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14 março, 2019

Dom Athanasius Schneider obtém do Papa Francisco esclarecimento sobre “diversidade de religiões” e diz que o Encontro sobre Abusos Sexuais foi um completo “fracasso”.

Por Diana Montagna, LifeSiteNews, 7 de março de 2019 | Tradução: Gercione Lima – FratresInUnum.comEm sua recente visita ad limina a Roma, os bispos do Cazaquistão e da Ásia Central levantaram uma série de preocupações que têm sido amplamente compartilhadas na Igreja ao longo dos últimos anos, e que dizem respeito às percebidas ambigüidades no magistério do Papa Francisco.

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Na reunião de 1º de março, o bispo Athanasius Schneider, auxiliar de Astana, Cazaquistão, também obteve do papa Francisco um esclarecimento sobre seu pronunciamento segundo o qual Deus não apenas permitiria, mas positivamente desejaria, uma “diversidade de religiões”.

Em entrevista exclusiva à LifeSite, Dom Schneider disse que as preocupações levantadas durante o encontro de duas horas com o Santo Padre incluíram “Comunhão para católicos divorciados e civilmente recasados”, a questão da comunhão para os cônjuges protestantes em casamentos mistos e a questão da propagação prática da homossexualidade na Igreja”.

Em um intercâmbio direto entre o papa Francisco e o bispo Schneider, a alegação de que a “diversidade das religiões” é “desejada por Deus” também foi discutida. A expressão, contida em uma declaração conjunta que o Papa Francisco assinou no mês passado com um Grande Imam em Abu Dhabi, incitou uma controvérsia considerável.

O Papa declarou explicitamente que o bispo Schneider poderia compartilhar o conteúdo de seu intercâmbio sobre este ponto. “Você pode dizer que a frase em questão sobre a diversidade das religiões significa a vontade permissiva de Deus”, disse ele aos bispos reunidos, que vêm de regiões predominantemente muçulmanas.

O Bispo auxiliar de Astana, por sua vez, pediu ao papa que esclarecesse oficialmente a declaração no documento de Abu Dhabi.

LifeSite sentou-se com o Bispo Schneider em Roma após a visita ad limina. Em uma ampla entrevista, discutimos seu encontro com o Papa Francisco, seus pontos de vista sobre a recente cúpula do abuso sexual no Vaticano, e antecipamos ataques ao celibato clerical no próximo Sínodo Amazônico.

Schneider classificou a cúpula sobre abuso sexual como um “show clerical” e um “fracasso” por não abordar as “raízes profundas” da crise, além de não emitir “normas muito precisas, convincentes e incisivas”. Ele expõe o que ele acredita serem as quatro causas da crise do abuso e propõe duas normas concretas que segundo ele, deveriam ter saído do Encontro.

Questionado sobre a negação do cardeal Blase Cupich sobre uma relação causal entre a homossexualidade e o abuso sexual clerical, Schneider perguntou desesperadamente: “Como posso falar com um homem que nega a realidade?”

Na entrevista, o bispo Schneider também elogia a carta aberta emitida pelo cardeal Raymond Burke e pelo cardeal Walter Brandmüller antes do encontro no Vaticano sobre a proteção de menores e sugere novas medidas que cardeais e bispos poderiam tomar para enfrentar a atual crise na Igreja.

Aqui abaixo está a nossa entrevista exclusiva com o Bispo Athanasius Schneider.

LifeSite: Excelência, o que você pode nos dizer sobre sua recente visita ad limina e encontro com o Papa Francisco?

Bispo Schneider: Foi para mim uma experiência muito espiritual – uma peregrinação aos túmulos de São Pedro e São Paulo, onde celebramos a Santa Missa. No túmulo de São Pedro cantamos para o Papa Francisco a antífona “Oremus pro pontifice nostro” seguida pelo Credo. Também oramos pelas intenções do papa para obter a indulgência plenária. Fizemos o mesmo na Basílica de São Paulo Fora dos Muros e na Basílica Mariana de Santa Maria Maior.

Em relação ao nosso encontro com o Papa, ele é o Vigário de Cristo na terra neste tempo, e ele foi muito fraterno e gentil conosco. Foi uma atmosfera muito gentil.

Nosso encontro com ele durou duas horas. Considero isto um ato de grande generosidade por parte do Papa, passar tanto tempo com o nosso grupo de 10 bispos e ordinários do Cazaquistão e da Ásia Central.

Durante a reunião, o Papa nos convidou a expressar livremente nossas preocupações e até nossas críticas. Ele enfatizou que gosta de uma conversa muito livre.

Alguns bispos puderam levantar preocupações sobre a vida da Igreja em nossos dias. Por exemplo, a questão da comunhão para católicos divorciados e civilmente “recasados”; a questão da comunhão para os cônjuges protestantes em casamentos mistos; e a questão da disseminação prática da homossexualidade na Igreja. Esses pontos foram discutidos.

Então pedi também ao Santo Padre que esclarecesse a declaração do documento de Abu Dhabi sobre a diversidade de religiões como sendo “desejadas” por Deus.

O Papa foi muito benevolente em sua resposta às nossas perguntas e procurou nos responder a partir de sua própria perspectiva sobre esses problemas. Ele respondeu de maneira mais generalizada sobre os princípios da fé católica, mas nas circunstâncias dadas não pudemos entrar em detalhes sobre as questões específicas. Mesmo assim, sou muito grato ao Santo Padre por ter nos dado a possibilidade, de em um ambiente muito sereno, levantar várias preocupações e falar com ele.

Você pode nos dizer mais sobre como o Papa Francisco respondeu à sua preocupação com a declaração de Abu Dhabi sobre a diversidade das religiões? Na passagem controversa se lê: “O pluralismo e a diversidade de religiões, cor, sexo, raça e linguagem são desejadas por Deus em Sua sabedoria, mediante a qual Ele criou os seres humanos”.

Sobre o assunto de minha preocupação com a frase usada no documento de Abu Dhabi – que Deus “deseja” a diversidade de religiões – a resposta do Papa foi bem clara: ele disse que a diversidade de religiões é apenas a vontade permissiva de Deus. Ele enfatizou isso e nos disse: você pode dizer isso também, que a diversidade das religiões é a vontade permissiva de Deus.

Eu tentei ir mais fundo na questão, pelo menos citando a frase como se lê no documento. A sentença diz que, assim como Deus deseja a diversidade de sexos, cor, raça e linguagem, assim Deus quer a diversidade das religiões. Existe uma comparação evidente entre a diversidade das religiões e a diversidade dos sexos.

Mencionei este ponto ao Santo Padre, e ele reconheceu que, com essa comparação direta, a sentença pode ser entendida erroneamente. Eu enfatizei em minha resposta a ele que a diversidade de sexos não é a vontade permissiva de Deus, mas é positivamente desejada por Deus. E o Santo Padre reconheceu isso e concordou comigo que a diversidade dos sexos não é uma questão da vontade permissiva de Deus.

Mas quando mencionamos essas duas frases na mesma frase, a diversidade de religiões é interpretada como positivamente desejada por Deus, assim como a diversidade dos sexos. A sentença, portanto, leva a dúvidas e interpretações errôneas, e portanto foi meu desejo e meu pedido para que o Santo Padre retificasse isso. Mas ele disse para nós bispos: você pode dizer que a frase em questão sobre a diversidade de religiões significa a vontade permissiva de Deus.

Para os leitores que podem não estar familiarizados com a distinção entre a vontade permissiva e positiva de Deus, você pode dar alguns exemplos de outras coisas que Deus permite através de sua vontade permissiva?

Sim, a vontade permissiva significa que Deus permite certas coisas. Deus permitiu o pecado de Adão e todas as suas conseqüências; e mesmo quando pecamos pessoalmente, em certo sentido, Deus permite isso ou tolera isso. Mas Deus não permite positivamente o nosso pecado. Ele permite isso em vista do sacrifício infinitamente meritório de Nosso Senhor Jesus Cristo na Cruz, e porque ele não quer destruir a nossa liberdade. Esse é o significado da vontade permissiva de Deus.

ENCONTRO “A PROTEÇÃO DOS MENORES NA IGREJA”

Muitas pessoas, incluindo vítimas de abuso sexual que vieram a Roma para o Encontro do Vaticano de 25 a 27 de fevereiro sobre a proteção de menores na Igreja, ficaram desapontadas com o encontro pelo que consideraram sua falta de ação concreta. Excelência, o que você acha que seria a maneira mais eficaz de resolver o problema do abuso e acobertamento sexual na Igreja?

Quando há um problema enorme – que é o abuso de crianças, menores e subordinados adultos pelo clero certamente – sempre temos que ir na raiz mais profunda, como todo bom médico faz.

Não podemos resolver uma doença apenas fazendo um diagnóstico superficial. Um diagnóstico profundo e integral é necessário. E na minha opinião, isso não foi feito nesse Encontro, porque uma das raízes evidentes, observáveis ​​e mais profundas do abuso sexual de menores é a homossexualidade entre o clero. É claro que não direi que todos os homossexuais estão necessariamente abusando de crianças. Isso seria injusto e falso. Mas estamos falando sobre abuso clerical na Igreja, e por isso temos que nos concentrar nessa doença. Está provado que mais de 80% das vítimas eram do sexo masculino pós-púberes. Portanto, é evidente que a natureza da maioria deste abuso envolveu atos homossexuais. Temos que salientar que esta é uma das principais raízes.

A outra raiz principal da crise dos abusos é o relativismo no ensino moral, que começou após o Concílio Vaticano II. Desde então, temos vivido em uma profunda crise de relativismo doutrinal, não apenas na esfera dogmática, mas também moral – a lei moral de Deus. A moral não foi ensinada claramente nos seminários nos últimos 50 anos; muitas vezes não foi claramente ensinado nos seminários e faculdades teológicas que um pecado contra o sexto mandamento é um pecado grave. Subjetivamente, pode haver circunstâncias atenuantes, mas objetivamente é um pecado grave. Todo ato sexual fora de um matrimônio válido é contra a vontade de Deus. Ofende a Deus e é um pecado grave, um pecado mortal. Esse ensinamento foi muito relativizado. E esta é uma das outras raízes profundas. Temos que enfatizar isso. E, na minha opinião, isso não foi enfatizado no Encontro: o relativismo do ensino moral, especificamente sobre o sexto mandamento.

Outra causa profunda é a falta de uma formação verdadeira, séria e autêntica de seminaristas. Houve falta de ascetismo na vida e formação dos seminaristas. Foi provado por dois mil anos, e pela natureza humana, que sem ascetismo físico como jejum, oração e até mesmo outras formas de mortificações corporais, é impossível viver uma vida constante em virtude sem cair no pecado mortal. Devido à profunda ferida do pecado original e à concupiscência ainda em ação em todo ser humano, precisamos da mortificação corporal.

São Paulo diz: “Não faça provisão para a carne, para satisfazer seus desejos.” (Rm 13:14) Podemos parafrasear estas palavras, dizendo: não nutram sua carne em demasia ou a concupiscência dominará você. E isso é exatamente o que muitas vezes aconteceu nos seminários. Seminaristas e sacerdotes alimentavam a carne através de uma vida confortável, sem ascetismo, sem jejum e outras mortificações corporais e espirituais.

Mas para mim, a causa mais profunda da crise do abuso sexual clerical é a falta de um relacionamento profundo e pessoal com Jesus Cristo. Quando um seminarista ou um padre não tem um profundo relacionamento pessoal com Jesus Cristo, em constante fidelidade a uma vida de oração e realmente desfrutando de um amor pessoal por Jesus, ele é presa fácil para as tentações da carne e outros vícios.

Além disso, quando você tem um amor profundo e pessoal a Cristo, você não pode deliberadamente cometer um pecado horrendo. Ocasionalmente, por causa da fraqueza da natureza humana, um padre ou seminarista poderia cometer um pecado mortal contra a pureza. Mas no mesmo momento, ele fica profundamente arrependido e decide evitar o próximo pecado a qualquer custo. Esta é uma manifestação de um verdadeiro amor de Cristo. Mas para mim está completamente excluído que uma pessoa que ama profundamente a Cristo possa abusar sexualmente de menores. Isso para mim é impossível. Na minha opinião, um profundo amor de Cristo exclui isso.

