da oração tradicional pelo Papa (“Oremus pro pontifice nostro Francisco…”) durante a solene exposição do Santíssimo Sacramento.

Que eu saiba, não há razões de peso para negar aos sacerdotes e fiéis da FSSPX um reconhecimento canônico oficial, antes, deve-se aceitá-los como são por ora. Isso foi, na verdade, o que pediu o arcebispo Lefebvre à Santa Sé: “Que nos aceitem como somos”. A mim, parece que a questão do Concílio Vaticano II não deve ser considerada como uma condição sine qua non, já que se tratou de uma assembléia com fins e características primariamente pastorais. Parte das declarações conciliares reflete unicamente as circunstâncias do momento e teve um valor temporal, como ocorre de costume com os documentos disciplinares e pastorais.

Se nos fixarmos na perspectiva dos dois milênios da história da Igreja, podemos afirmar que por ambas as partes (a Santa Sé e a FSSPX) há uma sobrevalorização e sobrestimação de uma realidade pastoral da Igreja que é o Concílio Vaticano II. O fato de que a FSSPX acredite, celebre os ritos e leve uma vida moral como exigia e reconhecia o Magistério Supremo e como observou universalmente a Igreja durante séculos, e se, ademais, reconhece a legitimidade do Papa e dos bispos diocesanos e reza publicamente por eles, reconhecendo também a validade dos sacramentos segundo a editio typica dos novos livros litúrgicos, deveria ser suficiente para a Santa Sé reconhecer canonicamente a FSSPX. Do contrário, perderá obviamente credibilidade a tão batida abertura pastoral e ecumênica da Igreja de hoje, e um dia a história reprovará as autoridades eclesiásticas atuais por ter imposto mais peso do que necessário (cf. At 15:28), o que é contrário ao método pastoral dos apóstolos.

Da entrevista concedida por Dom Athanasius Schneider, bispo auxiliar de Santa Maria em Astana, Cazaquistão, em entrevista concedida a Adelante la Fe

11 março, 2015

Biografia de Plínio Corrêa de Oliveira continua repercutindo nas altas esferas eclesiásticas: desta vez, elogio é de Dom Athanasius Schneider.

Por Manoel Gonzaga Castro – Fratres in Unum.com: Depois do Cardeal Raymond Leo Burke, foi a vez de Dom Athanasius Schneider, bispo auxiliar de Santa Maria em Astana, Cazaquistão, tecer um grande elogio ao pensador católico brasileiro Plínio Corrêa de Oliveira. A ocasião do elogio de Dom Schneider é a mesma que a de Dom Burke: o agradecimento, por carta, ao Sr. Mathias von Gersdorff, diretor da TFP da Alemanha, que presenteou os prelados com uma biografia recém escrita por ele a respeito do fundador da Sociedade Brasileira de Defesa da Tradição Família e Propriedade.

Dom Athanasius Schneider confere a ordenação sacerdotal aos jovens brasileiros Renato Coelho (esq.) e Luiz Fernando Pasquotto (dir.), do Instituto do Bom Pastor (Courtalain, dezembro de 2013).

Dom Athanasius Schneider confere a ordenação sacerdotal aos jovens brasileiros Renato Coelho (esq.) e Luiz Fernando Pasquotto (dir.), do Instituto do Bom Pastor (Courtalain, dezembro de 2013).

Segundo Dom Athanasius, amigo de longa da data dessa associação – a construção da belíssima catedral de Karaganda, obra de Dom Athanasius, contou com grande apoio dos membros da TFP de todo o mundo –, “a vida de Plinio Corrêa de Oliveira mostra que a Providência Divina jamais abandona a sua Igreja, suscitando também leigos que sabem interpretar os ‘sinais dos tempos’ e agir em consequência”.

A elogiosa carta de Dom Schneider foi publicada na íntegra pelo site do Instituto Plínio Corrêa de Oliveira em 07 de março último:

Alegrei-me sobremaneira com a nova biografia em alemão de Plinio Corrêa de Oliveira. Ela resume de modo sucinto a vida do escritor e homem de ação brasileiro, sem deixar de abordar as etapas essenciais de sua vida e suas obras mais importantes.