Estas são as raízes principais: a homossexualidade entre o clero, o relativismo na doutrina, a falta de ascese e sobretudo a ausência de um amor profundo e verdadeiro por Cristo. E isso não foi enfatizado no Encontro. Portanto, considero o evento como um fracasso.

Você mencionou a estatística de que 80% das vítimas eram homens pós-púberes. Como você responde ao Cardeal Blase Cupich e outros que apontam para o relatório de John Jay e outros estudos como prova de que não há relação causal entre homossexualidade e abuso sexual clerical?

É uma negação da realidade. Como posso falar com um homem que nega a realidade? Isso só é explicável como uma posição ideológica.

Que medidas concretas você acredita que a cúpula deveria ter feito para oferecer soluções reais para o problema do abuso sexual clerical?

A cúpula deveria ter emitido normas canônicas concretas e não o fez. Portanto, acho que a cúpula foi um fracasso. Foi um belo show clerical, foi um show de clericalismo – todos os clérigos com seus títulos vieram de todas as partes do mundo. E muitas palavras bonitas – palavras muito emocionais – foram ditas. Mas essas raízes profundas não foram abordadas e normas concretas e incisivas não foram dadas.

A meu ver, normas muito precisas, convincentes e incisivas devem ser dadas.

A primeira norma canônica que proponho seria a seguinte: que as pessoas com inclinações homossexuais, categoricamente não devem ser aceitas nos seminários. E, se forem descobertos, é claro, com respeito e amor, devem ser dispensados ​​do seminário e ajudados a serem curados para viver como um bom leigo cristão.

Atualmente, as normas dizem apenas que aqueles com “tendências homossexuais profundamente arraigadas” não devem ser admitidos no seminário, mas para mim isso não é suficiente. O que significa “profundamente arraigadas”? Se um homem adulto chega ao seminário e sente atração homossexual, mesmo que ainda não seja uma atração profundamente arraigada, ainda assim é uma atração homossexual. E em si mesma já é uma condição que, em algumas circunstâncias – como na atmosfera exclusivamente masculina de um seminário – poderia evoluir para uma tendência mais profunda ou mais agressiva.

E quando ele se tornar padre, ele estará com seminaristas, com jovens coroinhas e assim por diante. E assim, embora talvez no seminário essas tendências não sejam profundas, elas podem se tornar mais profundas em certas circunstâncias.

Pra mim isso é no mínimo arriscado. Digamos que um jovem não é um homossexual agressivo. Ele não sente prazer algum em ter tendências homossexuais, e elas não são tão profundamente enraizadas. Mas quando ele reconhece que ele tem essas tendências, ou quando é provado por atos exteriores ou sinais de que ele tem tendências homossexuais, mesmo que elas não sejam profundamente arraigadas, ele deve ser caridosamente mandado embora do seminário. E isso deveria ser uma norma canônica: alguém que reconhece que tem tendências homossexuais, mesmo não profundamente arraigadas, não pode ser recebido em outro seminário e não pode ser ordenado.

As tendências homossexuais são uma espécie de traço de desordem de personalidade e uma percepção distorcida da realidade, já que isso significa desejar um objeto de prazer contra a ordem natural dos sexos. Documentos magisteriais chamam isso de desordem “objetiva”. Como você pode ordenar um homem com uma desordem em sua personalidade ou em sua composição psico-somática? Claro, existem outros distúrbios psicológicos também. Nós não ordenamos homens com certos distúrbios psicológicos, mesmo quando eles não são tão profundos. Isso prejudicaria o sacerdócio.

Você mencionou sinais exteriores. Na norma canônica que você propõe, que tipo de sinais exteriores você tem em mente?

Se ele tivesse uma amizade exclusiva e ostensiva com um homem, já seria um sinal exterior. Ou se ele olha pornografia masculina na internet, isso seria outro sinal. Estes são sinais exteriores e verificáveis. Uma vez que estes sinais sejam descobertos, tal seminarista deve ser excluído para sempre da ordenação. Sim, ele pode ser curado, mas o seminário não é um sanatório para curar pessoas com distúrbios psicológicos ou tendências homossexuais. Isso é ingênuo e prejudicará o sacerdócio e a pessoa. Seria melhor para essa pessoa ser um bom cristão no mundo e salvar sua alma, e não ser um sacerdote. Naturalmente que podemos e devemos ajudá-lo. Mas temos que estar dispostos a dizer-lhe: você não será ordenado, é para a salvação da sua alma. Seja um bom cristão no mundo.

É melhor ter menos padres, mas homens saudáveis ​​e psicologicamente saudáveis. E profundos amantes de Cristo, homens profundamente espirituais. Seria melhor para toda a Igreja. É melhor deixar algumas paróquias sem padre e algumas dioceses sem um bispo por vários anos do que ordenar um homem que tenha um transtorno, seja homossexual ou outros transtornos de personalidade.

Que outras normas concretas você acredita que o Encontro sobre abuso sexual no Vaticano deveria ter emitido?

Em um caso quando um padre ou um bispo comete abuso sexual, mesmo um único caso, ele deve ser dispensado do estado clerical. Deveria haver “tolerância zero” neste caso, e deveria ser estabelecido no Direito Canônico. Não deve haver exceção. É claro que o ato do abuso sexual deve ser provado e verificado por um verdadeiro processo canônico, mas quando é comprovado, ele deve ser demitido do estado clerical.

Essas duas normas (a não admissão categórica ao seminário, a não ordenação de homens com tendências homossexuais e a demissão do estado clerical), a meu ver, deveriam ter sido explicitamente mencionadas no Encontro, se é que era para se ter um impacto concreto. De outro modo, foi só um belo encontro, mais ou menos um espetáculo clerical com palavras e declarações sentimentais.

Um padre que abusou de menores deveria receber algum dinheiro da Igreja?

Acho que sim. Nós temos que ser misericordiosos e não devemos ser cruéis. Devemos sempre ser humanos e cristãos, e acho que a Igreja deveria, pelo menos temporariamente, dar a esses clérigos que são demitidos ajuda financeira – talvez nos primeiros dois anos.

Carta Aberta dos Cardeais Burke e Brandmüller

Antes da cúpula, o cardeal Raymond Burke e o cardeal Walter Brandmüller publicaram uma carta aberta convidando os bispos presentes ao Encontro a por um fim em seu silêncio sobre a corrupção moral na Igreja e a defender a lei divina e natural. Quanto você acha que a carta aberta foi ouvida e ouvida na reunião?

Eu acho que a carta dos dois cardeais foi meritória e muito oportuna, e a história a considerará como uma contribuição verdadeiramente positiva nesta crise muito delicada de abuso a nível universal na Igreja. Foi um belo testemunho e acredito que esta carta honrou o Colégio dos Cardeais. Mas acho que foi mais ouvida pelas pessoas simples do que pelos clérigos: novamente, clericalismo.

Alguns sugeriram que o Encontro do abuso sexual no Vaticano foi o maior exemplo de clericalismo.

Eles falharam em ouvir as vozes dos leigos. A voz dos leigos não foi ouvida suficientemente pelos clérigos. Isso não é clericalismo?

O que você acha que explica a recusa óbvia e repetida em abordar a questão da homossexualidade no Encontro? Alguns argumentaram que poderia ser devido a um desejo de proteger as redes homossexuais dentro da hierarquia. Outros sugeriram que os bispos têm medo de dizer algo negativo sobre a homossexualidade por medo de repercussões do Estado.

Eu acho que o primeiro argumento não tem peso considerável no contexto do Encontro. Existem grupos homossexuais, mas neste Encontro não foi decisivo, na minha opinião.

O segundo argumento que você mencionou tem algum peso, mas não foi decisivo. O medo da parte dos bispos de confrontar o mundo é um fator; o medo do mundo. Mesmo que eles possam ser pessoalmente contra a homossexualidade, eles temem um confronto com o mundo. Covardia clerical: novamente, clericalismo.

Mas a razão mais profunda, na minha opinião, é que há poderosos grupos entre bispos e cardeais que querem promover e mudar na Igreja a lei moral divina sobre o mal intrínseco dos atos homossexuais e do estilo de vida homossexual. Eles querem tornar a homossexualidade aceitável como uma variante legítima da vida sexual. Na minha opinião, esta é a razão mais profunda e talvez decisiva porque eles ficaram em silêncio e falharam em endereçar o problema. 

 

Sínodo Amazônico

Em outubro, um Sínodo sobre a Amazônia será realizado no Vaticano. Sua Excelência morou no Brasil por um tempo e está familiarizado com a região. Tem sido dito que há falta de padres na Amazônia, o que segundo alguns dizem, justificaria a introdução do viri probati. É verdade que existe uma crise sacramental e falta de padres?

Bem, há uma falta de padres na Amazônia, mas também há escassez em outros lugares. Há uma crescente escassez de padres na Europa. Mas a falta de padres é apenas um pretexto óbvio para abolir praticamente (não teoricamente) o celibato na Igreja latina. Este tem sido o objetivo desde Lutero. Entre os inimigos da Igreja e seitas, o primeiro passo é sempre abolir o celibato. O celibato sacerdotal é a última fortaleza a ser abolida na Igreja. A vida sacramental é apenas o pretexto para assim proceder. 

Em minha própria experiência na União Soviética, passamos vários anos sem a Santa Missa e sobrevivemos fortes na fé. A fé foi vivida na Igreja doméstica que é a família. A fé foi transmitida através do Catecismo. Nós orávamos. Fazíamos comunhões espirituais através das quais recebemos muitas graças. Quando de repente um padre veio depois de um ou dois anos, foi realmente uma festa, e nós ficamos tão felizes, conseguimos nos confessar sacramentalmente e Deus nos guiou. Então eu tive uma experiência pessoal disso em minha vida, na União Soviética.

Em relação ao Brasil: também morei e trabalhei no Brasil por 7 anos. E eu conheço os brasileiros. Eles são pessoas muito piedosas, pessoas simples. Eles nunca pensariam em clérigos casados. Não, esta é uma idéia posta em suas cabeças, não por povos indígenas, mas por pessoas brancas, por padres que não estão vivendo uma profunda vida apostólica e sacrificial. Sem a verdadeira vida sacrificial de um apóstolo, você não pode edificar a Igreja. Jesus Cristo nos deu o exemplo da oferta sacrificial de si mesmo, como fizeram os Apóstolos, os Padres da Igreja, os Santos, os Missionários. Isso construiu a Igreja com frutos espirituais duradouros para gerações inteiras.

A escassez de sacerdotes na Amazônia é para mim um exemplo do contrário: talvez os sacerdotes não tenham uma vida profundamente comprometida e sacrificial no espírito de Jesus e dos apóstolos e dos santos. Eles, portanto, procuram substitutos humanos. O clero indígena casado não levará a um aprofundamento e crescimento na Igreja Amazônica. Outros problemas certamente surgirão com o advento do clero casado na cultura indígena da Amazônia e em outras partes do mundo de Rito Latino.

O mais necessário é aprofundar as raízes da fé e fortalecer a igreja doméstica na Amazônia. Precisamos começar uma cruzada na Amazônia entre essas famílias indígenas, entre os cristãos católicos, pelas vocações – implorando a Deus pelas vocações para o sacerdócio celibatário, e elas virão.

Nosso Senhor disse para “orar”, então essa falta é um sinal de que não estamos orando o suficiente. E as pessoas estão sendo tentadas a rezar ainda menos por causa dos homens que estão enchendo suas cabeças com a promessa de que em outubro eles contemplarão a possibilidade de ter padres casados. Por isso, eles não mais rezarão para que seus filhos sejam sacerdotes como Jesus, que era celibatário. E Jesus é o modelo para todas as culturas.

Até um bom sacerdote celibatário indígena, um homem espiritual, poderia transformar tribos, como os santos o fizeram. São João Maria Vianney transformou quase toda a França. Padre Pio é outro exemplo. Eu não estou dizendo que devemos esperar este padrão de santidade, mas estou apresentando-os como exemplos da fecundidade sobrenatural que pode vir através de um sacerdote santo. Mesmo um homem espiritual simples e profundo que é dedicado a Jesus e às almas com seu celibato, um sacerdote indígena da Amazônia, certamente muito edificará a Igreja ali e despertará novas vocações pelo seu exemplo.

Este tem sido o método da Igreja desde o tempo dos apóstolos. E esse método foi testado e comprovado em 2000 anos de experiência missionária da Igreja. E isso será verdade até que Cristo venha. Não há outro caminho. Adaptar-se a abordagens puramente humanistas e naturalistas não enriquecerá a Igreja da Amazônia. Temos 2000 anos de história para provar isso.

Eu repito: o povo brasileiro está profundamente consciente da sacralidade do sacerdócio.Eis o que o Sínodo Amazônico deveria fazer: aprofundar a consciência da santidade do sacerdócio celibatário. A Igreja tem belos exemplos de missionários. Deve aprofundar e fortalecer a Igreja doméstica, ou seja, a vida familiar. E o sínodo deve iniciar com campanhas de adoração eucarística e de oração pelos sacerdotes e pelas novas vocações sacerdotais. Sem o sacrifício do amor, sem oração, não edificaremos uma Igreja local. Com o clero casado, não.

Não estou falando contra o clero casado nas Igrejas Ortodoxas ou nas Igrejas Católicas Orientais. Estou falando da tradição latina na América e na Europa. Nós temos que manter este tesouro sem enfraquecê-lo através da introdução de um clero casado, porque isso já foi provado por tantos frutos quando olhamos para ele de um ponto de vista abrangente.

Cardeais e a crise atual

Você acredita que é importante que os Cardeais falem sobre a crise na Igreja e, em caso afirmativo, de que forma você acredita que isso deve ser feito?

Sim, é muito oportuno e muito necessário porque a confusão só aumenta.

Penso que os cardeais deveriam abordar a questão do documento de Abu Dhabi e a frase sobre a diversidade das religiões, porque essa declaração leva, em última análise, a uma negação da verdade do caráter único e obrigatório da Fé em Cristo, que é ordenada pela Divina Revelação. Na minha opinião, a declaração de Abu Dhabi é a mais perigosa do ponto de vista doutrinário. Os cardeais devem pedir respeitosamente ao Santo Padre que corrija esta frase oficialmente.

Creio que seria também muito oportuno e necessário que os cardeais ou bispos emitissem uma espécie de profissão de fé, de verdades, ao mesmo tempo em que rejeitam os erros mais generalizados do nosso tempo. Na minha opinião, eles deveriam fazer uma profissão de verdades muito específica e enumerada, dizendo, por exemplo: “Eu mantenho firmemente isso…” seguido da refutação de um erro. Creio que tal profissão deve incluir todos os principais erros perigosos que estão se espalhando pela vida da Igreja em nossos dias.

Uma profissão reafirmando a fé, mas também refutando o erro?

Sim, na mesma sentença. Tal texto deve ser publicado e amplamente divulgado aos sacerdotes e bispos, talvez pedindo-lhes para fazer uma profissão pública com este texto nas paróquias e catedrais. Não haveria novidades. Afirmaria apenas o que a Igreja sempre professou.

18 fevereiro, 2019

O Dom da Adoção Filial – A Fé Cristã é a única religião válida e unicamente desejada por Deus.

Por Dom Athanasius Schneider | Tradução: FratresInUnum.com

“A verdade da filiação divina em Cristo, que é intrinsecamente sobrenatural, é a síntese de toda a revelação divina. A filial divina é sempre um dom gratuito da graça, o dom mais sublime de Deus para a humanidade. Este dom se obtém, todavia, somente através da fé pessoal em Cristo e a recepção do batismo, como ensinou o próprio Senhor.

Dom Athanasius Schneider, bispo auxiliar de Karaganda, Cazaquistão.

Dom Athanasius Schneider.

“Em verdade, em verdade vos digo: quem não nascer da água e do espírito, não pode entrar no Reino de Deus. Quem nasceu da carne é carne, quem nasceu do espírito é espírito. Não vos maravilheis de que eu tenha dito: deveis nascer do alto” (João 3, 5-7)

Nas últimas décadas, ouve-se frequentemente, inclusive da boca de alguns representantes da hierarquia da Igreja – declarações sobre a teoria dos “cristãos anônimos”. Ela afirma o seguinte: a missão da Igreja no mundo consistiria, em última instancia, em suscitar a consciência de que todos os homens devem ter em Cristo a sua salvação e, portanto, a sua filiação divina. Uma vez que, segundo a mesma teoria, cada ser humano já teria a filiação divina na profundeza de sua pessoa. No entanto, esta teoria contradiz diretamente a revelação divina, tal como Cristo a ensinou e como seus apóstolos e a Igreja transmitiram sempre, por dois mil anos, imutavelmente e sem sombra de dúvida.

Em seu ensaio “A Igreja dos Judeus e os Gentios” (“Die Kirche aus Juden und Heiden”), Erik Peterson, o famoso convertido e exegeta, há bastante tempo (em 1933) advertiu contra o perigo dessa teoría, ao afirmar que não pode reduzir o ser cristão (“Christsein”) à ordem natural, na qual os frutos da redenção realizada por Jesus Cristo seriam imputados genericamente a cada ser humano como uma espécie de herança, só porque eles compartilham a natureza humana com o Verbo Encarnado. Pelo contrario, a filiação divina não é um resultado automático, garantido através da pertença à raça humana.

Santo Atanásio (cf. Oratio contra Arianos [Discurso contra los Arrianos], II, 59) nos deixou uma simples e ao mesmo tempo precisa explicação da diferença entre o estado natural dos homens como criaturas de Deus e a glória de ser filhos de Deus em Cristo. Santo Atanásio desenvolve seu pensamento a partir das palabras do Santo Evangelho de São João, que diz:

“Mas a todos aqueles que o receberam, aos que creem no seu nome, deu-lhes o poder de se tornarem filhos de Deus, os quais não nasceram do sangue, nem da vontade da carne, nem da vontade do homem, mas sim de Deus.”(João 1, 12-13). São João usa a expressão “da vontade” para dizer que o homem se converte em filho de Deus não por natureza, mas por adoção. Este fato demonstra o amor de Deus, porque Aquele que é seu Criador se converte também em seu Pai. Isso ocorre, como diz o apóstolo, quando os homens recebem em seus corações o Espírito do Filho Encarnado, que clama neles “Abba, pai”. Santo Atanásio continua sua reflexão dizendo: como seres criados, os homens podem se converter em filhos de Deus exclusivamente através da fé e do batismo, recebendo o Espírito do verdadeiro e natural Filho de Deus. Precisamente por esta razão a Palavra se fez carne, para tornar os homens capazes da adoção filial e participação na natureza divina. Portanto, por natureza, Deus, estritamente falando, não é Pai dos seres humanos. Só aquele que aceita conscientemente a Cristo e é batizado, poderá clamar em verdade: “Abba, Pai” (Rom. 8, 15; Gal. 4, 6).

Desde o princípio da Igreja havia uma afirmação, como testemunha Tertuliano: “Nenhum cristão nasce, cristão se faz” (Apol., 18, 5).e São Cipriano de Cartago formulou esta verdade, dizendo: “Não pode ter a Deus por pai quem não tem a Igreja por mãe” (De Unit., 6).

A tarefa mais urgente da Igreja em nossos dias consiste em nos ocuparmos da mudança climática espiritual e do clima de migração espiritual, a saber, que é o clima de ausência de fé em Jesus Cristo e o clima de rejeição da realeza de Cristo, a fim de que se produza uma mudança para um clima de fé explícita em Jesus Cristo e a aceitação de Sua realeza, e que os homens possam migrar de sua miséria da escravidão espiritual da ausência de fé à felicidade de serem filhos de Deus, e migrar da vida em pecado para o estado de graça santificante. Estes são os migrantes com os quais devemos nos preocupar urgentemente.

O cristianismo é a única religião desejada por Deus. Portanto, o cristianismo nunca pode ser colocado de maneira complementar junto às outras religiões. Quem apoia-se na tese de que Deus desejaria a diversidade de religião, violaria a verdade da Revelação Divina, como afirmada de maneira inequívoca no primeiro mandamento do Decálogo. De acordo com a vontade de Cristo, a fé Nele e em seu ensinamento divino debe substituir a outras religiões, contudo, não pela força, mas pela persuasão amorosa, como expressa o hino de Louvor (Laudes) da 7 festa de Cristo Rei: “Non Ille regna cladibus, non vi metuque subdidit: alto levatus stipite, amore traxit omnia“(“Não pela espada, nem pela força e o temor que submete aos povos, mas exaltado na Cruz atrai amorosamente todas as coisas para Si”).

Só há um caminho para Deus, e é Jesus Cristo, pois Ele mesmo disse: “Eu sou o caminho” (João 14, 6). Só há uma verdade, e é Jesus Cristo, porque Ele mesmo disse: “Eu sou a verdade” (João 14, 6). Só há uma vida verdadeiramente sobrenatural, e é Jesus Cristo, porque Ele mesmo disse: “Eu sou a vida” (João 14, 6).

O Filho de Deus Encarnado ensinou que fora da Fé Nele não pode haver verdadeira religião que agrade a Deus: “Eu sou a porta: quem entre por mim, será salvo” (João 10, 9). Deus mandou a todos os homens, sem exceção, que escutassem a seu Filho: “Este é meu filho muito amado, ouvi-O” (Mc. 9, 7). Deus não disse: “Podeis escutar a meu Filho e outros fundadores das religiões, já que é minha vontade que haja religiões diferentes”.

Deus proibiu reconhecer a legitimidade da religião de outros deuses. “Não terás outros deuses além de mim” (Ex. 20, 3). Que comunhão pode haver entre luz e trevas? Que acordó entre Cristo e Baal, que colaboração entre crente e não crente? Que acordó entre o tempo de Deus e os ídolos? (2 Cor 6, 14-16).

Se as outras religiões correspondessem igualmente à vontade de Deus, não teria havido condenação divina da religião do bezerro de ouro no tempo de Moisés (cf. Ex 32, 4-20); então, os cristãos de hoje poderiam, sem punição, cultivar a religião de um novo bezerro de ouro, já que todas as religiões, segundo essa teoria, seriam igualmente agradáveis a Deus.

Deus deu aos apóstolos, e através deles à Igreja, para todos os tempos, a ordem solene de ensinar a todas as nações e aos seguidores de todas as religiões a única fé verdadeira, ensinando-lhes a observar todos os seus mandamentos divinos e a batizá-los. (cf. Mt 28, 19-20). Desde o começo da pregação dos Apóstolos e desde o primeiro Papa, o Apóstolos São Pedro, a Igreja sempre proclamou que em nenhum outro nome está a salvação, isto é, não há outra fé debaixo do céu na qual os homens possam ser salvos senão no Nome e na Fé de Jesus Cristo (cf. Hch 4, 12).

Nas palavras de Santo Agostinho, a Igreja ensinou em todo momento: “Só a religião cristã indica o caminho aberto a todos para a salvação da alma. Seme la, nada se salvará. Esta é a via regia, porque só ela conduz não a um reinado vacilante para a altura terrena, mas a um reino duradouro em toda a eternidade” (De Civitate Dei, 10, 32, 1).

As palavras seguintes do grande papa Leão XIII dão testemunho do mesmo ensinamento imutável do Magistério constante, quando afirma:

“O grande erro moderno do indiferentismo religioso e a igualdade de todos os cultos é o caminho oportuno para aniquilar a todas as religiões, e, em particular, a católica que, única verdadeira, não pode sem uma enorme injustiça ser colocada em pé de igualidade com as demais” (Encíclica Humanum Genus, no. 16)

Nos últimos tempos, o magistério apresentou substancialmente o mesmo ensinamento imutável no documento “Dominus Iesus” (6 de agosto de 2000), do qual citamos algumas afirmações relevantes:

“Nem sempre se tem presente essa distinção na reflexão hodierna, sendo frequente identificar a fé teologal, que é aceitação da verdade revelada por Deus Uno e Trino, com crença nas outras religiões, que é experiência religiosa ainda à procura da verdade absoluta e ainda carecida do assentimento a Deus que Se revela. Essa é uma das razões porque se tende reduzir, e por vezes até anular, as diferenças entre o cristianismo e as outras religiões”. (n. 7)

“Seriam, invés, contrárias à fé cristã e católica as propostas de solução que apresentam uma acção salvífica de Deus fora da única mediação de Cristo. “(n. 14)

“Não é raro que se proponha evitar na teologia termos como « unicidade », « universalidade », « absoluto », cujo uso daria a impressão de se dar uma ênfase excessiva ao significado e valor do evento salvífico de Jesus Cristo em relação às demais religiões. Ora, essa linguagem não faz mais que exprimir a fidelidade ao dado revelado” (n. 15)

“seria obviamente contrário à fé católica considerar a Igreja como um caminho de salvação ao lado dos constituídos pelas outras religiões, como se estes fossem complementares à Igreja, ou até substancialmente equivalentes à mesma, embora convergindo com ela para o Reino escatológico de Deus. “(n. 21)

“A verdade da fé exclui radicalmente essa mentalidade indiferentista ‘marcada por um relativismo religioso que conduz à crença de que “uma religião é o mesmo que a outra”. (João Paulo II, encíclica Redemptoris missio, 36)” (n. 22).