Naturalmente me agradou de modo especial que o Autor tenha sublinhado o engajamento de Plinio Corrêa de Oliveira em prol dos católicos de além Cortina de Ferro. Numa época em que não poucos no Ocidente se conformaram com o fato de que uma importante parte da humanidade tenha sido obrigada a viver sob o jugo comunista, Corrêa de Oliveira lutou incansavelmente contra esta ‘vergonha do século XX’, como a denominou o Cardeal Joseph Ratzinger.

A vida de Plinio Corrêa de Oliveira mostra que a Providência Divina jamais abandona a sua Igreja, suscitando também leigos que sabem interpretar os ‘sinais dos tempos’ e agir em consequência.”

Dom Athanasius Schneider, Bispo-auxiliar de Astana (Cazaquistão)

Dom Athanasius, em visita, celebra a Santa Missa no Colégio São Mauro, auxiliado pelos seminaristas do IBP e ex-alunos do colégio, José Luiz Zucchi (de pé à esq.) e Tomás Parra (de pé à dir.), filhos do presidente e da vice-presidente da Associação Cultural Montfort, Alberto Zucchi e Duclerc Parra.

Dom Athanasius, em visita ao Brasil, celebra a Santa Missa no Colégio São Mauro, em São Paulo, auxiliado pelos seminaristas do IBP e ex-alunos do colégio, José Luiz Zucchi (de pé à esq.) e Tomás Parra (de pé à dir.), filhos do presidente e da vice-presidente da Associação Cultural Montfort, Alberto Zucchi e Duclerc Parra.

Dom Athanasius tem se destacado por sua luta contra os abusos litúrgicos, especialmente a comunhão na mão, e tem sido tema de várias postagens recentes aqui no Fratres in Unum, entre elas:

  1. Fratres in Unum entrevista Dom Athanasius Schneider;
  2. Dia histórico para a Missa Tradicional em São Paulo: pontifical e crisma por Dom Athanasius Schneider;
  3. Dom Athanasius Schneider em São Paulo: lançamento do livro “A Sagrada Comunhão e a Renovação da Igreja”;
  4. Dom Athanasius Schneider: “estamos na quarta grande crise da Igreja”;
  5. Dom Schneider pede ao Papa um novo Syllabus;

Em sua recente viagem ao Brasil, Dom Athanasius pediu aos grupos católicos, em particular os de São Paulo, que não desenvolvam uma disputa fratricida, baixando as armas e deixando para trás feridas do passado.

Fratres in Unum tem acompanhado atentamente esse processo de paz promovido pelo prelado e aguarda qual será a tomada de posição das lideranças leigas admoestadas por Dom Athanasius. Que elas possam debater e sanar suas divergências com caridade e sem sectarismos, acolhendo dócil e filialmente os conselhos de um bispo fiel à Santa Igreja, confiantes em sua graça de estado.

16 fevereiro, 2015

Dom Athanasius Schneider nos EUA.

Dom Athanasius Schneider, bispo auxiliar de Astana, no Cazaquistão, após visitar o Brasil em dezembro, está agora nos Estados Unidos. Dentre os eventos importantes da viagem estão a conferência pronunciada em Washington, DC, sobre “Alguns aspectos da renovação da Igreja e de sua liturgia”, organizada pelo Paulus Instititute e pela TFP americana e a visita de Dom Athanasius ao seminário americano da Fraternidade São Pio X. Em janeiro, Sua Excelência já havia visitado outro seminário da Fraternidade, em Flavigny, na França. Em ambos os encontros, as conversas giraram em torno do problema dos “pressupostos doutrinais do Novus Ordo Missae.

Em dezembro, o Cardeal Walter Brandmüller, presidente emérito do Pontifício Conselho para as Ciências Históricas, visitou o seminário da FSSPX na Alemanha.

11 fevereiro, 2015

Fratres in Unum entrevista Dom Athanasius Schneider.

Um Atanásio do Quirguistão, mas de coração sacerdotal brasileiro. Dom Athanasius Schneider, o combativo bispo auxiliar da Arquidiocese de Santa Maria, em Astana, capital do Cazaquistão, esteve no Brasil no último mês de dezembro, ocasião na qual viajou por várias cidades brasileiras lançando seu novo livro. Nos últimos dias de sua visita, em que dedicou seu tempo a seus amigos de longa data do IPCO (Instituto Plínio Correa de Oliveira), Dom Athanasius recebeu a equipe de Fratres in Unum para uma conversa sobre os últimos acontecimentos da vida da Igreja — em particular, o Sínodo da Família. Nosso agradecimento a Sua Excelência pela disponibilidade e ao IPCO por abrir as portas de sua sede para esta entrevista.

* * *

Inicialmente, Excelência Reverendíssima, muito obrigado por nos receber e conceder esta entrevista ao Fratres in Unum. O senhor tem uma ligação de longa data com o Brasil. Fale-nos sobre a sua relação com nosso país e como o senhor vê hoje a atual da Igreja no Brasil.

Dom Manoel Pestana e Dom Athanasius Schneider. Foto: Arquivo pessoal de Dom Athanasius.

Dom Manoel Pestana e Dom Athanasius Schneider. Foto: Arquivo pessoal de Dom Athanasius.

Primeiramente, nunca em minha vida pensei que chegaria ao Brasil, porque eu nasci na Ásia Central, em território Soviético, na Igreja clandestina, e depois imigramos, por milagre de Nossa Senhora, para a liberdade do mundo ocidental na Alemanha. Lá constatei a grande crise da Igreja, com muita dor, embora ainda fosse adolescente. E procurei, rezei para que Deus me mostrasse uma comunidade onde pudesse tornar-me um bom sacerdote. Era o fim dos anos 70. E, por Providência Divina, conheci a ordem dos Cônegos Regulares da Santa Cruz, na Áustria, e lá ingressei, pois vi uma vida sólida, católica, com uma liturgia digna, fidelidade ao magistério e tudo isso me agradou muito. Assim, tornei-me religioso e como tal fazemos o voto de obediência. E então, estava à disposição dos superiores e eles decidiram que eu viesse para o Brasil.

Exatamente quando eu iniciei meu noviciado, Dom Manoel Pestana Filho, bispo de Anápolis, Goiás, chegou a Roma, em nossa casa geral, pedindo a ajuda de nossa ordem para a formação de seus sacerdotes diocesanos. Nossos superiores viram neste bispo um homem de Deus, um bispo da Igreja muito zeloso, e tomaram uma decisão, diria eu, de consequências muito decisivas: transferir a formação sacerdotal de nossa ordem da Europa para o Brasil – como Dom Manoel pediu um grupo de professores de nossa ordem para o seminário dele, e eles não eram muitos, decidimos unir a nossa formação com a da diocese, economizando o grupo de professores. Assim, ao fim de meu noviciado, começou esta nova missão de nossa ordem junto à diocese de Anápolis e eu fui um dos primeiros do grupo a ser enviado para lá, para ajudar na fundação da missão de formar bons sacerdotes.

E, assim, cheguei ao Brasil, o que nunca pensei que aconteceria, e logo que cheguei comecei a amar este belo país e este povo brasileiro piedoso, realmente um povo católico. Tive esta felicidade e graça de ter toda a minha formação sacerdotal no Brasil e também de receber a minha ordenação sacerdotal no Brasil. Por assim dizer, nasci como sacerdote no Brasil e isso é indelével na minha vida e na minha alma, como uma espécie de lugar de nascimento do meu sacerdócio. Portanto, estou ligado ao Brasil e ao povo brasileiro, sempre o amando, e pensava que ficaria sempre aqui. Mas Deus dispôs de uma outra forma e agora, depois de ter sido mandado em missão, como bispo, para o Cazaquistão, região onde nasci e cresci, onde nunca pensei que retornaria, não pude voltar tantas vezes ao Brasil.

Minhas visitas agora são mais raras — somente neste ano e no ano passado –, por isso não posso falar com muita base de informações sobre a situação atual da Igreja no Brasil, pois não vivo aqui. Porém, agora nessas poucas visitas que fiz, visitei São Paulo, Belém, Brasília, onde encontrei comunidades pequenas, vivas, muito dinâmicas, com jovens, jovens famílias numerosas, jovens clérigos, sacerdotes que realmente são uma esperança para a Igreja, que têm uma profunda fé, a pureza da fé, que amam a liturgia digna, a liturgia tradicional da Igreja e a vida espiritual séria, realmente católica. Isso me deu muita alegria, muita coragem, e o que vejo no Brasil me encorajou muito, embora estes grupos não pertençam, como costumo dizer, à nomenklatura ou estabilishment.