Os apóstolos e os inumeráveis mártires cristãos de todos os tempos, especialmente os dos primeiros três séculos, teriam evitado o martírio se tivessem dito: “A religião pagã e seu culto é uma maneira que também corresponde à vontade de Deus”. Não teria havido, por exemplo, uma França cristã, “filha primogênita da Igreja”, se São Remígio tivesse dito a Clovis, Rei dos Francos: “não deves abandonar tua religião pagã, podes praticar com tua religião pagã a religião de Cristo”. De fato, o santo bispo falou de modo diferente, embora de forma bastante abrupta: “Adora o que queimaste e queima o que adoraste”.

A verdadeira fraternidade universal só pode existir em Cristo, ou seja, entre os batizados. A glória plena da filiação divina só será alcançada na visão bem-aventurada de Deus no céu, como ensina a Sagrada Escritura.

“Considerai com que amor nos amou o Pai, para que sejamos chamados filhos de Deus. E nós o somos de fato. Por isso, o mundo não nos conhece, porque não o conheceu. 2.Caríssimos, desde agora somos fi­lhos de Deus, mas não se manifestou ainda o que havemos de ser. Sabemos que, quando isso se manifestar, sere­mos semelhantes a Deus, porquanto o veremos como ele é” (1 João 3, 1-2).

Nenhuma autoridade na terra – nem sequer a autoridade suprema da Igreja – tem o direito de dispensar qualquer seguidor de outra religião da fé explícita em Jesus Cristo, isto é, da fé no Filho de Deus encarnado e no único Redentor dos homens, afirmando-lhes que as diferentes religiões são, como tais, desejadas pelo próprio Deus. Indeléveis – porque escritas com o dedo de Deus e cristalina em seu significado – permaneçam, pelo contrário, as palavras do Filho de Deus: “Quem crê no Filho de Deus não está condenado, mas quem não crê já foi condenado, porque não acreditou no nome do Filho unigênito de Deus (João 3, 18).

Esta verdade foi válida até agora em todas as gerações cristãs e continuará sendo válida até o fim dos tempos, independentemente de se algumas pessoas na Igreja de nosso tempo tão instável, covarde, sensacionalista e conformista, reinterpretam esta verdade em um sentido contrario ao teor das palavras, apresentando assim esta reinterpretação como continuidade no desenvolvimento da doutrina.

Fora da fé cristã, nenhuma outra religião pode ser verdadeiro caminho desejado por Deus, porque esta é a vontade explícita de Deus, que todos os homens cream em seu Filho: “Esta é efetivamente a vontade de meu Pai: que quem veja o Filho e Nele creia tenha a Vida eterna” (João 6, 40).

Fora da fé cristã, nenhuma outra religião é capaz de transmitir a verdadeira vida sobrenatural: “Esta é a vida eterna, que Vos conheçam, único Deus verdadeiro, e a Vosso Enviado, Jesus Cristo” (João 17, 3).

8 de fevereiro de 2019

+ Athanasius Schneider, bispo auxiliar da Arquidiocese de Maria Santíssima em Astana – Cazaquistão.

28 agosto, 2018

Exclusivo – Reflexões de Dom Athanasius Schneider sobre o caso Viganò.

Agradecemos a Sua Excelência Reverendíssima Dom Athanasius Schneider por disponibilizar suas reflexões para publicação em português exclusiva de FratresInUnum.com

Reflexões sobre o “Testemunho” de Dom Carlo Maria Viganò, de 22 de Agosto de 2018 

Dom Athanasius Schneider, bispo auxiliar de Karaganda, Cazaquistão.

Dom Athanasius Schneider 

É um fato raro e extremamente grave, na história da Igreja, que um bispo acuse pública e especificamente o Papa reinante. Em um documento recentemente publicado (de 22 de Agosto de 2018), o Arcebispo Carlo Maria Viganò testemunha que, desde há cinco anos, o Papa Francisco possui conhecimento de dois fatos: que o Cardeal Theodor McCarrick cometeu violações sexuais contra seminaristas e contra seus subordinados, e que havia sanções, que o Papa Bento XVI lhe tinha imposto. Ademais, Dom Viganò confirmou sua declaração por meio de um juramento sacro invocando o nome de Deus. Não há, portanto, motivo razoável e plausível para duvidar da veracidade do conteúdo do documento do Arcebispo Carlo Maria Viganò.

Católicos por todo o mundo, simples fiéis, os “pequenos”, estão profundamente chocados e escandalizados com os graves casos recentemente divulgados, nos quais autoridades da Igreja acobertaram e protegeram clérigos que cometeram abusos sexuais contra menores e contra seus próprios subordinados. Tal situação histórica, que a Igreja vive em nossos dias, requer absoluta transparência em todos os níveis da hierarquia da Igreja, e, em primeiro lugar, evidentemente, do próprio Papa.

É completamente insuficiente e nada convincente que as autoridades da Igreja continuem a formular apelos genéricos de tolerância zero em casos de abusos sexuais por parte de clérigos e pelo término de acobertamento desses casos. Igualmente insuficientes são os apelos estereotipados de perdão em nome das autoridades da Igreja. Esses apelos por tolerância zero e pedidos de perdão se tornarão críveis somente se as autoridades da Cúria Romana lançarem as cartas à mesa, dando nome e sobrenome de todos aqueles na Cúria Romana – independentemente de seu posto e título – que acobertaram os casos de abusos sexuais de menores e de subordinados.

Do documento de Dom Viganò pode-se chegar às seguintes conclusões:

(1) Que a Santa Sé e o próprio Papa começarão a expurgar da Cúria Romana e do episcopado, sem compromissos,  as cliques e redes homossexuais. (2) Que o Papa proclamará de maneira inequívoca a doutrina Divina sobre o caráter gravemente pecaminoso dos atos homossexuais. (3) Que serão publicadas normas peremptórias e detalhadas, que impedirão a ordenação de homens com tendência homossexual. (4) Que o Papa restaurará a pureza e a inequivocidade de toda a doutrina Católica no ensinamento e na pregação. (5) Que será restaurada na Igreja, pelo ensinamento pontifício e episcopal e por normas práticas, a sempre válida ascese Cristã: os exercícios do jejum, da penitência corporal, da abnegação. (6) Que serão restaurados na Igreja o espírito e a praxe de reparação e expiação pelos pecados cometidos. (7) Que haverá na Igreja um processo seletivo, garantido seguramente, de candidatos ao episcopado, que sejam comprovadamente homens de Deus; e que seria melhor deixar as dioceses vários anos sem um bispo do que nomear um candidato que não fosse um verdadeiro homem de Deus na oração, na doutrina e na vida moral. (8) Que se iniciará na Igreja um movimento, especialmente entre cardeais, bispos e padres, de renúncia a qualquer compromisso e flerte com o mundo.

Não surpreenderia se, a oligarquia da mídia mainstream internacional, que promove a homossexualidade e a depravação moral, começasse a denegrir a pessoa do Arcebispo Viganò e deixasse o núcleo do assunto de seu documento cair no esquecimento.

Em meio à difusão da heresia de Lutero e à profunda crise moral de considerável parte do clero e, especialmente, da Cúria Romana, o papa Adriano VI escreveu as seguintes surpreendentes e francas palavras, dirigidas à Dieta Imperial de Nuremberg, em 1522: “Sabemos que, por algum tempo, muitas abominações, abusos em assuntos eclesiais, e violações de direitos ocorreram na Santa Sé; e que tudo foi corrompido para pior. A corrupção passou da cabeça para os membros, do Papa para os prelados: todos nós nos desviamos; não houve um que agisse bem, não, nem um”.

Firmeza e transparência em constatar e confessar os males na vida da Igreja ajudarão a iniciar um eficiente processo de purificação e renovação espiritual e moral. Antes de condenar os outros, todo detentor de cargo eclesiástico na Igreja, independentemente do cargo e título, deve se questionar, na presença de Deus, se ele mesmo acobertou, de alguma forma, abusos sexuais. Descobrindo-se culpado, deveria confessá-lo publicamente, pois a Palavra de Deus o admoesta: “Não te envergonhes de reconhecer tua culpa” (Ecl. 4:26). Pois, como São Pedro, o primeiro Papa, escreveu: “chegou o tempo do juízo, a começar pela Casa (Igreja) de Deus”. (1 Pedro 4:17)

+ Athanasius Schneider, Bispo Auxiliar da Arquidiocese de Maria Santíssima em Astana

14 maio, 2018

Exclusivo – Carta pastoral dos bispos do Cazaquistão por ocasião do 50º aniversário da encíclica Humanae Vitae.

Nosso especial agradecimento à sua Excelência Reverendíssima Dom Athanasius Schneider pela gentileza de traduzir o documento para português, para publicação em FratresInUnum.com.

Louvado seja Nosso Senhor Jesus Cristo! Queridos irmãos e irmãs em Cristo! O ano corrente está marcado pelo memorável evento do 50mo aniversário da encíclica Humanae vitae, com a qual o Beato Paulo VI confirmou a doutrina do Magistério constante da Igreja com respeito à transmissão da vida humana. Os Bispos e os Ordinários do Cazaquistão querem aproveitar esta ocasião propícia para honrar a memória e a importância perene desta encíclica.

Durante a última reunião de todos os nossos sacerdotes e Irmãs religiosas em Almaty foram feitos amplos debates sobre o tema da preparação dos jovens para o sacramento do matrimônio. Foi feita a proposta de transmitir aos jovens as verdades mais importantes do Magistério da Igreja em relação ao matrimônio cristão e à santidade da vida humana desde o momento da sua concepção.