Quais personagens do catolicismo brasileiro são suas referências e influenciaram sua vida religiosa?

Certamente, Dom Manoel Pestana Filho, primeiramente, porque foi meu professor por quase seis anos, quase toda a minha formação sacerdotal. Ele me ordenou diácono e sacerdote, eu o considero como meu pai espiritual e também, agora sendo eu bispo, é para mim um modelo de bispo realmente católico. Agradeço a Providência Divina por ter tido esse bispo como professor, como modelo espiritual e agora como modelo a imitar. Cada vez mais, quando aumentam meus anos de episcopado, vejo essa figura de Dom Manoel como bispo tão importante, tão exemplar e, diria eu, até heroico. Ele deixou muitas marcas em minha alma e meu espírito. Ele era uma pessoa de vasta erudição, exemplar, espetacular, e um espírito claro, ele via claro. Raramente encontrei um personagem eclesiástico com visão tão clara sobre os problemas atuais do mundo e da Igreja. Por outro lado, era uma pessoa verdadeiramente piedosa. Um homem de oração, um homem de piedade, de devoção, e talvez também um aspecto exterior, que alguns consideram secundário, mas não creio: ele sempre andava de batina. Eu nunca o vi sem batina, nunca. E também me disseram em Anápolis que nunca nenhuma pessoa o viu sem batina. Sempre andava de batina, era também um exemplo. E depois sua simplicidade, uma pessoa simples, pobre e sempre alegre. Por exemplo, ele quase em todas as aula nos contava piadas. Era sempre alegre. No que concerne a doutrina e a moral, era firmíssimo, mas muito humano também.

O senhor está lançando no Brasil o seu livro “A Sagrada Comunhão e a Renovação da Igreja”. Anteriormente, outro livro de sua autoria, “Dominus Est”, já abordava a necessidade de se rever certas práticas no tratamento dado a Nosso Senhor Sacramentado, principalmente a administração da Sagrada Comunhão na mão do fiel. Em tempos de muitas outras preocupações pelos membros da Igreja, por que o senhor considera importante tratar desse tema?

Dom Athanasius em entrevista a Fratres in Unum.

Dom Athanasius em entrevista a Fratres in Unum.

Considero este tema um dos mais importantes e necessários na Igreja, porque na Santa Comunhão não se trata de uma coisa ou de um assunto, mas da Pessoa mesma de Nosso Senhor Jesus Cristo, pois a Fé nos diz que sob as espécies eucarísticas estão presentes o Corpo, Sangue, Alma e Divindade de Cristo, toda a Divindade. E essa presença, a Pessoa Divina, é tratada de uma maneira tão banal, quase insuportável. Pela prática da Comunhão na mão, quantos fragmentos caem, em massa, e são pisados. Quantos furtos, um business de furtos de hóstias consagradas. É incrível! Então, não posso entender como se pode continuar com isso e não falar disso, e dizer que esse aspecto é secundário. Não posso entender, realmente não posso. É um aspecto primário! Não posso entender: Nosso Senhor Jesus Cristo é calcado aos pés, roubado e todos continuam a dizer: “esse aspecto é secundário”. Por isso, sinto-me em consciência impelido a levantar minha voz e gritar: “Parem com isso! Pensem em quem é a Eucaristia! Não que coisa é, mas quem é!” Não tenho sossego em minha alma e em minha consciência de bispo da Igreja em calar-me sobre isso. Preciso defender Aquele que, por causa especialmente da Comunhão na mão, se tornou o mais pobre, o mais indefeso, o mais discriminado, o mais, diria eu, periférico. Portanto, devemos fazer uma opção preferencial por este Pobre, por esta periferia.

O problema da Comunhão na mão não seria uma decorrência lógica e natural do aspecto convival e comunitário, em detrimento do aspecto sacrifical da Santa Missa, que se sobressai do próprio Missal de Paulo VI? Uma eventual reforma da reforma não deveria lidar com tais deficiências que permitem o surgimento de práticas novas, anteriormente inimagináveis?

Eu diria que não provém do Missal, porque isso não seria historicamente correto. Devemos sempre observar bem os fatos históricos, que indiquei também em meu segundo livro: o missal de Paulo VI prevê somente a Comunhão na boca. Até hoje, na terceira edição típica do missal, é dito que a Santa Comunhão se recebe na boca. Ainda hoje a comunhão na mão é um indulto, uma exceção à regra. Os senhores talvez saibam, e pode-se ler, pois há vasta documentação, que mesmo Dom Annibale Bugnigi, em seu livro “A Reforma Litúrgica”, escrevia, sem nenhuma timidez, como foi introduzida a Comunhão na mão, de forma realmente contrária à vontade de Paulo VI, contra a vontade do Papa. Portanto, não está ligada ao missal e se lemos o documento Memoriale Domini, com o qual foi autorizada a comunhão na mão, é dito que se continue a receber a Comunhão na boca, que seria prejudicial receber a Comunhão na mão, dando todos os argumentos contra ela; e, só ao final, diz-se que onde, por votação qualitativa dos bispos da Conferência Episcopal, pode-se introduzir a Comunhão na mão, porém, observando todas as determinadas cautelas e condições. Vejam: a Comunhão na mão não é uma consequência do missal novo, pois devemos ser corretos ao afirmar aspectos históricos. O próprio Paulo VI disse: a Santa Sé pede que todos os bispos e sacerdotes permaneçam com o modo tradicional da Comunhão. O Papa pede, implora, eu citei em meu livro.

Outra questão é o fato do novo rito da Missa, sua estrutura, favorecer em certo sentido uma concepção de Missa enquanto banquete. Favorece, de fato, mas não está diretamente ligado à comunhão na mão. Nesta grande questão da reforma litúrgica, especialmente os textos que considero que, em si, mais favorecem este aspecto no rito novo, são as orações do ofertório, que exprimem mais esse aspecto convival e menos sacrificial em comparação às orações do ofertório no rito antigo. Mesmo celebrar a missa ad populum não é previsto pelo novo missal, pois se observamos o ordo missae da missa nova, até lá se pressupõe que se celebre a missa ad Deum, não ad populum, pois há uma rubrica que diz quando o sacerdote reza o Orate fratreset conversus ad populum dicit, e depois se diz iterum conversus ad altare. Então, a mesma coisa ocorre quando ele diz o Ecce Agnus Dei. São dois exemplos. Por isso, supõe-se que se celebre ad Deum. Falo só e estritamente segundo o texto. Portanto, a celebração versus populum em si não é ligada à nova Missa e por isso considero somente as orações do ofertório como favorecedoras do aspecto convival em detrimento do aspecto sacrificial, assim como a segunda oração eucarística. Infelizmente, é assim. Por isso devemos trabalhar no que o Papa Bento XVI chamava de reforma de reforma. É necessário.

Ao falar do Missal reformado de Paulo VI, chegamos naturalmente ao Concílio Vaticano II. O debate acerca deste evento parece ter sido sepultado com a renúncia do Papa Bento XVI. Vossa Excelência, certa feita, falou em um Syllabus sobre os erros de interpretação dos documentos conciliares. Todavia, sempre ressurge a questão: o problema do Concílio seria somente interpretativo ou seus próprios textos são culpáveis pela confusão atual?

Devemos sempre guardar o bom senso e o espírito do sentire cum ecclesia. Trata-se de um texto de nossa mãe que é a Igreja. Se é algo de minha mãe, eu devo ter, mesmo se não gosto e não concordo com tudo, uma reverência filial e tentar salvar o quanto possível a honra de minha mãe. Nesse caso, a mãe Igreja, também com o Vaticano II, não deixou de ser nossa mãe, mesmo que haja pontos a corrigir e aprimorar nos textos.