Proclamamos com a voz do Magistério da Igreja como a podemos perceber na encíclica Humanae vitae e em outros documentos dos Pontífices Romanos as seguintes verdades exigentes do “jugo suave e do fardo leve” (Mt 11, 30) de Cristo:

  • “Chamando a atenção dos homens para a observância das normas da lei natural, interpretada pela sua doutrina constante, a Igreja ensina que qualquer ato matrimonial deve permanecer aberto à transmissão da vida” (Paulo VI, Encíclica Humanae vitae, 11).
  • “É de excluir de igual modo, como o Magistério da Igreja repetidamente declarou, a esterilização direta, quer perpétua quer temporária, tanto do homem como da mulher. É, ainda, de excluir toda a ação que, ou em previsão do ato conjugal, ou durante a sua realização, ou também durante o desenvolvimento das suas consequências naturais, se proponha, como fim ou como meio, tornar impossível a procriação. Não se podem invocar, como razões válidas, para a justificação dos atos conjugais tornados intencionalmente infecundos, o mal menor, ou o fato de que tais atos constituiriam um todo com os atos fecundos, que foram realizados ou que depois se sucederam, e que, portanto, compartilhariam da única e idêntica bondade moral dos mesmos. Na verdade, se é lícito, algumas vezes, tolerar o mal menor para evitar um mal maior, ou para promover um bem superior, nunca é lícito, nem sequer por razões gravíssimas, fazer o mal, para que daí provenha o bem; isto é, ter como objeto de um ato positivo da vontade aquilo que é intrinsecamente desordenado e, portanto, indigno da pessoa humana, mesmo se for praticado com intenção de salvaguardar ou promover bens individuais, familiares, ou sociais. É um erro, por conseguinte, pensar que um ato conjugal, tornado voluntariamente infecundo, e por isso intrinsecamente desonesto, possa ser coonestado pelo conjunto de uma vida conjugal fecunda” (Paulo VI, Encíclica Humanae Vitae, 14).
  • “Quando, portanto, mediante a contracepção, os esposos tiram à prática da sua sexualidade conjugal a potencial capacidade procriativa da mesma, arrogam-se um poder que pertence só a Deus: o poder de decidir em última istância a vinda à existência de uma pessoa humana. Arrogam-se o atributo de serem não os cooperadores do poder criador de Deus, mas os depositários últimos da nascente da vida humana. Nesta perspectiva, a contracepção deve ser considerada, objetivamente, tão profundamente ilícita que não pode nunca, por razão alguma, ser justificada. Pensar ou dizer o contrário, equivale a supor que na vida humana possam apresentar-se situações em que é lícito não reconhecer Deus como Deus” (João Paulo II, Discurso aos sacerdotes participantes num seminário de estudos sobre «A procreacão responsável», 17 de setembro de 1983).
  • “Muitos pensam que o ensino cristão, se bem que seja verdadeiro, não é viável, ao menos em determinadas circunstâncias. Como a Tradição da Igreja tem sempre ensinado, Deus não nos manda nada que seja impossível, mas cada mandamento implica a graça que ajuda a liberdade humana a cumpri-lo. A oração constante, o recurso frequente aos sacramentos e o exercício da castidade conjugal são necessários. […] Hoje mais que nunca, o homem está de novo começando a sentir a necessidade da verdade e da reta razão na sua experiência diária. Estejam sempre preparados para dizer sem equívocos, a verdade sobre o bem e o mal com respeito ao homem e à família” (João Paulo II, Discurso aos participantes na reunião de estudo sobre a procriação responsável, 5 de junho de 1987).
  • “A carta encíclica Humanae vitae constitui um significativo gesto de coragem ao reafirmar a continuidade da doutrina e da tradição da Igreja. […]  Este ensinamento não só manifesta a sua verdade inalterada, mas revela também a clarividência com a qual o problema é tratado. […] O que era verdade ontem, permanece verdadeiro também hoje. A verdade expressa na Humanae vitae não muda; aliás, precisamente à luz das novas descobertas científicas, o seu ensinamento torna-se mais atual e estimula reflectir sobre o valor intrínseco que possui” (Bento XVI, Discurso aos participantes num Congresso Internacional no 40mo aniversário da encíclica “Humanae vitae”, 10 de maio de 2008).
  • “A encíclica Humanae Vitae está inspirada na intocável doutrina bíblica e evangélica que convalida as normas da lei natural e os ditames insuprimíveis da consciência sobre o respeito da vida, cuja transmissão foi confiada à paternidade e à maternidade responsáveis. Aquele documento é hoje de nova e mais urgente atualidade por causa das feridas que as legislações públicas infligiram à santidade indissolúvel do vínculo matrimonial e à intocabilidade da vida humana desde o seio materno. […] Diante dos perigos que temos delineado e diante de dolorosas defecções de carácter eclesial ou social, sentimo-nos impulsados, como Pedro, a acudir a Ele como a única salvação e a gritar: “Senhor, a quem iremos? Vós tendes palavras de vida eterna” (Jo6, 68)” (Paulo VI, Homilia, 29 de junho de 1978).

Toda a história humana deu suficientes provas do fato que o verdadeiro progresso da sociedade depende em grande medida das famílias numerosas. Isso vale ainda mais para a vida da Igreja. O Papa Francisco lembra-nos esta verdade: “Dá consolação e esperança ver muitas famílias numerosas que acolhem os filhos como um autêntico dom de Deus. Eles sabem que cada filho é uma bênção” (Papa Francesco, Audiência geral, 21 de janeiro de 2015).

Que as seguintes palavras de são João Paulo II, o papa da família, sejam luz, fortaleza, consolação e alegre coragem para os casais casados católicos e para varões e mulheres jovens que se preparam para a vida do matrimónio e da família cristã.

  • “Temos uma particular confirmação de que o caminho de santidade percorrido em conjunto, como casal, é possível, é belo, é extraordinariamente fecundo e fundamental para o bem da família, da Igreja e da sociedade. Isto convida-nos a invocar o Senhor, para que sejam cada vez mais numerosos os casais capazes de fazer transparecer, na santidade da sua vida, o “grande mistério” do amor conjugal, que tem origem na criação e se realiza na união de Cristo com a Igreja (cf. Ef5, 22-33). Como qualquer caminho de santificação, também o vosso, queridos esposos, não é fácil. Sabemos quantas famílias são tentadas nestes casos pelo desencorajamento. Penso, sobretudo, em todos os que vivem o drama da separação; penso nos que devem enfrentar a doença e em quem sofre a desaparecimento prematuro do cônjuge ou de um filho. Também nestas situações se pode dar um grande testemunho de fidelidade no amor, tornado ainda mais significativo pela purificação através da passagem pelo crisol do sofrimento. Caríssimos esposos, nunca vos deixeis vencer pelo desalento: a graça do Sacramento ampara-vos e ajuda-vos a elevar continuamente os braços para o céu como Moisés, do que nos falou a primeira Leitura (cf. Êx 17, 11-12). A Igreja acompanha-vos e ajuda-vos com a sua oração, sobretudo nos momentos difíceis. Ao mesmo tempo, peço a todas as famílias que, por sua vez, amparem os braços da Igreja, para que nunca deixe de realizar a sua missão de interceder, confortar, orientar e encorajar” (João Paulo II, Homilia para a beatificação dos Servos de Deus Luigi Beltrame Quattrocchi y Maria Corsini, 21 de outubro de 2001).
  • “Que a Virgem Maria, Mãe da Igreja, seja também a Mãe da «Igreja doméstica» e, graças ao seu auxílio materno, cada família cristã possa tornar-se verdadeiramente uma «pequena Igreja», na qual se manifeste e reviva o mistério da Igreja de Cristo. Seja Ela, a Escrava do Senhor, o exemplo de acolhimento humilde e generoso da vontade de Deus; seja Ela, Mãe das Dores aos pés da Cruz, a confortar e a enxugar as lágrimas dos que sofrem pelas dificuldades das suas famílias. E Cristo Senhor, Rei do Universo, Rei das famílias, como em Caná, esteja presente em cada lar cristão a conceder-lhe luz, felicidade, serenidade, fortaleza” (João Paulo II, Exortação Apostólica Familiaris consortio,86).

Astana, 13 de Maio de 2018, Memória da Bem-Aventurada Virgem Maria de Fátima

Vossos Bispos e Ordinários:

+ José Luis Mumbiela Sierra, Bispo da diocese da Santíssima Trindade em Almaty e Presidente da Conferência dos Bispos Católicos de Cazaquistão

+ Tomash Peta, Arcebispo Metropolita da arquidiocese de Maria Santíssima em Astana

+ Adelio Dell’Oro, Bispo de Karaganda

+ Athanasius Schneider, Bispo Auxiliar da arquidiocese de Maria Santíssima em Astana

Sac. Dariusz Buras, Administrador Apostólico de Atyrau

Reverendíssimo Protopresbítero Mitrado Vasyl Hovera, Delegado da Congregação para as Igrejas Orientais para os fiéis greco-católicos de Cazaquistão e Ásia Central

 

15 abril, 2018

Foto da semana.

Milwaukee, EUA, 18 de fevereiro de 2018 – Dom Athanasius Schneider, bispo auxiliar de Santa Maria em Astana, Cazaquistão, pregou retiro quaresmal e celebrou Missa Pontifical para os fiéis do oratório de Saint Stanislau, do Instituto Cristo Rei e Sumo Sacerdote. À esquerda na foto (lado direito do bispo), vemos o padre brasileiro Heitor Matheus, ordenado em julho de 2016 pelo Cardeal Raymond Leo Burke.

5 janeiro, 2018

A calmaria antes da tempestade. O que Bergoglio está preparando para os três Bispos da “Correção Oficial”.  

Por Fra Cristoforo, Anonimi della Croce | Tradução: FratresInUnum.com – Já era de se imaginar. Todo esse silêncio por parte da mídia do Vaticano (e aqueles intimamente ligados a eles) sobre o tema da Correção Oficial, não prometia nada de bom. Na verdade, Bergoglio prepara seu contra-ataque.

Minha fonte no Vaticano me revelou que na noite passada Bergoglio permaneceu em Santa Marta com vários “assessores de imprensa” do Vaticano e vários “conselheiros” para uma reunião sobre como lidar com essa nova e “inesperada” correção por parte dos bispos de Astana. A fonte me disse que o Pontífice estava furioso. Ele teria surtado porque não tolera qualquer oposição. Eles o ouviram gritar: “Eles vão se arrepender! Eles vão se arrepender amargamente! “. Obviamente que ele se referia aos valentes Bispos que “ousaram” contrariar o neo-evangelho da nova Igreja: Amoris Laetitia.

Minha fonte conseguiu pegar uma notícia interessante, que torno pública para que os três bispos e os demais que se juntem a eles possam preparar sua defesa. Também faremos de modo que este “rascunho” possa ser divulgado às todas as partes interessadas como fizemos com nosso link de suporte.

Em suma, Bergoglio e seus acólitos estão preparando um “programa de contra-ataque”. Traduzido significa: Bergoglio não enfrentará frontalmente os Bispos “Correccionistas”, mas já deu carta-branca aos seus “oficiais de imprensa” oficiais e não-oficiais para iniciar uma “campanha mediática” visando denigrir os oponentes. Como sabemos, a comunicação do Vaticano está agora nas mãos dos Jesuítas. Operação clássica de regime ditatorial sul-americano. Para Bergoglio, portanto, é muito simples agora simplesmente liberar jornalistas.

Esta “campanha denegritória” servirá (na opinião deles) para “desacreditar” aqueles Bispos, publicando talvez algo do seu passado (verdadeiro ou não verdadeiro) ou construindo uma “notícia” fabricada, para fazê-los perder sua credibilidade.

Em suma, um pouco “como foi feito e é feito em regimes comunistas quando você quer “eliminar”um dissidente.

Nos próximos dias, certamente esses “assessores de imprensa” começarão a publicar algo. Talvez até Bergoglio certamente não deixará de emitir uma ou outra piadinha.

Temos o dever de defender e proteger esses bispos heróicos.

Um regime reina no Vaticano. Sabemos que as ações de controle de Bergoglio tornaram-se quase “obsessivas”. Correio, telefones celulares sob controle, pequenos espiões espalhados pelos dicastérios … no Vaticano agora são a ordem do dia.

Considere que agora a Santa Sé estabeleceu um aplicativo que todos os sacerdotes do mundo podem baixar, onde todas as semanas já existe um sermão pronto para o domingo. Sermão preparado pelos delegados de Bergoglio. Com os temas de Bergoglio. Com as palavras de Bergoglio. Hoje, o download deste aplicativo é opcional. Em alguns meses, será calorosamente sugerido. Em um ano “será imposto”. Porque todos os sacerdotes serão obrigados a repetir, todos os domingos, apenas e exclusivamente as palavras do Líder Máximo.

2 janeiro, 2018

Importante: Dom Athanasius Schneider e bispos do Cazaquistão lançam ‘Profissão sobre verdades imutáveis a respeito do sacramento do Matrimônio”.

[Atualização – 02/01/2018 às 19:19] Corrispondenza Romana acaba de anunciar que dois bispos italianos, Dom Luigi Negri e Dom Carlo Maria Viganò aderiram à iniciativa dos bispos do Cazaquistão.

Três bispos declaram leitura de Amoris Laetitia feita pelo Papa como “estranha” à Fé Católica.

LifeSiteNews, Roma, 2 de janeiro de 2018 | Tradução: FratresInUnum.com — Três bispos se pronunciaram contra a interpretação feita pelo Papa Francisco de Amoris Laetitia que permite o acesso de alguns divorciados recasados à Sagrada Comunhão, afirmando que tal leitura está causando “confusão desenfreada”, é “estranha” à Fé Católica, e disseminará uma “epidemia do divórcio” na Igreja.

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Dom Tomash Peta, Dom Jan Pawel Lenga e Dom Athanasius Schneider.