Por isso digo que há também muitas coisas boas nos textos do Concílio. Por que não valorizar isso? E isso é esquecido nesses debates. Por exemplo, uma norma da Sacrosanctum Concilium sobre liturgia, onde se diz que: ninguém na Igreja, qualquer que seja o clérigo — clérigo também é o cardeal, o bispo, o sacerdote e até o papa — tem o direito de mudar algo na celebração litúrgica por conta própria. Nem mudar, nem retirar e nem adicionar algo. Então, é uma norma muito forte que não existe nem no Concílio de Trento. Assim, se citarmos essa norma sem referência, sem indicarmos a fonte, por exemplo, faríamos um teste e penso que a maioria do clero progressista diria que essa norma é do Concílio de Trento, que uma norma tão rígida não pode ser do Vaticano II. Este é somente um pequeno exemplo. Conheço um livro na Alemanha que se chama O Concílio Silenciado, no qual o autor recolheu expressões do Vaticano II que são realmente tradicionais.

O recente Sínodo para a Família causou grande perplexidade em muitas católicos. Como o senhor avalia o desenrolar do Sínodo de 2014 e o que espera do próximo Sínodo, sobre o mesmo tema, a ocorrer em outubro deste ano?

Espero que não se repita a vergonha que aconteceu no Sínodo passado, com a Relatio post-disceptationem [relatório intermediário, pós-debates iniciais do Sínodo] que é um documento vergonhoso em três pontos especificamente, não em todo o documento, porque existem coisas nele também boas, porém, três pontos: uniões homossexuais, convivências extra-matrimoniais e Comunhão de divorciados. Tais pontos estavam à beira da heresia e são muito vergonhosos – devemos constatar, não podemos dizer que não é assim. Espero que isso não se repita, por isso confio que o Espírito Santo guiará a Igreja e escutará as orações dos humildes na Igreja, dos pobres e dos puros, para confundir os planos do inimigo, como diz o salmista: “Levantai-Vos, Deus, e confundi os planos dos iníquos”. Confio que Deus confundirá os planos dos iníquos que já se preparam, certamente, para implementar sua agenda novamente no Sínodo de 2015, mesmo se alguns destes iníquos ocupam cargos episcopais e até cardinalícios.

Ainda sobre o Sínodo, falou-se em manobras, em direcionamento de procedimentos internos, em amordaçamento dos chamados “conservadores”. O Cardeal Burke falou abertamente em manipulação. Há, parece, como sugeriu Vossa Excelência, um grupo determinado a fazer de tudo para mudar a disciplina milenar da Igreja, embora afirme não ser possível mudar a sua doutrina. Ora, é possível separar a disciplina da doutrina?

Não é possível, pois separar a prática da doutrina é puro farisaísmo. Assim, voltamos a ser verdadeiros fariseus e escribas que Nosso Senhor condenou, pois trata-se de uma mentira: afirmar uma coisa e fazer o contrário. Uma mentira. E, depois, essa atitude é própria do gnosticismo, uma das teorias do segundo século cristão, depois reapresentada com o maniqueísmo, que Santo Agostinho combateu, e que era também um tipo de gnosticismo, e que consistia em ter uma tese, digamos, uma doutrina, na cabeça que não tinha nada a ver com o seu comportamento moral prático. Esta era uma das características fundamentais do antigo movimento gnóstico, e os cardeais e bispos que querem implementar isso – que seria puramente gnóstico — tomam atitudes de verdadeiros fariseus, escribas e gnósticos.

Em entrevista ao Life Site News, o senhor tratou desse assunto em termos bastante duros, falando em “ideologia neo-pagã” e qualificando o documento preliminar do Sínodo como “vergonha”. Novamente, sua voz é uma das raras vozes episcopais a falar claramente… 