Dom Athanasius Schneider, bispo-auxiliar de Astana, Cazaquistão, Dom Tomash Peta, arcebispo metropolita de Astana, e Dom Jan Pawel Lenga de Karaganda, Cazaquistão, divulgaram uma Profissão de verdades imutáveis sobre o sacramento matrinonial em 31 de dezembro, como “um serviço de caridade na verdade” à Igreja de hoje e ao Papa.

Os bispos tomaram a decisão de realizar uma “pública e inequívoca profissão da verdade” a respeito do ensinamento da Igreja sobre a indissolubilidade do matrimônio, pois afirmam “não poderem permanecer em silêncio”.

Como bispos Católicos incumbidos de defender e promover a Fé Católica e a disciplina comum, afirmam ter uma “grave responsabilidade” e “dever perante os fiéis” que esperam deles “uma pública e inequívoca profissão da verdade e da imutável disciplina da Igreja acerca da indissolubilidade do matrimônio”.

Eles observam que após a publicação do documento do Papa Francisco sobre a família, Amoris Laetitia, diversos bispos e conferências episcopais divulgaram normas permitindo a alguns divorciados recasados civilmente, que não vivem em continência sexual, receber os sacramentos da Penitência e da Sagrada Comunhão. Eles enfatizam que essas várias autoridades hierárquicas (Alemanha, Malta e Buenos Aires, embora eles não as nominem) também receberam aprovação “até mesmo da suprema autoridade da Igreja”.

No mês passado, o Papa Francisco decidiu formalmente declarar a interpretação de Amoris Laetitia feita pelos bispos de Buenos Aires como “magistério autêntico”.

A disseminação dessas normas pastorais aprovadas eclesialmente “causaram uma considerável e sempre crescente confusão entre os fiéis e o clero” e são “meios de difusão da ‘epidemia do divórcio’ na Igreja”, escreveram os bispos do Cazaquistão.

“Nosso Senhor e Redentor Jesus Cristo solenemente reafirmou a vontade de Deus sobre a absoluta proibição do divórcio”, recordaram, e a Igreja sempre preservou e fielmente transmitiu tanto em sua doutrina como em sua disciplina sacramental “o ensinamento cristalino de Cristo” acerca da indissolubilidade do matrimônio”.

“Por conta da vital importância que a doutrina e a disciplina do matrimônio e da Eucaristia, a Igreja é obrigada a falar com a mesma voz. As normas pastorais a respeito da indissolubilidade do matrimônio não podem, portanto, ser contraditórias entre uma diocese e outra, entre um país e outro”.

“Desde os tempos dos Apóstolos”, explicam os bispos, “a Igreja observou este princípio, como testemunha Santo Irineu de Lion”:

“A Igreja, embora espalhada pelo mundo até os confins da terra, tendo recebido a Fé dos Apostólos e seus discípulos, preserva esta pregação e esta Fé com cuidado e, como Ela habita uma única casa, crê da mesma e idêntica maneira, como tendo uma só alma e um só coração, e prega a verdade da Fé, ensina-a e transmite-a em uma voz uníssona, como se tivesse uma só boca” (Adversus haereses, I, 10, 2).

Após, eles recordam a advertência do Papa João Paulo II de que a confusão semeada nas consciências dos fiéis por diferentes “opiniões e ensinamentos” enfraqueceria o “verdadeiro sentido de pecado, quase a ponto de eliminá-lo”.

O Papa João Paulo II erigiu a diocese de Santa Maria em Astana, Cazaquistão, em 1999, e a elevou à arquidiocese em 17 de maio de 2003, nomeando o bispo polonês Tomash Peta como seu arcebispo. No Sínodo Ordinário sobre a Família em 2015, Dom Peta, que participou como delegado do Cazaquistão, iniciou sua breve intervenção com as palavras do Beato Paulo VI pronunciadas em 1972: “Por alguma fresta, a fumaça de Satanás penetrou no templo de Deus”.

Ele, então, afirmou aos Padres Sinodais que estavam reunidos: “Estou convencido de que estas foram palavras proféticas de um santo Papa, o autor de Humanae Vitae, Durante o Sínodo do ano passado [2014], a ‘fumaça de Satanás’ estava tentando adentrar na aula Paulo VI [local em que ocorriam as sessões do Sínodo]”. O arcebispo acrescentou: “Infelizmente, pode-se ainda sentir o cheiro desta ‘fumaça infernal’ em alguns pontos do Instrumentum Laboris e também em algumas intervenções de certos padres sinodais neste ano”. [Leia a intervenção aqui.]

Na Profissão, Dom Athanasius Schneider, juntamente com os arcebispos Peta e Lenga, reiteram aos fiéis sete verdades imutáveis sobre o sacramento do matrinônio, e, “no espírito de São João Batista, São João Fisher, São Tomás Morus, da Beata Laura Vicuña e de numerosos confessores e mártires, conhecidos ou não, da indissolubilidade do matrimônio”, afirmam:

Não é licito (non licet) justificar, aprovar, legitimar, direta ou indiretamente, o divórcio e a relação sexual estável não conjugal, através da disciplina sacramental da admissão dos assim chamados ‘divorciados e recasados’ à Sagrada Comunhão, neste caso, uma disciplina estranha à toda a Tradição da Fé Católica e Apostólica.

Leia a íntegra da Profissão de verdades imutáveis sobre o matrimônio sacramental aqui.

23 setembro, 2017

Entrevista a D. Athanasius Schneider: “Não temos nada a perder quando dizemos a verdade”.

Publicamos em seguida a tradução de Senza Pagare da entrevista concedida por D. Athanasius Schneider, bispo-auxiliar de Astana (Cazaquistão), a Maike Hickson, do blog OnePeterFive

Maike Hickson (MH): Assinou, juntamente com o Professor Josef Seifert (entre muitos outros), a Declaração de Fidelidade confirmando o ensinamento tradicional da Igreja relativamente ao casamento. O Professor Seifert foi agora removido pelo seu arcebispo espanhol da sua Cátedra Dietrich von Hildebrand na Academia Internacional de Filosofia em Granada, Espanha – com a explícita referência adversa à sua crítica acerca de certas afirmações contidas na Amoris Laetitia. Podemos pedir a sua resposta a esta medida tão punitiva, que foi justificada com o argumento de que o Professor Seifert estava a enfraquecer a unidade da Igreja Católica e a confundir os fiéis?

Dom Athanasius em entrevista a Fratres in Unum.

Fevereiro de 2015 – Dom Schneider concede entrevista a Fratres in Unum em São Paulo.

Bispo Athanasius Schneider (BAS): O Professor Josef Seifert fez um acto urgente e muito meritoso ao formular publicamente e respeitosamente questões críticas acerca de certas afirmações evidentemente ambíguas no documento papal Amoris Laetitia, visto que estas afirmações estão a causar uma anarquia moral e disciplinar na vida da Igreja, uma anarquia que está à vista de todos e que ninguém que use a razão e tenha verdadeira fé e honestidade pode negar.

A medida punitiva contra o Professor Seifert da parte de um detentor de um posto eclesiástico é não somente injusta, mas representa ultimamente um desvio da verdade, uma recusa a um debate objectivo e a um diálogo, enquanto ao mesmo tempo a cultura do diálogo é proclamada como de maior prioridade na vida da Igreja dos nossos dias. Tal comportamento clerical contra um verdadeiro intelectual católico, como é o Professor Seifert, faz-me lembrar as palavras com que São Basílio Magno descreveu uma situação análoga no séc. IV, quando clérigos arianos invadiram e ocuparam a maioria das posições episcopais: “Apenas uma ofensa é agora vigorosamente punida – uma observância correcta das tradições dos nossos pais. Por esta causa os devotos são levados dos seus países e transportados para desertos. As pessoas religiosas mantêm silêncio, mas todas as línguas blasfemas são deixadas à solta” (Ep. 243)

MH: Quando falamos acerca da unidade da Igreja: qual é a base da unidade? Temos de sacrificar todo o debate racional e prudente acerca de matéria de Fé e Doutrina – se se estiverem a elevar ensinamentos diferentes e incomensuráveis – com o intuito de não causar possíveis fendas dentro da Igreja?

BAS: A base da autêntica unidade da Igreja é a verdade. A Igreja é na sua natureza “a coluna e o firmamento da verdade” (1Tim 3, 15). Este princípio é válido desde os tempos dos Apóstolos e é um critério objectivo para esta unidade: significa a “verdade do Evangelho” (cf. Gal. 2: 5.14). O Papa João Paulo II disse: “Mais do que unidade no amor, a unidade na verdade é sempre urgente para nós” (dirigido à Terceira Conferência Geral do Episcopado Latino-Americano, Puebla, 28 de janeiro de 1979). Santo Ireneu ensinou: “A Igreja acredita nas verdades da Fé tal como se tivesse apenas uma só alma, e um só coração, e ela proclama-as, ensina-as, e entrega-as, em perfeita harmonia, como se possuísse uma só boca” (Adv. haer., I, 10, 2).

No começo da Igreja, Deus mostrou-nos a obrigação de defender a verdade, quando se encontra em perigo de ser deformada por parte de quaisquer membros da Igreja, mesmo que seja proclamado da parte do Supremo Pastor da Igreja, como foi o caso com São Pedro em Antioquia (cf. Gal 2, 14). Este princípio de correcção fraterna no interior da Igreja foi válido em todos os tempos, mesmo direccionado ao Papa, e por isso deve ser válido no nosso tempo também. Infelizmente, quem quer que se atreva a dizer a verdade nos nossos dias – mesmo quando o faz com respeito para com os Pastores da Igreja – é classificado como um inimigo da unidade, tal como também sucedeu com São Paulo; pois, ele afirmou: “Tornei-me logo vosso inimigo porque vos disse a verdade” (Gal 4, 16).

MH: Muitos prelados permaneceram agora, no passado recente, em silêncio devido ao medo de causar um cisma na Igreja por fazer publicamente questões ou levantar objecções ao Papa Francisco em relação aos seus ensinamentos acerca do casamento. O que lhes diria acerca da sua escolha pelo silêncio? 

BAS: Primeiro que tudo, devemos ter em mente, que o Papa é o primeiro servo da Igreja (servus servorum). Ele é o primeiro a ter de obedecer de modo exemplar a todas as verdades do Magistério inalterável e constante, porque ele é apenas um administrador, e não um possuidor, das verdades católicas, que recebeu de todos os seus predecessores. O Papa nunca se deve ele próprio comportar em relação às verdades e disciplina constantemente transmitidas referindo-as como fosse um monarca absoluto, dizendo “Eu sou a Igreja” (analogamente ao Rei francês Luís XIV: “L’état c’est moi”). O Papa Bento XVI formulou este ponto aptamente: “O Papa não é um soberano absoluto, cujo pensar e querer são leis. Ao contrário: o ministério do Papa é garantia da obediência a Cristo e à Sua Palavra. Ele não deve proclamar as próprias ideias, mas vincular-se constantemente a si e à Igreja à obediência à Palavra de Deus, tanto perante todas as tentativas de adaptação e de adulteração, como diante de qualquer oportunismo.” (Homilia de 7 de Maio de 2005).

Os bispos não são trabalhadores do Papa, mas divinamente constituídos colegas do Papa, apesar de juridicamente subordinados a ele, mas mesmo assim colegas e irmãos. Quando o Papa tolera ele próprio uma ampla disseminação de erros óbvios de fé e de graves abusos dos sacramentos (como a admissão de adúlteros não arrependidos aos sacramentos), os bispos não se devem comportar como empregados servis embrulhando-se no silêncio. Tal atitude demonstraria indiferença em relação à grave responsabilidade do ministério Petrino e contradiria a própria natureza colegial do episcopado e o amor autenticado pelo Sucessor de Pedro. Devemo-nos lembrar das palavras de Santo Hilário de Poitiers, proferidas no tempo da confusão doutrinal geral do século IV: “Hoje, sob o pretexto de uma piedade que é falsa, sob a aparência enganadora de um ensinamento do Evangelho, algumas pessoas estão a tentar negar o Senhor Jesus. Eu digo a verdade, para que a causa da confusão que estamos a sofrer possa ser conhecida por todos. Não posso permanecer silencioso” (Contra Auxentium, 1, 4).