Bem, aqueles bispos com que eu falei, alguns dos quais participaram do Sínodo, estavam chocados, realmente em choque, quando viram de que maneira já se começou dentro do Sínodo o espírito deste mundo, quando viram que de uma instituição tão elevada do episcopado católico manifestavam-se teses realmente contrárias à doutrina da Igreja. Assim, alguns bispos despertaram, mas foi um choque. Alguns bispos falaram, certamente, como os cardeais Burke, Pell, Sarah — o novo prefeito da Congregação para o Culto Divino –, Dom Stanislaw Gadecki, presidente da Conferência Episcopal da Polônia, Dom Tomash Peta, o arcebispo de Astana, no Cazaquistão. Graças a Deus! Mas talvez fosse melhor que mais bispos falassem sobre isso. Até agora não escutei tantas numerosas manifestações, mas houve, certamente, houve. Porém, podiam ser mais. Todavia, o problema é que nós bispos vivemos, depois do Concílio, em uma espécie de falso espírito de colegialidade e somos constrangidos por esse espírito colegial — como que estamos numa camisa de força –, que ninguém se atreve a falar algo claro, porque teme: “O que vão dizer meus confrades? O que vai dizer a Conferência Episcopal? Depois eles me acusam de ser não colegial, ou de ser contra a unidade”. Mas, imagine, falar a verdade com caridade nunca é contra a unidade. Agora, falta de unidade é calar-se e não apontar os problemas graves que ocorreram no Sínodo sobre esses temas. Calar-se simplesmente por esperar uma espécie de unidade entre os bispos, isso sim mostra que não se trata de unidade. Penso que aqui os bispos deveriam, novamente, resgatar a autoridade pessoal, porque cada bispo é sucessor dos Apóstolos e, para o bem da igreja, isso seria importante.

Como o senhor avalia a atuação do Papa Francisco diante desses fatos?

O Papa Francisco falou ao fim do sínodo com palavras claras: a Igreja não pode mudar a doutrina, não deve descer da Cruz, portanto, são também palavras encorajantes. Falou também agora, recentemente, em Estrasburgo que a Europa perdeu a sua alma cristã e que ela deve reencontrar sua alma que é o cristianismo, o que é muito bom, muito encorajante. Porém, ele podia ser mais explícito, diria eu, mais claro, principalmente em dar uma melhor orientação, sobretudo nos temas claros como esses do Sínodo, como a Comunhão de divorciados. Eu desejaria que ele um dia nos desse ensinamentos mais explícitos e claras orientações, porque a primeira tarefa do Papa, que ele recebeu de Cristo, é “Confirma Fratres Tuos”, confirma os seus irmãos, que são os bispos em primeiro lugar. Então, vamos rezar, e eu rezo a cada dia pelo Papa Francisco, para que ele sempre mais consiga ser, viver e realizar este mandado de Cristo: “Confirma Fratres Tuos”.

Por fim, Excelência, que palavras de encorajamento o senhor daria a nossos padres e leigos que batalham contra a revolução doutrinal contra o neo-paganismo dentro da Igreja?

Eu gostaria, realmente, de encorajar a todos para que continuem nessa batalha, pois trata-se de uma honra. Considerem isso uma honra, não é peso. Não façam isso com desencorajamento, façam com alegria. Considerem-se mesmo privilegiados de poder defender a fé, porque defender a fé, a pureza da fé, a pureza da liturgia, não é outra coisa senão defender a Nosso Senhor Jesus Cristo, que é a Verdade em pessoa, que é a santidade. Por isso é uma honra e um privilégio, também se vocês e aqueles sacerdotes jovens são, por vezes, discriminados e marginalizados pela nomenklatura eclesiástica. Não se deixem desencorajar, mas, aceitem essas humilhações por amor a Cristo. Se O amamos, aceitaremos também algumas perseguições. E quero dizer algo importante: o povo e os clérigos devem defender a Fé às claras com a doutrina, mas sempre com amor, com caridade. Pois defender a verdade sem caridade não é cristão, e tomamos o método dos mulçumanos: somente à força, com violência. E isso não é cristão. Por outro lado, não defender a verdade e apenas falar em amarmo-nos uns aos outros e nada mais, também não é cristão. Cristão é defender a verdade com caridade. Então, desejo a todos que continuem e sejam corajosos e formem uma santa rede dos combatentes de Cristo, de bons soldados de Cristo, vivendo simplesmente as graças do sacramento da Crisma, os dons do Espírito Santo, deixar que Ele devolva a fortaleza da Fé aos leigos. Aos sacerdotes, desejo que vivam os carismas e as graças de sua ordenação sendo servidores da verdade.

Fratres in Unum: Muito Obrigado, Excelência!