MH: Voltemos à crítica bem-educada do Professor Seifert à Amoris Laetitia. No seu novo artigo de Agosto de 2017, ele levanta a questão de se afirmar que por vezes casais divorciados e “recasados” devem ter de manter relações sexuais para o bem dos filhos desse novo laço não levar na realidade à conclusão de que já não existem absolutos morais; ou seja, que um pecado mortal pode, em certas situações, já não ser pecaminoso aos olhos de Deus. O Professor Seifert vê esta lógica como uma potencial “bomba atómica moral” que levará ao relativismo moral. Concordaria com ele neste aspeto? 

BAS: Estou completamente de acordo com o Professor Seifert neste ponto, e recomendo vivamente que outros também leiam o seu artigo magistral, intitulado “Does Pure Logic Threaten to Destroy the Entire Moral Doctrine of the Catholic Church?” (Será que a Lógica Pura Ameaça Destruir a Doutrina Moral Inteira da Igreja Católica?). No seu livro “Athanasius and the Church of Our Days” (Atanásio e a Igreja dos Nossos Dias), o Bispo Rudolf Graber de Regensburg escreveu em 1973: “O que aconteceu há 1600 anos atrás está a repetir-se hoje, mas com duas ou três diferenças: Alexandria é hoje a Igreja Universal, cuja estabilidade está a ser abalada, e o que estava em questão nessa altura por meios de força física e crueldade está agora a passar para um nível diferente. Exílio é substituído por expulsão para o silêncio de ser ignorado, matando por assassinato de carácter.” Esta descrição também se aplica ao actual caso do Professor Seifert.

MH: Tendo crescido num país de regime totalitário, quais são as suas próprias considerações acerca da liberdade académica em Espanha, quando um professor internacionalmente reconhecido pode ser removido das suas posições académicas meramente por ter levantado questões, questões educadas, sobre um documento papal e por ter apontado os possíveis perigos de algumas das suas afirmações? 

BAS: Durante décadas tornou-se politicamente correcto e “de bom tom” proclamar e promover praticamente a liberdade de discurso, debate e pesquisa, teológico, na Igreja, tanto que a liberdade de pensamento e de expressão se tornaram um slogan. Em simultâneo, pode agora observar-se o paradoxo desta mesma liberdade ser negada àqueles pertencentes à Igreja que nos nossos dias levantam a voz com respeito e educação na defesa da verdade. Esta situação bizarra lembra-me uma célebre canção que eu tinha de cantar na escola comunista na minha infância, e que dizia: “A União Soviética é a minha pátria amada, e não conheço outro país no mundo onde o homem pode respirar tão livremente.”

MH: Pode dizer-nos algumas palavras que o Cardeal Carlo Caffarra lhe tenha dirigido pessoalmente em relação à actual crise da Igreja, palavras dele que possam constituir, em parte, uma espécie de legado?

BAS: Falei apenas duas vezes com o Cardeal Caffarra. Até mesmo esses encontros e conversas curtas com o Cardeal Caffarra deixaram em mim algumas impressões profundas. Vi nele um verdadeiro homem de Deus, um homem de fé, de visão sobrenatural. Notei nele um amor profundo pela verdade. Quando falei com ele acerca da necessidade dos bispos erguerem a sua voz em relação ao ataque contra a indissolubilidade do matrimónio e a santidade dos laços sacramentais do matrimónio, ele disse: “Quando nós bispos fazemos isto, não devemos temer ninguém nem nada, pois não temos nada a perder.” Uma vez disse a uma senhora católica dos Estados Unidos, com uma fé profunda e grande inteligência, a frase utilizada pelo Cardeal Caffarra, nomeadamente que nós bispos não temos nada a perder quando dizemos a verdade. Em resposta ela disse estas palavras inesquecíveis: “Perderão tudo quando não fizerem isso.”

 

MH: Considera justificável que outros cardeais – tais como o Cardeal Christoph Schönborn ou o Cardeal Óscar Rodríguez Maradiaga – tenham censurado os quatro cardeais por terem publicado os dubia?

BAS: A formulação e publicação dos dubia por parte dos quatro cardeais foi altamente meritória e, de certa forma, também um acto histórico, honrando verdadeiramente o Colégio Sagrado dos Cardeais. Na presente situação, a indissolubilidade e a santidade do matrimónio sacramental estão a ser enfraquecidas e, na prática, negadas através da admissão normativa de adúlteros impenitentes aos sacramentos, banalizando e profanando assim também os sacramentos do Matrimónio, Confissão, e da Eucaristia. Em última instância está em causa a validade dos Divinos Mandamentos e toda a lei moral, tal como o Professor Seifert correctamente afirmou no seu artigo acima mencionado, e pelo qual foi severamente punido.

Podemos comparar esta situação a um navio num mar turbulento, no qual o capitão ignora os perigos óbvios, enquanto a maioria dos seus oficiais se envolvem em silêncio, dizendo: “Tudo está bem no navio a afundar.” Quando perante tal situação, uma pequena parte dos oficiais do navio levantam a voz pela segurança de todos os passageiros, são grotesca assim como injustamente criticados pelos seus colegas, como amotinadores ou como desmancha-prazeres. Mesmo que o capitão julgue as vozes dos poucos oficiais perturbadoras no momento, ele irá reconhecer agradecidamente a sua ajuda posteriormente, quando tiver de confrontar o perigo, olhando-o nos olhos, e quando estiver diante do Divino Juiz. Também ficarão agradecidos, tanto os passageiros como a História, quando o perigo tiver passado. O acto corajoso e os nomes daqueles poucos oficiais serão lembrados como verdadeiramente altruístas e heroicos; mas certamente não aqueles oficiais, que por ignorância, ou por oportunismo, ou por servilismo, se envolveram em silêncio ou até absurdamente criticaram aqueles que tomaram medidas de salvação naquele navio a afundar. De certa forma, isto corresponde à actual situação ao redor dos dubia dos quatro cardeais.

Temos de nos relembrar do que Santo Basílio observou durante a crise Ariana: “Os homens com autoridade têm medo de falar, pois os que alcançaram o poder através de interesses humanos são os escravos daqueles a quem devem a sua subida. E agora a própria defesa da ortodoxia é olhada em alguns lugares como uma oportunidade para o ataque mútuo; e homens escondem a sua própria vontade doente e fingem que a sua hostilidade é toda para o bem da verdade. Entretanto os não-crentes riem; homens de pouca fé vacilam; a fé é incerta; almas são submersas na ignorância, porque os adulteradores da palavra imitam a verdade. Os melhores dos leigos evitam as igrejas como escolas de impiedade e levantam as mãos nos desertos com suspiros e lágrimas ao Senhor no céu. A fé dos Padres da Igreja que recebemos; essa fé que sabemos ter o selo com as marcas dos Apóstolos; para aquela fé à qual assentimos, bem como para tudo o que no passado foi canonicamente e legalmente promulgado”. (Ep. 92,2)

MH: Agora que restam apenas dois cardeais dos dubia – depois da morte do Cardeal Carlo Caffarra e do Cardeal Joachim Meisner – quais são as suas próprias esperanças em relação a outros cardeais que possam agora surgir para colmatar este vazio? 

BAS: Espero e desejo que mais cardeais, à semelhança dos oficiais daquele navio num mar turbulento juntem agora as suas vozes às vozes dos quatro cardeais, independentemente de louvor ou culpa.

MH: Em geral, o que é que os católicos – leigos ou clérigos – fazem agora se estiverem a ser pressionados para aceitar alguns aspectos controversos da Amoris Leatitia, por exemplo em relação aos divorciados “recasados” e à possível permissão do acesso aos Sacramentos? E em relação àqueles padres que se recusam a distribuir a Sagrada Comunhão a esses casais “recasados”? E em relação aos professores católicos leigos que estão a ser ameaçados com o afastamento das suas posições de ensino devido ao seu criticismo, patente ou latente, face à Amoris Leatitia? O que é que podemos todos fazer quando confrontados, na nossa consciência, com as alternativas de trair os ensinamentos de Nosso Senhor, ou seguir em firme desobediência aos nossos superiores? 

BAS: Quando padres ou leigos se mantém fiéis ao imutável e constante ensinamento e prática de toda a Igreja estão em comunhão com todos os papas, bispos ortodoxos e Santos de dois mil anos, estando em especial comunhão com São João Baptista, São Thomas More, São John Fisher e com os inumeráveis esposos abandonados que se mantiveram fiéis aos seus votos, aceitando a vida de continência de maneira a não ofender Deus. A voz constante no mesmo sentido e significado (eodem sensu eademque sentencia) e a respectiva prática de dois mil anos é mais poderosa e segura do que a voz discordante e a prática de admitir adúlteros impenitentes à Sagrada Comunhão, mesmo que esta prática seja promovida por um único Papa ou bispos diocesanos. Neste caso temos de seguir o ensinamento constante e prática da Igreja, pois aqui entra a verdadeira tradição, a “democracia dos mortos”, o que significa a voz maioritária daqueles que nos precederam.

Santo Agostinho respondeu à errada e não tradicional prática Donatista de re-baptizar e de re-ordenar, afirmando que a constante e imutável prática da Igreja desde o tempo dos Apóstolos corresponde ao juízo seguro do mundo inteiro: “O mundo inteiro julga acertadamente”, i.e., “Securus judicat orbis terrarum” (Contra Parmenianum III, 24). O que significa que toda a tradição Católica julga seguramente e com certeza contra a prática fabricada e de curta-duração que, num ponto importante, contradiz todo o Magistério de todos os tempos. Esses padres, que seriam agora forçados pelos seus superiores a distribuir a Sagrada Comunhão a públicos e impenitentes adúlteros, ou a outros conhecidos e públicos pecadores, devem responder com uma santa convicção: “O nosso comportamento é o comportamento de todo o mundo Católico ao longo de dois mil anos”: “O mundo inteiro julga acertadamente”, “Securus judicat orbis terrarum”!

O Beato John Henry Newman disse na Apologia pro sua vita: “O juízo intencional, em que toda a Igreja repousa e concorda, é uma prescrição infalível e uma sentença final contra uma novidade temporal.” Neste nosso contexto histórico esses padres e fiéis devem dizer aos seus superiores eclesiásticos, e bispos, tal como devem dizer com caridade e respeitosamente ao Papa o que São Paulo uma vez disse: “Porque, nada podemos contra a verdade, senão pela verdade. Porque nos alegramos de ser fracos, enquanto vós sois fortes. E ainda rogamos pela vossa perfeição.” (2Cor 13, 8-9)

23 julho, 2017

A interpretação do Concílio Vaticano II e a sua relação com a crise atual da Igreja.

Agradecemos a Sua Excelência Reverendissima, Dom Athanasius Schneider, o envio de seu artigo já em português para publicação exclusiva no Brasil em FratresInUnum.com.

A situação atual da inaudita crise da Igreja é comparável com aquela geral no século IV, onde o arianismo contaminou a esmagadora maioria do episcopado e foi reinante na vida da Igreja. Devemos procurar ver esta situação atual, por um lado, com realismo e, por outro, com o espírito sobrenatural, com um profundo amor para com a Igreja, que é nossa mãe, e que está sofrendo a paixão de Cristo por meio dessa tremenda e geral confusão doutrinal, litúrgica e pastoral.

Devemos renovar a nossa Fé de que a Igreja está nas mãos seguras de Cristo e que Ele sempre intervirá para renová-la nos momentos em que a barca da Igreja parece naufragar, como é o caso óbvio em nossos dias.
Quanto à atitude diante do Concílio Vaticano II, devemos evitar os dois extremos: uma rejeição completa (como o fazem os sedevacantistas e uma parte da FSSPX) ou uma “infalibilização” de tudo o que o Concílio falou.

O Concílio Vaticano II foi uma legítima assembleia presidida pelos Papas e devemos manter para com este concílio uma atitude de respeito. Contudo, isso não significa que não podemos exprimir dúvidas bem argumentadas e respeitosas propostas de melhoria, apoiando-se na Tradição integral da Igreja e no Magistério constante.

Pronunciamentos doutrinais tradicionais e constantes do Magistério durante um plurissecular período têm a precedência e constituem um critério de verificação acerca da exatidão de pronunciamentos magisteriais posteriores. Os pronunciamentos novos do Magistério devem, em si, ser mais exatos e mais claros, nunca, porém, ambíguos e aparentemente contrastantes com anteriores pronunciamentos constantes magisteriais.

Aqueles pronunciamentos do Vaticano II que são ambíguos devem ser lidos e interpretados segundo os pronunciamentos da inteira Tradição e do Magistério constante da Igreja.

Na dúvida, os pronunciamentos do Magistério constante (os concílios anteriores e os documentos de Papas, cujo conteúdo demonstrava ser uma tradição segura e repetida durante séculos no mesmo sentido) prevalecem sobre aqueles pronunciamentos objetivamente ambíguos ou novos do Concílio Vaticano II, os quais, objetivamente, dificilmente concordam com específicos pronunciamentos do Magistério anterior e constante (por exemplo, o dever do Estado de venerar publicamente Cristo, Rei de todas as sociedades humanas; o verdadeiro sentido da colegialidade episcopal frente ao primado petrino e ao governo universal da Igreja; a nocividade de todas as religiões não-católicas e o perigo que elas constituem para a salvação eternas das almas).

O Vaticano II deve ser visto e aceito tal como ele quis ser e como realmente foi: um concílio primeiramente pastoral, isto é, um concílio que não teve a intenção de propor doutrinas novas ou propô-las numa forma definitiva. Na maioria dos seus pronunciamentos, o Concílio confirmou a doutrina tradicional e constante da Igreja.

Alguns dos novos pronunciamentos do Vaticano II (por exemplo, colegialidade, liberdade religiosa, diálogo ecuménico e inter-religioso, atitude para com o mundo) não são definitivos e por eles, aparentemente ou em realidade, não concordarem com os pronunciamentos tradicionais e constantes do Magistério, devem ser ainda completados com explicações mais exatas e com suplementos mais precisos de caráter doutrinal. Uma aplicação cega do princípio da “hermenêutica da continuidade” também não ajuda, pois se criam com isso interpretações forçadas, que não convencem e que não ajudam para chegar ao conhecimento mais claro das verdades imutáveis da Fé Católica e da sua aplicação concreta.

Houve casos na história onde expressões não definitivas de alguns concílios foram, mais tarde, graças a um debate teológico sereno, precisadas ou tacitamente corrigidas (por exemplo, os pronunciamentos do Concílio de Florença acerca da matéria do sacramento da ordenação, isto é, que a matéria fosse a entrega dos instrumentos, mas a tradição mais segura e constante dizia que era suficiente a imposição das mãos do bispo, o que Pio XII em 1947 confirmou). Se depois do concílio de Florença os teólogos tivessem aplicado cegamente o princípio da “hermenêutica da continuidade” a este pronunciamento específico do concílio de Florença (um pronunciamento objetivamente errôneo), defendendo a tese que a entrega dos instrumentos como matéria do sacramento da ordem fosse uma expressão do Magistério constante da Igreja, provavelmente não se teria chegado ao consenso geral dos teólogos sobre a verdade que diz que somente a imposição das mãos do bispo constituiria propriamente a matéria do sacramento da ordem.

Deve-se criar na Igreja um clima sereno de discussão doutrinal acerca daqueles pronunciamentos do Vaticano II que são ambíguos ou que criaram interpretações errôneas. Não há nada de escandaloso nisso, pelo contrário, será uma contribuiçao para guardar e explicar na maneira mais segura e integral o depósito da Fé imutável da Igreja.

Não se deve destacar demais um determinado concílio, absolutizando-o ou equiparando-o de fato, à Palavra de Deus oral (Tradição Sagrada) ou escrita (Sagrada Escritura). O Vaticano II mesmo disse, justamente (cf. Dei Verbum, 10), que o Magistério (Papas, Concílios, magistério ordinário e universal) não estão acima da Palavra de Deus, mas sob ela, submisso a ela, e somente ministro dela (da Palavra de Deus oral = Sagrada Tradição e da Palavra de Deus escrita = Sagrada Escritura).

Do ponto de vista objetivo, os pronunciamentos do Magistério (Papas e concílios) de caráter definitivo têm mais valor e mais peso frente aos pronunciamentos de caráter pastoral, os quais são, por natureza, mutáveis e temporários, dependentes de circunstâncias históricas ou respondendo às situações pastorais de um determinado tempo, como é o caso da maior parte dos pronunciamentos do Vaticano II.

O próprio contributo valioso e original do Concílio Vaticano II consiste no chamado universal de todos os membros da Igreja à santidade (cap. 5 da Lumen gentium), na doutrina sobre o papel central de Nossa Senhora na vida da Igreja (cap. 8 da Lumen gentium), na importância dos fiéis leigos em conservarem, defenderem e promoverem a Fé Católica e que eles devem evangelizar e santificar as realidades temporárias segundo o perene sentido da Igreja (cap. 4 da Lumen gentium), no primado da adoração de Deus na vida da Igreja e na celebração da liturgia (Sacrosanctum Concilium, nn. 2; 5-10). O resto se podia até um certo ponto considerar secundário, temporário e talvez no futuro mesmo esquecível, como foi o caso com os pronunciamentos não definitivos, pastorais e disciplinais de diversos concílios ecumênicos no passado.

Os quatro assuntos seguintes: Nossa Senhora, santificação da vida pessoal, defesa da Fé com a santificação do mundo segundo o espírito perene da Igreja e o primado da adoração de Deus são os tópicos mais urgentes a serem vividos e aplicados hoje em dia. Nisso, o Vaticano II tem um papel profético, o que, infelizmente, não está ainda realizado de modo satisfatório. Em vez de viver e de aplicar estes quatro aspectos, uma considerável parte da “nomenklatura” teológica e administrativa na vida da Igreja, há meio século, promoveu e está ainda promovendo assuntos doutrinários, pastorais e litúrgicos ambíguos, deturpando, assim, a intenção originária do Concílio ou abusando dos seus pronunciamentos doutrinários menos claros ou ambíguos a fim de criar uma outra Igreja de tipo relativista ou protestante. Estamos vivenciando o auge desse desenvolvimento em nossos dias.

O problema da atual crise da Igreja consiste, em parte, no fato de que se infalibizaram aqueles pronunciamentos do Vaticano II que são objetivamente ambíguos, ou aqueles poucos pronunciamentos dificilmente concordantes com a tradição magisterial constante da Igreja. Dessa forma, impediu-se um sadio debate e uma necessária correção, implícita ou tácita, dando, ao mesmo tempo, o incentivo para criar afirmações teológicas contrastantes com a tradição perene (por exemplo, no que diz respeito à nova teoria de um assim chamado duplo sujeito ordinário supremo do governo da Igreja, ou seja, o Papa sozinho e todo o colégio episcopal junto com o Papa; ou a doutrina da assim chamada neutralidade do Estado frente ao culto público que ele deve prestar ao Deus verdadeiro, que é Jesus Cristo, Rei também de cada sociedade humana e política; a relativização da verdade que a Igreja Católica é o único caminho da salvação querido e ordenado por Deus).

Devemos nos libertar das algemas da absolutização e da infalibilização total do Vaticano II e pedir que haja um clima de debate sereno e respeitoso, por amor sincero à Igreja e à sua Fé imutável.

Uma indicação positiva nesse sentido podemos ver no fato de que, em 2 de agosto 2012, o Papa Bento XVI escreveu um prefácio ao volume relativo ao Concílio Vaticano II na edição da sua Opera omnia. Neste prefácio, Bento XVI exprime suas reservas quanto a um conteúdo específico dos documentos Gaudium et spes e Nostra aetate. Do teor dessas palavras de Bento XVI se vê que alguns defeitos pontuais em algumas passagens do Vaticano II não são remediáveis pela “hermenêutica da continuidade”.

Uma Fraternidade Sacerdotal de São Pio X canônica e plenamente integrada na vida da Igreja poderia também dar um válido contributo nesse debate, como também o desejou o Arcebispo Marcel Lefebvre. A presença plenamente canônica da FSSPX na vida da Igreja de hoje poderia também ajudar a criar um tal clima geral de um debate construtivo na Igreja, para que aquilo que foi crido sempre, em toda a parte e por todos os católicos durante dois mil anos, seja crido mais clara e de modo mais seguro também em nossos dias, realizando, assim, a verdadeira intenção pastoral dos Padres do Concílio Vaticano II.

A autêntica intenção pastoral visa a salvação eterna das almas, a qual se dá somente pelo anúncio de toda a vontade Divina (cf. At 20, 7). Uma ambiguidade na doutrina da fé e na sua aplicação concreta (na liturgia e na pastoral) ameaçaria a salvação eterna das almas e seria, por conseguinte, anti-pastoral, já que o anúncio da clareza e da integridade da Fé Católica e da sua fiel aplicação concreta é vontade explícita de Deus. Somente a obediência perfeita a esta vontade de Deus que, por Cristo, o Verbo Encarnado, e pelos Apóstolos nos revelou a verdadeira Fé, a Fé interpretada e praticada constantemente no mesmo sentido pelo Magistério da Igreja, traz a salvação das almas.

+ Dom Athanasius Schneider,

Bispo auxiliar da arquidiocese de Maria Santíssima em Astana, Cazaquistão

13 junho, 2017

Em memória de Padre Ingo Dollinger, por Dom Athanasius Schneider.

Padre Ingo Dollinger: um digníssimo formador de seminaristas e sacerdotes brasileiros em tempos obscuros e difíceis. Colaboração exclusiva de Dom Athanasius Schneider a FratresInUnum.com.

Na solenidade da Santíssima Trindade, em 11 de junho de 2017, o Reverendíssimo Padre Ingo Dollinger deixou esta terra após uma longa vida, da qual sessenta e três anos como sacerdote. Foi uma vida plena de abundantes frutos espirituais e de grandes méritos para a verdadeira renovação da vida da Igreja, dada a profunda e extraordinária crise pela qual ela está passando já há mais de cinquenta anos.

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À direita na imagem, padre Dollinger em cerimônia de ordenação sacerdotal conferida por Dom Manoel Pestana Filho.

O reverendíssimo Padre Dollinger foi, sobretudo, um mestre e pai sacerdotal para numerosos seminaristas e jovens sacerdotes na Europa e, principalmente, no Brasil. A esse nobre sacerdote pertence o duradouro mérito de ter contribuído no modo decisivo junto com Dom Manoel Pestana, o então santo bispo de Anápolis, e a Ordem dos Cônegos Regulares da Santa Cruz, para que no Brasil fosse criado um centro de formação sacerdotal de segura doutrina filosófica e teológica e de uma espiritualidade sacerdotal autenticamente católica. Isso se realizou em Anápolis graças à existência do Seminário Diocesano do Imaculado Coração de Maria, fundado por Dom Manoel Pestana e dirigido muitos anos pelo Padre Dollinger, e também graças ao Institutum Sapientiae, pertencente à Ordem dos Cônegos Regulares da Santa Cruz, no qual Padre Dollinger desempenhou por longo tempo a função de professor e de Reitor. Eu tive o privilégio de ter tido por muitos anos Padre Dollinger como meu professor em Anápolis. Suas aulas teológicas e seus conselhos espirituais me marcaram profundamente, o que guardarei sempre com gratidão.

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Ordenação sacerdotal no seminário de Anápolis, Goiás.

Na sua altamente meritória obra sacerdotal, o nosso saudoso Padre Dollinger se consumiu em favor da Igreja num dos tempos mais difíceis dos anos 80 do século passado, quando a vida da Igreja no Brasil era dominada pelo quase monopólio da assim chamada “teologia da libertação”.

Queira Deus que as sementes espirituais lançadas ao solo da Terra da Santa Cruz pelo grande labor apostólico do Padre Dollinger, tragam muitos frutos duradouros na vida e no apostolado daqueles seminaristas e sacerdotes que tiveram nele seu mestre e pai espiritual. Isso contribuiria para maior alegria à alma plenamente sacerdotal do nosso querido e saudoso Padre Ingo Dollinger, pelo qual nós rezamos com gratidão e ao qual pedimos que implore para os nossos dias muitos santos seminaristas, muitos santos sacerdotes e, sobretudo, muitos santos formadores sacerdotais com zelo ardente pela glória de Deus e de Sua casa, que é a Igreja.

13 de junho de 2017,

+ Dom Athanasius Schneider, Bispo Auxiliar da arquidiocese de Maria Santíssima em Astana, Cazaquistão